Luto
Luto
DOI: 10.47573/aya.5379.2.55.6
ABSTRACT
Grief is a complex phenomenon, of a procedural nature, resulting from the death of someone
who is emotionally significant. Grief often generates intense suffering in people's lives with impli-
cations for everyday life. This has drawn the attention of scholars from different areas in order to
better understand this experience. Thus, this study aims to understand grief from the existential-
-phenomenological perspective. For this, a bibliographic research was carried out in the Scielo,
Pepsic and Lilacs databases. After reading the initial results, seven articles that focused on the
theme were chosen for the construction of this work. It can be analyzed that mourning is unders-
tood as the death of a relationship and a moment of existential reconstruction. Such a perspective
does not focus on the symptoms of grief, but on the reconstruction of meaning in view of the new
worldly horizon that presents itself. In addition, mourning is not an experience to be overcome,
but an experience to be lived through, which explains why this perspective does not stick to chro-
nological time as a criterion for pathologizing the experience and anchoring in a priori theories to
draw general conclusions about each unique experience. Therefore, the existential-phenomeno-
logical perspective, like any other knowledge, does not encompass the totality of human issues
or weaves absolute truths about grief, but invites us to reflect on the natural attitudes on which
we base our view of the phenomena in order to “to shake” the structures of the natural world and
immerse oneself in the reality of each person's lived-world and, thus, create an atmosphere of
comprehension so that new existential arrangements emerge and the mourner can resume the
tutelage of his life.
CAPÍTULO 06 72
INTRODUÇÃO
Em face da maneira como o ocidente encara a morte, a saber, como o fim da existên-
cia e o fracasso de projetos, não raro o luto gera reações de intenso sofrimento nas pessoas
com momentos de negação, revolta, depressão e até perda de sentido da vida (PARKES, 1998;
KÜBLER-ROSS, 2012). Essas implicações emocionais têm chamado atenção de estudiosos e
profissionais da saúde para o cuidado das pessoas enlutadas reconhecendo esse período como
de enorme fragilidade emocional e social.
Por esse e outros motivos a atual edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Trans-
tornos Mentais (APA, 2014) tem cogitado colocar o luto no rol dos transtornos contemporâneos
tendo como referência o tempo de duração, a intensidade dos sintomas e o impacto funcional
na vida da pessoa. Tal condição seria denominada de “transtorno do luto complexo persistente”,
mas ainda é taxada como possibilidade futura de diagnóstico devido à escassez de estudos.
Sabe-se que o luto comumente é visto como uma condição privada que atinge apenas
o indivíduo e alguns familiares próximos. Contudo ele é um fenômeno de muito interesse para o
aspecto social, pois envolve questões como pensão, status (viúvo), estigmas (solidão) e produti-
vidade laboral. Tendo em vista esses outros aspectos é que Freitas (2018, p. 50) chama atenção
para as iniciativas que colocam o luto como possível transtorno, pois a:
Avaliação do processo de luto como normal ou complicado recai sobre o clínico, corren-
do-se riscos, amplamente debatidos pela literatura, de se intensificar a patologização da
vida, aumentando o número de diagnósticos e o uso de medicação desnecessária.
CAPÍTULO 06 73
Entende-se que a perspectiva Fenomenológica-Existencial, como o próprio indica, tem
a influência do movimento fenomenológico e das filosofias existencialistas. Ambas são repre-
sentadas por divesos pensadores, sobretudo europeus, como Husserl, Heidegger, Sartre, Mer-
leau-Ponty. Trata-se, portanto, de apropriações de ambos os movimentos na tentativa de crítica
à psicologia e ao trabalho psicoterápico (MOREIRA, 2010; FEIJOO, 2011). Vale ressaltar que
para os fins desse trabalho não há como encerrar a explicação que tais linhas de pensamento
merecem devido sua extensão, embora uma breve explicação do fundamento será necessária
para chegarmos a compreensão do luto nessa perspectiva.
