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História do Terno de Reis Rosa Menina

O livro 'Eternamente Rosa Menina' narra a história do Terno de Reis Rosa Menina, fundado por Silvano Francisco do Nascimento, e sua importância cultural na Bahia. A obra é uma homenagem ao pai da autora, Regina Cruz do Nascimento, destacando sua dedicação e amor pela tradição. O texto também inclui depoimentos e reflexões sobre a continuidade da tradição e a memória familiar.

Enviado por

Maria Luiza
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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História do Terno de Reis Rosa Menina

O livro 'Eternamente Rosa Menina' narra a história do Terno de Reis Rosa Menina, fundado por Silvano Francisco do Nascimento, e sua importância cultural na Bahia. A obra é uma homenagem ao pai da autora, Regina Cruz do Nascimento, destacando sua dedicação e amor pela tradição. O texto também inclui depoimentos e reflexões sobre a continuidade da tradição e a memória familiar.

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ETERNAMENTE

ROSA MENINA
Universidade do Estado da Bahia - UNEB

Lourisvaldo Valentim da Silva


Reitor

Maria Nadja Nunes Bittencourt


Diretora da Editora

Conselho Editorial

Atson Carlos de Souza Fernandes


Jose Bites de Carvalho
José Cláudio Rocha
Liege Maria Sitja Fornari
Ligia Pellon de Lima Bulhões
Luiz Carlos dos Santos
Narcimária do Patrocínio Luz
Sandra Regina Soares
Wilson Roberto de Mattos

Suplentes

Diego Gervásio Frías Suarez


Gilmar Ferreira Alves
Juracy Marques dos Santos
Leliana de Souza
Mariângela Vieira Lopes
Miguel Cerqueira dos Santos
Valdélio Santos Silva
Regina Cruz do Nascimento

ETERNAMENTE
ROSA MENINA
a história de um
Terno de Reis

EDUNEB
Salvador
2013
© 2013 Autora
Direitos para esta edição cedidos à Editora da UNEB.
Proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio de impressão, em forma idêntica,
resumida ou modificada, em Língua Portuguesa ou qualquer outro idioma.
Depósito Legal na Biblioteca Nacional.
Impresso no Brasil em 2013.

Ficha Técnica
Coordenação Editorial
Ricardo Baroud

Coordenação de Design
Sidney Silva

Fotografias
Acervo da família

Revisão, Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica


CIAN Gráfica e Editora

Ficha Catalográfica - Sistema de Bibliotecas da UNEB

Nascimento, Regina Cruz do


Eternamente Rosa Menina: a História de um Terno de Reis / Regina Cruz do
Nascimento . – Salvador: EDUNEB, 2013.
186p. : il. Retrato color.
ISBN 9788578872090
Inclui referências.
1. Folclore - Brasil. 2. Folia de Reis - Salvador (BA). 3. Cultura popular - Brasil.
4. Educação popular. 5. Espaço urbano - Bairro Pernambues (Salvador, BA).
CDD: 398.0981

Editora da Universidade do Estado da Bahia - EDUNEB


Rua Silveira Martins, 2555 - Cabula
41150-000 - Salvador - Bahia - Brasil - Fone: +55 71 3117-5342
[email protected] - [email protected] - www.eduneb.uneb.br
Dedicado a SILVANO FRANCISCO DO NASCIMENTO,
pela sua história de vida, sua dedicação e amor a uma tradição.
AGRADECIMENTOS

À União dos Tradicionais Ternos e Ranchos de Reis e Bailes


de Pastoris da Bahia; aos músicos; a todos os carregadores
de cajado; as meninas que compõem o terno; a Empresa
Expresso Vitória, grande parceira do Rosa Menina. A todos
os meus irmãos, sobrinhos, cunhados, parentes e amigos, que
estão sempre ao nosso lado, que continuam acreditando que a
festa de Reis é linda e não deve acabar.

À minha mãe D. Luiza pela sua bravura, lealdade e dedicação


ao nosso querido Terno; a minha filhinha Ana Luisa fonte de
minha inspiração.

À Marinaldo J. Coutinho Bonfim pela revisão


de texto e formatação

À equipe do Projeto Turismo de Base Comunitária do Cabula


e entorno, coordenado pela professora Francisca de Paula, que
por meio deste e com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado da Bahia (FAPESB), está sendo possível realizar este
sonho, dando visibilidade ao Terno de Reis Rosa Menina.
AO MEU SAUDOSO E AMADO PAI

Silvano Francisco do Nascimento nasceu no dia 25.12.1915,


no bairro de Brotas, Salvador/Ba. Era filho de seu Manoel e
Dona Cabocla, como era carinhosamente chamada sua mãe D.
Almerinda. Cresceu no bairro de Brotas, na Ladeira da Cruz
da Redenção. Sua infância de menino pobre, filho de pescador
e dona de casa com mais sete irmãos, fizeram com que cedo
fosse trabalhar para ajudar no sustento da casa. Nunca cursou
uma escola, nunca teve um professor, seus pais não colocavam
os filhos na escola para não servirem ao exército; tudo que
aprendeu na vida foi graças a sua força de vontade, ainda
menino procurava pessoas que tivessem alguma instrução
educacional para que lhe ensinassem alguma coisa e assim
aprendeu a ler e escrever.

Desde garoto tinha uma paixão muito grande por Ternos


de Reis, perdia horas assistindo o desfile de Ternos nos bairros.
Seu grande sonho era fazer um Terno de Reis, ainda criança
aprendeu a gostar e admirar uma florzinha pequena chamada
Rosa Menina, era a sua flor preferida e foi em homenagem a essa
flor, tão pequenina, que nasceu em 1º de novembro de 1945 o
tradicional e glorioso Terno da Rosa Menina. Amor que levou
até o túmulo. Sei que onde esteja está cantando e recitando seus
versos, está contando para outras pessoas da sua realização de ter
sido fundador e único dono do Terno mais tradicional da Bahia.

E é a você, Silvano, que dedico esta obra, apesar de


nenhuma experiência literária, mas com a vivência de quem foi
abençoada por Deus, por um dia ter lhe conhecido, ter dedicado
a você o primeiro sorriso, ter torcido pelo mesmo time, de
ter caminhado ao seu lado enfim, de ter ajudado mesmo que
discretamente a construir este fenômeno chamado Rosa Menina
e de um dia ter tido a benção de lhe chamar “meu pai”.

Esta obra eu não assino sozinha, é assinada por toda


família, amigos e admiradores.

Papai, sei que hoje não estás entre nós, fisicamente não,
mas continua presente nas nossas lembranças. A saudade é
grande, como também é grande o amor e respeito que temos
pelo senhor. O Rosa Menina continua, as rosas meninas
continuam, o brilho continua, só está faltando o comando do
mestre, estamos tentando substituir a nossa maneira, não tão
bem quanto o senhor, talvez com mais emoção do que razão;
estamos seguindo seus ensinamentos: “Ciganas de um lado,
floristas do outro, a Porta-estandarte e a Rosa Menina só saem
depois do primeiro verso”.
Estamos meio desajeitados, mas estamos tentando lhe
imitar direitinho, os ensaios ainda não começaram, mas já
tem gente batendo na porta pra se inscrever, tudo continua
quase igual, pois temos certeza que por mais que tentemos,
nós nunca iremos conduzir este Terno tão bem como o senhor,
essa foi a sua vida, essa rosa foi a sua história, e é a nossa
história também, a história da nossa família, o seu amor, a sua
dedicação e a sua perseverança sempre nos contagiou. Sei que
continua nos orientando, onde quer que esteja, a dificuldade
em colocar o Terno na rua continua a mesma, mas temos fé
e amor, isso já é um bom começo. Temos consciência que
nunca vamos conseguir lhe substituir a altura, mas acredite
meu pai, estamos tentando, estamos trabalhando para que o
Rosa Menina continue brilhando, pois este sonho é também
nosso, temos o orgulho de dizer que somos filhos de Silvano
e Luiza, temos orgulho do que fazemos e a nossa promessa
de não deixar O Rosa Menina morrer continua. Pois além de
amor, temos a sua benção e a benção de Deus, que com certeza
nos conduzirá nessa missão, para podermos dizer do fundo do
coração: ETERNAMENTE ROSA MENINA.
Ao Nosso Mestre, com Carinho

Sério, camarada, amigo, guerreiro, protetor, determinado,


Incentivador, nos ensinava por meio de suas experiências,
Lutador, não se detinha diante das dificuldades
Valorizava nossas conquistas, cobrando dedicação e responsabilidade
Amava cada um de nós e se preocupava com o bem estar de todos
Nos ensinou o valor da honestidade, do caráter, do trabalho e amizade
O nosso mestre, nos ensinou muito mais que as escolas.

Foi com você que aprendemos a gostar de futebol, de


torcer pelo nosso BAHIA. Era você que ria e participava das
nossas brincadeiras, por mais bobas que fossem. Quem sempre
nos defendia de tudo e todos, em qualquer situação.

A sua sabedoria era infinita, sempre atento as nossas


necessidades, procurava ajudar e apoiar a todos, mesmo que não
pedíssemos. Confiava em seus filhos e se orgulhava de todos.

Hoje você não está conosco fisicamente, mas jamais


esqueceremos de você, de seus ensinamentos, você mora em
nossos corações. TE AMAMOS MUITO!!!

Efigênia Cruz do Nascimento Carneiro


SUMÁRIO

PREFÁCIO 15

APRESENTAÇÃO 17

NASCE UMA NOVA ROSA 21

O ROSA MENINA SURGE PELA


PRIMEIRA VEZ NA LAPINHA 27

E O GRUPO SE DESFAZ 35

O ROSA MENINA SE DESPEDE


DO BAIRRO DE BROTAS 39

DINDINHA RITA, ETERNA


MADRINHA DA ROSA 45

DE GARRAFA A GEGÉ – A MÚSICA


NÃO PODE PARAR 51

DA ESPANHA À BAHIA 61

SURGE UM NOVO MÚSICO 67

AS PORTA-ESTANDARTES 71

Mania de Porta-estandarte 74
CONFECÇÃO DOS CAJADOS 77

Como surgiram as lanternas 80

NEM SÓ DE GLÓRIAS VIVEM OS TERNOS


DE REIS 87

O bolero da Porta-estandarte 88

DOR, SUPERAÇÃO E CORAGEM 93

DEDICAÇÃO E AMOR 97

E O QUE É TERNO DE REIS? 107

NOSSO TERNO 113

Os carregadores de cajado 114

Os músicos 115

As dançarinas 116

Os cânticos 118

Os versos 121

A TRADIÇÃO NÃO PODE ACABAR 125

DEPOIMENTOS 131
PREFÁCIO

Conhecemos D. Luiza, e o seu lar que fica na casa onde foi a


Rádio Comunitária Odeon, e está a sede provisória do Terno
de Reis Rosa Menina e da Comissão Unida de Pernambués -
CUP, e onde reside parte de sua família, por meio do Projeto
Turismo de Base Comunitária no Cabula e Entorno, o TBC
Cabula.

Para nós, foi como um bálsamo para a alma,


encontrarmos em um só lugar, riqueza singular e plural, do
ponto de vista cultural, e humano. D. Luiza e sua família nos
acolheram com portas, braços, sorrisos e corações abertos.
Apenas para ilustrarmos a importância desta na história do
turismo de base comunitária em espaço urbano, em Salvador
e na Bahia, realizou-se o primeiro tour, organizado pela
comunidade de Pernambués – por meio da metodologia
participativa adotada pelo projeto de pesquisa e extensão – ou
como foi denominado “I Visita ao Bairro de Pernambués pela
Comunidade da Fazenda Modelo Quilombo D’Oiti”, Itacaré-
Bahia, de 22 a 24 de julho de 2011, acolhendo 26 pessoas na
residência de D. Luiza.

15
Regina Cruz do Nascimento

Assim, esse lugar, que teve como mentor o Sr. Silvano


Francisco do Nascimento, homem, pai, mestre, compositor,
artista plástico, poeta, marceneiro, carpinteiro e polidor,
criador do Terno de Reis Rosa Menina, não poderia passar
desapercebido pela equipe do TBC Cabula da UNEB.

Entre palavras ditas e escritas permeia a valorização da


comunidade, o respeito ao seu cotidiano, o modo e a maneira de
se viver. E, como ratificação de sua identidade e do patrimônio
cultural local, as práticas e expressões utilizando-se de
instrumentos e objetos sejam eles musicais, ou configurativos,
perpetuam as imagens passadas de gerações para gerações.

Esta obra é uma das pérolas que compõem o colar do


bairro de Pernambués. Uma joia da cultura popular da Bahia.

Francisca de Paula Santos da Silva


Hildete Santos Pita Costa
Rosane Sales
Rosemeire Pedreira

Salvador, 18 de junho de 2013.

16
APRESENTAÇÃO

No dia 05 de janeiro de 2009, andava eu pela cidade de Valença,


trazia comigo uma imensa dor no coração, lembrava-me dos
últimos acontecimentos de minha vida, os dias dolorosos que
meu pai passara no hospital, os últimos momentos da sua
vida, e não saia da minha memória o “cântico da estrela guia”,
tocado no funeral; sabia que era o dia da festa de Reis e que
àquelas alturas os organizadores de Ternos e seus componentes
estavam se preparando para o desfile na Lapinha. As lágrimas
escorriam pelo meu rosto, uma saudade imensa invadia o meu
peito, a dor da perda do meu ídolo, o meu mestre, o meu pai,
aliada a problemas particulares, me deixavam visivelmente
deprimida nesse dia. Da minha alma vinham as canções que
não hei de esquecer, pensei: um homem como meu pai, não
pode ficar esquecido, ninguém morre quando deixa uma obra,
e ele deixou o seu Terno de Reis, a sua vivência e sua dedicação.
Pensava no que poderia ser feito para imortalizar essa obra
construída ao longo de 63 anos.

O meu pai, o Mestre Silvano, sempre falava: “se alguém


quiser fazer alguma coisa por mim, faça em vida...”, tenho certeza

17
Regina Cruz do Nascimento

que tudo foi feito, mas ainda faltava alguma coisa, faltava levar a
todos a vida e obra desse carpinteiro, semianalfabeto, chamado
Silvano, que por pura iluminação divina compôs, criou e deu vida
ao Terno de Reis mais tradicional da Bahia, o Terno Rosa Menina.
Este Terno já foi motivo de papel de presente em São Paulo, já
esteve em exposições nos Estados Unidos; seus cajados já foram
até Roma, junto com o Papa João Paulo II e isso se deve à bravura,
à dedicação e ao amor do seu fundador, por isso resolvi escrever
este livro que fala de um homem simples, um carpinteiro muito
iluminado e abençoado pelo Pai, que teve a sua vida marcada pela
dedicação a suas duas paixões: a família e o seu Terno de Reis.
Que será eternizado, que não há de ficar somente na lembrança
daqueles que um dia participaram, mas será lembrado por
todos que um dia estiveram na festa da Lapinha e tiveram a
oportunidade de se emocionar com seus cantos e melodias, de
se alegrar com as coreografias de suas ciganas, a beleza de suas
alegorias e, para aqueles que ainda não tiveram oportunidade de
ver o Rosa Menina, eu convido a fazer uma viagem comigo, que se
inicia no dia 1º de novembro de 1945.

Neste livro trago alguns depoimentos de pessoas que um


dia fizeram parte da família Rosa Menina. Esses depoimentos
são verdadeiros e foram autorizados por todos.

Sua filha querida.

18
Eternamente Rosa Menina

“O Terno Rosa Menina é mais que uma manifestação


do folclore e da cultura do nosso estado, é uma prova concreta
de amor e fidelidade a uma tradição”.

Regina Nascimento

Salvador, 1º de novembro 1995.

19
NASCE UMA NOVA ROSA

O ano era 1945, o mundo comemorava o fim da segunda


guerra mundial, a Alemanha nazista destruíra varias nações,
o mundo ainda chorava suas perdas e contabilizava seus
prejuízos. Muitos filhos esperavam por um pai que jamais
iria voltar, muitas mulheres choravam a viuvez. As nações
começavam a pensar em reerguer-se, em meio a tudo isso,
bem longe dos canhões, das bombas e dos foguetes, um grupo
de rapazes se reunia na intenção de criar um Terno de Reis.
Silvano, na época com 30 anos, trabalhava como carpinteiro,
e nas horas de folga ajudava a ensaiar o Terno das Sempre

21
Regina Cruz do Nascimento

Vivas, porém, cansado de estar sempre ajudando a organizar o


terno de outros, Silvano resolveu convidar os amigos Agnelo
Francisco do Nascimento, Armando Nascimento, Manoel dos
Reis, Enock dos Reis e Plácido para se reunirem no Largo da
Cruz da Redenção, nº 02, Brotas, Salvador-BA, nessa reunião
nasce o Terno que ficou conhecido como Terno Rosa Menina.

No começo era só brincadeira, os amigos resolveram


fazer um Terno de Reis para desfilar no bairro de Brotas, visto
que na época somente Ternos grandes e tradicionais desfilavam
na Lapinha. Havia um número imenso de Ternos de Reis, os
quais começavam desfilar por volta das 21 horas do dia 05
de janeiro e entravam pela manhã do dia 06, dia de Reis. A
decisão de Silvano em criar seu próprio Terno surgiu após uma
desavença com a dona do Terno das Sempre Vivas. Silvano
sempre organizado e autoritário nunca admitiu interferência
em seu trabalho, fora convidado pela dona do Terno para que
ensaiasse as meninas; levou algumas crianças do bairro de
Brotas e Amaralina e foi ensaiar o Terno. Contava Silvano que
o Terno das Sempre Vivas era um dos mais ricos e bonitos da
época, todavia, a riqueza dos seus trajes não era suficiente para
que fosse um Terno organizado. Silvano muito organizado e
decidido em suas opiniões, às vezes até radical, se viu perdido
num Terno em que até músico mandava. Além disso, ficava
chocado com o preconceito ali existente, meninas mulatas e
negras não saíam no Terno. Um dia uma das meninas que ele

22
Eternamente Rosa Menina

levou para participar do Terno foi impedida de ensaiar por ser


de cor negra; isso revoltou o mestre que saiu de lá dizendo que
nunca mais voltaria e que iria organizar seu próprio Terno.

Isso serviu de chacota, afinal de contas um marceneiro,


pobre, semianalfabeto, ia fazer Terno como? “Terno de Reis
é coisa séria, coisa para quem tem dinheiro e pode gastar”,
diziam. O fato é que Silvano era persistente, não desistia nunca
dos seus sonhos e, apesar da pouca instrução tinha uma coisa
que talvez faltasse aos demais, uma iluminação muito grande:
aprendeu tudo na vida sozinho, apenas com os ensinamentos
do Mestre Jesus, e era nele que confiava para vencer mais essa
batalha.

No início seus amigos se assustaram com a proposta de


criar e organizar um Terno de Reis. Todos de família humilde,
não tinham amigos ricos que pudessem patrocinar o evento,
como iam conseguir fundar e administrar um Terno de Reis?
Pensando assim, resolveram que o Terno sairia com garotas da
vizinhança e desfilaria apenas no bairro de Brotas, com a ajuda
dos moradores e dos pais das crianças. E assim foi feito. No
dia 05 de janeiro de 1946 saía pela primeira vez, pelas ruas do
bairro de Brotas, o Terno Rosa Menina, com garotas de 05 a
12 anos de idade, que eram arrumadas pelos próprios pais. As
vestimentas eram feitas de papel crepom, as meninas dançavam
segurando pequenos cajados com lanternas e velas acesas,

23
Regina Cruz do Nascimento

elaboradas por Silvano e tocando pequenos pandeiros. E foi


assim que começou, pelas ruas do bairro de Brotas cantando,
dançando e alegrando os pais e vizinhos daquelas pequenas
crianças.

Mas Silvano era ousado e bom brasileiro e, um bom


brasileiro não desiste nunca, enquanto trabalhava como
marceneiro ele ia criando suas canções, nunca escreveu
nenhuma das músicas que compôs. Decorava a letra, arranjava
a melodia e quando estava pronta passava a ensinar as
meninas, levava sempre suas letras para um senhor conhecido
por Aloísio, que o ajudou a aprender ler e escrever e, este fazia
as necessárias correções dos possíveis erros do português mal
falado pelo Mestre Silvano, que sempre demonstrou muito
respeito e admiração a esse amigo. Algumas músicas ele
compôs em parceria com Armando, outras compôs sozinho. O
importante na vida não é saber falar bem, é fazer-se entender e
isso Silvano sabia muito bem.

Cântico dos Reis

Moradores de Belém,
da santa consolação,
é chegada hoje,
a noite da sagrada adoração.

24
Eternamente Rosa Menina

Os três Reis quando souberam


que Jesus era nascido
se puseram a caminho
com presentes escolhidos.

O primeiro trouxe ouro


para o seu trono dourar.
O segundo trouxe incenso
Para seu trono incensar.

O segundo trouxe incenso


Para seu trono incensar,

25
Regina Cruz do Nascimento

O terceiro trouxe mirra


Por saber que era imortal.

