Resumos de Filosofia
Descartes, a resposta racionalista
Descartes, a resposta racionalista
Vamos tentar compreender como Descartes respondeu ao desafio
cético. Descartes foi um filósofo racionalista.Com efeito, ele considerava a razão a fonte
principal de conhecimento. Em seu entender, há crenças que a razão, e apenas a razão, é
capaz de justificar.
Descartes também procurou na razão o fundamento do conhecimento. Encontrando
esse fundamento, será possível superar os argumentos dos céticos radicais, para os quais
o conhecimento não é possível. Descartes pretendeu justamente mostrar que o
conhecimento é possível e que, por conseguinte, os céticos radicais não têm razão e os
seus argumentos devem ser abandonados.
O método
Sendo a razão a fonte e a origem principal do conhecimento, ela é também a fonte das
proposições da matemática, que assumem um carácter evidente. Por isso, talvez seja
possível seguir um método inspirado na matemática - cujos conhecimentos têm origem
exclusivamente racional ou a priori- para a conquista da verdade
Vejamos, de modo resumido, quais são as regras do método de Descartes.
Método cujas regras são também designadas por regras da evidência, da análise, da
síntese e da enumeração e revisão, respetivamente. Deverá guiar o espírito humano no
exercício das duas operações fundamentais do entendimento. Tais operações, que estão
na base de toda a dinâmica do conhecimento e nos permitem conhecer as coisas sem
medo de errar, são a intuição e a dedução, que no esquema seguinte se definem.
A intuição é uma representação da mente pura e atenta, tão fácil e distinta que nenhuma
dúvida nos fica acerca do que compreendemos.(Raciocínio imediato).
A dedução é um encadeamento contínuo de intuições, implicando um movimento do
pensamento, no processo de inferência, desde as ideias simples e evidentes até às
consequências necessárias. Por exemplo, conhecemos por intuição que um triângulo é
delimitado apenas por três linhas e conhecemos por dedução que a soma de todos os
ângulos internos de um triângulo é igual à de dois ângulos retos.(Seguir um conjunto de
regras, a evidência, análise, síntese e enumeração e revisão, para chegar a um
resultado).
Deste modo, obedecendo às regras do método, Descartes procede a uma investigação de
carácter metafísico, a fim de encontrar os princípios fundamentais do conhecimento
humano.
A dúvida
A dúvida constitui uma exigência quando a razão inicia a aplicação do método. Por meio
dessa dúvida, metódica, recusaremos ou tomaremos como falsas todas as crenças em
relação às quais se levante a mínima suspeita de dúvida ou incerteza.
Instrumento da luz natural ou razão, a dúvida é posta ao serviço da verdade e da procura
de uma justificação para as nossas crenças. Descartes adota inicialmente a postura do
cético radical, sujeitando à dúvida todas as crenças. É necessário colocar tudo em causa,
no processo de busca dos princípios OU crenças fundamentais e indubitáveis na busca
de um conhecimento absolutamente seguro. Descartes entende que só há conhecimento
se houver certeza. A certeza por sua vez, exige que a verdade das proposições
seja indubitável.
O filósofo considera ser necessário encontrar verdades indubitáveis, a partir das quais se
possam deduzir, de forma metódica, outras verdades, igualmente indubitáveis. Só desse
modo é possível estabelecer um fundamento sólido para as ciências.
Descartes assume, assim, uma perspetiva infalibilista, de acordo com a qual
conhecimento é incompatível com a possibilidade do erro, ou seja, as justificações para as
nossas crenças terão de garantir a verdade de tais crenças.
Se alguma crença resistir à dúvida, então ela poderá ser a base ou fundamento para
outras crenças. Uma crença fundacional permitirá evitar a regressão infinita da
justificação,que é o principal argumento cético.
Existem várias razões para duvidar, sobretudo as seguintes:
● O facto de os sentidos por vezes nos enganarem e iludirem, sendo que é
prudente nunca confiar totalmente naqueles que nos enganaram, mesmo que
só uma vez.Ainda assim, Descartes coloca a si próprio a objeção de que apenas os
loucos (que afirmam, por exemplo, "que têm uma cabeça de barro" ou 'que são
feitos de vidro") negam os dados mais óbvios dos seus sentidos. Todavia, o
argumento que se segue permite reforçar a desconfiança em relação à fiabilidade
dos sentidos.
