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Maternidade e Suas Vicissitudes Na Psicose

A tese de Maria Mercedes Merry Brito investiga as complexas relações entre maternidade e psicose, abordando como mulheres psicóticas lidam com a maternidade e as implicações sociais e clínicas dessa dinâmica. O trabalho critica as soluções tradicionais da sociedade, como esterilização e separação das crianças, e propõe uma reflexão sobre a subjetividade de mães psicóticas e seus filhos. A pesquisa busca avançar a clínica em saúde mental, enfatizando a importância da escuta e da relação mãe-filho na psicose.

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Maternidade e Suas Vicissitudes Na Psicose

A tese de Maria Mercedes Merry Brito investiga as complexas relações entre maternidade e psicose, abordando como mulheres psicóticas lidam com a maternidade e as implicações sociais e clínicas dessa dinâmica. O trabalho critica as soluções tradicionais da sociedade, como esterilização e separação das crianças, e propõe uma reflexão sobre a subjetividade de mães psicóticas e seus filhos. A pesquisa busca avançar a clínica em saúde mental, enfatizando a importância da escuta e da relação mãe-filho na psicose.

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MARIA MERCEDES MERRY BRITO

Maternidade
e suas vicissitudes na psicose

Belo Horizonte
2013
2

MARIA MERCEDES MERRY BRITO

Maternidade
e suas vicissitudes na psicose

Tese apresentada ao curso de Pós-Graduação em


Psicologia, da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais,
como requisito parcial à obtenção do grau de Doutora –
Estudos Psicanalíticos.

Área de Concentração: Psicologia/ Departamento de

Pós Graduação em Psicologia da UFMG

Linha de Pesquisa: Estudos Psicanalíticos

Orientador: Prof. Dr. Jeferson Machado Pinto

Co-orientador (a): Profª Andréia Maris Campos Guerra

Belo Horizonte
2013
3

Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste


trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico para
fins de estudo e pesquisa desde que citada a fonte.
5

Dedico este trabalho a meu pai, Raymundo Lima Brito,


de quem herdei o gosto pelo trabalho e a minha mãe ( in
memória), o gosto pela arte e simplicidade.
6

AGRADECIMENTOS

A Jesus Santiago e a Antonio Teixeira que me acolheram no Programa de


Doutorado;

Ao caro Jeferson Machado, pela escuta apurada e presença constante nesse


caminho de claros e escuros que é o da pesquisa e escrita em psicanálise;

A Andréia Guerra, que com entusiasmo e disponibilidade apostou comigo na


possibilidade desse trabalho;

Às gerentes Shirley Almeida e Solange Beirão que acolheram minha proposta de


trabalho no contexto das unidades básicas de saúde, do SUS\BH;

A Goergina Véras Motta, que me orientou pacientemente no uso de recursos da


informática;

A Cláudia Messias, pelo incentivo nas horas mais difíceis e que nos encanta a todos
pelo esmero com que trata as questões da criança e dos adolescentes em nosso
meio;

A Leonardo Quintão, e Max Moreira interlocutores inquietos e exigentes no que


tange à saúde mental pública e coletiva;

Aos psicólogos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, e ACSs e demais


profissionais dos Centros de Saúde Carlos Chagas e Centro de Saúde Nossa
Senhora Aparecida;

Ao Distrito Sanitário Centro Sul, que soube escutar a necessidade da articulação


entre a prática e a teoria em saúde pública e coletiva, disponibilizando horários para
a escrita desse trabalho;
7

A minha irmã, Maritsa, companheira em muitos momentos da minha vida,


principalmente este que me afastou um pouco do convívio familiar;

A Célio Garcia, sinaleiro incansável da necessária interlocução entre psicanálise e a


política, e que me diz sempre... ―É preciso continuar...‖;

As crianças, Raissa, filha de uma das mulheres desse estudo, Agnes, Lorraine,
Helena, Laura, Isadora, Tomás, Clarice e Pedro, filhas de amigos e, minha sobrinha
Luna, que alimentaram o meu desejo de continuar;

A todos aqueles que, de alguma forma, colaboraram para a realização deste


trabalho.

Com amor, o meu muito obrigada!


8

RESUMO

Brito, M. M. M. (2013). Maternidade e suas vicissitudes na psicose. Faculdade de


Psicologia, Universidade Federal de Minas Gerais.

Em nossa prática clínica em saúde mental, é comum o encontro com situações mais
ou menos dramáticas, de mulheres psicóticas que possuem filhos pequenos ou
estão próximas da concepção. As soluções encontradas até o momento pela
sociedade, diante do insuportável dessa situação, não foram além das propostas
anticonceptivas, de esterilização e separação definitiva da criança de seus pais para
adoção ou inscrição em um percurso institucional, claramente danoso para esses
pequenos sujeitos. Deparamo-nos também, no dia a dia do trabalho, com situações
relativas à eminência, existência concreta ou delirante da gravidez, ou pelo desejo
de maternidade dos sujeitos em atendimento. O atendimento a essas mulheres nas
unidades básicas de saúde remete também a indagações de médicos generalistas
das equipes de saúde da família, pediatrias e ginecologistas sobre a condução de
casos de pacientes psicóticos que desejam engravidar ou têm filhos sobre sua
guarda. Alguns profissionais chegam a recomendar o afastamento definitivo de
crianças do convívio com os pais acometidos de sofrimento psíquico. É preciso
atentar para as implicações desse ato na subjetividade desses pais e de seus filhos.
É preciso ainda interrogar se essa conduta, que tem o risco da naturalização (no
sentido do método que separa sujeito e objeto), não se aproximaria mais de uma
espécie de eugenismo nas intervenções de saúde coletiva voltadas para pacientes
psicóticos. Diante das questões que se colocam, e na perspectiva de fazer avançar
a clínica com mulheres e mães psicóticas na rede pública de saúde mental, o que
nos interessa investigar, numa interlocução com o campo psicanalítico e a partir da
escuta de alguns casos, é o que se passa em torno da relação entre uma mãe,
ainda que psicótica, e seu(s) filho(s), ou seja, o que podemos encontrar das
vicissitudes da maternidade na clínica da psicose.

Palavras-chave: Psicose, Maternidade, Clínica, Saúde Mental.


9

RESUMEN
Brito, M. M. M. (2013). Maternidad y suas vicisitudes en la psicosis. Faculdade de
Psicologia, Universidade Federal de Minas Gerais.

En nuestra práctica clínica de sanidad mental es común el encuentro con


situaciones, más o menos dramáticas, de mujeres psicóticas que poseen hijos
chicos o están cerca de la concepción. Las soluciones encontradas hasta el
momento por la sociedad, delante del insoportable de la situación, no fueron además
de las propuestas anticonceptivas, de esterilización y separación definitiva del
niño(a) de sus padres para adopción o inscripción en una ruta institucional que
seguro causa daño para esos pequeños sujetos. Nos encontramos, también, en el
día a día del trabajo, con situaciones relativas a la eminencia, existencia concreta o
delirante del embarazo, o por el deseo de maternidad de los sujetos que son
asistidos. El atendimiento a esas mujeres en las unidades básicas de salud remite,
también, a indagaciones de médicos generalistas de los grupos de salud de la
familia, pediatrías y ginecólogos, sobre el manejo de casos de pacientes psicóticos
que desean embarazar o tienen hijos sobre su responsabilidad. Algunos
profesionales llegan a recomendar el alejamiento definitivo de niños del convivio con
sus padres que sufren de enfermedades psíquicas. Es necesario fijar en las
implicaciones de este acto en la subjetividad de esos padres y de sus hijos. Es
necesario, todavía, interrogar si ese procedimiento, que presenta un riesgo de
naturalización (en el sentido del método que separa sujeto y objeto), no se acerca
más de una especie de eugenismo en las intervenciones de salud colectiva vueltas
hacia pacientes psicóticos. Delante de las cuestiones que se presentan, y en la
perspectiva de hacer avanzar la clínica con mujeres y madres psicóticas en la red
pública de sanidad mental, lo que nos interesa investigar, en una interlocución con el
campo psicoanalítico y a partir de la escucha de algunos casos, es lo que ocurre
alrededor de la relación entre una madre, aunque psicótica, y su(s) hijo(s), o sea,
qué podemos encontrar de las vicisitudes de la maternidad en la clínica de la
psicosis.

Palabras clave: Psicosis, Maternidad, Clínica, Sanidad Mental.


10

RÉSUMÉE
Brito, M. M. M. (2013). Maternité et ses vicissitudes dans la psychose. Faculdade de
Psicologia, Universidade Federal de Minas Gerais.

Dans la pratique clinique de la santé mentale, on trouve, souvent, des situations plus
ou moins dramatiques, avec des femmes touchés par la psychose ayant des enfants
très petits ou qui sont sur le point d’accoucher. Les solutions trouvées jusqu’à
présent par la société, en face de l’intolérable et de cette situation, ne vont pas très
loin des propositions anticonceptives, de stériliser et de séparer définitivement
l’enfant de ses parentes, les menant à l’adoption ou à l’inscription dans un parcours
institutionnel qui endommage visiblement ces petits sujets. Nous envisageons aussi,
au jour le jour de travail, des situations qui rapportent à l’éminence, existence
concrète ou délirante de la grossesse, ou par le désir de maternité des sujets qui
sont sous notre surveillance. Les soins pour ces femmes là dans les unités basiques
de santé renvoient aussi à des renseignements de la part de médecins généralistes
des équipes de santé de la famille, pédiatres et gynécologistes sur la conduction des
cas des patients psychotiques qui veulent être enceintes ou qui ont des enfants sous
sa garde. Quelques professionnels recommandent même l’écarter définitivement les
enfants de la convivialité de sa famille touchée par la souffrance psychique. Il faut,
encore, interroger si cette allure, qui a le risque de naturaliser (dans le sens de la
méthode qui sépare le sujet de son objet), ne s’approcherait pas plus d’une espèce
de eugénisme dans les interventions de santé collective vers les patients
psychotiques. En face des questions qui se posent, et dans la perspective de faire
avancer la clinique avec les femmes et les mères psychotiques dans le réseau
publique de santé mentale, ce qui nous intéresse enquêter ici, dans une interlocution
avec le champs psychanalytique et à partir de l’écoute de quelques cas, c’est ce qui
se passe autour de la relation entre une mère, même que psychotique, et ses
enfants. En autres mots, ce que nous pouvons dire des vicissitudes de la maternité
dans la clinique de la psychose.

Mots-clé : Psychose, Maternité, Clinique, Santé Mentale


11

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 13

1 - O LUGAR DA MULHER E DA MÃE AO LONGO DAS ÉPOCAS 22

1.1 O amor materno, uma tradição inventada 24

1.2 A valorização do amor materno 28

1.3 A condição de ser mulher 32

1.4 A condição de ser mãe 355

2 - A CRIANÇA E A MÃE EM FREUD 37

2.1 Do apaixonamento da criança pela mãe 37

2.2 A relação da criança com sua mãe é sexuada 39

2.3 Amor de objeto e processo civilizatório 45

2.4 Sobre o narcisismo e suas implicações na maternidade 45

2.4.1 Todo amor é de fundo narcísico, inclusive o parental 48

2.4.2 Uma via em Freud do acesso ao pleno amor: a maternidade 49

3 - EM LACAN, A MULHER NÃO É A MÃE 51

3.1 O complexo de desmame 54

3.2 A Mãe onipotente e insaciável 57

3.3 A mãe devoradora 59

3.4 A mãe insuficientemente boa 60

3.5 A falofagia fantasística dos psicanalistas 60

3.6 Mãe substituível e transmissão subjetiva 64

3.7 O enigmático desejo da mãe e a função da metáfora paterna 66

3.8 A maternidade e o Édipo feminino 67

3.9 Maternidade como suplência: à mulher que não existe. 69


12

3.10 A ―mãe‖ na clínica 70

4 - SOBRE A PSICOSE 73

5 - PSICOSE E MATERNIDADE 81

5.1 A metodologia de pesquisa 87

5.1.1 O universo da pesquisa 87

5.1.2 Os sujeitos da pesquisa 88

5.1.3 Os instrumentos metodológicos 88

5.2 O caso Joana 93

5.3 Filhas abandonadas, mães negligentes? 101

5.3.1 Caso Carmem 101

5.3.2 Caso Rosa Maria 107

5.4 Diana, uma mãe melancólica 110

5.5 Uma mãe religiosa 122

CONSIDERAÇÕES FINAIS 132

Referências Bibliográficas 136


13

INTRODUÇÃO
DO DESEJO QUE NOS MOVE

Em 2003, defendi minha dissertação de mestrado em Ciências Sociais da


PUC/MG, onde procurei caracterizar, em meio a uma população de moradores de
rua, um personagem e antigo habitante das cidades, o denominado ―louco de rua‖.
Meu objetivo nesse trabalho foi o de estabelecer, a partir de uma interlocução com o
campo sociológico e o da psicanálise, os determinantes sociais e psíquicos que os
levaram a essa condição.
Nesse percurso pude constatar que dos doze sujeitos pesquisados, cinco
foram casados e constituíram prole, mas tiveram seus laços familiares cindidos a
partir de seu adoecimento e ida para as ruas. Como foi o caso de um deles, uma
mulher de 45 anos, moradora há quinze anos nas ruas, que não se casou, mas teve
seis filhos, todos eles dados em adoção no transcurso de várias internações em
hospitais psiquiátricos. Essa mulher sabia do paradeiro de um de seus filhos, porém,
sentia-se envergonhada em aproximar-se dele, pelo fato de não ter nada a lhe
oferecer. Mais tarde, fui procurada por um investigador particular, que representava
o interesse de duas de suas filhas dadas em adoção. Fato que muito me emocionou
e exigiu todo um trabalho de preparação desse encontro tardio entre mãe e filhas.
Duas outras mulheres, depois de sair das ruas, também deram continuidade ao
tratamento na unidade básica de saúde. Uma dela
s pode reverter — com esforço da equipe de saúde mental da qual faço parte,
da equipe de saúde da família e educadores sociais de rua — a condição de
abrigamento de um de seus filhos, hoje um adolescente.
Para outras, a possibilidade de reencontro ou retomada da guarda dos filhos,
por uma série de contingências, apresentou-se como impossível. Foi, portanto, a
partir da experiência clínica, da escuta dessas mulheres que se distanciaram ou
perderam a guarda de seus filhos e encontraram a possibilidade de se
reposicionarem ou não na relação com eles e com o mundo, que nasceu o meu
interesse pela realização de um estudo sobre as vicissitudes da maternidade na
psicose.
Um elemento que se apresenta como relevante na construção e promoção do
cuidado ao portador de sofrimento psíquico, na prática clínica em psicanálise e no
14

contexto de saúde pública e coletiva, é a atenção à família ou ao grupo com o qual


essas pessoas fizeram ou fazem algum tipo de laço social. Sabemos que na
emergência da sociedade moderna, o saber psiquiátrico penetrou nos meandros de
um novo modelo de família conjugal e influenciou fortemente sua organização
interna a partir da abordagem do louco. A relação da família com o louco nesse
contexto aparecia como um problema social e também como uma questão teórica
que vai ser trabalhada por Esquirol (1820), que foi diretor do Hospital Salpêtriere em
Paris em meados do século XIX, e para quem o isolamento do louco era parte
relevante do projeto terapêutico como forma de afastá-lo da causa propiciadora de
sua alienação mental.
Algumas vezes, a causa do delírio existe no seio da família, desgostos
domésticos, reveses da fortuna, a inveja, a presença de indivíduos que
despertam ou irritam as paixões mal apagadas, provocaram o extravio da
razão e são obstáculos insuperáveis para seu restabelecimento. (Esquirol,
citado por .Birman, 1978. p.276)

Considerava-se que se por um lado a família precisava ser protegida das


intempéries de um de seus membros, por outro, ela mesma trazia em seu cerne os
germes da alienação mental de que ele padecia.
Até muito recentemente, a relação de pessoas com sofrimento psíquico e
suas famílias era mediada por trabalhadores e organizações de saúde,
principalmente os hospícios. Estes, com base no tratamento moral e disciplinar,
colocavam a família no papel passivo de espera dos resultados consignados pelo
saber psiquiátrico clássico, que originalmente prometia a cura ou simplesmente a
excluía do processo de tratamento. Sendo assim, com uma herança perpetuada ao
longo das épocas, que enfatiza as causas sociais da loucura independentemente da
constituição do sujeito, lidar com o louco e seu grupo familiar nos equipamentos que
hoje são substitutivos aos hospitais psiquiátricos não é tarefa de pouca monta.
Por outro lado, a prática das equipes de saúde mental na rede pública de
saúde tem demonstrado o quão difícil é, para muitas famílias e para a comunidade,
lidar com a eclosão de uma crise, com o sofrimento de um de seus membros no
cotidiano de suas vidas. Estudos realizados por pesquisadores brasileiros nos
últimos anos permitem evidenciar que esse sofrimento provoca diversos abalos no
grupo familiar. Para Lucia Rosa, assistente social da UFRJ, em seu livro, Transtorno
Mental e o Cuidado na Família, diz ―o transtorno mental provoca deslocamentos nas
15

expectativas e nas relações entre as pessoas, ao ser um fenômeno não integrado no


código de referência do grupo‖. (Rosa, 2003. p.243)
Um texto de Lacan que merece destaque, ―Os Complexos Familiares e a
Formação do Indivíduo‖, merece destaque por ser onde ele designa a família como
um ―grupo conjugal‖, como objeto e circunstância psíquica que objetiva complexos e
nunca instintos. (Lacan,1938) e que se afigura como um grupo natural de indivíduos,
unidos por uma dupla relação biológica, a saber: a geração que fornece os
componentes do grupo e as condições do meio postuladas pelo desenvolvimento
dos jovens que mantêm o grupo, desde que os adultos geradores assegurem sua
função.
A espécie humana, diz o psicanalista,

[…] caracteriza-se por um desenvolvimento singular de relações sociais,


sustentado por capacidades excepcionais de comunicação mental e,
correlativamente por uma economia paradoxal de instintos, que nela se
mostram essencialmente susceptíveis de conversão e de inversão e já não
tem um efeito isolável, a não ser esporadicamente. (Lacan,1938.p.123)

Dentre todos os grupos humanos, Lacan (1938) considera que a família


desempenha um papel primordial de transmissão da cultura, sendo signatária no
tratamento das pulsões, na educação precoce da criança, na aquisição da língua
legitimamente chamada materna. Sendo que são através desses elementos que
esse grupo rege os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico e
transmite em termos mais amplos as estruturas de comportamento e de
representação. Estruturas cujo funcionamento ultrapassa os limites da consciência,
estabelecendo entre as gerações uma continuidade psíquica cuja causalidade é de
ordem mental.
No texto denominado ―O Mito Individual do Neurótico ou Poesia e Verdade na
Neurose‖, (Lacan, 1969), ele retoma o caso clínico do Homem dos Ratos de Freud,
e já conta com os elementos de uma eficácia simbólica extraídos da linguística de
Lévi-Strauss. Esse texto nos revela como imagem mítica uma constelação original:
as relações familiares que presidem tanto a pré-história e o nascimento, quanto o
destino do sujeito. Essa constelação formada na tradição familiar, que define os
traços da linguagem que especificam a união dos pais dos quais o sujeito retira
elementos de uma produção própria é, ao mesmo tempo, um roteiro imaginário e
16

fantasístico. Roteiro esse que lhe vem como solução para uma angústia proveniente
de sua falta a ser.
Também em ―Nota Sobre a Criança‖, Lacan (1969), fala da ―função de
resíduo exercida e ao mesmo tempo mantida pela família conjugal na evolução das
sociedades‖, (Lacan. 1969/2003.p.373), destacando a irredutibilidade da
transmissão de uma constituição subjetiva, implicando uma relação com um desejo
que não seja anônimo.
Laurent (2007), um dos continuadores do ensino de Lacan, em uma entrevista
publicada no jornal argentino La Nación, intitulada ―Como Criar as Crianças‖,
apresenta contribuições, no mínimo instigantes, sobre questões relativas à
estruturação familiar em nosso tempo. Confirmando a tese de Lacan com relação à
natureza social e não biológica dessa estrutura, Laurent considera que se não há
mais família tradicional, ela ainda subsiste como instituição, o que permite inclusive
―a transmissão de bens e de direitos e a articulação entre gerações.‖ (Laurent, 2007.
p. 1). No momento em que é possível pensar sobre o fim da forma clássica de
família, o romance familiar ainda assim é produzido pela criança, em uma época em
que surgem novas organizações familiares, monoparentais, de pessoas do mesmo
sexo, de geração em vítreo etc. Ao mesmo tempo isso nos leva a indagar sobre os
arranjos familiares que também podem ser produzidos, de laços estruturais e
estruturantes, que se apresentam para crianças, filhas de mulheres, para quem o
exercício de uma função materna — o lugar de Outro primordial, essencial na
estruturação do sujeito — se encontra comprometido.
Embora as crianças, filhas de pais psicóticos e a repercussão dessa condição
em termos de constituição subjetiva e outros avatares, não sejam o foco de nosso
interesse, estudos realizados na UFBA — Universidade Federal da Bahia — sobre
―Prevalência de Distúrbios Mentais em Mulheres (mães) Cuidadoras de Crianças‖,
publicados por Santos. N.D. et.al. (2006), encontraram uma correlação positiva entre
saúde mental materna e os indicadores psicopatológicos nas crianças. Estes
estudos asseveram que as perspectivas contemporâneas de regulação emocional
sugerem que o papel dos cuidadores e os atributos parentais de comportamento são
importantes no desenvolvimento emocional das crianças e que a sensibilidade
materna influencia no desenvolvimento emocional de seu filho. De forma diferente,
psicanalistas discutem as condições de possibilidades de estruturação psíquica do
sujeito criança. A psicanalista Dieren.V. Eliane (1994), em seu artigo ―O autismo
17

seria uma resposta a um tipo particular de melancolia parental?‖ discute, a partir de


