Geomorfologia da Serra da Arrábida
Geomorfologia da Serra da Arrábida
net/publication/274456464
CITATIONS READS
4 1,559
3 authors:
Mario Neves
University of Lisbon
68 PUBLICATIONS 322 CITATIONS
SEE PROFILE
All content following this page was uploaded by José Luís Zêzere on 05 February 2016.
Mário Neves
Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa
Universidade de Lisboa, Lisboa, CEP: 1600- 214, Portugal
Email: [email protected]
Abstract:
This work is intended as a contribution to the knowledge of the geomorphology of the Arrábida Chain by using
geomorphological and geomorphometric techniques. Given the morphotectonic context, we focus specifically on
the interference of tectonic processes in relief evolution. The Arrábida Chain results from the interaction of tectonic
and erosional processes acting since middle Miocene until present days. Vertical movements of the crust and sea
level variations mainly controlled landscape evolution, with the drainage systems actively maintaining the dynamic
equilibrium between endogenous and exogenous processes. This is expressed by the presence of perched erosional
surfaces, indicating of a polycyclic evolution of the mountain chain throughout the plio-Quaternary. Superimposed
to these regional processes, the vertical offset along NNE- SSW to NE -SW trending faults show a progressive
increase in deformation from west to east, affecting both the northern and Southern flanks of the Chain.
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 138
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
Regnauld (1994), Regnauld et al. (1995) e Pereira et gamentos vergentes para sul. As estruturas enrugadas
al. (2007). encontram-se enraizadas num descolamento basal ao
Nas palavras de Orlando Ribeiro, “poucas regiões nível do contacto entre as unidades da bacia sedimentar
haverá onde o acordo entre as deslocações tectónicas e mesocenozóica, materializado pelo complexo evapo-
as formas actuais do relevo seja tão sensível” (RIBEIRO, rítico do Hetangiano (margas da Dagorda), e o soco
1936). Esta noção é expressa na totalidade dos trabalhos paleozóico (KULLBERG et al., 2000).
realizados na cadeia da Arrábida e Península de Setúbal, Neste contexto, encontram-se formações sedi-
onde a tectónica alpina surge de modo evidente, mentares do Jurássico ao Miocénico, filões eruptivos e
revelando marcas de atividade Quaternária. Neste depósitos discordantes de idade plio-quaternária (Figura
contexto, justifica-se a realização de uma cartografia de 1). A sedimentação mesozóica evoluiu inicialmente
conjunto das formas de relevo, integrando as principais em regime distensivo, segundo uma orientação W-E,
etapas de evolução e identificando os principais agentes desde o Triásico ao Cretácico superior, em resposta
morfogenéticos envolvidos. Numa publicação recente às primeiras fases de rifting do oceano Atlântico. No
(FONSECA et al., 2013), é apresentado um mapa Cenozóico é instaurado um regime compressivo deri-
geomorfológico de média escala resultando da análise vado da colisão entre as placas Africana e Euroasiática,
de fotografias aéreas, geomorfometria e levantamentos levando à formação de dobras e cavalgamentos a partir
de campo. da reativação inversa de falhas normais, ativas durante
O presente trabalho pretende contribuir para o o Mesozóico (RIBEIRO et al., 1990).
conhecimento da geomorfologia da cadeia da Arrábida O sector ocidental da Arrábida é o menos invertido
através da análise geomorfométrica do relevo. Dado o de toda a cadeia, destacando-se a estrutura monoclinal
contexto morfotectónico, será dada particular atenção à do Cabo de Espichel, flanco norte de uma dobra com
interferência da tectónica na evolução do relevo. Uma eixo no mar (1ª linha de deslocamento de Choffat, 1908)
versão simplificada do trabalho publicado por Fonseca e as estruturas diapíricas da Cova da Mijona e Sesimbra
et al. (2014) é aqui apresentado de forma a facilitar a (KULLBERG et al., 2000). A oriente, a estrutura é mais
leitura interpretativa do relevo. O texto que se segue complexa, caracterizando-se por um conjunto de dobras
justifica e complementa a informação contida no mapa com eixo WSW-ENE a E-W, associadas a rampas de
geomorfológico. cavalgamentos imbricados de direcção ENE-WSW ver-
gentes para S, conectadas por rampas laterais esquerdas
oblíquas aos cavalgamentos de direção NNE-SSW a
2. Quadro Geológico
N-S (KULLBERG et al., 2000; KULLBERG et al.,
A Arrábida é uma cadeia orogénica Alpina de pe- 2006). Destacam-se, neste sector, os anticlinais do
quena dimensão, localizada na extremidade meridional Formosinho e do Viso - 2ª linha de deslocamento - e de
da Orla Mesocenozóica Ocidental. É caracterizada por S. Luís - 3ª linha de deslocamento - (CHOFFAT, 1908).
uma estrutura enrugada e complexa, desenvolvendo-se A série sedimentar mesozóica tem início com as
ao longo de aproximadamente 35 km segundo a orienta- margas do complexo evaporítico da Dagorda (Triási-
ção WSW-ENE, desde o Cabo de Espichel até Setúbal co superior – Hetangiano), sendo a transição para as
(Figuras 1 e 2). Sob um ponto de vista estrutural, é unidades sobrejacentes marcada por uma alternância
limitada a norte pelo sinclinal de Albufeira, a este pela de rochas eruptivas de natureza oolítica, de tufos
falha de Setúbal-Pinhal Novo, a oeste por uma falha vulcânicos argilosos e pelitos com gesso e dolomitos
de orientação NW-SE ao largo do Cabo de Espichel (MANUPPELLA et al., 1999). A unidade sedimentar
(BOILLOT et al., 1978) e a sul, segundo Ribeiro et da Dagorda desempenhou um papel fundamental na
al. (1990) e Kullberg et al. (2000), pelo cavalgamento evolução da estrutura da cadeia da Arrábida, e em par-
da Arrábida, situado no mar e sub-paralelo à estrutura ticular do diapiro de Sesimbra, favorecendo o descola-
emersa (Figuras 1 e 2). No interior do compartimento mento e rutura da cobertura meso-cenozóica ao longo
limitado pelas estruturas anteriormente referidas, des- do cavalgamento da Arrábida entre o final do Cretácico
taca-se um conjunto de dobras de direção ENE-WSW, e o Paleogénico e no decorrer da inversão tectónica
cortadas por desligamentos de direção NNW-SSE a miocénica (RIBEIRO et al., 1990).
NNE-SSW, formadas por empilhamentos de caval-
139 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
Figura 1 - Mapa geológico simplificado da cadeia da Arrábida, adaptado de Manupella et al. (1999) e Kullberg et al. (2000).
Figura 2 - Cortes geológicos simplificados. Adaptado de Kullberg et al., (2000). P) Pliocénico; M) Miocénico; ᴓ)Paleogénico; C) Cretácico;
Js) Jurássico superior; Jmi) Jurássico médio-inferior; Ji) Jurássico inferior.
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 140
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
O Jurássico inferior a médio é dominado por Lagoa de Albufeira, a uma paleotopografia de relevo
rochas carbonatadas (dolomitos, calcários dolomíti- pronunciado, preenchida por depósitos cascalhentos
cos, margas dolomíticas), depositadas em ambiente - a Série inferior do Alfeite (CABRAL et al., 1984;
marinho pouco profundo, alternando com intercalações CABRAL, 1993). A discordância sedimentar poderá
margosas, argilosas e de calcário lacustre, referentes a ter origem tectónica, em resposta ao segundo impulso
breves etapas de aprofundamento da bacia. Para o topo tectónico da cadeia da Arrábida (8M.a.), ou eustática, na
da sequência jurássica, as variações laterais de fácies sequência da maior inflexão negativa da curva eustática
são bastante acentuadas, traduzindo-se no afloramento durante o Tortoniano inferior (MANUPPELLA et al.,
de bancadas de calcário compacto de cor clara com 1999). A norte da serra de S. Francisco, Azevedo (1982)
intercalações margosas entre o sector ocidental da Ri- refere a presença de depósitos grosseiros (Formação de
beira da Pateira e o Cabo de Espichel e de sedimentos Cabanas), resultantes de descargas torrenciais a partir do
argilo-arenosos, conglomeráticos e gresosos, pouco anticlinal de S. Luís para o interior da Península de Se-
consolidados, ao longo dos vales das ribeiras de Coina, túbal. De acordo com Manupella et al. (1999), esta série
Ajuda, Alcube e Corva (MANUPPELLA et al., 1999). conglomerática poderá ser correlativa da série inferior
Estas observações sugerem que o território hoje ocupado do Alfeite, assumindo assim uma idade fini-Miocénica.
pela cadeia da Arrábida seria, no decorrer do Jurássico A série sedimentar pliocénica, constituindo uma
superior, caracterizado por um ambiente de sedimen- unidade sintectónica da deformação e enchimento alu-
tação de transição marinho-litoral. vial do Sinclinal de Albufeira, apresenta-se como uma
A tendência de subsidência prolonga-se pelo Cre- megasequência com características extremamente va-
tácico com a sedimentação de calcários, margas e grés. riáveis que impossibilitam a definição de uma sequência
A entrada na era cenozóica é assinalada pelo rejuvenes- estratigráfica precisa (AZEVEDO, 1982). De acordo
cimento do relevo em resposta ao início da compressão com Manuppella et al. (1999), a base da formação é
Alpina e pela deposição de conglomerados calcários e caracterizada por conglomerados pouco espessos, se-
arenitos grosseiros de idade paleogénica, seguido por guindo-se areias finas a grosseiras com estratificação
calcários com nódulos e rizoconcreções com sinais entrecruzada, com cor variável desde o branco, ao
evidentes de pedogénese (MANUPPELLA et al., 1999). amarelo e vermelho. No seio das areias ocorrem blocos
A presença de litofácies grosseiras de natureza calcária de arenito cretácico e nódulos de sílex.
nos sedimentos paleogénicos implica já uma exposição Na cartografia geológica de Zbyszewski et al.
sub-aérea, ainda que parcial, da ossatura calcária jurás- (1965), Azevedo (1982) e Manuppella et al. (1999), os
sica, anteriormente à inversão tectónica do Miocénico. depósitos pliocénicos estendem-se de norte para sul até
Durante o Miocénico, a península de Setúbal é ao rebordo setentrional da Cadeia da Arrábida, sendo
invadida pelas águas do Atlântico, resultando na for- inclusivamente identificadas algumas manchas no in-
mação de calcários, calcários margosos e gresosos que terior do maciço, ao longo dos vales centro-orientais,
constituem os relevos em estrutura monoclinal ao longo assentando em discordância sobre o Paleogénico e o
do limite norte da Serra (Pré-Arrábida) e que marcam Jurássico superior, a uma altitude média de 116 metros
a transição entre a unidade meso-cenozóica e os se- (max. 154m; min. 74m). No entanto, de acordo com
dimentos plio-quaternários do Sinclinal de Albufeira. Alcoforado (1981) e Azevedo (1982), a sua distribuição
A sedimentação miocénica termina com os depósitos é muito superior, cobrindo retalhos aplanados em torno
continentais do Conglomerado de Guarda Mor de idade dos 100 metros de altitude a sul da serra de S. Luís.
