0% acharam este documento útil (0 voto)
25 visualizações6 páginas

A Fera de Ardac

Cornélius Ventobravo, um pesquisador de criaturas místicas, é chamado para investigar ataques a uma vila em Ardac, onde descobre que o verdadeiro perigo é um homem assassino, não uma criatura mágica. Ele reflete sobre a natureza do mal, destacando que, ao contrário das criaturas, os humanos podem ser cruéis sem motivo. A história enfatiza a complexidade da natureza humana em comparação com as criaturas místicas que geralmente agem por instinto.

Enviado por

sjheneffy
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
25 visualizações6 páginas

A Fera de Ardac

Cornélius Ventobravo, um pesquisador de criaturas místicas, é chamado para investigar ataques a uma vila em Ardac, onde descobre que o verdadeiro perigo é um homem assassino, não uma criatura mágica. Ele reflete sobre a natureza do mal, destacando que, ao contrário das criaturas, os humanos podem ser cruéis sem motivo. A história enfatiza a complexidade da natureza humana em comparação com as criaturas místicas que geralmente agem por instinto.

Enviado por

sjheneffy
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

A Fera de Ardac

Por Carlos Leite

Por todo o continente de Íthria Cornélius Ventobravo é conhecido como um renomado


pesquisador de criaturas místicas e raras. Foi ele quem descobriu o ciclo de vida das
quimeras e foi o primeiro a catalogar as fênix por coloração das chamas. Apesar de ser
caçador por formação, se orgulhava em nunca ter precisado matar nenhuma das criaturas
para concluir suas pesquisas, segundo ele, “Se compreendêssemos essas criaturas tão
profundamente e de coração aberto, nos questionaríamos sobre nosso próprio lugar na
natureza.”. Por seu conhecimento profundo sobre esses animais lhe rendeu um trabalho
de consultor, sempre que alguma vila era atacada ou afetada pela presença de alguma
criatura mágica, Cornélius era chamado para ajudar na identificação e na melhor forma
de se lidar com ela. Às vezes era uma criatura fora de seu habitat e ele se dispunha a levá-
la em segurança de volta, o que fazia neste exato momento em sua caravana em direção
ao sul.

— Não consigo acreditar, mestre Cornélius, como você não sente medo dessas coisas —
disse o jovem enquanto observava o grifo deitado na jaula enquanto devorava uma lebre
em pequenas mordidas.

— Curioso jovem Franklin — disse o senhor coçando o cavanhaque grisalho, o aprendiz


não sabia se ele dizia para ele ou para si mesmo.

— Realmente. — Puxou seu caderno de anotações. — Comendo a lebre em pedaços ao


invés de uma bocada só, deve estar sem fome —completou fazendo um esboço do bicho
observando o movimento da parte inferior.

— Não ele, grifos são orgulhosos e sabem avaliar muito bem o ambiente a sua volta, ele
come devagar quando sabe que não há nada que ofereça perigo a ele. Mas você é curioso,
como alguém que tem medo dessas criaturas decide se especializar justamente nelas?
Seria algum trauma? — A pergunta foi direta e sem muita preparação, Franklin se viu
alvo dos óculos e do olhar curioso do pesquisador, sentiu-se um animal sendo estudado.

— Eu posso achá-las fascinantes sem esquecer que são perigosas…


— Você as considera monstros, máquinas de matar. — Cornélius observou o olhar do
aprendiz para as garras do grifo e continuou. — Entendo seu medo, mas essa abordagem
vai atrapalhar se realmente deseja seguir nesse ramo, digo da maneira correta. — Franklin
observou o olhar protetor do mestre e um leve sorriso quando o grifo se recostou e
cochilou.

— Mestre, tem uma coisa que eu gostaria de perguntar…

— Nunca matei nenhuma criatura mágica.

— Mas nunca ouve pelo menos uma criatura que o fizesse duvidar de que houvesse
bondade nela?

— Houve uma criatura, uma que me fez acreditar que o mal existia. A besta de Ardac.

...

Eu era um jovem pesquisador, ainda em pesquisa para o primeiro volume do Codex


mysticae creaturae e fui chamado por uma vila no reino de Ardac, do Principado da
Dacênea, que estava sofrendo com constantes ataques de criaturas desconhecidas, eu
concordei sob a condição de que a criatura não seria morta e que a estudaria para a minha
pesquisa.

