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Ristiano Anin

O documento trata de um mandado de injunção coletivo impetrado pela ABRAFH e pela Aliança Nacional LGBTI+ contra o Congresso Nacional, solicitando a criação de legislação específica para proteger homens GBTI+ de violência doméstica. O relator, Ministro Alexandre de Moraes, reconheceu a omissão legislativa e votou pela concessão da ordem, estendendo a proteção da Lei Maria da Penha a homens em relações homoafetivas. O voto destaca a necessidade de garantir direitos e proteção a todos os tipos de famílias, incluindo aquelas formadas por homens GBTI+.
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Ristiano Anin

O documento trata de um mandado de injunção coletivo impetrado pela ABRAFH e pela Aliança Nacional LGBTI+ contra o Congresso Nacional, solicitando a criação de legislação específica para proteger homens GBTI+ de violência doméstica. O relator, Ministro Alexandre de Moraes, reconheceu a omissão legislativa e votou pela concessão da ordem, estendendo a proteção da Lei Maria da Penha a homens em relações homoafetivas. O voto destaca a necessidade de garantir direitos e proteção a todos os tipos de famílias, incluindo aquelas formadas por homens GBTI+.
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VOTO

O Senhor Ministro CRISTIANO ZANIN (Vogal): Trata-se de mandado


de injunção coletivo, com pedido de liminar, impetrado pela Associação
Brasileira de Famílias HomoTransAfetivas – ABRAFH e pela Aliança
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

Nacional LGBTI+ contra o Congressoweb Nacional em razão de omissão


quanto à edição de legislação específica de combate à violência doméstica
ou intrafamiliar que proteja homens GBTI+ em relações homoafetivas e de
legislação preventiva e repressiva do controle coercitivo contra homens
GBTI+ e mulheres em geral (cishétero e LGBTI+).

Eis o resumo dos pedidos principais veiculados na inicial:

(i) declaração de mora inconstitucional do Congresso


Nacional na aprovação de legislação contra a violência
doméstica ou intrafamiliar que proteja homens GBTI+ em
relações com outros homens, o estelionato sentimental e o
controle coercitivo em geral;
(ii) concessão da injunção para determinar a aplicação das
medidas protetivas da Lei Maria da Penha a casos de violência
doméstica ou intrafamiliar a homens GBTI+ em relações
afetivas com outros homens, nos termos da interpretação
conforme exposta no item 2.2.3, supra; ou, subsidiariamente,
acolhendo-se a interpretação conforme do art. 129, §9º, do
Código Penal supra delineada (item 4.4, supra), confirmando-se
as cautelas antes deferidas ou concedendo-as, caso indeferidas
(doc. 1, p. 7).

Conforme argumenta o impetrante, seriam estes os fundamentos


jurídico-constitucionais dos pedidos:

(i) o artigo 226, §8º, da Constituição Federal, que impõe ao


Estado o dever proteger contra a violência doméstica todas as
famílias (não só as heteroafetivas) e todas as pessoas (não só as
mulheres), donde seu suporte fático é amplo o bastante para
abarcar o dever constitucional de proteção de homens em
relações com outros homens contra a violência doméstica ou
intrafamiliar;
(ii) o artigo 227, §4º, da Constituição Federal, que impõe
ao Estado o dever de punir severamente o abuso, a violência e a
exploração sexual de Página 8 de 97 E-mail: toda criança e todo
adolescente, logo, também das crianças e adolescentes homens
GBTI+ vítimas de violência doméstica (lembrando que as
adolescentes mulheres LBTI+ já são protegidas pela LMP); e
(iii) o princípio da proporcionalidade enquanto proibição
de proteção insuficiente, notoriamente acolhido pela
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, inclusive para


proteção da população LGBTI+ (v.g., STF, ADO 26/MI 4733, j.
19.06.2019). (Doc. 1, p. 7-8).

A Câmara dos Deputados (doc. 31) e o Senado Federal (doc. 33)


prestaram informações e manifestaram-se pela improcedência da ação.

O Procurador-Geral da República manifestou-se no seguinte sentido:

Mandado de injunção. Alegada omissão constitucional.