As meninas saíam pelas ruas cantando e de casa em casa


eram recebidas pelos proprietários que ofereciam mungunzá,
arroz doce e refrescos e, quando chegavam às casas, para saldar
aos moradores cantavam uma “chula” que é mais ou menos assim:

Vamos entrando com muita alegria,


Levando a rosinha em nossa companhia,
Cercada de flores, cercada de luz
Levando louvor ao menino Jesus
E o dono da casa com muito prazer
Louvando a Jesus é o nosso dever (repete)

Apesar de sua pouca instrução Silvano compôs músicas


e versos dignos de um poeta. Nunca cursou uma escola, não
frequentou uma faculdade, mas várias vezes foi convidado a
fazer palestras para universitários. Não sabia falar direito, mas
sabia fazer-se entender, não tinha grande educação, mas soube
educar doze filhos, seus fiéis escudeiros; não quis o melhor
para si, mas sempre deu o melhor de si aos seus filhos e netos,
nunca soube ensinar uma tarefa da escola, mas soube ensinar
com seu exemplo.

26
O ROSA MENINA SURGE PELA
PRIMEIRA VEZ NA LAPINHA

Depois de desfilar no bairro de Brotas e de ter conquistado


o carinho e a admiração dos moradores, Silvano e seus
companheiros decidem investir na Festa da Lapinha, era uma

27
Regina Cruz do Nascimento

ousadia muito grande para um grupo de rapazes do bairro de


Brotas ir à Lapinha e querer competir com Ternos de reis que
já estavam há anos no cenário baiano, e para isso precisariam
contar com o apoio dos pais das crianças e a coragem para correr
em busca da realização do sonho. Nessa época, o Governador
Otávio Mangabeira resolveu dar uma colaboração para os
Ternos e Silvano tomou a iniciativa de se inscrever para receber
o tal auxílio. E foi assim que no dia 05 de janeiro de 1948,
surge pela primeira vez na Festa da Lapinha o TERNO ROSA
MENINA, oriundo do bairro de Brotas. Pequeno, humilde,
com meninas de origem pobre, na maioria de cor negra e que
tinha dentro de si um grande ideal, brilhar na festa da Lapinha
e foi assim que o ROSA MENINA chegou à Lapinha para ser
vencedor. Os aplausos foram consequência da ousadia daquele
grupo. E o Rosa Menina subiu pela primeira vez no palanque
da Lapinha cantando assim.

Marcha nº 01

Eu vi no céu uma estrela


Que coisa bela, que linda luz,
Era o sinal da Profecia,
Foi nesse dia, nasceu Jesus.
Vamos Pastoras, chegou o dia
Tão esperado por toda gente,

28
Eternamente Rosa Menina

Deus nos envia seu filho amado


O Bom Jesus, Onipotente.

Até hoje, eu não sei se esta marcha ficou conhecida


como Marcha nº 01, se foi por motivo de ter sido a primeira
que Silvano compôs ou por outro motivo que desconheço.

Após a apresentação os comentários na época eram


tipo: “de onde surgiu este Terno?”, “Simples, porém muito bem
organizado e dirigido”. As rádios falavam da estreia do Terno
do bairro de Brotas que tinha se apresentado pela primeira
vez na Lapinha e já mostrava que tinha vindo para ficar. E daí
começou a legião de fãs do Rosa Menina, que nunca deixou de
crescer; que ano após anos comparece à festa da Lapinha, para
ver o Terno de Reis daquele
senhor careca, vestido de
branco, que o conduz com
tanto entusiasmo e amor.

O Rosa Menina não


parou por aí. No ano de 1954
sagrou-se campeão, dispu-
tando com Ternos de nome
como: Terno do Sol, Terno
da Estrela do Oriente, Terno
da Bonina; Terno das Sempre
Vivas, Terno das Flores, Leão

29
Regina Cruz do Nascimento

de Ouro, Terno dos Astros, Terno Romeiros do Oriente, Terno


do Bacurau, Estrela Dalva, Concha de Ouro de Amaralina, e
tantos outros que ficaram no passado. Foi também campeão
em 1962 e 1963, vice-campeão em 1964, campeão em 1965 e
1970, vice-campeão em 1973, tetracampeão em 1974, 1975,
1976 e 1977.

Cântico da Rosa

É noite de natal, noite de alegria


Viemos visitar a José e Maria
É noite de prazer e noite de primor,
Viemos adorar a Jesus Salvador.

Eu sou a Rosa Menina,


De encanto e de nobreza,
Os pastores se admiram
De eu ser tão pequena
Com tanta beleza

Boa noite, meus senhores


Vou viver lá no jardim
Peço a Deus felicidades
Pra todos vocês que gostaram de mim.

Às vezes fico me perguntando durante esses 68 anos


de existência do Rosa Menina, quantas garotas cantaram esses

30
Eternamente Rosa Menina

versos. Eu cantei pela primeira vez quando era menina, com


meus 13 anos e a minha filha cantou esse verso na Lapinha
pela primeira vez com 03 anos de idade. Eu saí no Terno pela
primeira vez, com 12 anos incompletos, o Juizado de Menores
não permitia que crianças com menos de 12 anos participassem
de festas de largo. A minha filha saiu pela primeira vez no Rosa
Menina, com 10 meses.

Falando em Juizado de Menores, nunca esqueço aquele


ritual, todo ano no dia 05 de janeiro meu pai levava uma relação
com nomes e idades de todas as moças que iam dançar no
Terno para pegar o Alvará do Juizado de Menores, pois sem ele,
qualquer Terno era impedido de subir no palanque da Lapinha.
Nunca esqueço a minha mãe perguntando: “Silvano, já pegou
o Alvará?”. E ele respondia: “Já está no bolso do paletó”. Assim
se sucedeu durante anos, até que há algum tempo o Juizado de
menores deixou de exigir Alvará e deixou também de determinar
idade para as crianças saírem no Terno, hoje, o número de
crianças de 07 a 12 anos que sai no Terno é expressivo e só não é
maior, por uma questão de segurança, a responsabilidade com o
Terno é muito grande e, com crianças é dobrada.

O cântico da rosa é uma parceria do meu pai com seu


amigo Armando. Ainda lembro a primeira vez que saí de Rosa
Menina. No início meu pai não queria me colocar na função
mais importante do Terno, que é a de representar o seu nome,

31
Regina Cruz do Nascimento

daí ele ficou ensaiando uma e outra menina e não acertava com
nenhuma, aí aconteceu que numa noite de ensaio, já no mês de
dezembro, na hora do cântico da Rosa, minha mãe me chamou
e disse: “Vá dançar”. Fiquei meio sem saber se deveria ir ou não,
com medo de decepcionar meu pai e perder aquela oportunidade
que minha mãe estava me dando; meio trêmula, dancei, cantei e
recitei o verso, pronto, fui aprovada, mas o pior ainda estava por
vir, no dia do ensaio geral, o barracão estava lotado, a transmissão
era ao vivo para todo o bairro, através do Serviço de Alto Falante,
quando começou o cântico do Guia, Rosimeire, que fora Rosa
Menina antes de mim e Tânia, a prima dela, começaram uma
onda de terror, a todo o momento perguntavam se eu estava
nervosa, se eu ia conseguir cantar. Rosimeire não parava de dizer:
“Quando eu era Rosa Menina, eu tremia igual a uma vara verde
na hora de cantar”, a pressão delas e de algumas ciganas em cima
de mim foi tanta, que acabou acontecendo. Na hora de cantar, eu
estava super-nervosa, comecei o verso e não consegui terminar,
a voz sumiu, fiquei gelada, decepcionada, envergonhada; a
vontade que eu tinha era de sumir, e para piorar minha triste
estreia como Rosa Menina, no dia seguinte logo pela manhã,
apareceu minha prima Jaíra e comentou: “Que Rosa Menina é
essa que seu Silvano arranjou? Foi horrível!”, meio triste e muito
envergonhada respondi: “A Rosa Menina sou eu Jai”. Ela tentou
consertar para eu não chorar, mas eu já estava bastante arrasada
para poupar as lágrimas.

32
Eternamente Rosa Menina

Mas enfim, chegou a festa da Lapinha, procurei não dar


ouvidos a nenhum comentário, e para alegria de todos cantei,
dancei e recitei meu verso com bastante tranquilidade. Hoje, eu sei
que as meninas não fizeram por mal, elas eram adolescentes e não
imaginavam que com aquelas palavras elas estavam me deixando
mais nervosa e insegura do que realmente eu poderia ficar. Aliás,
Rosimeire e a mãe dela sempre foram grandes parceiras do Terno
e sei que tinham muito amor e respeito pela Rosa.

33
E O GRUPO SE DESFAZ

No decorrer dos anos, o grupo foi se desfazendo, Agnelo mudou


de bairro, Enoque casou com uma das irmãs de Silvano, tia Zezé;
nunca soube o que aconteceu a Plácido e no ano de 1978, após

35
Regina Cruz do Nascimento

uma discussão com Silvano, no Bonfim, por motivos banais,


Armando deixa o Terno, dizendo que o Rosa Menina não ia mais
sair, pois dependia dele e das meninas que ele sempre levava
para dançar. O mestre Silvano se viu mais uma vez diante de um
desafio: acabar o Rosa Menina ou seguir em frente sozinho. Ele
fez a segunda opção, seguir com seu Terno, com a ajuda de Deus
e de sua esposa e fiel companheira Luiza.

Arrependido do que fez e vendo que a coragem do


mestre superava expectativas, Armando apaixonado pelo Rosa
Menina, nunca deixou de ir à Lapinha todos os anos para ver e
aplaudir o Rosa que ele ajudou a cultivar, sempre com lágrimas
nos olhos, ele vinha cumprimentar o amigo, dizendo: “Meu
Terno, minha Rosa Menina!”.

Foram várias vitórias, várias medalhas dessa história


de sucesso, a cada ano novas crianças se inscreviam e novas
canções surgiam da inspiração daquele marceneiro.

As ciganas sempre foram a paixão do meu pai, apesar


dele nunca ter declarado isso, se via nos olhos dele, o brilho
de satisfação na hora da coreografia das ciganas. E seu amor
pelas ciganas sempre foi tão notável que compôs três canções
para elas, mas uma dessas músicas, sei que era a que mais
gostava, a que mais o empolgava, talvez por isso foi um dos
poucos cânticos que ele nunca deixou de cantar em qualquer
apresentação, e diz assim:

36
Eternamente Rosa Menina

37
Regina Cruz do Nascimento

Cigana nº 02

Quero ver, quero ver


As ciganas o que é que vão fazer
Não me importa, tenho fé
Elas hoje vão fazer seu rapapé

Somos ciganas para nós


Tudo está bem
Fox-trot, tango e valsa
Arranjamos muito bem
Nossos pandeiros sabem
Que não têm ladeira
Aprendemos na Escola para não fazer asneira.

Donos das festas


Nós nos queira desculpar
Este terno é muito pobre
Não nos queira reparar
Venho de longe com prazer e alegria
Adorar a Deus Menino,
Filho da Virgem Maria

38
O ROSA MENINA SE DESPEDE
DO BAIRRO DE BROTAS

Silvano deixou o bairro de Brotas, pousou em Amaralina por


um tempo e depois seguiu para Pernambués, no dia 09 de
janeiro de 1955. Foi neste bairro que ele retomou seu Terno,

39
Regina Cruz do Nascimento

conheceu Luiza e com ela casou-se no dia 11 de janeiro de 1958.


Luiza passou a ser a esposa, companheira e responsável pela
organização das vestimentas. O bairro de Pernambués acolheu
este Terno com tanto carinho que o Mestre Silvano nunca mais
saiu de lá. Antes de conhecer Silvano, Luiza também fazia
Ternos e chegou a pisar no palco da Lapinha com o seu pequeno
Terno Concha de Ouro de Pernambués, mas o destino estava
traçado, o Concha de Ouro não resistiu muito tempo, faltava
apoio, na época os responsáveis pelo Terno era Luiza e seu
irmão Rosentino, muitos jovens e inexperientes para conduzir
um Terno de Reis, que requer muita responsabilidade de seus
organizadores.

Assim o Rosa Menina chegou imponente ao bairro de


Pernambués, as componentes do Terno Concha de Ouro logo
se transfeririam para o Rosa Menina e as meninas do bairro de
Brotas, seguiram o Mestre em seu novo desafio. O Terno Rosa
Menina se instalou no bairro de Pernambués, onde sobrevive
até hoje.

Noite de Natal

Numa noite de natal,


Uma estrela apareceu
Anunciando ao mundo:
“O bom Jesus Nasceu”.

40
Eternamente Rosa Menina

Eu sou aquela Estrela


Que tem a luz divina
Sou guia dos pastores
E da Rosa Menina.

Muitas vezes, durante a minha infância ouvi meu


pai cantarolando baixinho esta música enquanto trabalhava
como marceneiro. Esta música me acompanhou na infância,
na adolescência e até hoje me emociono quando ouço esse
refrão, sei que era uma das músicas preferidas dele e minha
também. Ela tem a letra bem simples, contudo a melodia é
linda, que toca fundo no coração, nunca esqueço, quando
ele falava para os músicos:
“Cântico do Guia, introdução
da Ave Maria”.

Quando o ouvia can-


tarolando o Cântico do Guia
(noite de Natal) sentia um
aperto no coração, era uma
coisa que não dá para expli-
car, uma mistura de alegria e
emoção, e atualmente quan-
do ouço essa música, sinto a
mesma emoção e muitas sau-
dades do meu velho querido.

41
Regina Cruz do Nascimento

Todo ano era uma festa quando começavam os ensaios


do terno, isso movimentava o bairro, o comércio e seus mo-
radores. Todo dia 05 de janeiro uma multidão se espremia na
entrada da sede para ver as meninas do Rosa passar. Era uma
multidão de apaixonados e curiosos que ficava aguardando ter-
minar de cantar o hino do Senhor do Bonfim para ver o Terno
entrar no ônibus com direção às festas de Largo, muitas mães
choravam emocionadas ao
verem suas filhas arrumadas
para seguir para a Lapinha. O
número de fãs era tão gran-
de quanto o de pessoas que
queriam participar de alguma
forma.

O mestre Silvano cos-


tumava dar títulos a algumas
ajudantes, a maioria delas era
diretora, nunca entendi esse
cargo de diretora do Terno,
esta forma de agradecimento
era na minha opinião, tanto
quanto equivocada. A maio-
ria das diretoras eram pessoas
sem nenhum compromisso
com o Terno, apenas porque

42
Eternamente Rosa Menina

levavam duas ou três meninas para sair no Terno já passavam


a ser diretoras, certo que era um cargo simbólico, mas ainda
assim, muitas vezes prejudicial.

Durante o percurso minha mãe ficava com a


responsabilidade de tomar conta das meninas, ajudar meu
pai na direção, enquanto as “diretoras” corriam na frente e
quando o Terno chegava no
palanque, elas se colocavam
na posição de diretoras e
eram as primeira a subir e
em muitas ocasiões minha
mãe e mamãe Braulina
foram impedidas de subir
no palanque porque os
seguranças alegavam que
já tinha gente demais no
palanque, isso muitas vezes
gerou um mal estar muito
grande e minha mãe que
nunca foi de ouvir desaforos
calada, acabava discutindo
com os seguranças para
fazer valer o seu direito de
esposa e organizadora do
Terno, em algumas ocasiões

43
Regina Cruz do Nascimento

foi necessária a intervenção do meu pai. Na realidade, o


pobre do segurança que não tinha nada a ver com o fato e só
estava ali fazendo seu serviço era quem ouvia. Aliás, minha
mãe sempre foi contra essa legião de “diretoras”.

44
DINDINHA RITA, ETERNA
MADRINHA DA ROSA

Entre essas pessoas que receberam título, uma delas vai


ficar eternizada, Dindinha Rita, como ele carinhosamente
chamava minha avó, ela ficou com o título de “Madrinha
do Rosa Menina”, título este que ela recebeu com muito
orgulho, e enquanto teve saúde, Dindinha Rita nunca deixou
de acompanhar o Rosa Menina nas suas apresentações. Ela
ajudava a tomar conta das crianças menores, inclusive eu,
que não tinha idade suficiente para sair no Terno. Vovó era
uma torcedora ardente, quando havia concurso de Ternos,
no dia seguinte à apresentação, cedo ela estava ligada no
rádio para saber o resultado, e quando o Rosa Menina
não ganhava, ela reclamava, dizia que foi “marmelada”,
que o Terno vencedor não estava mais bonito que o nosso.
Criou-se uma rivalidade com o Terno da Terra, digna de
um BA-VI. O Rosa Menina já ia para Lapinha preparado
para enfrentar o Terno da Terra e vice-versa, poucos Ternos
disputaram tantos títulos como esses dois, mas Dindinha
Rita como boa torcedora e madrinha não admitia o vice-

45
Regina Cruz do Nascimento

campeonato e muitos dos títulos que o Terno perdeu, não


foi na qualidade das músicas ou das componentes, muitas
vezes ouvi minha mãe dizer que o Terno foi reprovado pelo
jurado, porque uma baiana conseguiu burlar a vigilância e
saiu de sapato preto. Outras vezes, porque uma cigana saiu
de sapato branco ou uma pastora (florista) saiu de sapato
preto. E quem disse que existia ou existe determinação
de cor para sapatos de floristas e/ ou ciganas? Mas como
sabemos que nem sempre o julgamento é “justo”, muitos dos
jurados sequer faziam ideia do que era Terno de Reis, outros,
no entanto eram conhecedores da cultura de reis e sabiam
que aquela justificativa não tinha fundamento.

Dindinha Rita como boa torcedora, também tinha


sua música preferida, a Marcha nº 02 (Que Alegria). Ela
costumava dizer que a coisa que mais a deixava feliz era
quando o Terno se arrumava na Ladeira da Soledade e
começava a cantar aquela música, essa era a marcha das
ciganas. Hoje o Terno não sobe mais a ladeira da Soledade
tocando, por causa do trânsito e da falta de interesse dos
órgãos públicos em promover a Festa de Reis. Atualmente
os Ternos se arrumam na entrada da Lapinha. Antigamente,
no meu glorioso tempo de cigana, junto com minhas irmãs,
nós subíamos a ladeira cantando e abaixando para bater o
pandeiro,

46
Eternamente Rosa Menina

Marcha nº 02

Que alegria, que prazer sem igual


quando se vai a Lapinha
em noites tradicionais

47
Regina Cruz do Nascimento

Foge a tristeza e surge a animação


devemos ir a Lapinha
festejar a tradição.

Ciganinhas mostrais o que tens


porque vós cantas e danças também
é tão lindo o seu requebrar,

Nós queremos ouvir seu cantar


não recuse em nos dar o prazer,
porque é de fato fazer valer,

Quando canta uma canção


que alegria em nosso coração.
mesmo sendo pequena,

Qual lindas verbenas


devemos dar a prova de amor
levando a rosa esta flor tão fina
com seu perfume embriagador

Toda felicidade dessa mocidade


ao bom Jesus devemos agradecer
hoje é dia de alegria,
devemos todos cumprir nosso dever.

Além de Dindinha Rita, outras pessoas receberam


o título de Diretoras do Terno Rosa Menina. Ainda lembro

48
Eternamente Rosa Menina

algumas delas como: tia Tidinha, minha madrinha Lourdes,


D. Dinorah, D. Pequena, D. Francisca, tia Maria, Tia Teté, e a
sempre atenciosa mamãe Braulina, esta ainda continua firme,
ajudando no que pode, dentro das suas limitações. Nunca
soube se Célia também tinha algum cargo no Terno, mas é
outra pessoa que está ali sempre disposta a ajudar. Célia nunca
falta às festas da Lapinha, lembro que durante a minha infância,
era ela quem me arrumava, penteava meus cabelos, bordava
os meus vestidos e ainda hoje continua ajudando, bordando
as roupas, arrumando as meninas, penteando algumas, sempre
presente nas apresentações do Terno Rosa Menina.

49
DE GARRAFA A GEGÉ – A MÚSICA
NÃO PODE PARAR

A primeira vez que saí no Terno foi de guarda de honra do Rosa,


sempre entendi que guarda de honra do Rosa e camponesas são
apenas uma invenção para não deixar as pequenas fora do Terno

51
Regina Cruz do Nascimento

e eu era bastante pequena, nem precisa dizer. Aí me colocaram


de guarda de honra do Rosa, no ano seguinte saí de guia,
posteriormente de Rosa Menina, espanhola, cigana e finalmente
Porta-estandarte. Nunca esqueço a figura de “Seu Garrafa”, era
um músico no qual meu pai depositava toda a sua confiança.
Garrafa tocava trombone e conhecia profundamente todas as
músicas do Terno, a impressão que dava era que Garrafa tinha
ajudado a compor, bastava Silvano dizer o nome da música e
Garrafa só esperava pelo apito. Ele sabia de tudo, letra por
letra, nota por nota. Garrafa era o preferido das componentes,
principalmente das porta-estandartes, porque a elas cabe a
responsabilidade de um bom desempenho do Terno. As ciganas
e as espanholas podem errar, elas estão em grupo, poucas
pessoas vão perceber, elas cantam e dançam juntas. A Rosa
Menina, o guia e o jardineiro, são crianças, se errarem serão
perdoadas, mas ninguém perdoa uma Porta-estandarte que não
sabe cantar e dançar, a responsabilidade da Porta-estandarte é
tão grande que muitas vezes vi o Mestre tremer na hora do Hino
de Adoração, mas Garrafa tinha o dom de passar tranquilidade
para as porta-estandartes. Ele sempre nos dizia: “Fique tranquila,
deixe comigo que vai dar tudo certo”. E sempre dava, porque
quando ele percebia algum deslize, entrava com o trombone e
praticamente encobria a voz de quem estava cantando.

