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Textos para Seletiva de Teatro

O documento apresenta uma lista de textos para uma seletiva de teatro, incluindo peças clássicas e contemporâneas com diferentes composições de personagens. Cada texto é identificado por um número e contém informações sobre o autor e a quantidade de personagens envolvidos. As peças variam em temas e estilos, refletindo a diversidade do teatro.

Enviado por

Amanda Safira
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Textos para Seletiva de Teatro

O documento apresenta uma lista de textos para uma seletiva de teatro, incluindo peças clássicas e contemporâneas com diferentes composições de personagens. Cada texto é identificado por um número e contém informações sobre o autor e a quantidade de personagens envolvidos. As peças variam em temas e estilos, refletindo a diversidade do teatro.

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Textos para Seletiva de Teatro

01) O DIÁRIO DE ANNE FRANK (1 CASAL)


04) A MORTE DE DANTON (2 HOMENS)
05) FIGARO (1 CASAL)
07) O DELATOR (1 CASAL)
09) ATOR – MENTADO (1 HOMEM)
13) NO NATALA GENTE VEM TE BUSCAR (2 MULHERES)
15) DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA (2 HOMENS)
19) A MULHER SEM PECADO (1 CASAL)
28) WOYZECK (1 CASAL)
29) LUA NUA 1 CASAL)
30) ALBUM DE FAMÍLIA (2 MULHERES)
31) ELES NÃO USAM BLACK TIE (2 MULHERES)
32) ENTRE QUATRO PAREDES (1 CASAL)
33) BODAS DE SANGUE (1 CASAL)
34) GOTA D’ÁGUA (1 CASAL)
35) LEMBRANÇAS DA CHINA (1 CASAL)
36) MADEMOISELLE CHANEL (1 MULHER)
39) ÓPERA DO MALANDRO (1 CASAL)
40) CASA DE BONECAS (1 CASAL)
43) SOBRE A INFANTICIDA MARIA FARRAR (1 MULHER)
44) A ESTRELA DA CANÇÃO (1 MULHER)
45) AMÁLIA, ESTRANHA FORMA DE VIDA (1 MULHER)
46) MONÒLOGO DAS MÃOS (1 HOMEM ou 1 MULHER)
47) POEMA DO MENINO JESUS (1 HOMEM ou 1 MULHER)
48) O TEATRO RADICAL ( 1 HOMEM OU 1 MULHER)
49) AMOR (1 MULHER)

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50) PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM (1 MULHER OU HOMEM)
51) MONÓLOGO PARA UMA ÚNICA PERSONAGEM (1 MULHER OU HOMEM)
52) LAÇOS DE SANGUE (1 MULHER)
53) O QUE HÁ DE NOVO, BETTE DAVIS? (1 MULHER)
54) RASGA CORAÇÃO (2 HOMENS)
55) RETIRO DOS SONHOS (1 CASAL)
56) RODA VIVA (2 MULHERES OU 1 CASAL)
57) O ÚLTIMO ENCONTRO (1 CASAL)
58) A RESISTÊNCIA (1 CASAL)
59) PEGA FOGO (1 MULHER)
60) A DAMA DAS CAMÉLIAS (1 CASAL)
61) O ABAJOUR LILÁS ( 1 CASAL)
62) CORDÃO UMBILICAL ( 1 CASAL)
63) A PARTILHA (2 MULHERES)
64) A SERPENTE (1 CASAL)
65) O CASAMENTO SUSPEITO ( 1 CASAL)
66) O CAVALINHO AZUL (2 HOMENS)
67) UMA CONSULTA ( 1 CASAL)
68) BRASIL S/A (DOIS HOMENS)
69) DIA DE ESTRELA (1 CASAL)
70) O MILAGRE NA CELA ( 1 CASAL)
71) A ESCADA (2 MULHERES)
72) O SANTO INQUERITO ( 1 CASAL)
73) A MORATÓRIA (1 CASAL)
74) A BULA (1 CASAL)
75) A VISITA DA VELHA SENHORA (1 CASAL)
76) VOLTA AO LAR (2 HOMENS)
77) ARLEQUIM SERVIDOR DE DOIS AMOS ( 1 CASAL)
78) O ARQUITETO E O IMPERADOR DE ASSÍRIA ( 2 HOMENS)
79) É (1 CASAL)
80) REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO SUL (1 CASAL)
81) O RELACIONAMENTO (1 CASAL)

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O DIÁRIO DE ANNE FRANK

de: Francis Goodrich e Albert Hackett


Personagens:
Peter
Anne

(1 casal)

A: Peter, sabe que a Senhora Van Daan disse? Que eu não devia vir no teu quarto, que no tempo dela as moças
não andavam atrás dos rapazes. (uma pausa. Ele a olha ela se senta perto dele) Você gosta de minha irmã, não
é? Você gostou dela assim que a conheceu. De mim, não.

P: Não sei.

A: Não faz mal. Ela tem bom gênio, é alegre, é bonita. Eu não.

P: Ora, não é isso.

A: Sei muito bem. Sei que não sou bonita e nunca serei.

P: Eu acho você bonita.

A: Mentira.

P: Você mudou; não é como antes.

A: Como?

P: Você está...não sei...mas quieta.

A: Acho que quando sair daqui você nem vai mais pensar em mim.

P: Isso é bobagem.

A: Quando você voltar para junto de seus amigos, dirá: não sei que graça achei naquela bobinha.

P: Não tenho amigos.

A: Ora, Peter, todo mundo tem.

P: Menos eu.

A: Pensei que eu fosse sua amiga.

P: Você é diferente; se todos fossem iguais a você...

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A: (O Hannukah cessa aqui. Depois de uma pausa) - Peter, você já beijou alguma menina?

P: Uma vez.

A: Era bonita?

P: Não sei. Foi numa festa. Foi naqueles jogos de prendas.

A: Ah, então não vale, não é?

P: Acho que não.

A: Já me beijaram duas vezes. Uma vez foi um homem que eu não conhecia; eu tinha caído na neve, estava
chorando e ele me levantou do chão. Outra vez um amigo de papai me beijou a mão. Também não vale, não é?

P: Também, não.

A: Eu também acho; minha irmã jamais beijaria alguém se não fosse noiva dele. E sei que mamãe também
nunca beijou outro homem além de papai. Mas eu não sei... está tudo tão mudado. Você não acha? É tão difícil
a gente saber o que tem de fazer quando o mundo inteiro está caindo aos pedaços... ninguém sabe como será o
dia de amanhã... Diz!

P: Depende muito da pessoa (O carrilhão começa a bater nove horas) - Não sei, mas acho que quando duas
pessoas...

A: Nove horas, tenho de ir.

P: É.

A: Boa noite.

P: Boa noite. Não deixe de vir amanhã.

A: Não. Acho... acho que vou trazer o meu diário. Escrevi uma porção de coisas sobre você.

P: Bem ou mau?

A: Você vai ver. Eu... eu antes não ligava muito para você.

P: Você mudou ao meu respeito, como eu mudei com você?

A: Eu... você vai ver.

(Pausa. Eles se olham, depois ele a beija. Ficam abraçados enquanto o relógio bate nove horas).

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4
A MORTE DE DANTON

De: Büchner
Personagens:
Danton
Lacroix

(2 homens)

L: Fizeste melhor figura no tribunal do que aqui na cadeia Danton. Gritastes bem no tribunal: “com o ouro dos
ricos minha voz forjou armas para o povo. Alimentei a cria recém nascida da Revolução com as cabeças
decepadas dos aristocratas.” Foi brilhante, Danton.

D: Não vou morrer menos por isso Lacroix.

L: Mas é a glória eterna, Danton. Durante séculos representarão essa cena com você como herói.

D: Prepare-se você também. Glória ou não glória já ouço os passos do carrasco; Vem buscar nossas brilhantes
cabeças.

L: Eles tem medo de você, Danton; por isso te matam.

D: Gostaria de ter agora tranquilidade.

L: A tranquilidade está em Deus. Já a terás.

D: Para mim não há Deus nem tranquilidade, eu sou ateu.

L: Eu não queria morrer.

D: Também não quero morrer Lacroix! Não podemos desaparecer! Temos de gritar! (Grita) Eles terão que
arrancar cada gota de meu sangue, uma a uma.(Pausa) Eu queria morrer de outra maneira; sem fadiga, sem dor,
assim como cai uma estrela, como expira um som, matar-me com beijos de meus próprios lábios, morrer como
morre um raio de luz em águas límpidas, (Ouve-se um ruído) Quem vem lá?

L: O carrasco. (Pausa) Transformamos a liberdade numa puta que anda de mão em mão.

D: A liberdade e a puta são as coisa mais cosmopolitas debaixo do sol. Agora a liberdade vai dormir no leito de
Robespierri. Mas esse não tem mais que seis meses de vida, logo nos seguirá.

L: Que importa agora? Nós todos podíamos ter sido amigos, podíamos ter rido juntos...

D: Quando um dia a História abrir nossas sepulturas, o despotismo ficará sufocado com mal cheiro de nossos
cadáveres.

L: Façamos uma cara digna para a posteridade. É chegada a nossa hora. Vamos, Danton, coragem! As rodas da
carroça que nos leva à guilhotina abrem as estradas por onde os inimigos vão penetrar no coração da França. é
a ditadura. Rasgou-se o véu, levanta a cabeça, marcha sobre nossos cadáveres.

D: (depois de longa pausa, levanta a cabeça e canta baixinho)


Allons enfants de la patrie...
L: Le jours de gloire est arrivé...
D e L: Contre nous de la tyrannie
L’etendard sanglant est levé
L’etendard sanglant est levé

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5
FIGARO

De: Beaumarchais.
Personagens:
Figaro
Linda

(1 casal)

F: Dezenove pés por...vinte e seis (andando como se estivesse medindo uma sala)

L: Ouve Figaro noivinho querido; fico bem assim? (experimentando a flor de laranjeira)

F: Linda meu amor; essa flor de laranjeira em tua fronte, na manhã de nossas núpcias, é uma visão de doçura e
encanto para o teu esposo enamorado (dá-lhe um beijo e depois continua a medir)

L: Que é que você tanto mede?

F: Estou vendo se a magnifica cama que o Conde nos deu de presente cabe aqui.

L: Neste quarto?

F: Ele nos deu também esse quarto.

L: E quem vai dormir aqui? Eu não!

F: Pela virgem! As pessoas que não ambicionam nada e não arriscam nada, não serve para nada! Este é o quarto
mais confortável do palácio. Está exatamente junto dos aposentos do Sr. Conde e da Sra Condessa. Assim, se a
Condessa se indispõe às duas horas da manhã, - Zás! - Em um salto estas lá. E se à noite o Sr. Conde deseja
alguma coisa, - Crac! - Em três saltos, eis-me diante dele.

L: Mas se de manhã bem cedinho ele te manda levar um recado bem longe, - Zás! - Em três saltos está na minha
porta e - Crac! - em um salto está na minha cama.

F: Que queres dizer com isso?

L: Que, meu bom amigo, o Sr. Conde cansado de namorar todas as beldades das redondezas, deseja voltar para
o castelo, para o lar... mas não para o seu quarto. Compreendes! (Cara espantada de Figaro) - Tu pensavas, meu
divino amor, que o dote que ganhamos foi por tua bela cara? (Cara imbecil de Figaro) Pois saiba, meu bom
amigo, que o dote era para que eu concedesse ao Conde um pequeno quarto de hora; o direito das primícias dos
antigos senhores!

F: Por isso foi abolido! Se o próprio Conde não tivesse abolido essa...sórdida...prerrogativa de seus
antepassados, eu não me casaria contigo em seus domínios.

L: Bem, se aboliu, já desaboliu de novo. E é com a tua noivinha que deseja fazer voltar a lei secretamente.

F: Assim o libertino deseja hoje o que a cerimonia só permitirá a mim amanhã? O sacripanta! E eu que agora
mesmo o surpreendi no quarto de Frasquita!

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L: Se é que não foi você o surpreendido!

F: E tal a minha fúria que sinto estalar-me a testa! (Põe a mão na testa)

L: Não diga isso a ninguém! Pois a gente que é agoureira dirá logo que isso é...

F: Tu te ris? Pois bem! Já estou pensando num jeito de enganar um enganador e agredi-lo com os chifres com
o que me presenteia. Vem cá, dá-me um beijo para aguçar o meu engenho. (Beijam-se: e ela sai) - Ah, Sr.
Conde! Sr, Conde! Quer então que eu tome mulher para saciar a sua gula!? Eu já não entendia porque, me
tomando como criado, vossa senhoria me tratava como embaixador. Quer dizer que enquanto eu corro por um
lado, o Sr. empurra minha mulher pelo outro? Enquanto eu me mato feito louco para conforto e bem estar da
sua família, Vossa excelência se interessa pelo crescimento e multiplicação da minha? Que generosa
reciprocidade! Que f...que f... Ah, deixa pra lá.

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7
O DELATOR

De: Bertolt Brecht


Personagens:
Pai
Mãe

(1 casal)

M: Onde está Klaus? Klaus! Onde é que se meteu esse menino?

P: Por que você está tão nervosa? Só porque o menino saiu?

M: Eu não estou nervosa. Você é que está nervoso. Anda tão desconfiado...

P: Estou o que sempre fui, mas o que tem isso a ver com a saída do menino?

M: Você sabe como são as crianças. Ficam ouvindo tudo.

P: E dai? O que é que tem?

M: O que é que tem? E se ele contar? Você sabe que na Juventude Hitlerista, eles tem que contar tudo. O
estranho é que ele saiu de mansinho.

P: Ora que bobagem!

M: O que ele teria ouvido de nossa conversa?

P: Ele não dirá nada. Ele sabe o que acontece aos que são denunciados.

M: E que é que tem isso? O filho do vizinho não delatou o próprio pai? Ele ainda não saiu do Campo de
Concentração.

P: Deixa disso. Você está se alarmando à toa.

M: Você disse que os jornais mentem. Você falou sobre o Quartel General. Não devia ter falado. Klaus é tão
nacionalista.

P: Mas o que foi que eu disse, precisamente?

M: Já se esqueceu? Você falou de certas sujeiras lá dentro.

P: Bem, isso não pode ser interpretado como um ataque. Eu disse que nem tudo é limpo lá dentro. Não, fui até
mais moderado, eu disse que nem tudo é completamente limpo lá dentro. Isso faz diferença. Eu disse: pode ser
que nem tudo seja completamente limpo, lá. O completamente suaviza a palavra limpa. Foi assim que eu
formulei: Pode ser. Não quer dizer que seja.

M: Você não precisa me dar todas essas satisfações.

P: Eu gostaria de não ter que dar. Mas sei lá o que você é capaz de transmitir por aí do que se conversa aqui em
casa? Não estou acusando você de nada e nem acho que o menino é um delator. Mas...

M: Você quer parar com isso? Você está dizendo que não se pode viver na Alemanha de Hitler.

_ 8
P: Eu não disse isso!

M: Você age como se eu fosse a Gestapo! O que me aflige é o que Klaus possa ter ouvido.

P: A expressão Alemanha de Hitler não está no meu vocabulário.

M: Essas afirmações só pode prejudicar um espírito infantil. E o Führer não se cansa de dizer: “O futuro da
Alemanha está na sua juventude”. O meu filho não é um delator!

P: Mas é vingativo.

M: Mas, agorinha mesmo eu dei vinte centavos a ele. Eu lhe dou tudo o que me pede...

P: Isso é suborno.

M: Como suborno?

P: Se houver qualquer coisa vão dizer que tentamos suborna-lo para ele não dizer nada.

M: O que você acha que eles podem fazer contra você?

P: Tudo! Não há limite para o que eles possam fazer.

M: Mas não há nada contra você.

P: Há sempre qualquer coisa contra todo mundo.

M: Karl, não perca a coragem. Você deve ser forte, como o Führer sempre...

(Um toque de telefone. Eles se abraçam aterrorizados e ficam olhando para o ponto de onde vem o som. Dois
toques; três. Mãe faz um movimento)

M: Atendo?

P: Não sei. Espere.

(Eles aguardam um quarto toque)

P: Se tocar de novo nós atendemos.

(Pausa. Silêncio. Depois de um tempo o pai fala)

P: Isso não é vida.

M: Karl.

P: Você me gerou um Judas. Senta à mesa do jantar e ouve. Toma a sopa e ouve. O delator!

M: Você acha que devemos nos preparar?

P: Você acha que eles vem agora?

M: Tudo é possível.

P: Ponho a cruz de ferro?

_ 9
M: Claro, claro. E botamos o retrato de Hitler em cima da escrivaninha, não é melhor?

P: Sim (a mãe começa a executar a ação quando o pai a interrompe) Espere! Se o menino disser que o retrato
não estava ai antes, é uma agravante. Será apontado como consciência de culpa. (Um ruído) Que barulho foi
esse? A porta!

M: Não ouvi nada. (Agora um ruído bem nítido)

P: Ouviu?

M: (Aterrada, abraçando-o) Karl.

P: Não vamos perder a cabeça. Vá la.

(A mãe sai. O pai fica sozinho aguardando. Ouve-se a voz da mãe)

M: Onde é que você se meteu?! Responda, Klaus! (uma pausa. Ela muda nitidamente de tom e depois pergunta
de novo, com a voz suave) Onde você andou até agora, meu filhinho?

(uma pausa. Ela volta e aos poucos vai recobrando uma expressão de tranquilidade e alívio. Fala.)

M: Ele disse... que foi comprar chocolate.

(Eles se olham e começam a sorrir. Correm um para o outro e se abraçam aliviados. Ai então a expressão dos
dois começa novamente a mudar e o pai, afastando-se da mãe, pergunta)

P: Será verdade?

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9
O ATOR - MENTADO

De :Rodrigo Rangel e Afonso Celso


Personagem:
Mauro Cristal ( ator recém-formado)

(1 homem)

CENA 1

Cenário : Um pequeno quarto em Botafogo, repleto de pôsters de atrizes


internacionais. Um lugar pobre e perceptivelmente adaptado para um ser humano morar.
Alguns fios entram por um buraco. Fios de telefone e “gatos de luz” que ligam numa
pequena geladeira e abajur. O cenário deverá ter nele mesmo opções de mudanças para que
as cenas seguintes, que serão em outros locais, possam aproveitar os objetos deste cenário
inicial. A peça é concebida para dois atores atuarem, fazendo vários personagens e
mudando os cenários.
Mauro está dormindo num colchonete no chão. Toca o telefone e Mauro dá um pulo da cama,
assustado, mas não atende. O telefone é atendido em outra extensão. Mauro acorda e começa a se
arrumar. O quarto e o pijama de Mauro, devem ser bem frescos e extravagantes para gerar riso na
platéia. É um quarto afeminado. Mauro começa a se alongar, aquecer a voz e se vestir estilo hippie. O
telefone toca mais uma vez, ele leva outro susto, mas não atende , após alguns segundos, um grito : “
Mauro, é pra você!”, ele agradece e pega o telefone.

Mauro – É amigo ou é da família ??

Voz – Família.

Mauro – Alô ? Pai ?!? Oi , pai. Quê ? Tava ! Porque eu fui dormir tarde! Mas o que é que tem, pai, eu sou
ator, e ator dorme tarde, é boêmio, é obrigação de todo ator. Que acordar cedo que nada, pai. Ator que acorda
cedo tem que ficar na cama até às 11:00 horas mesmo sem sono. Por quê ? Porque sim, né pai, senão os outros
vão pensar que você não tá trabalhando, tá desempregado. Besteira nada, pai. Se fosse algum amigo ator meu
que ligasse, eu ia ter que atender assim : ( faz voz rouca de Sono) “ Alô, oi, sou eu. Não, eu já ia acordar
mesmo, é que ontem, depois do meu espetáculo, eu fiquei até às 4:30 conversando com um produtor sobre um
futuro projeto, mas já estou acordando, tenho gravação daquí a pouco”. Não pai, não tenho gravação hoje, eu
só estou dizendo como é que eu teria que fazer. Mas bom mesmo, porque , pai ? Quem me dera se eu tivesse
gravação hoje, é sempre mais uma graninha que entra. ,......que só faço figuração, pai ! Figurante não tem fala
e naquela cena que eu gravei na novela do ano passado, quando eu esbarrei no Antônio Fagundes, o meu
personagem virou e falou : “ DESCULPAS”!
Como não deu nem pra me ver, pai, até a velha que me aluga esse quarto aquí em Botafogo, me
reconheceu,..... voltar pra Pavuna ?, que nada , pai ! nunca mais vou trabalhar no seu boteco ! ( revirando os
olhos com desprezo) Pobreza !!!Deus me livre, pai. Eu já me decidi, agora, eu sou um artista. Não. Pai, não
vou, pai !!! Não !! Não !!! Não !!! AAAiiiiiiiiii!!!!!!!!!! ( grita ) Não !!!!!!!!!! Eu sou um A-T-O-R !!!......
Quê ? ...... Em várias coisas, pai,........ Não, novela, não!,....... vou estrear uma peça de teatro semana que
vem,......... talvez dê um curso,.....continuo na campanha do supermercado que eu já te disse,....talvez pinte
uns projetos quase certos aí,............Ah, tá bom, pai, eu não vou mais discutir, e agora me dá licença que eu
vou lá no Centro da Cidade fazer a filipetagem da peça que eu vou estrear, , vou aproveitar a hora do almoço.
Filipetagem, pai !!! É distribuir papéis que dão desconto para as peças,...ahn ?,....quer uma pra quê ? (tempo.
furioso) É peça de teatro, pai, não é peça de carro. Não enche, pai ! dá um beijo na mãe, e fala pra ela ficar de
olho nos jornais que vai sair uma divulgação super poderosa da minha peça, já está quase certa a matéria,
tchau !!!!

