The Ruthless Note - Nelia Alarcon
The Ruthless Note - Nelia Alarcon
REIS DE REDWOOD
BOOK 2
NELIA ALARCON
Direitos Autorais © 2024 por Nelia Alarcon
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são fictícios. Não se pretende nem deve ser inferida qualquer identificação com
pessoas reais (vivas ou falecidas), locais, edifícios e produtos.
Capa do livro por GetCovers
Primeira edição 2022
CONTENTS
Sobre Este Livro
Chapter 1
Chapter 2
Chapter 3
Chapter 4
Chapter 5
Chapter 6
Chapter 7
Chapter 8
Chapter 9
Chapter 10
Chapter 11
Chapter 12
Chapter 13
Chapter 14
Chapter 15
Chapter 16
Chapter 17
Chapter 18
Chapter 19
Chapter 20
Chapter 21
Chapter 22
Chapter 23
Chapter 24
Chapter 25
Chapter 26
Chapter 27
Chapter 28
Chapter 29
Chapter 30
Chapter 31
Chapter 32
Chapter 33
Chapter 34
Chapter 35
Chapter 36
Chapter 37
Chapter 38
Chapter 39
Chapter 40
Chapter 41
Chapter 42
Chapter 43
Chapter 44
Uma Palavra do Autor
Uma Amostra de The Broken Note
Também escrito pelo autor
SOBRE ESTE LIVRO
CADENCE
O crescendo é minha parte favorita de uma peça musical.
É como acumular eletricidade, aquela que cresce e cresce até
zumbir por todo o seu corpo. Até que tudo, dos dedos dos pés aos
dedos das mãos, esteja em chamas. Diferente de um clímax, não é
o ponto alto. Não é a parte que arrancará o fôlego da plateia ou fará
uma lágrima cair de seus olhos.
É o acúmulo.
E é especial porque apenas o músico sabe que está chegando.
Um segredo preso em suas mãos, em sua mente, em seu piano.
Uma mudança no ar que deixa o público nervoso. Faz suas
gargantas saltarem e seus olhos saltitarem de um lado para o outro.
Um elástico se esticando, esticando, esticando.
Ninguém tem certeza de quando vai estourar.
Ninguém pode fazer nada a respeito.
Naquele momento, no crescendo, as pessoas que estão
ouvindo... elas estão sob meu controle.
Sinto essa eletricidade quando Dutch desce furiosamente pelas
arquibancadas, seus olhos âmbar quentes o suficiente para me
queimar até virar cinzas.
Suas botas atingem as arquibancadas de metal em batidas altas.
Tum. Tum. Percussões rítmicas. Os estudantes pulam para fora do
seu caminho, sabendo que ele não vai parar. Sabendo que serão
esmagados como baratas se forem estúpidos o suficiente para
permanecer no lugar.
Observo a onda que flui e reflui em torno da descida de Dutch. O
ar ao seu redor está carregado. Notas musicais dedilham em minha
mente. A melodia estridente de uma guitarra elétrica para combinar
com o ritmo frenético de seus passos. Suas botas aterrissam no
chão do ginásio e ele avança para mim como um touro vendo
vermelho.
Por um momento, minha respiração fica presa na garganta.
O Príncipe de Redwood Prep.
Perigoso.
Bestial.
Violento.
Há um peso em Dutch que vai muito além do peito largo e dos
ombros que se esforçam contra seu colete preppy, uma intensidade
que não tem nada a ver com o brilho ligeiramente perturbado em
seus olhos ou a dureza nos planos de seu rosto.
Será que realmente posso fazer isso? Posso ir cara a cara com
um rei implacável como ele?
Afastando rapidamente o pensamento, endireito meus ombros.
Não há outra escolha. Ele não me deu outra escolha.
— Precisa de algo, Dutch? — pergunto friamente.
Seus olhos perfuram os meus com a precisão de um laser. Sua
voz soa como se estivesse raspando contra cacos de vidro
quebrado quando ele sibila: — Quem diabos é você?
Meu coração vacila, mas eu o forço de volta à submissão. Noites
atrás, depois de baixar minhas defesas - e quase baixar minha
calcinha - descobri rapidamente que Dutch Cross não pararia diante
de nada para me destruir. Ele deu o telefonema para me expulsar de
Redwood. Ele não se importava com o que isso faria comigo, com
meu futuro ou com minha família.
Ele se importa apenas com uma coisa: ele mesmo.
Agora que consegui sair do buraco em que ele tentou me
enterrar, não vou esquecer quem me colocou lá.
Aproximo-me dele e ergo meu queixo para encontrar seu olhar
tempestuoso. — Sou seu pior pesadelo.
Seus olhos se estreitam. Suas narinas se dilatam.
Tanta raiva. É uma enchente correndo por seu corpo esbelto e
lindo. Eu posso praticamente vê-la carregando em suas veias e
faiscando de seus olhos cor de avelã brilhantes. Os músculos do
maxilar cinzelado se contraem e relaxam enquanto ele luta para
entender quem eu sou e como deve responder a mim.
— Dutch? — Uma voz ecoa pelo ginásio da escola. É profunda e
rouca, o tipo de voz que pode capturar um estádio cheio de homens
e mulheres e fazê-los acreditar no amor.
Viro-me e encontro os olhos de Jarod Cross.
A respeitável gola alta preta e as calças bem passadas não
conseguem apagar o 'rockstar' enraizado sob sua pele. Com seus
cabelos castanhos grossos, ligeiramente ondulados como se ele
não se importasse com produtos capilares, as costeletas espessas,
o pesado colar de prata e as tatuagens saindo de sua garganta e no
dorso das mãos, ele grita caos musical.
Nunca fui uma fã ativa de Jarod Cross, mas não há uma pessoa
neste planeta que não tenha ouvido sua música. De álbuns triplos
de platina às trilhas sonoras por trás das cenas de filmes de ação
mais icônicas, ou simplesmente participando da faixa de outra
banda, ele está em toda parte.
Dutch desvia o olhar de mim e se concentra em seu pai. Os dois
compartilham um longo e tenso duelo de olhares. Sob seus olhares
fixos há um perigoso indício de animosidade.
A verdade se revela diante dos meus olhos. Jarod Cross não
veio ao meu resgate para ajudar o Sr. Mulliez ou para registrar um
ponto em seu livro de boas ações. Há mais por trás de sua aparição
em Redwood Prep.
— Quer explicar por que está fazendo uma cena? — Jarod
Cross rosna por entre os dentes.
— Não tenho nada a dizer para você — Dutch responde
bruscamente.
A pressão no ar aumenta como um avião decolando na pista.
O que está acontecendo entre Dutch e seu pai?
As portas do ginásio se abrem antes que eu possa investigar
mais. Tanto Jarod Cross quanto Dutch olham ao redor. Apreensão
cintila nos olhos de Jarod quando ele vê a polícia. Ele dá um passo
para trás.
Mas os policiais não estão olhando para ele. Seus olhos
vasculham o ginásio, procurando intensamente por seu alvo.
Sussurros e suspiros surgem do corpo estudantil. Em todas as
suas vidas elitistas e privilegiadas, eles nunca passaram por um
momento como este.
Ouço o crescendo em minha cabeça.
Impulso implacável.
Dominós caindo.
Os telefones estão à mostra agora, alguns já suspeitando que,
seja lá o que estiver acontecendo, é digno de ser gravado.
— O que diabos está acontecendo? — exclama o diretor Harris
de seu poleiro ao lado do pódio. O suor escorre de sua cabeça calva
e desce pelo lado de seu rosto. — Por que há policiais aqui?
Todos nas arquibancadas se inclinam para frente, antecipando
um espetáculo.
Mas não é o tipo que eles estão esperando.
Os oficiais marcham diretamente para as líderes de torcida que
estão agrupadas em um banco. Bonitas, tonificadas e privilegiadas,
elas usam seu abandono descuidado como usam seus trajes
brilhantes com as saias plissadas e pompons de plástico.
Observo as reações chocadas das dançarinas quando os
policiais se aproximam. Os rostos delas se transformam em
máscaras de desconforto. Seus olhos se movem de uma para outra.
Dentes mordiscando os lábios inferiores. Mãos apertando os
pompons.
O zumbido em minhas veias piora. Eu sempre fui tão ávida por
vingança? Sempre fui uma pessoa destrutiva ou Redwood Prep me
transformou neste monstro?
Sinto o olhar de Dutch perfurando minha cabeça. Desviando
minha atenção dos policiais para o furioso deus de Redwood Prep,
ergo uma sobrancelha em desafio.
Ele dá um passo em minha direção. Seu peito roça meu braço e
envia uma faísca indesejada de consciência vibrando pelo meu
corpo.
Com a voz baixa e a cabeça próxima ao meu ouvido, Dutch
rosna: — O. Que. Você. Fez?
— Eu? — sussurro inocentemente.
Ele agarra meu braço. Seus dedos são quase dolorosos quando
se fecham ao redor do meu pulso.
— Cadence.
Um grito ecoa pelo ginásio, desviando temporariamente o olhar
venenoso de Dutch. Ambos olhamos para a frente onde os policiais
apontaram para Christa.
— Tirem as mãos de cima de mim! — a loira grita.
O diretor Harris lança olhares desesperados para Jarod Cross
como se invocasse algum tipo de criatura sobrenatural para fazer
sua vontade. O astro do rock permanece enraizado no lugar. Seus
dedos estão relaxados. Um canto de seus lábios se ergue em
diversão.
Os policiais conseguem colocar Christa de pé. Estou longe
demais para ouvir o que estão dizendo, mas sei por que estão aqui.
E sei por que o rosto de Christa fica pálido.
Seus olhos azuis varrem o ginásio e me perfuram. Lábios
rosados se curvam em um rosnado animalesco.
Eu deveria estar com medo, mas não estou.
O crescendo está se construindo.
LÁ LÁ# SI Puxando. Puxando. Puxando.
Sem resolução à vista.
Os policiais escoltam Christa para fora do ginásio. Suspiros
ondulam pela multidão. Luzes de celulares piscam e brilham.
O diretor Harris tira um lenço, enxuga o suor do rosto e gesticula
para os policiais que estão saindo.
— Eu deveria ver o que está acontecendo.
No caos de estudantes se levantando e professores lutando para
manter a ordem, Dutch me puxa contra ele. Sua respiração atinge
meu pescoço como dedos agarrando minha garganta e cada
músculo do meu corpo fica tenso.
— Não sei que diabos você está tramando, mas vou acabar com
isso. — Com os olhos estreitados, ele sibila: — Vou acabar com
você.
Sua ameaça ecoa pelo meu corpo.
Antes que eu possa dizer algo, um dos policiais volta ao ginásio.
Os estudantes ficam quietos novamente.
Jarod Cross fica tenso.
Dutch é o único que não parece saber ou se importar que está
praticamente me manuseando na frente das autoridades.
— Cadence Cooper? — o policial arrasta as palavras.
Eu me viro, minha mão ainda refém nas enormes patas de
Dutch.
— Você precisa vir comigo.
— Claro. — Arranco minha mão de volta e lanço a Dutch um
olhar sombrio.
Ele retribui o olhar com um ainda mais gélido. Dedos pálidos se
fecham em punhos. Seus olhos âmbar transmitem apenas uma
coisa - isso não acabou.
Eu sinto o peso de sua promessa e temo o dano que ele me
causará. Não porque Dutch é grande e intimidador. Não porque ele
e seus irmãos governam Redwood Prep com mão de ferro. Nem
mesmo porque ele não tem respeito pelo pai, pela autoridade em
geral ou pela lei.
Mas porque não confio na forma como meu corpo reagirá a ele.
Mesmo que eu o odeie a cada respiração, há uma parte distorcida e
sombria em mim que ganha vida quando estou perto dele.
Talvez seja bom que estejam me levando embora.
Sigo o policial até o corredor vazio.
— Por que você precisava me ver? O vídeo não foi suficiente?
Na semana passada, fiz um acordo com Jinx para conseguir
evidências de Christa me empurrando na piscina. Christa foi burra o
suficiente para fazer suas amigas filmarem naquele dia.
Em troca das imagens, tive que vazar um dos meus maiores
segredos para Jinx. Uma parte de mim acha que posso ter pulado
direto da frigideira para o fogo. Mas se fazer um pacto com o diabo
me mantiver viva o suficiente para me proteger e proteger meu
futuro, farei qualquer coisa.
Viramos a esquina.
O policial me faz sinal para avançar.
— Precisamos pegar seu depoimento oficial para acusar a
senhorita Miller de agressão qualificada. — Ele me entrega um
relatório preenchido.
— Que diabos está acontecendo aqui! — Um homem de terno
surge à vista. — Sou Reginald Miller, pai de Christa e presidente do
conselho de Redwood Prep. Por que minha filha está sendo
interrogada? Vocês têm ideia do inferno que meus advogados vão...
— Temos evidências de sua filha instigando um afogamento
quase fatal. Este é um assunto muito sério, Sr. Miller.
— Minha filha jamais...
O policial levanta seu telefone e reproduz o vídeo.
Risadinhas saem dos alto-falantes, então alguém sussurra sh.
Na tela, Christa está andando na ponta dos pés em minha direção.
Suas mãos estão estendidas. Então elas estão batendo contra
minhas costas.
Vejo meu corpo mergulhar na água azul escura e minha
garganta fica apertada como se eu estivesse revivendo o horror
daquele momento mais uma vez.
Meus inimigos são implacáveis.
É por isso que preciso ser ainda mais.
O rosto de Miller fica mais branco que minha partitura. Seus
olhos se movem de mim para o vídeo e de volta.
— Também temos uma declaração da enfermeira detalhando os
ferimentos da senhorita Cooper, bem como um relatório médico
corroborante do hospital. Esta não é uma acusação infundada. É
nossa responsabilidade investigar este caso cuidadosa e
metodicamente. Pedimos sua cooperação.
A boca de Miller se abre e se fecha. Ele olha para mim
novamente, mas desta vez há um toque de desespero. Sumiu o
homem que entrou em Redwood Prep exigindo que cabeças
rolassem.
Agora ele está pronto para se curvar.
Levanto-me instável da mesa.
— Antes de assinar, preciso usar o banheiro.
O policial se afasta para me deixar passar. Quando estou na
frente de Miller, paro para sussurrar: — Me encontre no corredor da
frente.
O enrijecimento de seus ombros é a única indicação de que ele
me ouviu.
Lavo minhas mãos no banheiro, respiro fundo algumas vezes e
então encontro Miller nas sombras.
Seus olhos azuis - tão parecidos com os de Christa - estão
suplicantes.
— Espero que você não tenha pedido para se encontrar em
particular porque tem algo contra minha filha que tornaria isso pior.
— Relaxe. — Endireito meus ombros e espero que minha voz
não trema como meus joelhos estão tremendo. — Quero melhorar
as coisas. Não piorar.
Seus olhos ganham um brilho cético.
— Você armou isso.
— Ah não. Eu não forcei sua filha a tentar me assassinar, Sr.
Miller. Isso seria tolice da minha parte.
— Você está exagerando.
— Este caso pode facilmente se tornar uma tentativa de
afogamento homicida. Como Christa tem dezoito anos, ela seria
julgada em um tribunal criminal. Na pior das hipóteses, ela passará
alguns anos atrás das grades. Na melhor das hipóteses, suas
chances de ir para uma prestigiosa Ivy League vão para o espaço.
— Faço um gesto com as mãos.
Sua língua sai para lamber o lábio inferior. Suas sobrancelhas se
enrugam.
— Estou disposto a fazer qualquer coisa. Só — ele agita os
braços freneticamente — faça isso desaparecer.
A D D# E
A ondulação antes de um tsunami açoitador. Uma onda que está
subindo e espumando na boca.
Sinto a eletricidade em meus ossos.
— Qualquer coisa? — sussurro.
— Sim. Só me diga o que você quer.
— Quero a cabeça de Dutch Cross numa bandeja.
Seus lábios se curvam para baixo. A irritação passa por seus
olhos.
— É disso que se trata toda essa confusão? — Ele franze a
testa. — Você está ameaçando o futuro da minha filha por uma
vingança mesquinha do ensino médio?
Tiro meu celular, giro-o entre meus dedos e digo casualmente: —
Imagino como seriam as acusações de fraude em cima das
acusações de tentativa de homicídio?
Seus olhos se arregalam.
— Christa, Dutch e seus irmãos alteraram minhas notas para me
expulsar de Redwood Prep e você, querido Presidente do Conselho,
foi cúmplice deles. — Meu olhar endurece. — Isso ainda parece
uma vingança mesquinha do ensino médio para você?
Miller puxa o colarinho. Seu pomo de Adão sobe e desce.
— Não posso tocar em Dutch.
— Por que diabos não? — sibilo. Esse monstro é realmente um
deus? Nem mesmo o chefe do conselho de Redwood Prep quer
derrubá-lo.
— Por que você acha que poderia simplesmente voltar para a
escola depois de ser expulsa? — Miller cospe.
Minhas pálpebras piscam.
— Jarod Cross.
— Nem eu tenho o tipo de poder para enfrentar Cross ainda.
— Hm. — Bato meus dedos no celular. — Então acho que terei
que enviar este vídeo de Christa para o noticiário local. E quem
sabe o quão amplamente isso se espalhará? As pessoas adoram
ver os poderosos caindo de seus pedestais. Elas farão isso ficar
cada vez maior até que sua filha não consiga mais levantar a
cabeça em público.
— Espere. Espere. — Ele estende uma mão e olha suplicante.
— Não posso tocar nos garotos Cross, mas posso fazer outra coisa.
Qualquer outra coisa. É só dizer.
Com o coração acelerado, contemplo a oferta.
— Tudo bem. Coloque minhas notas de volta onde estavam
antes.
— O-o quê?
— Vou te enviar uma foto de todas as minhas provas. Você pode
consultar meus professores para verificar. Quero que seja feito em
um dia...
— Um dia?
— ...E se, nas próximas vinte e quatro horas, minhas notas não
forem devolvidas ao que eram — me aproximo dele e sorrio
provocativamente —, a polícia não será a única que eu visitarei.
Você pode esperar ver a foto de prisão da sua filha em todos os
lugares.
Ele treme.
— Realmente não sei se posso fazer isso acontecer em um dia.
— Bem — aliso sua gola —, veremos quanto tempo sua filha tem
então.
Miller engole em seco.
Dou um passo para trás e então paro. Me viro. Olho friamente
para ele.
— Ah, e Miller, de agora em diante, mantenha sua filha sob
controle. Se ela vier atrás de mim novamente, não serei tão
complacente.
Ele acena desesperadamente.
Deslizo por ele, com a cabeça erguida. No momento em que viro
a esquina, me choco contra os armários e luto para recuperar o
fôlego.
Sinto como se estivesse numa ladeira escorregadia com
tubarões raivosos embaixo de mim. Mas que outra escolha eu
tenho? Agora que Dutch não conseguiu o que queria e Christa foi
humilhada publicamente, ambos estarão em pé de guerra.
Precisarei me tornar algo novo, algo mais forte, se quiser sobreviver
em Redwood.
Meus dedos se enterram no armário.
Fecho os olhos e conto de trás para frente a partir de dez.
Minha garganta está se fechando.
Dói respirar.
Inspire. Expire. Inspire. Expire.
Quando não sinto mais vontade de vomitar, me endireito e
encontro uma sala de aula vazia para me esconder da polícia.
Tenho a sensação de que Miller não perderá tempo em cumprir sua
parte do acordo.
E quando isso acontecer, será minha vez de fazer tudo isso
desaparecer.
J : O
pernas.
Acontece que a Garota Nova e a água não são as melhores
amigas.
Não surpreendentemente, a Garota Nova e os Pompons também
não são íntimos.
Então, por que nossa Cinderela residente disse aos policiais que
sua pequena sessão de amassos com a piscina cheia de cloro de
Redwood foi um "pequeno mal-entendido entre amigas"?
E você pensou que a visita surpresa do lendário roqueiro Jarod
Cross a Redwood seria o assunto da década? Parece que tudo o
que foi preciso foi uma pequena intimidação dos rapazes de azul
para usurpar a estrela mais forte no céu de Redwood.
Falando em estrelas de Redwood, nosso Príncipe Encantado
residente ainda não fez nenhum movimento agora que seu pai e sua
Cinderela rebelde estão sob os holofotes. Eu me pergunto... por que
ele está hesitando? É amor verdadeiro ou nosso rei está perdendo
seu toque de ouro?
Até o próximo post, mantenha seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais perto.
- Jinx
CHAPTER
DOIS
DUTCH
Eu destroço minha palheta na guitarra, batendo meus dedos com
tanta força contra as cordas que é um milagre que elas não se
partam no meu olho. A música grita minha frustração em riffs
complexos e intrincados que não significam nada para ninguém,
nem mesmo para mim.
Cadence é Ruiva.
Que inferno.
A música para abruptamente quando minha palheta se quebra
ao meio. As duas metades caem aos meus pés, parecendo
desgastadas. Procuro nos meus bolsos por outra e, quando não
encontro nada, vasculho minha carteira.
Ainda nada.
— Finn! — eu rujo. Levantando a cabeça, me viro para meu
irmão quieto. Ele está encostado no banco que fica bem ao lado da
janela.
Finn me olha de soslaio. Não tenho certeza se essa expressão é
por causa do sol batendo em seu rosto ou porque ele está irritado.
Honestamente, não dou a mínima para nenhuma das opções.
— Me dá uma palheta. — Estendo a mão, exigente.
— Você não precisa de uma palheta, Dutch. Você precisa se
acalmar.
— Vai se ferrar. Só diga que você não tem uma. — Pego minha
guitarra novamente.
Os olhos de Finn queimam dois buracos direto no meu crânio.
— Droga. — Minhas mãos tremem quando dedilho as cordas
com os dedos. É diferente agora. A música não tem o mesmo
timbre. Está faltando algo. Perdendo algo. Está vazia.
Eu toco mesmo assim.
Na minha cabeça, refaço meus passos até aquela noite no salão.
A noite em que falei pela primeira vez com Ruiva.
Jinx nos disse que Cadence trabalhava no salão, mas não a
encontramos. Em vez disso, Ruiva estava empoleirada atrás do
piano, extraindo melodias que incendiaram meu coração.
Logo depois, corri atrás de Ruiva e a encontrei no camarim.
Ela me beijou.
Depois me deu um tapa.
Alguns dias depois, ela me deu um bolo.
Durante todo esse tempo, eu não sabia que era o idiota no meio
da teia elaborada de Cadence.
Meus dentes rangem enquanto meus dedos sobem para as
notas agudas.
Cadence provavelmente estava rindo às minhas custas enquanto
eu corria atrás dela como um tolo apaixonado, com a língua de fora,
pronto e disposto a fazer o que a "Ruiva" quisesse.
Droga. Droga. Droga.
Fiquei louco por um fruto da minha imaginação e a única garota
que desafiou essa obsessão foi a própria Cadence. Ela era tudo o
que eu não deveria querer, mas ela se infiltrou fundo sob minha
pele. Fez todo o errado parecer certo.
Eu a desejava de uma maneira diferente. Era cru e proibido e
muito mais forte do que eu esperava. Eu não conseguia parar de
encurralá-la contra paredes, sentindo suas curvas suaves contra
mim em todas as oportunidades.
Eu não conseguia parar de hesitar.
Ela me fazia questionar a mim mesmo.
Me fazia dobrar.
Agonia.
Tormento.
Ela me fez passar por tudo isso.
Porque quando cada parte de mim queria Ruiva, havia um lado
meu que queria entrar debaixo da saia curta de Cadence também.
Todo aquele vai e vem... por nada.
Ela me transformou no maior idiota que Redwood Prep já viu.
Vou arruinar ela.
Faço um movimento descendente com a mão e toco o ar puro.
Quando olho para baixo, percebo que minha guitarra sumiu. Sol
está de pé à minha esquerda, segurando o braço da minha elétrica
em suas mãos.
— Que diabos você pensa que está fazendo? — eu rosno.
Sol não recua nem um centímetro. Seus olhos castanhos estão
firmes em mim. Mais firmes do que têm o direito de estar. É como se
ele visse o caos, a destruição fervendo na superfície. Talvez uma
parte dele reconheça isso.
Meu olhar percorre as mangas de sua jaqueta que estão
arregaçadas o suficiente para revelar as cicatrizes em seus pulsos.
São feridas feias e emaranhadas que mal começaram a cicatrizar. A
lâmina foi fundo.
Finn e Zane se alinham ao lado de Sol. Não é uma
demonstração de solidariedade. É um aviso. Eles estão preparados
para me derrubar se eu for atrás dele para pegar minha guitarra.
Eles não se importam se eu quero me machucar nesta espiral
descendente, mas vão me fazer em pedaços se eu atacar Sol
depois de tudo pelo que ele passou. Tudo pelo que o fizemos
passar.
Eu respiro com dificuldade, meu peito arfando. Por um momento,
minha ofegação é o único som que quebra o longo e tenso silêncio.
É o suficiente para me fazer acordar ao ver o rosto de Zane
dizendo não faça isso. Meus irmãos não se voltam contra mim.
Nunca. Se eles fazem isso, é porque eu realmente pirei de vez.
E talvez eu tenha mesmo.
Ruiva e Cadence são a mesma pessoa. Papai está rondando os
corredores de Redwood por motivos que não podem ser nada bons.
E policiais estão farejando Christa como hienas em uma carcaça. Se
ela começar a cantar como um canário, não vai demorar muito para
as autoridades descobrirem que adulteramos as notas de Cadence.
Está tudo culminando em uma grande e maldita nuvem de
cogumelo de uma bomba.
Eu preciso socar alguma coisa.
— O que há com você? — Sol pergunta diretamente.
Eu abandono a guitarra e a deixo em suas mãos.
Sol a coloca no suporte. — Dutch, seus dedos estão sangrando
e seu rosto parece assassino. O que está acontecendo?
Agora me lembro por que estava tão quieto quando Sol estava
fora.
Eu marcho até a mini geladeira e pego uma garrafa de água.
Arrancando a tampa, dou um gole gigante e sinto o frio descer por
toda a minha garganta.
Sol se vira para Finn. — Ele está assim por causa do pai de
vocês?
— Pode ser — diz Zane, girando suas baquetas.
— Provavelmente é por causa de uma garota — diz Finn
secamente.
Zane sorri com malícia. — Então... é ou Cadence ou Ruiva.
— Ou ambas — diz Finn.
Não quero falar sobre essas garotas - essa garota - agora. Então
me concentro em outra coisa que pode e deve ser destruída.
— Por que você acha que o pai está de volta à cidade? — eu
resmungo.
Sol se inclina para trás. — Por que você está trazendo seu pai à
tona de repente?
Que diabos? Ele não pode simplesmente seguir com a mudança
de assunto?
Sol me encara intensamente.
Bastardo. Ele nem sempre foi tão observador. Na verdade, ele
era mais parecido com Zane - barulhento, despreocupado, sempre
pronto para causar problemas. Será que a ala psiquiátrica o
transformou em uma pessoa diferente ou ele apenas escondia
melhor as merdas mentais naquela época?
Meu telefone apita.
Um coro de igualmente altos pings ecoa pela sala.
Pesco meu celular do bolso traseiro.
— É uma mensagem do pai — diz Zane, com voz abafada.
— Recebi a mesma — rosno.
Desculpe não poder ficar muito tempo hoje, rapazes. Tenho mais
algumas paradas na minha turnê, mas assim que terminar,
precisamos conversar. Tenho alguém que quero que vocês
conheçam.
Finn cruza os braços sobre o peito.
— Alguém sabe do que se trata?
— Pai provavelmente arrumou uma nova namorada. — Zane vira
a cabeça. Seu queixo se projeta com um toque de ressentimento.
Observo meu gêmeo atentamente. Pelo menos não sou o único
em espiral descendente agora.
Sol olha para cada um de nós por sua vez.
— O que há com essa cara emburrada? Não é a primeira vez
que vocês são arrastados para a vida amorosa do pai de vocês.
Não é mesmo. Tenho conhecimento da afinidade do pai por
mulheres mais jovens desde que ele era casado com a mãe.
Naquela época, ele mantinha sua necessidade de companhia
externa em segredo.
A mídia não foi muito gentil com ele interpretando o babaca do
rock and roll quando tinha três filhos e uma esposa em casa.
Pai estava desesperado para fazer o casamento com a mãe
funcionar, não por ela, mas por sua carreira. Uma das melhores
coisas que a mãe já fez foi expor suas besteiras e deixar suas
traições para trás.
Infelizmente, a partida dela não impediu o pai de usá-la como
escudo. Enquanto a imprensa continuar falando sobre o "divórcio
amigável" deles e o fato de que "ainda são amigos", ninguém olha
mais a fundo para suas atividades.
— Não me importo com o que o pai quer fazer a portas
fechadas. É quando ele tenta nos arrastar para isso — murmura
Finn.
Zane concorda com a cabeça.
— Os sorrisos falsos, as sessões de fotos, as estúpidas
entrevistas para revistas que têm os fatos todos errados. Uma perda
de tempo maldita.
— Talvez ele realmente se importe com essa — oferece Sol. —
As pessoas mudam.
— Pai nunca vai mudar — diz Zane sombriamente.
Ele está certo. Pai é um caso perdido. Meus irmãos
desconhecem a extensão total de seus malfeitos, e espero que
nunca tropecem na verdade. Alguns fardos são meus para carregar
sozinho.
Nossos telefones apitam novamente.
Pai: Aqueles que não aparecerem terão seus fundos congelados.
Então sugiro que tirem seus sapatos de festa do armário quando eu
mandar.
— O quê? — pergunta Sol, notando nossas caretas mudando.
— O convite do pai veio com um botão de "RSVP ou Então" —
diz Finn.
Minha cabeça começa a latejar. Que diabos ele está aprontando
agora?
— Não vou — Zane pega sua mochila e sai pisando forte em
direção à porta. — Diga a ele que pode ir se ferrar.
A porta se fecha com um estrondo atrás dele.
Finn olha fixamente para o chão.
— Eu também deveria ir.
— Vai para a aula? — pergunto, surpreso.
— Não.
Finn não diz mais nada e eu não insisto. Cada um tem sua
própria maneira de se desmanchar. Ele me ligará se precisar de
mim.
Sol fica para trás.
— Vai descontar na sua guitarra de novo?
Desabo no sofá e tomo mais um gole de água. Droga. Queria ter
algo mais forte que isso. Mas tocar guitarra bêbado não é algo que
me agrade.
Sol se aproxima do sofá, mas não se senta.
— Você ainda não me contou como me colocou de volta em
Redwood.
Olho para cima, estreitando os olhos.
Sol deixa o silêncio se prolongar. E então ele diz: — É ela, não
é? A morena que entrou no ginásio com seu pai hoje. Aquela que
você correu atrás como um louco.
Ainda não digo nada.
O rosto de Sol fica sério, sincero.
— O que você fez para expulsá-la, Dutch?
— Acabou, cara. Apenas esqueça. — Levanto-me de um salto e
me preparo para sair tempestuosamente.
Sol me agarra. Suas cicatrizes estão à mostra. Observo a
maneira como suas veias saltam sob as crostas pretas. Em qual
dessas veias ele estava mirando? Ele teria tentado se machucar se
eu o tivesse salvado a tempo? Se eu tivesse tirado Cadence de
Redwood em vez de me distrair com seus jogos estúpidos?
— Dutch... — As palavras de Sol são direcionadas a mim, mas
seus olhos estão fixos na parede acima da minha cabeça. — Eu sei
que vocês se culpam pelo que aconteceu naquela noite. Mas eu não
culpo vocês. Nunca culpei. E sobre aquela garota...
— Sobre aquela garota — interrompo —, fizemos o que
tínhamos que fazer. Não tem nada a ver com você e também não
será rastreado até você. Então não precisa se preocupar com isso.
— Você acha que é com isso que estou preocupado?
Claramente há algo acontecendo aqui e está te matando por dentro.
— Que tal você se preocupar consigo mesmo? — disparo.
Os olhos de Sol se arregalam e então ele franze os lábios.
— Certo. Acho que deveria.
Viro-me para longe dele, embora saiba que provavelmente
deveria me desculpar por ser um idiota. É o primeiro dia de Sol de
volta e, em vez de comemorar, estamos todos desmoronando.
E de quem é a culpa?
Meus dedos se fecham em punhos. Pai e os policiais
aparecerem em nossa assembleia matinal é uma coincidência
grande demais. O show de merda de hoje não foi por acaso. Foi
orquestrado.
Cadence, você está tentando ser uma garota má?
Meus lábios se curvam com o pensamento. Jinx me avisou que a
"Garota Nova" era uma lutadora. E embora Cadence tenha me dado
um monte de desaforo, ela não estava lutando muito até agora.
Será que ela está finalmente tentando causar algum dano?
Tenho que dar o crédito a ela. Para sua primeira rodada, não foi
uma jogada ruim. Todo o seu esforço conseguiu deixar uma marca.
Mas será que ela está pronta para as consequências?
Dirijo-me para a porta, minhas pernas devorando a distância.
Sol me chama.
— Aonde você vai?
— Resolver um problema. — Verifico meu relógio. O primeiro
período acabou. Brahms deve estar saindo da aula agora. — Me
encontre no estacionamento ao meio-dia. Vou te levar para sua
sessão de terapia.
Sol limpa a garganta.
— Você não precisa fazer isso.
Em um tom firme, repito.
— Me encontre no estacionamento.
Ele assente.
— Você ainda tem seu cartão para a sala de prática, certo?
— Sim.
Satisfeito, atravesso a porta. Quando entro no corredor principal,
o fluxo de conversas para.
Já estou acostumado com os olhares, mas desta vez é diferente.
Mais pesado. Todos sabem que Jarod Cross é nosso pai e isso vem
com sua própria reverência, mas ter Jarod Cross aqui em pessoa
hoje, lembrando a todos de sua genialidade? Isso inspira um tipo
diferente de admiração.
Ignoro os sussurros, os olhares - tudo. Eu não pedi para ser filho
de Jarod Cross. Na maioria das vezes, nem quero ser parente dele.
A forma como esses garotos o idolatram só me faz ressentir ainda
mais.
Eles não têm cérebro para pensar por si mesmos? Estão tão
cegos por dinheiro, fama e estrelato que até um canalha como meu
pai poderia governar o mundo?
Meus passos são firmes e determinados. Não dou a mínima para
ninguém fora do meu círculo. Nada disso importa mesmo.
Onde diabos você está, Brahms?
Mantenho meus olhos atentos enquanto ando. Não demora
muito para encontrá-la no corredor.
Meus passos diminuem.
Meus olhos se estreitam.
De acordo com Jinx, Brahms passou seu primeiro mês se
misturando em Redwood Prep. Ainda estou tentando entender como
ela conseguiu isso. Não há absolutamente nenhuma maldita
maneira de qualquer cara com olhos perder aquelas pernas.
Olho para aquelas coxas brancas e cremosas com uma nova
perspectiva.
Essas pernas são as mesmas da Ruiva.
Como diabos eu não percebi isso?
Minha raiva ganha vida como um tornado de amargura. Abro
caminho direto para Brahms.
Ela está de costas para mim, mas não demora muito para que a
consciência tense seus ombros. Ela olha ao redor, percebendo
como a multidão está se movendo nervosamente.
Quando ela se vira, o cabelo castanho longo e brilhante voa.
Seus olhos encontram os meus e se arregalam de medo.
Pelo menos ela sabe que deveria estar com medo.
Estudo aqueles olhos castanhos, tentando entendê-los. A Ruiva
tinha olhos verdes vívidos, como a grama macia da primavera.
Cadence deve ter usado lentes de contato enquanto era sua outra
personalidade.
O que mais ela mudou?
Examino seu rosto bruscamente.
Maquiagem.
A Ruiva sempre usava maquiagem pesada.
Ficava muito bem nela - em Cadence. Todo aquele delineador
grosso realçava a sensualidade em seus olhos. E aquele maldito
batom vermelho...
Mas Cadence não usa nenhuma maquiagem. Nada além do
brilho cintilando em seus lábios pecaminosos. Lábios que estão se
abrindo agora mesmo enquanto paro bem na frente dela.
Ela ergue o queixo. — O que você quer?
O medo anterior desapareceu, substituído por um desdém
descarado. Ela aperta o lábio inferior e me lança um olhar de
repreensão.
Ela é tão corajosa assim ou é tão estúpida?
De qualquer forma, vou ensiná-la como é a submissão.
Agarro seu pulso e a arrasto pelo corredor. Os garotos abrem
caminho na minha frente, não ousando ficar no meu caminho.
Sussurros ecoam pelo corredor lotado. Provavelmente seremos
destaque no aplicativo idiota de Jinx esta noite.
Não dou a mínima.
Brahms bate no meu braço, tentando ao máximo descolar meus
dedos de sua pele.
Dou uma risada sombria e olho por cima do ombro. — Continue
lutando assim e vou encontrar outra maneira de te levar para onde
eu quero.
— Tente e veja o que acontece.
Ergo uma sobrancelha.
Ela vê minha expressão e finca os pés no chão. — Eu juro,
Dutch, me jogue sobre seu ombro como um homem das cavernas
de novo, e vou arrancar sua orelha com uma mordida.
Seus olhos castanhos cospem chamas. Sua voz carrega
verdadeiro veneno.
Meus olhos vasculham os dela, procurando algo que não está lá.
Então vejo a verdade.
Ela nunca se importou comigo de verdade.
Todas aquelas vezes que pensei que estávamos nos
conectando...
Estupidez.
Nenhuma parte dela era genuína. Ela me manipulou como um
idiota.
Meus dedos apertam seu pulso, apertando tão forte que seu
rosto se contorce.
Seus olhos castanhos encontram os meus âmbar e ela me
fulmina. — Me solta!
Viro a esquina em vez disso.
— Dutch! Eu disse... — Ela luta ainda mais. — Para onde
estamos indo?
Eu não sei.
Para longe de todos.
Para algum lugar onde não vão ouvir seus gritos.
Meus pensamentos são um turbilhão, oscilando entre quentes,
violentos e cruéis.
Cadence é bonita e irritante e calma demais depois do que ela
me fez passar. Como apago essa raiva e a substituo por medo?
Como devolvo a angústia que ela me causou?
Viro em outro corredor e chuto a porta de saída de emergência.
Arrastando seu rosto mentiroso para a escadaria vazia, jogo-a
contra a parede.
Ela bate com força e ofega.
— Ruiva. Cadence. Alguma outra personalidade que eu deveria
saber?
Espero que ela se encolha, implore por misericórdia, peça
desculpas.
No mínimo, espero choque.
Mas ela inclina a cabeça para trás e ri. — É por isso que você
está fazendo isso? Porque não percebeu que eu era a mesma
pessoa com uma peruca e maquiagem?
— Tenha muito cuidado, Brahms. Não estou com um humor
generoso hoje.
— Quando você já foi generoso? — ela rosna. — Você mexeu
nas minhas notas para me expulsar de Redwood. Você destruiu a
vida do Sr. Mulliez e fez o seu melhor para destruir a minha. Você
pensou por um segundo que eu te veria como algo além do monstro
que você é?
Cada palavra me atinge no peito como balas de uma arma
fumegante. Quero envolver meus dedos em volta de seu pescoço e
sufocá-la. Qualquer coisa para impedi-la de jogar mais sal em uma
ferida aberta e pulsante.
— Você sabe — pressiono e falo entre os dentes — o quão
perigosamente perto estou de te mostrar como é um verdadeiro
monstro?
Seus olhos estão escuros o suficiente para derreter aço em prata
líquida. Ela não recua.
Droga.
Ela não tem medo o suficiente de mim.
Agarrando a nuca dela, puxo sua cabeça para mais perto de
mim. Seu cabelo escuro está grudando no suor de sua bochecha.
Seu peito está ofegante.
Deslizo um dedo até sua clavícula e traço as linhas delicadas. —
Quantos caras você enganou com aquela peruca vermelha? Sou o
primeiro que não pagou pelo privilégio de separar suas belas
perninhas enquanto estava fantasiada?
A calma deixa sua expressão bem rápido. Ela tenta me dar um
tapa.
Agarro suas mãos e as prendo contra meu peito.
—Sai da minha frente — ela cuspe as palavras.
Eu a empurro de volta contra a parede e moldo meu corpo ao
dela. Pairando sobre ela, sussurro: —Por quê? Não consegue lidar
com a verdade?
Seu hálito quente banha meu rosto. —Seu pedaço de escória
nojento.
Eu rio, baixo e ameaçador.
Ela se debate mais, se contorcendo desesperadamente para se
livrar do meu aperto.
Todo esse esfregar e rebolado não intencional está enviando
raios direto para minhas calças. Afundo meus dedos em seus
quadris, determinado a aumentar a pressão. Seu corpo se sente tão
bem que dói.
—Pare. De lutar — eu aviso.
É como se seus ouvidos estivessem bloqueados.
Então uso meus próprios métodos únicos de submissão.
Empurrando para frente, me esfrego contra ela.
Nossos quadris se encontram em uma colisão explosiva.
Ranjo os dentes enquanto a fricção me transforma em uma
frigideira humana.
Seus olhos se arregalam quando ela sente todo o meu corpo
pressionado contra sua saia. Vejo sua garganta subir e descer de
medo, mas sua voz é firme quando diz: —É assim que você quer
jogar, Dutch? Você não pôde ter nenhuma versão de mim, então vai
pegar o que quer?
Suas provocações destroem minha paciência. Prendo seus
braços acima da cabeça, meus dedos queimando em todos os
lugares que toco. Sua respiração atinge minha bochecha em
baforadas quentes e entrecortadas.
—Devo quebrar você, Brahms? Aqui e agora? — Movo minha
mão contra sua coxa, subindo por baixo de sua saia provocante da
Redwood Prep. O tecido roça as costas dos meus dedos. Suas
coxas internas estão pegajosas.
Deslizo meus dedos na bagunça que ela fez e então removo
minha mão de sua saia. Mantendo meus olhos nela para ter certeza
de que está assistindo, coloco meu indicador na boca e passo a
língua pelo dedo. Seu gosto é como mágica e fecho os olhos,
gemendo levemente.
Um gemido escapa de seus lábios, e isso faz meu sangue ferver
ainda mais.
A atração entre nós ainda está ardendo, queimando, viva. Mas o
ódio também está. E isso cria uma mistura perigosa e volátil que
ameaça nos despedaçar por dentro.
—Bastardo — ela geme.
Isso só me incentiva a explorar suas coxas novamente. A
sensação de sua pele macia me empurra direto para o precipício da
insanidade. Agarro um punhado de sua saia, precisando tirá-la de
seu corpo. Precisando de mais da pele dela na minha.
—Você é a única que pode jogar jogos, Brahms? — sussurro em
seu ouvido. —Agora estamos jogando o meu jogo.
Seus olhos faíscam de fúria. Ela levanta a perna, pretendendo
me acertar onde mais dói. Mas eu a vejo de longe e pego sua perna
pelo tornozelo. Um sapato preto gasto escorrega de seu pé
enquanto puxo sua perna ainda mais alto, trago sua coxa contra
minha cintura e a abro.
Calor contra calor.
Pressiono-me contra ela.
Minha necessidade é violenta. Monstruosa. Insaciável.
Mal consigo ver, mal consigo ouvir, exceto pelo rugido em
minhas calças, um cântico brutal me incitando a fazer apenas uma
coisa - afastar sua calcinha para o lado e obliterá-la.
Brahms geme de prazer e então parece chocada que o som veio
dela.
Um rubor vermelho mancha suas bochechas. Sua voz treme. —
Sai de cima.
Ela tenta se contorcer para se libertar, mas minha mão é uma
faixa de aço em seus pulsos e meu tronco a está prendendo no
lugar.
Não há como escapar disso.
Não há como escapar de mim.
—Você conseguiu sobreviver como o rato que é, Brahms —
sibilo, tentando ignorar meu próprio desejo latejante. —Mas isso não
acabou. Enquanto você estiver em Redwood, vou fazer da sua vida
um inferno. — Selo as palavras com um movimento punitivo dos
meus quadris que faz sua cabeça bater na parede.
Sua respiração escapa em um arquejo.
Suas narinas se dilatam.
Ela crava os dedos no meu ombro, com a cabeça jogada para
trás e os olhos fechados.
Nesse momento, vozes vêm de baixo. Passos ecoam nas
escadas. Estudantes estão vindo nessa direção.
Brahms levanta a cabeça. Ela os ouve também. O pânico
imediatamente enche seus olhos. —Dutch, me solta.
—Por quê? — provoco. Traçando minhas mãos sobre suas
coxas novamente, sussurro: —Você ia me dar naquela noite no
piano de qualquer jeito. O que é uma pequena plateia?
—Me solta! — Seus olhos estão afiados.
Lambo meus lábios, percebo que seu gosto está fraco na minha
língua agora e arrasto meu dedo sobre o tecido de sua calcinha
para coletar outra amostra. Tomo meu tempo, deixando-a saber que
não respondo a ninguém. Especialmente a ela.
Mas isso se volta contra mim. Sua carne trêmula leva meu corpo
ao limite.
Meus joelhos quase cedem de tanto que a desejo.
Droga. Ela fez de novo. Me despiu. Me deixou cru e cambaleante
com uma necessidade que nunca conheci. Estou sentindo... não sei.
Tudo. Sentindo com uma intensidade que me assusta pra caramba.
—Dutch... — Ela está implorando agora.
—Eu te disse, Brahms — exalo, lutando contra a onda de
necessidade. —Eu sou seu dono. Você está à minha mercê.
As vozes estão mais altas agora.
Há risadas, conversas.
Sapatos batendo cada vez mais forte.
Mais rápido.
Quase...
Eu a solto logo antes que a primeira cabeça entre em nosso
campo de visão. Cadence abaixa para esconder o rosto e dispara
pela porta como se zumbis estivessem em seu encalço.
Os estudantes param de falar quando me veem carrancudo
como uma fera no frio, minhas calças mais apertadas que uma
linguiça embalada em plástico filme. Silenciosamente, eles passam
por mim, mantendo os olhos desviados.
Quando eles se vão, eu ajeito minhas calças e calmamente volto
para o corredor.
O segundo round está prestes a começar.
Eu decidi. Vou reduzir Cadence Cooper a pó.
Como ela ousa me fazer de bobo? Como ela ousa esquecer seu
lugar? Como ela ousa me fazer sentir qualquer coisa além de
desprezo e ódio?
Vou lembrá-la de quão insignificante ela é.
Desta vez, é pelo bem de ninguém além de mim mesmo.
J : C P E E
Coisas A Garota Nova e o Príncipe Encantado foram vistos todos
enroscados na escadaria depois da primeira aula. Será que confundi
raiva com desejo? Ou isso é apenas mais um truque para
aprofundar a facada?
Uma coisa é certa, a Novata vai precisar de toda a ajuda
possível. Minhas fontes me contam que a Capitã Pompons não é a
única inimiga que a nossa Cinderela residente fez hoje.
Talvez quem chamou a polícia devesse ter pensado duas vezes
antes de cutucar o vespeiro. A vingança pode ser doce no momento,
mas ouvi dizer que queima como o inferno ao descer pela garganta.
Até o próximo post, mantenha seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais.
- Jinx
CHAPTER
TRÊS
CADENCE
— Finalmente. Você voltou. — Vi irrompe na sala de estar no
momento em que a porta da frente se fecha atrás de mim. — Você
viu meu... nossa. Você está bem?
— Estou bem. — Forço um sorriso radiante.
— Turno longo?
— Na verdade, não. Acho que estou apenas cansada. Talvez
ainda esteja um pouco gripada.
— Você deveria ter ficado em casa e descansado como eu te
disse. — Ela franze a testa para mim.
— É, eu deveria ter te ouvido — admito.
Viola e eu tivemos uma briga enorme na noite em que fui ao
show no parque. As coisas ficaram tensas entre nós por alguns dias
depois, mas o gelo tem derretido lentamente à medida que os
sentimentos feridos foram se acalmando.
— Quer que eu faça um chá ou algo assim? — Ela oferece
hesitante.
— Você sabe fazer chá?
— Na verdade, não. Mas não deve ser tão difícil, certo? São só
folhas e água.
— Obrigada, mas acho que vou me sentir melhor depois de um
banho. — Tiro os sapatos e vou para o corredor. Então olho para
trás. — O que você estava dizendo quando entrei?
Sua expressão muda para uma irritação confusa. — Não consigo
encontrar meu colar. Aquele que o pai me deixou antes de morrer.
— Você tirou ele do porta-joias? — pergunto.
— Acho que usei para um vídeo, mas tenho certeza que guardei
de volta. — Seu nariz se enruga. — É tipo, a coisa mais valiosa que
tenho. Odiaria perdê-lo.
— Você não saiu de casa com ele, certo? Então significa que
está em algum lugar aqui. Deixe-me só tomar um banho rápido e te
ajudo a procurar. — Pego um short e uma camiseta velha no meu
quarto e ando cansada pelo corredor.
Assim que tranco a porta do banheiro atrás de mim, agarro a pia
e encaro o topo da torneira, perdida em pensamentos. Mais uma
vez, menti para minha irmã sobre o que estou passando. Ela acha
que estou gripada e, honestamente, eu queria estar. Tornaria minha
vida muito mais fácil.
Infelizmente, o problema que me aflige não é uma doença. É
uma pessoa. Um cretino alto e imponente com olhos âmbar
impressionantes e um corpo esculpido à perfeição.
Meu coração acelera só de pensar em Dutch. Quando ele me
prensou contra a parede, eu pude senti-lo - cada relevo de seus
abdominais, cada plano duro de seu peito e mais. Muito mais.
Eu o odeio.
Odeio mesmo.
Com cada respiração em meus pulmões.
Mas odiá-lo e desejá-lo não parecem ser mutuamente
exclusivos. Por mais que eu quisesse mordê-lo, chutá-lo e arranhá-
lo hoje, eu também queria suas mãos percorrendo todo o meu
corpo. Eu queria que sua boca provocasse meus lábios. Eu queria
todas as promessas sujas presas em seus olhos voláteis.
Ele rosnou para mim e eu derreti.
Ele me agarrou e eu ofeguei.
Apesar de todas as tentativas de me manter forte, não pude
esconder o quanto gostei.
Ele é perigoso.
Eu sabia disso. Eu sempre soube disso.
Mas se eu não conseguir controlar meus estúpidos hormônios,
ele realmente conseguirá me quebrar. Recuso-me a permitir que
isso aconteça.
Memórias manchadas e luxúria não são suficientes para apagar
todas as coisas horríveis que Dutch fez. Podemos ser atraídos um
pelo outro como ímãs supercarregados, mas é um caminho que
termina em destruição para um de nós.
Minha ou dele.
E com certeza não será a minha.
Preciso ser mais forte. Essa é a única maneira de me formar em
Redwood Prep e encontrar um bom emprego para manter um teto
sobre a cabeça de Vi e comida em seu estômago. Nada mais
importa.
Tirando minhas roupas, entro no chuveiro. Enquanto a água
escorre pelos meus ombros e coxas, fecho os olhos e respiro fundo.
Meu plano para manter meu lugar em Redwood Prep ocorreu
sem problemas, mas ainda me sinto inquieta. Agora que foi
humilhada na frente de toda a escola, Christa terá um alvo nas
minhas costas. Ela foi astuta o suficiente para me empurrar na
piscina da última vez. Seu próximo movimento pode ser ainda mais
insidioso.
Acho que tenho algum tempo antes que ela ataque. Com todos
os olhos nela, ela será forçada a se manter discreta por um tempo.
A escola inteira sabe o que ela fez comigo. Além disso, eu disse ao
pai dela para mantê-la na linha. Como Miller foi tão capaz de
restaurar minhas notas, tenho fé que ele pelo menos falará com
Christa. Mas não sou estúpida o suficiente para pensar que isso
será capaz de contê-la.
De agora em diante, preciso ficar de olhos bem abertos.
Saio do banho frio e enrolo uma toalha ao redor do peito.
Meu telefone acende no canto da pia. Eu o pego, atônita ao ver o
nome de Hunter piscando na tela.
— Alô?
— Ei — sua voz profunda envolve meu corpo —, espero que não
seja tarde demais para ligar.
— Não, claro que não. — Coloco o telefone no viva-voz, pego
meu hidratante diário e bombeio o creme nas pontas dos dedos.
— Rick mencionou que esbarrou em você há um tempo.
Minhas mãos congelam no meio do caminho para o meu rosto.
— Ele mencionou?
— Ele parecia um pouco chateado com isso também. Não me
deu detalhes, mas tive a impressão de que ele não estava
esperando que você, sabe, se parecesse tanto com ela. Meio que o
assustou.
Respiro fundo. — Rick disse que conheceu a mãe uma vez.
— Sim, ela apareceu no lar uma vez. Vestida com uma peruca
vermelha e cheirando a mijo. Parecia assustadora. Rick não queria
conhecê-la, mas também não queria não conhecê-la, eu acho. Ele
não queria se arrepender se fosse embora e nunca mais a visse. —
Hunter faz uma pausa. — O que provavelmente foi uma boa
decisão, porque foi exatamente o que aconteceu.
— Quantos anos ele tinha na época? — sussurro.
— Não tenho certeza. Onze? Doze talvez?
Minha respiração se esvai.
Mãe realmente o afetou. Por que ela simplesmente não deixou
Rick em paz se não ia fazer parte da vida dele?
— O que ela disse para ele naquele dia? — pergunto.
— Não sei. Rick nunca falou sobre isso, e eu não insisti. Tem
algumas coisas que você precisa guardar para si mesmo, sabe? As
pessoas mantêm sua escuridão trancada por um motivo. É a única
maneira de seguirem em frente.
— Eu entendo isso — sussurro, inclinando a cabeça para trás.
Meu coração dói pelo meu meio-irmão. Vi e eu não tivemos a
melhor vida, mas pelo menos tínhamos uma à outra. Rick teve que
enfrentar o mundo sozinho, sem saber por que havia sido
abandonado.
Hunter limpa a garganta. — De qualquer forma, com tudo o que
está acontecendo, a namorada dele sugeriu que planejássemos
algo para o aniversário dele no mês que vem para animá-lo. Estou
convidando você e Vi. Você está interessada?
— Você acha que Rick quer que a gente esteja lá?
— Claro que sim. Ele tem uma família e, quer ele admita ou não,
família é importante para pessoas como nós. Você não passa pelo
que passamos e não aprecia as pessoas que te apoiam.
Eu hesito. Rick não tem sido muito entusiasmado em ter duas
meias-irmãs. Ele provavelmente nos ressente ainda mais depois
que a mãe o deixou com toda a responsabilidade de cuidar de nós.
— Rick não vai dizer, mas ele se importa com vocês — Hunter
insiste.
— Ok. Eu estarei lá. E vou trazer Vi.
— Ótimo. — Ele limpa a garganta.
— Tem mais alguma coisa?
— O que você vai fazer amanhã depois da escola?
— Amanhã? — Inclino a cabeça e penso sobre isso. Depois do
trabalho comunitário, tenho meu turno na lanchonete. — Estou um
pouco ocupada. Por quê?
— Eu estava esperando que você pudesse me ajudar a escolher
um presente para o Rick. Sou péssimo nesse tipo de coisa.
Eu pisco rapidamente. Ele está me pedindo porque realmente
precisa da minha ajuda ou é uma desculpa para passar tempo
comigo?
Posso praticamente ouvir Breeze gritando na minha cabeça.
Claro que é um encontro, sua boba!
— Se você estiver muito ocupada...
— Não. — Solto. — Não, eu posso ir com você. Eu... eu gostaria
disso.
Hunter é lindo, gentil e não é um grande idiota como algumas
pessoas. Passar um tempo com ele é um uso melhor do meu tempo
do que jogar jogos mentais com um monstro em forma humana, de
qualquer maneira.
— Ótimo. — Sua voz soa animada, e isso me faz sorrir.
— Ótimo — digo.
— Eu te pego em Redwood então.
— Ótimo — guincho.
Ele ri. — Ótimo.
Meu coração acelera. Por que me sinto tímida e desajeitada de
repente?
Depois de colocar o telefone na pia, solto um grito nervoso e
fecho os olhos com força.
O que devo vestir amanhã?
Enquanto passo hidratante, passo mentalmente pelo meu
guarda-roupa. Quando me lembro que vou estar usando meu
uniforme de qualquer jeito, meus nervos se acalmam um pouco.
Não pense demais nisso, Cadence.
Termino de me vestir e saio do banheiro. Uma sombra se move à
minha direita. Solto um grito frenético antes de perceber que é Vi.
Ela está parada do lado de fora da porta, com os braços cruzados
sobre o peito. Seu cabelo escuro cai sobre os ombros e seus olhos
estão fixos nos meus.
— Por que você estava rindo? Quem era no telefone? — Vi
pergunta.
— Você está me espionando agora?
Vi estreita os olhos. — Era Dutch ou Hunter?
— Hunter. — Franzo a testa. — Por que Dutch estaria me
ligando?
Vi me segue até meu quarto. — Você realmente vai sair com
Hunter agora?
— É só para escolher um presente para a festa de aniversário do
Rick no mês que vem.
— A festa é daqui a um mês. Quem planeja com tanta
antecedência assim?
— Talvez ele queira se adiantar.
— Você não pode realmente acreditar que é só isso.
— Sim, Vi. Eu acredito. — Jogo minhas roupas sujas no cesto
transbordando. Preciso arranjar tempo para levá-las à lavanderia
neste fim de semana. Se isso continuar, não terei nenhuma roupa
casual para vestir.
— Hunter é, tipo, muito mais velho que você.
— E daí?
— Então, não é super ilegal namorar uma menor?
— Não estamos namorando. — Tiro um uniforme limpo do
armário.
A Srta. Jamieson viu que eu continuava reutilizando meu
uniforme de Redwood Prep e me conseguiu um monte de peças
diferentes para usar. Eu as lavei à mão no domingo, por isso tive
que usar meu uniforme antigo hoje. Mas daqui para frente, terei a
opção de combinar muito mais, assim como as outras crianças.
Normalmente não sou do tipo superficial, mas meu estômago
borbulha de empolgação quando penso em ter algo novo para vestir
na escola.
Vi pega o cabide e empurra o rosto para perto do meu. Seus
olhos se estreitam com suspeita. — E quanto ao Dutch? Você não
está namorando ele?
— Não estou.
— Então explique isso. — Ela me mostra seu telefone. Há uma
foto minha e de Dutch. Minha perna está enrolada na cintura dele
enquanto ele me prensa contra a parede. A foto está escura e
obviamente a pessoa tirou de longe, mas ainda posso ver seus
olhos cor de avelã me devorando como um animal sobre uma
carcaça.
— Não olhe para isso! — grito e desligo o telefone. — Como
você conseguiu o app do Jinx? Você não precisa usar um cartão de
crédito para acessá-lo?
— Pedi àquele cara que faz identidades falsas para desbloquear
para mim. Foi a coisa mais fácil.
— Viola!
— O quê? Não é como se eu tivesse pedido uma identidade
falsa.
Forço seu braço para baixo. — Por que você baixou um app para
Redwood Prep? Você deveria estar focada nos seus estudos, não
se atolando em fofocas de gente rica. As pessoas naquela escola
têm todo o dinheiro e tempo do mundo para desperdiçar. Você não.
— Não tente me distrair. Diz aqui que Cinderela e o 'Príncipe
Encantado' foram pegos se agarrando hoje. Você é a Cinderela,
certo? Está escuro na foto e Dutch está cobrindo a maior parte do
seu corpo, mas tenho certeza que é você.
Meu coração dá um salto no peito.
— Não sou eu — aperto a ponte do nariz. — Não acredite em
nada do que a Jinx diz. É tudo boato e sensacionalismo.
— Tem certeza? — Ela me observa.
— Juro. Eu nunca namorei e jamais vou namorar aquele cara.
Juro por tudo que é mais sagrado.
— Não fala assim — Vi fica pálida. — Não quero que você
morra.
— Não vou morrer. É só uma expressão — visto uma jaqueta. —
Vou lá fora procurar seu colar.
Minha mente trabalha a mil por hora enquanto vasculho no
escuro. A Jinx está mantendo segredo sobre minha identidade
secreta. Por quê? O aplicativo é só fachada? Ela ainda está fazendo
acordos secretos com as pessoas? Ou está guardando essa
informação para quando nada de empolgante estiver acontecendo e
ela precisar manter seus assinantes satisfeitos?
Sinto como se a corda no meu pescoço estivesse apertando. Eu
devia ter encontrado outro segredo para dar a ela.
Minha cabeça está me matando. Por que esse dia não acaba
logo?
Me forço a fazer uma busca meia-boca pelo colar. Desistindo
depois de dez minutos, digo a Viola que procurarei mais amanhã e
me jogo na cama.
Na manhã seguinte, há uma mensagem do Hunter no meu
celular.
Preciso de algo especial para usar o estacionamento da
Redwood Prep?
Digito uma resposta e me arrumo para a escola.
Viola está na sala de jantar se maquiando.
— Você acordou cedo — digo, pegando a caixa de cereal.
— Minha irmã é uma celebridade — ela fecha um olho e cola
cílios postiços nele. — Então, naturalmente, devo começar a me
arrumar melhor. Nunca se sabe quando os paparazzi virão atrás de
mim também.
— Não era eu — bufo. — E mesmo que fosse, aparecer no blog
da Jinx não faz de ninguém uma celebridade.
— De qualquer forma, estarei pronta para meu close.
Reviro os olhos e me sento à mesa para comer.
— Você está bonita — seu olhar percorre meu uniforme. Estou
usando uma das blusas chiques com laço no pescoço. Minha saia é
azul em vez de vermelha hoje. E está realmente no comprimento
certo para minhas pernas longas.
— Obrigada — faço uma pose. Meu sapato entra em foco e
percebo que há uma marca de arranhão nele.
Instantaneamente, sou inundada por lembranças do Dutch me
puxando pelo tornozelo e se esfregando em mim. Quando ele
dobrou minha perna ao redor de seus quadris, não foi só meu
sapato que caiu. Meu queixo também.
Eu nunca tinha sentido um prazer tão violento como quando ele-
— Cadey, você está... corando? — Viola arqueia uma
sobrancelha para mim.
Rapidamente, aperto as coxas. — Está quente aqui — correndo
para a geladeira, me sirvo um copo d'água e luto para me manter
calma.
Dutch tem a capacidade de despertar meus desejos mais
sombrios, mas já me apaixonei por aqueles músculos definidos,
olhos âmbar selvagens e cabelos loiros grossos uma vez antes e
olha onde isso me levou?
De agora em diante, vou ficar bem longe do Dutch Cross.
Não vou dar a ele a oportunidade de me machucar. De novo.
CHAPTER
QUATRO
DUTCH
Sol bate a porta do carro e se junta a mim e Finn na calçada.
Zane solta um suspiro. Ele está usando um par de óculos escuros
para esconder seus olhos vermelhos e rosto inchado.
Na noite passada, meu irmão não voltou para a vila.
Esta manhã, encontrei-o na cozinha gemendo e se afogando em
quantidades copiosas de café. Ele parecia os restos de um desastre
natural.
Finn e eu não fizemos perguntas. Zane usa sua disfunção como
se fosse uma cueca boxer de grife. Como ele não passou a noite
batendo em sua bateria, significa que ele teve um ótimo tempo
transando com alguma garota que nunca mais verá.
Não preciso dos detalhes.
Colocando uma mão no bolso, lidero a caminhada para a
Redwood Prep.
— Ugh, minha cabeça — Zane faz um grande teatro de agarrar a
cabeça e se curvar.
— Se você vai ficar choramingando o dia todo, era melhor ter
ficado em casa — Finn repreende.
Olho feio para ele. — Você ainda está bêbado. Não se preocupe
em ir para a aula hoje e fique sóbrio na sala de ensaio.
— Não me diga o que fazer — Zane diz brincalhão.
Sol me olha. — Eu ia perguntar, aconteceu alguma coisa entre
ele e aquela professora enquanto eu estava fora?
— Ele queria.
— Ela o evita como se ele tivesse uma doença contagiosa — diz
Finn.
— Conhecendo o Zane, ele provavelmente tem uma ou duas.
Meu gêmeo revira os olhos. — Talvez eu tenha pego da Christa.
— Christa? — zombo.
— E se ela tem, significa que o bom e velho Dutch também tem.
— Você não está falando sério, certo? Você ainda está se
metendo com a Christa depois de tudo? — pergunta Finn.
— Não, mas talvez eu devesse. — Zane levanta as
sobrancelhas. — Agora que Dutch partiu o coração dela e Brahms a
fez ser presa, posso me aproveitar de seu frágil estado emocional.
Depois de tudo pelo que ela passou, ela está destinada a tomar
algumas decisões ruins.
— Se envolver com você certamente conta. — Sol cutuca Zane
com o cotovelo.
— Você não se importa, né, Dutch?
Zombo do meu gêmeo. Ele é insuportável quando está de
ressaca, mas está extra irritante hoje.
— Não me importo com o que você faz com a Christa. Só não se
atrase para o ensaio. Concordamos em fazer aquela November
Bash para a Bex Dane. Temos que afinar nosso set.
Zane me mostra o dedo. — Negreiro.
Ignoro-o e continuo andando.
Dentro da Redwood, a massa de corpos entre nós e o final do
corredor é densa.
Os olhares nos seguem no momento em que passamos pelas
portas. Os sussurros estão especialmente altos hoje. Graças ao
aplicativo idiota de Jinx, perguntas sobre meu relacionamento com
Brahms estão surgindo por toda parte.
Droga.
Eu sinto falta de quando aquele esquisito vendia informações
apenas para alguns escolhidos. Essa estratégia de 'liberar os
segredos' está me irritando.
— Caramba, isso é assustador — diz Sol em voz baixa.
Finn arqueia uma sobrancelha.
Sol gesticula para os garotos que nos encaram. — A maneira
como eles abrem caminho. O jeito que olham para você. No mundo
real, as pessoas não se importam com quem são seus pais. É muito
estranho voltar para Redwood e lembrar que aqui é diferente.
— Você vai se acostumar de novo. — Zane aproxima a cabeça
de Sol. — Você é um de nós. Não tem escolha.
Examino o corredor procurando por Brahms.
Ela já deveria estar aqui, mas não a vejo perto de seu armário.
Um grupo de líderes de torcida desfila em nossa direção,
bloqueando temporariamente minha visão. Quando elas se
aproximam, o cheiro de perfume pesado e bronzeado artificial é
quase esmagador.
A segunda no comando de Christa me para com uma mão em
meu braço. Ela é uma morena animada com um daqueles sorrisos
excessivamente ansiosos e a personalidade de um saco plástico. Eu
não conseguiria lembrar seu nome nem se estivesse tatuado em
sua testa.
Olho para ela. — O quê?
Ela pisca os cílios e pressiona seu corpo contra o meu. É bom,
mesmo que seja um pouco irritante ter uma completa estranha se
agarrando a mim.
Eu permito porque essa garota e eu nunca ficamos antes.
Christa mantinha um controle rígido sobre suas amigas mais
próximas. As líderes de torcida que se aproximavam de mim, todas
o faziam em segredo por medo de que Christa as colocasse na lista
negra da equipe.
Mas agora que Christa perdeu seu poder...
— Ei, Dutch. — Saco Plástico pisca os cílios e lambe os lábios
sugestivamente. — Estou dando uma festa de jazz underground
nesta sexta-feira à noite. Você e seus irmãos são bem-vindos. —
Ela aperta seu aperto em mim, suas unhas deslizando sobre minha
calça. — Podemos nos conhecer melhor.
— Vou pensar nisso.
Ela recua lentamente, ainda lançando ondas e ondas de Eu
quero transar com você até seu cérebro derreter com seus olhos
sedutores.
— Esqueça a Christa. Vou dar uma chance para a amiga dela —
diz Zane, ainda olhando por cima do ombro. — Caramba. Ela
parece estar a fim de qualquer coisa.
Sol ri. — A amiga dela não quer você.
— Ela não sabe que me quer — corrige Zane.
Finn parece pensativo. — Acho que sabemos quem será a
Christa 2.0.
— O que você quer dizer?
— De acordo com Jinx-Zane geme. — Não me diga que você
assinou o aplicativo picareta dela.
— Claro que sim — diz Finn defensivamente.
Seguro minha risada. Finn nunca admitirá, mas é um grande fã
de Jinx. Se ela algum dia revelar sua identidade, ele estaria na fila
para o meet-and-greet.
— O que Jinx disse sobre ela? — Sol pergunta, genuinamente
interessado. Dos quatro, ele é o que menos recebeu ataques da
conta anônima.
— Christa deixou um vácuo de poder. Aquela garota é a vice-
capitã e agora que Christa está fora do caminho, ela quer tudo. As
amigas de Christa. A posição de Christa na equipe. — Finn olha
para mim. — O namorado de Christa-
— Se você disser namorado, vou socar sua garganta.
Zane ri.
Eu os ignoro. Ainda estou procurando por Brahms, mas ela não
está à vista. Droga. Onde ela está? Será que a assustei ontem?
Ela estava disposta a expor Christa e chamar meu pai para
salvar sua pele, mas uma pequena ameaça minha foi suficiente para
cortá-la pelas pernas? Estou ligeiramente desapontado. Pensei que
isso seria uma luta interessante.
Chegamos à entrada do corredor.
Algo faz minha cabeça virar e é então que a vejo.
Brahms.
Ela não está usando seu uniforme normal hoje. Há uma gravata
borboleta ao redor do pescoço de sua blusa e sua saia tem o
comprimento habitual, parando na metade da coxa em vez de mal
cobrir suas nádegas. Seus sapatos também são diferentes. Ela está
usando um par de sandálias brancas de salto que fazem suas
pernas parecerem dez vezes mais longas.
Meu corpo vibra ao vê-la. Lembro-me de envolver aquelas
pernas em volta da minha cintura e sugar aqueles lábios carnudos.
Isso faz a adrenalina disparar direto para o meu coração.
Brahms desliza pelo corredor, com a cabeça erguida. Ela é um
arraso e anda como se soubesse disso.
— Vocês são ridículos — Finn murmura. — Vocês dois.
Desvio o olhar de Brahms e percebo por que Finn está
resmungando. Não sou o único que parou em seu caminho. Os
olhos de Zane estão fixos na senhorita Jamieson. Ela está parada
na outra extremidade do corredor, vestindo um blazer profissional e
uma saia lápis curta e sexy.
Como estamos parados na entrada do corredor, nem Brahms
nem a senhorita Jamieson nos notaram ainda. Elas se misturam na
multidão, caminhando cada vez mais perto.
Meu corpo se inclina na direção de Brahms, mas ainda não me
movo. Parece que minhas intenções são óbvias, no entanto.
Quando os alunos olham para cima e me veem, rapidamente se
achatam contra os armários, abrindo um caminho direto até ela.
O caos alerta Brahms e ela olha para cima.
Seu olhar se choca com o meu. Medo. Culpa. Raiva. As
emoções passam por seu rosto como balas disparadas de uma
arma.
A tensão se espalha pela minha testa. — Eu vou...
— Eu vou...
Minhas palavras se sobrepõem às de Zane.
Observo meu irmão e percebo que ele estava prestes a ir em
direção à senhorita Jamieson. Zane olha por cima do meu ombro e
vê Brahms.
Nós dois trocamos um olhar significativo.
Antes que qualquer um de nós possa ir atrás de nossos alvos, a
senhorita Jamieson levanta uma mão. — Cadence!
— Senhorita Jamieson.
As duas correm uma em direção à outra e colidem no centro do
corredor como irmãs há muito perdidas. Não consigo dizer qual
delas parece mais aliviada por ter encontrado a outra.
— Eu queria discutir algo com você — diz a senhorita Jamieson
em um tom agudo.
— Eu também — murmura Brahms, lançando-me um olhar
rápido.
Zane cruza os braços sobre o peito. Seus olhos estão grudados
na senhorita Jamieson e ele está mordendo o lábio inferior
pensativamente.
Brahms e a senhorita Jamieson caminham rapidamente pelo
corredor.
— Vocês não vão atrás delas? — Finn desafia.
— Elas parecem querer ser perseguidas? — Zane retruca.
O sinal da escola toca, alertando-nos para o início da aula.
Sol dá tapinhas nas costas minha e de Zane. — Vejo vocês,
bobos apaixonados, na aula.
— Quem você está chamando de bobo apaixonado? — eu
rosno.
