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Homeopatia no SUS: Visões dos Usuários

O estudo analisa as representações dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre o tratamento homeopático no Brasil, onde a homeopatia, introduzida em 1840, ainda possui uma presença limitada. Os usuários buscam homeopatia principalmente após falhas em tratamentos alopáticos, valorizando características como a abordagem holística e o uso de medicamentos naturais. Os resultados sugerem que práticas terapêuticas alternativas, como a homeopatia, podem contribuir para o SUS, refletindo uma insatisfação com a medicina convencional.

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Homeopatia no SUS: Visões dos Usuários

O estudo analisa as representações dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre o tratamento homeopático no Brasil, onde a homeopatia, introduzida em 1840, ainda possui uma presença limitada. Os usuários buscam homeopatia principalmente após falhas em tratamentos alopáticos, valorizando características como a abordagem holística e o uso de medicamentos naturais. Os resultados sugerem que práticas terapêuticas alternativas, como a homeopatia, podem contribuir para o SUS, refletindo uma insatisfação com a medicina convencional.

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ARTIGO ARTICLE 1903

Homeopatia no Sistema Único de Saúde:


representações dos usuários sobre o tratamento
homeopático

Homeopathy in the Unified National Health


System in Brazil: users’ representations of
homeopathic treatment

Dalva de Andrade Monteiro 1


Jorge Alberto Bernstein Iriart 1

Abstract Introdução

1 Instituto de Saúde Coletiva,


Homeopathy was officially introduced in Bra- A homeopatia chegou oficialmente ao Brasil em
Universidade Federal da
Bahia, Salvador, Brasil. zil in 1840 but was only recognized by the Fed- 1840, por meio do ex-comerciante francês e mi-
eral Board of Medicine as a medical specialty litante socialista Benoit Mure 1,2. Há relatos, en-
Correspondência in 1980. It still has a limited presence in the tretanto, de que, em 1820, os imigrantes alemães,
D. A. Monteiro
Instituto de Saúde Coletiva, Unified National Health System (SUS), with que se estabeleceram em colônias no Sul do Bra-
Universidade Federal da only a few homeopathy services in a handful of sil, já a utilizavam como uma medicina caseira e
Bahia.
Brazilian counties. The current study aimed to seguiam as orientações presentes nos livros es-
Campus Universitário do
Canela, Rua Augusto Vianna analyze National Health System users’ represen- critos pelo médico conterrâneo e criador da nova
s/n, 2º andar, Salvador, BA tations of homeopathy. A case study was con- medicina, Dr. Samuel Hahnemann 2.
40110-060, Brasil.
ducted in a health unit in Salvador, Bahia State, No seu início, a história da homeopatia no
[email protected]
using a qualitative methodology. Data collec- Brasil esteve atrelada a uma prática liberal 3, com
tion used 112 questionnaires and 19 in-depth tímidas incursões institucionais nos ambulató-
interviews with users of homeopathy services. rios mantidos pelas ordens católicas, no Rio de
The study results showed that the main moti- Janeiro, que prestavam cuidados aos socialmente
vation for seeking homeopathic treatment was desassistidos, inclusive, escravos 2. Os profissio-
the failure of previous allopathic treatment. The nais adeptos e defensores da nova terapêutica
holistic perspective, use of natural medications, sustentaram embates na imprensa e nos órgãos
longer consultations, and attentive listening to oficiais ligados à saúde, contrapondo-se à elite
patients appeared as positive characteristics of sócio-econômica que, nos meios acadêmicos,
homeopathy as compared to allopathy. The re- bloqueava a oficialização e acusava a homeopa-
sults point to the potential contribution of alter- tia de charlatanismo 1.
native therapeutic practices like homeopathy to Na segunda metade do século XIX, ocorreu a
the Brazilian National Health System. aproximação da homeopatia com o espiritismo
kardecista, doutrina religiosa francesa que se dis-
Homeopathy; Social Representations; Single seminou na sociedade brasileira e se propagou
Health System; Complementary Therapies entre os médicos, fazendo muitos adeptos, prin-
cipalmente entre os homeopatas 1.
No século seguinte, tanto as classes privilegia-
das quanto as populares, principalmente na zona
rural, tiveram um papel relevante na propagação