_ 11
( Desliga e começa a colocar uma maquiagem horrorosa, sem técnica nenhuma, nem nexo, se
preparando para a filipetagem. Vem para o proscênio, enquanto o cenário muda. Vai se maquiando, se
observando e conversando com o público.)

Nossa, que máximo que essa maquiagem está ficando. E tem gente que ainda me sacaneia do curso
de teatro que eu fiz no Colégio Bangu. Uma aula ótima, a gente aprendia de tudo um pouco. E o professor era
o máximo, nunca tinha feito um curso de teatro, mas sabia tudo sozinho de experiência de vida mesmo, como
ele dizia ; ”Teatro fala da vida, e vida a gente vive”, ele era um poeta mesmo, tanto que tinha isso até no nome
: SAULO POETA ! E que experiência em teatro ! Ele fez filipetagem de uma peça da Fernanda Montenegro,
trabalhou na produção de uma peça do Nanini, era ele que comprava os queijos e levava pro camarim, quando
o Nanini chegava, já estava tudo lá, prontinho. Cada história ele tinha ! Nossa que experiência em teatro, um
dia eu chego lá ! Ah, já ia me esquecendo, foi ele que segurou a escada pro iluminador colocar os refletores
no último espetáculo do Falabella, é um cara que está no meio mesmo !!! Mas como eu ainda não sou nenhum
Saulo Poeta , tenho que cuidar do meu ! Pronto, as pessoas vão adorar essa maquiagem, vão ser super
receptivas, vai ser uma divulgação ótima pra peça, depois eu aproveito e vou no teatro, pra fechar os últimos
detalhes da minha estréia ! O Mundo me espera, vocês ainda vão ouvir falar do meu nome : Mauro Cristal!!!
( sai com as filipetas e a horrorosa maquiagem)

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13
NO NATAL
A Gente Vem Te Buscar

De: Naum Alves de Souza

1° ATO
Personagens:
Solteirona
Mulher

(2 mulheres)

I – A VIAGEM

Música de Natal / Sons de Trem / Escurece / Clareia

A solteirona está sozinha, com malas. Chega mulher. Ela a observa.

( mulher espirra).

Solteirona: Saúde.

Mulher: Obrigada.

Solteirona: A senhora espirra igualzinho uma conhecida. Eu não conheço a senhora de algum lugar?

Mulher: Não que eu me lembre.

Solteirona: Estou tentando me lembrar. Tenho quase certeza. Eu nunca me esqueço da fisionomia de uma
pessoa. Vejo uma vez e já guardo.

Mulher: Eu não sou boa fisionomista. Nem tenho boa memória.

Solteirona: Minha mãe também não tinha. Ela era tão esquecida!

Mulher: Esquecida?

Solteirona: Sim, esquecida. Mas ela tinha pressentimentos. Sonhava com uma pessoa e acontecia o que ela
sonhava.

Mulher: Era espírita a senhora sua mãe?

Solteirona: Deus que me perdoe! Ela nem podia ouvir falar em espírita!

Mulher: Que é que espírita tem de pior que os outros?

Solteirona: Ela acabou de falecer, coitada.

Mulher: Para nós, espiritualistas, a morte tem um outro significado.

_ 13
Solteirona: Como é isso?

Mulher: A morte física é apenas um estado. O espírito não morre, continua se aperfeiçoando.

Solteirona: É verdade que as pessoas mortas podem aparecer?

Mulher: Existem muitos casos. Não é coisa para se ter medo.

Solteirona: Mas eu tenho muito medo. A senhora me desculpe.

Mulher: Eu não tenho. Acho muito bonito. Já conversei muitas vezes com pessoas mortas. Tenho mais medo
é dos vivos que estão soltos por aí fazendo maldades.

Solteirona: E a minha mãe? Ela também pode aparecer, falar, mesmo depois de morta?

Mulher: Claro que pode. Eu sou médium, posso tentar receber. Você gostaria de conversar com ela?

Solteirona: Deus que me livre e guarde.

Mulher: Tem medo da própria mãe? Que filha! Sábio é Deus que lhe deu o descanso em boa hora! Tem medo
da própria mãe!

Solteirona: Deus que me perdoe mas eu tenho muito medo. Ela também tinha. Estou com ânsia. Eu sou fraca
do estômago!

_ 14
15
Dois Perdidos Numa Noite Suja
De Plínio Marcos
Personagens:
Tonho
Paco

(2 homens)
Primeiro Quadro
Paco está deitado em uma das camas tocando muito mal uma gaita. De vez em quanto, para de tocar,
olha para seus pés, que estão calçados com um lindo par de sapatos, completamente em desacordo
com sua roupa. Com a manga do paletó, limpa os sapatos. Paco está tocando, entra Tonho, que não
dá bola para Paco, vai direto para sua cama, senta-se nela e, com as mãos a examina.

TONHO – Ei! Para de tocar essa droga.

Paco finge que não ouve.

TONHO – (gritando) Não escutou o que eu disse? Pára com essa zoeira.

(Paco continua tocando.)


TONHO – É surdo, desgraçado?

(Tonho vai até Paco e o sacode pelos ombros.)


TONHO – Você não escuta a gente falar?

PACO – (calmo) Oi, você está aí?

TONHO – Estou aqui para dormir.

PACO – E daí? Quer que eu toque uma canção de ninar?

TONHO – Quero que você não faça barulho.

PACO – Poxa! Por que?

TONHO – Porque eu quero dormir.

PACO – Ainda é cedo.

TONHO – Mas eu já quero dormir.

PACO – E eu tocar.

TONHO – Eu paguei para dormir.

PACO – Mas não vai consegui.

_ 15
TONHO – Quem disse que não?

PACO – As pulgas. Essa estrebaria está assim de pulgas.

TONHO – Disso eu sei. Agora eu quero que você não me perturbe.

PACO – Poxa! Mas o que você quer?

TONHO – Só quero dormir.

PACO – Então para de berrar e dorme.

TONHO – Está bem. Mas não se meta a fazer barulho.

(Tonho volta para sua cama, Paco recomeça a tocar.)


TONHO – Pára com essa música estúpida! Não entendeu que eu quero silêncio?

PACO – E daí? Você não manda.

TONHO – Quer encrenca? Vai ter! se soprar mais uma vez essa droga, vou quebrar essa porcaria.

PACO – Estou morrendo de medo.

TONHO – Se duvida, toca esse troço.

(Paco sopra a gaita. Tonho pula sobre Paco. Os dois lutam com violência. Tonho leva vantagem e tira
a gaita de Paco.)

PACO – Filho da puta!

TONHO – Avisei, não escutou, se deu mal.


PACO – Dá essa gaita pra cá.

TONHO – Vem pegar.

PACO – Porra! Deixa de onda e me dá essa merda.

TONHO – Se tem coragem, vem pegar.

PACO – Pra que fazer força? Você vai ter que dormir mesmo.

TONHO – Antes de dormir, jogo essa merda na privada e puxo a bomba.

PACO – Se você fizer isso, eu te apago.

TONHO – Experimenta.

PACO – Se duvida, joga.

TONHO – Jogo. E daí?

PACO – Então joga.

_ 16
TONHO – Você só tem boca-dura

PACO – É melhor você me dar essa merda.

TONHO – Não enche o saco.

PACO – Anda logo. Me dá isso.

TONHO – Não vou dar.

(Paco pula sobre Tonho. Esse mais uma vez leva vantagem. Joga Paco longe com um empurrão.)

TONHO – Ta vendo, palhaço? Comigo você só entra bem?


PACO – Eu quero minha gaita.

TONHO – Se você ficar bonzinho, amanhã de manhã eu devolvo.

PACO – Quero a minha gaita já.

TONHO – Não tem acordo.

(Pausa)
(Tonho deita-se, e Paco fica onde está, Olhando Tonho.)
TONHO – Vai fica aí me invocando?

PACO – Já estou invocado há muito tempo.

TONHO – Poxa! Vê se me esquece, Paco.

PACO – Então me dá a gaita.

TONHO – Você não toca?

PACO – Não vou tocar.

TONHO – Palavra?

PACO – Juro.

TONHO – Então toma. (Tonho joga a gaita na cama de Paco.) Se tocar já sabe. Pego outra vez e quebro.

(Paco limpa a gaita e a guarda. Olha o sapato, limpa com a manga do paletó.)

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A MULHER SEM PECADO

De Nelson Rodrigues
Personagens:
Lídia
Olegário

(1 casal)

LÍDIA - D. Aninha não quis a comida, meu filho? Inézia me disse!

OLEGÁRIO (com mau humor) - É. Não quis. Não quis agora, nem antes. Você precisa dar um jeito nisso.

LÍDIA (admirada) - Eu? Mas que jeito você quer que eu dê?

OLEGÁRIO (de mau humor) - Que jeito, ora!... Você podia interessar-se mais – que diabo! Mas não. Larga
tudo na mão da criada.

LÍDIA (magoada) - "Larga tudo na mão da criada", não! Eu não posso fazer mais do que faço.

OLEGÁRIO (irônico) - Ah, não pode!... Está bem. (noutro ttom) O que eu acho é que você, enfim, devia-se
lembrar que ela é minha mãe!

LÍDIA (com veemência) - Você pensa então que se ela não fosse sua mãe eu estaria sempre em cima? (noutro
tom, suplicante) Eu já disse a você, não disse, que às vezes não posso, fico nervosa? (com angústia) Ah,
Olegário! Tratar uma pessoa que não compreende, que passa todo tempo enrolando um paninho...
(exasperação) Aquele pano que ela enrola, aquele pano!..

OLEGÁRIO (sardônico) - Acho engraçado você. "Fico nervosa." (outro rom) Está bem. Um dia você vai ver
minha mãe morrer, aí, de inanição! Não come!

LÍDIA (com angústia) - Pelo menos, Olegário, pelo menos diga o que quer que eu faça. Sua mãe não quer
comer: o que eu devo fazer? Diga!

OLEGÁRIO (depois de uma pausa) - Está bem. Vamos esperar então. Daqui a pouco você tenta outra vez.

LÍDIA - Bem, meu filho. Vou mudar de roupa.

OLEGÁRIO - Acho graça dessa mania que você tem de me chamar "meu filho"!

LÍDIA (com um suspiro) - Há algum mal nisso?!

OLEGÁRIO - Mal, mal, não há. (outro tom) Mas eu não gosto. Isso devia bastar!

LÍDIA (contendo-se) - Você agora se aborrece com as mínimas coisas! Ah, meu Deus!

OLEGÁRIO (impaciente) - Não é se aborrecer! (sardônico) Interessante isso. Você não quis ter filhos, e
quando acaba cisma de ser maternal comigo!

LÍDIA (nervosa) - Parece mentira. Tudo porque eu disse "meu filho". Está bem. Nunca mais chamarei você
de meu filho...

OLEGÁRIO - Isso é um vício em você. Outra coisa...

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LÍDIA. - O quê?

OLEGÁRIO - Você deu para me chamar "meu filho" depois que eu fiquei assim. Foi, sim!

LÍDIA - Que bobagem, Olegário!

OLEGÁRIO - Bobagem, eu sei!

(Silêncio. Os dois se olham. Olegário impulsiona a cadeira para mais perto de Lídia.)

LÍDIA - Ah, uma coisa, Olegário. Por que é que você não chama outro médico? Mamãe disse que tem um tão
bom!...

OLEGÁRIO - Não interessa. Para que outro médico? Já não tenho um?

LÍDIA - Mas esse que você tem - esse seu amigo - é tão esquisito! Dizem até que bebe!...

OLEGÁRIO (impaciente) - "Bebe!" E o que é que tem isso? Pois olhe. Ele é melhor do que muitos que
andam por aí. E, além disso, minha filha, basta que eu tenha confiança nele. Eu é que sou o doente, não é?

LÍDIA - Está certo, Olegário, está certo. Mas você podia chamar outro - só pra ver! Não custa!

OLEGÁRIO (com exasperação) - É. Mas não quero! Basta um e eu estou satisfeito com o meu!

LÍDIA (resignada) - Está bem.

OLEGÁRIO (sombrio) - E, além disso, não adianta. Eu sei que nunca ficarei bom. O médico disse.
LÍDIA - Que não fica bom o quê! Você também é, Olegário!...

OLEGÁRIO (recordando-se) - Antes que eu me esqueça: você tem um primo Rodolfo, não tem?

LÍDIA - Tenho sim. Ele até assistiu ao nosso casamento.

OLEGÁRIO - "Assistiu ao nosso casamento". (entregando o telegrama) Ele mandou esse telegrama.

LÍDIA (queixosa) - Você sempre controlando as minhas coisas! Eu não me incomodo. Só acho que você não
tem confiança - nenhuma mesmo - em mim.

OLEGÁRIO (irônico) - Sei disso. Mas eu quero que você me explique: por que cargas d'água ele tem que dar
satisfações a você?

LÍDIA (surpresa) - Satisfações a mim?!

OLEGÁRIO (incisivo) - Satisfações a você, sim! "Parto amanhã." O que é que você tem com isso?

LÍDIA (nervosa) - Ora, Olegário, ora! (outro tom) Sou a única parente que ele tem no Rio! Eu, mamãe,
Maurício e você.

OLEGÁRIO (desabrido) - Eu, não! Tenha paciência! Não sou parente dos primos de minha mulher.

LÍDIA - Está bem, Olegário, está bem.

OLEGÁRIO (com irritação) - E no mínimo esse cavalheiro vai-se instalar aqui!


LÍDIA - Já começou você outra vez!

OLEGÁRIO (incisivo) - Outra vez, sim! (patético) Que posso fazer senão começar

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sempre?

LÍDIA - Mas que foi que eu fiz, meu Deus? Aponte uma coisa qualquer, ao menos isso.
(enérgica) Você não tem nada, nada, contra mim. Você não vê que isso até fica feio para você - feio?

OLEGÁRIO (irritado) - "Feio"! O que é que é "feio"? Como é imbecil a gente dizer
"fica feio"!

LÍDIA (desafiante) - Então acuse. Pronto! Acuse! Acuse, mas não me faça sofrer à toa! Você não me acusa
porque não pode. Minha vida não tem mistérios. Todo mundo sabe o que eu faço.
OLEGÁRIO - Você me desafia, hem?

LÍDIA (enérgica) - Desafio, sim!

OLEGÁRIO (sardônico) - Me desafia! Diz "minha vida não tem mistérios"! E eu ando atrás de você o tempo
todo? Sei lá pra quem você olha na rua? Estou dentro de você para saber o que você sente, o que você sonha?

LÍDIA (suspirando, dolorosa) - Ah, Olegário!


OLEGÁRIO - Você olha para mim com um olhar de mártir! Pois bem. Agora mesmo, neste minuto, você
pode estar-se lembrando de um amigo, de um conhecido ou desconhecido. Até de um transeunte. Pode estar
desejando uma aventura na vida. A vida da mulher honesta é tão vazia! E eu sei disso! Sei!

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MADEMOISELLE CHANEL

De: Maria Adelaide Amaral


Personagem:
Mademoiselle Chanel

(1 mulher)

Chanel: (Diante de um espelho) Envelheci... (olha-se longamente) O que me salva da decrepitude é este olhar
desesperado e faminto...(olha para o rosto) Meu olhar é opaco, minha boca é apenas um traço, uma fenda...(olha
para seu corpo) O meu corpo...! Seco como uma videira estéril... (respira longamente) A dureza do espelho me
devolve a minha própria dureza...é um combate cerrado entre ele e mim: será que algum espelho será capaz de
refletir a minha avidez, a minha incredulidade? (Volt6a-se angustiada)

Como eu odeio o crepúsculo!... Todos os dias a esta hora fico com o peito tão apertado!...(rápida) A vida inteira
foi assim, todas as pessoas que me amam sabem que eu fico muito angustiada no fim do dia! (reflete) Todas as
pessoas que me amam?...Quantas pessoas ainda me amam?...François. claro...François. Ele sabe que a esta hora
sou visitada pelos meus fantasmas, as memórias que acumulei irrompem da maneira mais tumultuada!
(angustiada) É como se a minha vida quisesse sair de mim! Como se tudo que eu vivi fosse demais e subitamente
explodisse diante dos meus olhos! E a imagem mais freqüente é a procissão de carros fúnebres: primeiro minha
mãe, depois minha irmã...em seguida Boy Capel, Iribe, quantos mais? Tantos...(apruma-se)

Preciso arrumar alguma companhia para esta noite... alguém que saiba me escutar , uma pessoa razoavelmente
inteligente ou bonita , de preferência as duas coisas juntas!... (sorri) Eu sou uma velha senhorita que cometeu
muitos pecados mortais e não há a menor razão para que me torne virtuosa, exceto talvez – a minha
idade...(desolada) Por que é inevitável que a velhice esteja sempre associada à solidão? E a solidão é tão penosa
para quem gosta de falar, para mim que sempre falei sem parar! (excitada) Eu não suporto pausas e silêncios,
esses momentos de tensão insuportável por onde se insinua este pavoroso sentimento de desolação!... (Com
algum desespero) Eu falo, falo o dia inteiro e pela noite adentro até minha voz ficar totalmente rouca, falo até
a exaustão, para não ouvir o silêncio, para não pensar naqueles que se foram, para tornar cada vez mais bela a
memória do tempo que passou! (tempo)

Por que está cada vez mais difícil encontrar alguém a quem possa falar?! Não estou me referindo a um
interlocutor, não! Eu sou otimista, mas nem tanto! Estou me referindo a alguém que apenas se limite a escutar...
Onde está aquela multidão que vivia à minha volta, aquele séqüito que não me deixava só em nenhum momento
do dia? Durante anos e anos, o único momento que dispunha para mim era a hora de dormir, e mesmo assim
quase sempre estava acompanhada! (nostálgica) É engraçado porque naquele tempo eu tinha fantasias de
isolamento...(triste) Hoje abomino meu isolamento, a solidão irreparável da velhice! (recompondo-se)

Eu gostaria tanto de ter uma companhia para esta noite...alguém que jantasse comigo e se divertisse com as
minhas histórias...! Talvez eu lhe dissesse o que nunca disse pra ninguém, talvez finalmente tivesse a coragem
de revelar a face oculta de Mademoiselle Chanel!... (sorri irônica) A face oculta, o lado escuro, a verdade, a
mazela – Não é isso que todo mundo está procurando? (ri)

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ÓPERA DO MALANDRO

de: Chico Buarque de Holanda


Personagens:
Lucia
Max

(1 casal)

Lúcia: (off) cadê aquele barba –azul de merda? (entrando) Ah, canalha, você me desonrou pra sempre! Na tua
sessão de tortura eu quero sentar na primeira fila!

Max: Lúcia, que surpresa!

Lúcia: Aplaudindo de pé e pedindo bis! O autor! O autor!

Max: Lúcia, você se esqueceu do meu beijo.

Lúcia: Que beijo!

Max: Falando sério, Lucia, você não tem entranhas? Teu pai vai me jogar no Guandu, Lúcia! Você não tem dó
da situação do teu marido?

Lúcia: Que marido! Pensa que eu não sei da Terezinha, pensa?

Max: Terezinha? Que Terezinha?

Lúcia: Ah, veado, quando você estiver pendurado no pau de arara eu vou mandar te capar!

Max: Lúcia, cuidado! Eu não sei porque você ta tão nervosa hoje. Só sei que nos primeiros meses de gravidez
isso é um perigo. Li num livro. O histerismo da gestante enrijece o colo uterino e afeta o desenvolvimento do
embrião.

Lúcia: Filho do cão!

Max: Juro, Lúcia, se há uma coisa no mundo que eu não posso perder é esse meu filho. (acaricia-lhe a barriga)
O primogênito, o herdeiro, o Max Júnior!

Lúcia: Tira a mão daí! Eu vou criar sozinha o filho adulterino, filho de mãe solteira...Oh, Max! (quase chora)

Max: Lúcia, Max Júnior vai ser a goma-arábica que nos manterá unidos para sempre. Ele vai consolidar nosso
matrimônio.

Lúcia: Ô patife, você sabe que eu sei que você sabe que eu sei do seu casamento com a Terezinha!

Max: Lá vem essa Terezinha de novo, porra! Parece ioiô!