MÉTODO
Este estudo foi realizado a partir de uma pesquisa bibliográfica, de cunho qualitativo,
acerca de como o luto é compreendido na perspectiva fenomenológico-existencial. De acordo
com Gil (2008) a pesquisa bibliográfica revela sua importância no contexto de buscar trabalhos,
compará-los e interpretá-los em prol de obter conhecimento amplo do tema pesquisado. Espe-
cificamente adotaremos a revisão narrativa (ROTHER, 2007) para a construção do presente
trabalho.
A consciência deixou de ser tida como um receptáculo privado ou teatro interno do indi-
víduo, passando sua concepção a ser voltada agora para “além dela mesma”. Essa explicação
deságua no conceito de intencionalidade de Brentano onde toda consciência é “consciência de
algo” explicitando a natureza intrínseca da relação consciência-mundo-subjetividade (BORIS,
2011).
CAPÍTULO 06 74
Devido à disseminação do pensamento cartesiano nas ciências modernas as disciplinas
tiveram que se ajustar ao paradigma dominante das ciências naturais que consideravam entre
outros aspectos a cisão entre sujeito e objeto. Para Husserl a relação entre sujeito e objeto não
é cindida; Pelo contrário, ela é inevitavelmente junta, pois a consciência não é fechada em si
mesma e nem toma para si a credencial de ser o aparato conhecedor do mundo (FEIJOO, 2011).
A ideia de redução não pode ser confundida como mera técnica, mas sim uma atitude
necessária para “voltar às coisas mesmas” que quer dizer oportunizar a imersão do sujeito na
realidade de maneira mais pura e sem adornos. Por isso, dizer que a fenomenologia busca as
essências é demonstrar que há possibilidade de transcendência do aparente e da impressão
imediata. Deve-se colocar o “mundo entre parênteses”, estabelecer a époché, que nada mais é
que o afastamento e a negação da postura acrítica do mundo. Como afirma Moreira (2010, p.
725):
A redução é a operação pela qual a existência efetiva do mundo exterior é “posta entre
parênteses” para que a investigação se ocupe apenas com as operações realizadas pela
consciência, sem se perguntar se as coisas visadas por ela realmente existem ou não.
Através da redução, Husserl pretende “suspender” a tese do mundo natural.
O mundo natural é mundo tal como concebido pelas convenções, conceitos e verdades
determinadas como se fossem, de fato, naturais. Antagônico ao mundo natural estaria o mundo-
-da-vida (Lebenswelt) que seria o mundo “pré-reflexivo”, aquele que não está impregnado com
todas as teorias e convenções do saber especializado, mas um mundo bastante particular, vivido
pelas pessoas na facticidade do cotidiano, em que nem sempre as leis científicas se aplicam.
Em uma definição geral, podemos entender mundo da vida como a experiência e o con-
junto coerente de vivências pré-científicas (...) em contraste com o mundo propriamen-
te científico, no qual a realidade é analisada a partir dos elementos próprios da ciência
corrente, com seus correspondentes pressupostos e orientações de método, sejam tais
pressuposições explícitas ou não (MISSAGGIA, 2018, p. 192)
Como assinalado acima é uma questão tanto de perspectiva como de método. Podemos
tratar o mundo como a massa mecanicista arredondada que obedece algumas leis fixas e só
pode ser analisado de determinada maneira. Porém, também podemos vê-lo como fenômeno
anterior a tudo isso, um mundo que se mostra para cada um de nós de forma diferente. O esforço
da fenomenologia nesse sentido foi inaugurar um modo de pensar que não se guiasse apenas
pela epistemologia e método dominante da época, tornando-se, ao longo das investigações, uma
maneira peculiar de conhecer a realidade (HOLANDA, 1997).
CAPÍTULO 06 75
A orientação fenomenológica exige que se saia do campo empírico, que posiciona os ob-
jetos no espaço e no tempo, e isto envolve a necessidade de deixar o campo emergir num
gesto não teorizante. Para tanto é preciso que, uma vez diante do fenômeno, se dê um
passo atrás e se retorne ao seu correlato co-originário (FEIJOO, 2011, p. 415).