O Terno tinha um ritual antes de sair para a Lapinha,


meu pai chamava a Porta-estandarte e a Rosa Menina para

52
Eternamente Rosa Menina

passar o Hino de Adoração e o cântico do Rosa, com Garrafa,


depois todos seguiam para o barracão onde era cantado o Hino
do Senhor do Bonfim e só depois era que saía em fila para o
ônibus. Dentro do ônibus cantava a marcha nº 04 e ai sim, o
Terno estava preparado para subir o palanque da Praça da Sé e
Lapinha. Mas com o tempo meu pai foi desprezando este ritual,
não por opção, por economia, porque o dinheiro que recebia
era muito pouco, daí os músicos passaram a seguir direto para
a Lapinha onde se reúne ao Terno.

Garrafa apesar de ser fã das porta-estandartes também


tinha sua preferência e ele
nunca escondeu que sua
música preferida era o cân-
tico das espanholas.

Cântico das espanholas

Venha dançar espanhola


todos esperam você
dizem que na castanhola
sabe fazer miserê
deixa de bossa
a noite é nossa
venha nos dar o prazer.

53
Regina Cruz do Nascimento

Eu não entendo de samba


em meio de bamba
o que eu vou fazer
eu sei dançar minha rumba
não vou a macumba
lá no cangerê.
Na minha terra em Servilha
dançando quadrilhas,
eu sempre ganhei
mas nesse passo de samba
em meio de bamba
me atrapalhei.

Uma lembrança que nunca saiu da minha memória foi


quando pela primeira vez saí de Porta-estandarte no Terno.
A minha estreia foi na Praça Municipal, quando chegamos
à Praça Municipal havia um Terno se apresentando, o fato é
que a Porta-estandarte dele tomou uma vaia tão sonora que
me atingiu em cheio. Eu era a próxima, eu seria a da próxima
vez, tremia as pernas, as mãos, fiquei gelada, cheguei perto de
Garrafa e disse: “me ajude”. Ele somente sorriu, acenou com a
cabeça e disse: “Fique tranquila, eu estou aqui do seu lado, não
olhe para as pessoas, não pense em nada, cante que eu estou
aqui pra lhe ajudar”. Sei que não era a única nervosa, ainda
me lembro, que logo que terminou a marcha, meu pai pegou
o microfone, cumprimentou o público e anunciou: “Vamos

54
Eternamente Rosa Menina

ouvir o Hino de Adoração, a Deus de lá do Infinito”. Nunca


esqueço do momento em que ajoelhei e meu pai chegou com
o microfone pra mim, as mãos dele tremiam, o silêncio do
público era geral, pensei: eu seria a próxima vítima, a próxima
a ser vaiada. Respirei fundo olhei para Garrafa que fez o sinal
de positivo e cantei pela primeira vez este Hino que sempre foi
o terror e o amor de todas as porta-estandartes.

Hino de Adoração

Ó Deus de lá do Infinito,
ouvis a minha oração
Jesus, o vosso filho bendito
que seja a nossa Salvação,
abençoai aos pastores
que hoje vem adorar
cantando hinos de
glórias e louvores
diante do seu altar.
É noite de Natal e noite de alegria
viemos adorar ao bom Jesus
o filho de Maria...
Maria, mãe imaculada,
por vosso filho varonil
sejais, a nossa Advogada

55
Regina Cruz do Nascimento

defendas o nosso Brasil,


daí nos a Benção Sagrada
daí nos a paz e o amor
para cantarmos Glórias e Louvores
a Jesus o Salvador.

Terminei o Hino de Adora-


ção, olhei para Garrafa que sorria,
muitos aplausos, os músicos me
cumprimentaram e aí sim, depois
de passar nesse vestibular, eu esta-
va preparada para subir ao palco da
Lapinha e enfrentar aquela multidão
de fãs do Rosa Menina, a maioria
deles, tão exigentes quanto o próprio dono. Daí eu nunca mais
parei de cantar esse hino, e ainda hoje me emociono. Cada vez
que me ajoelho em frente a Igreja da Lapinha para cantar o hino
que é de todas as porta-estandartes do Rosa Menina. Motivo de
orgulho do Mestre Silvano que sempre falava: “Este Terno sem-
pre teve ótimas porta-estandartes, e me orgulho muito do meu
Terno nunca ter sido vaiado”.

Garrafa faleceu em 1993 e para o seu lugar veio Gegé


que ficou responsável pelos músicos. Infelizmente ele deixou
o Terno por motivo de saúde. Hoje quem comanda os músicos
é Carlinhos.

56
Eternamente Rosa Menina

Todos os outros músicos do Rosa Menina merecem


nossos aplausos, pois são eles os responsáveis pelo desempenho
do Terno. Os músicos jamais podem errar, pois se erra, todos
erram com eles, por isso a preocupação do Mestre Silvano em
escolher o pessoal que com ele puxava o Rosa Menina para o
sucesso.

Na trajetória do Terno Rosa Menina, outros músicos


se destacaram, como: Anísio do bairro de Brotas, Carlinhos,
Jorge, Renato Batista, Cuica, Dudu, entre outros. Segundo eu
ouvia contar, Anísio amava tanto o Terno que chegou a brigar
com o Mestre Silvano várias vezes, eles discutiam porque
Silvano mandava tocar uma música e Anísio queria tocar outra,

57
Regina Cruz do Nascimento

autoritário como era, Silvano não admitia desobediência, ele


aceitava opinião, mas nunca interferência de músicos em seu
trabalho e Anísio, por ter um relacionamento de amizade antigo,
desde à época de Brotas, tinha a mania de tocar o que ele mais
gostava, e acabavam brigando, por isso Anísio saiu do Terno.
Sempre ouvi dizer que a música preferida de Anísio era o samba
das baianas e ele tocava esse samba em qualquer apresentação e
isso, às vezes irritava meu pai, que
mandava que tocasse outra música
e Anísio vinha com o samba, aliás
a história desse samba é muito
bonita, Silvano compôs ele em
homenagem a Otavio Mangabeira,
Governador da Bahia que foi o
primeiro a ajudar os Ternos de
Reis e aos poetas Rui Barbosa e
Castro Alves.

Samba da Baiana

Venha sambar minha baiana,


hoje é noite de prazer,
venha sambar aqui neste salão
aqui neste salão com alegria
vem cumprir o seu dever.

58
Eternamente Rosa Menina

A baiana da cidade pra sambar


tem muito jeito,
samba mesmo de verdade
não apresenta defeito,
eu vendo manga, abará e acarajé
e na roda do samba faço meu rapapé.

E eu nasci nesta terra hospitaleira


onde nasceu Castro Alves,
Ruy Barbosa e Mangabeira
eu sou do samba, vim mostrar o meu valor
aqui neste salão, com todo amor.

59
DA ESPANHA À BAHIA

A sapiência do Mestre era tão grande que apesar de ter pouca


instrução colegial, tinha muito conhecimento de cultura, por
isso, incluiu no Terno a figura da espanhola, como uma forma
de homenagem e agradecimento aos europeus, por ter trazido
uma cultura tão linda como esta para o nosso país. Lembrando
que as espanholas são exclusividade do Rosa Menina.

61
Regina Cruz do Nascimento

Os Ternos de Reis são originários da Europa, mais


precisamente da Espanha e Portugal, e foram trazidos para o
Brasil na época da colonização, aqui se proliferou pelo interior
do Brasil. Em alguns lugares é chamado de Folia de Reis e em
outros, Reisado. Atualmente existem muitos Ternos de Reis
no recôncavo e no sudoeste baiano, além de São Paulo, Minas
Gerais, Santa Catarina, Pernambuco etc. Em Salvador a folia
de Reis tem o nome de Terno de Reis, que semanticamente
significa “três reis” e é uma cultura de cunho religioso, pois traz
em seus cânticos músicas em louvores ao nascimento de Jesus e
a Família Sagrada. Em Salvador a festa de Reis acontece sempre
no dia 05 de janeiro no Largo da Lapinha, após o encerramento
da novena os Ternos passam a desfilar e se apresentam em um
palanque localizado em frente à Igreja. Na década de 1950 a
1970, os Ternos de Reis em Salvador viveram seu momento
de glória, era uma das festas mais disputadas do calendário
de festas populares de Salvador. Todas as moças queriam sair
no Terno e faziam questão de ostentar o nome do Terno que
representavam; não se importavam com os gastos, o que elas
queriam era estar cada vez mais linda, arrumadas e muito bem
ensaiadas para entrar no concurso de Ternos para vencer. No
meado dos anos 1980 os Ternos de Reis começaram a enfrentar
sérios problemas para se manterem, na realidade. Os Ternos de
Reis não se prepararam para sobreviver sem a ajuda dos órgãos
públicos, como fizeram os blocos de carnaval. Assim, como

62
Eternamente Rosa Menina

não estavam preparados para andar com as próprias pernas


entraram em declínio e descrédito. Seus organizadores, pessoas
de baixa renda, sem muita instrução colegial e principalmente,
desconhecedores de marketing, não conseguiram arrumar
uma maneira de sobrevivência, por isso a festa de reis se
transformou numa festa sem atrativos, os poucos Ternos que
desfilam levam para a rua a dificuldade estampada nas suas
vestes e na sua organização, por outro lado, Ternos como o
Rosa Menina procuram manter a tradição e o brilho que ainda
resta da festa de Reis.

63
Regina Cruz do Nascimento

O Terno Rosa Menina, não podia deixar de fazer


também homenagem a esta terra maravilhosa, cheia de
encantos e magia, por este motivo foi introduzida a figura
da “baiana”, aquela representante legítima da nossa cultura
e do nosso legado africano; isto é conhecimento do que se
faz, é saber fazer a pluralidade cultural, é valorizar tanto o
afro como o europeu e só mesmo uma pessoa com tanta
iluminação tem esta capacidade. Como meu pai, o Mestre
Silvano, sempre falava: “Muita gente faz Terno de Reis, mas
poucos sabem o significado dessa cultura”. E esta é a mais
pura verdade, por isso o Rosa Menina, nunca se afastou do
seu objetivo principal, adoração ao Menino Jesus e nunca
abandonou a tradição. Todas as músicas do Terno falam do
nascimento de Jesus com exceção das espanholas e do samba,
que estão fora do contexto religioso.

Samba nº 02

Eu vou lhe dizer logo a verdade


esta nossa amizade, veio nos atrapalhar
você não gosta da folia,
eu sou filha da Bahia
não vou me amofinar.
O samba para mim é uma tradição
pandeiro para mim é uma sedução

64
Eternamente Rosa Menina

por isso eu agora vou dizer


a baiana que não samba devia morrer.

Nasci nesta terra hospitaleira


onde nasceu Castro Alves,
Ruy Barbosa e Mangabeira
a minha terra tem valor,
é a terra do poeta é a terra do doutor,
o samba para mim é uma tradição
pandeiro para mim é uma sedução
por isso eu agora vou dizer
a baiana que não samba devia morrer.

Quando ouço este samba me vem na lembrança duas


baianas que marcaram época na Rosa Menina: uma se chamava

65
Regina Cruz do Nascimento

Valquiria, apelidada por VAUM, e a outra era Lindinha (filha


de dona Assunção).

Vaum era uma negra baixinha, fechada, nunca a via no


meio das outras. Ela chagava sozinha, carregando na sacola
umas quatro anáguas e várias contas, sei que havia várias
pessoas que eram fãs de Vaum. Mais quem não era fã daquela
baiana legítima. Não sei dizer se ela era adepta do candomblé,
mas se vestia como uma verdadeira mãe de santo (yalorixá).
Não sei como suportava o peso daquelas contas, a verdade é que
Vaum era uma baiana de verdade, tinha sempre no semblante
uma seriedade de quem estava cumprindo uma missão. Vaum
era a baiana preferida do público, tinha o respeito das colegas e
a admiração do Mestre Silvano.

Quanto à Lindinha era verdadeiramente o oposto de


Vaum. Era alegre, brincalhona, não costumava levar as coisas
muito à sério, de vez em quanto era chamada à atenção, no
entanto, todo mundo gostava daquela menina de jeito moleca.
Quando tocava o samba, parecia que ela recebia uma entidade,
porque a nega “fechava” em cima do palanque.

Seria injusto não falar também de Maria, Djaina,


Glorinha, Jaci e tantas outras que sempre fizeram questão de
mostrar ao público “o que é que a baiana tem”.

66
SURGE UM NOVO MÚSICO

Dizem que filho de peixe, peixinho é, e eis que nasce José


Márcio. Alguém tinha que herdar o dom da música, 11 filhos,
e nenhum deles se interessou por música, e aí nasceu o 12º, o
caçula. Esse menino, ainda pequeno pegava os instrumentos de
brinquedo e ficava ali tocando,
alguns feitos por ele mesmo,
ele tocava tudo de ouvido.
Certo dia um americano
amigo nosso, conhecido por
Ralph ouvindo Marcio tocar
ficou impressionado como
ele tocava, sem nunca ter
estudado música, e conseguiu
para ele um curso na Escola
de Música da Universidade
Federal da Bahia (UFBA),
onde Márcio se formou,
hoje é ele o responsável pela
orquestra.

67
Regina Cruz do Nascimento

Márcio toca todos os instrumentos de tecla, corda e às


vezes arranja também com o pandeiro, por isso ocorre em várias
ocasiões a gente vê Marcio no Terno, no mesmo dia tocando
instrumentos diferentes. No trajeto pela rua ele toca violão ou
cavaquinho e, às vezes, pandeiro, e em cima do palanque ele
toca teclado. Meu pai sempre demonstrou todo o respeito e a
admiração que ele tinha por Marcio, é ele o responsável por
ensaiar as meninas, por ensiná-las a cantar, e nas apresentações é
ele com seu teclado quem puxa as músicas. A presença de Márcio
no Terno se tornou tão necessária que até os outros músicos se
confundem quando ele não está. Esse caçula não é brinquedo
não, ele se sente responsável pelo Terno e o Mestre Silvano sentia
a necessidade de tê-lo nos ensaios e nas apresentações. Muitas
vezes, ouvi meu pai falar que tinha certeza que Márcio não ia
deixar o Terno acabar na falta dele. Ele confiava em Márcio tanto
que se Márcio não pudesse participar de uma apresentação,
meu pai ficava totalmente chateado e triste, pois ele sempre
soube o valor e a importância de Márcio com seu teclado nas
apresentações do Terno. E para provar que filho de peixe é
mesmo peixinho, é que Priscila filha de Márcio também já está
cantando, e tocando como se vê na foto ao lado.

Gostar de Terno de Reis nesta família é quase uma obri-


gação, ou será vocação? O Terno Rosa Menina é uma tradi-
ção passada de pai para filho e de filho para neto. Nenhum de
nós ensinou os filhos a gostar do Terno, é uma coisa que está

68
Eternamente Rosa Menina

no sangue, no DNA da família Nascimento. Do mesmo jeito


que nós, os filhos, crescemos acompanhando nossos pais, os
nossos filhos estão trilhando
o mesmo caminho. Na foto
seguinte podemos ver Ana
Luisa, Priscila, Daniel e Pe-
dro, nossos filhos amados de-
monstrando toda a felicidade
de estar ajudando a manter a
tradição.

Nessa família cada


um tem sua função no Terno.
Bruno, Marquinhos, Alisson,
Augusto, Lucas, Samuel, Tia-
go e Pedro ajudam na orga-
nização e carregam cajados.
Tiago, Samuel e Lucas, foram
reis, Bruno carregou seu pri-
meiro cajado quando estava
com dois anos, meu pai fez
uma réplica dos cajados do
Terno e Bruno levou para a
Lapinha todo entusiasmado,
foi um sucesso total, os fotó-
grafos não deixavam o garoto

69
Regina Cruz do Nascimento

dar um passo, todo vestido de branco como o avô, Bruno ia na


frente ao lado do mestre, com seu pequeno cajado, demons-
trando responsabilidade e respeito, apesar de só ter dois anos.

70
AS PORTA-ESTANDARTES

Nos seus 68 anos de existência, várias porta-estandartes carregaram


aquela bandeira, algumas com tanto amor e dedicação que
pareciam estar carregando um troféu. O Mestre era muito exigente
na hora de entregar o estandarte para alguém, tinha que mostrar
muito que sabia dançar, cantar e que estava a altura de carregar o
estandarte do Rosa. Muitas tentaram, outras sonharam, algumas
ficaram na frustração de não ter sido escolhidas, sei que algumas

71
Regina Cruz do Nascimento

delas bem que mereciam, mas dono de Terno é como técnico de


futebol, a torcida vê um jogo o técnico vê outro. E foi sempre assim,
meu pai mandava duas ou três meninas ensaiarem até se decidir
por uma, mas como ele não gostava de ferir ninguém, a que não
foi escolhida ficava como reserva e se alguma coisa acontecesse
que a titular não pudesse comparecer, a reserva já estava ali pronta
para entrar em campo. Todas torcendo por uma oportunidade de
ser a rainha do Terno, de ter o prazer de se vestir como princesa e
carregar o maior troféu do Terno, o seu estandarte.

Tenho recordações vagas de algumas porta-estandartes


como Hilda, Loló e Lílian, e lembranças mais vivas de Jaíra,
Sonia Fontes, Luisa, Valdemarcia, Meire e Jace. Cada uma a seu
tempo brilhou e soube carregar aquele estandarte com muita
dignidade. Todas tinham o mesmo ideal: brilhar nas festas e
mostrar a Silvano que ele estava certo em tê-las escolhido.

São tantas as histórias de Porta-estandarte do Rosa


Menina... Uma delas me foi contada por vovó, disse ela,
que próximo da festa da Lapinha, a mãe de Loló (Heloina)
faleceu e nessa época não tinha outra que a substituísse, pois
Hilda, a sua substituta imediata também não poderia ir por
problemas de saúde. Lóló foi para a Lapinha, cantou todo o
hino de adoração chorando, as pessoas ficaram impressionadas
com a capacidade dela, pois o hino já é difícil de ser cantado
normalmente, imagine chorando!

72
Eternamente Rosa Menina

Em outra ocasião o Terno foi se apresentar no Pelourinho,


antes de ir para a Lapinha, eu estava fora, ajudando na organização,
de repente a Porta-estandarte, Valdemarcia, me chamou e falou
que seu sapato tinha rasgado, quando olhei para os pés dela, o pé
estava totalmente para fora do sapato, nesse ínterim aparece uma
emissora de televisão filmando o Terno, não tive alternativa, tinha
que achar um sapato para a menina com a máxima urgência,
avistei D. Luzia calçada com um sapato branco, me aproximei dela
e perguntei: Que número a senhora calça? Ela respondeu 37, eu
então pedi o sapato para ver e saí correndo, entreguei o sapato à
menina, que mal teve tempo de calçar e já estava com a câmera em
cima dela. D. Luzia ficou reclamando, mas o que eu poderia fazer?
Era a única opção que tinha no momento, acho que até hoje ela
me xinga por tê-la feito andar descalça o Pelourinho inteiro.

As músicas do Terno eram tocadas num tom muito alto


e dificultava para quem ia puxar o verso sozinho, e é assim
com a Porta-estandarte, tem que cantar o Hino de adoração
sozinha, eu sei dessas dificuldades, mas uma Porta-estandarte
se destacou no quesito “garganta”, eu sempre ouvi meus pais
comentarem que Hilda se superava nesta questão. A menina
tinha um “vozeirão” e em qualquer tom que tocasse, ela cantava,
sem nenhuma dificuldade. Márcio ia gostar de tocar para uma
pessoa assim. Hoje, os cantos do Terno já estão em um tom
mais ameno, porque Márcio ciente das nossas dificuldades
baixou o tom das músicas.

73
Regina Cruz do Nascimento

Mania de Porta-estandarte

Toda Porta-estandarte tem sua mania, nenhuma delas


passou por este Terno sem mostrar algum tipo de mania, por
exemplo: Lílian mastigava cravo, antes de um ensaio ou saída
do Terno, ela dizia que cravo ajudava a abrir a voz e era bom
para garganta. Jaíra comia sal, para ela sal ajudava a melhorar
a voz. Sônia e Valdemarcia ficavam quietas, não falavam com
ninguém. Talvez se concentrando. Luisa não parava de falar e
tirar fotos. Cada parada era uma foto, cada música uma pose
para fotos, acho que ela se sentia uma verdadeira rainha. E eu
como boa Porta-estandarte, também tenho a minha mania.
A minha é de só ir me arrumar depois que o Terno está todo

74
Eternamente Rosa Menina

pronto, as meninas já estão ocupando o ônibus, por isso tenho


que arrumar uma legião de ajudantes, claro, atrasada como eu,
somente umas três ou quatro pessoas para ajudar. Enquanto
uma coloca a anágua, a outra já está ajudando a vestir o vestido,
outra calçando o sapato, maquiagem, colocar a coroa. Como
vê, é muita gente para arrumar uma Porta-estandarte só.