— Quem você acha que estará na aula? Eu? — Zane aponta
para si mesmo.
Sol sorri e anda de costas. — Bem, eu não tenho escolha. Minha
mãe já me avisou que uma nota ruim e estou fora.
Minhas costas ficam rígidas. A família de Sol não está tão bem
quanto a nossa. Além disso, sua mãe nos culpa pelo que aconteceu
no verão. Há muito pelo que temos que compensar.
Zane e Finn têm expressões igualmente sombrias enquanto
observamos Sol se afastar.
— Você acha que ele está bem? — Zane pergunta.
— Não sei. Ele não fala muito sobre suas sessões de terapia.
Finn olha para mim. — Você pediu para ele tocar na Festa de
Novembro?
— Ele disse que não se sente "disposto" a estar na banda mais.
— A mãe dele provavelmente o pressionou para se afastar de
nós. Ela quer que morramos lenta e dolorosamente. — Zane passa
a mão pelo cabelo. — Temos que ficar de olho nele. Se algo mais
acontecer sob nossa vigilância...
— Não vai acontecer. — Abaixo o queixo. — Não vai acontecer.
O corredor está vazio agora.
Jogo minha mochila mais alto no ombro. — Vamos. Não
podemos deixar Sol ir para a aula sozinho.
Zane geme, mas obedientemente se arrasta pelo corredor.
No momento em que entro na sala de aula, meus olhos pousam
em Cadence como se houvesse um farol de luz sobre sua cabeça.
Ela está sentada no fundo perto da janela, tentando se misturar.
Como se ela pudesse conseguir isso.
Ela inclina a cabeça para baixo. Seu longo cabelo castanho cai
sobre o peito. A luz do sol entra pelas janelas, dando-lhe um brilho
angelical.
Mas eu sei que ela está longe de ser um anjo.
Há um monstro preso sob sua beleza inocente e jovial. Se não
houvesse, a conexão entre nós não seria tão forte.
Seus inquietos olhos castanhos se erguem e encontram os
meus. De repente, meu peito faz um estranho nó. É
surpreendentemente semelhante à sensação que eu sentia perto da
Ruiva.
Exceto que agora está acontecendo com Cadence.
Sentindo uma sensação de irritação e querendo evitar mais
dessas palpitações, desvio bruscamente o olhar.
Assim que chegamos aos nossos lugares no lado oposto da
sala, jogo minha mochila na mesa. Estou irritado e lutando contra
isso, mas está me dominando.
Por que Cadence ainda está debaixo da minha pele?
Ela é apenas mais uma garota — uma que mentiu para mim, me
manipulou e então se revelou uma pequena mente manipuladora
com sua própria agenda. Eu não deveria estar sentindo nada além
de puro ódio por ela.
Com a respiração ofegante, cerro os punhos. Vou queimar todos
aqueles sentimentos melosos que uma vez tive pelo seu alter ego
até ficar puro como a neve. Não há chance de eu deixar Cadence
ter tanto poder sobre mim.
Pelos próximos minutos, fico alheio à aula até ouvir a professora
de música falando sobre um projeto em grupo.
— Vocês precisarão de cinco em um grupo — ela diz, andando
para cima e para baixo na frente da sala de aula.
— Só temos quatro membros. — Finn bate uma caneta contra
seu caderno aberto.
Sol olha ao redor da sala de aula, procurando alguém para se
juntar a nós. — Vocês têm alguém em mente?
— Eu tenho um membro — rosno. Levantando-me, vou direto
para a mesa de Cadence.
Ela fica imediatamente tensa e olha diretamente para frente
como se eu não estivesse ali. Praticamente impossível de fazer já
que estou debruçado sobre sua mesa como uma pantera sobre uma
carcaça.
Bato com os nós dos dedos em sua mesa três vezes. — Você
está comigo.
Sua voz está mais tensa que uma guitarra prestes a estourar. —
Nos seus malditos sonhos.
— Confie em mim, Brahms, a única coisa que você está fazendo
nos meus sonhos é queimando em chamas.
Ela se afasta. — Se a minha visão é tão ofensiva para você,
então por que você me quer no seu grupo?
Me inclino ainda mais perto, desviando o olhar de sua boca sexy.
— É assim que funciona, Brahms. Eu dou uma instrução. Você
obedece. É isso que os plebeus fazem em Redwood.
Sua expressão se endurece de fúria. Ela coloca as mãos no meu
peito e empurra com toda a força. No momento em que suas
pequenas mãos se achatam em mim, sinto uma queimação até a
medula dos meus ossos.
A intensa torção no meu coração piora.
Em vez de recuar, mantenho minha posição e deixo que o
confronto de olhares entre nós se intensifique.
Ela se inclina para frente, seu maxilar se contraindo. — Você não
quer se meter comigo, Dutch.
Nosso confronto de olhares se intensifica.
Odeio que o toque dela ainda desencadeie algo dentro de mim.
Tento desesperadamente encobrir isso com ódio, traição, quaisquer
outras emoções insidiosas que eu possa para impedi-la de tocar as
partes de mim que são vulneráveis a ela.
Seus olhos castanhos se desviam de mim primeiro.
Bom.
Isso é um começo.
— Sente-se aqui. — Aponto com o queixo para onde meus
irmãos e Sol estão observando com diversão.
— Por que você não vai dar uma volta direto de um penhasco?
Ela está resistindo, mas estou cansado desta conversa. Sem
mais palavras, envolvo meus dedos em sua mesa e a arrasto para
fora da formação.
As pernas da cadeira rangem no chão, chamando a atenção do
professor e de todos os outros grupos reunidos para discutir o
projeto.
Cadence agarra sua mesa como se achasse que eu a
derrubaria. Seu rosto está vermelho como fogo. Quando continuo
arrastando-a pela sala de aula, ela grita e levanta os pés para evitar
ficar presa entre a cadeira e o chão.
Eu a movo até minha cadeira antes de soltar sua mesa e cair no
meu assento. Ela está sentada tão perto que posso sentir o cheiro
de seu xampu perfumado e ver as gotas de suor pontilhando sua
testa.
Estou irritado como o inferno por continuar notando até as
pequenas coisas. Como a pequena pinta no lado do seu pescoço.
Ou a forma como sua blusa cai sobre a faixa da saia.
Droga.
Juro que ela está toda na minha cabeça e preciso de um
exorcista para tirá-la.
— Temos nossa integrante do grupo — anuncio, esticando as
pernas como se não estivesse extremamente consciente da mão de
Cadence roçando na minha.
Ela se senta ereta, os ombros erguidos até as orelhas e seu
olhar ousado fixo na parede. Seu peito ofegante trai a verdadeira
extensão de sua raiva, mas ela não está fazendo uma cena.
— Isso mesmo. — Espalho meus dedos sobre seu queixo e a
viro para me encarar. — Seja uma boa menina.
— Toque em mim de novo e juro que sua cabeça vai rolar pelo
corredor como uma bola de basquete — ela rosna.
Eu rio baixinho. Ela sabe o quão frágil é? Quão pequena? Ainda
assim, é tão sincera. Significa cada maldita palavra. Não posso
mentir. Adoro quando ela me desafia. Vê-la lutar me faz sentir vivo.
E isso é tão alarmante quanto a maneira como meu coração
amolece por ela.
Deixo cair minha cabeça na mesa e finjo um bocejo. Secamente,
digo aos meus irmãos: — Cadence fará minha parte deste trabalho.
Eu sinto mais do que vejo seu corpo se arrepiando.
Sol olha brevemente para mim, mas seus olhos se voltam
rapidamente para Brahms. — Ignore-o. Todos nós vamos trabalhar
juntos.
— Eu gostaria de ignorá-lo, mas ele insiste em ser um pé no-
— Termine essa frase por sua conta e risco — eu aviso.
— Me morda.
Viro minha cabeça. Meu olhar desliza preguiçosamente até seus
lábios, maduros para serem tomados, o pulso que palpita em seu
pescoço delicado, e pousa em seu peito. Posso apenas distinguir a
marca de seu sutiã sob o tecido branco.
— Devo? — sussurro. — Você gosta um pouco áspero, Cadey?
Suas narinas se dilatam e ela se inclina para trás.
— É Cadence, certo? — Sol intervém, me dando um olhar
severo. Ele se vira para Cadence. — Você é nova aqui.
— Sim, sou nova — ela murmura sombriamente.
— Ouvi dizer que você mora pela zona sul?
Ela olha para ele com suspeita.
— Eu costumava morar lá também com minha família.
— Sério? Onde? — Há uma nota de interesse na voz de
Brahms.
— Rua Deacon.
— Está brincando? É tipo, a rua ao lado da minha casa.
— Cara, lembro que havia uma barraca de cachorro-quente que
vendia cachorro-quente recheado com queijo na esquina.
— Do Manny.
— O melhor que já provei.
— Ele nunca trocava aquele óleo. Cada cachorro-quente era alto
em sal e sódio e era a melhor coisa de todas. — Cadence sorri tanto
que seus olhos brilham. — Fiquei arrasada quando ele morreu.
— Ele morreu? — Sol parece aflito. — E os cachorros-quentes?
Cadence ri.
Levanto um pouco a cabeça da mesa e olho feio para eles. Que
diabos? Estão rindo sobre cachorros-quentes?
Fico feliz quando o sinal toca e os interrompe.
— Deveríamos trocar números para podermos nos encontrar e
discutir nosso projeto de música — Sol diz para Cadence.
Agarro seu braço antes que ele possa tirar o telefone. — Ela tem
meu número.
Todos os sorrisos e olhos estrelados que Cadence estava
dirigindo a Sol se transformam em enxofre e fogo quando ela olha
para mim. Sinto o cheiro das profundezas do inferno e tenho que
olhar para fora para ter certeza de que não há chamas.
— Eu te mando uma mensagem — Cadence promete a Sol.
Sem mais uma palavra para mim, ela guarda seus livros, me lança
um olhar gélido e sai pisando forte.
Zane sorri com desdém. — O que foi isso? Pensei que você ia
deixá-la em paz agora que conseguiu o que queria.
— Não acabou para mim — afirmo secamente.
Finn arqueia uma sobrancelha.
Saio atrás de Cadence. Ela olha por cima do ombro, me vê
chegando e acelera.
É engraçado como ela pensa que pode escapar de mim. Eu a
encurralo no meio do caminho para seu armário. Meus dedos
pousam logo abaixo da bainha de sua camisa do uniforme e
agarram sua cintura. A sensação de sua carne macia quase me
enlouquece.
Giro-a rapidamente para que ela esteja olhando para mim e a
prendo entre meu corpo e os armários.
Flashbacks do momento em que a encurralei ontem queimam
meu cérebro com calor. Mas sei que é melhor não pensar que posso
deslizar minha mão pela sua coxa na frente de todos. Pelo jeito que
Cadence está me olhando, ela está a segundos de me dar um tapa
na boca e duvido que conseguirei impedi-la desta vez.
— O que você quer, Dutch?
— Não quero que você se aproxime do Sol. — Me inclino e
sussurro em seu ouvido. — Fique longe dele.
— Você está falando sério? — Seus olhos faíscam de raiva. —
Estamos em um projeto em grupo juntos. Mesmo que eu quisesse,
como diabos eu deveria fazer isso?
Os alunos começam a prestar atenção em nós. Não poderia me
importar menos, mas os olhos de Cadence estão se movendo
freneticamente como se isso importasse.
Aproximo-me dela. — Você entra na cabeça das pessoas. —
Minha voz é baixa e contundente. Preciso que ela entenda que
estou falando sério. — Não mexa com a dele. Ele está sob minha
proteção.
— Você acha que um cara como o Sol precisa da sua proteção?
— Das suas mentiras tóxicas? Sim.
Sinto uma pontada de culpa quando vejo a mágoa passar
rapidamente pelos olhos dela, mas não volto atrás. Ela é a razão
pela qual tenho ficado louco pensando que estava me apaixonando
por duas garotas ao mesmo tempo. Não vou permitir que ela me
faça de bobo novamente, e com certeza não vou deixá-la brincar
com o Sol.
— Eu te odeio — ela sibila por entre os dentes cerrados.
Eu sorrio. — Quando eu terminar com você, Brahms, você vai
me abominar.
O pavor se infiltra em sua expressão, mas ela o esconde
rapidamente. — Não pense que vou aceitar suas besteiras sentada
desta vez, Dutch. Venha atrás de mim e das pessoas que eu me
importo e eu vou te atingir dez vezes mais forte.
— Mal posso esperar. — Deixo o espaço entre nós se alargar
novamente.
Seu rosnado de frustração atinge minhas costas enquanto me
afasto.
Estou pronto para você, Brahms. Pode vir.
J : T M A T A Q
disse que as flores de parede não têm espinhos? A Garota Nova foi
vista enfrentando seu Príncipe Encantado no corredor.
Mas se eu fosse o Príncipe Encantado, não estaria muito
preocupado com os golpes de uma inimiga. A Garota Nova tem
cavaleiros por todo o reino caindo aos seus pés. Nossa estrela em
ascensão, o próprio Sistema Solar, fez seu retorno triunfante há
dias. Mas não o vi sorrindo assim para mais ninguém.
Será que a família real está prestes a sofrer uma traição real?
Até o próximo post, mantenha seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais próximos.
- Jinx
CHAPTER
CINCO
CADENCE
Sol.
Era o nome que sussurrava pelos corredores antes da
assembleia matinal naquele dia.
Era o nome nos lábios de todos durante o almoço.
Dias depois, ainda é o burburinho de Redwood Prep.
Sol está de volta.
O quarto membro da elite dos irmãos de Redwood é a definição
de "alto, moreno e bonito". Com sua pele bronzeada, cabelos
grossos e encaracolados e olhos castanhos sonhadores, Sol
definitivamente se encaixa no padrão de atratividade de alguém que
anda com Os Reis.
Eu me pergunto qual é a dele. Ele parece um cara pé no chão,
diferente de Dutch e seu bando de irmãos sombrios e divinos.
O mistério que o cerca é denso. Por que ele ficou tanto tempo
fora da escola? Por que Os Reis — e Dutch em particular —
parecem tão protetores com ele?
Perdida em pensamentos, caminho até meu armário e vejo
alguém encostado nele.
— Serena!
Ela olha para cima. Seu delineador está extra carregado hoje. O
contorno preto enfatiza suas olheiras.
— Ei, você está bem? — Agarro seu ombro. — Parece que você
não tem dormido bem.
— Estou ótima. — Ela força um sorriso do tipo que eu costumava
dar para Vi quando o aluguel estava vencendo e minhas gorjetas
não eram suficientes para cobri-lo. — Ouvi falar da sua derrubada
épica. Christa está suspensa e todos se viraram contra ela. — Ela
mexe os dedos juntos e me dá um pequeno aplauso. — Muito
impressionante.
Fecho meu armário e me junto a ela no caminho para a porta.
Alguém bate com força no meu ombro. Giro e percebo um par de
líderes de torcida passando por mim. Elas me lançam olhares
gélidos.
— Olha por onde anda! — grito.
Uma das lobas joga o cabelo. — Sai do meu caminho, Cooper.
— Quem diabos é ela? — sussurro enquanto elas se afastam
rebolando.
— Essa é Paris. Ela está em pé de guerra agora, tentando
convencer todo mundo que é maior e mais durona que Christa. —
Serena revira os olhos. — Não há nada que eu ame mais do que
uma boa luta pelo poder em Redwood Prep, mas ela torna tudo tão
óbvio que fica chato. — Serena boceja. — É por isso que a traição é
o pior.
— Falando em traição, onde você tem andado? Não te vi por
Redwood Prep ultimamente. — Empurro a porta para o corredor
principal. — Tive que almoçar sozinha.
Seus olhos se desviam. — Não estava me sentindo muito bem.
— Você está melhor agora?
— Sim. Muito melhor.
Mais à frente, há uma perturbação na multidão. Dutch, seus
irmãos e Sol desfilam pelo meio do corredor como os reis que eles
pensam que são.
Meu maxilar se tensa de irritação quando me lembro de Dutch
me tratando com brutalidade durante a aula de música.
Que idiota.
Estou aprendendo autodefesa só para que da próxima vez que
ele me encurralar contra um armário, uma parede ou uma escadaria
vazia, eu possa quebrar o braço dele.
Dutch foca em mim. Mesmo estando a uma certa distância,
aquele olhar ainda parece intensamente pessoal e ameaçador.
Eu me recuso a me acovardar e retribuo o olhar com a mesma
intensidade.
Que se dane ele. E aquela camiseta preta justa por baixo da
jaqueta de Redwood. Mesmo com as mangas longas escondendo
suas tatuagens e bíceps definidos, a largura de seu peito ainda é
evidente.
Meus olhos se movem mais para cima — para o maxilar
esculpido, o nariz reto e os olhos de puro âmbar mel.
É irritante o quão bonito ele é. Se o universo fosse justo,
pessoas com personalidades feias seriam feias por fora também.
O olhar desafiador de Dutch se torna mais afiado e é como se
seu olhar estivesse revirando minhas entranhas e dando uma boa
torcida.
O que ele é? Edward de Crepúsculo?
Talvez.
Se alguém me dissesse que Dutch Cross se alimentava do
sangue de suas vítimas para se manter vivo por séculos, eu
totalmente acreditaria.
Meus olhos se estreitam. Não tenho medo de você, seu babaca
de coração negro.
Dutch sorri maliciosamente como se eu tivesse acabado de
convidá-lo.
Eu me preparo para seu calor e magnetismo perigoso. Pelo
canto do olho, percebo vagamente Serena se afastando para se
esconder atrás de mim.
— O que você quer, Dutch? — cuspo, inclinando a cabeça para
encontrar seus olhos.
Dutch tira algo de sua mochila e empurra para mim. — Meu
dever de Literatura.
Não pego o papel que ele está oferecendo. — E daí?
— Você espera que eu escreva um ensaio de cinco páginas? —
Ele acena para seus irmãos. — Temos um show para preparar,
então enquanto isso, você vai fazer meu dever de casa.
Eu sei que ele só está tentando me torturar. Pelo jeito que Miller
se comportou, acho que Dutch nem precisa fazer o dever de casa
para se formar.
Meu sorriso se torna afiado e pontiagudo. Pego o documento
dele.
— Claro — digo com uma voz doce como xarope.
Serena me lança um olhar chocado.
Até Finn e Zane parecem surpresos com minha resposta.
Dutch inclina a cabeça, me estudando. Ele me conhece bem
demais para pensar que eu não tenho uma resposta à altura.
Dou um passo em direção ao babaca até que meus calcanhares
estejam roçando seus tênis. — Eu adoraria.
O sorriso malicioso no meu rosto deve fazê-lo repensar sua
jogada porque ele arranca o papel das minhas mãos. — O que você
está tramando, Brahms?
— Nada. — Pisco de forma coquete. — Vou fazer seu dever de
casa tão bem que a Srta. Jamieson vai pensar que você está
absolutamente apaixonado por ela.
Dutch recua.
Eu sorrio. Nossa professora de Literatura não beija o traseiro
d'Os Reis como todo mundo faz. Se alguém a desafia na aula, é
punido — não importa quem sejam seus pais.
Minha mente está praticamente explodindo de ideias para
conteúdo inapropriado para escrever na redação. Estou pronta para
entregar um trabalho que certamente vai mandar Dutch para a
detenção.
Sol se manifesta. — Você não disse que tinha ensaio? Tem
tempo pra isso?
Dutch considera as palavras de Sol. Então aponta para mim. —
Acerto as contas com você depois.
Os Kings viram a esquina e desaparecem no corredor que leva à
sua sala particular de ensaio.
Solto um suspiro aliviado, grata por ele e seus irmãos terem um
show para trabalhar. Dutch pode ser um delinquente na sala de
aula, mas — quer ele admita ou não — leva a música a sério.
Provavelmente é o único motivo pelo qual saí ilesa dessa batalha.
— Caramba — diz Serena, com os olhos arregalados. — O que
foi isso? Pensei que você e Dutch estivessem bem agora?
— Ele é tão psicótico como sempre. Agora, ele me fez fazer a
parte dele do nosso projeto em grupo.
— O quê? E você vai fazer?
— Não quero, mas se eu deixar ele afundar o projeto, minhas
notas também vão ser prejudicadas. Me recuso a deixar aquele
babaca arruinar meu histórico escolar. — Saio com ela.
O sol está quente no meu rosto. Inclino a cabeça para o sol.
Dutch definitivamente vai se vingar por eu tê-lo desafiado, mas
valeu a pena. Sinto como se tivesse acabado de escalar uma
montanha.
— Estou orgulhosa de você — diz Serena, passando o braço
sobre meu ombro. — Você está mantendo sua posição, mesmo que
não esteja ganhando terreno. As pessoas por aqui não sobrevivem
a um ataque dos irmãos Cross. Mas você ainda está aqui. Isso é um
grande feito na Redwood Prep.
Reflito sobre a avaliação dela em minha mente. Ela tem razão.
Já enfrentei Dutch de frente. Ele tentou me expulsar de Redwood e
eu sobrevivi. Talvez haja uma parte de mim que ganhou um pouco
de confiança com isso.
Meu telefone vibra.
Hunter: Estou no estacionamento.
Mordo meu lábio inferior quando uma onda de nervosismo me
atinge. Eu quase tinha esquecido que concordei em encontrar
Hunter depois da aula hoje.
— Minha carona chegou — digo a Serena.
Seus olhos se enrugam. — Ooh, você tem um encontro quente?
— Definitivamente não. Somos apenas amigos.
— A dama protesta demais. — Ela me lança um sorriso.
Aceno. — Te vejo amanhã no almoço.
— Divirta-se.
Apresso-me até o estacionamento. Hunter está lá atrás do
volante de um conversível clássico.
Minha boca se abre. — Que carrão.
— Obrigado. Foi um projeto de restauração. Valeu cada centavo
que investi nela. — Ele desce do carro e abre a porta para mim.
— Que cavalheiro.
— Rick me mataria se eu fosse diferente.
Sento no banco do passageiro, meu estômago revirando e meu
pulso acelerado.
Ok. Isso parece um encontro.
— Pronta para ir? — Hunter pergunta, entrando no carro e me
lançando um sorriso charmoso.
Com o coração acelerado, faço que sim.
Enquanto ele passa pela Redwood Prep, noto Dutch saindo da
escola. Seus olhos âmbar se estreitam quando ele me vê no carro
de Hunter. O músculo de sua mandíbula se contrai.
Sinto uma estranha vontade de me esconder, como se estivesse
fazendo algo errado. Mas isso é ridículo. Sou solteira e
descompromissada. Mesmo se não fosse, não é como se eu
devesse explicações a alguém — especialmente não a Dutch.
Hunter sorri para mim. — Seu uniforme é fofo.
— Obrigada. — Afasto a expressão no rosto de Dutch e tento me
concentrar em Hunter. — O que você está pensando em comprar
para Rick?
— Não sei. Algo que ele realmente vá usar, eu acho. — Ele
passa a mão pelo cabelo e depois a apoia na porta.
Hunter também tem tatuagens, mas não são tão caóticas quanto
as de Dutch. Suas tatuagens são de uma simples asa de anjo junto
com alguns números.
— Qual é o nosso orçamento? — pergunto.
Ele sorri travessamente. — Quanto mais barato, melhor. Sou
apenas um humilde assistente de mecânico, sabe. Não estamos
nadando em dinheiro.
Eu rio. Hunter ri também, seus olhos castanhos cintilando.
Quando o sol os atinge, a cor se torna um canela quente. Diferente
dos olhos de Dutch. Mesmo na escuridão, os olhos de Dutch brilham
como os de um predador, mel dourado com manchas pretas e...
Por que estou pensando em Dutch quando deveria estar com
Hunter?
Junto minhas mãos. — Você cheira bem para alguém que
trabalha com óleo de carro o dia todo.
— Tomei dois banhos. E usei um perfume novo. — Ele ri.
Inalo. O cheiro que vem dele é bastante agressivo. Diferente da
fragrância fresca e nítida de Dutch. Para alguém tão dominador,
Dutch cheira como uma chuva de primavera.
Droga.
Estou pensando em Dutch de novo.
Coloco um bloqueio mental e me forço a focar em Hunter pelo
resto do passeio.
Alguns minutos depois, estamos navegando pelo shopping.
Nunca comprei para um cara antes e estou começando a me
perguntar se Hunter não cometeu um erro ao pedir minha ajuda.
Estou completamente fora do meu elemento.
— Senhorita, você e seu namorado gostariam de experimentar
esta amostra de perfume? — Uma vendedora na frente de uma loja
acena para nós.
Rapidamente a corrijo. — Não estamos namorando.
Ela pisca. — Ah. Bem... vocês ainda podem dar uma olhada.
Balanço a cabeça e seguimos em frente.
— Você deixou isso bem claro. — Apesar do sorriso brincalhão
em seu rosto, Hunter me encara intensamente.
Solto uma risada nervosa. — Olhe ali. Aquela loja está com
promoção de botas de trabalho. Devemos dar uma olhada.
Fico aliviada quando ele não insiste no assunto e me segue para
dentro da loja.
Hunter é uma pessoa legal. Se alguém deveria estar grudado na
minha mente como uma carrapicho, deveria ser ele. Então por que
não consigo tirar Dutch e seu rosto irritante da minha cabeça?
— Acho que isso vai servir — diz Hunter, me arrancando de
meus pensamentos.
Pisco rapidamente e percebo que ele está apontando para um
par de botas. Fazemos a compra e o sigo até a escada rolante.
— Quer comer alguma coisa? — Hunter oferece.
Verifico meu relógio. — Não posso. Tenho um turno agora.
— Eu te levo — ele oferece.
No carro, nenhum de nós fala muito. Não é um silêncio
desconfortável, mas é definitivamente um sinal de que ficamos sem
assunto.
Talvez eu esteja pensando demais, mas — por mais que vá
decepcionar a Breeze — acho que não tenho esse tipo de química
com o Hunter.
Quando chegamos à lanchonete, Hunter guarda as chaves no
bolso e me acompanha na calçada. — Vou pedir algo para meu
irmão comer.
— Ah, sim. Claro.
Ele segura a porta aberta para mim e eu entro, inalando o cheiro
de hambúrgueres gordurosos, batatas fritas e fumaça. Os sinos
tilintam quando a porta se fecha atrás de nós.
— O que é bom aqui? — Hunter pergunta, virando-se para mim.
Começo a responder quando sinto o ar ficar carregado. Os pelos
da minha nuca se arrepiam e meu coração bate forte contra as
costelas antes que eu tenha localizado a causa.
Viro minha cabeça de um lado para o outro, procurando por...
não tenho certeza do quê.
Mas então eu encontro.
Ou mais precisamente, ele.
Dutch e seus irmãos estão sentados em uma cabine, olhando
diretamente para mim.
J : C F N A É
Príncipe Encantado segurar firme aquele sapatinho de cristal,
porque Cinderela está correndo descalça para os braços de outro
homem. Nossa Garota Nova residente foi vista pulando em um
corcel clássico, toda sorrisos e olhares sedutores para o Cavaleiro
de Armadura Brilhante. Quem ganhará o coração de nossa bela
dama? E a luta que teremos será até a morte? Espero que sim.
Até o próximo post, mantenha seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais perto.
- Jinx
CHAPTER
SEIS
CADENCE
Tudo dentro de mim fica imóvel quando Dutch me lança um olhar
sombrio como o vilão de um filme logo antes de liberar sua maldade
sobre o mundo.
O que diabos ele está fazendo aqui nesta parte da cidade?
O impulso de fechar meus dedos em punhos e começar a
balançar quase me engole por inteiro. Um toque suave no meu
ombro me impede de ceder aos meus instintos mais básicos.
Hunter me examina cuidadosamente.
— Você está bem?
— Sim — Minha voz soa suave e fraca. — Vou pegar meu
avental.
Ele acena para o balcão.
— Estarei logo ali.
Com os braços tensos, faço questão de não olhar na direção de
Dutch quando passo tempestuosamente por sua mesa. Ele e seus
irmãos param de falar quando me veem.
Ouço Finn dizer: — Então é por isso que você de repente ficou
com vontade de comer hambúrgueres.
Isso me irrita ainda mais.
Ranjo os dentes, manobro atrás do balcão e empurro a porta de
vaivém para o lado.
A cozinha está cheia de fumaça e do cheiro de carne fritando. O
som de metal batendo contra aço é uma percussão consistente e
rítmica.
Frankie, o gerente, está no fogão virando hambúrgueres. Ele é
baixo e atarracado com uma cabeça careca reluzente e uma barba
cheia e exuberante que ele mantém em uma rede de cabelo.
Ele aponta seus olhos pequenos e apertados para mim.
— Cooper.
— Frankie — Aceno em respeito.
Ele pode não ser o cara mais amigável do mundo, mas Frankie
comanda um navio apertado. Ele é justo com as gorjetas e paga
consistentemente em dia. O que é muito melhor do que alguns dos
meus empregos anteriores.
— Você está atrasada de novo — ele diz, checando seu relógio.
— Eu te disse que chegaria um pouco mais tarde todas as
noites. Tenho coisas da escola.
— Não quero ouvir sobre suas coisas da escola. Quando o
movimento aumenta, preciso de você aqui. Entendeu?
— Tudo bem — respondo relutantemente.
— Que atitude é essa?
Ignoro seu olhar maldoso.
— Eu ouvi, Frankie. Estarei aqui no horário de agora em diante.
Talvez eu possa resolver algo com Redwood para me permitir
fazer meu estudo de trabalho mais cedo. Está ficando difícil terminar
de limpar as salas de aula designadas, pegar um ônibus e chegar à
lanchonete a tempo.
Frankie acena com a cabeça em direção à frente.
— Estou mudando sua seção. Você está na mesa quatro hoje.
Meus olhos se arregalam e meu coração começa a acelerar.
— Mas eu estou nas mesas de um a três. Por que estou fazendo
a quatro de repente?
— Um pedido especial. Os clientes pediram você pelo nome —
Frankie sorri tão forte que seu dente de ouro brilha para mim. — E
queremos que nossos clientes fiquem felizes, não é?
Meu corpo fica rígido. A última coisa que quero fazer é ir até lá e
servir Dutch. Aquele bastardo egocêntrico irritante tem testado
minha paciência o dia todo. Mas não tenho outra escolha. A
lanchonete é um bom trabalho. Não quero perder meu emprego.
Vamos lá, Cadey. Vista suas calças de menina grande.
Aperto meu avental em volta da cintura e vou tempestuosamente
até a mesa de Dutch. Seus olhos estão fixos em mim e
transbordando com a confiança de um falcão que tem sua presa
exatamente onde ele quer.
Cada passo parece uma sentença de morte. Não ajuda que
todos os pensamentos que eu estava lutando para afastar quando
estava com Hunter surgem com proeminência.
Noto a mudança de roupas de Dutch, o cabelo loiro caindo sobre
sua testa e seus olhos âmbar brilhantes. A camiseta cinza sob sua
jaqueta de couro está ajustada ao seu peito musculoso.
Ele parece totalmente delicioso e eu o odeio por isso.
Dou um passo mais perto. Dutch está sentado na parte externa
da cabine. Parar na mesa me coloca a apenas um pé de distância
dele. Meu corpo fica tenso com a mera proximidade. Fica pior
quando sinto o cheiro de sua fragrância limpa.
Mentalmente me orientando através das minhas emoções para
não parecer tão abalada quanto me sinto, direciono meu olhar para
as cortinas de renda cobrindo a janela.
— Me torturar na escola não é o suficiente para você?
Dutch só precisa inclinar a cabeça uma polegada para encontrar
meus olhos. Sua estúpida altura o faz parecer alto mesmo quando
está sentado.
— Essa é maneira de tratar um cliente, Brahms?
Na deixa, chamas se elevam da grelha de Frankie. Eu me viro,
espiando-o através da janela que dá para a cozinha.
Frankie designou pessoalmente esta mesa para mim. Não há
como eu escapar disso se eu bater em Dutch até que cada página
do meu bloco de notas caia.
— Isso não é Redwood Prep, Dutch. Se você está aqui apenas
para causar problemas, deveria ir embora — As palavras são
quentes o suficiente para escaldar. Não que Dutch mostre qualquer
sinal de estar abalado.
Seus olhos ficam sombrios. Ele levanta dois dedos.
— Lição Número Dois. Não importa se estamos em Redwood
Prep, nesta lanchonete ou na maldita lua. Você sempre estará à
minha mercê, Cadey.
Sua língua acaricia o apelido como se fosse algo sujo e eu perco
minha capacidade de respirar.
Nervosamente, lambo meus lábios. O olhar de Dutch se prende
à visão da minha língua deslizando contra minha boca. Sua atenção
desenfreada envia uma descarga de adrenalina pelo meu corpo.
Quando sinto meus joelhos ficando fracos, bato minha palma na
mesa e me inclino sobre ele.
— Acho que a fumaça está subindo à sua cabeça. A verdade é
que você não me possui, Dutch. Nunca possuiu. Nunca possuirá —
Abaixo meu queixo bruscamente. — E isso te incomoda, não é? —
Examino seu rosto. — O fato de que você não pôde me ter...
Seu maxilar faz uma flexão e relaxamento fascinante. Com um
olhar duro dele, sei que estou dançando na beira de uma linha muito
perigosa.
Não importa. Tenho que aturá-lo nos corredores de Redwood
Prep. Nas salas de aula.
Mas não aqui.
Este é o meu lado da cidade.
Este é o meu território.
Sorrio provocativamente.
— Se você não está com fome, então sugiro que vá embora...
— Oh, eu estou com fome — Seus olhos deslizam para o meu
peito - que está praticamente na cara dele - antes de percorrerem o
resto de mim. Sinto seu olhar como mel escorrendo na minha pele.
Ele sorri sinistro.
— O que é bom aqui?
Eu me endireito e respondo bruscamente: — Sua cabeça numa
bandeja.
Zane resmunga.
Mal percebo. A tensão entre mim e Dutch se intensifica até se
transformar numa névoa quente e turbilhonante.
— Fora do cardápio, Brahms — ele diz secamente.
Observo-o se recostando e ficando confortável. Minhas
sobrancelhas se franzem.
— Você realmente não vai embora?
— Não até eu desfrutar de uma refeição — Ele arqueia uma
sobrancelha. — Seja uma boa menina e eu até posso te deixar uma
boa gorjeta.
Ranjo os dentes até ter certeza de que vão virar pó. — Vá se
ferrar.
Um sorriso cruel se espalha pelo rosto dele, mesmo quando
outro aviso brilha em seus olhos. — Não faça uma cena, Brahms.
Você não quer que eu te dê uma lição na frente do seu amigo.
Quando ele acena atrás de mim, olho para trás e percebo que
Hunter está observando a mesa atentamente. Minha cabeça gira e
meu olhar pousa em Dutch novamente. Nos olhos do monstro há
uma posse ciumenta.
Esse brilho de propriedade me irrita a princípio.
E então uma lâmpada se acende na minha cabeça.
— Você pode me dar um minuto? — pergunto.
As sobrancelhas de Dutch se erguem em surpresa.
Enquanto me apresso até o balcão, Hunter meio que pula da
cadeira. Uma ruga profunda enruga sua testa. — Esses caras estão
te incomodando, Cadence?
— Hum... você se importa de me ajudar com uma coisa?
— Qualquer coisa.
— Preciso que você finja ser meu namorado.
O queixo dele cai.
— Você faria isso?
— Claro, eu acho. Mas por quê? Se eles estão te incomodando,
posso simplesmente expulsá-los.
Coloco meu braço sobre o ombro dele, me inclino para seu
ouvido e apresso o resto da minha explicação. — Meu chefe me
designou para esta mesa, então isso não é uma opção. Tenho que
atendê-los, mas pensei... se eles se meterem comigo, posso revidar.
Hunter sorri como se gostasse da ideia. Sua mão pousa na
minha lombar, roçando a borda da minha saia do Redwood Prep.
Sinto mais do que ouço o rosnado de Dutch atrás de mim.
Você não me possui, seu lunático desvairado. Nunca vai possuir.
Dou um beijo na bochecha de Hunter e ele esfrega meu quadril,
olhando para cima com um sorriso apaixonado que não é totalmente
falso. Uma pontada de culpa me atinge quando vejo o quanto ele
está gostando disso. Se Dutch não tivesse me encurralado, eu
nunca teria arrastado Hunter para um plano tão insano quanto esse.
Espero que as coisas não fiquem estranhas entre nós depois.
Volto à mesa e os três rapazes Cross estão me encarando com
expressões variadas. Zane parece intrigado. Finn parece divertido.
Dutch parece assassino.
— Alguém é popular com os locais — diz Dutch em voz baixa.
Finjo não ouvir. — Posso anotar seus pedidos?
— Ele sabe seu nome verdadeiro ou você está brincando com
ele também?
Rosno para ele. — Cuidado, Dutch. Você não vai querer ver
minhas habilidades com uma faca de açougueiro.
— Isso é uma ameaça? — Seu olhar furioso cai sobre mim.
— Não foi óbvio? — sibilo. Calor ardente irradia de cada
centímetro do meu corpo.
Dutch não parece nem um pouco assustado. Na verdade, estou
começando a achar que há uma parte dele que se excita com a
minha raiva.
— Ahem. — Zane fala, parecendo envergonhado. — Não sei
quanto ao Dutch, mas tudo o que eu quero é um hambúrguer. — Ele
vira a cabeça e lança um olhar irritado para o irmão. — Dutch tem
nos pressionado o tempo todo no treino. Não paramos nem para um
intervalo. Estou tão faminto que acho que posso desmaiar.
Desvencilhando meus olhos dos de Dutch, caminho para o lado
da cabine de Zane. O gêmeo de Dutch está sentado recostado no
canto, com a cabeça contra a janela.
Com a luz do sol derramando sobre seu rosto pálido, cada
centímetro de seu perfil esculpido está exposto. Ele é tão
arrebatador e magnético quanto Dutch, mas posso perceber que ele
tem festejado muito todas as noites. Minha mãe costumava parecer
esgotada assim quando estava em uma farra.
— O hambúrguer duplo é bem bom.
Os belos olhos azuis de Zane se iluminam. Ele me dá um sorriso
charmoso. — Vou pedir esse então.
— E para beber?
— Servem álcool aqui?
— Não se você for menor de idade. — Aponto para a placa.
Ele faz beicinho.
— Você provavelmente deveria beber água de qualquer maneira
— digo a ele.
— Ah. Você está preocupada comigo, Brahms? — Zane pisca
seus cílios grossos.
— Você tem que viver com esse monstro o dia todo. — Aponto
para Dutch. — Imagino que possa ficar bem difícil.
Sinto os olhos de Dutch me examinando. Seus dedos tamborilam
na mesa. — Você é hilária.
Aponto um sorriso presunçoso para ele e então aceno para Finn.
— E para você?
Seus olhos se estreitam enquanto examina o cardápio. — Algum
prato vegetariano?
— Você está vendo este lugar? — pergunto com um toque de
atrevimento.
Ele ri.
— Você é vegetariano?
— Não, eu só prefiro comer de forma saudável quando venho a
lanchonetes como esta. E achei que a alface daqui poderia ser
melhor do que qualquer carne nessas chapas.
— Confie em mim, ninguém pede alface. Nunca. Acho que o
Frankie nem sabe fazer uma salada.
O riso brilha nos olhos de Finn. Ele inclina a cabeça. — Tudo
bem, vou querer o mesmo que eles.
— Você não vai anotar? — Dutch pergunta.
— Está tudo aqui. — Toco minha testa. — Três whoppers, duas
águas e um coração para você, já que claramente não tem um.
— Quem disse que eu não tenho coração? — Dutch me olha
intensamente. — Eu fui bondoso o suficiente para vir até aqui, para
que você pudesse me atender.
Eu quero atacá-lo tão ferozmente que meu corpo inteiro treme
com isso. — Vá para o inferno.
Suas sobrancelhas se abaixam sobre seus olhos. Ele se levanta
abruptamente, seu peito maciço roçando meu ombro.
Sua voz é baixa e firme quando ele diz: — Talvez eu apenas te
arraste para lá comigo, Brahms.
Ergo meu queixo. — Eu gostaria de ver você tentar.
Zane geme. — De novo, eu entendo que você tem que fazer
isso, mas eu realmente estou com fome.
Viro-me abruptamente. — Já volto com os pedidos de bebidas.
Dedos quentes e esguios envolvem meu pulso para me deter.
Dutch se inclina. — Quero uma soda de limão. — Seu hálito acaricia
minha orelha. — Com limão siciliano. E um toque de folhas de
hortelã.
— Não servimos isso aqui. — Puxo minha mão de volta. — Se
você quer água chique, deveria ir a um restaurante chique.
Dutch se encosta na mesa e cruza as pernas como se tivesse
todo o tempo do mundo para brincar comigo. — Seu gerente disse
que você cuidaria de nós. Você acha que ele quer ouvir que você
está causando problemas?
Fecho os dedos em punhos. Minhas veias pulsam com meu ódio
por ele.
— Já volto.
Hunter me chama depois que eu passo o pedido da bebida de
Dutch para a garota atrás do balcão. Dou um passo entre suas
pernas, envolvendo meus braços em seu pescoço.
— Ele é seu ex? — Hunter pergunta, esfregando o nariz no meu
e falando em um tom baixo.
— Ele queria.
— Então por que você está se dando todo esse trabalho?
Solto uma risada alta e enterro minha cabeça no pescoço de
Hunter. — É complicado.
A bandeja de bebidas pousa bruscamente no balcão. Dou um
pulo e noto meu colega de trabalho me encarando.
Bem, então...
— Preciso ir — digo a Hunter.
Ele segura minha mão. — Não estou pronto para te deixar ir.
— Eu sei. — Acaricio sua cabeça e exagero na atuação de
"estamos tão apaixonados" envolvendo-o em outro abraço. — Mal
posso esperar meu turno acabar para ficarmos sozinhos.
Seus olhos brilham com a promessa, mesmo que seja falsa.
Afasto-me rapidamente de Hunter e entrego habilmente as
bebidas na mesa de Dutch. Para ser honesta, estou surpresa que
ainda exista uma mesa, considerando o fogo que está saindo dos
olhos dele.
Agindo com naturalidade, faço meu trabalho sem reconhecê-lo.
— Aqui está. — Deslizo as bebidas para Zane e Finn.
Quando estou na frente de Dutch, ele agarra meu pulso. —
Traga-me uma garrafa de água fechada.
Saio furiosa e volto com ela.
Quando retorno, vejo que Hunter agora está sentado na cabine
atrás de Dutch. Estou muito consciente da presença dele, e Dutch
parece estar também.
Ele cruza os braços sobre o peito. — A mesa está suja, Brahms.
Não posso comer assim.
Que infantilidade. Se eu tivesse a capacidade de atirar lasers
pelos olhos, Dutch teria dois buracos no crânio.
— A mesa está perfeitamente limpa, Dutch. Tenho outros
clientes para atender, então não desperdice meu tempo.
— Cuide disso — ele exige tensamente. — Agora.
Com as narinas dilatadas e minha raiva se expandindo além dos
limites do meu autocontrole, eu rosno: — Que tal eu usar sua
cabeça como um pano de prato?
Seu maxilar se contrai. Nunca o vi tão perto de explodir de raiva
antes.
A tensão aumenta.
Zane e Finn observam com expressões tensas.
Uma mão circunda meu pulso. É Hunter.
— Há algum problema aqui? — Hunter exige, com uma veia
saltando em seu pescoço. Seus olhos estão cravados no rosto de
Dutch.
— Por que você não cuida da sua própria vida? — Dutch rosna.
— Desculpe. Não posso fazer isso.
— Quem diabos é você para intervir? — A voz de Dutch é baixa
e penetrante. Sinto-a ressoando através de mim.
— Sou o namorado dela. — O olhar de Hunter é duro. — Estive
observando você implicar com ela como uma criança mimada no
parquinho e não posso mais ficar parado. Qual é o seu problema,
cara? Seus pais não te ensinaram respeito básico?
Dutch se desdobra da mesa e se levanta em toda a sua altura.
Ele tem praticamente o mesmo tamanho que Hunter e o sorriso frio
que ele exibe envia um arrepio pela minha espinha.
— Isso é entre mim e ela.
Eu poderia sufocar com toda essa testosterona e ego masculino.
A intensidade deles me deixa nervosa. Hunter pode ser mais
velho, mas Dutch é pura força bruta. Se chegar a uma briga, não
acho que Hunter será capaz de aguentar.
Me sinto responsável por essa confusão estúpida e nunca me
perdoarei se Hunter se machucar por causa da idiotice de Dutch.
— Hunter. — Coloco minha mão em seu peito. Olhando em seus
olhos, tento dar uma comunicação silenciosa de que está tudo bem.
— Não.
Já lidei com Dutch em seu modo mandão antes. Embora ele
esteja rosnando, perigoso e imprevisível, posso lidar com ele.
Hunter não recua.
As temperaturas sobem ainda mais.
As pessoas estão começando a notar. Frankie está observando
pela janela. A última coisa que quero é que isso fique ainda maior e
coloque meu emprego em risco.
— Por favor, apenas deixe pra lá, ok? — sussurro para Hunter.
Minha cabeça está perto de sua bochecha. Seus olhos se voltam e
me observam.
Sinto a fúria de Dutch aumentando. Quando olho de relance,
seus olhos âmbar estão grudados onde minha mão está
descansando na camisa de Hunter. Uma expressão fria e
animalesca se espalha por seu rosto. Seus olhos encontram os
meus como uma faca afiada e irregular.
Ele sibila meu nome. — Cadence, diga ao seu amigo para se
acalmar antes que as coisas saiam do controle.
Não é um pedido, mas um aviso. Um que sinto até a ponta dos
dedos dos pés.
Hunter levanta o queixo. — Vá embora antes que eu te ponha
para fora.
— Não vou a lugar nenhum.
— Há algum problema aqui? — Frankie aparece na mesa, seus
olhos se movendo entre Hunter, Dutch e eu. Ele está empunhando
uma espátula como se fosse uma espada destinada a empalar.
Meu coração afunda. Em todo o tempo que trabalhei aqui, nunca
vi Frankie deixar sua estação para vir à frente. Nem uma vez
sequer.
— Não, Frankie, não há. — Minha voz treme.
— Não permito brigas no meu estabelecimento. — Frankie me
lembra. — Cooper, controle isso.
— Eu vou. — Enterro os dedos no meu avental e abaixo a
cabeça.
Frankie me lança outro olhar cortante e retorna ao seu reino
atrás do fogão.
— Hunter, por favor. Apenas vá.
Ele ainda está olhando além de mim para Dutch, seu maxilar se
contraindo.
Eu o cutuco. — Seu irmão está esperando pelo hambúrguer.
A menção de seu irmão parece tirar Hunter de seu transe. Ele se
endireita e olha para mim. — Eu te ligo.
— Tá.
Com mais um olhar ameaçador na direção de Dutch, Hunter sai
furioso da lanchonete. O sino toca alto atrás dele.
O sino da cozinha toca.
Os hambúrgueres estão prontos.
Quando me viro para pegá-los, vejo Dutch fazer um gesto para
seus irmãos. Finn e Zane se levantam da mesa.
— Aonde vocês vão? — pergunto, alarmada.
Dutch bate uma nota de cem dólares na mesa. Seus olhos
pousam pesadamente nos meus e há escuridão rodopiando nas
profundezas.
— Perdi o apetite.
Minha respiração fica presa na garganta quando vejo um traço
de mágoa em seu olhar.
Eu me fortaleço contra isso.
Não sou mais fraca pelo lado mais suave de Dutch que pensei
ter visto. Ele não passa de um bruto.
E ele prova isso quando passa por mim.
— Vou lidar com você amanhã, Brahms — ele sibila.
A ameaça paira no ar muito depois dele sair tempestuosamente
pelas portas da lanchonete e desaparecer de vista.
CHAPTER
SETE
CADENCE
— Preciso de mais detalhes.
As palavras de Breeze são abafadas pela pipoca que ela está
enfiando na boca. Ela está sentada de pernas cruzadas no nosso
sofá, olhando para mim com olhos ansiosos.
Vi mergulha o pincel de esmalte no frasco. — Nada aconteceu.
— Como você sabe disso? Você estava lá?
— Eu a vi quando ela chegou em casa ontem. Ela e Hunter não
vão ser um casal.
— Cadey, não escute ela. Eu exijo saber o que você fez com
Hunter no seu encontro.
Eu estremeço ao ouvir a empolgação de Breeze. Ela adora
fofocar sobre relacionamentos em geral, mas parece extra investida
desta vez.
Vi olha para mim, incapaz de esconder seu interesse.
Eu umedeço os lábios. — Compramos botas para Rick. Hunter
me levou para o trabalho e...
— E? — Breeze pressiona, virando-se para me encarar.
Pegando um punhado de pipoca para ganhar tempo, eu jogo na
minha boca e mastigo, — Encontramos Dutch.
Vi se anima. — Você viu Dutch?
Breeze parece horrorizada. — O que ele estava fazendo na
lanchonete? Ele mora tipo do outro lado da cidade.
— Dutch roubou você do Hunter? — Há estrelas nos olhos de Vi.
Ela ainda está naquela fase em que acha que todas as pessoas
atraentes são boas.
Só eu sei a verdade. O rosto bonito e o corpo lindo de Dutch
escondem um monstro que não mostra misericórdia. Desde que
voltei para Redwood na carona de Jarod Cross, ele passou de
viciosamente aterrorizante para persistentemente cruel.
No começo, ele parecia querer me expulsar de Redwood Prep e
faria qualquer coisa para me quebrar. Desta vez, é como se ele
quisesse me manter em Redwood Prep e provar que não sou nada
além de uma serva, digna apenas de sua punição e desdém.
Quando ele disse que iria "lidar comigo amanhã", ele falou sério.
Minhas costas ainda doem de todo o lixo que ele me mandou
recolher pelo pátio sob o sol torturante.
Meu sangue ferve. Aceitar o bullying de Dutch não é apenas
embaraçoso, mas vai contra minha natureza. Prometi a mim mesma
que não deixaria ele levar vantagem novamente, mas não tive
escolha desta vez. Ele ameaçou arruinar a vida de Hunter
acusando-o de namorar uma menor de idade.
Depois do que ele fez com Mulliez, eu sabia que ele cumpriria a
ameaça. É por isso que fechei minha boca e fiz o que me
mandaram.
Mas Dutch cruzou uma linha quando deixou Paris encarregada
de me vigiar. Aquela garota é um pesadelo absoluto. Ela grudou em
mim como chiclete e demorei um tempo para me livrar dela para
poder entregar minha vingança.
Digamos apenas que... Dutch terá uma surpresa muito agradável
esperando em seu carro esta noite.
— As pessoas continuam postando fotos de Dutch e Cadey no
aplicativo de Jinx. — Vi continua pintando as unhas dos pés.
— Você e Dutch estão juntos agora?
— Não é nada disso. — As palavras saem fracamente dos meus
lábios.
Minha melhor amiga me olha com desconfiança.
— É só fofoca. Eu juro.
— E quanto a você e Hunter? Vocês vão sair de novo?
Eu gemo. Depois que saí da lanchonete ontem, mandei uma
mensagem para Hunter perguntando se ele estava bem e
agradecendo por ser meu namorado de mentira.
Sua resposta foi: O único problema que tive foi que era de
mentira.
Não tive coragem de responder e desapontá-lo.
— Alô? — Breeze grita. — A oportunidade perfeita está bem na
sua frente. A melhor maneira de superar alguém é ficar por baixo de
outra pessoa.
— Não estou interessada em Hunter desse jeito.
— Por quê?
— Porque ele é... ele é...
— Ele é o quê? — Breeze se vira. Seu cabelo loiro é uma
bagunça de fios sedosos sobre o rosto. — Ele é do nosso mundo.
Ele sabe como é lutar. Ele nunca te julgaria ou faria você se sentir
pequena por causa de onde você vem. Ele tem um irmão mais novo
pelo qual está assumindo responsabilidade. Ele tentou te ajudar
antes mesmo de te conhecer. Se alguém como Hunter não merece
no mínimo uma consideração, o que diabos você está procurando?
Eu me sento ereta, meu peito arfando. Suas palavras são como
um ferro em brasa contra minha pele. Não quero encarar a verdade
que elas estão revelando. Não quero viver em um mundo onde
admito sentir algo além de ódio pelo príncipe perverso de Redwood
Prep.
— Você precisa se livrar das garras daquele psicopata antes que
fique realmente, verdadeiramente presa. — Breeze se inclina para
frente e coloca uma mão no meu ombro. — Não estou dizendo que
você tem que pular na cama com Hunter ou qualquer outro cara
amanhã. Só... não feche a porta para alguém novo antes mesmo de
ela se abrir.
— Vou pensar nisso.
— É tudo que estou pedindo. — Ela me dá um abraço. — Tenho
que ir. Minha mãe está pegando no meu pé por causa das minhas
notas de química. Ela está me obrigando a arranjar um tutor.
Vi acena um adeus para Breeze. — Você me deve cinco dólares.
— Ela ainda não está com Dutch, baby. Ainda estou na corrida!
— Breeze me manda um beijo e bate a porta ao sair.
Meus olhos se arregalam. — Vocês duas apostaram em mim?
Vi dá de ombros como se não fosse grande coisa.
Eu me aproximo da borda do sofá. — Vi, eu sei que você é fã do
Dutch, mas não quero que você leve isso longe demais, ok? Ele não
é um cara legal.
— Sim, ele é — ela insiste. — Eu posso dizer.
Meu coração queima de frustração. — Como? Porque você tem
um pressentimento?
— É.
Eu reviro os olhos.
— Não é só isso — ela acrescenta. — Por causa do aplicativo de
Jinx, descobri que ele salvou você de se afogar uma vez.
Minha boca se abre. — Aquilo foi...
— E ele te ajudou com seu medo de palco. Eu vi. — Ela aponta
dois dedos para o rosto. — Com meus próprios olhos. Um cara mau
faria tudo isso?
— Ele também fez muitas coisas ruins — eu argumento.
— Tipo o quê? — ela desafia.
Eu encho minha boca de pipoca porque não há chance de eu
discutir o bullying de Dutch com minha irmã. Isso a estressaria e a
faria se preocupar mais com coisas que ela não pode controlar.
Ela dá de ombros. — Seja lá o que de ruim tenha sido, ele pode
ter um motivo para ter feito isso.
Suas palavras cutucam algo em meu cérebro. Eu nunca obtive
uma resposta sobre por que Dutch estava tentando me expulsar de
Redwood, mas o momento do retorno de Sol é suspeito.
Desde que o quarto membro de Os Reis apareceu, as ameaças
de Dutch mudaram. Ele não parece mais obcecado em me fazer sair
de Redwood Prep. Ele nem mesmo menciona mais isso.
Será que Sol tem algo a ver com o motivo pelo qual Dutch me
queria fora de Redwood tão desesperadamente?
Bufo e balanço a cabeça. Não importa. Não há razão no mundo
que justifique arruinar tantas vidas.
— Não é tão simples assim.
— Talvez seja — diz Vi, como alguém mais sábia que seus treze
anos. — Talvez você e Dutch sejam os que estão complicando as
coisas.
DUTCH
— Puta que pariu... — Zane passa os dedos pelo cabelo
molhado e espalha suor por toda a minha guitarra.
Eu o empurro para trás e limpo minha menina com a borda da
minha camisa. Infelizmente, minha camiseta está molhada até o
colete de Redwood Prep. Estamos aperfeiçoando nosso set há
horas na sala de ensaio de Redwood Prep e o ar-condicionado não
está fazendo nada.
— Isso é algum tipo novo de automutilação? — Zane agarra
minha mão e a levanta para a luz. As pontas dos meus dedos são
uma bagunça áspera e crua de calos e sangue. — Se você
continuar assim, não vai conseguir tocar guitarra sem sentir dor.
Finn me lança um olhar severo. — Zane tem razão. Você tem
tocado dia e noite desde que saiu da lanchonete ontem. Precisa dar
um descanso para suas mãos.
— Estou bem — rosno.
— Cala a boca, cara — Zane berra. — Que parte disso parece
"bem" para você? — Ele balança a cabeça. — Tudo por causa de
uma garota...
— Isso não tem nada a ver com aquela garota — cuspo, incapaz
de dizer o nome de Cadence sem sentir uma queimação no
estômago.
Toda vez que fecho os olhos, vejo ela envolvendo os braços ao
redor daquele idiota presunçoso com o conversível. Ele se chamou
de namorado dela. Namorado? Quem diabos deu permissão a ela?
— Por que você não tenta lidar com seus demônios de uma
maneira saudável? Tipo ir correr? Tricotar? Transar com uma líder
de torcida até explodir os miolos? Pelo menos assim, não vai
estragar sua mão de tocar. — Zane bufa.
Finn me estuda. — Acho que devemos encerrar por hoje.
Quero argumentar, mas geralmente acho que vale a pena ouvir
os conselhos de Finn.
Com um suspiro pesado, coloco minha guitarra no suporte.
Meu telefone vibra.
É Paris.
Aperto ignorar. Dei a ela uma tarefa pequena só para irritar
Brahms e agora a garota acha que é um convite. Talvez, quando eu
não estiver tão irritado, eu coloque a boca dela para um bom uso.
Até lá, não preciso dela para nada além de ser uma ferramenta que
uso para incomodar Brahms.
— Você descobriu mais alguma coisa sobre aquele cara da
lanchonete? — pergunto a Finn, enfiando uma mão no bolso
enquanto caminhamos pelos corredores escuros e vazios de
Redwood Prep.
Finn balança a cabeça. — Nada que valha a pena descobrir. Ele
cresceu em um lar adotivo. Tem um irmão mais novo. Trabalha em
uma oficina mecânica. Cara normal. Cadence poderia fazer pior.
Eu o encaro.
O pequeno sorriso no rosto angular do meu irmão diz que ele
quis me provocar.
Desvio o olhar sem dar a ele a reação que ele está procurando.
Redwood Prep parece um filme de terror depois do anoitecer. As
sombras tremulam como fantasmas. Nossos passos ecoam alto e
há uma quietude em resposta, como se estivéssemos acordando
uma besta antiga.
O luar se derrama sobre o estacionamento lá fora. Somos um
dos poucos carros que restaram. O resto dos veículos pertence aos
jogadores de futebol, que ainda estão no treino.
Esportes e artes têm uma competição saudável aqui em
Redwood, mas me orgulho do fato de que a popularidade da nossa
banda está ajudando as artes a se adiantarem no jogo.
— Se você está procurando uma fraqueza para explorar — diz
Finn calmamente — há muitas.
Fecho os dedos em punhos.
— Topo se o plano for dar uma surra nele — diz Zane, notando
minha postura. — Mas sugiro que você faça isso depois que seus
dedos sararem. Tudo que aquele cara teria que fazer é cutucar um
dos seus calos com um alfinete e você estaria acabado.
— Bom saber que você tem fé em mim — murmuro.
Sem pensar, abro a porta do meu carro. Em um instante, uma
enxurrada de garrafas plásticas vazias, papéis, sacos de lixo e
sabe-se lá o que mais despenca do meu carro e aterrissa em uma
pilha aos meus pés.
— Que diabos... — Espio dentro da minha caminhonete e minha
boca se abre em choque.
O lixo está empilhado até o teto. O fedor é insuportável e eu
aperto o nariz.
Zane sobe no estribo e olha para mim por cima do teto do meu
carro. — Você irritou Brahms recentemente?
Finn ri. Ou pelo menos eu acho que ele está rindo. Não consigo
vê-lo graças à montanha de lixo bloqueando minha visão.
Percebo Zane contornar o carro.
— Olha — ele empurra a mão através do lixo — tem um bilhete
colado na janela.
Recolhi o lixo. Divirta-se com os da sua laia.
Zane explode em gargalhadas e começa a tirar fotos da minha
caminhonete profanada.
Finn se junta ao meu lado. — Isso é ousado. Ela queria que você
soubesse que foi ela.
A raiva varre meu peito e costas, invadindo meu rosto. Esta
caminhonete é minha menina, tanto quanto minha guitarra. É quase
doloroso olhar para o estrago. Como diabos ela encontrou tempo e
energia para fazer isso?
Meu maxilar se tensa. Sempre soube que Cadence tinha garras,
mas parece que a gatinha está usando os dentes para me morder.
J : A C R P E G
uma Reforma Malcheirosa Alguém deixou uma surpresa muito
especial para nosso Príncipe Encantado esta noite. Fontes dizem
que seu corcel real foi visto vomitando um monte de lixo. Alguém
não está brincando muito bem com o Príncipe Herdeiro de
Redwood.
Bem, talvez, já que Cinderela está acostumada a viajar em
abóboras gigantes, ela não se importe em sentar em uma abóbora
sem que suas entranhas nojentas tenham sido removidas.
Pergunto-me quem foi corajoso o suficiente para iniciar uma
guerra com a linhagem real em Redwood Prep? E será que eles
conseguirão sobreviver quando o Príncipe entregar sua vingança?
Fiquem inscritos e descubram.
Até o próximo post, mantenham seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais perto.
- Jinx
CHAPTER
OITO
CADENCE
Se eu tivesse algum senso de autopreservação, evitaria o
Redwood Prep por uma semana. Mas minha teimosia está viva e
bem. Se eu fosse recuar, não teria deixado aquela surpresa no carro
do Dutch em primeiro lugar.
O Redwood Prep surge à vista e eu aperto com força as alças da
minha mochila.
Cada passo à frente parece que estou tropeçando na beira de
um penhasco.
Vingar-me pareceu uma ótima ideia no calor do momento. Com a
vergonha açoitando meu peito e o suor escorrendo pelo meu rosto,
eu não conseguia pensar em nada melhor do que jogar lixo no
banco da frente do Dutch e imaginar sua raiva quando visse o que
eu tinha feito.
Mas então fui para casa, caí na cama e não consegui dormir de
tanto horror imaginando todas as maneiras malignas com que ele se
vingaria. Fiquei esperando que ele batesse na minha porta e
assustasse a mim e a Vi.
Nesta manhã, acordei privada de sono, mal-humorada e com
medo.
Eu sei o quão perigosos Os Reis são.
Esta não é uma história de Davi contra Golias.
É mais como uma formiguinha sob a bota de Golias. A qualquer
momento, toda sua existência pode ser esmagada. Uma vida extinta
para ela, mas nem sequer um borrão no radar do gigante.
Meus passos diminuem até pararem completamente quando vejo
Finn e Zane descansando nos degraus da escola. Os garotos são
como magníficas panteras negras, sombras fugazes à espreita.
Cada um com mais de 1,80m. Finn com olhos como pederneira e
uma quietude que não engana ninguém além dos mais ingênuos.
Ele é o perigo envolto em pele bronzeada, olhos amendoados e
ameaça silenciosa.
E então há Zane, a imagem espelhada de Dutch em tudo, exceto
nos olhos e cabelo. Sexy como uma arma, com uma boca
encantadora que pode criar qualquer realidade que desejar, como
se fosse feito de magia.
Estudei ambos os irmãos de Dutch durante a campanha d'Os
Reis para me expulsar de Redwood. Só porque Dutch era o rosto de
suas punições brutais não significa que seus irmãos não fossem
mais que capazes de realizar os trabalhos sujos eles mesmos.
O tráfego nas escadas é um caminho de mão única graças ao
fato de que ninguém quer nem passar pelos irmãos. Infelizmente,
isso torna um caminho fácil e claro de seguir quando Finn ergue
dois dedos e os dobra em minha direção.
Meus joelhos batem um no outro e eu engulo em seco antes de
subir as escadas. Zane coloca uma de suas pernas longas sobre o
corrimão largo de cimento. Percebo algumas líderes de torcida
checando a área entre suas pernas, cujo mero contorno prova que
os rumores sobre ele e seus... atributos são bem verdadeiros.
Finn não se move nada. Ele continua descansando contra as
escadas, seu corpo enrolado apesar dos ombros relaxados e olhos
desinteressados.
— Chegou bem em casa ontem? — pergunto atrevidamente. O
suor está se acumulando na minha testa, mas, graças à tortura de
Dutch, ganhei prática em fingir estar imperturbável.
— Você é uma garota muito corajosa — diz Zane, rindo.
— O que você quer dizer?
— Aquilo era muito lixo. Você deve ter ficado cansada — diz
Finn.
Seu olhar avaliativo me faz me remexer no lugar. Nunca consigo
dizer o que ele está pensando e, de alguma forma, isso é mais
desconcertante do que o apelo sexual letal de Zane.
Opto pelo sarcasmo. — Awn. Você está preocupado comigo?
Obrigada.
Seus lábios se contraem.
Nesse momento, o celular de Zane apita. Ele olha para baixo e
depois olha de volta para mim.
De repente, sinto cordas invisíveis se amarrando ao redor do
meu pulso. Tenho uma boa ideia de quem acabou de enviar uma
mensagem para ele e o que essa pessoa pediu.
— Dutch realmente quer te agradecer por aquele presente da
noite passada — diz Zane, sua voz um ronronar fácil e
superconfiante.
— E ele enviou seus irmãos como escolta? Devo me sentir
honrada.
Zane me dá um sorriso malicioso. — Você é engraçada.
— Não estou tentando ser — murmuro.
Finn acena para as portas da escola. — Vamos.
Quando os caras se viram e se dirigem para a entrada lotada,
envolvo meus braços firmemente ao meu redor e inspiro uma
respiração trêmula.
Talvez eu devesse ter ficado em casa hoje.
Agora é tarde demais.
Sem outra escolha, caminho atrás d'Os Reis, notando como
todos se apressam para sair do caminho deles e deixam uma
estrada livre. Parece que não importa se eles estão todos juntos ou
se é apenas um par, ninguém quer atrair os olhares dos deuses do
Redwood Prep.
Deve ser sufocante viver assim. Se arrastando como ratos,
sempre em alerta, sempre dando deferência a um grupo de garotos
com beleza sobrenatural e contas bancárias gordas.
Meu senso de justiça se agita e me agarro a esse sentimento
com todas as minhas forças. Dutch e seu bando conseguiram
suprimir todos aqui no Redwood Prep, mas eles nunca me domarão.
Nunca.
Para minha surpresa, os garotos me levam para além de sua
sala de prática privada e me conduzem ao teatro da escola.
— Ele está lá dentro — diz Zane, apontando para a escuridão.
Meu corpo inteiro treme, mas ergo o queixo. — Obrigada.
Pouco antes de eu atravessar as portas, Finn se coloca no meu
caminho. Ele se ergue sobre mim e me lança um olhar castanho que
é ao mesmo tempo frio e enigmático.
— Só achei que você deveria saber que sua estratégia atual não
vai funcionar — ele adverte. Sua voz cai para um grau gélido,
embora eu possa dizer que ele está tentando me ajudar. — Ele ama
aquele carro. Você o arruinou. Encontre outro ângulo.
— Ele está certo — concorda Zane. — Nós o acalmamos o
máximo que pudemos, mas quanto mais você mexer com a cabeça
dele, pior vai ficar.
— Seu irmão não é um deus, por mais que ele finja ser. Eu
posso me virar sozinha. — Endireito os ombros e finjo não estar
com medo, embora minha capacidade de lidar com Dutch esteja
mais instável do que nunca.
Finn e Zane trocam olhares.
Faço um gesto de 'se movam', zombando do que eles tinham
feito comigo nos degraus da escola.
Finn parece divertido.
Zane dá de ombros e recua.
Entro no teatro e ouço a porta se fechar firmemente atrás de
mim. Isso me faz pular.
Um silêncio repentino cai.
Meus olhos varrem o palco até encontrar Dutch. Ele está
sentado em um banco de piano, seus dedos se movendo sobre um
violão. Acho estranho que eu não ouça nenhum som até perceber
que ele não está tocando as cordas de verdade.
Tento engolir, mas fica preso na minha garganta.
O que esse monstro vai fazer comigo agora?
Sei de uma coisa. Não posso parecer intimidada. Ele vai explorar
cada rachadura na minha armadura, encontrar cada fraqueza e me
esmagar.
Com raiva e irritação colidindo em minhas veias, subo as
escadas pisando forte e caminho até ele tão ruidosamente que sua
cabeça inclina para o lado.
— Por que estou aqui, Dutch? Tenho aula em dez minutos. Não
tenho tempo para os seus joguinhos.
Ele coloca o violão no suporte e se levanta em toda a sua altura,
as pernas longas parecendo intermináveis. Meu coração dispara
quando seus olhos cor de avelã ardentes encontram os meus.
Nossas respirações pesadas se misturam com o silêncio do
auditório.
Um segundo se passa.
Dois.
— Por que você não está dizendo nada? — pergunto
sarcasticamente. — Alô?
Dutch se aproxima lentamente. Seus movimentos são calmos,
quase elegantes. — Meus irmãos fizeram uma ligação. Eu tinha
planejado te encurralar eu mesmo, mas eles insistiram que eu
deveria te punir em particular.
— Me punir? — solto uma risada amarga. — Você realmente
acha que é meu dono, não é?
— Sabe, é impossível tirar o cheiro de leite azedo do couro? —
Dutch me circula como um tubarão. Posso sentir o cheiro acre de
sangue também, e percebo que é porque estou mordendo a língua
com tanta força que a fez sangrar.
Seus dedos deslizam pela minha nuca e descem até meus
ombros. Tudo que ele toca queima. A sensação me deixa ao mesmo
tempo lânguida de calor e com o estômago embrulhado.
Ódio e luxúria.
Paixão e fúria.
Por que a linha entre essas emoções é tão tênue?
Meu coração bate num ritmo frenético. A cada volta que ele dá
ao meu redor, a cada roçar de seus dedos, estou sendo empurrada
mais fundo para o mundo de Dutch. Eu sei disso e ainda assim
estou impotente contra isso.
Tento desconcertá-lo dizendo: — Você não gostou do meu
presente?
Ele para. Seus olhos âmbar escurecem um tom, os marrons
dominando os ferozes favos de mel. Pior que um inimigo misterioso
nas sombras, ele é um monstro com as mãos perto o suficiente para
quebrar meu pescoço.
Ele se aproxima, sua voz suave e, logo abaixo disso, aço
aveludado. Me lembra sua voz cantando, o tipo de tom que é quente
como conhaque. Suave ao descer. Queima quando chega ao
estômago.
— Cadey, Cadey, Cadey.
Eu me enrijeço.
O olhar de Dutch me varre como um furacão brutal. — Você
costumava ser tão...
— Ingênua? Crédula? — cuspo.
— Inofensiva.
Quando ele olha para baixo para mim, mal consigo respirar.
Seus olhos estão semicerrados, sua boca dura e firme. Mais
monstro que homem, uma criatura feita de pecado e destruição.
Há uma carga no ar que sussurra que Dutch está pronto para
arrancar a máscara da minha fachada cuidadosamente construída.
Enterro meus dedos em punhos. A aparência de ser fria e inabalável
é tudo que tenho. Me recuso a deixá-lo ver por baixo disso a bolsista
assustada. Uma garota como todas as outras garotas que abaixam
a cabeça e abrem espaço para ele nos corredores. Uma garota tão
facilmente destruída por um olhar duro.
Num impulso de coragem, dou um passo em sua direção em vez
de me afastar. Sua sobrancelha se ergue.
— Você não vai me machucar, Dutch — blefei, minha voz escura
e suave e sensual o suficiente para encobrir meus braços trêmulos.
Ele sorri, mas é cruel e assustador. Seus olhos permanecem no
meu rosto. — Por que não?
— Porque, quer eu tenha mentido para você ou não, ainda sou
ela. — Avanço sobre ele novamente, meus saltos batendo alto
contra o chão do palco. — Sua preciosa Ruiva.
Seus olhos se estreitam ligeiramente. É um testemunho do
controle de ferro que ele tem sobre suas emoções que nenhuma
outra parte dele se mexe.
Finn me avisou para não cutucar esse urso bravo, mas tenho
meu graveto e estou enfiando-o o mais fundo que posso. Se vou
morrer, bem que posso levar um pedaço da carne de Dutch comigo.
— Você não machucaria ela, machucaria? — Minhas palavras
pairam na sala. O ar está tenso o suficiente para se partir em dois.
Um sorriso fino e cruel se forma em seus lábios. — Então toque
para mim — ele diz. Sem nem mesmo levantar a voz, suas palavras
estão cheias de autoridade. — E talvez eu te poupe.
— Quem diabos você pensa que é para me dizer o que fazer? —
rosno.