Desse modo, para o fenomenólogo francês, o corpo visto como objeto é apenas um ente
no meio de vários outros entes; algo decomponível, separado do todo, mensurável e explicado
pelas ciências naturais (MERLEAU-PONTY, 1999). A ideologia transmitida era do corpo como
“posse” e, na fenomenologia merleau-pontiana, considera-se que o ser humano é o próprio cor-
po. Por isso, Merleau-Ponty (1999) salienta que o objeto é aquele no qual se pode manter dis-
tância e ser visto por diferentes perspectivas, logo, o corpo não é objeto, pois este está enlaçado
em nós e só pode ser observado por outro corpo.
A corporeidade para fenomenologia não considera o corpo como a soma das partes ou o
conjunto dos órgãos biológicos. Ele é o veículo do mundo que carrega as marcas das experiên-
cias de vida, é fonte de expressão e de locomoção onde cada aspecto é repleto de significado.
Esse mesmo corpo é aquele que transcende as formas na medida em que não se limita ao físico
e que se relaciona com o outro numa intercorporeidade.
Desse jeito se pode perceber que a fenomenologia valoriza bastante o aspecto vivencial
de como o ser humano se relaciona consigo e com o outro sempre convidando a refletir nas ver-
dades solidificadas em que acreditamos. Com isso, abrimos espaço agora para dissertar sobre
outra corrente filosófica importante nas reflexões sobre o humano que influenciou a perspectiva
fenomenológico-existencial e também foi influenciada pela fenomenologia: o existencialismo.
Collete (2009) aponta que o existencialismo é uma filosofia que se preocupa com o modo
ser do homem no mundo e isso reflete diretamente na sua existência. Por existência podemos
entendê-la como a condição humana primordial da vida e ela é “visualizada” no modo como nos
debruçamos com as problemáticas e dilemas que se mostram no cotidiano.
Essa filosofia foi tida como um movimento europeu de pensamento cujo expoente
mais conhecido foi Jean Paul Sartre, apesar de que ele nega esse adjetivo de “existencialista”
CAPÍTULO 06 76
(EWALD, 2008). O mais importante de destacar no existencialismo sartreano era seu princípio
fundamental de que o homem só cria a própria essência à medida que vive sua existência no
mundo. É dessa maneira que a existência precede a essência ao contrário dos objetos que, fre-
quentemente, a essência precede sua existência (SARTRE, 1970).
Se não há Deus para cuidar do homem ele precisa cuidar de si. E é cuidando de si que
o ser humano percebe o tamanho da responsabilidade de suas escolhas. Sartre (1970) salienta
que a pessoa ao decidir se projetar no mundo de uma determinada maneira, não está decidindo
apenas por si mesmo, mas por toda a humanidade. O curso de nossas escolhas atinge direta-
mente a nós mesmo e indiretamente a todos os outros. Vide o exemplo contemporâneo da pan-
demia da COVID-19 onde dependemos um dos outros para evitar novas contaminações e frear
a disseminação do vírus.
Nessa perspectiva, o desespero é uma camada inerente a vida. “Ele significa que só
podemos contar com o que depende da nossa vontade ou com o conjunto de probabilidades que
tornam a nossa ação possível” (SARTRE, 1970, p. 8). O desespero escancara nossa condição
indeterminada e as oscilações de nossos valores. Para o existencialista não se nasce com um
dom ou qualidade no sentido de um estado natural das coisas. Por exemplo, não se nasce com-
petente; a competência é um ato (FONSECA, 1988).
CAPÍTULO 06 77
Individualizando-se, o sujeito então consegue enxergar a sua existência para além das
expectativas sociais, tendo a oportunidade de avaliar a conclusão da sua trajetória, como
um leitor que contempla toda a beleza e a feiura de uma narrativa em sua versão final
(LISBOA, 2016, p. 261).