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1903-1912, ago, 2007


1904 Monteiro DA, Iriart JAB

da terapêutica, através das boticas homeopáti- dicina, a homeopatia tem sido praticada, princi-
cas, comercializadas pelos mascates itinerantes, palmente, em consultórios médicos particulares
que compunham o arsenal de medicamentos e nos ambulatórios dos cursos de formação, ou
das famílias tradicionais 4. Concomitantemen- por disponibilidade de médicos que fazem aten-
te, a umbanda começou a ganhar popularidade, dimentos gratuitos à população de baixa renda,
e os seus médiuns – homeopatas leigos, como muitos deles ligados a grupos que professam a
acontecia na Europa 2 – receitavam as “gotinhas” religião espírita 1.
homeopáticas (além dos tradicionais banhos de Em 1998, constatou-se que havia médicos
ervas e beberagens 5), disseminando essa prática homeopatas atendendo no Sistema Único de
nos centros urbanos e zonas rurais, enraizando-a Saúde (SUS) em apenas vinte municípios brasi-
no itinerário terapêutico da massa populacional leiros; em algumas dessas cidades, as consultas
em crescimento, excluída da assistência médica homeopáticas na rede pública eram iniciativas
oficial, e contribuindo para que a homeopatia pessoais de médicos homeopatas, que contavam
alcançasse o status de medicina popular 1. com o apoio do gestor local, permitindo-lhes o
A expansão da homeopatia nas classes po- exercício da homeopatia nas unidades básicas de
pulares ocorreu à margem dos órgãos oficiais de saúde, nos serviços mais complexos e nas equi-
saúde, interiorizando-se pelos vários recantos pes do Programa Saúde da Família (PSF) 8. Pouco
do Brasil por meio de práticas beneficentes de se sabe, no entanto, sobre como os usuários do
farmacêuticos, que dispensavam medicamen- SUS se relacionam com a homeopatia e o trata-
tos gratuitamente, e de médicos que prestavam mento homeopático. Visando a contribuir para
assistência filantrópica nos hospitais de ordens preencher essa lacuna do conhecimento, este
religiosas, militares ou nos consultórios parti- estudo teve por objetivo conhecer as represen-
culares 4. Segundo Luz 1, este percurso, de falta tações dos usuários do SUS sobre a homeopatia.
de espaço nas instituições médicas públicas e Mais especificamente, buscou-se compreender
da associação com o catolicismo, o espiritismo as motivações dos usuários para procurar a ho-
e o umbandismo, como forma de resistência e meopatia, como eles representam e explicam a
expansão, contribuiu para que, mesmo nos dias ação dos medicamentos e o tratamento home-
atuais, a homeopatia ainda seja considerada para opáticos.
muitos uma medicina religiosa ou mística.
A partir da década de 70, com o acirramento
da crise do modelo médico hegemônico, a home- Considerações teóricas
opatia começou a ser vista como uma alternativa
terapêutica à “medicina especialista, tecnológi- Segundo Queiroz 9 (p. 25), as representações so-
ca, mercantilizada e marcada pelas terapêuticas ciais são conhecimentos culturalmente carrega-
invasivas e iatrogênicas” 1 (p. 42), cujas motiva- dos, são “um tipo de saber, socialmente negociado,
ções econômico-financeiras, organizacionais e contido no senso comum e na dimensão cotidiana,
gerenciais de acessibilidade, eficácia, e políticas que permite ao indivíduo uma visão de mundo e
corporativas e éticas eram alvo de críticas 6,7. A o orienta nos projetos de ação e nas estratégias
dimensão cultural dessa crise apontava para o que desenvolve em seu meio social”. Cada grupo
grau de insatisfação dos usuários com o que era social constrói códigos culturais que articulam
oferecido pela medicina oficial, tendo em vista representações sobre diversas esferas sociais,
que sua prática mais tecnicista e menos integra- entre as quais se incluem representações sobre
lizadora, desconsiderava “...a complexa dimen- corpo, saúde e doença, formando uma matriz
são simbólica da vida social, profundamente im- cultural ou um sistema simbólico 10. É a cultura
plicada na questão da saúde do ser humano e, que fornece as lentes através das quais será reali-
conseqüentemente, do seu imaginário, de suas re- zada a leitura dos sinais corporais, contribuindo
presentações e rituais milenares sobre as relações para determinar se eles serão avaliados como ir-
entre vida, saúde doença, loucura e morte” 1 (p. relevantes ou se, ao contrário, serão percebidos
275), favorecendo a busca de terapias nas quais como indicadores de doença que demande ajuda
os aspectos simbólicos, psicossociais e existen- terapêutica imediata 11. As representações po-
ciais pudessem ser contemplados. dem, também, influenciar na escolha e na ava-
Nas duas últimas décadas, os homeopatas liação das alternativas terapêuticas pelos indiví-
vêm ampliando campos de atuação que lhes duos, segundo a proximidade ou distanciamento
têm garantido maior aceitação e credibilidade com relação ao contexto cultural em que estão
entre os usuários e nas instituições normativas inseridos. Parte-se do pressuposto que os indi-
e prestadoras de serviço de saúde. Reconheci- víduos, no encontro terapêutico, sempre fazem
da desde 1980 entre as especialidades médicas uma releitura do discurso médico a partir da sua
regulamentadas pelo Conselho Federal de Me- matriz cultural. É importante, então, compreen-

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REPRESENTAÇÕES DA HOMEOPATIA 1905

der como os elementos da racionalidade home- e mecanização do universo, subordinando-o ao


