VI.
Propagação Ionosférica
Dentre outros fatores de considerável relevância, citam-se alguns que garantem e justificam o
uso e investimentos nas comunicações ionosféricas. Taticamente, o sistema HF impõe-se como
único meio de comunicação totalmente independente, e por isso é sempre utilizado em operações
militares.
Um fenômeno típico da zona equatorial ocorre na ionosfera e fortemente pode influir na
comunicação por satélite e ionosférica. É a formação de bolhas ionosféricas (BI), onde se tem
baixa densidade de plasma ionosférico, que se estendem ao longo das linhas de força do campo
geomagnético, podendo alcançar extensões da ordem de 10.000 km ao longo do campo e medem
entre 150 e 300 km no sentido perpendicular do campo geomagnético, evoluindo de leste para
oeste e atingindo velocidades muito altas, como se vê na figura a seguir, e que vai se intensificando
na medida em que se desloca.
As Bolhas Ionosféricas:
possuem ocorrência sazonal, isto é, variam com a estação do ano e têm início no mês de
outubro (primavera) e são registradas até o mês de março (verão). Seu ápice se dá no
período de novembro a janeiro. É rara a ocorrência no inverno.
constituem um problema para o Brasil, que não pode confiar em um sistema de controle de
tráfego aéreo, por ex., feito apenas por satélite. Temos o sistema terrestre, para garantir
a comunicação.
se estendem por centenas de quilômetros ao longo das linhas de campo geomagnético;
dependem do ciclo solar, que tem duração de 11 anos;
nunca ocorrem durante o dia, devido à alta condutividade iônica, cuja influência está na
radiação solar;
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após o pôr do sol, sobem em altura e deslocam-se para leste e, à medida que se deslocam,
aumentam de tamanho, tomando dimensões transequatoriais.
Os gráficos, a seguir, mostram a média mensal do número de manchas solares, observando-se o
ciclo de 11 anos, e a previsão até 2020.
Fonte: [Link]
A interferência na recepção de sinais de satélites em antenas parabólicas se dá como forma de
pontos brilhantes espalhados por toda a tela do aparelho televisor. O INPE afirma que há
registros de interferência em aparelhos de GPS (Global Positioning System = Sistema de
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Posicionamento Global), sistema de navegação aérea e marítima, sensoriamento remoto, radares
espaciais, etc;
José Humberto Sobral, cientista do INPE, afirma que, “às vezes, um blackout em
telecomunicações é interpretado como falha técnica”. Ele garante que o problema está no espaço.
Essas interrupções ocorrem, pois as BIs roubam energia da onda que sai do satélite em direção
ao planeta.
O enlace ionosférico é largamente utilizado como meio alternativo de comunicações, atuando
como contingência dos sistemas principais de grande capacidade. Os sistemas de HF dispõem,
também, de alta flexibilidade, podendo cobrir grandes distâncias, da ordem de milhares de
quilômetros, além de permitir o deslocamento de estações táticas (transportáveis e portáteis)
com relativa facilidade.
Em missões de Busca e Salvamento, os sistemas HF têm, mais uma vez, participação
fundamental, pois podem prover comunicações a local de difícil acesso e totalmente desprovido
de outro meio de comunicação.
Nas comunicações do Serviço Móvel Aeronáutico, em regiões fora da cobertura dos sistemas
VHF (alcance basicamente limitado à linha de visada), a faixa de HF destaca-se como uma
importante alternativa para comunicações com aeronaves.
Na faixa de HF existem sub-faixas de frequência para diferentes serviços, muitos destes
sendo compartilhados por diversos usuários. Algumas sub-faixas são comuns aos serviços móveis
terrestres e móveis marítimos (tabela pág. 2).
Basicamente, a ionosfera é formada pelas camadas D, E e F, como mostra a figura adiante. Entre
a camada D e F tem-se as altitudes praticamente as mesmas ao longo dos dias e são camadas
altamente estáveis, mantendo a densidade de elétrons N (No elétrons/m3). A camada D é um forte
atenuador, absorvendo os sinais de HF que passam através dela. Após o pôr do sol, essa
camada se recombina e as baixas frequências passam a ser refletidas pelas camadas
superiores.