Geralmente eu conto com o apoio de Célia, Rosilda,


Marlene, Edinha, Detinha e Eliete. Porta-estandarte tem
mesmo mania. Muitas vezes tive que seguir para a Lapinha em
carro particular, pois apesar das ajudas, nem sempre dava pra
ficar pronta na hora da saída e acabava chegando depois ou
entrando no ônibus na hora que estava saindo. Mas a mania de
me arrumar em cima da hora também tem uma justificativa, eu
fico ajudando na arrumação das outras e quando me dou conta
todo mundo já está no ônibus.

Na realidade ficamos todos envolvidos com a


organização, tudo tem que está pronto na hora certa, não pode
haver falhas ou esquecimentos, Terno de Reis é um grupo
como outro qualquer com toda responsabilidade, é como uma
orquestra tudo tem que está afinado. E no dia 05 de janeiro,
apesar dos trabalhos começarem bem antes, há coisas que tem
que ser resolvidas na hora, confirmação do ônibus, horário
dos músicos, lanches, velas para as lanternas, arrumação das
meninas, distribuição dos cajados e dos uniformes e para não

75
Regina Cruz do Nascimento

deixar de variar, têm meninas


que chegam na hora de se
arrumar, por volta das 18:00
horas, informando que não
têm sapato, outra que não vai
poder ir porque tem outros
compromisso, outra que não
veio ensaiar porque não teve
tempo, mas quer uma roupa
para sair; além de tudo isso,
temos muito cuidado com
as meninas, não deixamos
que nenhuma saia sem se
alimentar, e apesar da ajuda
de todos, isso leva tempo, e eu
acabo me arrumando depois
que tudo já foi devidamente
providenciado.

76
CONFECÇÃO DOS CAJADOS

Desde criança acompanhei meu pai na organização do Terno,


durante os meses de agosto a dezembro, eu e minhas irmãs
Conceição, Efigênia, Isabel e Cristina, nossas primas Célia,
Sandra, Marlene e Rosilda ocupávamos nosso tempo livre
em bordar os boleros do Terno. A confecção destes boleros e

77
Regina Cruz do Nascimento

aventais é demorada e por isso demandava muito tempo, e nós


aproveitávamos o nosso tempo livre entre a escola e as tarefas
de casa para bordar os boleros. Passávamos horas bordando
para que no dia de reis tudo estivesse perfeito. Enquanto nós
bordávamos os boleros e aventais, minha mãe confeccionava as
roupas com tia Teté, mamãe Braulina e D. Pequena.

Além das roupas o Terno também traz um brilho muito


especial na confecção dos cajados. Márcio herdou o dom da
música, Geraldo, Francisco e João herdaram o dom das artes
plásticas. Como bons artistas são responsáveis por desenhar
e confeccionar os cajados. Eram eles que ajudavam meu pai no
trabalho de elaborar, arrumar os cajados e as lanternas. Os cajados
são feitos com madeira, compensado, papel laminado e muito
brilho, neles são penduradas quatro lanternas com velas acesas.

78
Eternamente Rosa Menina

Hoje a família Rosa Menina já tem mais pessoas


encarregadas pela organização, Bruno, Alisson, Lucas,
Marquinhos, Augusto, Samuel e Tiago, também estão atentos
e dedicados a essa tarefa. São eles quem “recrutam” os
meninos para carregar os cajados, orientam e disciplinam os
carregadores, além de cuidar para que os cajados e as lanternas
não se quebrem, ou fiquem esquecidos na rua. Cabe a Bruno e
Tiago a responsabilidade de substituir os meninos carregadores
durante o percurso para evitar que sejam sobrecarregados. Tiago
e Samuel também ajudam o pai (Geraldo) e João a confeccionar
e recuperar os cajados. Aliado ao trio de artistas ainda tem
Gabriel que é o responsável pela conservação dos cajados, é ele
quem os arruma dentro do ônibus com todo cuidado para não
danificar. Hoje Gabriel exerce a profissão de motorista e é quem
faz a condução do Terno para as festas.

79
Regina Cruz do Nascimento

Como se vê no Rosa Menina cada um tem sua função.


Ainda fazem parte da organização as cunhadas Bernadete,
esposa de Geraldo, e Isabel, esposa de Gabriel, que são
responsáveis pelos lanches. Raimunda, esposa de Márcio, faz
parte do quadro de músicos, Lindinalva, noiva de João, ajuda
na sonorização de palco e Cecília, esposa de Francisco, recém
chegada, está ajudando na criação do memorial do Rosa
Menina, além de ajudar no apoio logístico. Neste Terno de
família grande é impossível chegar e não arrumar logo uma
ocupação, impossível também é entrar para essa família e não
se apaixonar pela rosa é o que dizem minhas cunhadas. Mas
não fica só entre as cunhadas a parte da organização, quem
vai chegando, vai se enturmando, assim é com Neta, noiva de
Bruno, Cintia, esposa de Alisson, ex-componente do Terno,
atualmente ajudante, Rogério, esposo de Efigênia, Jeanderson
e Jorge já protagonizaram os três Reis, aliados a eles ainda
vem Edinha, Eliete, Mara, Josilda, Eliene, Nilsinho e Érico
que ajudam na parte de animação.

Como surgiram as lanternas

Durante a década de 1940 não havia iluminação


pública na maioria das cidades brasileiras e em Salvador
não era diferente, poucos bairros possuíam iluminação. Os
Ternos tanto da capital como do interior desfilavam nas ruas

80
Eternamente Rosa Menina

carregando tochas. Aí Silvano inovou e passou a confeccionar


pequenas lanternas feitas com madeira, arame, papel celofone
e recortava as latas de leite para fazer o encaixe das velas. A
ideia deu certa e ficou tão bonito que mesmo hoje com toda a
iluminação que tem nas ruas, o Rosa Menina continua levando
seus cajados com lanternas e velas acesas, isso dá um charme
todo especial

Levar um Terno para rua não é fácil, é muita


responsabilidade, é necessário muito amor para não desanimar
e desistir. Exige muita disciplina e organização, Isabel, Geraldo
e Francisaco são responsáveis pela direção musical e artística
do Terno. João é responsável pelo som e iluminação e Efigênia
pela parte da contabilidade, além do apoio logístico na rua.

81
Regina Cruz do Nascimento

Francisco é quem puxa o Terno junto com Geraldo e


Isabel e é quem faz a locução; e eu sou a Porta-estandarte, o
que não deixa de ser uma grande responsabilidade. D. Luiza,
minha mãe, ajuda ensaiar o Terno, costura parte das roupas

Uma das recordações que trago da minha infância é


a do meu irmão Fulô soltando fogos. Fulô era encarregado
de anunciar a chegada do Rosa nas festas, e ele assumia este
compromisso com todo entusiasmo. Ninguém se atrevesse
a mexer naqueles fogos. Fulô sempre brincalhão e gozador,
de vez em quando se metia em uma confusão, isso deixava
meu pai bastante aborrecido, mas no fim tudo terminava

82
Eternamente Rosa Menina

bem. Mesmo porque enquanto estava investido do cargo de


fogueteiro, ele era disciplinado e disciplinador, não admitia
bagunça durante o seu trabalho. Ultimamente Fulô não está
participando diretamente do Terno, contudo sempre que é
chamado, está ali pronto para ajudar. Curioso é que apesar de
ter três filhas, nenhuma delas se interessou pelo Terno, ele é o
único dos irmãos que não teve nenhum filho saindo no Terno.

Silvaninho, sempre foi mais reservado, carregou cajado


quando jovem e depois que casou ficou com a incumbência de
tomar conta da casa e ajudar distribuir o lanche. Assim que o
ônibus chegava ele carregava os cajados um a um e colocava
nos ônibus junto com Gabriel. Silvaninho era incentivador do
Terno e se orgulhava em dizer que nasceu no ano que o Terno
foi fundado, por ironia do destino ele faleceu no dia da Festa de
Reis. Saudades irmão!

Minha irmã Conceição foi jardineira e depois cigana,


era nela e em Maria José, Rosilda, Eliene e Valdira que eu me
espelhava para ser uma boa cigana.

Quando era criança as tampas das panelas viravam


pandeiro, ninguém se atrevia a brincar com os pandeiros do
Terno, então o jeito era treinar com o que tinha. Mas, muitas
vezes, Conceição e Maria José deixavam os pandeiros no
quarto e eu entrava sem ser percebida, pegava o pandeiro e
saía tocando. Ser cigana do Rosa Menina era o sonho de todas

83
Regina Cruz do Nascimento

as meninas, muitas já se inscreviam no Terno pedindo para ser


cigana e nem sempre conseguiam realizar o desejo, não basta
querer, tem que ter também aptidão para desenvolver a tarefa
das ciganas. Conceição costuma dizer que o Rosa nunca mais
vai ter ciganas como as de sua época. Suas filhas Deise, Denise
e Simone também trilharam
o caminho da mãe e deram
show tocando pandeiro. E
como boa cigana a música
preferida da minha irmã mais
velha é o Quero ver (Cigana
nº 02).

Muitas pessoas fica-


ram pelo caminho, mas con-
tinuam sendo lembradas pela
colaboração que deram ao
Terno. Uma delas é a minha
cunhada Valdete. Ela não dis-
pensava trabalho. Geralmen-
te chegava três dias antes da
festa e não parava. Lavava as
roupas, passava, pendurava
todas no cabide, devidamente
identificadas, para quando as
meninas chegassem se arru-

84
Eternamente Rosa Menina

mar e não tivessem trabalho algum. Ela sempre contava com


a ajuda de Rosilda nessas arrumações. A realização dela, no
entanto, foi quando as filhas Andrea e Aline passaram a sair
no Terno, cedo ela estava separando as roupas, anáguas, cas-
tanholas e arranjos de cabelos das meninas. Eu dizia para ela
que não tinha esta necessidade, pois havia roupas e castanholas
para todas e ela respondia: “Vai que some alguma castanhola
ou chega mais alguém de última hora, melhor mesmo é preve-
nir, imagine se eu vou deixar as meninas fora do Terno”.

85
NEM SÓ DE GLÓRIAS VIVEM
OS TERNOS DE REIS

Além das alegrias e saudades, guardo também muitas recordações


tristes na trajetória do Terno. Quantas vezes chegamos à
Lapinha ou ao Bonfim, e além de não ter uma aparelhagem de

87
Regina Cruz do Nascimento

som, palanque e iluminação ainda tinham as barracas que não


respeitavam a apresentação, não tínhamos como cantar, pois
ninguém ouviria. Quantas vezes voltamos para casa frustrados.

Mas muito pior que a frustração de não poder cantar para


o público, era ver o Terno arrumado, ensaiado, cajados prontos,
e o ônibus que não vinha. Nunca vou esquecer as vezes que vi
as lágrimas nos olhos do meu pai, quando mandava que todas as
meninas retirassem as vestimentas, porque o ônibus não vinha
mais. Eu sentia uma dor tão grande, nem era tanto por ter sido
impedida de me apresentar, mas pela tristeza e decepção que eu
via nos olhos do meu pai, essa era a dor que doía mais. Depois ele
retirava o terno branco, impecavelmente engomado por mamãe
Braulina, sentava na varanda e ficava horas olhando o vazio.

Graças a Prefeitura Municipal de Salvador, através da


Secretaria de Turismo, nos últimos anos a festa da Lapinha
teve uma pequena melhora, mas ainda não chega ao brilho dos
anos de glória dos Ternos de Reis. Atualmente os Ternos estão
participando também do Natal do Pelourinho, não deixa de ser
um caminho para a valorização, mas ainda falta muito.

O bolero da Porta-estandarte

Sempre soube que meu pai era uma pessoa iluminada,


ou melhor, é uma pessoa iluminada, pois continua sendo em

88
Eternamente Rosa Menina

outro plano. As músicas que ele compôs ao longo de sua vida,


são letras e melodias que tocam o coração da gente. Desde
pequena, quando não podia sair no Terno, eu ficava ouvindo
o ensaio da janela do meu quarto, às vezes vovó (dindinha
Rita) me lavava para assistir os ensaios, mas na maioria das
vezes ouvia mesmo era da janela do quarto. Aprendi desde
cedo as letras das músicas e acho que mesmo antes de saber
ler e escrever eu já sabia tocar pandeiro e castanhola, mas isso
não é privilégio só meu, na família Rosa Menina é assim, todas
as filhas aprendem desde cedo tocar pandeiro e castanholas e
todos os filhos aprendem a confeccionar os cajados.

Da minha janela eu ouvia os cânticos, tocava pandeiro


com uma tampa de panela e cantava. Desde pequena tinha uma
música entre tantas outras do Terno que mais me emocionava
quando ouvia, é o Bolero de Agradecimento. Acredito que
nenhuma Porta-estandarte tenha passado por este Terno sem
amar essa música, ela é uma versão de uma música antiga e
lembra na sua letra de agradecer àqueles que patrocinam as
nossas festas.

Algumas vezes, quando terminava a apresentação e a gente


descia do palanque sem cantar o bolero, me dava uma tristeza
muito grande, e uma sensação de que ficou faltando alguma coisa,
faltou o principal. Mas eu entendia o meu pai, muitas vezes o
descaso dos nossos governantes com a cultura do nosso estado era

89
Regina Cruz do Nascimento

tão grande, que não valia à pena agradecer. Em várias ocasiões não
tinha transporte, em outras não tinha som, palanque, iluminação.
Quantas vezes eu vi a decepção estampada no rosto dos meus pais,
porque trabalhavam durante todo o ano, com toda a dedicação,
amor e determinação de fazer sempre o melhor e quando chegava
na Lapinha, principalmente na Lapinha, não tinha nada, som,
palanque, iluminação. O que se via eram várias barracas com
seus potentes sons em volume altíssimo. A falta de respeito com
os Ternos era tão grande que, mesmo as pessoas mais próximas
da igreja não conseguiam ouvir e muitas se retiravam do local
revoltadas. Muitas vezes nós paramos na porta da igreja da
Lapinha, eu olhava o rosto do meu pai e via aquela expressão de
tristeza e decepção, ele então mandava os músicos tocar o cântico
dos Reis e em seguida a Marcha nº 04 e nós íamos embora, sem
nos apresentar, as pessoas ficavam protestando, dizendo que
tinham ido para ver o Rosa Menina, que era uma falta de respeito
com o público, e mesmo sob protestos nós íamos embora.

Não era só uma apresentação que ficou frustrada,


eram meses de trabalho, ensaios, dedicação e ansiedade que
eram jogados no lixo em poucos minutos e nessas horas a
gente não tinha mesmo a quem agradecer, somente a Deus,
e retornávamos para casa. Muita gente não entendia por
que meu pai agia assim, mas nós que somos o Rosa Menina,
sabíamos muito bem o que se passava naquele coração, pois
nós somos um só coração, pai, mãe, filhos e netos e um

90
Eternamente Rosa Menina

único objetivo mostrar ao público o fruto do nosso trabalho,


o resultado da nossa dedicação, da nossa união e nesses dias
não tínhamos mesmo que cantar o Bolero de Agradecimento,
não tínhamos a quem a agradecer. Aliás, o público, este sim
era quem merecia nosso respeito e os nossos agradecimentos
por estar ali, se esforçando para ouvir um refrão, uma música,
eles mereciam nossos agradecimentos pelo respeito e o carinho
que nos dedicavam, e é para esses admiradores declarados ou
anônimos que nós cantávamos assim:

Bolero de Agradecimento

Vamos todas pastorinhas


Nesta noite de natal

91
Regina Cruz do Nascimento

Vamos ver o bom Jesus


Que nasceu pra nos salvar
Hoje é noite de Reis,
Grande noite de alegria,
Vamos louvar ao menino,
Vamos louvar ao menino
Filho da Virgem Maria.

Viemos hoje com muito prazer


Cantar louvores a José e Maria
Cumprindo assim com o nosso dever
Cantemos todas neste grande dia
Com o estandarte da Rosa Menina
Que simboliza esta nossa união
Peço a Jesus a graça divina
E a benção para nossa salvação
Agradecemos em nome da Rosa
Aos Diretores dos festejos deste ano
Peço a Maria, a mãe amorosa,
E ao nosso Bom Jesus, o soberano
Que para todos desta cidade
Sempre derrame sua benção e sua luz
Para que tenham a felicidade
E as graças do seu filho Bom Jesus.

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DOR, SUPERAÇÃO E CORAGEM

No ano de 1996 meu pai foi acometido por um grave problema


de saúde, devido a má circulação ele teve que amputar uma das
pernas, foi um momento de muita dor para todos os familiares.
Quando recebemos a informação do médico da necessidade
de amputação, entramos em
pânico, como dar uma notí-
cia desta a uma pessoa, o que
dizer a alguém que vai entrar
para uma sala de cirurgia e
sair de lá sem um membro?
Principalmente quando esse
alguém é o nosso pai.

Entramos no quarto,
eu, meu cunhado Inácio e
minha mãe, a cada palavra
nossa eu via desenhada a
tristeza e o sofrimento no
rosto daquele idoso de 82
anos. Inácio lhe falava das

93
Regina Cruz do Nascimento

novas tecnologias para quem tem um membro amputado,


de como hoje em dia existem próteses que substituem
esse membro. Eu tentava lhe confortar dizendo que nós
estávamos do seu lado, mas a dor continuava estampada
na sua face. Foi aí então que surgiu a iluminação, o Mestre
Jesus que tantas vezes havia iluminado o Mestre Silvano,
agora mandava um anjo para falar em meu lugar; foi então
que comecei a lhe falar do Terno, de como era importante
que ele se recuperasse logo para voltar aos ensaios, falei que
com as novas tecnologias ele não iria ficar impossibilitado
de continuar conduzindo seu Terno de Reis à Lapinha. Nesse
momento vi que seus olhos começavam a brilhar. Inácio
também notou e enfatizou as minhas palavras, falando
de um amigo que perdeu a perna em um acidente e que
continuava vivendo normalmente, disse que esse rapaz
andava com sua prótese... e até o nome do cantor Roberto
Carlos surgiu na conversa. Eu via que a possibilidade de
retornar as atividades com seu Terno davam novo ânimo
ao meu pai, quando nos despedimos ele apenas falou: “Seja
como Deus quiser”. A sua face já apresentava um pouco de
serenidade, a dor continuava, mas a expressão era de fé.

No dia seguinte, após a cirurgia veio a confirmação que


a perna teve mesmo que ser amputada, todos nós desabamos,
aquela confiança que eu tentei passar para meu pai, me
abandonou, entrei em desespero junto com meus irmãos, uma

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Eternamente Rosa Menina

dor que só foi superada com a dor da sua partida para junto do
Mestre Jesus.

À tarde voltei ao hospital junto com minha cunhada


Detinha e ao invés de encontrar uma pessoa infeliz,
encontramos um homem disposto a recomeçar, a dor deu
lugar a esperança e foi ele mesmo quem nos confortou e disse
que não seria necessário a gente passar a noite no hospital, pois
estava se sentindo melhor e não via a hora de voltar para casa
para retomar os ensaios do Terno. Mais aliviada voltei para
casa e constatei que não fui eu quem falou todas aquelas coisas
para o meu pai, eu não teria capacidade para tanto, acredito
que foi um anjo do senhor quem proferiu as palavras por mim,
pois assim que deixei o quarto e meu pai entregue aos médicos
desabei num pranto de dor. Mas a recompensa veio depois, no
dia 05 de janeiro lá estava ele, todo de branco, apoiado em duas
muletas, conduzindo feliz o seu Terno à Lapinha, apenas três
meses depois da cirurgia.

Como de costume o Terno foi bastante aplaudido, mas


desta vez os aplausos não eram só para o Terno, era para aquele
senhor determinado, corajoso, que nunca se abateu com as
adversidades da vida e isso tudo que sempre fez de Silvano um
grande vencedor.

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DEDICAÇÃO E AMOR

O Terno Rosa Menina, para o meu pai, sempre significou


muito mais que diversão. Ele tratava o Terno com devoção
e quando se aposentou passou a ser também uma forma de
terapia. Acostumado ao trabalho desde menino ele certamente

97
Regina Cruz do Nascimento

sentiria a falta deste, e talvez até deprimisse, como ocorre com


várias pessoas. Para o meu pai, no entanto, a aposentadoria lhe
deu mais tempo para se dedicar ao seu Terno. Ele que sempre
aproveitava os horários disponíveis para confeccionar os
cajados e os instrumentos, passou a ter mais disponibilidade
para isso.

Meu pai sempre foi muito exigente e perfeccionista, ele


levava dias para aprontar um cajado, mesmo contando com a
ajuda dos filhos e por mais que os meninos se esforçassem, o
detalhe final tinha que ser dele, por isso gastava mais tempo
nessa tarefa.