opática são incorporados e reinterpretados pelos princípio de causalidade linear; (3) o caráter ana-
usuários do SUS, na cidade de Salvador. lítico no qual as leis gerais ou a leitura do todo é
resultado da leitura das partes isoladas.
Na perspectiva biomédica, as doenças são
As racionalidades médicas da entendidas como se fossem objetos com existên-
homeopatia e da biomedicina cia autônoma 16, expressas em lesões de uni ou
multicausalidades, que alteram a morfologia e
O conceito de racionalidades médicas, defen- a dinâmica do corpo, tratáveis com substâncias
dido por Luz, diz respeito a um sistema de tra- que atinjam as causas das enfermidades. Os co-
tamento que, visando a restabelecer a saúde nhecimentos da morfologia e da fisiologia são
dos seres humanos ou combater doenças, de- parâmetros classificatórios do que é normal ou
monstra sua eficácia prática, sendo sustentado patológico na aparência e na dinâmica do orga-
por um arcabouço teórico (epistemé) que, por nismo 15. Os sintomas que não são constatados
sua vez, traduz a competência empírica (tekné) empiricamente são abandonados, porque são da
daquela teoria 12,13. A homeopatia e a biomedi- ordem do metafísico, e esse campo não é consi-
cina possuem diferentes racionalidades médi- derado objeto da ciência clássica.
cas e ambas podem ser definidas como sistemas Hahnemann abandonou a medicina de sua
médicos complexos, uma vez que são estrutu- época por insatisfação com o que ele considerava
ralmente constituídas por cinco dimensões bá- falta de princípios da terapêutica médica 1. Com
sicas, com abordagens teórico-práticas 12: (1) base em sua auto-experimentação, ele concluiu
morfologia humana, ou anatomia; (2) dinâmi- que a quinina curava, no homem portador da
ca vital, ou fisiologia; (3) doutrina médica, ou malária, os sintomas que ela tinha potencialida-
corpus doutrinário; (4) sistema de diagnose e (5) de para causar no homem saudável. O que causa
sistema terapêutico. As racionalidades médicas o mal (doença artificial provocada pelo medica-
da biomedicina e da homeopatia têm na medici- mento no experimentador) é capaz de curar o
na moderna uma origem comum; Hahnemann, mal (a doença natural que acomete o doente).
inclusive, era um clínico conceituado, que fazia A partir dessa e de outras experiências, foram
uso das técnicas e da terapêutica de seu tempo 1. estabelecidos dois dos três princípios universais
Nesses dois séculos de convivência, entretanto, da homeopatia 17: (1) lei da similitude – o seme-
a homeopatia ocupou uma posição marginal em lhante cura o semelhante; (2) experimentação no
relação à biomedicina, uma vez que esta, legi- homem são.
timada pelo grande desenvolvimento tecnoló- O terceiro princípio – doses infinitesimais,
gico e pela ocupação competente de espaços e o uso do medicamento diluído – foi descoberto
papéis sociais, transformou-se na medicina que na prática com seus pacientes. Inicialmente, ele
responde às demandas (ainda que questionável tratava com doses ponderais, segundo a posolo-
em algumas oportunidades) de saúde e dá sus- gia farmacêutica da época, mas a freqüência e
tentação ao modelo econômico dominante no a intensidade das agravações eram constantes.
mundo ocidental 6. Percebeu que à medida que diluía as doses, o
Foucault 14 data o nascimento da medicina efeito curativo persistia e as agravações tendiam
moderna nos fins do século XVII, período a partir a diminuir e a desaparecer, até que decresceu
do qual tanto o que era percebido pelos sentidos, às doses infinitamente pequenas da substância
como o que era escondido no interior do corpo matriz.
foram testemunhados pelo olhar, descritos, reve- A terapêutica homeopática se diferencia de
lados e traduzidos pela linguagem da emergente outros sistemas terapêuticos (alopático e do
racionalidade clínica. A biomedicina se funda- enantiopático) no raciocínio clínico, no tipo e na
menta numa racionalidade embasada em leis e preparação do medicamento utilizado. O princí-
princípios positivistas que classificam, enqua- pio da similitude expresso no aforismo “similia
dram e normatizam o homem e a sociedade a similibus curantur” (o semelhante cura o seme-
partir dos pressupostos das ciências naturais 15. lhante) é a sustentação filosófica da homeopatia,
A racionalidade da biomedicina se baseia em três inspirada nos ensinamentos da medicina hipo-
proposições que se vinculam à racionalidade da crática 18. O sistema médico homeopático se ba-
mecânica clássica, a qual isola as partes do todo seia nos mesmos conhecimentos anatômicos,
para compreendê-las e, adiante, reintegrá-las ao fisiológicos e propedêuticos que são utilizados
seu mecanismo original 16: (1) o caráter universal pela biomedicina, diferindo desta na aborda-
e generalizante do discurso, secundarizando os gem semiológica e no ato de prescrição, como se
casos individuais; (2) o caráter mecanicista na constata na anamnese para tratamento homeo-
naturalização das máquinas criadas pelo homem pático 19. No entanto, é na concepção de orga-