Freud, a relação mãe e criança a partir de ―um luto provocado por uma perda em
uma mãe fortemente perturbada em sua função.‖ (Dieren, 1994. pp. 77- 89). Esta
questão apresentada pela psicanalista, só redobra a nossa responsabilidade no
campo da atenção às mulheres psicóticas e seus filhos.
Em nossa prática é comum o encontro com situações clínicas mais ou menos
dramáticas, de pessoas com sofrimento psíquico adultos, que vivem com os pais,
que são casadas, que vivem juntos de seus parceiros sexuais ou são separadas,
bem como, com famílias monoparentais com filhos pequenos ou próximos da
concepção.
As soluções encontradas até o momento pela sociedade, diante do
insuportável dessa situação, não foram além das propostas anticonceptivas, de
esterilização e separação definitiva da criança de seus pais para adoção ou
inscrição em um percurso institucional, claramente danoso para esses pequenos
sujeitos.
Em se tratando de adoção ou afastamento prolongado de crianças cujos pais
são psicóticos, por exemplo, Quintão (2003) diz que:

[...] ao testemunhar alguns encontros tardios dos pacientes com seus filhos,
fica-nos a pergunta – o que podemos fazer para não reproduzirmos
simplesmente atitudes que visam apenas o alívio de uma tensão insuportável
de fato, mas que frequentemente rompem com qualquer possibilidade de
afetividade, de vínculo, principalmente quando mais tarde uma estabilidade
maior é atingida pelo paciente? (Quintão,2003.p.1)

Deparamo-nos também, no dia a dia do trabalho, com questões relativas à


eminência, existência concreta ou delirante da gravidez, ou pelo desejo de
maternidade e paternidade dos sujeitos em atendimento. Um número considerável
de pacientes traz à clínica questões relativas ao desejo de terem filhos ou uma
disposição de cuidarem de suas crianças depois de um longo período de separação.
Muitos desses homens e mulheres são surpreendidos com a notícia de
encaminhamento de seus filhos para guarda de outrem ou instituição pública de
abrigamento, muitas vezes sem o seu consentimento.
Nesse trabalho, não é incomum os técnicos terem a impressão de que talvez
tenham chegado tarde demais, tamanha distância que se interpõe entre essas
pessoas, suas famílias ou comunidade de origem. Por exemplo, uma paciente com
18

longo percurso de institucionalização na FEBEM, desde os cinco anos, mãe de três


filhos, um deles dados para adoção à sua revelia, chega à unidade de saúde
queixando-se de ter perdido a guarda de um deles que mora em uma instituição de
abrigamento onde ela, por esforço da equipe, tem acesso.
Outros vêm para falar das dificuldades em torno ao cuidado de seus filhos.
Uma jovem mulher psicótica vem nos contar sobre a insuportável dor que sente ao
escutar de seu filho de cinco anos que está com enurese noturna, lançar-lhe uma
sequência de perguntas que ela considera sem nenhum sentido e, por último, conta
sobre a sua angustia quando se vê com vontade de espancá-lo diante de sua
própria falta de respostas. Outra paciente pede para trazer seu filho de nove anos
para uma consulta pelo fato dele estar apresentando sintomas de dispersão e
desinteresse na escola. Conta-me no dia em que traz a criança, juntamente com um
relatório da escola, que o problema do filho nada tem a ver com ela e sim com o
novo casamento do pai. Por outro lado, fala de uma série de desmaios que tem tido
e que o menino é quem fica ao seu lado nessas ocasiões, mostrando resistência
para ir à escola, colocando-se claramente no lugar de cuidador de sua mãe.
Um congresso realizado por La Ligue Bruxelloise Francophone por La Santê
Mental1, em 2002 na Bélgica, teve como um de seus temas privilegiados — ―Psicose
e Família, Perturbações Recíprocas‖ — que se aproxima de questões importantes
que devem ser consideradas em nossa clínica. Esse tema colocou em evidência os
modos de comunicação complexa no seio das famílias nas quais um dos membros
apresenta uma sintomatologia psicótica: os fenômenos de transmissão, inter e
transgeracional que se entrecruzam e os tipos de interação específica que os
pacientes psicóticos e seus familiares mantêm entre si. Trata-se nesse trabalho do
acréscimo de um refinamento clínico que permite apontar a importância do
tratamento de situações com essas características, dentro da possibilidade de
cálculo, considerando a constelação familiar.
O atendimento a esses pacientes nas unidades básicas de saúde remete
também a indagações de médicos generalistas das equipes de saúde da família,
pediatrias e ginecologistas sobre a condução de casos de pacientes psicóticos que
desejam engravidar ou têm filhos sobre sua guarda. Alguns profissionais chegam a

1
Congresso européen francophone co-organizado por La Ligue Bruxelloise Francophone pour la Santé Mentale
em colaboração com L’ union Internationale d’Aíde à la Santé Mentale Et L’association Française de
Psychiatrie com o título: Penser la psychose – Du traitament à l’accompagnament.
19

recomendar o afastamento definitivo de crianças do convívio com os pais


acometidos de sofrimento psíquico. É preciso atentar para as implicações desse ato
na subjetividade desses pais e de seus filhos. É preciso ainda interrogar se essa
conduta, que tem o risco da naturalização (no sentido do método que separa sujeito
e objeto), não se aproximaria mais de uma espécie de eugenismo nas intervenções
de saúde coletiva voltadas para pacientes psicóticos.
Em um relato de apresentação sobre uma paciente, feito por Lacan em 1976,
em um hospital psiquiátrico em Paris, Czeemak (1991) diz que ―o psicanalista chega
a recomendar seu afastamento do cuidado de seu único filho‖. Essa prática
exercitada por Lacan em suas ―apresentações de pacientes‖, considerada uma
inovação na importância dada à fala do paciente — tanto no estabelecimento do
diagnóstico, quanto na implicação do sujeito naquilo de que ele padece — teve e
ainda tem grande prestígio na formação dos psicanalistas e é fruto de uma
expectativa de seu inventor, o de distanciar a psicanálise do caráter demonstrativo
ou pedagógico da psiquiatria de Charcot ou Kraepelin, que em nada contavam com
os interesses do paciente. Foi no debate que se instalou ao fim dessa entrevista
com essa paciente, cujo diagnóstico se afirmou em torno de uma parafrenia
imaginativa, que um dos participantes da plateia pergunta à Lacan se ele
recomendaria a essa mãe o cuidado de seu filho, ao que ele responde:

Eu não estou absolutamente convencido disto. Eu preferiria mesmo que não o


confiem a ela. Não me parece que seja algo a recomendar. Ela já tem coisas
o bastante para se preocupar. Ela quer se valorizar, que a valorizem se
puderem. (Lacan citado pór Czemark,1991.p.31)

Além das questões sobre a novidade da prática de apresentação de


pacientes, no contexto do ensino de Lacan que esse documento suscita, sua escuta
nesse caso nos leva a interrogar tanto sobre o diagnóstico clínico que pode
determinar se uma criança deve ou não ficar sob a guarda de seus pais
definitivamente ou durante o período agudo de seu adoecimento, quanto sobre as
condições possíveis da maternidade na psicose.
Diante das questões que se colocam, e na perspectiva de fazer avançar a
clínica com mulheres e mães psicóticas na rede pública de saúde mental, o que nos
interessa investigar, numa interlocução com o campo psicanalítico e a partir da
escuta de alguns casos, é o que se passa em torno da relação entre uma mãe,
20

ainda que psicótica, e seu(s) filho(s), ou seja, o que podemos encontrar das
vicissitudes da maternidade na clínica da psicose.
Ao falar de maternidade, nos colocamos de imediato diante do feminino. Em
psicanálise, não há discurso possível sobre A Mulher entendida como um ―ideal
feminino‖, na medida em que se trata de um discurso, que se sustenta na ordem
fálica, na ordem de uma falta e que, por isso mesmo, contém a interdição de falar
sobre o que excede nessa ordem. Trata-se, portanto, neste trabalho que se
desenvolverá a partir do estudo de casos clínicos, sobre a questão da mulher, uma a
uma e mais, de mulheres e mães que não passam pela mediação da ordem fálica,
que são as mulheres na clínica da psicose.
Quando as mulheres do século XVI estavam completamente fora dos
domínios do poder e do ter, envolvidas com o domínio do seu ser, fazer o feminino
era uma tarefa que tomava grande parte de seu tempo, se não todo . Então, uma das
coisas que elas faziam com muita habilidade era tecer, com a finalidade de constituir
esse feminino que, como veremos neste estudo, não lhes é dado de antemão e que
nunca está pronto. Freud já falava sobre isso em algum lugar de seus ensaios
teóricos sobre as mulheres e, aliás, foi e ainda é muito mal interpretado. De modo
que assim, adentrando com a devida cautela no universo que é o das mulheres,
vamos falar de saídas do feminino, a partir de um gozo que escapa à dimensão
fálica na neurose e, desde que costurada com a linguagem, podemos nomeá-la
também de uma ―texcitura‖ do feminino.
No campo interdito para as mulheres, que era o campo dos afazeres
masculinos do século XVI, o campo das batalhas e das disputas de poder, elas
tinham filhos, mas não os criavam se não o quisessem. Por outro lado, se
embelezavam para os homens na tentativa de fazer-se existir e assim tecer algo do
feminino, com o resto de gozo que escapa à lógica fálica. As mulheres psicóticas,
que não passam pela castração, também tecem e têm filhos, e para algumas delas
esse filho lhes vem com recurso de suplência à foraclusão do nome-do-pai. Para
outras tantas mulheres psicóticas, ainda que tenham filhos, nem tanto, posto que se
encontram ocupadas em buscar outros recursos para essa falta de inscrição na
ordem fálica.
Algumas delas buscam no ―amor desmedido, amor louco, amor a Deus-Pai ou
no nomadismo‖, essa falta de consistência imaginária e simbólica que lhes daria a
submissão à ordem fálica. Outras são ―enrendadas‖ com seus filhos, nos fios da
21

devastação, tecidos junto às mães da infância e seu Outro primordial, o que pode
ocorrer também com as não psicóticas. Outras, tecem, ―texsuturam‖, com elã e com
a lã, os fios da maternidade perdida. Isto posto, vamos ao seu encontro.
22

CAPÍTULO I

O LUGAR DA MULHER E DA MÃE AO LONGO DAS ÉPOCAS

―Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito


porque uma ondulação maternal de onda eterna
te levará na exata direção do mundo humano‖2.

(Cecília Meireles)

O lugar da mulher e da mãe, bem como o da criança, se inscreve na cultura


segundo uma lógica que responde a uma forma de organização social num dado
contexto histórico. É o que vamos descobrir a partir da leitura de alguns estudiosos,
que ao se debruçarem sobre esse tema, vão encontrá-lo respondendo aos
interesses sócio econômicos e culturais ao longo das épocas.
Por mais longe que nos colocarmos na busca desse lugar na sociedade
ocidental, vamos encontrá-lo submerso no interior da família denominada patriarcal,
acompanhado da autoridade marital, ainda que saibamos que a primazia em termos
de poder e autoridade do homem sobre a mulher, remonte aos primórdios da
humanidade e esteja calcada primariamente nas características físicas de um e de
outro.
Os vários lugares reservados aos homens nas sociedades clássicas
corresponderam a um lugar diferente para as mulheres, para as mães e para as
crianças. Durante toda a antiguidade os poderes do homem como ―chefe de família‖,
por exemplo, permaneceram inalterados, ainda que atenuados na sociedade grega e
acentuados entre os romanos. À mulher legava-se, nesses primórdios da cultura
ocidental e durante toda a sua vida, a condição jurídica de menor, pouco diferente
da condição de seus filhos e das crianças em geral.
Em seu livro, Um Amor Conquistado – O Mito Do Amor Materno, a filósofa
Elisabeth Badinter (1985), voz controversa do movimento feminista francês, diz que
foi preciso esperar pelo cristianismo para que a autoridade do homem sobre a
mulher fosse atenuada. Com a introdução dos preceitos de amor em Cristo,
igualdade e companheirismo marital, o casamento que até então era uma instituição

2
Da poesia Desamparo de Cecília Meireles em Viagem & Vaga Música. 2006.p. 29
23

contratual leiga, passa a ser uma instituição divina. Na medida em que uma
entidade, ou uma nova autoridade se interpôs entre um e outro, amenizou-se o
poder exorbitante do marido sobre a mulher e os filhos. Na França, até o fim do
século XIII, a igualdade entre os cônjuges proclamada pela Igreja, traduziu-se num
certo número de direitos concedidos às mulheres, ainda que, mais dirigidos às que
pertenciam às classes superiores. Entretanto, o desenvolvimento do direito romano
na França do século XIV marcará um estancamento da influência liberal da Igreja,
no sentido de uma maior equidade de poder entre os sexos, com repercussão direta
sobre os direitos adquiridos da mulher na sociedade da época.
Badinter (1985) afirma também que a partir do século XIV até o século XVIII
os parcos direitos econômicos adquiridos pela mulher e avalizados pela Igreja, se
restringirão progressivamente até o seu desaparecimento completo. Na mesma
medida, a autoridade paterna recobrará sua força, graças não só à influência do
direito romano, como também a do absolutismo político.
Até o século XVII e início do século XVIII, portanto, em uma sociedade onde a
família é considerada como uma célula sagrada, como um grupo religioso, a mulher
teve um lugar predominantemente de submissão ao marido que, enquanto senhor
da casa, possuía funções essencialmente judicativas de julgar e punir, tendo, assim,
a tarefa de velar pela boa conduta dos membros desse grupo (mulher e crianças) e
responder por isso junto à sociedade.
As razões da superioridade do homem sobre a mulher durante o longo
período que vai da antiguidade até o século XVIII, poderão ser encontradas, para
essa autora, assentadas no tripé de três discursos: 1) Na filosofia política de
Aristóteles, em razão de uma naturalização da superioridade do homem sobre a
mulher e consequentemente a autoridade do marido e pai sobre a mãe e o filho. 2)
Na teologia cristã estariam as razões da submissão da mulher em relação ao
homem, bem como da autoridade divina sobre os dois, ainda que trazendo a
mensagem de amor e igualdade em Cristo. 3) Um terceiro elemento de sustentação
é o princípio da autoridade que pode ser encontrado ainda no discurso produzido no
contexto do sistema político de governança que foi o absolutismo e que apregoa a
similitude do monarca terreno com o Deus pai celestial, gestor de todas as criaturas.
Deste modo será em torno desses discursos dominantes que irá se inscrever o lugar
da mulher e da mãe nas sociedades antigas e clássicas até o início da chamada Era
da Modernidade.
24

1.1 O amor materno, uma tradição inventada


É nesse contexto do longo reinado da autoridade patriarcal e marital que
vamos encontrar indícios do desenvolvimento do denominado ―amor materno‖, tal
como é considerado em nossa contemporaneidade. Badinter (1985) constata ao
longo de seus estudos uma extrema vulnerabilidade desse sentimento que em vez
de inato foi tanto quanto o lugar da mulher e o da mãe, construído pelas sociedades
a partir de determinantes sócio econômicos, culturais e políticos. Na verdade, o
comportamento das mães com relação aos filhos no contexto familiar, até meados
do século XVIII, oscilou entre a rejeição e a indiferença e esteve a seu ver associado
às forças de manutenção de uma sociedade hierarquizada, que tinha na obediência
da mulher ao homem e ao marido uma virtude, que por sua vez, deixava pouco
espaço para manifestações de outros sentimentos humanos, como o amor e a
amizade, e diríamos também, o desejo particularizado do sujeito. Nessa época diz a
autora:

O amor parecia ser muito débil para que sobre ele se construísse alguma
coisa. E, se apesar de tudo, ele existe no seio da célula familiar, mal pode ser
percebido nos documentos que conhecemos. Quando se manifesta de algum
modo, nas relações familiares é de passagem, entre uma frase e outra, quase
envergonhadamente. (Badinter, 1985.p.45)

Uma outra motivação para essa distância encontrada no campo relacional e


dos afetos dos adultos pelas crianças e da mãe pelos seus filhos, é atribuída por
outros autores ao alto índice de mortalidade infantil consoante com terríveis avatares
da vida (pobreza, epidemias, guerras), porque passaram os nossos antepassados.
Para essa estudiosa, mais do que a existência de maior ou menor ―amor materno‖,
segundo as dificuldades externas que se abatem sobre as pessoas, o que na
verdade se constata é que esse sentimento não tinha na era clássica o valor social e
moral dos tempos atuais. Na verdade, mais do que constante na natureza da
mulher, ―o amor materno‖ tal como ele se coloca hoje, foi uma conquista da
civilização.
Outra maneira de aproximação dos sentidos do ―amor materno‖, ao longo das
épocas, é através dos estudos realizados por Philippe Ariès . Nesses estudos esse
historiador francês fala sobre o surgimento do ―sentimento de infância‖ (Ariès,
1981.p.26), e seus desdobramentos ao longo das épocas. Para o autor, nas
25

sociedades antigas o sentimento de infância nem sempre existiu. Na Idade Média,


por exemplo, passados os riscos de sobrevivência da primeira infância, a criança
não era distinta dos adultos em tratamento. Não que não houvesse afeição pelas
crianças, diz Ariès, mas faltava uma consciência de uma particularidade infantil que
a distinguisse dos adultos. A seu ver, a criança que sobrevivia às doenças e tinha
condições de viver sem a solicitude de sua mãe, ou de sua ama, ingressava na
sociedade dos adultos como mais um e sem distinção. Acreditamos que no contexto
do mesmo percurso realizado por esse historiador para descobrir sobre a
particularidade da criança e do ―sentimento de infância‖ é que podemos também
encontrar algo sobre o desenvolvimento do ―sentimento de amor materno‖. Ao lado
de Ariès, Leitão Fernandes (1989) também se destaca quando discute os
fundamentos socioeconômicos e culturais de transição desse sentimento e a não
essencialidade do amor das mães pelos filhos. Considera que:

[…] a maternidade constitui-se como um fato social que só se desvela a partir


da compreensão histórica nas suas vertentes biológicas, psicológicas,
culturais e sócio econômicas. E não de um modo essencialista seja qual for a
essência eleita ou a sua justificação. (Leitão, Fernandes. 1989. p.194)