— Você não consegue, consegue?
Eu o encaro com raiva.
Ele toca um dedo na minha orelha e então o desliza até meus
lábios. — Se você desperdiçar meu tempo, Cadey, a punição será
mais severa.
Eu tremo, mas não tenho certeza se é de raiva, desespero ou
desejo. Tudo que sei é que não posso deixá-lo vencer.
Afastando sua mão, vou com raiva até o piano, arrasto o banco
para baixo dele e me sento. Meus dedos pairam sobre as teclas.
Começo a baixar minhas mãos, mas elas param logo acima do leito
preto e branco como se houvesse um vidro protetor sobre o piano.
Minha mente está gritando para eu tocar.
Mas meu corpo trava.
Não há uma multidão aqui, Cadence. Você consegue fazer isso.
Minhas mãos se recusam a se mover.
Minha garganta aperta.
Dedos invisíveis de pânico deslizam sobre meus ombros e
cravam suas garras nas minhas costas. Meus olhos se fecham e
minha respiração fica superficial enquanto as memórias que
mantenho trancadas rastejam em minha direção.
"Toque, querida", a voz da minha mãe cantarola na minha
cabeça. "Toque para as pessoas legais".
Meu coração está martelando nos meus ouvidos.
Eu os vejo.
Sinto o cheiro deles.
O fedor de corpos sujos. Membros se contorcendo. Agulhas
penetrando veias pálidas.
Abro a boca, incapaz de respirar.
Está tudo lá. Como abrir uma lata de vermes viscosos e
contorcidos.
O antro da escuridão. Os rostos sem esperança.
Seus olhos atordoados. Seus corpos não mais seus. Alguns
deles nus. Alguns deles crianças.
Meus olhos reviram.
Pontos pretos raspam minha visão.
Antes que eu possa colocar um dedo no piano, a gravidade me
arrasta para o chão.
CHAPTER
NOVE
CADENCE
Antes que eu possa desvanecer na escuridão, um braço se
enlaça em minha cintura, circunda minhas costelas e me puxa para
trás. Estou voando. Então, abruptamente, colido contra um peito
duro onde, logo abaixo do músculo, um coração bate
freneticamente.
— Que diabos, Cadey? — Dutch me sacode. Sua voz retumba
em meu ouvido.
Quero dizer a ele para calar a boca antes que me deixe surda,
mas não consigo falar. Nem mesmo respirar. O abraço repentino de
Dutch me impediu de desmaiar, mas meu corpo ainda está travado
nesse estado de pânico. Não sei como sair dele.
Minha boca se abre mais enquanto luto por ar. Posso me ouvir
ofegando, mas é apenas porque estou assustada. O que acontece
se eu nunca mais conseguir respirar?
— Droga, Brahms! — Dutch me ergue como se eu não pesasse
nada, senta-se no banco do piano e então me deixa cair
bruscamente em seu colo. Mãos grandes e calejadas enquadram
meu rosto enquanto ele vira minha cabeça para olhar para ele. —
Respire, droga!
Estou tentando.
As palavras não chegam à minha boca. Posso ouvir minha
respiração ofegante ficar mais alta em resposta.
O suor brota no rosto de Dutch. Seu pânico é palpável. Se eu
estivesse em meu juízo perfeito, isso me surpreenderia. Ele não me
odeia? Não quer que eu morra pelo que fiz com seu carro?
Por que ele parece tão angustiado?
Há um medo genuíno ardendo em seus olhos enquanto ele
procura uma maneira de me ajudar.
Enterro meus dedos em sua jaqueta, tentando me ancorar nele
para pelo menos pegar um fôlego. Apenas um. Só preciso de uma
maldita lufada nos meus pulmões. Por que é tão difícil para mim?
Por que sou tão quebrada por dentro?
Eu só quero ser normal.
Só quero fingir que o passado nunca aconteceu.
Todo mundo está lidando perfeitamente com sua bagagem. Sou
a única entrando em colapso à mera visão de um instrumento. Por
que é tão difícil para mim ser forte?
Em um segundo, estou presa em minha própria cabeça, certa de
que ficarei aprisionada nesse pânico pelo resto da minha vida.
No outro, Dutch está inclinando minha cabeça para trás, olhando
para mim com olhos cor de avelã ferozes e selvagens, e atacando
minha boca.
É um beijo que arranca a alma do meu corpo. Algo em meu peito
se solta. Finalmente inalo, um som alto e desesperado. Mas não é
ar que eu inspiro. É ele. Ele é o oxigênio, e eu o sorvo em goles
caóticos e desesperados como uma garota que finalmente
encontrou água após dias no deserto.
As mãos de Dutch deslizam pelas minhas costas e posso sentir
seu alívio.
O perigo passou, mas ele não para de me beijar. Depois de um
segundo, ele se afasta, verifica se estou respirando e então me beija
novamente. É como se ele precisasse ter certeza. Como se
precisasse saber que não haverá uma repetição se ele me afastar
dele.
Eu deveria sair do colo dele. Dar um tapinha em suas costas.
Dizer que estou bem agora.
Mas não o faço.
Meu bom senso se foi, arrancado pelo horror do meu ataque de
pânico. Estou reduzida à minha essência mais pura, os ossos nus
da sobrevivência flutuando à superfície da minha mente abalada.
Estou viva.
Droga.
Estou viva.
Então deslizo minhas mãos sobre seu peito largo e as enlaço em
seu pescoço. Fecho os olhos e abro minha boca para um beijo que
agarra meu coração e o aperta até estourar.
Dutch se inclina para frente e, como se percebesse que esse
beijo não é mais sobre sobrevivência, mas sobre pura necessidade
animalesca, ele muda o ritmo de seu ataque.
Agarro sua jaqueta, minhas mãos dormentes, meus joelhos
fracos, meu corpo derretendo como neve no verão enquanto seus
golpes frenéticos se transformam em carícias sensuais e lentas.
É como beijar eletricidade pura e tentar desesperadamente não
ser eletrocutada.
Não consigo suportar sem gemer.
Como eu poderia ficar em silêncio? Dutch Cross é sexy de uma
maneira descarada. Ele reivindica minha boca com uma tenacidade
que deixa claro, sem sombra de dúvida, que sou sua presa. E
sempre serei.
Normalmente, isso me irritaria. Mas, neste momento, baixo as
armas e me permito ser capturada.
Ele sente minha rendição e rosna em minha boca, selvagem e
insaciável, me arrastando sob uma onda avassaladora de meu
próprio desejo inquieto.
Estou sendo erguida e, um segundo depois, sinto as teclas do
piano cedendo sob minha mão. As notas dissonantes ecoam, uma
trilha sonora emocionante para o caos de nossas línguas em
combate. A borda do piano se crava em minhas costas. Sinto o
cheiro do óleo usado para afinar as cordas internas.
Eu deveria protestar. Deveria dizer a ele que vamos arruinar este
piano sagrado com nossa selvageria, mas suas mãos deslizam pelo
meu corpo, deliciosamente ávidas, e minha mente fica em branco.
É um novo tipo de loucura, um novo tipo de necessidade.
Se eu não estivesse tão delirante, a força do meu desejo
provavelmente me assustaria. No meu estado atual, me excita.
Mergulho nele, acariciando seu maxilar com meus dedos e os
enterrando em seus cabelos.
Estou ofegante quando Dutch deixa um último beijo esmagador
em minha boca e coloca as mãos no piano de cada lado das minhas
pernas. Ele inadvertidamente pressiona um acorde.
CEG
Soa lindo. Como uma pacífica manhã de primavera, o vento
agitando as árvores e o aroma de pêssegos pesado no ar.
Dutch parece tudo menos pacífico enquanto abaixa a cabeça,
seus ombros erguidos, seu peito arfando violentamente enquanto
faz – o que parece ser – um valente esforço para não me tocar.
— O que você está fazendo? — eu murmuro.
— Droga, Cadey. — Dutch levanta a cabeça e me lança um olhar
tão carregado de luxúria que é quase aterrorizante. — Droga.
— Não pare. — Pisco rapidamente, sugando outro abençoado
fôlego.
Dutch geme.
Arqueio-me contra seu peito duro, e ele avança como uma
tempestade. Selvagemente, pressiona um beijo no canto da minha
boca. Então traça uma linha de beijos dolorosamente doces pelo
meu pescoço, parando em minha garganta, sugando o calor da
minha pulsação loucamente acelerada.
Viro meu rosto para o dele e sua língua mergulha em minha
boca, quase arrancando um grito da minha alma.
Sou uma bagunça trêmula de deleite perverso enquanto ele
obsessivamente morde, suga e acaricia meus lábios até que
formiguem.
— Dutch — gemo sob ele.
Confuso.
Desconcertante.
Eu o odeio a cada respiração, mas preciso dele mais perto com
cada osso do meu corpo.
Minhas mãos deslizam sobre suas calças. Congelo por um
segundo, atordoada e um pouco sobrecarregada.
Meu Deus.
O piano emite sons confusos e protestantes enquanto Dutch
arrasta minhas pernas em sua direção, me fazendo inclinar para trás
sobre o teclado. As notas sustentam, gritando de dor enquanto
meus cotovelos se equilibram nas teclas pretas e brancas.
Meus olhos se arregalam. Meu coração dispara. E todo o meu
corpo se incendeia quando ele desliza as mãos por baixo da minha
saia e engancha os dedos na minha calcinha.
Olho para ele. Dutch Cross. Essa assustadora massa de caos e
desejo pairando sobre mim. E me sinto... insana.
Meu pulso dobra de velocidade.
Espero ansiosa, pronta para que ele libere o fogo branco e
quente aprisionado em meu corpo, pronta para sentir o tipo de calor
que poderia erradicar o sol.
Mas ele para de repente.
Eu pisco, minhas mãos inquietas sobre seu peito, meu corpo
afinado como uma corda de piano prestes a estourar.
— Droga — ele diz novamente, mais irritado desta vez. Ele fecha
os olhos com força, balança a cabeça, crava os dedos com tanta
força nas minhas coxas que deixarão marcas.
O instinto me faz hesitar.
Mas não quero que isso acabe ainda.
No momento em que meu pulso voltar ao normal, será um erro
embaraçoso. Uma linha cruzada entre inimigos. Um doloroso
lembrete de quão tola me torno quando estou presa em seu feitiço.
Eu me inclino, envolvo meus dedos na gola da camisa de Dutch
e o puxo para mim. Seu corpo afunda contra o meu, seu peso me
esmagando contra o piano.
Eu torço meus quadris, buscando sua mão. Seus nós dos dedos,
ainda sob minha saia, roçam contra um feixe sensível de nervos.
Esse leve roçar por si só é suficiente para enviar um terremoto
sacudindo meu corpo.
Eu gemo e isso o atrai novamente. Sua boca sufoca a minha
enquanto ele me explora através da calcinha e eu me contorço no
teclado, batendo outro acorde angustiado. O piano se entrelaça com
o som dos meus gemidos baixos e torturados, criando uma
harmonia sensual e terrena que ecoa pela sala vazia.
Sou um estouro de trovão de necessidade, desejo fervente e
caos pulsante. Apenas senti-lo através das minhas roupas não é
mais suficiente.
Eu recuo e estendo a mão para desabotoar sua calça jeans
quando Dutch fica imóvel. Algo muda no ar e vejo uma emoção fria
e apática rasgar seus olhos. É como assistir um monstro se
transformar em algo muito pior.
Sua mão se retira de baixo da minha saia como se eu fosse
veneno.
— Saia da minha frente — ele rosna.
Eu paro, com a cabeça inclinada para trás, meus olhos se
arregalando. Meu cérebro ainda está confuso e demora um pouco
para eu processar tanto sua retirada quanto sua ordem.
Dutch abruptamente se afasta do piano e as notas dissonantes
fazem um miado triste e lamentável.
Ele se vira e me dá as costas.
Eu me levanto apressadamente, empurrando minha saia para
baixo nas coxas. As teclas do piano estão úmidas e minhas mãos
escorregam contra elas quando tento descer.
Estou ficando com torcicolo. Há apenas um segundo, ele estava
me apalpando, tocando sob minha saia como um pianista no auge
de um clímax. Agora, ele se fechou completamente, me deixando
sem fôlego e querendo mais.
O fato de que caí por ele, caí por essa fera mais uma vez, envia
uma onda de raiva através de mim. — Dutch, que diabos você está
fazendo?
— Você não entende português, Brahms?
— Você não pode simplesmente me beijar assim e então...
— E então o quê? — Ele se vira. Frio como gelo. Só linhas duras
e sombras escuras.
Meu corpo treme.
— Você acha que isso significou alguma coisa? — Seus olhos
deslizam pelo meu corpo. — Nem sonhe com isso. Um cara como
eu tem altos padrões. — Ele faz uma pausa. — Mesmo quando
escolhe uma vadia.
Minhas narinas se dilatam. A raiva ganha vida no meu peito.
Eu vou direto até Dutch Cross e seu rosto lindamente perverso e
o esbofeteio.
J : F A , N M P
aguardavam ansiosamente a revelação do culpado por trás do
passeio podre do Príncipe Encantado, tenho boas e más notícias.
A boa notícia é que o perpetrador foi encontrado. A má notícia é
que vingança é a última coisa na mente do Príncipe Encantado
quando se trata dela. Infelizmente, não veremos nosso Príncipe
Coroado flexionar suas garras perversas e chover o inferno sobre
seus inimigos, mas aqui está um pequeno prêmio de consolação.
Um passarinho escondido na seção de figurinos do teatro ouviu
uma trilha sonora e tanto no palco hoje. Aparentemente, o Príncipe
Coroado e sua Cinderela encontraram uma maneira criativa de
resolver suas diferenças.
Pergunta: como se limpam fluidos corporais das teclas de um
piano? Perguntando para um amigo.
Até o próximo post, mantenham seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais perto.
- Jinx
CHAPTER
DEZ
DUTCH
Minhas mãos cortam a água, separando o líquido azul cristalino
e me impulsionando para frente. Bato os pés contra a parede da
piscina, giro e disparo na direção oposta.
Acima de mim, há duas figuras, distorcidas pela visão
subaquática. Uma é Finn que, na última vez que emergi para
respirar, estava lendo um livro em seu tablet. A outra é Zane, que
nos seguiu porque – a menos que seja a aula de Literatura da Sra.
Jamieson – ele está tão desinteressado em assistir às aulas quanto
eu.
Quando uma terceira figura se junta aos meus irmãos, mudo de
direção e nado para a borda da piscina.
Os olhos de Sol encontram os meus quando emerjo e tomo uma
respiração profunda. Meus pulmões estão queimando. Assim como
minhas pernas e braços. Água clorada escorre pelas pontas do meu
cabelo e desliza ao redor dos meus óculos de natação.
— Isso é novidade — diz Sol. Apontando para mim, ele pergunta
a Zane: — Isso é novidade, certo?
Zane levanta os olhos do celular. — A aula já acabou?
Sol assente e me olha inquisitivamente.
Empurro os óculos para o topo da cabeça. — Como foi?
— Como foi o quê?
— A aula. — Passo a mão pelo rosto para me secar.
— Se você estava tão interessado, por que não foi?
Respiro fundo, meu peito inflando e depois afundando. — Só nós
faltamos?
Ele me lança um olhar confuso.
— Faltamos? — insisto.
— Ele está perguntando se a Cadence estava lá — diz Finn
secamente, deslizando o dedo sobre o tablet para virar a página. —
Acompanhe, Sol.
Lanço um olhar furioso ao meu irmão.
Ele finge não ver.
— Sim, ela estava lá. Por quê? — Sol olha ao redor. — Estou
perdendo alguma coisa?
Zane guarda o celular, gira as pernas e apoia os cotovelos nos
joelhos. Lançando um sorriso malicioso a Sol, ele pergunta: —
Como ela estava?
— Não sei. Ela estava sentada no fundo. Não é como se eu
pudesse ficar olhando para ela.
Zane geme. — Droga. Pensei que você teria algumas
informações. — Ele me aponta com o dedo. — Pegamos Dutch
tentando se esgueirar para a sala de prática depois de encontrar
com ela. Tivemos que arrastá-lo para longe do violão antes que ele
arruinasse ainda mais a mão.
— Você está proibido de tocar violão? — Sol parece chocado.
— Porque ele está machucado — diz Finn calmamente. — Ele
tocou até suas mãos sangrarem.
Sol me olha com preocupação.
Zane passa a mão pelo cabelo. — O cara é um maníaco.
Mostro o dedo do meio para Zane.
Ele retribui o gesto.
— Então... vocês estão dizendo que essa natação aleatória tem
algo a ver com a Cadence?
Finn não tira os olhos do livro quando diz: — Ele e Brahms
tiveram outro confronto esta manhã.
— Mas ele não quer nos contar o que aconteceu. — Zane faz
biquinho.
Sol pisca lentamente. E então seus olhos se focam em mim. —
Na verdade, eu falei com a Cadence antes dela sair da aula. Ela
parecia um pouco abalada. — Ele arqueia uma sobrancelha para
mim. — E ela tinha hematomas no pescoço.
Finn deixa cair o tablet.
Zane me fita com um olhar atônito. Tenso, ele sussurra: —
Você... a estrangulou?
— Eu não sou tão psicopata assim — rosno.
— Não hematomas desse tipo — esclarece Sol, balançando a
cabeça.
A compreensão surge nos meus irmãos.
— Espera — as sobrancelhas de Finn se juntam —, ela não tem
namorado?
— A Cadence tem namorado? — Sol fica tenso.
— Legal. — Zane parece presunçoso. — As comprometidas são
mais gostosas.
Já cansado da conversa, mergulho de volta na piscina. Ouço
Zane e Sol tentando me gritar perguntas, mas os ignoro e afundo no
mundo subaquático.
Cadence está se tornando um problema. Como diabos passei de
querer despejar a ira do inferno sobre ela para sugar sua alma do
corpo?
É como se eu não pudesse me permitir ficar sozinho com ela
quando há um piano por perto. Mais cedo ou mais tarde, vou
encostá-la contra as teclas e abri-la.
Projeto minha cabeça acima da água apenas por um segundo
antes de mergulhar novamente.
Ela me fez perder a cabeça quando a vi em pânico. Nunca ouvi
sons tão torturados e indefesos. Ela age como um pilar impenetrável
o tempo todo, então vê-la desmoronar apenas por pairar as mãos
sobre um piano quebrou meu cérebro.
É por isso que a beijei da primeira vez.
Mas isso não pode explicar tudo o que aconteceu depois.
Ouço um respingo e sinto a água ondular ao meu redor. Um
momento depois, o braço de alguém envolve meu pescoço e me
puxa para frente. Chocado, abro a boca e engulo um monte de água
antes de instintivamente me impulsionar para cima.
A risada de Zane me recebe primeiro. Abro os olhos, ignorando a
ardência do cloro, e o encaro furioso.
— Que diabos há de errado com você?
O cabelo do meu irmão está encharcado, assim como suas
roupas. Ele pulou aqui com o uniforme completo da Redwood Prep.
— Chega de ficar emburrado, Dutch. Você se vingou dela pelo
lance do carro, não é?
Empurro o braço dele para longe e cerro a mandíbula. Se meus
irmãos ouvissem o que eu disse à Cadence, pensariam que era
parte da minha punição. E tenho certeza de que Cadence pensa o
mesmo.
Mas a verdade é ainda mais patética do que a forma como lidei
com minha "vingança".
Eu não a afastei porque não a queria. Era o oposto. Eu queria
fodê-la até que seu cérebro saísse pelas orelhas. Eu queria colocar
suas mãos naquelas teclas do piano, dobrá-la completamente e
encher o salão com música quente o suficiente para queimar a
escola inteira.
Mas eu não conseguia tirar esse maldito aviso da cabeça. Uma
vozinha que eu nunca ouço mas que, quando se trata daquela
garota irritante, parece ficar bem alta.
Ela acabou de ter um ataque de pânico. Ela não está em seu
juízo perfeito. Ela precisa de ajuda, não da sua boca nos peitos
dela.
Eu não sou o tipo de cara que impõe limites quando uma garota
está disposta, aberta e gemendo meu nome. E Cadence já estava
dificultando as coisas com o jeito que ela estava ronronando e se
esfregando em mim como uma gata no cio.
Ela estava bem ali.
Bem ali, caramba.
Um banquete exposto em toda a sua glória abundante.
Mas eu sabia que ela não estava realmente se agarrando a mim
porque me queria ou mesmo porque queria sexo. Era uma reação
instintiva por estar presa em um espaço mental terrível e eu era o
alvo conveniente para sua descarga de adrenalina.
E a pior parte?
É que eu me importo.
Importa muito que eu não me aproveite dela.
Meu Deus do céu.
Nem me reconheço mais.
— Ei, a água está ótima — Zane me solta e nada até Sol. Ele faz
um gesto de "vem". — Entra aqui, cara.
— Não — Sol balança a cabeça.
Ergo uma sobrancelha na direção dele. Antes, Sol teria sido o
primeiro a pular nessa piscina, sem se importar com as
consequências.
Mas Zane não desiste. Ele manda uma onda de água sobre a
borda da piscina que espirra bem no meio do peito de Sol.
O olhar apagado e pesado nos olhos de Sol se dissipa,
substituído por um brilho familiar que me lembra dos velhos tempos.
— Ah, agora é guerra! — Sol dá uma corrida e pula de bomba na
piscina.
A parede de água que ele levanta encharca as pontas dos tênis
de Finn. Ele nos lança um olhar feio.
— Vem pra cá, Finn! — Zane grita.
— Tô bem.
— Medroso!
— Pelo menos minhas calças estão secas. Boa sorte com meias
ensopadas e cuecas molhadas.
— Diferente do Dutch, a gente não teve tempo de trocar pra
sunga — Zane aponta o queixo pra mim. — Além disso, as garotas
adoram ver meus abdominais através de uma camisa molhada.
Eu rio.
Zane pisca e faz um nado de costas.
Sol joga um respingo de água nele.
Zane engasga. — Ei!
— Isso é vingança.
Enquanto Sol e Zane começam uma guerra de água, Finn volta
para seu livro — embora desta vez, ele tenha um pequeno sorriso
puxando os cantos dos lábios. Realmente parece os velhos tempos
de novo, com Sol voltando a ser seu eu alegre e Zane irritando todo
mundo como de costume.
Com eles por perto, me trazendo de volta à realidade, me sinto
menos à deriva e mais eu mesmo.
Nado com os caras por um tempo até Sol reclamar que está
atrasado para a aula.
Como ele já falou sobre querer manter suas notas altas, Zane e
eu concordamos em levá-lo para sua próxima aula. Assim, os
professores não ousarão dizer nada estúpido para ele.
Entro sozinho no vestiário masculino, feliz por ter sido esperto o
suficiente para tirar minhas roupas antes de pular na piscina. Abro o
armário, alcanço lá dentro e encontro...
Nada.
Sem sapatos.
Sem cuecas.
Sem calças, camisa ou jaqueta da Redwood Prep.
Piscando, abro outro armário, pensando que talvez eu tenha
pegado o errado.
Ainda nada.
Dou um passo para trás e olho ao redor do vestiário úmido,
examinando os bancos e olhando atrás das prateleiras só para o
caso de eu ter colocado em outro lugar.
As roupas sumiram.
— Zane — cuspo.
Voltando furioso para a piscina, encaro meu irmão que está
sentado e secando sua camisa com uma toalha. Não está
adiantando muito. Ele ainda parece tão encharcado quanto antes.
Sol está do lado oposto do banco, enfrentando o mesmo problema.
Minhas narinas se dilatam. — Isso não tem graça, Zane.
— O que não tem graça?
— Me devolve minhas roupas — rosno.
As sobrancelhas de Zane se juntam. Sua atuação está
melhorando porque ele realmente parece não ter ideia do que estou
falando.
— Eu não peguei suas roupas — diz Zane.
— Sol?
Ele levanta as duas mãos. — Eu também não.
Olho por cima do ombro. — Alguma ideia de onde podem ter
ido?
— Ei — Zane protesta —, por que você não está acusando
cegamente o Finn?
— Porque ele não faria algo tão estúpido.
— Estou ofendido — diz Sol com falsa indignação. — Então você
está dizendo que eu faria? Está me colocando no mesmo nível
desse cara? — Ele aponta para Zane.
— As roupas não podem ter saído andando — rosno.
Finn levanta uma mão. — Eu me lembro de ter ouvido
movimento no vestiário, mas não achei que fosse nada suspeito.
— Quem quer que fosse, teria visto que estávamos aqui — diz
Zane.
— Ninguém em Redwood mexeria com você desse jeito — Sol
esfrega o queixo pensativo, seu cabelo escuro todo emaranhado na
cabeça. — Tem certeza que procurou em todo lugar?
Meus dedos se fecham em punhos. — Há uma pessoa em
Redwood que seria louca o suficiente para me provocar.
Finn sorri maliciosamente.
Zane bate as mãos. — Por que eu estou tão entretido com isso?
— Quem? — Sol pergunta, olhando para mim e depois para Finn
e Sol. — Quem é louco o suficiente para enfrentar o Dutch?
Viro-me bruscamente e saio da piscina.
Você quer um show, Cadence? Eu vou te dar um maldito circo.
CHAPTER
ONZE
CADENCE
Meu armário bate inesperadamente, quase arrancando meu
nariz. Pulo de susto e olho para cima para encontrar um par de
olhos castanhos desdenhosos me encarando.
— Paris, a que devo o desprazer?
A líder de torcida dá um passo ameaçador à frente.
— Você acha que fez algo especial, Garota do Lixo?
— Oh, Garota do Lixo? — Sorrio com desdém. — Muito criativo.
— Eu sei que foi você quem mexeu no carro do Dutch. — Ela
ergue o queixo e me olha de cima. — E se você pensa por um
segundo que vai se safar... — Seus olhos captam algo à distância e
se arregalam, ocupando metade do rosto.
— Ai meu Gucci — Paris choraminga.
Curiosa, eu me viro e quase engasgo com minha própria saliva.
Os Reis estão desfilando pelo corredor como se fossem estrelas
de um desfile de moda. Finn está na extremidade — completamente
seco — enquanto Sol e Zane estão encharcados até os ossos,
exibindo seus peitorais deliciosos através de uma camisa
transparente.
Mas, apesar de toda a sensualidade de camiseta molhada, não
são eles que chamam minha atenção.
É Dutch Cross.
Ele é todo membros longos e esbeltos e pele dourada... e nu.
Meus olhos percorrem seu corpo musculoso, os ombros
reluzentes, os recortes de abdômen e a linha V deliciosa abaixo de
sua sunga antes que eu feche a boca e desvie o olhar para o teto.
O pandemônio se instala quando outras pessoas começam a
notar a grande entrada dos Reis. O ar se enche de gritinhos
seguidos por suspiros escandalizados e gritos de deleite.
Garotas cobrem suas bocas em choque. Rostos ficam vermelhos
de timidez e excitação. Risadinhas explodem como um tsunami.
Até os rapazes têm reações selvagens. Alguns rolam de rir.
Outros sacam seus celulares para capturar o momento.
Eu tropeço para trás, sentindo meu rosto ficar quente. Meu
coração está batendo prestissimo; provavelmente não conseguiria
fazer meus dedos acompanharem tal andamento.
Sem conseguir me conter, dou mais uma olhadela em Dutch.
Mechas úmidas de cabelo loiro cobrem sua testa, pingando água
sobre seu nariz reto e lábios cheios e rosados. Ele está encharcado
e brilhante, como algum tipo de modelo de cueca saído direto de um
comercial de TV sensual e quase ilegal.
Os olhos do monstro pousam em mim e sinto como se alguém
tivesse colado fogos de artifício em meu corpo e depois causado
uma explosão.
Lembranças do nosso beijo invadem minha mente, provocando
um tipo diferente de explosão.
Uma coisa é sentir o poder e a força de Dutch pressionados
contra mim.
Mas é outra coisa ver como são todos aqueles músculos e carne
fibrosa à luz do dia.
Caramba, ele é sarado.
Minha respiração fica cada vez mais ofegante.
Luto para me recompor e lembrar por que coloquei esse plano
em ação.
Quando ouvi que os Reis haviam tomado conta da piscina, a
ideia de roubar as roupas de Dutch me veio como um presente
direto do céu.
Ele me chamou de vadia.
Não, pior que isso.
Ele disse que eu nem era boa o suficiente para ser sua vadia.
Como se eu algum dia quisesse tal posição.
Forçá-lo a suportar uma caminhada da vergonha parecia
apropriado e totalmente perfeito na hora. Mas meu plano está
saindo pela culatra. Eu não esperava que seu corpo fosse esculpido
como uma maldita estátua. E não esperava que ele ostentasse sua
beleza nua com tanta facilidade.
Ele não está nem um pouco incomodado com a atenção e até
para para tirar fotos com as garotas que pedem selfies. Posso não
ter o aplicativo de Jinx, mas sei com certeza que essa história estará
por toda parte em meia hora.
Dutch termina com as selfies e nega os outros pedidos de fotos.
Seus olhos procuram os meus e eu luto para não sair correndo. É
preciso muita força de vontade para permanecer no lugar enquanto
ele se aproxima cada vez mais.
Paris está arrumando o cabelo e retocando o batom ao meu
lado. Ela puxa o topo do uniforme de líder de torcida para baixo para
que mais de seu decote fique à mostra e dá um passo em direção a
Dutch.
Colando um grande sorriso no rosto, ela empina o peito.
— Ei...
Ele passa direto por ela.
O rosto vermelho de Paris seria ouro puro, se eu não estivesse
sendo perseguida pelo próprio Príncipe das Trevas.
Eu recuo e considero meu plano de fuga, mas já é tarde demais.
Dutch apoia o braço no armário acima da minha cabeça, fazendo
seus músculos ondularem e se contraírem. As tatuagens que
envolvem seus ombros sólidos até os pulsos são ainda mais
incríveis de perto. O traçado é impecável. A arte, imaculada. Ele é
todo músculos rígidos e linhas perfeitas por toda parte.
A pressão aumenta em meu peito quando ele se inclina sobre
mim. Tão perto, é quase impossível não olhar para suas partes
íntimas mal cobertas. O calor se acumula sob minha pele e sei com
certeza que meu rosto está queimando como se eu tivesse febre.
O olhar de Dutch se fixa em mim, mas o meu escorrega pelo seu
pescoço grosso, repleto de músculos, para seus ombros e desce
pelo peito.
— Se você queria me ver nu, era só pedir — Dutch provoca.
Seu tom é leve, mas não penso nem por um segundo que ele
esteja se divertindo comigo. Há um tom afiado e metálico logo
abaixo das palavras.
Inclino a cabeça, inocente como posso.
— Onde estão suas roupas, Dutch?
— Eu estava prestes a te perguntar isso. — Seu tom se torna
áspero.
Eu tremo com o calor de seu corpo e a tensão entre nós. De
alguma forma, o fato de centenas de olhos estarem encarando essa
troca ridícula está apenas levemente penetrando meu cérebro.
A raiva que senti quando ele me expulsou do teatro hoje ficou
em silêncio. Meu cérebro pifou. E é o corpo quente de Dutch que
está embaralhando os sinais.
— Por que eu teria suas roupas? — pergunto com uma voz
suave e confusa. Só porque todos estão ouvindo, não significa que
todos precisam escutar. — Isso seria imaturo da minha parte. —
Levanto a cabeça. — Tão imaturo quanto beijar alguém e depois
chamá-la de vadia.
Seu peito se agita de raiva e seus olhos a refletem. Um súbito
cerrar de mandíbula exibe a simetria poética de seu rosto e isso me
deixa sem fôlego e irritada ao mesmo tempo.
— Eu pareço alguém com quem você pode brincar, Brahms? —
Dutch rosna. Uma fera magnífica pronta para me destruir.
Não vou deixá-lo ter sucesso.
— Quem disse que fui eu? Você tem alguma prova?
Ele range os dentes.
— Embora eu deva dizer — direciono meu olhar para o
velocímetro — que estou um pouco decepcionada.
Seus olhos abrem um buraco em mim. — Aposto que se eu
checasse debaixo da sua saia, eu descobriria exatamente o que
você acha de mim, Brahms.
Meu peito aperta e percebo, sem dúvida alguma, que quero que
esse babaca arrogante morra mil mortes ardentes.
— Vai se ferrar, Dutch — cuspo asperamente.
O desdém brilha em seus olhos e o ódio contamina o ar entre
nós, um veneno retorcido que nos envolve. Mas sob a feroz
animosidade, algo muito mais atraente persiste. Uma tensão
turbulenta. Uma atração tão acentuada e precisa que consegue
fazer até mesmo este momento acalorado de desprezo mútuo
parecer sexual.
Nossas respirações ofegantes se encontram e se misturam no
meio de nossos corpos. Dutch está perto o suficiente para que eu
possa ver a batalha dentro dele. A luta para me ter, me conquistar e
me quebrar versus o fogo daquele algo ilusório.
Algo mais.
Algo real.
Porque, por mais que eu odeie admitir, existe uma conexão aqui.
Está ofuscada por um ódio esmagador, mas está presente.
Ele me tirou do meu ataque de pânico.
Alguma parte de mim confia nele.
E alguma parte dele se importou o suficiente para me salvar de
mim mesma.
Ele é um deus pesadelo de pé sobre um mar de sombras, e
ainda assim me impediu de me afogar. Duas vezes. A primeira vez
na piscina de Redwood e esta manhã, de um mar de memórias feias
e distorcidas.
— O que está acontecendo aqui? — A voz fraca do diretor Harris
ecoa pelo ar.
Eu me enrijeço e abaixo a cabeça, tentando me esconder antes
que ele me veja.
Mas é inútil.
— Vocês dois! — Passos pesados se aproximam. — Que
demonstração inapropriada! Todos, vão para a aula. Vão para a...
vocês dois! Detenção para ambos! E você, vista suas roupas. Isto é
um lugar de aprendizagem, não um clube de strip!
Dutch revira os olhos como o delinquente que é e se vira
lentamente.
As bochechas do diretor Harris - que já estavam vermelhas
manchadas - ficam da cor de um hidrante. — Sr. Cross... eu não
percebi...
Dutch levanta uma mão e o diretor engole suas palavras
imediatamente.
— Vou para casa pegar outro uniforme já que o meu parece ter
— ele olha de volta para mim — misteriosamente desaparecido.
— C-claro, Sr. Cross. Tenho certeza de que isso deve ter sido
um mal-entendido.
Dutch desvia o olhar do diretor como se estivesse enojado.
Eu o amaldiçoo internamente. Ele é tão maldito arrogante. É
incrível que até mesmo seus irmãos o suportem.
Dutch se vira de volta para mim. — Vejo você na detenção.
A raiva ferve em minhas veias enquanto Dutch caminha, calmo
como uma cobra, pelo corredor e desaparece de vista.
J : O P E E B E V
achou que eu estaria cobrindo outra coisa? O Príncipe Encantado
foi visto marchando pelos corredores usando apenas uma peça de
spandex que deixava POUCO para a imaginação. As garotas ficarão
acordadas a noite toda postando fan-fics, tenho certeza. Mas
alguém mais notou como nosso Príncipe Coroado dispensou a
ascendente Princesa Pompons? Sinto cheiro de uma rivalidade
feminina surgindo das profundezas.
O inferno não tem fúria como a de uma mulher desprezada. A
Garota Nova melhor tomar cuidado.
Até o próximo post, mantenha seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais perto.
- Jinx
CHAPTER
DOZE
DUTCH
Verifico meu relógio, deslizo a mão no bolso e faço um gesto
com a cabeça em direção à porta. — Saiam.
Passos apressados ecoam enquanto todos na detenção correm
para fora de vista.
Verifico meu relógio novamente.
Ela deve chegar a qualquer minuto.
Afundo-me em uma cadeira no fundo da sala e mantenho os
olhos na porta. É o fim do dia. Estou vestindo calças cáqui e uma
camisa social com o logotipo da Redwood Prep no bolso, mas
poderia nem ter me incomodado. Quando voltei à escola
completamente vestido, as pessoas me olhavam como se eu ainda
estivesse de sunga.
Acho que Zane, com todas as suas travessuras, nunca
conseguiu agitar a Redwood Prep desse jeito antes.
A porta range ao abrir.
O ar fica carregado quando Cadence coloca a cabeça para
dentro. Cabelos cor de chocolate escuro caem sobre seu ombro
esquerdo.
Ela olha ao redor confusa. — Onde está todo mundo?
— Somos só nós.
— Sério? — Seu nariz se enruga. — Pensei ter ouvido que
alguém mais pegou detenção hoje.
Cruzo os braços sobre o peito e chuto a mesa ao meu lado em
uma instrução silenciosa para que ela se sente ali.
Cadence ignora educadamente minha ordem e se senta na
primeira fileira.
Teimosa como o inferno. Como sempre.
— Minhas roupas apareceram magicamente no meu armário
quando voltei à escola — grito para as costas dela. — Meio tarde
para ter um ataque de consciência.
— Talvez quem fez isso tenha ficado traumatizado com a visão
de você e nunca mais quis te ver nu de novo — ela responde
bruscamente.
Sorrio com malícia. — Ou talvez tenham gostado do que viram.
Ela bufa como se fosse a coisa mais ridícula que já ouviu. Mas
eu a vi me checando no corredor hoje. Ela sente atração por mim,
provavelmente tanto quanto me odeia.
Levanto-me da cadeira, caminho até a frente da sala e me inclino
contra a mesa do professor. Brahms finge não notar. Concentrando-
se atentamente em seu livro didático, ela vira uma página.
Meus olhos devoram seu rosto - maçãs do rosto frágeis, lábios
maduros como morangos, membros longos e delicados. Cruzo os
braços sobre o peito. — É por isso que você só consegue tocar
disfarçada? Porque tem medo do piano?
— Não tenho medo do piano — ela responde irritada.
— Não foi o que pareceu esta manhã.
— Esta manhã nunca aconteceu. — Ela levanta a cabeça
bruscamente. — Não é isso que você quis dizer quando disse o que
disse?
Eu me encolho.
Ela abaixa o olhar novamente, puxando com raiva seu livro
didático para uma nova página.
Meu telefone toca.
É Finn. — Curtindo a detenção?
Olho para Cadence. — A companhia poderia ser melhor.
Ela se enrijece.
— Estou ligando para avisar que os caras da oficina disseram
que provavelmente podem fazer uma limpeza profunda na
caminhonete. Deixá-la em forma. Vou passar depois da escola para
te buscar e você pode dar uma olhada.
— Valeu.
— E Dutch.
— O quê?
— Não estrague isso — Finn adverte.
— Não sei do que você está falando — digo levemente.
— É, você não sabe. — Ele desliga.
Guardo o telefone no bolso e bato os dedos na mesa.
Cadence me lança um olhar irritado. — Dá para parar com isso?
Está me distraindo.
— Ah, qual é, Brahms. Você não está nem um pouquinho
animada por estar sozinha comigo?
— Nem um pouco.
Agarro sua cadeira, puxo-a para frente e prendo meus pés ao
redor dela.
Ela grita.
— E agora? — Meus olhos descem para seus lábios. — Melhor?
— Seu narcisista egomaníaco!
— Me chame do que quiser, Brahms. Você gosta desses
joguinhos ou não teria ficado tão boa em jogá-los.
Ela me fulmina com o olhar. — Que tipo de pessoa doente e
cruel acha que torturar alguém é um jogo?
— Que tal você responder minha pergunta?
— Que tal você cuidar da sua vida?
Levanto-me, agarro cada extremidade da mesa dela e sussurro
em seu ouvido: — Tudo bem. Então pelo menos me diz se aquele
cara da lanchonete era mesmo seu namorado. E se for, será que ele
sabe o quanto você gosta das minhas mãos na sua-Ela fecha o livro
didático com força. Seus olhos cospem faíscas furiosas. — Sai de
perto de mim.
Ergo uma sobrancelha.
— Agora tenho uma advertência no meu histórico graças a você.
Além disso, vou me atrasar para o trabalho voluntário e isso significa
que não vou chegar a tempo no meu turno. Frankie vai me mastigar
e cuspir fora. — Ela ergue o queixo. — Se Hunter é meu namorado
de verdade ou não, não tem nada a ver com você. Seja lá que novo
truque você está tentando ao fingir interesse por mim, pode engolir.
Uma risada baixa e sombria ressoa em meu peito. Por algum
motivo, vê-la tremendo e com raiva enche meu corpo com essa
estranha onda de energia. É como se alguém tivesse jogado uma
torradeira ligada na minha banheira. Estou fritando como peixe na
frigideira e é glorioso.
— Você não está namorando ele.
— Isso é o que você entendeu do que eu acabei de dizer?
— Você poderia ter dito que sim. Que está transando com ele.
Que gosta dele. Sei lá. Mas não disse. — Planto uma mão na mesa
dela e lanço um sorriso confiante. — Você nem pensa nele quando
está comigo.
Ela zomba. — Você já nasceu assim tão egocêntrico ou é
recente?
Me inclino mais perto, meus olhos em seus lábios. — Nasci
assim.
Seus olhos também se voltam para minha boca.
Recuo antes de beijá-la, notando o lampejo de decepção que
passa por seus olhos. Ela é boa em fingir que me odeia, mas tenho
evidências de que seu corpo certamente não odeia.
Eu poderia me aproveitar disso, mas o que ela disse no teatro,
sobre eu não machucá-la porque ela é Redhead, ficou gravado na
minha mente. Acho que há alguma verdade nisso.
Se fosse apenas vingança que eu quisesse, já teria esmagado
ela a essa altura. Mas algo continua me impedindo. Há um desejo
agudo por trás da minha necessidade de destruí-la. Ele mostra a
cara sempre que ela fica vulnerável. Me faz querer protegê-la em
vez de torturá-la.
Essas necessidades conflitantes - de possuir e destruir, de
proteger e devorar - elas puxam uma contra a outra. É confuso em
todos os níveis.
Volto para minha cadeira. A atração magnética que sinto por
Brahms está ficando um pouco mais difícil de controlar. Preciso de
distância.
— Foi preciso coragem para fazer Christa ser presa. Foi preciso
um nível sério de dedicação para colocar lixo no meu carro. E
roubar minhas roupas? Audacioso. Mas o que eu não entendo é
como você envolveu meu pai. Isso está acima do seu nível.
— Eu também tenho conexões.
Eu franzo a testa. Papai não teria deixado ela voltar para a
Redwood Prep sem ter um plano. Algo parece estranho.
Os dedos de Cadence apertam a mesa. — Já que isto é um
interrogatório-
— Quem disse que era?
— Você acha que eu não tenho perguntas também?
Dou de ombros e faço um gesto de pode começar.
— Por que você queria que eu saísse da escola mês passado? É
por causa do Sol? Tem algo... errado com ele? Tem algo a ver com
o motivo pelo qual ele perdeu o início das aulas?
Eu me enrijeço quando vejo o interesse genuíno em seus olhos.
Há mais por trás dessa pergunta. Ela não está apenas perguntando
por si mesma, mas porque realmente quer saber mais sobre o Sol.
Estou irritado por razões que não consigo realmente explicar.
Isso quebra o encanto da minha empolgação. Uma parte de mim
estava realmente ansiosa para passar um tempo sozinho na
detenção com ela.
— Por que você está tão interessada no Sol?
— Porque ele é realmente legal comigo.
Reviro os olhos. — Grandes padrões.
— E daí? Eu deveria, naturalmente, estar mais interessada em
alguém que me trata mal? — Suas sobrancelhas se erguem.
Sou sábio o suficiente para não responder diretamente. — Ele
não é da sua conta. Fique longe dele.
— Você já disse isso — ela aponta. — Mas só porque você me
diz para fazer algo não significa que eu tenha que obedecer.
O olhar que lanço a ela é afiado. — Eu não quero que você
pense em nenhum outro cara.
— Então você quer controlar meus pensamentos agora? — Ela
zomba.
Faço uma careta em resposta. Odeio que ela me afete. Odeio
que ela tenha uma pequena influência sobre mim. Seja por causa
dos meus sentimentos remanescentes pela Ruiva ou por pura
luxúria animal, ela me deixa fraco.
E agora que percebo isso, me assusta pra caramba.
Levantando-me abruptamente, pego minha mochila.
Cadence também se levanta apressadamente. — Aonde você
vai? Devemos ficar na detenção por uma hora.
— Harris não vai registrar isso. Não se preocupe com seu
histórico. — Aperto a alça da minha mochila.
Esqueça a proibição da guitarra. Eu preciso arrebentar.
Posso sentir o olhar atônito de Cadence perfurando minhas
costas.
Virando-me, encaro-a. — Você ainda está em contato com meu
pai?
— Não. — Ela pisca. — Mal conversamos naquele dia fora do
auditório. Ele me ajudou por causa do Sr. Mulliez. Duvido que ele
sequer se lembre do meu nome.
— Ótimo. Fique longe dele.
— Por quê?
— Porque se você acha que eu sou ruim, ele é ainda pior. —
Meu olhar escurece. — Você não vai querer dever favores ao meu
pai.
CHAPTER
TREZE
CADENCE
Vi está na porta da frente como um cachorrinho ansioso. Ela pula
em mim no momento em que chego em casa, me bombardeando
com perguntas sobre Dutch e o incidente da sunga e lamentando o
fato de não ter visto "tal perfeição física" pessoalmente.
Mal consigo me livrar dela e me refugiar no meu quarto, onde
posso descomprimir. Foi um dia infernal e prefiro lidar com meu
próprio e indesejado fascínio pelos abdominais de Dutch na
privacidade do meu quarto.
Quando estou prestes a me preparar para um banho, meu
telefone toca.
Número Desconhecido.
Fico tensa e debato se devo atender.
O telefone continua tocando.
Com um suspiro profundo, atendo. — Alô?
— Cadence.
Pulo da minha cama. — Meu Deus! Sr. Mulliez!
A felicidade invade meu peito quando ouço a voz do meu amado
professor.
Foi o Sr. Mulliez quem me deu a chance de frequentar Redwood.
Foi o Sr. Mulliez quem perdeu o emprego porque se recusou a
revelar minha identidade secreta.
Foi também o Sr. Mulliez quem me colocou em contato com
Jarod Cross e me fez voltar à escola.
Conversamos um pouco e então ele chega ao ponto principal da
sua ligação. — Você tem trabalhado no seu medo de palco?
Não há como eu contar a ele que quase desmaiei quando tentei
tocar para uma plateia de uma pessoa hoje.
— Ahn... toquei triângulo há um tempo.
— Triângulo? Legal. Mais algum progresso?
— Na verdade não. Tenho estado ocupada com...
— Com o quê?
Me vingando do Dutch.
Tentando não pensar no Dutch.
Fazendo tudo que posso para ficar fora do caminho do Dutch.
— A vida — digo.
— Estou ligando porque um aluno tem me implorado há
semanas para conseguir o seu número... bem, o número da outra
você. Não sei se você estaria interessada, mas posso colocar você
em contato com eles. Eles vão ter um evento em breve. O cachê é
bom.
— Quão bom?
Ele murmura um número que faz minha mente se iluminar. Faço
alguns cálculos mentais. O aluguel está prestes a vencer e desde
que desisti do meu emprego no lounge, as coisas têm estado bem
apertadas.
Aceito o trabalho, mas quando chego ao endereço que o Sr.
Mulliez me enviou, me arrependo instantaneamente da minha
escolha.
A festa está sendo dada por ninguém menos que... Paris.
— Você veio! — Ela desce uma escadaria luxuosa
desajeitadamente.
Seu corpo esbelto está praticamente saltando para fora de um
vestido sereia que a abraça como filme plástico. Seu cabelo cai até
os ombros.
Ela me abraça. — Eu tenho procurado você em todo lugar, mas
você não está online. Por que diabos você não está online?
— Bem...
— Eu simplesmente amei tudo sobre sua performance no
showcase de final de verão. — Ela atropela minhas palavras. —
Christa nunca nos deixou admitir, mas você foi ótima. Sou uma fã
enorme.
É estranho receber elogios de qualquer tipo, mas especialmente
de alguém que me chamava de "Garota do Lixo" e passava todo o
horário de almoço me ordenando "pegue isso" e "limpe ali".
Você já aceitou o dinheiro dela, Cadence. Você tem que fazer o
trabalho.
— Posso ver seu piano? — pergunto em voz baixa.
— É logo ali em cima. — Ela aponta. — Gostaria que você
tocasse conforme as pessoas vão chegando. Este é um evento
elegante. — Ela gesticula para seu vestido brilhante. — Quero
aquele toque underground, de "bar de jazz esfumaçado durante a
Lei Seca", sabe?
Prendo os lábios.
— Paris! — Uma de suas colegas líderes de torcida entra
saltitante pela porta.
— Só um segundo! — Paris me dá o resto das instruções
apressadamente. — Você vai tocar por cerca de uma hora e meia e
então vamos agitar esta festa. Sinta-se à vontade para ficar por aqui
se quiser.
Aceno novamente.
Paris se afasta para receber seus convidados.
Subo as escadas até o deslumbrante "palco" feito de cortinas e
tapeçarias chiques.
É tudo tão... excessivo.
Enrugo o nariz.
As festas da Redwood Prep não são nada como as festas rave
da zona sul. Na minha vizinhança, há muita cerveja, caos e folia
desenfreada. Esqueça música ao vivo. Você tem sorte se houver até
mesmo um DJ.
Toda festa que frequentei na Redwood Prep — que, admito,
foram apenas duas — tem uma certa classe. Claro, há álcool, "beer
pong" e casais se formando nos quartos, mas os petiscos são
premium, o vinho é caro e sempre há um tema pretensioso.
Até suas festas estão em outro nível.
Meu coração arde de inveja. Nunca quis o mundo deles, mas
sempre invejei a facilidade com que se movem nele. Desde meu
primeiro dia em Redwood, sempre fui lembrada do meu lugar no
totem.
A única vez que sinto que tenho algum tipo de controle é quando
estou tocando piano.
Uma luz suave brilha sobre o instrumento. Paro meus dedos
acima das teclas, hesitando.
A última vez que tentei tocar um piano, não deu muito certo.
O pânico borbulha sob minha pele. E se eu tiver um colapso de
novo? E se eu não conseguir tocar... mesmo disfarçada?
Fechando os olhos, tento encontrar meu centro.
Inspire. Expire.
Novas memórias sussurram pelo meu cérebro. A tensão da
mandíbula de Dutch. O lampejo afiado de suas narinas enquanto ele
se inclinava para um beijo. A umidade de seus lábios. O calor de
sua palma. O gosto de sua língua...
Isso me afasta da escuridão, assim como ele fez naquele dia no
teatro.
Luto para afastar a memória. Quando os pensamentos sobre
Dutch se tornaram meu lugar seguro?
Dutch não é o príncipe de um conto de fadas. Ele é o rei maligno
que veio para destruir todos os meus finais felizes.
Eu o desprezo, mas a impressão dele não vai embora. É como
se ele estivesse sentado ao piano comigo.
Respire, Cadence.
Ajeito minha saia embaixo de mim, expiro e coloco minhas mãos
nas teclas. É com uma espécie de reverência que começo a tocar.
Hesitantemente no início. E então com mais confiança à medida que
a música dentro de mim começa a fluir.
O salão fica silencioso. Todos os garçons e os organizadores
estão me observando, mas não estou olhando para eles.
A música move-se através de mim, uma força poderosa. A
energia que sinto dentro alimenta o ritmo.
Mais rápido.
Mais rápido.
O crescendo que eu ansiava.
Fecho os olhos e me entrego ao momento.
O tempo é um conceito estranho. Transitório. Ele flui sem me
tocar.
Não sei há quanto tempo estou tocando quando finalmente sinto
algo além do êxtase. É um puxão na minha alma. Um fogo que arde
sobre minha pele. Alguém está me olhando.
Olho para cima.
Os irmãos Cross.
Eles estão parados no fundo da festa, mas Zane e Finn estão de
costas para mim e conversando com um grupo de garotas que os
cercam. Não foram eles que me fizeram sentir como se tivesse sido
incendiada.
Foi Dutch.
Ai, droga. Ele veio.
Não só isso, ele está com Paris. A mão dela está em seu braço e
ela balança a cabeça ao som da música, usando o ritmo lento e
sedutor da canção para se esfregar toda em Dutch.
Uma dor aguda apunhala meu estômago. Desvio o olhar e me
concentro em tocar.
Infelizmente, não posso desver Dutch e Paris juntos.
Eles estão namorando agora? Ele lançou Paris em mim porque
ela é sua nova rainha e eu deveria servir a ambos?
Minha garganta se fecha quanto mais penso nisso.
Dói.
E isso me irrita.
Por que deveria me incomodar se Dutch está com Paris? Os dois
deveriam pular de uma ponte juntos.
Enquanto toco com raiva, um novo pensamento me atinge. O
que farei se Dutch invadir o palco e arrancar minha peruca na frente
de todos? Será o fim do jogo. Ficarei marcada para sempre.
Mantenho um olho nele enquanto toco, mas ele não se
aproxima. Apenas fica no fundo, me fuzilando com o olhar e
deixando Paris se esfregar nele - tanto quanto ela consegue
naquele vestido sereia apertado.
Os minutos agora parecem horas. Cada tique do relógio arranha
minha pele e ossos. Mal consigo passar pelo resto do set.
Minhas mãos estão tremendo tanto que tropeço nas teclas.
É constrangedor.
E a vergonha me deixa ainda mais tensa.
Dutch se inclina para sussurrar algo no ouvido de Paris, seus
olhos ainda em mim. Sinto-me esticada e exposta. É como se eu
estivesse nua atrás do piano, as partes de mim que são privadas e
preciosas expostas ao mundo e rotuladas como sem valor.
Eu me retraio.
Finalmente, Paris solta Dutch e sobe ao palco para me liberar de
meus deveres. Enquanto está lá, ela faz um pequeno discurso. A
multidão aplaude por mim, mas mal os ouço. Com um sorriso
pequeno e nervoso, inclino a cabeça e corro para as saídas.
É quando vejo Christa. Ela está cambaleando bêbada para
dentro da casa luxuosa de Paris.
Seus olhos se fixam nos meus. Seu olhar é terrivelmente
sombrio.
— Você! — Ela aponta na minha direção.
Ela me reconheceu?
Alarmada, cubro meu rosto com a mão e corro na direção
oposta, procurando outra saída.
Avisto uma sacada aberta, corro pela porta e pulo para baixo das
escadas para me esconder nas sombras.
Os passos de alguém ecoam acima da minha cabeça. Prendo a
respiração como se fosse a estrela de um filme de terror.
Tum. Tum. Tum.
Os passos se afastando fazem meus ombros relaxarem de
alívio. Estou segura. Por enquanto.
Mas como saio daqui sem que Christa me veja?
Há uma cerca em volta de toda a propriedade. O portão lateral
leva à frente da casa. Posso usar essa saída, mas não há como
escapar da atenção de alguém se eu aparecer usando essa peruca
vermelha chamativa.
Arranco a peruca na escuridão, tiro minha jaqueta e então a
enrolo junto para formar uma espécie de bolsa.
Desembaraçando meu cabelo, deixo os fios castanhos caírem
sobre minha regata. Tirar as lentes de contato sem um espelho
requer habilidade, mas consigo e limpo meu rosto com um lenço
umedecido.
Perfeito.
Agora que sou meu eu tímido e discreto, posso me misturar à
multidão e escapar antes que Christa possa me encontrar.
Abaixando a cabeça para não bater no deck, começo a andar na
ponta dos pés em direção ao portão lateral quando vejo uma
sombra se mover.
— Achei que tinha ouvido alguém aí embaixo — diz uma voz. —
Oi, Cadence.
Droga.
Levanto a cabeça bruscamente e um suspiro silencioso pulsa em
minha garganta.
Sol.
Meus dedos se apertam sobre a jaqueta que está segurando
minha peruca vermelha. Estou rezando desesperadamente para que
Sol não consiga ver os fios de cabelo através das dobras da minha
bolsa improvisada.
— O que você está fazendo aqui? — gaguejo.
— Vim tomar um ar. Está muito abafado lá dentro. — Ele
gesticula para mim. — O que tem na jaqueta?
— Nada. — Escondo-a atrás das costas.
Ele sorri suavemente. Rolando os ombros, me estuda sob o luar.
— Então você é a famosa Ruiva.
Abalada, encaro-o com horror crescente.
Ele sabe.
Sol dá uma batidinha no degrau. Com olhos tão profundos e
castanhos que poderiam espelhar o veludo negro do céu, ele
murmura: — Sente-se, Cadence. Vamos conversar.
CHAPTER
CATORZE
CADENCE
O olhar de Sol é gentil e o silêncio é reconfortante.
Respiro fundo e inclino o rosto para cima, tentando acalmar meu
pulso acelerado ao me lembrar que Sol não é o inimigo. Mesmo que
ele seja o melhor amigo do próprio diabo.
Seu braço roça o meu quando ele se vira para mim. — Não
precisa ter medo. Não vou contar ao Dutch.
— Dutch já sabe.
Suas sobrancelhas saltam. Então ele acena para si mesmo
como se isso explicasse algo.
Eu provoco: — Dutch não te conta todos os seus segredos mais
obscuros?
— Todos temos direito aos nossos segredos. Até você, Cooper.
Olho para cima ao ouvir a compreensão em sua voz. Ele é o
oposto completo de Dutch e seus irmãos, o que parece estranho,
dado que são um grupo obviamente unido.
O luar cai sobre seu cabelo preto como carvão, olhos castanho-
chocolate e a linha do maxilar que poderia cortar vidro. Em pé, Sol
me dominaria, mas sentados lado a lado assim, ele parece
alcançável.
— Por que você fugiu para cá? — pergunto.
Ele examina os arbustos espalhados no quintal. Sigo seu olhar,
notando como as flores dançam na brisa.
— Acho que, de certa forma, eu era como você. Usando uma
máscara. Uma fantasia. Eu precisava de um tempo para tirá-la.
— Como assim? Essas não são suas pessoas? — Faço um
gesto abrangente em direção à festa.
— Não. Sou um bolsista. Como você.
Meus olhos se arregalam. Eu deveria ter sabido disso. Ele
mencionou ter crescido no meu bairro, mas presumi que quando se
mudou, foi para viver em comunidades fechadas chiques como esta.
— Estive fora de Redwood por um tempo — Sol admite — mas
agora que voltei, não está se encaixando na minha pele como
costumava. Não consigo mais encontrar meu lugar.
— Seu lugar é com Os Reis. É meio óbvio.
Seus lábios se curvam. — E você? Onde é seu lugar, Cadence
Cooper?
— Meu lugar é onde as contas são pagas e há um teto sobre a
cabeça da minha irmã.
— Você não tem um sonho próprio?
— Quem tem tempo para sonhos? — Reviro os olhos. — Você
não pode manter as luzes acesas com isso. Não pode pagar o
banco. Não pode colocar comida na mesa.
— Agora você soa mais amargurada que minha abuela.
— Prefiro me considerar uma realista.
— Pessimista — ele desafia.
— Concordemos em discordar.
Ele ri.
Sorrio de volta, apreciando o som.
Seu telefone toca.
— É do Dutch — Sol diz, verificando a tela. — Ele está te
procurando.
De repente, cada osso do meu corpo fica rígido. — Essa é minha
deixa para ir embora.
Sol se levanta. Eu me levanto e o encaro. Através das portas da
varanda, posso ver a elite de Redwood Prep dançando juntos. Eles
parecem tão felizes, tão despreocupados.
— Você nunca quis... simplesmente queimar tudo? — murmuro.
— Você faria isso?
— Se eu achasse que poderia me safar.
Ele olha para mim com algo próximo à camaradagem. — Gosto
de você, Cadence Cooper.
Abro a boca para responder da mesma forma quando duas
figuras vêm correndo pelo lado da casa, xingando sem parar.
— Tire suas mãos de mim — Christa sibila. Ela se contorce
como a cobra que é, presa no aperto firme de Paris.
A ex-abelha rainha está usando um minivestido rosa brilhante de
um ombro só. Seu cabelo loiro está selvagem ao redor do rosto. Há
uma cicatriz em seu lábio de quando ela bateu o queixo em um
armário depois de me encurralar.
Paris arrasta Christa para o quintal. — Eu te disse para não
aparecer na minha festa, Christa. Quem diabos você pensa que é?
— Quem diabos...? — Christa solta uma risada engasgada. Há
uma garrafa de vinho em sua mão e ela a gira como um ponteiro. —
Eu sou Christa Miller, a rainha de Redwood Prep e você é apenas
minha substituta.
Paris joga o cabelo por cima do ombro. — Não mais.
— Você acha que pode simplesmente chegar, pegar minhas
amigas, pegar minha posição na equipe, pegar minha vida? Você é
uma mentirosa, traidora vadia!
— Pelo menos eu não sou uma assassina!
— Isso não é verdade. Eu não tentei matar aquela- — Os olhos
de Christa pousam onde Sol e eu estamos espiando da varanda.
Ah não.
Seus olhos se afinam como punhais. — Se divertindo depois de
arruinar minha vida, Cooper?
Recuo um passo. — Eu não arruinei sua vida, Christa. Você
arruinou.
O rosto de Christa se transforma em algo feroz e sombrio. Ela
aponta um dedo torto. — Você é a razão de tudo isso estar
acontecendo. Você é quem abriu sua boca grande e dedurou para
os tiras.
Ela se lança em direção à varanda como um míssil. Seus saltos
altos chiques atingem os degraus de madeira em batidas rápidas.
Sinto o pânico grosso e pulsante em minha boca.
Tenho que me afastar dessa maluca.
Mas quando coloco um pé dentro da festa, noto Dutch descendo
as escadas. Seus ombros poderosos têm um quilômetro de largura.
Sua cabeça balança de um lado para o outro enquanto ele vasculha
a multidão.
Se ele me vir parada na varanda, vai vir até aqui.
Presa entre a cruz e a espada, arrisco minhas chances com
Christa.
Dou a ela uma ampla margem, meus olhos nas escadas. —
Relaxa, Christa. Eu te salvei de pegar tempo na cadeia. Você
deveria me agradecer.
— Você me fez ser suspensa!
— Três dias? Isso não é nada além de um tapa no pulso. — Eu
me aproximo das escadas. — Poderia ter sido pior. Deixe o passado
no passado.
— Vai se ferrar, vadia!
Christa dá um salto louco e cai em cima de mim. Seu grito de
frustração é algo saído de um filme de terror.
Lunática do inferno.
Sem aviso, ela agarra meu cabelo e puxa. Minha cabeça inteira
se inclina para trás com tanta força que temo que meu pescoço vá
rachar ao meio.
Agarro seu pulso, arranhando, puxando, fazendo qualquer coisa
para tirar seus dedos do meu cabelo.
Os olhos de Christa estão brilhantes de ódio e álcool. Ela grita na
minha cara, e o fedor de bebida é tão abrasivo quanto sua voz
estridente.
— Você vai pagar por isso!
Seus gritos atraem os alunos da Redwood Prep para fora. Eles
saem da casa em torrentes como se tivessem pago para assistir a
uma luta de MMA.
Paris está observando com os olhos arregalados, olhando de
mim para Christa. A pequena encrenqueira. Ela provocou Christa e
agora sou eu quem está levando a culpa.
Christa levanta a mão para me dar um tapa, mas um borrão
passa rapidamente pelo meu campo de visão. Alguém agarra seu
pulso.
Olho para cima e percebo que estou errada.
Há duas mãos contendo Christa.
Uma pertence a Sol.
A outra a...
Dutch.
Sol solta a mão de Christa primeiro. Ele se vira para mim. —
Você está bem?
— Sim, estou bem — digo tremulamente.
— Saia daqui, Christa — Dutch ordena.
— Ah, entendo! Agora que você conseguiu o que queria, acha
que isso acabou? Não vou cair sozinha, Dutch! Vou arrastar todo
mundo comigo!
Dutch faz contato visual com seus irmãos. Zane e Finn marcham
adiante com expressões sérias e agarram os braços de Christa.
Ambos são necessários porque a líder de torcida está se debatendo
como um touro.
As câmeras estão filmando. Redwood está registrando a
segunda queda vergonhosa de Christa Miller.
Quase sinto pena dela. Ela envolveu toda sua identidade em ser
a rainha da Redwood Prep e veja onde isso a levou? Agora, as
mesmas pessoas que costumavam temê-la estão rindo dela. E seus
'amigos'? Eles a abandonaram.
Eu a defenderia se minha cabeça não estivesse latejando por
causa de onde ela tentou me deixar careca.
O karma é uma-Sol olha para mim e passa os dedos pelo meu
cabelo, ajeitando os fios. — Está doendo?
— Não muito — sussurro baixinho.
Ele envolve meu pulso com dedos gentis. — Vem. Vou te levar
para casa.
Dou um passo em sua direção quando todo o meu corpo é
puxado para trás.
Alguém acabou de me arrastar para trás.
Olho para baixo. Há outra mão ao redor do meu pulso.
E não é a de Sol.
CHAPTER
QUINZE
CADENCE
Meus olhos se erguem lentamente, movendo-se das mãos
musculosas envolvendo meu braço...
... para a tatuagem que se arrasta sobre os bíceps salientes...
... para os ombros largos...
... para o queixo esculpido sob uma boca que é um corte quente
de ameaça...
E finalmente pousando em um par de olhos âmbar afiados.
— Eu a levo para casa — declara Dutch, sua voz tão venenosa
que poderia descascar a tinta de um edifício.
Sol não solta minha mão.
Ele encara o rosto de Dutch, calmo e frio. — Não se preocupe.
Você pode ficar aqui e se divertir. — Os olhos de Sol se movem
intencionalmente para Paris antes de voltarem para Dutch.
— Eu já estava cansado deste lugar de qualquer jeito. — A voz
de Dutch cai para um tom grave. — Solte-a, Sol.
Ambos os rapazes mantêm suas mãos em volta dos meus
braços. Há um traço de desafio nos olhos de Sol.
Paris se aproxima cambaleando de Dutch. Seu vestido de sereia
está sujo nas barras de onde ela arrastou Christa pela grama
coberta de orvalho. Seus olhos brilham de desespero.
Ela nem tenta esconder o quanto deseja Dutch.
Ele é seu ídolo.
Seu rei.
Seu tudo.
Desejo-lhe sorte. Ele é um monstro com olhos brilhantes,
tatuagens e veneno correndo em suas veias.
— Dutch, não vá ainda — implora Paris. Sua voz treme como se
soubesse que é uma chance remota, mas ela não consegue se
conter. — Estamos apenas começando.
Dutch nem sequer lhe lança um olhar.
Paris lambe os lábios nervosamente. Verificando se todos ainda
estão olhando, ela ajusta seu tom para um menos suplicante. — Eu
prometi que te mostraria o barracão dos barcos. — Ela se aproxima
ainda mais dele. Quase equilibrando o queixo em seu ombro, ela
arrulha: — Não deixe a Christa estragar um bom momento.
Observo tudo com desgosto. Realmente não me importo com o
que Paris e Dutch planejavam fazer no barracão dos barcos. E
realmente não me importo com o porquê isso me irrita.
Só quero sair daqui.
— Dutch, solte minha mão.
— Eu cuido dela, Dutch — diz Sol.
— Viu? Sol vai cuidar dela — aponta Paris.
A pressão está aumentando.
O silêncio é ensurdecedor.
A festa inteira está observando e é apenas uma questão de
tempo antes que todo este drama apareça no aplicativo de Jinx.
Vi vai assistir isso.
Breeze talvez também.
Isso me deixa ainda mais frenética para me afastar de todos
esses olhares curiosos e julgamentos severos. — Dutch.
— Estamos indo embora — Dutch rosna.
Mas ele não está falando com Paris.
Ele me puxa bruscamente e eu tropeço em seu peito. Fico
surpresa ao sentir seu coração acelerar quando pressiono contra
ele.
Fico ainda mais surpresa que não haja realmente um grande
vazio negro onde deveria estar seu coração.
Depois de me endireitar usando seu corpo, rapidamente removo
minhas mãos. Mas Dutch captura meu pulso novamente, impedindo-
me de me afastar.
Estar presa em suas garras na frente de todos parece mais uma
forma de me humilhar. Ele está tentando me envergonhar de novo?
Me ensinar outra de suas lições estúpidas? Provar a todos que sou
impotente e fraca? Que ele pode me quebrar como quiser?
Dando um passo para trás, rosno para ele. — Não vou a lugar
nenhum com você.
Seu rosto permanece inexpressivo. Vazio. Frio. Ele não se
importa com o que tenho a dizer. Ele não se importa com nada além
de garantir que eu esteja o mais miserável possível.
Naquele momento, desejo nunca ter me envolvido com o
príncipe de Redwood. Fosse como eu mesma ou como meu alter
ego, eu deveria ter encontrado uma maneira - qualquer maneira - de
ficar fora de sua vista desde o início.
— Dutch — diz Sol.
— Estamos indo embora. Agora. — Dutch fala por cima de seu
amigo.
Eu finco meus calcanhares na grama e ignoro a maneira como
suas sobrancelhas despencam sobre seus olhos tempestuosos.
Ele realmente não vai parar.
Eu me ergo em toda a minha altura e declaro com voz firme: —
Dutch, se você não soltar esta mão, eu juro que vou- Ah!
Dutch dobra o joelho e me joga sobre seu ombro. Fico no ar por
um segundo. Então a sensação familiar de cair em cima de seu
corpo musculoso tira o fôlego dos meus pulmões.
— Dutch, me ponha no chão agora! — Eu bato em seu peito.
Meus gritos não são ouvidos.
Meus punhos não o movem.
Agito meus braços, minha temperatura subindo a níveis
perigosos para minha saúde.
O queixo de Paris cai. Seus olhos se fixam em mim quando
Dutch passa por ela. Aquele olhar é abrasador. É como se, apesar
de todas as formas que Dutch me atormentou e a rejeitou, eu ainda
fosse de alguma forma culpada.
A multidão abre caminho para Dutch. Ninguém está dizendo uma
palavra, mas seus telefones coletam todas as evidências dele me
carregando impiedosamente como se eu não fosse nada além de
um saco de batatas.
Não luto. Em vez disso, conservo minha energia e espero que
Dutch afrouxe seu aperto.
Quando estamos longe da festa, indo em direção à rua, seu
aperto em mim afrouxa. Aproveito a oportunidade para revidar.
Agarrando seu braço, dobro o membro para trás e uso seu
próprio peso contra ele. Dutch berra, sua mão livre passando pelas
costas da minha camisa e puxando minha saia tentando me tirar.
Eu me agarro como um touro furioso e me inclino mais forte no
ângulo desajeitado até que ele começa a dobrar os joelhos. É
quando seu aperto em mim afrouxa completamente.
Eu me arrasto para o chão e olho furiosamente para ele.
Ele sacode a mão, seu rosto uma tempestade de fúria. — Que
diabos foi isso? Você estava tentando quebrar meu braço?
— Você não precisa desse braço mesmo. Cobras como você só
precisam rastejar no chão!
Não me importo que esteja gritando. Não me importo que este
seja um bairro tranquilo e que nossas vozes estejam chegando às
mansões de milhões de dólares com os gramados chiques e as
luzes douradas das varandas.
Há um fogo queimando dentro de mim. Está ficando cada vez
mais volátil e exige despejar ira sobre a cabeça teimosa,
egocêntrica e impiedosa de Dutch.
— Eu te avisei que da próxima vez que você viesse pra cima de
mim, você iria se arrepender — eu disparo. — Você tem sorte que
eu tive misericórdia. Eu poderia ter feito isso na frente de todos os
seus amigos e te deixado parecer o covarde que você é. De nada!
Dutch parece chocado e um pouco excitado.
Eu não me importo mais.
Ele é um maluco.
E eu sou ainda mais maluca por sentir eletricidade percorrer
minha pele quando ele se aproxima e passa os dedos suavemente
pelo meu cabelo.
Droga. Ele é irritante e confuso pra caramba.
Só quero me afastar de tudo isso.
Girando nos calcanhares, saio correndo pela rua. Passos
persistentes ecoam atrás de mim. Acelero o passo, esperando que
ele desista.
Ele não desiste.
Coloco distância entre nós.
Mas Dutch ainda não volta atrás.
Olho por cima do ombro e o encaro. — O que você está
fazendo?
Ele não diz nada.
Movida por uma raiva que me faz sentir corajosa e invencível —
uma combinação perigosa — volto furiosa até ele. — O que você
quer, Dutch? Diga logo para acabarmos com isso e você me deixar
em paz.