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nismo, saúde, doença e terapêutica que o com- cor, religião, renda familiar e tempo de tratamen-
preender diferente é mais intenso e marcante, to com homeopatia, e uma questão aberta, a fim
uma vez que o sistema terapêutico homeopático de obter a identificação das queixas que motiva-
preconiza a busca integralizadora e holística do ram a consulta homeopática.
paciente e de sua realidade, no que diz respeito Entre os usuários que responderam ao ques-
a sua dinâmica biopsíquica-relacional, tanto no tionário, foram selecionados os informantes para
adoecer, quanto no tratamento 20. Assim dito, a as entrevistas em profundidade. Essas entrevistas
doença não é a lesão; é, porém, um desequilíbrio tiveram por objetivo conhecer as representações
no todo que se manifesta de múltiplas formas, associadas à homeopatia, utilizando-se aborda-
que pode, inclusive, traduzir-se em lesão. gem qualitativa adequada ao estudo do universo
Para Hahnemann, esse todo dinâmico res- de significados, motivos, crenças, valores e ati-
ponsável pelo equilíbrio é a força ou energia tudes 21.
vital: o atributo imaterial, automático, inerente Na seleção dos informantes para as entre-
ao homem, que coordena as funções orgânicas vistas, foram levados em conta critérios como
e psico-emocionais integralizando-as, tornando o interesse e a disponibilidade para participar
o homem uma unidade 17. Diferindo da biome- da pesquisa, além da capacidade de verbaliza-
dicina – cuja representação da enfermidade se ção do informante. Procurou-se contemplar, no
encontra fortemente atrelada ao corpo biológico, corpus, informantes de ambos os sexos, maiores
que deve ser reparado para retornar ao seu au- de 18 anos e com maior ou menor experiência
tomatismo na engrenagem sócio-econômica do na homeopatia (pacientes na primeira consulta
existir e sobreviver 20 –, a medicina homeopática e pacientes com várias consultas). No total, fo-
busca nos sintomas subjetivos o desvendar do ram realizadas 19 entrevistas em profundidade,
todo que é o sujeito no seu processo particular, empregando-se um roteiro semi-estruturado, no
inter-relacional e coletivo de saúde e doença. O qual foram abordadas as motivações para a bus-
conhecimento da forma de ser e estar doente de ca da homeopatia e as representações associadas
cada um é revelado principalmente pela fala do aos medicamentos, ao tratamento e à consulta
paciente, segundo a representação que faz do homeopática. As entrevistas foram gravadas e
próprio corpo, a qual traz o sintoma como cons- transcritas.
ciência real de seu momento histórico, através de A análise dos dados privilegiou a compreen-
uma linguagem própria 19. são e interpretação dos significados construídos
nos discursos dos informantes à luz do seu con-
texto sócio-cultural 21. Foi realizada uma análi-
Metodologia se de conteúdo temática 21,22, na qual os dados
das entrevistas em profundidade foram codifi-
Foi realizado um estudo de caso com utilização cados segundo as categorias analíticas (motiva-
de metodologias qualitativas em uma unidade ção para a busca do tratamento homeopático,
de saúde do SUS, localizada em um bairro popu- representações da homeopatia, do medicamen-
lar de Salvador, Bahia, Brasil, que oferece aten- to homeopático, da consulta homeopática e de
dimento homeopático à população desde 1986. saúde/doença), com abertura, no entanto, para
A unidade foi escolhida por ser, atualmente, a a exploração de categorias nativas que, porven-
única no serviço público na cidade a contar com tura, emergissem nos discursos. Para análise do
profissional concursado no quadro regular exer- questionário fechado, foi utilizado o programa
cendo rotineiramente a clínica homeopática. Epi Info (Centers for Disease Control and Preven-
O trabalho de campo se desenvolveu de tion, Atlanta, Estados Unidos).
janeiro a outubro de 2004, quando foram apli- Em consonância com os parâmetros do Con-
cados questionários, realizadas entrevistas se- selho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), o
mi-estruturadas e quando foi feita observação projeto que deu origem a este estudo foi aprova-
participante na sala de espera do consultório do pelo Comitê de Ética em Pesquisa, Instituto
homeopático. de Saúde Coletiva (ISC), Universidade Federal da
Para conhecer o perfil sócio-econômico dos Bahia (UFBA). Todos os participantes da pesqui-
usuários e a natureza das queixas que motivaram sa foram informados dos objetivos desta e dos
a busca da homeopatia, foi aplicado um questio- seus direitos enquanto sujeitos participantes. A
nário fechado a todas as pessoas que aguarda- participação dos entrevistados somente era con-
vam a consulta com o homeopata entre os meses firmada após o seu entendimento da explicação
de março a julho de 2004. No total, foram aplica- dos objetivos e dos procedimentos da pesquisa
dos 112 questionários. O questionário continha e depois de obtida a sua anuência. Para proteger
questões fechadas, visando a obter informação a identidade dos participantes, todos os nomes
sobre idade, escolaridade, profissão/ocupação, apresentados neste estudo são fictícios.

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REPRESENTAÇÕES DA HOMEOPATIA 1907