Podemos observar também que as condutas de abandono da criança eram


comuns até meados do século XVIII, e que a indiferença, a frieza e o desinteresse
pelo rebento que acabava de nascer eram atitudes tidas como normais naquela
época. O que nos leva a pensar que o amor pela progenitura não sufocava de modo
geral as mulheres e que essas atitudes eram toleradas pela sociedade, além de não
serem consideradas parte de uma essência feminina ou de sua natureza.
Para Moreira (2010), o denominado ―amor materno‖ emerge na Europa em
meados do século XVII, quando as mulheres serão conclamadas progressivamente
a cuidar da sobrevivência de seus filhos e assinala que nessa época descortinam-se
os interesses de uma burguesia revolucionária em ascensão, que associa cuidados
maternos à necessidade de sobrevivência das crianças, como garantia de
manutenção de poder de uma classe em ascensão. Outro fator determinante na
ocorrência da valorização do cuidado da criança pela mãe é a introdução de estudos
demográficos que se multiplicam em território europeu, apontando um crescente
despovoamento, particularmente na França.
26

A valorização do ―amor materno‖ contou, também, com a contribuição da


filosofia iluminista com os escritos literários e políticos de Rousseau, Montesquieu e
Voltaire. Também os médicos e especialistas da época, particularmente os
higienistas, contribuíram para a proclamação do caráter natural e instintivo desse
sentimento. O que deixa claro que cada época produz e encarna um modelo de ―ser
mãe‖, baseado numa diferenciação de papéis, sempre definida de acordo com os
interesses do sistema socioeconômico e cultural vigente.
A criança dos séculos anteriores ao século XVII era considerada um vivente
insignificante, relegada aos cuidados de outrem e na maioria das vezes mantida fora
da célula familiar desde o nascimento. A partir daí, a criança passa a adquirir um
valor mercantil, onde sua potencialidade como riqueza econômica e garantia de
poderio militar da nação é exaltada. Instaura-se, pois, um novo modelo de divisão
sexual do trabalho industrial e mercantil, que delega prioritariamente às mulheres as
tarefas de gerar, criar e educar os filhos tornando-os parte promissora na cadeia das
gerações.
A mulher legada durante séculos a um lugar subalterno do qual só escapava
em detrimento dos filhos (deixando-os aos cuidados ou descuidados de amas de
leite) pôde, a partir desses determinantes, vislumbrar através da maternidade a
possibilidade de ascensão a um lugar de reconhecimento que até então lhe era
recusado.
Vieira (2004), em seus estudos sobre a infância e a modernidade, estabelece
uma interlocução com vários estudiosos, dentre eles o sociólogo Jean Baudrillard.
Vamos nos servir também dos estudos dessa historiadora para tentar compreender
as relações entre as crianças e os adultos, particularmente a relação entre a mãe, a
criança e a ideia de ―amor materno‖ junto a seus epítetos ao longo das épocas. Em
seus estudos sobre a ideia de modernidade, Baudrillard (1989) observa que apesar
dos pares antigo/moderno serem conhecidos em distintos tempos históricos, o termo
modernidade aparece pela primeira vez em Baudelaire, no ensaio ―O pintor da vida
moderna‖, publicado em 1863.
Segundo Baudelaire, o pintor, tanto quanto o romancista ou o filósofo, é
aquele que capta e absorve o efêmero e o contingente como elementos tradutores
da modernidade. Assim Baudelaire entende que o pintor,
27

[...] é aquele que se delicia com finas carruagens e orgulhosos corcéis, com a
esplendorosa sagacidade dos cavalariços, com a destreza dos pedestres,
com o moroso andar das mulheres, com a beleza das crianças, felizes por
estarem vivas e bem vestidas – numa palavra, ele se delicia com a vida
universal. (Baudelaire citado por Vieira,2004.p.36)

Lançando mão dessas referências poéticas, Baudrillard nos convida a pensar


que não é possível tomar o termo modernidade como conceito, já que a
modernidade especificou-se em todos os domínios: no Estado, na técnica moderna,
nos costumes e nas ideias modernas. No entanto, a seu ver pode-se apreender a
existência de uma lógica da modernidade, uma moral canônica da mudança, que se
realiza nos costumes, no modo de vida moderno e no cotidiano, que se opõe à
moral canônica da tradição, ainda que guardando desta alguns elementos de
repetição. Assim, ―enquanto ideia em que toda a civilização se reconhece, ela
assume uma função de regulação cultural e, por aí, associa-se sub-repticiamente à
3
tradição.‖ Portanto, a ideia e sentimento de infância, e de ―amor materno‖, podem
ser associados à ideia de Baudrillard de regulação social, tradição e modernidade. E
ao que entendemos do que poderia ser, recorrendo à psicanálise, uma verdadeira
regulação social do gozo.
Para Vieira (2004), a modernidade que se realiza no século XIX se funda a
partir de profundas mudanças políticas, culturais, sociais e econômicas ocorridas em
diferentes partes do mundo a partir do século XVI. Essas mudanças podem ser
traduzidas em uma infinidade de acontecimentos perturbadores dos costumes e
hábitos humanos que seriam: as viagens ultramarinhas, as reformas religiosas, o
Racionalismo e o Iluminismo, a Revolução Industrial, as alterações nas relações de
trabalho e na subjetividade, as distinções entre o público e o privado, a redefinição
dos núcleos familiares, as profundas mudanças na cultura material das sociedades,
sendo ainda elementos propulsores de sua universalização.
No interesse de nossa pesquisa, vamos nos ater a um dos acontecimentos
que, do ponto de vista de Vieira (2004), fez parte desse processo invenção de
técnicas, costumes e ideias modernas, enquanto dispositivos sociais de ―regulação
cultural‖, termo que ela encontra em Baudrillard em associação à tradição e que no
nosso entendimento se aproxima mais uma vez do que em psicanálise diz respeito

3
Baudrillard, 1989. p. 552, citado por Vieira, 2004. p.36) “Ainsi, en tent qu idée ou toute une civilisation se
reconnâit, elle assume une function de regulation culturelle pa lá subrepticement la tradition.”
28

ao controle das pulsões, ao tratamento do gozo. Um desses dispositivos de


regulação cultural em Baudrillard diz respeito à difusão e à universalização de
formas específicas de tratamento da criança em distinção ao mundo dos adultos.
Consideraremos também as contribuições de Hobsbawn e Ranger (1997) que
cunharam o termo Invenção das Tradições. Para eles, as tradições são inventadas,
se manifestam nas formas ritualísticas e simbólicas e tem como objetivo estruturar
de maneira imutável e invariável alguns aspectos da vida social. Sendo assim, as
relações entre infância e modernidade se estabelecem a partir da invenção de uma
tradição. Uma tradição que dá lugar distinto ao mundo do adulto e ao mundo da
criança, estabelecendo as relações entre um e outro, o que nos possibilita a pensar
sobre o ―amor materno‖ também como algo dessa ordem, o de uma tradição
inventada.

1.2 A valorização do amor materno


Há uma outra contribuição que pode enriquecer muito a discussão que nos
interessa, sobre o lugar da mulher e o da mãe ao longo das épocas, na medida em
que se introduz um viés inédito de leitura, deixado ao largo por muitos autores aqui
citados. Essa contribuição vem ainda de Vieira (2004) que reflete sobre a
subjetividade no âmbito de uma racionalidade produzida para o trato da infância na
modernidade. Considerando em especial, dentre outras, a produção de ações e
saberes que muito nos interessa justamente pela possibilidade que inaugura sua
interlocução com a psicanálise.
É quando essa autora, no mesmo texto que vínhamos cotejando até aqui,
volta-se para uma interlocução muito rica com o sociólogo Norbert Elias, que em seu
extenso trabalho intelectual produziu uma obra consistente e original, num esforço
de compreender as profundas mudanças sociais e também psíquicas porque
passaram a humanidade ao longo das épocas, voltando seu olhar para os costumes
e modos de vida das sociedades, desde as clássicas às modernas.
Um termo cunhado por esse sociólogo, que se aproxima da psicanálise e
particularmente de Freud, pode auxiliar em nossa investigação sobre a maternidade:
―Processo Civilizador — um movimento de mudança de longa duração, não
intencional ou planejado pelos indivíduos e grupos que dele participam.‖
(Quintaneiro, 2010. p. 71). O Processo Civilizador de Elias não possui um marco
29

zero, um começo absoluto, e pode avançar tanto quanto retroagir. Na medida em


que não possui um início, um começo absoluto e nem tampouco visa uma finalidade
específica, pode tanto avançar no sentido de maior autocontrole, diferenciação e
integração social, quanto inverter essa direção, quando se torna descivilizador, tal
como entendemos que sejam as guerras por exemplo. Tem a característica de
instituir uma modelagem específica sobre ações e sentimentos, cuja origem passa
gradativamente de fontes externas até se constituir em autodomínio, aproximando-
se assim dos conceitos freudianos. O Processo Civilizador de Elias é uma tendência
de movimento no tempo, que promove a pacificação das condutas e o
desenvolvimento de formas mais complexas de organização política e de divisão do
trabalho entre os humanos. Assim, aproxima-se de algo muito semelhante a um
trabalho, que no campo da psicanálise é denominado ―controle ou domínio das
pulsões‖, questão sobre a qual se debruçou Freud ao longo de toda a sua obra e, de
forma mais específica, nos chamados textos tardios, escritos sociológicos que são,
principalmente: O Futuro de Uma Ilusão (1927), O Mal-Estar na Civilização (1930) e
muito marcadamente em sua correspondência com Einstein no texto ―Por que a
guerra?‖ (1933).
A constituição de autodomínio, de pacificação de condutas na espécie
humana, é um dos marcos do processo civilizatório encontrado por Quintaneiro
(2011) em Norbert Elias (1997), que diz respeito à mudança na relação entre os
constrangimentos sociais externos e os autoconstrangimentos individuais. Segundo
o sociólogo,

[…] caso se quisesse tentar reduzir o problema-chave de qualquer processo


civilizador à sua fórmula mais simples, então poder-se-ia dizer que é o
problema de como as pessoas conseguem satisfazer suas necessidades
animalescas elementares sem reciprocamente se destruírem, frustrar,
humilharem ou de algum modo causarem repetidos danos umas às outras em
busca de satisfação (Elias,N,1997 a:42.citado por Quintaneiro, 2011.p.71)

Nessa perspectiva é possível compreender os lugares da criança, da mulher


e a passagem do sentimento de amor materno da contingência à necessidade, como
elementos componentes no movimento de um Processo Civilizatório, como um longo
esforço no sentido de aprimoramento das relações humanas, de um movimento de
controle das pulsões, de apaziguamento, de tratamento do gozo ao longo das
épocas.
30

Vimos no início desse capítulo que Ariès (1987) discute a história da infância
com base na premissa de que a criança foi um não valor na Idade Média. Segundo
ele o espaço para a criança é produto da modernidade e o sentimento sobre a
infância até o século XVII não existia. Também Le Goff (1999) corrobora com essa
mesma idéia ao dizer que nessa época, ―amava-se nas crianças o homem ou a
mulher imaginados no futuro‖.
Continuando a acompanhar as elaborações de Vieira (2004) sobre o tema,
vamos encontrar uma série de interrogações sobre a suficiência dos argumentos do
não valor, ou da ausência de sentimentos de infância, na compreensão do lugar que
a criança passou a ocupar nas sociedades ocidentais desde o século XVI, a partir da
ocorrência de acontecimentos nomeados como próprios da modernidade.
Para essa autora, a insuficiência desses argumentos se encontra na
constatação de que uma socialização de crianças das classes burguesas, e em
menor proporção das classes trabalhadoras, praticamente se completou ainda no
final do século XIX. Socialização esta que se deu a partir de diferentes dispositivos
— saberes filosóficos e técnico-científicos — que se consolidaram nessa época nas
sociedades ocidentais. Ela assinala também a existência de ambiguidades nos
sentimentos em relação à infância que pode ser constatada nesse período, tanto do
ponto de vista de seu tratamento, por meio da permanência de atos de violência
física e moral contra a criança, quanto da percepção da criança por ela mesma
como o adulto que virá a ser.
Esses acontecimentos indicam a necessidade de um aprofundamento na
compreensão das circunstancias que possibilitaram a sociedade adulta, no início do
século XXI, a perceber a criança como um outro distinto e compreender a infância
em um dado contexto histórico, para além de uma lógica supostamente natural e
evolucionista de entendimento das etapas da vida.
Para tanto, Vieira (2004) utiliza a ideia de ―tempo geracional‖ (Elias, 1998),
produzido no contexto do processo civilizador das sociedades que trabalhamos
anteriormente e que envolve crianças e adultos numa perspectiva relacional e como
uma dimensão da experiência humana, considerando agora o tempo como um
símbolo cultural que também agrega sentido à nossa investigação. Essa ideia se
distancia tanto das concepções de tempo puramente instrumental, quanto das
concepções de tempo que dissociam natureza e sociedade para explicar a
necessidade humana de medi-lo: Descartes (1596-1650) considera o tempo como
31

algo que precede a experiência humana; Newton (1642-1727), o considera como


um dado objetivo do mundo criado; já Kant (1724-1804) concebe o tempo como
forma inata de experiência não modificável na natureza humana.
A partir daqui, pensamos a ideia de tempo como a percepção de ordenação
do curso da vida, do nascimento à morte, e como um símbolo cultural, passível de
sofrer variações ao longo das épocas, e que está diretamente relacionado, dentre
outras coisas, às mudanças ocorridas na maneira de como os homens produzem os
símbolos para relacioná-los aos diferentes processos. Assim, podemos compreender
o tempo da infância em distinção ao tempo do adulto, como uma função de
regulação sociocultural e de orientação na cadeia das gerações, que demandou
longo processo de aprendizagem e que, na leitura que Veiga faz de Elias,

[…] esteve relacionada ao processo de transformação da coerção externa do


tempo (este presente em qualquer contexto histórico) em uma coerção interna
cada vez mais presente, possibilitando uma conscientização, uma
autodisciplina que envolveu a existência do indivíduo e a sua personalidade.
Essa dinâmica foi parte do processo civilizatório e se conformou lentamente
como um habitus social. (Vieira, 2004. p. 40)

Com base nesses argumentos, podemos considerar que a infância na


modernidade foi uma categoria de tempo produzida em função de uma regulação
sociocultural, com base nas múltiplas experiências vivenciadas pelos diferentes
grupos sociais. Em referência ao tempo do adulto, o tempo da infância se
estabeleceu como um elemento de distinção geracional, produzido por necessidades
socioculturais que precisam ser aprendidas para auferir legitimidade e
reconhecimento em um dado momento histórico por toda a sociedade.
Retomando as reflexões de Baudrillard — sobre a modernidade como
regulação cultural em associação com a tradição — e das elaborações de
Hobsbauwn e Ranger — sobre a invenção das tradições — e das de Norbert Elias
— sobre os processos civilizatórios e sobre a distinção geracional na relação entre a
criança e o adulto —, é possível inferir a ideia de que a valorização do ―amor
materno‖ se deu como forma de tratamento do gozo, de trabalho psíquico
necessário, que também emergiu, se consolidou e se tornou uma verdade
incontestável e ainda uma tradição, no contexto da trama civilizatória que ocorreu
nas sociedades modernas.
32

Dito de outro modo, talvez seja possível considerar os instrumentos teóricos


dos quais se serviu Vieira (2004) para a discussão do lugar da criança na sociedade
moderna, pertinentes, também, para pensar o lugar do adulto e, mais precisamente,
o da mulher e o da mãe dedicada e amorosa nesse contexto. Ou seja, compreender
a valorização do ―amor materno‖ que, se pensado nessa lógica, em vez de
―sentimento‖, como foi nomeado por Ariès (1987) para a infância, seria mais uma
categoria, um significante inventado, para responder a certas necessidades
humanas no processo histórico e civilizatório das sociedades ocidentais tidas como
modernas.

1.3 A condição de ser mulher


É preciso pensar a condição da mulher ao longo das épocas em sua
articulação com acontecimentos históricos que contribuíram na produção de um
comportamento distinto dos adultos em relação às crianças. O caráter circunstancial
dos processos sucessórios ocorridos nos tronos da Europa, em séculos anteriores
ao século XIV, época inclusive em que foi instituída a idade jurídica na França, é um
dos elementos a ser considerado para entendermos essa condição. Em um estudo
sobre o problema da sucessão ao governo de Luiz VIII da França do século XIII, que
deixou como herdeiro Luís IX, uma criança de 12 anos, Le Goff (1999) fala sobre as
inquietações e medos dos adultos diante de fatos como esses que podem ser
encontrados também em textos da bíblia ―Infelicidade para ti, terra cujo rei é uma
criança.‖ (Le Goff, 1999. p.87).
Nessa época, em se tratando de questões jurídicas, os limites de idade
oscilavam muito e as regulamentações eram inconstantes e imprecisas. A condição
de adulto no caso da sucessão de Luiz VIII, de acordo com a leitura de Le Goff
(1999), esteve antes associada ao problema do prosseguimento da linhagem e da
necessidade de assunção ao poder do que propriamente à idade dos candidatos. A
tradição romana, por exemplo, não comportava uma ―maioridade legal‖ (Le Goff,
1999. p. 85) . No lugar de menores havia impúberes e a decisão de deixar de sê-lo
era de responsabilidade do pai ou do tutor.
Outra condição de se tornar adulto se deu pela via do casamento, que além
de cumprir a função de manutenção da linhagem, se realizava por conveniência
dinástica e política. O casamento, vamos dizer, ―por amor‖ era na época inexistente
33

e só encontrava seu lugar na subversão dos costumes, ou seja, no rapto, no


concubinato, no adultério e na literatura.
No Brasil de Pedro II (1825-1891), tal como na Europa, também foi possível
tornar-se adulto pela via política. O infante alçou a coroa com 16 anos em 1841,
celebração que foi acompanhada por manifestação de inquietações oficiais e
populares, numa época em que aconteciam discussões em torno da antecipação da
maioridade: ―Queremos Pedro II/embora não tenha idade/A nação dispensa a lei/E
viva a maioridade‖, ou na boca do povo, ―Quem põe governança/Na mão de
criança/Põe governança/No papo da onça.‖ (Schwarcz,1998. Citado por Vieira,
2004. p. 43)
Essa tendência à indistinção geracional entre adultos e crianças foi
acompanhada pela igreja que também não favorecia a distinção do mundo da
criança do mundo do adulto. O batismo de crianças em idade tenra no século XIII
teve como objetivo intervir na produção da identidade dos sujeitos, mais no interesse
de sua classificação como hereges, cristãos ou pecadores, do que como distinção
geracional entre adultos e crianças. Nos hospitais, asilos e albergues gerenciados
pela igreja para acolher os pobres e indigentes, também não existia tratamento
distinto para adultos e crianças em situação de fragilidade e dependência.
Ariès (1987) observou em seus estudos que a indistinção entre adultos e
crianças em várias circunstâncias perdurou até meados do século XVIII, e que essa
mescla de idades poderia ser localizada por ocasião das festividades populares.
Vieira (2004) acrescenta a essa discussão um elemento novo que analisa o lento
deslocamento do comportamento cortês que distinguia nobreza da plebe na Idade
Média. Essa distinção foi importante para a formação do comportamento civilizado,
propiciado pelas mudanças sociais e políticas que ocorreram a partir do
fortalecimento do Estado absolutista do século XV ao XVI. Motivada pelas perdas
das funções guerreiras, uma nova corte se estabelece baseando-se em laços de
interdependência entre seus membros, criando novas formas de civilidades e de
distinção social, ao preço do desenvolvimento da autodisciplina, do controle dos
instintos, das emoções, impondo a si mesma uma verdadeira ―economia das
pulsões‖ (Elias, 1994).
Uma outra forma de distinção social dessa época se deu através da educação
escolar. O ensino passou a ser organizado por idades entre as camadas altas, com
ênfase na formação do adulto gentil e honrado mais do que numa distinção entre
34

adultos e crianças, ainda que nesse procedimento possam ser encontrados indícios
de uma consciência geracional nascente e propícia à elaboração de futuras práticas
pedagógicas voltadas exclusivamente para a infância.
Os tratados de educação da época prescreveram orientações para a
formação das civilidades. Nesse sentido é exemplar a obra de Locke (1632-1704),
Alguns pensamentos acerca da Educação (Locke,1693), relativa à formação do
homem gentil, cuja centralidade esteve na necessidade de disciplinar corpo e mente
no objetivo de educar os instintos e conter os mimos. Vieira (2004) indica que foi
nesse longo processo de aprendizagem das civilidades que emergiu um novo adulto,

[…] consciente de sua função social na dinâmica geracional, como pai de


família, como negociante, como administrador, ou como ocupante do poder
ou como mãe de família e dona de casa. No século XVIII, a consagração do
adulto honrado e civilizado, em distinção aos pobres e rudes, favoreceu
também a distinção em relação à criança, pela expectativa social, produzida
ao longo desses séculos em relação aos hábitos, aos costumes e aos
comportamentos de um adulto civilizado. (Vieira.2004.p.46).