Tortoniana e com os depósitos marinhos da Ribeira da Estas observações levam a supor que o limite sul
Laje, de idade incerta entre o Tortoniano e o Messiniano do pré-Tejo ter-se-á estendido mais para sul, cobrindo
(MANUPPELLA et al., 1999). parcialmente o sector setentrional da Arrábida. No
Sobre o Miocénico assenta a série detrítica arenosa entanto, residem diversos problemas quanto à idade
grosseira atribuída ao Pliocénico inferior, depositada em absoluta e proveniência dos sedimentos aí encontrados.
regime de subsidência pelo organismo fluvial do pré – Segundo Alcoforado (1981) e Azevedo (1982), algumas
Tejo (AZEVEDO, 1982). O contacto entre as formações das manchas ditas pliocénicas, sobretudo aquelas situa-
miocénicas e pliocénicas é efetuado por uma superfície das ao longo dos flancos da ribeira da Ajuda e a sul do S.
de desconformidade nítida, correspondendo, a sul da Luís, são caracterizadas por depósitos arenosos e pouco
141 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 142
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
pequena escala do mapa final (≈1:100,000), optou-se menor altitude, estabelecendo ligação entre fundos de
pela não inclusão de informação referente à litologia vale, sendo representativa do grau de encaixe da rede
na medida em que dificultaria a leitura do mapa e não de drenagem. Foi igualmente calculada a diferença
resultaria num contributo relevante face ao trabalho entre a altitude máxima e mínima, de forma a analisar
publicado por Manupella et al. (1999). A informação a amplitude altimétrica do relevo e avaliar a variação
referente à tectónica foi extraída de Manupella et al. espacial do grau de entalhe a partir da degradação da
(1999), de Kullberg et al. (2000) e da análise de foto- superfície de altitude máxima. A análise dos valores
grafias aéreas. obtidos permite inferir o comportamento da topogra-
As técnicas de geomorfometria foram utilizadas fia ao longo de perfis transversais e examinar o papel
com o objectivo de complementar a informação já pu- das estruturas tectónicas previamente identificadas na
blicada, validar algumas das observações efectuadas no deformação da superfície topográfica herdada e actual.
decorrer da foto-interpretação e compreender em que A cadeia da Arrábida é limitada a norte por uma
medida as deformações tectónicas quaternárias interfe- cintura de relevos em estrutura monoclinal, estabelecen-
riram na evolução do relevo da cadeia da Arrábida. O do a fronteira entre o domínio tectónico de levantamento
estudo baseou-se na extração e análise de dados com da Arrábida e o domínio de subsidência do Sinclinal de
recurso a software SIG a partir de um modelo digital Albufeira. Ao longo da sua extensão W-E, estes rele-
do terreno (MDT) com pixel de 10m, criado com base vos são dissecados pela rede de drenagem proveniente
na informação topográfica digital referente à cartografia dos sectores mais elevados da Serra segundo a direção
militar na escala de 1:25,000. SSE-NNW a S-N. Dado o contexto geomorfológico,
A interferência da tectónica foi avaliada, em pri- pareceu-nos relevante analisar estatisticamente a re-
meira linha, a partir da análise da altitude máxima calcu- lação entre as seguintes variáveis morfométricas, que
lada através de estatística de vizinhança numa matriz de se relacionam com o encaixe da rede hidrográfica, de
100x100 pixels (1km2) e do mapa de nível de base (Base modo a compreender de que modo se processa a sua
Level Map) criado a partir da interpolação de valores variação espacial (Figura 3): (i) área de drenagem a
de altitude atribuídos aos segmentos de drenagem. Os montante dos sectores entalhados; (ii) relevo da área
mapas de altitude máxima permitem avaliar, de forma de drenagem a montante dos sectores entalhados; (iii)
aproximada, a topografia pré-degradação, sem a inter- comprimento máximo de drenagem; (iv) amplitude de
ferência de valores mínimos resultantes da sua erosão. entalhe do relevo monoclinal.
O mapa de nível de base corresponde à superfície de
Figura 3 - Esquema de caracterização dos parâmetros morfométricos utilizados na análise do grau de entalhe da cintura de relevos em
estrutura monoclinal.
143 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
Uma das principais dificuldades do presente traba- graus, não classificado), isolando vertentes de declive
lho prende-se com a comparação dos dados existentes igual ou inferior a 2 graus de acordo com a metodologia
acerca da evolução do relevo nos sectores oriental e oci- proposta por Calvet e Gunnell (2008). Ao mapa obtido
dental da Arrábida, nomeadamente no que se refere aos foi aplicada uma máscara eliminando os sectores de
diferentes níveis de aplanamento identificados por Da- fundo de vale plano, sendo posteriormente reclassificado
veau e Azevedo (1981) e Alcoforado (1981). Foi assim de acordo com uma função booleana (Declive = 1, ? =
necessário procurar compreender se o escalonamento 0), permitindo assim o cruzamento com o MDT clas-
altitudinal dos diferentes níveis descritos na bibliografia sificado de 10 em 10 metros. A análise de histogramas
seria comparável, sobretudo para o sector central do de frequência (Figura 4) possibilitou compreender de
maciço para o qual não existem dados. A utilização do que modo se processa o escalonamento altitudinal das
modelo digital do terreno permitiu a extração automá- formas de relevo aplanadas e isolar situações anómalas
tica dos diferentes níveis aplanados, recorrendo a uma resultantes da sua deformação.
função condicional aplicada ao mapa de declives (em
Figura 4 - Histogramas de frequência de vertentes com declive inferior ou igual a 2 graus por classe de altitude (10 metros) e relação com
os níveis de aplanamento identificados no mapa geomorfológico para 4 áreas amostra (1pixel = 100m2; áreas amostra correspondem a
quadrículas de 5x5km).
Com o intuito de compreender em que medida IA - Índice de Assimetria de bacia (KELLER e PINTER,
o controlo estrutural se materializa na morfologia 2002); IV) RER - Rácio de Elevação-Relevo (PIKE and
recorreu-se a parâmetros morfométricos utilizados na WILSON, 1971); V) D - Declive médio. Estes foram
análise de bacias hidrográficas (Figura 5): I) Curva aplicados a 14 bacias hidrográficas geradas automa-
hipsométrica (STRAHLER, 1952); II) ICA - Índice de ticamente a partir do modelo digital do terreno. Não
Comprimento – Área (CHRISTOFOLETTI, 1980); III) foram selecionadas bacias no troço compreendido entre
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 144
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
o Cabo de Espichel e a ribeira da Ajuda (nº11) por se vos estruturais e falhas identificadas na carta geológica
enquadrarem no contexto da vertente costeira. O limite 1:50,000 (MANUPPELLA et al., 1999) (Figura 5B).
jusante das bacias estudadas é o mar para as bacias 1 a Para alguns dos índices calculados (ex. ICA e IA)
6 e 11 a 14 e a Lagoa de Albufeira para as bacias 7 a 9. foi necessária a identificação do canal de drenagem
Por uma questão de escala de análise colocou-se o limite principal, tendo este sido definido como o segmento de
jusante da bacia nº 10 (Rib. de Coina) no alinhamento drenagem mais longo e, simultaneamente, com maior
das bacias 7 a 9, correspondente à posição aproximada grau de entalhe (em teoria, o mais antigo e/ou ativo).
do eixo do Sinclinal de Albufeira (Figura 5A). A extração do segmento de drenagem mais longo (DL)
A rede de drenagem foi gerada automaticamente a resultou de um processo automático. Já o grau de en-
partir do MDT, utilizando um limiar de acumulação de talhe (Ge) envolveu a hierarquização prévia da rede de
fluxo (D8 FlowAccumulation model) de 250 pixels, por drenagem segundo o método de Strahler e a extração
resultar (por comparação visual) numa maior proximidade automática das cumeadas laterais para segmentos de
ao padrão de drenagem representado na carta topográfica ordem superior ou igual a 2. Os segmentos de drenagem
na escala de 1:25,000. O controlo estrutural foi analisa- e os segmentos resultantes da operação anterior foram
do a partir da comparação de diagramas de orientação convertidos para um mapa de pontos (1 ponto por cada
calculados para os segmentos de drenagem, para os rele- segmento, localizado na secção intermédia de cada ve-
Figura 5 - Morfoestrutura e morfometria das bacias hidrográficas. A) Limite das 14 bacias analisadas. O traço branco (largo) identifica as
principais linhas divisórias de água; o traço a branco (fino) identifica o posicionamento do canal de drenagem principal, utilizado no cálculo
dos parâmetros morfométricos. B) Diagramas de orientação de falhas, relevos estruturais e rede de drenagem. Seta a preto identifica a direção
de desenvolvimento de cada bacia. C) Curvas hipsométricas normalizadas (Bacias cataclinais de 1 a 10; Bacias ortoclinais de 11 a 14). D)
Relação entre parâmetros morfométricos. ICA – Índice de Comprimento-Área (Christofoletti, 1980) (Cb=Comprimento máximo da bacia;
A=Área da bacia); IA – Índice de Assimetria (Amd = Área da margem direita); RER – Rácio de Elevação-Relevo; D – Declive médio (%).
145 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
tor) sendo atribuído o mesmo identificador (ID) a cada do equilíbrio dinâmico entre processos endógenos e
sequência de 3 pontos em posição transversal ao canal exógenos. Esta relação está expressa no escalonamento
de drenagem. Foram extraídos os valores de altitude altitudinal de formas erosivas aplanadas e suspensas
para cada ponto e calculadas as diferenças entre os va- sobre a rede de drenagem atual, evidenciando uma evo-
lores mais elevados, correspondentes à cumeada lateral lução policíclica do relevo controlada pelo levantamento
e os valores mais baixos correspondentes ao talvegue. da Serra da Arrábida, pela subsidência do Sinclinal de
O valor final foi atribuído ao ponto central (talvegue) Albufeira e pelas oscilações do nível do mar no decorrer
e, posteriormente, ao respetivo segmento de drenagem. do período plio-quaternário.