A viagem foi cansativa, a estrada de péssimas condições trepidava a carroça o tempo todo,
estava quase desistindo e optando por cavalgar quando chegamos na pequena vila cercada
pela floresta escura. Era visível no semblante deles que o sofrimento havia feito morada,
os olhos com olheiras de se manterem vigilantes, as mãos sempre com forcados a postos
e o olhar vazio de impotência. Assim que desci da carroça eu sabia que só me contentaria
de sair dali quando tudo estivesse resolvido, peguei meus instrumentos e segui para a casa
do ancião, o senhor Robert Hammerman, chefe da pequena vila.

— Quando a universidade disse que enviaria um especialista não posso negar que
esperávamos alguém mais velho. — Sorriu amigavelmente o ancião. — Mas não
tínhamos a quem recorrer.

— Eu entendo, este ramo de estudo é relativamente novo e poucas pessoas querem seguir
nele.
— Imagino o porquê — respondeu o ancião em tom soturno.

— Senhor Hammerman, tenha certeza de que utilizarei todo o meu esforço e


conhecimento para identificar estas criaturas e livrar vocês deste problema, mas preciso
saber o que realmente está acontecendo, quanto mais informações, melhor. —
Prontamente peguei meu bloco de anotações, haviam poucas criaturas místicas que
atacavam em bando; goblins, koboldes… criaturas pequenas atacavam vilas, mas são
fujonas, principalmente estes, a menos que estejam sob o comando de alguma criatura
mais forte…perdido em meus pensamentos, fui trazido de volta com a primeira palavra
de Hammerman.

— Crianças, meu jovem, pequenas e inocentes crianças dilaceradas. Antes era apenas no
anoitecer, quando começamos o toque de recolher pareceu instigá-las, invadiam casas,
até mesmo pela tarde houve uma vítima, coitada, foi encontrada toda cortada no relento…
— Engoli seco enquanto ouvia, claramente eu estava lidando com algo mais perigoso e
ousado, rasguei minhas primeiras anotações e deixei o caderno de lado e ouvi o relato do
ancião que lutava contra as lágrimas, suas mãos tremiam diante da recordação brutal e,
apesar de desejar saber mais, me tolhi. Não podia forçar o homem ainda mais.

— Meus sentimentos, caro Hammerman, mas teria alguma chance de eu ver os corpos
das vítimas?

— A maioria já foi cremada, mas ainda há a pequena Ana.

— Se não se importa, gostaria de vê-la o quanto antes.

Me recuso a reviver o que passei naquela sala com o cadáver da pequena Ana, mas me
atento as conclusões; haviam tipos de lesões variadas, de diferentes profundidades, alguns
mal arranharam a pele enquanto outros atingiram o osso, com certeza uma fera bastante
violenta, com mais de uma forma de ataque, se for pequena e conhecida, deve ser alguma
cria anormal de goblin, os cortes se deviam das armas primitivas. Contudo, se fosse um
animal grande e conhecido poderia ser uma quimera ou mantícora, o que explicaria a
quantidade de vítimas, mas aqueles ferimentos, nunca havia visto nada tão visceral para
se devorar apenas os olhos e o coração. Seria uma nova criatura? Seja o que for, iria
descobrir, reuni alguns homens e segui em direção a floresta perto da casa da pequena
Ana, tinha sido capturada enquanto brincava de tarde perto do poço, foi como desaparecer
em pleno ar.

— Então, Cornelius, alguma pista do desgraçado? — disse um dos homens, bufando.

— Pelas marcas que encontrei é apenas uma criatura, muito rápida e furtiva, bípede… —
disse caminhando para a floresta. — Droga. — Deixei escapar de meus lábios e a tensão
dos meus companheiros aumentou, ficaram mais alertas, forcados em riste.

— O que foi, jovem? Ele está aqui? — disseram os homens inquietos.

— Não, não é nada. — Menti, mal podia acreditar, a pegada humanoide, o peso e a
velocidade em que corria evidenciados na profundidade da pisada, uma criatura
desconhecida. Se alertasse os outros, com certeza iriam matá-la, não posso confiar neles
para uma captura segura para ela, para isso deveria arriscar meu pescoço sozinho apenas
com minhas habilidades, tinha que fazer uma escolha então eu fiz. — Vão até
Hammerman e reúnam reforços, amanhã vamos fazer uma busca, eu vou ficar e terminar
umas coisas e encontro vocês mais tarde.