No interesse de nossa pesquisa é importante ressaltar nesse contexto de


mudanças e na produção das distinções de comportamentos entre adultos, pobres e
crianças, associado ao desenvolvimento do controle das pulsões para a produção do
adulto civilizado, a distinção de comportamento entre os sexos. Vieira (2004)
sustenta que, embora constante nos séculos anteriores, no século XIX consolidou-se
um padrão de comportamento para as mulheres, com ênfase em um tipo especial de
educação da mulher adulta. Isto pode ser comprovado pela ampliação das
publicações especializadas nessa área. Na leitura dessa autora, vários
acontecimentos concorreram para a produção da delimitação de um novo lugar para
a mulher no curso da modernidade. Destaca-se entre eles, o desenvolvimento da
família nuclear, as alterações no equilíbrio de poder entre os sexos, as mudanças
ocorridas na divisão do trabalho, as formas de controle da sexualidade e da
afetividade entre homens e mulheres e entre adultos e crianças, bem como o
desenvolvimento dos saberes, do cuidado com o corpo e com a saúde.
Destaca-se, ainda entre os acontecimentos que concorreram para a
instalação desse novo lugar da mulher no contexto da modernidade, o
desenvolvimento dos sentimentos de vergonha e pudor e o apelo à razão. Estes
sentimentos estiveram muito presentes em várias obras dos séculos XVIII em diante,
35

nos livros literários, nos tratados filosóficos, de medicina e nos manuais de economia
doméstica.

1.4 A condição de ser mãe


Como já vimos, entre as mulheres das classes superiores das sociedades
ocidentais em diferentes tempos, a amamentação foi excepcionalmente uma prática
materna, colocando-se provavelmente como um elemento diferenciador de distinção
de classes sociais. Esse costume somente se estabeleceu como padrão de
comportamento maternal no momento em que foi adotado pelas mulheres
burguesas a partir de fins do século XIX, na medida em que as mulheres do povo, as
antigas amas de leite, iam se dirigindo para o mercado de trabalho. Para Vieira
(2004), o aleitamento como função essencialmente da mãe biológica, tomado como
modelo a partir das classes altas, foi parte de um longo processo de aprendizagem
do ser mãe como nova condição do adulto, e a sua defesa por parte de moralistas,
educadores e médicos foi feita enfaticamente em toda a modernidade. Vamos
encontrar essa defesa no De pueres de Erasmo (1460-1536) e em Rousseau (1712-
1778).
A partir do século XIX, associada ao desenvolvimento dos saberes médicos,
deu-se cada vez mais ênfase à prática desse aleitamento, seja numa perspectiva de
controle das relações de afeto nucleadas na família, seja na perspectiva eugenista, a
da não contaminação do bebê pelo leite mercenário, levando-se em conta o controle
da saúde pública na maneira como era concebida na época.
Alguns tratados sobre higiene e medicina infantil, publicados ao longo do
século XIX no Brasil dessa época, dão mostras de que a ênfase ao aleitamento
materno esteve, em grande parte, influenciada pela temática étnico-racial. Veiga
(2004) destaca em seus estudos a tese de Agostinho José Ferreira Bretãs, de 1836,
citado por Moncovo Filho (1926) na sua obra Histórico da proteção da infância no
Brasil (1500-1922), onde o autor fala do ―abuso de entregarem as mães o filho às
escravas‖ em vez de cumprirem o dever sagrado de aleitá-lo. Também a Academia
de Medicina da época, através de seus doutores, reprovavam em seus tratados o
aleitamento feito por escravas inescrupulosas e de hábitos duvidosos, associando
essa prática aos altos índices de mortalidade infantil.
36

Outra preocupação importante dos moralistas, médicos e educadores da


época, relacionada à produção dessa ―nova mãe‖, é sobre o controle da afetividade
que aparecia nas orientações sobre o tratamento ―dos mimos das crianças.‖ Para
Vieira (2004), essa preocupação talvez estivesse vinculada a um movimento maior
de contenção das emoções, dos afetos e dos desejos, relacionado à indistinção dos
sentimentos, seja porque a criança recebesse afetos de diferentes pessoas ao seu
redor, seja na maneira como os sentimentos se manifestavam naquela época, como
o jogo sexual, a violência física ou os mimos. O que chama a atenção da autora é o
movimento que se institui na modernidade, de distinção dos sentimentos com
destaque às atenções voltadas na moderação das atitudes para com a criança,
caminhando para a concretização do que ela nomeia de ―o amor racionalizado entre
pais e filhos‖.
No século XIX, a circulação de ideias em torno da racionalização de
sentimentos entre adultos e crianças aparecem em periódicos dedicados
especificamente às famílias e às mães de família. Diz Vieira (2004) que:

[…] é curioso como em muitos deles, o amor racionalizado esteve associado


à família nuclear, quase que como uma tradição inventada, as ênfases quase
sempre recaem no dever do amor recíproco de pais e filhos como regra de
uma família civilizada. (Vieira, 2004.p. 54)

É no contexto desse processo histórico de construção do lugar da criança e


do adulto, a partir da distinção geracional como regulação cultural e de um processo
civilizatório mais amplo produzido pela sociedade ocidental ao longo das épocas,
que acreditamos ter sido tecido o lugar reservado à mulher como ―mãe‖, como
cuidadora privilegiada da criança e a ―sacralização‖ (Agamben, 2007) do ―amor
materno‖, ou seja, sua elevação ao sagrado, a condição natural e verdade
incontestável, que persiste tanto nas sociedades ditas modernas quanto nas atuais.
37

Capítulo 2

A CRIANÇA E A MÃE EM FREUD

Ao longo de todo o percurso teórico de Freud, vamos encontrar elementos


que nos possibilitam pensar a ideia de que, para a psicanálise, as relações de uma
criança com sua mãe, ou com quem dela cuida nos primórdios de sua existência,
possuem uma complexidade não alcançada pelas análises sócio-históricas como as
que foram realizadas pela maioria dos autores com os quais trabalhamos no
primeiro capítulo. Sendo assim, optamos por percorrer alguns trabalhos de Freud na
expectativa de extrair deles elementos que possam nos ajudar a compreender as
nuances e as especificidades dessa relação no âmbito da psicanálise, bem como
encontrar elementos que possam contribuir em nossa pesquisa sobre as condições
da maternidade em alguns casos de mães psicóticas que acompanhamos nas
unidades básicas de saúde no município de Belo Horizonte.

2.1 Do apaixonamento da criança pela mãe


A primeira referência que encontramos sobre a relação entre a mãe e a
criança, e que inaugura em nossa pesquisa, que consideramos um novo grau de
complexidade, é a que se encontra na Carta de número 71 da correspondência de
Freud com o médico berlinense Wilhelm Fliess durante o ano de 1897. Na época,
seu suposto saber e um privilegiado interlocutor que contribuíram para o que seriam
os primeiros esboços da construção da teoria e da clínica psicanalíticas. Percebe-se
que nessa carta o inventor da psicanálise se lança numa empreitada que o
psicanalista Ernest Jones chamou de tarefa heroica — já tentada vencida muitas
vezes e sem êxito por filósofos e escritores que queriam seguir o conselho do
oráculo de Delfos, ―Conhece-te a ti mesmo — uma psicanálise de seu próprio
inconsciente‖, (Jones,1975. p.323).
Trata-se também da primeira referência explicita de Freud em sua obra sobre
a relação do Édipo Rei da tragédia grega de Sófocles com o Complexo de Édipo
inventado por ele, e deste ao Complexo de Castração, que se tornará uma noção
central em psicanálise, no que diz respeito à universalização da interdição do
incesto. O Complexo de Édipo na psicanálise diz respeito a um conjunto de
38

representações inconscientes na vida psíquica da criança pelo qual se exprime o


desejo sexual ou amoroso pelo genitor do sexo oposto e sua hostilidade para com o
genitor do mesmo sexo. Será, também, o lugar onde Freud fará uma discussão
sobre o lugar da mulher enquanto mãe e seu lugar na constituição da subjetividade
da criança, ainda que de forma concreta e factual, implicando as relações da criança
com a mãe e o pai da realidade.
A factualidade dessa relação Edípica sustentada por Freud resultará em
muitos desdobramentos teóricos e na clínica de muitos psicanalistas,
particularmente as psicanalistas mulheres. Helen Deustsch em sua La Psicologie
des Femmes de 1944 e Karen Hornery em La Psycologie de la Femme de 1967, são
autoras que se destacaram pelas críticas feitas às consequências que,
supostamente, teriam sido extraídas por Freud de sua prática analítica com
mulheres e suas elaborações em torno do objeto. Também Melaine Kein, em 1932,
em seu livro A Psicanálise com Crianças, na esteira de Freud inaugura a escuta
clínica de crianças muito pequenas trabalha para além do factual e introduz
inovações em torno da questão das relações mãe/criança, ou seja, em torno das
relações de objeto na psicanálise.
A visão freudiana da tríade a criança, a mãe e o pai, na vertente factual, só
seria definitivamente modificada muito mais tarde, pelo psicanalista e leitor atento de
Freud, Jacques Lacan, com quem trabalharemos no terceiro capítulo desse estudo,
e que fará inclusive uma crítica elegante aos elementos da teoria de Melaine Klein,
sobre a psicanálise com crianças. Lacan elevou um importante termo dessa tríade –
notadamente o pai — à condição de metáfora reduzida a um nome, o nome-do-pai e
a mãe à condição de sujeito desejante.
No Dicionário de Psicanálise vamos encontrar a afirmativa de que o
Complexo de Édipo seguirá presente em toda a obra de Freud, que vai de 1887 até
1938, e que nela a figura do Édipo se apresentará quase sempre associada a uma
outra, a do personagem Sheakesperiano Hamlet: ―A primeira simbolizando o
universal do inconsciente, disfarçada de destino e a segunda, o nascimento de uma
subjetividade culpada em uma época de declínio de uma representação cósmica da
existência humana.‖ (Rodinesco et Plon, 1997. p.167)
Na Carta 71 endereçada a Fliess, Freud identificará o que denomina de ―um
apaixonamento da criança pela mãe e ciúmes pelo pai‖, como elemento universal do
início da infância de todo ser humano, tendo como referência o envolvimento do
39

personagem principal da tragédia de Sófocles. A lenda grega, diz Freud, quando


encenada provoca nos espectadores uma compulsão em que toda pessoa
reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. Isto porque a seu ver,

[…] cada pessoa da plateia foi um dia, em ponto menor ou fantasia,


exatamente um Édipo e cada pessoa retrocede horrorizada diante da
realização de um sonho, aqui transposto para a realidade, com toda a carga
de recalque que separa seu estado infantil do seu estado atual. (Freud,1897.
pp. 358-359).

Diz ainda haver encontrado, em si mesmo e em toda parte, sentimentos


amorosos em relação à sua mãe e ciúmes em relação a seu pai que acreditava
serem sentimentos comuns a todas as crianças pequenas, fazendo dessa tragédia o
ponto nodal de um desejo incestuoso infantil, reconhecível em toda a espécie
humana.
Ainda nessa carta, Freud recorre a um exemplo da obra Sheakesperiana,
desta vez o personagem e príncipe dinamarquês Hamlet, para reafirmar os
elementos que compõem o Complexo Edípico, ou seja, o apaixonamento da criança
pela mãe e a hostilidade contra o pai, com uma indagação: Como explicar a
hesitação do personagem Hamlet em vingar o pai assassinado por seu tio? De que
modo poderia ele justificar-se melhor do que diante do tormento que ele padece com
a obscura lembrança de que ele próprio planejou executar a mesma ação contra seu
pai, por causa da paixão por sua mãe. (Freud,1897.p.359)

2.2 A relação da criança com sua mãe é sexuada


Tanto quanto para Freud, a sexualidade passa a fazer parte das
preocupações da comunidade científica, desde o final do século XIX, como um dos
determinantes fundamentais da atividade humana. Freud deu-lhe uma importância
central na doutrina da psicanálise, estendendo a noção de sexualidade (até então
tida como evidência no campo das ciências biológicas e causa dos sintomas
neuróticos), a uma disposição psíquica universal e essência da atividade humana,
construindo em torno dela um conjunto conceitual representado pela bissexualidade,
pela libido e pela pulsão, tudo isso analisado a partir de experiência clínica.
A questão da sexualidade infantil, propriamente dita, vai surgir nas
elaborações teóricas de Freud a partir de 1905, no texto sobre Três Ensaios sobre
40

as Teorias Sexuais, ainda que o componente sexual da relação mãe-criança já


tenha sido anunciado por ele três anos antes em seu livro A Psicopatologia da Vida
Cotidiana. Trata-se da introdução de um elemento sexual, um componente da
relação primordial da criança com a mãe no contexto Edípico. Sua introdução se dá
na análise do conteúdo de um sonho de um paciente, que Freud considerou ser um
sonho edipiano por excelência, e continente da chave para uma compreensão maior
da lenda do Édipo Rei, que a seu ver ―só podia ser interpretado no sentido da
relação sexual do paciente com sua própria mãe‖. (Freud, 1901.1976 p. 219).
Ainda nesse trabalho sobre a Psicopatologia da vida cotidiana, Freud cita a
propósito da análise que chamou de ―atos sintomáticos‖ (Freud, 1901/1976. p. 260),
atos realizados por pessoas saudáveis e neuróticas: o relato de um paciente que
sofria de impotência sexual ocasional originária da intimidade de suas relações com
a mãe na infância e que tinha o hábito de enfeitar folhetos e anotações com a letra
inicial do nome dessa mãe. O que nos leva a concluir com Freud que as primeiras
relações da criança são com quem dela se ocupa e esse fato não acontece sem
consequências que afetam o destino sexual do sujeito.
É o que ele vai sustentar em vários momentos de seu trabalho Três Ensaios
Sobre a Teoria da Sexualidade. No item sobre ―As Aberrações Sexuais‖ (Freud,
1905.1976. p. 145n.), por exemplo, Freud sustenta a existência de uma natureza
bissexual do indivíduo, e fala de uma fixação da criança, muito intensa e curta no
caso dos futuros invertidos sexuais, em uma mulher que geralmente é a mãe. E que
depois de ultrapassada essa fase, esses homens se identificam com uma mulher e
se consideram eles próprios seu objeto sexual, ou seja, partem de uma base
narcísica, ou procuram um rapaz que se pareça com eles próprios e a quem eles
possam amar como eram amados por sua mãe.
Uma retomada do termo narcisismo será realizada por Freud em Leonardo Da
Vinci e uma lembrança de Infância, (Freud, 1910/1976.) a propósito de uma fantasia
do pintor renascentista de ter sido alimentado no berço por um abutre, símbolo da
maternidade na antiguidade clássica. Fantasia que foi interpretada por Freud como o
ato de ser amamentado por sua mãe. Freud vai tratar especificamente, e de forma
mais elaborada, o tema do narcisismo em 1914, texto que retomaremos mais à
frente na medida em que ele pensará a relação do sujeito com o outro, e em termos
lacanianos, acrescem-se os elementos da própria constituição do sujeito, o que nos
41

parece ser a chave para que possamos tratar da relação da criança com o outro
materno ou quem ocupe para ela o lugar de cuidador.
A ideia de sexualidade também é cara a toda construção teórica da
psicanálise em Freud que a sustentou com veemência ao longo de todo o seu
ensino, seu caráter extra biológico, ou seja, sua não redução a um biologicismo
anátomo natural, assim como quiseram muitos médicos de sua época. Trata-se de
um conjunto conceitual forjado por Freud a partir da escuta do sujeito, representado
pela pulsão, pela libido de apoio e pela bissexualidade, esta última muito trabalhada
em suas correspondências com Wilhelm Fliess.
Não obstante, essa discussão sobre a relação de caráter sexual do sujeito
com o outro, que foi fonte de desconforto e equívocos no campo da psicanálise e
fora dele, já aparece em um trabalho de Freud sobre os Três Ensaios Sobre as
Teorias Sexuais, como no item cinco do capítulo sobre as transformações da
puberdade, ―O Encontro de Um Objeto‖ (Freud, 1905.1976, p. 228-229). Nesse texto
ele sustenta a ideia de que na primeira infância os indícios de satisfação sexual
ainda estão vinculados à ingestão de alimentos. A pulsão nesse momento é um
objeto sexual fora do corpo da criança na forma de seio da mãe. Somente mais
tarde é que a pulsão perde esse objeto. Diz ainda, em via de regra, que existe um
momento em que a pulsão sexual sob o manto do recalque torna-se autoerótica e
não é senão, depois de atravessado o período de latência, que a relação original é
restaurada. Já na puberdade se estabelece a primazia das zonas genitais e a busca
de um novo objetivo sexual, simultâneo ao processo psíquico de procura de um
objeto, para o qual foram feitas preparações desde a primeira infância e que
finalmente se completa.
Freud observa ainda que, mesmo após a atividade sexual ter-se desligado da
ingestão de alimentos no período de latência, persiste uma importante parte desta
primeira, a mais significativa de todas as relações sexuais, que auxilia na
preparação para a escolha de objeto e assim restaurar a felicidade que foi perdida
pela criança. Trata-se também para ele de um período em que as crianças
aprendem a sentir pelas pessoas que as auxiliam em seu desamparo e satisfazem
suas necessidades ―um amor‖ que segue o modelo de uma relação do lactante
primeiro à ama de leite. Freud esboça o que seria uma primeira ligação da criança a
um outro que não é necessariamente a mãe biológica da criança, um outro que se
responsabiliza pelo cuidado da criança e que, entrementes, partindo da satisfação
42

de suas necessidades, pode ser também simulacro da escolha do objeto e do amor


que essa criança sentirá por outras pessoas.
Nesse ponto das elaborações de Freud se anuncia a possibilidade de
interlocução com as indagações que estão presentes na pesquisa que ora nos
ocupa: as condições de maternidade na psicose e as possibilidades do exercício
dessa função onde o laço com o outro tem, com certeza, algumas especificidades. È
possível, então, desde já vislumbrar em Freud tanto a possibilidade de impedimento
ou dificuldade do exercício da função materna para algumas mulheres psicóticas,
quanto a possibilidade do cuidado de seu filho por outrem, de forma contínua,
intermitente ou longa, sem prejuízo para a mãe biológica e para a constituição
subjetiva da criança? No que tange a construção de uma rede de cuidados em
saúde mental e coletiva, pensar a possibilidade de arranjos em rede, de escuta da
família e/ou grupo familiar para ver quem está exercendo essa função, a insipiência
ou a falta absoluta desse outro torna-se tarefa importante.
Dessas elaborações freudianas, podemos apreender também que o amor das
crianças por um outro não é um sentimento natural, ele é aprendido e reconhecido
pela criança, naquele que o acolhe e ampara nos primórdios de sua existência e que
será o protótipo de sua escolha de objetos de amor posteriormente. Na Viena do
século XIX, como já vimos no primeiro capítulo desse trabalho, quem respondia
pelos cuidados da criança era a ama de leite no lugar da mãe biológica. O próprio
Freud no seu percurso de autoanálise, na Carta de n.70 de suas correspondências
com Wilhelm Fliees, quando precisamente busca uma etiologia para a neurose,
reencontra em um sonho a sua própria ama de leite. E delega a ela a origem
primeira de seus problemas.

Uma mulher feia e velha, porém esperta que me contou uma porção de
coisas a respeito de Deus todo-poderoso e do inferno. E que me deu uma
elevada opinião acerca de minhas próprias capacidades. Se conseguir
resolver minha própria histeria serei grato à memória da velha senhora que
me proporcionou, em idade tão precoce, os meios de viver e prosseguir
vivendo. (Freud, 1897. p. 353).