Este procedimento permitiu confirmar se o resultado da Em traços gerais, é possível compartimentar o
operação automática para a extração de DL favorecia relevo da cadeia da Arrábida em três unidades morfo-
o critério previamente definido. Os desvios (DL≠Ge) lógicas, em função de uma fronteira altimétrica situada
apenas ocorreram no sector oriental (bacias 1 a 3), em entre os 190 e os 220 metros de altitude: acima dos 220
virtude da menor hierarquização da rede de drenagem. metros encontram-se os relevos positivos das Serras
A última fase do processo de cartografia consistiu do Formosinho e S. Luís (Figura 6A) e os relevos do
na elaboração do mapa final, procurando expressar os Cabo de Ares e Píncaro; entre os 190 e os 220 metros
resultados obtidos no decorrer da foto-interpretação e desenvolve-se uma superfície de abrasão marinha,
análise geomorfométrica do relevo. A legenda utilizada genericamente denominada de Nível da Plataforma do
está organizada segundo grupos morfogenéticos e a sim- Cabo (Figura 6B); abaixo dos 190 metros encontra-se
bologia adoptada, embora em monocromático, segue, a cintura de relevos em estrutura monoclinal, os vales
em parte, o trabalhos de Tricart (1972) e Pellegrini et centro-orientais e a depressão periférica, a depressão de
al. (1993). Os diferentes níveis de informação vetori- Sesimbra e as rechãs litorais. Esta subdivisão altimé-
zados em ambiente SIG foram exportados em formato trica está intrinsecamente ligada, como se verá, com a
Dxf (Drawing Exchange Format), importados para um cronologia evolutiva do relevo, sendo por esse motivo
software de design gráfico e transformados de acordo aqui adotada.
com a legenda adoptada. Devido ao grau de pormenor
do levantamento efetuado com base nas fotografias
4.1. As Serras do Formosinho e de S. Luís
aéreas, foi necessária a generalização cartográfica de
alguns aspetos do relevo, nomeadamente no que se Acima dos 220 metros de altitude destacam-se os
refere aos relevos estruturais, formas de origem fluvial relevos estruturais da serra do Formosinho e serra de S.
e contorno de níveis aplanados. De modo a realçar o Luís, talhados nos dolomitos e calcários dolomíticos do
contraste morfológicos entre as áreas aplanadas a oes- Jurássico inferior. Estes são coincidentes com o eixo de
te, a depressão de Sesimbra e os relevos positivos do dobras anticlinais de orientação ENE-WSW, limitadas
Formosinho, S. Luís, Alto da Madalena e S. Francisco, a sul por escarpas de falha vigorosas em associação a
optou-se pela colocação de uma imagem de relevo planos de cavalgamento inclinados para norte. Estas
sombreado no fundo do mapa, sobrepondo a esta uma serras apresentam características de Montes Anticlinais
rede de pontos cotados extraídos das cartas militares (mont), típicos do relevo jurassiano.
de Portugal na escala de 1:25,000 da região de Setúbal A serra do Formosinho constitui uma dobra
(Série M888 - folhas 453, 454, 464 e 465). anticlinal dissimétrica de traçado curvo, desenvolvendo-
se segundo as orientações ENE-WSW (entre El
4. O Relevo da Cadeia da Arrábida Carmen (439m) e o Formosinho (501m)) e E-W (entre
o Formosinho e a Arremula (347m)) (Figura 7). O
A cadeia da Arrábida resulta da interação de pro- topo da serra é caracterizado por uma superfície pouco
cessos tectónicos e erosivos ao longo de um período de acidentada, desenvolvendo-se entre 340 e 500 metros
tempo alargado, situado entre o Miocénico médio e a de altitude. No entanto, constata-se que os principais
atualidade. O desmantelamento da cadeia processou-se ressaltos altimétricos são coincidentes com uma rede
em função da componente de movimentação tectónica de acidentes de orientação NNE-SSW a NE-SW e
e da posição da linha de costa, desempenhando a rede NW-SE (Figura 7). Para sul, as altitudes decrescem
hidrográfica um papel fundamental no restabelecimento bruscamente até ao mar por uma vertente declivosa de
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 146
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
Figura 6 - Visão birds-eye view da cadeia da Arrábida indicando os principais elementos da sua morfologia. Imagens extraídas da aplicação
Google Earth.
traçado coincidente com o cavalgamento da Arrábida. atapetadas por depósitos cascalhentos, resultantes da
A fase de deformação tectónica paroxismal responsável degradação das vertentes calcárias amplamente fratura-
pelo levantamento da Serra terá ocorrido entre 17,5 e das. O entalhe da rede hidrográfica delineia neste sector
os 16,5 Ma (KULLBERG et al., 2006). um sistema de vales e valeiros de orientação NW-SE a
Ao longo da vertente norte da serra do Formosinho WNW-ESE, que constituem os afluentes mais elevados
individualizam-se relevos em hogback e em chevron por das ribeiras de Coina, Alambre e Ajuda. Estes tendem
erosão diferencial das camadas mais brandas do Jurás- a ser mais encaixados no sector centro-norte, ao longo
sico superior (Figura 7), encontrando-se as vertentes do troço de disposição E-W do anticlinal do Formosi-
147 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
nho, explorando as margas, argilas e conglomerados do de S. Luís (392m), constituída por calcários dolomíticos
Jurássico superior. do Jurássico inferior e médio. Com uma orientação W-E
A sudoeste de El Carmen, a altitude diminui brus- a WSW-ENE, prolonga-se até Palmela pela Serra dos
camente por uma sequência de degraus aplanados em Gaiteiros, acompanhando o traçado de uma falha em
torno dos 250 metros (Figura 7), até atingir a superfície cavalgamento que a limita pelo flanco sul. Tal como
da Plataforma do Cabo a 200-220 metros, que circunda o Formosinho, esta forma uma dobra assimétrica de
neste local os relevos do Píncaro (380m) e serra de Ares orientação WSW-ENE, fragmentada por uma rede de
(310m). Entre o Formosinho e o Píncaro desenvolve- falhas de orientação submeridiana e cavalgante para sul
-se uma depressão flúvio-cársica alongada segundo a sobre o Miocénico, deformando-o em sinclinal (sinclinal
orientação E-W (Terras do Risco e Fojo), preenchida por do Zimbral). O topo da Serra desenvolve-se em torno
sedimentos finos argilo-arenosos. O fundo desta depres- dos 340-390 metros, diminuindo para ENE por uma
são situa-se em torno dos 160-170 metros (Figura 7). sequência de degraus entre os 280-320 metros até atingir
o topo aplanado da serra dos Gaiteiros a uma altitude
Para nordeste do Formosinho encontramos a serra
de 200-220 metros.
Figura 7 - Mapa geomorfológico simplificado da cadeia da Arrábida. Versão detalhada e a cores em Fonseca et al. (2014).
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 148
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
al., 1999). A superfície da Plataforma do Cabo tem sido vales nos quais assentam os sedimentos pliocénicos
interpretada como uma superfície de abrasão marinha no interior do maciço da Arrábida e propõe uma idade
pela regularidade do aplanamento, proximidade ao Miocénica para a elaboração da Plataforma do Cabo,
mar e presença de raros seixos rolados à superfície não descurando a possibilidade de retoque erosivo pos-
(RIBEIRO, 1935; DAVEAU e AZEVEDO, 1981; terior no Placenciano ou Quaternário inferior.
CABRAL, 1993). Dados recentes sobre as variações eustáticas du-
Apesar da sua morfologia aplanada, a superfície da rante o Cenozóico indicam que o período entre 6 e 5
Plataforma do Cabo está tectonicamente deformada em Ma foi caracterizado por uma variação positiva da curva
diversos sectores. Entre o Cabo de Espichel e o marco eustática, colocando o nível médio das águas do mar
geodésico do Facho (197m) encontra-se balançada cerca de 50 metros acima do nível atual (valor máximo
para oeste por rejogo provável dos acidentes de Vale registado para o período entre 9 Ma e a atualidade)
Cavalo e da Cova da Raposa (DAVEAU e AZEVEDO, (MILLER et al., 2005). Se considerarmos que a 2ªfase
1981). A leste de Sesimbra encontra-se possivelmente de deformação da cadeia da Arrábida está situada entre
deformada por uma falha de orientação NNW-SSE que 8 e 7 Ma e que a estrutura colapso de Palmela se situa
produziu o levantamento e empolamento monoclinal da entre 8 a 6.5 Ma, revela-se aceitável propor a elaboração
serra de Ares (Ribeiro, 1935) (Figura 7). Imediatamente da superfície erosiva da Plataforma do Cabo durante o
a NNE, o relevo do Píncaro (380m) poderá resultar Miocénico terminal, na medida em que esta trunca o do-
de um deformação acentuada da Plataforma do bramento da serra de S. Luís e a colina de Palmela. Esta
Cabo, ou constituir um relevo residual acima dela hipótese ganha consistência se aceitarmos a atribuição
(MANUPPELLA et al.,1999). de uma idade pliocénica aos sedimentos encontrados no
Numa análise regional, observa-se que a altitude interior do maciço, a uma altitude inferior a 200 metros.
do nível da Plataforma do Cabo aumenta de SW para
NE, assumindo a altitude máxima de 250 e 230 metros 4.3. Cintura de relevo em estrutura monoclinal
no topo da serra de S. Francisco e colina de Palmela,
respectivamente. Ao constatarmos que esta superfície A norte dos relevos do Formosinho e S. Luís
erosiva se desenvolve de forma regular em torno dos as bancadas mergulham em direção ao Sinclinal de
200-220 metros sobre os calcários compactos de idade Albufeira com uma inclinação variável de 50° a 75°,
jurássica, parece-nos difícil de aceitar que o topo da diminuindo acentuadamente para norte. A erosão
Serra de S. Francisco, tratando-se do seu prolongamento diferencial das camadas mais brandas do Jurássico
para NE, possa ser correlacionado com o nível da Plata- superior, Paleogénico e Miocénico médio (margas,
forma do Cabo, sem a consideração de uma deformação conglomerados, argilas e arenitos) permitiu a formação
tectónica posterior. Esta observação ganha consistência de relevos estruturais do tipo costeira, sendo os relevos
se considerarmos que o nível erosivo se encontra preser- positivos sustentados pelos calcários e calco-arenitos
vado a ESE, ao longo do topo da Serra dos Gaiteiros e cretácicos, paleogénicos e miocénicos que limitam o
Palmela, a uma altitude de 200-220 metros (Figura 7). bordo setentrional da cadeia da Arrábida. Localmente, a
interferência de acidentes tectónicos provoca uma maior
Diversas hipóteses têm sido colocadas no que res-
inclinação dos estratos, levando a que a tipologia das
peita à idade da Plataforma do Cabo: Daveau e Azevedo
formas de relevo estruturais alterne entre crêt e hogback
(1981) atribuem a sua formação, com algumas reservas,
(Figura 6).