Além de confeccionar os cajados e as lanternas, era


ele também que fabricava os instrumentos usados no Terno.
Tinha muita facilidade em lidar com as artes plásticas. Ele
cortava espelho com a mesma facilidade que cortava papel
laminado e o fato de ser marceneiro também contribuía para
trabalhar com madeiras, por isso os cajados do Rosa Menina
eram confeccionados com estes materiais: madeira, vidro,
papel, areia prateada e cola.

Meu pai não demorava mais de dois anos com o mesmo


cajado, todo ano ele renovava as alegorias, alguns ele apenas
reformava, porque eram tradicionais, como o que levava o
nome do Terno e o que levava a família de Nazaré. Os outros
ele modificava ou vendia para outros Ternos. Era ele quem

98
Eternamente Rosa Menina

comprava o material dos cajados, analisava os desenhos feitos


pelos filhos e os transformavam em alegorias. Mas não era
só dos cajados que ele se encarregava, os pandeiros, ganzás
e castanholas também eram feitos por ele. Na realidade, ele
passava o ano inteiro trabalhando pelo Terno, até mesmo
os instrumentos de percussão era ele quem fabricava, como
também as cestas das floristas, nossa casa sempre foi uma
verdadeira oficina. Os filhos ajudavam e aprendiam a arte.

As roupas do Terno eram de responsabilidade da minha


mãe, era ela quem escolhia os modelos e costurava, mas não
fazia isto sozinha, meu pai ajudava a escolher os tecidos, as
estampas e se preocupava com cada detalhe.

99
Regina Cruz do Nascimento

As roupas do Rosa Menina e da Porta-estandarte tinham


que ter muito brilho. As ciganas eram bastante irreverentes e
alegres, então os tecidos tinham que ter estampas bem colori-
das. As espanholas mais recatadas e charmosas necessitavam
de tecidos com estampas mais leves, e as floristas com seus tra-
jes de festa precisavam de tecidos lisos, com pouco brilho. As
castanholas eram feitas com
madeira de jacarandá; para
os pandeiros eles compravam
as rodas de madeira, o couro
e as rodinhas ele mesmo fazia
com pedaços de latas de alu-
mínio, mesmo sem saber, ele
já colaborava com o meio am-
biente reciclando o material
utilizado.

Enquanto os filhos
ajudavam nessa arte, as filhas
eram encarregadas de enfei-
tar os pandeiros, castanholas,
ganzás, bordar e fazer colares
e pulseiras.

Nas cestas de flores ele


prendia uma a uma as flores,

100
Eternamente Rosa Menina

com todo cuidado para que a distribuição fosse igual para


todas e sempre deixava duas ou três cestas prontas, para o caso
de aparecer alguma florista de última hora.

Falando nisso, meu pai era muito rigoroso, não tinha a


tolerância que nós temos hoje. Ninguém aparecesse de última
hora para sair que ele não deixava, a não em casos de raras
exceções. Assim ele já tinha noção de quantas moças ele ia
colocar no Terno, quando encerrava a inscrição nem fazendo
promessas para santos entrava no Terno.

Outra coisa que ele não admitia era faltar aos ensaios.
Ele não perdoava, nem mesmo as filhas, meu pai sempre
foi muito radical, talvez por isso fosse tão respeitado. As
meninas que saíam no Terno tinham compromisso, porque
elas sabiam que com Silvano não tinha mais ou menos, era
sim ou não. Assim, elas iam a todos os ensaios, procurando
justificar sempre as faltas para não ser cortadas, e como
ninguém queria ficar de fora do Terno, todas se tornavam
disciplinadas.

As únicas exceções eram as meninas que moravam


longe, dependiam de transporte coletivo e trabalhavam ou
estudavam à noite, essas ele perdoava. Meu pai podia até
ser radical e exigente, mas era acima de tudo muito humano,
ele ajudava muito as meninas do Terno, pagava a passagem
das que vinham de outros bairros, comprava sapatos para

101
Regina Cruz do Nascimento

as que não tinham condições, assumia as despesas das mais


carentes, mesmo com toda dificuldade, ele nunca negou ajuda
a ninguém que o procurasse. As meninas que não podiam vir
durante a semana, vinham ao sábado ou domingo, porém no
ensaio geral todas tinham que estar presentes e aí não tinha
desculpas.

Os ensaios começavam religiosamente às 20:00 e


terminava por volta das 22:00. Havia disciplina até mesmo na
organização dos cânticos, começava com o cântico dos Reis,
seguido da Chula, depois o Hino de Adoração, Noite de Natal,
Cântico da Rosa, Jardineiro, Espanholas, Bolero das Ciganas,
Valsa da Porta-estandarte, Cigana nº 02 (quero ver), Samba das
Baianas, Rumba e o Bolero de Agradecimento. Depois vinham
as marchas numeradas, nº 01 (Eu vi no céu), nº 02 (Que alegria
ou Vamos companheiras), nº 03 (Vamos a Belém Pastoras)
e por último a marcha nº 04 (reunidas). Depois as meninas
recitavam os versos e aí encerrava com o Hino do Terno e o
Hino do Senhor do Bonfim.

Acharam que isso era suficiente? Para o Mestre não.


Quando começavam os ensaios as componentes se colocavam
em fila indiana obedecendo as posições. Primeiro as baianas,
seguidas das espanholas, camponesas, ciganas e por último
as floristas. No meio ficavam: a Estrela Guia, os Três Reis,
Rosa Menina, o Jardineiro e a Porta-estandarte com seus dois

102
Eternamente Rosa Menina

guardas. Depois que terminava o cântico do guia, ele dava dois


apitos e a arrumação era modificada, de um lado as baianas,
espanholas e ciganas e do outro lado as camponesas e as
floristas e ficavam assim até o bolero de agradecimento, aí ele
dava mais dois apitos e todas retornavam a posição de origem
para cantar as marchas e os hinos.

Ele fazia esse tipo de organização para que as meninas


entendessem que a arrumação da rua não era a mesma do
palanque e que elas precisavam aprender a dançar com o Terno
em movimento, porque durante o desfile na rua precisavam
andar, dançar e tocar muito.

Os ensaios eram realizados três vezes por semana, terças,


quintas e sábados e às vezes no domingo à tarde, geralmente
os ensaios de domingo eram para as que estavam com mais
dificuldades.

Quando chegava o mês de dezembro, os músicos eram


convocados para os ensaios das quintas-feiras. Meu pai sempre
falava que os músicos só precisavam se fazer presentes quando
o Terno já estivesse pronto.

Quem conheceu Silvano e teve a oportunidade de assistir


pelo menos um ensaio do Terno pode recordar de uma frase
que marcou os ensaios do Terno. Quando as meninas estavam
desanimadas, e sem muita entoação, ele gritava “abre a boca diabo”;

103
Regina Cruz do Nascimento

essa frase se tornou tão constante que passou a ser folclórica, nós
componentes do Terno já cantávamos baixo ou ficávamos caladas
só para ouvir meu gritar e aí todo mundo caía na risada. Quando
se fala do Terno com as antigas componentes e perguntam o que
mais marcou sua saída no Terno, todas riem e dizem que era
quando seu Silvano gritava: “abre a boca diabo”.

E essa era a nossa rotina nos meses de setembro a janeiro,


ensaiar, bordar, enfeitar pandeiros e castanholas e ainda tinha
que sobrar tempo para as tarefas domésticas.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção era a


dedicação do meu pai e a consciência que ele tinha com as
dificuldades que enfrentávamos com o Terno. Quando a
gente bordava os boleros e aventais, deixávamos cair muitas
lantejoulas e vidrilhos no chão. À noite quando a gente
encerrava o bordado, ele pegava uma vassoura varria tudo e
catava o que a gente deixava cair para evitar os desperdícios.

No dia 05 de janeiro, por volta das 17:00 ele já estava


se arrumando, vestia o traje branco engomado por mamãe
Braulina, detalhe, só ela engomava o traje dele, e ficava
esperando as meninas chegar. Minha mãe, nós, as filhas e Célia
ajudávamos a arrumar as meninas e quando todas estavam
prontas ele descia e saía distribuindo as cestas, os pandeiros e
as castanholas, devidamente arrumadas.

104
Eternamente Rosa Menina

As ciganas usavam sandálias pretas, baianas e floristas


sandálias brancas, espanholas e guardas, sapatos pretos, Porta-
estandarte e Rosa Menina sapatos brancos. Depois de um tempo,
nós começamos a inovar e passamos a usar sapatos dourados
e prateados para a Porta-estandarte e a Rosa Menina. Meu
pai gostou da inovação, aliás, ele sempre aceitava as opiniões
dos filhos, era uma pessoa com a cabeça aberta a novas ideias,
contanto que não fugisse à tradição.

Hoje, entendo perfeitamente porque meu pai era tão


disciplinador e exigente, ele jamais admitia que qualquer
componente brigasse entre si ou desrespeitasse minha mãe
ou alguma das diretoras, era cortada do Terno na hora e não
tinha acordo, isso fazia com que as pessoas o respeitassem e
admirassem.

Jamais uma menina sairia no Terno usando sandálias


de borracha, mal vestida, sem acessórios, ele era detalhista e
prestava a atenção em tudo.

É por tudo isso que o Rosa Menina chegou onde está, o


reconhecimento do público e da imprensa não foi por algo que
começou ontem. O Rosa Menina foi construído ao longo de 68
anos e se hoje somos mais permissíveis que o meu velho, é por
causa das dificuldades que temos de enfrentar cada vez mais
para colocar o Terno na rua.

105
Regina Cruz do Nascimento

Hoje, por tudo que já foi exposto, procuramos ser


mais tolerantes com as meninas, mas não abrimos mão da
disciplina, esse foi o legado deixado por nosso pai, diversão
com responsabilidade e isso tem funcionado muito bem.

Temos consciência que devemos muito aprender


e melhorar, não atingiremos a perfeição, mas estamos
caminhando para que o Terno Rosa Menina seja sempre
motivo de orgulho de todos que amam e admiram o Rosa que
sempre será Menina.

106
E O QUE É TERNO DE REIS?

A tradição do Terno de Reis foi trazida para o Brasil na época da


colonização. Relembra a visita que os três Reis Magos fizeram
a Família Sagrada, quando do nascimento de Jesus. Conta

107
Regina Cruz do Nascimento

a história que os Reis Magos Baltazar, Melchior e Gaspar se


deslocaram a Belém, guiados por uma estrela, e encontraram
Jesus em uma manjedoura. Eles levaram de presente para o
menino Jesus ouro, incenso e mirra. O ouro significa a realeza,
o incenso a pureza e a mirra a imortalidade. Foi assim que
surgiu a tradição de se dar presentes no Natal.

Em alguns lugares a Festa de Reis tem inicio no dia 25


de dezembro, quando os grupos começam a desfilar pelas ruas,
visitando as casas, relembrando a caminhada dos Reis Magos e
só termina no dia 06 de janeiro. Em Salvador, no entanto a festa
é realizada no dia 05 de janeiro, na frente da Igreja da Lapinha.

Em alguns lugares do interior do Brasil o Terno de


Reis é composto por cerca de 12 homens, que saem pelas ruas
vestindo roupas bastante coloridas e tocando instrumentos de
corda e percussão, visitando as famílias e de casa em casa cantam
reverenciando os donos da casa e a Família Sagrada. Depois de
serem servidos com comidas e bebidas se despedem cantando
uma música de retirada. Muitas vezes, o encerramento da festa no
dia 06 de janeiro é feito com a encenação do nascimento de Jesus.

A história conta que a tradição de Ternos de Reis foi


trazida para o Brasil pelos jesuítas com o objetivo de catequizar
os índios e os negros escravizados, nos meados do século
XVI, a tradição de Reis era comemorada em toda a Península

108
Eternamente Rosa Menina

Ibérica. As pessoas por tradição davam e recebiam presentes


como forma de relembrar a visita dos Magos.

A Festa de Reis cresceu e se desenvolveu tanto que


em alguns países tornou-se tão importante que somente
era superada pelo Natal, porém, há alguns anos a Festa de
Reis vem perdendo espaço na cultura baiana. No interior do
Espírito Santo e na cidade de Jequié/BA acontece anualmente
o encontro nacional de Ternos de Reis e este encontro reúne
cerca de noventa grupos de várias regiões do Brasil.

Em Salvador, a Festa de Reis já não é tão valorizada, ela


acontece no Largo da Lapinha, no dia 05 de janeiro. Infelizmente
os Ternos de Reis entram em uma disputa desleal com os sons
das barracas e os grupos de pagode que se estendem por toda a
área delimitada para os Ternos.

Ao fundar o Rosa Menina, meu pai se aprofundou


muito no assunto, durante os ensaios ele dava verdadeiras aulas
sobre a cultura de Reis, com todos esses detalhes, explicava
com paciência o por quê de cada figura do Terno, a estrela
que guiou os Magos, o jardineiro que é para cuidar da rosa,
as floristas que representam os pastores, as espanholas como
forma de homenagear a Europa e as ciganas como homenagem
ao Egito. Segundo meu pai, as ciganas dão colorido e alegria
ao Terno. Quando terminava a explicação ele perguntava se
todas haviam entendido, para que não ficassem mudas quando

109
Regina Cruz do Nascimento

fossem inquiridas por alguém e principalmente por um


repórter.

Não sei como foi que essas informações chegaram até ele
na década de 40, visto que nem mesmo escola ele frequentou,
mais sua sabedoria e curiosidade sempre foram determinantes
para conquistar o que foi negado pelos livros. Ao falar de Terno de
Reis meu pai demonstrava saber exatamente o que estava falando
e por que estava fazendo, não era uma coisa aleatória tipo fazer
porque os outros fazem ou simplesmente por achar bonito. Ele era
um profundo conhecedor da cultura de Reis, desde a sua origem
ao seu objetivo principal. Por isso compôs músicas que falam em
adoração ao menino Jesus e sempre o trata como “salvador”.

Quando passava essas informações para os filhos ele


pretendia que cada um, se desejasse seguir com a tradição,
não fosse mais um ignorante fazendo Terno de Reis, mas que
tivesse consciência da responsabilidade com o que estava se
propondo a fazer.

Isso foi determinante para construção desta obra, trazer


a todos o aprendizado que adquiri ao longo da minha vida
com meu Mestre. Informar a todos que leem este livro, que
muito mais que uma festa do folclore brasileiro, ou um grupo
de moças e rapazes dançando e tocando, o Terno de Reis tem
sentido religioso, está diretamente ligado ao nascimento de
Jesus Cristo. A louvação é feita através da música e das danças.

110
Eternamente Rosa Menina

O colorido e os brilhos de suas vestimentas representam alegria


pela vinda do nosso salvador.

As músicas do Terno seguem os ritmos da valsa, marcha


rancho e bolero e abrimos exceções para o samba e a rumba,
isso é determinante para que muita gente diga que Terno de
Reis é coisa de “velho”, talvez porque no Terno, pelo menos
no Rosa Menina não tenha espaço para outros ritmos, pois
a inclusão deles nos Ternos quebraria a tradição, o Terno de
Reis perderia sua identidade. Pensando assim é que no Rosa
Menina não foi feita nenhuma alteração do que nos foi passado
pelo Mestre Silvano. Continuamos mantendo tudo conforme
nos foi ensinado pelo nosso amado pai.

111
Regina Cruz do Nascimento

O que nós procuramos é aperfeiçoar o que ele deixou,


como por exemplo, as lanternas que foram modernizadas
por Geraldo e os tons das músicas que foram reduzidos por
Márcio. Como bom seguidor de Silvano e preocupado em
sempre melhorar, Geraldo confeccionou novas lanternas com
tampas. Durante anos ele observou que durante o trajeto
muitas velas são apagadas pelo vento, e por muito tempo foi
assim, acendia um cajado o outro apagava, então meu irmão
criou recentemente lanternas com tampas que impedem o
vento de apagar as velas.

A sabedoria de meu pai foi nas áreas da música, da


cultura e das artes plásticas e devidamente herdada pelos filhos.

112
NOSSO TERNO

Desde a sua fundação que o Terno Rosa Menina sempre teve


como referencial a organização e a qualidade, o Mestre Silvano
sempre dedicou muita atenção às suas criações, cada detalhe,
cada pormenor era visto por ele. Muitas coisas que passavam
despercebidos aos nossos olhos ele enxergava longe, tinha olhos
clínicos. Ao fundar o Rosa Menina, ele não estava fundando só

113
Regina Cruz do Nascimento

mais um Terno de Reis, era o reflexo da sua vida, era um Terno que
vinha para ser exemplo. Cada alegoria do Terno tem uma história,
cada ala tem seu significado, assim como as componentes. Existe
no Terno uma música para cada grupo, como foi apresentar às
páginas anteriores, as ciganas têm sua própria música e nessa
hora somente elas dançam e apresentam sua coreografia, assim
como as espanholas, o Rosa Menina, o guia, o jardineiro e a
porta- estandarte, cada uma tem a sua hora de dançar e cantar e
nesse espaço quero apresentar para você, caro leitor, o tradicional
Terno Rosa Menina. Começando pela ornamentação.

Os carregadores de cajado

O Terno Rosa Menina tem aproximadamente 60


componentes entre dançarinas, carregadores de cajado e
músicos.

114
Eternamente Rosa Menina

Os carregadores de cajado, chamados carinhosamente de


“Os meninos do cajado”, são jovens com idade entre 14 e 25 anos
que têm como função carregar as alegorias acompanhando junto
as meninas que dançam e cantam. Eles seguem uma orientação e
são altamente disciplinados, sabem onde cada cajado deve ficar
e a hora exata de andar e parar; sabem que deles dependem
o brilho externo do Terno, são meninos dedicados, não são
remunerados para esta função, fazem isso com total dedicação.

Os músicos

A orquestra do Rosa Menina é formada por 13 músicos,


sendo 06 de instrumento de sopro, 2 de percussão, 2 de corda,
1 teclado e 1 pandeiro.

115
Regina Cruz do Nascimento

Quase todos os músicos estão no Terno há muitos


anos, e conhecem todas as músicas do Rosa. Atualmente quem
coordena a orquestra é Carlinhos e quem é o responsável
pelos cânticos é Márcio. Há anos atrás, os ensaios eram feitos
com a presença da orquestra, mas atualmente, por causa da
dificuldade financeira, os ensaios são realizados apenas com o
teclado e os instrumentos de percussão.

As dançarinas

O Terno Rosa Menina tem aproximadamente 45


dançarinas, divididas em alas, cada uma com uma função
específica, são ciganas de pandeiro e ganzá; os reis, baianas;

116
Eternamente Rosa Menina

espanholas; a Porta-estandarte; a Rosa Menina, o jardineiro;


a Estrela Guia; os guardas de honra da Porta-estandarte; as
camponesas e as floristas, todas são chamadas de Pastoras; a
Rosa Menina, as Espanholas e o Jardineiro são figuras exclusivas
do Terno Rosa Menina. As ciganas e espanholas, além de
cantar e dançar tocam instrumentos, pandeiros, castanholas e
ganzás; as floristas e camponesas carregam cestas de flores. Os
componentes do Terno são dedicados, responsáveis e saem no
Terno por amor, porque não recebem nenhuma remuneração
para isso. Estão sempre dispostos a atender um chamado do
Terno e fazem o melhor para dar ao Rosa Menina o brilho que
ele sempre teve. Palmas para todos! Eles merecem!

117
Regina Cruz do Nascimento

Os cânticos

O Terno Rosa Menina tem muitos cânticos alguns ainda


são tocados e outros meu pai deixou de cantar porque achava
desnecessário ensaiar muitas músicas, pois o tempo de apresentação
é pouco. Antigamente tinham apresentações na Lapinha, Bonfim,
Praça da Sé, Rio Vermelho, Itapoã e Pituba, então meu pai ensaiava
mais músicas para variar as apresentações, mesmo porque muitas
vezes eram duas apresentações na mesma noite.

Depois que as outras apresentações foram extintas e só


ficou a Lapinha e Bonfim, ele reduziu o número de músicas e de
vez em quando substituía alguma. Também deixou de compor.
A última música que o meu pai compôs foi o Bolero das Ciganas,
esta música é uma versão, não sei dizer o nome da música original
e nem seu compositor, por isso não registramos algumas dessas
músicas. A maioria delas ele compôs há muitos anos atrás desde
a fundação e outras ele compôs no decorrer dos anos. Todas são
muito bonitas. É uma pena não podermos tocar todas as nossas
músicas nas nossas apresentações, algumas delas, nem mesmo
os componentes mais novos do Terno conhecem.

Cântico do Jardineiro

Vem brincar meu jardineiro


no jardim de belas flores

118
Eternamente Rosa Menina

colher cravos e rosas


pra ofertar a esses pastores.

Eu sou pequeno jardineiro


que a Jesus venho adorar
trazendo a Rosa Menina
para o povo apreciar (repete).

Boa noite meus senhores


eu já vou me retirar
o Rosa Menina saudoso
para o ano voltará.