Lúcia: E antes que você esbanje tudo na lua-de-merda, devolva os trinta contos que eu lhe emprestei!

Max: O que? Calúnia! Eu só troquei seu dinheiro em dólar por causa da inflação. Graças a mim os teus vinte
contos hoje são vinte e cinco.

Lúcia: quero os meus trinta contos! Meus não, do papai!

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Max: é claro, faço questão de te entregar tudo. Chega de fazer favor e receber desaforo. Só que tem que me tirar
daqui, porque ta tudo no City Bank. Eu não sou irresponsável de andar com dinheiro dos outros no bolso.

Lúcia: Faz um cheque!

Max: e eu venho à cadeia de cheque? Teu pai é perito em fazer nego assinar tudo quanto é confissão...Imagine
um cheque do city Bank! Eu fico bobo é com a tua tacanharia, Lúcia. Daqui a pouco eu começo a cobrar pelas
caixas de marrom-glacê que eu trago pra você devorar.

Lúcia: Olha pega os teus marrom-glacê e enfia no rabo da Terezinha Duran!

Max: Terezinha Duran! Ahhh, então a Terezinha era essa? Oh, baby, você não vai ser bobinha a ponto de ter
ciúme da Terezinha Duran, vai?

Lúcia: Vai dizer que não casou com ela, vai?

Max: Mulher já não prima pelo intelecto. Quando ta com ciúme então, ai é que emburrece de vez.

Lúcia: Vai dizer, vai?

Max: Há há há já sei! Só pode ser arranjo daquele velho safado! Ta com a filha encalhada na prateleira, o velho.
Daí, só porque eu fui lá vez e outra, tralalá, trololó, coisa e tal, o velho espalha boato de casório pra valorizar o
material.

Lúcia: Você tem papel passado em cartório que eu sei!

Max: Lúcia, eu já estou envolvido em vinte e nove processos. Ta querendo me enquadrar por bigamia também,
é?

Lúcia: To cagando, sabe o que é isso? Quero que você morra! Eu quero ver aquela galinha viúva, todinha de
preto. (sai)

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CASA DE BONECAS

de: Henrik Ibsen


Personagens:
Helmer
Nora

(1 casal)

Helmer: Mas separar-me! Separar-me de você! Não, não, Nora. Não posso aceitar essa idéia.

Nora: isso só aumenta a certeza de que precisa ser feito.

Helmer: Nora, Nora, ainda não! Espere até amanhã.

Nora: (vestindo o casaco) Não posso passar a noite com um desconhecido.

Helmer: Mas não podemos viver como irmãos?

Nora: (colocando o chapéu) Você sabe muito bem que isso não ia durar muito tempo. (põe o xale) Adeus,
Torvald. Não quero ver os meninos. Sei que eles estão melhor do que comigo. Como estou agora, não sirvo
para eles.

Helmer: Mas, algum dia, Nora, algum dia?

Nora: Como é que eu posso saber? Não tenho idéia do que vai acontecer comigo.

Helmer: mas você é minha mulher, haja o que houver.

Nora: Escuta, Torvald. Eu ouvi dizer que quando uma mulher abandona a casa do marido, como eu estou
fazendo agora, ele está legalmente livre de qualquer compromisso com ela. Você fica sem a menor obrigação,
assim como eu. Deve haver liberdade total de ambas as partes. Olhe, aqui está sua aliança, dê-me a minha.

Helmer: Isso também?

Nora: Isso também.

Helmer: Toma.

Nora: pronto, agora está tudo acabado. Eu deixei as chaves aqui. As crianças também sabem de tudo na casa,
melhor do que eu. Amanhã, depois de eu ter ido embora, Cristina vem aqui e empacota as minhas coisas, as que
eu trouxe de casa comigo. Depois eu mando buscar.

Helmer: Tudo acabado! Tudo acabado! Nora, você nunca mais vai pensar em mim?

Nora: Eu sei que vou pensar muito em você, nas crianças e nesta casa.

Helmer: Posso escrever para você, Nora?

Nora: Não, nunca. Nunca faça isso.

Helmer: Mas deixe que eu pelo menos lhe mande...

Nora: Nada. Nada.

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Helmer: Deixe que eu a ajude, se você precisar.

Nora: Não. Não posso aceitar nada de um desconhecido.

Helmer: Nora, eu nunca vou passar de um desconhecido para você?

Nora: (pensando) Ah, Torvald, o maior milagre de todos teria que acontecer.

Helmer: Diga o que seria isso!

Nora: Nós dois, você e eu teríamos que nos modificar a ponto de...Ah, Torvald, eu não acredito mais em
milagres.

Helmer: Mas eu vou acreditar. Diga? Teríamos que nos modificar a ponto de...

Nora: De poder fazer do nosso casamento uma verdadeira vida em comum. Adeus. (sai)

Helmer: (afunda-se na cadeira e esconde o rosto com as mãos) Nora! Nora! (olha em volta. Levanta-se) Vazio.
Foi embora (uma esperança passa pelo seu pensamento) O maior milagre de todos?...
(ouve-se o som de uma porta que bate lá embaixo)

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MONÓLOGO DAS MÃOS
De: Ghiaroni

-
Para que servem as mãos?
As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar,
admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar,
desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever......
-
As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do
famoso revolucionário; Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena; foi com as mãos
que Jesus amparou Madalena; com as mãos David agitou a funda que matou Golias; as mãos dos Césares
romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena; Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;
os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!
-
Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram. A mão serve para o herói
empunhar a espada e o carrasco, a corda; o operário construir e o burguês destruir; o bom amparar e o justo
punir; o amante acariciar e o ladrão roubar; o honesto trabalhar e o viciado jogar. Com as mãos atira-se um
beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! Com as mãos o agricultor semeia e
o anarquista incendeia!
-
As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura,
a arma que fere e o bisturi que salva. Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a
vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem
para o fundo como os peixes; no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.
-
O autor do "Homo Rebus" lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a
bebida; a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem. Esfregando dois
ramos, conseguiram-se as chamas. A mão aberta, acariciando, mostra a bondade; fechada e levantada mostra a
força e o poder; empunha a espada a pena e a cruz!
-
Modela os mármores e os bronzes; da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas
eternas da beleza. Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos medica as chagas,
conforta os aflitos e protege os fracos. O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o
melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade. O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; Jesus
abençoava com a s mãos; as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.
-
Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. Com as mãos
limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias. E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para
o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem. Quando nascemos, para nos levar a
carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.
-
E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as
mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.
E as mãos dos amigos nos conduzem...
E as mãos dos coveiros nos enterram!

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POEMA DO MENINO JESUS

De: Fernando Pessoa

Num meio-dia de fim de Primavera


Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.


Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir


E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,

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Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.


Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.


Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

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O TEATRO RADICAL

De: Antonio Ximenes

Atiçaram minha ira ao verticalizar minha cidade,


Os prédios estão barrando a brisa,
Agora o vento tem que fazer a curva para alcançar minha face,
Deixando minha raiva contorcer meu ventre e desfigurar meu sorriso.

A luz do holofote está mais fraca e não permite que eu seja reconhecido,
A minha pintura aborígene, as penas, as roupas rasgadas e a lama nos olhos,
O grito das palavras que não me pertencem agridem... tentam chocar,
O berro do texto decorado em delírios jogados na cara da platéia atônita.

Assumo a flatulência do próximo sem pudor ou hesitação:


Fui eu!
A mordida no pão dormido e o gole na água de poço,
Capturo a culpa da eructação musical movida a feijão de corda:
Fui eu... me encara, pôrra!
Não permito a fuga dos que me tem asco:
Eu digo é na cara... que eu sou é homem!

O cesto de vime já não suporta o contorcionista,


Dobrado em três tal carta de despejo visando ser alvo de surpresa,
Os aplausos já não são suficientes,
Os assobios já não são satisfatórios,
Restou apenas a cãibra na virilha do artista.

Declamo poesias na copa das araucárias de Maranguape,


Converso com fantasmas nas praças noturnas e desertas,
Escondo as posses para passear em parques de diversão,
Sofro embebido em caos...
... cozido em água e sal...
... degustado sem talheres.

O espetáculo garante total satisfação ou o dinheiro de volta,


A peça encenada sem cenários... em monólogo cuja voz alta proclama,
Delata, denuncia, anarquiza, ridiculariza o próprio ridículo na atuação,
Show para um público seleto... amante da arte,
Hippies, góticos, intelectuais malditos...
... os subversivos policulturais.

Declaro amor aos fãs da encenação,


Aos policulturais que usam boinas afro,
Falam todas as línguas,
Ensinam todas as disciplinas,
Leitores de Karl Marx,
Oposição ao universo, cosmos, via láctea, etc.,
Inimigos do cantor vendido Raimundo Fagner,
Amigos do violão funéreo de Geraldo Vandré,
Cabelos longos... barbas longas... cigarro e sandálias franciscanas,

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Para fazer parte da turma... para serem aceitos na taba,
Pois só o que não faz sucesso é o que realmente importa.

Escancaram-se olhos arregalados diante do palco,


Camisas com ícones do consumo,
Janis Joplin,
Renato Russo,
Cazuza,
Black Sabbath,
Che Guevara,
Coca-Cola,
Todos achando que estão fazendo parte de alguma coisa,
Além de implorar pela atenção dos colegas de faculdade.

Paraliso minhas divagações... eis o fim do horror consumível que discorro,


Diante da entediada gama de seres entediados,
Agradeço ao público de intelectuais fingidos e tribais,
Quando a cortina se fecha corro aos guichês,
Calculo pornograficamente meu erário... meu vil metal...
A parte que me cabe deste latifúndio...
... o Teatro Radical.

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AMOR

De: Clarice Lispector

Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o
volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de
meia satisfação.

Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si,
malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava
estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas
cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo
horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E
cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque,
cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o
canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua
corrente de vida.

Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada
mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo
engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando
estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os
dias realizados e belos; com o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima
desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma
aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.

No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe
dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse
inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos
verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos
emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas,
antes invisíveis, que viviam como quem trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a
Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se
confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto.
Assim ela o quisera e o escolhera.

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51
MONÓLOGO PARA UMA ÚNICA PERSONAGEM

Autor desconhecido
A personagem
Mulher entre os vinte e cinco e os trinta e cinco anos, expressiva, ágil, com
boa mímica, flexibilidade nas diferentes posturas.
ÚNICA CENA
Sala dividida em três partes. À esquerda, janela, cadeira, óculos, girassóis,
corda de saltar, jogos de infância, lápis de cor e papel branco, livros, bonecos
de pano com nomes, quadro preto e giz, de tamanho desproporcionadamente
grande. Do lado da janela, o chão pintado de branco, do lado do quadro preto,
pintado de preto. Ao centro, espelho, cosméticos, livros, tábua de passar a
ferro, uma almofada vermelha em forma de coração, figuras de heróis coladas
na parede, aparelhagem de som, tudo colorido. À direita, ringue de boxe, luva
de boxe, labirinto ou puzzle, prateleira, mesa de trabalho, livros, tudo
cinzento.

MULHER

(coloca-se perto do limite entre a cor branca e a cor preta pintadas no chão)
Sei que há dois mundos completamente diferentes
Sei que não os posso misturar
Um é o meu mundo
(pisa a cor branca)
o outro é o deles
(pisa a cor preta)
Aqui posso andar à vontade
respirar à vontade
rir à vontade
ver o que se passa lá fora
construir histórias
Aqui tenho que andar com muita cautela
procurar perceber o que devo fazer como devo fazer
mesmo que não perceba porquê
Não me posso confundir nestes dois mundos
posso ser agredida ou perder-me nesse labirinto e não encontrar a saída
Também me podem destruir se eu não tiver cuidado
Quando não percebemos o que eles querem então é que estamos
verdadeiramente arrumados
Não estou a exagerar coisíssima nenhuma
Sei do que estou a falar
Às vezes distraímo-nos e cometemos um pequeno lapso e eles fazem logo uma
barulheira que isto e que aquilo
colocam-nos logo entre a espada e a parede e não vêem que aquilo não tinha
importância nenhuma
E atiram-nos logo para cima classificações que passam a servir-nos de
identidades emprestadas que não têm nada a ver connosco
(Escreve alguns conceitos no quadro negro: DISCIPLINA, OBEDIÊNCIA,
ORGANIZAÇÃO)
A escola foi a minha estreia no mundo deles
Aqui só há equívocos
A escola impõe-se como uma prisão

_ 32
mas há sempre uma maneira de lhe escapar
e a nossa sobrevivência vai depender da nossa imaginação
A partir daqui estamos sozinhos
completamente desamparados
A família prende-nos com chantagens afectivas a um local
a um modo de agir a um modo de sentir
A escola é um deserto de afectos e de ideias
dela só me ficou o medo a angústia o tédio
Começam por nos disciplinar a vida
espremem-nos a paciência até ao limite do admissível
A alegria e a espontaneidade são alvos a abater
O melhor é dar-lhes o que eles querem
uma dose de conformismo até ao limite do suportável e outra dose de
masoquismo para lhes alimentar a ilusão do poder
Mas nunca nos deixarmos domesticar
Nunca
Nunca
(Aproxima a cadeira da janela para onde trepa e se debruça)
Sei de cor o perfil das montanhas
sei de cor os rituais de domingo
gosto desses rituais
fascinam-me as expressões como a "vida eterna"
Nessas alturas especiais as pessoas são quase compreensíveis e interessantes
Os cânticos tradicionais
as rosas de Maio
Para mim a Senhora será sempre "toda bela"
como os príncipes e princesas que desenho nos cadernos escolares
"livre de todos os perigos" do mundo deles
(Aproxima-se dos girassóis que começa a desfolhar)
Porque será que destruímos as coisas que tentamos compreender?
Gosto de observar as pessoas
não compreendo o que dizem
nem como vivem e se relacionam entre si
mas gosto de as ver, de as ouvir
o som das vozes, certas palavras, entoações, risos
Gosto de observar as pessoas que trabalham com as mãos
No trabalho físico vêem-se logo resultados
As pessoas que trabalham com as mãos sempre me fascinaram
(Pega num dos cadernos e senta-se ruidosamente no chão)
Perguntam-me porque desenho príncipes e princesas
Nas minhas histórias tudo lhes corre bem
são os únicos que se conseguem subtrair a essa fatalidade a que todas as
pessoas estão fatalmente condenadas
e são muito mais interessantes
têm vidas aventurosas em que enfrentam os perigos e levam sempre a melhor
e casam no fim e acabam sempre por viver muitos anos felizes
Para mim que tento imaginar-me no futuro e não consigo
que pergunto às pessoas como se encaixaram na vida
que me fascinam com as suas histórias
casamento, filhos, crescimento dos filhos
(Aproxima-se do centro da sala)
Crescer é horrível
sob todos os pontos de vista
Tudo o que fazemos, tudo o que dizemos
tudo o que sentimos
é logo catalogado naquele nome horrível

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e se não dizem o nome é "aquela fase"
como se tivéssemos apanhado "sarampo" ou qualquer coisa do género
de repente deixamos de ter uma ideia própria e de a podermos exprimir
não nos basta todas essas emoções contraditórias
ainda temos que suportar essa despromoção inglória essa classificação terrível
como uma "doença"
(pega numa almofada em forma de coração)
Na verdade ninguém gosta de ouvir determinadas coisas
toda a gente prefere manter essa paz artificial em casa
é por isso que a nossa energia é logo considerada "doente"
posso mesmo dizer que talvez haja uma pontinha de inveja
porque vivemos mais intensamente
É só uma questão de tempo
"cortam-nos as asas"
não de um único golpe mas a pouco e pouco
e só descansam quando nos parecemos com eles
"adaptados" devia ser a verdadeira "doença"
porque eles têm tudo sob controle
(fixa a plateia, ainda de almofada à sua frente)
Eles controlam tudo
o amor, os filhos, as amizades, as viagens
tudo controlado
já não há intensidade ou o quer que se pareça no que fazem ou dizem
por isso a nossa intensidade é uma ameaça constante
(afaga a almofada)
O amor não dura tempo suficiente
nem é suficientemente forte
para evitar que sejamos domesticados
por isso nunca esperei muito do amor
acaba por se tornar domesticado
com horários e locais próprios
e isso é o pior de tudo
ver o amor morrer nessa vida cinzenta
e não poder fazer nada
vê-lo morrer
por isso nunca esperei por esse momento dos horários e dos locais e das coisas
certas
porque a vida já é suficientemente horrível e organizada em horários e locais
Tudo menos matar o sonho ou o amor que é da mesma matéria do sonho
(aproxima-se do espelho e fita-se nele)
Vamos ter muito tempo para deixar de nos reconhecermos
o nosso próprio rosto
o que nós pensamos que somos
o que amamos, até a cor dos nossos sonhos
(Aproxima-se do ringue de boxe e experimenta a luva que olha
demoradamente e retira depois com um ligeiro sorriso)
É isto que nos ensinam embora lhe chamem outras coisas
Já viram coisa mais primária para toda uma sociedade?
Quando se fala em competição, num "lugar ao sol", de que se trata senão de
vestir a luva?
Até nos relacionamentos amorosos vale a técnica da luva
em tudo o que eu consiga associar ao que eles consideram próprio de um
adulto "adaptado"
em tudo em tudo
(passeando pelo ringue de boxe)
Agora para iludir essa técnica da agressão criaram umas teorias a que eu

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chamo de "agressão camuflada" ou "agressão pelas traseiras"
há até congressos sobre isso muito modernos
o último grito
ensina-se às pessoas como ser "assertivas" o que quer dizer tentar resolver as
diferenças através de cedências mútuas
e tentar acertar o passo umas com as outras
Imagine-se até onde isto nos poderá levar
Quando não se chamam as coisas pelos nomes próprios
onde é que vamos parar?
(senta-se na cadeira perto da mesa, depois levanta-se e coloca-se de pé virada
para a plateia)
Sabem que há duas versões para terminar este monólogo?
Uma é de tonalidade mais dramática
outra mais cómica
mas para mim não faz qualquer diferença porque o dramático é
irremediavelmente cómico e o cómico insuportavelmente dramático
Portanto como vêem pegue-se por onde se pegue vai tudo dar ao mesmo
(colocando-se em posição de sentido)
O melhor é utilizar as duas versões
Primeiro a versão dramática
(enquanto se dirige para o lado esquerdo da sala)
Dirijo-me de novo ao início do meu trajecto
ah, a janela, lembram-se?, aberta sobre essas montanhas
que amámos
esse ar puro que entra na sala
tudo o que amámos
fecha-se a janela
(fecha a janela ruidosamente)
Há alguma coisa mais dramática que uma janela fechada?
(pega nos lápis de cor que destrói, nos bonecos de pano que destrói um a um,
apaga as palavras do quadro negro)
Já decorámos tudo isto
a bem dizer já matámos tudo o resto em nós
que nem precisamos que nos lembrem nada disto
(dirige-se ao espelho que volta ao contrário)
que importa, este rosto já não sou eu
(enquanto retira da parede as figuras dos heróis)
retiram-se da parede as figuras dos heróis
tudo em que acreditámos lá vai
(enquanto olha demoradamente para a almofada)
ah, o coração, o mais difícil de destruir
onde nos dói mais
(destrói a almofada)
Capitulámos sem dignidade
e isso é o mais horrível de tudo
isso é que torna tudo insuportável
(aproxima-se da mesa e senta-se, depois levanta-se e coloca-se de pé virada
para a plateia)
Esta era a versão dramática
agora a cómica
(fixando a plateia de frente)
Se pensam que vim aqui revelar-me em público
despir-me em público
estão completamente enganados
(esboça uns passos de dança, pára de repente e fixa de novo a plateia)
porque nos ocultamos por detrás do que revelamos

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e revelamo-nos por detrás do que escondemos
(ensaia novamente uns passos de dança enquanto sorri)
E eu sou apenas uma personagem
(parada de frente quase em posição de sentido)
Somos todos personagens de uma peça qualquer
e a minha nem foi muito má
Fechei a janela e depois?
Fiquei com os livros
talvez me abram outras janelas
E os lápis de cor já estavam gastos
não iam durar muito
E o espelho agora já só me incomodaria
e os heróis, quem no seu perfeito juízo vai escolher heróis
e quem no pleno uso das suas faculdades mentais se lembra de amar para
sempre
Tudo é passageiro
(ensaia novos passos de dança)
E eu sou apenas uma personagem
uma personagem
apenas uma personagem
(A luz apaga-se abruptamente.)