— Não vou a lugar nenhum.
— Por que não?
— Porque estou me certificando de que você chegue em casa
em segurança — ele diz mal-humorado.
Há uma pulsação na minha garganta e eu me pergunto se meu
coração encontrou um jeito de subir até lá.
Ele está brincando comigo?
Dutch olha fixamente para frente como se estivesse tão irritado
quanto eu.
Respiro fundo e, droga, se não respiro ele junto com o cheiro das
estrelas. Ele está usando aquela colônia, a que usou na noite em
que tocou piano para mim.
A noite em que suas mãos deslizaram pelas teclas e depois
encontraram o caminho por baixo da minha saia.
A noite em que ele me expulsou de Redwood.
Ainda me sinto atraída por ele. Com seu cabelo loiro, rosto
anguloso e todos aqueles músculos tensos, eu seria cega se não
fosse atraída como centenas de garotas são. Mas isso não significa
que eu tenha que ser estúpida.
Dutch passou semanas tentando sugar minha vida e tirar a única
coisa boa, a primeira coisa boa, que já aconteceu comigo e com Vi.
Não posso deixar que esse ato de "herói valente" me engane.
Talvez ele esteja apenas esperando para ver onde moro para
poder me atormentar em casa.
— Isso se chama perseguição, sabia — eu rosno quando ele me
segue pela rua. — Não quero que você saiba onde é minha casa.
— Você acha que eu não sei onde você mora? — Seus olhos
cortam os meus, reduzindo minha confiança pela metade. — Li suas
informações nos arquivos de Redwood.
— Você leu meus arquivos?
A tinta aparece por baixo da manga da camisa dele e flexiona
junto com seu bíceps quando ele cruza os braços sobre o peito.
— O que você leu? — exijo, meu peito apertando.
Seus olhos se voltam para os meus e de volta para o horizonte.
A princípio, penso que ele não vai responder. Então ele cospe. —
Seu nome do meio é Elizabeth. Você é alérgica a pêssegos. Sua
mãe é... — Seu rosto muda. Um lampejo de humanidade.
— Morta — digo secamente. — Minha mãe está morta.
Ele desvia o olhar.
Sentindo-me com raiva e desolada, acelero e finjo que ele não
está comigo.
Quando passo por um grupo de mulheres bebendo na frente de
uma loja de conveniência, elas notam Dutch me seguindo.
— Ei, garota, você conhece ele? — uma delas grita.
— Não — digo friamente.
Imediatamente, as mulheres pulam de seus bancos e formam
uma linha na frente de Dutch.
— Ei, por que você está seguindo ela?
— Quer que a gente chame a polícia?
— Olha como você é alto. Seguindo garotas no escuro. Que
diabos há de errado com você?
A expressão de Dutch ainda está fria, mas há uma ruga entre
suas sobrancelhas que sugere seu desconforto.
Quero continuar andando.
Com cada osso do meu corpo, eu quero.
Mas de alguma forma, não consigo deixá-lo aqui. Especialmente
quando as mulheres começam a dizer: "Chame a polícia. Vamos dar
uma lição nele esta noite."
É como se meu corpo não fosse meu. Eu me viro. — Gente —
minha voz treme —, eu o conheço. Não precisa chamar a polícia.
As mulheres estudam meu rosto por um instante e então liberam
Dutch de sua linha de proteção.
— Ah, então é uma briga de namorados!
— Eu disse que não deveríamos ter nos metido.
Uma das mulheres mais bêbadas acena os dedos para Dutch. —
Rapaz, deixe-me contar um segredo. — Ela passa um braço em
volta do ombro dele. — Apenas peça desculpas. Diga a ela que
você foi um idiota e que nunca mais fará isso de novo.
Outra mulher aponta para mim. — E você, bonitinha. Dê a ele
uma chance de provar que mudou.
— Vamos lá. Vocês dois jovens nunca deveriam ficar chateados.
A vida é curta demais para isso.
Dou a elas um sorriso forçado. O olhar de Dutch é intenso, mas
quando olho para cima, seus olhos estão um pouco mais suaves do
que antes.
Faço uma careta para ele, giro nos calcanhares e continuo
andando. Ele permanece atrás de mim, sem dizer uma única
palavra.
Fico surpresa quando ele me segue até o ponto de ônibus e
pega o ônibus, sentando-se no fundo. Eu não fazia ideia de que
Dutch Cross podia pegar um ônibus. Uma parte de mim acha que é
a primeira vez dele.
Quando chegamos ao meu bairro, ele me acompanha pela rua
escura, mantendo alguns passos atrás até que eu abra a porta da
frente.
Com a chave na fechadura, me viro.
Ele está lá, seus olhos fixos em mim, queimando em mim como
se estivesse tocando minha pele. O príncipe de Redwood Prep
acabou de me acompanhar até em casa.
Entro na casa sem dizer uma palavra e corro para a janela.
Dutch volta pelo caminho que veio, a escuridão o engolindo por
inteiro.
Ele está pedindo problemas usando essas roupas. Seus sapatos
caros e relógio serão um sinal de neon berrante de "venha e me
pegue" para todos os bandidos por aqui.
Sinto uma pontada de arrependimento, como se talvez eu
devesse me importar se ele for roubado. Mas então eu me endureço
contra a pequena pluma de cuidado que começa a surgir em mim.
Não há como eu sentir pena de Dutch Cross esta noite.
Começo a andar para o banheiro quando congelo.
Um medo insidioso se infiltra em meu coração.
Encaro a porta com um sentimento de mau presságio. Eu estava
distraída demais com Dutch para prestar muita atenção, mas tenho
quase certeza...
Que não precisei usar a chave para entrar em casa.
A porta da frente estava aberta esta noite.
J : H D T U G Q É
quando os poderosos sofrem uma grande queda, mas nossa ex-
líder das líderes de torcida realmente afundou baixo esta noite.
Quando a família real vira as costas, é certo que vai doer.
Mas o verdadeiro golpe não é de quem o Príncipe Encantado se
afastou. É para quem ele se voltou.
E ele não foi o único.
Fontes dizem que Sistema Solar e Garota Nova foram vistos
ficando íntimos nos degraus dos fundos esta noite. O Príncipe
Encantado é melhor segurar firme sua Cinderela antes que ela mire
nas estrelas em vez do trono.
Até o próximo post, mantenham seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais perto.
- Jinx
CHAPTER
DEZESSEIS
DUTCH
Que diabos há de errado comigo?
Estou transando com uma garota qualquer.
Em um maldito barco.
No meio de um lago.
E ainda assim só há dois pensamentos rastejando pela minha
cabeça.
Um é isso está demorando demais.
O outro...
Não vou nem entrar nesse assunto.
Faz semanas desde a última vez que transei. Semanas.
Honestamente me surpreendeu quando percebi quanto tempo havia
passado. Nem sequer toquei em uma garota desde aquele dia com
Cadence e o piano no teatro...
Droga.
Talvez eu esteja fora de prática. Ou talvez eu não seja muito do
tipo sexo-no-barco. Ou talvez essa garota nua se contorcendo com
a boca atualmente aberta e gritando meu nome não esteja fazendo
nada por mim porque ela não é a garota nua se contorcendo que eu
quero.
A garota agarra meu pescoço e passa os dedos pelo meu
cabelo.
É bom, mas é passageiro e logo estou entediado de novo. Não
demora muito para minha cabeça estar a um milhão de quilômetros
de distância.
Eu a viro.
Talvez uma posição diferente vá...
O barco balança. Ela está grunhindo e respirando com
dificuldade, mas minha mente está com outra pessoa e não vai
voltar.
Droga, isso é uma tremenda besteira.
Meu corpo está acordado, mas o resto de mim bem que poderia
estar afundando nas águas escuras como breu.
Estou tentado a jogar essa garota para fora de mim, mas não
sou um amante egoísta. Espero até que ela termine antes de
empurrá-la e descartar a camisinha.
Ela parece magoada quando pego minha camiseta, como se
talvez quisesse um carinho ou algo assim. Ridículo. Nunca na minha
vida fiz carinho depois do sexo.
Fecho o zíper da calça e o som dos dentes de metal se
encaixando é alto na água. O luar encharca minha cabeça e as
estrelas estão perto o suficiente para tocar. É uma noite linda e
ainda assim me sinto vazio e miserável.
A garota se levanta. O barco em que estamos balança enquanto
ela se move em minha direção. Ela cambaleia um pouco, mas
mantém o equilíbrio.
Meus olhos deslizam sobre ela. Está completamente nua, seus
seios balançando e seu corpo parecendo macio e convidativo sob o
luar. Ela é toda natural, o que fez questão de me dizer quando
comecei a despi-la e repetiu de novo como se quisesse me martelar
na cabeça com isso.
Seus dedos roçam meu ombro e se enrolam em meu braço. Eu
me afasto bruscamente e sua mão cai flácida. Ela está magoada.
Não preciso olhar para ela desta vez para saber disso. Posso dizer
pela maneira como dobra os braços sobre o torso como se
estivesse tentando se cobrir.
— Dutch, eu não esperava que isso significasse que estamos
namorando ou algo assim. — Seus lábios cor-de-rosa Barbie
tremem. — Você não precisa agir como se eu fosse me agarrar a
você agora.
— Nunca disse que você iria. — Marcho para o volante e ligo o
barco.
Droga.
Eu nunca deveria ter concordado em fazer isso no meio do lago.
Agora tenho que ficar por perto e ter uma conversa.
A garota se veste enquanto me concentro na água. Quando ela
se aproxima, vejo que está usando aquele vestido ridiculamente
brilhante de antes. A coisa está tão apertada em suas pernas que
ela mal consegue andar.
Ela dá um pulinho estranho até mim. — Sinto muito pela Christa
ter aparecido na festa. Eu nunca a convidei.
O barco ruge. A água espirra do motor, cortando as ondas
enquanto nos impulsiona em direção à terra.
— Mas você não precisava intervir — a garota continua. Ela
deve realmente gostar de ouvir o som da própria voz.
Meus olhos permanecem fixos no píer nos fundos da
propriedade dela. Só mais alguns minutos...
— Você está namorando ela? — A garota se aproxima.
Ranjo os dentes.
— Cadence. — Sua língua desliza sobre o lábio inferior. — Você
está...
— Diga mais uma palavra e você vai ter que nadar de volta para
o cais — eu rosno.
Ela fecha a boca.
Aperto o volante enquanto uma veia salta no meu pescoço. Sim,
eu sou um bastardo. Mas não vou ficar aqui sentado e deixá-la
mencionar a garota que passei a última hora tentando tirar do meu
sistema.
Quando chego ao píer, pulo do barco, amarro-o para que não
flutue para longe e saio pisando duro. A garota ainda está no barco,
mas ela tem duas pernas. Ela vai se virar.
Meu carro é o único que ainda está estacionado fora da casa.
Entro e fecho a porta com força, soltando um suspiro profundo pela
boca.
Bem, isso foi um fracasso total.
Coçar essa coceira só confirmou o que eu temia - estou mais
fodido da cabeça do que pensava.
Eu esperava um resultado diferente quando chamei um Uber
para me levar do bairro de Cadence para este. Pensei que se
pudesse encontrar alguém para desabafar minhas frustrações,
talvez o domínio que Brahms parecia ter sobre mim desaparecesse.
Maldita perda de tempo.
Se aquela performance decepcionante no barco é tudo que
tenho a esperar no futuro próximo, então estou realmente fodido.
Inclino minha cabeça para trás, me sentindo tão despedaçado
agora quanto estava quando vi Cadence saindo com Sol. A conexão
deles é real e é irritante pra caralho.
Mais irritante é o que isso faz comigo. Quando o vi levando-a
embora, foi como se algo bem no fundo de mim estivesse enrolado
e esperando. Esperando por aquele momento para saltar.
Eu não consegui me impedir de agarrá-la. Não consegui me
impedir de reivindicá-la.
Ela ainda tem suas mãozinhas bonitas nas partes mais sombrias
de mim.
Por mais que eu odeie admitir, a única vez que sinto algo além
de dormência é quando estou com Cadence. Seja brigando com ela
ou ouvindo-a tocar piano - é só ela.
Não vai ser ninguém mais.
E isso me irrita pra caralho.
Ela não passa de uma serviçal. Uma bolsista que se infiltrou em
Redwood e pensa que é mais do que é. Como quebro o domínio
dela sobre mim? O que posso fazer para arrancá-la de debaixo da
minha pele?
A resposta não vem até segunda-feira, quando estou entrando
na Redwood Prep com Zane e Finn.
O corredor lotado abre caminho para nós. Os estudantes
recuam. Mais de três anos e seus olhos não perderam o terror. A
reverência. A inveja.
Mas um par de olhos não desvia ou brilha com adoração.
Os de Cadence.
Sua saia curta rodopia ao redor de suas pernas impossivelmente
longas. Ela está usando tênis, o que a faz parecer mais esportiva
que o habitual.
Ela bate a porta do armário, lançando-me um olhar de nojo. É
único para mim, aquele olhar ardente. Nem sempre foi tão gélido,
mas ela aperfeiçoou sua expressão de "garota durona" no curto
período em que está na Redwood Prep.
Um arrepio desce direto para minhas calças quando a vejo. É
muito mais do que aquela garota no barco conseguiu fazer por mim
enquanto estava de quatro naquela noite.
Brahms se vira. Ela joga a mochila sobre um ombro e serpenteia
na direção oposta para chegar à aula.
Meu corpo se inunda de calor enquanto observo seus ombros
desafiadores e cabelos castanhos saltitantes.
Sim. Sim, droga, é ela.
A chave para superar Cadence... é Cadence.
Eu vejo. Meus dedos descendo pela parte interna de sua coxa.
Seus lábios no meu pescoço. O calor de seu corpo queimando
minha pele...
Sexo com garotas aleatórias não vai compensar o fato de que eu
ainda não entrei naquele corpinho apertado. Ela está presa na
minha cabeça porque tenho assuntos inacabados com ela.
Assim que eu dormir com ela, a magia terá ido embora. O
mistério. A antecipação. Esse joguinho que estamos jogando não é
nada além de uma provocação antes do evento principal.
E uma vez que o evento principal acabar, a atração que sinto por
ela também acabará.
Meus lábios se curvam para cima.
É uma luz no fim do túnel. Aquela que eu estava procurando. E
tudo leva a eu me divertir um pouco com ela antes de cortá-la da
minha vida do jeito que eu deveria ter feito desde o início.
— Ela parecia puta — observa Finn.
— Você não a acompanhou até em casa na sexta-feira porque
Christa surtou? — Zane pergunta, notando como estou parado
imóvel no meio do corredor. — Por que ela ainda está brava com
você?
Dou de ombros e continuo andando.
Meu gêmeo não deixa o assunto morrer. — Achei que você
estivesse com ela naquela noite.
— Eu não estava.
Finn sorri maliciosamente para mim. — Foi Paris então?
— Quem?
— A garota que deu a festa na sexta-feira à noite.
— O nome dela é Paris? — Meus olhos se arregalam. É um
nome simples o suficiente para lembrar.
Finn e Zane começam a rir.
— Como se você lembrasse de todas as garotas com quem
dormiu — murmuro.
Zane enxuga uma lágrima. — Eu não lembro, cara, mas você
estava literalmente na casa dela na sexta-feira. Ela estava se
esfregando em você enquanto você ouvia Cadence tocar piano.
Tenho certeza que o nome dela foi mencionado.
Foi?
Zane está certo. Eu tinha uma garota se esfregando em mim
enquanto Cadence estava no piano parecendo cada uma das
minhas fantasias sujas ganhando vida. Mas eu não estava
prestando tanta atenção naquela garota quanto estava usando-a
para esconder como meu corpo estava reagindo apenas à visão de
ver Cadence fantasiada novamente.
Olho feio para Zane, me sentindo exposto. — Você trabalhou
naquele solo de bateria como eu te falei?
Seu rosto murcha. — Você é obcecado.
— O November Bash é daqui a algumas semanas. — Pressiono
meu passe contra o scanner ao lado da porta da sala de prática. Ele
fica verde e nos admite com um bipe. — O Halloween também está
chegando. Temos shows marcados por todo o caminho. Não há
tempo para-
— Ei, eu estava esperando por você. — A voz de Sol me arranca
do modo gerente.
Paro de repente, meu bom humor mudando drasticamente.
Houve um momento naquela noite na festa em que eu estava
dizendo a Sol para deixar Cadence ir e ele considerou não ouvir.
Eu vi o brilho em seus olhos. A teimosia.
E isso me fez pensar se eu teria que me voltar contra meu
próprio melhor amigo.
Não chegou a esse ponto, mas a impressão permaneceu.
Eu devo a Sol. Não quero brigar com ele, mas também não vou
deixá-lo entrar e bagunçar o que estou fazendo.
Cadence é minha.
Minha para atormentar.
Minha para possuir.
Minha para quebrar.
Eu não compartilho.
— Que tensão é essa? — Zane brinca. Ele entra
despreocupadamente e passa um braço ao redor do pescoço de
Sol. — Deveríamos ir a outra festa hoje à noite, Sol. Você está fora
de prática. Não vi você dançando nem uma vez na sexta-feira.
— Eu ainda me diverti.
— Se divertiu? — Finn caminha até a mini geladeira e pega uma
garrafa de água. — Eu não vi você se divertindo.
— Eu me diverti com Cadence — diz Sol, seus olhos se voltando
para mim.
Meus irmãos ficam imóveis.
A tensão se intensifica na sala.
Zane solta uma risada nervosa. — Você e Dutch têm
relacionamentos muito diferentes com Cadence. Mas tanto faz, né?
Bros before hos.
Ninguém ri ou responde.
Os olhos de Sol permanecem fixos em mim.
Pego minha guitarra e toco um acorde. — Vamos começar.
Zane e Finn trocam um olhar. Meus irmãos permanecem onde
estão, nem se incomodando em ir para seus instrumentos.
Irritado, me viro bruscamente. — Qual é o atraso?
— Você vai fingir que a festa nunca aconteceu? — Sol pergunta
incisivamente.
— Exatamente o que aconteceu na festa? — Ergo o queixo para
que ele possa ver o quanto não me importo com essa linha de
discussão.
— Eu me ofereci para levar Cadence para casa depois que
Christa surtou. Então você a jogou sobre seu ombro como se ela
fosse o animal que você tinha caçado para o jantar. — A expressão
de Sol fica firme. — O que está acontecendo entre você e Cadence?
— Por que isso importa para você? — Eu rebato.
Meu telefone toca, interrompendo o momento tenso. Lançando
um olhar de advertência a Sol, atendo sem verificar.
— O quê?
— Oi, é o Dutch?
Uma voz que soa estranha e feminina enche meus ouvidos.
Quem diabos é essa?
— Ligou pro número errado — rosno.
Estou prestes a desligar quando a voz diz: — Espera. Espera.
Sou a Vi, irmã da Cadence.
Isso me faz parar. Lembro-me da irmã mais nova da Cadence do
baile de boas-vindas. Ela era bonitinha - pequena, cabelos
castanhos, sorriso largo. Muito mais alegre que a Cadence.
— Você me deu seu número naquela noite no baile e disse que
poderíamos fazer uma collab num dos meus vídeos de tutorial de
maquiagem — Vi diz apressadamente.
Alguém no fundo ri e percebo que ela me colocou no viva-voz.
Endireito os ombros. — É, lembro de você. Como vai, Vi?
No momento em que meus irmãos ouvem meu tom suavizar,
seus olhos se arregalam e eles me lançam olhares curiosos.
— Você acha que a gente realmente acredita nisso? — alguém
no fundo exclama.
— Para de desperdiçar nosso tempo.
— Ela está mentindo.
— Não estou mentindo — Vi se defende. — Dutch Cross
acompanhou minha irmã até em casa sexta-feira passada. Minha
irmã toca na banda dele às vezes.
— Como sabemos que esse é o Dutch Cross?
— Ele está aqui no telefone! — Vi grita.
— Isso deve ser um truque.
— Aposto que é algum cara que ela pagou pra fingir ser o Dutch
Cross.
— Não, não é — Vi argumenta.
Há um som de briga e então Vi começa a gemer de dor.
— Vi? — Aperto o telefone com mais força.
Um momento depois, a ligação cai.
Ela se foi.
CHAPTER
DEZESSETE
DUTCH
Levanto-me de um salto. —Vi!
Disco o número dela novamente.
Cai direto na caixa postal.
Finn e Zane, que me conhecem como a palma da mão, se
lançam pela sala de ensaio. Suas expressões denunciam sua
preocupação.
—O que houve?
—Quem é Vi?
—Esse nome me parece familiar — diz Finn.
—É a irmã de Cadence. Acho que aconteceu alguma coisa com
ela.
Meus irmãos parecem alarmados, mas é só porque estou
surtando.
Minha cabeça está muito cheia. Um milhão de pensamentos
diferentes voam mais rápido do que consigo acompanhar.
Apenas um se destaca - Preciso contar para Cadence.
Saio correndo da sala de ensaio, com o celular colado à orelha.
Meus passos ecoam pelo corredor. Corro virando a esquina,
procurando desesperadamente por Brahms.
Passos de resposta acompanham o ritmo dos meus pés.
Meus irmãos e Sol estão logo atrás de mim.
Zane me alcança primeiro. —O que estamos fazendo?
—Procurando Cadence.
Zane assente e se espalha.
Finn corre na direção oposta.
Meus irmãos não se importam com Vi, mas é o suficiente que
isso seja importante para mim. É tudo que eles precisam saber para
tornar isso urgente.
Inferno, eu também mal conheço Vi. Mas as coisas não pareciam
boas pelo telefone e ela é a irmã de Cadence. Não tem como eu
seguir com meu plano se Cadence estiver arrasada por causa da
família dela.
É, esse é o único motivo pelo qual estou preocupado.
Sol aponta para a academia. —Vou verificar lá.
Mesmo em meu pânico, congelo completamente. —Sol.
Minha voz é grossa e autoritária.
Sol para abruptamente.
Olho diretamente nos olhos dele. —Se você a encontrar, liga
para mim, ok?
Ele hesita. Então ergue o queixo e sai correndo.
Mexo no meu telefone e ligo para Cadence novamente, mas é
claro que ela não atende. Onde diabos ela está?
Entro correndo na sala de música. Ela não está lá.
Refeitório, não está lá.
Sala de computadores, vazia.
Corro para a mesa do lado de fora do refeitório onde ela e
aquela garota estranha com a jaqueta de couro costumam ficar. Mas
a mesa ostenta apenas algumas folhas caindo.
Sem Brahms.
Quanto mais o tempo passa, mais inquieto me sinto. O que quer
que estivesse acontecendo com Vi não parecia nada bom. E se ela
se machucou? E se ela está sangrando na rua?
No que diabos minha vida se transformou?
Afasto o pensamento e continuo procurando.
Minhas pernas devoram a distância entre o segundo andar e a
biblioteca. Irrompo lá dentro e a bibliotecária imediatamente olha
para cima com a testa franzida. Quando ela vê que sou eu, volta ao
que estava fazendo sem dizer uma palavra.
Estou respirando com dificuldade enquanto abro caminho entre
as fileiras de estantes. O chão acarpetado engole cada passo.
Aumento o ritmo, passando apressado por mesas cheias de
estudantes que erguem a cabeça quando me veem correndo.
Olho para a esquerda e para a direita, percorrendo cada fileira
até que finalmente a vejo.
Cadence está sentada perto da janela, com uma perna dobrada
sob a outra. Sua cabeça está inclinada sobre um livro e ela está
rabiscando algo em seu caderno.
Seu cabelo cai sobre o ombro como uma cascata de chocolate.
Seu belo rosto está inclinado para baixo e o sol destaca suas maçãs
do rosto requintadas antes de envolver a curva suave de seu
pescoço.
Os nervos em meu peito se retorcem dolorosamente. Droga. Mal
posso esperar para me enfiar em Cadence de uma vez por todas
para me livrar dessa reação estúpida.
Por um segundo, esqueço por que vim correndo até aqui.
Até que Cadence levanta a cabeça e seus olhos castanhos me
atravessam.
Vi. Emergência.
Levo três passos gigantes para parar na frente dela.
—Temos que ir. Agora. — Pego a mão dela.
Ela a puxa de volta. —O quê? — Sua voz é baixa, mas ela ainda
consegue enchê-la com ódio suficiente para derrubar um prédio. —
Eu não vou a lugar nenhum com-
—Sua irmã está com problemas.
Ela se levanta de um salto com uma rapidez que me surpreende.
Seus livros, celular e mochila caem no chão. — Dutch, se você
mexeu com a minha irmã, juro que vou acabar com você com tudo
que tenho.
—Cadey-
—Não me chame assim — ela retruca.
Nesse momento, o telefone dela toca.
Ela desvia o olhar e olha para baixo.
Eu também.
O nome na tela dela diz 'Escola da Vi'.
Sua expressão muda em um instante. Ela se abaixa para pegar
o telefone.
—Ligue de volta no caminho. Precisamos nos mexer. — Antes
que ela possa protestar, pego sua mão novamente e a arrasto
comigo.
Ela tropeça atrás de mim, o rosto pálido e os olhos fixos no
celular. Saímos correndo da biblioteca e vamos para o
estacionamento que, felizmente, fica perto.
Cadence desliza para atender a ligação, mas seus dedos estão
tremendo demais. Ela acaba apertando 'recusar' em vez disso.
—Droga. — Ela liga de volta. —Está indo para a caixa postal.
—Continue tentando — digo, pressionando a chave do meu
carro e pulando para o banco do motorista.
Cadence hesita do lado de fora do banco do passageiro.
Inclino-me, abro a porta e grito para ela: —Entra, Brahms.
Ela solta um suspiro e ocupa o banco da frente como se
preferisse fazer qualquer outra coisa.
Conheço bem a antiga escola dela, então nem me preocupo em
pedir direções e tiro o carro do estacionamento da Redwood.
No caminho para a escola, Cadence finalmente consegue falar
com alguém.
—Alô? — Ela se inclina para frente, o rosto lívido e o corpo
inteiro coberto de suor. —Aconteceu alguma coisa com a Vi?
Há um momento de silêncio.
E então Cadence grita: — Em qual hospital?
Faço um gesto para ela.
— Hospital St. Thomas? Tá certo.
O joelho dela está pulando como o Zane durante um solo de
bateria maluco.
Ela desliga e me explica: — Vi teve uma cólica terrível durante o
almoço, então a levaram para a enfermaria. Mas a dor piorou, então
a mandaram para o hospital.
— Eles sabem o que há de errado?
Ela balança a cabeça, seus olhos se enchendo de lágrimas.
Meu coração dispara. Coloco minha mão no joelho dela para
acalmá-la.
— Ela vai ficar bem.
— Como você sabe disso? — Cadence responde, sua voz
aquecida e quebrada.
— Porque a Vi é durona. Como você. — Não sei de onde as
palavras estão vindo. Só sei que as digo de coração.
Isso a acalma um pouco... mas não muito.
Quando chego ao hospital, mal diminuí a velocidade do carro
antes de Cadence saltar como uma louca. Quero segui-la, mas não
posso estacionar aqui. Em vez disso, encontro uma vaga no
estacionamento e corro para o prédio.
O saguão está lotado para esta hora do dia.
Paro no posto de enfermagem.
— Estou procurando por Viola Cooper?
A enfermeira me aponta na direção da sala de emergência.
Com as chaves ainda penduradas nos dedos, procuro pelas
irmãs. Finalmente, avisto Cadence pairando sobre uma cama. Ali,
deitada com um lençol sobre o corpo, está Vi.
Ela está pálida, tremendo e parecendo meio fraca.
Quando me aproximo, descubro o porquê.
— Por que você não me disse que não estava se sentindo bem?
— Cadence repreende a irmã. — Você não deveria ter guardado
isso para si mesma.
— Eu achei que eram cólicas menstruais ou algo assim. Não
pensei que meu apêndice estava... ooh! — Ela grita. — Aquele é o
Dutch Cross atrás de você? Alguém me belisque!
— Ei, Vi. — Me aproximo de Cadence e olho para sua irmã
caçula.
Cadence me lança um olhar de reprovação, mas não se afasta.
— Você está aguentando? — pergunto.
Seus olhos estão cheios de estrelas.
— Se eu soubesse que tudo o que precisava para ver Dutch
Cross de novo era um apêndice quebrado...
— Apêndice rompido. Não quebrado. Rompido — Cadence
corrige.
— Sério? — Vi lhe lança um olhar sombrio.
Observo as duas, me sentindo divertido. É claro que este
relacionamento é tanto uma relação entre irmãs quanto uma relação
mãe-filha.
O carinho de Cadence ao acariciar a cabeça de Vi - combinado
com as respostas espirituosas de sua irmã - me faz sentir como se
estivesse vendo algo que poucos têm o privilégio de ver.
— Você é a responsável pela senhorita Cooper? — Uma
enfermeira se aproxima da cama.
Cadence acena com a cabeça.
— Você precisa preencher estes formulários. Um apêndice
rompido requer cirurgia imediata, mas não pudemos começar sem
obter suas informações.
Viola se contorce de dor.
Eu me viro.
— Ela precisa de cirurgia agora.
— Precisamos das suas informações de pagamento — diz a
enfermeira, parecendo arrependida.
— Pagamento? — cuspo.
— Eu cuido disso. — Os olhos de Cadence estão tensos, mas
ela calmamente pega o formulário e preenche as informações.
— Ei. — Toco o ombro de Vi. — Você vai ficar bem.
— Pode me fazer um favor? — ela geme.
— O quê?
— Você pode... tirar uma foto como prova de que você está
realmente aqui?
— Você está maluca? — Cadence sibila.
— Ai. Tanta dor! — Viola se encolhe em uma bola.
Cadence abandona sua expressão severa e olha com
preocupação.
— Vou tirar a foto quando você estiver recuperada e arrumada —
prometo.
Ela estende a mão.
Olho para ela confuso.
Ela estica o dedo mindinho.
— Promessa de dedinho.
Dou uma risadinha suave. A garota é fofa. Tenho que admitir.
Entrelaçando meu dedo mindinho com o dela, selo a promessa
com meu polegar.
— Ok. Já preenchi as informações. — Cadence faz um gesto
para a enfermeira.
— Vamos preparar sua irmã para a cirurgia.
— Como vamos pagar por isso? — Viola sussurra para Cadence
enquanto a enfermeira se afasta.
Algo bem no fundo começa a doer em mim. Por que diabos essa
garota está preocupada com o pagamento da conta do hospital
quando ela está no meio de uma emergência médica literal?
— Eu vou cuidar disso — Cadence promete com voz firme.
Meu telefone toca.
É Finn.
Me afasto para atender.
— Ei.
— Você já a encontrou? — É a voz de Zane que ecoa em meus
ouvidos.
— Sim.
— Beleza. Como está a irmãzinha? — Finn pergunta.
— No hospital. Apêndice estourado.
Zane assobia baixo.
— Isso dói pra caramba.
— Quando você volta? — Finn pergunta.
— Vou ficar.
— Ficar? — A surpresa de Zane é evidente.
— A irmã dela acabou de entrar em cirurgia.
Há um momento de silêncio.
Finn fala primeiro.
— Vou contar ao Sol. Ele estava realmente preocupado.
A instrução para não contar porra nenhuma ao Sol está na ponta
da minha língua, mas eu a reprimo.
— Vejo vocês em casa.
Ouço rodas rolando no chão. Quando me viro, enfermeiras estão
levando Viola às pressas. Cadence está seguindo-as, com uma mão
cobrindo a boca e preocupação nos olhos.
Ela tropeça e eu me mexo. Ando até ela e deslizo minha mão em
volta de sua cintura para mantê-la firme.
Cadence pula quando me sente, mas não permito que ela se
solte.
— O que você ainda está fazendo aqui? Achei que tinha ido
embora. — Seus olhos estão cansados. Sua voz não é tão áspera
quanto ela provavelmente esperava que fosse.
— Tenho tempo de sobra — digo simplesmente.
Ela se afasta e caminha até a sala de espera fora da ala
cirúrgica.
Vejo que ela está em modo de defesa e lhe dou algum espaço.
— Vou usar o banheiro.
Ela nem sequer levanta o olhar.
Sigo pelo corredor, passo pelos banheiros e peço informações
sobre a localização do escritório administrativo. Quando termino,
volto para a sala de espera.
Cadence está sentada com os olhos fechados e a cabeça
balançando de um lado para o outro. Será que ela não dormiu nada
na noite passada?
Deslizo para a cadeira ao lado dela e a seguro com meu ombro
quando ela começa a cochilar. Ela aninha a bochecha contra mim.
Adormecida, seu rosto é puro e inocente.
Os sons do hospital desvanecem-se ao fundo enquanto a
observo. O contorno do seu nariz. O formato de seus lábios
carnudos. A respiração suave que atinge meu pescoço.
Aquele estúpido nó no meu peito aperta-se ainda mais e eu luto
contra ele lembrando a mim mesmo que estou fazendo tudo isso
apenas para levá-la para a cama.
Não significa nada mais do que isso.
Ela não significa mais.
Farei o que for preciso para baixar suas defesas, mas no
momento em que eu me divertir com Cadence Cooper, nunca mais
vou pensar nela de novo.
CHAPTER
DEZOITO
CADENCE
— Oops.
A palavra é acompanhada pelo barulho do refrigerante se
espalhando por todo o chão que eu acabei de limpar.
Minha cabeça se vira rapidamente enquanto a fúria se acende
em minhas veias. Paris e suas seguidoras metidas riem como se
tivessem realizado o golpe do século.
— Limpe isso, Brahms — Paris se joga na cadeira atrás da mesa
do professor e coloca os pés para cima. — Ordens do Dutch.
Não sei o que me irrita mais - que ela esteja aqui me
atormentando em nome do Dutch novamente ou que ela esteja
usando o apelido dele para fazer isso.
Paris e suas ajudantes cabeças-ocas estão me observando
atentamente para ver o que vou fazer. Recuso-me a dar a elas a
satisfação de me ver perturbada.
— Dutch te enviou? — pergunto.
Paris sopra suas unhas. — Ele queria que eu te desse as boas-
vindas de volta à escola. Sentimos sua falta.
Meus dedos se apertam em torno da vassoura. Não vejo Dutch
desde aquele dia no hospital. Depois que Vi saiu da cirurgia, ele
ficou por perto o tempo suficiente para ter certeza de que ela estava
bem e depois desapareceu.
Fiquei fora da escola por alguns dias ajudando Vi a se recuperar,
enquanto também pegava mais turnos na lanchonete para começar
a pagar as contas do hospital.
Quando fui fazer meu primeiro pagamento ontem, a
administradora me disse que nos qualificamos para um fundo
especial e que todos os custos da cirurgia, bem como a estadia e os
medicamentos, tinham sido cobertos.
No início, fiquei eufórica.
Então, pressionei mais sobre o programa.
Ela começou a gaguejar, me dando respostas vagas e
eventualmente encerrou todos os questionamentos adicionais.
Isso fez minhas suspeitas dispararem.
Não acho que Vi e eu fomos escolhidas aleatoriamente para
qualquer coisa. Não temos tanta sorte assim.
A única explicação que faz sentido é que Dutch pagou as contas
do hospital.
Mas por quê? Para provar que ele tem dinheiro e eu não? Para
me fazer dever um favor a ele?
Paris se aproxima de mim. — Sempre fiquei curiosa sobre você,
Cadence. — Seus olhos são afiados como facas. — Christa era
obcecada em te destruir. Dutch estava sempre te observando.
Agora, todas as postagens no app do Jinx são sobre você e com
quem você pode estar namorando.
— Está dizendo que sou popular? Obrigada, Paris.
Ela cruza os braços sobre o peito e me olha de cima a baixo. —
Não entendo o apelo. Você é um ninguém. Nada. — Seus olhos se
detêm em meu uniforme de segunda mão. — Por que todos estão
tão obcecados por você?
— Você me diga. Você está aqui tentando me decifrar, não está?
Seu sorriso é cruel. — Tentei ser legal, Cadence. Realmente
tentei, mas acho que não posso mais deixar isso passar. Está
começando a me irritar. — Ela cruza os braços sobre o peito. —
Você está no meu caminho.
— Você já mencionou isso.
Ela se aproxima de mim. Seu perfume caro é uma nuvem
espessa ao redor do meu rosto. — Ah, e mais uma coisa, da
próxima vez que aparecer em uma das minhas festas sem ser
convidada, farei com que seja escoltada para fora. Não deixe toda
essa atenção subir à sua cabeça. Não aceitamos camponeses como
você em Redwood Prep.
Fervo de raiva enquanto ela e seu grupo começam a se
pavonear em direção à porta.
Paris pode estar certa. Eu posso não ser nada para os alunos de
Redwood Prep e até mesmo para Dutch, mas ainda importo.
E estou cansada de deixar esses riquinhos me pisarem.
— Ei, Paris!
Ela se vira.
— Observe-me limpar o lixo. — Pegando o produto de limpeza
do meu carrinho, desparafuso a tampa e jogo nela.
Cai em suas roupas com um plaft, encharcando seu cabelo
perfeito com as pontas loiras e respingando sobre seu uniforme
chique de Redwood Prep.
Um suspiro indignado escapa dos lábios de Paris.
Suas amigas pulam para trás para sair da zona de respingos e
então olham para ela, olhos arregalados.
A voz de Paris se transforma em um grito de bruxa: — Você-
— O quê? O quê? — Avanço até ficarmos quase nariz a nariz. O
cheiro pungente de produtos químicos e fragrância artificial de limão
enche o ar. — Você acha que não vou te destruir do mesmo jeito
que destruí a Christa?
Seus olhos se arregalam de horror.
— Mexa comigo de novo e eu moverei céus e terras para acabar
com você. — Baixo minha voz para um sibilo volátil. — Sabe o que
é tão bom em ser um ninguém?
Seu lábio inferior treme.
— Você não tem nada a perder. — Jogo a garrafa vazia de
produto de limpeza no chão e saio furiosa da sala de aula.
Provavelmente vou me meter em problemas por não terminar
meu estudo de trabalho, mas não dou a mínima. Meu corpo inteiro
está fervendo.
Quando entro no corredor, ainda está cheio de alunos. As aulas
terminaram há poucos minutos, mas eu não queria me atrasar para
meu turno na lanchonete, então fui direto para a sala de aula
designada para limpar.
A administração da escola ainda não aprovou minha petição
para fazer o estudo de trabalho no início da manhã. O que significa
que estou presa fazendo malabarismos com minhas tarefas de
limpeza em Redwood, a lanchonete e cuidando de Vi, tudo depois
da escola.
Sinto como se estivesse sendo puxada em cem direções
diferentes e Dutch soprando quente e frio - ficando comigo no
hospital em um minuto, e então enviando sua favorita da semana
para me atormentar em outro - não vai funcionar.
As pessoas abrem caminho quando passo furiosa. Não sei se é
porque acham que de alguma forma estou relacionada ao Dutch ou
se são inteligentes o suficiente para ler minha expressão e sair do
caminho.
Vou direto para a sala de prática privada de Dutch e bato com o
punho na porta. Ele aparece na minha frente, alto, lindo e irritante.
Dutch sorri. Não é o sorriso charmoso pelo qual Zane é
conhecido ou aquele de diversão silenciosa que faz de Finn o galã
não declarado de Redwood Prep.
Não, este é o sorriso do qual os pesadelos são feitos.
Seus lábios rosados e cheios se esticam como se ele estivesse
esperando que eu aparecesse. Seu cabelo loiro cai desalinhado
sobre sua testa, e o marrom de seu colete de suéter de Redwood
Prep realça o mel escuro de seus olhos.
— Você pagou as contas do hospital da Vi? — exijo saber.
— Do que você está falando? — Ele me olha com uma
expressão vazia. — Que contas?
Que contas? Ele vai bancar o idiota sobre isso?
Dutch interpreta tão bem o papel de desentendido. Talvez porque
ele seja uma casca vazia de uma pessoa e não tenha problemas em
mentir ou tramar para conseguir o que quer.
Queria que um caminhão invadisse a escola e passasse por
cima dele.
— Apenas deixe quem quer que tenha pago saber que somos
gratas, mas que nunca devem fazer isso novamente. Além disso,
vou devolver o dinheiro.
Ele se encosta na porta, me avaliando. — Como?
— Como? — engulo em seco. No meio da minha irritação, eu
não tinha previsto que essa pergunta seria jogada de volta para
mim.
— Como você planeja devolver o dinheiro, Brahms?
Eu pisco rapidamente. — Nós podemos... talvez eu possa
negociar um plano de pagamento.
— Talvez? Você parecia tão segura há um momento. — Ele dá
um passo à frente e deixa a porta bater atrás dele. O pequeno
scanner ao lado pisca em vermelho.
Eu recuo. Meu coração dispara na garganta enquanto Dutch
avança em minha direção.
— Até parecia — ele passa os dedos pelo meu pescoço — que
você estava disposta a fazer qualquer coisa.
— É por isso que você pagou, seu cretino? — sibilo, sentindo
uma necessidade lenta e perigosa queimando entre minhas coxas,
mesmo que meu coração grite de raiva. — Para que eu transasse
com você?
— Você já?
— Já o quê?
— Transou.
Mordo com força meu lábio inferior. Ele está em pé sobre mim, o
rei da escola, com um dedo girando sobre minha garganta como se
quisesse controlar meu pulso. Seu sorriso de escárnio é preguiçoso,
arrogante. Sua postura transborda autoconfiança, mesmo que seu
olhar queime minha pele com calor.
— Isso não é da sua conta.
— Aposto que não. — Ele prende os dedos atrás do meu
pescoço e me puxa para frente, fazendo com que seus tênis toquem
meus sapatos. — Aposto — ele se inclina e passa a língua quente
pela curva do meu pescoço, provando meu pulso — que eu serei o
seu primeiro, Cadey.
Sua mão desliza por baixo da minha camisa, queimando minha
pele a temperaturas insuportáveis.
Meus joelhos cedem, mas não consigo lutar contra a tensão
entre nós. Um sentimento assustador fratura minha força de
vontade, como os asteroides quentes e explosivos que dizimaram
os dinossauros. Ele toma conta de todo o meu corpo enquanto
Dutch me puxa para mais perto.
Ainda assim, me forço a lutar.
Agarrando seus braços com meus dedos, empurro-o para trás.
Ele não se move nem um centímetro, mas se endireita, aquele
sorriso de escárnio preguiçoso ainda cortando seu rosto bonito.
— Você nunca vai tirar minha virgindade — cuspo, meu peito
arfando e o pulso entre minhas pernas em clara deficiência a essa
afirmação.
Dutch se inclina. Acho que ele vai tentar me beijar, mas ele para
bem perto dos meus lábios. Seus olhos escureceram uma dúzia de
tons, transformando seus olhos âmbar em um buraco negro sem
fim. Um espelho perfeito de sua alma enegrecida.
— Eu não vou tirá-la, Cadey — Dutch promete. Sua voz se
enrola como fumaça, me envolvendo. Me provocando. — Você vai
me dar.
J : C M - L T
Não é surpresa que a nova líder das líderes de torcida esteja atrás
do sangue da Novata. Afinal, o vácuo deixado por sua predecessora
precisa ser preenchido. E rapidamente.
Mas me pergunto... e se toda essa animosidade for mais do que
apenas reivindicar seu trono? Fontes dizem que nossa pequena
Srta. Líder de Torcida foi deixada na mão no meio de um lago
depois que o Príncipe Encantado se divertiu com ela. No entanto,
ele simplesmente não parece se cansar de empurrar Cinderela para
cantos escuros.
O caminho para o verdadeiro amor realmente é repleto de
corações partidos. E iates chiques que fedem a látex.
Algo me diz que, nesta história, a Srta. Líder de Torcida não
passa da meia-irmã feia.
Até o próximo post, mantenha seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais perto.
- Jinx
CHAPTER
DEZENOVE
CADENCE
Serena já está à mesa quando saio do refeitório. Ela está usando
sua maquiagem escura habitual, seu cabelo preto longo e brilhante.
Coloco minha bandeja na frente dela e ela nem pergunta mais.
Vai direto para a taça de frutas que eu nunca como e que a senhora
da cantina insiste em me dar.
— Você ficou sabendo? A Christa voltou.
— Voltou? — respondo vagamente.
— Quase sinto pena dela. Ela não está mais na equipe de
líderes de torcida. E ninguém está almoçando com ela. Depois
daquela cena que ela fez na festa da Paris, ela se tornou uma
completa pária. — Serena lambe o suco que escorreu da taça de
frutas. — Ela deveria ter pensado melhor antes de ir atrás de você.
Essas palavras me chocam de volta à realidade. — De mim?
— Você tem o Sol e o Dutch te protegendo.
Franzo o nariz em confusão.
Ela me cutuca com o ombro, empunhando a colher de plástico
que ela também pegou da minha bandeja. — Você é a garota pela
qual não um, mas dois membros dos Kings estão brigando. Você é a
própria definição de proibida.
Pisco rapidamente. — Você acabou de dizer que o Dutch e o Sol
estão brigando por mim?
— Não estão?
Meu coração dispara. — Você ouviu isso no aplicativo da Jinx ou
realmente aconteceu?
Ela assente. — Aplicativo da Jinx.
Fecho os olhos com força. Eu realmente preciso colocar esse
aplicativo no meu celular para monitorar as besteiras que a Jinx está
espalhando. No mínimo, eu deveria ter o aplicativo só para o caso
de ela algum dia revelar meu segredo para todos - e não estou
falando sobre minha identidade secreta.
— Isso está tão longe da verdade que chega a ser risível. O Sol
é apenas um amigo. E o Dutch...
Engulo em seco, lembrando da sensação da língua quente dele
roçando em meu pescoço. Você vai me dar. Um calor invade meu
rosto e se espalha pelo meu peito.
Eu deveria ter dado uma joelhada na virilha dele. Mas fiquei lá
parada como uma idiota, ofegante e tremendo enquanto um calor se
enrolava no meu baixo ventre e meu interior pulsava por mais.
Dutch destrói todas as minhas defesas sem nem tentar. É
irritante.
— O Dutch é o quê? — Ela arqueia uma sobrancelha.
— Ele é um pesadelo.
— Então você não está tendo um caso tórrido com dois
membros dos Kings ao mesmo tempo?
— Não!
Ela suspira. — Que chato.
Tento desviar o assunto do Dutch antes que meu rosto fique
ainda mais vermelho. — Quando você viu a Christa hoje? Eu não a
vi na aula nem no comício.
— Ah — Serena mastiga casualmente sua taça de frutas —, ela
fugiu antes da primeira aula.
— Tipo, saiu correndo da escola?
— Chorando e gritando. Mas não é culpa sua. Ouvi dizer que a
Paris não foi muito gentil quando deixou clara a nova posição da
Christa em Redwood Prep.
Mordo meu lábio inferior. Não sou fã da Christa, mas também
não sou completamente desalmada. — A Paris é pior que a Christa,
não é?
— Não é muito impressionante chutar uma garota quando ela já
está caída, então não. Não acho que ela seja. A Christa é a
rejeitada que foi expulsa da festa da ex-vice-presidente e
publicamente humilhada pelo próprio Dutch. Redwood Prep é um
lugar cruel, muito cruel. Uma vez que você cai em desgraça, as
hienas estão logo embaixo, prontas para te despedaçar. Para a
Christa, acabou. A Paris está se aproveitando disso. Tentando
parecer mais durona do que é. Está funcionando.
Suspiro profundamente. Toda essa política de Redwood Prep
está me dando dor de cabeça. Além disso, tenho coisas maiores
para me preocupar.
Como por que a porta estava aberta naquela noite depois da
festa da Paris.
Vi insistiu que tinha trancado, mas eu sei o que vi.
A chave não girou.
A porta estava aberta.
Nenhuma das nossas coisas tinha sido levada e eu tentei me
convencer de que talvez Vi achasse que tinha trancado a porta
quando não tinha. Erros acontecem. Afinal, somos apenas
humanos.
Pedi ao cara da manutenção para trocar nossas fechaduras, mas
a probabilidade disso acontecer é a mesma de nevar no verão. Já
comprei novas fechaduras. Agora só preciso de tempo para
descobrir como instalá-las.
— Chega de falar da Christa. Tem um show de Halloween em
breve. — Serena sorri lindamente. — E depois uma festa. Todo
mundo de Redwood costuma ir a essas coisas idiotas. Até os
rejeitados. — Amassando a tampa da taça de frutas, ela a coloca
em sua bolsa.
Serena nunca joga lixo no chão e fica super passional quando vê
pessoas jogando lixo no chão. Sempre que ela tem lixo e não há
lixeira por perto, ela junta tudo e descarta depois.
— Você está me perguntando se vou ao show ou à festa?
— Aos dois. — Seus olhos claros brilham para mim. — Nós duas
estamos no programa de música, mas acho que nunca ouvi você
tocar.
Esfrego a nuca e inclino o rosto para o sol para evitar responder.
— Você sabe tocar, certo? Você não teria entrado em Redwood
sem algum tipo de habilidade.
— Tenho um medo de palco terrível. Não toco muito em público.
— Empurro a comida no meu prato.
— Tudo bem. Se você quiser, podemos pular o show e ir à festa.
E desta vez — ela levanta quatro dedos —, juro que não vou sair
sem você. Se o Dutch te carregar de novo, vou pular nas costas
dele e dizer que se ele te quer, vai ter que levar nós duas.
— Ele provavelmente vai aceitar o desafio — diz uma voz.
Dou um grito e me viro.
Sol está parado atrás de mim. Seus olhos são de um castanho
quente e chocolatoso. Como sempre, ele está usando uma gola alta
branca por baixo do colete do uniforme de Redwood Prep. Está um
calor escaldante hoje. Ele deve estar suando lá embaixo.
Pensando bem. Nunca o vi usando nada além de mangas
compridas, não importa a temperatura.
O queixo de Serena cai junto com sua colher que estava cheia
da última porção de geleia de frutas. Ela sibila de raiva. — Droga,
era a última.
— Pode ficar com o meu — diz Sol, colocando-o na frente dela.
Com estrelas nos olhos, Serena olha para cima. — Obrigada.
— Se importa se eu sentar?
Meu coração bate forte contra minhas costelas. Talvez seja pelo
comentário de Serena sobre Dutch e Sol brigando por mim, mas
agora estou hiperconsciente de tudo que faço e digo perto de Sol,
caso esteja dando a impressão errada.
— Eu já estava de saída — digo, recolhendo minha bandeja.
Ele inclina a cabeça para o lado. — Você está me evitando,
Cadence?
— Evitando você? Por que eu faria isso? Somos amigos.
— Ótimos amigos — diz Serena, com metade da taça de frutas
já devorada. Com a boca cheia, ela acrescenta: — Cadence estava
me contando sobre como você é amigável.
Os olhos de Sol permanecem escuros. Eles se fixam em mim. —
Eu queria perguntar sobre sua irmã.
— Ela está ótima. Está tudo ótimo. — Eu me afasto da mesa.
— Pensei que ela estivesse doente. Dutch disse que ela fez uma
cirurgia ou algo assim.
— Sua irmã fez uma cirurgia? — Serena engole em seco. — Por
que você não me contou?
— Foi para tirar o apêndice. A cirurgia foi bem-sucedida. Ela
viverá por mais um dia.
À distância, a porta do refeitório se abre. Dutch, Finn e Zane
entram. Paris está com eles. Ela está grudada em Dutch, com uma
mão em volta do bíceps dele.
Minhas unhas afundam na saia do Redwood Prep.
Forço-me a respirar, desviando o olhar e focando em Sol. —
Obrigada por perguntar, de qualquer forma.
— Gostaria de ter podido ajudar mais naquele dia.
— Está tudo bem. — Meus olhos, traidores como são, voltam-se
rapidamente para Dutch. Ele está me encarando à distância,
aqueles dois poços de mel escuro em seu rosto cheios de
advertência.
Se ele vier até aqui-Se ele me jogar sobre o ombro-Se ele
cumprir aquela ameaça de me fazer implorar por ele-Já estive lá
antes. Com suas mãos quentes no meu corpo. Com seus lábios nos
meus. Com o desejo correndo por mim como uma inundação.
Ele é bom em cumprir ameaças.
E depois de tudo que ele fez, ainda não sou boa em controlar
minhas emoções perto dele.
Apressando-me, passo a outra perna sobre o banco e me afasto.
— Te vejo na aula, Sol. Até mais.
Dutch não me segue, mas seus olhos sim. Olho por cima do
ombro como uma idiota e vejo que ele está sentado à mesa. Paris
está se aproximando dele, mas ele não está olhando para ela.
Ele está olhando para mim. Recostado. Queixo erguido.
O bastardo.
Nunca vi um homem tão cheio de si. É óbvio pela maneira como
ele se senta como um rei em sua corte, pelo jeito que seus lábios se
curvam como se soubesse que plantou uma semente em minha
mente para crescer e tomar conta. Até mesmo a forma como ele
passa os dedos pelos cabelos loiros e inclina a cabeça é
irritantemente sexy.
Aperto a bandeja contra o peito e me apresso para entrar no
refeitório.
Dutch Cross é muito, muito ruim para mim e muito, muito
atraente.
Mas se um dia eu abrir as pernas para ele, vai ser um dia frio no
inferno.
CHAPTER
VINTE
CADENCE
Nunca fui convidada para uma festa de aniversário íntima antes.
E esta não está me convencendo de que quero fazer disso um
hábito.
Vi e eu estamos espremidas ao redor da mesinha na sala de
jantar do Rick. O lugar está decorado com balões e faixas. A mesa
foi posta com um humilde banquete.
Rick está usando um chapéu de festa. É pontudo no topo e
preso firmemente sob seu queixo. As cores alegres do arco-íris no
chapéu contrastam com sua expressão sombria. Ele não disse
muito.
Estou começando a pensar que Hunter nunca perguntou a Rick
se ele realmente queria que estivéssemos aqui. No momento em
que Rick nos viu à porta hoje, seu rosto desanimou. Ele tentou se
recuperar, mas estava claro que ele não estava ansioso para nos
encontrar novamente.
O único som no apartamento é o tilintar dos garfos contra os
pratos. Rick está olhando fixamente para seu bife, sem dizer muito.
Sua namorada, uma mulher bonita com pele bronzeada e
grandes olhos castanhos, se mexe em seu assento. Seus olhos
dardejando de um lado para o outro, ela exala uma risada nervosa.
— Cadence, Viola, como está o bife?
— Bom — murmuro.
Vi levanta o polegar em aprovação.
O silêncio cai rapidamente novamente, cobrindo o ar com um
constrangimento espesso e pesado.
A namorada de Rick faz sua segunda tentativa de conversa. —
Cadence, você estuda na Redwood Prep, certo?
Aceno com a cabeça.
— Uau. — Ela limpa as mãos em um guardanapo e se inclina
para frente. — Sempre me perguntei como era lá dentro. Toda vez
que passamos, digo ao Rick 'olha aqueles carros'. Tudo no
estacionamento brilha como diamantes.
Meus lábios se curvam nos cantos, mas estou gritando
internamente.
— Aposto que os filhos de ricos são iguais a nós — ela comenta,
enfiando o garfo em uma folha de alface.
— Sim, são iguais — murmuro.
Penso em Dutch e seus irmãos. Aterrorizantes por si só.
Implacáveis quando juntos. Eles são donos da escola e de todos
nela.
Mas não de mim.
Nunca de mim.
— Os filhos de Jarod Cross não estudam naquela escola? —
Hunter pergunta, sua boca uma linha dura e firme.
Os olhos de Rick brilham com interesse. — Os filhos de Jarod
Cross?
— A banda deles tocou no baile onde eu fui acompanhante. —
Ele faz uma pausa. — Eles também seguiram Cadence até a
lanchonete no dia em que fomos procurar seu presente.
Meu sorriso fica tenso. Mais tenso e vai se despedaçar.
Eu realmente não quero falar sobre isso.
— Cadence e Dutch são amigos — Viola solta.
Os ombros de Hunter ficam tensos.
Os de Rick também.
— Você é amiga dos Kings? — A namorada de Rick tem estrelas
nos olhos. — Você está de brincadeira comigo. Como é?
Penso em Dutch me jogando contra armários, me dando ordens
e reivindicando minha virgindade.
Minha garganta aperta. Envolvo dedos trêmulos ao redor de um
copo e bebo um gole. — Não somos realmente amigos.
Os olhos de Hunter fixam meu rosto, mas finjo não notar e tomo
outro gole.
A conversa estagna novamente.
A namorada de Rick, coitada, tenta retomá-la. Lançando um
sorriso travesso para Hunter, ela diz: — Você e Cadence foram ao
shopping sozinhos? Foi tipo um encontro?
— Não nesse sentido — Hunter diz casualmente, recostando-se.
Abaixo a cabeça e mordo com força meu lábio inferior.
Hunter e eu não temos realmente conversado desde aquele dia
na lanchonete. Quer dizer, ele mandou algumas mensagens, mas
tem sido tão agitado com a escola, o trabalho e Dutch respirando no
meu pescoço que não tive tempo de responder.
— Quantos anos você tem, Cadence?
— Dezessete — digo.
— Ela fará dezoito em dezembro — Hunter diz.
Meus olhos se voltam para ele. Estou chocada que ele saiba
disso.
Rick olha também. Seu maxilar está duro. — Não pareça tão
ansioso, cara.
Hunter e Rick trocam olhares fulminantes.
A namorada de Rick se levanta de um salto. — Vou pegar o bolo
para podermos cantar parabéns. Hunter, pode ajudar?
— Sim. — Hunter limpa a boca e se afasta da mesa.
Rick continua olhando para seu prato e comendo
mecanicamente.
Viola encontra meu olhar e faz uma careta como se dissesse
'isso é tão constrangedor'.
Faço um gesto para ela relaxar.
Ninguém diz uma palavra até Hunter e a namorada de Rick
voltarem. Cantamos uma canção de parabéns sem entusiasmo e
Rick corta o bolo.
— Ah — sua namorada dá uma mordida em sua fatia — uma
cerveja cairia bem com isso.
— Eu pego. — Rick se oferece, olhando para mim. — Cadence,
pode vir comigo?
Atordoada, aceno com a cabeça e sigo Rick pela porta.
Passamos pela escadaria escura e bolorenta. Os tapetes estão
mofados, as luzes estão piscando, e as paredes parecem precisar
ser derrubadas e reconstruídas. Até nosso apartamento parece mais
bem conservado do que isso e temos um péssimo zelador que ainda
não me respondeu sobre consertar nossas fechaduras.
Os olhos de Rick encontram os meus. Há constrangimento em
seu tom quando ele pergunta: — Como você tem se virado com o
aluguel?
— Está bem — digo.
Não guardo mais ressentimento pela sua falta de envolvimento.
Foi suficiente descobrir que ele estava tentando ajudar, mesmo que
continuasse me evitando e agindo como se eu fosse um fardo.
Eu entendo. Mamãe nos deixou aos dois em uma situação difícil.
Rick não pediu para duas meias-irmãs entrarem em sua vida do
nada. Não é responsabilidade dele pagar a dívida da mamãe.
Ele lambe os lábios e olha para baixo.
— Tem algo te preocupando? — pergunto.
A luz do sol poente faz com que ele estreite os olhos no
horizonte. Ele me encara. — Eu queria te perguntar... você viu
alguma coisa ultimamente? Algo que não esperava ver?
Que tipo de pergunta é essa?
Fico pensando sobre isso.
A expressão calma em seu rosto começa a desaparecer
conforme o silêncio se prolonga.
— Você viu? — ele insiste.
— O que você quer dizer?
— Nada. — Ele se apressa à frente.
Dou um passo à frente e então paro. Com os olhos arregalados,
pergunto urgentemente: — Alguém está invadindo sua casa
também?
Rick congela na calçada. Com os dedos se fechando em
punhos, ele olha diretamente para mim. — Alguém invadiu sua
casa?
— Eu não sei. — Estou um pouco assustada com a intensidade
do seu olhar. — Pode ser apenas um erro nosso. Na outra noite, a
porta estava aberta. Algumas noites antes disso, Vi perdeu seu
colar.
— A Vi viu alguém estranho naquela noite?
Balanço a cabeça, odiando pensar no que poderia ter acontecido
se alguém tivesse invadido. Minha irmãzinha estava em casa.
Sozinha. Qualquer um poderia ter entrado e simplesmente...
— Eu tenho uma tranca em casa — digo a ele, tentando me
tranquilizar também. — Vou trocar a maçaneta e adicionar um novo
ferrolho.
Sua mandíbula se aperta. — Vou pedir ao Hunter para te ajudar.
— Eu posso fazer sozinha.
Rick me encara com olhos escuros e diz em uma voz grave: —
Deixe o Hunter ajudar. — Ele desvia o olhar e passa as mãos pelo
cabelo. — Você precisa ter cuidado, Cadence.
— Com o quê? Ladrões?
— Apenas... — Ele lambe os lábios agitado. — Tenha cuidado.
Com essas palavras assombrosas ecoando em meus ouvidos,
pegamos a cerveja e voltamos para a festa. Mas não estou
realmente com vontade de comemorar nada e Rick parece que
também acabou com a socialização. Fico aliviada quando Hunter
finalmente nos leva para casa.
Vi vai direto para dentro. A porta do quarto dela bate com força o
suficiente para chamar a atenção de Hunter.
— Eu disse algo errado no carro? — ele pergunta, pausando sua
busca na caixa de ferramentas para olhar para mim.
— Não, acho que ela pode estar apenas decepcionada com o
Rick. Eu continuo dizendo a ela para não criar expectativas com
ele...
— Ele não é um cara mau. Ele quer estar lá para vocês duas.
Ele só não sabe como.
— Eu entendo isso. Mas eu não deveria ter arrastado a Vi para
lá só para ela se sentir desconfortável e fora de lugar.
Hunter se endireita em toda a sua altura, com a cabeça baixa. —
Acho que isso é culpa minha.
— Não, eu não culpo você. Eu só acho que... talvez possamos
amar o Rick de longe, sabe? Você não precisa ser sempre melhor
amigo da sua família. Relacionamentos são complicados.
— Isso é verdade. — Hunter habilmente remove nossa
maçaneta. — Mas você não sabe se não tentar - seja um
relacionamento com a família ou um relacionamento com um cara.
Minha respiração fica presa na garganta. Ele está falando sobre
nós agora?
Desvio o olhar. — Um cara? A vida já é difícil o suficiente sem
envolver os sentimentos de outra pessoa. Eu não vou namorar
agora. — Limpo a garganta. — Mas eu aprecio ter amigos.
Ele termina com minha fechadura, limpa as mãos nas calças e
se vira para mim. Ele está mais perto do que antes. Seu peito quase
roça meu braço.
— Você está tentando me dizer que você e eu somos melhores
como amigos, Cadence? — ele sussurra. Sua respiração faz
cócegas no meu cabelo.
— Eu... — Minhas narinas se dilatam. — Eu realmente aprecio
tudo o que você fez por nós, mas...
— Eu entendo. — Ele dá um passo para trás.
— Entende o quê?
— Isso é por causa dele, não é? — Seus olhos brilham com
irritação.
Não preciso adivinhar a qual 'ele' Hunter está se referindo.
— Não é.
Hunter balança a cabeça uma vez, pega sua caixa de
ferramentas e sai pelo corredor. Então ele para. Vira-se. Vem
correndo em minha direção.
— Deixe-me te dar um conselho como seu amigo. Fique longe
de caras como ele. Não se engane pensando que ele vai mudar por
você ou que ele será bom com você se trata todos os outros como
lixo. Pessoas como ele só sabem brincar com a gente.
— Eu sei. — Engasgo.
Ele não faz ideia de quão bem eu tive que aprender essa lição.
O sorriso de Hunter é sombrio. — Não, você não sabe. Mas você
acha que sabe. E é por isso que não vai acabar bem.
Eu observo Hunter descer as escadas e sinto meu coração
batendo rápido. Que diabos ele quis dizer com isso?
CHAPTER
VINTE E UM
CADENCE
Dutch é o único sentado na sala de música quando eu tropeço
na aula na segunda-feira. Paro abruptamente, meu coração batendo
contra minhas costelas ao vê-lo.
Ele mal olha para mim, mas percebo a tensão em seus ombros e
a determinação em seus lábios carnudos. Suas pernas longas estão
esticadas à sua frente, e uma guitarra está equilibrada em seu colo.
Ele está usando calças azul-marinho junto com uma camiseta de
mangas curtas que mostra todos os seus músculos e tatuagens. O
casaco do Redwood Prep que completará o uniforme está jogado
casualmente sobre o encosto de sua cadeira.
Minhas mãos estão tremendo.
Mas não é de medo.
Desde que ele fez aquele desafio estúpido sobre dormir comigo,
tenho estado agitada. Como se não pudesse mais confiar nele – ou
no meu próprio corpo.
Tem sido difícil dormir. Até meus sonhos são atormentados por
seu rosto implacavelmente lindo.
Alguns desses sonhos são de Dutch me agarrando nas sombras.
Outros são de mim montada em seu colo, dando a ele
exatamente o que ele sempre quis e gostando disso...
Estou completamente louca. Querer ele? Desejar ele depois de
tudo que ele me fez.
Seria melhor abandonar a escola do que entregar minha
virgindade ao Dutch.
E ainda assim, a única coisa que sei é que não posso deixar
Redwood Prep. Não se quero dar uma vida melhor para Vi.
Enquanto eu respirar, tenho que ficar. Tenho que aguentar.
Dutch toca uma melodia leve e sensual na guitarra e meus
músculos ficam tensos.
Cheguei atrasada à aula hoje, esperando evitá-lo. Se não
colocasse minha bolsa de estudos em risco, eu abandonaria todas
as aulas que ele frequenta também.
Ele está tomando conta da minha vida, me fazendo me encolher.
Me fazendo suar. Eu lutei para sair da escuridão, tentando reunir
todo o poder que tinha para enfrentá-lo de igual para igual e ainda
assim ele me tem pelo pescoço novamente.
Você pode correr o risco de que ele não conseguirá o que quer?
A resposta para isso me envergonha.
Meus tênis deslizam contra o chão enquanto dou um passo para
trás.
Ainda sem olhar para mim, Dutch rosna: — Se você fugir, eu irei
atrás de você e farei o que estou prestes a fazer dez vezes pior.
— Que diabos você quer? — As palavras arranham minha
garganta, como dedos de fogo queimando seu caminho até meu
peito.
Odeio Dutch por me fazer sentir tão encurralada.
Por me fazer sentir tão viva.
Porque mesmo que haja desdém, apenas estar no mesmo
ambiente que ele carrega algo que estava sem vida dentro de mim.
Algo que faz minha existência simples e cansativa parecer nova.
— Venha aqui, Brahms. — Ele toca um acorde complexo, seu
cabelo loiro capturando a luz do sol e brilhando como ouro fiado.
Dutch mal olha para mim, seus olhos âmbar frios. — Agora.
Minha boca se aperta. Odeio receber ordens. Especialmente
dele.
Seus lábios se curvam cruelmente. A música que ele estava
tocando para em um movimento curto.
— Você deixou algo na festa. — Ele inclina o queixo para baixo.
Olho para o pacote sob a bota de Dutch e empalideço.
É a jaqueta que usei no meu último show. Enrolada dentro das
dobras está minha peruca vermelha.
A verdade me atinge bem entre os olhos.
Ele está mantendo meu segredo como refém.
Olho para cima. Nossos olhos se encontram, meus olhos
castanhos nos seus voláteis olhos castanho-mel. Ele não diz nada,
mas como um predador à caça, sua quietude é uma miragem. Ele
só ataca quando a presa está perto, pega em sua armadilha. Nem
um segundo antes disso.
O sol está alto no céu, raios dourados explodindo através das
janelas. Mas ainda tremo.
Os olhos de Dutch me seguem enquanto me espremo entre as
mesas e jogo minha mochila no chão.
— Nosso próximo projeto de Teoria Musical Não Convencional
está para vencer. — Ele arqueia uma sobrancelha para mim. —
Somos parceiros.
— Estou trocando.
— Com quem?
A expressão de advertência em seu rosto é como um soco no
estômago, mas absorvo a ameaça nela e mantenho meu queixo
erguido.
Há apenas uma pessoa nesta escola que ousaria enfrentar
Dutch e sobreviver.
— Sol.
— Vá em frente. — Ele se inclina casualmente. — Se você
quiser que todos saibam quem você realmente é. — Ele mexe
minha jaqueta com o pé. — Fique à vontade. — As palavras rolam
de sua língua, venenosas e graciosas como uma cobra.
— O que você quer, Dutch?
— Eu já te disse o que eu queria, Brahms. — Seus olhos
brilham. — Venha aqui.
Avançando, embora tudo dentro de mim esteja me dizendo para
correr, paro na frente dele. Ele coloca uma mão no meu quadril e me
puxa para frente. Encaro intensamente seus olhos, hipnotizada por
sua total falta de humanidade.
Por que ele me odeia tanto? Por que ele não pode simplesmente
me deixar em paz?
Dutch coloca a outra mão no meu quadril e me segura firme. A
guitarra em seu colo escorrega e são apenas meus joelhos
prensados contra os dele que impedem o instrumento caro de cair
no chão.
Ele me estuda com um olhar muito mais suave e íntimo do que
eu pensava que ele fosse capaz.
— Relaxe, Brahms. — Sua mão esquerda faz um círculo contra
meu quadril. — Eu já te disse que não vou pegá-la. Não à força.
Meus lábios e língua começam a formigar quando seu olhar cai
para minha boca.
— Você deve estar chapado ou ser estúpido se há uma parte de
você que realmente acredita que eu te quero, Dutch — cuspo.
Ele ri de mim. Escuro e retumbante. Sua risada é mais insultante
do que qualquer coisa que ele poderia ter dito.
Fervo de raiva. As partes irregulares de mim que vivem para vê-
lo sangrar vêm à tona. Em vez de recuar, eu me inclino para frente.
— Meu corpo pertence a mim. Posso fazer o que quiser com ele.
Com quem eu quiser. Não precisa ser você.
O desejo passa pelos olhos dele quando me aproximo. Isso
carrega o ar entre nós. Aquela linha tênue entre ódio e luxúria
desaparecendo, sendo enterrada sob uma névoa densa.
— Vai ser comigo — ele diz com segurança.
— Eu morreria primeiro — sussurro, arqueando meu peito sobre
o dele.
Dutch agarra meu queixo. Seus dedos estão firmes, mas não
dolorosos. Seu cenho franzido é mais frio do que qualquer um que
já vi. — Lição número três, Brahms. Seu corpo pertence a mim. Sua
primeira vez também pertence a mim. Eu acabarei com qualquer um
que se meta entre mim e o que é meu.
Tento me afastar bruscamente, mas ele me segura firme.
Seus olhos são bolas de gude duras, mas quando percorrem
meu peito, brilham de calor. — Você vai gemer debaixo de mim. —
A gravidade que percorre sua promessa faz meu corpo se contrair.
Estou jogando um jogo perigoso aqui, mas não me importo se
perder. Desde que Dutch perca também, deixarei o fogo me queimar
até virar cinzas.
— Quer apostar?
Seus lábios se curvam para cima. É como se ele já tivesse visto
que acabarei em sua cama e, portanto, não há necessidade de mais
discussão. — Não. Já sei que ganhei. E não há nada que você
possa me dar além do óbvio. — Ele arqueia uma sobrancelha.
Maldito bastardo arrogante.
— Por que você não cala a boca para podermos começar nosso
projeto? — rosno.
Dutch sorri com desdém e solta meu queixo. — Segure isso.
Eu ofego surpresa quando ele empurra o violão para mim.
— Você sabe tocar, certo? — ele pergunta.
— Mal e porcamente — murmuro.
Seus longos dedos se enrolam nos meus e posicionam minhas
mãos. — Acorde de Dó. — Ele move um dos meus dedos para
baixo. — Acorde de Sol.
— O que você está fazendo?
— Toque de volta.
— Eu não vou-Seus dedos se curvam em volta do meu pescoço
e me seguram ali. Sua boca cai logo acima dos meus lábios,
deixando suas intenções claras.
— Poderíamos passar essa aula fazendo algo mais agradável,
Brahms. Você escolhe.
Puxo meus lábios para dentro da boca, mesmo que meu corpo
traiçoeiro implore pelo beijo dele. — Qual era o acorde de Sol
mesmo?