● A falta de um critério que nos permita distinguir o sonho da vigília. Podemos
estar a sonhar e não o sabemos. Dado que não sabemos se estamos a sonhar, não
temos Justificação para acreditar que estamos despertos. Assim, também não
sabemos se as nossas perceções sensíveis são ou não ilusórias elas podem
levar-nos a formar crenças falsas. A este argumento também se chama argumento
do sonho.
● O facto de alguns seres humanos se enganarem e cometerem erros ao
raciocinar inclusive nas questões mais simples da geometria e da matemática
em geral.
● A hipótese da existência de um deus enganador ou génio maligno (um ser
poderoso, astuto e que se diverte à custa dos nossos erros) que nos ilude a respeito
da verdade fazendo com que estejamos sempre enganados, seja no tocante às
verdades e às demonstrações das matemáticas- é possível que "2+ 2=4” expresse
uma proposição falsa (embora a julguemos claramente verdadeira) -, seja no que
respeita às nossas crenças sobre os objetos físicos ⁃ podemos ter meras
alucinações, em vez de perceções fidedignas-, seja no que se refere à própria
existência do mundo exterior.
A hipótese da existência do deus enganador ou génio maligno parece condenar-nos a
uma situação sem saída. Essa hipótese equivale a admitir que o entendimento humano é
de tal natureza que se engana sempre, mesmo quando pensa captar a verdade.
Façamos agora um esquema que, para além de incluir as razões para duvidar, nos apre-
sente as características da dúvida cartesiana
Da dúvida ao Cogito
Sendo um ato livre da vontade, a dúvida acabará por conduzir a uma verdade incontestável:
a afirmação da minha existência, enquanto sou um ser que pensa e duvida. Ainda que
génio maligno me engane, ele jamais conseguirá que eu seja nada enquanto eu pensar que
sou alguma coisa.
Não podemos duvidar sem pensar, e não podemos pensar sem existir. Enquanto rejeita-
mos todas as crenças que nos suscitam dúvida, não podemos igualmente supor que não
existimos. Seria repugnante conceber que aquele que pensa não existe. Daí ser absoluta-
mente verdadeira a crença <Penso, logo existo.> (ou então, <Cogito, ergo sum.> -afirmação
frequentemente sintetizada no simples termo cogito).
O cogito é, assim, uma afirmação evidente e indubitável, uma certeza inabalável, obtida por
intuição, de modo inteiramente racional e a priori, e que, sendo a primeira verdade que se
apresenta a quem conduz os seus pensamentos por ordem, servirá de paradigma OU
modelo para as várias crenças verdadeiras.
Observa, no entanto, Descartes que não há nada no <Penso, logo existo.> que lhe garanta
que ele está a dizer a verdade, exceto o facto de ele ver claramente que, para pensar,
preciso existir. Deste modo, Descartes adotou, como regra geral, a ideia de que é
verdadeiro tudo o que concebemos muito claramente e muito distintamente,o cogito
fornece, assim, o critério de verdade, que consiste na clareza e distinção das ideias. Todas
as crenças que sejam claras e distintas são verdadeiras. Ideias claras e distintas são ideias
evidentes para a razão.
Enquanto primeira verdade, o cogito surge-nos como crença fundacional ou básica, pois
a partir dela Descartes procura (re)construir o edifício do conhecimento, o sistema do
saber. Trata-se de uma crença autoevidente e auto justificada que permite, por isso, evitar a
regressão infinita da justificação.
Simultaneamente, o cogito impõe uma exceção à universalidade da dúvida - há pelo
menos uma realidade da qual não posso duvidar: a minha própria existência.
A apreensão intuitiva da existência mostra-nos como esta é indissociável do próprio
pensamento. Deste modo, a natureza do sujeito consiste no pensamento. O pensamento
refere-se a toda a atividade consciente. O eu é uma coisa pensante. Escreve Descartes
que o sujeito é <uma coisa que pensa, quer dizer, que duvida, que afirma, que nega, que
conhece poucas coisas, que ignora muitas, que quer, que não quer, que também imagina
e que sente>.
Além disso, o pensamento é o atributo essencial da alma (substância pensante), a qual é
distinta do corpo e é conhecida antes dele e de tudo o resto, de forma bastante mais fácil,
ao contrário daquilo que os preconceitos nos costumam sugerir. Neste momento, ainda
não sabemos sequer se o corpo existe ou não.
O esquema seguinte sintetiza as características do cogito.