De acordo com Barbosa, Melchiori e Neme (2011) os estudos que envolvem fenomeno-
logia e luto então preocupados, sobretudo, nos significados atribuídos à perda de entes queridos.
Para as autoras, o método fenomenológico de pesquisa sobre o tema não só funciona como ca-
minho para construção do conhecimento, mas também como espaço para que os colaboradores
da pesquisa expressem suas emoções, sentimentos e expectativas sobre a vida.
Segundo Freitas e Michel (2014) o luto é a morte de uma relação. Isso implica que parte
do mundo do enlutado se esvai demandando novas formas de existir. “Com a supressão do ou-
tro, há uma perda de sentido do mundo-da-vida com exigência de nova significação. A vivência
do luto impõe, por conseguinte, novas formas de ser-no-mundo” (FREITAS; MICHEL, 2014, p.
274).
O artigo de Silva e Melo (2013) ilustra bem isso ao mostra que o luto apareceu como
motor para redimensionamento da existência não numa visão pessimista de estreitamento das
possibilidades do existir, mas como ampliação de horizonte rumo a uma existência mais con-
gruente consigo mesmo. É uma constatação interessante, pois se espera do luto apenas o lugar
da tragédia onde o enlutado vai entrar no ciclo de negatividade em que nada de “bom” emerge.
Na pesquisa acima citada se percebe que o luto também pode ser espaço de reelabora-
ção da vida como um todo e a vivência pode ser diferente da socialmente esperada. Como disse
a mãe enlutada da pesquisa citada referindo-se a filha falecida: É uma coisa que eu não quero,
como eu digo: “lembrar dela com alegria, não com tristeza (...) Eu reclamava demais da vida e
hoje em dia eu não reclamo. Para mim é tudo bom” (SILVA; MELO, 2013, p. 152-153).
CAPÍTULO 06 78
O luto na perspectiva fenomenológico-existencial pode ser encarado como experiên-
cia arrebatadora que lança o ser humano no encontro com tonalidades afetivas fundamentais.
Tais tonalidades já comentadas em tópicos passados, como a angústia e o desamparo são, por
vezes, sedimentadas pelo cotidiano da “era da técnica” ou até domesticadas pela atitudes do
mundo natural como se, de fato, houvesse uma maneira correta de viver o luto. As tonalidades
afetivas principais que perpassam o luto como decorrente da morte, seja ela real ou simbólica,
são a angústia e o temor (FEIJOO, 2013).
Qual a relação entre luto e angústia? O luto representa, antes de tudo, o estado mo-
mentâneo – nem por isso fugaz - daquele que perdeu algo ou alguém carregado de afeto. Essa
perda é uma experiência de deparar-se com a ausência, com o nada. Por sua vez, o nada é
possibilidade disfarçada do vir a ser algo novo. A angústia está nesse face a face com o nada. A
angústia do luto está na abertura que brota da iminência da morte do outro. Numa perspectiva
fenomenológico-existencial o luto não é visto sob o aspecto moralista dos julgamentos que dizem
como o enlutado “deve” viver ou sofrer; isso é mais uma imposição do mundo natural que tece
certa atitude impessoal diante da perda como se a vida dos que ficaram precisasse cessar de
alguma maneira.
É evidente que essa perspectiva não está negando as formas “majoritárias” de viver o
luto, mas está questionando-as ao mesmo tempo em que busca abrir brechas para outras formas
de ser no mundo, principalmente no contato com essas tonalidades afetivas, que por vezes são
negadas no mundo contemporâneo como improdutivas de serem sentidas. Dessa forma, diante
da perda e no estado de luto aquele que morreu deixa um vazio que pode ser espaço para outras
possibilidades de vida. O “preenchimento do vazio” não implica esquecimento ou desrespeito.
Implica uma demanda existencial, pois a angústia do nada aguarda atitude de criação e não de
fuga desse contato (ARIMA; FREITAS, 2017).
