poesia, música e a
valorização da
identidade negra e
amazônica
Joana Darc da Luz Cesario Jaques
Luis Henrique Dias de Sousa
Luís Henrique Vitória Araújo
Sobre a obra
Foi primeiramente publicado em "Bailado Lunar"
(1924) e depois sedimentado com "Batuque", em
1931.
Contém vinte poemas, onde predomina
elementos da cultura afro-brasileira e amazônica.
Há ilustrações feitas pelo advogado e artista
plástico Raymundo Viana.
Além de ter canções e partituras.
Sobre o autor
• Nascimento e contexto histórico:
• Nascido em 1893, em Belém do Pará.
• Viveu o declínio da belle époque, período
áureo da borracha.
• Infância e formação:
• Cresceu no bairro do Jurunas, em uma área
periférica e alagadiça.
• Conviveu com manifestações culturais
populares, como o Círio de Nazaré e o Boi-
Bumbá.
• Trabalhou como aprendiz de encadernador,
tendo contato com diversas obras literárias.
• Carreira literária:
• Publicou seu primeiro poema, O Operário, em 1913, na revista Martello. Sua primeira
obra foi
• Inicialmente influenciado pelo simbolismo e parnasianismo, depois adotou uma
estética modernista.
• Considerado um dos introdutores do Modernismo na Amazônia.
• Fundou a revista Belém Nova, que impulsionou o modernismo na região.
• Engajamento social e político:
• Ativista sindicalista, ligado ao anarquismo e à defesa da classe trabalhadora.
• Publicou artigos e fez conferências sobre educação e direitos dos operários.
• Defensor do cooperativismo como forma de resistência ao capitalismo selvagem,
Criou cooperativas para ajudar as classes menos favorecidas.
• Foi presidente da Academia Paraense de Letras (1956-1957), apesar de sofrer
preconceito por sua origem humilde.
• Temas e contribuições literárias:
• Valorização da cultura afro-amazônica e das classes marginalizadas.
• Suas obras destacam a negritude, as tradições populares e a religiosidade.
• Autor de Boi Bumbá: Auto Popular (1958) e São Benedito da Praia (1959), que
abordam o folclore paraense. 11 Sonetos – Última obra publicada, com forte
influência simbolista e romântica.
• Legado e reconhecimento:
• Inspirou diversos artistas e pesquisadores.
• Seu trabalho é referência para estudos sobre cultura popular e negritude na
Amazônia.
• Morreu em 2 de julho de 1963, durante um festival folclórico em Manaus.
• Homenageado com busto na Praça Heliodoro Balbi, em Manaus.
• "Bruno de Menezes participava dessa academia ao ar livre, que
recebia diferentes epítetos, conforme a ocasião. No momento em
que se reuniam no Ver-o-peso, era a Academia Peixe-Frito. Eram
encontros regados a aperitivos e, como tira-gosto, peixe frito. Em
outras situações diziam ser Vândalos do Apocalipse por talvez
estarem discutindo e anunciando a poética dos novos tempos.
Tempos depois organizaram a Associação dos Novos para
organizar as novas idéias." (PACHECO, 2003, p. 116)
Recepção crítica da obra
• Por ter sido lançado em 1931, faria sentido Batuque e Bruno de
Menezes serem incluídos na geração de 30. Isso não aconteceu
provavelmente pelo fato de "se Bruno não alcançou o destaque
que deveria, isso provavelmente se deve à ausência de uma
política cultural que nos tire, os amazônidas, do isolamento"
(Fares; Nunes, 2005).
Recepção crítica da obra
"O livro de Bruno de Menezes irrompe rumorosamente, sumarento de inspiração,
revelando uma seqüência de lindos baixos-relevos da vida amargurada e viril,
impregnada de crendices, saturada de sensualismo, do elemento afro-brasileiro."