Valsa da Porta-estandarte
vamos pastorinhas, vamos adorar
a Deus Menino que veio nos salvar.

Vamos adorar com amor e harmonia


bem perto do presépio aonde nasceu o messias
é noite de natal e noite de primor
vamos louvar a Maria, a virgem mãe
do Salvador.

Vamos pastorinhas é noite de natal


o Rosa Menina saudoso para o ano voltará
cantemos com alegria e amor no coração
Jesus Filho de Maria nos dê a sua benção.

119
Regina Cruz do Nascimento

Bolero da Porta-estandarte

Salve nesta noite tão bela que tanto prazer nos dá


Salve aquela linda estrela que longe se vê brilhar
Ela guia os pastores e quem quiser adorará Jesus
O filho de Maria que nasceu pra nos salvar
Eu já vou me retirando, não posso mais demorar
Jesus o Salvador do mundo queira nos abençoar.

Samba do Jardineiro

Entramos nesse jardim,


nós viemos passear
trazendo o jardineiro
para a rosinha vir molhar.

Eu sou o jardineiro
que ando molhando as flores
colhendo cravos e rosas
para ofertar a esses pastores.

Eu sou o jardineiro
desse jardim de ciúmes
zelo da Rosa Menina
por gostar do seu perfume.

120
Eternamente Rosa Menina

Marcha

Apareceu no oriente
uma estrela a brilhar
uma luz tão resplandente
que fazia encantar.

Vamos pastoras ligeirinho


a Lapinha de Belém
adorar a Deus Menino
que nasceu pra o nosso bem (repete).

Os versos

Os versos do Terno são poesias criadas pelo Mestre


Silvano, aliás, não conheço outro Terno que tenha versos de
agradecimento. Essas poesias são recitadas pela menina que
representa a Rosa Menina, jardineiro e ciganas.

Verso da Rosa Menina

Queridos pastores,
Nesta noite de prazer e de alegria sem fim,

Desejo agradecer cumprindo com o meu dever


O que fizeram por mim,
Escolhendo a Rosa Menina para ser o vosso amor,

121
Regina Cruz do Nascimento

Entre flores elegantes, girassóis e dálias gigantes


Que tem tanto valor,
De luzes me vejo cercada,
Qual leoa enjaulada não é mal viver assim,
Quando eu voltar da Lapinha
Com as minhas camaradinhas,
Tornarei ao meu jardim.

Verso do Jardineiro

Senhores,
É com imenso prazer
Que entro neste recinto,
Não sei dizer o que sinto,
Tristeza sei que não é,
Penso ser alegria
Em ouvir tantas melodias
Em louvores a Maria
Esposa de São José,
Não entendo patavinas,
Sou um pobre jardineiro,
Molhando em cada canteiro
As flores mais perfumadas,
Aprecio a Rosa Menina,
As sempre vivas manhosas,

122
Eternamente Rosa Menina

As angélicas tão cheirosas


E as cravinas matizadas.
Agora caros senhores,
Já cantamos os louvores
A Jesus o rei do judeu,
Eu peço a Ele mesmo
Que pela sua divindade
Que nos dê felicidade,
Até para o ano. Adeus.

Versos das Ciganas:

1 - A mim chamam de cigana,


Vim também cantar Hosana
Ao menino que nasceu,
Eu gosto muito é de dinheiro,
Por isso toco pandeiro,
Este é o interesse meu.

2 - Eu também sou verdadeira,


Conto a sua vida inteira,
Presente, futuro e passado,
Nas linhas das suas mãos,
Digo mesmo a verdade,
Da sorte a infelicidade
Tudo com perfeição.

123
Regina Cruz do Nascimento

3 - Estamos agradecidas
Por este povo querido,
Nos receber com amor,
Levamos muitas saudades,
Pedimos felicidades
A Jesus o Salvador.

124
A TRADIÇÃO NÃO PODE ACABAR

Nas décadas de 1950, 1960 e 1970 os Ternos de Reis viveram


seu momento de glória. A festa da Lapinha era uma das festas
mais tradicionais e frequentadas pela sociedade baiana, porém,
a partir dos anos 80 quando deixou de fazer parte oficialmente
do calendário de Festas Populares do estado da Bahia, a festa
de Reis sofreu um declínio muito grande. Outro fator que
influenciou esse declínio foi a morte de vários fundadores e
organizadores de Ternos, os descendentes não se interessaram
em dar continuidade à tradição dos seus antecessores, pode-
se dizer que não foi por falta de boa vontade, mas sim, por
vivenciar as dificuldades que os Ternos enfrentavam e
continuam enfrentando para manter-se.

No entanto, o que mais motivou essa decadência foi a


falta de incentivo dos órgãos públicos. Os Ternos de Reis não
possuem verbas próprias. Hoje a União dos Ternos de Reis só
conta com sete Ternos. Estes continuam desfilando na festa da
Lapinha, junto com o Terno da Eterna Juventude e o Terno das
Flores de Matarandiba.

125
Regina Cruz do Nascimento

O Terno Rosa Menina é como um time de futebol, é uma


paixão, que só quem teve a oportunidade de um dia participar
pode entender o que estou falando. O dia 05 de janeiro nunca
é um dia normal lá em casa, é um corre-corre, um entra e sai
de gente, de repórteres de televisão, são os últimos preparativos
para a apresentação.

Seria muito bom se a cultura de Terno de Reis, em


nosso Estado, fosse mais valorizada. Temos consciência
que não é um pequeno grupo de lutadores que vai sustentar
essa cultura por muito tempo, é necessário que se abra uma
janela para que novos Ternos surjam, para que os Ternos do
interior tenham condições de vir desfilar na Lapinha. A Festa
de Reis é uma festa bonita, mais precisa de sustentação. Hoje
os poucos Ternos são dirigidos por gente jovem que não quer
deixar a tradição morrer, pessoas que têm novos pensamentos
e precisam do apoio de patrocinadores. Salvador é a capital de
todos os ritmos, dos tambores do candomblé, dos afros, do
reggae, do axé e dos trios, é a terra da capoeira, do maculelê,
das quadrilhas juninas, do samba de roda e por que não dos
Ternos de Reis? Esta Cidade mágica tem lugar para tudo e para
todos, precisamos de ajuda, estamos gritando por socorro, não
nos basta receber uma pequena ajuda financeira da Prefeitura
municipal para manter uma tradição, é necessário investir em
divulgação, patrocínio, é preciso que a Festa da Lapinha seja
dos Ternos, assim como o carnaval é dos blocos e dos trios.

126
Eternamente Rosa Menina

Temos muito boa vontade de continuar levando adiante essa


tradição que atualmente está passando de pai para filhos,
vamos incentivar os Ternos que ainda desfilam a fazer melhor,
vamos dar oportunidade a outras pessoas que queiram fazer
seus Ternos; vamos olhar para o interior, mas isso só é possível
se os governantes investirem.

Infelizmente a cultura de Reis há muito tempo foi


colada em segundo, aliás, em último plano nas intenções
dos governantes e das pessoas que cuidam do turismo de
Salvador. Terno de Reis não dá retorno. Como se pode ter
retorno sem investimento? Os poucos Ternos que ainda
restam em Salvador vivem com a cuia na mão, pedindo pelo
amor de Deus ao governo do Estado e à Prefeitura que não
deixem a tradição morrer.

Há muitos anos que nós estamos fazendo Terno na base


do amor e dedicação, porém, amor e dedicação não pagam
contas. Músicos não tocam de graça, costureiras não costuram
sem pagamento. Os Ternos necessitam ser incluídos nos
diversos projetos culturais do Estado. Muitas pessoas nunca
ouviram falar de Ternos de Reis e se assustam quando falamos
que existe em Salvador a Festa de Reis com desfiles de Ternos. É
necessário uma integração entre o poder público e a iniciativa
privada, porque só assim conseguiremos retomar o brilho das
Festas da Lapinha e do Bonfim.

127
Regina Cruz do Nascimento

Não é com dois nem cinco mil reais que se arruma um


Terno. Um Terno custa caro e a ajuda que recebemos é mínima.
Há muitos anos atrás os Ternos de Reis eram feitos por pessoas
pouco esclarecidas e por não terem conhecimento dos seus
direitos se sentiam agradecidas pela oportunidade de poder
estar ainda ali fazendo seu desfile. E essa falta de informação é
que faz com que a maioria ainda se sinta agradecida por receber
uma ajuda mínima que não cobre nem mesmo os gastos com
conta de luz.

É por isso que Ternos de Reis com tradição como o Rosa


Menina sofrem pela falta de apoio, porque muitos acham que
verbas para pagar os músicos e o lanche são suficientes para
manter a tradição. Mais não é isso que nós queremos. Muito
mais do que dinheiro, queremos valorização e reconhecimento,
pois se houver esses dois itens, consequentemente a verba
também virá. Não é possível que passemos o ano inteiro
preocupados com o que podemos “arranjar” para a próxima
apresentação. Geraldo e João se esmeram na recuperação dos
cajados, pois não temos condições de fazer diferente. A coisa
só não é pior porque no Rosa Menina existe ajuda mútua da
família, os parentes e os amigos vêm de boa vontade ajudar,
pois se tivéssemos que pagar tudo não teríamos condições de
confeccionar metade das roupas.

128
Eternamente Rosa Menina

Lembro-me muito bem das vezes que meu pai chamava


um de seus filhos na rua e pedia que comprassem um
refrigerante ou uma água, pois o que recebia para os gastos
com o Terno, não lhe dava o direito de gastar consigo, ainda
mesmo que fosse para uma água ou refrigerante. Na maioria
das vezes ele colocava do pouco salário que ganhava como
servidor público municipal para comprar o que faltava.

Temos certeza que os turistas que visitam Salvador


gostariam de conhecer além do axé, os Ternos de Reis, mas
estes nunca lhe foram apresentados, até mesmo parte dos
solteropolitanos desconhecem a cultura de Reis. Não dá mais
para assumir o dever que é do estado, incentivar e manter
a cultura de um povo, infelizmente, a situação se inverteu e
nós organizadores de Ternos de Reis é que estamos mantendo
uma tradição que seria do Estado. A impressão que temos é
que estamos impondo a nossa presença na Lapinha e não é
isso que queremos. Seria muito bom se os órgãos do governo
Estadual e Municipal, incluindo aí Vereadores e Deputados
pudessem ter a oportunidade de conhecer os Ternos, de ouvir
suas músicas e apreciar suas danças, de conhecer de perto a
cultura de Ternos de Reis e nesse momento peço licença para
transcrever uma frase que ouvi da Professora Francisca da
UNEB “ninguém ama o que não conhece” e essa é afirmativa
mais correta que ouvi sobre os Ternos de Reis. É preciso

129
Regina Cruz do Nascimento

conhecer para valorizar e principalmente é preciso divulgar


para se tornar conhecido.

Quantas vezes eu e meus irmãos colocamos nosso


salário para ajudar a compra de tecidos, sapatos, acessórios
e materiais para os cajados. Não queremos apenas dinheiro,
queremos valorização e reconhecimento, queremos poder
chegar ao fim do ano com a convicção que os Ternos de Reis
irão desfilar na festa da Lapinha, que o bairro da Lapinha vai
ser devidamente decorado e iluminado para receber os Ternos,
não queremos chegar no dia de Reis com a interrogação: será
que vamos? E se formos seremos recompensados? Por isso fica
o protesto: A Festa de Reis não pode e não deve acabar.

130
Eternamente Rosa Menina

DEPOIMENTOS

Luiza Cruz do Nascimento

Conheci o Terno Rosa Meni-


na pela primeira vez na festa
da Lapinha em 1954, quando
eu era responsável pelo Terno
Concha de ouro de Pernam-
bués, passamos um pelo outro
na Ladeira da Soledade. Em
1955 o Sr. Silvano veio mo-
rar em Pernambués. Em 1956
ele me convidou para sair
no Terno, mas eu não aceitei
porque estava de luto do meu
avô, neste ano também o Ter-
no não saiu porque o prefeito
da época não liberou verbas
para os Ternos. Em 1957 saí
no Terno pela primeira vez,

131
Regina Cruz do Nascimento

como espanhola; em 1958 nos casamos e assim passei a dividir


a responsabilidade do Terno com ele. Sempre gostei de Ternos
de Reis, a primeira vez que saí em um Terno foi com 04 anos de
idade, era o Terno da Espera, depois saí no Terno das Marga-
ridas, Ternos das Barquinhas e depois o Terno das Baianinhas.
Quando estava adolescente comecei fazer o meu próprio Terno
de 1950 a 1954.

Tenho muita dedicação pelo Rosa Menina e por sua


tradição, admiro muito a harmonia deste Terno, suas músicas,
as letras e melodias, feitas por um homem simples que nunca
frequentou uma escola, aprendeu ler e escrever graças a boa
vontade de um amigo chamado Aloísio, que era vizinho e
amigo. Mesmo com essa dificuldade, Silvano tornou-se um
grande poeta, ele sempre compôs músicas e versos para o Terno
e para mim, sua esposa. Os cajados com as lanternas com velas
acesas, servem para mostrar o passado, os pastores levavam
tochas acesas, por que não existia luz elétrica.

As músicas do Terno que mais gosto são: a Marcha


nº 02 (Que alegria), o samba da baiana e a valsa da Porta-
estandarte.

É noite de natal, noite de tanto primor,


Viemos adorar a Jesus Salvador,
É noite de prazer, noite de tanta alegria
Viemos louvar ao menino, o filho da Virgem Maria.

132
Eternamente Rosa Menina

Eu sou a Porta-estandarte, que hoje venho cantar


Na Lapinha de Belém, para Jesus adorar.
Porque devemos saber que hoje em Belém nasceu
Jesus o filho de Maria, o grande Rei do Judeu.

Boa noite meus senhores, eu já vou me retirar


A Rosa Menina saudosa para o ano voltará
Cantemos com alegria e amor no coração
Jesus o filho de Maria que nos dê a sua benção.

133
Regina Cruz do Nascimento

Francisco Cruz do Nascimento

Sempre me encantei
com o ritmo e beleza do Terno
Rosa Menina, porém o que
mais me movia era a dedicação
e entrega do meu pai para a
obra que, mais tarde, o faria
reconhecido como MESTRE
DA CULTURA POPULAR
DA BAHIA.

Na década de 60, acom-


panhei os ensaios realizados
em uma pequena sala, no fun-
do da sua casa principal, locali-
zada à Rua Tomaz Gonzaga, nº. 479, no bairro de Pernambués. Era
um pequeno vão de aproximadamente 12m2, moças e músicos se
espremiam, mas ensaiavam com vontade e zelo, ali naquele peque-
no espaço que eu, meus irmãos e minha mãe ajudamos o mestre
a construir. Era um espaço sagrado, onde o Terno ensaiava para
depois brilhar nas festas da Lapinha, Praça da Sé, Bonfim, Pituba,
Rio Vermelho e Itapuã.

O meu olhar de menino, um daqueles, que tinha o


prazer de carregar um cajado (alegoria) e levar o nome do
Terno pra fora da comunidade, ficava sem entender como é

134
Eternamente Rosa Menina

que papai não havia frequentado escola, mas conseguia criar


letras e músicas tão perfeitas e emocionantes. Ele tinha uma
habilidade muito grande com as palavras, com a melodia que
nascia de algum “tralá lá” e com o recorte e aplicações sobre o
compensado, de onde nasciam os cajados. Tinha um poder de
concentração imenso e queria sempre a gente por perto, pra
aprender desde o manuseio das ferramentas de carpintaria até
o ouvir e aprender as suas músicas divinas.

Muitos momentos marcaram a minha vida na trajetória


do Rosa Menina, mas o que mais me emocionou foi quando
mostrei para meu pai alguns desenhos que havia feito e que
poderiam virar cajado; num gesto afetuoso, ele elogiou
os desenhos e me pediu que ampliasse, em seguida, meus
desenhos viraram cajados de verdade e foram para as ruas de
Salvador compor a alegoria do Terno. Nas ruas, eu não sabia
se cantava e acompanhava o Terno ou se ficava olhando meus
desenhos materializados pelas mãos do meu mestre.

Todos nós, que tivemos a honra de ter Silvano Francisco do


Nascimento como pai, temos a obrigação de mantermos viva essa
tradição popular para a qual ele dedicou a sua vida, temos o dever
de respeitar seus valores e de reconhecê-los como lição de vida.
Uma vida que não se acaba com a mudança de plano do mestre,
porque na verdade, ele foi o melhor pai que alguém pode desejar
ter e dentro da sua filosofia simples nos ensinou que a honestidade

135
Regina Cruz do Nascimento

é a maior riqueza que uma pessoa pode ter. Viva Silvano! Minha
música preferida é a Marcha nº 02 (vamos companheiras).

Vamos companheiras,
Com toda fé
Adorar a deus menino e Maria
E Maria e José.
Levando a rosinha
Em nossa companhia
Para enfeitar o trono do menino
Filho da virgem Maria

Rosa Menina é o nosso amor


É o prazer dos nossos corações
Com seu perfume embriagador
Saudando ao povo
Com suas doces canções

136
Eternamente Rosa Menina

Geraldo Cruz do Nascimento

Quando o Terno esta-


va comemorando 50 anos de
fundação, perguntei ao meu
pai se no ano da sua funda-
ção houve algum fato histó-
rico que tivesse marcado o
momento e ele me respon-
deu: “Foi o fim da 2ª Guer-
ra Mundial”. E nesse ano eu
fiz um cajado que era um V
e significava o V da vitória;
fiquei pensando naquilo e
resolvi desenhar um cajado
novo, mostrei meu desenho
ao meu pai e ele ficou muito
entusiasmado e passou a con-
feccionar o cajado. Quando
o Terno chegou na Lapinha
com aquele cajado em forma de V na frente, fiquei emociona-
do, minha obra estava ali do jeito que eu desenhei e imaginei.
Aliás, eu sempre desenhei cajados para o meu pai e ele trans-
formava aqueles desenhos em alegorias tão perfeitas, sem mo-
dificar o desenho original. Quando meu pai adoeceu, e devido
a idade, eu passei a confeccionar os cajados, a maioria deles

137
Regina Cruz do Nascimento

eu só consertava e fazia algum arranjo e os outros eu mesmo


criava. Lembro que no reveillon de 2006/2007 houve um in-
cêndio lá em casa, um curto circuito provocou um incêndio
no barracão onde ensaiamos o Terno e onde ficam guardados
as roupas e os cajados, perdemos quase tudo, os pandeiros e as
castanholas queimaram, alguns cajados também e o prejuízo
só não foi maior porque as roupas estavam dentro dos armá-
rios, isso aconteceu no dia 01 de janeiro e só restavam 04 dias
para a festa de reis; foi uma correria, cada um cuidando de uma
parte e eu responsável por arrumar os cajados, faltando pou-
cas horas para o Terno sair percebi que o cajado da frente que
leva o presépio estava sem o São José, fiquei sem saber o que
fazer, não tinha mais tempo para comprar o São José que havia
quebrado, já havia arrumado os outros cajados, as lanternas, os
adereços dos 03 Reis e o cajado como ia sair sem São José, foi
ai que tive uma ideia, peguei outro santo e coloquei no lugar
de São José, o importante era a família sagrada sair completa, e
posso apostar que ninguém percebeu a troca dos santos.

Como todo filho, fui criado no Terno, carreguei cajado,


depois passei a ajudar na organização e depois que meu pai ficou
muito velho e doente tomei a responsabilidade de organizar o
Terno, ensaiar e levar às ruas, juntamente com meus irmãos
Márcio, Isabel e João e sempre gostei de todos os cantos, mas
tem sempre um que toca mais fundo no coração da gente que os
outros e o meu cântico preferido é o bolero das ciganas, é uma

138
Eternamente Rosa Menina

versão de autoria do meu pai, o Mestre Silvano, é uma música


que tem uma letra curta, porém, uma melodia muito bonita.

Cigana nesta noite de Reis


Com seu pandeirinho
A cantar e dançar
Cigana o filho de Maria
Veio neste dia
Foi para nos salvar

139
Regina Cruz do Nascimento

José Marcio Cruz do Nascimento

Eu posso dizer que já


nasci dentro do Terno Rosa
Menina, pois desde pequeno
acompanho meu pai. Eu cres-
ci ouvindo as músicas do Ter-
no, que me ajudou muito na
vocação musical, observando
o Mestre Garrafa com seu
trombone quando eu comecei
a acompanhar o Terno carre-
gando cajado, e em 1992, eu
comecei a função de músico,
tocando violão em uma apre-
sentação no Mercado Mode-
lo. Desde então, assumi a minha missão de ajudar nos ensaios
e na apresentação de rua, tocando banjo. Procurei neste tempo
como músico do Terno, organizar apresentações extras, como
por exemplo, uma aula pública na Escola de Enfermagem e na
Escola Aliomar Baleeiro, etc. Chegando até a gravação do CD
experimental com 03 componentes do Terno. Tive a oportuni-
dade de divulgar as músicas do Terno no SESI do Caminho de
Areia, com as mesmas meninas, onde elas cantaram e encan-
taram com algumas músicas, o que gerou muita emoção nas

140
Eternamente Rosa Menina

pessoas ali presentes, pois fazia menos de 07 dias que o Mestre


Silvano, tinha ido morar com o Pai Celestial.