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LAÇOS DE SANGUE

De: Victor M. Sant’Anna

Personagem: filha de 15 anos reproduzindo a última conversa que teve com sua mãe
(A impressão inicial deve ser a conversa de uma mãe a sua filha, como se fosse a mãe falando, a voz da
personagem deve falar como falaria uma mãe repreendendo a filha)

O que é que você ia me contar que era tão importante? Deixa eu te explicar primeiro porque você não pode
sair, está bem?
(Amorosamente) Filha... presta atenção... Eu estou dizendo isso para o teu próprio bem...
(começando a perder a paciência) Olha para mim que eu estou falando contigo, por favor...
(explodindo) Puxa vida, que droga! Que *****! *****! Já falei quantas vezes? Quantas vezes vou ter de
repetir isso? Você é surda? Não escuta o que eu digo?
(com muita raiva) Olha pra mim! Olha pra mim!
(falando mais calma) Olha, filha, eu faço isso é pra lhe proteger... Tenta entender! Você não tem idade
suficiente... Como é que você vai sair à noite com suas amigas? Com quinze anos! Imagina!
(nervosa) Quer que aconteça o mesmo que aconteceu com outras... Uma desgraça?
(explodindo de novo) Olha pra mim! Tenta entender! Quer que aconteça contigo o mesmo que aconteceu
comigo? Ter de largar casa, família, estudo para trabalhar para lhe sustentar? Fazer tudo sozinha, perder a
vida toda! Nunca vou deixar que aconteça o mesmo! Prefiro morrer, está entendendo?
(falando mais calma, mas com raiva) Você não sabe o que é ter um filho para criar sem um pai para ajudar.
(falando mais calma) Eu sei que você não entende... É muito nova! Não pense que eu não sei o que você está
pensando: que é responsável, que é inteligente... Mas você não sabe como é lá fora! (com mais força) Você
não sabe como é lá fora! Você não entende essas coisas e não vai entender enquanto for criança!
(Amorosamente) Tem coisas que só dá para entender quando chega a idade certa...
(irritada) Não faz essa cara! Olha para mim que eu estou falando! Me respeita! (muito irritada) Me respeita!
Está pensando o quê? Sou eu quem te sustenta! Eu é que te compro coisas! Você não pode largar tudo, tem de
estudar! Não tem idade para namorar, tem é de pensar nos estudos! O que vai acontecer se você ficar grávida?
Sem dinheiro, sem nada ? Deus me livre! Prefiro morrer! Prefiro morrer, minha filha!
(Irritada, mas com menos intensidade) O que você está querendo não é certo! Não é certo! Só porque suas
amigas são umas vagabundas, isso não é certo! Quer que aconteça uma desgraça, uma coisa ruim?
(notando que a comida no fogo está queimando) Olha só! Viu o que você fez? Fez eu deixar a comida
queimar! Que *****! Idiota, você é uma idiota!
(ficando furiosa) Escuta! Escuta! Onde você vai? Me respeita! Fica aqui que eu não acabei! (com muita raiva)
Eu vou lhe bater! Pare com isso! Está querendo apanhar, não é? Está pedindo!
(fazendo chantagem emocional) Por que você está fazendo isso comigo, minha filha? Eu não te dei tudo? Não
de dou uma vida maravilhosa? Eu te dou tudo! Eu morro para te fazer feliz!
(chantagem com tom de raiva) Por que você não destrói tudo de uma vez? Para que tudo o que eu te dei?
Termina logo com a minha vida, vai! Pega esta faca (oferece uma faca a alguém, no ar) e me mata de uma
vez!
(A faca caindo no chão ou o som dela caindo no chão)
(A voz do personagem volta ao tom que deveria ser o esperado para uma filha de 15 anos, falando para
alguém que poderia ser a polícia, por exemplo)
(com calma) O resto eu não lembro de nada... Foi aí que vocês chegaram... Depois disso lembro do barulho da
faca caindo no chão e das minhas mãos cheias de sangue... mas... eu não lembro de mais nada do que
aconteceu.

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O QUE HÁ DE NOVO, BETTE DAVIS?

De: Jaú Sant’angelo

Cenário
(Sala do apartamento escrupulosamente limpa, arrumada e organizada como uma sala de vitrine de loja com
tudo: uma porta envidraçada com cortinas corridas, uma mesa redonda de mogno, impecavelmente polida, e
um aparador giratório; numa parede, em uma moldura dourada um retrato da estrela, pintado em tons pastéis,
trajando um vestido de renda, algo estilo “Jezebel”,discos; livros encardenados, imitando pergaminho, com
letras clássicas em preto e vermelho; gravuras de caça e pesca; fotografias de família em molduras de prata;
um vaso com rosas; cadeiras que na verdade são vasos sanitários disfarçados a moda antiga; um piano e
partituras de trilhas sonoras . . . Tudo constaciosamente disposto, dando a impressão de estar à exposição para
venda. Parece ter sido montada por um cenógrafo para um filme de Bette. Uma garrafa de whisky, um copo e
um balde de gelo.)

( Bette entra completamente vestida, penteada e maquilada ao estilo Margot Channing de “A Malvada” com
um script na mão. É muito feminina e sensual, busto cheio e quadris largos, braços tensos ao longo do corpo,
cabelos tingidos de vermelho. O salão está em absoluta escuridão. A sala interior está iluminada apenas por
um abajur. As cortinas da porta envidraçada estão corridas. Bette, aproxima-se da porta envidraçada e corre
as cortinas. A claridade do dia entra pela sala. Olha o público de alto à baixo. A voz, dominadora e enérgica,
com ênfase nas consoantes finais.)

Bette:( Ao público.) Eu não sou um anjo, como vocês também não devem ser. É evidente que nos daremos
muito bem.

(Bette prepara uma gigantesca dose de Whisky escocês com um pouco de água, senta no sofá, cruza as pernas
e, num gesto característico, forte como um lenhador, risca um grande fósforo de madeira, na parte inferior do
tampo da mesa. Ela acende um cigarro, murchando as bochechas ao puxar a fumaça, mas não tragando. Abre
o script e folheia.)

(Jogando o script longe.) – Que porcaria! O mundo atual é um lixo! Meu Deus! Como odeio o que está
acontecendo ao mundo! Este país também é um inferno! Se ao menos os Roosevelts ainda estivessem vivos
para nos dizer o que fazer! Talvez devêssemos ir todos povoar a Patagônia. (Tirando baforadas do cigarro, fita
o público duramente, direto nos olhos, desafiando-os a não gostar dela.)

Eu sou real..... real, corajosa e perigosa. Perigosa da maneira que uma estrela deve ser. (Acende outro cigarro,
segurando entre o polegar e o indicador, e pega mais um whisky: o cigarro e a bebida são como adereços e
apoios.) sei que fiz por merecer a fama de má, mas,
Parai, às vezes vocês exageram.

(Levantando-se e andando pela sala) Ruthie! Oh, meu Deus! Quanta falta sinto dela!
Devo-lhe tudo! Dizem que ela foi uma típica mãe de show business. Mas não foi. Superprotegeu-me e mimou-
me em vez de me empurrar para as luzes do palco. Fui eu, e só eu, que resolvi tornar-me uma estrela. É verdade
que ela desejava ser atriz. Mas ela jamais
teria sucesso . Eu tive que ser monstro por nós duas. Desde o início, eu sempre soube que
era boa e também sempre soube representar a avezinha abandonada e tristonha.
Ninguém sabia dos meus planos. Todos pensavam: “Ela é impossível. Tem dois pés

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canhotos e é incapaz de dizer Bu! a um ganso.”

Como estavam enganados! Eu seria capaz de dizer Bu! a um leão!

E meu pai? (Fuma.)

Ele nos abandonou quando eu tinha nove anos. Tudo o que eu consegui pensar foi: “Agora, podemos voltar a
fazer piqueniques e ter uma irmãzinha.” Mais tarde, tive que aceitar uma tremenda falta dele. Ele era um crânio.
Tinha grande orgulho de minha carreira, embora me julgasse malvada por abraçá-la. Certa noite, quando eu me
apresentava na Broadway, ele veio ao camarim. Estava ansiosa para saber sua opinião. Mas ele foi reticente
demais para fazer outra coisa senão expressar admiração por todos os componentes do elenco, exceto eu. O
infeliz teve a coragem de dizer que eu seria uma boa secretária. Tive vontade de sacudi-lo e dizer: “Eu também
estive ótima!” Mesmo assim, eu o amava muito e sua morte foi um terrível choque para mim.

(Ao público.) E os amantes? Vocês querem saber de tudo, não é mesmo? Afinal, foram tantos, não é mesmo?
(Pega o copo e derrama o whisky pela ampla goela. Anda pela sala, as mãos abanando como as barbatanas
de uma foca, a fumaça sendo exalada em pequenos cogumelos que se elevam no ar, toda temperamento e
talento, dentes e garras afiados. Fogo e música.) - Meus maridos! ( Descontrolando-se, como se pronunciasse
o nome de Adolf Hitler.). Meu primeiro marido, como tenho certeza de que vocês sabem, chamava-se Ham!
Ham Nelson! Adequava ao Ham, mas não ao Nélson. Nada tinha de herói! Batizei o Oscar em homenagem a
ele. Tinha a inicial “O” no meio do nome, como David O. Selznick. Tinha as nádegas gordas, andróginas, que
faziam as minhas parecerem com as de Charles Atlas! (Explode numa gargalhada áspera.)

Vi-o outro dia, e a primeira coisa que fiz foi olhar para sua bunda. Não melhorou nada. Portanto, ao pegar a
estatueta, que ganhei por meu desempenho em “Perigosa”, disse para mim mesma ao revirá-la nas mãos: “Oh
Deus, tem a bunda exatamente igual a de Ham!” Ora, eu não poderia batizar de Ham o maior prêmio de
desempenho artístico do mundo, não é mesmo? Portanto, tinha que ser um Oscar!

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RETIRO DOS SONHOS
De: Maricy Salomão

JACOB – (Entra em cena. Pola está sentada. Tristonha. Ele beija a mezuzá) Shalom. (Levemente
consternado) Agora há pouco, Pola, no trajeto trabalho-sinagoga, pela primeira vez entendi o que dizem... Mas
o que houve? Chorava, Pola?
POLA – (Com voz sumida) Não.
JACOB – Vus is dus? Qual a desgraça de hoje?
POLA – (Chorando, tanta se recompor) Eu estou muito bem.
JACOB – Ió, bem se vê, e qual o motivo da alegria? (Aproxima-se dela, fazendo-lhe carinhos) Mai taire fro,
não seja criança, os olhos dizem que o coração sofre.
POLA – (Chorando) Jacob, eu não quero ver a luz do sol deste mesmo lugar amanhã....
JACOB – (Lamentando) Ai! A pobreza é mais penosa que cinqüenta flagelos.
POLA – Moisés almoçou na casa da vizinha.
JACOB – (Suspirando mais aliviado) Ah, Criador do mundo, sabia que não era caso de vida-morte. Almoçou
na italiana?
POLA – Ió. Quando chamei os menino para almoçar, Moisés disse: não estou com fome, mamale. Achei que
estava doente, com febre. Quase fui atrás de você, na fábrica. As então, ele disse: almocei na dona Aurélia,
mamale. Que desfeita, Jacob.
JACOB – E o que foi que comeu?
POLA – Uma coisa chamada macarroni com polpetta.
JACOB – Polpetta é carne?
POLA – E eu sei? Voltou todo sujo, tinha mancha de molha até nos cabelos. Moisés disse que ela pôs tanto
molho, que parecia uma sopa.
JACOB – E Moisés aceitou?
POLA – Disse que só provou, por muita insistência dela.
JACOB – Ele sabe que não deve comer carne fora de casa.
POLA – Que castigo para uma mãe!
JACOB – Oi-a-broch ! O que se leva uma vida pra construir, construir, uma gói me destrói em meio minuto .
JACOB – Será que comeu carne impura ?
POLA – Até onde vão as palavras , não , Jacob .
JACOB – Póla, você devia ter procurado a irresponsável da italiana .
POLA – Foi o que fiz .
JACOB – Você foi até lá ?
POLA – Dez passos de distância, dez mil anos de desgraça .
JACOB – E o que disse a ela ?
POLA – Primeiro , ela disse que sim , depois , jurou que não, que ele não comeu carne , que só provou um
fiapinho do macarrão .
POLA – Eu não queira contar ,Jacob. Atormentar você com um problemas desses. Mas não conseguiu tirar a
tristeza do meu coração. (Chorosa) Esta pensão me sufoca .É o mofo, a gritaria, um cheiro terrível de comida
impura...
JACOB – Não pense que eu também não sofro .Sabe que hoje, ao voltar pra casa, no trajeto trabalho-sinagoga,
pela primeira vez em muitas semanas ,entendi o que aqueles Góis do armazém lembra-se ? – eu já falei deles
para você – sabe o que dizem quando passo por ali?
POLA – O que dizem ?
JACOB – Lá vai o judeu, assassino de Cristo.
POLA – A quem,Jacob/
JACOB – Olhei para trás e só vi a minha própria sombra.
POLA – A você ?
JACOB – Ió .E, com a garganta em fogo , sabe o que respondi?Sabe ?
POLA – Naim.
JACOB – Nada .Passei firme, a cabeça erguida e o olhar reto.Engraçado, Póla , no Brasil as pessoas andam
com riso e palhaçada nos lábios, as não com ódio nos olhos .

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RODA VIVA

(Comédia Musical em dois atos)


De: Chico Buarque
ANJO:
Ora, será o Benedito? Vamos!
Uma pulseira é importante
A jovem moda é quem manda
Um ioiô, desodorante
Sabonete e propaganda
(Dirigindo-se a platéia)
Ídolos de antigamente
Só vinham lá do estrangeiro
Eis que surge de repente
Artigo bem brasileiro
Sim, todos devem a mim
A novidade na praça
Pois quem não tem James Dean
Com Benedito já caça
Estou fazendo um serviço
Pro tesouro nacional
Economizo com isso
Divisas e capital
Mas, com todo requisito
Dos ídolos nacionais
Inda acho que Benedito
Soa caboclo demais
É preciso não chocar
Nossos telespectadores
Pra não desacostumar
Dos velhos galãs, senhores
Belos como Valentino
Valentes como Tom Mix
Que cante tango argentino
Como Gardel, tenha tiques
De puxar a sobrancelha
(é velho porém funciona)
Use uma capa vermelha
Use ares de prima-dona
Seja forte, seja super
Misterioso, isso é importante
Use um quê de Gary Cooper
E um molho de Gary Grant
Mas leve também em conta
Nosso público infantil
Que a estatística o aponta
Como o maior do Brasil
Trabalhe então com empenho
Faça um tipo assexuado

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Qual boneco de desenho
Sem vício, em cor e animado
Faça cara adocicada
De bombom e açúcar-cande
Mate de uma cajadada
Meninada e gente grande
Já o público adolescente
Requer um outro papel
É um pouco mais exigente
Não crê em Papai Noel
Já não tem tuberculose
E acha a “belle-époque” cômica
Diz que sofre de neurose
Diz que teme a guerra atômica
Já trocou tédio por fossa
Já correu pro analista
Use, pois de uma outra bossa
Nessa bossa da conquista
Um ar cínico e descrente
Sensual e violento
Para o nosso adolescente
É a fórmula do momento
Eis o ídolo afinal
Nacional por excelência
Tenho aí material
Pra dez anos de evidência
Vou fazer do meu menino
Irresistível cantor
Como manda o figurino
Ou em francês, “comme il faut”
(Luz em Juliana com tricô nas mãos;
Fundo musical passa a desafio de
moda caipira.)

JULIANA:
Benedito!

ANJO:
Quem está aí?

JULIANA:
È Juliana do Benedito. E você quem é?
O que faz aqui?
O que quer?

ANJO:
(Aproximando-se)
Vim aqui para tudo mudar
Tudo pra melhor, querida
Seu marido vai trocar
De carne, de nome e de vida

JULIANA:
Mas que intimidade é essa
Se nem sequer o conheço?
Benedito, venha depressa

_ 42
Vire esse homem pelo avesso!

ANJO:
(Aproximando-se mais)
Cala a boca, fala baixo
Esquece o nome do teu homem
Mesmo porque eu acho
Que agora ele já mudou de nome

JULIANA:
Por favor, chega pro lado
Assim não, seu indecente!
É melhor tomar cuidado
Benedito é bem valente!
Por favor, vê se me larga
Benedito vem nesse momento!

ANJO:
(Bem chegado)
Eu sou seus anjo da guarda
Tenho aqui vinte por cento
Essa é a minha porcentagem
Num trabalho de valor
Sou seu manager, seu pagem
Sou seu sócio e protetor
Eu vou proteger seus bens
Mas lucro até com sua morte
Vou entrar nos seus haréns
Vou ganhar com sua morte
Vou usar seus grandes carros
Vou vestir seus lindos ternos
Vou fumar nos seus cigarros
Vou guardar louros eternos
Mas não vá pensar que eu sou agiota
Ou avarento
Sou apenas inventor
Levo só vinte por cento

JULIANA:
Chega! Não fale mais!
É demais! Não acredito
Sai pra lá! Me deixa em paz!
Vou gritar: Ô Benedito!
(Entra Benedito todo sorridente
dentro da roupa nova e brilhante)

ANJO:
Parabéns, está genial!
Eu sou teu primeiro fã!
Bem, já vou-me embora, cião
Ou em francês, “ademã”
(Faz um “V” com a mão e sai)

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O ÚLTIMO ENCONTRO

de: Edla Van Steen


Personagens:
Mira
Marcelo

Mira: (da cozinha) Não ouvi o que você disse. Repita.

Marcelo: (quase gritando) Que estou morto de fome. (aproxima-se da mesa) Mortadela, queijo, e vinho. Pode
haver coisa melhor? (Corta um pedaço de queijo, põe o pé em cima da cadeira) Não. Jamais.

Mira: (trazendo o pão) Ah, Marcelo, vamos sentar distintamente. Comme il faut. Pela louça.

Marcelo: É requinte demais.

Mira: (Sentando-se) Às vezes, respeitar os antigos costumes é tão simples. Sentamos os dois, elegantemente,
e...em homenagem à cãs, bancamos os distintos. Fazemos de conta que tudo correu à mil maravilhas...

Marcelo: (cortando) E que gente rica não mija nem caga igual aos outros, que é superior, usa urinol de ouro,
como se isso transformasse as suas pastosas merdas em manjar branco? Já escrevi essa história, em várias
versões.

Mira: (levantando-se) Você esta sendo grosseiro.

Marcelo: Eu?

Mira: Você.

Marcelo: Sempre fui.

Mira: Não foi não, você sabia ser muito delicado, quando queria.

Marcelo: Delicadeza...Boa educação. Era só o que me faltava.

Mira; (olhando para a platéia) Sentava perto de mim e lia, enquanto eu brincava. Cansei de dormir com a cabeça
no seu colo... Você era o meu melhor amigo. O meu protetor.

Marcelo: E como você me retribuiu? Me traindo com o primeiro...

Mira: Pare, Marcelo.

Marcelo: Esta bem. Desculpe.

Mira: Grosso, você nunca foi. Teimoso, sim. E mau. Uma vez ficou sem falar comigo uma semana. Como eu
sofri!...

Marcelo: A vingança dura até hoje.

Mira: Eu não fiz nada.

Marcelo: Imagina se fizesse.

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Mira: Você prometeu que neste nosso encontro...

Marcelo: Vai me dizer que não reconhece que acabou comigo, que me destruiu...

Mira: Eu?

Marcelo: Você é a mais horrenda pessoa que encontrei em toda a minha vida. E olhe que eu incluo nisso gente
da pior espécie, ladrão, vagabundo, prostituta.

Mira: Por favor, Marcelo.

Marcelo: (ainda irritado) Algum dia a gente tem que passar tudo a limpo.

Mira: (autoritária) Nos combinamos. Nada de acerto de contas, e vamos cumprir.

Marcelo: Tem medo, não é? Medo.

Mira: Não. Ter medo representaria reação, E eu estou indiferente.

Marcelo: É claro. Os algozes não se arrependem.

Mira: ( Voltando-se nervosa) O que é que você quer, briga? Foi para isso que me chamou aqui? Então vamos
lá. Quer transferir para mim uma culpa que não admito que tenho. Sua cabeça doentia quase nos levou à loucura.
Ou você esqueceu?

Marcelo: (em tom apaixonado) Sou capaz de descrever as suas roupas, as suas mania, seu jeito de andar. Sei
você de cor.

Mira: Não sabe. Eu era outra Mira.

Marcelo: É aquela que eu amo.

Mira: Uma menina que não tinha noção da vida e que se casou e perdeu a confiança... Que amou muito e que
se decepcionou muito... Alias, não faço outra coisa senão me decepcionar...Com tudo...Meus filhos não
precisam mais de mim. Há noites que estou tão sozinha ...Tenho vontade de gritar...Tantos sonhos...

Marcelo: Eu não sonho mais. Perdi a capacidade de ter esperanças. Eu me fodi, entendeu? Me fodi. De cabo a
rabo.

Mira: Desculpe interromper, mas esta escurecendo, Marcelo. Você não quer acender as luzes?

Marcelo: (cínico) Pois não. A senhora manda.

_ 45
58
A RESISTÊNCIA

de: Maria Adelaide Amaral


Personagens:
Leo
Márcia

Leo: (ao telefone) Alô, sim... Não, ela ainda não chegou. Eu dou, sim. Um instante que eu vou anotar. (pega
uma caneta e um papel) Pode falar (anota) Ok. Eu dou o recado, sim. É o Léo. Sim, claro. De nada (desliga)

Márcia: (entrando) Só você?

