DO INQUÉRITO POLICIAL A AÇÃO PENAL
- O inquérito policial (IP)
a. É um procedimento de caráter investigatório, instaurado pelo delegado de
polícia, composto por diligências, possuindo como objetivo a coleta de meios
de prova para que possa ser proposta a ação penal contra o autor do crime
(marca o início da persecução penal)
i. É considerado procedimento administrativo
b. Requisitos:
i. Exposição do fato criminoso
ii. Identificação do acusado
iii. Classificação do crime (facultativo)
iv. Rol de testemunhas (facultativo)
c. É o meio pelo qual buscam-se provas de autoria e materialidade para
apresentar ao titular da ação penal (seja o Ministério Público ou o ofendido) e,
quando oferecida a queixa ou a denúncia, o IP passa a acompanhar a ação
penal, sendo avaliado pelo juiz
d. É instaurado o inquérito quando for cometida infração penal com pena
superior a 2 anos, caso a infração seja de menor potencial ofensivo, é lavrado
somente um termo circunstanciado de ocorrência (o que não impede de
instaurar um IP em crimes de menor potencial ofensivo quando sua
investigação for mais complexa)
i. Exceção: crimes de violência contra a mulher, ainda que com pena
inferior a 2 anos, é instaurado o IP
ii. Obs.: no caso de lesão corporal no trânsito, no qual o condutor esteja
bêbado ou sob efeito de substâncias, participando de corrida em via
pública ou transitando em velocidade superior máxima permitida em
50km/h (ou seja, 50km/h a mais do permitido), será instaurado
inquérito policial, se não, somente termo circunstanciado
e. O IP é feito pelo delegado, mas as diligências que lhe cabem podem ser feitas
com a ajuda dos investigadores e escrivães
i. Obs.: o procedimento investigatório pode ser instaurado pelo MP
ii. Obs 2.: o fato de o MP poder acompanhar o inquérito policial não o
torna suspeito ou impedido para propor ação penal (Súmula 234 do
STJ)
iii. A polícia judiciária não fica encarregada de propor inquérito policial
militar quando se tratar de crime militar (é incumbência da PM ou das
Forças Armadas)
f. Características
i. Possui caráter inquisitivo (acusatório), e não há previsão do princípio
do contraditório enquanto não for proposta a ação penal
- O acusado e a vítima podem propor diligências, que podem ser
realizadas se o delegado julgar pertinente
- O delegado de polícia não pode ser considerado suspeito (artigo
107 do CPP)
ii. O IP é sigiloso, evitando que as provas colhidas se tornem públicas
para não prejudicar o bom andamento da investigação (no entanto, a
SV 14 do STF estabelece que é direito do defensor ter acesso à
investigação e aos elementos de prova incorporados aos autos, ou seja,
o sigilo se atém somente a investigação em curso, não as provas que já
tenham sido produzidas)
- Não há limitação de acesso ao IP quanto às figuras internas da
DP, mas o advogado tem limitações de acesso, caso não tenha
procuração (em casos de segredo de justiça); se as provas do IP
estiverem nos autos e os delegados boicotarem esse acesso, o
advogado pode impetrar remédio constitucional
iii. É escrito, devendo todos os atos do IP serem reduzidos a termo (artigo
9º do CPP)
- Todas as peças do IP devem ser processadas em um só,
reduzidas a termo ou datilografadas, e rubricadas pela
autoridade
iv. É um procedimento dispensável para a propositura da ação penal
(artigo 39, §5º do CPP), caso o responsável por promover a ação penal
já tenha provas suficientes, dispensando o procedimento investigatório
- Artigo 12: o inquérito policial acompanhará a denúncia ou
queixa, sempre que servir de base a uma ou outra (se não
precisar de provas da materialidade e autoria do crime, não
precisa realizar o IP)
- As provas podem ser apresentadas diretamente ao MP,
que de imediato, em casos de ação penal pública, deverá
apresentar denúncia
v. O IP é indisponível, ou seja, não pode ser arquivado pelo delegado,
somente pelo MP a mando do juiz
- O MP pode arquivar o inquérito policial ou as peças de
informação se entender que não há elementos suficientes para
oferecer a denúncia (artigo 28), mas a vítima ou seu
representante legal, deve ser comunicada do feito e tem 30 dias
para se opor ao arquivamento, o que será verificado pela
promotoria de justiça (2ª instância do MP)
vi. O IP pode ser iniciado de ofício pela autoridade policial, por requisição
do juiz, por requisição do MP, por requerimento do ofendido ou por
auto de prisão em flagrante
- Ofício: a autoridade policial toma conhecimento da notitia
criminis (seja por B.O, comunicação, etc), instaura o IP por ato
voluntário; quando o crime for de ação penal pública
incondicionada
a. Obs.: a notitia criminis pode ser
i. De cognição mediata: tomar conhecimento por
meio de terceiros (requerimento do ofendido,
requisição do MP ou do juiz e delatio criminis)
ii. De cognição imediata: autoridade sabe da
ocorrência do ilícito por meio de sua função
regular
iii. De cognição coercitiva: prisão em flagrante