Resultados e discussão “Os médicos, eu já levei em mais de oito pedia-


tras e eles dizem que não são especialistas, então
Perfil dos usuários da homeopatia não dá jeito. Mandam levar no médico homeo-
pático, que só ele poderia passar o remédio por-
Composta por 112 clientes do Serviço de Ho- que eles é que sabem quais. Um alergista também
meopatia, a população do estudo contava, na mandou levar no homeopático...” (Alexandra, 25
sua grande maioria, com mulheres (79%), de cor anos, mãe de Mateus, 2 anos).
predominante parda (54%) e média de idade de Os achados deste estudo corroboram o que
44 anos e 2 meses. A maior parte era constituída foi encontrado por Mendicelli 24 na cidade de
de pessoas nascidas na capital (55%), todas resi- São Paulo, com população semelhante. Segun-
dentes em bairros populares, que referiram ser do a autora, do total da população entrevistada,
adeptas do catolicismo (62%). A escolaridade 56,7% desconhecia que o Serviço de Homeopatia
era baixa, considerando-se que 45% relataram era oferecido nas unidades de saúde investiga-
não ter finalizado o ensino fundamental e tra- das; 58,5% receberam indicação do tratamento
balhar em profissões variadas e de pouca qua- homeopático por meio de parentes, amigos e
lificação, principalmente serviços domésticos, conhecidos, enquanto 66,3% buscaram a home-
no caso das mulheres. Quando não desempre- opatia por falha do tratamento anterior. Os acha-
gadas, estavam inseridas no mercado informal dos contrastam, no entanto, com os resultados
com renda familiar de menos de dois salários da pesquisa realizada por Loyola 3 junto às pesso-
mínimos (65%). as de classe média que fazem consultas homeo-
Neste serviço, o tempo médio de tratamento páticas em consultórios particulares. Neste caso,
homeopático foi estimado em quatro anos e sete a demanda espontânea ao tratamento homeopá-
meses. A grande maioria (78%) procurou a ho- tico aparece como preponderante, motivada por
meopatia queixando-se de mais de um problema uma tendência de confrontação ao tratamento
de saúde. Entre estas, as queixas mais comuns alopático hegemônico. No caso da população de
foram sintomas gerais e inespecíficos (24%), pro- baixa renda que utiliza o serviço homeopático no
blemas respiratórios (21%), dores ósteo-muscu- SUS entrevistada neste estudo, a homeopatia é
lares (12%) e doenças de pele (12%). Interessante menos uma escolha ideológica e mais uma busca
notar que alguns pacientes fizeram menção a do- pragmática de uma alternativa terapêutica para a
enças, como problemas endócrinos, cistos e tu- solução de um problema de saúde que a medici-
morações, que são consideradas pelos médicos na tradicional não conseguiu resolver.
homeopatas exemplos de limites terapêuticos da
homeopatia 23. Representações do tratamento homeopático

Motivação para a busca da homeopatia A visão do tratamento homeopático como na-


tural foi a representação mais recorrente no dis-
A maior parte das pessoas entrevistadas não pro- curso das pessoas entrevistadas, mesmo entre
curou a homeopatia em decorrência de um co- aquelas que aguardavam na sala de espera pela
nhecimento prévio dessa prática terapêutica. A primeira consulta. A noção de natural se rela-
análise dos dados qualitativos mostra que o des- ciona com o que é produzido pela natureza, em
conhecimento do que seja homeopatia é comum oposição a aquilo que é fabricado, que é químico,
entre os usuários e entre os próprios servidores sintético, artificial. O medicamento homeopáti-
da unidade de saúde na qual o serviço é ofereci- co foi descrito pelas pessoas como análogo aos
do. Em geral, a procura da consulta homeopática medicamentos fitoterápicos, que são naturais,
pelos informantes se deu ao longo de um pro- pois utilizam plantas, folhas e raízes. Os elemen-
cesso de busca de solução para um problema de tos da natureza são vistos como saudáveis, não
saúde para o qual o tratamento convencional se prejudiciais e até vitais, como é o caso da água:
mostrou ineficaz. Assim, a falência do tratamen- “Tratamento natural no meu entender é quando
to alopático anterior constituiu-se na principal a gente busca [remédios] de folhas, de raízes. Essas
motivação para a busca da consulta homeopáti- coisas é um tratamento natural porque são me-
ca entre as pessoas entrevistadas. Elas chegaram dicamentos que vêm das plantas ou de legumes
ao Serviço de Homeopatia através da indicação e verduras, e no tratamento homeopático eu não
de familiares, amigos, vizinhos ou conhecidos entendo bem, eu sei que usa água, uma coisa na-
que tiveram uma experiência positiva com essa tural também, não sei explicar” (Rute, 36 anos).
prática terapêutica e a recomendaram. Alguns De maneira geral, as pessoas entrevistadas
informantes relataram, ainda, ter recebido indi- desconhecem a origem do medicamento home-
cação para a homeopatia por parte dos médicos opático e sua forma de preparação. Ele se aproxi-
com os quais anteriormente se tratavam. ma e se insere, no entanto, no universo cultural

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1908 Monteiro DA, Iriart JAB