ao Pliocénico inferior; Cabral (1993) propõe que esta
tenha sido elaborada posteriormente ao segundo impul- A oeste, entre o Cabo de Espichel e a Ribeira de
so tectónico da cadeia da Arrábida e após a génese do Coina, o topo aplanado destes relevos desenvolve-se
paleo-relevo que se observa ao longo da arriba ocidental, em torno dos 140-170 metros, formando duas cristas
sendo provavelmente correlativa da superfície de col- monoclinais (três nos sectores onde a erosão fluvial
matação do enchimento aluvial pliocénico, datando do mais recuou para montante) talhadas nos calco-arenitos
Pliocénico superior ou do Quaternário inferior; Moniz de idade cretácica. Estas apresentam uma geometria
(2010) correlaciona a paleotopografia fossilizada por arqueada em função da disposição das bancadas ao
sedimentos pliocénicos observada ao longo da arriba longo do flanco norte do doma da Cova da Mijona (ver
ocidental da Península de Setúbal com o sistema de KULLBERG et al., 2000 para interpretação estrutu-
149 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
ral), encontrando-se cortadas por uma rede de fraturas clinais a oeste da ribeira de Coina, os interflúvios das
dispostas radialmente, intersetando-se segundo linhas ribeiras de Alambre-Ajuda e Alcube-Corba, os topos
perpendiculares à estratificação (KULLBERG et al., do anticlinal do Viso e do sinclinal do Zimbral, e um
1995). Para ENE, a altitude dos topos desenvolve-se em conjunto de rechãs ao longo do flanco norte do anticlinal
torno dos 170 metros até à margem esquerda da Ribei- do Formosinho. Este nível, situado em torno dos 140-
ra de Coina, ponto a partir do qual a altitude aumenta 170 metros, encontra-se assim claramente embutido no
progressivamente até atingir 255 metros na Serra de S. nível culminante da Plataforma do Cabo, delineando
Francisco (Figuras 7, 8 e 9). uma superfície côncava e explorando as bancadas mais
Após a formação dos anticlinais do Formosinho brandas do Jurássico superior. No mapa geomorfológico
e S. Luís e posteriormente à criação da superfície da (Figura 7) esta superfície é genericamente denominada
Plataforma do Cabo, segue-se uma fase erosiva carac- de “Nível dos cabeços”, seguindo a nomenclatura ado-
terizada pelo encaixe da rede de drenagem, na qual a es- tada por Daveau e Azevedo (1980/81).
trutura geológica desempenhou um papel fundamental,
determinando, pela natureza do substrato, os sectores 4.3.1. Análise topográfica e morfométrica
onde os processos erosivos teriam maior facilidade em
penetrar. Esta longa fase evolutiva foi controlada pela Os perfis de altitude máxima, de amplitude de
variação do nível de base, imposta, quer pela variação relevo e de nível de base (Figuras 8 e 9) permitem, à
do nível do mar, quer pelas movimentações tectónicas, semelhança do que foi proposto por Ribeiro (1935),
regionais e locais. subdividir a crista monoclinal em três segmentos: de
Palmela às Necessidades, das Necessidades à Ribeira
A primeira etapa de degradação da superfície
de Coina, e daqui até ao bordo setentrional do Cabo de
erosiva da Plataforma do Cabo está evidenciada na
Espichel. Refira-se que a fronteira entre cada um dos
morfologia pela diminuição de altitude para norte do
segmentos é coincidente com lineamentos identifica-
topo dos relevos em estrutura monoclinal com cornija
dos nas fotografias aéreas e/ou falhas representadas na
dupla. Esta fase de degradação é caracterizada por
cartografia geológica (MANUPPELLA et al., 1999),
uma superfície erosiva em glacis (hoje praticamente
dispostas em posição transversal à crista monoclinal
desmantelada), elaborada a partir do rebordo setentrio-
(Figuras, 7, 8 e 9). Este facto sugere que estes segmentos
nal da Plataforma do Cabo (DAVEAU e AZEVEDO,
constituem compartimentos tectónicos que terão rejo-
1980/81). Embora limitada ao sector ocidental, a in-
gado de modo diferencial, controlados por um conjunto
terpretação morfológica apresentada por estas autoras
de estruturas que se desenvolvem segundo a orientação
pode ser facilmente estendida para leste, até à margem
NW-SE a NNW-SSE. A deformação é progressivamente
esquerda da ribeira de Coina, materializando-se por uma
mais acentuada de WSW para ENE, traduzindo-se no
superfície erosiva estabelecendo ligação entre o bordo
aumento generalizado da linha de tendência de altitude
norte da superfície da Plataforma do Cabo (a norte da
máxima e do nível de base (Figura 8). Segundo Daveau
Serra de Ares, Píncaro e Terras do Risco) e o topo da
e Azevedo (1980-81) e Pereira (1988), este padrão de
crista monoclinal a 170 metros de altitude. Para leste
deformação é igualmente observado na vertente meri-
desta ribeira, revela-se difícil atribuir o mesmo modelo
dional, entre o Cabo de Espichel e o Formosinho.
de evolução, na medida em que a altitude da costeira
aumenta bruscamente para 190-220 metros, até atingir A continuidade lateral da crista monoclinal é
a altitude máxima de 255 metros no topo da serra de S. interrompida pelo encaixe da rede hidrográfica prove-
Francisco. Este facto, como vimos no ponto anterior, niente da Plataforma do Cabo, Cabo de Ares, Píncaro
tem levado diferentes autores a considerar o topo da e Formosinho. Toda a drenagem a oeste da ribeira de
costeira a leste da ribeira de Coina como a extensão Alambre (inclusive) é do tipo cataclinal, revelando enta-
oriental do nível da Plataforma do Cabo. lhe ortoclinal apenas em segmentos de primeira ordem,
ao longo de sectores com cornija dupla. O espaçamento
O conjunto das formas de aplanamento identi-
de entalhe é regular e reduzido (espaçamento médio
ficadas em torno do 140-170 metros de altitude nas
de 147m; desvio padrão de 23m) a oeste da ribeira da
ribeiras de Coina, Alambre, Ajuda, Alcube e Cobre
Pateira, aumentando de forma brusca para leste desta
permite novamente reconstituir uma superfície erosiva
até à Rib. de Alambre (espaçamento médio de 2056m;
estabelecendo ligação entre o topo dos cabeços mono-
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 150
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
desvio padrão de 822m) (Figura 8). potencial), com valores de R2 a oscilar entre 0.94 e
Em teoria e de um modo simplificado, a capaci- 0.66. Este aspeto revela a importância que os parâme-
dade erosiva de um curso de água é, em primeira linha, tros morfométricos estudados possuem na variação
controlado pela potência de escoamento, que por sua lateral do grau de entalhe. Por outro lado, a ausência
vez é controlada pela variação do declive e área de de um gradiente climático ao longo da área de estudo
drenagem a montante. Os dois últimos parâmetros, permite referir com relativa segurança que as variações
quando analisados num contexto de evolução de cadeias observadas na morfologia e grau de entalhe resultam de
ativas, tendem a variar em função da componente de anisotropias locais de natureza estrutural e morfológica.
movimentação vertical (PARKER, 1977; HOWARD, Ou aspecto a destacar prende-se com a regula-
1994; TUCKER e WHIPPLE, 2002). Em cenário de ridade do espaçamento de entalhe a norte do Cabo de
levantamento, observa-se o aumento da área de drena- Espichel. Este fenómeno traduz o controlo estrutural
gem e do declive médio do canal principal. imposto pela rede de fracturação de espaçamento
Como se pode ver pelas figuras 8E e 8F, entre o regular e perpendicular à estratificação, presente em
Cabo de Espichel e a Rib. de Alambre, os parâmetros toda a extensão dos relevos em estrutura monoclinal a
morfométricos de área de drenagem, amplitude do norte do doma da Cova da Mijona. A fraca amplitude de
relevo, comprimento máximo de drenagem e grau entalhe está associada à reduzida amplitude de relevo e
de entalhe, apresentam uma tendência semelhante de diminuta área de drenagem para montante dos sectores
aumento progressivo de WSW para ENE e uma forte analisados. A leitura dos perfis de altitude máxima e de
correlação estatística entre variáveis (por ajustamento amplitude de relevo revela ainda um ressalto positivo a
Figura 8 - Morfometria da cintura de relevos em estrutura monoclinal. Ver figura 9 para localização do perfis realizados: A) Variação
WSW-ENE ao longo do perfil A-E da altitude máxima, nível de base, amplitude de relevo e espaçamento de entalhe; B) Perfil topográfico
(B-C) e controlo tectónico ao longo do topo da crista monoclinal entre o Alto das Vinhas e o Alto da Madalena; C) Perfil topográfico
(D-E) e controlo tectónico ao longo do topo da crista monoclinal entre Palmela e as Necessidades; D) Variação WSW-ENE (entre Cabo
de Espichel – Rib. Alambre) da área a montante, relevo e encaixe da rede de drenagem; E) Correlação entre variáveis morfométricas por
ajuste potencial em escala log/log.; Preto – Relevo vs. Área de drenagem; Cinzento escuro - Relevo vs. Entalhe; Cinzento claro - Área de
drenagem vs. Entalhe; F) Correlação entre variáveis morfométricas por ajuste potencial em escala log/log: Preto – Área de drenagem vs.
Comprimento máximo de drenagem; Cinzento escuro - Comprimento máximo de drenagem vs. Entalhe.
151 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
oeste da ribeira da Pateira, no alinhamento do acidente responsáveis pela subdivisão da crista monoclinal
tectónico de Vale Cavalo. Daveau e Azevedo (1980-81) em sub-compartimentos tectónicos. Tomando como
identificam esta falha como uma das potenciais res- referência o conjunto de formas aplanadas entre 130 e
ponsáveis pelo balançamento para oeste da Plataforma 220 metros ao alongo do troço montante das ribeiras de
do Cabo. O facto de este acidente ser identificado ao Coina e Alambre, é inclusivamente possível constatar
longo do perfil de altitude máxima poderá indicar que um desfasamento de cerca de 20 metros (mínimo 10m,
ele se manteve ativo posteriormente à formação do nível máximo 30m) entre os sectores a oeste e leste dos aci-
erosivo dos Cabeços. dentes identificados, estendendo-se a deformação para
Para leste da ribeira da Pateira e até à ribeira de sul até ao cabeço do Formosinho (Figura 9).
Alambre, o aumento do entalhe aparenta estar correla- De acordo com Azevedo (1982), as ribeiras de
cionado com: I) o aumento gradual da área de drenagem Coina e Alambre já existiriam aquando da deposição do
e da amplitude do relevo entre os sectores entalhados Conglomerado de Belverde, constituindo afluentes do
e as áreas a montante localizadas no topo da Serra de pré-Tejo. Posteriormente, estas terão contribuído com
Ares, Píncaro e Serra do Formosinho; II) o progressivo grande parte do material depositado a norte da crista mo-
aumento da componente de deformação vertical para noclinal, correspondente à Formação de Marco Furado.