O mal estar que o luto provoca é porque ele lança o ego num patamar totalmente oposto
do pedestal em que ele se encontra na contemporaneidade. O ego precisa se achar no controle;
se achar determinado; se achar produtivo. O ego enlutado é indeterminado, sem controle e “im-
produtivo”. O ego é finito. É insignificante. Desse modo, em situações onde a angústia impera,
Feijoo (2013, p. 6) explica com base em Heidegger que “é nesta situação limite, com o romper
das prescrições do mundo, que pode ocorrer um despertar para o espaço de realização do ser-
-aí, ou seja, abre-se o seu poder-ser”.
Outra tonalidade afetiva que podemos considerar no luto é o temor diante do horizonte
imenso que se instala. Temor principalmente do novo que demanda muita criação do ser humano
para lidar com as demandas contextuais da vida. Além desse temor das demandas operacionais
vem a questão do temor a respeito do que posso tornar-me sem a presença desse outro. “Esse
anúncio diz respeito a algo ameaçador, destruição que traz em si possibilidade de aniquilamento
daquilo que se é” (FEIJOO, 2013, p. 10).
Tanto na angústia como no temor podemos tirar pontos importantes para uma compreen-
são do luto nessa perspectiva na qual tratamos. Primeiro que a angústia não é só negatividade
vazia e sim possibilidade de ser algo diferente do que se é. Parece utópico diante do modo como
parte da sociedade ocidental encara a morte, mas do ponto de vista fenomenológico-existencial
não encarar a angústia diante da perda é viver uma ilusão e conformar-se na estrutura do mundo
natural. Nesse caso, não se trata de apontar o dedo em julgamento para dizer como se deve
CAPÍTULO 06 79
viver, mas reconhecer na angústia o inevitável acontecimento diante das transformações que a
perda acarreta. Segundo, o temor anuncia nosso caráter frágil o que leva a reflexão que a pes-
soa enlutada pensa na sua própria finitude e a teme, numa espécie de luto pelo reconhecimento
da autoaniquilação.
Para Feijoo (2013, p. 10) duas possibilidades surgem frente ao temor: “retomar a obedi-
ência às crenças e rituais que de alguma forma prometem prevenção e controle ou a possibilida-
de de uma atitude corajosa”. O temor é a condição de possibilidade da coragem. Coragem aqui
no sentido de transcender as determinações das formas sedimentadas. No caso do luto seria
encontrar alguma forma de (con)viver com a ausência física do pessoa falecida.
(...) nós psicólogos, em nossa clínica, frente à inseparabilidade do singular e do plural, pos-
samos também despertar, ou, pelo menos, não facilitar, o adormecimento das tonalidades
afetivas fundamentais (...) E ao considerar a existência, em sua dinâmica performática, o
clínico apropria-se desse espaço para manter um lugar onde transformações existenciais
possam acontecer. Ele sabe que não pode provocar de nenhum modo o acontecimento de
transformação. O psicoterapeuta, em uma atitude de humildade, sabe apenas que estar
naquele encontro pode facilitar o acontecimento.
Isso, por exemplo, coloca a relação psicoterapêutica embasada pela perspectiva feno-
menológico-existencial, em patamar diferente no trato com aquele ou aquela que vem em busca
de ajuda. O especialista desce da sua torre de marfim e se coloca vulnerável diante do mundo do
outro, no caso, a pessoa enlutada. Essa postura não remete à humildade fingida, mas ao reco-
nhecimento de que toda teoria, por mais que seja importante como motor para o ato de pensar,
não é suficiente para abarcar toda aquela existência que se mostra. Daí que a ideia husserliana
de epoché ou suspensão se torna importante na medida em que optamos por momentaneamen-
te privilegiar a existência mundana da pessoa enlutada ao invés de se apegar nas teorias a priori.