Quanto a minha música preferida é difícil de dizer, pois


todas as músicas do Terno são lindas, mas se é para escolher,
eu vou ficar com o Hino do Guia (Noite de Natal), pois é a que
mais me lembra os Mestres, Garrafa e Silvano.

141
Regina Cruz do Nascimento

Gabriel Cruz do Nascimento

Como todos os filhos,


eu também comecei a parti-
cipar do Terno cedo, logo me
entregaram um cajado e uma
faixa e eu como um autênti-
co Nascimento, assumi o meu
cajado com toda a dedicação
e cuidado, procurando pre-
servá-lo, pois se tinha coisa
que deixava nosso pai irri-
tado, era um cajado quebra-
do, isso o deixava furioso, o
Mestre tinha consciência do
quanto era importante um
cajado para dar brilho ao Ter-
no e como era dispendioso e
trabalhoso confeccionar um
cajado.

Sempre observei o amor e a dedicação que meu pai


dispensava ao Terno, na vida ele tinha dois amores, a mulher e
os filhos e o seu Terno de Reis, e ninguém se atrevesse a mexer
nem com um e nem com outro. Atualmente sou motorista de
ônibus e faço a condução do Terno para as festas.

142
Eternamente Rosa Menina

Quanto a minha música preferida, é o canto das


Espanholas. Esse Rosa Menina, não era só a paixão do Mestre
Silvano, mas a paixão de uma família inteira.

143
Regina Cruz do Nascimento

Efigênia Cruz do Nascimento Carneiro

O Terno Rosa Menina


sempre esteve presente em
minha vida, como legítima
“Nascimento” não poderia
estar alheia à tradição de Terno
de Reis e principalmente a
dedicação com que meu velho
pai cuidava do seu Terno. Ele
cuidava de cada detalhe, para
ele nada podia estar fora da
ordem, a nós, as filhas era
dada a tarefa de bordar os
boleros com lantejoulas e
vidrilhos, lembro bem que a gente deixava cair muita lantejoula
no chão e quando terminava o serviço, meu pai varria e recolhia
as que caiam no chão. Meu pai era muito organizado, ele não só
ensaiava o Terno, como também, confeccionava os pandeiros,
as castanholas, os ganzás, as cestas de flores das floristas, os
cajados e escolhia detalhadamente os tecidos para vestimenta
das componentes. Meu pai era uma pessoa autodidata,
aprendeu tudo sozinho, me impressionava muito o fato dele
compor músicas e versos para o Terno, os quais estão dentro das
exigências gramaticais, concordância verbal e nominal e versos
com rimas perfeitas. No Terno eu também fui Rosa Menina,

144
Eternamente Rosa Menina

espanhola e cigana, sei que meu pai tinha um sonho de que eu


fosse Porta-estandarte, mas eu não quis a função e então ele
colocou Regina no meu lugar.

Falar do meu pai é uma coisa muito gratificante, pois


esse foi o melhor pai que um ser humano poderia ter, para
meu pai o que mais lhe importava eram seus filhos e ele esteve
sempre muito presente em nossas vidas. O amor e a dedicação
dele pela Rosa Menina emocionavam, tenho certeza que onde
quer que ele esteja está feliz em saber que a rosa que ele plantou
e cultivou continua viva, linda e dando belos botões.

Depois que deixei de desfilar no Terno assumi a parte


da contabilidade. O difícil é fazer contabilidade com o que o
Terno recebe de auxilio, é como fazer milagre. Muita despesa e
pouca verba e nessa hora entra a participação dos filhos, cada
um contribui como pode, mas o importante é não desanimar,
é continuar lutando e acreditando que um dia Ternos de Reis
serão tão valorizados como qualquer outra cultura do nosso
estado. As minhas músicas preferidas são: a Marcha nº 02 e o
Bolero da Porta-estandarte.

145
Regina Cruz do Nascimento

Isabel Nascimento Dória

Quando meu pai fale-


ceu para mim foi dada a difícil
missão de comandar o Rosa
Menina. Eu que praticamen-
te já era o braço direito dele,
quando ele já estava idoso e
doente., fui escolhida para
assumir a direção do Ter-
no Rosa Menina, faço o que
posso e conto com a ajuda
de minha mãe e dos demais
irmãos, mas tenho consciên-
cia que substituir o Mestre
Silvano não é tarefa fácil pra
ninguém, tento dar o melhor
de mim para que o Rosa Me-
nina continue brilhando; às vezes fico pensando nas dificulda-
des que enfrentamos para conduzir o Terno para a Lapinha e
nessas horas peço iluminação a Deus e orientação ao meu pai.

O Rosa Menina sempre foi um presente em minha vida,


saí no Terno durante muitos anos, comecei como guarda de honra
e segui como jardineiro, espanhola e cigana. Hoje me esforço
para passar para as meninas um pouco do que aprendi, sempre

146
Eternamente Rosa Menina

contando com a ajuda de João, Márcio e Geraldo, mas não é fácil,


no meu tempo no Terno os ensaios eram com músicos, hoje a
gente ensaia usando play beck pois não temos condições de pagar
músicos para ensaios, então a nos viramos com o que temos. O
que me deixa mais emocionada é quando chegamos na Lapinha
e vemos que apesar de toda a dificuldade, de todos os problemas
que enfrentamos, o Rosa Menina continua lindo e merecedor dos
aplausos. Nesses momentos sinto a presença do meu pai e tenho
certeza que cada gesto, cada música é orientado por ele.

Sei que minha responsabilidade é muito grande, mas


me sinto segura no que faço e faço com muita dedicação e
carinho, essa rosa é cultivada a cada dia e é por isso que está
sempre linda e esbanjando felicidade. Como organizadora
do Terno, gosto de todas as músicas, pois meu pai sempre
caprichou muito nas suas composições, mas, a que mais me
traz recordações é a Marcha nº 04.

Reunidas já estamos,
Já podemos seguir
À Lapinha de Belém,
Para os anjos aplaudir

Marchamos com alegria,


Para adorar o redentor
Marchamos todas contentes
Para adorar a Jesus o Salvador.

147
Regina Cruz do Nascimento

João Cruz do Nascimento

Sempre tive muito


orgulho de desenhar
cajados para o Terno e de
confeccioná-los, meu pai
preparou todos os filhos
para substituí-lo, caso fosse
necessário, nós o ajudávamos
a fazer os cajados, lanternas
e os pandeiros e castanholas.
Isso influenciou na escolha da
minha profissão, sou artista
plástico e licenciado em Artes
pela UFBA, atualmente ajudo
na organização e também faço
parte da União dos Ternos
de Reis, no Conselho Fiscal,
também me responsabilizo
pelo instalação e manutenção
da aparelhagem de som na
festa da Lapinha, graças a
dedicação que meu pai passou
para todos os filhos. O Rosa Menina continua forte e sempre
muito bem organizado, aprendemos isso com o Mestre Silvano
e não esquecemos a lição em momento algum, e essa paixão

148
Eternamente Rosa Menina

pelo que fazemos e transmitimos para os nossos sobrinhos,


que estão dispostos a nos auxiliar na manutenção do Terno,
além dos irmãos e da minha mãe, ainda tenho a colaboração
de minha noiva Lindinalva que está sempre disposta a me
acompanhar e ajudar na operação do som enquanto os Ternos
se apresentam.

Tudo isso é levado muito a sério por minha família


e é isso que faz o Rosa Menina ser o diferencial da festa de
reis. Quanto à minha música preferida, é a Marcha nº 02 (Que
alegria).

149
Regina Cruz do Nascimento

Ana Luísa do Nascimento Lima

Eu saio no Terno
desde pequena. Na primeira
vez que sai no Terno eu
tinha 10 meses, como era
pequeninha tia Detinha me
segurou pela mão durante
todo o percurso, com três
anos cantei pela primeira
vez o cântico da rosa, sempre
fico muito ansiosa e nervosa
quando chega no palanque
e sei que vou ter que cantar,
mas até hoje tenho me saído
muito bem.

Amo muito o Terno,


durante 12 anos fui o
Rosa menina, agora estou
estreando como espanhola.
Minhas musicas favoritas são
o cântico das espanholas, o
bolero da Porta-estandarte e
o cântico da Rosa Menina.

150
Eternamente Rosa Menina

Ana Cristina Cruz do Nascimento

Como todas as filhas


eu também saí no Terno
Rosa Menina, fui Rosa
Menina, Espanhola e depois
que me casei deixei de sair
no Terno. A dedicação que
meu pai tinha sempre foi
motivo de orgulho para
nós filhos, pois isso nos
ensinava que não existem
obstáculos quando se tem
amor, que as dificuldades
podem ser superadas, e haja
dificuldades. Muitas vezes
pensei que meu pai fosse desistir, pois os Ternos de Reis não
tinham e continuam não tendo incentivos para sair, mas a
garra e o amor com que ele se dedicava à tradição de reis
superavam qualquer expectativa.

Durante minha infância vi meu pai conviver com


alegrias e tristezas com esse Terno. Alegrias por tudo que ele
fazia e tristeza pela falta de respeito com que os Ternos são
tratados, muitas vezes faltava ônibus para conduzir o Terno,
outras vezes não tinha som e iluminação e o mais difícil é

151
Regina Cruz do Nascimento

saber que o incentivo à cultura é também dever do Estado, mas


parece que para Ternos de Reis a coisa não funciona assim.

Somos sempre colocados em posição de inferioridade


em comparação com outras tradições, mas Terno de Reis é tão
importante quanto às outras, sem desmerecer nenhuma delas, é
uma festa de cunho religioso, que foi trazida pelos europeus para
o Brasil. Hoje, já não me envolvo tanto com o Terno, pois optei
pela religião evangélica, mas isso não apaga as lembranças que
guardo do amor que meu pai dedicava ao Rosa Menina. Uma
música que gosto muito é o cântico do guia “Noite de Natal”.

152
Eternamente Rosa Menina

Rosilda Muniz dos Santos

Falar do Rosa Menina


para mim é muito gratifican-
te, eu que comecei a sair no
Terno quando tinha 12 anos
incompletos, como eu era de-
senvolvida, dindinha Luiza
achava que o Juizado de Me-
nores não ia criar problemas
e realmente não criou.

A primeira vez sai no


de jardineiro, depois passei a
ser cigana, lembro-me bem
que a gente pedia a dindinha
Luiza que fizesse nossas
saias com bolsos fundos, e
dindinha Luiza perguntava
pra que os bolsos fundos?
e a gente sempre dizia que
era para guardar lanche e batom, mas na verdade a intenção
era outra, a saia com bolsos serviam para guardar o batom,
mas também servia para esconder os umbus e seriguelas que
a gente ganhava dos ambulantes. As ciganas do Rosa Menina
já eram conhecidas, quando os ambulantes da Lapinha e do

153
Regina Cruz do Nascimento

Bonfim vinham o Terno chegar já falavam “lá vem o Terno


das ciganas bonitas” e quando a gente passava, eles ofereciam
umbu, seriguela e água. No Terno a gente era proibida de
receber ou pedir qualquer coisa na rua, para isso sempre foi
feito um lanche para a chegada e o café reforçado na saída,
mas adolescente em qualquer época é sempre adolescente, a
gente burlava a vigilância de dindinha e todas as diretoras e
recebíamos as ofertas que os ambulantes nos davam com tanto
carinho, o mais difícil era despistar dindinha Rita, mas mesmo
assim a gente dava um jeito. Certa vez Valdira, que era mais
velha me chamou para tomar uma cerveja; a gente sabia que
era proibido ingerir bebidas alcoólicas no Terno, se seu Silvano
descobrisse que a gente bebeu, ele tirava do Terno na hora e
não tinha choro, ainda que a gente fosse da família, no Terno
tinha um ditado que “as de casa era que tinham que dar o
exemplo”, mas mesmo assim Valdira me convenceu e lá fomos
nós para uma barraca afastada, atrás da Igreja do Bomfim
e lá ingerimos dois copos de cerveja, foi o suficiente para eu
ficar tonta, quando ouvimos o apito, saímos correndo e eu
confidenciei a Conceição que estava tonta e não ia ter condições
de abaixar para bater o pandeiro, ela ficou preocupada comigo
e quando começou a tocar o canto da cigana (quero ver) ela
ficou me procurando no palanque com medo que passasse mal
na hora de abaixar, mas enfim consegui tocar, apesar de estar
tonta. Desde que comecei a sair no Terno e até quando saí,

154
Eternamente Rosa Menina

todas as vezes que subia no palanque me dava uma tremedeira,


as pernas ficavam tremulas e as mãos frias, principalmente
quando seu Silvano anunciava o hino de adoração, nós todas
sabíamos que ali começava a nossa vitória ou a nossa derrota,
estava nas mãos da Porta-estandarte o inicio do nosso sucesso
ou do nosso fracasso, mas graças a Deus sempre foi o inicio do
sucesso, passado o hino de adoração e o canto da Rosa, agora
eu podia relaxar e era só esperar para mostrar o que as ciganas
do Rosa Menina eram capaz de fazer, e faziam muito bem,
não é a toa que ganhamos vários concursos, e por falar em
concurso, que época boa era a época dos concursos, os Ternos
tinham mais preocupação em mostrar a beleza, em mostrar
seus cantos bem cantados por suas componentes, mostrar
os cajados, todos querendo estar mais bonito, competindo
e isso incentivava muito os Ternos, lembro que depois da
apresentação na Lapinha e Praça da Sé, a gente chegava em
casa quase sempre com o dia claro ou amanhecendo e ao invés
de ir dormir ficávamos esperando o resultado, e geralmente era
a nosso favor, Rosa Menina campeão e aí era só alegria, era
só comemorar, e a comemoração ficava para a saída da Pituba
que era a última, seu Silvano mandava fazer uma panela de
feijoada e muito refrigerante, nada de bebidas alcoólicas, e a
gente já ia para casa, cada uma levando seus trajes e esperando
o próximo ano já com saudades; como todo concurso no
Terno também tinha rivalidades e o nosso principal rival era

155
Regina Cruz do Nascimento

o Terno da Terra, a gente vivia se encontrando na rua e haja


vaias de um lado e de outro, a gente mandava as pessoas que
nos acompanhava ficar embaixo do palanque para dar vaia no
Terno da terra, isso seu Silvano e nem dindinha Luiza sabiam,
pois se soubessem tiravam a gente do Terno, mas era divertido,
eles também vaiavam a gente quando se encontravam na rua,
quando a gente ia para o Bonfim já sabia quem foi o Terno
campeão e no Bonfim era que tinha mesmo gozações com
o perdedor, no Bonfim às vezes tinha até briga por causa do
fanatismo do povo com esses dois Ternos, o melhor mesmo
é que as gozações quase sempre eram para eles, porque nós
sempre ganhávamos, eu tive o prazer de ser tricampeã com o
Rosa Menina. Na minha época no Terno, a gente participava
da festa da Lapinha, Bonfim, Itapoã, Rio Vermelho e Pituba,
tinha também um ritual que não esqueço, quando a gente
terminava de se arrumar, e seu Silvano já arrumado desde
às 17:00 h, a gente descia para o barracão com os músicos e
ai cantava o hino do Senhor do Bonfim, depois saiamos em
direção ao ônibus e assim que subíamos no ônibus ele apitava
e os músicos já sabiam “Marcha nº 04”, esta música marcou a
minha juventude no Terno Rosa Menina e ainda hoje quando
ouço esta marcha me emociono, eu sempre gostei de todas as
marchas, mas essa era a que marcava a nossa saída.

156
Eternamente Rosa Menina

Eliene Muniz dos Santos

O Rosa menina foi


muito importante na minha
infância e adolescência, pois
meu pai não deixava a gente
ir para lugar nenhum e graças
ao Terno a gente podia se
divertir e passear. E não foi só
isso, foi no Terno que aprendi
alguns pontos de costura,
como também bordar com
vidrilhos e lantejoulas. A
gente passava as tardes
bordando os boleros, os
aventais e confeccionando
nossos colares, nessa época o
Terno não dava os acessórios,
a gente que comprava e
como a maioria era de moças
pobres a gente fazia os colares
de umbaúba forrada de papel laminado, a noite dava um brilho
tão bonito que parecia pedra; além dos colares a gente também
enfeitava os pandeiros com fitas. Todas as ciganas tinham uma
mania, esquentar o couro do pandeiro no fogo para o som
ficar melhor, as meninas de hoje não sabem fazer isso e não

157
Regina Cruz do Nascimento

imaginam como funciona. Toda boa cigana quer um pandeiro


com bom som e se isso não acontece, o melhor é esquentar o
pandeiro no fogo. Esses truques quem ensinava para a gente
eram as mais velhas e isso ia passando de geração para geração,
hoje não saio mais no Terno, mas todo dia 05 de janeiro estou
lá ajudando, e quando tenho uma oportunidade vou ver o
desfile da rosa.

158
Eternamente Rosa Menina

Raquel Ramos (a primeira Rosa Menina – no bair-


ro de Pernambués)

O Terno Rosa Menina foi muito importante na minha


infância, Pernambués como bairro de periferia não tinha nada,
a gente não tinha nenhuma diversão aqui, os pais sempre muito
severos não deixavam as filhas sair, foi quando seu Silvano se
mudou para Pernambués, no bairro só se falava nisso: o Terno
Rosa Menina vai sair agora daqui do bairro. Isso foi em 1955, eu
tinha 11 anos quando comecei a ensaiar no Terno e para meu
orgulho fui a primeira Rosa Menina aqui no bairro, isso marca
muito a vida da gente, seu Silvano era exigente, a gente começava
a ensaiar no mês de setembro e quando chegava janeiro ele ainda
estava achando que ainda estava faltando alguma coisa, na minha
época a gente tinha muita dedicação com o Terno, no dia de Reis
o bairro se transformava e todo mundo ganhava com isso, eram os
pequenos donos de armarinhos vendendo fitas e acessórios, eram
os salões que ficavam lotados, todas querendo ficar mais bonita,
todo mundo querendo fazer o melhor para ganhar o concurso.

Eu tive a satisfação de ter participado de vários


concursos e ter ganhado boa parte deles. Mas não era só isso,
além de aprender dançar e cantar a gente também aprendia a
costurar, a bordar, a fazer nossos próprios acessórios, colares
e pulseiras, enfim, o Rosa Menina também funcionava como
uma oficina. Isso sem falar na disciplina.

159
Regina Cruz do Nascimento

Tinha uma valsa no Terno que eu sempre gostei muito,


na minha época essa valsa era do Guia e atualmente eu vejo a
Porta-estandarte cantando, eu sempre me emociono quando
ouço essa música, ela traz muitas recordações da minha
infância e até hoje, quando estou com meus netos eu canto essa
valsa para eles.

Valsa da Porta-estandarte

Vamos lindas companheira


a Lapinha de Belém
Vamos louvar ao menino
que nasceu pra o nosso bem
Vamos louvar ao menino
que nasceu pra o nosso bem.

Desci do firmamento,
com minha estrela guia
Para guiar os pastores
e nossa Rosa Menina,
Para guiar os pastores
e nossa Rosa Menina.

160
Eternamente Rosa Menina

Valdira

Eu fui a primeira nora


de Silvano que saiu no Ter-
no. Quando comecei a sair
ainda era menina e fui cres-
cendo dentro do Terno, e foi
no Rosa Menina que conheci
Fulô, o filho mais velho de
Silvano e com ele namorei e
tive uma filha.

Talvez pouca gente


soubesse disso, e acho que seu
Silvano também não sabia,
mas saí no Terno grávida de
Valdice, eu não podia dizer
que estava grávida senão não
sairia. Enquanto Fulô ía à
frente soltando os foguetes,
eu ía no meio do Terno
dançando, cantando e apesar da gravidez, descia e batia o
pandeiro no chão, não estava nem aí pra nada, o que eu queria
mesmo era me divertir, ficar fora do Terno, nem pensar, eu fazia
qualquer coisa para sair, inclusive esconder minha gravidez.

161
Regina Cruz do Nascimento

Apesar da minha eterna paixão pelo Terno, minhas 03


filhas nunca saíram, todas seguiram o caminho da minha mãe
e resolveram ser evangélicas e nunca me deram o prazer de
dançar no Terno.

Na minha época existiam duas competições, a primeira


e mais importante, era a da Lapinha e a segunda era uma
competição interna, mas muito saudável, eram as meninas
competindo entre si, as floristas para ver quem ía mais arrumada
e com as cestas mais enfeitadas; as ciganas para ver quem ía com
os colares mais bonitos e os pandeiros mais enfeitados e quem
lucrava com isso era o Terno que estava sempre bonito. Hoje elas
já recebem tudo pronto, anáguas engomadas, colares e pandeiros
arrumados, na minha época nós fazíamos questão de colocar
nossas anáguas na goma e arrumar nossos próprios pandeiros.