das classes populares a partir da relação que as ver o resultado. Tem que esperar o resultado, mas
pessoas estabelecem entre o remédio homeopá- o resultado é mais certo e não é agressivo” (Rute,
tico e os elementos da natureza que estão pre- 36 anos).
sentes nos chás, infusões, banhos e garrafadas A lógica do tempo no tratamento homeopá-
preparadas sob orientação das raizeiras, benze- tico contrapõe-se ao imediatismo e à velocidade
deiras, mães e pais de santo na medicina tradi- característicos da modernidade globalizada. A
cional e nas práticas religiosas 5. rapidez do tratamento e dos medicamentos alo-
A representação do medicamento homeopá- páticos, referida em muitos discursos dos entre-
tico como natural e não prejudicial à saúde está vistados, ajusta-se ao ritmo da vida moderna, no
em oposição à representação dos medicamentos qual as soluções devem chegar velozmente, uma
alopáticos como artificiais e passíveis de causa- vez que se vive sob a influência do fator econômi-
rem sintomas desagradáveis ou dano a outros co. A rápida remissão dos sintomas é importante
órgãos do corpo que estavam sadios. para que os pacientes possam voltar a desempe-
“Tomo Puran de 100 e Captopril para tireóide, nhar normalmente suas atividades cotidianas e,
coração e pressão alta. Estou tomando compri- sobretudo aqueles que são trabalhadores, pos-
mido por causa do problema, mas a homeopatia sam retornar ao trabalho na maior brevidade.
é mais natural. Para evitar ficar tomando com- Queiroz 25, em estudo realizado com usuá-
primido, porque a gente melhora de uma coisa rios do SUS em Paulínia, São Paulo, discute como
e piora de outra e a homeopatia é mais natural. essa lógica reflete-se na expectativa, em relação
Ameniza mais o problema, porque evita de tomar ao médico, para a utilização de remédios poten-
os comprimidos e até o estômago se sente melhor tes capazes de erradicar o mal de forma quase
no tratamento, a gente não sente dor” (Lídia, 46 instantânea e representa dificuldade para médi-
anos). cos do SUS que defendem uma ação terapêutica
Para a maioria dos informantes, o remédio menos medicalizada. Esses resultados, contudo,
homeopático age de forma lenta, o que está as- mostram que os usuários da homeopatia não
sociado ao fato de ser natural e agir respeitando apenas aceitam a ação mais lenta dos medica-
o ritmo da natureza. É interessante notar que a mentos homeopáticos, como valorizam positiva-
ação lenta do medicamento homeopático passa mente essa temporalidade. É possível que o fato
a adquirir uma série de significados positivos. Se- de muitos dos informantes serem donas de casa
gundo os entrevistados, ao agir em consonância ou aposentados e, portanto, não sofrerem pres-
com a natureza, ele não perturba o ritmo do or- são direta de empregadores para rápida solução
ganismo, o que explica a ausência de efeitos cola- do problemas de saúde e retorno imediato ao tra-
terais. Sua ação lenta, mas equilibrada e profun- balho favoreça a aceitabilidade de um tempo de
da, é vista em oposição à ação rápida, mas, por tratamento mais longo.
vezes, agressiva e superficial, dos remédios alo- A noção de ser lento está vinculada também
páticos. O imediatismo atribuído a estes últimos à abrangência holística do tratamento e da ação
é visto pelos informantes como uma violência ao do medicamento homeopático, que age no su-
estado fisiológico do corpo. A maior demora na jeito em sua totalidade (extensão e profundida-
ação do tratamento homeopático está associa- de), sem agredir parte alguma de seu todo não
da ao tempo necessário para que se descubra a segmentado. No processo terapêutico, qualquer
verdade mais fundamental sobre a pessoa e seu adoecimento expresso em sinais ou em sensa-
sofrimento. É necessário tempo para agir sobre ções é entendido como manifestação do ser in-
o que não está acessível superficialmente, pois tegral.
é preciso ir lá no fundo buscar a origem da coisa “Conforme eu falei, ele [o medicamento] pode
para poder proceder a uma cura profunda ou, no demorar um pouquinho mais do que o analgésico,
dizer de um informante, para que se descubra a mas ele trata como um todo. (...) Então eu tomo
realidade da vida. o remédio da alopatia para dor de cabeça, só a
“Eu acho que ele é lento mesmo. Os outros re- dor de cabeça vai ser passada, mas acontece que
médios que você toma para dor passa logo e ele a dor do meu pé não vai ser passada com aquele
não. Ele vai devagarzinho, vai lá no fundo buscar remédio que eu tomei por causa da dor de cabeça.
a origem da coisa, onde se encontra mesmo a do- Ao passo da homeopatia, que eu estou tomando o
ença, para poder curar. Por exemplo, eu dava crise, remédio para nervoso, mas ele trata o problema
me curou, nunca mais eu dei crise de noite, nunca do meu rim, do meu útero, do meu ovário e assim
mais” (Joana, 57 anos). sucessivamente” (Sabina, 40 anos).
“Ele tem o resultado aos poucos, a gente vai Nessa representação do que é lento, emer-
vendo o resultado e ele age de uma forma bem ge, também, a noção de um tratamento que é
natural. É devagar. Não é no caso de um antibió- voltado para toda uma vida, que tem um tem-
tico que a gente usa hoje e hoje mesmo eu já vou po indefinido de existência, demandando trata-