Art. 226, § 8º, da Constituição. Pretensão de criação de
mecanismos para coibir violência nas relações homoafetivas
entre homens. A regulamentação do art. 226, §8º, da
Constituição foi realizada pela Lei Maria da Penha. Segundo a
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, “havendo norma
regulamentadora, não será o mandado de injunção o meio
apropriado para questionar a efetividade da norma
regulamentadora”. Parecer pela improcedência do pedido (doc.
35).

Iniciado o julgamento virtual, o eminente Relator, Ministro


Alexandre de Moraes, votou no sentido de julgar procedente o mandado
de injunção e conceder a ordem pleiteada:

EMENTA: CONSTITUCIONAL. MANDADO DE


INJUNÇÃO. LEI MARIA DA PENHA. VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA OU INTRAFAMILIAR. RELAÇÕES
FAMILIARES HOMOAFETIVAS. HOMENS GBTI+.
TRAVESTIS. TRANSEXUAIS. DIREITO FUNDAMENTAL À
SEGURANÇA. PRINCÍPIO DA IGUALDADE.
CONFIGURADA A OMISSÃO LEGISLATIVA DO
CONGRESSO NACIONAL. ORDEM CONCEDIDA.
I. CASO EM EXAME
1. Mandado de Injunção Coletivo impetrado em face de
omissão legislativa atribuída ao Congresso Nacional,
relativamente à edição de legislação específica contra a
violência doméstica ou intrafamiliar que proteja homens GBTI+,
bem como legislação preventiva e supressiva do controle
coercitivo contra homens GBTI+ e mulheres.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
2. Verificar a existência de omissão, caracterizadora do
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

estado de mora constitucional, na legislação brasileira contra


violência doméstica ou intrafamiliar, no âmbito de proteção das
pessoas em relações familiares homoafetivas, quando as vítimas
não sejam mulheres.
III. RAZÕES DE DECIDIR
3. O Mandado de Injunção é uma ação constitucional
autoaplicável, de caráter civil e de procedimento especial, que
visa suprir uma omissão do Poder Público, no intuito de
viabilizar o exercício de um direito, uma liberdade ou uma
prerrogativa prevista na Constituição Federal, visando afastar o
que ARICÊ MOACYR AMARAL SANTOS aponta como a
inércia da norma constitucional, decorrente da omissão
normativa (Mandado de injunção. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1989, p. 31), ou no dizer de CANOTILHO, buscando
destruir o rochedo de bronze da incensurabilidade do silêncio
legislativo (As garantias do cidadão na justiça. Coord. Sálvio de
Figueiredo Teixeira. São Paulo: Saraiva, 1993, p. 367).
4. A comparação entre o consenso nacional e internacional
sobre as medidas necessárias para a efetiva proteção contra
violência doméstica nas relações homoafetivas da população
GBTI+ e a legislação nacional demonstra a existência de
significativa omissão constitucional do Poder Legislativo em
efetivar a devida proteção legal aos direitos e liberdades
fundamentais da comunidade GBTI+.
5. Considerando que a Lei Maria da Penha foi editada
para proteger a mulher contra violência doméstica, a partir da
compreensão de subordinação cultural da mulher na sociedade,
é possível estender a incidência da norma aos casais
homoafetivos do sexo masculino, se estiverem presentes fatores
contextuais que insiram o homem vítima da violência na
posição de subalternidade dentro da relação.
6. A não incidência da Lei Maria da Penha aos casais
homoafetivos masculinos e às mulheres travestis ou transexuais
nas relações intrafamiliares pode gerar uma lacuna na proteção
e punição contra a violência doméstica, já que esses
acontecimentos permeiam a sociedade de forma atroz. Há,
portanto, uma responsabilidade do Estado em garantir a
proteção, no campo doméstico, a todos os tipos de entidades
familiares.
7. Configurada a omissão legislativa, ante a ausência de
norma que estenda a proteção da Lei Maria da Penha aos
homens GBTI+, vítimas de violência doméstica, circunstância
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

que tem inviabilizado a fruição do direito fundamental à


segurança por este grupo social, considerada especialmente a
proibição de proteção deficiente oriunda do princípio da
proporcionalidade.
IV. DISPOSITIVO
8. ORDEM CONCEDIDA para reconhecer a mora
legislativa e determinar a incidência da norma protetiva da Lei
Maria da Penha aos casais homoafetivos do sexo masculino e às
mulheres travestis ou transexuais nas relações intrafamiliares.
Dispositivos relevantes citados: Constituição Federal, art.
1º, III, art. 3º, art. 5º, caput, I, LXXI, XLI, art. 226, § 8º; Lei
11.340/2006.