Freud, ainda neste item sobre ―O Encontro de Um Objeto‖ na obra Três


Ensaios Sobre as Teorias Sexuais, se detém sobre o que de sexual existe na
relação da criança com quem dela cuida nos primórdios de sua existência e diz que
a relação de uma criança com quem quer que seja responsável por seu cuidado,
43

que tanto pode ser a mãe como pode ser uma ama, proporciona-lhe uma fonte
infindável de excitação e satisfação sexual. Nesse texto, Freud demonstra sua
preocupação com as repercussões de suas descobertas entre as mães e a opinião
científica de sua época, adianta-se nas explicações do que viria a ser a satisfação
sexual, e escreve,
[...] uma mãe provavelmente ficaria horrorizada se lhe fosse dito que todos os seus
sinais de afeição estariam despertando os instintos sexuais do filho e preparando-os
para a sua intensidade ulterior. E que ainda que esse amor sexual possa parecer um
sacrilégio é especialmente verdadeiro, desde que quem cuida da criança, olha-a ela
mesma com sentimentos que se originam de sua própria vida sexual, embalando-a,
acariciando-a, tratando-a deste modo como um substituto de um objeto sexual
completo. E que longe da pureza com que é levado em conta pela cultura, o amor de
uma mãe por seu filho ou de quem quer que responda por seus cuidados é um amor
sexuado. (Freud, 1905.p.230).

Na verdade além de acentuar o caráter sexual da relação mãe-criança, Freud


se coloca próximo dos conceitos de responsabilidade e de ―transmissão de um
desejo que não seja anônimo‖, como estabeleceu o psicanalista Jacques Lacan
(1969), em um comunicado à psicanalista de crianças, Jenny Aubry. Essa
proximidade aparece na medida em que Freud afirma que no exercício dessa
função, a mãe estará, nada mais nada menos, cumprindo com ―o dever de ensinar o
filho a amar. (Freud, 1905. p. 230). Então, não é propriamente uma mística do amor
materno que está em jogo na psicanálise freudiana, embora as condições de
abnegação e oblatividade sejam possíveis na relação mãe-criança. O que vamos
encontrar em Freud é uma relação sexuada entre uma criança e um outro que cuida
dela. Um laço sexual que se estabelece entre um adulto e uma criança, com função
de transmissão de algo que pode possibilitar e inscrever o sujeito no mundo
relacional com outros humanos. De uma inscrição primeira e fundante da
capacidade da criança de amar um outro, que não seja ela única e exclusivamente e
que esse outro sexuado, que se debruçou sobre ela com cuidados, ajuda a formar
sentimentos próprios em sua primeira infância. Enfim, função de hominização, no
sentido de tornar a criança um sujeito falante, de transmissão das condições de
viver e se relacionar no mundo, para além das insígnias maternas, ainda que
condicionadas por elas.
Na verdade, antes mesmo dessas elaborações, Freud em 1895 em seu
Projeto para uma psicologia científica, acentua a importância das primeiras relações
do pequeno humano com um outro, quando introduz o que nomeou ser uma
44

―primeira experiência de satisfação‖, que como vimos é a sexual, como aquela que
vem determinar a primeira inscrição fundante do aparelho psíquico nos seres
humanos. Chama de desamparo (Hilflosigkeit) uma carência inicial do bebê humano,
que não lhe deixa outra saída que a da ―assistência alheia de uma pessoa
experiente‖, para a sua sobrevivência. (Freud, 1895). Assistência que busca através
do grito, forma de chamamento e de apelo ao outro e de comprovação de sua
carência.
Ferreira, (1999. p. 37) em seu livro A Escrita da Clínica, recorre a esse
mesmo texto de Freud para dizer com ele que ―a tensão do organismo do pequeno
humano só é atenuada com a intervenção de outrem, frente a sua incapacidade de
realizar uma ação específica que não é senão obter o objeto de satisfação de suas
necessidades (...)‖. E ainda que na intermitência da resposta desse outro experiente
a essas necessidades, o alimento, por exemplo, que emana do seio de carne e leite,
ou da mamadeira, a criança é instigada a inscrever-se na linguagem, e com isso,
converter as suas necessidades em demanda. O outro experiente é, portanto, um
suporte ao desamparo para a criança, um esteio privilegiado da palavra como
passaporte para a entrada no mundo dos falantes.
É importante ainda, acrescentar a essa discussão sobre o amor materno, o
que Freud vai dizer sobre o amor dez anos depois do texto sobre ―As Teorias
Sexuais‖, na série de Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise, no período que
vai de 1915 a 1917, particularmente a conferência de número XXI, na qual ele tenta
convencer uma plateia de expectadores céticos sobre o caráter sexual das
atividades da primeira infância e dos processos referentes ao encontro de um objeto.
Nesse evento, ele fala de amor de uma forma inteiramente isenta da
conotação romântica da sua época. E do sexual completamente apartado do senso
comum ou da sexologia que surgiu de um equívoco dos psicólogos de sua época e
da nossa. Freud diz: ―Falamos em amor quando trazemos para o primeiro plano o
lado mental das tendências sexuais. e quando queremos repelir as exigências
pulsionais, sensuais ou físicas subjacentes, ou esquecê-las no momento.‖ (Freud,
1917. p. 385). E assinala que, especialmente nos anos da infância anteriores à
puberdade, quando o processo de escolha de objeto atingiu alguma definição, o
objeto de amor encontrado vem a ser idêntico ao primeiro objeto da pulsão oral, ou
seja, a mãe ou quem a substituiu no cuidado da criança.
45

2.3 Amor de objeto e processo civilizatório


Ainda no texto sobre os Três Ensaios Sobre as Teorias da Sexualidade,
Freud desenvolve um estudo sobre a barreira do Incesto. Nesse item ele discorre
sobre a escolha de objeto dos jovens em amadurecimento, que se dá inicialmente
no mundo das idéias e das fantasias e quando as tendências infantis
invariavelmente emergem uma vez mais. Acredita que entre estas tendências o
primeiro lugar é ocupado com frequência uniforme pelos impulsos sexuais da
criança em relação aos pais, que via de regra já são diferenciados devido à atração
pelo sexo oposto – o filho se sente atraído pela mãe e a filha pelo pai. Ao mesmo
tempo em que estas fantasias claramente incestuosas são superadas e repudiadas,
completa-se uma das mais significativas e, também uma das mais dolorosas
realizações psíquicas do período puberal, o desligamento da autoridade dos pais.
Podemos observar que Freud já pensava a infância e a adolescência como
componentes ―temporais e civilizatórios‖, tal como vimos, pensou o sociólogo
Norbert Elias, leitor de Freud. A infância e a adolescência são para Freud ―uma
realização psíquica, um processo que, sozinho, torna possível a oposição, tão
importante para o progresso da civilização, entre a nova geração e a velha, bem
como a substituição dos afetos dirigidos a eles para fora do circulo parental.‖ (Freud,
1905. p. 232). Ele reafirma também a importância dos primeiros laços amorosos
como determinantes da escolha de objeto e como facilitadores da realização de
laços sociais pelos seres humanos.

2.4 Sobre o narcisismo e suas implicações na maternidade


Um trabalho de Freud que pode contribuir claramente na compreensão da
ligação da criança com as primeiras figuras de seu cuidado e que inclusive
influenciarão em suas escolhas amorosas posteriores, ou seja, em torno da escolha
de objeto e do que hoje entendemos se situar em torno das relações do sujeito e seu
objeto, foi o estudo denominado, conforme a tradução direta do alemão, À Guisa de
Introdução ao Narcisismo, publicado em 1914. Este trabalho é considerado central
na evolução conceitual da psicanálise, bem como ponto de partida para inúmeras
elaborações pós-freudianas em torno à função materna e da constituição da
subjetividade da criança. Coube ao psicólogo francês Alfred Binet a primeira
utilização do termo narcisismo em 1887, para descrever uma forma de fetichismo
46

que consiste em se tomar a própria pessoa como objeto sexual. O termo foi depois
utilizado em 1898, pelo psiquiatra inglês Haverlock Ellis, criador do termo auto
erotismo, para designar um comportamento perverso relacionado com o mito de
Narciso. Para ele o narcisismo seria uma perversão na medida em que nessa
condição as relações objetais são ignoradas. Em 1899, em um comentário sobre o
artigo de Ellis, o criminologista Paul Nacke introduziu o termo em alemão. Contudo
em 1908, o psicanalista Isidor Sadger, falou do narcisismo, a propósito do amor
próprio, como uma modalidade de escolha de objeto nos homossexuais,
distinguindo-se de Havewlock Ellis por considerar o narcisismo não como uma
perversão, mas como um estádio normal da evolução psicossexual do ser humano.
Freud por sua vez utilizou o termo narcisismo pela primeira vez em novembro
de 1909, numa reunião da Sociedade de Psicanálise em Viena. Nessa ocasião ele
declarou que o narcisismo seria uma fase intermediária necessária entre o auto
erotismo e o amor objetal. Entretanto, sua primeira menção pública do termo surgiu
em uma nota de rodapé acrescentada em 1910, para a segunda edição dos Três
Ensaios Sobre A Teoria da Sexualidade (1905 d.), O termo é retomado neste
mesmo ano também seu livro Leonardo Da Vinci e uma lembrança de sua infância, e
no estudo sobre o caso Shereber em 1911.
Em 1914 ele conclui o artigo que iniciou em 1913 dando-lhe, então, o título
de À Guisa de Introdução ao Narcisismo. Para os comentadores da nova tradução,
―trata-se de um dos mais importantes trabalhos de Freud e um ponto de inflexão na
evolução de seus conceitos‖. (Hanns,2004.p.95). É quando o termo adquire a
realidade de um conceito e passa a ocupar um lugar essencial na teoria do
desenvolvimento sexual humano.
Freud observa na introdução desse texto, que certos aspectos do
comportamento narcísico observados na clínica estão presentes em muitas pessoas
afetadas por outras perturbações como, por exemplo, em homossexuais. E
considera que talvez essa libido, abranja um campo bem mais vasto do que o das
perversões e que se poderia atribuir a ela, um importante papel no desenvolvimento
sexual normal do ser humano. Nesse artigo ele também penetra nos problemas mais
profundos das relações entre o Eu e os objetos externos, tentando traçar uma nova
distinção entre ―libido do Eu‖ e ―libido objetal‖. No que tange a essa suposição ele
declara:
47

[...] a partir de dificuldades constatadas no trabalho psicanalítico com


neuróticos, pois parecia que um dos limites que se interpõem à possibilidade
de esses pacientes serem influenciados se devia a um comportamento
narcísico dessa ordem. Assim o narcisismo não seria uma perversão, mas o
complemento libidinal do egoísmo próprio da pulsão de auto conservação,
egoísmo que, em certa medida, corretamente pressupomos estar presente
em todos os seres vivos. ( Freud,1914/2004.p.97).

Para elaborar esse texto, Freud apoiou-se inicialmente, nos estudos sobre as
psicoses e principalmente na contribuição de Karl Abraham que, em um texto escrito
em 1908, havia descrito o processo de desinvestimento do objeto e convergência da
libido em sujeitos acometidos de demência precoce. Sem utilizar o termo narcisismo
o psiquiatra berlinense diz que ―O doente mental dedica a si mesmo, como objeto
sexual único, toda a libido que o homem normal volta para o meio vivo e animado.
(Rodisnesco et Plon, 1997. p. 531)
Assim, a observação do delírio de grandeza no psicótico leva Freud a definir o
narcisismo como uma atitude resultante de uma transposição para o Eu do sujeito,
dos investimentos libidinais antes colocados nos objetos do mundo. Nesse sentido a
libido de objeto em seu desenvolvimento máximo caracterizaria o estado amoroso,
ao passo que inversamente em sua expansão máxima, a libido do Eu fundamentaria
a fantasia do fim do mundo nos paranoicos.
Freud observa que esse movimento de retirada de libido dos objetos do
mundo só pode produzir-se em um segundo tempo, este precedido de um
investimento dos objetos externos por uma libido proveniente do Eu. Assim, é
possível falar de um narcisismo primário e infantil, que a observação das crianças
bem como a dos povos primitivos, ambas caracterizadas por uma crença na magia
das palavras e na onipotência do pensamento, viria a confirmar-se. O narcisismo
primário seria, portanto, a escolha que a criança faz de si mesma como objeto de
amor, numa etapa que antecede à plena capacidade de se voltar para objetos
externos.
Ele sustenta que a criança pequena, toma seus objetos sexuais a partir de
sua experiência de satisfação, que por sua vez são auto-eróticas e vividas em
conexão com funções vitais servindo aos propósitos da autopreservação. A seu ver
as pulsões sexuais apoiam-se, a princípio, nos processos de satisfação das pulsões
do Eu para se veicularem, e só mais tarde tornam-se independentes delas. E vai
48

chamar essa fonte de escolha de objeto, que pode manifestar-se de forma


dominante nos seres humanos de escolha, por ―veiculação sustentada‖, a esse
modo de:
[...] apoiar-se nos processos de satisfação das pulsões de auto conservação
para conseguir veicular-se, que fica evidente quando se observa que as
pessoas envolvidas com a alimentação, o cuidado e a proteção da criança se
tornam seus primeiros objetos sexuais, portanto, primeiramente a mãe ou seu
substituto. ( Freud,1914/2004.pp.107-108).

2.4.1 Todo amor é de fundo narcísico, inclusive o parental


Nos estudos sobre a Psicologia das Massas e Análise do Eu, escrito em
1921, Freud reafirma a característica narcísica que sustenta a relação entre a mãe e
a criança dando inclusive um novo sentido ou um outro nome para o amor em
psicanálise. É quando se interroga sobre a característica dos agrupamentos
humanos para além da horda, fazendo uma distinção desta com as demais relações
humanas. Para ele, o simples agrupamento de humanos não lhes garante a
existência de laço relacional. Destarte, admite que em qualquer reunião de pessoas
a tendência é a formação de um grupo psicológico e que,
[…] as provas da psicanálise demonstram que quase toda relação emocional
íntima entre duas pessoas que perdura por certo tempo — casamento,
amizade, as relações entre pais e filhos,— contém um sentimento de
aversão e hostilidade, o qual só escapa à percepção em consequência do
recalque (Freud,1921/1976.p.128.n.2)

Entretanto, para Freud, uma relação não é abalada por esses avatares das
relações humanas, esta é a relação entre mãe e filho. O amor de uma mãe pelo
filho, que se baseia no narcisismo, não é perturbado por uma rivalidade
subsequente. Na verdade, ele é reforçado por uma tentativa rudimentar de escolha
de objeto sexual por parte da criança, tornando-se ainda simulacro e condição da
constituição de laços posteriores.
Também o amor dos pais pela criança ou admiração parental pelo his majest
the baby não escapa à observação de Freud, que descobre nos pais uma
manifestação de seu próprio narcisismo primário abandonado. Sobre o amor dos
pais escreve Freud, ―[…] o comovente amor parental, no fundo tão infantil, não é
49

outra coisa senão seu narcisismo renascido dos pais, que, ao se transformar em
amor objetal, acaba por revelar inequivocamente sua antiga natureza‖. (Freud,
1914/2004. p. 110).
O que nos leva a concluir que para Freud tudo o que se pode chamar de
―amor‖, no âmbito das relações humanas, é predominantemente de fundo narcísico,
inclusive o amor parental. Tal assertiva, não é sem consequência para o que
estamos trabalhando em torno das relações entre a criança e o outro que cuida dela
nos primórdios de sua existência. Nos casos que vamos trabalhar, será importante
escutar, portanto, qual é o estatuto, quais são as formas de laços que se tecem ou
não entre a criança, a mãe psicótica, suas potencialidades, sua consistência ou
fragilidades.

2.4.2 Uma via em Freud do acesso ao pleno amor: a maternidade


Ainda no texto sobre o narcisismo, Freud introduz o que nomeou ser mais
uma via de acesso ao estudo do narcisismo que seria: ―A via amorosa dos seres
humanos, com toda a diferenciação tal como ela se apresenta no homem e na
mulher.‖ (Freud, 1914/2004. p. 107). Para ele o amor objetal pleno segundo o que
chamou de escolha de objeto por veiculação sustentada, embora seja mais
característica no homem, pode também ser feita pelas mulheres. Nesse modo de
escolha de objeto, diz Freud, está presente uma evidente supervalorização sexual,
que provém do narcisismo original da criança e corresponde a uma transferência
desse narcisismo para o objeto sexual. É essa supervalorização sexual que permite
o surgimento de um estado de apaixonamento provocado pelo empobrecimento da
libido do Eu em benefício da libido objetal.
No caso das mulheres, ele sustenta que existe dentre outras uma via de
escolha de objeto também por veiculação sustentada, que conduz ao pleno amor, e
pode surgir na geração de uma criança, ou seja, através da experiência da
maternidade. A mulher que faz essa escolha será chamada por ele de — a mulher
que nutre. (FREUD, 1914/2004. pp. 109-110). Na condição indicada por Freud, a
criança poderá apresentar- se para a mulher como se fosse parte de seu próprio
corpo, na forma de outro objeto e, assim, partindo de seu próprio narcisismo, ela
poderá dedicar ―todo‖ o seu amor à criança que gerou.
50

No caso de algumas mães psicóticas, talvez já possamos nos perguntar que


tipo de escolha de objeto estaria em jogo para elas, quando oferecem ou recusam o
seu corpo para o aconchego de uma criança, tais casos como os que nos
debruçaremos no capítulo 5 desse trabalho, que emergem das chamadas psicoses
pós-puerperais, os de ambivalência na função materna, ou de um apego extremado.
Nos casos em que se constata que a criança permanece como continuidade ou
pedaço indestacável do corpo da mãe, tal como se apresenta na clínica o caso de
uma mulher que anda pelas ruas, becos, vielas, lojas, padarias e igrejas, literalmente
a céu aberto de sua realidade psíquica, pregando a palavra de Deus às mulheres
devassas e aos impuros e levando os filhos pelas mãos como troféus e prova
concreta de pureza e da dignidade de seu ser, obtida com seu casamento e no dizer
dos vizinhos e transeuntes, escudos para sua conduta desarrazoada.
51

CAPÍTULO 3

EM LACAN, A MULHER NÃO É A MÃE

―Eu vi,
também eu vi,
com meus olhos arregalados pela advinhação maternal
a criança,
traumatizada com a minha partida
a despeito de seu apelo precocemente esboçado na voz,
e daí em diante cada vez mais renovado
por meses e meses
- eu vi,
bastante tempo ainda depois disso
essa criança nos meus braços
- eu a vi,
abandonar a cabeça no meu ombro para cair no sono
no sono unicamente capaz de lhe emprestar acesso
ao significante vivo em que
depois da data do trauma,
eu me tornei‖

(Jacques Lacan, 1973)

A primeira referência de Jacques Lacan em torno da relação mãe/criança


encontra-se em um texto de 1938, recomendado pelo psicólogo Henry Wallon para
inclusão na seção sobre ―A Família‖ do livro VIII da Encyclopédie Française
consagrada à vida mental. Chamando-o ―Os Complexos Familiares na Formação do
Indivíduo‖, desenvolve nele o tema da composição estrutural da família humana, que
se daria em três momentos: o de desmame, o da intrusão da fatria e o do Complexo
de Édipo.
O sociólogo Markos Zafiropoulos chamou esse período de produção teórica
de Lacan que se situa entre 1938 e 1950 de ―período Durkeimneano‖, durante o
qual, a seu ver, o psicanalista esteve mais próximo da sociologia de Emíle Durkheim
do que de Freud. Na antropologia crítica de Lacan, Zafiropoulos lembra que nesse
período Lacan com Durkheim anuncia ―o declínio da família ocidental, a degradação
de seu chefe, o pai, até então responsável por sua fecundidade subjetiva no
Complexo de Édipo.‖ (Zafiropoulos, 2004. p. 103). Para Zafiropoulos, é justamente
essa falta de fecundidade subjetiva que teria permitido à Lacan redescobrir o
52

Complexo de Édipo freudiano sob uma forma degradada e isolar um ponto real que
possibilitou o avanço teórico na clínica da psicanálise.
De acordo com Zafiropoulos, até 1950 encontraremos um Lacan que trabalha
o conceito de família como fato concreto e social, como complexo integrado a fatos
sociais oriundos da sociologia positivista de Emíle Durkheim. A partir de 1953, na
transmissão de seus seminários e nos seus Escritos, encontraremos um outro Lacan
propondo um retorno à Freud e estabelecendo uma interlocução fecunda com a
linguística de Ferdinand de Saussurre e com a antropologia de Claude Lévi-Strauss.
Nesse sentido,
[…] muda radicalmente de galáxia conceitual, no que diz respeito mais
precisamente a análise da família, a questão do pai e de uma maneira mais
geral as leis constitutivas do inconsciente que ele desloca com Claude Levi-
Strauss - o etnólogo da Eficácia Simbólica e das Estruturas Elementares de
Parentesco - do registro da família, diríamos da família da realidade, para o
registro da fala e da linguagem. (Zaforopoulos,2004.p.103)

Num esforço de distinção entre o que chama traços de comportamento


instintivo identificáveis aos da família biológica versus os traços das instâncias
culturais dominantes, vamos encontrar nas primeiras páginas do artigo
encomendado por Henry Wallon o que Lacan denomina ―Instituição Familiar humana
em sua realidade‖, referências em torno da função materna como elemento
fundamental de transmissão da cultura quando diz que: ―[…] é na família humana
que se pode observar nas fases mais primitivas das funções maternas.‖ (Lacan,
1938/1990. p. 12-13). E ainda elementos que tocam a materialidade da língua no
contexto dessa transmissão quando diz:
Entre todos os grupos humanos, a família desempenha um papel primordial
na transmissão da cultura. Se as tradições espirituais, a manutenção dos ritos
e dos costumes, a conservação das técnicas e do patrimônio são com ela
disputados por outros grupos sociais, a família prevalece na primeira
educação, na repressão das pulsões, na aquisição da língua acertadamente
chamada materna. ( Lacan,1938/1990.p.12-13).