(Wladimir Emanuel -- "Gazeta de Notícias", São Paulo, São Paulo, 1941)
"BATUQUE" é de grande significação para as pessoas interessadas no folclore do
Norte do Brasil." (George Colman - Belém, Pará, 1954)
"Foi com grande prazer que lemos os poemas bárbaros cheios de cor local, revelando
preferências, usos e costumes do extremo norte do país, constantes do livro
"BATUQUE" desse autêntico caboclo paraense que é Bruno de Menezes." (Revista "A
Careta" - n° 2404, Ano XLVIl, Rio de Janeiro, Guanabara, 1954)
Problemática
• Como é representada a identidade negra e amazônica em
Batuque que os modernistas da semana de 22 se recusavam, em
muitos momentos, a ver.
Objetivos
• Objetivo geral:
Analisar como Bruno de Menezes, em Batuque, articula a poesia e a música
como formas de valorização da identidade negra, amazônica e da
ancestralidade africana, destacando sua importância na literatura modernista
brasileira.
• Objetivos específicos:
• Identificar os principais elementos culturais afro-amazônicos presentes na
obra, como a musicalidade, as tradições religiosas e o cotidiano popular.
• Examinar a representação da figura negra na poesia de Bruno de Menezes
com a forte presença do erotismo, da escravidão sofrida no ambiente
amazônico e a marginalização decorrente dela.
• Destacar como Bruno de Menezes se configura dentro do modernismo
brasileiro.
Musicalidade em Batuque
IGREJA DE ARRABALDE
A torre é branca e espia de longe os casebres humildes
quando acorda os devotos nas manhãs de domingo. "Domingo tem
domingo tem
A torre não tem sino grande tocando.
domingo tem
A igreja que é simples tem uns Santos pobrezinhos. tem
Seus devotos crêem mesmo que a hóstia é o corpo de tem!
Deus... Quem quiser vem
Os sinos da torre são três alegres sinozinhos quem quiser vem
que falam a língua do povo do bairro. quem quiser vem
vem
Quando termina a missa nas manhãs de domingo,
vem!"
e que as moças de branco as velhinhas de chale,
os homens em ar de festa vão saindo da igreja,
os três sinozinhos dizendo que voltem no outro domingo,
vão logo fazendo convites a todos:
Musicalidade em Batuque
As tradições religiosas
"Toiá Verequête"
A voz de Ambrosina em "estado de santo"
virou masculina
O corpo tomou jeitão de homem mesmo.
Pediu um charuto dos puros Bahia
depois acendeu soprando a fumaça.
Seus olhos brilharam
Aí o "terreiro" num gira girando
entrou na tirada cantada do "ponto".
Era a "obrigação" de Mãe Ambrosina
falando quimbundo na língua de Mina.
O cotidiano popular
"Cachaça" p.55
"Cachaça é tua vida, "Cachaça nascida do olho da cana,
tua festa teu mundo, que faz com que o negro nem pense em morrer,
saúde remédio até valentia. que põe nas mãos dele cuícas e surdos
na hora dos ranchos dos sambas e choros."
Coleira de ferro,
'bacalhau', palmatória,
tu nada sentias tomando da 'pura'. "
O cotidiano popular
"Chorinho" Das músicas chulas as notas subindo
Alta noite... conduzem três almas demais brasileiras
serenatando.
O silêncio parou para ouvir o chorinho
E vão por este mundão que se chama
que os crioulos tocavam Saudade
Amando as estrelas falando com a lua. e começa e termina numa esquina de
Ao som do violão da flauta e cavaquinho rua.
Horas inteiras aquele chorinho
Acorda a rua adormecida.
Erotismo
"Alma e ritmo da raça" p. 23
No rosto crioulo dois sóis de jarina
brilhando nos olhos.
E o sumo baboso espumoso, meloso, da fruta leitosa rachada
de boa!
E os braços se agitam, se alligem
batendo,
A carne transpira... o almíscar da raça as coxas se apertam se alargam se
é ○ cheiro "malino" que sai da mulata. rocam
○ banjo faz solo no fim do banzeiro: os pés criam asas voando pousando.
lundus choradinhos batuques maxixes.