É o breve relatório.

Passo ao voto.

Acompanho o eminente Ministro Relator, Alexandre de Moraes, no


que se refere ao reconhecimento da mora inconstitucional do Congresso
Nacional quanto à edição de legislação específica contra a violência
doméstica ou intrafamiliar que proteja homens em relações homoafetivas.

Com efeito, a violência doméstica ou intrafamiliar não é um


fenômeno exclusivo de relações que envolvem mulheres. Conforme se
depreende dos dados publicados no Relatório da Pesquisa do Conselho
Nacional de Justiça sobre Discriminação e Violência contra a População
LGBTQIA+, também citado pelo eminente Relator, Ministro Alexandre de
Moraes, há um número relevante de casos de violências praticadas contra
pessoas GBTI+ em que a vítima mora com o agressor.

O art. 226, § 8º, da Constituição da República determina que o


“Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que
a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas
relações”, instituindo um verdadeiro imperativo de tutela das pessoas
mais vulneráveis e suscetíveis a violências no âmbito das famílias. Com
base nesse dispositivo e no princípio da proibição da proteção deficiente,
há que se reconhecer que homens em relacionamentos homoafetivos, que
constituem uma unidade familiar, também merecem proteção em
situações de violência doméstica ou intrafamiliar.
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

Na minha compreensão, portanto, está demonstrada a omissão


legislativa quanto à proteção de homens em relacionamentos
homoafetivos que são vítimas de violência doméstica e familiar,
devendo o Estado criar mecanismos que protejam as pessoas
vulneráveis nessas relações e previnam a escalada da violência.

O impetrante também pediu que, até a superação da omissão


inconstitucional, seja atribuída interpretação conforme a Constituição
“aos dispositivos legais relativos às medidas protetivas da Lei Maria da
Penha — Lei n. 11.430/2006 (v.g., arts. 18 a 23 e outros que versem sobre o
tema)” para a proteção de homens em relações homoafetivas.

Segundo argumenta o impetrante, homens em casais homoafetivos


são integrantes de grupo socialmente vulnerabilizado, que, por esta
razão, estariam em situação análoga à mulher, tutelada pela Lei Maria da
Penha. Nas situações concretas, o impetrante alega que seria necessário
distinguir quem ocupa o papel dominante e quem exerce o papel
submisso no relacionamento para determinar a pessoa que poderá ser
protegida pelas medidas protetivas.

De fato, a Lei Maria da Penha institui mecanismos destinados a


conferir especial proteção à mulher em relação à violência doméstica e
familiar. O escopo da Lei, portanto, restringe-se de maneira muito clara à
violência doméstica e familiar contra a mulher:

Art. 1º Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a


violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do §
8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher,
da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar
a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais
ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a
criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a
Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às
mulheres em situação de violência doméstica e familiar.
O conceito de mulher empregado pela lei refere-se não apenas a
pessoas do sexo feminino, sob uma perspectiva exclusivamente biológica,
mas abrange igualmente pessoas com identidade de gênero feminina,
como mulheres transsexuais. Isso, inclusive, já foi corretamente
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

reconhecido pelo Superior Tribunal de Justiça (cf. REsp n. 1.977.124/SP,


Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe 22/4/2022).
Mulheres transsexuais, portanto, são mulheres no sentido empregado na
lei, não sendo necessária a analogia para protegê-las sob a égide da Lei
Maria da Penha.