Léo: Tem mais gente por ai?

Márcia: O Luiz Raul chegou? Esta bolsa não é dele?

Léo: (pegando o jornal) Está tomando café com a Bel.

Márcia: (zanzando pela sala) Ele disse a você alguma coisa, por que faltou esses dias todos?

Léo: Por que você não conversa com ele?

Márcia: (aproximando-se para pegar o jornal) Como é que está o negócio?

Léo: (continuando a ler) Que negócio?

Márcia: O que é que está acontecendo por aqui?

Léo: (separando uma parte do jornal) Toma. Eu já li esta parte...

Márcia: Eu quero ler...não tenho tempo agora...(há uma pequena pausa. Léo está irritado e Márcia percebe isso)
Você está nervoso?

Léo: (dobrando o jornal com toda a calma) Esta foi a última vez que eu fiquei trabalhando.

Márcia: (conciliadora) Mas o que é que há, Léo? De vez em quando é assim mesmo, na hora de fechar a revista
tem problemas. A gente tem que ver um negócio, outro, é normal!

Léo: Normal porra nenhuma! Normal é a gente trabalhar oito horas por dia!
Márcia: Mas isso aqui não é fábrica Léo! A gente trabalha em ritmo diferente. Há dias em que você trabalha
mais, outros que você trabalha menos, é assim mesmo!

Léo: Não vem com essa para cima de mim! Para fazer essa revista dez dias chega! Isso aqui é uma merda. A
maior parte dos artigos são enlatados, é a gente mesmo que traduz, não tem mais uma reportagem! Qual é o
galho?

Márcia: E a gráfica? Você pensa que a gráfica trabalha só com a gente? E o resto da publicações? E o que vem
de fora? Para ser impresso aqui? Você nem leva em consideração?

Léo: A única coisa que eu levo em consideração, daqui para frente é o tempo que eu vendi à empresa no meu
contrato de trabalho! O resto que se foda!

Márcia: Você é que pensa!

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Léo: Não é só o que eu penso! É o que vou fazer daqui para frente!

Márcia: (perdendo o controle) Você faça o que quiser, eu não respondo pelas conseqüências!

Léo: Devo considera isso uma ameaça?

Márcia: Não estou ameaçando ninguém, mas isso aqui não é boutique que você abre ás oito e fecha ás seis! Isto
aqui é uma revista. A gente depende de meio-mundo! Eu não posso me dar o luxo de ter um redator que resolve
fechar a lojinha na hora que lhe dá na telha e se arranca na hora do pau!

Léo: você quer é mostrar serviço! O que você quer é que o “homem” passe por aqui às oito da noite e veja a tua
redação funcionando! O que você quer é que ele fique pensando na puta líder que você é, que consegue manter
o pessoal funcionando a noite inteira, dando o sangue à empresa, enquanto o resto das redações já apagaram as
luzes! Mas para mim chega! Eu dou o meu sangue sim, mas não por isto daqui! Acabou! A festa acabou!

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59
PEGA FOGO

de: Jules Renard


Personagens:
Pega Fogo
Annette

(Pega fogo esta brincando sozinho com um inseto. De repente ouve palmas e vai atende a porta)

Pega Fogo: Procura alguém senhorita?

Annette: (entrando) A sra. Lepic. Ela não esta?

Pega Fogo: Não e acho que vai demorar. Deseja alguma coisa?

Annette: Sou a nova criada.

Pega Fogo. Sei...sente-se.

Annette: Não estou cansada. Obrigada.

Pega Fogo: Como é seu nome?

Annette: Annette Perreau.

Pega Fogo: Vou chama-la de Annette. É mais fácil. Eu sou o Pega Fogo.

Annette: Heim?

Pega Fogo: O mais novo dos filhos Lepic. Que tem apelido de Pega Fogo. A sra. Lepic não falou no meu nome?

Annette: Não. Tem muito trabalho aqui?

Pega Fogo: Não: doze meses no ano. Mas o serviço nunca é pesado demais e eu...(meio encabulado) te ajudo...

Annette: (ela fica supresa e gaba-se) Eu sou forte!

Pega Fogo: Tem jeito...

Annette: Mas no que o Sr. Me ajuda, Sr. Lepic?


Pega Fogo: Me chame de Pega Fogo!

Annette: Sr. Pega Fogo...

Pega Fogo: Nada de Sr...Sr. Pega Fogo!...Se a Sra. Lepic ouvisse, ela se arrebentaria de tanto rir. Simplesmente
Pega Fogo!

Annette: Pega fogo não é um nome cristão. O Sr. deve ter outro nome de batismo.

Pega Fogo: (triste) Mas nunca foi usado.

Annette: E de onde saiu esse apelido?

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Pega Fogo: Foi a Sra. Lepic que me deu, por causa da cor dos meus cabelos...Portanto pode me chamar de Pega
Fogo.

Annette: Não tenho coragem...Pe...ga...

Pega Fogo: É melhor se acostumar...Olha, nossos quartos ficam no sótão, um ao lado do outro. Logo que
levantamos eu cuido dos animais e você se encarrega do café da manhã da família. A Sra. Lepic...

Annette: Sua mãe?

Pega Fogo: Sim...Toma café com leite. O Sr. Lepic...

Annette: Seu Pai?

Pega Fogo: Sim. Não me interrompa, Annatte. Assim você corta o meu raciocínio...O Sr. Lepic toma café preto
e meu irmão Félix, chocolate...

Annette: E o Senhor?

Pega Fogo: (dissimulado) Eu nunca tenho fome.

Annette: Não gosta de chocolate como o seu irmão?

Pega Fogo: Não, por causa da nata.

Annette: Bom...Sempre tem novidades por aqui?

Pega Fogo: Muito raramente. O Sr. Lepic não gosta de visitas, faz cara feia aos convidados da Sra. Lepic e eles
nunca mais voltam...

Annette: Eles são muito exigentes?

Pega Fogo: (confidencial) Ouça, Annette, vá pela minha cabeça se quiser esquentar lugar. Pra quem vê, o Sr.
Lepic parece durão, mas...

Annette: Ele gosta do Sr?

Pega Fogo: Acho que sim...a seu modo, em silencio.

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60
A DAMA DAS CAMÉLIAS

de: Alexandre Dumas Filho


Personagens:
Margarida
Armando

Armando: (indo-se ajoelhar aos pés de Margarida) Margarida!

Margarida: O que você quer?

Armando: Quero que me perdoe.

Margarida: Você não merece! Está certo que tenha ciúme...e me escreva uma carta irritada...mas nunca uma
carta irônica e impertinente...voce me magoou de mais Armando.

Armando: E você. Margarida, pensa que também não me magoou?

Margarida: Mas eu, não foi por mal.

Armando: Quando vi o Conde chegar, quando percebi que era por causa dele que me despedia, fiquei como
louco, perdi a cabeça e escrevi aquela carta. E quando, em vez de respostas que eu esperava, em vez de
desculpas, você mandou dizer, secamente que a carta estava entregue, e não tinha respostas, não agüentei
mais...o mundo ficou vazio...por que se eu te conheço a poucos dias Margarida, há doía nos que te amo...

Margarida: Por tudo isso é que vale mais ficar onde estamos. Você é um rapaz sensato: devia ter visto em mim
o que há de bom, deixar o que não presta e ignorar o resto.

Armando: Margarida, você fez-me acreditar que passaríamos alguns meses longe de Paris. Eu cai dessa
esperança na realidade, por isso é que sofri.

Margarida: É verdade... e eu ainda fui mais longe...disse assim comigo: acho que um pouco de descanso me
faria bem; ele esta preocupado com a minha saúde. No fim de três ou quatro meses tínhamos voltado para Paris,
dado um bom aperto de mão e transformado em amizade os restos do nosso amor. Mas seu coração é um senhor
altivo que nada aceita.

Armando: Está louca, eu te amo, Margarida! E isso não quer dizer que é bonita e que ia me atrair por uns quatro
meses; mas que é toda a minha esperança, todo meu pensamento toda minha vida. Eu te amo! O que mais posso
dizer?

Margarida: Então mais uma razão – é melhor nos separarmos desde já.

Armando: Naturalmente, porque você não gosta de mim.

Margarida: Isso não é verdade. Há momentos que eu não quero interromper o sonho começado; porque há dias
que me sinto fatigada dessa vida que levo; porque no meio de nossa existência ruidosa, a cabeça, a vaidade, os
sentidos vivem...Mas o coração aperta e como não pode se expandir, sufoca. Por isso, às vezes, eu sonhava,
sem dizer nada a ninguém, encontrar um homem que fosse capaz de me pedir satisfação e quisesse ser o amante
de minhas emoções... então eu te conheci – moço, ardente, feliz; as lágrimas que te vi derramar por minha causa,
o interesse que te vi demonstrar por minha saúde, as visitas misteriosas enquanto estive doente, a franqueza,
o entusiasmo, tudo isso fez com que eu te tomasse por aquele a quem vivia chamando, do fundo de minha
ruidosa solidão. Você quis saber de tudo, agora já sabe!

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Armando: E pensar que depois do que me disse eu vou deixa-la? Depois de ter ouvido o que eu ouvi? Quando
a felicidade me abre os braços, vou lhe voltar as costas? Não, Margarida, nunca; seu sonho vai se realizar, juro.
Não falemos mais nisso, nós somos moços, gostamos um do outro – sigamos o nosso amor.

Margarida: Não me engane, Armando; sabe que uma emoção violenta pode me matar; lembre-se de quem eu
sou e do que sou.

Armando: É um anjo, eu te amo!

(abraçam-se apaixonadamente)

_ 51
61
O ABAJOUR LILÁS

de: Plínio Marcos


Personagens:
Giro
Dilma

Giro: (entrando Dilma se vira e se assusta com ele) Puta susto que tu levou!

Dilma: Por que tu não bate antes de entrar?

Giro: Queria te pegar no flagra. Sabia que ia te encontrar aí sentada como uma vaca prenha. Não quer mais
nada. Estou na campana. Assim não dá pedal. Tu e a outra não querem porra nenhuma. Que merda! Que merda!

Dilma: Não viu que o freguês se mandou agorinha?

Giro: Aqui, o! Ele saiu há um caetão de tempo.

Dilma: Conversa! O freguês saiu neste minuto. Ainda nem me lavei.

Giro: Claro, fica aí sentada pensando, pensando, nem vê o tempo passar. Se tu fosse esperta, nem se lavava.
Encarava um loque atrás do outro, de qualquer jeito.

Dilma: Não sou porca.

Giro: Que merda, que merda, tu e a Célia estão se escamando. Por isso que esse mocó não rende a metade do
que devia render. Qualquer filho da puta com um apartamento desse faz uma bruta nota. O desgraçado aqui só
fica com as sobras.

Dilma: Já me virei paca hoje. Oito vezes não é mole.

Giro: Isso não é nada.

Dilma: Quem está ardida é que sabe.

Giro:Também se lava com sabão de coco. Pensa que eu não sei?

Dilma: É o melhor.

Giro: O mais barato.

Dilma: Desinfeta. Vale tanto quanto álcool!

Giro: Grande merda! Grande merda! Aqui o! Toda puta sabe que na primeira sexta-feira depois do dia dez é
que os cavalos de salário-mínimo vem pras bocas a fim de tirar o atraso.

Dilma: Por hoje chega. Fiz o que pude. E também, já é fim de noite. Não tem mais ninguém na rua.

Giro: (vai até a janela) Vem olhar. Olha quanto trouxa se batendo atrás do mulherio. Vem ver. A Célia deve
estar esperando tu descer pra subir com freguês. Queria eu fazer michê. Não ia dar moleza. Fazia uns vinte por
dia. E de cara alegre.

Dilma: Com a tua cara, tu ia morrer de fome. Ia ser um sarro. Tu ia ganhar o que a Maria ganhou na horta.

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Giro: Vai gozando. Tu vai ver o chaveco que vou aprontar pra tu e pra Célia.

Dilma: Vai mandar me dar um couro?

Giro: Não sei, na hora tu vai ver.

Dilma: Se tu fizer graça eu te apronto.

Giro: Otária eu tenho cobertura. Tenho dinheiro, arrumo tua cama direitinho. Se tu duvida apronta o rolo,
apronta e deixa pra mim. Eu não sou mau. Tu me conhece. Sou igual a todo mundo só quero uma grana. Você
e a Célia não são do batente? Já pensou se amanhã tu ou ela ficam podres?

Dilma: Vira essa boca pra la!

Giro: É, mas uma manhã dessas, eu vim limpar o mocó e sabe o que eu encontrei? Um puta de um escarro, com
sangue. Que nojo!

Dilma: Não fui eu.

Giro: Bem você entendeu alguém aqui está podre, se não foi tu foi a Célia.

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O CORDÃO UMBILICAL

de: Mário Prata


Personagens:
Kátia
Didi

Didi: (atendendo a porta) Quer falar com quem?

Kátia: Não se lembra de mim, não?

Didi: Riseth!

Kátia: Que Riseth, pó. Sou a Kátia, lembra?

Didi: (lembrando-se) Más é lógico.Que é que você quer?

Kátia: Quero entrar, uai. Vê se se manca, né?

Didi: Vamos entrando; quem é vivo sempre aparece! Tava na buate?

Kátia: (irônica) Não, num pique-nique.

Didi: Entra. Vem cá para o meu quarto. Sumiu, hein? Outro dia fui te procurar na buate mas você já tinha saído.
Acabei ficando com a Norma, conhece?

Kátia: A Norma Túnel-Velho? (olhando para o quarto)

Didi: Deve ser...

Kátia: Aquele cara, seu amigo...ainda mora aqui com você?

Didi: O Marco? Mora. Ta meio famoso agora. Outro dia apareceu na televisão no “Almoço com as Estrelas”,
do lado do Jerry Adriani e da Nalva Aguiar...

Kátia: Ele escreve, né?

Didi: Só palavrão. Um sujo. Minha mãe nem leu. E ainda ficou uma arara. Acha que ele pode me influenciar.

Kátia: Você também escreve palavrão?

Didi: Que isso?

Kátia: Como se não falasse palavrão.


Didi: Falr é uma coisa, escrever é outra.

Kátia: Mesma coisa. Palavrão é palavrão, Dedé...

Didi: Meu nome é Didi.

Kátia: desculpe Didi. Olha eu preciso de um favorzão seu.

Didi: estamos aqui para o que der e vier, e muito especialmente para quem vier e der!...

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Kátia: Não é nada disso, Sabe, Dada...

Didi: Didi! Didi! V~e se guarda: D-I-D-I. Didi.

Kátia: Sabe Didi, um dia tinha que acontecer. O Freitas lembra dele? (Didi faz que não com a cabeça) O meu
Coronel, pombas! Me mandou embora.

Didi: Ele arrumou coisa melhor?

Kátia: Me mandou embora devido que descobriu que estou grávida.

Didi: E ta mesmo?

Kátia: Tou

Didi: Puxa que fria. Va tirar?

Kátia: Nunca. Never. Isto lá é coisa que se faça? Matar o pobre do bichinho?

Didi: É... pensando bem.

Kátia: E ademais, foi culpa minha. A minha religião não permite. Qualquer dia te conto tudo. Então, o Freitas,
sem mais nem menos, tirou a minha chave com a mesma cara de filho da mãe que me entregou quando eu fui
pra lá. Pegou minhas coisas, me deu , e depois me deu uma puta porrada aqui no olho esquerdo.

Didi: É, o olho ta meio vermelho mesmo. Foi agora?

Kátia: Agorinha, o safado filho de uma puta, deu uma porrada na minha cara e disse que eu não passava de uma
mulherzinha, vulgar, suja e beata!

Didi: Você não está querendo que eu v ala na casa do seu Coronel e de uma porrada nele não é?

Kátia: Não é nada disso. O que eu queria pedir pra você e para seu amigo, para morar aqui com vocês.

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APartilha

de: Miguel Falabela


Personagens:
Regina
Selma

(Selma está em pé velando a mãe. Regina chega, olha a mãe no caixão. Tempo)

Regina: Ela está com uma cara tão tranqüila...

Selma: É. Mas penou muito coitada...Eu é que sei.

Regina: Você tratou de tudo?

Selma: Claro.

Regina: (incrédula) Você mesma escolheu o caixão?

Selma: Alguém tinha que escolher. Você some, a Laurinha vive enfiada no jornal.Se eu não tomasse as
providências mamãe ia acabar num saco.

Regina: Não estou te criticando. Não precisa ficar nervosa.

Selma: Vocês deviam me agradecer, isso sim...

Regina: Esquece (Olha a mãe no caixão. Pausa) Você notou que ela morreu sorrindo? Deve ter tido uma
revelação no momento final. Eu acho que o papai em pessoa veio busca-la.

Selma: Não começa com suas filosofias orientais, Regina. Não começa, que você sabe muito bem que eu não
acredito em nada disso. Papai já morreu há doze anos, se ele tivesse que vir buscar a mamãe, pra que esperar
tanto tempo?

Regina: Acorda, filha da luz! Bom, o importante é que e4la está muito melhor do que nós. Pelos meus cálculos,
ela deve estar saindo da câmara de recordações e se deslumbrando com a planície astral!

Selma: Você fala como se fosse uma alma penada fazendo turismo na terra! Ai, chega Regina! Chega, que essas
coisas não me convencem. (pausa)

Regina: Quer um café?

Selma: Não. Parei de fumar. Se eu tomar um café, não resisto. (anda de um lado para outro) Você avisou
alguém?

Regina: Algumas pessoas. Poucas. Seus filhos não vem?

Selma: O Mário ta em São Paulo. A Simone, você sabe como é, não quis vir e eu não insisti.

Regina: Devia ter insistido. Mais cedo ou mais tarde, ela vai ter que encarar a morte. É doloroso, mas é
necessário pro crescimento. E além do mais, a mamães já estava doente há bastante tempo. Era uma coisa
esperda.

Selma: Psicologia de bolso. Os seus filhos onde estão?

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Regina: Num festival de surf em Saquarema, eu acho.

Selma: Um programa bem mais interessante do que enterrar a avó.(pausa, elas se estranham um momento) Teve
notícias da Maria Lúcia?

Regina: Não. Ela estava com dificuldades de arranjar lugar. Os ôos estão todos lotados. Mas ela deve estar
chegando por aí...

Selma: Eu não acredito que tanta gente viagem de Paris para o Rio, nessa época do ano. Isso pra mim é desculpa
pra não vir, Maria Lúcia nunca ligou muito pra mamãe.

Regina: Isso não é verdade, Selma! Maria Lúcia mora em Parise Paris não é a Tijuca. Fica meio contramão dar
um pulinho, ali, no São João Batista, você não acha?

Selma: (perto do caixão) Qual é o problema que vocês tem com a Tijuca, quer me dizer? Vocês vivem
implicando com a Tijuca! (pausa) A Laurinha, outro dia, teve a cara de pau de me ligar, pra me entrevistar.
Disse que estava traçando um perfil da classe média tijucana.

Regina: (ri) O que você fez?

Selma: Mandei ela tomar no cu (fica chocada com as próprias palavras) Ai que horror! (dá uma espiada na mãe)
espanta essa mosca ai, Regina.

Regina: Quem, te viu e quem te vê, hein? O seu marido o Luiz Fernando deixa você falar palavrão?

Selma: Eu to mudando, Regina. Agora escreveu, não leu o pau comeu. (as duas caem na risada)

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A SEPENTE

de: Nelson Rodrigues


Personagens:
Lígia
Paulo
(Lígia e o marido de sua irmã, Paulo se encontram fora de casa)

Lígia: Ah, Paulo!

Paulo: Vamos sentar, ali.

Lígia: Estou assustadíssima.

Paulo: Agora, você é que me assusta.

Lígia: Bobagem minha (muda de tom) É a minha irmã, a Guida, quem pode ser?

Paulo: Mas ela não mudou contigo?

Lígia: Por isso mesmo. Há muito tempo, não é tão doce comigo. Me pediu perdão.

Paulo: Então meu bem, ótimo.

Lígia: Paulo,o que é que ela esconde?Sorria pra mim e tinha um olhar de ódio. O que é que essa mulher quer
de mim?

Paulo: Não chame sua irmã de mulher.

Lígia: Te juro. Guida é capaz de tudo, capaz de me matar, Paulo.

Paulo: Calma meu bem.

Lígia: Está certo. De vez em quando, eu me assusto. Por falar nisso, você sabe que eu achei lindo outro dia?
Foi quando você disse que matava Décio. Por minha causa. Agora me diz. Responde, e a gente muda de assunto.
Se a Guida quisesse me matar, você a mataria antestes?

Paulo: Isso é uma hipótese tão cruel!

Lígia: Parece incrível que precisei esperar dez dias para falar contigo, para te olhar. Hoje vou te olhar muito.
Vou segurar a tua mão. Você está gelado. Meu bem. Mãos frias!