Ancestralidade
"Alma e ritmo da raça" "Mãe preta"
É o Congo Luanda No acalanto africano de tuas cantigas,
Angola Moçambique Nos suspiros gementes das guitarras,
É o sangue zumbi Veio o doce langor
tentação do português. De nossa voz,
A quentura carinhosa de nossa sangue.
Escravização e a marginalização
Fartura
Tanta fruta madura tanta fruta pelo chão.
Tanta terra plantada
pejada
de fruto que ainda está para nascer...
Tanta fartura de fruta cheirosa
que o preto plantou
boa de comer...
E é por isso que a gente até nem estende a mão!...
MENEZES, 2005, p. 85
Escravização
e a marginalização
"No cais o serviço na sua bruteza
é ver como em faina
qualquer formigueiro
com a gente da estiva
empurrando o carrinho. "A gente da estiva
na lida afanosa
parece escuras formigas troncudas."
Fazendo lingadas
de sacos e fardos,
trazendo caixotes barricas pranchões,
que o braço de ferro
dos altos guindastes
arria de cima aos fundos porões.
MENEZES, 2005, p. 69
Modernismos Brasileiros
• Enquanto o grupo do modernismo paulista, aquele da Semana de 22, era
constituído por um "perfil de integrantes [...] bastante homogêneo; à exceção
de Mário, ali se reuniam jovens brancos, cosmopolitas e provenientes de
famílias de posse" (Schwarcaz, 2022, 306), o grupo da Geração do Peixe-
Frito, de Belém, muito se distingue daquela primeira equipe, já que eles
"eram jovens pobres, negros, autodidatas, provenientes da periferia de
Belém, que assumiam profissões variadas para poder ganhar a vida" (Pereira;
Silva; Amin, 2018, p. 50).
Projeto estético
- A "revolução na literatura" (Lafetá, 2000, p. 30), ou seja, a ruptura na
linguagem e o projeto estético, acontece na poesia de Menezes e é possível
ser identificada através do uso da oralidade que o escritor faz, além de haver
um léxico que incluem palavras e expressões dos povos afrobrasileiros e
paraenses, e uma imersão na cultura dos negros e nortistas.
"- Nega qui tu tem?
- Maribondo Sinhá!
- Nega qui tu tem?
- Maribondo Sinhá!"
Projeto ideológico
• Já a "literatura na revolução" (LAFETÁ, 2000, p. 30), isto é, o projeto
ideológico, se manifesta nos poemas de "Batuque" a partir do momento em
que Bruno insere o indivíduo negro numa posição de protagonismo, e não
mais da forma como era feito anteriormente nos anos 20, onde "a questão
racial negra, tratada ora de maneira secundária, ora silenciosa" (Schwarcz,
2022, p. 306).
REFERÊNCIAS
• LAFETÁ, João Luiz. 1930: A crítica e o modernismo. São Paulo: Companhia
das Letras, 2000.
• SCHWARCZ, Moritz Schwarcz. O negrismo e as vanguardas no
modernismos brasileiros: ausência e presença. In: ANDRADE, Gênese
(org). Modernismos 1922-2022. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
• MENEZES, Bruno de. Batuque. 7 ed. Belém: [s.n], 2005.
• PACHECO, Terezinha de Jesus Dias. Bruno de Menezes e o modernismo no
Pará. Em Tese, Belo Horizonte, v. 6, p. 165-172, ago. 2003.
• PEREIRA, Carla Soares; SILVA, Kátia Regina de Souza da; AMIN, Vanda do
Socorro Furtado. A geração do peixe frito e a efígie de Belém do Pará (ou
academia rima com boemia, fisionomia e poesia). Asas da Palavra: Revista
do curso de graduação em Letras e do Programa de Pós-Graduação em
Comunicação, Linguagens e Cultura da Universidade da Amazônia. Belém,
Pará, v. 15, n. 1, p. 49-58, jul. 2018.