ENE; III) a transição para um contexto litológico distin- Durante as fases iniciais de evolução destes segmentos
to, dominado pelos materiais mais brandos do Jurássico de drenagem, o escoamento processar-se-ia em função
superior (conglomerados, grés e argilas). de um nível de base situado um pouco abaixo dos 100
Dos degraus identificados ao longo dos perfis metros de altitude. A mudança brusca de direção de
realizados, aquele que separa a ribeira de Coina do res- escoamento para NE (a cerca de 120 metros de altitude),
tante sector oriental de crista monoclinal é talvez o mais rumo ao Mar da Palha, pode estar relacionado com o
importante. Este é afectado por acidentes de orientação padrão de sedimentação da Formação de Marco Furado,
NW-SE a NNW-SSE que, pela sua geometria, favore- criando um obstáculo ao desenvolvimento da drenagem
cem a hipótese de um levantamento progressivamente para NW, ou com um processo de subsidência acentuado
mais acentuado dos compartimentos a leste (Figuras no sector do Barreiro-Montijo, forçando a captura por
9A e 9B). Ribeiro (1866) identifica uma falha em des- erosão remontante em direção a NE (AZEVEDO, 1982).
ligamento esquerdo de orientação NNW-SSE com um Para ENE da Ribeira de Alambre, a altitude dos
rejeito de aproximadamente 500 metros no local onde relevos de costeira aumenta progressivamente até ao
a ribeira de Coina cruza a crista monoclinal. Este as- topo da Serra de S. Francisco, encontrando-se suspensos
pecto é também referido por Choffat (1908), não sendo a sul sobre os vales das Ribeiras da Ajuda, Alcube e
no entanto possível confirmar a sua presença devido Cobro. No entanto, o perfil longitudinal revela a pre-
à topografia da região e à cobertura de areias finas. sença de portelas (windgaps), que rebaixam localmente
Azevedo (1982) corrobora, em parte, as observações a altitude do topo (Figura 9B): resultarão estas formas
efetuadas por Ribeiro (1866), encontrando evidências da erosão diferencial ao longo de descontinuidades,
estratigráficas e topográficas de rutura superficial numa por erosão remontante a partir da base dos relevos?
falha de orientação NNW-SSE, localizada a norte da ou constituirão evidências de uma paleo-drenagem de
costeira (Figura 9), em dois períodos do Quaternário: sentido S-N, a partir dos altos do Formosinho e S. Luís,
I) posteriormente à deposição do conglomerado de anteriormente ao embutimento erosivo das Ribeiras da
Belverde, com abatimento relativo do bloco ocidental Ajuda, Alcube e Cobro?
e consequente erosão no bloco oriental; e II) posterior- Pese embora a presença de portelas ao longo
mente à sedimentação da Formação do Marco Furado, do troço compreendido entre a Ribeira de Alambre e
exibindo um comportamento cinemático similar e com Pamela, é entre a Ribeira de Alambre e o Alto da Ma-
separações verticais progressivamente maiores para dalena que as evidências morfológicas de uma eventual
norte (max. 30m). Embora, de acordo com Manupella drenagem vinda de sul se encontram melhor preservadas
et al. (1999), esta falha não apareça identificada sobre (Figura 9B). De facto, no decorrer do trabalho de foto-
os sedimentos pliocénicos, esta pode ser recuperada -interpretação, desde cedo se notou a presença de dois
no seu alinhamento para sul, associando-se aos res- entalhes na crista monoclinal (E1 e E2) imediatamente
tantes acidentes de orientação NW-SE a NNW-SSE, a ENE da Ribeira de Alambre (Figura 9B). A cabeceira
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 152
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
Figura 9 - Cintura de relevos em estrutura monoclinal: A) Enquadramento estrutural e localização dos perfis realizados; B) Papel de
estruturas tectónicas na compartimentação e levantamento diferencial da área compreendida entre a ribeira de Coina e Alto da Madalena.
para os referidos entalhes localiza-se a 190-170 metros vada nas ribeiras a oeste, torna-se difícil interpretar a
de altitude, a uma distância aproximada de 780 metros evolução destas formas na dependência de uma erosão
para SE, sobre uma cornija de calco-arenito de idade remontante a partir da depressão periférica a norte,
cretácica (Figuras 7 e 9B). Para sudeste deste local as considerando a progressiva diminuição do grau de en-
altitudes caiem bruscamente para o domínio do vale da talhe e aumento da altitude do nível de base para ENE.
Ribeira da Ajuda. Por outro lado, não é de todo evidente que a altitude,
Mesmo considerando o alinhamento destas formas distância da cabeceira atual e área a montante dos
com alguns dos acidentes identificados na cartografia sectores entalhados, se correlacionem com o grau de
geológica, a proximidade geográfica e a similitude da entalhe observado. Somos assim tentados a assumir a
morfologia de entalhe comparativamente àquela obser- hipótese de estas formas de relevo serem contemporâ-
153 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
neas das primeiras fases de entalhe da crista monoclinal obtidos, em nada comparáveis com os valores atuais
e associadas a uma drenagem vinda de sul, com origem (Tabela 1), favorecem a colocação da cabeceira para os
provável no Formosinho. entalhes analisados ao longo da Serra do Formosinho.
Esperando compreender se as presentes áreas de Esta hipótese revela-se particularmente ajustada ao
drenagem e amplitude de relevo a montante de E1 e observar os valores esperados de comprimento máximo
E2 se correlacionam com o grau de entalhe a jusante, de drenagem. No entanto, se tivermos em conta que a
tomaram-se como referência as expressões obtidas altitude do talvegue em E1, se situa em torno dos 138
para as retas de correlação potencial entre variáveis metros (E1) e somarmos a este, o valor de amplitude de
morfométricas previamente obtidas. Ao utilizar as relevo esperado (140m), colocamos a cabeceira deste
equações que relacionam a amplitude do relevo, a área segmento de drenagem a cerca de 280 metros de altitude.
e o comprimento máximo de drenagem com o entalhe Se aplicarmos o mesmo raciocínio para o entalhe E2,
do relevo monoclinal, torna-se possível obter os valores colocamos a sua cabeceira a cerca de 250 metros. Os
esperados para cada variável morfométrica, atribuindo valores obtidos são claramente superiores à presente
a Y os valores de entalhe observados em E1 e E2. Esta altitude das cabeceiras ao longo da crista cretácica,
abordagem assenta no pressuposto de que as fórmulas mas inferiores à altitude atual da Serra do Formosinho,
utilizadas explicam, na dependência do valor de cor- presentemente situada em torno dos 500 metros. Esta
relação obtido, a variação espacial do grau de entalhe. hipótese implica considerar um levantamento superior
a 200 metros do sector a montante da crista monoclinal
Da resolução das respetivas equações, obtiveram-
durante um período que se situa de forma incerta entre
-se os resultados expressos na Tabela 1. Os resultados
o final do Pliocénico e o Quaternário inferior.
Tabela 1: Dados morfométricos observados nos entalhes E1 e E2 entre a ribeira de Alambre e o Alto da Madalena e
resultados esperados, calculados a partir das formulas expressas na Figura 8E e 8F.
Amplitude Altitude do
Altitude da Comprimento de Área de
máxima de fundo de vale Relevo (m)
cabeceira (m) drenagem (m) drenagem (km2)
entalhe (m) (m)
Obs. Obs. Obs. Esp. Obs. Esp. Obs. Esp. Obs. Esp.
E1 51 135 175 280 40 140 645 2307 301 2326
E2 36 155 175 250 20 90 478 1516 225 1007
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 154
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
do relevo da cadeia da Arrábida, entalhando o substrato com cabeceira ao longo da crista monoclinal entre Pal-
ao longo dos afloramentos menos resistentes do Jurás- mela e o Alto da Madalena, o nível principal encontra-se
sico superior e Paleogénico, a partir da degradação da pouco degradado em virtude de uma drenagem com
superfície erosiva culminante da Plataforma do Cabo encaixe reduzido e fracamente hierarquizada, estabele-
e nível dos Cabeços. A rede de drenagem evoluiu em cida sobre os sedimentos argilo-arenosos e cascalhentos
função da posição da linha de costa, estabelecendo de idade pliocénica e quaternária. Para oeste, a linha
ligação entre o domínio tectónico de levantamento da divisória de águas recua para sul, estabelecendo-se ao
serra da Arrábida e o domínio subsidente das depressões longo do topo da serra do Formosinho até ao Cabo de
periféricas, a norte (Sinclinal de Albufeira) e a sudeste Espichel (Figura 5A). Ao longo deste sector, a drena-
(depressão de Setúbal). gem é concordante com a estrutura entalhando, segundo
As cumeadas Cabo de Espichel-Formosinho e a direção S-N a ESE-WNW, as bancadas do Jurássico,
Formosinho-Palmela (Figura 5) subdividem a cadeia Cretácico e Paleogénico. Ao atingir a depressão perifé-
da Arrábida em três domínios morfo-hidrográficos: 1) rica, a rede hidrográfica entalha o nível principal com
o sistema de vales com escoamento para norte a no- uma amplitude de 30 a 50 metros, isolando interflúvios
roeste, com cabeceira ao longo do topo da Serra de S. alongados segundo a orientação S-N a SE-NW.
Francisco, Formosinho e Plataforma do Cabo ocidental; O controlo estrutural na rede de drenagem é parti-
2) o sistema de vales de orientação E-W a ENE-WSW cularmente evidente ao longo da cabeceira das bacias 1 a
estabelecidos nas formações brandas do Jurássico 9 (Figura 5A e 5B) com entalhe ortoclinal em segmentos
superior e com cabeceiras nas serras de S. Francisco, de primeira ordem. Como já foi referido, a regularidade
Formosinho e S. Luís; 3) o sistema de vales e valeiros do espaçamento de entalhe da crista monoclinal indi-
com drenagem para sul, desenvolvidos na vertente cia o controlo por parte de uma densa rede de fraturas
costeira meridional. Este último grupo será descrito na perpendiculares à estratificação de orientação NW-SE
secção 4.5 deste artigo. a N-S. Algumas destas linhas de fraqueza controlam
A norte da crista monoclinal, a drenagem entalha localmente o traçado dos principais cursos de água,
os sedimentos arenosos de idade pliocénica ao longo de evidenciando um deslocamento em cisalhamento direi-
uma vasta superfície em glacis, suavemente inclinada to, concordante com o comportamento cinemático das
para norte, estabelecida entre 100-120 e 70 metros de estruturas identificadas no sector ocidental da Arrábida
altitude, denominada de “Nível Principal” (ver mapa (Figura 7). É ainda notória a mudança brusca da direção
geomorfológico). Esta superfície será correlativa da de escoamento entre os sectores a ocidente e oriente da
deposição do Conglomerado de Belverde (DAVEAU e ribeira da Pateira.