Seus lábios tremem, mas ele recua e me mostra — sem me
tocar desta vez.
Eu pego o jeito bem rápido.
— Tudo bem. — Dutch agarra meu braço. — Vamos.
— Ir? Ir para onde?
Mas ele não responde. Na típica moda de Dutch, o príncipe de
Redwood não responde a ninguém.
Ele me arrasta para o refeitório, onde as senhoras já estão
atarefadas, preparando o almoço.
— Dutch!
— Oi, Dutch!
— Dutchie!
Todas as senhoras se animam quando ele se aproxima.
— Você veio tocar para nós de novo?
Dutch sorri, sem nenhum vestígio do vilão perigoso à vista. —
Hoje não. É a vez da Cadey.
— Minha vez para quê?
— Você vai tocar enquanto elas trabalham — ele diz, cruzando
os braços sobre o peito.
— Você é louco. — Seguro o violão longe de mim como se fosse
um peixe vivo.
— Você está desperdiçando o tempo delas. — Ele inclina o
queixo de forma significativa para o violão.
Eu o encaro, desejando poder pegar o violão e bater na cabeça
dele. Mas Dutch é esperto. Ele trouxe testemunhas. Testemunhas
fofas das senhoras da cantina que estão nos observando como se
fôssemos um casal saído diretamente de sua novela favorita.
Dutch chuta um pequeno banquinho para mim. Não tenho ideia
de onde ele o tirou, mas tenho a sensação de que sempre esteve lá.
Algo que só ele e as senhoras da cantina sabem.
Inalando uma respiração trêmula, coloco um pé no banquinho e
equilibro o violão no meu joelho. Meus dedos estão tremendo tanto
que nem consigo colocá-los nas cordas.
Não posso fazer isso. Eu não posso...
Dutch desliza na minha frente, o calor do seu corpo me tirando
dos meus pensamentos. — Toque o acorde, Cadey.
— Não, eu... — Lambo meus lábios freneticamente. As senhoras
da cantina estão me olhando como se eu fosse louca. — Não como
eu. Não posso fazer isso como eu. Se eu tivesse minha peruca-
— Você não precisa da maldita peruca. — Seus dedos envolvem
meu pulso. — Você fez isso com um triângulo na frente de um
monte de calouros do ensino médio.
— Mas aquilo era-
— Diferente? Não, não é. Não nas coisas que importam. Isso é
um violão, não um piano. E só há algumas senhoras atrás do
balcão. — Ele inclina meu queixo para cima. Sua voz está mais
suave desta vez. — E eu estou aqui.
A maneira como ele está em pé sobre mim, cheio de calma
confiança e determinação, como se possuísse o mundo inteiro e o
que não tem, pode tomar — isso me deixa com raiva. E também me
faz sentir segura.
Dutch Cross é um maníaco com a mira apontada para mim, mas
será que eu o temo mais do que temo o palco?
Não sei mais.
Só sei que ele tem razão.
Não é um piano e talvez eu tenha uma chance de assumir o
controle desse medo. Bem que posso aproveitar a oportunidade.
Dutch recua enquanto passo os dedos pelas cordas tensas do
violão. A música é uma completa bagunça. Não me lembro onde
colocar os dedos e só conheço dois acordes de qualquer forma.
Mas Dutch assente com orgulho.
As senhoras da cantina param para aplaudir.
O calor preenche meu peito, espalhando-se até as pontas dos
meus dedos e dos pés. Viro-me para olhar para Dutch, mas meus
olhos captam alguém na porta do refeitório.
É Miller. E ele tem uma enorme carranca no rosto.
Meu alarme interno dispara.
— Senhorita Cooper — o pai de Christa gesticula com dois
dedos —, preciso vê-la na sala do diretor. Agora.
J : C P E C
Funcionárias da Cantina Com todo o sexo, sangue e traição
escondidos nos preciosos corredores de Redwood Prep, é sempre
bom tirar um momento para apreciar as coisas mais doces da vida.
Como o nosso casal residente do tipo "será que vão ou não vão",
que hoje cantou para as funcionárias do refeitório, aquecendo a
todos nós com seus olhares furtivos e seus sorrisinhos provocantes.
Alguém já viu o sisudo Príncipe Encantado tão orgulhoso?
Mas cuidado. Em Redwood, a felicidade é passageira e os
monstros estão sempre à espreita, esperando pelo momento certo
para atacar.
Até a próxima postagem, mantenham seus inimigos por perto e
seus segredos ainda mais perto.
- Jinx
CHAPTER
VINTE E DOIS
CADENCE
Sol e Serena estão sentados nas cadeiras em frente ao diretor
Harris e Miller. Ambos viram o pescoço, parecendo surpresos ao me
ver ali.
O orientador, Sr. Jefferies, um homem que passa mais tempo
bebendo secretamente de seu frasco do que orientando qualquer
coisa, tropeça um minuto depois, balbuciando desculpas.
— Nathan — diz o diretor Harris com voz dura, lançando um
olhar de desaprovação para Jefferies. Ouvi dizer que o orientador
era sobrinho do diretor Harris. Estou começando a acreditar que
isso é verdade.
Jefferies cai na cadeira à minha frente, seu cabelo despenteado
e seu rosto uma confusão. Dado seu olhar de cervo assustado, ele
também não tem ideia do que se trata isso.
— Convoquei esta reunião hoje — começa Miller, tamborilando
os dedos constantemente na mesa — porque envolve o programa
de música e seus futuros estudos aqui em Redwood Prep.
Du-du-dum.
Seus dedos continuam tamborilando.
É uma percussão baixa. Como o som de punhos contra os tons
de uma bateria.
A voz de Miller tem um tom sombrio de desdém que se
intensifica quando ele olha para mim. — Redwood Prep tem uma
longa e vibrante história de retribuir à nossa comunidade. É por isso
que abrimos nossas portas para todos. Não importa seu passado...
— Ele olha para Serena. — ... sua conta bancária, — ele olha para
Sol — ou seu bairro.
Levanto os olhos, encarando-o diretamente. Seja lá do que se
trata, a grandiloquência de Miller não vai me desestabilizar.
Um longo e tenso silêncio passa.
O ar-condicionado faz barulho. Mistura-se com o tamborilar dos
dedos de Miller.
Du-dum. Du-dum.
A sala de conferências não tem janelas. Paredes finas de gesso
foram erguidas para dar algo próximo à privacidade. Alguém
também jogou uma mesa e algumas cadeiras aqui.
Nenhum pensamento com o conforto.
Apenas o essencial.
Gostaria que Miller seguisse o exemplo do designer, cortasse o
floreio e fosse direto ao ponto.
— Mas — diz Miller finalmente, entrelaçando os dedos —
existem regras. Diretrizes. É o que separa Redwood Prep de todas
as outras escolas por aí. Tentamos fazer o nosso melhor, mas até
mesmo a caridade tem seus limites.
O diretor Harris balança a cabeça em concordância, olhos
fechados como se as palavras de Miller fossem um código pelo qual
ele viveria e morreria.
O discurso de Miller filtra em minha mente. Ele acabou de nos
chamar de 'caridade'? Como se fôssemos cães farejando seu lixo?
Os músculos de Sol estão se tensionando. Posso vê-lo fechando
os punhos debaixo da mesa.
Olho para Serena. Ela tem um sorriso sombrio e sem humor no
rosto. Se pudesse, provavelmente estaria acendendo seu isqueiro
para acalmar os nervos.
Como está, ambas sabemos que Miller está cheio de besteira e
que este discurso não terminará bem para um ou todos nós.
— Nosso programa de música já era estabelecido e respeitável
muito antes de Jarod Cross jogar seu dinheiro nele. — A leve
inclinação de desgosto na borda de suas palavras revela o quanto
de amor Miller tem por Cross. — Mas ele contribuiu pesadamente
para aprimorar o que Redwood Prep já tinha em vigor. E a senhorita
Cooper — ele aponta um dedo para mim — foi escolhida
especificamente para retornar a esse programa.
— Você pode ir direto ao ponto? — solto, cansada do seu
discurso. Christa deve puxar ao pai. Ambos gostam de ouvir a
própria voz.
O diretor Harris se inclina para frente, seus olhos saltando de
seu rosto suado. — Cadence, tenha algum respeito.
Respeito é conquistado, não dado.
Não acho que estou errada em exigir que Miller respeite nosso
tempo da mesma forma que ele espera que respeitemos o dele.
— Eu estava no meio de algo importante — digo.
Claro, tocar violão para as senhoras da cantina pode não
significar nada para Miller ou o diretor Harris, mas era mais um
passo para eu superar meu medo de palco. Mais um passo para me
curar das memórias terríveis daquele lugar sombrio e prejudicial.
É confuso como o inferno que Dutch tenha sido quem me
arrastou um passo mais perto da luz quando ele é a própria
personificação da escuridão, mas não vou deixar isso arruinar minha
celebração.
Não da maneira como Miller está tentando fazer.
Encaro o pai de Christa com olhos frios, meus ombros se
encolhendo até as orelhas. Miller e eu tínhamos um entendimento,
mas pelos olhares afiados e calculistas que ele continua me
lançando, sinto cheiro de traição.
— Tudo bem. — Miller acalma Harris com uma mão erguida.
Seus lábios se curvam quase alegremente enquanto me informa: —
O programa de música tem um número limitado de vagas. Como eu
estava dizendo antes de ser rudemente interrompido, isso é por
design. Redwood Prep é líder em todas as áreas, mas uma luz
brilhante na indústria da música. Não produzimos em massa.
Refinamos alguns escolhidos para continuar nosso legado no
mundo.
Tento muito não revirar os olhos, mas não sei por quanto tempo
mais posso aguentar.
— Diretor Harris? — O pai de Christa faz um gesto para que ele
assuma.
— Sim, bem — o diretor Harris pressiona os lábios — embora
todos os três tenham entrado em Redwood Prep com uma bolsa de
estudos em música, não podemos permitir que mais de dois de
vocês continuem no programa de música.
— O quê?
As costas de Serena ficam rígidas.
Sol olha furioso e não diz nada.
Miller explica novamente. — Originalmente tínhamos dois alunos
bolsistas. Mas agora, por causa de Jarod Cross, temos três. Não
podemos alocar fundos para todos.
Respiro pelo nariz. — Você está dizendo que vai expulsar um de
nós de Redwood?
Miller sorri.
Quero esmagar seu rosto com meu punho.
— Não, não, claro que não. — O diretor Harris lança um olhar
rápido para Miller, como se verificasse se ele ainda está seguindo o
roteiro. — Não gostaríamos de privar nenhum de vocês de sua
educação.
— Embora se fôssemos fazer isso, como a aluna que entrou por
último em Redwood, você seria a primeira a sair, senhorita Cooper
— diz Miller.
Minha pele fica repentinamente apertada, como se tivesse
encolhido na secadora da lavanderia e agora fosse difícil demais
para eu viver dentro dela.
— Mas — o diretor Harris interrompe — o que decidimos fazer é
remover um de vocês do programa de música.
— Por que nós? — Serena cospe. — Por que não os outros
alunos de música que mal frequentam as aulas e não dão a mínima
para suas notas?
— Não é você quem tem acusações de provocar incêndios no
banheiro, senhorita Parker?
Serena fica vermelha.
— E você — Miller inclina a cabeça para prender Sol com seu
olhar gélido em seguida —, você estava desaparecido no início do
ano letivo. Antes disso, foi expulso por destruição de propriedade
escolar. Você mal conseguiu voltar, mas não seria absurdo ouvir que
não foi capaz de concluir seu curso.
A expressão de Sol está cuidadosamente vazia, mas seus lábios
são uma linha dura em seu rosto. Ele ainda não relaxou os punhos.
— E você — o olhar audacioso de Miller pousa em mim em
seguida —, suas notas foram o que resultou na perda de seu lugar
aqui na Redwood Prep, senhorita Cooper. Embora a questão tenha
sido retificada, você ainda é candidata a este reajuste.
Quase bufo. A filha dele foi quem ajudou Dutch e seus irmãos a
manipular minhas notas e me meter em problemas em primeiro
lugar.
Aquelas regras que Miller considera tão preciosas não se
aplicam a todos.
— Claro, se você não tivesse rastejado de volta para Redwood,
não teríamos esse problema. — Seu sorriso é cruel. — Mas Jarod
Cross é seu benfeitor e não tocaremos em alguém por quem ele
pessoalmente se responsabilizou. Isso não muda nosso dilema.
Como podem ver, há razões para cada um de vocês estar sentado
aqui.
O diretor Harris acrescenta suavemente: — Vocês três têm uma
escolha. Conversem entre si e sugiram alguém que esteja disposto
a desistir voluntariamente. Essa é a maneira fácil.
— Qual é a maneira difícil? — pergunto.
— Se a administração fizer a escolha, o faremos com espírito de
justiça. Todos vocês serão forçados a repetir mais um ano.
Um ano inteiro novo na Redwood Prep soa pior que uma
sentença de morte.
— E se um de nós deixar voluntariamente o programa de
música? — pergunta Serena.
— Essa pessoa pode continuar o resto do ano como um aluno
regular — promete o diretor Harris. — Claro, sair do programa de
música significa que sua bolsa de estudos de música será revogada
e você terá que pagar o resto da mensalidade. Mas faremos
acomodações para o seu orçamento.
— Vocês estão gentilmente expulsando um de nós da Redwood
Prep então. Que benevolentes — murmura Serena.
Os olhos de Sol queimam um buraco no centro da mesa.
— Daremos a vocês dez dias para fazer sua escolha.
A melodia da escola toca.
O diretor Harris verifica seu relógio. — Vocês devem ir para a
próxima aula agora.
— Senhorita Cooper. — Os olhos de Miller me perfuram. — Eu
gostaria de ter uma palavra.
Durante toda a conversa, Sol esteve frio e distante, mas naquele
momento, ele se senta ereto e fulmina Miller com o olhar. — Por que
você precisa ficar sozinho com ela?
— Tudo bem — sussurro.
Sol me olha longamente. Então ele assente e sai.
Serena aperta minha mão e parte atrás dele.
O diretor Harris e o conselheiro são os últimos a sair.
A porta se fecha com um clique.
Somos apenas eu e Miller.
Volto minha atenção para o homem presunçoso sentado do outro
lado da mesa. Todo aquele dinheiro e poder, mais do que eu jamais
verei em uma vida, e ainda assim ele tira um prazer tão perverso em
ferrar as pessoas que não têm nada.
— Havia maneiras mais gentis de me dizer que você queria sair
do nosso acordo — digo, minha voz baixa e sombria. — Maneiras
que não envolvessem arrastar pessoas inocentes para isso.
Ele descarta minhas palavras com um aceno de cabeça. — Você
é quem as trouxe para isso, senhorita Cooper. Não eu. — Miller se
recosta e a cadeira range, protestando contra seu peso. — Você
realmente achou que poderia me chantagear?
Vejo-o examinar meu rosto, notar minha expressão furiosa e se
divertir com isso. Tudo isso é apenas um jogo para ele. Um que ele
pode jogar porque é rico, poderoso e tem uma vitória garantida.
Cruzo os braços sobre o peito, me recusando a ser intimidada.
— Acho que isso significa que você não se importa se sua filha for
para a cadeia.
— Você, coisinha insignificante — ele diz com arrogância. — Tão
imprudente. Tão completamente ignorante de como o mundo real
funciona. — A cadeira range novamente quando seus ombros se
inclinam para frente e seus olhos se enchem de uma excitação
sombria. — Quem acreditará em você? Você já disse à polícia que
foi um mal-entendido. E mesmo que quisesse insistir, já falei com
todos os meus advogados. Se você nos atacar, vamos destruir seu
depoimento membro por membro até que você deseje nunca ter
nascido.
Minhas narinas se dilatam quando me viro para ele. — Você é
patético.
Sua risada rebate no teto e ressoa ao meu redor como um jogo
de pinball de pesadelo.
Faço uma careta. — Você nos colocou em uma arena de
gladiadores. Quer que nos espanquemos uns aos outros para seu
divertimento. Isso faz de você um bastardo doente.
Ele para de rir, mas ainda está usando aquele sorriso arrogante.
— Por mais que você provavelmente não acredite em mim, isso
realmente não é obra minha, senhorita Cooper. Realmente não
temos orçamento para todos os três nem interesse em manter mais
do que dois. É assim que a vida funciona. Boa sorte.
Pego minha mochila e saio furiosa da sala de conferências.
Quando chego ao corredor, Dutch está lá, encostado na parede,
uma perna longa esticada enquanto a outra está apoiada atrás dele.
Me irrita vê-lo tão confiante em si mesmo. Tão intocável. Até a
maneira como ele se ergue em toda a sua altura e passa os dedos
pelos cabelos loiros me irrita.
Olho feio para ele, deixando o ódio me invadir novamente. Eu
nunca teria sido pega na teia de Miller se Dutch não tivesse dado a
ordem para mexer nas minhas notas. Eu nunca teria entrado no
radar de Christa se ele não tivesse passado tanto tempo tentando
me expulsar de Redwood.
Agora as coisas são essa bagunça emaranhada e feia, não só
para mim, mas para as pessoas que considero meus amigos.
E não tenho ideia de como vou me livrar disso, muito menos
eles.
Dutch dá passos firmes em minha direção, seus olhos sombrios.
— O que foi isso? O que Harris queria com você e Sol?
— Pergunte a ele.
Dutch agarra meu pulso. Seus olhos furiosos pousam em mim.
— Estou perguntando a você, Brahms.
Meu maxilar se aperta, e deixo as palavras escaparem de mim.
— Eles dizem que não há espaço suficiente no programa de música
para nós três. Eles querem expulsar um de nós. — Lágrimas estão
queimando atrás dos meus olhos porque, mais uma vez, estou
sendo chutada nos dentes apenas por ousar existir.
— Que diabos? Achei que meu pai tinha forçado você a voltar
para Redwood? Eles estão tentando se vingar dele? — As palavras
são sussurradas sob sua respiração.
— Isso não é sobre seu pai. A pessoa que Miller realmente quer
punir sou eu, mas Sol e Serena foram pegos na rede porque são
próximos a mim.
Dutch solta minha mão. — Você é próxima do Sol?
— Foi só isso que você ouviu? — Deixo escapar uma risada de
incredulidade. — Sabe de uma coisa? Esquece. Foi uma perda de
tempo te contar qualquer coisa.
O sino toca novamente.
Eu esbarro no ombro de Dutch ao seguir pelo corredor. Ele é um
idiota como sempre, mas hoje, eu realmente tenho coisas mais
importantes para me preocupar.
CHAPTER
VINTE E TRÊS
DUTCH
Eu abro a porta da sala de ensaio com um chute e vou direto
para o Sol. Ele está sentado no sofá, com o pé levantado e uma
garrafa de cerveja na mão.
Seu rosto é uma máscara de calma, mas somos amigos há
tempo suficiente para que eu possa ver a grande e escura nuvem de
tempestade pairando sobre sua cabeça e se acumulando em seus
olhos.
Ele está à beira de queimar tudo e o assustador é que não sei se
devo me juntar a ele ou deixá-lo se incendiar até virar cinzas.
— Dutch — Finn me lança um olhar preocupado. — Tu sabes o
que está acontecendo?
Zane gira suas baquetas, um tique nervoso. Seus olhos saltam
de mim para Sol e de volta. — Vocês dois brigaram?
— Não — eu rosno.
— Então que diabos aconteceu? — Zane usa uma de suas
baquetas para apontar para Sol. — Ele chegou aqui como um
furacão, foi direto para a geladeira e pegou meu estoque de
emergência. São dez da manhã e...
— Ele foi chamado ao escritório do Harris.
Uma das baquetas de Zane cai. — Que porra é essa?
— Eles estão tentando expulsá-lo de novo? — Finn exige. Seu
corpo está tenso, rígido. Meu irmão é muito parecido com o
instrumento que toca. Quieto. Reservado. Se encaixa perfeitamente
na multidão até que uma de suas cordas seja tocada e ele começa a
ressoar pela sala, sua frequência mais baixa, mais profunda e mais
poderosa que qualquer outra guitarra.
Eu consigo lidar com a imprevisibilidade maluca do Zane. Mas o
Finn...
Finn é aquele que eu sempre tive que ficar de olho porque
quando ele se move, é sempre silencioso.
Até não ser mais.
Sol não diz uma palavra. Ele só continua bebendo.
Seu casaco do Redwood Prep está fora e o suéter que ele
sempre usa está com as mangas dobradas, como se ele não se
importasse mais em esconder as cicatrizes. Como se quisesse que
elas respirassem pela primeira vez.
Zane se abaixa para pegar suas baquetas. — É o Miller tentando
se vingar de nós por causa da Christa?
— Nós não somos o alvo — digo sombriamente.
Sol para de beber. Uma gota de cerveja escorre pelo seu queixo
e ele não a limpa. Seu olhar está vazio, sem foco.
Eu não o via assim desde aquela noite em que nos esgueiramos
para o acampamento militar. Foi a primeira noite em que percebi
que meu amigo, alguém que eu considerava um irmão, estava
quebrado.
Sol coloca a cerveja na mesa de centro com um baque audível.
Ele pega o casaco do Redwood Prep e o usa para enxugar o rosto.
E então ele se levanta, seus olhos me perfurando.
— Tu mexeste nas notas dela? — Sua voz é suave, mas letal.
Eu levanto o queixo. É a verdade. Não vou fugir disso.
Sol me encara com olhos vermelhos nas bordas. Mas só um tolo
pensaria que ele está lacrimejando porque está emocionado.
Eu só vi Sol chorar uma vez.
Foi na noite após a festa de quinze anos da irmã mais velha
dele. Alguém da vizinhança chamou a polícia por causa do barulho
da festa.
Os pais de Sol nos mandaram até o vizinho com flan para pedir
desculpas. O vizinho jogou o flan no chão enquanto gritava insultos
sobre a etnia de Sol e insinuando que ele e seus pais deveriam
voltar para o México.
Sol pegou o flan, jogou no lixo e deixou as lágrimas chegarem
até seus olhos.
Alguns dias depois, o jardim premiado do cara foi incendiado, as
janelas do carro dele foram quebradas e suas fotos íntimas vazaram
para todos os seus colegas de trabalho.
Apenas a última foi obra nossa.
Sol é uma bomba-relógio, todo comprimido e capaz de perder o
controle a qualquer momento. Agora sabemos que esses problemas
não são apenas superficiais. Essa merda é profunda. Não quero que
ele acione nada que possa destruí-lo novamente.
Meus ombros ficam tensos. Eu franzo a boca em uma careta
profunda, mas não reajo quando ele chega na minha cara.
— Tu achas que fez algo bom? — Sol empurra meu peito. — Tu
achas que eu deveria te agradecer?
— Não foi só ele, Sol — Zane corre em minha defesa.
Finn se junta a ele.
Meus irmãos me ladeiam de ambos os lados. Eles não vão se
voltar contra Sol. Devemos muito a ele. Mas eles também não vão
me deixar levar toda a culpa sozinho.
Eu balanço a cabeça. — Foi minha ideia. Eu dei o okay.
Os lábios de Sol se curvam em um sorriso cruel. — Tu sabes o
que viver naquele bairro faz contigo? — Suas sobrancelhas se
erguem. — Suga a vida de ti. Tu começas a desaparecer lentamente
até ficar dormente. Para onde quer que tu olhes, tudo o que vês é
morte, drogas e sexo. Essas são as únicas três saídas. É preciso
muito para sair quando tu tens uma família inteira atrás de ti. Muito
menos quando é só tu e tua irmã mais nova.
Meu maxilar se contrai, mas eu aguento. Prefiro que ele
desabafe comigo. Prefiro estar lá para ficar de olho nele.
O peito de Sol se agita. Ele olha pela janela. Posso vê-lo
navegando. Navegando. Navegando por toda essa merda.
Está se acumulando nele.
Eu não sei o que fazer.
Só sei que tenho que absorver os golpes em vez de deixá-lo
guardar tudo dentro de si e se autodestruir.
— Meu irmão morreu de overdose — Sol sussurra.
Finn, Zane e eu temos reações visíveis. É a primeira vez que
ouço falar de um irmão. E eu costumava passar bastante tempo na
casa dos Pierce.
— É por isso que saímos do bairro — diz Sol. — Nós não
falamos sobre isso. É difícil para a mãe. Foi injusto. Ele era
inocente. Ninguém sabia quando ele começou a usar. Mas as
pessoas apenas deram de ombros e ignoraram. Se tu vives naquela
área, vem com o território. Tu não esperas que ninguém viva muito
ou viva bem.
O pensamento de Brahms estar em um território tão perigoso faz
meu estômago se contrair. Eu reprimo o impulso de ir direto até ela
e exigir que se mude para minha casa.
As emoções de Sol estão destampando as minhas próprias. Não
posso me dar ao luxo de me perder nesses pensamentos. Dos
quatro, sou eu o responsável por manter a cabeça fria, ter um pavio
longo, ver além do momento e enxergar o quadro geral.
É por isso que eles confiam em mim para liderá-los. É por isso
que nossa banda se ergueu por conta própria, nos separando da
fama esmagadora do meu pai.
Sol abaixa a cabeça, se vira e pega a garrafa novamente. — Ela
me lembra dele, do meu irmão.
Mantenho minha expressão neutra e minha voz calma. — Não
precisa se preocupar. Você não vai sair de Redwood Prep. Lutamos
muito para te manter aqui.
— Também não vou deixar a Cadence sair — diz Sol.
Algo sombrio se contorce dentro de mim quando vejo o brilho
determinado em seus olhos. Não consigo dizer se ele está cuidando
da Cadence porque ela o lembra de seu irmão ou se é algo mais.
Não gosto de nenhuma das opções – essa possessividade dele.
Mas não deixo que o sentimento me domine. — Cadence não vai
a lugar nenhum.
Meus irmãos olham para mim.
Sol também.
— Ela pertence a mim. Ela não vai sair até que eu diga.
Sol não parece confortado com isso. Não consigo ler sua
expressão e ele esconde o rosto rapidamente.
Passando a mão pelo cabelo, ele vira o resto da cerveja e pega
sua mochila. — Estou indo para casa por hoje.
— Eu te levo — oferece Zane.
Faço um gesto com o queixo para Finn.
Ele assente uma vez e começa a ir com eles.
Agarro seu cotovelo. — Antes de sair, diga à Cadence que
preciso vê-la.
— Ela não vai ouvir — ele diz.
— Faça-a ouvir.
Finn sai e eu pego minha guitarra. As notas agudas não
acalmam em nada meus nervos tensos. Sol está puto, mas não é
isso que me incomoda.
Ele está puto porque miramos na Cadence.
E não estou convencido de que seu afeto por ela seja fraternal.
Essa suspeita é como um cisco no meu olho, sempre no canto,
ligeiramente irritante, mas não terrível o suficiente para que eu
esteja pronto para fazer algo a respeito. Ainda não. Mas sei que
chegará o dia em que terei que fazê-lo.
E não sei se algum dia estarei preparado para pegar a faca e
cortar esse cisco fora.
Há uma batida na porta.
Ergo o olhar.
— Que diabos você quer, Dutch? — Cadence grita do lado de
fora.
Apesar da tensão ainda presente no meu peito, sorrio levemente.
Bom.
Miller não esmagou sua faísca. Não é surpreendente. Passei
semanas tentando quebrá-la e ela nunca cedeu. Talvez seja por isso
que sou tão atraído por ela, por essa força.
Abro a porta com força. Cadence está parada na entrada,
parecendo pronta para me esfaquear no estômago. Seu cabelo está
preso de qualquer jeito em um rabo de cavalo, mas algumas
mechas caem emoldurando seu rosto. Seus lábios estão contraídos
e seus olhos reluzem como obsidiana.
— Entre — digo em voz baixa.
Ela permanece teimosamente na entrada. — Finn veio e me tirou
da aula como um maldito bandido. Vocês realmente acham que
mandam nessa escola, não é?
Seu tom é abrasador. Eu só quero mergulhar nessa chama.
Deixar que me queime. Deixar que mostre o que realmente bate por
baixo do meu peito.
Ainda não terminei com ela.
Não acabei.
Ninguém vai tirá-la de mim até que eu esteja pronto.
Nem Sol.
Nem Miller.
Ninguém.
Agarro seu pulso e a arrasto para dentro da sala. Chutando a
porta para fechá-la, giro-a e a empurro para trás, prensando-a
contra a parede – não com força suficiente para machucar, mas
firme o bastante para tirar o ar de seus pulmões.
Ela está ofegante, tremendo, me encarando com olhos tão
negros que poderiam me afogar se eu não tomar cuidado.
— Segure essa raiva — sussurro, meus dedos apertando
levemente enquanto sua boca suculenta se contorce em uma
careta. — Nem pense em sair de Redwood Prep até que eu te
mande.
— E se eu não te ouvir? — ela dispara, seus olhos ardendo e me
açoitando como ondas furiosas na costa.
Pressiono-me contra ela. — Cadey, não me teste.
Ela me encara até que a tensão no ar entre nós comece a
estalar e crepitar. Estou em êxtase com minha briga com Sol e
minhas próprias emoções complicadas que Cadence parece
despertar exclusivamente em mim.
Então começo a recuar.
Mas antes que eu possa mandá-la sair, ela me empurra. — Eu te
odeio. — Outro empurrão. — Eu te odeio tanto que isso me mata.
Agarro ambos os seus pulsos antes que ela possa me empurrar
de novo.
Seus olhos se fixam nos meus, quentes e ardentes.
É aterrorizante. Eletrizante.
Preciso arder com isso.
Preciso queimá-la com isso também.
Sem aviso, baixo minha boca até a de Cadey em um beijo
esmagador. Ela não me afasta. Para minha surpresa, ela me puxa
para mais perto.
Aquela paixão ardente dela explode sobre mim e percebo que
talvez eu não tenha tanto controle quanto pensava.
Sou Dutch Cross.
Líder dos Reis.
Governante de Redwood Prep.
Insaciável.
Intocável.
Inquebrável.
Mas enquanto a língua de Cadence desliza contra a minha e o
fogo me queima como uma onda feroz, percebo algo perturbador.
Se há alguém que pode causar minha ruína, é essa pequena
pólvora em meus braços.
CHAPTER
VINTE E QUATRO
CADENCE
Me frustra sentir-me tão atraída pelo cara que continua tornando
minha vida um inferno. Isso me dilacera por dentro, como uma roda
de facas girando em minhas entranhas.
Eu nunca me considerei forte.
Mas pelo menos eu achava que não era estúpida.
Resulta que sou a maior tola de Redwood Prep, ou talvez a
maior tola do mundo.
Porque enquanto meus dedos se envolvem no pescoço de Dutch
e sua boca quente e exigente saqueia a minha, eu me entrego ao
calor e deixo que ele me queime até virar cinzas, deixo que ele
queime todos os pensamentos sobre a proposta maligna de Miller
da minha mente. Até que tudo que posso sentir é o corpo rígido
colado ao meu.
O cheiro de Dutch preenche cada respiração desesperada que
dou. Menta. Sândalo. Algo único dele. Essa fragrância me envenena
da pior maneira possível. É como um vírus me transformando em
um zumbi. Um zumbi que precisa dele. Que faria qualquer coisa
para tê-lo.
Quero provar sua pele, lamber meu caminho pelo seu pescoço
para testar do que ele realmente é feito, mas ele mantém minha
língua ocupada.
Necessidade.
Calor.
Desejo.
É um riff de piano rolante. A oitava mais baixa. As notas mais
escuras.
Engancho meus dedos em sua cintura, puxando-o para mais
perto. Mais perto.
Mais.
O gosto dele é mais doce do que me lembro. Ou talvez sempre
tenha sido tão doce.
O fruto proibido costuma ser.
E quão mais doce é o fruto que não é apenas proibido, mas
também ruim para você?
O tecido ondula ao redor das minhas coxas e estou tão distraída
com seu beijo que não percebo que ele está levantando minha saia
até que seus dedos comecem a me apertar e agarrar.
Uma profunda onda de energia inunda meu corpo.
Parece eletricidade pura. Como ser atingida por dois raios de
uma só vez.
Sua respiração se aprofunda quando gemo. Ouço-a sobre o
batimento alto do meu coração. Meu pulso é um arpejo agitado, um
acorde quebrado. Notas tocadas uma por uma em vez de todas
juntas.
E embora haja alguma parte do meu cérebro que diz que eu
deveria deixá-lo ir, tentar recuperar o fôlego ou pelo menos tomar o
controle, não há tempo para ouvir. Dutch não me dá chance.
Sua boca pressiona com força contra a minha, assumindo o
controle e exigindo tudo que tenho. Seu toque está tão perto de
onde precisa estar. Minha respiração falha e então surge enquanto
movo meus quadris para dar-lhe acesso.
Ele traça uma linha na parte interna da minha coxa, me
provocando. Me torturando.
Arrasto meus dentes pelo seu lábio inferior, mordiscando-o em
desespero. Um pedido silencioso para que ele...
Nem sei o quê.
Me liberte dessa existência sem esperança?
Me faça sentir algo além de descartável e sem valor?
— Dutch... — Minha voz está áspera e quebrada. Assim como
ele. Não é isso que inexplicavelmente nos atrai um para o outro?
Não é por isso que não podemos parar de girar um ao redor do
outro, mesmo que doa?
Ele está tão quebrado quanto eu. Talvez mais. Ele tem mais
coisas, mais fama, mais dinheiro - mas é miserável.
Patético.
Somos ambos tão patéticos.
Mesmo que ele saiba esconder melhor.
Dutch sorri maliciosamente enquanto move seus lábios para o
meu pescoço. Ele está tão confiante de seu apelo, tão arrogante.
Ele sabe exatamente o que está fazendo comigo. Quão indefesa eu
estou. Quão apertado meu corpo está se contraindo em antecipação
por mais.
Mas ele não me dá mais.
Sua mão desliza de volta para minha cintura e a outra segura
meu queixo. Ele me mantém ali, segura minha cabeça no lugar e me
beija ternamente. Como se eu realmente significasse algo para ele.
Como se não fôssemos apenas dois pratos de bateria se chocando
freneticamente fora do roteiro.
Meu coração dispara e eu odeio isso.
Odeio isso mortalmente.
O beijo é um passo além do limite. O fim de algo precioso. Um
rompimento das antigas regras. Parece... final. Monumental. Como
o beijo entre a princesa e o príncipe no final de um filme.
Exceto que isso não é a porcaria de felizes para sempre das
princesas que Vi ainda assiste quando precisa de um ânimo. Não,
este é o beijo entre os vilões. Dois desastres naturais se
encontrando em uma força cataclísmica de destruição.
As mãos de Dutch deslizam por baixo da minha camisa, suas
palmas quentes e pesadas me puxando para mais perto de seu
corpo. Ele está me beijando profundamente. Momentos se
transformando em eternidade.
O calor crepita entre nossos lábios em movimento enquanto
arqueio as costas e me pressiono contra ele.
Posso senti-lo através das calças azul-marinho que ele está
usando e não há como negar o que ele quer de mim.
Então por que ele não está...
Não vou pegá-lo. Você vai me dar.
Suas palavras ecoam pela minha cabeça e me arrancam do
momento. Eu me afasto, mas Dutch me segura. Seu aperto não
afrouxa em minha cintura. Seus olhos âmbar, escuros de luxúria e
vitória, me perfuram.
Ele se inclina para frente, seus lábios roçando os meus quando
diz — Eu te avisei.
Meu coração está acelerado, mas não o acerto como ele
merece. Principalmente porque meus membros estão moles e não
acho que conseguiria dar o golpe.
Seus dedos habilidosos deslizam até meu lábio inferior e o
acariciam. — Você me quer, Brahms.
Eu pisco rapidamente, lutando para recuperar meus sentidos.
Ele ainda está me tocando. Um de seus polegares está fazendo
círculos logo abaixo do meu sutiã. Tornando difícil pensar com
clareza ou me mover. Tornando impossível recuperar o fôlego.
Respondo por reflexo. — Eu te desprezo. Que parte disso não
está clara?
Um breve sorriso surge em seu rosto. Ele deixa escapar uma
risada que promete que odiarei cada palavra que sair de sua boca a
seguir. — Esse beijo disse algo diferente.
Droga. Não posso negar que o beijei de volta. Não há como fugir
dos fatos.
Endureço minha expressão e olho para ele. — Estou curiosa,
Dutch. Quem você estava beijando agora? Era eu ou era sua
preciosa "Ruiva"?
Talvez se eu lembrá-lo da minha duplicidade, ele enfraqueça.
Talvez isso me dê a vantagem.
Mas Dutch nem pisca.
— Não pode ser os dois? — ele sussurra no meu ouvido.
Seu tom me faz estremecer.
— Eu quero você das duas formas e, já que são a mesma
pessoa, funciona para mim.
— Você é louco.
— E você está tão atraída por mim quanto eu por você, Brahms.
Nenhum de nós quer isso. Nenhum de nós consegue controlar.
Então que tal pararmos de tentar? — Suas palavras me envolvem,
tão tangíveis quanto uma carícia. Uma tortura requintada. Ele toca
uma mecha do meu cabelo. — Uma vez. — É como se estivesse
falando consigo mesmo. Tentando se convencer. — Vou te ter uma
vez e te tirar do meu sistema.
Me tirar do sistema dele? — Como assim? Como se eu fosse um
resfriado?
Ele dá de ombros.
Tão frio.
Tão insensível.
Um Irmão Cross até a medula.
Dutch me solta de repente. E percebo que isso nunca foi sobre
nada além dele exercer controle. Me mostrando outra lição. Me
mostrando que pertenço a ele.
— Eu realmente sou um brinquedo para você, não é? — Minha
pele se arrepia de calor.
Ele não nega. Seus olhos âmbar estão fixos em mim, mais cruéis
e distantes do que eu jamais os vi.
Ele é o garoto com o mundo na ponta dos dedos. E eu sou o
brinquedo que ele não podia ter. O brinquedo com o qual ele agora
está obcecado em possuir.
Por que pensei por um segundo que ele é alguém digno da
minha compreensão?
Giro, com a mão na testa. Sou tão idiota.
— Você não pode me controlar como controla todo o resto. —
Minhas narinas se dilatam. — Eu nunca vou te dar o que você quer.
— Você está errada, Brahms — ele diz simplesmente. — Você
me pertence.
Giro novamente, meus olhos em chamas. — Você é seriamente
perturbado.
— Nós dois somos. Por que você acha que continuamos
colidindo um com o outro? Isso nunca vai acabar a menos que nos
rendamos.
Meus olhos se fecham.
Essa conversa está me irritando de novo.
Principalmente porque ele está certo.
Eu jurei de pé junto que não seria pega nessa posição, lábios
colados aos de Dutch Cross enquanto ele roubava o ar dos meus
pulmões.
Mas estou aqui de novo.
Presa na armadilha dele de novo.
Pulsando por ele. De novo.
E não é como se eu não soubesse melhor. Eu sei. Só continuo
fazendo as coisas que sei que não deveria.
Dutch se ergue sobre mim, pressionando-se contra mim para
que eu não tenha para onde correr. — Você acha que eu tenho tanta
paciência com as pessoas que me contrariam, Brahms? — Sua voz
cai para um sussurro sombrio. — Você me enganou.
— E você arruinou minha vida antes e depois de descobrir quem
eu era.
— Acho que isso nos deixa quites. — Ele desliza um dedo pela
minha bochecha.
Olho feio para ele. — Você sequer gosta de mim, Dutch?
Ele ri. O maldito realmente ri na minha cara. — Você gosta de
mim, Brahms?
Meus olhos se desviam.
Ele esfrega o nariz na curva exposta do meu pescoço, me
inspirando e exalando apenas duas palavras: — Pare de fugir.
Presa.
— Pare de lutar, Brahms.
Caçada.
— Tudo em que consigo pensar é no seu corpo envolvendo o
meu — ele murmura, passando a língua no meu pulso palpitante.
Levantando a cabeça, encontro os olhos do caçador, tão únicos
quanto mel polido, vestidos nas sombras de uma noite sem fim.
Algo vibra por perto.
É o telefone de Dutch.
Ele me solta, tira o celular e verifica a tela. Suas sobrancelhas se
franzem. Ele olha para a mensagem com uma expressão insensível
e distante, fazendo sua paixão anterior parecer um truque de luz.
Curiosa, estico o pescoço para ver o telefone e percebo que o
remetente é o pai dele. Dutch me pega espiando e inclina a tela
para longe.
— Onde é sua próxima aula? — ele pergunta, guardando o
telefone por precaução. — Vou te acompanhar.
Faço cara feia. — Eu mesma encontro.
No típico estilo Dutch, ele faz o que bem entende.
O corredor está cheio de alunos, mas todos parecem menores
que Dutch. Sua presença ofusca todo o ambiente. É instantâneo, o
jeito como ele domina cada espaço em que entra.
O ar está diferente hoje. Normalmente, quando Dutch e eu
estamos indo na mesma direção, é porque estou jogada sobre seu
ombro como um saco de batatas, minha saia esvoaçando e
expondo tudo.
Mas hoje, as pessoas se afastam do meu caminho da mesma
forma que fazem com Dutch. Elas me olham com olhos curiosos,
olhos zangados, olhos invejosos. É como se houvesse algum tipo de
escudo invisível ao meu redor. O escudo de Dutch.
E embora simultaneamente me odeiem por estar nessa bolha,
elas vão me respeitar por causa dele.
É assustador pra caramba.
Eu preferia quando era a garota invisível em Redwood Prep.
Dutch me leva até a sala e não faço ideia de como ele sabia que
eu tinha Literatura no terceiro período. Eu com certeza não contei a
ele.
Ele toca minha bochecha. — Não se preocupe com Miller. Eu
vou cuidar dele.
— Como?
— Tudo que você precisa saber — seus olhos pousam
pesadamente em mim — é que ele não vai tocar em você. — Seus
nós dos dedos roçam sob meu queixo e erguem minha cabeça.
Com uma voz dura, ele adverte: — Eu ainda não terminei com você.
Arranco meu queixo. — Você é um pedaço de merda.
Dutch ri e dá um passo para trás, ainda me encarando. Sinto
essa sensação estranha e formigante deslizar pelas minhas veias.
Como se estivesse em queda livre e o chão ainda estivesse longe o
suficiente para que pareça que estou voando.
Mas não sou burra o suficiente para pensar que posso pular de
um penhasco sem enfrentar as consequências da gravidade.
Quanto de mim vai quebrar quando eu finalmente bater no chão?
J : J V R P N
hora! Minhas fontes me informam que três alunos estão na berlinda
após uma reunião acalorada com as autoridades. Na fila? Nosso
amado Sistema Solar em pessoa.
O que o Príncipe Herdeiro fará para salvar seu amigo? Ou
deixará seu rival romântico apodrecer enquanto trota com sua
preciosa Cinderela?
Considerando que a língua do Príncipe Encantado estava
enfiada vários centímetros garganta abaixo da Cinderela, acho que
tenho uma ideia de quem está no topo da lista dele.
Até lá...
Mantenha seus inimigos por perto e seus segredos ainda mais,
Jinx
CHAPTER
VINTE E CINCO
CADENCE
No almoço, passo minha bandeja pelos balcões gourmet como
de costume, apenas para ouvir uma das merendeiras me chamar
pelo nome.
— Senhorita Cooper. — Uma mulher morena com um largo
sorriso acena para mim.
Aponto um dedo para meu peito, atônita.
— Sim, você. — Ela abre outro sorriso cheio de dentes. —
Gostaria de um sushi?
— Ahn... — Mexo os pés nervosamente. — Eu, hum, não. Só um
sanduíche.
Ela pega minha bandeja e joga um caro wrap de sushi nela.
Parece delicioso, mas meu coração dispara quando penso nos
pontos da refeição. Não há como eu pagar por isso. Mesmo que
seja o melhor sushi do mundo, tudo que vou sentir é o gosto do
preço.
— E se ela não gostar de sushi? — Outra merendeira repreende
a primeira.
Minhas sobrancelhas se erguem em confusão.
— O que você quer — ela pega minha bandeja e a desliza na
direção oposta — é uma pizza, não é?
Encaro a crosta lindamente crocante e o queijo derretendo sobre
as fatias finas de pepperoni. Tudo feito à mão. Tudo delicioso.
— Ahn, não. Só... só o sanduíche de atum.
— Por que ela não pode ter os dois?
— Por que ela não pode ter tudo?
Para minha surpresa, as mulheres começam a empilhar comida
na minha bandeja como se isso fosse um assalto a banco e elas
estivessem tentando enfiar todo o dinheiro na minha mala.
Levanto uma mão, gaguejo e olho em volta procurando ajuda.
Com certeza estou atrasando a fila, mas ninguém diz nada.
Nem um pio de reclamação.
Na verdade, quando tento fazer contato visual, as pessoas atrás
de mim olham para baixo.
O que está acontecendo?
— Isso é... uau... — Quando elas empurram a bandeja para
meus braços, quase desabo com o peso de toda a comida. — Se
isso é por eu ter tocado violão para vocês, não é necessário.
— Ah não. Seu violão não valeu tudo isso.
A primeira merendeira dá um tapa na segunda e lança um olhar
de advertência.
Eu rio. — Certo. Bem, a questão é que não posso pagar por isso.
— Já foi pago.
— Por quem?
Ela arqueia uma sobrancelha como se eu já devesse saber.
Meu coração prende a respiração. — Dutch?
Ela sorri. — Aproveite seu almoço, Senhorita Cooper. E, de
agora em diante, você pode pegar o que quiser. Não precisa se
preocupar.
Viro-me, completamente perplexa. Por que Dutch cuidaria das
minhas refeições? Isso é só mais um truque para entrar nas minhas
calças? Mas por que ir tão longe?
Me aproximo da árvore onde geralmente sento com Serena e
encontro todas as mesas vizinhas repletas de alunos. O sol está
insuportavelmente quente e a cafeteria, além de ser um bufê
literalmente cinco estrelas, tem ar-condicionado. Por que todo
mundo está aqui fora?
Sinto os olhares deles nas minhas costas e cravo os dedos na
bandeja laranja.
Não surte, Cadence. Só continua andando.
— Não achei que você viria — diz Serena, deslizando para o
lado e abrindo espaço para mim no banco.
Ela apoia o cotovelo na mesa e descansa o queixo na mão,
parecendo uma modelo com seu longo cabelo preto, olhos
marcantes e a jaqueta de couro sobre a blusa da Redwood Prep.
— O que isso quer dizer? Por que eu não encontraria você para
almoçar como sempre faço? — Coloco minha bandeja em cima da
mesa de piquenique, passo uma perna e depois a outra e sento ao
lado dela. — Eu deveria estar fazendo outra coisa?
— É o seguinte — diz Serena, oferecendo um sorriso tingido de
tristeza. — Você é a garota do Dutch agora. Tipo, oficialmente.
— Ah, qual é, Serena. Isso de novo?
— Ele te acompanhou até a sala. Sabe o que isso significa?
Significa que você não é mais uma de nós. Você está — ela ergue
uma mão aos céus — elevada.
Estreito os olhos e olho em volta para os outros alunos. Todos
estão me observando, esperando algum tipo de espetáculo.
Não faço ideia do que eles esperam. Eu deveria me levantar e
criar asas só porque Dutch insistiu em me acompanhar até a sala?
A interpretação de Redwood está totalmente errada. Eles não
têm ideia do quanto Dutch tem sido um terror.
Tem sido?
Não, é.
Atualmente.
Tempo presente.
Não há como escapar das garras dele.
Penso no que ele disse na sala de prática. "Só uma vez. E vou te
tirar do meu sistema."
Sou uma espécie de vírus para ele.
E ele é o cara que eu detesto.
Só porque acabamos enfiando nossas línguas na garganta um
do outro de vez em quando não significa que sou dele.
A garota do Dutch.
Ha.
Talvez Dutch acredite que sou. Mas definitivamente não é da
maneira doce, romântica e de relacionamento que Redwood Prep
está pensando. É de uma maneira controladora e vingativa. Em
algum lugar de sua mente depravada, lutar pelo controle sobre mim
o excita.
Devo me sentir lisonjeada com isso? Com sua necessidade
implacável de provar que ele me possui? Não é como se ele
realmente se importasse de qualquer maneira. Dutch deixou claro.
Uma vez que ele tirar minha virgindade, não sou nada para ele.
E talvez eu deva ver se ele está falando sério. Talvez eu deva
apostar o resto dos meus dias em Redwood Prep na promessa de
Dutch de me deixar em paz depois que ele pegar... correção, eu der
a ele o que ele quer.
Algo profundo em meu corpo resiste. Deixá-lo ter o que ele quer
é como tortura física. Há apenas algumas coisas que posso
controlar aqui em Redwood Prep.
O fato de que enganei Dutch Cross usando uma peruca e
maquiagem é uma delas.
Irritar Dutch Cross está em segundo lugar.
Do outro lado, Paris e sua turma entram em cena. Elas ocupam
a mesa geralmente reservada para os irmãos Cross. Paris me
fulmina com seu olhar sombrio, mas não vem até aqui.
Fico um pouco surpresa com isso.
Serena percebe a direção do meu olhar e se inclina. — Ela não
vai mais te incomodar.
Ergo uma sobrancelha para ela.
— Se alguém tocar em você, estará tocando no Dutch. E
ninguém nesta escola é burro o suficiente pra fazer isso. — Ela
desembrulha o plástico ao redor do sanduíche e dá uma grande
mordida. — Fico feliz que algo bom tenha acontecido a uma de nós
neste dia terrível.
Suas palavras me lembram do ultimato de Miller.
Meu desconforto com os olhares é eclipsado pela minha culpa. É
tudo culpa minha que Serena esteja nessa confusão.
— Serena... — Fico sem palavras.
Como digo a ela que ela é um dano colateral em uma guerra que
não tem nada a ver com ela?
— Quase três anos. — Ela levanta o olhar para o céu e solta um
suspiro triste. — Evitei aqueles rumores estúpidos. Nunca coloquei
os pés no escritório do Harris. E agora é só... — Ela balança a
cabeça. — Droga.
— Miller falou algo sobre o seu passado. O que ele quis dizer
com isso?
Ela dá de ombros. — Aconteceu algo antes de eu vir para
Redwood Prep.
Serena deixa por isso mesmo. Vejo além do seu sorriso a
preocupação escondida no fundo de seus olhos. Para alguém que
usa toda aquela maquiagem escura, couro e sarcasmo como uma
armadura pesada, ela parece tão frágil hoje.
— Nada vai acontecer com você — prometo. — Não vamos dar
ao Miller o que ele quer.
Seus olhos baixam para a bandeja. — Tudo bem. Se alguém
tiver que sair do programa de bolsas...
— Não vai ser você — insisto.
Ela me observa, a esperança acendendo em seus olhos. E então
se apaga como uma chama errante. — Você e Sol estão sob a
proteção do Dutch. Você sabe o que isso significa. — Um de seus
ombros se levanta num dar de ombros sem vida. — Não importa o
que aconteça, Dutch e seus irmãos vão encontrar uma saída para
vocês. Mas tudo bem. Estou acostumada a lutar sozinha. Minha
filosofia é esperar que o que está por vir seja pior do que posso
imaginar.
— Essa é uma filosofia bem triste — sussurro.
Mesmo com toda a porcaria pela qual passei, ainda tenho
esperança.
Esperança de que Vi encontre seu caminho com seu canal de
maquiagem e alcance todos os seus objetivos.
Esperança de que possamos pagar as dívidas da mãe e nos
mudar para um bairro melhor.
Esperança de que ter o selo da Redwood Prep no meu último
ano abra portas que nos levarão a lugares que Vi só sonhou.
Posso não ter esperança para mim mesma, mas para minha
irmã... Tenho um mundo delas. E estou disposta a fazer o que for
preciso para chegarmos lá.
Mas não à custa dos meus amigos.
— Miller não convocou aquela reunião porque ele realmente tem
um problema com você ou Sol — informo. — Ele queria se vingar de
mim pelo que fiz com Christa. Ceder às suas exigências estúpidas é
exatamente o que ele quer, mas não vamos fazer isso. Mesmo que
me custe tudo, vamos manter nossa posição.
— Você ouviu o que ele disse. Poderíamos todos perder nossas
bolsas de música se não obedecermos. — Ela morde o lábio inferior.
— E não sei quanto a você, mas eu não posso pagar a mensalidade
de Redwood sozinha.
— Não vai chegar a esse ponto — prometo.
Ela não parece convencida.
Eu me viro para encará-la completamente. — Desde meu
primeiro dia em Redwood Prep, eu sabia que as coisas funcionavam
diferente aqui. Essas pessoas — olho ao redor — se importam tanto
com aparências, patrimônio líquido e fama que ficam cegas para o
que realmente importa. Elas são vazias por dentro. Apunhalariam
umas às outras pelas costas num piscar de olhos porque essa é a
única maneira de chegar ao topo.
Serena balança a cabeça. — Animais.
— Exatamente. Eles agem como se fossem melhores que a
pessoa comum, mas são? Para mim, são tão implacáveis. Tão
sujos. Tão perigosos quanto os bandidos do meu bairro. É só um
tipo diferente de guerra territorial aqui.
— O que você está dizendo? — Serena inclina a cabeça.
— Estou dizendo que ambas merecemos estar aqui. Diferente
deles, não entramos com o cartão de crédito do papai. Entramos por
causa do nosso talento e do nosso trabalho duro.
Seus lábios se curvam para cima.
Dou um tapinha no ombro dela. — Quando aceitei a bolsa para
Redwood Prep, estava determinada a me formar, mesmo que
significasse me formar sozinha. Mas agora, as coisas mudaram. —
Seguro seu olhar. — Estou determinada a nos formarmos juntas.
Ela ri pelo nariz. — Isso é tão piegas.
Mas ela parece tocada.
— Tudo bem ter um pouco de esperança, Serena. Se você não
tiver, a vida é dolorosa demais. — Inclino meu rosto para o sol. —
Todos nós temos algo pelo qual vale a pena lutar.
Uma expressão pensativa cruza seu rosto. Já vi essa expressão
antes. Uma pequena preocupação silenciosa que se infiltrará em
uma conversa ou uma piada ou apenas um momento de silêncio.
Ela toma conta de seu rosto, fazendo-a parecer mais velha, mais
cansada.
Sempre hesitei em perguntar sobre isso, e não acho que hoje —
com tudo o que está acontecendo — seja o melhor momento.
Ela limpa a garganta. — Chega disso. Temos alguns dias para
elaborar um plano e ainda precisamos descobrir onde a cabeça do
Sol está em tudo isso.
— Falando em Sol, você o viu?
— Não, ele e Zane saíram correndo da escola durante o
segundo período.
Mastigo devagar. — É tão estranho para mim. Como alguém tão
sensível como o Sol acabou se envolvendo com uma fera como o
Dutch?
— Do mesmo jeito que garotos legais de bairros ruins são
atraídos para gangues, eu acho. — Ela dá de ombros. — A
promessa de família, de pertencimento. — Serena pousa seu
sanduíche e limpa as migalhas em sua calça de educação física.
— Pertencimento — reflito sobre a palavra. Como será pertencer
ao Dutch, realmente pertencer a ele?
Não consigo imaginar o tipo de lealdade dele. A implacabilidade.
A crueldade.
E ainda assim me anima pensar que alguém como eu poderia
domar um monstro como ele.
Caramba, estou louca.
Serena olha para o banco. — Todo mundo quer pertencer a
algum lugar, sabe.
— Todo mundo exceto você? — provoco.
— Estou bem sendo solitária.
— Alguém está? — desafio. — Não queremos todos nos
encaixar em algum lugar?
Ela balança a cabeça. —A questão da solidão é que você não
espera que ela seja tão poderosa quanto é. Uma vez que ela te
pega em suas garras, te segura para sempre. Sem intenção de te
soltar. E então ela te segue por aí, cravando suas garras cada vez
mais fundo. —Seu sorriso é sem graça. —Eu estou bem com isso,
mas pessoas como o Sol não foram feitas como eu. Sol nunca vai
virar as costas para Os Reis. E eles também não vão virar as costas
para ele. Disso, todo mundo sabe.
Ao longe, vejo Paris e seu grupo de pompons se levantarem da
mesa e virem em nossa direção.
Meus ombros ficam tensos enquanto me preparo para uma
briga.
—A Bruxa Má do Oeste está se aproximando —murmura
Serena.
—Eu vi.
A líder de torcida para com arrogância na frente do banco de
piquenique.
Serena levanta uma mão. —Querida, você está bloqueando
minha luz.
—Pensei que vampiros não gostassem do sol —Paris retruca.
Serena finge espirrar e então olha para cima. —Acho que sou
alérgica a bronzeamento artificial. Cadence, te vejo depois. Esse
ambiente não é bom para mim.
—Tente não colocar fogo em mais nada enquanto estiver fora —
Paris grita.
O rosto de Serena fica sombrio. Ela enfia a mão no bolso e seus
olhos se arregalam. —Cadê meu isqueiro?
—Você o perdeu?
—Sim. —Ela franze a testa.
Eu me levanto e saio desajeitadamente do banco de piquenique.
Com os olhos no chão, procuro ao redor pelo isqueiro dela.
Paris se coloca no meu caminho. —Cadence, preciso falar com
você.
Pelo menos ela está pedindo respeitosamente desta vez, em vez
de jogar refrigerante no chão recém-esfregado e agir como se eu
fosse sua escrava pessoal.
—Não acho que temos mais nada para discutir, Paris. Com
licença —rosno.
—Espera. —Ela coloca uma mão no meu ombro.
Olho para ela, irritada.
Ela lambe os lábios. —Quando você e Dutch começaram a
namorar? Foi desde aquela noite na festa?
—Isso não é da sua conta —respondo bruscamente.
Claro, Dutch e eu não estamos realmente namorando, mas vou
admitir isso e dar alguma esperança para vermes como Paris?
Não, não vou.
Virando-me dramaticamente, faço minha melhor caminhada de
modelo em direção à cantina.
Serena me dá um aceno de aprovação e um polegar para cima.
Eu a empurro brincando. —Precisa de ajuda para encontrar o
isqueiro?
Nesse momento, os sinos musicais tocam.
—Devo tê-lo deixado no meu armário. Vou verificar lá antes da
aula. —Serena acena. —Até mais.
Faço que sim com a cabeça e me separo dela.
No corredor, procuro por Dutch. Nem percebo que é ele que
estou procurando no início. É como se meus olhos estivessem
escaneando e meu coração ansiando antes que eu tenha dado
permissão a qualquer um dos dois para fazê-lo.
Quando percebo o que estou fazendo, rapidamente sufoco o
sentimento e tento andar mais rápido.
É então que avisto a Srta. Jamieson. Ela está usando uma blusa
azul e uma saia lápis branca afiada que contrasta com sua pele
escura. Seu cabelo é longo e cacheado, chegando até as costas.
Ela faz sinal para mim.
Corro em sua direção, apertando meus livros contra o peito.
Desde a traição de Miller, minha fé na autoridade foi seriamente
abalada, mas, de alguma forma, não perdi minha fé na Srta.
Jamieson.
Ela é amiga de Mulliez e a professora a quem ele me confiou
depois que partiu. Além disso, ela me ajudou da última vez que
Dutch tentou me expulsar de Redwood.
A Srta. Jamieson me leva para a escadaria e eu luto contra as
memórias de Dutch que estão surgindo. É irritante a maneira como
ele se infiltrou na minha pele. É como se ele estivesse na minha
cabeça, invadindo cada poro, arranhando meu pescoço, me
sufocando com sua presença invisível.
—Cadence. —A voz da Srta. Jamieson me tira desse devaneio.
Eu olho para cima.
—Acabei de ouvir da administração. O diretor Harris está
seguindo o Sr. Miller como uma colegial. —Ela revira os olhos como
se não quisesse nada mais do que socar os dois homens.
—Estou lidando com isso —digo a ela com confiança, mesmo
que não sinta nada disso.
Seu olhar se volta rapidamente. —Não, não, você não lida com
isso. Você deixa os adultos interferirem. Jarod Cross deve terminar
sua turnê em breve. Vou pedir a Mulliez que entre em contato com
ele. Faça-o resolver essa situação ridícula.
O aviso de Dutch - de que eu não deveria dever favores ao pai
dele - ecoa na minha cabeça. É o suficiente para me fazer pensar
que Jarod Cross não deveria ser minha saída para todas as
situações.
—Eu realmente agradeço por você cuidar de mim, Srta.
Jamieson. —Sorrio para ela. —Mas não posso me dar ao luxo de
confiar em mais ninguém agora.
—Cadence-
—Não se preocupe. Não vou deixar Redwood.
O sino toca novamente. O último aviso para ir para a aula.
—Preciso ir —digo.
No caminho pelo corredor, pego meu telefone e mando uma
mensagem para Jinx.
Você ainda vende segredos?
Jinx: Você ainda tem segredos para trocar, Novata?
Eu prendo a respiração bruscamente.
Não há como sair dessa sem combater fogo com fogo.
Eu: Preciso de toda a sujeira que você tiver sobre o presidente
do conselho.
CHAPTER
VINTE E SEIS
DUTCH
— O que vamos fazer sobre o Miller? — pergunto aos meus
irmãos. Estamos ao redor da piscina em nossa vila.
Zane está com os pés na água e várias garrafas de cerveja ao
seu lado.
Finn está olhando para o céu estrelado, com os óculos no nariz.
Ele raramente usa suas lentes de contato quando está em casa.
— A Jinx aumentou os preços, mas estou disposto a apostar
tudo na roupa suja do Miller — diz Finn, com a voz baixa e sombria.
É o método mais óbvio.
Destruí-lo nas sombras. Onde dói.
Assim como fizemos com aquele vizinho que insultou o Sol bem
na nossa frente. É discreto. Limpo. Devastador.
O método do Sol naquela época era muito desorganizado, muito
óbvio. Faltava refinamento.
Cadence tem a mesma mentalidade e é por isso que ela está
nessa confusão.
Miller é astuto. Naquele dia na academia, quando Cadence fez
com que Christa fosse presa, vi em seus lindos olhos castanhos que
ela achava que tinha a vantagem. Ela não fazia ideia com quem
estava lidando.
É isso que acontece quando garotas boazinhas tentam ser más.
Vê-la crescer e aprender a realmente cravar suas garras nos
outros seria doce. Se não fosse uma dor de cabeça tão grande para
limpar.
Balanço a cabeça. — Se começarmos a jogar lama no Miller, ele
vai revidar. Ele sabe o que fizemos para tirar Cadence daquela
situação. Ele sabe que fizemos isso pelo Sol. Não vai demorar muito
para ele nos expor. Não podemos nos dar ao luxo de piorar as
coisas.
Zane leva a cerveja à boca e bebe. — Você tem algo em mente?
— O caminho de menor resistência. — Encontro os olhos de
Zane na escuridão. O cabelo do meu gêmeo está mais bagunçado
que o normal. Seus olhos estão vermelhos nas bordas. Sua
estratégia de festejar e transar para lidar com o que sente está
cobrando seu preço.
Eu diria para ele se acalmar se achasse que ele ouviria.
Mas, caramba, mal cheguei às minhas próprias conclusões
sobre Cadence. Não há como eu convencer Zane de nada.
— Você quer que a gente dê um jeito na outra garota?
— Serena, certo? — Zane vira o corpo completamente. Ele tira
os pés da piscina e as barras enroladas da sua calça jeans
espalham água nos azulejos.
Ele sempre foi melhor em lembrar nomes do que eu. Faz parte
do seu charme. Ele consegue fazer um estranho se sentir como um
amigo e transformar esse amigo em um amante em menos de cinco
minutos.
Finn e eu não temos essa habilidade.
Não que a gente queira.
— Miller não quer um banho de sangue. Ele só quer dar uma
lição na Cadence. Não há motivo para tornar isso maior do que
precisa ser. Uma delas tem que ir. Não pode ser o Sol e não pode
ser a Cadence.
— Ela vai te odiar ainda mais do que já odeia — prevê Finn.
Encontro seus olhos no crepúsculo. Seu olhar é firme. Sempre
firme. Como se ele não tivesse nada a perder.
Acho que é por isso que o pai não mexe tanto com ele quanto
mexe comigo e com Zane. Ou talvez seja porque o pai nunca o viu
como um filho de verdade e, portanto, não vale a energia.
Ou talvez seja ambos.
Quem diabos sabe como as coisas funcionam na mente
perturbada do pai?
Falando no pai...
— Recebi uma mensagem da Jinx pedindo confirmação em troca
de um segredo — digo, mudando de assunto.
O luar reflete na borda da garrafa de cerveja enquanto Zane
toma o último gole. — Ela ainda está fazendo isso?
— Brilhante, não é? — Finn se recosta na espreguiçadeira, com
um lampejo de admiração nos olhos. — O aplicativo da escola é
apenas uma fachada para extorquir mais dinheiro. Se você é o
guardião dos segredos e o chefe da mídia clandestina...
— Você controla tudo — diz Zane. Ele solta um assobio baixo. —
Entendo por que você tem uma queda por ela.
Finn faz uma careta e mostra o dedo do meio para ele.
Zane ri.
Eu gostaria de me juntar a ele, mas ainda estou refletindo sobre
o aviso de Finn.
Cadence vai me odiar ainda mais se eu entregar sua única
amiga em Redwood como um cordeiro para o abate.
Mas não é isso que me incomoda.
É o fato de que a felicidade de Cadence está se intrometendo
nas minhas decisões. Por que diabos eu deveria me importar se ela
me odeia por fazer o que precisa ser feito? Nunca deixei as opiniões
ou sentimentos de ninguém influenciarem meus planos.
A lembrança de seus olhos ardentes e boca ávida nos meus me
queima. Pressiono os lábios e desvio o olhar.
Zane se levanta e caminha até a terceira espreguiçadeira. Ele se
senta e o plástico range ao aceitar seu peso.
— O que a Jinx queria confirmar? — pergunta Zane.
Respondo mecanicamente. — Se o pai está namorando ou não.
Ela diz que tem evidências de que é mais do que apenas um caso.
Meu gêmeo ri. Seus olhos brilham duros e azuis na escuridão. —
Nós sabíamos que isso aconteceria desde o dia em que ele mandou
aquela mensagem.
— Por que a Jinx iria querer confirmação disso? — Finn olha
pensativo para a piscina. — Tem algo que ela não está te contando.
— Que se dane isso. — Zane agita os braços. — Não vou me
preocupar com algo que ainda não aconteceu. O pai está voltando
para casa em breve. Vou fingir que ele não existe até lá.
Finn se levanta e pega uma das garrafas de Zane. Abrindo a
tampa, ele engole a bebida e limpa a boca com as costas da mão.
— Me avise o que você decidir sobre o Miller — diz Finn,
passando por mim. — Tenho me sentido inquieto ultimamente. Se
tiver que ser bagunçado, não sou contra.
Faço que sim com a cabeça.
Zane me oferece uma cerveja.
Envolvo meus dedos ao redor dela, pensando em Cadence.
Como sempre.
Maldita terroristazinha tem um espaço dedicado na minha
cabeça.
Ela parecia preocupada hoje. Eu a vi pouco antes do final da
última aula quando voltei a Redwood para pegar minha guitarra para
o teste de som do Baile de Halloween.
Ela estava sentada no fundo da sala, com o rosto virado para a
janela que dava para o jardim. Parecia pequena e sozinha, um
minúsculo planeta girando em uma galáxia infinita. Tão distante de
mim, tão diferente que eu não deveria ser afetado por ela de forma
alguma. E, no entanto, a única vez que sinto algo além de estar
morto por dentro é quando ela está girando na minha órbita.
Não quero investigar o que isso significa ou por que é
importante.
Eu só quero levá-la para a cama o mais rápido possível e me
afastar desses sentimentos insuportavelmente pesados.
— Você parece um idiota apaixonado — diz Zane, dando um
gole em sua cerveja. — Não é à toa que Finn te chama de patético.
Meus olhos se voltam para ele. — Não é à toa que ele te chama
de imbecil.
— Como se ele tivesse o direito de julgar — Zane resmunga. —
Ele está apaixonado por uma conta anônima. Se Jinx acabar sendo
um cara de trinta anos, vou rir na cara dele.
Isso me faz soltar uma risada.
Ergo uma sobrancelha para Zane. — Por quanto tempo você vai
continuar evitando a senhorita Jamieson?
— Até eu esquecer. — Ele olha fixamente para a piscina. As
luzes estão refletindo nela, lançando raios azuis por todo o deck dos
fundos. — Até não sentir mais como se estivesse sufocando com
minha própria respiração.
Observo meu gêmeo. Rosto igual ao meu, exceto pelos olhos
que são azuis em vez de cor de avelã. O cabelo que é preto em vez
de loiro.
Nunca o vi tão abatido antes.
Nunca vi o sorriso abandonar seu rosto.
Ele está bêbado.
O que provavelmente explica por que está sendo honesto.
— Não estrague tudo com a sua garota — Zane adverte — pelo
menos você tem uma chance.
Sua garota.
Não consigo explicar como meu peito se enche quando ele diz
isso.
E não consigo explicar a súbita vontade que tenho de ligar para
Brahms e pedir que ela entre no meu carro para darmos uma volta.
Apenas dirigir e dirigir. Até chegarmos ao fim do mundo.
Que inferno.
Pego outra cerveja e a bebo rapidamente.
Essa garota está me fazendo perder a cabeça.
CHAPTER
VINTE E SETE
DUTCH
Desgraças acontecem em trio.
Nesta manhã, Sol desligou o celular e sumiu do mapa.
Brahms conseguiu se esconder em cantos e corredores toda vez
que eu aparecia.
E hoje à noite...
O pior de tudo.
Meu pai voltou da turnê.
— Não me envergonhem. — Meu pai ergue um dedo coberto de
anéis de prata na direção de Zane. Seus olhos azuis me
atravessam. — Guarde seus comentários sarcásticos para si
mesmo. — Finn é poupado do dedo acusador, mas até ele recebe
um olhar de advertência do meu pai. — Somos cavalheiros
respeitáveis esta noite.
Eu bufo.
Respeitável? A única coisa respeitável em Jarod Cross é sua
conta bancária.
Me remexo desconfortável. A manchete que Jinx mandou para
meu celular para confirmação está me incomodando. Por que
diabos meu pai está fazendo todo esse alvoroço só para que
possamos conhecer alguma mulher com quem ele está transando?
Algo não parece certo.
Meu pai olha para o revestimento metálico reflexivo do elevador.
Ele admira seu cabelo preto com mechas prateadas, levanta o
queixo e mexe em sua gravata borboleta. Ele parece um pouco
desconfortável no traje de gala.
A visita surpresa do meu pai surgiu do nada. Finn, Zane e eu
estávamos indo para casa quando um monte de capangas do meu
pai de terno nos cercou. Fomos "escoltados" do nosso carro para o
dele e levados a uma loja de smoking para nos trocar para o jantar.
— Conserte essa cara fechada, Dutch. Eles vão pensar que você
quer machucá-los com uma carranca dessas.
Eu me recosto na parede, deixando minha expressão decair de
simples desinteresse para clara irritação.
— Zane, pare de se mexer — a voz do meu pai ressoa.
Eu o encaro.
Meu pai me encara de volta, seus olhos frios como gelo.
— Quem diabos são essas pessoas afinal? — Zane murmura,
afastando as mãos do cabelo. Ele é o único que não seguiu a ordem
do meu pai de usar "terno e gravata".
Enquanto Finn e eu vestimos os trajes de gala, Zane manteve
sua camiseta cinza desgastada, jeans rasgado e tênis, não
importando o que meu pai ameaçasse.
Meu pai lançou um olhar de desaprovação durante a viagem de
carro, mas não é como se ele pudesse fazer algo. Ninguém pode
controlar Zane quando ele decide que quer fazer algo.
— Vocês verão. — Meu pai sorri.
Há um brilho em seus olhos que eu não gosto particularmente.
Ele parece quase eufórico e isso só acontece quando ele está
prestes a destruir algo.
Finn troca um olhar comigo. O que está acontecendo?
Eu balanço a cabeça. Não faço ideia.
A sensação de desconforto cresce quando o elevador para no
andar certo.
Meu pai sai primeiro. Ele nos faz sinal para avançar. — Vamos
lá, rapazes.
Eu não me movo.
Finn também não.
— Vamos acabar logo com isso — Zane rosna. Ele sai pisando
forte para o restaurante.