b. Obs 2.: A delatio criminis é facultativa, podendo a
pessoa “delatar” à autoridade policial, sendo
obrigatória, no entanto, em casos descritos na Lei de
Contravenções Penais, quando se tratar de de
funcionários públicos ou da área da saúde que tomam
conhecimento de crimes de ação penal incondicionada
no exercício de suas funções
- Requisição do juiz ou do MP: quando ocorrer, o delegado é
obrigado a instaurar o IP
a. Antes o juiz que requisitasse a instauração do IP ficava
impedido de atuar na ação penal, mas foi considerado
inconstitucional pelo STF
b. A autoridade policial também é obrigada a realizar o
IP, ou ao menos o pedido de exame de corpo de delito,
quando o crime deixar vestígios
- Requerimento do ofendido
a. O ofendido realiza uma petição, endereçada ao delegado
de polícia, na qual ele solicita que o inquérito seja
instaurado e dê início às investigações
b. Na petição há a narração dos fatos, a individualização
do investigado, a nomeação e qualificação das
testemunhas
c. Pode ser feitos em crimes de ação penal pública ou
privada (no caso da privada, o requerimento não
interrompe o prazo para a sua representação)
- Auto de prisão em flagrante
- No momento em que o auto é lavrado, está instaurado
Procedimento do inquérito policial
O início do inquérito policial está definido no artigo 5 do CPP, qual seja:
- Nos crimes de ação penal pública o inquérito policial será iniciado:
I - de ofício;
II - mediante requisição da autoridade judiciária ou do Ministério Público, ou a
requerimento do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo.
As diligências (o que a autoridade policial deve fazer) são tratadas nos artigos 6, 7, 11, 13-A
e 13-B do CPP, se tratando da apreensão de documentos, realização de perícias, oitiva de
pessoas, determinação do indiciamento quando a autoria se demonstrar robusta, preservação
do local dos fatos, colheita de filmagens, pedido de violação de sigilo de dados, entre outros
(o rol é exemplificativo)
A conclusão do inquérito, por sua vez, está descrita nos artigos 10, 3-B, em seu inciso VIII,
§2
- O artigo 10 traz um tratamento diferenciado para a conclusão do inquérito, em caso de
indiciado preso e indiciado solto
- O inquérito deverá terminar no prazo de 10 dias (improrrogáveis) se o
indiciado tiver sido preso em flagrante, ou se estiver preso preventivamente
(prazo é contado a partir da execução da ordem de prisão)
- O artigo 3-B revogou tacitamente o artigo 10 no que diz respeito à
prisão em flagrante, sendo que o flagrante somente perdura até o
momento da audiência de custódia
- O inquérito deve terminar no prazo de 30 dias (prorrogáveis) se o indiciado
estiver solto, seja mediante pagamento de fiança ou sem ela
- Obs.: a prorrogação do prazo advém da interpretação do parágrafo 3o
do artigo 10
- Obs 2.: a prorrogação do prazo somente entrará em vigor quando
passar a vigorar o princípio do juiz das garantias
Obs.: a prisão temporária tem prazo de duração, sendo ele de 5 dias, podendo ser prorrogado
por mais 5, em caso de crime hediondo, pode ser prorrogado por mais 30 dias (é decretada
enquanto o inquérito está ocorrendo, para evitar fuga no momento da investigação)
Quando for emitido o relatório final, ele primeiramente vai para o juiz, e depois abre vista
para o Ministério Público (quando implementar o juiz das garantias, o relatório final do IP vai
diretamente para o MP)
- O MP, ao receber o relatório final, pode:
- Oferecer denúncia (artigo 24)
- Propor ANPP (artigo 28-A)
- Requerer arquivamento do IP ao juiz (lembrando que, após a implementação
do juiz das garantias, o promotor arquivará o IP com os devidos avisos) -
(artigo 28)
- Requerer para aguardar em cartório (em caso de ação penal privada ou se for
condicionada à representação) - (artigo 19)
- Requerer novas diligências ao delegado de polícia (artigo 16)
- A redação do artigo 28 (antigo) afirmava que o IP concluído vai para o juiz, enquanto
a nova redação afirma que o MP recebe o IP concluído
- Em caso de arquivamento, a antiga redação dizia que o MP devia requerer o
arquivamento ao juiz (o qual ou arquivava ou discordava do arquivamento), enquanto
a nova redação do artigo afirma que o MP arquiva diretamente
- Se o juiz discordasse do arquivamento, ele enviava o IP a PJ (Procuradoria de
Justica)
- O procurador geral oferece a denúncia, nomeia outro promotor para
oferecer denúncia ou insiste no arquivamento do IP
- Se insistir no arquivamento, o juiz é obrigado a arquivar o IP
- Art. 28. Se o órgão do Ministério Público, ao invés de apresentar a
denúncia, requerer o arquivamento do inquérito policial ou de
quaisquer peças de informação, o juiz, no caso de considerar
improcedentes as razões invocadas, fará remessa do inquérito ou peças
de informação ao procurador-geral, e este oferecerá a denúncia,
designará outro órgão do Ministério Público para oferecê-la, ou
insistirá no pedido de arquivamento, ao qual só então estará o juiz
obrigado a atender.
