Variação Social ou Diastrática
A palavra diastrática vem do grego dia (através de, por meio de, por causa de)
e stratum (camada), referindo-se ao estudo da diversidade social ou demográfica das
práticas linguísticas de uma comunidade. A análise da variação linguística revela que,
além dos fatores históricos e geográficos, existe um fator de variabilidade adicional: a
sociedade (Antunes, 2003). Para muitos pesquisadores, é impossível estudar o
fenômeno linguístico isoladamente da sociedade, pois a sociedade é quem produz e
modifica a linguagem. O fator social, portanto, é essencial no campo da linguística e,
por conseguinte, da sociolinguística. Com variáveis sociais como idade, sexo, classe
social, etnia, grau de instrução, profissão, entre outros, observamos a presença da
variação social ou diastrática (Antunes, 2003).
A variação linguística é um fenômeno natural que reflete a adaptação da língua
aos contextos sociais, culturais e históricos em que ela é utilizada. No Brasil, essa
diversidade é particularmente evidente devido à grande extensão territorial e à
pluralidade de culturas que compõem a sociedade brasileira. A língua, enquanto prática
social, não apenas facilita a comunicação, mas também atua como um marcador de
identidade, refletindo as condições de vida, as interações sociais e as tradições culturais
dos falantes. Assim, é possível observar sujeitos de uma mesma localidade e/ou
comunidade apresentarem traços linguísticos semelhantes e diferentes, considerando
variáveis como idade, sexo, classe social, escolaridade e profissão (Ormundo &
Siniscalchi, 2016).
O uso da língua também serve como um meio para a reprodução de ações
sociais, onde certas práticas linguísticas são promovidas ou desvalorizadas conforme a
posição que o falante ocupa na hierarquia social. Em uma sociedade estratificada, a
língua reflete e marca as divisões sociais, conforme destaca Fiorin (2005): “não é ela
que cria a estratificação social, mas reflete-a, registra e marca essa estratificação”. As
práticas linguísticas variam conforme os falantes se movem por diferentes espaços
sociais, utilizando formas que podem destacar ou suavizar essas divisões.
A variação social (ou diastrática) está intimamente associada à organização
socioeconômica e cultural da comunidade. Entram em jogo fatores como a classe social,
o sexo, a idade, o grau de escolaridade e a profissão do indivíduo. Exemplos típicos de
variação social incluem a vocalização do -lh- > -i- como em mulher/muié, a rotacização
do -l- > -r- em encontros consonantais, como em blusa/brusa, a assimilação do –nd- > -
n- como em cantando/cantano, e a concordância nominal e verbal, como em os
meninos saíram cedo/ os menino saiu cedo (Ormundo & Siniscalchi, 2016). No caso da
concordância verbal, Monguilhott (2009) investiga a fala de Florianópolis e observa
que, com o aumento da escolaridade, as marcas de concordância verbal são mais
preservadas, refletindo diretamente no uso da língua em diferentes grupos sociais.
A educação desempenha um papel central na consolidação das normas
linguísticas de prestígio, uma vez que as instituições escolares e universitárias
frequentemente promovem a norma culta como um padrão de referência. No entanto,
isso também resulta em um distanciamento entre os grupos sociais que dominam esses
códigos e aqueles que têm menor exposição a eles, como aponta Antunes (2007). O
processo de aquisição das normas linguísticas prestigiadas é gradual e depende da
exposição do falante a esses contextos. Em ambientes urbanos, onde a exposição a
diferentes formas de linguagem é mais intensa, os falantes tendem a adotar variantes
que indicam mobilidade social, enquanto em regiões mais isoladas ou rurais, as formas
tradicionais da língua tendem a ser preservadas.
A variação linguística, portanto, não apenas identifica os grupos sociais, mas
também marca suas posições dentro da hierarquia social. Isso reflete como a língua,
além de ser um meio de comunicação, também é um recurso estratégico, facilitando ou
limitando o acesso às oportunidades sociais e econômicas. Como afirma Monguilhott
(2009), tanto a variação geográfica quanto a social estão intimamente associadas às
forças internas que promovem ou impedem a variação e a mudança, e à identidade do
falante. A língua, ao ser utilizada, revela a origem regional e social do indivíduo,
funcionando como um marcador de identidade, o que nos leva a concluir que as regras
variáveis podem ser motivadas extralinguisticamente, além de linguisticamente.
A compreensão das dinâmicas da variação linguística não se limita ao campo
acadêmico, mas tem implicações diretas em áreas como a educação e políticas públicas.
As desigualdades de prestígio linguístico contribuem para a perpetuação da
marginalização de formas linguísticas populares e regionais, como observado em
estudos sobre a língua no Brasil. O processo de valorização das formas da norma culta,
especialmente nas esferas escolares, cria uma barreira social que pode dificultar a
ascensão de indivíduos que falam variantes não prestigiadas, impactando suas
oportunidades educacionais e profissionais. De acordo com Mattos e Silva (1999), essa
estratificação linguística no Brasil reflete a hierarquia social, onde a valorização da
norma culta está profundamente ligada ao poder político e social, reforçando as divisões
sociais existentes.
Um exemplo disso está na relação entre a variação linguística e a mobilidade
social. Em ambientes urbanos e mais cosmopolitas, como nas grandes capitais
brasileiras, a exposição a formas linguísticas mais prestigiadas pode ser maior, e os
falantes que dominam essas variantes tendem a ter mais chances de ascensão
profissional e educacional. Em contraste, em regiões mais isoladas, onde as formas
locais da língua são preservadas, a mobilidade social tende a ser mais limitada,
refletindo uma estratificação que vai além da língua, mas que é fortemente influenciada
por ela. Como Lucchesi (2017) destaca, a língua portuguesa no Brasil se consolidou
como uma língua hegemônica, mas o contato com diversas línguas e a manutenção de
variantes locais geram um fenômeno de pluralidade linguística que ainda persiste no
país.
Além disso, a identidade linguística tem se tornado um campo de resistência
cultural. A valorização das variedades linguísticas não prestigiadas em determinados
contextos, como nas periferias urbanas ou em comunidades rurais, pode ser uma forma
de resistência contra a hegemonia das normas linguísticas centradas nas classes
dominantes. Nesse sentido, a variação linguística pode ser vista não apenas como um
reflexo da divisão social, mas também como uma manifestação de identidade e uma
maneira de afirmar pertencimento a determinado grupo social ou cultural. De acordo
com Mattos e Silva (2004), a resistência cultural pode ser observada na preservação de
línguas e formas linguísticas locais, que representam a resistência das camadas sociais
menos privilegiadas à imposição de um padrão linguístico dominante e homogêneo.
Essas dinâmicas sociais que permeiam a variação linguística são fundamentais
para compreender o papel da língua nas relações de poder. A maneira como falamos
pode determinar o grau de aceitação ou exclusão social, impactando diretamente o
acesso a direitos, a inserção em determinados espaços sociais e até mesmo a inclusão ou
exclusão no mercado de trabalho. Compreender essas questões e como elas se
manifestam no cotidiano é fundamental para promover uma sociedade mais inclusiva,
onde a diversidade linguística é valorizada e as barreiras criadas por normas prestigiadas
podem ser desconstruídas. Como Lucchesi (2015) ressalta, a homogeneização
linguística no Brasil ao longo da história contribuiu para uma uniformização cultural
que, embora dominante, não apagou a riqueza da diversidade linguística existente nas
diferentes regiões do país.
MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. Recent trends in Brazilian historical linguistics.
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