Com o estômago embrulhado, eu sigo meu gêmeo.
A recepcionista cumprimenta meu pai com um aceno. Embora
ela pareça calma e controlada, as outras pessoas no restaurante
não estão. Sussurros ecoam das mesas ao redor. Celulares
disparam flashes. Gritos animados irrompem como uma onda.
Sem dizer uma palavra, a recepcionista nos leva a uma sala
privativa.
Zane e meu pai entram primeiro.
Finn e eu estamos logo atrás deles.
Um ofegar vem da convidada tão importante do meu pai. Algo na
voz é familiar, mas Zane está parado bloqueando meu caminho.
Passo por ele para ver quem está na sala e meus olhos se
arregalam.
A senhorita Jamieson está sentada à mesa. Seu rosto está todo
maquiado, seu cabelo está em um rabo de cavalo que cai por suas
costas e ela está usando um vestido preto justo com um daqueles
decotes artísticos e profundos que mostram tudo até o umbigo.
Zane dá um passo furioso à frente e Finn põe uma mão em seu
ombro para detê-lo. Zane para. Uma veia salta no pescoço do meu
gêmeo. Ele olha para a senhorita Jamieson com algo próximo à
traição.
Eu olho para meu pai.
Ele está sorrindo, apreciando o horror de Zane.
A voz de Zane treme. — Que diabos ela está fazendo aqui?
— Zane — meu pai volta imediatamente ao seu papel falso de
pai —, essa não é maneira de falar com sua nova irmã.
Meus olhos se arregalam.
Zane fica pálido.
Finn franze a testa. — Irmã?
— Oh, todos já chegaram? — exclama uma voz atrás de nós.
Todos nos viramos e vemos uma mulher que tem uma profunda
semelhança familiar com a senhorita Jamieson deslizar para dentro
da sala.
Ela não é uma das garotas de vinte e poucos anos que meu pai
geralmente procura, mas seu rosto ainda mantém um brilho jovial.
Duvido que ela tenha mais de trinta e cinco anos.
— Sou Marian. — Ela estende uma mão escura. Há um enorme
anel de diamante nela.
Ninguém pega a mão que ela oferece.
— Por que diabos há um anel no dedo dela? — Zane sibila.
Meus olhos se voltam rapidamente para meu pai. Ele passa um
braço ao redor dos ombros de Marian e dá um beijo suave em sua
têmpora. — Nos casamos.
Marian sorri amplamente. Quando ela sorri, rugas se formam ao
redor de seus olhos, mostrando sua verdadeira idade e sugerindo
que a vida que ela levou não foi fácil.
Imediatamente, olho para Zane.
Finn também olha.
Mas nosso irmão não está olhando para nós, para o pai, ou nem
mesmo para Marian.
Ele está olhando para a senhorita Jamieson.
Ela ainda está parada atrás da mesa, seu queixo caído e seu
corpo tremendo como se estivesse em meio a um furacão. O pânico
em seu olhar grita que ela se jogaria pela janela para fugir daqui.
— É uma história realmente romântica — diz Marian, quando o
silêncio constrangedor fica denso a ponto de ser insuportável. — O
Jarod simplesmente... ele me viu no meio da rua e veio direto até
mim. Como se soubesse tudo sobre mim.
— Foi amor à primeira vista. E quando se tem tanta certeza, por
que esperar?
Zane fecha a boca bruscamente. Sua mandíbula se tensa e ele
parece a segundos de varrer todos os pratos de jantar e virar a
mesa.
— Mãe — Miss Jamieson engasga —, você não me disse que já
tinha se casado. — Seus olhos passam rapidamente por Zane antes
de pousar novamente na mãe. — E certamente não me disse que o
noivo era Jarod Cross.
— Não a culpe. Queríamos que fosse uma surpresa. — O sorriso
cruel do pai passa rapidamente por seu rosto antes que ele o
esconda novamente. — Para todos.
— Bem, estou realmente surpreso — Zane cospe.
— Você não vai nos dar os parabéns?
— Mãe — os olhos de Miss Jamieson escurecem —, posso falar
com você?
— Sobre o quê? — Marian pergunta inocentemente.
— Mãe, por favor.
— Querida, já está feito.
— Esta é sua família agora — diz o pai. — Estes são seus
irmãos.
— Família? — A voz de Zane está embargada. — Não finja que
você sabe o significado dessa palavra, pai.
— Aonde você vai? — O pai grita enquanto Zane marcha para a
porta. — Por que você não se senta e come com sua nova madrasta
e meia-irmã?
Zane congela como se o pai tivesse acabado de pronunciar as
palavras mais desprezíveis que ele já ouviu.
— Jarod — Marian bate no peito do pai com o punho e ri
alegremente —, não force os meninos a me chamarem de
madrasta. — Seus olhos pousam em cada um de nós. — Vocês
podem me chamar de 'Mar'.
A tensão na sala é espessa o suficiente para sufocar.
Miss Jamieson olha para o chão. Pela maneira como ela está
torcendo aquelas mãos escuras e delicadas, ela está claramente
perturbada.
— Sente-se, Zane. — A voz do pai ressoa com autoridade. E
então suaviza para um tom persuasivo. — Ou você tem algum
motivo urgente pelo qual não possa ficar?
Para os ouvidos de qualquer outra pessoa, as palavras do pai
soariam como preocupação. Mas eu sei quem ele realmente é. Isso
não é ele se preocupando com os sentimentos de Zane. Isso é ele
enfiando o dedo na ferida aberta que deixou no peito do meu gêmeo
e remexendo nas entranhas do meu irmão.
Zane se vira lentamente. Seus olhos estão vermelhos e seu peito
está ofegante. Droga. Nunca quis tanto pegar meus irmãos e correr
como quero neste momento. Nunca quis tanto apagar o 'Cross' de
nossos sobrenomes e fingir que crescemos em uma família normal
sem um maldito psicopata como pai.
Quando Zane finalmente fala, é em um tom extremamente
educado. — Aproveitem o resto da noite.
Zane sai rapidamente da sala.
Finn corre atrás dele.
Eu aceno para Miss Jamieson.
Ela inclina o queixo bruscamente, mas não consegue encontrar
meus olhos. Seus delicados músculos da mandíbula estão
tensionados e parece que ela está se mantendo unida com cada
grama de força de vontade em seu corpo.
Começo a sair da sala.
— Diga ao Zane que faremos isso de novo quando ele estiver
menos emotivo. — O tom melodioso do pai é como unhas em um
quadro-negro.
Minhas narinas se dilatam. Meus dedos se fecham em punhos.
— A propósito — acrescenta o pai —, Miss Jamieson não é a
única que vocês verão na escola. — O pai se levanta e alisa a
gravata. — A partir da próxima semana, sou o novo professor de
música de vocês.
J : P R V N G R E
sonhando? Fontes dizem que Redwood Prep terá um professor
convidado especial a partir de agora até o final do ano. O próprio
Jarod Cross.
Parece que os Kings não são a única realeza Cross em
Redwood. Mal posso esperar para ver que drama a família real está
prestes a criar.
Seja adorados ou alvo de conspirações, todos querem ver as
pessoas no topo terem uma grande queda.
Até o próximo post, mantenham seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais próximos.
- Jinx
CHAPTER
VINTE E OITO
CADENCE
— Breeze! — Dou um salto correndo em direção à minha melhor
amiga e envolvo meus braços ao seu redor. Ela cambaleia para trás,
seu cabelo loiro batendo no meu rosto.
Breeze ri e me empurra. — Garota, você está me sufocando até
a morte.
Eu me agarro ainda mais forte a ela. — Não me importo.
Aguente.
Ver minha melhor amiga depois da semana incrivelmente longa
que tive é uma felicidade perfeita.
Ultimamente, cada dia em Redwood parece que estou vivendo
uma vida inteira no espaço de vinte e quatro horas. Agora que o
relógio está contando regressivamente, temos apenas dois dias
para fazer aquela escolha estúpida. É como se eu pudesse sentir a
força vital se esvaindo de mim a cada segundo que passa.
Fiz uma promessa de salvar Serena, mas continuo esbarrando
em muros de tijolos. Continuo sendo lembrada de quão
insignificante sou em Redwood Prep.
E isso está começando a me afetar.
Desde aquela reunião com Miller, é como se... eu estivesse
sentindo que não consigo respirar. Como se todas as pessoas
mesquinhas e horríveis que estão atrás de mim só quisessem uma
abertura, uma pequena rachadura que possam forçar até me
quebrar.
É avassalador. Hoje, eu ficava correndo para o banheiro
pensando que precisava gritar, mas o grito ficava preso na minha
garganta, me sufocando até a morte.
Redwood Prep é uma prisão bonita, luxuosa e elitista.
E eu não tenho a chave.
Minha melhor amiga faz um som de reprovação. Cílios grossos
envolvem olhos azul-safira que brilham de empolgação. —
Concertos de Halloween não valem todo esse alvoroço.
Eu rio. — Do que você está falando? Que concerto de
Halloween?
Ela me lança um olhar atônito. — Você esqueceu?
— Ah, droga. — Franzo o nariz. — Tenho que tocar hoje à noite.
A professora substituta de música, Sra. Eunice, me inscreveu.
'Você precisa sair da sua concha, Cadence.'
Eu queria dizer a ela que minha concha é incrível e que há todos
os tipos de tubarões lá fora só esperando que eu coloque minha
cabeça para fora.
Mas tudo o que eu disse foi 'sim'.
Isso foi antes de eu descobrir que só tinha alguns dias de vida
até Miller desligar meu suporte de vida em Redwood Prep.
— Você me pediu para vir te ajudar hoje à noite já que a Vi vai
para a casa mal-assombrada da escola dela. — Os olhos azuis de
Breeze se movem ao redor. — Ela já saiu?
— Não, ela está se arrumando. — Bato na minha testa. — Não
acredito que esqueci desse show.
— Você está tão ocupada sendo a Cinderela que esqueceu que
também é a maior musicista de todos os tempos?
Tiro meus tênis brancos. Estive de pé a noite toda na lanchonete
e meus pés estão latejando. — A maior de todos os tempos é um
exagero.
— Briga comigo.
Eu rio. No momento em que meus pés estão livres, respiro
aliviada.
Breeze me segue até meu quarto, seus olhos se estreitando em
mim. — Está acontecendo alguma coisa? Você parece estressada.
— Não. Só estava com saudades suas. — Abraço Breeze
novamente, encostando minha cabeça em seu ombro e deixando
escapar um pequeno suspiro de gratidão.
Ela me conhece melhor do que qualquer outra pessoa. E eu não
quero que ela veja que Redwood está me espancando.
Enquanto escondo meu rosto dela, penso na última mensagem
de texto de Jinx.
Desculpe, Novata. O segredo que você deu em troca do vídeo
da Christa é valioso demais. Nada pode superar isso. A não ser que
você tenha um vídeo picante para compartilhar.
A não ser que você tenha um vídeo picante.
É deplorável — realmente desprezível — os pensamentos que
suas palavras evocaram. Seria tão fácil também. Dutch não fez
segredo de que me quer.
E eu...
Não, não posso.
Não é como se ela realmente fosse me ajudar se eu entregasse
esse tipo de vídeo.
Mas é uma chance...
Uma que eu desesperadamente preciso.
Breeze me afasta. — Está quente demais para todos esses
abraços. Vá tomar banho e se trocar.
— Já volto.
Quando passo pelo quarto de Viola, vejo ela brincando com sua
maquiagem e anel de luz. Ela tem tanta maquiagem no rosto que
parece bem mais velha do que treze anos.
Isso me alarma.
Bato na porta. — Ei.
— Ei.
— Eu, uh, queria falar com você.
— Ah não. — Ela pisca rapidamente.
— Você e seus amigos vão estar naquele evento hoje à noite. É
o ambiente perfeito para eles colocarem os braços ao seu redor e
tentarem, você sabe, te tocar.
Ela fecha os olhos com força. — Por favor, pare.
— Você não precisa fazer nada com o que se sinta
desconfortável, ok? E se tiver alguma dúvida, pode vir falar comigo.
Prefiro que você converse comigo sobre essas coisas do que tentar
experimentar com garotos-
— Eca. — Ela suga as bochechas e passa um pincel de
maquiagem sobre as concavidades do rosto. — Não vou fazer isso.
— Fazer o quê com garotos?
— Falar com você sobre sexo. — Ela revira os olhos. — Isso é
nojento.
— Mas você pode.
Essa conversa é constrangedora para nós duas, mas não posso
negar minhas próprias experiências. Uma casa mal-assombrada cria
o clima perfeito para as pessoas buscarem conforto nos braços
umas das outras.
Minha irmã não tem convivido muito com garotos sem minha
supervisão e não quero que ela entre de olhos fechados.
Se ela conhecer alguém tão intenso quanto Dutch...
Chamas lambem meu peito. Ainda posso sentir o calor de Dutch.
Seus dedos esbeltos e seguros queimando minha pele e enviando
faíscas de prazer pelo meu corpo. Posso ouvir sua respiração e
sentir os impulsos avassaladores que ela inspira em mim.
Não há como eu querer que minha irmã de treze anos chegue
perto desses sentimentos complicados e insaciáveis.
Faça o que eu digo, não o que eu faço, certo?
Minha irmã franze o nariz. — Eu realmente não quero ouvir isso
agora.
Lambo os lábios e balanço os pés à minha frente.
Não tenho problema com a maior parte do que significa ser pai
da minha irmã - trabalhar, pagar todas as contas e garantir que Vi
esteja segura, vestida e focada nos estudos. Isso me leva ao limite,
mas posso fazer todo o esforço.
Infelizmente, quando se trata desta parte da paternidade...
— Sei que você não quer, mas precisa ser dito. Preciso que você
seja segura.
— Hmph.
Me apoio na porta. — Você sabe por que sou tão protetor com
você, né? Você tem tanto potencial. Eu não suportaria ver você
desperdiçá-lo com alguém que só vai engravidá-la e ir embora como
o pai do Rick fez com a mãe.
Seus olhos rolam até encontrarem os meus. — Eu entendi.
Há um pouco mais de atitude nessa afirmação do que o normal,
o que provavelmente significa que ela está tão desconfortável com
esse assunto quanto eu.
Começo a sair e então me viro. — A propósito, você encontrou
seu colar?
— Não. — Ela destampa um tubo de batom e aproxima a boca
do espelho. — Sabe o que mais é estranho? Não consigo achar
meu tablet também. Pensei que tinha deixado na mesa da cozinha,
mas quando voltei... — Seu revirar de olhos é pura perfeição pré-
adolescente. — Tem sido um inferno tentar editar minhas postagens
nas redes sociais sem ele. Você não o escondeu de mim, né?
Uma nota de alarme passa pela minha mente. — Não, não
escondi.
Ela suspira. — Acho que devo ter deixado em algum lugar. Vou
perguntar na escola amanhã. Talvez eu tenha levado para lá e
esquecido.
— É. Talvez. — Inquieto, me afasto do quarto de Viola e entro no
meu.
Alguém está roubando de nós?
Meus olhos saltam para a cômoda. Meu laptop da escola está na
mesa. Minhas joias estão todas lá.
Mordo os lábios pensativo. Se fosse um ladrão, teriam levado
minhas coisas também. Talvez Viola realmente tenha perdido suas
coisas? Talvez a porta da frente tenha realmente sido deixada
aberta por acidente?
Você está seguro. Hunter trocou as fechaduras.
Balançando a cabeça e esfregando meus braços para espantar
os arrepios, tiro meu laptop da cômoda e faço login no meu e-mail
da escola.
Há uma nova mensagem do departamento administrativo sobre
meu estudo de trabalho. Clico nela ansiosamente e então
comemoro quando vejo que meu pedido para mudar para turnos da
manhã cedo foi aprovado.
Tem sido agitado tentar sair da escola à noite e chegar a tempo
no meu turno na lanchonete. Às vezes, depois da escola, os alunos
ficam por perto das salas de aula. Tenho que esperar até que eles
terminem antes que eu possa limpar ou limpar ao redor deles, o que
é um pouco constrangedor e embaraçoso.
Felizmente, isso não será mais um problema.
Estou de bom humor quando troco para minha peruca e as
roupas que Breeze escolheu para mim. Esta noite, estou usando
uma fantasia de Daphne do Scooby Doo. Breeze disse algo sobre
trocar minha peruca de vermelho para laranja permanentemente
porque me caia tão bem.
Eu discordo fortemente.
— Pareço uma aeromoça — murmuro quando chegamos ao
teatro de música chique de Redwood Prep.
— Não. — Breeze arruma o pequeno lenço ao redor do meu
pescoço. — Você parece uma aeromoça safada. Há uma grande
diferença.
Reviro os olhos. Breeze está adorável em uma fantasia de
coelhinha da Playboy, completa com as orelhas e o traje rosa de
seda. Seu cabelo está liso ao redor do rosto e seus grandes olhos
azuis brilham com inocência sensual.
— Você está nervosa? — ela pergunta.
Não sobre tocar piano. Sei que sou boa no que faço.
Além disso, estou a salvo de ter que me apresentar como
Cadence Cooper. O concerto desta noite tem tema de Halloween. É
óbvio que vou tocar vestida como algo diferente de mim mesma.
Acho que isso é meio que uma bênção disfarçada.
O que me deixa tremendo e me sentindo agitada é o fato de que
a última vez que estive nos bastidores foi no showcase de fim de
verão.
Minha primeira noite em Redwood Prep.
Minha primeira mensagem do Jinx.
A primeira vez que pus os olhos em Dutch.
Me viro ligeiramente, revivendo o momento em que seu olhar
âmbar me cortou profundamente. Se eu tivesse alguma ideia de
quão profundamente aquele olhar arruinaria minha vida,
provavelmente não teria ficado tão animada em trocar olhares com o
lindo príncipe de Redwood Prep.
— The Kings vão tocar hoje à noite? — pergunto a Breeze o
mais casualmente possível. Não os vi na lista de eventos.
— Que eu saiba, não. The Kings tiveram um evento de clube de
verdade ontem à noite. Eles são maiores que esses eventos
escolares, sabe. — Breeze arqueia uma sobrancelha. — Por que
você está perguntando sobre The Kings?
— Só curiosidade — murmuro.
Sua expressão fica ainda mais séria.
Fico aliviada quando um dos organizadores vem me dizer que
sou a próxima na programação. Depois que aceno em
entendimento, ele se afasta. Estico o pescoço, imaginando se
Serena está trabalhando hoje. Mas acho que não.
Pegando meu telefone, mando uma mensagem para ela.
Eu: Você ainda vai ao baile?
Serena: Não, surgiu algo.
Estranho. Ela parecia tão animada quando falamos sobre o baile
no almoço. Será que essa coisa com Miller está fazendo ela se
sentir derrotada antes mesmo da guerra começar?
Mordo meu lábio inferior. Através das coxias, vejo uma violinista
tocando com toda sua alma para o público. Ninguém está prestando
atenção, coitada.
Agora entendo por que os organizadores forçaram os alunos a
comparecer ao concerto antes do baile. Pelo menos assim, nós,
estudantes de música, teríamos uma plateia.
Parece que a multidão que compareceu ao showcase de fim de
verão naquela noite foi porque The Kings estavam na programação.
Sem eles, é difícil atrair público.
Baixando os olhos de volta para meu telefone, verifico se Sol
respondeu a alguma das minhas mensagens.
Ele não respondeu.
— O que você está olhando? — Breeze pergunta, pulando na
ponta dos pés.
— Nada. — Desligo meu telefone e o enfio no bolso lateral. —
Pode segurar minha bolsa?
— Claro. — Breeze aceita a bolsa.
Balanço meus dedos ao lado do corpo, lutando para colocar
minha mente em ordem para a apresentação, mas meus
pensamentos estão correndo rápido demais. Estou presa tentando
montar um quebra-cabeça.
O objetivo de Miller é vingança - não importa se todos nós três
ou apenas um de nós for atingido.
O objetivo de Dutch é me controlar e proteger Sol - não importa
para ele se Serena levar a pior.
Não importa para onde eu me vire, Serena vai acabar sendo
arrastada.
A menos que eu faça alguma coisa.
E eu tenho que fazer alguma coisa.
Mas como diabos vou conseguir a vantagem?
Não posso fazer isso sem Jinx.
E Jinx não vai fazer.
A não ser que você tenha um vídeo picante...
Fecho os olhos com força, meu coração queimando com o
pensamento.
— É sua vez — diz Breeze. Sua voz soa como se viesse de
longe.
Tropeço para frente, ainda sem encontrar aquele lugar tranquilo.
Aquele espaço na minha cabeça que é só para a música. Há muita
porcaria no caminho.
O palco está montado como um cemitério. Névoa rola pelo chão.
Esqueletos com as mandíbulas caídas se apoiam em grandes
abóboras de Halloween. É o auge do assustador. Como se alguém
com formação profissional em design tentasse 'interpretar'
decorações de Halloween, tirando toda a diversão disso.
Não olho para a multidão quando me sento atrás do piano. Eles
esperam um show. Uma apresentação. Não se importam com quem
eu sou por baixo desta peruca, mesmo que conheçam meu nome
agora. Mesmo que eu seja um pouco mais eu mesma do que era
quando tocava no passado.
Talvez eu possa fazer isso por causa de Dutch.
Talvez Redwood Prep tenha me endurecido, me tornado
corajosa o suficiente.
Mas eu realmente não me importo quando o apresentador
chama meu nome e um suspiro sobe da multidão.
Eles nunca me ouviram tocar.
Não como eu.
Não como Cadence.
Sem esperar pelos aplausos, coloco meus dedos nas teclas e
deixo a primeira nota raspar o calo no meu coração.
Lá#
Espalhando-se em um acorde diminuto, pressiono e deixo o
acorde sustentar.
Ré
Entro no meio do silêncio, deixando o calor do momento raspar e
raspar e raspar meu coração até que eu esteja sangrando de novo.
Até que a música possa passar e preencher o espaço entre minha
alma e meu instrumento.
A música me envolve, sugando-me para um calor que é quase
insuportável. Um lugar que... bem, não se sente tanto seguro quanto
se sente meu. Como se eu o possuísse. Como se ninguém pudesse
tirá-lo de mim se tentasse.
Não importa quão manchado, quão sujo, quão assustador, ainda
é meu.
A névoa rodopia ao redor dos meus tornozelos enquanto corro
meus dedos pelas teclas, extraindo uma canção das oitavas mais
altas. Cabeça baixa, curvada, suor escorrendo pelo meu queixo.
Está quente aqui em cima.
Ou talvez seja o calor de dentro de mim explodindo. Incendiando
tudo num raio de oito quilômetros.
Eu não sei como tocar.
Realmente não sei.
Só sei como explodir nas teclas. Só sei como usar essa dor para
avançar porque a música é demais para eu conter dentro de mim.
A música cresce e cresce até que eu corto o volume pela
metade. Abrupto. Inesperado. Nem tudo precisa terminar com um
grande estrondo. Às vezes, pode ser apenas um tremor, tão
poderoso que arranca o coração do peito sem fazer barulho.
Danço meu polegar e dedo mindinho sobre duas notas,
deixando-as vibrar no ar, trilando e ganhando terreno antes de
terminar, estilhaçando a tensão de bordas afiadas que eu vinha
nutrindo desde o primeiro compasso.
Quando termino, estou ofegante. Minha peruca é uma bagunça
ao redor do meu rosto, grudando no meu pescoço como uma
segunda pele.
Levanto-me instável sobre meus pés.
Aquela maldita sensação de nudez me invade novamente. Como
se eu estivesse de pé na frente de todos esses babacas de
Redwood Prep sem nada. Nem mesmo sutiã e calcinha.
É a pior parte de tocar música.
A pior parte de não tocar como eu mesma.
Quando os aplausos começam, mal penetram meu foco. Tropeço
para fora do palco, não em direção a Breeze que está me
esperando. Na outra direção. Passando pelos técnicos de som.
Assim como fiz naquela noite.
Para fora.
Tenho que sair.
Atravesso a porta com força e tomo um gole profundo de ar.
Meu coração está batendo tão rápido que acho que posso
desmaiar.
A porta se abre de novo. E então se fecha com força.
— Breeze — sussurro.
Mas quando ouço botas esmagando pedras soltas, sei que não é
minha melhor amiga.
Giro e caio em um par de olhos cor de avelã perigosos.
Dutch.
CHAPTER
VINTE E NOVE
CADENCE
Eu me viro para encarar Dutch nas sombras, meu coração ainda
batendo rápido pela performance e pelo pânico que veio logo em
seguida.
Ele me observa como se eu fosse algo que ele quer desmontar e
estudar de dentro para fora. Há uma ruga entre suas sobrancelhas.
Frustração. Como se ele soubesse que não seria capaz de me
reconstruir mesmo se passasse cada dia de sua vida tentando.
E isso o irrita.
Ah, eu posso ver a raiva. Emanando dele como ondas. Escura e
implacável, uma montanha que não pode ser movida.
É então que vislumbro a verdade. O que torna Dutch perigoso, o
que faz os alunos da Redwood Prep temê-lo, é o controle apertado
que ele tem sobre suas emoções.
A maneira como os outros se descontrolam, gritam e se
preocupam está abaixo dele. Suas reações contidas o fazem
parecer alguém que poderia receber todos os golpes que a vida tem
a oferecer e ainda sair por cima.
Isso ganha respeito.
Um respeito que é separado da fama de seu pai ou do crescente
estrelato de sua banda.
É um anseio de estar perto de alguém como ele. Porque ele tem
aquela coisa. A coisa que faz as pessoas quererem ser suas amigas
ou suas amantes ou sua família. Que quer sua aprovação porque é
difícil de conseguir e apenas alguns selecionados podem estar no
lado receptor dela.
Eu vi isso acontecer repetidas vezes. Dutch entra em uma sala e
as pessoas se endireitam. Prestam atenção. Entram na linha. Ele
não precisa abrir a boca para ser maior, para ocupar mais espaço.
Está enraizado.
Uma parte dele.
Poder.
Eu fecho os dedos em punhos, olhando feio para ele apesar do
calor crescente na atmosfera. Mesmo quando minha raiva continua
disparando a novos patamares, azedando sob minha pele, eu não
cedo a ela.
Um vídeo quente...
É a única chance que tenho.
A única opção.
— Quando você chegou aqui? — pergunto. Minha voz viaja na
noite silenciosa. Há alguém se apresentando no palco, mas a
música é abafada pela porta fechada.
Dutch me observa, imperturbável. Imóvel como uma árvore em
uma noite sem vento. Seu silêncio é assustador. Queria que ele me
atacasse. Dissesse algo estúpido e arrogante para que eu pudesse
avançar nele. Usar minhas palavras para feri-lo.
Meu peito sobe e desce.
Justo então, a maçaneta começa a chocalhar. Meus olhos se
arregalam.
Breeze provavelmente está me procurando. Não posso cumprir o
requisito de Jinx se ela me pegar.
Agarrando o braço de Dutch, eu o arrasto para o canto do prédio.
Vejo o ginásio, uma luz gigante no céu escuro, e corro naquela
direção.
Atravessamos as portas e derrapamos até parar no saguão de
azulejos.
O ginásio já é bastante elegante, mas as reformas o
transformaram em um centro esportivo profissional. Eu olho
boquiaberta para as claraboias, os enormes banners e o balcão de
informações.
Quando sinto uma pressão em meus dedos, olho para baixo e
percebo que ainda estou segurando a mão de Dutch. Eu a solto
como se fosse uma chama viva.
Virando-me, espio o campo. Breeze está dando um passo além
do canto do prédio do teatro musical. Seu telefone está no ouvido.
Um momento depois, o meu começa a vibrar.
Mordo meu lábio inferior, mas não atendo.
— Por que você está se escondendo? — Dutch me pergunta,
sua voz escura e profunda e cheia de sombras. Ele não se move
para mais perto de mim, mas há uma carga no ar que diz que ele
está mantendo um controle apertado sobre sua contenção por
minha causa, não pela dele.
— Breeze te odeia. Não posso deixar que ela nos veja juntos. —
As palavras saem em um jato.
Minhas mãos estão tremendo.
A fachada cuidadosamente construída de "garota que não se
importa" foi demolida pela minha performance.
Sempre fico vulnerável depois de uma peça musical.
Sempre deixo um pouco demais de mim no palco.
Dutch avança em minha direção. Posso sentir seu olhar quente
em minha pele como uma tempestade de verão. Quando ele me vira
para olhar para ele, mal consigo respirar.
A linha tênue entre ódio e luxúria está prestes a ser cruzada de
uma maneira grande esta noite. Por que isso me excita? Por que
não me aterroriza?
Ódio.
Amor.
Agonia.
Eles desvanecem e se retorcem e se enrolam uns nos outros
como acordes diminutos. Posso ouvi-los gemendo através do
silêncio.
Dutch olha para mim com seus olhos âmbar escurecendo,
mandíbula cinzelada e boca dura. Ele é alto e perigoso e feito para o
desgosto. Mas está tão perdido quanto eu. Posso ver isso em todo
ele.
— Por que — Dutch insiste — você está se escondendo da
música?
— Que tipo de pergunta é essa? — pergunto tensamente,
tentando o meu melhor para parecer mais durona do que me sinto.
Ajustando meu lenço, desvio o olhar.
O olhar de Dutch não vacila por um segundo.
Meu pulso acelera. Este momento parece familiar. Dutch sempre
foi estranhamente intenso com meu outro eu. Na época, pensei que
ele era apenas mais atraído por garotas com cabelo ruivo e olhos
verdes.
Mas talvez nunca tenha sido sobre minha aparência. Talvez
sempre tenha sido a música que o fez correr para mim. Agarrar-se a
mim. Perseguir-me de uma maneira que ele provavelmente nunca
tinha feito antes e não conseguia explicar por que fazia então.
Meu telefone vibra.
Aproveito a oportunidade para me afastar dele e atender a
ligação de Breeze.
— Onde você está? — ela grita. — Você está bem? Você não
correu até em casa, correu?
— Estou bem — digo tensamente. — Só preciso de um minuto.
Breeze bufa. — Você sempre faz isso. Você sempre sangra por
todo aquele piano estúpido até ficar vazia por dentro. Eu amo sua
música, Cadey, mas odeio o que ela faz com você. Você tem que
continuar se forçando a subir lá?
— Estou frequentando Redwood com uma bolsa de música,
Breeze. Seria meio estranho se eu não tocasse música de verdade.
Se ela estivesse na minha frente, estaria revirando os olhos.
Pensar na expressão perturbada de Breeze me faz sentir um pouco
mais eu mesma. Um pouco mais no controle.
Eu me viro ligeiramente e vejo Dutch olhando para mim.
Minha melhor amiga me avisou sobre ele. Me avisou sobre o
terreno escorregadio de se apaixonar por um cara que costumava te
torturar.
Eu não sou idiota de ninguém.
Mas tenho que fazer um acordo com Jinx esta noite.
E não posso deixar Breeze atrapalhar isso.
— Você quer que eu espere para irmos para casa juntas? — ela
pergunta.
— Não. — Engulo em seco. — Eu gostaria de ficar sozinha.
— Hoje à noite? Não vou sair sem você, Cadey. Vamos lá. Estão
dando uma festa no galpão abandonado. Você vai se divertir e
esquecer todos esses metidos da Redwood Prep que não merecem
seu talento.
Forço um sorriso.
— Sério, vou passar.
— Tem certeza?
— Sim. Vai para a festa. Se divirta.
— Me manda uma mensagem quando chegar em casa. Quero
ter certeza que você chegou bem.
— Você também.
Desligo.
Dutch ficou quieto durante toda a conversa. Ele ainda está me
observando, mas meu olhar está em Breeze, que está indo em
direção à rua para pegar um táxi.
Desculpe por mentir para você, Breeze.
— Por que você está aqui? — pergunto a Dutch, meu rosto ainda
virado para a janela. — Pensei que The Kings não tivesse show
hoje.
Ele não responde à pergunta.
Por um momento, o silêncio reina.
— Se você tivesse tocado uma única vez na escola, eu teria te
reconhecido — Dutch diz finalmente. — Você pode mentir para todo
mundo, Brahms, mas sua música? É honesta demais. Vale mais que
palavras.
— É só música.
— Quem dera fosse. — As palavras são ásperas. Rudes. Ele
parece perigoso esta noite. Como se estivesse se descontrolando.
Fugindo de seus próprios demônios.
Eu não deveria estar sozinha com um cara que está em espiral.
Não quando eu também estou em espiral.
O suor ainda escorre pelo meu rosto. Me sinto quente e
pegajosa.
Um vídeo sensual...
— Não quero falar sobre isso — digo.
Ele arqueia uma sobrancelha e me estuda com cautela.
— O que você quer fazer então?
— Você pode me ensinar a nadar? — solto de repente.
As palavras ecoam pelo saguão, voltando para mim antes de
caírem no vazio. Dutch mantém aquele olhar avaliador. O controle
que ele tem sobre suas expressões é quase assustador. Não há
sequer um movimento de sobrancelha ou um tremor em seus lábios.
Espero, prendendo a respiração. Meu coração troveja no peito,
antecipando.
O que farei se ele disser não?
O que farei se ele disser sim?
Passo a língua pelo lábio inferior, notando como seus olhos se
fixam ali e se mantêm firmes.
— Agora que todos sabem que não sei nadar, será fácil me
machucar de novo. Não quero ficar indefesa. — Ergo o queixo. —
Quero aprender.
— Hoje à noite? — Ele aponta para baixo.
— Tem uma piscina bem ali.
Seus olhos deslizam sobre mim novamente, desta vez
demorando-se em meu peito e na bainha curta da minha saia roxa.
Me aproximo dele, baixando a voz.
— Se você não quiser, posso pedir ao Sol-Seu braço
imediatamente se ergue e agarra meu pulso.
— O que você realmente quer, Brahms?
Me desvencilho dele.
— Esquece.
Jinx não especificou quem deveria estar no vídeo sensual,
apenas que deveria ser sensual o suficiente para postar no
aplicativo dela. Eu poderia estar com alguém que não fosse o Dutch
esta noite.
Os nós em meu peito começam a se afrouxar. A ideia de beijar
Sol parece, estranhamente, a opção mais segura. Ele é um amigo, e
não seria estranho se eu explicasse a ele por que preciso de sua
ajuda.
Talvez essa seja a solução. Em vez de brincar com um incêndio
florestal e achar que posso sobreviver, posso acender um fósforo.
Vai queimar de qualquer jeito, mas pelo menos tenho mais chances
de sair viva de um deles.
Me viro para a porta quando a voz sombria de Dutch me corta
até o âmago.
— Dê mais um passo. Eu te desafio.
Giro nos calcanhares, minhas narinas dilatadas.
Dutch balança a cabeça e passa os dedos pelos cabelos.
— Você quer uma aula de natação, Brahms? Pode ter uma.
Sol é a escolha mais segura.
Eu deveria insistir em ir embora.
Eu deveria encontrar qualquer outra pessoa para cumprir o
requisito de Jinx.
Mas é como se meu corpo não me pertencesse mais. Não
quando Dutch coloca os dedos em volta do meu pulso e me queima
com o calor de seu toque.
Sigo-o até a piscina. O cheiro de cloro traz de volta memórias de
Christa me empurrando para dentro.
Em questão de segundos, revivo a água indo direto para meus
pulmões. A queimação. O medo. O pensamento de que nunca mais
veria Vi.
Dutch para e segura meu queixo em suas mãos. Meus olhos
encontram os dele, escuros e ardentes, e eu juro, por mais
dourados que sejam, as sombras estão se juntando como uma
tempestade no horizonte.
— Nada vai acontecer com você — sua voz é baixa e firme. —
Não vou deixar nada acontecer com você, Brahms.
Por mais estranho que pareça, apesar de todas as coisas
horríveis que ele me fez, eu acredito nele.
Ele dá um passo para trás, suas mãos grandes indo para a barra
de sua camisa. Observo enquanto ele arranca a camisa pela
cabeça. Os músculos de seus braços se contraem e incham com o
movimento. Meus olhos caem na tinta manchando o generoso
volume de seu bíceps.
Uma lembrança de arrastar minhas unhas por aquela pele
marcada atravessa meu coração como uma linha irregular.
— Você vai entrar aí completamente vestida? — Dutch pergunta,
com um tom de desafio na voz. Ele gesticula para mim. — Tire isso.
Meu corpo treme com uma mistura de frustração, perigo e
desejo. Estou quase jogando tudo pela janela, mas quando penso
em Serena e no sorriso idiota e arrogante de Miller, não consigo
fazer isso.
— Vire-se — sibilo.
Seus lábios se curvam para cima.
— Sentindo-se tímida, Brahms?
— Apenas... vire-se — disparo.
Ele o faz, seus ombros se movendo como pistões bem
lubrificados enquanto se vira para a piscina.
Desfaço meu lenço, o tecido macio beijando meu pescoço ao se
soltar. Não faz barulho algum quando cai no chão. Virando-me, tento
alcançar os botões nas minhas costas, mas não consigo fazer meus
dedos funcionarem. Desisto com um bufo, debatendo meu próximo
movimento.
Dutch se vira.
— Precisa de ajuda?
— Eu disse para não olhar — disparo. Mas não estou seguindo
meu próprio conselho. Meus olhos estão presos nos abdominais
definidos do corpo de Dutch. Ele é uma máquina enxuta e bem
lubrificada. Perigoso e perto demais.
Seu sorriso confiante me diz que ele sabe que estou olhando
para ele.
As chamas queimam minhas bochechas. Dou-lhe as costas.
— Desabotoe isso para mim.
— Peça educadamente e eu posso ser convencido.
Viro o pescoço e o encaro com um olhar sombrio.
— Desde quando somos educados um com o outro?
Ele ri e desabotoa os botões. O silêncio é tão denso que quase
desejo que ele diga algo para que possamos brigar. É melhor do
que a tensão crescente que acompanha nossas respirações cada
vez mais profundas e a aguda sensação de consciência que tinge o
ambiente à medida que cada botão se solta, revelando cada vez
mais da minha pele.
Seus dedos roçam minhas costas nuas enquanto o vestido se
abre, e eu engulo em seco. Lutando contra minha própria fraqueza,
afasto sua mão.
— Vire-se de novo — exijo.
Ele permanece imóvel e, por um momento, penso que vai
discutir comigo. Mas Dutch pressiona os lábios e obedece.
Deslizo para fora do vestido, deixando-o cair aos meus pés. O ar
frio atinge minha pele exposta e faz meus pelos se arrepiarem.
Tirando rapidamente os sapatos, procuro um lugar para posicionar
meu celular. O único lugar é a espreguiçadeira da piscina.
— Brahms, o que você está fazendo? — Dutch pergunta,
começando a se virar.
— Não olhe! — grito. Sem tempo a perder, coloco meu celular na
cadeira e depois envolvo-o com meu lenço e vestido para que não
fique muito óbvio.
Com o coração disparado, dirijo-me à parte rasa da piscina e
entro na água. Dutch ouve o barulho e seus olhos encontram os
meus, rápidos, frios e devastadores.
Ele dá um passo.
Dois.
Três.
E então o príncipe de Redwood Prep entra na água comigo.
CHAPTER
TRINTA
DUTCH
Ela pensa que eu não sei sobre o celular.
Se eu estivesse com melhor disposição, eu a puniria
imediatamente por tentar me filmar sem minha permissão. Odeio
garotas que fazem joguinhos assim, mas estou um pouco fora de
mim esta noite.
A bomba que o pai soltou no jantar foi suficiente para rasgar o
tecido do mundo de Zane e prometer mais problemas para nós três.
Me incomoda não saber o que ele está planejando e, até que ele
faça outro movimento, não há nada que eu possa fazer para impedi-
lo.
Depois do jantar, fui direto para minha guitarra. A sensação de
impotência me fez sentir como se estivesse pendurado à beira de
um precipício. Mas não importava o quanto eu dedilhasse com
força, o mundo continuava fora de foco.
Então vi uma postagem da conta da escola com a programação
do concerto de hoje à noite.
O nome de Cadence estava na lista.
Eu tinha que estar lá.
Eu tinha que ouvi-la tocar.
Se eu perdesse sua apresentação por um segundo, teria
agarrado alguém pelo pescoço e exigido que a colocassem lá em
cima novamente. É o quão perturbado eu estava, o quão
desesperado por alívio.
Mas cheguei a tempo de vê-la tomar seu lugar atrás do piano,
inundada de luz. Sua cabeça estava inclinada sobre as teclas,
fazendo minha respiração falhar, deixando meu peito apertado.
E sua música...
Droga. Cada segundo valeu a pena.
Cada nota.
Cada acorde.
Cada detalhe.
Ela é tão sincera quando toca. Meus olhos deslizam para o
celular novamente. Talvez seja por isso que ela é uma péssima
mentirosa.
— Vamos ficar por aqui — diz Cadence, soltando seu aperto
mortal na barra para indicar um círculo. É uma área que,
coincidentemente, está em perfeita visão do celular dela.
Olho para o aparelho novamente. Cadence praticamente apoiou
seu celular com a câmera traseira voltada para nós. As roupas que
ela jogou por cima teriam funcionado como disfarce se fossem mais
substanciais. Mas aquele vestidinho mal cobria seu corpo. Não está
fazendo muito para esconder seu celular.
Deslizo as mãos pela água. O ar está frio e, como estamos na
parte rasa, a metade superior do meu corpo não está submersa.
— Você não pode ficar aí — digo, observando-a se agarrar
desesperadamente às barras de ferro que cercam os degraus.
— Por que não?
— Você não pode nadar se seus pés estiverem colados na
escada. — Inclino o queixo para baixo. Sob a água, seus dedos dos
pés estão firmemente plantados nos degraus elevados.
Ela lambe os lábios nervosamente. A água mal cobre seu meio,
dando-me uma visão desobstruída de seu sutiã e calcinha pretos
práticos.
Tanta pele à mostra.
Quero raspar minha língua contra cada centímetro até conhecê-
la como conheço minha guitarra. Até poder dedilhar acordes com
um toque suave, sabendo exatamente onde acariciar para obter o
som que quero.
Ela é tentação na água. Uma sereia de destruição.
Pele pura e impecável de marfim. Pernas intermináveis. Meu
corpo já está doendo por mais e eu nem a toquei ainda.
Cadence dá um passo incerto para frente. E então outro. A água
agora chega até o meio do torso. Ela pode ficar de pé
confortavelmente e, ainda assim, seus olhos têm um toque de
medo.
Ela não deve ter superado o que aconteceu com Christa da
última vez.
Envolvo meus dedos nos dela e tento guiá-la para frente.
Ela resiste.
— Aqui. — Seus olhos se voltam para o celular antes de saltar
para mim. É rápido. Sutil. Se eu já não soubesse o que ela estava
fazendo, não teria pensado nada sobre isso. — Vamos ficar na parte
rasa.
Olho para ela e observo o movimento nervoso de sua língua
contra o lábio inferior. Ela está tentando me manipular novamente.
Tentando me usar para seus próprios propósitos.
Estou perdendo a paciência.
Eu disse que deixaria passar.
Mas não mais.
Quero dar-lhe uma lição.
E quero que essa lição doa.
Levo-a mais para dentro da piscina até que ela esteja submersa
até o pescoço.
— Não posso ir mais longe — ela sibila, tentando desvencilhar
sua mão da minha.
De frente para ela, noto a peruca em sua cabeça. Ela não a tirou
quando estava se despindo. O laranja lhe cai tão bem quanto o
vermelho, mas ela não precisa disso.
Agarrando a peruca pela faixa embutida, jogo-a para o lado da
piscina.
Cadence ofega.
— Você não precisa fingir comigo — digo sombriamente.
Antes que ela possa protestar, deslizo minhas mãos por baixo
dela e a ergo para que fique flutuando sobre a água.
— Dutch! — Sua voz assustada ecoa pelas paredes.
— Shh. — Coloco uma mão estabilizadora em seu ombro. —
Quanto mais tensa você estiver, mais provável será que se afogue.
Você tem que confiar que a água vai sustentá-la.
— Você acha que isso ajuda? — ela retruca. Tanta ousadia.
Mesmo quando está à minha mercê.
— Então pense em algo que te relaxe.
— Como espera que eu pense quando você pode literalmente
me afogar no próximo segundo? — ela atira de volta.
— Já te disse. Não vou deixar que nada aconteça com você,
Brahms.
— Me perdoe se isso não é exatamente reconfortante.
Não consigo conter a risada que sai do meu peito.
Ela solta um suspiro irritado. — Nada me relaxa. Estou tensa o
tempo todo, esperando o próximo sapato cair.
Deslizo meus dedos ao longo de seus ombros nus. — E o piano?
— pergunto, mantendo um olho em suas pernas. Ela ainda as
mantém apontadas para baixo.
— O piano não me acalma. É... é algo com o qual não posso
viver... mas também não posso viver sem ele.
— Isso significa que você o ama? — pergunto, removendo uma
das minhas mãos do corpo dela. Ela não percebe. Seus olhos estão
fechados, os cílios brilhando com gotas d'água. Suas narinas estão
dilatadas. — Ou que você o odeia?
— Ambos.
— Complicado.
— Extremamente. Você já amou e odiou algo na mesma
medida? Não é divertido. É exaustivo. A música tira algo de mim
toda vez que me entrego a ela. É o ar que respiro, mas é também
como se o ar fosse venenoso e cortasse um pedaço da minha vida
cada vez.
Removo minha outra mão das costas dela. Estou perto, mas não
a estou tocando em nenhum outro lugar.
— Se vai te matar de qualquer jeito — sussurro —, isso não
significa que é melhor amá-la loucamente? Pelo menos assim, você
se sentirá viva até o fim.
Seus olhos se abrem repentinamente. Nossos olhares se
encontram e se fixam.
De repente, ela começa a afundar.
Estávamos flutuando para longe da parte rasa e Cadence entra
em pânico quando percebe que seus pés não tocam mais o chão.
Envolvo-a com meus braços, prendendo-a ao meu peito. — Eu
te peguei.
Ela está perto demais agora, suas mãos envoltas no meu
pescoço e seu corpo molhado colado ao meu. Gotas escorrem por
sua boca carnuda e provocam a curva de seu queixo antes de
caírem de volta na piscina.
É a primeira vez que Cadence Cooper se agarra a mim. Não
posso acreditar o quão bom isso é. Não posso acreditar o quão
desesperado estou para nunca deixá-la ir.
— E quanto a você? — Cadence pergunta, sua voz tão baixa
que mal posso ouvi-la. — A música ainda é um fardo?
Seus olhos são grandes galáxias castanhas. Se eu não tomar
cuidado, me verei flutuando neles como um astronauta
desconectado da nave, cortando através de um vasto e infinito
espaço.
Eu realmente gostaria de saber como ser cuidadoso com ela.
Mas nunca fui capaz disso. Especialmente quando ela toca
aquele maldito piano.
Cadence.
Ruiva.
Brahms.
Meu calcanhar de Aquiles.
— Há alguns fardos que você não solta, mesmo que signifique
se afogar. — Traço um dedo pela lateral do rosto dela. — A música
é assim para mim. É um peso que eu seguro porque a alternativa é
ficar vazio. — Seus olhos se fecham quando deslizo minha mão
pela perna dela e a envolvo em minha cintura.
— Ser vazio é tão assustador assim?
Em vez de responder, envolvo a outra perna dela em minha
cintura até que ela esteja enrolada em mim como musgo em um
pilar de marfim.
Seu olhar está nebuloso, mas ela luta contra isso, os olhos
deslizando preguiçosamente para o telefone como se não pudesse
se lembrar por que é importante, apenas que é.
Aproximo meu rosto, meus lábios pairando sobre os dela. Ela se
afasta no último segundo. — A-a parte rasa.
Meu temperamento se inflama. Mesmo agora ela ainda está
pensando no que pode tirar de mim.
O sorriso que ofereço a ela é cruel. — Nade até lá se quiser.
Seus dedos apertam meu pescoço. Seu coração está batendo
contra o meu.
Mantenho meu rosto sobre o dela, encarando-a. Desafiando-a a
me soltar.
Ela não o faz.
Ela não pode.
Ela está presa.
O ar transborda com o mesmo magnetismo aquecido que nos
uniu no teatro.
— Você não se cansa de lutar comigo, Dutch? — ela sussurra,
seus olhos baixando para minha boca.
É preciso esforço para não deixar meu sorriso se expandir. Ela
está tentando me seduzir para fazer o que ela quer.
Por um breve momento, considero ceder. Considero valsar direto
para o campo de visão do telefone dela, fingindo que nunca percebi
e dando a Jinx o show que ela provavelmente exigiu.
Cadence me beija suavemente. Sua boca é quente contra a
minha. Mais macia que seda. Um argumento convincente.
Aconchego suas costas, puxando-a para mais perto.
Ela se afasta, seus olhos líquidos escuros. — Estou curiosa
sobre algo.
— O quê? — rosno. Não estou realmente com vontade de
conversar agora.
— Por que tem que ser eu?
Mantenho seus olhos reféns. — O que diabos isso significa?
— Há toneladas de garotas que dariam de bom grado sua
virgindade para você. Inferno, elas fariam fila e esperariam sua vez.
Por que se dar ao trabalho de me escolher quando eu não te quero?
— Você ainda não entendeu, não é? — rosno, tudo de perverso,
sexual e insaciável fervendo no meu sangue. — Quer você me
queira ou não, não importa. De qualquer forma, você me pertence.
Suas sobrancelhas se apertam.
Chega de conversa.
Empurro minha boca contra a dela e deslizo meus dedos pela
parte interna de sua coxa. A água bate na minha mão, tentando me
afastar, mas eu a supero para acariciar sua carne sedosa,
trabalhando cada vez mais perto até...
Lá.
Mergulho nela.
Ela solta um suspiro sem fôlego e eu o engulo, provando o sabor
terroso da piscina misturado com o doce mel de sua boca.
Bem que poderíamos estar em uma maldita banheira de
hidromassagem, dado todo o calor que está explodindo ao nosso
redor.
Ela está tremendo tanto agora que tenho que prendê-la contra a
parede da piscina para manter o ritmo. Cadence arranha meus
ombros, arqueando as costas, boca aberta. Sexy pra caramba.
— Olhe para mim, Cadence — exijo.
Seus olhos se abrem de repente.
Continuo a devastá-la e ela não tira os olhos de mim desta vez.
Meu corpo protesta, querendo tanto invadi-la completamente e
tomar o que quero, mas a visão de Cadence Cooper com a boca
aberta e sua expressão desmoronando com prazer violento é pura
poesia. E terá que ser suficiente por enquanto.
Continuo provocando-a mesmo quando ela grita, olhando
diretamente em seu rosto até que aqueles olhos cor de chocolate se
abram novamente e me vejam. Me reconheçam. Reconheçam a
verdade.
Tu me pertences.
A raiva surge rapidamente em sua expressão, mas ela não tem
controle sobre seu prazer. Eu tenho. Isso também me pertence.
Beijo-a quando ela abre a boca como se fosse me responder.
E então a abraço.
O mundo inteiro poderia desaparecer e eu nem notaria.
É a lição dela e, no entanto, sou eu quem se sente esgotado.
Uma dor ardente se desenrola como um chicote, exigindo mais dela,
exigindo que eu me aproxime do que quer que seja que está me
fazendo sentir tão vivo.
Beijo seu pescoço e então a encaro, observando seu peito subir
e descer enquanto ela recupera o fôlego.
— Gostarias de fazer tudo de novo na câmera? — pergunto,
minha voz profunda e baixa, beirando uma obsessão enlouquecida
que começa a escapar de sua jaula.
Ela está com os membros lânguidos, cabelos caídos no rosto,
olhos ardendo de desejo e nojo. O tipo de olhar que diz que ela
odeia o quanto gostou daquilo. Ou talvez ela odeie que fui eu quem
fez isso com ela.
Por um segundo, a confusão cruza seu rosto. E então ela
entende.
Sua raiva vem à tona e ela me empurra, deixando suas pernas
caírem mais fundo na água e agarrando a borda da piscina quando
a solto.
— Seu bastardo — ela sibila.
Observo-a sair, protestando contra a perda de seu calor mesmo
enquanto sorrio vitorioso.
Cadence range os dentes, cerrando a mandíbula. Ela se abaixa
para pegar seu vestido e enfia os pés nele, puxando-o para cima
sem se preocupar com os botões nas costas.
Seu corpo está tão molhado que deixa manchas escuras no
tecido roxo de sua fantasia.
— Quando tu soubeste? — ela pergunta, com o rosto virado para
longe de mim.
Saio da piscina.
Seus olhos caem para minhas calças e se arregalam antes de
voltarem ao meu rosto. Ela dá um passo para trás. Uma pequena
corça assustada na presença de uma píton.
Preciso que ela continue me temendo. Continue me odiando.
Não posso deixá-la saber com que frequência ela me faz perder o
controle.
Em vez de responder à sua pergunta, caminho até seu telefone,
encerro o vídeo e então o apago.
— Ei! — Ela se lança em direção ao telefone.
Jogo-o de volta na cadeira e olho por cima do ombro para ela. —
Não contactes a Jinx. Não faças nenhum acordo. Nem sequer
respires a menos que eu te diga — rosno, ainda lutando contra
minha necessidade por ela. — Há toalhas naquele armário. Seca-te
e depois me encontre no estacionamento. Vou te levar para casa.
CHAPTER
TRINTA E UM
DUTCH
Mal consigo ouvir meu próprio riff de guitarra por cima dos gritos
dos fãs que lotam o estádio ao ar livre até onde a vista alcança. Eles
estão vestidos de monstros, personagens de desenhos animados e
animais. Mas não importa quão diferentes sejam suas fantasias,
eles têm uma coisa em comum.
Eles estão amando nossa música.
Deveria ser um impulso para o ego - todos esses gritos e
adoração em massa. Deveria significar algo para mim.
Mas não significa.
Nunca significou.
Na verdade, hoje à noite, enquanto destroço meus dedos na
guitarra, com o suor escorrendo pelo meu rosto, não estou lá com a
multidão cantando a música.
Também não estou preocupado com as notas que estou
tocando.
Minha mente está em Brahms.
A música ainda é um fardo?
Da última vez que ela me fez essa pergunta, estava disfarçada.
Desta vez, era ela mesma e ainda assim deixou uma maldita
impressão.
A música ainda é um fardo?
Achei que era o único provocando-a na piscina ontem à noite.
Como é que ela sempre consegue me morder quando eu ataco?
Meu coração bate no ritmo do bumbo. A multidão está
absorvendo cada nota que produzimos. Eles pagaram por um show.
Caramba, só o Zane já está dando um show e tanto.
Meu gêmeo golpeia suas baquetas contra a bateria,
descontando suas frustrações no instrumento. Ele é um profissional
e toca com um metrônomo desde que usava fraldas. Zane consegue
manter um ritmo constante e perfeito no meio de um furacão.
O problema é... ele está tocando como se fosse o furacão.
Deixo a bateria tomar conta, já que está tão alta e insistente.
A multidão pensa que é ensaiado e vibra com a inesperada
pausa musical. O barulho fica ainda mais alto quando o calor do
palco me atinge e eu arranco minha camisa pela cabeça.
As garotas na multidão vão à loucura, gritando como se
estivessem sendo assassinadas. Posso sentir a adoração delas de
algum lugar fora de mim, mas não faz a menor diferença. Seus
rostos são todos uma mistura, se fundindo na escuridão além das
luzes do palco.
Mal consigo distinguir as decorações. Há rosas plásticas pretas
por toda parte. Serpentinas pretas e laranjas bregas me fazem
questionar se uma mãe da Associação de Pais e Mestres estava
encarregada da decoração.
As luzes estroboscópicas roxo neon são quase cegantes
enquanto cruzam nossa parte do palco novamente. Máquinas de
fumaça soltam névoa de ambos os cantos. É uma grande produção.
Alguns diriam que está um pouco acima do nosso nível salarial.
Não que eu tenha me importado alguma vez com o que as
pessoas achavam que era nosso nível salarial.
Encontro os olhos de Finn antes de me virar para segurar o
microfone. Meu irmão agarra o baixo, mantendo um ritmo calmo e
constante, e ancorando a batida frenética de Zane para que pareça
ensaiada.
Passar os dedos pelo meu cabelo espalha um jato de suor pelo
palco. Balanço a guitarra de volta por cima da cabeça e termino o
set.
Depois que a última nota ecoa, a multidão ruge por um bis, mas
não atendo. Se Zane fizer mais uma rodada naquela bateria, vai
fincar as baquetas direto na face do instrumento e vamos parecer
idiotas.
Levanto uma mão sobre a cabeça, pegando minha camisa de
onde a tinha descartado ao lado dos amplificadores. Finn também
acena, colocando seu baixo no suporte delicadamente. Zane é o
único que não está nem aí para a multidão.
Ele pega a garrafa que estava escondida atrás do bumbo,
destampa e vira. Duzentos dólares que aquele líquido transparente
não é água.
Finn e eu nos viramos para seguir Zane para fora do palco, mas
ainda podemos ver a multidão atrás da plataforma. A festa de
Halloween desta noite está sendo realizada em um velho armazém
perto de um cemitério.
Apropriado para o Halloween, mesmo que seja um pouco clichê.
O armazém fica em um lado abandonado da cidade com poucos
edifícios. Através das grandes janelas quebradas, as estrelas estão
em plena força.
— Cuidado. — Finn me joga uma garrafa de água.
Eu a pego com as palmas abertas e uso minha camiseta
descartada, que está molhada e pingando de suor, para limpar o
resto do meu rosto.
Enquanto caminhamos para nosso camarim, dou uma olhada ao
redor. A frente do prédio foi decorada e pintada para os
espectadores do show, mas os fundos mostram o desgaste que o
armazém sofreu ao longo dos anos. As portas estão fora das
dobradiças, as paredes cheiram a mofo, e o chão é de cimento
rachado e lascas de sujeira.
A equipe do palco está se movimentando, mas todos param e
prendem a respiração quando passamos por eles. A maioria dos
shows é assim. As pessoas ou não esperam muito de nós porque
estamos no ensino médio ou acham que chegamos até aqui por
causa da influência de Jarod Cross.
Quando ouvem nosso som, há sempre esse reconhecimento
tímido, como se quisessem que pensássemos que tínhamos a
aprovação deles desde o início.
Passo por eles sem reconhecimento e sigo meus irmãos pelo
corredor que leva aos camarins. Mesmo a essa distância do palco,
ainda podemos ouvir a banda de Bex Dane ecoando na noite
escura.
O primeiro quarto pelo qual passamos está ocupado. Outra
banda está lá, cheirando cocaína. Garotas seminuas estão em seus
colos, prontas e dispostas a fazer o que quer que eles queiram só
para dizer que dormiram com estrelas do rock.
Eu odeio meu pai pelas escolhas que ele fez, mas se há uma
indústria que te tenta por um caminho repleto de más decisões, é a
indústria da música.
Zane se joga em um sofá e estica as pernas. — Já sei o que
você vai dizer.
— Eu não disse nada — resmungo.
— Sua cara diz tudo. — As narinas de Zane se dilatam. — Eu
sei. Peguei pesado demais no set hoje à noite.
— Você manteve o ritmo. A multidão gostou da energia. — Ele já
está se criticando o suficiente. Não vou me juntar a ele.
Zane passa os dedos agressivamente pelo cabelo. Ele raspou as
laterais recentemente, então só o topo está comprido o suficiente
para reter seu suor.
— Não vou deixar o pai mexer com minha cabeça para sempre.
Vou me resolver — diz Zane.
Finn coloca uma mão em seu ombro e aperta em solidariedade
silenciosa.
Olho para meu relógio. É uma e meia.
— Vou ficar para trás e guardar os instrumentos — ofereço. —
Vocês dois podem ir se tiverem outros planos.
Zane esfrega a têmpora. — Minha cabeça está latejando. Vou
para casa primeiro.
Não sei se ele vai chegar tão longe. Há muitas mulheres aqui
que adorariam tirar a Srta. Jamieson da cabeça dele. Mas eu aceno
e Zane sai.
Finn observa a porta enquanto ela se fecha com um clique. —
Ele está apertando o botão de autodestruição com tanta força que
vai quebrar antes de terminar.
— Se ele for longe demais, a gente o traz de volta.
Finn assente.
Suspiro cansado. — Alguma notícia do Sol?
— Não. — Finn faz uma pausa. — Mas sei com certeza que ele
não foi enviado para mais nenhum campo de treinamento. Está
ficando perto de casa.
— Bom. Ele precisa da família agora mais do que nunca. Um
canhão solto já é mais do que suficiente para lidarmos. — Lanço um
olhar para a porta pela qual Zane saiu.
— O que vamos fazer sobre o Miller? — Finn pergunta,
encostando-se na parede e me encarando.
Esfrego as palmas das mãos nas bochechas. Imagens do lindo
rosto de Brahms enquanto ela gemia por mim invadem minha
mente. Durante toda a minha vida, fui uma sombra escura, nunca
passando muito perto do sol, apenas navegando na dormência e na
apatia.
Brahms é aterrorizante.
Ela me puxou para mais perto da luz tanto quanto eu a arrastei
para a escuridão.
— Não podemos tocar no amigo — digo com firmeza.
Os lábios de Finn se contraem, mas ele não comenta.
— Miller não vai gostar de ter sua autoridade desafiada em
público. Isso o tornará mais teimoso. Precisamos de outra maneira
de transmitir nossa mensagem.
— Vou marcar uma reunião privada.
Faço que sim com a cabeça. — Vamos acabar com isso na
segunda-feira.
CHAPTER
TRINTA E DOIS
CADENCE
Na manhã de segunda-feira, preparo ovos e torradas para Viola
muito antes dela acordar. Depois de rabiscar um bilhete para avisá-
la que fui para a escola mais cedo para meu trabalho voluntário,
sigo para Redwood Prep.
Meus passos diminuem quando me aproximo do prédio principal.
O sol está apenas começando a nascer, seus longos dedos
dourados se agarrando às torres de Redwood Prep como um
monstro pronto para reivindicar seu prêmio. O gramado é
impecavelmente cuidado, com roseiras podadas e um busto do
fundador.
Redwood Prep parece mais autêntica quando não há ninguém
aqui. Na quietude sinistra, ela não consegue esconder o quão
monstruosa é. A escuridão escala as janelas como hera venenosa,
serpenteando até o centro do pátio.
A porta da frente está trancada, então uso a porta lateral. Meus
passos ecoam na escuridão. Vou direto para o armário do zelador,
pego luvas, uma vassoura e um esfregão e começo a trabalhar na
primeira sala de aula.
A Wiegenlied de Brahms toca alto em meus ouvidos, me
transportando para um mundo que realmente faz sentido. Um lugar
onde Dutch Cross e seus dedos perversos não existem e o calor
ardente que ele arranca do meu corpo não é real.
Enquanto a música acaricia meu ouvido, calma e doce, percebo
que meu pulso ainda não está desacelerando.
O concerto de Halloween foi um fracasso total.
Não só caí direto na armadilha de Dutch, como ele sabia o
tempo todo que meu telefone estava gravando. Agora não tenho
nada para negociar com Jinx.
É o suficiente para trazer lágrimas de frustração aos meus olhos.
Não sou a donzela em perigo esperando que Dutch apareça para
me salvar. Inferno, ele pode ser quem aparecerá para me arruinar.
Eu realmente dei o meu melhor, mas mais uma vez, minhas
tentativas de ganhar controle sobre minhas circunstâncias
fracassaram miseravelmente.
Sem algo para usar contra meus inimigos, Serena e eu estamos
à mercê deles.
Sem voz.
Sem opinião.
Sem saída.
Rangendo os dentes, ataco minhas tarefas de limpeza.
Estou trabalhando na minha última sala de aula quando, no
canto do olho, noto uma sombra se movendo diferente das outras.
Meu coração acelera e imediatamente arranco meus fones de
ouvido. Que diabos foi isso?
Redwood está infestada de gremlins ricos e privilegiados, mas
será possível que também esteja sendo assombrada por um
adolescente rico morto-vivo?
Passos se aproximam de mim.
Firmes.
Calmos.
Determinados.
Eletricidade percorre minhas costas.
Sei exatamente quem está vindo.
E eu preferiria ter arriscado com um fantasma de Redwood.
Meus dedos se apertam em torno da vassoura e eu a levanto
como uma espada quando Dutch entra na sala de aula.
— Que diabos você está fazendo aqui?
Ele para, uma sobrancelha arqueada. Está vestido com uma
camisa branca de botões que se agarra aos seus músculos. Mesmo
à distância, ele domina a sala e faz cada nervo do meu corpo ficar
em alerta.
— Estou supervisionando seu trabalho voluntário a partir de
agora — Dutch inclina o queixo para a vassoura. — Ordens oficiais.
Meu coração acelera.
— Você está mentindo.
— Por que eu estaria acordado a essa hora se não fosse
obrigado, Brahms? — Seus olhos estão mais frios que gelo.
Recuo instintivamente. Sou um feixe de nervos e odeio que ele
possa ver o quanto me deixa abalada, mas não consigo controlar.
Meu corpo automaticamente muda para o modo de preservação.
Se Dutch está aqui, é porque está atrás do meu sangue.
Ou pior - do meu prazer.
E não sei qual é mais perigoso.
Ele avança pela sala, seus olhos fixos em mim. Como seu pai,
Dutch carrega uma aura de caos ao seu redor que não pode ser
escondida. Mas nesta manhã, sinto uma malícia mais profunda
borbulhando logo abaixo da superfície.
Ainda mantendo a vassoura entre nós, contorno a mesa e
mantenho uma boa distância.
Mas Dutch não se aproxima de mim. Em vez disso, ele passa os
dedos pelo parapeito da janela que dá para os jardins.
Quando afasta as mãos e esfrega os dedos, franze os lábios
levemente.
— Você chama isso de limpeza, Brahms? — Ele balança a
cabeça. — Isso não vai funcionar para mim.
Gemo silenciosamente, já sabendo o que me espera.
Pelos próximos trinta minutos, Dutch cruza os pés e me observa
limpar cada canto da sala de aula.
— Você perdeu um lugar — diz ele, apontando para o chão.
Eu me endireito e olho feio para ele.
— Você assumiu meus turnos só para me torturar?
— Por quê? — Ele inclina a cabeça. — Não está feliz em ver
este rosto? Ou gostaria de montar uma câmera primeiro?
— O que você quer? Um pedido de desculpas?
Seus lábios se curvam, um sorriso ameaçador.
A luz do sol entra pelas janelas, destacando sua beleza fria.
Arrogante.
Brutal.
Implacável.
Há um impulso em meu estômago, me incitando a ir até lá e
bater nele com o cabo da vassoura até deixá-lo roxo. Mas nem
mesmo hematomas poderiam estragar aquele rosto lindo.
— Você deve ser feito de puro mal se está disposto a acordar tão
cedo só para me aterrorizar, Dutch. Você não tem hobbies? Uma
vida?
Outro sorriso passa por seu rosto, mas não me engano. Esse
sorriso não é nada além de um lampejo de escamas brilhantes em
uma serpente.
— Vejo você falando muito e limpando pouco, Brahms. — Ele
pega um pano do carrinho de limpeza e o joga para mim. Cai aos
meus pés como um pássaro com as asas cortadas. — Volte ao
trabalho.
Foi-se a paz que eu sentia quando cheguei aqui esta manhã. A
raiva percorre minha corrente sanguínea, implorando para que eu
faça algo, qualquer coisa para virar o jogo a meu favor.
Mas Dutch me pegou. Não posso arriscar minha bolsa de
estudos e se ele realmente está supervisionando meu estágio, então
não tenho escolha a não ser ouvi-lo.
Com um bufo, me abaixo, arranco o pano do chão e me viro para
a janela.
Dutch se apoia na mesa, me observando.
— Vou fazer uma visita ao Miller hoje.
Eu me viro rapidamente. — Você conseguiu algo contra ele?
Seu olhar gélido é a única resposta que recebo.
— O que você planeja fazer?
Ainda nada.
Com um bufo, me viro para a janela. — Tudo bem. Faça o que
quiser. Não me importo.
A cadeira em que Dutch está sentado range quando ele a
balança nas pernas traseiras. — Você já namorou alguém?
Minhas sobrancelhas se arqueiam. Que tipo de pergunta é essa?
O olhar de Dutch é fixo enquanto espera minha resposta.
Franzo a testa para ele. — E você?
— Não — ele responde sem rodeios.
Eu reviro os olhos. — E a Paris? Ou a Christa? Eu me lembro
claramente de ver a mão dela dentro da sua calça uma vez no
almoço.
— Ciúmes?
Eu bufo.
— A gente só se divertiu. Só isso. Elas sabiam que era apenas
uma boa diversão e nada mais.
— Que cavalheiro.
Ele parece impassível. — Você já colocou suas mãos dentro das
calças do Hunter?
— Eu não te devo explicações. — Limpo a janela
agressivamente.
— Você já viu um cara pelado antes?
— Já vi — respondo bruscamente.
— Aquela vez que você me viu de sunga não conta.
Fico vermelha. Droga. Minha pele está me entregando.
Dutch ri. — Não sabia que você era tão inocente, Brahms.
Meu peito se aperta. Ele soa tão presunçoso. Tão confiante.
Eu o odeio mais do que já odiei alguém.
Eu o quero mais do que já quis alguém.
E não sei como controlar isso.
Ele cruza os braços sobre o peito. — Você é uma daquelas
garotas que planeja se guardar para o casamento?
Lambo os lábios, meus olhos se estreitando em sua direção.
— Porque se for, eu respeitaria isso.
Minhas sobrancelhas se arqueiam.
Ele inclina a cabeça. — Eu me casaria com você.
Uma risada sem humor escapa dos meus lábios. — Eu nunca
seria estúpida o suficiente para acorrentar minha vida à sua. Você
acha que sou louca?
— Você tem que ser um pouco louca para manter minha atenção
por tanto tempo, Brahms.
— Então agora sua obsessão por mim é minha culpa? — Reviro
os olhos. — O que há com todas essas perguntas?
— Eu precisava verificar.
— Verificar o quê?
— Que você nunca passou da primeira base com um cara antes
— ele diz confiante. — Que eu sou seu primeiro em tudo.
— Você tem desejo de morte? — Meus dedos se apertam no
pano.
Seus olhos encontram os meus. Aquela expressão presunçosa
ainda está em seu rosto.
Eu me irrito. — E você? Com quantas garotas você já esteve?
— O suficiente.
— O que significa que você perdeu a conta.
Ele dá de ombros.
Uma onda fria de ciúmes passa por mim. O que é ridículo. Por
que me importo se Dutch transou com a escola inteira? Não é da
minha conta.
Dutch ri como se pudesse sentir minha irritação. — Mas você foi
a primeira e a única que eu tive em cima de um piano.
Meu corpo esquenta com a lembrança de nossos beijos
apaixonados. A tensão se espalha pelos meus ombros.
Isso não é justo. Preciso que ele se sinta tão desequilibrado
quanto eu.
Preciso que ele sangre.
— O Sol está namorando alguém? — pergunto com um sorriso
calculista. — Você acha que ele diria sim se eu o convidasse para
sair?
Dutch fica frio. Ele se desdobra de sua posição no banco, lenta e
metodicamente. Uma pantera esticando as pernas.
Estou tão ciente de cada movimento que ele faz que meu
coração começa a bater no ritmo de seus passos.
O ódio corre selvagem sob as correntes do ar, mas se sobrepõe
a algo ainda mais perigoso - o desejo.
Olhos âmbar punitivos perfuram um buraco em meu rosto. Meu
coração bate freneticamente, ansioso para fugir dele ou se
aproximar.
Mas tudo o que posso fazer é ficar ali, congelada, enquanto
Dutch se move atrás de mim, seu cheiro envolvendo meus braços
como faixas de metal.
Meu coração estúpido não parece entender que esse cara é ruim
para mim.
É humilhante, essa fraqueza.
Pensei que tinha banido quaisquer sentimentos que havia
desenvolvido por ele, mas as migalhas que sobraram estão
causando estragos.
Ele tentou me destruir uma vez e falhou. Quanto mais de mim
ele vai tirar se eu lhe der uma segunda oportunidade?
Dutch abaixa o rosto de modo que suas bochechas quase
encostam nas minhas. Se eu inclinar a cabeça de lado - apenas um
centímetro - seu queixo roçará minha orelha.
A temperatura na sala sobe para mais de quarenta graus.