Por outro lado, encontramos também nesse momento de sua produção


teórica, um elemento que entendemos ser de transição, ainda que fundado em uma
interlocução com a biologia e com a sociologia das relações sociais de sua época,
quando considera os complexos que constituem a família humana como objetos de
53

natureza psíquica, reafirmando com Freud algo mais além do instinto, distanciando-
se definitivamente do que geralmente determina o funcionamento dos agrupamentos
dos animais na natureza.
Compactua com essa ideia o psicanalista Célio Garcia (2011), em seu livro
Psicologia Jurídica – Uma orientação para o real, no capítulo dedicado à clínica das
transformações familiares de nosso tempo, ao dizer que o Lacan de 1938, deixa de
lado as considerações moralizadoras ou redutoras dirigidas à família humana,
tomando-a, por sua vez, como um objeto de análise concreta. E que ao estudar as
patologias do sujeito e a relação que ele estabelece com o núcleo familiar,
empregou o termo complexo, distinguindo-o do termo instinto, que asseguraria à
família o estatuto de dispositivo natural a ser evitado:
O complexo seria a matriz de X, que será o sujeito mais tarde, na idade adulta
e reproduz uma certa realidade do ambiente a ser encontrada no nível do
grupo familiar. A família seria então, o lugar privilegiado da formação dos
complexos, estes sendo os verdadeiros organizadores do desenvolvimento
psíquico. O complexo reúne, sob uma forma fixa, um conjunto de reações e
reproduz o real do grupo familiar; sua forma representa esse real, e sua
atividade repete, no nível do vivido, o real assim fixado. (Garcia,2011.p.76)

Lacan reafirma com Freud a existência do complexo como sendo


essencialmente de ordem inconsciente e tendo como elemento fundamental uma
entidade de caráter paradoxal, uma representação do outro, designada pelo nome
de Imago, um conceito misto entre simbólico e imaginário cujo poder se explica pela
inversão e pela saturação do complexo de desmame que desenvolverá logo a
seguir. No Dicionário de Psicanálise vamos encontrar para esse termo referências a
um romance do suíço Carl Spinteles, que em 1906 publicou Imago, dando esse
nome à personagem de uma mulher imaginária. (Rodinesco et Plon, 1998. p. 372)
Nos Complexos Familiares vamos encontrar, na visão de Rodinesco e Plon, a
primeira teoria do imaginário de Lacan. Suas considerações em torno do conceito de
complexo, cujo elemento constitutivo é a imago, permitem compreender a estrutura
de uma instituição familiar localizada entre a dimensão cultural que a determina e os
laços imaginários que a organizam. Eles vão dizer ainda que, instalado em três
dimensões, esse complexo forma o modelo de uma interpretação do
desenvolvimento individual, através do complexo de desmame, o de intrusão e o de
Édipo.
54

Essas concepções assim ordenadas, especialmente a concepção de família,


revolucionaram a psicologia da época, quando revela nela o que Lacan extraiu de
Freud, ―como o lugar de eleição dos complexos mais estáveis e mais ―típicos‖.
(Lacan, 1938/1990. p. 21). É onde também, ele dá ao conceito de imago4 a
característica de uma representação dos primeiros objetos de laço psíquico e
material de interesse do pequeno humano, a criança. O que nos inspira a considerar
que a própria hominização, a constituição psíquica do sujeito como ser de
linguagem, vai se dar a partir de sua relação com esses objetos imagos, ditos
primordiais e constitutivos da subjetividade.
Seis anos antes, em 1932, Lacan defendeu sua tese de doutoramento
denominada Da Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade. Nesse
momento, ele ―utiliza a forma mais clássica de exposição no contexto de um trabalho
científico, seguindo as regras mais elementares de um escrito historiográfico de sua
época, no campo da psiquiatria‖ (Allouch, 2005. p. 35), mas já traz uma novidade em
termos de método clínico e estilo de transmissão. Ele parte da escuta de uma
paciente, cuja psicose se desencadeia no instante em que ela engravida de seu
primeiro filho. Nessa tese, a questão das relações de parentesco, as questões
intrageracionais de transmissão de significantes, as questões da relação da mãe
com sua fátria e especificamente as relações entre mãe e filha que serão objeto de
nossa atenção nesse estudo já são colocadas.

3.1 O complexo de desmame


O desmame5 de uma criança é reconhecido na língua portuguesa como o ato
de desleitamento, de retirada do seio materno como objeto de nutrição e ―deleite‖
para uma criança. Trata-se para Lacan do complexo de desmame, de ―retirada da
teta fecunda da mãe ou da ama de leite da boca da criança, que fixa no psiquismo a
relação da alimentação sob o modo parasitário que as necessidades dos primeiros

4
O termo Imago derivado do latim, foi introduzido por Carl Gustav Jung em 1912, para designar uma
representação inconsciente através da qual um sujeito designa a imagem que tem de seus pais. Dicionário de
Psicanálise de colocado Rodinesco e Plon. 1998.
5
Designa o ato de apartar do leite; deleitar. O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa trás também um
sinônimo para desmame; Exúbere do latim ex + úbere: desmamado. A palavra uberdade do latim ubertate para
a abundância, fartura, fecundidade em solo fértil. E úbere para mama ou teta da vaca ou de outra fêmea de
animal.
55

meses de vida do homem exigem; ele representa a forma primordial da imago


materna.‖ (Lacan, 1938/1999. p. 22).
Assim, o Lacan de 1938, associa a amamentação como ação dessa imago
materna, à maternidade, que implica, além da gestação, a presença e ação de um
outro. Reconhecendo ainda, através da relação da criança com essa imago, a
existência de um certo conhecimento que considera muito precoce na criança, o da
presença do outro. Posteriormente, ele irá falar sobre o fondo sobre o qual se exerce
o que se desenvolve entre a mãe e a criança, e introduzir o ―dom‖ que advém do
―geliebt werden‖, o ser amado, como ―signo de amor advindo da potência materna.‖
(Lacan, 1995/1957. p. 185).
Reconhece, também, nesse conhecimento arcaico, uma ligação entre a
satisfação das necessidades próprias aos primeiros anos de vida da criança e a
ambivalência típica das relações mentais que nela se esboçam. Refere-se ainda às
sensações que nomeia proprioceptivas da sucção e apreensão que constituem a
base dessa ambivalência da vivência decorrentes da própria situação: ―o ser que
absorve é inteiramente absorvido e o complexo arcaico lhe reponde no abraço
materno‖. (Lacan, 1938/1990. p. 26).
Mas já em 1936, por ocasião do XIV Congresso Internacional de Psicanálise
realizado em Marienbad, Lacan em uma surpreendente e diferenciada entrada no
movimento psicanalítico francês, fala da relação mãe-criança. Essa conferência que
nomeou como O Estádio do Espelho será tema de uma segunda comunicação em
1949, por ocasião do XVI Congresso Internacional de Psicanálise realizado em
Zurich, a saber: O Estádio do Espelho como Formador da Função do ―EU‖.
Essas comunicações sustentam a existência de uma identificação primária da
criança com sua imagem, que é a marca inicial de todas as outras identificações que
se seguem em sua maturação, diríamos humana, em sua constituição subjetiva,
reduzida a dois elementos, o corpo da criança e a sua imagem imediata e narcísica
nos termos de Freud. Lacan a qualifica de imaginária desde que a criança se
identifica a um duplo de si mesma, a uma imagem que não é dela própria, mas que
lhe permite reconhecer-se.
Essa constatação se dá quando a criança é posta simultaneamente em
presença de seus pares em idade. Ela os agride ou os imita e tenta, deste modo, se
impor numa relação agressiva e homóloga à imagem do corpo diante do espelho.
Trata-se de uma relação ―dual‖ que se caracteriza pela indistinção, pela confusão de
56

si mesma com o outro e alienante, enfim, posto que o corpo do outro seja tratado
como um duplo seu.
Vejamos o que diz o psicanalista Jean- Baptiste Fages com relação à
segunda comunicação de Lacan sobre O Estádio do Espelho feita em Zurich em
1949, onde na relação entre a mãe a criança se introduz a questão do Falo.
[…] essa relação para com o espelho (relação especular, em termos lacanianos) e
essa relação agressiva para com as outras crianças têm traços comuns com a
relação primeira com a mãe. A criança no começo, não deseja apenas ser tratada,
aleitada, cuidada pela mãe. Deseja ser para ela um todo, ou, mais exatamente, seu
complemento; deseja tomar o lugar daquilo que falta à sua mãe, o falo. A criança se
faz, por assim dizer, o desejo do desejo de sua mãe, o falo.. ( Fages, 1977.p.25)

Sobre a questão do falo, Lacan vai dar tratamento em toda a extensão de sua
obra indo do falo imaginário, esse que envolve a relação mãe-criança, ao falo
simbólico, com a introdução da metáfora paterna até às formulas da sexuação. O
desenvolvimento desse conceito acentua-se no texto ―A significação do Falo‖, e
também no texto ―Por uma Questão Preliminar a Todo Tratamento Possível da
Psicose‖, ambos de 1958. A temática do falo vai aparecer também no Seminário 3,
As Psicoses (1955-56), no capítulo sobre ―O Falo e o Meteoro‖. Trata-se, nesse
seminário, da versão do falo imaginário e da introdução do pai, na dialética mãe-
criança como seu portador por excelência. Assim dirá Lacan: ―Dizem-nos que a
exigência de uma mãe é a de prover-se com um falo imaginário, e explicam-nos
muito bem que sua criança lhe serve de suporte, suficientissimamente real, por esse
prolongamento imaginário‖. (Lacan, 1955-56.1985 p. 358)
Quanto à criança, diz Lacan, isso não lhe oferece dificuldade alguma na
medida em que ela localiza esse falo muito cedo e o concede generosamente à
mãe, realizando um par que deveria se conciliar em torno à uma ilusão de
falicização recíproca. Mas, na verdade, onde o falo deveria exercer uma função
mediadora, o que ocorre é uma situação de conflito entre a mãe e a criança. Isto
porque, para Lacan, ―o falo é vadio‖, ele está alhures e tem no pai o seu suposto
portador. Será em torno do pai que se instaurará o temor da perda do falo na
criança, a reivindicação, a privação, o tédio ou a nostalgia do falo na mãe. (Lacan,
1955-56/1985. p.358).
Portanto, será no Seminário 4, transmitido no período de 1956-57, sobre A
Relação de Objeto, que a temática do falo receberá um amplo e decisivo
desenvolvimento e Lacan introduzirá na relação mãe-criança as expressões ―a mãe
57

onipotente‖ e ―a mãe insaciável‖ que nos interessa cotejar. No seminário 5,


transmitido no período de 1957-58 e denominado As Formações do Inconsciente,
ele fala de uma mãe feroz e da satisfação natural e instintiva da maternidade.
Voltaremos à essa questão mais à frente nesse capítulo.
No seminário 8, sobre A Transferência, de 1960-61, esse lugar de mediação
simbólica exercida pela mãe no campo da linguagem é clara. Lacan, considerando a
relação mãe-criança, introduz uma distinção entre o falo imaginário — o pequeno phi
— e o falo simbólico. O falo imaginário é considerado, tal como ele tratou até aqui,
―enquanto interessado concretamente na economia psíquica, no nível do complexo
de castração‖ e o falo simbólico é o ―símbolo no lugar onde se produz a falta de
significante‖. (Lacan, 1960-61/1992. p. 234)

3.2 A Mãe onipotente e insaciável


No capítulo 11 do Seminário 4, A Relação de Objeto (Lacan, 1956-57),
denominado O Falo e a Mãe Insaciável, vamos encontrar novamente esse elemento,
como uma espécie de chave, para lidar com um acontecimento que é o rompimento
com uma pretendida harmonia entre a mãe e a criança. Um elemento que permite
afirmar que a mãe nunca está só com sua criança é o falo, objeto que se interpõe
entre um e outro, como valor imaginário na metonímia do desejo da mãe. Trata-se,
portanto, de saber:
[...] como a criança realiza mais ou menos conscientemente que sua mãe
onipotente tem falta, fundamentalmente de alguma coisa, e é sempre a
questão de saber por que via ela vai lhe dar esse objeto faltoso, e que sempre
falta a ela mesma. ( Lacan, 1956-57/1995.p.196).

E de onde também se torna possível, segundo Lacan, extrair uma primeira


consequência, no que concerne às inúmeras variáveis que vão se perfilar no âmbito
da relação mãe-criança, a existência de crianças falóforas quando diz: ―O falo, todos
sabem que elas podem tê-lo, elas o têm e, além disso, os produzem, elas fazem
meninos falóforos.‖ (Lacan, 1956-57/1995. p. 195). Ali, onde há falta, ali onde a mãe
não é toda mãe para a sua criança, ou seja, onde ela não se completa, ela pode
fabricar um complemento, na verdade tampão de sua falta que, pelo menos
imaginariamente, a realiza.
58

Um outra discussão importante à época dessas elaborações é a que Lacan


introduz de novo, do ponto de vista conceitual, no contexto da relação de objeto.
Será a formulação da questão do objeto, em termos de falta e de perda em três
modalidades de variáveis relacionadas que serão: a privação, a frustração e a
castração. Estas irão influenciar no que da relação mãe-criança vai se estabelecer.
Esses conceitos serão introduzidos em três ordens hierarquizadas: a do real, a do
imaginário e a do simbólico.
[...] a privação definida como falta real de um objeto simbólico, a frustração
como a falta imaginária de um objeto real, (uma reivindicação infindável) e a
castração, como a falta simbólica de um objeto imaginário (resolução do
enigma da diferença sexual). ( Rodinesco et Plon., 1998.p.554).

Tendslarz (2005) sustenta que Lacan, nesse momento de seu ensino, situa a
frustração como o centro da relação mãe-criança. Ao fazer uma leitura do texto de J.
A. Miller (1993), sobre, ―O Falo Barrado, Objeto e Castração‖ ela diz que na verdade,
―essa frustração diz respeito à frustração da mãe como mulher‖ (Tenddlarzt, 2005. p.
148). E elucida o que já está colocado, desde o seminário 4, a possibilidade da
existência da mãe incompleta com seu falóforo, já um indicativo do que justifica o
título desse capítulo onde anunciamos que em Lacan, a mulher não se confunde
com a mãe.
Com efeito, ele estabelece no capítulo sobre ―O falo e a mãe insaciável‖ do
Seminário 4, uma sequência que se inicia na frustração imaginária de um objeto
real, no caso o seio da mãe, cujo agente é a mãe simbólica, e estabelece nesse
ponto uma espécie de torção através da qual a mãe simbólica se torna real. A mãe
simbólica que mediatiza a simbolização primordial através do Fort/ freudiano, frustra
a criança de objetos reais.
É aqui que Lacan introduz também o que chama de dolorosa dialética do
objeto (ao mesmo tempo ali e nunca ali), na qual a criança se exercita com o jogo do
carretel que Freud bem observou no brincar de seu neto. E que será a base da
relação do sujeito com o par presença-ausência da mãe, relação com a presença
sobre o fundo de uma ausência, na medida em que esta constitui a presença. Será
porque ela pode estar posicionada em um outro lugar que não somente o materno,
que essa ausência poderá se presentificar.
A criança nesse momento, diz Lacan, aniquila na satisfação a insaciedade
fundamental dessa relação, inventando no seu brincar, um modo de lidar com um
59

vazio que se inaugura e que a lançara no universo do ―falasser‖. E mais, pode cobrir
a falta da mãe com um objeto simbólico dessa ausência, que por sua vez, indica que
a mãe não é toda, e não está o tempo todo a serviço do que Freud chamou de sua
magestade o bebê. Essa hiância indica também, que algo claudica na expectativa de
onipotência pela completude do outro, posto que o desejo da mãe possa estar
alhures. Sendo por isso que ambos, mãe e criança, podem escapar, diríamos, de
uma falofagia. Também é porque a mãe não responde a essa expectativa de
completude, que a demanda da criança aparece como potência real, fora do jogo
simbólico, onde o objeto perde a sua materialidade e a resposta da mãe acaba se
tornando o que de signo resulta em dom de amor.
Na verdade, a frustração do amor acaba por ser responsável pela polarização
da situação. Nesse ponto de suas elaborações, Lacan distingue a frustração do gozo
ligado ao seio materno objeto real, da frustração de amor, cujo objeto é a presença
materna. É também nesse ponto que uma outra operação se realiza que é a da
privação real do objeto simbólico — o falo, operação comandada pelo pai imaginário
anunciado desde o Seminário 3. O que pode resultar daí é uma segunda operação
simbólica de castração de um objeto imaginário pelo pai real.

3.3 A mãe devoradora


No final do capítulo sobre ―O Falo e a mãe insaciável‖, do Seminário 4, Lacan
já introduz o que considera ser o destino de todos os seres humanos, no caso, ―uma
mãe insatisfeita em torno de quem se constrói toda a escalada da criança no
caminho do narcisismo, é alguém real, ela está ali, como todos os seres insaciados,
ela procura devorar — quaerens quem devoret‖ (Lacan, 1956-57. p.199). Para
ilustrar o que a própria criança encontrou outrora, para anular sua insaciedade
simbólica, vai reencontrar possivelmente diante de si, através da boca escancarada
de sua progenitora.
Mas é no Seminário 5, sobre As Formações do Inconsciente (1957-58), no
capítulo sobre ―O Valor de Significação do Falo‖, que ele introduz e acentua o que
diz respeito a relação do desejo com esse significante, o falo, e a importância da
privação materna, ao mesmo tempo que avança o que desenvolveu no Seminário 4,
sobre a frustração do seio materno para a criança e da mãe como objeto. É também
onde a noção de gozo toma corpo e onde a mãe, além de insaciável, torna-se
60

ameaçadora e voraz em sua onipotência sem lei, na medida em que pode ser
privada de seu objeto falóforo, pelo representante da função paterna, que entra
nessa dialética como operadora da castração. A mãe lacaniana, atravessada pela
falta, é nesse momento de seu percurso uma mulher que almeja mais que o cuidado
da criança, almeja a sua devoração.

3.4 A mãe insuficientemente boa


Ainda no Seminário 5, vamos reencontrar uma versão de uma mãe que não
é suficientemente boa, tal como deveria esperar, além de mais um indicativo de que
a mãe ainda que não se substitua à mulher, à ela possa se sobrepor na medida em
que ao encontrar uma mãe que é uma fera, com um viés de insaciável, a
encontramos também em sua posição de mulher em sua lida com a falta, ―ainda
que nessa tentativa voraz, de cobrir uma falta, de substituição criança/falo subsista
um resto de insatisfação.‖ (Tendlardzt, 2002. p. 148).
Esclarece-se assim com esse resto, o que mais tarde será sistematizado por
Lacan como objeto pequeno a6 uma articulação do que se circunscreverá em suas
elaborações futuras, precisamente na década de 70, ao campo do real e do gozo.
Ele sustenta, à época de seus escritos sobre as Diretrizes para um Congresso sobre
a Sexualidade Feminina em 1960, a impotência da mediação fálica de drenar tudo
que pode se manifestar de pulsão na mulher. Anuncia-se, portanto, com esse resto
de insatisfação, a construção em Lacan para além de Freud, as modalidades ou as
saídas para o misterioso feminino que vão além da maternidade. Estas observações,
que se seguirão no seu ensino a partir dos Seminários 4 e 5 sobre ―A Relação de
Objeto‖ e ―As Formações do Inconsciente‖ respectivamente, só serão concluídas no
Seminário 20, Mais... Ainda de 1975, com a elaboração das fórmulas da sexuação.