Do cogito a Deus
Apesar de evidente, o <Penso, logo existo.> constitui uma certeza subjetiva, uma crença do
sujeito acerca de si próprio. ora, o cogito não é suficiente para garantir que temos um corpo
ou que existe um mundo exterior e independente do nosso pensamento. Com efeito,
embora possua um critério de verdade, o sujeito pensante, limitado imperfeito, embora
possua um critério de verdade, o sujeito pensante, limitado e imperfeito, é incapaz, por si
só, de garantir a verdade objetiva daquilo que pensou com clareza e distinção.
Por outro lado, ainda não afastamos a hipótese da existência do génio maligno ou deus
enganador.Se excetuarmos o caso do cogito, nada impede que uma divindade enganadora
ou malévola me leve a tomar como claro e distinto algo que não é verdadeiro. O sujeito
pode conceber algo muito clara e distintamente e isso ser falso. Necessitamos, pois, de
e demonstrar a existência de um Deus que não nos engane, que traga segurança e seja
garantia das verdades, ultrapassando ○ solipsismo e afastando de vez qualquer ameaça
e do ceticismo radical.
Partamos das ideias que estão presentes no sujeito pensante. O que são ideias? As ideias
são atos mentais (ou modos de pensamento) e representações, quadros ou imagens
das coisas. Elas possuem um conteúdo que representa alguma coisa. No seguinte
esquema estão indicadas essas ideias, segundo a classificação avançada por Descartes.
As ideias inatas são aquelas a partir das quais se irá construir o edifício do conhecimento.
O texto que se segue sublinha a importância destas ideias.
Entre as ideias inatas que possuímos encontra-se a ideia de ser perfeito (ou a ideia de
perfeição) -um ser omnisciente, sumamente inteligente, infinito, eterno, independente,
omnipotente, sumamente bom e criador de toda a realidade.
Ao comparar-se com o conteúdo de tal ideia, o sujeito pensante reconhece que é imperfeito.
De resto, existe maior perfeição em conhecer do que em duvidar.
A ideia de ser perfeito servirá de ponto de partida para a investigação relativa à existência
do ser divino. De um modo resumido, o esquema que se segue apresenta os argumentos
com que Descartes procurou provar a existência de Deus.
Provas da existência de Deus:
1. A ideia de ser perfeito que representa uma substância infinita, implica uma causa
Ora, uma causa deve ser pelo menos tão perfeita como o seu efeito. Por isso, a
causa daquela ideia deve ser perfeita, ou seja, terá de ser Deus, que possui todas
as perfeições representadas nessa ideia.
2. Na ideia de ser perfeito estão compreendidas todas as perfeições; a existência é
uma dessas perfeições (ou um dos aspetos da perfeição divina). O existir é inerente
à essência de Deus. Deus não pode ser pensado como não existente. A sua
existência apresenta um caráter necessário e eterno.
Sendo perfeito, Deus é bom e não é enganador, pelo que nos encontramos libertos da
dimensão hiperbólica e mais corrosiva da dúvida. A hipótese do deus enganador ou génio
maligno encontra-se agora esvaziada de toda a sua eficácia.
Deus é a garantia da verdade das ideias claras e distintas, ou seja, uma vez que Deus
existe e é perfeito, tudo aquilo que concebemos clara e distintamente é necessariamente
verdadeiro.
Podemos, assim, confiar nas nossas ideias claras e distintas (estejam ou não atualmente
presentes à consciência), nos nossos argumentos e demonstrações que as tomam
como premissas e nas nossas faculdades racionais, que recebemos de Deus. Estas não
nos induzem em erro, desde que as apliquemos corretamente.
Sendo criador das verdades eternas, a origem do ser e o fundamento da certeza, só
Deus pode conferir valor à ciência e objetividade ao conhecimento. Deus é ◦ princípio do
ser e da verdade.
Além disso, Deus é também infinito, a fonte do bem e, embora sendo o criador do Universo
não é autor do mal, nem é responsável pelos nossos erros - que decorrem de um mau uso
da liberdade.
Uma vez provada a existência de Deus, Descartes irá deduzir muitas verdades, provando
igualmente a existência do corpo e de um mundo exterior, independente do pensamento
confiando no critério da clareza e distinção, e apoiando-se na certeza de que Deus não
o engana. Poderá, assim, construir o edifício do conhecimento e superar todos os
argumentos dos céticos radicais.
Deste modo, para Descartes fundamento do conhecimento encontra-se no cogito, enquanto
crença básica ou fundacional e primeira verdade, e noutras ideias claras e distintas da
razão, obtidas de modo intuitivo.Trata-se de um fundacionalismo racionalista.