AZEVEDO, 1980/81), tendo sido elaborada por ação Os resultados obtidos na análise morfométrica
fluvio-marinha, desmantelando uma espessura con- das principais bacias hidrográficas a oeste da Ribeira
siderável de sedimentos pliocénicos. A sua formação de Coina permitem tirar algumas conclusões relativa-
ter-se-á verificado durante o final do Pliocénico ou no mente à evolução deste sector da Arrábida. As curvas
início do Quaternário, em função de um nível do mar hipsométricas normalizadas indicam um progressivo
relativo alto, de origem glacio-eustático, situado entre aumento da maturidade das bacias de ocidente para
2 a 1,6 Ma ou entre 1,4 a 1Ma (CABRAL, 1993), tendo oriente, em concordância com a diminuição do Rácio de
sido posteriormente fossilizada pelos derrames torren- Elevação-Relevo e do Declive médio (Figura 5C e 5D).
ciais da Formação de Marco Furado. O facto da rede de As bacias 3 a 7 são francamente assimétricas (valores
drenagem entalhar a superfície erosiva principal, desen- de IA inferiores a 0.5), com posicionamento do canal
volvida nos sedimentos pliocénicos e quaternários, leva principal a norte do eixo geométrico das bacias. As ba-
a colocar a sua evolução em função das variações do cias 8 e 9 apresentam uma forte simetria, com valores
nível de base impostas pelas movimentações tectónicas de IA próximos de 0,5. Esta tendência é acompanhada
e pelas variações eustáticas ocorridas no Quaternário. pelo aumento dos valores de ICA, traduzindo-se num
A ribeira de Coina, em virtude das deformações maior alongamento das bacias 7 a 9 comparativamente
quaternárias descritas no ponto anterior, constitui uma ao observado para as bacias costeiras (1 a 6) (Figura
fronteira geomorfológica entre os domínios ocidental e 5C e 5D).
oriental da depressão periférica setentrional. Para leste, Na evolução da rede hidrográfica do sector
155 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
ocidental, são evidentes as capturas de segmentos de na bibliografia (PARKER, 1977; HOWARD, 1994).
drenagem de orientação S-N a SSE-NNW, indiciando Face ao conjunto de evidências morfológicas e
uma organização recente da drenagem em função da morfométricas identificadas em toda a região ocidental,
posição da linha de costa situada a oeste (DAVEAU e atribuímos o forte alongamento das bacias 7 a 9 a um
AZEVEDO, 1980-81). O sector terminal das ribeiras provável balançamento neotectónico para noroeste de
1 a 6 encontra-se alcandorado relativamente ao nível toda a região, a norte da falha de Vale Cavalo. Para
atual do mar, apresentando uma tendência de diminuição ocidente deste acidente, o padrão de deformação é
da altura da rutura de declive terminal para norte em claramente distinto, traduzindo-se num balançamento
direção à Lagoa de Albufeira (DAVEAU e AZEVEDO, das superfícies aplanadas e níveis marinhos para oeste.
1980/1981). Apesar do aumento da área das bacias Para leste, a Ribeira de Coina congrega a totalida-
hidrográficas, de sul para norte, as autoras atribuem de do escoamento proveniente da serra do Formosinho
este facto a um balançamento neotectónico para norte. e do flanco norte do Alto da Madalena e serra de S.
Ao longo dos sectores mais elevados, a drenagem Francisco. No conjunto, a bacia da Ribeira de Coina
acompanha o sentido de inclinação da estratificação. é francamente assimétrica, com o posicionamento do
Ao contrário das bacias 1 a 6, que a partir do sector canal principal a oeste. Para montante do sector onde
intermédio tendem a infletir para oeste, as bacias 7 a 9 a ribeira entalha a crista monoclinal, a direção de es-
mantêm-se fiéis ao traçado definido pela estratificação, coamento é oblíqua à disposição da crista monoclinal,
atingindo o eixo do Sinclinal de Albufeira na Lagoa com estando o eixo da bacia posicionado a leste, controlado
o mesmo nome, a cerca de 8km a norte da cabeceira. Se estruturalmente pela falha de Coina.
tivermos em consideração que as cabeceiras das bacias Para sudeste, a drenagem proveniente da Serra do
analisadas se encontram sensivelmente à mesma altitu- Formosinho e S. Luís atinge a costa meridional na zona
de, revelando um aumento pouco significativo de cerca do Outão e depressão de Setúbal, maioritariamente por
de 50 metros (ao longo de 14km) entre as bacias 1 e 5 bacias hidrográficas desenvolvidas segundo a orienta-
9, podemos concluir que os resultados expressos pelas ção WNW-ESE a NNW-SSE (ribeiras da Melra - B11,
curvas hipsométricas normalizadas, Rácio de Elevação- Ajuda e Alcube - B12, Quinta da Lage e Corva – B14)
-Relevo e Declive médio, resultam da conjugação de três (Figura 5A). O traçado dos segmentos de drenagem de
fatores determinantes: I) o controlo estrutural exercido ordem superior é fortemente condicionado pela estru-
pela atitude das bancadas ao longo do flanco sul do tura, entalhando em posição ortoclinal as camadas mais
Sinclinal de Albufeira, pré-definindo, por diminuição brandas do Jurássico superior e Paleogénico. Os restan-
da inclinação das camadas para norte, um perfil longi- tes segmentos de drenagem (1ª e 2ª ordem de Strahler)
tudinal côncavo (regularizado e maduro) para as bacias desenvolvem-se em posição cataclinal e anaclinal, nos
7 a 9; II) a proximidade ao nível de base (maior de este flancos dos anticlinais do Formosinho e S. Luís e no
para oeste), em junção com o posicionamento do eixo flanco sul da crista monoclinal entre o Alto da Madalena
do Sinclinal de Albufeira a cerca de 8 km a norte, exerce e Palmela, respetivamente. Localmente, a rede hidrográ-
influência na diminuição do declive médio e do rácio fica é controlada por acidentes tectónicos de orientação
Elevação-relevo de ocidente para oriente; III) o aumento NE-SW, N-S e NW-SE, sendo particularmente notório o
do comprimento das bacias e a progressiva diminuição desvio (ou adaptação) do traçado do canal principal da
da altitude da rutura de declive terminal dos cursos de ribeira da Ajuda, em concordância com o deslocamento
água ocidentais favorecem uma maior regularização e, em cisalhamento esquerdo das falhas de orientação NE-
consequentemente, uma maior maturidade, dos perfis -SW que estabelecem ligação entre os cavalgamentos
longitudinais. do Formosinho e S. Luís (Figura 7).
A simetria das bacias 7 a 9 está parcialmente A partir do nível superior da Plataforma do Cabo
ligada com o facto da drenagem se desenvolver de é possível identificar pelo menos três níveis de embu-
acordo com a estrutura. No entanto, dada a natureza timento erosivo: I) o nível dos cabeços (140-170m),
friável do substrato da região, seria de esperar que, anteriormente descrito; II) o nível dos vales (90-140m);
num contexto de estabilidade tectónica, as bacias III) o nível atual (0-80m) (Figura 7). Os interflúvios
hidrográficas assumissem uma geometria mais que separam as ribeiras de Alambre-Ajuda e Alcu-
compacta seguindo os modelos de evolução propostos be–Corva encontram-se a aproximadamente 140-150
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 156
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
metros e 150-160 metros, respetivamente, definindo a B13) de orientação E-W a SE-NW. No sector montante,
altitude de partida para o desenvolvimento dos vales a ribeira entalha o contacto entre o Jurássico inferior e
centro-orientais. Para jusante, a altitude deste nível o Jurássico superior segundo a orientação W-E, desen-
diminui gradualmente de 130-120 para 100-80 metros, volvendo-se entre os 180 e os 160 metros de altitude.
permitindo a reconstituição de uma paleo-superfície de Ao atingir o bordo sudeste da Serra, fronteira estrutural
fundo de vale estabelecendo ligação entre os sectores imposta pelo cavalgamento S. Luís – Gaiteiros, a ribeira
mais elevados e a costa sudeste. A presença de rechãs inflete bruscamente para sudeste em direção à depressão
a altitudes comparáveis ao longo das três ribeiras, con- periférica de Setúbal. No entanto, um conjunto de rechãs
vergentes para um nível de base comum, sugere uma a cerca de 160-150 de altitude, dispostas no alinhamen-
organização da rede hidrográfica em função de um lito- to do troço montante da ribeira (Figura 7), sugere um
ral situado um pouco abaixo do 100 metros de altitude traçado original segundo a orientação E-W, anterior ao
(ALCOFORADO, 1981). A concordância altimétrica seu desvio para sudeste. Este nível será provavelmente
das rechãs na desembocadura dos principais vales com correlativo do topo dos interflúvios das ribeiras da Aju-
a Formação do Marco Furado (100-110 m) leva a supor da, Alcube e Corva, tendo o escoamento sido desviado,
que sejam contemporâneas do Nível erosivo Principal possivelmente em resposta ao levantamento recente do
situado a norte da crista monoclinal. compartimento norte, limitado pelo cavalgamento de S.
As rechãs ao longo da margem esquerda da ribeira Luís – Gaiteiros.
da Ajuda (a sul do Alto da Madalena) revelam capturas O forte controlo estrutural no traçado da rede hi-
sucessivas por entalhe da rede hidrográfica, com migra- drográfica das bacias orientais, imposto pela natureza
ção do canal principal para sul. Ao longo do troço final friável do substrato jurássico, dificulta, ao contrário
da ribeira, a disposição das formas aplanadas a sul do do que foi efetuado para o sector ocidental, a extração
S. Luís e a oeste do Viso (rechã em torno dos 80 metros de informação referente à interferência de processos
de altitude; portela situada a 80 metros acima do nível tectónicos na sua evolução. É no entanto interessante
do mar entre o S. Luís e o Viso) sugerem uma evolução constatar o traçado das curvas hipsométricas normaliza-
semelhante, com captura e migração do canal principal das (Figura 5C), claramente afetado pelo forte declive e
para sudeste (Figura 7). amplitude de entalhe ao longo do troço final das ribeiras
Alcoforado (1981) refere que as rechãs a 120 – da Ajuda e Melra e pelo aumento de altitude imposto
100 metros ao longo da ribeira da Ajuda, preservam pelo cavalgamento de S. Luís – Gaiteiros.
uma cobertura de areias finas e pouco argilosas, com
evidências de eolização. Alguns destes depósitos sur- 4.5. A vertente costeira meridional e a depressão de
gem marcados na carta geológica 1:50,000, sendo no Sesimbra
entanto consensual na bibliografia (ALCOFORADO,
1981; AZEVEDO, 1982) que a sua distribuição é muito A singularidade da cadeia da Arrábida relativa-
superior, cobrindo retalhos aplanados em torno dos 100 mente às restantes Serras calcárias do país prende-se
metros de altitude, a sul da serra de S. Luís. com o contacto abrupto que esta estabelece com o oce-
ano Atlântico ao longo da fachada meridional. Com um
A ribeira da Melra, situada a sul da atual desem-
comando médio de 200 metros (mínimo 130m; máximo
bocadura da ribeira da Ajuda, apresenta uma evolução
300m), a vertente costeira apresenta uma morfologia
semelhante às restantes ribeiras orientais. O embuti-
complexa, marcada pela presença de formas de erosão
mento erosivo inicial terá tido início em torno dos 150
marinha e de evolução subaérea. A altitude do topo au-
– 140 metros de altitude, diminuindo progressivamente
menta para oriente em concordância com o aumento da
de altitude para sudeste até aos 100 metros, junto ao
amplitude de deformação tectónica (PEREIRA, 1988).
litoral do Outão. A inflexão brusca do canal principal
O litoral é irregular, sendo caracterizado por reentrân-
para norte, ao longo da secção terminal da ribeira, su-
cias controladas pelo traçado da estrutura geológica (ex.
gere uma adaptação recente à estrutura por descida do
Portinho da Arrábida) ou pela presença de litologias
nível de base.
mais brandas (ex. Sesimbra) (Figura 7).