A emersão do campo num gesto não teorizante indica que o “eu” considerado dentro da
perspectiva em questão é mais coerente com o fluxo de vivências que acontece na totalidade do
ser do que um determinismo passado ou na externalidade do comportamento observável. Des-
sa forma a visão fenomenológico-existencial busca a fundação da subjetividade de forma mais
ampla, “retornando às coisas mesmas” e reconhecendo a indissociabilidade entre o “nós” que se
estabelece na relação terapêutica e na vida social. Nesse ponto de vista o existencial de forma
alguma se refere ao individual propriamente dito, mas também abarca a comunidade.
Nesses termos podemos pensar, por exemplo, porque a morte de pessoas famosas ou
epidemias provocam lutos coletivos mesmo que tais mortes não atinjam diretamente nossas vi-
das. Tal fenômeno reflete a união do que Heidegger chamou de ser-no-mundo e evidencia essa
união entre os existentes e a codependência da nossa condição de ser-para-morte. Assim, quan-
do alguém perde uma pessoa querida, de alguma maneira ela permanece só que com sentidos
diferentes. Daí o motivo porque o luto não se supera, se convive (FREITAS, 2013).
Podemos afirmar que a perspectiva aqui discutida visa criar uma atmosfera de compre-
ensão do vivido no luto:
CAPÍTULO 06 80
E a compreensão é um ato de pensar que também busca o significado dos acontecimen-
tos, mas não de forma genérica. A compreensão emerge e responde às urgências da vida,
partindo da concretude da existência e retornando a ela. (...) A reflexão, por exemplo, so-
bre a liberdade pode ser fundamental para a minha própria experiência de liberdade. Um
pensar sobre a morte pode me colocar diante do meu próprio morrer... (CRITELLI, 2011,
p. 23)
É essa compreensão que pensamos ser a oportunidade ou a qualidade principal das con-
tribuições da perspectiva fenomenológico-existencial do luto. Enquanto o mundo contemporâneo
nos afasta do sentir ou mesmo do pensar, em situações de luto a pessoa se ver inevitavelmente
impelida e, por vezes, atormentada por pensamentos e emoções confusas e estranhas decor-
rente da nadificação daquela ausência deixada pelo falecido e que, muitas vezes, necessitam
de uma relação convidativa para o diálogo compreensivo que pode ser impulsionada pela visão
fenomenológico-existencial. Em outras palavras: “a filosofia (da existência, a fenomenologia)
pode subsidiar a compreensão do existir que, por sua vez, conduz à transformação concreta de
um jeito de viver” (CRITELLI, 2011, p. 24).
Esse contato com o outro enlutado é impulsionado pela atitude fenomenológica que é
o antagônico da atitude natural e, em termos de uma psicoterapia fenomenológico-existencial,
Dutra (2013, p. 211) define o que é direcionar-se por esse caminho:
Por isso que dentro da lente que adotamos para a elaboração desse trabalho o luto não
é algo a ser superado, não é da ordem linear de causa e efeito e, no que diz respeito ao enluta-
do, ele não precisa de cura e sim busca por autonomia dentro da nova realidade que se mostra
(MICHEL; FREITAS, 2019). Nessa visão não se objetiva o resgate da vida como era antes da
morte do ente querido ou a construção de um prognóstico pré-definido de como será a vida daqui
pra frente.
Nesse sentido, Freitas (2018) propõe adotar “clínica do luto” ao invés de “terapia do luto”
por argumentar que esta última quer propiciar algum tipo de reparo ou extirpar algum sintoma;
já a primeira como uma possibilidade de cuidado que reconhece a dor como fazendo parte do
processo. Ou seja, o luto é um processo existencial que precisa ser aceito do que superado por
alguma técnica. Nas palavras da autora “essa perspectiva contrapõe-se à apreensão do luto
como uma vivência passível de ser compreendida a priori, com etapas e experiências predeter-
minadas, que se constituem como mero efeito de uma perda” (FREITAS, 2018, p. 53).