- Quando houver o arquivamento do IP, deve haver uma comunicação desse
arquivamento à vítima, ao investigado, a autoridade policial e, poderá
comunicar, o juiz das garantias e, também, facultativamente, a instância de
revisão ou procuradoria de justica
- A vítima pode pleitear que a manifestação de arquivamento seja revista
por uma instância superior (procuradoria de justiça), podendo
questionar num prazo de 30 dias
- Chegando na Procuradoria de Justiça, o promotor pode
homologar o arquivamento, pode discordar e oferecer denúncia,
ou nomear outro promotor para oferecer denúncia
Acordo de Não Persecução Penal (ANPP)
- Requisitos
- Não ser caso de arquivamento
- Confissão formal do crime (pode acontecer na audiência da ANPP)
- Crime sem violência ou grave ameaça
- Pena mínima menor que 4 anos
- Vedação da ANPP (parágrafo 2)
- Infrações de menor potencial ofensivo (pois cabe transação penal) = pena
máxima de até 2 anos
- Reincidentes ou com condutas criminosas reiteradas
- Ter sido beneficiado por outro acordo nos últimos 5 anos
- Acordo: ANPP, transação penal, suspensão condicional do processo
(artigo 89 da Lei 9.099/95)
- Crimes com violência doméstica ou familiar
- Condições da ANPP
- Reparação do dano ou restituição da coisa à vítima (exceto quando não puder
fazê-lo)
- Confisco (renunciar voluntariamente a bens e direitos indicados pelo MP
como instrumentos, produto ou proveito do crime)
- Prestacao de servicos a comunidade ou à entidades públicas por período
correspondente à pena mínima, cominada ao delito e diminuída de ⅓ a ⅔
- Prestação pecuniária (nos termos do artigo 45 do CPP, a entidade pública ou
de interesse social)
- Comunicação ao juízo competente de eventuais mudanças em endereço,
telefone ou e-mail
- Demonstrar ao juízo o cumprimento das condições, ou apresentar justificativa
fundamentada para o não cumprimento
Procedimento do ANPP (artigo 28-A CPP)
- É necessária a presença de um defensor ou advogado para realizar a ANPP
- É formalizado por escrito
- Necessidade de audiência
- Homologação do ANPP pelo juiz
- § 4º Para a homologação do acordo de não persecução penal, será
realizada audiência na qual o juiz deverá verificar a sua
voluntariedade, por meio da oitiva do investigado na presença do seu
defensor, e sua legalidade.
- § 5º Se o juiz considerar inadequadas, insuficientes ou abusivas as
condições dispostas no acordo de não persecução penal, devolverá os
autos ao Ministério Público para que seja reformulada a proposta de
acordo, com concordância do investigado e seu defensor.
- Título executivo - execução do acordo no juízo da execução penal
- § 6º Homologado judicialmente o acordo de não persecução penal, o
juiz devolverá os autos ao Ministério Público para que inicie sua
execução perante o juízo de execução penal.
- Recusada a proposta, o MP pode oferecer denúncia ou requerer novas
diligências
- § 7º O juiz poderá recusar homologação à proposta que não atender aos
requisitos legais ou quando não for realizada a adequação a que se
refere o § 5º deste artigo.
- § 8º Recusada a homologação, o juiz devolverá os autos ao Ministério
Público para a análise da necessidade de complementação das
investigações ou o oferecimento da denúncia.
- A vítima será comunicada da homologação do ANPP
- § 9º A vítima será intimada da homologação do acordo de não
persecução penal e de seu descumprimento.
- ANPP descumprido pode impedir proposta de suspensão condicional do
processo
- Artigo 89 da Lei 9.099/95 - pena mínima até 1 ano
- Não gera antecedentes
- Cumprido o acordo, o juiz extingue a punibilidade
- Recusa do MP em fazer a proposta remessa ao órgão superior do MP