Entre o S. Luís e os Gaiteiros desenvolve-se uma
No entanto, a descrição pormenorizada destas
pequena bacia hidrográfica (ribeira da Quinta da Lage –
formas de relevo não se enquadra nos objetivos do pre-
157 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
sente trabalho. Diversos autores têm vindo a trabalhar litologias mais resistentes à erosão do Jurássico inferior
nesta temática (Daveau e Azevedo, 1980/81; Pereira, e coincidentes com o traçado de falhas de orientação
1988; Pereira et al. 2007; Pereira e Regnauld, 1994; NNW-SSE e NE-SW (KULLBERG et al. 2000). De
Regnauld et al. 1995; Manupella et al. 1999) pelo que acordo com estes autores, a idade mais provável para
nos limitamos a uma descrição sucinta dos principais a fase principal do diapirismo salino em Sesimbra será
traços morfológicos contidos no mapa geomorfológico tardi-Cretácica, não sendo no entanto de excluir a pos-
(Figura 7). sibilidade de terem ocorrido movimentações múltiplas
O perfil da vertente costeira evidencia a presença no final do Cretácico, entre o Oligocénico e o Miocé-
de níveis de erosão marinhos escalonados, observando- nico e durante a inversão Miocénica. A estrutura está
-se o aumento da altitude para oriente acompanhando a fortemente deformada e fraturada, expondo materiais
tendência da região. As rechãs mais altas, possivelmente do Jurássico inferior, médio e superior, ocorrendo inje-
correlativas do nível do cabeços, estão situadas em tor- ções de material margo-salino ao longo de acidentes de
no de 140 a 170 metros de altitude e apresentam uma orientação NNW-SSE e NE-SW. O núcleo da depressão
tendência de balançamento para oeste, em concordância foi progressivamente escavado pela ação conjunta de
com a deformação do nível da Plataforma do Cabo processo marinhos e sub-aéreos, evidenciada pela pre-
(Daveau e Azevedo, 1980/81). As rechãs mais baixas sença de rechãs escalonadas e de knicks nos segmentos
apresentam deformação longitudinal mais recente, liga- de drenagem a altitude comparáveis.
da a falhas transversais ao litoral, o que tem dificultado
a atribuição de idades para a sua elaboração. Sobre 5. Considerações Finais Sobre a Evolução do Relevo
estas rechãs encontram-se preservados sedimentos de
praia constituídos por areias soltas ou consolidadas, Um dos problemas da interpretação morfológi-
com calhaus rolados (PEREIRA e REGNAULD, 1994; ca e morfométrica apresentada no presente trabalho
REGNAULD et al., 1995; PEREIRA et al. 2007). prende-se com a dificuldade de limitar temporalmente
cada um dos eventos descritos. A cronologia de eventos
Ao longo da fachada sul, a rede de drenagem é
pós-Miocénicos na região da Península de Setúbal (com
pouco desenvolvida, sendo maioritariamente caracte-
exceção dos níveis marinhos mais baixos ao longo da
rizada por barrancos e valeiros de traçado retilíneo,
costa meridional), tem sido estabelecida por critérios
fortemente controlados pelo declive e, localmente, por
relativos, para os quais não foram ainda apresentadas da-
acidentes tectónicos de orientação transversal ao traçado
tações absolutas. O desconhecimento da espessura dos
da vertente. O grau de entalhe é progressivamente mais
sedimentos pliocénicos e a ausência de datações para
acentuado para o topo, sobretudo ao longo do sector
os limites superiores e inferiores desta formação, não
compreendido entre o Cabo de Espichel e Sesimbra,
permite resolver grande parte dos problemas relativos à
onde a drenagem se estende para norte sobre a Plata-
evolução do relevo. Procuraremos de seguida analisar o
forma do Cabo. De todas as formas erosivas, destaca-se
conjunto das observações anteriormente apresentadas,
neste sector o vale da Ribeira da Mareta que progride
e extrair, na medida do possível, conclusões a partir do
pela Plataforma do Cabo ao longo de aproximadamen-
conhecimento atual da tectónica da Arrábida.
te 10km, assumindo uma geometria curva segundo a
orientação SE-NW a E-W, acompanhando o traçado das O Nível da Plataforma do Cabo, apesar de cons-
bancadas calcárias do Jurássico médio-superior. Daveau tituir a referência a partir da qual se processa o embu-
e Azevedo (1980/1981) atribuem a evolução do vale da timento erosivo plio-quaternário, é aquele sobre o qual
Ribeira da Mareta a processos fluvio-cársicos, durante se levantam mais questões. Como vimos ao longo deste
a fase de elaboração do Nível dos Cabeços. trabalho, o aplanamento principal desta forma de relevo
poderá ser anterior à deposição da séria pliocénica, em
A continuidade da vertente costeira é apenas
associação aos níveis eustáticos elevados do Miocénico,
interrompida pela reentrância da depressão diapírica
ou ser-lhe correlativo (DAVEAU e AZEVEDO, 1980-
de Sesimbra. Esta constitui uma forma de relevo es-
81; CABRAL, 1993; MONIZ, 2010). A resposta para
trutural resultante da erosão diferencial das camadas
esta questão reside, em parte, na natureza e proveniência
da Dagorda. Os bordos desta depressão assumem uma
dos sedimentos ditos pliocénicos encontrados no interior
geometria triangular formada por dois alinhamentos de
do maciço: I) na confirmação de uma idade pliocénica,
relevos convergentes para norte construídos sobre as
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 158
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
teremos que colocar a formação do nível da Platafor- lação com o nível da Plataforma do Cabo. No entanto,
ma do Cabo anteriormente à sua deposição e assumir dada a preservação da Plataforma mais a sul sobre os
a hipótese, à semelhança do modelo apresentado por calcários compactos do Jurássico médio da Serra dos
Moniz (2010), da paleo-topografia fossilizada ao longo Gaiteiros e face à presença de falhas ativas de orientação
da costa ocidental ser correlativa dos principais vales da NNW-SSE a NE-SW ao longo dos ressaltos morfológi-
Serra nos quais ocorrem sedimentos pliocénicos; neste cos mais evidentes da crista monoclinal, somos levados
modelo, o essencial da topografia da Serra a montante a colocar a hipótese do sector compreendido entre a
dos relevos em estrutura monoclinal seria herdada de ribeira de Coina e serra de S. Francisco constituir uma
um tempo ante-Pliocénico e a evolução quaternária seria deformação do Nível dos Cabeços.
responsável pela exumação da cobertura sedimentar; II) Neste modelo, durante as primeiras fases de elabo-
se, por outro lado, atribuirmos uma idade quaternária ração do Nível dos Cabeços, a linha divisória de águas
por remobilização eólica dos “sedimentos pliocéni- estaria situada ao longo do topo do Formosinho e S.
cos” (ALCOFORADO, 1981; AZEVEDO, 1982), Luís, unindo os pontos mais altos da cadeia da Arrábida
fica impossibilitada qualquer datação relativa do nível (Figura 10A). A contínua subsidência na zona do Sin-
superior e a evolução subsequente do relevo ocorre na clinal de Albufeira terá favorecido o encaixe da rede de
dependência das oscilações tectónicas e eustáticas plio- drenagem, criando as interrupções na crista monoclinal
-quaternárias. Até que novos trabalhos possam trazer luz que viriam mais tarde a constituir os vales das ribeiras
sobre a idade da Plataforma do Cabo, a dúvida persistirá. centro-orientais (Figura 10B). Neste período, possi-
A presença de níveis escalonados na paisagem velmente correlativo da deposição do Conglomerado
favorece a atribuição de uma idade pós-pliocénica para de Belverde, terá ocorrido um primeiro levantamento
a degradação do nível culminante e encaixe dos vales dos compartimentos a leste da ribeira de Coina e do
centro-orientais. O facto dos principais entalhes na cabeço do Formosinho, por rejogo de falhas de orien-
crista monoclinal (ribeira da Pateira, Coina, Alambre, tação NNW-SSE a NNE-SSW. Este evento tectónico
Ajuda e Cobre) já existirem aquando da deposição do está marcado pela rutura da falha de Coina ao longo do
Conglomerado de Belverde, constituindo afluentes do Conglomerado de Belverde (AZEVEDO, 1982).
pré-Tejo, leva a colocar a primeira etapa de degradação O encaixe da rede hidrográfica terá perdurado
da Plataforma do Cabo – o Nível do Cabeços - ante- durante o Quaternário inferior, alimentando os cones de
riormente à sedimentação dessa formação (Pliocénico dejeção de material cascalhento da Formação de Marco
médio-superior), sendo essencialmente controlada pela Furado, situados na desembocadura dos principais vales
descida de nível de base imposta pela subsidência do (Figura 10C). O acentuar da componente de levanta-
Sinclinal de Albufeira (Figura 10A). mento (identificada pela deformação da Formação do
O Nível dos Cabeços é evidenciado pela dimi- Marco Furado) e o forte contraste litológico ao longo
nuição de altitude para norte do bordo setentrional da do sector oriental, terá promovido a inversão da direção
Plataforma do Cabo até ao topo da crista monoclinal de escoamento, forçando a rápida progressão da cabe-
a oeste da ribeira de Coina, delineando uma superfície ceira das bacias da Ajuda e Alcube para NW e WSW,
em glacis. Ao longo do troço ocidental é visível um capturando a drenagem proveniente do Formosinho (e
ressalto no alinhamento do acidente de Vale Cavalo que, S. Luís?). Esta observação é suportada pela presença de
de acordo com Daveau e Azevedo (1980-81), terá sido depósitos correlativos da Formação de Marco Furado na
responsável pelo balançamento para oeste da superfície desembocadura dos entalhes E1 e E2, permitindo situar
da Plataforma. Embora a magnitude de deformação seja a sua captura já no Quaternário (Figura 10D).