Apesar de, para Descartes, o fundamento do conhecimento se encontrar nas crenças
básicas da razão, só Deus é que permite construir o edifício do conhecimento, visto que só
ele, sendo o princípio de toda a realidade e a origem da razão, pode ser garantia de
verdade, ao mesmo tempo que é o criador das ideias inatas, claras e distintas.
Críticas a Descartes
A perspetiva cartesiana está sujeita a algumas críticas. Ainda em vida do autor, várias foram
as objeções colocadas a Descartes a que ele próprio tentou responder. Analisemos algu
mas das objeções mais frequentes à sua filosofia, precedidas de um esquema que
enquadra.
A primeira objeção refere-se ao cogito. Sugerem os críticos que Descartes apenas poderia
ter intuído a existência do pensamento e não a de um eu pensante. Por exemplo,
Georg Christoph Lichtenberg (1742-1799) referiu que dizer "Penso." é afirmar demasiado,
Pelo menos no contexto da dúvida, Descartes não tem ◦ direito de nomear um "eu" que
ęstá a pensar. O que ele poderia adequadamente afirmar é que "há um pensamento em
curso". Deveríamos, pois, dizer "há pensamento", sem afirmar a existência de um eu pen-
sante, tal como dizemos "troveja", sem afirmar a existência de uma "coisa" que troveja,.
A segunda objeção é o chamado "círculo cartesiano". Descartes terá incorrido num argu-
mento circular ou petição de princípio: só podemos saber que as nossas ideias claras e
distintas são verdadeiras se primeiro soubermos que Deus existe e não é enganador, mas
só podemos provar que Deus existe e não é enganador se raciocinarmos a partir de ideias
claras e distintas, que confiamos serem verdadeiras. Isto pode ser dito de outro modo: sem
o conhecimento prévio da existência de Deus não temos, em princípio, qualquer motivo
para confiar no nosso intelecto ou razão; todavia, temos necessidade de confiar no inte-
lecto ou razão para provar a existência de Deus.
Outras objeções dizem respeito à ideia de ser perfeito (a ideia de Deus)., Alguns críticos,
como Thomas Hobbes (1588-1679), chegaram ao ponto de negar que tenhamos qualquer
ideia que corresponda à natureza de Deus. Também poderá discutir-se se é necessário que
a ideia de ser perfeito tenha sido causada por um ser perfeito. Afinal, podemos tê-la
formado por oposição à ideia de ser limitado, finito e imperfeito. Por outro lado, uma vez que
a hipótese do génio maligno ainda não foi afastada, Descartes pode estar a ser enganado
por esse génio ao tentar demonstrar a existência de Deus a partir da ideia de ser perfeito.
Hume, a resposta empirista
Descartes privilegiava a razão e ◦ conhecimento a priori, David Hume, pelo contrário,
privilegia a experiência e o conhecimento a posteriori e admite que a capacidade cognitiva
do entendimento humano limitada. É na experiência, ou nas impressões dos sentidos, que o
fundamento do conhecimento deve ser procurado.
Impressões e ideias
Hume sustenta que, se fosse possível atingi-la (ele pensava que não o era), a dúvida uni-
versal recomendada por Descartes seria incurável - e nunca ◦ poderia conduzir a qual-
quer certeza. Mesmo que ela ◦ conduzisse a um princípio original como ◦ cogito, não se
poderia avançar um passo para além dele, exceto usando aquelas mesmas faculdades das
quais supostamente já desconfiamos.
Segundo Hume, Descartes não encontrou um fundamento para o conhecimento capaz de
refutar os céticos radicais. Teremos, pois, de partir da experiência e não da razão. Ao racio-
nalismo de Descartes, para quem a razão é a fonte principal de conhecimento, Hume opõe
a sua perspetiva empirista, segundo a qual ◦ conhecimento deriva fundamentalmente da
experiência, tendo todas as crenças e ideias uma base empírica, até as mais complexas.
As nossas perceções - os conteúdos da nossa mente - são classificadas por Hume
segundo o critério do grau de força e vivacidade com que afetam a mente.De acordo com
o este critério, as perceções que apresentam maior grau de força e vivacidade designam-se
por impressões, podendo estas ser externas ou internas. Nelas se incluem não só as
sensações, como também as emoções e as paixões, quando vemos, ouvimos, sentimos,
amamos, odiamos, desejamos ou queremos.
As ideias ou pensamentos são as perceções menos intensas, fortes e vivas. Elas são a
representações das impressões, ou seja, são as imagens enfraquecidas das impressões
nunca alcançando vivacidade, intensidade e força iguais às destas últimas. O pensament
mais vivo é, inclusive, inferior à sensação mais baça.