Paulo: (segurando a mão de Lígia) Você também está gelada. Em mim é uma febre.

(Ligia beija a mão do cunhado)

Lígia: E se Guida estiver por aqui, escondida, vendo a gente. E se aparecer de repente? Perdão, meu bem. É
interessante. Beijo tua mão. Tão inocente beijar a mão. Me encontro contigo, como se fosse tua amante e você
nunca me disse que gosta de mim. Só naquela noite é que você me chamou de meu amor, meu amorzinho. Mas
você não sabia o que estava dizendo. Se fosse outra você diria o mesmo. Nessa hora, o homem diz tudo, a
mulher diz tudo.

Paulo: Eu estava louco!

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Lígia: Hoje, foi tua mulher que me disse: - “Vai, vai –insistiu –vai passear” Queria que a gente se encontrasse.

Paulo: (na sua angustia) Você precisa sair lá de casa, meu coração.

Lígia: Você está me expulsando?

Paulo: Lígia...

Lígia: Posso te fazer uma pergunta?

Paulo: É melhor não fazer perguntas

Lígia: Mas vou fazer assim mesmo. Não desvia o rosto olhe para mim.

Paulo: Estou olhando.

Lígia: De quem você gosta mais? De mim ou de Guida?

Paulo: Lígia, por favor...

Lígia: Responda, Paulo.

Paulo: Te amo.

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O CASAMENTO SUSPEITO

de: Ariano Suassuna


Personagens:
Cancão
Frei Roque

(Sala de um casarão sertanejo entra Canção e Frei Roque conversando)

Cancão: Quer dizer que São Francisco era ali na exata, não era, Frei Roque?

Frei Roque: São fFrancisco foi o santo na exata Igreja católica. Mas onde está o Geraldo, que você ainda não
disse.

Cancão: Mas era homem virtuoso mesmo?

Frei Roque: São Francisco foi o homem mais virtuoso da Europa.

Cancão: Era caridoso? Dava muita esmola?

Frei Roque: Ah, num dia só dava mais esmola do que toda a Europa em dez anos.

Cancão: Mas era homem de coragem?

Frei Roque: De coragem?

Cancão: Sim era homem valente?

Frei Roque: São Francisco foi o santo mais valente da Igreja católica.

Cancão: Mas era homem de quebrar a cara dum?

Frei Roque: Cancão, São Francisco era homem para o que desse e viesse!

Cancão: Como é que o senhor sabe?

Frei Roque: E como é que você não sabe?

Cancão: Eu não acredito nessas coragens escondida não, sabe, frei Roque? Se ele tivesse sido macho mesmo, a
gente terminava sabendo. Pelo menos uma cara ele teria quebrado.

Frei Roque: Ó Cancão, sabe do que mais? É capaz dele ter quebrado!

Cancão: Frei Roque!

Frei Roque: Eu não tenho certeza não, mas antes de ser santo é capaz dele ter quebrado a cara de algum safado.

Cancão: Ai e ele não foi santo logo não?

Frei Roque: São Francisco? São Francisco foi o maior desordeiro da Europa. E é bem possível que nesse meio
algum desordeiro tenha se metido a besta para São Francisco e São Francisco pagava o cara assim pela gola e
dizia: “Desordeiro, você agora vai ver quem é São Francisco!” (agarra Cancão e vai demostrando) E metia-lhe
a tapa na cara! Abria a mão assim e lapo!

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Cancão: Ai, Frei Roque!

Frei Roque: Pegava o sujeito assim, fechava a mão la dele e lapo.

Cancão: Ai, Frei Roque! Assim eu morro!

Frei Roque: Esta aí, viu? Isso é para não se meter a besta com a Igreja Católoca!

Cancão: E dedicado? São Francisco era muito?

Frei Roque: São Francisco foi o Santo mais dedicado da Igreja católica.

Cancão: Confessou muito? Deu muita extrema-unção?

Frei Roque: Deu maiôs extrema-unção do que todos os santos da Europa juntos.

Cancão: Ele recusava a atender um chamado quando muito longe para dar a extrema-unção?

Frei Roque: Nunca! Podia ser longe como se fosse, São Francisco ia.

Cancão: De carro?

Frei Roque: E tinha carro naquele tempo?

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66
O CAVALINHO AZUL

de: Maria Clara Machado


Personagens:
Velho
Vicente

Velho: Sozinho, menino, nesse caminho?

Vicente: Quem é o senhor?

Velho: (meio surdo) O que?

Vicente: Quem é o senhor?

Velho: João de Deus.

Vicente: (espantado) O senhor é...o Deus?

Velho: (depois de uma pausa, gozador, topando a confusão) Sou.

Vicente: Do catecismo?

Velho: sim...sou

Vicente: deus no duro? Padre eterno?

Velho: No duro.

Vicente: aquele que está em toda parte?

Velho: Aquele mesmo.

Vicente: Então, Senhor Deus, quer fazer o favor de olhar onde está o meu cavalinho azul?

Velho: O que?

Vicente: Pois o senhor não vê tudo?

Velho: Vejo. Claro que sim...

Vicente: Cabos, ilhas, istmos, serras e tudo? E idéia na cabeça também?

Velho: Também.
Vicente: Então cadê ele?

Velho: Ele?

Vicente: O cavalo. Não viu ? O meu ?

Velho: Não vi.

Vicente: Mas você não vê tudo?

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Velho: Ah! Vi sim. Muito lindo seu cavalo.

Vicente: azul?

Velho: Sim. Com cauda azul, muito comprida...

Vicente: Não, a cauda é branca, ó Deus você esqueceu?

Velho: Esqueci não. Fico cansado de ver tudo ao mesmo tempo...

Vicente: Deve cansar mesmo ver tudo ao mesmo tempo. Nãp tem dor de cabeça? Eu não. Não sou como o
senhor. Coitado! Só vejo poucas coisas...e o meu cavalinho.

Velho: Então vamos achar o seu cavalinho.

Vicente: O senhor vem comigo?

Velho: Não posso, menino. Se vou procurar seu cavalo, quem é que vai vigiar o mundo?

Vicente: O senhor não pode deixar algum santo fazer isso por uns dias?

Velho: Não posso.

Vicente: Então Adeus.

Velho: Espere, menino.Onde é que você vai?

Vicente: Vou indo por aí ver se acho ele.

Velho: Quando você precisar de mim, é só chamar que estou ali sentado naquele banquinho.

Vicente: É dali que o senhor vigia o mundo?

Velho: É

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67
UMA CONSULTA

de: Arthur Azevedo


Personagens:
A Senhora
O Doutor

O Doutor: Isto é insuportável! Não tenho licença de estudar?... Mora cá por cima um médico velho, que tem a
mania de louça antiga. É um colecionador! Quer pendurar enormes pratos à parede, tem a vista cansada, e de
vez em quando é isso que se vê...quero dizer ouve! E eu preciso estudar tranquilamente meu processo de
amanha.(batem à porta) Mais essa. Entre.

(A senhora entra pensando ser o consultório médico, e para no meio da cena intimidada)

O Doutor: Queira sentar-se, minha senhora, e dizer o que ordena, (à parte para a platéia) É bonita!

A Senhora: (sem se sentar) Desculpe-me Dr...estou surpresa...supunha encontrar...

O Doutor: Esteja à vontade, minha senhora, e tenha toda a confiança em mim. Este consultório é um
confessionário.

A Senhora: Sim, mas eu julgava...(baixa os olhos)

O Doutor: (à parte) É linda! (alto) Aqui tem uma cadeira.

A Senhora: Estou perturbadíssima... (senta-se) à vista da sua grande reputação, supus que o Doutor fosse mais
velho...

O Doutor: (de pé) A suposição é lisonjeira para mim.

A Senhora: Julguei encontrar aqui um homem de cabelos brancos e venerando aspecto...Se o Doutor tivesse
sessenta anos, eu com certeza estaria mais senhora de mim...

O Doutor: Infelizmente só tenho pouco mais da metade, e os meus cabelos estão pretos. Quanto ao aspecto
venerando, pode ser perfeitamente substituído pela intenção honesta de por os meus serviços à disposição de
V. Excia

A Senhora: Devo parecer-lhe ridícula...

O Doutor: Oh! Minha senhora! (vai buscar uma cadeira e senta-se)

A Senhora: Ó Dr. Não é culpado de ser tão moço, e...

O Doutor: E...?

A Senhora: é verdade que, quando me indicaram o seu nome e me fizeram notar a bonita reputação que tem
adquirido, não me disseram que o Dr. Fosse sexagenário; fui eu que o imaginei assim, como se a velhice fosse
um auxiliar imprescindível da ciência. Peço-lhe que me perdoe não ter sabido dominar a minha impressão.

O Doutor: Mas por amor de Deus, minha senhora! Estou lisonjeadíssimo!

A Senhora: Um dos meus defeitos é não saber dissimular; a minha fisionomia é um livro aberto.

O Doutor: Não é defeito: é uma qualidade. É casada?

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A Senhora: Viúva.

O Doutor: Tão nova? Aos vinte anos... Vossa Excelência tem vinte anos?

A Senhora: Pouco mais ou menos.

O Doutor: Pouco menos?

A Senhora: Pouco mais.

O Doutor: Em que posso ser útil?

A Senhora: Quero que me cure.

O Doutor: (muito admirado) Cura-la!?

A senhora: Curar-me sim! De que se admira! Pareço-lhe sadia?

O Doutor: Certamente... com essas cores...

A Senhora: Pois saiba que estou bastante doente.

O Doutor: (á parte) Enganou-se de porta.

A Senhora: Sofro de palpitações (ele vai interrompe-la) Sim, Dr... de palpitações, insônias, pesadelos...Tudo
isso provém, talvez da vida aborrecida que passo.(decidida com os olhos fechados) Vamos Doutor...ausculte-
me!

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68
BRASIL S/A

de: Antonio Ermírio de Moraes


Personagens:
Lucas
Tavares

(Lucas e Tavares se encontram no escritório da fábrica)

Tavares: Eu estou impressionado com as obras que vi, Sr. Lucas. O senhor é um homem de muita coragem.

Lucas: Muito obrigado.

Tavares: Já vi isso em pessoas de 30,40 e até 50 anos, mas um homem perto dos 70, começar uma nova carreira,
do modo que o senhor está fazendo, é raro. Especialmente neste ramo que depende de muito conhecimento
técnico e grandes volumes de capital.

Lucas: Verdade.

Tavares: (com um tom mordaz) O senhor é médico?

Lucas: Não.

Tavares: Farmacêutico?

Lucas: Não.

Tavares: Químico?

Lucas: Não.

Tavares: O senhor é formado em?...

Lucas: (evitando dizer que é autodidata e que nunca estudou em curso superior) Eu sou formado na
Universidade da Vida, Dr. Tavares. Tenho uma confiança imensa neste País. E o senhor? Quantas empresas já
tocou? Quantos empregos já gerou, Dr. Tavares? Quants folhas de salário o senhor já pagou?

Tavares: Bem, Sr. Lucas. O meu ramo é outro. Eu sou um profissional da intermediação. Eu ajudo as pessoas
saírem dos problemas em que se metem.

Lucas: Eu ando farto de intermediários, Dr. Tavares: banqueiros, políticos, . Esse tipo de gente que vive da
desgraça alheia.

Tavares: Eu vim aqui para lhe ajudar. Se o senhor acha que estou me aproveitando, eu posso perfeitamente...

Lucas: Por favor. O Brasil está precisando de quem trabalhe. Temos de produzir mais. Exportar mais. Gerar
mais empregos. É duro ver essa juventude sair das escolas querendo trabalhar e não tendo onde.

Tavares: O senhor tem razão, eu estive na Alemanha o mês passado numa região dos grandes complexos
farmacêuticos do mundo e, só em pesquisa, o setor vai investir cerca de 10 bilhões de dólares no ano que vem.
A propósito, quanto o senhor está investindo em pesquisa aqui?

Lucas: Aqui no Brasil, nós ainda estamos na fase da doença de Chagas, Dr. Tavares. Da lepra, da malária. Aqui
as coisas vão bem mais devagar. Nós vivemos numa outra realidade.

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Tavares: O Brasil não é para principiantes, e o ramo farmacêutico também não é. Já vi muito médico se dando
mal nesse ramo. Imagine quem não é médico, então! Nem farmacêutico, nem químico e , ainda por cima tem
de pagar juros de 20 a 35% ao não? No ramo das drogas, isso seria inviável. A não ser quie a droga seja cocaína.
(sorri)

Lucas: (relutando em confessar sua penúria) O senhor está me ofendendo. Essa fábrica foi reformada a custo
de muito trabalho, muito sacrifício. Agora vem o senhor do exterior querer dar lições a quem trabalha dentro
desta fábrica 20 horas por dia?

Tavares: O senhor me desculpe, eu não queria ofende-lo. Mas o senhor não investe nada em pesquisa.
Continuará dependendo das matérias-primas importada. O senhor esta nas mãos das multinacionais e paga juros
altíssimos. E internamente esta nas mãos dos banqueiros. Ou eu estou enganado?

Lucas: Se eu estou nessa situação é porque a minha empresa cresceu muito e chamou a atenção das
multinacionais.

Tavares: Se o senhor tiver que reformular toda a sua empresa novamente, qual será sua situação daqui a cinco
anos?

Lucas: Cinco anos...aqui no Brasil não se pensa em cinco anos, no máximo em cinco dias. E é esse prazo que
eu tenho para arranjar dinheiro para pagar minhas contas, os impostos, os salários dos empregados. Cinco anos,
Dr. Tavares...Nem sei se estarei vivo.

_ 67
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DIA DE ESTRELA

de: João Nunes


Personagens:
Verônica
Uéliton

(Verônica está esperando a pizza que acabou de pedir. Tocam a campanhia, Verônica abre a porta entra
Uéliton com a pizza)

Uéliton: Boa noite.

Verônica (meio sem fôlego) Oi...boa noite...é a pizza?

Uéliton: É... a senhora não pediu pizza?

Verônica: (parada na porta) Sim, mas não me chame de senhora, por favor, só tenho 35 anos...eu não sou dessas
que esconde idade não, sabe. Não adianta, o senhor não acha?

Uéliton: Também não precisa me chamar de senhor, tenho 28 anos.

Verônica: Nem parece...eu imaginava uns 24, no máximo...voce ta bem conservado...imagino que deve ter um
monte de mulheres correndo atrás do senhor, desculpa, de você.

Uéliton: Nem tanto, ando tão sozinho!

Verônica: Sozinho? (falando consigo mesma) Não! É tudo o que eu pedi a Deus. Um homem sozinho...

Uéliton: O que a senhora disse? Desculpa...voce disse?

Verônica: Não, nada...eu tava pensando alto.

Uéliton: Você não vai pegar a pizza?

Verônica: Claro, eu me esqueci (pega cheia de dengo com o rapaz) Ai meu Deus, onde ponho a pizza?

Uéliton: Que tal na mesa.

Verônica: é lógico, que boba eu, onde mais poderia ser (põe a pizza na mesa e não sabe o próximo passo, fica
sem jeito) Sente-se um pouco, eu não sei onde puz a minha bolsa...o senhor, digo, você aceita cheque?

Uéliton: Bem, na verdade...cheque...

Verônica: quer um copo d’água...sei lá, alguma coisa?

Uéliton: Não obrigado.

Verônica: Você parece meio nervoso, ou é impressão minha?

Uéliton: Não, nada, quer dizer, eu to com pouco de pressa, to trabalhando, você sabe.

Verônica: Sim. Claro, mas aproveite a entrega pra dar uma descansadinha.Tenho cerveja na geladeira que
sobrou de domingo, você quer?

_ 68
Uéliton: Ah, bem, cerveja eu aceito...dá uma relaxada, né?

Verônica: (corre ate a geladeira e pega uma lata) Você ta dizendo relaxar do trabalho, que eu imagino, seja
pesado!

Uéliton: é, mais ou menos, corre pra cá, corre pra lá...é complicado.

Verônica: Acho que vou tomar um pouco de cerveja também...ai, meu Deus, será que eu tomo?

Uéliton: Qual o problema?

Verônica: é que eu não bebo.

Uéliton: Um pouco de álcool faz a gente soltar o corpo e a lingua...a gente fala e faz coisas que nunca fez.

Verônica: Acho que vou tomar...só um copo (vai ate a geladeira pega uma lata e começa a beber)

Uéliton: Bem, como eu ia dizendo quando você perguntou, eu prefiria em espécie.

Verônica: Como?

Uéliton: Dinheiro

Verônica: Mas quando eu pedi a pizza, eles me disseram que aceitavam cheque, e eu só tenho um real na bolsa

Uéliton: Um real?

Verônica: Fim de mês, você já viu.

Uéliton: E não tem jóias em casa?

Verônica: Jóias, eu? Imagine! Só tenho umas bijuterias. Mas porque está perguntando se eu tenho jóias.

Uéliton: Porque eu não sou entregador de pizza coisa nenhuma. (tirando uma arma) e isso era para ser um
assalto. Mas como estou vendo... entrei numa fria. (sai)

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O MILAGRE NA CELA

de: Jorge Andrade


Personagens:
Irmã Joana
Delegado Daniel

(Delegado Daniel interroga Irmã Joana na delegacia)

Delegado: Seu nome?

Irmã: Irmã Joana de Jesus Crucificado.

Delegado: Profissão?

Irmã: Professora e freira.

Delegado: Idade?

Irmã: Trinta e cinco anos.

Delegado: Finalmente a ilustre educadora está em minhas mãos. Vou provar agora o que ninguém conseguiu:
que é uma subversiva.

Irmã: Não vai conseguir.

Delegado: (irônico) Não? (insinua) Tenho meios especiais para isso

Irmã: Não vai conseguir, porque não vou admitir o que eu nunca fiz (serena) Só admitirei a verdade.

Delegado: Pois é a verdade mesmo que queremos. Sem força e sem tortura ninguém fala nada. Sabe o que é
tortura?

Irmã: Sei. Li muito sobre a inquisição e a vida dos Santos martirizados.

Delegado: (ri) Vida dos Santos. Vou provar que você não é freira coisa nenhuma, como já provei que pelo
menos uns dois não eram padres. Não vai ser tão difícil.

Irmã: Posso saber pelo menos qual o motivo da minha prisão?

Delegado: Desta vez ninguém vai escapar porque começamos a operação rapa igreja. Vamos levantar muita
saia de freira e de padre.

Irmã: Mas o que foi que eu fiz?


Delegado: aqui quem pergunta é a autoridade. Ao preso cabe apenas responder e responder a verdade admitindo
a culpa.

Irmã: Reviraram o meu escritório e nada encontraram. O que querem mais?

Delegado: Aquele escritório não passa de um “aparelho”, para ser usado para enviar ao estrangeiro documentos
contra o nosso governo. Documentos mentirosos que nos acusam de não respeitar os direitos humanos.

Irmã: (serena) E vocês estão respeitando, prendendo-me sem nenhuma acusação?

_ 70
Delegado: De subversiva. Acha pouco?

Irmã: Não tem nenhuma prova.

Delegado: Isto é a coisa mais fácil de arrumar.

Irmã: (firme) Garanto que não é.

Delegado: Veremos! Gosto dos que resistem...porque me dão mais prazer quando começam a rastejar. E vai
pensando em tudo o que pode acontecer. E tenha bastante criatividade...porque aqui tudo está além da
imaginação. Agora saia daqui.

_ 71
71
A ESCADA

de: Jorge Andrade


Personagens:
Helena
Maria Clara

(Maria Clara entrando no apartamento de Helena)

Maria Clara : Bom dia Helena.

Helena: Bom dia Maria Clara.

Maria Clara: Onde está o papai?

Helena: Ainda no quarto.

Maria Clara: Ele saiu de casa muitas vezes?

Helena: Deve ter saído. Papai foge!

Maria Clara: Tome.

Helena: Que é isto?

Maria Clara: despesas de papai na banca de frutas. A responsável é você.

Helena: Por que?

Maria Clara: Porque são despesas deste mês. E por favor...vá pagar hoje, sem falta. O dono da banca veio me
cobrar. Disse que papai passava lá todos os dias, queixando-se de passar fome. O que quer dizer: não parou em
casa.

Helena: O que quer que eu faça?

Maria Clara: Devia ter impedido.

Helena: Impedi quanto pude. Não posso ficar um mês trancada dentro desse apartamento, só porque papai não
deve sair à rua.

Maria Clara: Não foi o que combinamos?

Helena: E que importância tem em ir conversas na banca de frutas? Também não vamos fazer de papai um
prisioneiro.

Maria Clara: Pois bem! O que quero saber, mesmo, é se estão dipostos ou não a tomar conta de papai.

Helena: Cada um tem feito o que pode.

Maria Clara: Pois você tem feito muito pouco.

Helena: Não sei porque!

_ 72
Maria Clara: Porque vice melhor que os outros, está em melhor situação, não tem filhos para se preocupar, vive
nos cinemas e ainda acha que faz muito por papai?

Helena: Não tenho filhos, mas tenho um marido...