Depois que todos haviam partido eu segui para o fundo da floresta, sozinho.

. . .

As florestas do Principado da Dacênea são peculiarmente escuras, dizem que se trata do


tom das cascas e das folhas, a distância entre as copas que bloqueiam a luz solar, mas
naquela noite eu compreendi, não eram condições biológicas que tornavam as florestas
soturnas, entre nelas à noite e você saberá do que falo, a sensação em seus ossos, seu
coração repentinamente acelerando e os calafrios. Nas florestas do principado, as trevas
tocam o mundo físico, caminhe sob aquelas copas por tempo suficiente e se esquecerá
que já houve dia. Maldições são reais, e naquela noite eu encontrei a criatura mais
amaldiçoada de todas.

Não sabia ao certo a minha direção naqueles caminhos tortuosos, nem se haviam se
passado minutos ou segundos desde a minha entrada ali, mas sabia que as pistas, apesar
de frescas, estavam raras e estranhas. A criatura seguia para o fundo da floresta, mas
fazendo curvas e desvios desnecessários, como se estivesse perdida, “Estaria louca?”,
pensei, então o graveto estalando às minhas costas mudou minha opinião.
— Droga — esbocei enquanto meu corpo paralisava, ela estava atrás de mim, todo esse
tempo ela não estava perdida, mas me perdendo, me confundindo num jogo em que eu
pensava ser o caçador quando na verdade era a verdadeiramente presa, criatura esperta,
esperta demais, um predador cruel.

A criatura deu um salto veloz pelas minhas costas e me derrubou, não era tão pesada,
mas era forte, virei-me para me desvencilhar quando dois golpes passaram próximos do
meu rosto acertando o chão, ela não esboçava nenhum som, cobri o rosto para me
proteger e senti a poderosa mordida em meu antebraço, urrei de dor e, com os pés,
empurrei a criatura para uns poucos metros à minha frente, pressionei o ferimento para
estancar o sangramento, senti que parte da carne havia sido arrancada, ela estava de pé à
minha frente, sua boca mastigou, engoliu e depois sorriu de prazer.

Minhas pernas vacilaram com a verdade, minhas mãos tremiam com a dor e o terror
quando a luz da lua iluminou a silhueta revelando suas formas. A fera de Ardac não era
um wendigo, ou uma quimera, não era um lobisomem, mas pura e simplesmente
humana, um homem segurando uma lâmina já enferrujada com a quantidade de sangue
derramado e olhos vazios, não tomados pela loucura ou possuídos por um demônio,
apenas revelavam uma consciência sem remorso, sem misericórdia, que me mataria ali e
mataria outro no dia seguinte porque assim deseja, porque simplesmente pode.

Ele me encarou salivando de desejo assassino, “Vamos dançar.”, ele disse com uma voz
calma, trivial, eu tinha uma faca de caça e medo de morrer.

Quando a manhã chegou eu pude encontrar o caminho de volta, estava ferido, havia
perdido muito sangue e estava tonto de dor e desespero. Coberto de sangue fui atendido
pelo curandeiro da vila e depois de alguns dias voltei para a minha pesquisa decidido a
esquecer o que acontecera e terminar o primeiro volume, um dos dois eu consegui.

...

— E foi esta fera que me fez acreditar que o mal existia verdadeiramente, um homem me
ensinou isso. Sabe, a maioria das criaturas místicas são como qualquer outro animal,
possuem padrões e razões simples, são guiadas pela necessidade de se alimentar e se
manter seguras. Um grifo não vai dizimar uma vila porque acha divertido, uma quimera
não vai matar a outra porque achou feia sua cabeça de bode, mas um humano, Franklin,
ah! os homens se matam das formas mais sórdidas pelos motivos mais ridículos. —
Cornelius encarou a expressão de surpresa do jovem quando estendeu seu braço e
acariciou a criatura, os olhos se movendo em direção a cicatriz em seu antebraço. — Eu
compreendo seu medo, rapaz, o bico e as garras são grandes e afiados, o grifo é um
predador, mas se quer algo para temer de verdade, deveria temer o monstro que encara
todo dia quando olha para o espelho.

Fim

Você também pode gostar