As camadas F’s são as mais importantes regiões da ionosfera e com elas as comunicações de
ondas curtas em alta distância estão relacionadas. Durante as horas do dia, existem duas regiões
bem definidas, a camada F1 e a camada F2. Em um dia de inverno, a camada F1 começa um
pouco acima do limite superior da camada E (150 km) e se estende até cerca de 250 km.
Durante o dia de verão, a camada F1 é encontrada em altitudes maiores. A camada F2 varia de
350 km durante o inverno e pode chegar a 500 km durante o verão.
A maioria das transmissões em onda curta é acompanhada através da camada F2. A evidência
experimental indica que a camada F1 desaparece durante a noite. Já durante o dia, essa camada
é que suporta transmissões de curto a médio alcance. A camada F1 se comporta de forma
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semelhante à camada E. Diferentemente de todas as outras camadas, a camada F2 existe
independente de ser dia ou noite e é sempre capaz de sustentar propagação em alguma
frequência.
No estudo de propagação em HF, diversos tipos de medidas são amplamente utilizados,
tais como a predição da MUF (Máxima Frequência Utilizável) e caracterização do canal
ionosférico. Para se prever um enlace em HF, entre dois pontos, é necessário conhecer a altura
virtual de camada da ionosfera no ponto médio (ponto A das figuras a seguir) e nos pontos de
controle. Isto pode ser feito através das ionossondas de incidência vertical ou oblíqua, como
mostrado nas figuras a seguir.
AA A
Percurso virtual B
BB B Percurso real
o
Sondagem vertical Sondagem oblíqua
As ionossondas consistem em um transmissor que emite um trem de pulsos variando em
uma determinada faixa de frequência e de um receptor, que processa os sinais recebidos
originados das reflexões na ionosfera. Este receptor está no mesmo local do transmissor no caso
das sondagens verticais, ou em outra posição, no caso das sondagens oblíquas. Assim, pode-se
calcular o tempo que leva cada pulso (em cada frequência) neste percurso de ida e volta e
quais as frequências que apresentam reflexão significativa. Sabendo-se este tempo de ida e
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volta, tem-se a altura virtual da reflexão de cada frequência, resultado apresentado em um
diagrama conhecido como ionograma, mostrado na figura a seguir. Com a ionossonda vertical,
obtém-se a MUF para a incidência vertical.
500 h (km)
250
100 f (MHz)
1 2 3 4 5 10
Chamando de fn a frequência de retorno do raio na camada n à terra, tem-se:
√ (106)
onde Nn é a densidade eletrônica na camada n. Os outros parâmetros estão definidos na figura a
seguir. Quando a máxima densidade eletrônica (Nmáx) é tomada, a equação anterior calcula a
máxima frequência utilizável (MUF), que viabiliza o radioenlace. Quando = 90o, o raio é
vertical e fn é a máxima frequência para a qual a onda irradiada verticalmente pode retornar
à terra pela reflexão ionosférica, sendo chamada de frequência crítica (fc), portanto, a fc é a
MUF para a reflexão vertical, calculada por:
√ (107)
Para f > fc o raio vertical “fura” a ionosfera, não retornando à terra, mas poderá voltar à terra
se < 90o, ou seja, se a incidência for oblíqua .
B ionosfera
h f1 f2 > f1
tg
A
Terra
terra
a Obs.: Para mesmo , a > f penetra mais na ionosfera
O
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Assim, só haverá retorno à terra se a frequência do sinal transmitido for menor que a MUF,
calculada para a fmáx (Nmáx), que é a frequência onde ocorre a máxima densidade eletrônica na
camada considerada.
A frequência ótima de trabalho (FOT) é a que garante a operação de um enlace em 90% do
tempo, calculada como:
(108)
Finalmente, para o cálculo do enlace ionosférico, de posse da frequência (f), o alcance na
terra (d), altura da ionosfera (h), ângulo de partida ( ), MUF e perdas na ionosfera, calcula-se
a atenuação na ionosfera que, somada a do espaço livre, resultará na atenuação do enlace.
Detalhes de cálculo estão na Rec. P.533-12 ITU-R.
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