Estou apertando o pano com todas as forças, qualquer coisa
para me manter parada. Para me manter ancorada quando estou no
meio de uma força da natureza que pode nivelar corações e mentes
e fazer o errado parecer tão, tão certo.
— Ninguém mais pode ter você, Brahms — Dutch rosna. — Não
importa o quanto você lute contra mim, não importa o quanto você
arranhe e morda e se debata, você sempre será minha.
Minhas narinas se dilatam. Tento me forçar a ir embora, a me
mover para uma distância segura, a não jogar seus estúpidos jogos
mentais, mas estou completamente congelada.
Estremeço quando seus lábios roçam a ponta do meu lóbulo.
— Eu posso te favorecer, mas não pense que pode me provocar
porque eu deixo você se safar.
Estou me afogando na corrente, presa contra seu corpo.
Felizmente, ainda há uma parte de mim que tem espaço para lutar.
— O que você quer, Dutch? O que eu preciso fazer para você
me deixar em paz? Você quer uma explicação? Um pedido de
desculpas? Quer que eu diga que deveria ter te contado que eu era
a 'Ruiva'? Não segure a respiração. Não me arrependo de nada,
exceto de ter te conhecido.
Ele olha para mim. Seus lábios estão curvados cruelmente.
Eu olho para cima. Emoções fervilham em seus olhos cor de
avelã. Raiva e calor e nojo e desejo colidindo uns contra os outros
como ondas em guerra em um tsunami.
Uma faísca percorre meu corpo. É a mesma onda de poder que
senti naquela noite quando Dutch me pegou no vestiário como meu
outro eu.
Naquela noite, ele não me reconheceu como Cadence Cooper, a
bolsista que ele havia ameaçado expulsar de Redwood. Naquela
noite, ele viu uma garota que queria impressionar.
Ele estava muito menos espinhoso e abrasivo. Quase suave
quando falava comigo, quase vulnerável com as coisas que
compartilhava comigo. E eu fiquei lá, sabendo quem ele era e quem
eu era e o que essa informação significava.
Fiquei lá e eu tinha poder.
Finalmente.
Eu podia controlar em vez de ser controlada.
Quer Dutch saiba ou não, ele ficar com raiva de que eu possa
estar interessada no Sol mostra uma rachadura em sua armadura.
Coloca um punhal em minhas mãos e, ah, eu vou valorizar esta
oportunidade de atacar.
— Por mais que você ache que me controla, será que pode
controlar o Sol? E se eu dissesse que gosto dele e ele gosta de
mim? — sussurro provocativamente.
Deixe-o fermentar em seu ciúme. Deixe-o assar em seu próprio
caixão. Por que eu deveria resgatá-lo? Por que eu deveria mostrar a
ele que meu corpo anseia pelo dele como as flores anseiam pela luz
do sol?
Dutch me encara com a luz do sol da manhã brilhando como as
chamas do inferno em seus olhos. Sua mandíbula se aperta e seus
músculos estão tão tensos que eu poderia lançá-lo ao espaço com
apenas um toque dos meus dedos.
— Você tem sentimentos pelo Sol? — ele sussurra.
— Talvez.
Não estou dando a ele uma saída. Ele me encurralou tantas
vezes, me empurrou para enfrentar partes de mim que eu nunca
quis liberar. Agora é minha vez.
Dutch desliza o polegar sobre meu lábio inferior, provocando
uma dor que faz um suspiro escapar dos meus lábios.
— Boa tentativa — ele rosna como um animal.
Meu coração troveja.
— Seu corpo não mente, mesmo que você minta, Brahms. Você
me desejou desde o primeiro momento em que pôs os olhos em
mim, não é? E há uma parte de você que não suporta isso. Da
mesma forma que eu.
Minha respiração escapa em ofegos ásperos e, embora eu
desejasse ser mais forte, meus joelhos cedem com o calor.
Numa voz tão suave que me pergunto se imaginei, Dutch diz: —
Continue falando bobagens sobre outros homens e talvez eu
realmente me case com você.
Meus olhos se arregalam.
Os dele se estreitam com despeito.
Eu recuo, certa de que ele está brincando comigo ou tentando
levar vantagem. Mas os olhos de Dutch estão fixos em meu rosto.
Ele não se move nem um centímetro, não volta atrás. Não
acrescenta um comentário mordaz.
Uma porta no corredor se abre e se fecha com força.
Meu olhar se volta rapidamente naquela direção. Passo
apressada por Dutch e pego minha vassoura novamente, meus
batimentos cardíacos abafando todos os meus pensamentos.
CHAPTER
TRINTA E TRÊS
CADENCE
Alguém coloca a cabeça na sala de aula, me vê murchada contra
a cadeira e diz: — Ei.
— Ah! — eu grito.
— Uau. — Serena levanta as mãos e se inclina para trás. — Não
quis te assustar.
— Serena, o que você está fazendo aqui? — Eu pisco
rapidamente, endireitando-me em toda a minha altura.
— O mesmo que você. — Ela aponta para a vassoura e a pá. —
Eu acho. A menos que você estivesse... na verdade aqui para um
encontro secreto com Dutch Cross. Porque, nesse caso, não
estávamos aqui pelo mesmo motivo.
— Eu não estava... Dutch e eu não somos...
— É, muito convincente. — Ela pula em uma carteira, suas
pernas balançando embaixo. — Eu vi vocês dois fazendo... seja lá o
que estavam fazendo e esperei até ele sair para dizer oi.
Eu pego a vassoura e a coloco contra a parede. De costas,
acalmo minhas mãos trêmulas. Depois de basicamente ameaçar se
casar comigo, Dutch saiu e levou sua presença intimidadora e
avassaladora com ele.
Eu realmente espero não vê-lo por aí hoje ou posso perder o
controle e dar um chute voador direto no rosto dele.
Casamento? Ele acha que algo tão sério é um jogo?
Eu vi o inferno que meu pai passou sendo casado com uma
viciada em drogas. Se você me perguntar, a mãe foi quem colocou o
pai na cova.
Não sei qual de nós mataria o outro, mas uma eternidade com
Dutch mandaria um de nós para o túmulo mais cedo.
Controlando minhas emoções, viro-me para minha amiga e tento
esconder o quanto estou abalada. — Então é por isso que eu nunca
te vi limpando depois da aula. Você sabia desse pequeno truque e
não compartilhou?
— Desculpe. Não achei que você estaria interessada. É um saco
acordar tão cedo. Nem todo mundo consegue.
— Verdade. Foi difícil abrir os olhos esta manhã. Posso começar
a cochilar na aula.
Ela sorri também, mas desta vez é um pouco triste. — Eu
comecei a chegar cedo desde o segundo ano. Limpar antes de
todos chegarem significa que não há idiotas no meu caminho
enquanto trabalho.
— Inteligente.
Trocamos sorrisos.
— É muito mais fácil gostar de Redwood quando não há
ninguém nela. — Seus olhos brilham. — Às vezes, eu tiro os
sapatos e só... — Serena faz um movimento para frente, — deslizo
pelos corredores de meias.
— Isso parece épico.
Serena mergulha os dedos no bolso e começa a brincar com a
tampa de um isqueiro. Notei que ela faz isso com mais frequência
perto de mim agora, e tenho a sensação de que significa que ela
confia em mim mais do que deixa transparecer.
— Você encontrou?
— Não, este é novo. — Ela suspira desapontada. — Perdi o
outro. — Deslizando o isqueiro de volta para o bolso, ela olha para
mim. — A propósito, eu vi um vídeo de você tocando no concerto
este fim de semana.
Eu gemo e cubro o rosto. — Estou tão envergonhada.
— Por quê? Você foi incrível. Quer dizer, eu não esperava que
você simplesmente... explodisse no palco daquele jeito. Você
realmente tem um dom, Cadence.
— Não é nada.
— É algo — ela insiste. — Acho que você poderia ir longe.
Talvez tão longe quanto ter seus próprios teatros lotados e álbuns
de piano... eles chamam de álbuns de piano?
— Hoje em dia, os compositores transmitem sua música como
todo mundo.
— Você tem qualidade de estrela.
— Volta para a realidade. — Eu rio.
— Estou falando sério. Você nunca considerou estudar música
mais a fundo?
— Nem uma vez. A música não pode pagar as contas.
— Se você ficar famosa...
— A probabilidade de eu ficar famosa é a mesma de ganhar na
loteria. E não vou apostar meu aluguel e dinheiro da comida em um
sonho impossível.
— Aha. Mas você admite que é um sonho.
Eu balanço a cabeça.
— Se você não tivesse todas as outras coisas te segurando,
você iria querer?
— Não.
Isso parece uma mentira.
Meu coração se aperta, mas eu teimosamente mantenho minha
palavra.
— Minha irmã não está me segurando. Ela é a razão pela qual
eu cheguei tão longe. Eu nunca teria chegado aqui hoje sem ela.
— Tudo bem. Enterre seu talento neste buraco do inferno. Desde
que eu possa te ouvir tocar pessoalmente um dia, não me importo.
Eu rio e olho para baixo.
Ela cutuca meu ombro com uma unha pintada de preto e mexe
suas sobrancelhas grossas. — Então você e Dutch, hein?
— Ele estava aqui para me atormentar. Como sempre.
— Claro. Dutch Cross se arrastou para fora da cama e dirigiu até
Redwood Prep só para te fazer infeliz. Isso faz todo o sentido.
— É verdade. Ele é diabólico.
— Ou talvez ele só quisesse ficar perto de você. — Ela levanta o
isqueiro e o aciona novamente. — Talvez você seja o isqueiro dele.
— Talvez ele devesse aprender a ter uma conversa madura em
vez de agir como um moleque mimado toda vez que me vê.
— Tem isso.
Nós duas sorrimos.
Serena pula da mesa e pega a vassoura de mim. — Vamos lá,
'Garota Nova'. Vou te ajudar a terminar.
— De jeito nenhum. Você acabou de fazer seu próprio trabalho.
Não é justo você dobrar a carga.
— Para que servem as amigas? — Ela pisca.
Meu coração se aquece. — Nesse caso, vou dividir meu cartão
de refeição para o almoço hoje. Você pode pegar o que quiser.
— Aeeee! — Ela passa o braço pelo meu pescoço. — É tão bom
ter uma amiga rica.
Nossas gargalhadas ricocheteiam nas paredes e aumentam
junto com a luz do sol.
Serena está certa. É muito bom ter uma amiga em Redwood.
N D .N
História, passo por seus irmãos no corredor.
Zane está usando um par de óculos de sol enormes no rosto, o
que lhe rende um olhar extra longo. Ele normalmente é barulhento e
animado, sempre pronto com um sorriso fácil ou uma cantada
charmosa.
Hoje, ele parece mais com Dutch — retraído, resmungão, mal-
humorado. Se tingisse o cabelo de loiro, eu não conseguiria dizer
que era o Zane.
Finn me vê e faz um pequeno aceno com o queixo. Não sei se
ele está me cumprimentando por causa do Dutch ou porque estou
olhando diretamente para eles como uma lunática, mas isso faz meu
coração bater um pouco mais rápido.
Começo a desviar o olhar quando percebo que Sol está com
eles. Seus olhos castanhos frios pousam em meu rosto e me
examinam.
Tanto Zane quanto Finn parecem ter a intenção de passar por
mim, mas Sol para no meio do corredor.
A multidão ao meu redor fica imóvel. A curiosidade deles
queima. Posso sentir que estão prendendo a respiração.
Provavelmente porque eu também estou.
Não sei o que se passa na cabeça de Sol em relação ao ultimato
de Miller.
— Ei, você está bem? — Vou direto até ele, apertando a alça da
minha mochila. — Fiquei te mandando mensagens o fim de semana
todo, mas você não respondeu.
Ao som da minha voz, Finn e Zane param de andar. Eles se
viram, suas expressões demonstrando confusão.
Sol olha para baixo. — Desculpe. Muita coisa acontecendo.
— Sobre o Miller — me inclino e sussurro —, Serena e eu vamos
ficar juntas. Não vamos deixar que ele nos intimide a escolher
alguém para expulsar do programa de música.
— Essa é uma forma de lidar com isso. — O sorriso de Sol é
charmoso, mas há algo afiado por trás dele. Não consigo identificar
o quê, mas tenho uma sensação estranha quando ele olha para
mim. Como se ele fosse mais do que apenas o quarto membro
bonito e pensativo dos The Kings. Como se ele tivesse algum poder
próprio.
Tecnicamente, cada macaco no seu galho, mas Sol tem me
tratado como um ser humano e realmente tem conversas coerentes
comigo, o que é muito acima do resto do seu grupo.
— Você tem outra sugestão? — Olho além dele para onde Zane
e Finn parecem levemente desconfortáveis. — Podemos falar sobre
isso depois.
— Dutch tem um plano para Miller — diz Finn, interrompendo
nossa conversa.
Olho para seu rosto esculpido e os olhos amendoados pelos
quais tantas garotas já suspiraram. Ele levanta o queixo e a luz
atinge sua linha do maxilar.
Sol se inclina mais perto e sussurra: — É melhor se você não
souber.
Um arrepio percorre minha espinha quando sinto sua respiração
no meu pescoço. Olho para cima e encontro seus olhos.
Sol se endireita e acena para mim. — Até mais.
— Até mais. — Minha voz soa rouca.
Sol volta para Finn e Zane, que passa um braço ao redor dele.
Os Kings viram a esquina e os sussurros diminuem. As pessoas
estão me encarando agora, mas não presto atenção a elas.
O que exatamente Dutch está planejando? E por que Sol parece
diferente do habitual?
Jogo a cabeça para trás e gemo. Sinto como se estivesse
perdendo alguma coisa. Agora, meio que desejo ter usado o cara
das identidades falsas para invadir o aplicativo da Jinx. Tenho
certeza de que ela teria informações que poderiam me ajudar a
entender as coisas.
Sem outra opção, sigo para minha próxima aula. No caminho,
passo por uma sala de aula vazia. A senhorita Jamieson está na
mesa, guardando livros em uma bolsa com movimentos robóticos.
Aceno, mas ela olha através de mim como se estivesse perdida
em outro mundo. Debato se devo perturbá-la ou não quando ela
distraidamente pega seu café e o balança em direção à sua bolsa.
— Opa! Senhorita Jamieson! — Corro e agarro sua mão antes
que ela derrame líquido sobre seus papéis e livros.
Ela se assusta e olha para mim. A expressão distante é
imediatamente substituída por um sorriso profissional. — Cadence.
— A senhora está bem?
— Eu? Sim. Estou bem. — Ela se levanta e ajeita a bainha de
sua saia azul felpuda. — Na verdade, eu queria falar com você. —
Seus olhos desviam. — Devido a algumas... circunstâncias, não
pude falar com Jarod Cross sobre o seu caso ainda. Mas pretendo.
Mantenha a cabeça erguida e não se preocupe com Miller.
Meu sorriso vacila. Todo mundo continua me dizendo para não
me preocupar, mas se eu não tenho controle para resolver o
problema, então me preocupar é a única coisa que posso fazer.
A senhorita Jamieson corre para a porta, olha para os dois lados
e então sai rapidamente. Minhas sobrancelhas se franzem.
O que está acontecendo com todo mundo hoje?
Talvez seja porque estou em Redwood desde cedo esta manhã,
mas há uma quietude no ar que parece a calmaria antes da
tempestade.
Redwood Prep está mudando, se transformando, abrindo espaço
para algo. Espero que esse algo não seja tão sinistro e frio quanto
os The Kings.
CHAPTER
TRINTA E QUATRO
DUTCH
Miller tem o bom uísque. Posso dizer só pela forma como o
líquido âmbar brilha no copo. Se esta fosse uma visita cordial, eu
teria pedido antes de tocá-lo. Como este é um tipo diferente de
encontro, sirvo dois dedos de uísque no meu copo e dou um gole.
Caramba. Isso é bom.
A porta se abre.
Os olhos de Miller se arregalam quando ele me vê. Ficam ainda
maiores quando ele nota o uísque em minhas mãos.
Não sei o que o ofende mais — minha presença ou meu confisco
de seu álcool.
— Quem te deixou entrar aqui?
— Sua secretária. — Me inclino contra sua mesa e inclino meu
copo para que o líquido âmbar bata contra a borda. Não é forte o
suficiente para derramar, mas chega bem perto da borda.
Miller não perde a compostura. Ele tira o casaco, caminha até a
mesa e se serve de um copo.
— Você não é muito jovem para estar bebendo álcool?
Eu solto uma risada. — Vamos não perder tempo fazendo
perguntas retóricas.
Miller anda até sua mesa. Ele tem olhos como os de Christa e
uma boca dolorosamente fina que não passa de um traço sem vida
e desaparecendo em seu rosto.
Se esses são os genes da família de Christa, não é de se
admirar que ela tenha ido e colocado um monte de produtos
químicos nos lábios.
Ele se senta em sua cadeira de escritório chique, faz uma
grande produção ao alisar sua gravata e gesticula para as cadeiras
de frente para sua mesa. — A última vez que minha filha correu aqui
implorando para que eu ajudasse vocês, ela quase foi presa.
— Mas ela não foi.
— Só porque eu fiz acontecer. — Ele enrola as mangas. — Se
as coisas tivessem saído do controle, eu teria garantido que ela não
caísse sozinha.
Eu me viro completamente e dou outro gole. — Vá em frente.
Estamos no mesmo barco, Miller. Ficaria feliz em te implicar
também.
Seu sorriso é sombrio e sórdido, mas não estou com medo. Eu
prefiro esse tipo de sorriso aos sorrisos psicóticos do meu pai. Os
objetivos de Miller são óbvios — dinheiro, poder, ambição. Ele é o
tipo de homem que fará qualquer coisa e pisará em qualquer um
para conseguir o que ele sente que lhe pertence.
Mas meu pai...
Eu não entendo qual é sua motivação para as coisas que ele faz.
É por isso que não formulei um plano para me vingar dele pelo bem
de Zane. Por mais que eu o odeie, há uma parte de mim que
também o teme.
Miller se recosta em sua cadeira. — Tudo bem, vou entrar no
jogo. Sobre o que é essa visita?
— O ultimato que você deu aos três estudantes bolsistas. Eu
quero que seja revogado.
Suas sobrancelhas se arqueiam. — Isso é sobre aquele garoto
Sol?
Eu permaneço em silêncio.
— Você já não foi à lua e voltou por seu amigo? Ele realmente
vale toda essa confusão?
Eu curvo meus lábios em um sorriso, completamente à vontade.
Não espero que alguém como Miller, que apunhalaria o próprio
irmão pelas costas se isso significasse se dar bem, entenda.
— Deixe-me te dar um conselho, Dutch — ele diz daquela
maneira condescendente que os adultos usam quando estão
prestes a falar com alguém de cima para baixo.
Eu acho divertido a maneira como as pessoas pensam que idade
e sabedoria são sinônimos. Eu sei muito mais sobre como o mundo
funciona do que alguém como Miller. Sim, nós dois crescemos
aninhados na conta bancária do papai, mas eu nunca me tornei
escravo disso.
Miller bate o dedo na mesa duas vezes. — Você deveria saber
quando cortar suas perdas e seguir em frente. Não há necessidade
de tudo isso — ele acena para mim — invasão de propriedade se
você aprender essa lição desde cedo. — Ele olha fixamente para
seu copo. — Algumas pessoas só estão com você por um curto
período. Algumas te levarão à terra prometida. Decidir qual é qual te
levará longe.
— Eu não vim aqui para uma lição de vida, Miller. Vim para fazer
um acordo.
Suas sobrancelhas se arqueiam. — Oh?
— Ouvi dizer que o cargo de presidente estará disponível no
próximo ano.
Uma sombra passa por seu rosto, cortando aquele sorriso
santarrão que ele manteve durante toda a conversa.
— Meu pai se mudar para Redwood Prep como professor
convidado não é coincidência. Ele quer esse cargo. — Eu engulo
um grande gole do uísque e sibilo de prazer. — E você sabe disso.
Na mesa, a mão de Miller forma um punho. Ele não consegue
esconder. Aquela ganância. Aquela necessidade de sempre estar no
topo.
Eu me inclino para frente. — Tire seu pé do pescoço dos
bolsistas.
— E em troca?
— Você fará um aliado em vez de um inimigo.
Ele ri. — Você iria contra seu próprio pai?
Eu dou a ele um sorriso frio e profissional. — Eu não quero Jarod
Cross perto de Redwood Prep. Você também não.
— E o que acontece se eu disser não e fizer o que eu quiser de
qualquer maneira? — Miller cruza os braços sobre o peito.
Inclinando o queixo para cima, ele me lança um olhar desafiador. —
Você não passa de uma criança.
— Que conhece todos os segredos de Jarod Cross.
Isso o faz parar.
Eu inclino a cabeça para o lado, estudando a foto dele, sua
esposa e Christa na mesa. — Família é uma coisa complicada. Não
é por isso que você está escondendo a verdade sobre seus filhos
fora do casamento da sua esposa?
As narinas de Miller se dilatam e ele crava os dedos na mesa. A
forma como seu maxilar está flexionando me diz que ele não
gostaria de nada mais do que pular sobre a mesa e me estrangular.
— Eu não quero brigar, Miller.
— Então por que usar palavras de luta, garoto?
— Porque quero deixar claro o que é isso. Você pode até
sobreviver fazendo do meu pai um inimigo. — Eu dou um passo à
frente e bato meu dedo na mesa da mesma forma que ele fez. Uma
vez. Duas vezes. — Mas você nunca sobreviverá sendo meu
inimigo.
Seus olhos se arregalam e seus lábios afrouxam.
Eu bebo o resto do uísque e bato o copo com força na mesa. —
Temos um acordo?
Ele examina meu rosto, deliberando em sua mente. Eu não
confio nele nem um pouco, mas preciso que ele remova aquela
guilhotina de cima de Sol, Brahms e sua amiga. Esta é a única
maneira de manter os três em Redwood.
Os lábios de Miller tremem em um sorriso calculista. Ele esfrega
as mãos. — Estou intrigado, Cross. Mas não posso simplesmente
voltar atrás. Como eu vou parecer se voltar atrás na minha palavra?
— Então não faça. Deixe o prazo expirar e estenda o ramo de
oliveira no último minuto. Saia disso parecendo o salvador que lutou
para mantê-los na escola e use isso para seu próprio benefício.
Seus olhos se iluminam com a ideia. Quando ele me olha
novamente, é com respeito. — Minha filha não foi esperta em
arriscar tudo por você, mas posso ver por que ela faria isso.
Aponto para o cristal que contém o resto do uísque. — Voltarei
para outro copo.
Seus olhos permanecem em mim enquanto escorrego pela porta
de seu escritório e saio.
F R
Prep.
Sol tem uma sessão de terapia agora e eu bem que poderia
levá-lo direto para lá.
Além disso, se eu entrar, vou procurar Brahms novamente. E
então vou meter os pés pelas mãos pedindo que ela se case
comigo, de todas as coisas.
A parte mais louca é... que não é uma ideia desagradável.
Ela já me pertence.
Por que não colocar as algemas em seus pulsos para que ela
não possa ir a lugar nenhum?
Passo a mão pelo lado do meu rosto e inclino a cabeça para
trás. As temperaturas estão escaldantes, e parece que meu ar-
condicionado está no máximo só para me refrescar.
A porta se abre. Sol entra, sua mochila no colo e uma expressão
indecifrável no rosto.
Nenhum de nós diz nada durante o trajeto.
Ainda me incomoda, aquela conexão que ele tem com Brahms.
Há momentos em que ele olha para ela e eu realmente quero
arrancar seus olhos.
Ele é meu melhor amigo, porra. Como diabos eu deixei uma
garota chegar e nos destruir?
Ajusto meus dedos no volante, determinado a deixar meus
problemas de lado e focar no quadro geral.
— Obrigado pela carona — diz Sol quando paro em frente ao
hospital.
— Sol.
Um pé já está fora do carro, mas ele congela.
Olho fixamente para frente. — Eu lidei com Miller. Ele não vai ser
um problema.
Os dedos de Sol se apertam na mochila.
— Confie em mim e espere — acrescento, sentindo a
necessidade de enfatizar. Há algo em seu olhar ultimamente, algo
que me deixa inquieto. — Eu cuidei disso.
Sol não diz nada em resposta. Ele simplesmente sai do carro e
bate a porta.
Observo-o entrar no prédio e meu pulso acelera. Tenho um
pressentimento muito ruim que me faz ficar olhando para suas
costas muito tempo depois que eu deveria ter ido embora.
CHAPTER
TRINTA E CINCO
DUTCH
Estou tocando meu violão mais tarde naquela noite quando a
porta do meu quarto se abre violentamente e bate contra a parede.
Finn entra como um furacão, arrastando Zane atrás dele. Meu
gêmeo parece tão ansioso para estar aqui quanto eu estaria para
fazer um tratamento de canal.
— O que vocês estão fazendo aqui? — rosno. Meus irmãos
geralmente me deixam em paz quando estou no meu próprio
espaço.
— Já faz dias desde o jantar do pai e não conversamos sobre
isso.
Olho para cima surpreso.
— Além disso, já tive o suficiente da choradeira dele. — Finn
solta Zane e nos observa com os olhos semicerrados. — Vamos
lidar com a maior merda primeiro e depois ir descendo a lista.
Zane segura a cabeça. — Podemos chorar as pitangas e expor
nossos sentimentos outra hora? Tem um macaco alado no meu
cérebro e acho que ele está tentando abrir um buraco no meu
crânio.
Zane se joga de costas na minha cama, com os membros
pendurados para fora. Seu rosto parece especialmente pálido. Ele
está usando a camisa de ontem e fede a álcool.
— Concordo com o Zane — olho por cima do ombro —, menos a
parte do macaco. Não quero fazer isso agora.
Finn não se move nem um centímetro. Ele fica parado na frente
da porta como o bastardo irritante que é. — Não podemos desistir
tão fácil.
— Quem disse que estamos desistindo? — rosno.
Finn aponta o queixo para Zane. — Esse cara se arrasta para a
cama completamente bêbado e seminu todas as manhãs.
— Talvez eu goste de exibir meu corpo — Zane balbucia.
— E você — Finn aponta para mim —, fica correndo atrás da
Brahms, brincando esses jogos estúpidos com ela em vez de ser
direto sobre como se sente.
Desvio o olhar.
Finn balança a cabeça. — Só tem um pai e três de nós.
Enquanto estamos perdendo o rumo, todos nós parecemos idiotas.
Vocês dois precisam sair das suas próprias cabeças para podermos
revidar.
Zane faz beicinho para mim. — Tecnicamente, ele não é o mais
novo de nós? Por que parece que ele saiu do útero primeiro?
Grunho. — Talvez ele tenha saído mesmo.
Com a diferença de fuso horário entre a China e a América, é
possível.
Finn caminha até a mini geladeira no meu quarto. Cada um de
nós guarda suas próprias bebidas porque nossa governanta,
Martina, é a espiã não oficial da mãe.
Meu irmão pega uma garrafa de água e joga para Zane, que a
pega entre os cotovelos.
Finn dirige seu olhar para mim. — Quer alguma coisa?
Balanço a cabeça e espero até que ele puxe uma cadeira perto
da cama antes de falar. — Finn tem razão. Não podemos deixar o
pai causar estragos sem reação. É por isso que fui falar com Miller
hoje.
— Miller? — Zane parece intrigado.
— Consegui colocá-lo do nosso lado, mas não significa muito
neste momento. O problema é que não entendo o jogo do pai. Nada
do que ele está fazendo faz sentido.
— Que tal começarmos pelo óbvio? — Zane diz amargamente.
— Ele se casou de novo. Exceto que desta vez, seu casamento
relâmpago transformou a Srta. Jamieson na minha maldita meia-
irmã.
— Você acha que o pai sabe? — Finn murmura, olhando pela
janela para a baía.
Zane dá outro gole de água. — Sabe o quê?
— Sobre sua história com ela.
Zane parece horrorizado.
— Honestamente, durante todo aquele jantar, tive a sensação de
que o pai estava fazendo isso intencionalmente — admito.
— Se casando em geral ou se casando com Marian? — Zane
esclarece.
— Se casando com Marian. Ele normalmente não gosta de
mulheres mais velhas. Não me entenda mal. Por mais bonita que a
mãe da Srta. Jamieson seja, ela não se encaixa na faixa etária.
Além disso, casamento? Isso é grande. É como se ele quisesse que
isso fosse afiado o suficiente, sensacional o suficiente, para causar
impacto.
Os olhos de Zane se arregalam. — O pai é tão perverso que se
casaria com alguém só para se vingar de nós? Isso é todo tipo de
loucura.
Prendo os lábios para ficar quieto. Eles não têm ideia do que o
pai é capaz. E não tenho pressa em esclarecê-los. Não é uma ótima
maneira de viver, andando por aí sabendo toda a extensão da
mente distorcida do seu pai.
— Não estamos dizendo que ele fez isso intencionalmente —
Finn explica, tentando acalmar Zane. — Estamos apenas
considerando todas as opções.
O silêncio cai sobre o quarto. Inclino-me para trás apoiado nas
mãos, minha mente fervilhando. Sei de uma coisa com certeza.
Agora que o pai está trabalhando na Redwood Prep, significa que
ele tem negócios na cidade. Mexer conosco é apenas um bônus.
Que peças do quebra-cabeça não estamos vendo?
Zane se levanta e caminha até a janela. Ele parece exausto e
derrotado.
— Não é o fim do mundo, mano — diz Finn.
Zane esfrega o rosto com força. — Você não sabe como é, cara.
— Ela é só uma garota — Finn desafia.
— Esse é o problema. Eu pensei isso também. Ela é só uma
garota. Não trocamos nomes naquela noite, mas senti... — Zane
solta um suspiro pesado. — Como se eu tivesse encontrado algo
quando estava com ela, sabe? Algo diferente. — Ele umedece os
lábios. — Então ela apareceu na Redwood como minha professora.
E eu sabia que não podia tê-la. Eu sabia disso. Mas pelo menos...
— Pelo menos havia esperança — Finn termina por ele.
— Essa coisa de meia-irmã, meio-irmão... nunca vamos nos
recuperar disso. — Ele se vira e olha para nós como um homem se
afogando. — Se o pai realmente armou isso só para se vingar de
mim, ele fez um ótimo trabalho.
Queria poder fazer ou dizer algo para aliviar a dor de Zane. Mas
seja qual for o remédio mágico para aliviar essa dor, ainda não o
encontrei.
Minha mente volta para Brahms. Seu sorrisinho provocador. Seu
atrevimento. Sua necessidade irritante de sempre ter a última
palavra.
E aquele pedido de casamento?
Eu me casaria com você.
Droga.
Por que diabos eu disse isso?
Zane olha para seus sapatos. — Se isso é um castigo, você
acha que o crime foi termos tocado no show da Bex Dane?
— Achamos que o pai estava quieto demais depois de descobrir
que fizemos um acordo com sua arqui-inimiga — murmuro.
— Um castigo e tanto — diz Finn, olhando para nosso irmão
torturado.
Zane acena para mim. — Isso também explica por que ele
ajudou Brahms. Ele sabia o quanto Dutch queria que ela fosse
embora.
Ao mencionar Cadence, fico tenso.
Finn percebe com seus olhos que veem tudo. — O que está
acontecendo entre você e Cadence?
— Nada.
— Corta essa, Dutch — Zane franze os lábios. — Ouvi dizer que
você largou a Christa 2.0 no barco onde vocês ficaram. Foi tão ruim
assim?
Eu pulo da cama. Agora é minha vez de começar a andar de um
lado para o outro. Meus irmãos me observam, esperando que eu
fale.
— Preciso tirar a Cadence da minha cabeça — digo finalmente.
— Então vou dormir com ela uma vez e depois largá-la.
Finn me olha como se eu estivesse louco.
— Você não consegue parar de pensar nela, então,
naturalmente, o próximo passo é transar com ela e descartá-la? —
Zane arqueia uma sobrancelha.
— Não é como se eu tivesse interesse em outra coisa —
murmuro.
Agora ambos os meus irmãos estão me olhando como se eu
fosse maluco.
Talvez eu seja.
Certo ou errado, nunca hesitei em minhas ações antes. Mas
desde que comecei a cair na armadilha da Cadence, não consegui
seguir em frente.
— Tem havido essa tensão estranha entre você e a Cadence
desde a última assembleia — observa Finn.
— Ele tem razão — diz Zane. — Eu também vi.
Passo a mão pelo cabelo e percebo que a verdade está
pressionando contra meu peito, exigindo ser libertada. Em vez de
me esconder dos meus irmãos, sento na beira da cama e deixo sair.
— Cadence e Ruiva são a mesma pessoa — admito.
O queixo de Zane cai.
— Caramba — sussurra Finn.
— Caramba — concordo.
Zane balança a cabeça.
— Todo esse tempo, ela é a garota por quem você tem sido
obcecado.
— Obcecado não é a palavra que eu usaria.
— Psicoticamente obcecado, então.
Mostro o dedo do meio para ele, mas não posso discutir. Pensei
que odiava Cadence pelo que ela fez. Pensei que poderia voltar a
atormentá-la e justificar isso com meu orgulho, mas não está
funcionando assim. Em vez de quebrá-la, ela é quem está me
quebrando.
Ruiva significava algo.
Cadence significava algo.
E elas são a mesma maldita pessoa. O que vou fazer sobre
isso?
— Há quanto tempo você sabe? — pergunta Zane.
Esfrego a nuca.
— Um tempo — mostro a eles a última mensagem de Jinx com o
vídeo da Ruiva tirando a peruca.
— Não acredito nisso — sussurra Finn, olhando fixamente para a
tela.
— Elas realmente se parecem um pouco agora que você
menciona — Zane semicerra um olho. — Por que não vi isso antes?
— Ela interpretou seu papel perfeitamente só para nos enganar.
É irritante.
— O quê? — Zane bate no meu peito. — Isso é uma coisa boa.
— Como diabos isso é uma coisa boa?
Zane olha para Finn.
— Você lembra como ele ficou frenético quando não conseguiu
encontrar a Ruiva?
Finn assente.
— A garota por quem você se apaixonou não desapareceu. Ela
estuda em Redwood. Claro, você a tratou como um lixo absoluto,
mas tinha um bom motivo.
Finn inclina a cadeira para trás nas pernas traseiras.
— Ele tem razão.
— Agora sei que vocês dois são loucos se acham que o Zane
não está falando merda.
Finn sorri.
— Entendo que você esteja com raiva. Você foi enganado por
ela, mas ela também passou por muito inferno por sua causa.
Tecnicamente, vocês nem estão quites ainda. Ela ainda poderia
causar mais danos.
Olho feio para ele.
— Vamos lá, Dutch — diz Zane —, pelo menos ela não é sua
nova meia-irmã.
Estremeço com o pensamento.
— Você realmente acha que dormir com ela uma vez será
suficiente?
Desvio o olhar. As únicas pessoas com quem posso ser
totalmente honesto são meus irmãos. Se não posso confiar neles,
nem posso confiar em mim mesmo.
Mas de alguma forma, admitir isso em voz alta parece que vai
levar minhas últimas reservas.
— Olha, não estou dizendo que o que ela fez foi legal. Ela te
enganou. Mentiu para você. Mas você realmente esperava que ela
aparecesse e dissesse 'ah, a propósito, eu uso peruca e maquiagem
e me transformo em outra pessoa quando toco piano'? —
argumenta Finn. — Você passou tanto tempo tentando expulsá-la de
Redwood. Havia algum outro caminho que ela poderia ter tomado?
Meus olhos se fecham. Assim, estou de volta ao terraço. Quando
decidi expulsar Cadence de Redwood, ela estava bem ao meu lado.
A um maldito centímetro de distância. Isso com certeza a teria
irritado e feito com que ela me odiasse ainda mais.
Meu estômago está em nós e eu gostaria que meus irmãos
apenas calassem a boca.
— Papai trouxe Cadence de volta para Redwood para bagunçar
sua cabeça. E se a colocarmos do nosso lado? — Finn aponta. —
Não é melhor do que ficar por aí se lamentando, tentando forçá-la a
gostar de você?
— Não é isso que estou fazendo.
— Então deixe o Sol ficar com ela — diz Zane, com um sorriso
no rosto.
A raiva me domina, afiada e destrutiva.
É quando me forço a encarar a verdade.
Nunca senti nada parecido antes. É como se eu não puxar
Cadence para perto, vou me despedaçar.
Ela está na minha mente.
No meu coração.
Sob minha pele.
Muito antes de descobrir que ela era a Ruiva, eu já me sentia
atraído por ela. Agora que ela é a culminação das duas garotas que
me tiraram do sério, é óbvio.
Ela pertence a mim.
— Sua cara de pensativo está ligada — Zane aponta.
— Ele vai precisar pensar muito e implorar muito para sair da
lista negra da Ruiva.
— Talvez possamos começar ficando do lado bom da irmã dela
— diz Zane. — Conquistá-la será moleza.
— É um bom começo, mas não vai impedir que a Cadence o
odeie.
Finn tem razão. Fazer com que Brahms durma comigo pode ser
mais fácil do que fazer com que ela me perdoe.
Mas quando quero algo, eu consigo. Sem questionamentos.
E a verdade é que eu a quero.
Não apenas seu corpo.
Tudo.
— Bem, pelo menos resolvemos o seu problema — Finn inclina
o queixo para Zane. — E quanto ao seu?
— Eu não tenho um problema. Não um que eu possa resolver,
de qualquer forma.
Finn e eu nos encaramos. Nenhum de nós acredita em uma
palavra idiota que Zane está dizendo, mas não é como se eu
pudesse julgar.
Zane limpa a garganta e tenta me colocar na berlinda.
— Então você acha que o que está sentindo por Brahms é
amor?
Dou de ombros. Não consigo dar um nome ao que estou
sentindo. Só sei que não quero perdê-la para ninguém, nem mesmo
para Sol.
Ela é a primeira garota capaz de me enlouquecer apenas sendo
ela mesma. Eu preciso de mais dela. Isso eu posso admitir agora.
Infelizmente, aceitar meu interesse por Brahms é a parte fácil.
Convencê-la a esquecer que eu quase a fiz ser expulsa de
Redwood? Isso vai exigir muito mais do que uma conversa
motivacional.
CHAPTER
TRINTA E SEIS
DUTCH
Na manhã seguinte, levanto-me muito mais cedo que o sol e
passo por uma floricultura a caminho da Redwood Prep.
Passo por barris de flores, totalmente perdido.
Alguma vez pensei que seria o cara andando por uma
floricultura, agonizando sobre um buquê?
Claro que não.
Mas cá estou eu. Vou seguir o conselho do meu irmão e tentar
ver se consigo conquistar Cadence com algo além de sexo e
ameaças.
A florista me vê vagando com os olhos arregalados. — Precisa
de ajuda?
— Ah, sim. — Limpo a garganta. — Estou procurando flores.
— Imaginei. — Ela ri suavemente.
Coço a nuca. Minhas bochechas ficam quentes.
— Primeira vez?
— Sim.
— Que tal começarmos com o que você quer que essas flores
digam?
Que tal: desculpe por ter passado os últimos meses
transformando cada minuto da sua vida em um puro inferno.
— Um pedido de desculpas — digo simplesmente.
Ela sorri. — Esqueceu o aniversário dela?
— Algo assim.
Suas mãos enrugadas escolhem as pétalas de vários barris
diferentes. A mulher me entrega o arranjo e pisca. — Ela vai
entender a mensagem.
— Obrigado. — Pago a ela e deixo uma gorjeta generosa.
O trânsito está tranquilo neste início de manhã. Ainda estou a
uma certa distância da Redwood Prep quando noto uma fina coluna
de fumaça subindo no ar.
Imediatamente entro em pânico. A Redwood está pegando fogo?
Droga.
Brahms!
Pisando fundo no acelerador, dirijo como um louco e quebro
todos os limites de velocidade entre aqui e a Redwood Prep.
Estaciono meu carro bem no pátio e vejo uma pequena multidão
de seguranças, zeladores e jardineiros aglomerados na frente da
porta.
A escola não está pegando fogo como eu tinha suposto
inicialmente. O que quer que esteja causando a fumaça parece vir
de dentro, mas está ficando cada vez mais espessa.
Pego meu telefone freneticamente e ligo para Cadence.
Toca e toca.
Cai na caixa postal.
— Droga. — Bato o punho no volante e lanço outro olhar
frenético para a fumaça ominosa que sai pela porta da frente.
E se ela ainda estiver lá dentro?
Nem paro para pensar antes de abrir a porta do carro com força
e correr pelo gramado, com os braços bombeando ao meu lado.
Um dos guardas se lança contra mim.
Vejo-o pelo canto do olho, mas não paro.
Isso é um erro.
Em um minuto, estou de pé, no outro, sou derrubado na grama.
— Sinto muito, Sr. Cross — ele diz —, o senhor não pode entrar
lá. Os bombeiros disseram para ficarmos do lado de fora.
Empurro os braços dele e o chuto para longe de mim. Ele grunhe
enquanto rola para o lado. Levantando-me de um salto, voo direto
pelas portas da frente.
A fumaça é muito mais espessa do que eu esperava. Ela se
espalha pelo corredor, rastejando como um demônio saído de um
filme de terror. O alarme de incêndio está tocando. O grito agudo só
aumenta meu pânico.
Tropeço para frente, tossindo e afastando a fumaça. Ela arde em
meus olhos, mas continuo avançando. Preciso encontrar Brahms.
Cobrindo a boca com a manga da minha jaqueta, avanço pela
fumaça em movimento. — Brahms! — grito. — Cadey!
Vou direto para a sala de aula que ela estava limpando ontem. O
cheiro de enxofre e algum tipo de produto químico estranho faz meu
nariz arder.
— Cadey! — rujo, cobrindo o nariz com a manga da jaqueta.
— Dutch!
Ouço o som fraco de alguém tossindo.
Meu coração estremece de alívio e corro para a sala de aula
vizinha. Na escuridão à frente, vejo uma figura cambaleando pela
fumaça.
É Cadence. Eu reconheceria aquelas pernas longas a
quilômetros de distância.
Agarro o braço dela. — Vamos!
Tão perto do fogo, a fumaça é insuportável. Nem consigo ver
meus próprios pés na minha frente.
Para minha irritação, Cadey finca os calcanhares. Ela balança a
cabeça com veemência. — Não posso!
— Que diabos, Brahms? Você quer ficar por aqui e ver este lugar
queimar?
Felizmente, não há chamas visíveis devorando a porta, mas isso
não significa que eu queira estar por perto quando ou se isso
acontecer.
— E se a Serena ainda estiver aqui dentro? — Ela tosse.
— Já olhei em todas as salas de aula até agora. Ela não está
aqui.
Brahms ainda tenta resistir. Teimosa como o inferno.
Envolvo meus braços em volta da cintura dela, levanto-a do chão
e a seguro contra meu peito.
— Precisamos sair agora!
Ela bate em meus braços e luta para se libertar. — Dutch, não
posso deixar minha amiga.
Olho fixamente para ela. Até em um incêndio ela tem que ser
cabeça-dura.
No meio do nosso impasse com baixa visibilidade, uma explosão
ecoa da sala de música ao lado. O impacto estilhaça as janelas da
sala em que estamos.
Cadey grita.
Arrasto-a para o chão e cubro-a com minhas costas para evitar
que qualquer um dos estilhaços de vidro caia sobre ela.
Os pequenos projéteis chovem sobre minha cabeça. Rasgam
minha camisa branca macia e picam minhas costas, mas cerro os
dentes e aguento.
O fogo agora começa a se espalhar pelo corredor, passando da
sala de música para o resto das salas neste andar.
Brahms está tossindo tão forte que vai expelir um pulmão.
— Vamos sair — rosno para ela.
Engatinhando até ficar de mãos e joelhos e depois de pé,
estendo a mão para ela. Ela hesita antes de agarrar minha mão.
Juntos, corremos para fora do prédio.
Há mais pessoas do lado de fora, formando fila em torno da
porta da frente. Seus rostos estão todos contraídos de preocupação.
Cadey corre para o guarda de segurança mais próximo.
— Com licença, senhor. O senhor viu outra garota mais ou
menos desta altura com cabelo escuro? — Ela levanta a mão. —
Ela provavelmente está usando uniforme de educação física e
maquiagem escura nos olhos.
— Não a vi — Ele olha por cima do ombro. — Bart, você viu
outra estudante sair?
— Vi sim! — Bart grita.
Os olhos de Cadey se arregalam.
— Quando?
— Bem mais cedo. Achei que ela fosse a única lá dentro, ela
estava correndo tão rápido.
Os joelhos de Brahms fraquejam e ela tropeça. Estou lá num
instante, minhas mãos segurando seus ombros.
— Viu? — murmuro contra seu cabelo. — Ela está bem.
Cadey derrete de alívio contra mim. Eu a abraço e a afasto da
porta da frente. Quando estou satisfeito de que estamos fora do
alcance de mais explosões, diminuo o ritmo.
Ela fecha os olhos enquanto esfrego meu polegar contra seu
ombro. Por um momento, nada mais importa além da sensação dela
em meus braços.
Estremeço ao pensar no que poderia ter acontecido se eu não
tivesse chegado a tempo. Apesar de não termos um rótulo para
isso, eu me importo com ela. E se eu a tivesse perdido hoje...
Nem quero pensar nisso.
Brahms percebe que está encostada em mim e imediatamente
fica tensa. Sinto como ela está tentando se afastar, mas não a deixo
ir.
Ela me empurra até se libertar e vai direto para o celular.
— Vou mandar mensagem para a Serena. Certificar-me de que
ela está bem.
Enquanto Brahms se afasta, carros de bombeiros e viaturas
policiais chegam com as sirenes ligadas. Suas luzes vermelhas e
azuis piscam na fachada austera do prédio. Logo, os bombeiros
entram apressados na escola com suas mangueiras. A polícia se
espalha para fazer perguntas.
Perco Cadey de vista no caos. Quando a encontro novamente,
ela está terminando sua entrevista com os policiais.
Me aproximo dela e percebo que está tremendo. Suas
bochechas estão manchadas de fuligem. Seu uniforme está
manchado de preto.
Ela me vê observando e envolve o torso com uma mão
inconsciente.
— Se você espera um agradecimento...
— De nada.
Ela estreita os olhos para mim. E então sorri um pouco. Meu
coração tem aquela sensação estranha de aperto. Como uma
pressão no peito que está aumentando e aumentando.
É irritante como o inferno que ela possa mudar meu humor com
apenas um sorriso. Aquela energia de vai e vem, a que tem zumbido
entre nós desde que nos conhecemos, fica mais forte.
Mais uma vez, olho para ela e vejo a Ruiva.
Não posso acreditar que não reconheci antes. Quanto mais olho
para ela, mais percebo que nenhuma quantidade de maquiagem
poderia esconder o formato daqueles lábios puros e rosados ou o
fogo em seus olhos castanhos.
Tirando meu blazer, o coloco sobre seus ombros.
— Da próxima vez que um incêndio começar, faça a coisa
inteligente e corra para o outro lado. Só um idiota correria direto
para um prédio em chamas sem um plano.
— Então você tinha um plano quando apareceu magicamente?
Meus olhos se desviam.
— Isso não é sobre mim.
— Certo.
Passos rangem à nossa esquerda. Ambos olhamos para cima e
vemos um policial caminhando em nossa direção. Seus olhos estão
sombrios e ele está segurando algo em um saco plástico.
— Encontramos isso na cena — Ele levanta o saco. O sol está
apenas nascendo além das copas das árvores. Raios dourados
brilham contra um isqueiro de bronze. — Algum de vocês reconhece
isso?
Cadey ofega e olha culpada para mim.
Eu olho para ela.
Sim, já vi esse isqueiro antes.
Estava nas mãos da amiga pela qual Cadey estava disposta a
arriscar sua vida para salvar.
CHAPTER
TRINTA E SETE
CADENCE
Levanto-me do banco quando a porta do escritório do diretor
Harris se abre e Serena sai. Seus olhos estão vermelhos, seu nariz
está da cor de um tomate e sua maquiagem está borrada.
Sem fôlego, aproximo-me dela. — O que aconteceu? O que eles
disseram?
Serena olha para mim como se carregasse o mundo nas costas.
— Eu... — Sua voz treme e ela não consegue terminar.
Meu coração se parte só de ouvir a nota de angústia quando ela
diz: — Fui expulsa.
O chão desaparece sob meus pés.
— Expulsa?
Ela agarra minha mão e segura com tanta força que suas unhas
afundam na minha pele. — Eu juro pra você, Cadence. Eu não fiz
isso. Eu juro.
— Serena... — Minha voz está rouca.
Uma lágrima escorre por sua bochecha. — Faz algum sentido
que eu tentaria incendiar o prédio? Eu lutei para sobreviver neste
inferno por mais de dois anos. — Ela fecha os olhos com força e
murmura: — Sabe o que dói? Eu achei que conseguiria. Tão perto
do fim, fiquei um pouco esperançosa. A linha de chegada estava
bem na minha frente. Chegar tão longe e simplesmente...
fracassar...
Olho em seus olhos e luto para encontrar palavras de conforto.
Ela enxuga a lágrima com uma unha tingida de preto. — Por que
alguém iria querer fazer isso? Por que culpariam a mim?
— O ultimato de Miller — sussurro com pavor.
Seus olhos encontram os meus. Estão lacrimejantes e
assustados.
A porta se abre novamente e um policial sai. É o mesmo cara
que lidou com Christa durante a assembleia da manhã.
— Vamos — ele diz, lançando um olhar duro para Serena.
Coloco-me na frente dele. — Para onde você está levando ela?
— Para o armário dela — diz o diretor Harris. Ele aparece na
porta e olha para mim com desdém. — Senhorita Cooper, por que
está perambulando fora do meu escritório? Não deveria estar na
aula? Especialmente agora que a senhorita Parker resolveu o
problema de quem permanecerá no programa de música para nós.
O lábio inferior de Serena treme. Ela envolve meu pescoço com
um braço e sussurra com urgência: — Eles não vão me ouvir. Não
acreditam em mim quando digo que não fiz isso.
— Eu acredito em você — digo com firmeza.
Uma lágrima escorre por sua bochecha.
O policial dá um passo à frente, silenciosamente pressionando
Serena para terminar a conversa e seguir em frente.
Serena não consegue falar sem que sua voz falhe. — Acho que
eu vou... Quer dizer, não sei quando vou te ver de novo.
Só posso ficar parada, impotente, assistindo Serena ser
escoltada como uma criminosa. Ela parece tão pequena e indefesa
ao lado do policial.
Uma onda de culpa me invade. Essa agitação no meu estômago
é familiar.
É exatamente o que aconteceu com o Sr. Mulliez.
Ele era minha luz num tanque de tubarões frio como o Redwood
Prep. O único professor em quem eu podia confiar todos os meus
segredos. Ele me apoiava em todas as formas que importavam.
Mais do que minha própria mãe jamais fez.
E só porque ele se esforçou por mim, perdeu o emprego. Perdeu
a reputação. Perdeu a confiança de todos os seus colegas e dos
alunos que ele ensinou e inspirou ao longo dos anos.
Era injusto.
Era mentira.
Foi feito porque Dutch disse que seria assim.
E ainda assim, tudo que eu pude fazer foi assistir enquanto
Mulliez sofria por minha causa. Eu não pude fazer nada a respeito.
Algo profundo e escuro pulsa no meu coração.
Não.
Não posso deixar isso acontecer de novo.
Mas que poder eu tenho?
No Redwood Prep, sou um ninguém.
Envolvo minha cintura com os braços. Balançando nas pontas
dos pés, grito: — Serena!
Ela olha por cima do ombro para mim.
— Vai ficar tudo bem. Eu prometo.
Seu sorriso treme e depois desaparece. Ela não acredita em
mim.
Não a culpo.
Quando me viro novamente, minha expressão se transforma em
uma de fúria sombria. Dutch, se você realmente fez isso...
Meu coração dispara para minha garganta. Lembro-me do
momento em que Dutch atravessou a fumaça, gritando meu nome
como se sua vida dependesse disso. Uma parte de mim se recusa a
acreditar que ele estaria envolvido nisso. A parte mais sensata me
adverte que eu não deveria ser tão ingênua.
Preciso de mais informações antes de fazer qualquer
movimento.
A senhorita Jamieson e eu fizemos uma espécie de aliança. Sei
que pelo menos posso confiar no desejo dela de fazer o certo por
todos os bolsistas.
Vou direto para a sala dos professores e paro na frente da mesa
da senhorita Jamieson. Ela olha para cima, alerta. Com seu cabelo
cacheado em um rabo de cavalo e uma camisa branca impecável
contrastando com sua pele escura, ela está linda como sempre.
Mas há algo mais. Seus olhos parecem cansados.
— Posso falar com você? — exijo.
Ela olha para meu rosto sujo e meu uniforme chamuscado sob a
jaqueta de Dutch, e suas sobrancelhas se franzem.
Devo parecer maluca. Não me limpei desde que passei a manhã
vigiando o escritório de Harris.
A senhorita Jamieson limpa a garganta e nota todos os
professores que nos observam. Com os lábios apertados, ela
assente. — Vamos conversar em outro lugar.
Em vez de me levar para uma escada ou uma sala de aula vazia,
ela me leva para o telhado.
Passamos por uma alta porta de metal e a luz do sol atinge meu
rosto. É difícil acreditar que o sol ainda existe e o mundo ainda está
girando. Na minha cabeça, ainda estou presa em um prédio em
chamas, lutando através de uma espessa névoa de fumaça e
procurando por Serena.
A senhorita Jamieson caminha até a borda do telhado, onde uma
pequena parede impede que os alunos caiam e se espatifem no
chão.
O gramado extenso se estende até onde a vista alcança.
Hectares e hectares de terra privada pertencente a esta única
instituição monstruosa.
Redwood Prep.
A escola que mastiga os corações dos inocentes e cospe os
ossos daqueles que se metem em seu caminho.
— Eu soube do que aconteceu com a Serena — diz a senhorita
Jamieson baixinho. — E quero que você saiba que esta não é a sua
luta, Cadence.
— Por que não é a minha luta? A Serena é minha amiga.
— Ela também está sendo acusada de tentar incendiar
Redwood. — Os olhos castanhos da senhorita Jamieson lampejam
em minha direção. Ela morde o lábio inferior de tom vermelho
escuro. — Houve rumores de que ela tinha um cúmplice e como
vocês duas trabalham juntas...
O ar deixa meus pulmões tão rapidamente que é como se
alguém tivesse me acertado no peito. — Eles acham que eu
também estive envolvida?
— Não. Nós verificamos o vídeo. Você não chegou a tempo de
iniciar o incêndio. — Ela coloca a mão no meu ombro. — Mas
Cadence, é por isso que você não deve se aproximar demais. Às
vezes, ser crucificada no tribunal da opinião pública é a pior opção.
— Então você espera que eu simplesmente o quê? Não faça
nada?
— Claro que não. — Ela exala profundamente. — Mulliez me
pediu para proteger você. Foi o motivo pelo qual ele deixou
Redwood Prep em primeiro lugar. Não posso deixar que nada
aconteça com você.
— E eu não posso deixar que nada aconteça com a Serena —
respondo bruscamente.
Ela inclina a cabeça para o céu como se eu fosse a coisa mais
frustrante que já encontrou.
— Há alguma maneira de revertermos a decisão? — imploro. —
Eu conheço a Serena. Ela não faria isso.
A senhorita Jamieson balança a cabeça. — Infelizmente, eles
encontraram um isqueiro com as impressões digitais dela na cena.
Também há imagens dela indo em direção à sala de música minutos
antes do incêndio começar. Testemunhas oculares também a viram
fugindo da cena. — Com uma expressão preocupada, a senhorita
Jamieson admite: — Não parece bom.
Meu coração arde de indignação. Encaro os olhos da senhorita
Jamieson e declaro claramente: — A Serena não faria isso.
A senhorita Jamieson se vira para mim. — Eu também não quero
acreditar nisso. Mas não há como negar as evidências.
— As evidências podem ser manipuladas! — grito. — Lembra o
que fizeram com o senhor Mulliez?
Ela esfrega as têmporas. — Sim, você está certa. As evidências
podem ser distorcidas. Mas os fatos são claros. O isqueiro
encontrado na cena era da Serena. Ela realmente foi para a área
antes do incêndio começar.
— Ela limpa aquela área todos os dias para o estudo do
trabalho!
— Não há como negar que ela fugiu como se fosse culpada.
— Provavelmente porque havia um incêndio no prédio!
A senhorita Jamieson suspira. — Pelo que vale, a Serena foi
liberada facilmente. Eles poderiam tê-la acusado de incêndio
criminoso e destruição de propriedade. Eu tive que me ajoelhar e
implorar para que diminuíssem a punição. — A senhorita Jamieson
parece abalada. — Dada a situação dela, eles apenas a deixaram
sair da escola discretamente.
— O que você quer dizer com a situação dela?
A senhorita Jamieson balança a cabeça.
Eu me inclino para frente. — Por favor. Me conte. Ela é minha
amiga e eu quero ajudá-la.
A senhorita Jamieson lambe os lábios e fecha os olhos. Parece
que ela está lutando consigo mesma. Por fim, ela solta
relutantemente: — O Hospital Geral da Cidade.
— A Serena está doente?
— A mãe dela tem câncer. Não parece bom.
É como se uma montanha tivesse caído sobre meu peito. Não é
de se admirar que a Serena tenha estado tão distraída ultimamente.
Não é de se admirar que ela sempre economize cada centavo e
nunca gaste um tostão, nem mesmo com comida.
A senhorita Jamieson me estuda. — Cadence, há... há mais uma
coisa. — Ela cruza os braços sobre o peito. — Eu não sei se deveria
nem te contar isso, mas...
Eu finco os dedos na minha saia para me impedir de apressá-la.
A suspense está me matando.
— Um dos professores estava aqui bem cedo esta manhã. Eles
viram alguém saindo da sala de prática dos Kings por volta do início
do incêndio.
— Você quer dizer... que eles estavam na escola antes da
Serena chegar aqui?
Ela assente. — Não há imagens dessa pessoa indo em direção à
sala de música, então não foi uma evidência admissível no caso.
Mas eu sei que aqueles irmãos têm dado trabalho para você e
concordo que a Serena não faria isso.
Minhas narinas se dilatam.
É a confirmação que eu esperava não receber.
Uma mão escura cai sobre meu ombro. — Cadence, eu não te
contei isso para que você fizesse algo estúpido. Sinto que você
realmente quer ajudar a Serena. E eu também. Se houver alguma
oportunidade de trazê-la de volta, eu aproveitarei. Prometo a você.
Lutarei por ela, assim como lutei por você. Mas agora, não há muito
que possamos fazer além de procurar mais pistas. Quando tivermos
mais evidências, atacaremos com tudo que temos.
Eu me sinto sem palavras e entorpecida. Os vilões conseguem
vencer de novo porque não há nada que nós, os bolsistas pobres,
possamos fazer para impedi-los.
No meu coração, uma raiva frenética está borbulhando à
superfície. O quadro todo está começando a se encaixar.
Dutch prometeu que me quebraria.
Acho que é assim que ele pretende fazê-lo.
CHAPTER
TRINTA E OITO
DUTCH
— O que sabemos sobre o incêndio? — rosno, sentado tenso na
sala de ensaio, com meu violão no colo. Peguei-o do suporte, mas
não toquei desde que entrei.
— Jinx só relatou o que a polícia sabe. Ela não vai entregar
quem fez isso — diz Finn.
— Provavelmente porque ela também não sabe — murmura
Zane. Ele está largado atrás da bateria, girando as baquetas.
Desde a conversa motivacional de ontem à noite, ele já está
implementando algumas mudanças também. Começando por dormir
bem pela primeira vez em séculos. Fez bem a ele. Seus olhos
parecem mais claros hoje.
— O que o incêndio fez é mais importante do que quem o
começou — observa Finn. — Serena foi retirada do tabuleiro de
xadrez. Sol e Cadence estão seguros.
Meu coração começa a acelerar. Um pressentimento ruim,
semelhante ao que senti quando deixei Sol no hospital, me domina.
— Não fui eu. — Finn acena para Zane. — E não foi ele também.
— Não fui eu nem Cadence. Ela estava prestes a arriscar a vida
para salvar aquela amiga dela. Quase fomos explodidos em
pedaços.
— Quem teria motivação para colocar a culpa toda na Serena?
— Finn pergunta baixinho.
Não consigo lidar com toda essa energia nervosa no meu peito.
Levantando-me de um salto, coloco meu violão de volta no suporte
e começo a andar de um lado para o outro na sala de ensaio.
Meus irmãos me observam com olhos pesados e sombrios.
Nesse momento, a porta se abre.
Sol tropeça para dentro. Seus olhos assombrados me lembram
um fantasma. Seu cabelo está bagunçado e ele está usando um
uniforme amassado e sujo. As mangas estão curtas hoje. Ele não
está escondendo suas cicatrizes.
Meu coração desacelera. Encaro o rosto de Sol, o rosto de um
amigo que conheço há anos. O rosto de um irmão. E percebo que
não o reconheço mais.
Neste verão, um Sol entrou naquele acampamento militar.
E outro Sol saiu.
Ele caminha calmamente até o sofá e se senta. Os olhos de Finn
e Zane estão grudados nele.
Ninguém se move.
Ninguém nem pisca.
No momento em que Sol desaba no sofá, ele agita os braços e
afunda, se acomodando.
O medo aperta forte meu pescoço. Aproximo-me dele devagar,
cuidadosamente.
— Sol?
Ele solta uma risada pelo nariz, boca aberta e rugas se formando
nos cantos dos olhos. Dedos bronzeados se curvam em um punho e
ele ri novamente, mas desta vez, bate o punho no sofá.
Zane deixa sua bateria e se junta a mim enquanto me aproximo
de Sol.
Finn está logo atrás de nós.
Sol se dobra de tanto rir, mas por que isso soa como soluços
desesperados aos meus ouvidos? Lágrimas escorrem pelo seu
rosto. Sua perna está no ar, e um braço está enrolado em sua
cintura.
É como se eu estivesse vendo um homem se despedaçar diante
dos meus olhos.
— Por que diabos aquele isqueiro estava lá? — Sol pergunta
distraidamente. Ele se joga de volta na cadeira e olha para o teto.
Olho de relance e vejo Finn me observando. Ele balança a
cabeça.
Zane me lança um olhar preocupado. — Sol, você quer explicar
o que está acontecendo?
Sol continua olhando para o teto como se o filme da sua vida
estivesse passando lá em cima.
— Eu só vim para Redwood Prep porque queria estar onde
vocês estavam.
Ao ouvir o tom quebrado de sua voz, algo gelado escorre pelo
meu pescoço.
— O que aconteceu, Sol? — Finn pergunta, olhando diretamente
para Sol com olhos afiados e firmes. Se não fosse pelo leve tremor
de seus lábios, Finn pareceria totalmente desinteressado na
resposta.
Sol não olha para nenhum de nós. Ele simplesmente continua
falando. — Minha mãe era apenas a mulher que limpava a casa de
vocês. Vocês não precisavam me incluir na banda. Não precisavam
me alimentar na mesa de vocês. Não precisavam ir à minha casa e
se tornar minha família. — Ele balança a cabeça. — Mas vocês
fizeram. E eu sempre senti que devia algo a vocês por isso. Era tão
estúpido. Vocês eram meus amigos e eu era grato.
— Sol — insisto —, o que aconteceu esta manhã?
Ele vira a cabeça para o lado, e a luz do sol cai sobre seu perfil.
Isso o faz parecer delicado e jovem, lembrando-me do Sol que
costumávamos conhecer muito antes de o mundo nos espancar.
— Meu terapeuta diz que tenho um forte senso de lealdade e
uma baixa autoestima. Vocês sabem o que isso significa? — Ele
balança a cabeça e ri um pouco. — Significa que mesmo se alguém
me tratasse bem uma vez, apenas uma vez, eu estaria pronto para
morrer por essa pessoa. Como um cachorro.
Eu me mantenho imóvel. Tão imóvel que é como se eu nem
estivesse mais aqui.
Zane abre a boca para interromper, mas eu levanto uma mão
indicando que ele pare.
Sol está se perdendo.
Na tristeza.
No arrependimento.
Na raiva.
Posso sentir a fúria crepitando logo abaixo dos tons de sua voz.
Assim como posso ouvi-la quando toco meu violão. A voz também é
um instrumento. São apenas vibrações, ar e ritmo.
Sol está com raiva e não precisamos provocá-lo agora.
Zane recua, mas seus ombros estão tensos. Ele parece
perturbado.
Meu gêmeo sempre fica desconfortável quando alguém está
sendo muito honesto. Ele preferiria sorrir – sempre com aquele
sorriso – e agir como se nada pudesse machucá-lo. Ver outras
pessoas se despirem até ficarem nuas o assusta.
Especialmente quando esse alguém é um de nós.
Mas Sol precisa tirar isso do peito. Eu posso sentir.
Uma risada seca escapa da boca de Sol. Ele passa a mão pelo
rosto, ainda olhando desesperadamente para o teto.
— Vocês já foram chamados de cachorro? Provavelmente não,
né? Cachorros latem quando são mandados. Eles mordem quando
são mandados. Eles sentam e rolam. Mas se não têm um propósito,
eles ficam apenas lá. Esperando. Só esperando que algo aconteça.
Que alguém lhes dê uma instrução. Vocês sabem como é sufocante
isso? Esperar?
Zane pragueja e se move até a geladeira, de onde tira uma
garrafa de cerveja e a bebe de um gole.
As narinas de Sol se dilatam. — Abuela tinha um cachorro uma
vez. Bruno. Era um vira-lata que ela pegou um dia. Levou-o para
casa e tentou fazê-lo se comportar. Mas Bruno não sabia o que essa
palavra significava. Toda vez que abuela o trancava no quarto
quando ia à missa, ela voltava para um quarto cheio de papel
higiênico e roupas rasgadas e merda por todo lado...
Há outra risada seca de Sol e esta parece ainda mais desprovida
de humor que a última.
Sua expressão fica fria de repente. Os olhos endurecem. As
mãos tremem. — Cachorros também podem destruir, sabe. Se você
os deixar por tempo suficiente. Se a energia se acumula, precisa de
uma saída. Eles não são apenas leais o tempo todo.
Sol fica em silêncio.
Zane vira outra cerveja em um único gole e passa a mão pela
boca. Ele volta furioso para nós, seus olhos escuros. — Por quê?
Os olhos de Sol se fecham brevemente. Quando ele fala, soa
cansado. — Eu queria ver queimar. Pela primeira vez, eu queria
destruir algo em vez de apenas ficar sentado quieto enquanto me
destruía.
— Eu te disse que estava cuidando do Miller — rosno. A raiva
está pulsando em minhas veias. Sinto aquela queimação familiar.
— Você acha que isso não é sufocante, Dutch? — Sol se senta e
me encara. — Essa sua necessidade estúpida de controlar tudo.
Você acha que eu aguento isso porque sou fraco? — Ele balança a
cabeça. — Miller mirava pessoas que ele achava que podia
esmagar. É tudo o que essa escola faz. Se você é fraco, está
ferrado. Se tem um pouco de dinheiro ou fama, é um deus. Você
acha que só porque ando com você, esqueci a que grupo pertenço?
— Sol.
— Eu não sabia que o isqueiro idiota dela estaria lá — Sol
cospe.
Minha mão está suada. Eu a esfrego na lateral da minha calça e
passo a língua sobre o lábio inferior.
O olhar nos olhos de Sol é um caos silencioso. — Fui direto ao
Harris. Disse a ele que não foi Serena quem ateou fogo. E sabe o
que ele disse? — Sol bufa. — Não importa qual de vocês vai. Então
apenas cale a boca e se forme.
Lágrimas se formam nos olhos de Sol. Ele enxuga uma quase
com raiva.
— Não importa... — Sua voz falha. — Vou à polícia.
Respiro fundo e processo tudo o que ele disse. Sol está sendo
dilacerado pela culpa agora. Posso ver isso, mas também sei que
ele merece estar aqui tanto quanto Serena ou Brahms.
Lutamos para tê-lo aqui.
Não é mais apenas sobre Sol, é sobre nossa honra. É sobre
nossa reputação.
Sol tem que ficar em Redwood Prep.
— Não — digo bruscamente.
Sol olha para mim.
Assim como Finn e Zane.
— Se você for à polícia, acabou o jogo. Eles pegaram leve com
Serena, mas você tem uma infração anterior. Vão te prender. Não
estamos falando apenas de expulsão, Sol. Estamos falando de
cadeia.
Seus olhos brilham de medo.
— Não vamos deixar isso acontecer — diz Finn com firmeza.
Eu aceno. Não, não vamos.
Uma batida repentina na porta nos faz pular.
Meus músculos se retesam. Quem diabos ousaria...
— Dutch! — A voz de Cadence ecoa pela porta. — Dutch,
preciso falar com você agora!
Finn olha para mim. Retribuo seu olhar pétreo com um dos
meus.
Cadence nunca pode saber a verdade sobre o incêndio de hoje.
CHAPTER
TRINTA E NOVE
CADENCE
Meus dedos se fecham em punhos. Sem me importar com todas
as pessoas que estão observando, bato com a mão na porta.
Toda essa energia inquieta acumulada em meu peito está
prestes a me derrubar. Quero fazer alguma coisa. Jogar os braços
para cima. Gritar como uma louca.
Qualquer coisa.
Mas só posso ficar aqui parada do lado de fora da sala de ensaio
do The King - metade de mim sedenta por sangue e a outra
metade... Não sei o que essa parte de mim está esperando.
Uma multidão se forma no corredor.
Sei que estou fazendo um espetáculo de mim mesma, mas nem
me importo. Meus braços tremem de raiva. Estou tremendo de
choque. Meu corpo está tenso, como se alguém o estivesse
esticando. Cada vez mais.
Ouço acordes raivosos na minha cabeça.
E# G Bb
Me alimentando.
Indignação justa.
Queima cada centímetro de mim.
Não vou deixar Dutch arruinar a vida de mais alguém. Não vou
deixá-lo tirar mais nada das pessoas com quem me importo.
Continuo batendo na porta até que Dutch finalmente abre.
No momento em que o vejo, meus músculos ficam tensos. Assim
como eu, as roupas de Dutch estão cobertas de fuligem, mas seu
rosto está limpo, assustadoramente bonito.
Ele é a imagem da elegância fria e implacável com seu cabelo
loiro, olhos âmbar e braços tatuados. Seus bíceps se movem
quando ele cruza os braços sobre o peito. Sei que esses músculos
foram construídos a partir de horas tocando guitarra e treinando
para manter sua resistência durante os shows.
Neste momento, ele não parece um estudante do ensino médio.
Não com a escuridão passando por seu rosto ou as sombras
vivendo sob seus olhos sem alma.
Ele parece um pesadelo.
Algo bem no fundo, a parte de mim que queria acreditar que
havia bondade nele, começa a doer.
— Você tem um desejo de morte? — Dutch pergunta com um
olhar inexpressivo.
Quando ele me observa com aqueles olhos de pura indiferença
dourada, sinto a balança pendendo ainda mais para a raiva cega.
Depois de todas as formas como ele me assediou e atormentou, ele
realmente não se importa, não é? Todo mundo é um peão em seu
jogo. Descartável.
Não posso acreditar que alguma vez o vi como algo recuperável.
Não posso acreditar que estava começando a vacilar.
Realmente pensei que ele tinha me resgatado do incêndio esta
manhã. Que talvez, no fundo, ele realmente se importasse com algo
além de si mesmo.
Mas eu estava errada.
Estava errada em me deixar enganar.
Estava errada em acreditar que ele poderia ser algo melhor.
Com os olhos ardendo, me aproximo dele e inclino a cabeça
para trás. Por um momento, vejo um lampejo de frustração passar
por seu olhar.
Mas ele não se move.
— Você fez isso? — sibilo.
Seu maxilar se contrai.
Novamente, ele não diz nada.
Eu o empurro.
— Fez?
Ele olha para mim. Sua voz é fria e cortante.
— Você seria capaz de fazer alguma coisa mesmo se eu tivesse
feito?
Meu coração explode. Estilhaça-se tão forte quanto as janelas
desta manhã.
Dutch fez isso.
O que significa que eu fiz isso.
Eu coloquei Serena na mira ao andar com ela, por ser sua
amiga. As pessoas que quero proteger são todos alvos para o The
Kings, como garrafinhas em um jogo de tiro no parque de diversões.