Há que se esclarecer, contudo, que a Lei Maria da Penha não é — ao


menos de acordo com o seu escopo declarado — aplicável a homens que
eventualmente sejam vítimas de crimes praticados por suas
companheiras ou por seus companheiros, ainda que no contexto
doméstico. Isso, inclusive, já foi decidido por esta Suprema Corte por
ocasião do julgamento da ADC 19:

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA – LEI Nº 11.340/06 –


GÊNEROS MASCULINO E FEMININO – TRATAMENTO
DIFERENCIADO. O artigo 1º da Lei nº 11.340/06 surge, sob o
ângulo do tratamento diferenciado entre os gêneros – mulher e
homem –, harmônica com a Constituição Federal, no que
necessária a proteção ante as peculiaridades física e moral da
mulher e a cultura brasileira. COMPETÊNCIA – VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA – LEI Nº 11.340/06 – JUIZADOS DE VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER. O artigo 33
da Lei nº 11.340/06, no que revela a conveniência de criação dos
juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher, não
implica usurpação da competência normativa dos estados
quanto à própria organização judiciária. VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER –
REGÊNCIA – LEI Nº 9.099/95 – AFASTAMENTO. O artigo 41
da Lei nº 11.340/06, a afastar, nos crimes de violência doméstica
contra a mulher, a Lei nº 9.099/95, mostra-se em consonância
com o disposto no § 8º do artigo 226 da Carta da República, a
prever a obrigatoriedade de o Estado adotar mecanismos que
coíbam a violência no âmbito das relações familiares (ADC 19,
Relator Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, DJe 29/4/2014).
A proteção especial da mulher conferida pela Lei n. 11.430/2006 não
é desarrazoada nem anti-isonômica, mas possui uma justificativa
histórica e social. A assimetria de poder prima facie entre homens e
mulheres, derivada da estrutura da sociedade patriarcal, permite que se
dê proteção especial à mulher e não ao homem.
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

A Lei n. 11.430/2006 representa um importante marco legislativo de


proteção das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar e teve
como pressuposto os compromissos assumidos pelo Brasil ao ratificar a
Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra a Mulher (CEDAW) e a Convenção Interamericana para Prevenir,
Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher de Belém do Pará, assim
como a condenação do Estado brasileiro pela Comissão da Organização
dos Estados Americanos (OEA) no caso de Maria da Penha (BIACHINI,
Alice. Lei Maria da Penha. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 113-116). Com isso, a
proteção especial conferida pelo Congresso Nacional às mulheres há de
ser respeitada.

Em contrapartida, apesar de a comunidade GBTI+ ser de fato um


grupo vulnerável, não há uma assimetria de poder pré-constituída entre
homens e a determinação de quem exerceria papel submisso e papel
dominante carece de critérios mais específicos. Isso faz com que seja
necessária, na minha compreensão, uma lei própria para tratar sobre a
violência doméstica e familiar nesse contexto, a partir das especificidades
dessas relações.

Não obstante, reconheço que a não aplicação de medidas protetivas


a homens em relações homoafetivas deixaria desprotegidas as vítimas
vulneráveis de violência doméstica e familiar nesse contexto, ao menos
enquanto não for editada uma lei específica.

As medidas protetivas de urgência disciplinadas pela Lei Maria da


Penha são mecanismos muito mais eficazes e amplos de proteção às
vítimas de violência doméstica do que a simples aplicação das medidas
cautelares do art. 319 do Código de Processo Penal, entre outras razões,
por não depender da tipificação penal da violência e prescindir da
existência de boletim de ocorrência, investigação ou ação penal ou cível
em curso (art. 19, § 5º, da Lei n. 11.430/2006).
A meu ver, contudo, a única forma de se admitir a aplicação da Lei
Maria da Penha para proteger homens em relações homoafetivas seria
por meio do emprego de analogia e isso requer uma ressalva que reputo
importante.
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

Conforme esclarece Nilo Batista, a analogia é:

(...) o procedimento lógico pelo qual o espírito passa de


uma enunciação singular a outra enunciação singular (tendo,
pois, caráter de uma indução imperfeita ou parcial), inferindo a
segunda em virtude de sua semelhança com a primeira; no
direito, teríamos analogia quando o jurista atribuísse a um caso
que não dispõe de expressa regulamentação legal a(s) regra(s)
prevista(s) para um caso semelhante (BATISTA, Nilo. Introdução
crítica ao direito penal brasileiro. Rio de Janeiro: Revan, 2007, p.
74).

Considerando que, como já enfatizado, a Lei Maria da Penha


restringe expressamente o seu escopo de aplicação às hipóteses em que a
ofendida é mulher e diante da ausência de regulamentação expressa sobre
a proteção de homens em relacionamentos homoafetivos, não há dúvidas
de que a aplicação desta lei para proteger homens em relacionamentos
homoafetivos se daria por analogia.