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REPRESENTAÇÕES DA HOMEOPATIA 1909

mento continuado. Aliado a isso, está o tempo de de trinta dias, mesmo sendo utilizado de duas a
que se necessita para curar cada um dos novos três vezes por dia.
sintomas que surgem, enquanto viver o sujeito,
não importando se os seus sinais e sintomas sur- Representações da consulta homeopática
giram na sua infância, adolescência, juventude,
maturidade ou senilidade. Essa abordagem não A visão que os informantes trazem da consulta
segmentada na dinâmica biopsicossocial pode homeopática é construída em oposição ao refe-
ser entendida como holismo ou integralidade ho- rencial que possuem da consulta para o trata-
rizontal 4, que acontece quando se busca, sem mento alopático. Alguns informantes mantêm
recortes temporais, o conhecimento do sujeito o tratamento biomédico em paralelo ao home-
desde a sua vida intra-uterina até ao momento opático por conta da gravidade de sua doença,
da consulta 4. Ambas as formas semiológicas são que não pode prescindir dos medicamentos alo-
contempladas simultaneamente na terapêutica páticos. Os entrevistados percebem, no entanto,
homeopática, que não compartimentaliza o su- a situação marginal da homeopatia em face da
jeito na sua dinâmica biopsicocultural, nem faz biomedicina: “Quando eu voltei para o mastolo-
um recorte temporal de sua vida, uma vez que gista para falar que eu tinha ficado boa do cisto
entende que o sujeito é um todo funcional em da mama com o remédio da homeopatia, ele deu
qualquer momento de sua existência e não ape- gargalhada, chicanando que a homeopatia não
nas uma parte adoecida 17. cura. Pra mim, cura!” (Anita, 63 anos).
“É uma consulta que de fato vai buscando em O que é marcante nos discursos, porém, é o
você, vai cavando de fato lá do início da sua vida, espaço diferenciado que a consulta homeopá-
ou até da gravidez da nossa mãe, né?” (Bete, 56 tica representa, durante a qual os entrevistados
anos). referem poder falar tudo o que sentem, com cal-
“Ele fazia um montão de pergunta, de tudo ma, e sem pressa. O tempo longo da consulta
como era minha vida, do princípio ao fim...” (Lí- homeopática foi considerado pelos informantes
dia, 43 anos). como uma característica diferencial importante
A abordagem holística da homeopatia en- em relação às consultas médicas alopáticas. A es-
contra boa receptividade entre os usuários do cuta atenta à narrativa do paciente pelo médico
SUS entrevistados, por se encontrar em conso- homeopata é percebida pelos informantes como
nância com o holismo característico das práticas um ato de atenção e de respeito, que contrasta
médicas populares e religiosas. De forma seme- com a consulta apressada e pouco dialógica na
lhante ao que ocorre nas religiões populares, a clínica biomédica. Esta última foi descrita por
exemplo do candomblé, das igrejas pentecostais, uma informante como aquela na qual o médico
do catolicismo e espiritismo populares, o médico não olha o paciente e não faz as perguntas que
homeopata não se centra apenas no corpo físico ele gostaria de responder.
e nos processos fisiopatológicos; ele busca, nas “O médico nos ouvir com paciência, é procu-
várias dimensões da vida do paciente, os elemen- rar detalhadamente cada coisa que sentimos. Eu
tos que contribuem para explicar a origem dos tenho 66 anos conforme falei; durante esses anos
problemas de saúde 10. eu fui em ‘médicos químicos’ e que infelizmente,
“Ah, eu acho uma consulta ótima porque ela quando eu sentava, o médico já estava com a re-
envolve, assim, um monte da psicologia humana. ceita praticamente pronta, nem sequer me ouvia.
Ela pergunta todo o seu funcionamento físico, se Ao contrário da homeopatia, que lhe ouve com
você evacua bem, se você dorme bem, se você come paciência detalhadamente” (Narcisa, 66 anos).
bem, né? Aí depois ela passa assim, se tem medo, O valor da escuta no processo terapêutico da
tem temores, sonha muito? Então ela procura ver biomedicina é geralmente voltado para se focar
o seu lado físico, procura ver o lado espiritual, o na informação trazida pelo paciente que se pres-
que você pensa a respeito da vida. Somos corpo e ta à diagnose; tudo que não cumpre esse fim é
somos espírito, então se um não trabalha com o ignorado, ou visto como ignorância e crendice
outro não vai ter resultado de positividade” (Lú- popular. O pragmatismo do ouvido clínico não
cia, 45 anos). reconhece o valor terapêutico de uma consul-
Por fim, o baixo custo do tratamento homeo- ta quando ao sujeito é dada uma escuta mais
pático foi trazido também pelos informantes co- abrangente e menos focal. Segundo Caprara &
mo importante aspecto para adesão a essa tera- Rodrigues 26, estudos mostram que 25% dos be-
pêutica. O preço médio do medicamento home- nefícios oriundos da prática médica não estão
opático, em gotas ou glóbulos, nas dinamizações relacionados com a qualificação tecnológica do
mais prescritas, gira em torno de menos de 2% médico ou com os efeitos terapêuticos dos me-
do salário mínimo, que na época do estudo valia dicamentos ou do placebo, mas com os efeitos
duzentos e sessenta reais, podendo durar mais terapêuticos da própria palavra do médico, sobre