Para Freitas (2018) o luto precisa ser entendido como aquela inclinação originária em
que a pessoa está fadada a passar por ser constituinte de sua existência. Como o ser humano
CAPÍTULO 06 81
é um ser que convive com os outros a intersubjetividade é um dos núcleos centrais para a com-
preensão do luto. Essa intersubjetividade não se restringe ao processamento cognitivo de uma
subjetividade privada, mas tem seu lugar na carne, na corporeidade. Levando isso em conta o
luto é muito mais que a perda do corpo do outro como algo objetificado e inerte. A corporeidade
ainda transita pela vida do enlutado mesmo que o corpo físico tenha sido enterrado, pois na pers-
pectiva estudada o corpo não é apenas o conjunto dos órgãos, o corpo é sentido e sendo sentido
ele persiste mesmo na sua ausência. Enquanto o corpo físico se vai os sentidos e significados
emergem insistentemente e isso foge das fronteiras do conhecimento objetivo.
A tarefa que a existência impõe se torna, pois, viver com a ausência, uma vez que o morto
se mantém como sentido para o enlutado, caráter irrevogável do luto, ou em outros ter-
mos, viver um luto é ter como desafio se ver habitando às voltas com a desorganização
imediata de um mundo outrora partilhado, mas ainda aberto ao sentido. Uma clínica exis-
tencial do luto se constitui, portanto, pela abertura de possibilidades para novas formas de
ser-com, dada pela irremediável ausência do morto. Apesar de não ser mais possível que
nossa experiência conjunta se atualize, o mundo e a relação pedem uma ressignificação
(FREITAS, 2018, p. 53)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Assim, por mais que o sofrimento possa permear tal experiência, o luto não se restringe
aos seus sintomas. Em uma clínica do luto fenomenológico-existencial buscar-se-á a investiga-
ção das tonalidades afetivas e a criação de uma atmosfera que propicie a compreensão e com-
partilhamento do vivido, bem como a vivência autêntica das emoções. Essa busca não se baseia
em preconceitos e concepções anteriores e sim na experiência originária da pessoa enlutada.
Por fim, o luto não é uma vivência a ser suprimida. Para a perspectiva fenomenológico-
-existencial o luto não se supera, se convive e espera-se que a relação que se estabelece na
clínica, por exemplo, possa ser um espaço de compreensão desse momento tão delicado da
existência humana e que aqueles que ainda seguem em vida possam continuar sua caminhada
na coexistência da presença-ausente da saudade.
CAPÍTULO 06 82
REFERÊNCIAS
ARIMA, A. C.; FREITAS, J. L. O luto velado: a experiência de viúvas lésbicas em uma perspectiva
fenomenológico-existencial. Temas em Psicologia, v. 25, n. 4, p. 1467-1482, p. 2017.
FREITAS, J. L. Luto, pathos e clínica: uma leitura fenomenológica. Psicologia, USP. v. 29, n. 1. p. 50-57.
2018
FREITAS, J. L.; MICHEL, L. H. F. A maior dor do mundo: o luto materno em uma perspectiva
fenomenológica. Psicologia em Estudo, v. 19, n. 2, p. 273-283, 2014.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6 ed. São Paulo: Atlas, 2008
MICHEL, L. H. F.; FREITAS, J. L. A clínica do luto e seus critérios diagnósticos: possíveis contribuições
de Tatossian. Psicologia USP, v. 30, 2019.
CAPÍTULO 06 83
MOREIRA, V. Possíveis contribuições de husserl e heidegger para a clínica fenomenológica. Psicologia
em Estudo, v. 15, n. 4, p. 723-731, 2010
PARKES, C. M.. Luto estudos sobre a perda na vida adulta. Summus editorial, 1998
ROTHER, E. T. Revisão sistemática X revisão narrativa. Acta paul. enferm. v. 20, n. 2, 2007.
SILVA, P. K. S.; MELO, S. F. Experiência Materna de perda de um filho com câncer infantil: um estudo
fenomenológico. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 19, n. p. 247-156, 2013.
CAPÍTULO 06 84