3.5 A falofagia fantasística dos psicanalistas


No seminário 5, ele também estabelece uma interlocução com Ernest Jones e
outros psicanalistas ingleses, principalmente mulheres, principalmente Melaine Klein

6
Conceito que Lacan introduz em 1964, no Seminário, Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Por
não ser redutível à imaginarização, esse objeto impõe um limite à simbolização, correspondendo a um resto de
gozo que transita pelo circuito pulsional do sujeito.
61

a quem ele critica ao mesmo tempo que reverencia. Esses participantes de um


movimento que, a seu ver, deu ênfase na relação primordial da criança com a mãe,
esquivando-se da dialética fálica condicionante, ―da introdução do sujeito homem ou
mulher, em sua existência pura e simples e em sua posição sexual.‖ (Lacan,
seminário 1957-1958/1999. p. 285).
A interlocução com Melaine Klein, uma das pioneiras da clínica com crianças
de tenra idade, é um exemplo desse investimento teórico dos psicanalistas ingleses
que Lacan critica, desde o Seminário 2, Os Escritos Técnicos de Freud de 1953-54.
No segundo capítulo desse seminário, ele trabalha exaustivamente sobre um dos
casos da psicanalista, o de um menino autista, e sustenta que a psicanalista
estabeleceu para a relação mãe-criança uma dialética especular e fantasiosa, que
torna o corpo materno um habitat projetivo das pulsões da criança. Sendo que essas
mesmas pulsões seriam motivadas pela agressão recorrente de uma decepção
fundamental. Retomando essa interlocução com Melaine Klein no seminário 5,
Lacan conclui que, ao final das contas, ―nada nessa dialética pode tirar-nos de um
mecanismo de projeção ilusória, de uma constituição do mundo a partir de uma
autogênese de fantasias primordiais.‖ (Lacan, 1957-58/1999. p. 284)
A seu ver, toda essa dialética que põe ênfase na relação interpessoal entre a
mãe e a criança elide a dialética posterior e até mesmo a dialética edipiana
postulada por Freud. Mais do que as experiências que ocorrem com os sujeitos em
jogo, como a de frustração, por exemplo, de um mais ou um menos de real que
tenha sido dado ou não ao sujeito, o que interessa a Lacan diz respeito a aquilo que
o sujeito criança almejou e identificou como sendo o desejo da mãe, que pode estar
em algum outro lugar e que a impede de responder, como mãe, a tudo que da
criança se anuncia como demanda.
Diz o psicanalista que o mundo das fantasias primordiais constitutivas de
Melaine Klein, que desemboca numa relação de espelho entre a mãe e a criança,
deixa para a mãe um lugar de habitat, de tudo o que se pode localizar por projeção
das pulsões da criança. E o que vai arrancar mãe e criança dessa relação mortífera
e estabelecer uma outra dialética é um terceiro elemento, o falo, que ficou esquecido
pelos psicanalistas de crianças de sua época, e com ele a introdução de uma
dimensão simbólica como elemento que está no centro da problemática mãe-criança
e homem-mulher. Daí o dizer de Lacan, quanto ao que resultou na prática dos
psicanalistas Kleinianos para aquilo que não tinha mediação: ―enfiar o simbólico nas
62

crianças.‖ (Lacan, 1953-54/1975. p. 93). E o que ele, chama de aporias Kleinianas,


(Lacan, 1957-58. p.284). Do tipo... ―este é o pipi do papai... este é o buraco da
mamãe.‖.. etc. Prática fecunda por um lado, mas insuficiente por outro na medida
em que promove um esvaziamento da dialética primordial do desejo tal como Freud
a descobriu. Tal dialética comporta: ―uma relação terceira, a qual faz intervir, para
além da mãe, ou mesmo através dela, a presença do personagem desejado ou rival,
mas sempre terceiro, o pai.‖ (Lacan, 1957-58. p. 283-284). A dialética que tem o
Falo como significante fundamental pelo qual o desejo do sujeito tem que se fazer
reconhecer como tal, e que permite a introdução do sujeito em sua existência e em
sua posição sexual.
Já com Ernest Jones, a interlocução de Lacan é longa e sobre ela não vamos
nos estender. Apenas destacar, para os fins que nos interessa, o momento da crítica
de Lacan em relação ao pensamento geral de Jones sobre a mulher como mãe, e da
entrada correta de um terceiro que é o homem entre ela e seu filho. Para Jones,
trata-se de uma entrada que vai se dar de forma a subsumi-la ao homem e á
criança. Para Jones, the women is Born, ou seja, nascida para desejar, realizar e dar
prazer ao homem e à criança. Acreditamos com Lacan que para Jones, na esteira
fantasística de Melaine Klein, a mãe tem um destino oblativo e muito próximo das
padecidas no paraíso. Mãe que tem sucesso ao trazer para a criança muitas coisas
de que ela necessita, mas que ao colocar a mãe no lugar de quem vai suprir a
criança de suas necessidades mais primitivas ―se esquece que já no nível dessa
experiência primitiva que se faz a entrada em cena do falo na dialética da criança e
que esse sujeito que nutri é de fato um ser desejante.‖ (Lacan, 1957-58. p. 293).
Na Conferência sobre a Sexualidade Feminina preparada dois anos antes de
sua realização no Colóquio Internacional de Psicanálise em Amsterdam, Lacan
(1960) dá continuidade às suas considerações críticas à psicanálise teórica e em
exercício de sua época, que a seu ver: não causa surpresas nos seus sessenta anos
de desenvolvimento, quanto ao fato de sustentar sobre a repressão do pai o
complexo de castração, bem como sua tendência de caminhar progressivamente
para as frustrações provenientes da mãe (Lacan,1985/1960. p. 704). Interroga,
nesse sentido, a noção apregoada de carência afetiva, que une sem mediação aos
defeitos da maternidade, às perturbações do desenvolvimento da criança ligadas, na
verdade, à dialética de fantasias do corpo materno.
63

Ainda que visualize na experiência da psicanálise dessa época uma certa


promoção conceitual da sexualidade feminina, Lacan não deixa dúvidas quanto ao
fato de que essa versão da relação mãe-criança corrobora com uma ―Falofagia
fantástica‖ (Lacan, 1985/1960. p. 708) dos psicanalistas, que se traduz na elevação
de certos elementos concretos do corpo material, como ―seio bom‖ em M. Klein e
aqui acrescentaríamos o ―clitóris‖ em E. Jones, à condição de símbolos fálicos da
mulher.
Entrementes, convida aos psicanalistas a abrirem mão, diríamos, desses
ensaios masturbatórios e se voltassem para as questões de estrutura e ao enfoque
de Freud em torno ao conceito de falo, a um retorno à análise das relações de
privação ou de carência do ser e do ter que esse híbrido simboliza e que engendra
toda frustração particular ou global da relação entre o desejo e a demanda e, por
fim, de onde podem precipitar novos objetos, um deles ―a criança por vir‖ (Lacan,
1960/1985. p. 709).
Assim, Lacan além de recuperar a metáfora sexual em jogo no campo da
sexualidade da mulher, que havia sido esquecida pelas teorias do desenvolvimento,
introduz a pergunta sobre algo que escapa à mediação fálica no que diz respeito à
sexualidade feminina. Acreditamos que Lacan tenha lançado nova luz sobre a
pergunta de Freud ―O que é uma mulher?‖, e também sobre a relação da mulher
com a maternidade, particularmente da mulher psicótica, nosso objetivo nesse
estudo.
É importante enfatizar que, em todo esse percurso que retomamos em Lacan,
que vai de 1932 a 1960, pode-se depreender que o lugar do materno será tomado
todo o tempo como o lugar de uma mediação simbólica, ou seja, lugar de um Outro
primordial, que fornece ou não os significantes para a criança. Isto é, no que tange a
questão da mulher enquanto mãe, nada haverá em Lacan o que se refira a uma
natureza instintiva da maternidade. Como observou Silvia Elena Tendlardz, em seu
livro Las Mujeres y Sus Goces:
[...] não encontraremos em todo o percurso de Lacan, como não encontramos
na obra de Freud, nenhuma natureza realmente instintiva da maternidade e
que em cada uma das situações aqui citadas, ele situa a mãe em relação a
uma mediação simbólica no campo da linguagem. (Tendlardz, 2002.p.147).

Localizamos, ainda em suas elaborações posteriores, os desdobramentos


que ocorrem em torno à pergunta sobre esse algo que escapa da mediação fálica na
64

mulher e sobre a sua condição de não toda implicada na castração que ele
estabelece, a partir de 1970, com as fórmulas quânticas da sexuação para ambos os
sexos. O que não será sem consequências para tudo o que diz respeito ao universo
feminino, inclusive à maternidade. Voltaremos a essa questão, mais detidamente,
ainda nesse capítulo.

3.6 Mãe substituível e transmissão subjetiva


A psicanalista Colette Soler em seu livro O que Lacan Dizia Sobre As
Mulheres, publicado em 2003, retoma as elaborações de Lacan sobre o pai, sujeito
de quem é possível prescindir, mais sobre a condição dele se servir como
significante do nome-do-pai. Quanto à mãe, diz a psicanalista, ―[…] parece que é
possível prescindirmos, ou queremos fazê-lo, ou até devemos fazê-lo, o que já
indica a dissimetria, mas sob a condição de que primeiro dela tenha se servido pelo
menos para a produção de um corpo.‖ (Soler, 2006. p. 87). Sendo isso, portanto, o
mínimo que se espera no âmbito do que chamamos lugar do materno na
constituição do sujeito.
Afirma a psicanalista que ocorreu a Lacan nesse momento de suas
elaborações, designar as mulheres pelo termo de ―poedeiras‖. E que afora o toque
um tanto quanto infame dessa redução etimológica, deixa claro que a mãe como
genitora, não é um semblante. Ao passo que a disjunção entre a função reprodutora
real e a função de semblante, simbólica, encontra-se invertida do lado do pai, o qual,
como Nome, esse sim é um semblante, mas não um genitor. O que a psicanalista
quer dizer na verdade é que o lugar materno é substituível, tal como vimos nas
antigas práticas das amas, incluindo a ama de Freud.
A psicanalista nos lembra ainda, no capítulo onde ela trabalha a mãe no
inconsciente, que não faltaram tentativas históricas de substituir as mães na fantasia
ou na realidade. O filósofo Rousseau nos traz um exemplo dessa tentativa de
educação de seu Émile, onde a preocupação de afastar a mãe para sempre é tão
premente, que o filósofo a torna como condição sine qua non para educar uma
criança. As tentativas de práticas educativas não maternais, com ideologias muito
opostas, foram comuns ao longo do século XIX e meados do século XX. Como as
inspiradas em Alexander Sutherlland Neill, na Inglaterra. Nem a macaca de ferro de
Pavolv foi prova suficiente da adequação dessas propostas.
65

No entanto, no mundo atual, constatam-se transformações nos vínculos


sociais, onde a mãe, ou seu substituto, por exemplo, torna-se, num número cada vez
maior de casos, o parceiro preponderante ou exclusivo da criança, ou, pelo menos, o
único estável. Daí o surgimento de uma configuração familiar nova e podemos dizer,
de uma estrutura familiar que vem se tornando muito comum que é a de uma mãe
com seu filho ou filhos, acrescida, uma vez por outra, de um homem ocasional,
como é o caso de algumas de nossas pacientes na clínica, ou uma série de homens
que se sucedem – ao qual se dá o nome de ―companheiro da mãe‖. Como
consequência dessas configurações múltiplas e variadas que dão mobilidade aos
laços sociais contemporâneos, ―o cara-a-cara da criança com a mãe‖ (Soler, 2006. p.
88) terá novo peso na história e certamente trará consequências subjetivas para
ambos.
No capítulo sobre ―Mujeres y Niños‖ do livro de Stendlarz (2005), a autora nos
oferece suporte precioso para as nossas indagações sobre a maternidade e seus
avatares. É quando ela retoma em Lacan o exame clínico da dupla mãe em Hans,
em Leonardo da Vinci e em André Guide no Seminário 4 sobre A Relação de objeto.
O que a psicanalista recupera de Lacan, é a problemática acerca do que transmite
uma mulher através de sua modalidade de ser mãe. A mãe do dever, a de Guide,
toda mãe, toda amor sem relação com a falta e o desejo, e confronta a criança a um
desdobramento de uma figura da mãe (a do amor e a do desejo – sua tia) que se
subjetiviza em sua estrutura perversa. Já a mãe de Hans, figura devoradora que
toma o filho como fetiche, se desdobra com a avó paterna que supre a deficiência
paterna. A fobia de Hans lida com a falta simbólica até que emerge uma elaboração
fantasmática que aloja sua angustia.
Já no Seminário 5, Lacan, utilizando-se dos mesmos casos, se ocupa da mãe
do futuro obsessivo. Mas aqui já intervém o quarto termo, o pai, e o que se joga
nesse contexto é a articulação entre o pai e a mãe, como homem e como mulher. O
excessivo amor de um homem por sua mulher, afirma Lacan, pode conduzir a uma
posição de destrutividade do desejo por parte da mulher. O resultado se encontra na
anulação do desejo da criança obsessiva e em sua participação ativa nesta
destrutuvidade. O que foi para essa criança sua mãe, com suas distintas
modalidades de amar o filho, pergunta-se Lacan em relação à Guide: Um filho–falo.
Em Hans ele encontra o menino-fetiche de sua mãe, que acha na fobia uma forma
66

de produzir a mediação que falta. O que nos interessa destacar é que em cada um
desses casos a psicanalista lê em Lacan,
[…] a posição da mulher com relação a sua falta, determina o seu modo de
amar e sua transmissão da castração. Assim, a conjuntura dramática, na que
se inclui a maternidade em cada mulher, as particularidades de sua história,
intervém em sua transmissão da falta e em sua incidência na subjetividade da
criança. (Tendlardz, 2002.p.149).

Portanto, podemos aferir da escuta de Lacan em cada um desses casos, algo


da transmissão de uma subjetividade, que se viabiliza a partir da posição da mulher
em relação a sua própria falta e que será de grande valia na escuta dos casos que
serão tratados no quinto capítulo desse estudo.

3.7 O enigmático desejo da mãe e a função da metáfora paterna


Na primeira versão da metáfora paterna apresentada por Lacan, no seu
Seminário 5, o pai substitui a mãe na medida em que ambos são tomados como
significantes. O resultado dessa substituição é a atribuição ao falo, como significado
enigmático das idas e vindas da mãe pela criança. Introduz-se, assim de entrada,
uma distância entre o objeto de desejo, o falo e a criança, que a levará a se colocar
no lugar desse objeto, ou seja, a uma identificação com o falo. A mãe, por seu turno,
como mulher guarda um desejo que excede ao laço com seu filho, fato que retorna
na subjetividade da criança como um enigma do desejo do Outro.
Seguindo Tendlardz (2005), em sua leitura do Seminário 5 de Lacan, a mãe
opera de forma diferenciada nos três tempos do complexo de Édipo. No primeiro
tempo, ela opera como uma lei incontrolada e onipotente, que por sua vez, mediatiza
a simbolização primordial e a criança se identifica com o objeto de seu desejo.
Entretanto, esse desejo, ao qual a criança se identifica como objeto, guarda uma
ambiguidade, pois: ―se por um lado está fora da lei do pai, por outro está sob a égide
da castração da mãe que antecede a sua maternidade‖ (Tendlarz, 2005. p.150).
No segundo tempo do Édipo, ocorre que o pai comparece para privar a mãe
de seu objeto, instaurando-se assim a proibição do incesto dirigida á criança,
impedindo a mãe de reintegrá-la como objeto de sua devoração. Vale dizer como
psicanalista, que não basta a existência de uma subjetividade prévia da mãe, é
necessário que ela ainda consinta e subjetive a privação de seu objeto de amor pelo
67

pai simbólico, precisamente, o pai como metáfora. No terceiro tempo do Édipo, o pai
deve sustentar sua promessa fálica como via de assunção da posição sexuada da
criança. Isto restaura o falo como objeto desejado pela mãe e não só um objeto que
o pai quer privar. Assim encontramos no Seminário 5:
O pai é no Outro, o significante que representa a existência do lugar na
cadeia significante como lei. O pai acha-se numa posição metafórica na
medida em que é unicamente na medida em que a mãe faz dele aquele que
sanciona, por sua presença, a existência como tal, do lugar da lei. (
Lacan,1957-58/1999.p.202).

O pai, como significante do Outro enquanto lugar da lei, sem o qual pode o
sujeito criança, se atrapalha na neurose ou sucumbe na psicose.
Uma nova versão da metáfora paterna vai ser introduzida por Lacan ainda em
1958, no texto ―De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose‖.
Nessa nova versão, a mãe continua funcionando num primeiro momento com seu
desejo sem lei, mas esse desejo vem agora articulado ao valor que ela dá à palavra
do pai, enquanto significante presente no seu discurso, nos moldes de sua
autoridade, enfim, ao significante do nome-do-pai na promoção da lei. Entretanto, a
metáfora paterna não recobre totalmente o que existe de desconhecido para a
criança. Essa insuficiência simbólica da metáfora paterna deixa um resto que fica
fora da simbolização. O resto do processo de substituição do enigmático desejo da
mãe pela função simbólica do pai, implica a existência desse algo, que permanecerá
fora do processo simbólico, impossível de ser nomeado, e para o qual Lacan, em
1960, vai dar o nome de objeto pequeno a, objeto que resta da operação de
simbolização deixado pela metáfora paterna. A partir da década de 70, Lacan
articulará ao real e ao objeto a o conceito de gozo, que incidirá de forma singular
sobre a sexualidade feminina.

3.8 A maternidade e o Édipo feminino


A propósito do desfecho do complexo de Édipo, ainda no seminário 5, Lacan
sustenta que a mulher não tem que fazer a identificação que tem que fazer o homem
e nem se colocar na guarnição do título de sua virilidade, tal como sublinha Freud
em seu artigo sobre o declínio do Édipo. Vimos que Tendlardz (2005) assinala que
68

Jacques Alain Miller, em uma leitura do Seminário 5 de Lacan7, encontra no terceiro


tempo do Édipo feminino o surgimento da mulher, totalmente distinta da mãe. O que
diz respeito às condições da maternidade, esta estará circunscrita à privação da
mãe na medida em que essa privação implique na subjetivação da castração mais
do que a identificação sexuada que se situa no segundo tempo do Édipo. Enquanto
que no terceiro tempo do Édipo, para além da mãe, Lacan situa o surgimento da
―verdadeira mulher, aquela que se dirige a um homem em sua particular posição
feminina‖. (Tendlardz, 2005. p. 150).
A partir da segunda metade do Seminário 5, o falo perde seu status de
significado e passa a ter um valor simbólico de significante do desejo. Nessa
mudança, Lacan estabelece a dialética ―do ser e do ter o falo‖, no tratamento das
relações entre os sexos. ―Homens e mulheres ao se confrontarem com a falta em ser
o falo desejado da mãe, encontram sua solução no atravessamento pelos três
tempos do Édipo.‖ (TENDSLARDZTendlardz, 2005. p.151).
A introdução dessa dialética fálica, nesse momento das elaborações teóricas
de Lacan, traz a marca de seu interesse em compreender as peripécias da vida
amorosa na mulher e no homem, que não será suficiente para responder a pergunta
sobre a incidência da posição feminina na maternidade. Questões que só se
descolarão dessa dialética, com a elaboração apresentada em 1964 do objeto
pequeno a, como vimos, com as fórmulas da sexuação em 1973.
A ideia, ainda que não formalizada, de que algo escapa a essa lógica fálica,
precisamente a existência de um ―gozo‖ fora do domínio fálico nas mulheres, foi
introduzido por Lacan no texto ―Sobre As Ideias Diretivas Para Um Congresso Sobre
a Sexualidade Feminina‖ em 1960;
[…] convém perguntar se a mediação fálica drena tudo o que pode
manifestar-se de pulsão na mulher e principalmente toda a corrente do
instinto materno. Porque não estabelecer aqui que o fato de que tudo o que é
analisável seja sexual não implica que tudo que é sexual seja analisável.
(Lacan,1960/1985.p.709).