Maria Clara: É isso mesmo. Um marido que só vive pensando em internar o papai, que reclama até do jornal
que o papai lê. Isto é fazer o que pode?

Helena: Todos pensam em internar o papai.

Maria Clara: Por que não olha o papai, em vez de ficar abraçada a esse cachorro. Você tem mais obrigação que
os outros, já que tem uma vida inútil.

Helena: Inútil, mas é minha. Cada um sabe de si. Não tenho filhos, mas sei o que isso me custou. Só possuo
este marido, que me deixa só o dia inteiro, que reclama de tudo! Mas, o que é que você quer? Que o abandone
para viver com o papai? E depois? O que será da minha vida? Pensa que é muito bom viver sozinha neste
apartamento? Preferia que eles vivessem aqui. Mas meu marido não suporta a conversa de papai...e papai é tão
imprudente. Não dá folga. Cada vez que vem pra cá...minha vida se torna um inferno!

Maria Clara: Desculpe, Helena! Eu...

Helena: Só vivo cuidando de camisas, correndo atrás de um marido que...Arrastando-me de cinema para cinema,
de bar em bar...como se eu fosse uma qualquer. Pensa que desejo isto? Prefiro ir ao cinema do que ouvir
discussões intermináveis. Sérgio diz “a”, papai “b”. Discutem por qualquer coisa.

Maria Clara: Também Sergio devia compreender.

Helena: Compreende, mas cansa. Nós desculpamos, os outros não. Você quer que eu deixe papai fazer da minha
vida, o que permitiu que ele fizesse da vida da sua fillha? Papai atormentou tanto a coitada, só porque ela ficou
noiva de um italiano. E você permitiu!

Maria Clara: Helena!

Helena: Eu estou mentindo?


Maria Clara: Eu não permiti...(sai)

_ 73
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O SANTO INQUÉRITO

de: Dias Gomes


Personagens:
Padre
Branca

(Após a confissão o Padre e Branca conversam)

Padre: O Diabo não se cansa nunca. E não devemos correr dele, devemos enfrenta-lo e obriga-lo a fugir de nós.
Para o cristão, Branca, toda prova, toda tentação é um meio de santificação e a vida na terra só vale como preço
para ganhar o céu.

Branca: Mas eu não quero ser santa. Minhas pretensões são bem mais modestas. Não é pela ambição que o
capeta há de me pegar. Quero viver uma vida comum, como a de todas as mulheres. Casar com o homem que
amo e dar a ele todos os filhos que puder.

Padre: (ao como acusação, como notação apenas) Durante a sua confissão, você pronunciou sete vezes o nome
desse homem.

Branca: (surpresa) O senhor contou?

Padre: Contei.

Branca: Bem...eu o amo.

Padre: Enquanto que o nome de Deus você pronunciou apenas três vezes.

Branca: Isso tem importância?

Padre: Não, não tem importância.

Branca: Não se deve invocar o nome de Deus em vão.

Padre: Claro. São apenas números. Mas nem tudo são números em sua confissão. Os tormentos da carne, por
exemplo.

Branca: Eu não falei em tormentos da carne.

Padre: Mas confessou que certa noite rolava na cama sem poder dormir...

Branca: Por causa do calor. Meu corpo queimava.


Padre: E não podendo mais, levantou-se e foi mergulhar o corpo no rio, para acalma-lo. Tirou a roupa e banhou-
se nua.

Branca: Era noite de lua nova. Nenhum perigo havia de ser vista. Nem mesmo podia haver alguém acordado
àquela hora.

Padre: Agora responda, Branca, lembrando-se de que está ainda diante de seu confessor: que sentiu ao
mergulhar o corpo no rio?

Branca: O que senti? Bem, senti-me bem melhor, refrescada.

Padre: Sentiu prazer?

_ 74
Branca (hesita um instante) Sim, senti prazer.

Padre: E depois, quando voltou para o leito?

Branca: Pude, enfim, dormir.

Padre: Algum pensamento pecaminoso lhe atravessou a mente nessa noite?

Branca: Eu...não me lembro.

Padre: Não pensou em seu noivo nessa noite?

Branca: É possível. Eu penso nele todas as noites, todos os dias. Tudo que me acontece de bom, eu penso em
compartilhar com ele, tudo o que me acontece de mau, eu acho que não seria tão mau se ele estivesse a meu
lado.

Padre: E ele nunca a viu tomar banho no rio? Responda.

Branca: Uma vez...sem. (adivinhando os pensamentos do Padre, reage prontamente) Mas não foi naquela noite!
Juro por Deus, não foi!

Padre: (cerra os olhos, como se procurasse fugir a todas aquelas visões e mergulha em si mesmo) Branca...pode
ir. Eu preciso ficar só...preciso fazer minhas orações.

(Branca sai)

Padre: (murmura) Senhor. Ajudai-me.Dai-me força, Senhor. Daí-me força e defendei-me dessa tentação.
Amém!

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A MORATÓRIA

de: Jorge Andrade


Personagens:
Joaquim
Lucília

(Lucília esta na sala costurando, Joaquim está na cozinha )

Joaquim: (entrando na sala) Lucília!

Lucilia: (sem parar de costurar) Senhor.

Joaquim: Venha tomar café.

Lucília: Agora não posso.

Joaquim: O café esfria.

Lucília: Meu serviço está atrasado.

Joaquim: Ora, minha filha, cada coisa em sua hora.

Lucília: Para quem tem muito tempo.

Joaquim: Não precisa se matar assim. Tudo tem limite.

Lucília: Sou obrigada a trabalhar como uma... (contém-se)

Joaquim: Você já amanheceu irritada!

Lucília: Descule , papai.

Joaquim: Venha.

Lucília: (acalmando-se) O senhor pode trazer para mim?

(Joaquim entra na cozinha e logo aparece com uma xícara de leite)

Joaquim: Olhe aqui, beba.

Lucília: Não suporto este leite.

Joaquim: Não comece, Lucília.

Lucília: (pausa) Foi ao médico?

Joaquim: Fui. Só para fazer a sua vontade.

Lucília: Que disse ele?

Joaquim: Nada. Que poderia dizer?

Lucília: O senhor anda se queixando do braço.

_ 76
Joaquim: Deve ser de rachar lenha.

Lucília: Não deu nenhum remédio?

Joaquim: tenho saúde de ferro. Pensa que sou igual a nesses mocinhos de hoje?

Lucília: Estou perguntando, papai, se não recitou algum remédio.

Joaquim: Se tivesse receitado, eu tria dito.

Lucília: O senhor acha que comprar remédio é jogar dinheiro fora.

Joaquim: E é mesmo.

Lucilía: Tenho dinheiro. Se o senhor precisar, é só falar.

Joaquim: (impaciente) Já disse que não receitou.

Lucília: Melhor, então.

Joaquim: O médico disse que ainda tenho cem anos de vida.

Lucília: Não gosto de gente exagerada.

Joaquim: Esta muito certo. Nunca senti nada.

Lucília: (voltando a costurar) Hoje tudo está atrasado.

Joaquim: Não se afobe, minha filha.

Lucília: E que faço do meu serviço?

Joaquim: Que importância tem? Você não é obrigada a costurar. Até prefiro que...

Lucília: (corta) Ora papai! (pausa, Lucilia olha para Joaquim e disfarça) Tia Elvira vem experimentar o vestido
e ainda tenho que acabar o da Mafalda.
Joaquim: É um despropósito fazer um vestido para cada festa.

Lucília: Assim gasta um pouco do dinheiro eu tem.

Joaquim: Não é a festa do Coronel Bernardino?

Lucília: É.

Joaquim: Você não vai?

Lucília: Não

Joaquim: Por que não? Não fomos convidado?.

Lucília: (disfarçando) Não e isso...

Joaquim: (pausa) Sei o que sente. Eu também me sinto assim. Mas eu te prometo minha filha, que chegará o
dia em que voltaremos a ser convidado para todas as festas novamente. Eu vou recuperar a fazenda . E darei a
você tudo o que deseja.

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A BULA
De: Luís Fernando Veríssimo
Personagens:
Maria Helena
Horácio

Maria Helena: Vai, Horácio. Toma logo.!!!

Horacio: Eu não tomo nada sem antes ler a bula. Cadê meus óculos?

Maria Helena: Pendurados no seu pescoço.

Horacio: Isso é ridículo, Maria Helena. Ridículo.

Maria Helena: Então todos os homens da sua idade são ridículos. Porque todos estão tomando.

Horacio: A humanidade conseguiu crescer e se multiplicar durante milênios sem isso. Nós dois crescemos e
nos multiplicamos sem isso. Taí o Pedro Paulo, taí o Zé Augusto que não me deixam mentir.Fora aquele
aborto que você fez.

Maria Helena: Horácio, eu não vou discutir isso com você agora. Toma logo esse negócio !!!

Horacio: Isso aqui faz mal pro coração, sabia? Um monte de gente já morreu tentando dar uma trepadinha
farmacêutica.

Maria Helena: Foi por uma boa causa. E não faz mal coisa nenhuma. Só pra quem é cardíaco e toma remédio.
- Você não é cardíaco. Nem coração você tem mais.

Horacio: Não começa, Maria Helena, não começa.. . .

Maria Helena: Pode ficar sossegado que você não vai morrer do coração por causa dessa pilulinha. Eu vi
num programa do GNT um velhinho de 92 anos que toma isso todo dia.

Horacio: Sério?

Maria Helena: Preciso de sexo, Horácio.

Horacio: O sexo é uma ditadura, Maria Helena. A gente tá na idade de se livrar dela.

Maria Helena: Saudades da dita dura. Olha só, você me fez fazer um trocadilho de merda.

Horacio: Além do mais, Maria Helena, nós já tivemos um número mais do que suficiente de relações sexuais
na vida. Sossega o facho, mulher. Vai fazer ioga, tai chi chuan. Já ouviu falar em feng shui, bonsai, shiatsu?

Maria Helena: Sabe o que mais que deu naquele programa sobre sexo, Horácio? Deu que as mulheres com
vida sexual ativa têm muito menos chance de ter câncer. É científico.

Horacio: Come brócolis que é a mesma coisa, Maria Helena. Protege contra tudo que é câncer. Também é
científico, sabia? E puxado no azeite, com alho, fica uma delícia.

Maria Helena: A que ponto chegamos, Horácio. Eu falando de sexo e você me vem com brócolis puxado no
azeite e alho! Faça-me o favor, Horácio!

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Horacio: Maria Helena, escuta aqui, você já tem 50 anos, minha filha, dois filhos adultos, já tirou um ovário,
já...

Maria Helena: Não fiz 50 ainda. Não vem não. E o que é que filho e ovário têm a ver com sexo?

Horacio: Maria Helena, me escuta. Depois de uma certa idade as mulheres não precisam mais de sexo.

Maria Helena: Ah, não? Quem decidiu isso?

Horacio: Sexo nessa idade é pras imaturas. Pras deslumbradas, pras iludidas que não sabem envelhecer com
dignidade.

Maria Helena: Prefiro envelhecer com orgasmos.

Horacio: Maria Helena! Faça-me o favor. Eu tenho que ouvir isso na minha própria casa, na minha própria
cama? Dá um tempo, tá? Tenho mais o que fazer.

Maria Helena: Fazer? Essa é boa. O que é que um funcionário público aposentado com salário integral tem
pra fazer na vida, posso saber?

Horacio: Sem comentários, Maria Helena, sem comentários.

Maria Helena: Tá bom, sem comentários. Bota os óculos e lê duma vez essa bendita bula.

Horacio: O princípio ativo do medicamento é o citrato de sildenafil.


Maria Helena: Sei. Que mais?

Horacio: Veículos excipientes: celulose microcristalina... Celulose vem da madeira.

Maria Helena: Pau, portanto. Bom sinal.

Horacio: Onde foi parar a sua pouca educação, Maria Helena?

Maria Helena: Vai lendo, Horácio. Depois conversamos sobre a minha pouca educação.

Horacio: Dióxido de titânio.

Maria Helena: Ah, titânio. Pro negócio ficar bem duro.

Horacio: Índigo carmim...

Maria Helena: Índigo? Deve ser o que dá o azul da pilulinha.

Horacio: Será que esse negócio não vai deixar o meu ... azul, Maria Helena?

Maria Helena: E daí, se deixar? Você não sai por aí exibindo o seu pênis, que eu saiba. Ou sai?

Horacio: Mas, e se eu for a um mictório público? - O que é que o cara ao lado não vai pensar do meu pinto
azul?

Maria Helena: Diz que você é um nobre, de sangue e penis azul. Ou não diz nada, ora bolas. Acaba de mijar,
guarda e vai embora, pô!

Horacio: Vamos ver os efeitos colaterais.... Olha lá: dor de cabeça. Você sabe muito bem que se tem uma
coisa que eu não suporto na vida é dor de cabeça.

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Maria Helena: Deixa de ser criança, Horácio. Se der dor de cabeça você toma um Tylenol, reza uma ave-
maria, canta o "Hava Naguila'; que passa.

Horacio: Outro efeito colateral: - Enjôos. Óh céus. Enjôos...

Maria Helena: Você sempre foi um tipo enjoado, Horácio. Ninguém vai notar a diferença.

Horacio: Como você é simplória, Maria Helena, como você é... menor.

Maria Helena: Vai, Horácio, chega de conversa mole. E de penis idem. Pula os efeitos colaterais.

Horacio: Como, "pula os efeitos colaterais"? É porque não é você quem vai tomar essa meleca, né? Vou ler
até o fim. Os efeitos colaterais são a parte mais importante. Olha lá: visão turva.

Maria Helena: Você bota os seus óculos de leitura. E que tanto você quer ver que já não viu?

Horacio: Maria Helena, você não entendeu? Essa droga perturba seriamente a visão. Vou ficar cego por sei lá
quantas horas, quantos dias?E se a minha visão não voltar?

Maria Helena: Olha, pensa no lado bom da cegueira: você vai poder me imaginar 20 anos mais moça.
Trinta,se quiser.

Horacio: Desisto. Não vou tomar essa porcaria e tá acabado.

Maria Helena: Dá aqui essa cartela, Horácio. Abre a boca. Pronto. Engole. - Olha a água aqui. Isso. Que foi?
Engasgou, amor?! Tosse pra lá,ô! Me borrifou toda! Que nojo! - Quer que bata nas suas costas? Aí, meu
Deus! Horácio? Você está bem? Respira fundo! Isso, isso... E aí, amor? Melhorou?

Horacio: Ufff! Me dá mais água

Maria Helena: Quanto tempo isso aí demora pra fazer efeito?

Horacio: Isso aí o quê?

Maria Helena: A pílula, Horácio, a píluIa.

Horacio: E eu sei lá?

Maria Helena: Vê na bula, Horácio.

Horacio: Hum... tá aqui: 30 minutos.

Maria Helena: Ótimo. Dá tempo de ver o fim da minha novela.

_ 80
75
A VISITA DA VELHA SENHORA
De: Friedrich Durrenmatt
Personagens:
Schill
Claire Zahanassian

(Schill e Claire estão fumando)

Schill: Que aroma!

Claire Zahanassian: Quantas vezes estivemos fumando juntos nesta floresta, você ainda se lembra? Cigarros
que você comprava na loja da Matilde. Ou que roubava.

Schill: você teve...quero dizer, nós tivemos um filho.

Claire Zahanassian:Tivemos.

Schill: Era varão ou menina?

Claire Zahanassian: Menina.

Schill: E que nome foi lhe que você lhe pôs?

Claire Zahanassian: Geneviève.

Schill: Bonito nome.

Claire Zahanassian: Eu a vi somente uma vez. Quando nasceu. Depois, a tiraram de mim. A assistência Cristã.

Schill: Que cor tinha seus olhos?

Claire Zahanassian: Ainda não estavam abertos.

Schill: E os cabelos?

Claire Zahanassian: Pretos, penso eu; mas isso é freqüente, nos recém-nascidos.

Schill: É sim. (silêncio. Fumam) Onde foi que ela morreu?

Claire Zahanassian: Na casa de umas pessoas, esqueci como se chamam.

Schill: De que?

Claire Zahanassian:Meningite. Também de outra moléstia, parece. Recebi o aviso das autoridades.

Schill: Em casos de morte, pode-se confiar nelas.


(silêncio)
Claire Zahanassian:Eu lhe falei da nossa filha. Agora, você fale de mim.

Schill: De você?

Claire Zahanassian:Sim, de como eu era, quando tinha dezessete anos, quando você me amava.

_ 81
Schill: Certa vez, tive de procurar você durante um tempo enorme no palheiro de Peter e acabei descobrindo-
a , com apenas a camisa em cima do corpo e uma palha no canto da boca.

Claire Zahanassian: Você era forte e corajoso. Brigou com o ferroviário que me seguiu na rua. Eu enxuguei o
sangue do seu rosto com a minha anágua vermelha.

Schill: Eu lhe agradeço pelas coroas, os crisântemos e as rosas. Fazem um bonito efeito em cima do caixão, no
Apóstolo de Ouro. Distinto. Já há duas salas cheias delas. Chegamos aonde se queria chegar. Estamos sentados,
pela última vez, na nossa velha floresta. Hoje à noite, realiza-se uma assembléia do município. Eu sei condenado
à morte e um deles me matará. Não sei quem, será nem onde irá faze-lo, sei somente que cheguei ao fim de uma
existência absurda.

Claire Zahanassian:Levarei você, no seu caixão, para Capri. Mandei erguer um mausoléu no parque do meu
palazzo. Rodeado de ciprestes. Com vista para o Mediterrâneo.

Schill: Conheço só de fotografias.

Claire Zahanassian: Azul profundo. Um panorama deslumbrante. É lá que você irá ficar. Um morto junto de
um ídolo de pedra. Seu amor morreu há muitos anos. O meu amor não podia morrer. Mas, tampouco, viver.
Tornou-se qualquer coisa má, como eu mesma, como os cogumelos venenosos e as raies em forma de rostos
cegos desta floresta; uma coisa má, oculta pela luxuriante e dourada vegetação dos meus bilhões. Foram eles
que estenderam seus tentáculos para você, à procura da sua vida. Porque ela me pertence. Pela eternidade.
Agora, você ficou preso nas suas malhas, está perdido. Cedo, não restará de você senão a minha recordação de
um amante morto, um meigo fantasma numa casa em ruínas. Adeus Alfredo.

Schill: Adeus, Clara.

_ 82
76
VOLTA AO LAR
De: Harold Pinter
Personagens:
Teddy
Lenny

(Lenny entra na sala e se depara com Teddy os dois se sentem constrangidos)

Teddy: Olá Lenny.

Lenny: Olá, Teddy. (pausa)

Teddy: Não ouvi você descendo a escada.

Lenny: Eu não desci. (pausa) Durmo aqui embaixo agora. Naquela porta. Arrumei ali uma espécie de estúdio;
cantinho de trabalho e quarto de dormir. Naquela porta ali, sabe!

Teddy: Oh! Quer dizer então...que eu acordei você?

Lenny: Não. Fui dormir cedo, hoje, mas não consegui dormir. Sabe como é. Fiquei andando.(pausa)

Teddy: Não está se sentindo bem?

Lenny: Não, só com o sono um pouco agitado. Pelo menos hoje.

Teddy: Teve pesadelos?

Lenny: Uma coisa parecida. Mas acho que nem estava bem dormindo. Tem alguma coisa que me mantém
acordado. Uma espécie de tique.

Teddy: Tique?

Lenny: É.

Teddy: Que tique?

Lenny: Não sei. (pausa)

Teddy: Você tem algum despertador no quarto?

Lenny: Tenho.

Teddy: Então deve ser o relógio.


Lenny: é, pode ser (pausa) Bem, se for o relógio, é fácil. Posso abafar com alguma coisa. (pausa)

Teddy: Eu resolvi voltar, ficar uns dias.

Lenny: Ah, é? Resolveu? (pausa)

Teddy: Como é que está o velho?

Lenny: Vendendo saúde. (pausa)

Teddy: Eu também vou me conservando bem.

_ 83
Lenny: Vai, né? (pausa) Você vai ficar aqui, hoje?

Teddy: Vou.

Lenny: Bem, teu quarto ainda está lá. Pode dormir nele.

Teddy: eu vi. Já dei uma subida.

Lenny: Pois é, pode dormir lá. Ah, bem...

Teddy: Bem... então vou indo pra cama.

Lenny: Vai?

Teddy: Vou. Preciso dormir um pouco.

Lenny: é, eu também vou pra cama. (Teddy vai pegar as malas) Eu te dou uma ajuda.

Teddy: Não precisa. Não estão pesadas. (pega as malas) Boa noite (sai)

Lenny: Boa noite, meu irmão. Seja bem vindo ao lar.

_ 84
77
ARLEQUIM SERVIDOR DE DOIS AMOS
De: Carlo Goldoni
Personagens:
Silvio
Clarisse

Clarisse: Estás ferido, meu amor?