A despeito de a Lei n. 11.430/2006 ser constituída por dispositivos de


diferentes naturezas, v.g. civil, administrativa e processual, ela consagra
um tipo penal específico, além de possuir inegáveis reflexos penais. E o
direito penal não permite o uso da analogia in malam partem, sob pena de
se violar o princípio da legalidade, previsto no art. 5º, XXXIX, da
Constituição da República e no art. 1º do Código Penal.

A proibição de analogia in malam partem se dirige ao juiz e tem como


função primordial a separação entre “a legítima e fiel interpretação da lei
[e] a ilegítima analogia que cria Direito” (ROXIN, Claus; GRECO, Luís.
Direito Penal: parte geral. São Paulo: Marcial Pons, 2024, p. 310). No que se
refere à interpretação da lei em matéria penal, Alaor Leite esclarece que
“apesar das infindas querelas, deve-se partir da premissa de que cada
palavra utilizada pelo legislador possui uma intensão e uma extensão,
que demarcam o sentido literal possível” (LEITE, Alaor. Interpretação,
analogia e sentido literal possível. In.: BUSATO, Paulo César et al.
Perspectivas das Ciências Criminais: coletânea em homenagem aos 55 anos
de atuação profissional do Prof. Dr. René Ariel Dotti. Rio de Janeiro: GZ,
2016, p. 258-259).

A respeito da proibição da analogia in malam partem em matéria


Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

penal, elucida Teresa Melo:

A Constituição de 1988 fez uma escolha, exteriorizando-a


sob a forma de regra: cabem aos poderes democraticamente
eleitos a manifestação prévia sobre condutas incriminadoras e
suas sanções, não se podendo falar, por exemplo, em costumes
ou aplicação de analogia in malam partem no campo penal —
nesse último caso, apenas em benefício do réu. Desse modo, a
reserva de lei prevista pelo art. 5º, XXXIX, da CF foi pensada
como garantia de que graves restrições a direitos fundamentais
só poderiam ser implementadas por meio de lei formal, além de
servir como freio à atuação dos órgãos responsáveis pela
persecução penal e como vetor de interpretação e de aplicação
das normas penais (MELO, Teresa. Novas técnicas de decisão do
STF: entre inovação e democracia. Belo Horizonte: Fórum, 2022,
p. 189).

Nesse sentido, a analogia somente poderia ser admissível em


matéria penal para beneficiar o réu.

O conceito de mulher está previsto não apenas na Lei 11.430/2006,


mas também no próprio Código Penal, que emprega este elemento típico
em delitos como o feminicídio (art. 121-A do CP), a lesão corporal contra
a mulher (art. 129, § 13, do CP), violência psicológica contra a mulher (art.
147-B do CP), além de em agravantes e causas de aumento de pena.

Além disso, a própria Lei n. 11.430/2006 prevê em seu art. 24-A o


crime de descumprimento de medida protetiva de urgência, que, apesar
de não fazer referência no tipo à figura da mulher vítima, tem como
pressuposto a aplicação das medidas protetivas de urgência "previstas
nesta lei", as quais somente são aplicáveis, de acordo com a literalidade
da lei, para proteger a mulher ofendida.

Em contrapartida, apesar de haver alguma controvérsia a respeito da


natureza jurídica das medidas protetivas de urgência previstas na Lei n.
11.430/2006, entendo que, sobretudo após as modificações implementadas
pela Lei n. 14.550/2023, há que se reconhecer o seu caráter inibitório e
satisfativo (cf. STJ, REsp n. 2.066.642/MG, relator Ministro Ribeiro Dantas,
Quinta Turma, DJe 4/10/2024). De qualquer forma, ainda que se considere
que tais medidas, por limitarem a liberdade do afetado, teriam natureza
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

processual penal, não haveria óbice para a sua aplicação por analogia (art.
3º do CPP).

Diante disso, entendo que o emprego de analogia aos casos aqui


debatidos deve se limitar à possibilidade de aplicação de medidas
protetivas de urgência a homens em relações homoafetivas, mas ressalto
que isso não permite a aplicação ou agravamento de qualquer sanção de
natureza penal cujo tipo de referência tenha como pressuposto a vítima
mulher, como os supracitados.