Indefesas. Algo para ser descartado e jogado fora. Brinquedos nas
mãos dos governantes ricos da Redwood Prep.
A porta se abre mais. Zane e Finn entram no meu campo de
visão, logo atrás de Dutch. Todos eles me olham, os três. Perfeitos.
Lindos. Predadores.
Mas eu não sou presa de ninguém, porra.
Sorrio levemente.
Um lampejo de consternação cruza os olhos de Dutch.
Me aproximo. Mais perto. Até que meu peito roça o dele.
— Vou fazer você pagar — rosno.
Ele não diz nada.
Giro nos calcanhares e saio pisando forte da escola. A multidão
abre caminho para mim, me observando, me filmando.
Que se fodam.
Que se fodam todos eles.
Não paro até estar lá fora e então continuo andando.
O sol grita. O calor toca cada parte de mim. Me queimando viva.
Me reduzindo a cinzas.
Paro no meio da calçada, me inclino para frente e solto um grito
que abala as fundações dos prédios ao meu redor.
Estou tão cansada. Estou tão farta de sempre estar do lado
receptor dessa merda.
Tenho que fazer alguma coisa.
Só não tenho certeza do quê ainda.
Precisamos de provas. As palavras da Srta. Jamieson ecoam na
minha cabeça.
Embora esteja morrendo por dentro, me forço a voltar para
Redwood e assistir às aulas. Talvez eu possa falar com os
seguranças novamente e obter mais informações que ajudem a
libertar Serena.
É impossível me concentrar nas aulas. As palavras dos
professores passam direto pela minha cabeça.
Quando entro no corredor mais tarde e vejo Dutch, minha raiva
queima novamente. Ele parece totalmente normal depois de
obliterar o mundo de alguém.
Minha pele se arrepia. Eu anseio pela raiva dele, pela dor dele.
Mas ele não olha para mim. Ele apenas passa por mim. Sem dizer
uma palavra. Fingindo que não estou ali.
Quero me colocar em seu caminho e socar seu rosto, mas sei
que seus irmãos vão me impedir.
Sol está com eles. Ele me lança um olhar estranho quando
passa por mim. Seus olhos ficam pousados. Sempre pousados.
Quero dar um tapa nele também. Seja lá qual for o problema dele,
como ele pode ser amigo desse bando de leões? Como ele pode
ficar sentado lá e não dizer nada enquanto eles atormentam
pessoas inocentes como Serena?
Depois da escola, tento entrevistar os seguranças, mas todos me
expulsam e se recusam a dizer uma palavra. Sem outra alternativa,
pego o ônibus para o hospital da cidade para falar com Serena
novamente.
Na recepção, pergunto por Serena, já que não sei o nome da
mãe dela. A enfermeira se recusa a dar a informação.
Estou prestes a sair quando avisto Serena caminhando pelo
corredor, com os ombros caídos e passos lentos e arrastados. Ela
ainda está com o uniforme da Redwood Prep, mas se limpou um
pouco. Não há fuligem em seu rosto e seu cabelo parece limpo.
Ando na ponta dos pés atrás de Serena, seguindo-a até um
quarto de hospital. Há seis leitos. Cada um deles está ocupado por
pacientes em batas hospitalares.
Serena vai até o leito do meio e tira um copinho de frutas. Meus
olhos se arregalam quando a vejo forçar um sorriso para a mulher
na cama. É o sorriso mais brilhante e falso que já vi em seu rosto.
— Oi, mãe — diz Serena.
— Oi, querida — uma mulher responde com voz fraca. Ela tem
um lenço na cabeça e seu corpo é magro e frágil.
— Antes que você pergunte — diz Serena —, acabei de voltar da
escola. Foi um bom dia. Até tirei nota máxima na prova de teoria
musical.
— Ah, querida, isso é incrível — sua mãe murmura.
Aperto minha saia com força enquanto as observo.
A mãe de Serena olha para o lado e me nota. Ela oferece um
sorriso acolhedor quando vê meu uniforme da Redwood Prep.
— Essa é sua amiga?
Serena se vira rapidamente e me vê. Seus olhos se arregalam
de surpresa e então se estreitam de raiva e vergonha.
— O que você está fazendo aqui, Cadence?
— Desculpe. Eu te segui. Eu... — Meus olhos voltam para sua
mãe. Ela não se parece nada com Serena. Será que seu cabelo já
foi longo, grosso e escuro como o da filha? É difícil dizer.
As sobrancelhas de Serena se franzem sobre seus olhos.
Sua mãe dá um tapinha nela e ela se sobressalta.
— Serena, é assim que se trata uma amiga? — Virando-se para
mim com um sorriso radiante, a mãe de Serena acena. — Sou
Lillian. E você é?
Me aproximo da cama. — Cadence. Cadence Cooper.
— Ah, que nome musical. Você deve ser uma musicista. — Seus
olhos brilham.
— Como você sabia?
— Porque você é amiga da Ser. — Lillian olha com carinho para
a filha. — Ela sempre foi atraída pela música. No útero, ela chutava
as pernas sempre que eu tocava Frank Sinatra.
— Tá bom, mãe. Não precisa mostrar o filme biográfico pra ela.
— Os olhos de Serena encontram os meus e ela inclina o queixo em
direção à porta. Vem comigo.
Eu a sigo para o corredor.
Serena se vira e cruza os braços sobre o peito. — O quê? Você
está me espionando agora?
— Olha, Serena, eu sei que você está com raiva e tem todo o
direito de estar. Mas eu não sou a inimiga aqui. — Mesmo que seja
minha culpa ela estar nessa confusão. — Eu vou trazê-los de volta,
ok? E vou te trazer de volta para a escola.
— Esquece. — Virando-se um pouco, ela abaixa a cabeça. — E,
para que você saiba, não estou com raiva de você. Só estou com
raiva dessa situação toda. Não sei como vou contar para minha
mãe.
— Não conte nada a ela por enquanto.
Seus ombros sobem e descem em um suspiro. — Não vou. Se
as emoções dela ficarem abaladas quando ela está tão fraca... —
Serena se encosta na parede, cutucando o esmalte preto de suas
unhas.
— Há quanto tempo sua mãe está doente? — pergunto baixinho.
— Um tempo. — Ela tira o isqueiro e o acende na minha direção.
— Ela fuma desde criança. Era a única maneira de ela suportar a
vida difícil que tinha. Ela teve câncer de pulmão e não pôde mais
fumar. Mas acender o isqueiro a conforta.
Meu coração se comove. — O isqueiro pertence à sua mãe.
— Eu peguei o hábito. Sabe — ela lambe os lábios —, mesmo
que você não coloque fogo em nada, é bom saber que existe algum
tipo de luz. — Ela se dá conta do que disse e a máscara de antipatia
cai novamente. — Acho que isso é idiota para você.
— Não, não é. Eu entendo. — Toco seu ombro. — A Srta.
Jamieson foi quem me ajudou quando eu quase fui expulsa da
escola. Estou me juntando a ela novamente. Você vai terminar seu
ano letivo, não importa o que aconteça.
Ela me dá um sorriso lacrimoso. — Eu sou uma amiga tão
horrível em geral. Dizem que semelhantes se atraem, então como
eu consegui uma amiga como você?
Desvio o olhar. Eu sou a amiga que a meteu nessa confusão.
Talvez realmente não devêssemos ter nos conhecido.
Serena suspira. — Eu deveria voltar para a minha mãe.
— Lembre-se, não conte nada a ela por enquanto. Impeça que a
escola entre em contato com ela também.
— Vou fazer isso.
Saindo novamente, inclino o rosto para o céu e penso nos olhos
tristes de Serena.
Estou cansada de sempre ser o alvo da brutalidade.
Estou cansada de ser machucada.
Dutch Cross mexeu com as pessoas erradas pela última vez.
Vou encontrar uma maneira, qualquer maneira, de machucá-lo de
volta.
CHAPTER
QUARENTA
CADENCE
Passo na loja do velho safado que faz identidades falsas e
ofereço as fotos que tirei do cartão de acesso da sala de ensaio dos
The Kings.
Quando Dutch me forçava a ser sua escrava, ele me deu o
cartão para que eu pudesse entrar e sair facilmente.
— Você pode fazer algo que drible isso? — mostro a ele o
scanner. — Preciso ter acesso àquela sala.
Ele estende as mãos e me olha como se eu fosse uma idiota por
perguntar se ele é capaz.
Na manhã seguinte, pego o cartão.
Naquela mesma noite, quando todos já saíram da escola, pego
uma máscara de esqui, um taco e ando na ponta dos pés pelos
corredores escuros da Redwood Prep.
Meu coração bate forte contra o peito quando pressiono o cartão
contra o scanner. Se o cara das identidades falsas me enganou e
ficou com meu dinheiro suado, ele vai desejar nunca ter me
conhecido.
Mas o scanner acende em verde.
A fechadura clica e se abre.
— Obrigada, Cara das Identidades Falsas — murmuro.
Com a escuridão ao meu redor, deslizo para dentro da sala.
Imediatamente, sinto o cheiro de Dutch, essa fragrância de sândalo
e almíscar. Não acho que seja uma colônia. É único dele. E isso só
faz minha raiva ferver.
Minha visão ficando vermelha, balanço o taco sobre minha
cabeça e o jogo contra o armário cheio de prêmios de shows
musicais. Os troféus caem no chão, suas cabeças saltando como
em algum tipo de filme macabro.
O barulho é satisfatório.
Posso fazer todo o barulho que quiser. Graças às paredes à
prova de som — só o melhor para os The Kings — ninguém vai me
ouvir.
Cheia de adrenalina, vou até outro armário e quebro o vidro.
Cacos explodem por todo lado. Viro-me para que eles atinjam
apenas minhas costas.
Sorrindo como uma lunática agora, chuto o sofá e espalho as
almofadas pelo chão.
Pensando nas lágrimas de Serena e no corpo frágil de sua mãe,
esmago o monitor do computador com meu taco e quebro as
pequenas estatuetas nas prateleiras.
Quando termino de quebrar tudo o que posso quebrar, caminho
lentamente até a guitarra de Dutch.
O taco chacoalha no chão enquanto o arrasto atrás de mim. A
superfície está apenas um pouco lascada por toda a destruição.
Uma memória de Dutch tocando guitarra ecoa em minha cabeça.
Ele parecia tão alto e no controle. Uma bela fera contida pela
música. Atraindo todos para seu mundo. Para sua dor. Usando
apenas um instrumento com seis cordas e seus dedos poéticos.
Aproximo-me dessas cordas e pego uma faca afiada.
Isso é um sacrilégio.
Como uma musicista para outro, sei o quão sagrado é um
instrumento para seu dono. Por isso doeu tanto quando Dutch
derramou mel sobre meu piano naquela vez.
Estou apenas retribuindo o favor.
Corto a primeira corda e ela se solta com um satisfatório twang.
Mesmo na morte, ainda consegue produzir um som bonito.
Corto a segunda e a vejo se enrolar sobre si mesma.
A terceira corda.
A quarta corda.
A quinta.
A sexta.
Ela se solta quebrada e machucada e afiada nas bordas, assim
como o olhar de Dutch. Aquele olhar penetrante e calculista dele
que mergulha na alma com um foco cortante.
Eu deveria estar com medo, mas tudo que sinto por dentro é
uma satisfação doentia e distorcida.
Queria poder ver o rosto dele quando encontrar sua guitarra,
mas é sexta-feira à noite. Ele provavelmente nem vai perceber o
que foi feito até segunda-feira.
Satisfeita e exausta, deixo minha faca cair descuidadamente no
chão e vou para casa.
Vi está na cozinha fazendo um sanduíche quando entro. Ela para
quando vê meu rosto, seus olhos brilhantes deslizando pela minha
roupa escura. — Onde você estava? E por que está tão suada?
— Fui correr.
— De camiseta preta e jeans?
Sorrio mecanicamente para ela. Estar de volta em casa com
minha irmãzinha me faz sentir como se estivesse vivendo uma vida
dupla. A escuridão que me inundou quando destruí a sala de ensaio
de Dutch agora está encontrando a luz da presença de Vi.
É conflitante.
Essa luz e escuridão.
E dói um pouco. Como dois mundos tentando colidir.
— Quer um pouco de água? — Vi pergunta, franzindo os lábios
vermelhos.
Aceno com a cabeça e a observo. Ela tem experimentado
"sardas falsas". Aparentemente, é uma "grande tendência" e eu
"simplesmente não entendo".
Às vezes, sinto que sou uma mulher de meia-idade presa no
corpo de uma adolescente porque honestamente não entendo
metade do que minha irmã diz.
— Preciso falar com você sobre algo.
— O quê? — pergunto cansada. A água está fria descendo pela
minha garganta. Ajuda a aliviar o calor preso em minhas veias.
— Fiz uma collab com o Zane ontem à noite.
Cuspo a água e ela se espalha por todo o balcão. — Você o
quê?
Ela faz uma careta. — Eu sabia que você reagiria assim. Por
isso não quis te contar antes.
— Zane? Zane Cross? — Uma tempestade furiosa ganha vida
em meu peito. Como Dutch e seus irmãos ousam ir atrás da minha
irmã?
Vou despedaçá-los membro por membro.
Levanto-me de um salto.
Vi corre pela cozinha e abre os braços. — Eles não vieram aqui
e eu nem os vi. Foi tudo pela internet. Zane e seus irmãos
concordaram em fazer um "meu namorado narra minha rotina de
maquiagem". Bem, exceto que eles são dez vezes melhores do que
qualquer namorado que eu poderia ter.
— Eles?
— Todos eles fizeram. Zane, Finn... — Ela me observa
cuidadosamente. — Dutch.
Minhas narinas se dilatam. — Dutch não me disse nada.
— Pedi a eles que mantivessem segredo porque eu sabia que
você me mataria — Ela se apressa para pegar o laptop e me mostra
o vídeo que está editando. — Olha, eu lancei um teaser e já está
com um monte de visualizações. Meu número de seguidores
também está subindo.
Meu pulso acelera. Por que Dutch ajudaria minha irmã? Ele está
tentando se aproximar dela só para machucá-la depois?
— Você precisa ficar longe deles — sibilo, empurrando o laptop
dela.
— Não vou.
Meus olhos se fixam nos dela. — Viola Cooper.
— Eles não são uns bastardos malvados como a Breeze pensa.
Eles são hilários e gostam genuinamente de mim.
— Não, querida. Eles não gostam. E mesmo se gostassem, não
seria nada bom. Estrelas do rock de dezoito anos não deveriam
estar perto de uma garotinha de treze anos.
— Você acha que eles fizeram isso por mim? — Ela ri. — Eu sei
que o Dutch só está tentando fazer você gostar dele.
— Dutch é perigoso.
— Dutch é hilário. Você deveria ver o que eu editei até agora. —
Ela empurra o laptop para mais perto de mim. — Eles são estrelas
do rock. Não sabem nada sobre maquiagem e não se importam em
fazer piadas.
— Dutch não sabe fazer... — O timestamp na tela faz meu
coração disparar. Inclino-me para frente com urgência. — Vi, esse
timestamp é de quando você editou o vídeo?
— Não, é o timestamp de quando gravamos o vídeo. — Ela
aponta para ele. — Eu não queria fazer um vídeo comum com
narração porque aí ninguém acreditaria que eram realmente os The
Kings. — Seus lábios formam uma linha fina como se estivesse
lembrando de uma memória desagradável. — Então eu perguntei se
eles poderiam aparecer na câmera. Eles toparam, mas tinham um
show naquela noite, então pediram se podiam gravar virtualmente
pela manhã.
Uma verdade terrível e assustadora me atinge como um soco.
Eu pisco, atordoada, mas me recuso a acreditar.
— Vi... — Agarro seus ombros e a viro para me encarar,
precisando que ela veja o quão séria estou. — Você tem certeza
que esse timestamp é de quando eles estavam gravando? Tem
certeza?
— Sim. — Suas sobrancelhas se franzem. — O que há de
errado?
— Nada. — Apesar da minha bravata, estou aterrorizada. Na
minha cabeça, ouço o estilhaçar do vidro. Ouço o twang da guitarra
preferida de Dutch quando cortei suas cordas.
Meu coração bate cada vez mais forte.
Ah não.
Ah não, ah não, ah não.
Dutch e seus irmãos estavam com minha irmã na manhã do
incêndio. Foi virtualmente, mas isso só torna o álibi deles
incontestável. Vi tem todas as provas.
É possível que eles tenham mandado outra pessoa para iniciar o
incêndio.
Meus instintos me dizem que Dutch não deixaria uma tarefa tão
complicada para mais ninguém. Não quando um movimento errado
poderia incriminar todos eles.
— Vi, preciso que você vá arrumar suas malas. — As palavras
raspam minha garganta, queimando como pedras quentes até meus
pulmões. Estou me esforçando muito para não desmoronar, mesmo
com minha mente me puxando em mil direções diferentes.
— O quê?
— Arrume suas malas. — Luto para manter a urgência fora da
minha voz, mas ela escapa. — Você vai ficar com a Breeze no fim
de semana.
— Por quê? — Ela franze o nariz.
— Porque acabei de lembrar que tenho uma viagem da escola, e
não quero que você fique aqui sozinha.
— Eu não sou um bebê.
— Vi! — Percebo que gritei e tento me acalmar. — Só me
escuta.
Minha irmã me lança um olhar estranho, mas o desespero no
meu olhar deve ser bem claro porque ela vai para o quarto sem
resmungar.
No silêncio, corro para o banheiro com meu celular e ligo para
Breeze.
— E aí, garota. — Ela parece animada.
Queria ter a capacidade de soar assim, mas existe uma
possibilidade real de que eu não saia viva de Redwood Prep. Não
depois do que fiz aos The Kings.
Antes, quando achei que era culpa deles, eu estava ok com isso.
Mas agora...
— Preciso que você me faça um grande favor. Pode ficar com a
Vi na sua casa no fim de semana?
— Está acontecendo alguma coisa? — Sua voz fica
imediatamente alerta.
— Não, claro que não. — Forço uma risada.
Serena já se enrolou nessa teia violenta. Não quero Breeze nem
perto disso.
— Tenho uma viagem da escola amanhã, mas não me sinto
confortável em deixar Vi aqui sozinha.
Minha melhor amiga não faz mais perguntas.
— Claro. Traz ela pra cá.
Sinto uma onda de gratidão por ter Breeze na minha vida porque
agora parece que estou me afogando.
— Vou te levar até lá — digo a Vi.
Ela segura sua mochila de pernoite e me estuda. — Você está
agindo assim por causa da minha collab com os The Kings?
— Vamos conversar sobre isso depois — digo com voz dura.
Ela se afasta culpada.
— Mas não. Eu realmente tenho uma viagem amanhã.
— Então você poderia ter me mandado pra Breeze amanhã —
ela resmunga.
— Tenho que sair cedo amanhã de manhã e não quero ter que
lidar com tentar te acordar quando tenho um ônibus para pegar.
Ela pondera por um momento e então aceita.
Acompanho Vi até a casa de Breeze, mas me apresso em ir
embora antes de falar com minha melhor amiga. Se Breeze olhar
nos meus olhos, ela vai saber que estou surtando e vai tentar ficar
comigo.
Não posso permitir isso.
Qualquer tempestade que os The Kings queiram despejar sobre
mim, terei que enfrentar sozinha. Não pode haver mais vítimas
inocentes.
Fico olhando por cima do ombro como se Dutch fosse pular das
sombras. Mesmo que ele provavelmente não veja o que fiz até
segunda-feira, não vou arriscar. É por isso que mandei Vi embora.
Entro correndo em casa, tranco a porta e tomo um banho rápido.
Quando vou para a cama, meu corpo ainda está alerta e não
consigo encontrar um lugar tranquilo na minha mente para
descansar.
Quando finalmente pego no sono, ouço um som de chocalho.
Meu coração salta para a garganta.
A escuridão me pressiona, me mantendo paralisada de medo.
Será que é o Dutch?
Levanto-me e vou na ponta dos pés até a sala escura.
Nada.
Com a garganta apertada, volto para a cama, mas não fecho os
olhos de verdade até o sol espreitar pelas cortinas.
Encontrando coragem na luz do dia, pulo da cama e olho ao
redor do pequeno apartamento como se para provar a mim mesma
que o som que ouvi na noite passada não foi nada.
Exceto que foi.
Porque há um bilhete enfiado por baixo da porta da frente.
Tremendo, me aproximo lentamente e pego o bilhete do chão.
Por que você trocou as fechaduras?
Meus olhos se arregalam e deixo o bilhete cair como se fosse
uma bomba prestes a explodir.
Reconheço essa caligrafia.
Sei quem tem invadido a casa.
CHAPTER
QUARENTA E UM
DUTCH
— Você realmente não vai contar a verdade para ela? — Finn
pergunta.
Passo o moletom pela cabeça e encaro-o na escuridão.
Estamos todos suados depois da jam session do November
Bash. O show é daqui a duas semanas, mas Bex Dane nos
convidou para tocar com sua banda, só por diversão.
Meus irmãos estavam interessados, então eu fui junto, mas meu
coração não estava nisso. Passei a maior parte do tempo ouvindo
os outros membros da banda em vez de tocar.
— Por que eu contaria a verdade a ela? Que bem isso faria? —
rosno, entrando pisando forte em Redwood Prep.
Quero pegar um amplificador da sala de música. Bex Dane tem
um técnico que conhece sistemas de som como um médico
conhece o corpo. Não conseguimos ninguém para consertar aquele
alto-falante e achei que valia a pena tentar o cara do Bex Dane.
— Você viu como ela estava olhando para você, né? — Zane
sorri maliciosamente para mim, com uma sobrancelha erguida. —
Se eu fosse você, tomaria cuidado à noite.
— Ela não vai fazer nada. — Entro no corredor que leva à sala
de ensaio.
— Como você tem tanta certeza? — Finn me provoca.
Coloco meu cartão no scanner e observo a familiar luz verde. Ela
parece extra brilhante na escuridão.
Redwood Prep sempre dá medo à noite, mas está ainda pior
depois do incêndio. O fedor de enxofre e fumaça ainda permanece
no corredor. Há danos causados pela água em todas as paredes e
armários.
Empurro a porta e paro abruptamente quando vejo a bagunça no
chão. Nossa sala de ensaio está destruída. Almofadas no chão.
Troféus em pedaços. O sofá de cabeça para baixo. O luar brilha
contra pequenos cacos de vidro.
Recuo.
Finn entra ao meu lado e seus olhos se arregalam. Ele levanta
ambas as sobrancelhas quando vê a destruição. — Você estava
dizendo?
— Santa mãe de... — Zane grita. — Minha bateria!
Lanço um olhar cortante para Finn, meus olhos mortalmente
sérios. — Vá verificar sua guitarra.
Ele assente.
Ando para frente lentamente, como se estivesse me movendo na
água. Minha guitarra está no chão, as cordas se estendendo como o
cabelo de uma mulher.
— Ela não tocou na minha bateria — Zane anuncia baixinho.
— Ela também não tocou na minha guitarra — diz Finn.
Meus irmãos vêm se juntar a mim e todos ficamos em volta da
minha guitarra tosquiada como se estivéssemos em um funeral.
Um músculo treme em minha mandíbula, mas não deixo a raiva
transparecer em minha voz. — Ela deixou seu recado.
— O que você vai fazer? — Finn me pergunta, seu olhar escuro
e frio.
Se fosse qualquer outro culpado, ele não estaria tão calmo nem
faria essa pergunta. Não, se fosse qualquer outra pessoa que
ousasse mexer conosco, Finn teria perguntado 'o que vamos fazer'.
E as sugestões não teriam sido agradáveis.
Mas meus irmãos não parecem muito preocupados com
vingança agora.
— Você ainda acha que foi uma boa ideia não contar a ela? —
Finn insiste.
Limpo minhas mãos suadas no jeans e me viro bruscamente.
— Aonde você vai? — Zane pergunta.
Paro e me viro, meu olhar sombrio passando por meus irmãos.
— Pegar o que é meu.
CADENCE
Há um barulho vindo da cozinha quando saio do banho. Meus
dedos tremem e agarro a barra da minha camiseta.
Com as costas retas como uma tábua, desembrulho minhas
roupas sujas e seguro a faca que levei comigo para o banheiro. O
cabo é suave ao toque.
Há outro barulho.
Meu coração dispara.
Dou um passo hesitante para frente, atenta a mais sons.
A pessoa não está tentando ser silenciosa. Ouço a porta da
geladeira abrir e fechar junto com o barulho de talheres.
Minha garganta parece estar sendo apertada tão forte que posso
explodir.
Mas continuo avançando.
De costas contra a parede, coloco a cabeça um pouco para fora
para poder espiar a cozinha.
Há alguém no meu apartamento.
Mas não é a pessoa que eu esperava.
Dutch Cross está sentado à minha mesa de jantar, comendo
tranquilamente um sanduíche. Seus dedos longos e esguios limpam
um pouco de ketchup no canto da boca e observo, com meu interior
se contorcendo, enquanto ele chupa o ketchup do polegar.
Minhas pernas começam a fraquejar e me agarro ainda mais
forte à parede. Como ele entrou aqui?
— Cadey — a voz de Dutch tem um tom sombrio por baixo —,
você gostaria de um sanduíche?
Meu coração está atualmente subindo por todo o meu esôfago,
mas não deixo transparecer. Vestindo minha armadura de
indiferença, entro no campo de visão de Dutch.
Ele está usando um moletom, tênis e jeans. Seu corpo grande
está curvado na cadeira, relaxado como se estivesse de férias. Mas
aqueles olhos contam uma história diferente. Quando ele os levanta
para o meu rosto, uma sensação poderosa e formigante me invade.
Aproximo-me dele com cautela, de cabeça erguida. — Como
você entrou aqui?
Ele simplesmente me observa, sem dizer nada.
Marcho diretamente até a mesa. — O que você quer, Dutch?
— Eu considerei deixar você ir embora. — Ele coloca o
sanduíche na mesa e limpa os dedos em um guardanapo. Confiante
e frio. — Mas vi minha guitarra em pedaços e percebi que é
impossível. — Ele suspira e olha para o teto com aqueles olhos
mágicos cor de mel. — Você acabou de cimentar seu lugar, Brahms.
— Saia da minha casa agora! — sibilo, meus dedos apertando a
faca.
Ele passa a língua pelo lábio inferior e me observa com um brilho
apreciativo em seus olhos âmbar. Estou extremamente consciente
do meu cabelo úmido, da camiseta grande demais e das meias-
calças que mal cobrem alguma coisa.
Os olhos de Dutch mudam da cor de folhas de outono
ensolaradas para sombras escuras. — Eu estava esperando que
você saísse do banho de toalha. Que pena.
Minhas narinas se dilatam.
Meu coração está prestes a sair do peito.
Naquele momento, sei por que Dutch está aqui.
Sei por que ele não está bagunçando minha casa ou me
ameaçando ou até mesmo chamando a polícia para mim.
É hoje à noite.
Ele vai me levar hoje à noite.
— Sério, Cadey, não pareça tão assustada. — Ele inclina a
cabeça e estuda a faca. — O que você vai fazer com isso?
Ele está certo. Não vou esfaqueá-lo. Ele não é quem eu mais
quero machucar hoje à noite, de qualquer forma.
Solto a faca e ela cai ruidosamente no chão ao lado dos meus
pés descalços.
A tensão no ar se intensifica e, de alguma forma, parece mais
perigosa. Como se eu realmente tivesse tentado esfaqueá-lo.
Cerro os dentes. — Por que você não me disse simplesmente
que não foi você quem provocou o incêndio?
Os olhos de Dutch ficam inexpressivos, mesmo quando ele dá
um sorriso afiado e perigoso. Ele se inclina para frente na cadeira da
minha sala de jantar. Bem poderia ser um trono de ouro pela forma
como ele se recosta nela.
A confiança grita de sua pele, como se ele possuísse tudo e
todos no universo. Como se eu devesse ser grata por ele estar
pedindo quando poderia simplesmente tomar à força.
— Como você invadiu a sala de prática? Sol te deu o cartão de
acesso dele? — Não deixo passar o leve apertar de mandíbula dele
quando pergunta.
— Você não responde nenhuma das minhas perguntas e espera
que eu responda às suas?
Ele inclina a cabeça para trás. — O que você quer saber?
— Por que você queria me tirar de Redwood?
Ele franze os lábios. — Pouco antes das férias de verão, nos
esgueiramos na escola e fomos pegos tentando roubar algo. Sol
assumiu a culpa. Logo depois, saímos em turnê. O abandonamos.
— Seus olhos caem no chão. — Quando voltamos da turnê, ele
tinha desaparecido. — Dutch gesticula para mim. — E sua vaga de
bolsa tinha sido dada a outra pessoa.
— Eu — sussurro, a realização me roubando o fôlego.
— Sol nunca deveria ter saído de Redwood. Precisávamos trazê-
lo de volta para onde ele pertencia, mas para fazer isso, tínhamos
que nos livrar de você primeiro.
Faz sentido. A insistência deles. A crueldade deles. Para mim,
não passava de tortura, mas Dutch estava se esforçando ao máximo
por um amigo.
— Você poderia ter me contado. Quando Sol voltou, você
poderia ter esclarecido isso.
— E então tudo teria sido perdoado?
Minhas mãos explodem no ar. — Claro que não! O que você fez
ainda foi errado. Você arruinou a carreira do Sr. Mulliez. Você fez da
minha vida um inferno.
— Exatamente. Contar a você não teria importado. Prefiro
mostrar a você o que sinto.
— Como?
Ele continua sorrindo daquela maneira que me irrita
profundamente. Meus dedos se enrolam na camiseta com tanta
força que tenho certeza de que vai deixar um vinco permanente.
Dutch me encara, um olhar quente e pegajoso que me faz sentir
como se ele estivesse me tocando, mesmo sem ter levantado um
dedo.
Uma parte de mim anseia que ele rompa essa tensão estúpida,
mas outra parte está com medo. Medo de que eu não consiga lidar
com isso se ele o fizer.
Sem dizer uma palavra, Dutch coloca a mão no bolso do
moletom, tira uma caixa de veludo e a joga ao lado da faca perto do
meu pé. Minha respiração falha quando me abaixo, pego a caixa e
levanto a tampa.
Há um verdadeiro diamante ali dentro.
CHAPTER
QUARENTA E DOIS
CADENCE
— Que diabos é isso supostamente? — cuspo, recuando por
causa de toda a luz que o diamante está jogando no meu rosto.
— Algemas — diz Dutch, e num instante, a fúria e a luxúria que
batalham dentro de mim por Dutch Cross vêm rugindo à tona.
Sexo é um grande negócio para mim, já que consegui chegar até
aqui sem ele, mas, de alguma forma, comparado a casamento...
Meus olhos se fixam nele, estreitando-se bruscamente.
Dutch não parece nem um pouco perturbado. — Tire suas
roupas, Cadey.
Minhas narinas se dilatam. — Você quer se amarrar legalmente
a mim? Aos dezoito anos? Você é louco?
— Comece pela calcinha.
Ele ainda está sentado tão longe de mim. Sem levantar a mão.
Sem um dedo na minha pele. Ainda assim, meu corpo inteiro está
pegando fogo. A sensação continua crescendo, como o chiado
antes de uma explosão de fogos de artifício iluminar o céu noturno.
Destrutivo, selvagem, mas tão incrivelmente deslumbrante.
Meus olhos caem para seus lábios e não tenho certeza se ele
está bêbado ou chapado ou talvez tenha trocado de corpo.
— Finalmente domei essa sua boca afiada, Brahms? — Ele se
recosta. — Você não tem nenhuma resposta irritante?
Faço um som frustrado sob minha respiração. Não porque ele é
louco por propor casamento. Não porque estou com raiva por ele ter
invadido. Nem mesmo pela injustiça de Dutch entrar com tudo na
minha vida e tentar me controlar novamente.
É porque eu quero isso. Eu o quero. E está ficando realmente
difícil negar que eu tenho desejado ele desde o momento em que
nossos olhos se encontraram nos bastidores.
Ele era lindo então, quando eu não sabia o quanto ele
bagunçaria minha vida. Depois que ele colocou um alvo nas minhas
costas e as coisas pioraram ainda mais, ele ainda era lindo.
Mas agora...
Agora ele está entrelaçado na própria fibra do meu ser.
Meu corpo começa a tremer. Penso no bilhete que encontrei e no
que isso significa para mim, para Vi. Como vai mudar minha vida.
Uma tempestade está chegando.
E talvez esta seja minha última chance de tomar decisões ruins,
de fazer o que eu quero, não importa as consequências, antes que
cada ação que eu tome comece a se tornar uma questão de vida ou
morte.
Encaro Dutch, minha respiração acelerada e pesada no silêncio.
Duas verdades me atingem com clareza impiedosa.
Eu fiquei aliviada que era ele na cozinha esta noite.
E eu não quero que ele vá embora.
Com um suspiro silencioso, enfio meus dedos na cintura da
meia-calça, certificando-me de pegar minha calcinha também. Com
os olhos fixos nele, empurro ambas pelas minhas pernas.
— Saia delas — diz Dutch. Seu sorriso sumiu e um franzido vira
o canto de seus lábios para baixo.
Minha força de vontade aumenta. Sinto o inchaço da raiva, a
vontade mordaz de discutir com ele, mas quero suas mãos em mim
um pouco mais do que quero estar certa.
Com os dedos tremendo, chuto as roupas e elas caem ao lado
das pernas da cadeira dele. Dutch nem pisca.
— Suba na mesa.
Um fogo rasga através de mim, começando na minha barriga e
abrindo um caminho flamejante entre minhas pernas. Fecho os
olhos, me perguntando se enlouqueci.
Mas na escuridão atrás das minhas pálpebras estão as palavras
daquele bilhete.
Por que você trocou as fechaduras?
Droga.
Meu coração dispara.
Preciso sair da minha própria cabeça, mas não sei se sou forte o
suficiente para ir até o fim.
Dutch se levanta e vem até mim. Colocando suas mãos enormes
e habilidosas na minha cintura, ele me levanta e me deposita
bruscamente na mesa. A madeira desgastada morde minhas coxas.
A mesa balança.
O silêncio reina na cozinha. Dura tanto que tenho que abrir os
olhos. Quando o faço, encontro Dutch inclinado sobre mim. Ele está
examinando meu rosto como se eu fosse um riff complicado em sua
partitura.
— Você sabe o que significa cativar? — Dutch pergunta,
deslizando os dedos pelo lado do meu rosto e descendo para meu
pescoço.
— O que é isso? Uma aula de vocabulário? — engasgo. Tenho
que mostrar que não estou abalada, mesmo que ele esteja tecendo
um feitiço sobre mim.
Dutch ri e traz seu dedo para meus lábios. — Significa capturar a
atenção de alguém de forma que eles nunca mais consigam desviar
o olhar.
Seus olhos âmbar têm um brilho perverso neles, mas sua voz é
quase monótona. Eu me pergunto quanto esforço ele está fazendo
para fingir estar tão maldistamente impassível com tudo isso.
Estou pegando fogo.
E o fato de que ele parece tão inabalado está me incomodando.
— Cala a boca e vamos logo com isso, Dutch. — O suor está
escorrendo pelo meu pescoço e costas, grudando na minha
camiseta. Há uma dor entre minhas pernas que está piorando
quanto mais ele toca meu rosto. Mal consigo recuperar o fôlego.
E ainda assim ele está falando sobre vocabulário?
Seu dedo roça meu ombro e eu estremeço. — Cativado — ele
sussurra, sua respiração provocando meus lábios. — É como me
senti desde o momento em que vi você atrás do seu piano.
Dutch abaixa sua boca para meu ombro, uma brasa ardente
saindo do fogo. Seus lábios me queimam ainda mais, me fazendo
tremer com uma necessidade desesperada e pulsante.
É uma agonia, o quanto eu o quero.
Vou fazer você implorar por isso.
Sua promessa ecoa em minha memória.
Punição.
Isso é uma punição.
Um fogo ardente percorre meu corpo quando ele desliza os
dedos pelo meu pescoço e eu me pergunto se deveria
simplesmente ceder e implorar agora.
— Você me perguntou por que tinha que ser você — Dutch diz
baixinho. — Essa é minha resposta.
Eu ofego em voz alta, toda aquecida e desesperada. Sou tão
monstruosa quanto Dutch? Estou seminua, na mesa da minha
cozinha, com eletricidade percorrendo minha pele, derretendo pelo
príncipe que me atormentou por semanas.
O quarto está ficando tão quente que é sufocante. E ele não fez
nada além de acariciar meu rosto com seus dedos e sussurrar como
me acha cativante.
Meu peito sobe e desce em uma respiração afiada. Meus olhos
se erguem para encontrar os dele.
Devo estar louca.
Ou talvez crescer rápido demais tenha causado um curto-circuito
no meu cérebro. Talvez eu tenha me contido por tanto tempo que
estou quebrando de maneiras maiores e mais perigosas do que um
adolescente normal faria.
— Devo acreditar na sua palavra? — disparo.
Um canto de seus lábios se ergue. — Você sabia que eu comprei
flores na manhã do incêndio?
— Por quê? — cuspo as palavras.
— Eu queria te dar elas. — Seus dedos deslizam pela minha
cintura e agarram minhas coxas. Ele me puxa para que minhas
pernas fiquem penduradas na mesa e então se coloca entre elas. —
Eu nunca comprei flores para uma garota. Nunca.
Olho em seus olhos e vejo que ele está dizendo a verdade.
— Você quer que eu pense que sou especial? Que isso é mais
do que você tentando me destruir? — sussurro duramente.
— Não me importo com o que você acredita. Isso não vai mudar
o que você é.
— E o que é isso? Uma bolsista? Uma serva? Uma inimiga?
Seus olhos escurecem e ele sussurra: — Minha.
Ele me beija então. Um beijo firme, como se estivesse colocando
seu selo em uma certidão de casamento. Então ele se afasta de
mim, apenas o suficiente para nossas respirações se misturarem.
— Sua irmã vai voltar para casa? — ele pergunta, seu tom
levemente ofegante sendo a única indicação de que está perdendo
o controle.
Balanço a cabeça, incapaz de falar.
Dutch responde me empurrando de volta para que eu fique
deitada na mesa. Ele agarra minha camiseta. O barulho da barra se
enrolando é o único som na sala.
Sinto o tecido deslizando contra meu estômago e então a rajada
fria de vento é substituída pelo calor de seus lábios no meu peito.
Cada movimento de sua língua me provoca. Me deixa vulnerável
à boca que marca minha pele com manchas vermelhas e raivosas,
me provocando até a plenitude.
Meu corpo está pulsando, o ar está carregado com meu desejo,
e minhas pernas estão bem abertas, sentindo o roçar de seu jeans
em uma fricção torturante.
Estou completamente excitada, a pressão subiu até o teto,
quando ele arrasta sua atenção para o resto do meu corpo.
Meus olhos estão fechados, mas posso ouvi-lo, senti-lo, quando
ele suga uma respiração afiada e deixa seus beijos descerem.
Mais baixo.
Mais baixo...
Estou muito tensa, muito consciente de tudo ao meu redor. O
zumbido da geladeira. A pequena rachadura na parte de trás da
mesa que cutuca minha coluna. O cheiro de ketchup e frios do
sanduíche de Dutch.
Meu corpo é um feixe de nervos e tensão e não consigo ficar
parada quando ele coloca sua boca em mim, tão suave e ainda
assim tão firme. Minhas costas arqueiam na mesa. Meus dedos se
agarram aos seus ombros e cabelo. Estou ofegante, obcecada,
dilacerada por dentro.
É isso que significa ser devorada.
É isso que significa morrer.
Minhas unhas arranham o músculo sólido de seu ombro. Torço
meus quadris para me afastar dele. Ele me segura e acelera o ritmo.
Me contorço e me retorço.
É tão bom que dói.
Mas, doce Brahms, não quero que pare.
Dutch dá uma última lambida com a língua e isso me aniquila.
Faíscas explodem da minha cabeça aos meus pés. Um prazer
ardente me atravessa, me dividindo ao meio.
A fera insaciável arranca sua boca. Prendendo meus braços
acima da minha cabeça, ele se pressiona contra mim e me beija
novamente. O beijo envia um calor violento por todo meu corpo e
gemo, me sentindo exposta, completa e poderosa.
Ele massageia minhas duas mãos até que fiquem planas e então
as enrola na borda da mesa.
Seus olhos âmbar se fixam em mim. — Segure-se. Não se
mexa.
— Eu—
Seu olhar escuro e de advertência me faz fechar a boca.
Com minhas costas planas na mesa, tudo que posso fazer é
olhar para cima. Há uma mancha no teto. Um vazamento que nunca
consertamos-Fico tensa como uma corda de violão quando Dutch
usa seus dedos para fazer o que sua boca fazia antes.
Mais forte.
Mais rápido.
Gemo tão alto que tenho certeza que os vizinhos podem ouvir.
Me contorço até ficar com medo que a mesa vá desmoronar e então
envolvo minhas coxas em seus quadris, enterro meus calcanhares
em suas pernas e tento não desmaiar.
Ondas quentes de prazer me atravessam como um furacão. É
ainda mais agressivo do que a vez na piscina porque estou
agudamente consciente dele, seus gemidos entrecortados, sua
respiração quente contra minhas coxas, a pressão escaldante de
seus dedos.
Meu corpo derrete na mesa, meu cabelo gruda no meu pescoço.
Ele está mergulhando em todos os lugares, mais fundo, mais
longe, até que não há um centímetro de mim que ele não tenha
provado, tocado e marcado com seu nome.
Nunca mais serei a mesma depois desta noite.
Meus ossos, até meu DNA, carregarão a marca do toque de
Dutch.
Tento arranhar seus ombros com meus dedos, tento puxar seu
cabelo, tento deixar quaisquer marcas nele que eu possa, apenas
para retribuir o que ele está me dando.
Mas minha punição parece muito menos severa enquanto ele me
devora, me atormenta, me faz querer mais mesmo enquanto luto
com o fato de que posso ser incapaz de lidar com tudo isso.
— Du-tch! — grito. Não tenho mais nenhuma luta em mim.
Gritando seu nome, me rendo no nível mais primitivo.
E desta vez, a explosão que me sacode faz meu corpo se
contrair com força.
Estou detonando como fogos de artifício ilegais enquanto Dutch
continua me trabalhando através do desmoronamento, me lançando
à beira de outra explosão antes que eu tenha conseguido sobreviver
à primeira.
Meus olhos estão cheios de lágrimas. Os dele estão cheios de
uma gloriosa ganância âmbar. Para me possuir. Para me ter
completamente.
Com a respiração presa no peito, gemo. — Preciso te sentir.
Dutch se endireita e lambe os lábios. Seus olhos estão
brilhantes, quase febris quando olha para mim.
— Ainda não. — Ele agarra meu peito com a boca novamente,
deixando outra marca quente e roxa na minha pele. Já estou
vibrando de calor e o mero movimento de sua língua faz minha
cabeça se levantar de repente.
Fico querendo mais e ele sabe disso. Seus olhos âmbar
brilhantes me dizem que só tenho que fazer uma coisa.
O silêncio cai. Se estende. Fica tenso.
Eu o odeio e o desejo enquanto ele espera que eu diga.
Engulo em seco, meu coração acelerado. Nada mais faz sentido.
Nada exceto que estou pronta.
— Agora — sussurro.
Sua risada é sombria e me faz querer dar um tapa em seu rosto.
— Tem certeza que está pronta, Brahms?
Um gemido rebelde escapa de mim quando ele me provoca com
seus dedos novamente. Sinto uma dor aguda no meu corpo, uma
tensão que me leva ao limite.
— Tem certeza? — Dutch me pergunta. Seu rosto está corado,
seu cabelo arrepiado onde eu o agarrei.
Minha primeira vez.
Minha virgindade.
A pessoa se oferecendo para tirar minha virgindade é uma fera
danificada que quer me possuir.
É o maldito Dutch Cross.
E eu o odeio.
Odeio que ele seja tão presunçoso.
Odeio como meu corpo reage a ele.
Odeio que ele sempre esteve lá por mim, me salvando, me
resgatando quando eu precisava de alguém mas não conseguia
pedir.
E não posso mais me conter.
Eu quero mais.
Eu quero tudo.
Esticando o braço, acaricio o rosto de Dutch e observo a frieza
desaparecer até não restar nada além de emoção crua. O príncipe
cruel de Redwood é algo mais do que entorpecido. Não é uma
surpresa?
Seu olhar cai sobre o meu, roubando meu fôlego. Com o luar
acariciando as linhas de seu rosto e mandíbula esculpida, ele não
parece real.
Ofego enquanto ergo minha bandeira branca. — Isso sou eu
implorando, Dutch.
A mão de Dutch aperta meu quadril. — Quarto.
— Não — exijo. — Não posso esperar.
Estou tremendo. Agora que já expus minha necessidade, não
tenho problema em implorar a ele.
Relaxa, seu olhar diz, tão quente e afiado que faço o oposto.
Honestamente, eu poderia chorar de tão tensa que estou.
— Você deveria pelo menos estar em uma cama, Brahms. É sua
primeira vez, droga.
— Para de falar e me tome agora.
Seus lábios roçam os meus e, quando olho para cima, vejo olhos
como o céu em chamas. — Me diga se doer.
— Eu vou.
Ele se inclina para trás, abaixando seu jeans e depois sua cueca.
Eu ofego ao vê-lo, um calor espesso rastejando sobre minha
pele. Estou tão assustada que mal percebo o barulho de um
embrulho.
— Respire comigo, Brahms — ele diz depois de colocar a
proteção. — Relaxe.
— Estou relaxada — disparo, meus dentes batendo.
Ele ri e beija minha testa. Seus dedos deslizam entre os meus,
entrelaçando nossas mãos.
— Olhe para mim, Cadey. Olhe para mim.
Eu me perco em seus olhos âmbar.
Seus joelhos separam minhas coxas.
E então ele está lá. Tanto dele. O suficiente para me abrir
completamente.
Ah m— Dói.
A dor me atravessa e Dutch recua, me beijando e me excitando
novamente antes de tentar uma segunda vez.
— Baby, aguente — Dutch rosna, totalmente confiante. — Você
está pronta agora.
Ainda me lembro da dor e sou um amontoado de nervos quando
ele afunda como uma espada. Implacável. Hipnótico.
— Dutch.
Seu nome é uma prece.
Sua resposta é um grunhido de pura concentração.
Ele fica parado, me deixando me ajustar. Deixando a queimação
e o prazer encontrarem seu lugar em meu corpo.
Então ele se enterra mais fundo.
Mais.
Mais.
E, quando tenho certeza de que não há mais espaço em mim,
ele empurra ainda mais.
Algo dentro de mim se quebra.
Meu cérebro entra em curto-circuito.
Dutch deixa beijos úmidos em meu maxilar, minha garganta,
sussurrando em meu ouvido.
Tão linda.
Tão apertada, porra.
Eu te peguei, Cadey.
Tenho certeza de que vou morrer com o inferno me esfolando.
Certeza de que estou enlouquecendo.
Mas me entrego a ele, abro mais as coxas, o convido a ir mais
fundo. Me apoio nos cotovelos, lambendo sua boca com beijos
doces e nervosos para mostrar que não estou com medo. Não sou
tão frágil quanto ele pensa.
— Cadey — ele geme.
Uma veia salta em seu pescoço.
Meu coração dispara quando vejo o que estou fazendo com ele.
Poder.
Minha necessidade de tê-lo, de ver aquela expressão de pura
angústia e desejo animalesco se espalhando por seu rosto me deixa
fraca.
Cada respiração me abre.
É como se eu tivesse sido esfregada até ficar em carne viva. A
dor ainda está lá, mas o prazer é igualmente intenso.
E quando seu corpo, uma arma, se move contra mim, pedindo e
então me ordenando a sentir cada centímetro brutal dele, tenho
certeza que essa invasão violenta vai me matar.
Calor furioso.
Energia insuportável.
Eu o seguro como se o mundo estivesse acabando.
E talvez esteja.
Talvez o céu caia esta noite.
Ah...
Mas que jeito de partir.
CHAPTER
QUARENTA E TRÊS
DUTCH
Várias vezes durante a noite, me pergunto se a cama de
Cadence vai aguentar todo esse balanço. Mas de alguma forma, a
pequena cama de solteiro não quebra. Ela se mantém firme,
rangendo e gemendo e tremendo, mas nunca falhando sob nós.
O ar cheira a abandono imprudente e luxúria.
Ele banha meu corpo em calor e me torna incapaz de me
controlar.
Droga. Ela me deixou muito exposto, muito excitado, perto
demais de entregar tudo.
Prometi que seria gentil. Afinal, é a primeira vez dela e sei que
sou muito para lidar, mas eu não estava preparado para a explosão
de energia que arrancou todo o meu autocontrole.
Ela é deslumbrante.
Sem pretensões.
Tão, tão macia...
Eu perdi o controle no momento em que senti seu corpinho
apertado e a vi se contorcendo embaixo de mim. Foi quando me
transformei em um animal.
Ela estava tão pronta para mim, tão perfeita.
E o pensamento de que eu era o primeiro dela, que eu estava
indo onde nenhum homem havia ido antes, me fez perder a cabeça.
Para o meu crédito, eu continuei perguntando se ela estava bem,
apenas para ouvir que sim. Então eu forcei um pouco mais. Talvez
um pouco demais. Quando consegui me controlar, eu quase a tinha
partido em duas.
Desde então, nos mudamos para o quarto e deixamos várias
marcas no colchão.
É como se ela me turbinasse. Mal recupero o fôlego antes de
querer ir de novo.
Essa garota me arruinou para a vida toda.
Tudo nela é tão bom. Até o jeito que ela soa é como música.
Quero ficar aqui para sempre. Bombeando Cadence maldita Cooper
como um maníaco, deixando-a em frenesi e fazendo seu corpo
levitar da cama.
Estamos ambos uma bagunça ofegante e suada quando
voltamos a nós mesmos.
Cadey está embaixo de mim, com o rosto enterrado no
travesseiro, seu corpo tremendo.
Estou sufocando-a.
Rolando para o lado, acaricio suas costas, fazendo uma careta
quando noto as contusões roxas perto de seu quadril onde a
agarrei.
Não planejei marcar cada centímetro de seu corpo, mas entre os
beijos forçados e minhas mãos pesadas, será óbvio para todos que
ela me pertence.
Um sorriso brinca em meu rosto, mas o afasto. Ela
provavelmente me dará um tapa se me ver comemorando.
Cadey levanta a cabeça e suas sobrancelhas estão franzidas
como se pudesse sentir o sorriso preso dentro de mim. O luar cai
sobre seus lábios machucados e seu rosto corado.
Eu a beijo como se ela fosse a maldita Branca de Neve, trancada
em um caixão de vidro apenas esperando para ser ressuscitada.
Quero beijá-la novamente, mas sei que se o fizer, nunca será o
suficiente. Já exagerei esta noite. Ela precisa de tempo para se
recuperar.
— Meu Deus — ela sussurra, seu cabelo caindo sobre o rosto.
Seus olhos são de um castanho chocolate puro.
Meus lábios se curvam para cima. — Esta noite foi apenas uma
introdução.
— Meu Deus — ela diz novamente. Ela abaixa a cabeça, lutando
para recuperar o fôlego.
Afasto o cabelo de seu rosto. Ela não faz ideia de todas as
maneiras que vou arruiná-la.
Minha doce Cadey.
Brahms.
Ruiva.
Minha, seja qual for seu nome. Seja lá como ela esteja vestida.
Puxo-a para mim e moldo meu corpo ao dela, não para invadir
suas pernas, mas para prendê-la contra meu peito. Enterro meu
nariz em seu pescoço e inalo, apreciando o cheiro de seu suor
misturado com a fragrância de nós dois.
É minha primeira vez abraçando alguém e pensei que odiaria.
Mas não odeio. Ou talvez não odeie porque é ela.
— Vá dormir, Cadey. Não vou te ensinar mais lições esta noite.
Ela boceja e se vira para me encarar. Posso sentir ela me
estudando, posso sentir todas as suas perguntas, suas
preocupações, seu o que acontece agora. Mas ela não precisa
manter nenhum desses pensamentos em sua linda cabecinha.
Por esta noite, tudo que ela tem que fazer é dormir.
Amanhã, vou descobrir como colocar aquele anel em seu dedo.
CADENCE
Tudo em meu corpo dói.
É isso que me acorda.
Quando abro os olhos, me torno consciente do urso quente e
pesado atrás de mim.
Dutch.
Sua mão cobre meu estômago. É tão grande que se estende do
meu peito até meu quadril.
Me movo e uma dor ecoa entre minhas pernas. O lençol se move
também e percebo que está grudado na minha pele, colado pelo
suor e pelo calor do abraço de Dutch.
Não sou mais virgem.
Minha respiração fica presa na garganta e começo a entrar em
pânico até que me sintonizo com o ritmo constante do coração de
Dutch contra minhas costas.
Observo a pele nua esticada sobre seus bíceps musculosos e
tento organizar meus pensamentos para fazer os movimentos
certos.
O que exatamente é o movimento certo?
Não consigo pensar com Dutch me tocando assim, me
lembrando de todas as vezes que ele me fez desmoronar ontem à
noite.
Ele ronca suavemente e quase sorrio. Quando está dormindo e
não piscando aqueles olhos âmbar como um predador na selva, ele
parece quase inocente. Nenhuma vibração de idiota de Redwood
Prep por perto.
— Dutch — sussurro, empurrando sua mão. — Você precisa ir.
Ele responde me agarrando com mais força.
Mordo meu lábio inferior. A proximidade entre nós é alarmante,
mas eu sabia que me abrir completamente para ele teria algumas
amarras. A conexão é diferente agora, mais intensa.
Mas não posso deixar que isso me distraia.
— Dutch. — Eu o sacudo até que ele acorde.
Seus olhos âmbar se abrem e pousam em mim. Noto as marcas
em seu pescoço, braços e ombros. Não me lembro de tê-lo
arranhado tão forte, mas parece que posso ter perdido um pouco o
controle.
— Você está bem? — ele murmura.
— Bem?
Ele gesticula para os lençóis. — Está dolorida?
— Só um pouco. — Isso é mentira.
Mas não vou parecer fraca na frente dele.
Dutch me vira e me beija profundamente. Sinto seu desejo
crescendo e percebo que se eu não o parar agora, ele me manterá
presa nesta cama por horas, assim como fez na noite passada.
— Minha irmã está voltando hoje — digo a ele, virando minha
cabeça.
Ele para, seus olhos me analisando.
Mordo meu lábio inferior. — Isso não é uma desculpa. Ela
realmente vai estar aqui a qualquer minuto.
Ele resmunga. — Onde é o seu banheiro?
Eu aponto.
Ele sai de cima de mim e caminha despreocupadamente,
completamente nu. Dou uma espiada em seu corpo, maravilhada
com as linhas esculpidas e me perguntando como diabos consegui
lidar com tudo aquilo na noite passada.
Meu corpo se aquece novamente e eu rapidamente pulo da
cama para me vestir antes que eu mude de ideia e conte a verdade
para Dutch.
Que Breeze está com minha irmã até segunda-feira.
Que eu o quero novamente.
Que minha vida está prestes a implodir.
Consigo manter minha boca fechada e pego os travesseiros que
caíram da cama. Enquanto trabalho, vejo meus lençóis e faço uma
careta. Não há quantidade de sabão em pó que possa consertar
aquela bagunça.
Totalmente vestida, saio e bato na porta do banheiro. — Dutch,
coloquei suas roupas aqui fora.
Sem esperar, vou para a cozinha e começo a preparar o café da
manhã.
Alguns minutos depois, sinto a presença avassaladora de Dutch
se aproximar e meu pescoço fica tenso.
— Cadey — ele diz cuidadosamente.
— Agora não, Dutch — interrompo.
Ele hesita. Olho por cima do ombro e vejo seus olhos mais
castanhos do que mel, o âmbar assustador domado pelas sombras
do cômodo.
— Mais tarde — prometo. — Se minha irmã voltar e te ver aqui,
não saberei como explicar.
Seus olhos se estreitam sobre mim, me dilacerando sem nem
mesmo tentar. Como vou conseguir voltar a ser indiferente perto de
você?
Ele se aproxima, pega a caixa do anel da mesa e a coloca
bruscamente no balcão ao meu lado. — Mais tarde.
Observo-o sair e então desabo contra o balcão, aliviada por ele
não ter feito alarde. Não estou pronta para lidar com Dutch ainda.
Voltando-me para o fogão, mexo os ovos com a espátula quando
ouço uma batida na porta.
Será que Dutch esqueceu algo?
Com o coração acelerado, corro até a porta e a abro de repente.
Mas não é Dutch na minha soleira.
Vejo olhos castanhos familiares, cabelos castanhos
despenteados e um rosto que já foi bonito, mas agora está marcado
por todas as más escolhas que ela fez.
O sangue some do meu rosto. Um suspiro resignado cresce em
meu peito.
Dou um passo para trás, deixando-a entrar. — Entre, mãe.
CHAPTER
QUARENTA E QUATRO
CADENCE
Entro na escola na segunda-feira como se estivesse em transe.
Tudo está diferente hoje. Neste fim de semana passado, meu
mundo mudou completamente e depois se despedaçou.
Coloque um pé na frente do outro, Cadence. Não pare.
Dutch não está aqui, mas Sol está.
Ele me para no corredor.
— Cadence, posso falar com você mais tarde?
Eu aceno com a cabeça, desviando o olhar e me perguntando se
ele pode ver as marcas que Dutch deixou em mim. Me perguntando
se ele ainda pode sentir o cheiro de Dutch em mim.
Mas ele não pode. Ele parece preocupado. Eu me pergunto
sobre o que ele quer conversar.
Quando nos aproximamos do corredor da aula de música, vejo
uma multidão de alunos esticando o pescoço, tentando olhar para
dentro. Dois seguranças enormes estão posicionados nas portas
que levam à sala.
Meus lábios se contraem quando me aproximo da multidão.
Todos estão sussurrando, celulares erguidos e olhos brilhando com
adoração.
Há uma celebridade lá dentro?
Eu tropeço para frente e tento olhar para dentro da sala também,
mas há muitas pessoas no meu caminho.
— Você. — Um dos seguranças me aponta no meio do grupo.
A multidão se afasta.
Pressiono as duas mãos contra o peito.
— Eu?
Ele olha para uma prancheta pequena, a levanta até meu rosto e
fecha um olho. Então ele acena com a cabeça.
— Você está nesta turma.
— Estou.
— Mostre-me sua carteira de identificação.
Eu a mostro para ele.
Ele a escaneia e dá um passo para o lado, me deixando entrar
na sala. Sol está atrás de mim. A classe está zunindo com sussurros
silenciosos, risos e empolgação. Todos os olhos estão fixos em
alguém que está de pé perto da frente da sala.
Eu tropeço quando o vejo.
Jarod Cross.
Com seu cabelo bagunçado, olhos cintilantes e braços cheios de
tatuagens, ele parece tão deslocado quanto uma freira em um clube
de strip. O que ele está fazendo aqui?
— Cadence. Sol. — Ele atravessa a sala com um grande sorriso.
— Desculpem pela confusão na porta. Achei importante manter
alguma estrutura. Não estamos tentando interromper seu tempo de
aprendizagem aqui. — Ele se inclina e pisca. — Mas é um pouco
incômodo, não é?
— Uh...
Ele me lança outro sorriso e posso perceber instantaneamente
que os garotos Cross herdaram seu charme do pai. Ele pode estar
beirando os cinquenta, mas o astro do rock ainda exala carisma e
sex appeal.
— Sentem-se. Estamos prestes a começar.
— Começar o quê? — pergunto.
— A aula. — Ele dá um passo para trás e levanta o queixo, me
lembrando de Dutch quando ele se sente particularmente satisfeito
consigo mesmo. — Sou seu novo professor de música.
Meu queixo cai.
Uma rodada de gritos e aplausos irrompe do resto da turma.
Jarod estende a mão, os bíceps ondulando.
— É apenas por dois meses.
Um coro de gemidos ressoa.
— Mas — ele levanta um dedo —, vou enfiar cinco anos de
informação nessas poucas semanas. Então, preparem-se. — Seus
olhos percorrem a turma e pousam em mim. — Não vou pegar leve
com vocês.
Não é uma ameaça vazia.
Jarod se move em velocidade hipersônica, passando pela teoria
musical para avaliações práticas e, finalmente, para dicas sobre se
apresentar no palco.
— Tudo se resume a atrair o público para você — diz ele,
andando pela sala como se fosse seu próprio estádio lotado. —
Você está vendendo algo para eles. Vendendo um sonho. E é seu
trabalho acreditar nesse sonho primeiro.
A melodia toca, sinalizando o fim da aula.
Jarod relaxa em um sorriso torto.
— Bem, é isso por enquanto.
Gemidos irrompem na sala.
Estou igualmente desapontada. Não há como negar o talento
artístico de Jarod Cross. Ele é a esperança de todo músico — poder
ganhar dinheiro vivendo de sua arte. Nem todos conseguem fazer
isso. Nem todos podem sequer sonhar com isso.
Enfio meu caderno na mochila e me levanto. Quando olho para
cima, percebo Jarod Cross fazendo sinal para mim.
Meus colegas me lançam olhares invejosos.
Sol me dá aquele olhar pesado que me faz pensar se ele
atropelou o gato de alguém recentemente.
Todos saem.
Somos apenas eu e Jarod.
— Ei, Cadence. — O astro do rock se inclina contra a mesa do
professor e cruza as pernas longas nos tornozelos. — Notei que
meus garotos não compareceram hoje. — Ele faz um movimento
circular com os dedos. — Eles são sempre assim?
Eu aperto a alça da minha mochila.
— Não se sinta desconfortável. — Jarod vê minha reação e
abaixa a cabeça, fazendo com que seus cabelos ondulados caiam
sobre seus olhos. — Estou apenas tentando entender a situação.
— Eu não presto muita atenção nesses caras — respondo
vagamente.
Por que estou protegendo Dutch e não admitindo que ele
comparece quando quer? Não faço ideia. Mas dedurar ele para o
pai não parece ser a jogada certa aqui.
Jarod cruza os braços sobre o peito enorme. A tinta em seus
antebraços se dobra e contrai junto com seus músculos.
— Mulliez não me deu detalhes quando me pediu para interceder
por você. Ele só disse algo sobre não haver vagas suficientes para
bolsas e que, se alguém tivesse que ir embora, não deveria ser um
talento como você.
Eu coro.
— O Sr. Mulliez está sendo generoso.
— Nah. — Jarod inclina a cabeça para trás como se estivesse
recordando uma memória. — Mulliez nunca apoia alguém em quem
não acredita. Confie em mim. — Seus olhos voltam para os meus.
— Você se forma na próxima primavera, certo? O que planeja fazer
depois?
Eu afundo os dedos na minha mochila. Um suor frio brota graças
à temida pergunta "quais são seus planos para o futuro". Penso na
minha mãe e no aviso que ela me deu.
— Eu realmente não tenho planos.
— Se você ainda não tem certeza, tenho uma proposta para
você. — Jarod se inclina para frente.
Eu me inclino para trás, meu pulso acelerado.
— Gostaria de lhe oferecer uma bolsa de estudos integral para
minha antiga universidade. Você pode estudar música e obter seu
diploma em algo que ama. — Ele se endireita. — Em troca, quero
que você trabalhe para mim.
— Trabalhar para você? Fazendo o quê?
Ele me faz sinal para me aproximar.
Eu congelo, meu coração batendo forte.
Ele faz o gesto de "venha aqui" novamente.
Dou um passo hesitante. E depois outro.
Jarod sussurra: — Gostaria que você espionasse meu filho.
J :P D R E E U R ?
Seja um encontro no início da manhã ou uma reunião particular
após a aula, parece que a Novata está em alta demanda com a
família real de Redwood.
O próprio Bad Boy Original voltou a Redwood em todo o seu
experiente esplendor de estrela do rock. Mentes curiosas querem
saber. O que a Novata e seu padrinho mágico tinham para discutir
sozinhos após a aula? Isso tem algo a ver com o motivo pelo qual o
gostosão do Sistema Solar, o misterioso novato que retornou a
Redwood Prep, parecia tão derrotado hoje?
Há uma coisa que você pode contar. Eu certamente vou
descobrir.
Até o próximo post, mantenha seus inimigos por perto e seus
segredos ainda mais próximos.
- Jinx
CADENCE
— Mãe.
O nome escapa dos meus lábios com um toque de medo e uma
onda de náusea. Meus dedos se apertam na moldura da porta -
aquela que Hunter me ajudou a trocar alguns fins de semana atrás.
A fechadura consertada. A saída bloqueada. A mudança que
atraiu minha mãe para fora das sombras.
Se eu soubesse, provavelmente não teria me esforçado.
— Filha — Minha mãe inclina a cabeça.
A sala de estar cai em um silêncio mais profundo enquanto ela
me encara. Olhos castanhos. Cabelos castanhos. Lábios vermelho-
escuros - a cor de sangue seco. Como as crostas que eu costumava
arrancar obsessivamente quando era criança.
Minha pele começa a coçar.
Ouço as notas se elevando.
Ré sustenido maior.
A tonalidade mais triste da música.
O fundo perfeito para o assombro da minha mãe.
Minha mãe se levanta do sofá. Sempre com aquele jeito
majestoso, mesmo que sejamos pobres e destituídos.
Ela costumava ser bonita. Uma rainha de concursos de beleza,
minha mãe sempre se gabava. Ganhei o concurso de Miss
Adolescente.
Uma de suas muitas histórias.
Viciados são alérgicos à verdade.
O que ela ganhou foi a loteria genética. Mas como todos os
ganhadores da loteria que gastam tolamente seus prêmios e
acabam piores do que antes, a beleza da minha mãe está
desesperada. Como uma corda desfiando, amarrando o pouco de
apelo que seu rosto e corpo dolorosamente magro ainda têm para
oferecer.
Sob o peso de suas más decisões, as rachaduras sempre
aparecem. Maquiagem e um sorriso bonito não podem esconder
isso.
— O que você está fazendo aqui? — disparo. Apesar do meu
tom exaltado, minha unha arranha a tinta brilhante da maçaneta. O
salto dos meus sapatos bate no chão enquanto meu joelho treme
incontrolavelmente.
— Encontrei isso embaixo da sua cama. — Minha mãe ergue
dois dedos. Equilibrada entre eles está uma camisinha dourada.
Meu coração bate forte contra minhas costelas.
Uma enxurrada de imagens invade minha mente.
Dutch com olhos âmbar ardendo enquanto rosnava: 'Tire suas
roupas e abra suas pernas.'
Dutch segurando meu rosto e me beijando. 'Você está indo bem,
Cadey. Apenas relaxe, querida. Você é tão gostosa'.
Dutch empurrando para dentro de mim e me preenchendo com
uma explosão de dor e prazer. Tanto que pensei que fosse explodir.
Meus músculos se contraem e eu inconscientemente passo a
mão pela minha saia escolar, bem em cima do hematoma mais
profundo no meu quadril. A força de suas mãos quando me agarrou
deixou marcas por todo o meu corpo. Marcas que penetraram até
minha alma.
Minha mãe arqueia uma sobrancelha. — Entendo. — Um sorriso
lento e presunçoso se espalha pelo seu rosto. — Muito bem, Cadey.
Achei que você seria uma quadrada por toda a vida. Você me deixa
orgulhosa.
É instantâneo como suas palavras esmagam as memórias.
Torcem e transformam-nas em algo grosseiro. Feio. Desprezível.
Tudo que é belo se arruína em suas mãos contaminadas. Eu não
deveria ter esperado que isso fosse diferente. No entanto, tudo o
que quero fazer é tomar banho até minha pele sangrar.
— Foi sua primeira vez?
Meus olhos se erguem para os dela.
Ela não consegue ver? Não consegue perceber que estou
desconfortável? Que estou com raiva? Que estou sangrando por
dentro?
Ou será que ela vê e não se importa?
Sempre me perguntei.
Ela é tão alheia assim ou é tão má?
Os olhos castanhos da minha mãe se iluminam de excitação. Ela
costumava me olhar assim quando chegava o dia do pagamento e
ela tinha seu traficante de plantão.
— Ah, posso ver que foi doloroso. Coitadinha. É sempre horrível
na primeira vez. Especialmente se ele não sabe como agradar uma
mulher. Da próxima vez será melhor. Quando você souber do que
gosta-
— Eu disse para você não voltar aqui — sibilo.
O discurso da minha mãe morre uma morte violenta.
Ela fica imóvel e um lampejo de algo cruel passa por seus olhos.
Em um piscar, desaparece e ela volta a ser a mesma sorridente de
sempre.
— Por que eu não viria aqui? Esta é minha casa.
— Sua casa? — zombo. — Rick e eu somos os que pagamos o
aluguel e mantemos as luzes acesas. O que você fez, mãe?
— Cadey-Eu a interrompo com um gesto brusco. — Deixei você
ficar o fim de semana porque Viola não estava em casa. É segunda-
feira. A escola vai terminar em breve. Não quero que ela te veja.
— Ah, relaxe, Cadey. — Minha mãe estala a língua. — Deixei
você gritar comigo o quanto quis neste fim de semana. Ainda não
superou?
— Superei? — Meus olhos se arregalam.
Eu não deveria deixá-la me provocar. Deveria ignorá-la e deixar
pra lá. Mas ela é especialista em se infiltrar sob a pele. Ela
pressiona os cortes escondidos no fundo. É instintivo reagir. Gritar.
Clamar por justiça quando alguém pressiona uma ferida aberta.
— O que exatamente é que eu deveria superar, mãe? — sibilo.
— O fato de que você fingiu sua própria morte? O fato de que você
me envolveu em seu ridículo 'suicídio'? Me fez mentir para a polícia
e queimar o cadáver de uma pobre mulher?
— Aquele cadáver era de uma Jane Doe verificada. — Minha
mãe aponta um dedo para mim. — E por que você não grita um
pouco mais alto para todo o prédio ouvir?
Dou um passo ameaçador em sua direção e ela recua um pouco.
— Não me importo por que você teve que morrer e também não
dou a mínima para os motivos pelos quais está viva de novo, mas
pelo bem da minha irmã, você precisa continuar morta. Pelo menos
até que eu possa encontrar uma maneira de explicar isso para Viola.
— Explicar o quê? — Uma voz doce ecoa atrás de mim e envia
um arrepio frio pela minha espinha.
Não.
Viola não pode estar aqui.
Não enquanto a mãe está na sala como um fantasma que
ganhou vida.
Pensamentos em pânico bombardeiam minha cabeça.
Busco desesperadamente por uma solução.
Mas é inútil.
Minha mãe faz seu movimento primeiro. Quando ela passa por
mim para se revelar, sinto cheiro de morte. Sinto cheiro de desastre.
Sinto o cheiro do fim de tudo que me é precioso.
— Mãe — balbucio. E então reajo.
Desesperadamente.
Sem pensar.
Envolvo meus braços ao redor dela e tento puxá-la de volta, para
longe da porta, para longe de Viola.
É tarde demais.
O suspiro agudo de Vi e o barulho do celular dela caindo no chão
são o que ouço primeiro. Lentamente, quase dolorosamente, meus
olhos se voltam para o rosto da minha irmã mais nova. Pele clara.
Cabelos escuros. Bonita. Como a mãe.
Exceto que sua maquiagem não é uma ferramenta para
esconder o quão difícil a vida tem sido. A maquiagem da minha irmã
realça suas bochechas redondas e lábios bonitos. Seus olhos doces
e inocentes.
Olhos que estão escurecendo com horror e dor enquanto ela
encara nossa mãe.
— Quem... quem é essa? Por que ela se parece com a mãe?
— Vi-
— Sou eu, querida — mamãe arrulha. — Eu voltei.
— Voltou? Mas... — O rosto de Vi fica branco como papel. —
Você estava morta. Você... — Seu olhar se volta para mim. — Você
sabia?
Minha boca se abre, mas nenhum som sai.
Os olhos de Viola se estreitam.
Algo se quebra em meu coração quando vejo seu olhar de
traição.
Dou um passo à frente, mas ela se vira rapidamente e dispara
em velocidade máxima, correndo pelo corredor e arrastando meu
coração com ela.
Reis de Redwood
The Darkest Note
The Ruthless Note
The Broken Note
The Forbidden Note
The Silent Note