Silvio: Ah! Pérfida! Mentirosa! “Meu amor”! “Meu amor”! Quem? Eu? Noivo enganado, ridicularizado?...

Clarisse: Silvio, eu não mereço essas palavras. Eu te amo, te adoro, nunca te enganei. Sempre fui fiel.

Silvio: Ah, mentirosa!Fiel?...Chamas de fidelidade prometer casar com outro?

Clarisse: Nunca fiz uma coisa dessas nem nunca farei. Antes morrer que abandonar-te.

Sílvio: Mas te comprometeste com um juramento.

Clarisse: Juramento que não me obriga a casar com ele.

Silvio: Então que prometeste?

Clarisse: Silvio, querido! Perdoa-me, mas não posso revebar...

Silvio: Por que?

Clarisse: Por que não é permitido falar.

Silvio: Então és culpada?

Clarisse: Não! Juro que sou inocente.

Silvio: Os inocentes falam.

Clarisse: Neste caso, se eu falasse seria culpada.

Silvio: A quem prometeste silêncio?

Clarisse: A Frederico.

Silvio: E continuarás mantendo silêncio com todo esse zelo?

Clarisse: Sim, para não me tornar perjura.

Silvio: E dizer que me ama! Não acredito, mentirosa! Nunca mais quero te ver. Some da minha vista!

Clarisse: Mas, Silvio, se eu não te amasse, não teria vindo aqui para te salvar!

Sílvio: Odeio a vida, se a devo a uma ingrata como tu.

Clarisse: Eu te amo com todo o meu coração.

Silvio: E eu te odeio com toda a minha alma.

_ 85
Clarisse: Se não acreditares no meu amor, me matarei!

Silvio: Para mim seria mais agradável ver o teu sangue do que a tua infidelidade!

Clarisse: Vou te satisfazer. (apanha a espada do chão)

Silvio: Sim! Essa espada poderá vingar os agravos!

Clarisse: Tão cruel assim com a tua Clarisse?

Silvio: Foste tu quem me ensinou a crueldade.

Clarisse: Gostaria de me ver morta?

Silvio: Já não sei mais do que gosto.

Clarisse: Vou satisfazer o teu desejo. (aponta a espada para o peito)

_ 86
78
O ARQUITETO E O IMPERADOR DA ASSÍRIA
De: Fernando Arrabal
Personagens:
Imperador
Arquiteto

(Dois anos sozinhos em uma ilha, o imperador ensina o arquiteto)


Imperador: Mas é tão fácil. Vá, repita.

Arquiteto: (tem uma certa dificuldade para pronunciar) Ascensorista.

Imperador: (com ênfase) Há dois anos que vivo nessa ilha, há dois anos que lhe dou aulas e você ainda hesita!
Seria preciso que o próprio Aristóteles ressucitasse para lhe ensinar que 2 e 2 são 4.

Arquiteto: Já sei falar, não é?

Imperador: Bom...Pelo menos, se alguém cair um dia aqui, nessa ilha perdida, você poderá dizer Ave Caesar.

Arquiteto: Mas hoje você tem que me ensinar...

Imperador: Agora escute a minha musa cantar a cólera de Aquiles. Meu trono!
(o imperador se senta. O Arquiteto se inclina diante dele, numa reverência)

Imperador: Ah! Muito bem. Não se esqueça que sou o imperador da Assíria.

Arquiteto: A Assíria é limitada ao norte pelo ma Cáspio, ao sul pelo oceano Índico...

Imperador: Chega.

Arquiteto: Agora me ensine o que você prometeu...

Imperador: Calma, calma! Ah. (sonhador)Ah! A civilização, a civilização!

Arquiteto: (muito contente) Fale, fale.

Imperador: Cale-se. O que você pode saber, você que viveu sempre enfurnado nessa ilha que nem existe nos
mapas e que Deus cagou no oceano, por desprezo?

Arquiteto: Conte, conte.


Imperador: De joelhos! (o arquiteto se ajoelha) Está bem, levante-se, não é preciso. (o arquiteto se levanta. Com
muita ênfase) Eu explico.

Arquiteto: Ah, explique, explique!

Imperador: Cale-se (de novo com ênfase) Eu explico: minha vida. (o imperador se levanta com grandes gestos)
Levantava-me ao primeiro clarão da aurora, todas as igrejas, todas as sinagogas, todos os templos soavam suas
trombetas. O dia começava a despontar. Meu pai vinha me acordar seguindo de um regimento de violinistas.
Ah! A música. Que maravilha! Ah! A Filosofia! Um dia eu lhe explico o que é.

Arquiteto: Majestade, como é que explicavam a filosofia?

Imperador: Não entremos em detalhes. E minha noiva...e minha mãe.

Arquiteto: Mamãe, mamãe, mamãe.

_ 87
Imperador: (assustado) Onde foi que você ouviu essa palavra?

Arquiteto: Foi você que me ensinou.

Imperador: Quando?Onde?

Arquiteto: Noutro dia.

Imperador: Que foi que eu disse?

Arquiteto: Você disse que sua mãe o punha no colo, o ninava, o beijava na testa e ...(o imperador revê a cena
evocada, ele se encolhe como se uma pessoa invisível o ninasse, o beijasse) E voce disse que às vezes ela lhe
batia com um chicote e segurava a sua mão quando passeavam pelas ruas e que...

Imperador: Pare! Pare! O fogo está aceso?

Arquiteto: Está.

Imperador: Tem certeza que fica aceso dia e noite?

Arquiteto: Tenho, olhe a fumaça.

Imperador: Está bem, tanto faz.

Arquiteto: Como tanto faz? Você me disse que, um dia, um navio ou um avião ia nos ver e vinha buscar a gente
. Aí nós íamos para o seu país, onde há automóveis, discos, televisão, mulheres, travessas de confetes,
quilômetros de pensamentos, quintas-feiras...
Imperador: Eu menti para você. Nós nunca sairemos daqui.

_ 88
79
É
De: Millor Fernandes
Personagens:
Vera
Sara

(Vera e Sara estão sentadas em grandes poltronas. Conversam. Vera levanta, vem até um móvel, à direita
serve um copo de água, com ele na mão vem, até o proscênio, olha o público no olho e diz, com suspiro,
como quem aceita tudo sem poder explicar)

Vera: É...(volta a sentar, diz sem transição...) de vez em quando eu me pergunto o que é que eu tenho com isso.
Não que esteja contra. Mas feminismo é pra mulheres muito especiais, eu acho.

Sara: (afirmando) Você também acha que o destino da mulher é biológico.

Vera: O meu pelo menos. Não tenho de que me queixar. Menstruações corretas durante toda a vida, desejo
monogâmicos toda a vida, três gravidez, dois partos serenos, sem dor – quase sem dor. Sou contra cesariana.
Meu destino é biológico. Que posição posso tomar com um par de seios senão uma posição decididamente
feminina? As amazonas, para poderem atirar melhor de arco e enfrentar os homens, cortavam um seio.

Sara: Você está chamando as feministas de sapatão. Que minha irmã não te ouça.

Vera: Longe de mim. Mas feminismo é em inglês. Na tradução não dá certo.

Sara: Não em nossa classe. Os jornais estão ai mesmo, a televisão, os livros. As conversas, as viagens, as mais
jovens fazendo pressão...

Vera: Que idade você tem mesmo? Responde como se eu não sobesse.

Sara: Vinte e oito.

Vera: Põe mais metade nisso e você verá toda uma diferença . Não é comigo! Que libertação eu quero? Toda
minha vida fui cercada de homens e me dei muito bem. Minha mãe morreu moça. Fiquei só com meu pai e dois
irmãos. Aos vinte anos meu pai me passou pro meu marido. Tive dois filhos homens. Meu pai me deu proteção
e sustento. Meu marido sustento e fidelidade. Os dois filhos me dão carinho e me prestam obediência. Estou
agora no primeiro neto.

Sara: Você vê. Eu aos vinte e oito anos, ainda estou me decidindo se vou se mãe ou não.
Vera: Casando ou sem casar!

Sara: Casando ou sem casar, importa?

Vera: Ter um filho sozinha, não é mais difícil?

Sara: Teu marido te ajudou a ter o filho?

Vera: Me deu dinheiro, médicos, babá.

Sara: Eu só terei filho casada se a afinidade for total: O filho será nosso – meu e dele - responsabilidade dividida.
Prazer dividido. Senão, pra que casar?

Vera: Mesmo ele pensando totalmente igual, você não vê a possibilidade dele ter mais responsabilidade e você
mais carinho ou vice-versa? E se você for mãe solteira, onde vai deixar seu filho, em nosso mundo sem creches?

_ 89
Sara: Não sei. É um problema posterior. Os filhos crescem. Os filhos sempre cresceram. Meu problema é ter
ou não ter – se não tiver talvez me arrependa, se tiver estarei presa a ele a vida inteira. Se resolver ter talvez não
seja importante pra mim saber quem é o pai mas não sei se posso negar ao filho a identidade desse pai. Mas,
como diz minha irmã Ludmila, que não tem os meus problemas, identificar o pai de nosso filho obriga a um
longo período de fidelidade a um homem. Lamentável.

Vera: As mulheres de minha geração não tinham tanto problema. Arranjavam um marido e resto estava
resolvido.

Sara: Estamos num período de transição, eis tudo.

Vera: Transição que os homens não tem. Eles sempre saberão quem é a mãe de seus filhos.

Sara: Mas nunca terão a certeza de que são pais. Tudo dá na mesma.

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80
REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO SUL
De: Augusto Boal
Personagens:
José
Mulher
José da Silva e a Mulher vão votar, eles cumprem o dever sagrado.

José: Agora eu vou votar.

Mulher: Eu também.

José: Em quem você vai votar?

Mulher: Nos dois. Prometi aos dois.

José: Mas quem foi que te deu dinheiro?

Mulher: Os dois me deram dinheiro. E a você?

José: A mim também.

Mulher: Vota em quem deu mais.

José: Como é que eu vou saber quem foi que deu mais?

Mulher: E agora?

José: Precisamos votar conscientemente no programa político, na plataforma, nas idéias. Esse é o voto
consciente do bom cidadão.

Mulher: Bom, teve um que prometeu escolas, hospitais, transporte e comida.

José: E o outro prometeu comida, transporte, hospitais e escola. Quem é o melhor?

Mulher: Vamos votar nesse.

José: Qual? O que prometeu escolas, hospitais, transporte e comida?

Mulher: Não: no que prometeu comida, transporte, hospitais e escola.

José: Já sei: Você vota num e eu voto no outro. Assim a gente não pode errar. Alguém da família tem que acertar
nessas eleições.

Mulher: (indecisa diante da urna) José.


José: Que foi?

Mulher: Você lembra da última vez ? Nós dissemos a mesma coisa.

José: É. Me lembro.

Mulher: Então não vamos votar não.

José: O bom cidadão vota no programa. O bom candidato que o cumpra.(entregando um santinho) Toma. Esse
é o seu candidato, este é o meu.

_ 91
(Macambúzios, deixam cair as cédulas na urna. Põe a mão no Peito) Cumprimos o nosso dever de cidadão.
Cumprimos o dever sagrado do voto.

Mulher: Amém (ajoelham-se)

José: E Deus que nos perdoe.

Mulher: Nós pecamos juntos. (levanta-se assustadíssima) Corre. Corre.

José: Corre por que?

Mulher: O nosso filho mais velho vem ai.

José: Que é que tem?

Mulher: Ele também vota.

José: E daí?

Mulher: Vai nos perguntar em quem ele deve votar.

José: (apavorado) Então: Corre, corre (saem correndo de cena)

_ 92
81
O RELACIONAMENTO
De: autor desconhecido
Personagens:
Homem
Mulher

Mulher - Onde você vai?


Homem - Vou sair um pouco.
Mulher - Vai de carro?
Homem - Sim.
Mulher - Tem gasolina?
Homem - Sim.... coloquei.
Mulher - Vai demorar?
Homem - Não... coisa de uma hora.
Mulher - Vai a algum lugar específico?
Homem - Não... só rodar por aí.
Mulher - Não prefere ir a pé?
Homem - Não... vou de carro.
Mulher - Traz um sorvete pra mim!
Homem - Trago... que sabor?
Mulher - Manga.
Homem - Ok... na volta eu passo e compro.
Mulher - Na volta?
Homem - Sim... senão derrete.
Mulher - Passa lá, compra e deixa aqui..
Homem - Não... melhor não! Na volta... é rápido!
Mulher - Ahhhhh!
Homem - Quando eu voltar eu tomo com você!
Mulher - Mas você não gosta de manga!
Homem - Eu compro outro... de outro sabor.
Mulher - Aí fica caro... traz de cupuaçu!
Homem - Eu não gosto também.
Mulher - Traz de chocolate... nós dois gostamos.
Homem - Ok! Beijo... volto logo....
Mulher - Ei!
Homem - O que?
Mulher - Chocolate não... Flocos...
Homem - Não gosto de flocos!
Mulher - Então traz de manga prá mim e o que quiser prá você.
Homem - Foi o que sugeri desde o começo!
Mulher - Você está sendo irônico?
Homem - Não tô não! Vou indo.
Mulher - Vem aqui me dar um beijo de despedida!
Homem - Querida! Eu volto logo... depois.
Mulher - Depois não... quero agora!
Homem - Tá bom! (Beijo.)
Mulher - Vai com o seu ou com o meu carro?
Homem - Com o meu.
Mulher - Vai com o meu... tem cd player... o seu não!
Homem - Não vou ouvir música... vou espairecer...
Mulher - Tá precisando?
Homem - Não sei... vou ver quando sair!
Mulher - Demora não!
Homem - É rápido... (Abre a porta de casa.)

_ 93
Mulher - Ei!
Homem - Que foi agora?
Mulher - Nossa!!! Que grosso! Vai embora!
Homem - Calma... estou tentando sair e não consigo!
Mulher - Porque quer ir sozinho? Vai encontrar alguém?
Homem - O que quer dizer?
Mulher - Nada... nada não!
Homem - Vem cá... acha que estou te traindo?
Mulher - Não... claro que não... mas sabe como é?
Homem - Como é o quê?
Mulher - Homens!
Homem - Generalizando ou falando de mim?
Mulher - Generalizando.
Homem - Então não é meu caso... sabe que eu não faria isso!
Mulher - Tá bom... então vai.
Homem - Vou.
Mulher - Ei!
Homem - Que foi, cacete?
Mulher - Leva o celular, estúpido!
Homem - Prá quê? Prá você ficar me ligando?
Mulher - Não... caso aconteça algo, estará com celular.
Homem - Não... pode deixar...
Mulher - Olha... desculpa pela desconfiança, estou com saudade, só isso!
Homem - Ok, meu amor... Desculpe-me se fui grosso. Tá.. eu te amo!
Mulher - Eu também! Posso futricar no seu celular?
Homem - Prá quê?
Mulher - Sei lá! Joguinho!
Homem - Você quer meu celular prá jogar?
Mulher - É.
Homem - Tem certeza?
Mulher - Sim.
Homem - Liga o computador... lá tem um monte de joguinhos!
Mulher - Não sei mexer naquela lata velha!
Homem - Lata velha? Comprei pra a gente mês passado!
Mulher - Tá..ok... então leva o celular senão eu vou futricar...
Homem - Pode mexer então... não tem nada lá mesmo...
Mulher - É?
Homem - É.
Mulher - Então onde está?
Homem - O quê?
Mulher - O que deveria estar no celular mas não está...
Homem - Como!?
Mulher - Nada! Esquece!
Homem - Tá nervosa?
Mulher - Não... tô não...
Homem - Então vou!
Mulher - Ei!
Homem - O que ééééééé, caralho?
Mulher - Não quero mais sorvete não!
Homem - Ah é?
Mulher - É!
Homem - Então eu também não vou sair mais não!
Mulher - Ah é?
Homem - É.
Mulher - Oba! Vai ficar comigo?
Homem - Não vou não... cansei... vou dormir!

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Mulher - Prefere dormir do que ficar comigo?
Homem - Não... vou dormir, só isso!
Mulher - Está nervoso?
Homem - Claro, porra!!!
Mulher - Porque você não vai dar uma volta para espairecer?
Homem - Ah, vai para a .......

_ 95
Cenas de Textos para Seletiva de Teatro

TEXTOS CANDIDATOS

01) DIÁRIO DE ANNE FRANK


(1 CASAL)
02) A CANTORA CARECA
(1 casal)
03) CALABAR
(2 Mulheres)
04) A MORTE DE DANTON
(2 homens)
05) FIGARO
(1 casal)
06) ESPERANDO GODOT
(2 H – 2 M ou 1 casal)
07) O DELATOR
(1 casal)
08) VAMOS FALAR FRANCAMENTE
(1 mulher)
09) ATOR – MENTADO
(1 homem)
10) DEUS E O DIABO
(1 casal ou 2 homens)
11) HAMLET
(1 casal)
12) LISÍSTRATA A GREVE DO SEXO
(2 mulheres)
13) NO NATALA GENTE VEM TE BUSCAR
(2 mulheres)
14) B... EM CADEIRA DE RODAS
(2 homens)
15) DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA
(2 homens)
16) A CAPITAL FEDERAL
(1 homem e 2 mulheres)
17) A CASA DE BERNARDA ALBA
(2 mulheres)
18) A LIÇÃO
(1 casal)
18) A MULHER SEM PECADO
(1 casal)
19) AS CRIADAS
(2 mulheres)

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20) AS TRÊS IRMÃS
(3 mulheres)
21) BENT
(2 homens)
23) DOROTÈIA
(2 mulheres)
24) AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT
(2 mulheres)
25) O BALCÃO
(1 casal)
26) PERDOA-ME POR ME TRAÍRES
(2 mulheres)
27) VIÚVA, PORÉM HONESTA
(2 homens)
28) WOYZECK
(1 casal)
29) LUA NUA
(1 Casal)
30) ALBUM DE FAMÍLIA
(2 mulheres)
31) ELES NÃO USAM BLACK TIE
(2 mulheres)
32) ENTRE QUATRO PAREDES
(1 Casal)
33) BODAS DE SANGUE
(1 casal)
34) GOTA D’ÁGUA
(1 casal)
35) LEMBRANÇAS DA CHINA
(1 casal)
36) MADEMOISELLE CHANEL
(1 mulher)
37) ORQUESTRA DE SENHORITAS
(2 mulheres ou 2 homens)
38) O GRANDE AMOR DE NOSSAS VIDAS
(2 mulheres)
39) ÓPERA DO MALANDRO
(1 casal)
40) CASA DE BONECAS
(1 casal)
41) QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?
(1 casal)
42) A DANÇA DA MORTE
(1 Casal)
43) SOBRE A INFANTICIDA MARIA FARRAR
(1 mulher)
44) A ESTRELA DA CANÇÃO
(1 mulher)
45) AMÁLIA, ESTRANHA FORMA DE VIDA
(1 mulher)
46) MONÒLOGO DAS MÃOS
(1 homem ou 1 mulher)
47) POEMA DO MENINO JESUS
(1 homem ou 1 mulher)

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48) O TEATRO RADICAL
( 1 homem ou 1 mulher)
49) AMOR
(1 mulher)
50) PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM
(1 mulher ou 1 homem)
51) MONÓLOGO PARA UMA ÚNICA PERSONAGEM
(1 mulher ou 1 homem)
52) LAÇOS DE SANGUE
(1 mulher)
53) O QUE HÁ DE NOVO, BETTE DAVIS?
(1 mulher)
54) RASGA CORAÇÃO
(2 homens
55) RETIRO DOS SONHOS
(1 casal)
56) RODA VIVA
(2 mulheres ou 1 casal)
57) O ÚLTIMO ENCONTRO
(1 casal)
58) A RESISTÊNCIA
(1 Casal)
59) PEGA FOGO
(2 mulheres ou 1 casal)
60) A DAMA DAS CAMÉLIAS
(1 casal)
61) O ABAJOUR LILÁS
( 1 casal)
62) CORDÃO UMBILICAL
( 1 casal)
63) A PARTILHA
(2 mulheres)
64) A SERPENTE
(1 casal)
65) O CASAMENTO SUSPEITO
( 1 casal)
66) O CAVALINHO AZUL
(2 homens)
67) UMA CONSULTA
( 1 casal)
68) BRASIL S/A
(2 homens)
69) DIA DE ESTRELA
(1 casal)
70) O MILAGRE NA CELA
( 1 casal)
71) A ESCADA
(2 mulheres)
72) O SANTO INQUERITO
( 1 casal)
73) A MORATÓRIA
(1 casal)
74) A BULA
(1 casal)

_ 98
75) A VISITA DA VELHA SENHORA
(1 casal)
76) VOLTA AO LAR
(2 homens)
77) ARLEQUIM SERVIDOR DE DOIS AMOS
( 1 casal)
78) O ARQUITETO E O IMPERADOR DE ASSÍRIA
( 2 homens)
79) É
(1 casal)
80) REVOLUÇÃO NA AMÉRICA DO SUL
(1 casal)
81) O RELACIONAMENTO
(1 casal)

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