Podemos compreender esta diferença recorrendo a dois exemplos: uma impressão é a
perceção visual da cor de uma flor,uma ideia é a memória dessa sensação. Uma impressä
é a sensação de dor provocada por uma queimadura; uma ideia é a lembrança dessa
sensação de dor ou a sua antecipação através da imaginação.
Que relação existe entre impressões e ideias? As ideias derivam ou são produto das
impressões. As nossas ideias (ou perceções mais fracas) são, de modo direto ou indireto,
cópias das nossas impressões (ou perceções mais intensas). É o chamado princípio da
cópia: Não podem, pois, existir ideias para as quais não tenha havido uma impressão pré-
via.Se as ideias são cópias das impressões e são causadas por estas, então não existem
ideias inatas.
Embora o nosso pensamento pareça possuir uma liberdade ilimitada, ele encontra-se
confinado dentro de limites muito estreitos. O poder criativo da mente exerce-se apenas
sobre os materiais que nos são fornecidos pelos sentidos e pela experiência.
As impressões e as ideias podem ser divididas em simples e complexas. O esquema que
se segue efetua a diferenciação entre umas e outras.
As ideias simples derivam das impressões simples correspondentes e representam⁃nas de
modo exato, mas muitas ideias complexas (formadas, por exemplo, na imaginação) não têm
qualquer impressão que lhes corresponda. Por outro lado, muitas das impressões
complexas nunca são exatamente copiadas em ideias, ou seja, as ideias em causa não são
cópias exatas dessas impressões.
Se não pudermos indicar a impressão correspondente a uma determinada ideia, então
estamos perante uma ficção - embora também as ficções tenham por base, em última
instância, as impressões, uma vez que são ideias construídas a partir delas.
Por exemplo, a ideia de Deus, como nos diz o texto anterior, deriva da reflexão sobre as
operações da nossa própria mente e de elevarmos, sem limite, as qualidades de bondade e
sabedoria. Nenhum objeto da experiência sensível lhe corresponde.
As ideias e as impressões são os elementos do conhecimento, e não há conhecimento
fora dos limites impostos pelas impressões.
Modos de Conhecimento
Hume distingue dois modos ou tipos de conhecimento: o conhecimento de relações de
ideias e o conhecimento de questões de facto.
Se afirmarmos, por exemplo, que o todo é maior do que as suas partes, que 7 + 5 = 12 ou
que uma casa amarela tem cor, estamos a produzir enunciados independentes dos factos,
daquilo que acontece no mundo, da existência ou não do todo, das partes, dos números
7,5, 2, ou de casas amarelas.
Estas proposições verdadeiras referem-se à relação entre as ideias em causa. A relação
entre essas ideias é independente da experiência e dos factos, embora elas não deixem
de derivar da experiência. O valor de verdade dessas proposições não está dependente do
confronto com a experiência, sendo estabelecido pela simples operação do pensamento
através da análise do significado dos conceitos ou dos termos usados.
Tais proposições, sendo evidentes, expressam verdades necessárias - verdades que
nunca poderiam ter sido falsas, ou que são verdadeiras em todos os mundos possíveis,
Negar essas proposições implica uma contradição. É logicamente contraditório negar
que 5+5=20:2.
Estamos perante conhecimento a priori. Assumem estas características, sobretudo, Os
conhecimentos da lógica e da matemática (geometria, álgebra, aritmética), incluindo,assim,
todas as afirmações que sejam certas de modo intuitivo ou demonstrativo/dedutivo.
Ora, são diferentes as caracteristicas do conhecimento de factos.Se afirmo que estou a
estudar, que chove ou que a Terra gira em torno do seu próprio eixo, estou a apresentar
enunciados relativos a factos e cuja justificação se encontra na experiência sensível, nas
impressões. O valor de verdade destas proposições só pode ser determinado recorrendo à
experiência. Tais proposições expressam verdades contingentes - verdades que poderiam
ter sido falsas, caso as coisas do mundo tivessem sido diferentes. Negar essas proposições
não implica uma contradição. Declarar que O Sol não Composto de hidrogénio não implica
contradição. Não é logicamente contraditório negar uma afirmação relativa a factos.
Tendo todas as ideias uma origem empírica, não dispomos de conhecimentos a priori
sobre o mundo. O conhecimento a priori nada nos diz acerca do mundo, acerca daquilo
que existe e acontece.
Fim.