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1910 Monteiro DA, Iriart JAB

uma série de sintomas que surgem como even- que se precisa de tempo para “conhecer a pessoa,
tos ligados aos fenômenos de estresse (cefaléia, cobrir a totalidade do paciente, fazer o diagnós-
cansaço, constipação, problemas gástricos, mo- tico do medicamento homeopático, conhecer as
dificações do peso etc.). Esses autores chegaram sensibilidades do paciente, respeitando o relato
à conclusão de que o maior tempo de consulta espontâneo e travar uma relação de empatia” 28
favorece uma melhor qualidade de atendimento, (p. 16-7).
que se caracteriza por uma melhor anamnese:
“uma melhor explicação do problema e dos proce-
dimentos diagnósticos e terapêuticos, assim como Considerações finais
a verificação do médico sobre a compreensão do
paciente e a participação do paciente na consul- Os resultados deste estudo mostram que o trata-
ta” 26 (p. 143-4). mento homeopático foi bem avaliado pelos usu-
Vale pontuar que a satisfação com a consul- ários do SUS entrevistados com base em sua ex-
ta homeopática, em virtude da atenção do pro- periência pessoal. A proximidade da filosofia ho-
fissional, do tempo de duração, da boa vontade meopática com aspectos das práticas populares
do médico em perguntar e ouvir, foi expressa e religiosas de saúde, tal como a perspectiva ho-
por um dos informantes como uma consulta lista, o uso de medicamentos naturais e a escuta
de qualidade, diferenciada, como se fosse uma aberta e atenta ao discurso do paciente, favorece
consulta particular. Essa afirmação expressa a a aceitação e a incorporação de elementos sim-
insatisfação com a precariedade da assistência bólicos da homeopatia pelos usuários das classes
médica na rede pública, onde, além da lógica populares. Estes percebem a situação marginal
tecnicista própria da racionalidade biomédica da homeopatia em relação à medicina hegemô-
1, diversos fatores estruturais e grande deman- nica e respondem enfatizando a natureza não
da por atendimento impactam diretamente no iatrogênica dos medicamentos homeopáticos e
tempo disponível para a consulta e na qualidade a ação de cura lenta, mas profunda, que eles per-
do encontro terapêutico. O tratamento homeo- mitem. Para a maior parte dos entrevistados, a
pático no SUS representa, para os informantes, principal motivação para a procura do tratamen-
um momento e um espaço que não se sujeita to homeopático foi o insucesso do tratamento
a essa lógica, no qual eles se sentem como se alopático anterior. A migração terapêutica para
estivessem recebendo atenção e respeito de for- a homeopatia, a adesão ao tratamento e a pro-
ma semelhante à que eles imaginam recebam paganda do serviço para outros pacientes pode
as pessoas que financiam uma consulta em um ser compreendido como uma resistência ética,
consultório particular. conforme o proposto por Luz 13. Ela é a forma
É importante ressaltar, entretanto, que o pela qual esses indivíduos das classes populares
tempo diferenciado da consulta é próprio da encontram meios de dar materialidade à sua crí-
racionalidade homeopática. A semiologia que tica à biomedicina dominante, que não lhe traz
conduz à terapêutica homeopática leva o médi- sensação de familiaridade e com a qual eles não
co a ouvir, a dar tempo ao paciente para pensar, se identificam, não se reconhecendo no que lhes
observar-se, autodescobrir-se e revelar-se para é oferecido.
o médico 27. Não é uma mera manifestação do Os resultados do estudo apontam, de um la-
perfil humanista do médico, mas uma imposição do, para a necessidade de maior humanização
semiológica para se completar o raciocínio clíni- da prática biomédica, em especial a atenção à
co. O interrogatório que embasa a anamnese da subjetividade do paciente, e, de outro, para o po-
homeopatia busca nos eventos orgânicos e emo- tencial ainda pouco explorado da contribuição
cionais do passado causas desencadeantes da de alternativas terapêuticas como a homeopatia
enfermidade que motiva a consulta 27; é por isso no serviço público de saúde.

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Resumo Colaboradores

Apesar de ter sido oficialmente introduzida no Brasil D. A. Monteiro e J. A. B. Iriart participaram igualmente
em 1840, a homeopatia só foi reconhecida pelo Conse- de todas as etapas da elaboração do artigo.
lho Federal de Medicina como uma especialidade mé-
dica em 1980. Sua presença no Sistema Único de Saúde
(SUS) ainda é reduzida, existindo poucas experiências
de serviços de homeopatia em não muitos municípios
brasileiros. Este estudo tem como objetivo conhecer as
representações dos usuários do SUS sobre a homeopa-
tia. A metodologia da pesquisa foi qualitativa, tendo
sido realizado um estudo de caso em uma unidade de
saúde em Salvador, Bahia. Para a coleta de dados, fo-
ram aplicados 112 questionários aos usuários do ser-
viço de homeopatia na unidade selecionada, com os
quais foram realizadas 19 entrevistas em profundida-
de. Os resultados do estudo mostraram que a principal
motivação para a procura da homeopatia foi o insu-
cesso do tratamento alopático anterior. A perspectiva
holística, o uso de medicamentos naturais, o tempo
longo da consulta e a escuta atenta do paciente foram
trazidos como características diferenciais positivas na
comparação com o tratamento alopático. Os resulta-
dos apontaram para o potencial ainda pouco explora-
do da contribuição de alternativas terapêuticas como
a homeopatia, no SUS.

Homeopatia; Representações Sociais; Sistema Único de


Saúde; Terapias Complementares

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Versão final reapresentada em 12/Fev/2007
Aprovado em 15/Fev/2007

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(8):1903-1912, ago, 2007

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