Na minha compreensão, portanto, seriam aplicáveis a esses casos


apenas os arts. 18 a 23 da Lei n. 11.430/2006, excluída a possibilidade de
aplicação da sanção prevista no art. 24-A da Lei Maria da Penha.

Essa integração, ainda que provisória, é legítima justamente por


visar a proteção de direitos fundamentais, o que está no escopo da tarefa
conferida ao Supremo Tribunal Federal.

Por fim, o impetrante pede que seja dada interpretação conforme à


Constituição “ao art. 129, § 9º, do Código Penal, para que o crime de
ofender a saúde de outrem (caput), com pena agravada pelo contexto de
violência doméstica ou intrafamiliar (§ 9º) abarque violências
psicológicas/morais (não-físicas) e, especialmente, abarque o dever de
concessão de medidas protetivas de urgência a vítimas de violência
doméstica ou intrafamiliar abarcadas pelo suporte fático deste tipo penal”
(doc. 1, p. 96).

Ainda que se trate de pedido subsidiário, considero importante tecer


algumas considerações a respeito.

Esta é a redação do delito de lesão corporal qualificada pela


violência doméstica (art. 129, § 9º, do Código Penal):

Lesão corporal
Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de
outrem:
Pena - detenção, de três meses a um ano.
Violência Doméstica
§ 9º Se a lesão for praticada contra ascendente,
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem


conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o
agente das relações domésticas, de coabitação ou de
hospitalidade:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos.

Como se nota, o tipo penal em questão não limita a sua abrangência


a vítimas mulheres, sendo perfeitamente aplicável aos casos aqui
debatidos, em que a vítima de violência doméstica é um homem em
relacionamento homoafetivo. Ademais, até mesmo uma interpretação
literal permite compreender que as lesões psíquicas também estão
abrangidas pelo âmbito de incidência do tipo penal, eis que caracterizam
uma ofensa à saúde.

De acordo com a Constituição da Organização Mundial da Saúde,


promulgada no Brasil pelo Decreto n. 26.042/1948, “a saúde é um estado
de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na
ausência de doença ou de enfermidade”. O conceito de saúde, portanto,
transcende o simples bem-estar físico (a "ausência de doenças"),
abarcando também a integridade psíquica (nesse sentido, cf. por todos
MARTINELLI, João Paulo; BEM, Leonardo Schmitt de. Direito Penal, lições
fundamentais: crimes contra a pessoa. Belo Horizonte: D'Plácido, 2021, p.
339).

A caracterização do resultado típico de lesão corporal nesses casos,


contudo, pressupõe a provocação de uma condição patológica
somaticamente identificável, isto é, depende do diagnóstico de danos não
insignificantes à saúde mental da vítima. Com isso, a aplicação desse tipo
penal restringe-se a casos mais extremos, de modo que sua abrangência é
mais limitada do que o conceito de "violência psicológica" previsto no art.
7º, II, da Lei n. 11.430/2006, além de ter natureza diversa do delito de
violência psicológica a contra a mulher, previsto no art. 147-B do Código
Penal.

Isso reforça a insuficiência da tutela de homens vítimas de violência


doméstica em relacionamentos homoafetivos segundo a legislação
atualmente em vigor, porquanto o recurso às cautelares do art. 319 do
CPP pressuporia a investigação ou a ação penal pela prática de um fato
típico, deixando as vítimas desamparadas justamente nas situações em
que a escalada da violência ainda pode ser prevenida.
Plenário Virtual - minuta de voto - 17/02/2025

Posto isso, acompanho o eminente Relator, Ministro Alexandre de


Moraes, para julgar procedente o presente mandado de injunção para
conceder a ordem e declarar a mora inconstitucional do Congresso
Nacional quanto à edição de legislação protetiva de homens em
relacionamentos homoafetivos que, em situação de vulnerabilidade, são
vítimas de violência doméstica e familiar; e permitir, enquanto não
editada a referida legislação, a aplicação das medidas protetivas de
urgência previstas na Lei Maria da Penha a homens em relacionamentos
homoafetivos que são vítimas de violência doméstica ou familiar,
ressalvando a impossibilidade de aplicação de sanções de natureza
penal cujo tipo tenha como pressuposto a vítima mulher.

É como voto.

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