inferior, o ressalto observado parece indicar que este A análise morfométrica permite ainda concluir que
terá rejogado posteriormente à elaboração do Nível o entalhe observado em E1 e E2 não pode ser explicado
dos Cabeços, sendo a sua importância reafirmada no pelo contexto morfológico atual, obrigando a uma ex-
Quaternário pela deformação dos níveis marinhos ao tensão para sul da sua cabeceira, com estabelecimento
longo da costa meridional. provável ao longo do Formosinho. Tendo em conta a
Para leste da ribeira de Coina, o aumento da alti- paleo-altitude obtida para o topo da Serra (230m), con-
tude do topo da costeira para 190-220 metros (255m no sideramos um uplift de aproximadamente 200 metros
topo da Serra de S. Francisco) tem levado à sua corre- para um período que se situa de forma imprecisa entre
159 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
Figura 10 – Esquema proposto de evolução do relevo da cadeia da Arrábida. A) Pliocénico médio-superior - Fase inicial de degradação da
Plataforma do Cabo; rejogo da falha de Vale Cavalo e balançamento para oeste; B) Pliocénico superior/Quaternário inferior – Deposição
do Conglomerado de Belverde; impulso tectónico importante com rejogo diferencial de falhas de orientação NNW-SSE NW-SW e NE-
SW, acompanhado do encaixe da rede hidrográfica; erosão remontante nas bacias orientais e migração da cumeada principal para NW;
estabelecimento do Tejo a norte na zona do gargalo; C) Quaternário inferior – Derrames torrenciais da Formação de Marco Furado e
acentuar da migração da divisória de águas das bacias orientais; D) Reactivação de falhas de orientação NNW-SSE a NW-SE e captura
dos entalhes a ocidente da ribeira de Alambre; acentuar da deformação do sector ocidental da Plataforma do Cabo. 1) Falha; 2) Divisória
de águas; 3) Levantamento e 4) Subsidência relativa; 5) Direção de balançamento.
o Pliocénico e o Quaternário, traduzindo-se em taxas de ma do Cabo e nos níveis litorais, indicia uma mudança
uplift que podem variar entre 0.04 (base do Pliocénico - do padrão de deformação com balançamento do com-
5.3Ma) e 0.11 mm/ano (base do Quaternario - 1.8Ma). partimento a oeste da falha de Vale Cavalo.
Apesar do grau de incerteza, este valores estão de acordo Numa análise regional, o aumento da magnitude
com as taxas de movimentação identificadas para a de deformação de oeste para leste, tanto ao longo dos
região por Cabral (1995) e Cabral et al. (2003 e 2004). relevos de costeira como ao longo da vertente me-
O encaixe da rede hidrográfica nas formações ridional, permite concluir que a evolução do relevo
quaternárias favorece a permanência de um regime durante o período Quaternário foi controlada, tanto
tectónico de levantamento posteriormente à deposição por um levantamento de conjunto de toda a península
da Formação do Marco Furado. Este processo terá sido de Setúbal, assim como por nuances locais, associadas
caracterizado por um movimento de grande raio de ao rejogo vertical de falhas de orientação NW-SE a
curvatura, acentuando-se a tendência de balançamento NNW-SSE, oblíquas aos principais cavalgamentos da
de toda a Península para norte. No entanto, o padrão de cadeia da Arrábida.
deformação observado no sector ocidental da Platafor-
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 160
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
161 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015
Fonseca A. F. et al.
Aims of Geomorphological Mapping. In Smith et al (eds.) KLIMASZEWSKI, M. (1956). The principles of the
Geomorphological Mapping: Methods and Applications. geomorphological map of Poland. Przeglad Geograficzny 28
Developments in Earth Surface Processes, 15, Elsevier, (Suppl.), 3240.
Amsterdam, 589-593. DOI: 10.1016/B978-0-444-53446-
KLIMASZEWSKI, M. (1963). The principles of the
0.00024-0
geomorphological map of Poland. Geogr. Stud. 46, 6970.
FEIO, M. (1952). A Evolução do Relevo do Baixo Alentejo e
KULLBERG, J.C., MONTEIRO, C. e ROCHA, R.B. (1995).
Algarve. Tese de Doutoramento em Geografia Física, Faculdade
Evolução diapírica: Modelo Cinemático baseado no estudo do
de Letras da Universidade de Lisboa.
doma da Cova da Mijona. IV Cong. Nac. Geol., Fac. Ciênc.
FERREIRA, A. B. (1978). Planaltos e Montanhas do Norte Mus. Lab. Min. Geol. Univ. Porto, Mem. 4: 259-261.
da Beira – Estudo de Geomorfologia. Tese de doutoramento.
KULLBERG, M. C.; KULLBERG, J. C. e TERRINHA, P.,
Memória do Centro de Estudos Geográficos, 4, 374pp.
(2000). Tectónica da Cadeia da Arrábida. In Tectónica das regiões
FERREIRA, A.B., RODRIGUES, M.L., ZÊZERE, J.L. (1995). de Sintra e Arrábida”, Memórias Geociências, Museu Nac. Hist.
A cartografia geomorfológica em Portugal; in Os Mapas em Nat. Univ. Lisboa, V. 2, pp. 35-84.
Portugal, Lisboa, Ed. Cosmos, pp.183 – 222.
KULLBERG, J. C.; TERRINHA P.; PAIS J.; REIS R. P.;
FERREIRA, D. (1981). Carte géomorphologique du Portugal, LEGOINHA P. (2006). Arrábida e Sintra: dois exemplos de
Lisboa, Memórias do CEG, no6, 53p. tectónica pós-rifting da Bacia Lusitaniana. In Geologia de
Portugal no contexto da Ibéria (R. Dias, A. Araújo, P. Terrinha
FONSECA, A.F., ZÊZERE, J.L., NEVES, M. (2014).
e J. C. Kullberg, Eds.). Univ. Évora, pp. 369- 396.
Geomorphology of the Arrábida Chain (Portugal). Journal
of Maps, Taylor and Francis, Volume 10, Issue 1, DOI: MANUPPELLA, G.; ANTUNES, M. T.; PAIS, J.; RAMALHO,
10.1080/17445647.2013.859637 M. M. e REY, J. (1999). Carta geológica de Portugal na escala
1:50000. Notícia explicativa da folha 38-B Setúbal. Instituto
GALON, R. (1962). Instruction to the detailed
Geológico e Mineiro, 143 p.
geomorphological map of the Polish lowland. Geography
and Geomorphology Department, Polish Academy of Sciences, MARTINS, A. F. (1949). Maciço Calcário Estremenho -
Torun. Contribuição para um estudo de Geografia Física. Tese de
Doutoramento, Universidade de Coimbra.
GELLERT, J.F., SCHOLZ, E. (1960). Konzeption und
Methodik einer morphogenetischen Karte der DDR. Geogr. Miller, K.G., Kominz, M.A., Browning, J.V., Wright, J.D.,
Berich. 14, 119. Mountain, G.S., Katz, M.E., Sugarman, P.J., Cramer, B.S.,
Christie-Blick, N., and Pekar, S.F. (2005). The Phanerozoic
GELLERT, J.F., SCHOLZ, E. (1974). Bemerkungen
record of global sea-level change. Science, 310, 1293-1298.
z u r i n t e r n a t i o n a l v e re i n h e i t l i c h t e n L e g e n d e f u r
mittelmassstabliche Ubersichtskarten von 1:200,000 zu MONIZ, C. (2010). Contributo para o conhecimento da
1:500,000. Stud. Geograf. Brno 41, 3236. falha de Pinhal Novo – Alcochete, no âmbito da neotectónica
do vale inferior do Tejo. Tese de Mestrado em Geologia –
HELBLING, E. (1952). Morphologie des Serntales. Ph.D
Especialização em Geologia Estrutural, Faculdade de Ciências,
Thesis. University of Bern, Bern.
Universidade de Lisboa, 128p.
HOWARD, A. D. (1994). A detachment-limited model of
PARKER, R.S. (1977). Experimental study of basin evolution
drainage basin evolution. Water Resources Research, 30,
and its hydrologic implications. Ph.D. thesis: Fort Collins,
2261 – 2285.
Colorado State University, 331 p.
JOLY, F. (1963). Recherche d’une méthode de cartographie
PELLEGRINI, G.B., CARTON, A., CASTALDINI, D.,
géomorphologique pour une carte des pays arides et semi-
CAVALLIN, A., D’ALESSANDRO, L., DRAMIS, F., GENTILI,
arides du monde a` l’e ć helle du 1:1.000,000. B.S. Helle ń ique,
B., LAURETI, L., PRESTININZI, A., RODOLFI, G., SAURO,
Athe`ne 4, 8299.
U., SORRISO VALVO, M. AND SPAGNA, V. (1993). Proposta
KELLER, E. e PINTER, N. (2002). Active Tectonics. di legenda geomorfologica ad indirizzo applicativo, Geografia
Earthquakes, Uplift and Landscape. Second Edition, Prentice Fisica e Dinamica Quaternaria, 16 (2), 129–152.
Hall, New Jersey, 362 p.
PEREIRA, A.R. (1988). Aspectos do relevo de Portugal. Litorais
Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015 162
Contribuição para o Conhecimento da Geomorfologia da Cadeia da Arrábida (Portugal): Cartografia Geomorfológica
REGNAULD, H., FOURNIER, J., PEREIRA, A.R. (1995). TRICART, J., (1970). Normes pour l’établissement de la
Approche quantitative de la discontinuité de l’évolution de carte geomorphologique détaillée de la France. Mém. Doc.
formes littorales à différentes échelles de temps. Exemple du CNRS 12, 1267.
recul de la côte de l’Arrábida (Portugal)/Quantitative approach TRICART, J. (1972). Cartographie géomorphologique. Mém.
of a non linear and scale dependand landform evolution: rate of Doc. CNRS 12, 1267.
a retreat coastline in Portugal, Arrábida. In: Géomorphologie :
TUCKER e WHIPPLE, K. X. (2002). Topographic outcomes
relief, processus, environnement, vol. 1, n°1. pp. 7-27.
predicted by stream erosion models: Sensitivity analysis and
RIBEIRO, A., KULLBERG, M. C., KULLBERG, J. C., intermodel comparison. J. Geophys. Res., 107.
MANUPPELLA, G., PHIPPS, S. (1990). A review of Alpine
VERSTAPPEN, H.TH. e VAN ZUIDAM, R.A., (1968). ITC
tectonics in Portugal: Foreland detachment in basement and
system of geomorphological sur- vey (English, French and
cover rocks. Tectonophysics, 184, pp. 357-366.
Spanish). Delft/Enschede, ITC-Textbook VII 2, 153.
RIBEIRO, C. (1866). Descripção do solo quaternário das
VERSTAPPEN, H.TH. (1970). Introduction to the ITC System
bacias hydrographicas do Tejo e Sado. Commissão Geológica
of geomorphological survey. Geograf. Tijd. 4 (1), 8591.
de Portugal, Lisboa, 164 p., 1 mapa.
ZBYZWESKI, G. (1965). Carta Geológica de Portugal à
RIBEIRO, O. (1936). A Arrábida. Esboço geográfico,
escala 1/50 000, folha 38-B (Setúbal), 1a edição, Serviços
Lisboa, 1936, 94 p. Dissertação de doutoramento em Ciências
Geológicos de Portugal, e Notícia Explicativa.
Geográficas apresentada à Faculdade de Letras da Universidade
163 Revista Brasileira de Geomorfologia, São Paulo, v.16, n.1, (Jan-Mar) p.137-163, 2015