Sair no Terno para as jovens, do meu tempo, era a


realização total. Eu sempre fui comportada, mas tinha umas
meninas que aprontavam, e seu Silvano era rigoroso! Lembro
que uma vez houve uma briga entre duas ciganas, não me
recordo o motivo, e na hora do Terno sair, as duas prontas, ele
mandou tirar a roupa; e olhe que uma delas era sobrinha dele;
mas podia ser a filha, ele não admitia brigas no Terno.

Uma vez, no Bonfim, eu conheci um senhor que me


convidou para ir para Cajaíba que fica em Valença para ensaiar
as ciganas do Terno dele. O homem pagou minha passagem, me

162
Eternamente Rosa Menina

deu dinheiro e lá fui tratada como rainha, eu que pensei que ía


causar mal estar entre as meninas do Terno me enganei, todo
mundo queria conhecer a ciganinha de Salvador. Ensinei alguma
coisa para as meninas e depois vim embora, pois eu não podia
trocar o Rosa Menina, por nada, nem mesmo por dinheiro.

Foram muitas as emoções que contemplei nesse Terno


e até hoje, de vez em quando pego meu pandeiro e vou tocar.
Quem foi cigana um dia não esquece o pandeiro, seu Silvano
costumava me chamar de professora das ciganas e sempre
que posso vou dar minha contribuição, ajudando as meninas
mais novas a aprender tocar pandeiro, cantar e até mesmo
recitar seus versos. Minha música preferida como não podia
não deixar, de ser é das ciganas, apesar de gostar de todos os
cânticos das ciganas, mas a minha preferida é a rumba.

Rumba das Ciganas

Ciganinhas aventureiras
Vamos cantar em Belém
Adorar a Deus Menino
Que nasceu pra o nosso bem
É tão grande a alegria,
Pra lá segue toda gente,
Todos temos como guia
A estrela do oriente.

163
Regina Cruz do Nascimento

Eu vou levando o meu pandeiro,


Pra ver o que eu posso arranjar,
A mim interessa é dinheiro
Pois cigana não pode
Fazer festa sem ganhar.

Eu faço a minha despedida


Porque não posso demorar
Eu vou procurar minha vida
Voltarei para o ano
Se Jesus nos ajudar.

164
Eternamente Rosa Menina

Edvalda – Ex-componente do Terno no bairro de


Brotas

Conheci seu Silvano quando o Terno ainda saía no


bairro de Brotas, e foi nessa época ainda menina que eu saí
no Terno Rosa Menina. A gente chamava ele de “seu careca”,
durante dois anos saí na Rosa Menina. Na época o Terno ainda
era pequeno, e a gente ía para a Lapinha repleta de gente. Nós
éramos crianças e a Lapinha era uma das maiores festa de
largo de Salvador, lembro que a gente desfilava até o palanque,
mas era terrível, muita gente, muito empurra-empurra, mas o
importante era chegar lá; a gente dançava na Lapinha, Bonfim
e em outras festas.

Depois eu saí também no Terno da Terra, de seu Aloísio


e no Rancho do Boi. Para mim era a melhor diversão que
tínhamos eram os Ternos. Lembro muito bem de seu Silvano,
e fiquei muito triste quando soube da sua morte, depois que
deixei de sair nos Ternos, eu ía à Lapinha assistir aos desfiles, é
uma coisa tão bonita que não devia acabar.

Há alguns anos estive na festa da Lapinha e no Bonfim


e fiquei triste de ver que já não tem mais o brilho que tinha
quando a gente era jovem, na Lapinha tinha algumas pessoas,
mas não tinha palanque, os Ternos estavam se apresentando
na porta da Igreja, e no Bonfim não tinha quase ninguém. Dói
muito saber que as nossas festas estão acabando. Os Ternos têm

165
Regina Cruz do Nascimento

muito a ver com a cultura da Bahia, por isso não deve acabar.
Tenho muitas lembranças das músicas dos Ternos, tanto do
Rosa Menina, quanto da Terra e do Rancho do Boi, todas as
músicas do Rosa Menina são muito bonitas.

166
Eternamente Rosa Menina

Luísa e Lícia

Comecei a sair no Ter-


no em 1977, quando minha
irmã Lícia já saía há um ano,
porém, minha mãe não deixa-
va eu sair.

Comecei a ensaiar es-


condido, mais um dia, che-
gando em casa, minha mãe
me alertou que eu não iria
sair em Terno nenhum. Cho-
rei muito, quando tia Edith
percebeu o motivo falou: “vá para seu Terno Luísa, quem está
mandando sou eu”.

Saí numa carreira tremendo e quando chegou no


barracão, seu Silvano falou: “meu omolu é forte, eu sabia que
você ia voltar”. Ele me deu um abraço forte e me colocou no
lugar de Maria, que era cigana de pandeiro, que por sinal havia
faltado muitos ensaios e por isso perdeu a vaga.

Quando Maria chegou ao barracão começou a chorar,


mas seu Silvano não teve dó, pois esperou muito por ela e a
menina não apareceu. Dona Luiza, comovida com a situação

167
Regina Cruz do Nascimento

de Maria colocou ela de baiana, foi o único jeito que teve dela
continuar no Terno, pois não havia mais vagas de cigana.

Em 1977 saí como cigana de pandeiro, foi muito


emocionante para mim, pois foi o meu primeiro ano no Terno
Rosa Menina. Em 1978 foi o ano mais feliz para mim, porque
eu saí pela primeira vez de Porta-estandarte, meu coração não
suportava de tanta felicidade. Saí de Porta-estandarte por 03
anos e depois parei, por motivo banal, foi quando Sonia tomou
o meu lugar.

Quando dei conta de mim, voltei correndo, mas não


encontrei mais a vaga e tive que voltar a ser cigana de pandeiro.
Foi em 1984, logo Sonia deixou de sair e eu imediatamente
voltei ao meu lugar de Porta-estandarte, onde dancei até
quando deixei de sair no Terno. De vez em quando, pego minha
bandeira e vou lá matar a saudade. Minha música preferida é a
rumba e como não podia deixar de ser o Bolero da Estandarte.

168
Eternamente Rosa Menina

Cecília Pereira da Silva, Ibirapitanga-Bahia

A primeira vez que


tive contato com o Terno
Rosa Menina foi através de
uma reportagem impressa no
Jornal A Tarde, logo associei
o nome do Mestre Silvano
Nascimento ao nome do seu
filho, Francisco Nascimento,
que era professor, meu colega
de profissão.

A partir daí, fiquei


emocionada com a fala do
mestre, que dizia da impor-
tância da família dar continuidade a sua criação. Depois,
ao me aproximar de Francisco, o meu encantamento com
essa expressão da manifestação da cultura popular só fez au-
mentar. Só em 2011 tive a oportunidade de conhecer o Rosa
Menina pessoalmente. O que me chamou a atenção foi a in-
tegração da família, a dedicação e responsabilidade de cada
filho, a capacidade criativa do Mestre Silvano na construção
das alegorias, letras e melodias do Terno Rosa Menina, além
da capacidade que ele teve de passar para cada filho um pe-
daço de si.

169
Regina Cruz do Nascimento

O meu sonho agora é contribuir na elaboração do


Memorial Rosa Menina, para garantir que essa história não se
perca na oralidade.

170
Eternamente Rosa Menina

Dielson Amorim

Desde criança aprendi


a admirar o Rosa Menina e a
criatividade de seu Silvano. O
bairro de Pernambués, como
todo bairro de periferia, não
nos apresentava muitas op-
ções de divertimento, os pais
mais rigorosos do que os
atuais, não nos deixava fre-
quentar festas de largo. A op-
ção era carregar cajado, assim
a gente aliava o útil ao agradá-
vel; assim eu comecei a carre-
gar cajados desde garoto.

Seu Silvano sempre


foi muito respeitado no bairro
e quando a gente recebia um
“não” da mãe para ir a festa da Lapinha e Bonfim, a gente falava
“é para carregar cajado no Terno”, aí tinha toda a aprovação: “se
é para ir com Silvano e Luiza, pode ir”.

Hoje continuo ajudando o Terno, estou sempre presente


nas festas da Lapinha e Bonfim, ajudo João na sonorização
e não costumo perder a apresentação do Terno em lugar

171
Regina Cruz do Nascimento

nenhum, na função de carregador de cajados conheci muitos


Ternos de Reis, mas nenhum deles pode se comparar ao
Rosa Menina, aqui tudo é feito com cuidado, com dedicação
e muita responsabilidade, por isso é tão fascinante. Têm duas
músicas que gosto muito: é o cântico das Ciganas nº 02 e o das
Espanholas, gosto muito do ritmo dessas duas músicas.

172
Eternamente Rosa Menina

Lindinalva Oliveira

Conheci o Rosa Me-


nina no ano 2007 na festa da
Lapinha, apesar de morar na
Liberdade, próximo àquele
bairro, nunca tinha visto Ter-
no de Reis. Foi quando conheci
João e fui com ele assisti ao des-
file dos Ternos. Fiquei maravi-
lhada com o brilho do figurino
e as músicas. Admiro muito o
Rosa Menina pela organização
e pela dedicação e seriedade
com que é feito. Durante esses anos sempre acompanho João nas
apresentações e procuro também ajudar, João é responsável pelo
som e nós ficamos no palanque até que o último Terno se apresen-
te, é muito bonito ver os Ternos, mas o Rosa Menina é especial.

Um dos momentos mais emocionantes para mim é


quando o Terno se arruma na porta da Igreja do Bonfim,
após a apresentação para cantar o Hino do Senhor do Bonfim,
esse momento me deixa muito emocionada e entendo porque
os filhos fazem tanta questão de dar continuidade a obra do
pai. Todas as suas músicas do Terno são muito bonitas e bem
elaboradas, porém, a que mais gosto é a Marcha nº 03.

173
Regina Cruz do Nascimento

Marcha nº 03

Vamos a Belém Pastoras


Ver o nosso salvador
Hoje é nascido em Belém
O nosso Divino amor

As nossas flores mimosas


Nós viemos oferecer
Para levar ao Messias
Antes do dia amanhecer.

174
Eternamente Rosa Menina

Bernadete Anjos Nascimento

Conheci o Rosa Meni-


na, ao mesmo tempo em que
conheci Geraldo. Já tinha ou-
vido falar de Ternos de Reis,
mas nunca tinha visto pes-
soalmente. A coisa que mais
me impressionou foi a dedi-
cação com que seu Silvano,
meu sogro, organizava o Ter-
no. Nos meses de dezembro e
janeiro todos respiravam Ter-
no. Geraldo ajudava muito na
organização e na confecção
dos cajados. Quando seu Silvano adoeceu a responsabilida-
de dos cajados ficou quase que totalmente para Geraldo. Seu
Silvano ajudava no que podia, mas era Geraldo e João quem
comandavam os trabalhos. Eu também passei a me envolver
mais nessa época. No início minha ajuda se restringia a tomar
conta das meninas na rua, mas quando Geraldo passou a admi-
nistrar a parte das alegorias, eu e os meninos, Tiago e Samuel
passamos a fazer parte da equipe. Muitas vezes Geraldo fica
trabalhando até tarde, para que tudo ficasse pronto no dia de
Reis e, nós, ficássemos assessorando ele. Atualmente também
sou responsável pelos lanches. Nessa família cada um faz sua

175
Regina Cruz do Nascimento

parte e no final o que se vê é um Terno muito bonito e organi-


zado. Apesar de eu nunca ter saído no Terno, uma vez eu me
vestir de cigana numa recepção e me sentir realizada. Quanto a
minha música preferida é o samba das baianas.

176
Eternamente Rosa Menina

Isabel Santana Nascimento

Comecei a sair no Ter-


no ainda menina, primeiro fui
florista por dois anos e depois
seu Silvano me colocou de es-
panhola. Seu Silvano sempre
foi muito zeloso com as coisas
do Terno, assim que termina-
va os ensaios ele recolhia to-
dos os pandeiros, castanholas
e ganzás, não permitia nunca
que ninguém saísse com os
instrumentos do Terno, mas
comigo foi diferente, no mes-
mo dia que ele falou que eu ia
treinar para ser espanhola, ele
me entregou um par de casta-
nholas e mandou que levasse
para casa.

Eu que já gostava de sair no Terno, fiquei maravilhada


quando soube que ia ser espanhola. Para mim, ser espanhola
do Rosa Menina era a realização, eu me sentia uma princesa,
“eu me achava!”. Quando a gente subia no palanque eu ficava

177
Regina Cruz do Nascimento

esperando ansiosa pelo cântico das espanholas, era a minha


glória.

Foi saindo no Terno que eu conheci Gabriel e com ele


casei. Hoje todos nós fazemos parte do Terno eu, Gabriel e
nosso filho Daniel. Quando Daniel começou pedir para sair
no Terno fiquei meio relutante, porque ele ainda era muito
pequeno e nem sempre posso acompanhar os desfiles, mas a
insistência dele foi tão grande que acabou me convencendo.
É incrível como as crianças dessa família começam a gostar
de Ternos desde cedo, é uma coisa que não tem explicação.
Mesmo pequenos eles já demonstram amor e responsabilidade
com o Terno. Eu lembro muito que seu Silvano falava que
tinha certeza que os filhos não iam deixar “a Rosa Menina”
morrer. Ele tinha tanta certeza disso que chegava impressionar.

E a família continua provando que ele estava certo.


Gosto muito das músicas do Terno. Quando estamos num
desfile na rua e temos a oportunidade de passar por outros
Ternos é que comprovamos que o Rosa Menina é o diferencial
da festa de reis, com todo o respeito que os outros merecem. A
minha música preferida é a que marcou a minha vida no Rosa
Menina, o cântico das espanholas.

178
Eternamente Rosa Menina

Raimunda Anjos Nascimento

Ao meu saudoso sogro,


Sr. Silvano Nascimento, minha
sogra, Sra. Luiza Nascimento,
cunhados e cunhadas, sobri-
nhos e sobrinhas, meu espo-
so, José Marcio Nascimento e
minha querida filha, Priscila
Nascimento. Sinto-me muito
honrada em fazer parte des-
ta numerosa família que com
muito esforço colabora com
o desenvolvimento da cultura
de nossa gente.

Apaixonei-me pelo
Terno de Reis, Rosa Menina,
desde o primeiro momento em que o conheci. Suas danças, fi-
gurino, alegorias e, principalmente suas músicas. No momento
faço parte da orquestra. Sinto-me realizada em fazer parte dessa
difusão cultural que faz manter viva a identidade do povo bra-
sileiro.

As músicas com suas riquíssimas produções também


têm sido motivo de atenção e as que mais se destacam são:
“Hino da Estrela Guia” que fala do nascimento de Jesus, o

179
Regina Cruz do Nascimento

grande sinal da estrela, que guia os pastores e a valorização da


natureza através da rosa, e a música do “Rosa Menina” que é
puro louvor e gratidão ao Deus Criador e bastante emocionante
pelo fato de ser cantada por uma criança que representa o Rosa
Menina.

Outro aspecto interessante é a finalidade desse


movimento artístico que leva o ser humano a refletir sobre
a vida de Jesus entre os homens. Ele que foi filho de pais
humildes, seu nascimento em meio aos animais; o sinal da
estrela; a visita dos Reis Magos; a presença dos anjos, tudo
vem fortalecer a religiosidade marcante de que é preciso seguir
o exemplo deste grande homem que se fez pequenino como
criança e viveu toda condição humana, menos o pecado, para
mostrar a grandiosidade de Deus.

E o Sr. Silvano fazia questão de valorizar e relacionar


alguns dos aspectos da vida de Jesus, com a sua: como a mesma
data de nascimento e o fato de ser também carpinteiro, o que
acredito ter sido o verdadeiro motivo da criação do Terno de
Reis Rosa Menina, em eterna gratidão ao Deus da vida.

Resta-me dizer que a Família Nascimento está de


parabéns por fazer acontecer este e outros manifestos culturais,
deixando sua marca brilhante por onde passa e incentivando
as pessoas a resgatar a cultura que, muitas vezes, se encontram
adormecidas.

180
Eternamente Rosa Menina

Jailton Nunes (Jô Pezão)

Quando eu soube que


estavam escrevendo um livro
sobre o Rosa Menina, eu me
interessei em participar, pois
o Terno tem muito a ver com
o apelido que me colocaram e
eu tenho muitas informações
sobre ele guardadas na lem-
brança.

No meu tempo os
carregadores de cajado se
trajavam com roupa social,
calça preta, camisa branca
de manga comprida, gravata
borboleta e sapato social.
Desde pequeno já tinha um
“pezinho” maior do que os
meninos da minha idade,
quando seu Silvano me autorizou carregar cajados, eu cheguei
em casa todo entusiasmado e falei com meu pai. No dia da
Festa de Reis lá fui eu e meu pai na missão quase impossível de
comprar um sapato social para mim, rodamos todo o comércio
da Baixa dos Sapateiros, de loja em loja e não achava o tal sapato;

181
Regina Cruz do Nascimento

quando percebi que meu pai estava prestes a desistir comecei


a ficar triste, era o meu sonho de sair no Terno que ia deixar
de ser realizado por conta de um sapato. Na última loja que
entramos o vendedor colocou um plástico dentro do sapato e o
pé entrou, meu pai perguntou se estava bom e eu respondi que
sim, mesmo sabendo que estava apertado, fui para a Lapinha e
Praça da Sé. Na época dos carregadores de cajado iam em uma
caçamba, que sofrimento, tanto para nós carregadores como
para seu Silvano que tinha que consertar todos os cajados, a
cada apresentação. Durante o desfile do Terno o pé começou a
doer no sapato apertado, não vi outra solução, pisei no sapato e
lá fui eu todo de roupa social e meia fazendo do sapato chinelo;
quando cheguei em casa que meu pai viu as condições do sapato
que ele havia comprado com tanto sacrifício me deu uma bela
surra, daí eu nem ligava mais sabia que ia apanhar mesmo e
em todas as outras apresentações do Terno eu ia levando meu
cajado pisando o sapato como chinelo, esse foi um dos motivos
de me chamarem de “Jó Pezão”.

Depois que deixei de carregar cajado continuei


ajudando no Terno, passei a fazer parte da segurança e hoje
tenho o maior orgulho de ver minha filha dançando no Terno.

Uma recordação que guardo na memória foi uma briga


que aconteceu no Largo de Itapoá, envolvendo um casal aqui
do bairro, foi tanta gente batendo e tanta gente apanhando

182
Eternamente Rosa Menina

que eu não sei como não morreu ninguém. Um rapaz passou


pela moça que era espanhola do Terno e mexeu com ela, o
marido que vinha ao lado não gostou e rolou a maior briga,
um carregador de cajado conhecido por Maguary levou uma
cacetada na cabeça e desmaiou, é bom que se esclareça que
a briga não teve nada a ver com o Terno como foi noticiado
na época, foi uma briga de casal e eu testemunhei tudo desde
o começo. Além de mim, minha irmã Maria também saía
no Terno, ela era baiana, aliás quase toda minha família era
envolvida com o Rosa Menina. Sempre admirei o Terno e
continuo admirando, mesmo depois do falecimento de seu
Silvano, a família continua mantendo a tradição e isso é muito
bom para todos nós e nosso bairro. Os meninos da minha época
que saíam no Terno não se envolviam com coisas erradas, seu
Silvano era um referencial para todos nós e agradecemos a ele.
A minha música preferida é o samba das baianas.

Esta é uma obra inacabada, com começo, meio, mas que


nunca terá fim, porque O Rosa Menina é e será eterno.

183
Regina Cruz do Nascimento

Regina Cruz do Nascimento


é filha de Silvano e Luiza,
Servidora Pública Estadual e
reside atualmente na cidade
de Valença/BA, onde exerce
a função de Escrivã de
Polícia, é formada em Letras
pela Faculdades de Ciências
Educacionais de Valença
(FACE).

184
Eternamente Rosa Menina

Senhores,

Em nome deste pequeno Terno,


Por todos vós aplaudido,
Agradeço penhorado
A honra que nos foi dada
Por este povo querido.

Jesus nasceu na pobreza,


Sendo dele a nobreza
A vida. A luz e o amor,
A rosa tem a beleza
Que lhe deu a natureza
Por ordem do criador.

Se conquistamos vitórias,
Deus menino rei da glória,
Jamais nos faltou com a bondade,
A ele demos louvores,
Agradecendo os favores,
Pedindo para os senhores,
Saúde e felicidade.

Silvano Francisco do Nascimento

185
Regina Cruz do Nascimento

Nosso Hino

Salve, salve ó grande dia,


Nós viemos adorar
A Jesus filho de Maria,
Que nasceu pra nos salvar,
Levando a Rosa Menina
A lapinha de Belém
Para adorar a Deus Menino
Que nasceu pro nosso bem.

186
Formato: 150 x 210 mm
Fontes: Souvenir, 14/13/12 e Minion Pro, 12
Miolo: papel offset, 90 g/m2
Capa: papel Supremo, 250 g/m2
Impressão: outubro 2013.
Regina Cruz do Nascimento

é filha de Silvano e Luiza, Servidora Pública Estadual e reside


atualmente na cidade de Valença/BA, onde exerce a função
de Escrivã de Polícia, é formada em Letras pela FACE –
Faculdades de Ciências Educacionais de Valença.

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