Desde aqui, algo escapa à mediação fálica na mulher, algo que o fará
perseverar em novas elaborações sobre a mulher e o feminino. Há o inconsciente
real, para além do simbólico, ou um gozo feminino que não é todo regulado pelo

7
Ver em: Miller. J. A. Leitura do Seminário 5 de Jacques Lacan. Editora Paidós. Buenos Aires. 2000. p. 61.
69

falo. O que tem a ver com as características do Édipo na menina em que, na medida
em que persiste o laço com a mãe, aponta uma fragilidade no que se refere à
castração, condição que condiciona para a mulher um suplemento de gozo, que vai
ser explicitado por Lacan, anos mais tarde, e que dirige a pergunta da mulher sobre
o seu desejo, na relação com esse gozo desmedido, que ultrapassa o sujeito não
identificado como gozo fálico. Nesse sentido:
[…] pode a mulher tanto consentir com seu fantasma em ocupar o lugar do
objeto a para um homem, para produzir seu desejo, quanto como mãe,
localizar esse objeto em seus filhos, ou seja, tomar a criança como objeto
causa de seu desejo. (Tendlardz,2005.p.152).

Na medida em que o fantasma da mãe como sujeito, antecede logicamente a


posição da criança na estrutura, abre-se a possibilidade de uma clínica que
concerne à relação das mulheres, não com o falo, mas como mães que tomam a
criança como objeto causa do desejo. Assim, a criança poderá encontrar-se em
diferentes posições na relação com o outro, enquanto objeto pequeno a para a mãe,
situando-se na neurose ou na psicose, como indicou Lacan no Seminário 10 sobre A
angustia na aula de 23 de janeiro de 1963:
[…] mediatizada pelo objeto transacional, fonte de equivalências, ficar
exposta a todas as capturas fantasmáticas maternas pela falta da mediação paterna,
ou se tornar um objeto real como o da mãe do esquizofrênico durante a gestação.
(Lacan.1963,citado por Tendlardz, 2005. p.152)
Pode-se considerá-la, ainda, como objeto condensador de gozo que realiza a
presença do objeto a no fantasma materno tal como foi colocado por Lacan em sua
―Nota Sobre a Criança‖ escrito em 1969. Nessa condição de objeto real, a criança
sutura a falta da mãe como mulher ocupando o lugar de complemento do seu ser.
Questões que serão retomadas na escuta dos casos clínicos nesse trabalho.

3.9 Maternidade como suplência: à mulher que não existe.


Com o estabelecimento das fórmulas lógicas da sexuação nos anos 70,
Lacan reabre o caminho para novas considerações sobre a maternidade que poderá
ser pensada a partir do aforismo ―não existe relação sexual‖. Nesse mesmo contexto
de elaboração que indica a impossibilidade da existência de uma relação natural
entre os sexos, emerge um outro aforismo solidário ao primeiro ―A mulher não
70

existe‖, o que indicaria a impossibilidade de construção de um universal feminino.


Por outro lado, existe uma relação particular das mulheres com um gozo para além
do falo, onde se pode considerar, além de outros, o gozo do materno. No capítulo
sobre o gozo, do Seminário 20, Mais ...Ainda de Lacan, encontramos referências
sobre as relações da mulher com seu gozo na maternidade:

Para esse gozo que ela é, não toda, quer dizer, que a faz em algum lugar
ausente de si mesma, ausente enquanto sujeito, ela reencontrará, como
tampão, esse que será seu filho. (Lacan, 1972-73/985. p. 49)

Entretanto, esse lugar do materno, essa versão da maternidade como


suplência não obstrui outras versões do feminino e nem impede a mulher de
encontrar um significante de seu desejo no campo do Outro, que não seja única e
exclusivamente o seu filho, tampão de sua falta a ser, sob pena de comprometer a
subjetividade de ambos.
O que podemos concluir desse percurso é que a maternidade se coloca como
uma versão da feminilidade, como suplência, e não obtura o ser mulher, desde que
seu desejo possa estar em outro lugar, em uma direção tal que possa assegurar que
o recobrimento mulher e mãe não se produzam. Assim, a mulher não é a mãe nos
termos de uma justa posição sexual. A mulher e a mãe podem se entrecruzar,
deixando aberto o espaço cujos limites se propagam até o que resta ainda de
enigmático, de sua sexualidade feminina.
As fórmulas quânticas da sexuação, estabelecidas por Lacan no Seminário
20, demonstram, também, a impossibilidade de construção do universal das
mulheres. Isso indica que a mulher só pode ser pensada uma a uma. Ao que
concerne à maternidade, corrobora com a nossa hipótese de que uma das saídas do
feminino só poderá ser pensada a partir de como, uma a uma, cada mulher nela se
situa, seja ela neurótica ou psicótica. É o que vamos conferir na escuta dos casos
clínicos.

3.10 A “mãe” na clínica


Retomando o texto da psicanalista Colette Soler, ―A mãe no Inconsciente‖,
como interlocutor para o que estamos chamando de gozo materno e suas
71

vicissitudes, particularmente na psicose vamos encontrar o que ela chama de


angustia e recriminações feitas à mãe nos ditos dos analisantes. É certo, diz a
autora, que há sempre um discurso prévio sobre a mãe fazendo dela ―o objeto vital
por excelência, um polo das primeiras efervescências sensuais, a figura que cativa a
nostalgia essencial do ser falante, o próprio símbolo de amor.‖ (Soler, 2005. p. 90).
No entanto, sejam quais forem as variações individuais, nas associações
livres dos sujeitos em análise as mães comparecem muitas vezes como acusadas
no discurso dos sujeitos, o lugar da mãe no inconsciente pode inclusive chegar á
devastação:
Imperiosa por um lado, possessiva e obscena por outro, ou, ao contrário
indiferente, fria e mortífera, presente demais, ou ausente demais, atenta
demais ou distraída, quer cubra de mimos, quer se mostre negligente, quer
prive, quer se preocupe, por suas recusas, por suas dádivas, ela é, para o
sujeito, uma imagem de suas primeiras angústias, um enigma insondável,
lugar de uma ameaça obscura. (Soler,2004.p.91).

Para a psicanalista, é necessário mais do que um recenseamento empírico


para que se construa a estrutura que encerre esse polimorfismo que, na verdade, diz
respeito à queixa infantil. Isto é o que podemos conferir no discurso dos analisantes
às voltas com esse objeto mãe na fantasia. Na verdade, entre o que uma mãe fala
às voltas com a divisão do seu ―falasser‖, e um filho que fala da mãe, ambos na
clínica, há uma distância que não se pode negligenciar.
Retomando o texto de Lacan sobre ―A Juventude de Guide‖, nos Escritos, eis
o caminho que a psicanalista nos convida a trilhar, o de apreender em cada caso,
por que caminhos passam as fantasias para ir da mãe ao filho, e vice versa. Isto
porque o que essas fantasias suscitam, com certeza, os modos de lidar com a falta,
as formas de obturá-la, enfim, o discurso do inconsciente é o que vai a última
instância poder indicar algo da subjetividade daquele que fala. No capítulo sobre a
fantasia para além do princípio do prazer do Seminário 5, onde Lacan discute com
Freud sobre que dor de existir escapa à natureza do ser vivo e insiste em reaparecer
na repetição, ele fala da fantasia de espancamento:
A fantasia em que o sujeito figura como criança espancada – torna-se na
relação com o Outro por quem se trata de ser amado, enquanto ele mesmo
não é reconhecido como tal. Essa fantasia situa-se, então, em algum lugar da
dimensão simbólica entre o pai e a mãe, entre os quais, aliás, ela
efetivamente oscila. (Lacan,1957-58/1999.p.250).
72

O que podemos encontrar desses avatares da maternidade, da transmissão


da falta e do feminino no discurso das mulheres psicóticas, é o que iremos trabalhar
a partir dos casos clínicos neste estudo. No caminho percorrido até aqui
reafirmamos que para cada mulher/mãe, seja ela psicótica ou não, exista um lugar
para uma criança. E que esse lugar que ela lhe reserva tem a função de responder
por algo incomensurável de sua realidade psíquica.
73

Capítulo 4

SOBRE A PSICOSE

―... O Louco, não é em absoluto o homem que


perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo,
menos a razão...‖.

(Jacques Lacan, 1932)

Ainda que com pouco otimismo em relação ao tratamento psicanalítico, com


certeza mais pelos limites de seu campo epistêmico do que interesse pela clínica,
muito iremos encontrar em Freud de elaboração teórica sobre a psicose. Já em
1894, ele escreve um artigo de valor inestimável para a teoria e para a clínica
nomeado ―As neuropsicoses de defesa‖. Neste artigo, Freud identifica na psicose
uma modalidade de defesa muito mais energética e exitosa, uma rejeição
(Verwerfung) pelo eu de uma representação insuportável junto ao afeto. Nos ―Artigos
sobre Metapsicologia‖ de 1914, ele trata da economia da libido que na psicose é
liberada dos objetos retirando-se para o eu do sujeito.
No Trabalho de Freud sobre o Eu e o Id (1923 b), ele propõe uma
diferenciação do aparelho psíquico considerando as instancias do eu, id e supereu,
descrevendo o que chama de os numerosos relacionamentos entre elas. Será a
partir dessas elaborações onde ele acentuará o eu e, em suas relações com as
demais instâncias psíquicas, ele poderá introduzir a hipótese relativa ao que pode
diferenciar a neurose de uma psicose.
Ainda em 1923 ele escreve o artigo ―Neurose e Psicose‖ e sustenta que as
neuroses se originam do recuo do eu em aceitar ou ajudar uma carga pulsional
poderosa a encontrar um canal de escoamento, ou de o eu proibir àquele quantum
de pulsão o acesso ao objeto a que visa. O material recalcado luta contra esse
destino e cria para si próprio, ao longo de caminhos sobre os quais o eu não tem
poder, uma representação substituta e conciliatória – o sintoma. No caso da psicose,
as dificuldades do eu se darão em sua relação com o mundo externo e o produto
desse conflito se dará por uma via autocrática, ou seja, pela criação de uma nova
realidade. Na verdade, uma tentativa de cura ou, como ele reafirma no texto ―A
74

perda da realidade na neurose e na psicose‖, escrito em 1924, uma reconstrução da


realidade.
Portanto, no momento em que o eu na neurose recalca uma representação
pulsional, Verneinung, ele se envolve com o recurso do sintoma — representação
substituta no âmago de um conflito com o id. Na psicose o que ocorre é a
Verwergung, uma recusa dessa representação pulsional, onde o sujeito se arranja
com o recurso da invenção/construção no lugar do sintoma na neurose. O que Freud
anuncia como tentativa de cura na psicose será uma das modalidades pivô de todo
o edifício teórico que Lacan construirá da psicose, fazendo avançar para além da
contribuição freudiana as condições efetivas de seu tratamento.
Bem antes em 1910, Freud realizará uma rigorosa construção teórica onde
dará ao psicótico, o estatuto de sujeito, não o do sujeito dividido, da fala, da
enunciação que se encontra na neurose, mas o sujeito do enunciado, legado que
Lacan acolhe e faz valer em toda a extensão de seu ensino e obra. Em 1911 publica
o resultado dessa construção teórica que chamará de Notas Psicanalíticas Sobre um
Relato Autobiográfico de um Caso de Paranoia, feita a partir da leitura das Memórias
do Dr. Daniel Paul Schereber, publicada em 1903, peça jurídica produzida por esse
eminente magistrado alemão, para obtenção de alta do Asilo de Sonnenstein e
retorno às suas atividades na Corte de Apelação da Saxônia — recurso do qual se
serviu com sucesso inclusive para sua estabilização e considerado por Freud, como
elemento de seu auto tratamento e, portanto, tentativa de cura na psicose.
Lacan por sua vez, introduz a discussão sobre o tema em seu Seminário 3,
sobre ―As psicoses‖, proferido entre 1955 e 1956, dentro do contexto considerado
como sendo o de sua primeira clínica sobre a psicose, a partir de um estudo de um
caso de ―paranoia de auto punição‖- O caso Aimée, que retomou de sua tese de
doutoramento em psiquiatria defendida em 1932. Desde essa época ele convida aos
leitores à aplicação de um método teórico mais rigoroso de trabalho, baseado na
busca de uma descrição mais concreta e exploração da história de vida e história da
doença do sujeito. E a busca da estrutura e significação dos sintomas de maneira
exaustiva, que leve a uma concepção mais satisfatória dos fatos da psicose. Nesse
sentido ele associa as elaborações de Freud a propósito do caso Schereber, às
noções que ele construiu no decorrer de seu ensino, tratando dos problemas que a
psicose suscita, incluindo os problemas de seu tratamento.
75

Nos termos de Lacan, o que distingue fundamentalmente a psicose da


neurose onde o inconsciente se recobre nos invólucros do sintoma, é o fato de que
nela, ―o inconsciente está à superfície‖, ―à flor da terra‖ (Lacan, 1955-56/1995. p. 20).
Essa distinção inicial entre neurose e psicose é feita por Lacan para sustentar que o
inconsciente é estruturado como uma linguagem e dar início à discussão de seu
mecanismo principal já estabelecido como vimos apresentado por Freud em 1894, a
Verwerfung, recuperando a análise do termo no campo jurídico que coincide com o
termo foraclusion em francês e traduzido como foraclusão na língua portuguesa. Um
índice de algo que está na linguagem mas que diferentemente da Verneinung, na
neurose fica fora da simbolização.
O que cai sob o golpe do recalque retorna, pois o recalque e o retorno são
apenas o direito e o avesso de uma mesma coisa. O recalcado, ele está
sempre aí, e ele se exprime na maneira perfeitamente articulada nos sintomas
e numa multidão de outros fenômenos. Em compensação, o que cai sob o
golpe da foraclusão tem uma sorte completamente diferente. (Lacan,1955-
56/1995.p.21).

Sucede então para Lacan que, ―tudo que é recusado na ordem simbólica, no
sentido da Verwerfung, retorna no real.‖ (Lacan, 1955-56. p. 21). Ainda que nesse
momento o conceito de real (real da realidade psíquica) não seja o que ele
estabelece anos mais tarde no ensino, que traz a noção de real como um ―resto‖
impossível de transmissão, trata-se da indicação de algo que para o sujeito psicótico
retorna, não de dentro, mas de fora do simbólico. E que se não é gozo que o delicia
imaginariamente, muitas vezes o assombra e o fere.
Lacan (1957-58) discorre e avança sobre o tema no texto ―De uma questão
preliminar a todo tratamento da psicose‖, e afirma a unidade da relação com o
significante, tanto na neurose quanto na psicose, bem como a diferença radical que
separa uma da outra. Na neurose a estrutura linguageira do sintoma aparece como
decifração e na psicose essa estrutura aparece como fenômeno. Vimos, assim, a
psicose incluída definitivamente no campo da fala e da linguagem e anunciada sua
exterioridade no campo discursivo. E é nesse campo que vai ocorrer o acidente da
foraclusão. A partir de uma falha, de uma ausência no nível do Outro, de um
significante, o nome-do-pai e seus efeitos de metaforização.
É um acidente desse registro e o que nele se cumpre, a saber, a foraclusão
do nome-do-pai no lugar do Outro e no fracasso da metáfora paterna, onde
76

designamos o efeito que dá à psicose sua condição essencial, com a


estrutura que a separa da neurose. ( Lacan, 1957-58/1985.p.556).

A questão do nome-do-pai identificada à figura da lei, foi introduzida por


Lacan em 1953, em um informe em congresso celebrado no Instituto de Psicologia
da Universidade de Roma e a sua relação com a psicose, receberá contornos
inéditos ao longo de seu percurso. No Seminário 3, o que se depreende de suas
elaborações é sua distinção radical com o campo da neuroses. Sua presença
metaforizada na primeira – Bejahung, ou sua ausência, foraclusão, na segunda.
Na neurose o significante do nome-do-pai aparece como um ponto de junção,
―point de capiton‖, que se substitui ao significante do desejo da mãe em relação com
a sua criança produzindo a significação fálica do sujeito. Elemento de sustentação
da cadeia significante, que trás um primeiro ―não‖ com o qual o sujeito deve se haver
em sua história. Um ―não‖ que advém de dois elementos irredutíveis que são os
cuidados de outrem, no caso o materno, e um desejo de um pai, que não é o do pai
da realidade e sim um significante do desejo de um homem que faz de uma mulher a
causa de seu desejo. Esse ―não‖, seja o que for que o sujeito faça com ele,
obedeça-lhe ou faça escárnio, designa para um sujeito um impedimento: ―não
poderás dispor de tudo e a qualquer preço‖, impedimento forjador privilegiado de um
lugar consentido na comunidade dos humanos e de um desejo que não seja
anônimo.
Para uma maior compreensão do princípio da foraclusão do nome-do-pai,
desse período do ensino de Lacan, há que se admitir que esse nome se redobra no
lugar do significante do ternário simbólico enquanto lei. É preciso, portanto, que
―Um‖ pai compareça nesse lugar onde é chamado. Basta para isto, diz Lacan, ―que
esse Um-pai se situe em uma posição terceira em alguma relação que tenha por
base o par imaginário a-a’, ou seja eu-objeto ou ideal realidade, interessando ao
sujeito no campo de agressão erotizado que induz. (Lacan, 1985/1957-58. p. 559).
Nessa parelha a-a’, que compreende a mãe e a criança ou quem dela se
ocupa, o que verdadeiramente importa é o lugar que a mãe dá, menos ao pai da
realidade, mais ao pai que advém no seu discurso, nos termos de sua autoridade, ou
seja, o lugar que ela reserva para si própria na promoção da lei, na posição de
significante dessa lei, para um filho donatário.
77

Na psicose, no lugar do advento desse significante, o do nome-do-pai, nada é


dito. Nesse lugar, onde o nome-do-pai é convocado, responde o silêncio mortífero
do significante que o representaria para outro significante. Como diz Solal
Rabinovitch em seu livro sobre A Foraclusão,
Nenhum dito-inter-dito de gozar da mãe – fundamental, ausentado da pré-
história do sujeito, poderá ser afetado pelas negações que dão acesso ao
saber veiculado pelo dito. Nunca negativado na psicose, esse saber de gozo
não pode assujeitar o sujeito; livre e solto, errante, ele não o enganará.
(Rabinovitch, 2001. p. 47).

Portanto, é nesse contexto, o da ausência de um significante privilegiado, o


nome-do-pai como significante da lei, que Lacan dá ênfase à transcrição do
complexo Edípico freudiano, em termos de metáfora paterna, ou seja, na operação
que substitui a dimensão do desejo (materno) pela dimensão da lei (paterna). De
forma a introduzir uma nova significação no mundo simbólico no qual os fenômenos
de linguagem, ou gozo do Outro, na psicose venham se assentar.
O psicanalista Alfredo Zenoni em seu texto ―Versões do Pai na Psicanálise
Lacaniana‖ (2008), reforça a ideia dessa versão metafórica de pai, já assinalada por
Freud e retomada por Lacan, no que ela contém de promoção do laço paterno
fundado na fé e na lei no lugar do laço materno, este fundado numa ―carnalidade
manifesta‖ (Zenoni, 2008. p. 15) na relação entre a mãe e a criança.
Uma disjunção entre o pai que porta a lei e regula o gozo da mãe e da
criança, e um pai que intervém como pai real, desta vez na relação com uma
mulher, vai surgir no Seminário 4, sobre Relação de Objeto, (1956-57) e no
Seminário 5, sobre As Formações do Inconsciente (1957-58). O que seria, então,
uma nova versão do pai em Lacan, pode ser apreendido da diferenciação
progressiva do pai de suas coordenadas simbólicas para outro pai tocado pelo
campo do real, que passa a desempenhar uma função de nó, aderente de muitos
substantivos inclusive o próprio pai.
No deslocamento operado por Lacan, desse significante na cena psíquica se
encontra a chave da clínica das diversas configurações concretas em que a relação
com o significante pai pode agora revelar-se tanto carente quanto foracluída. No
lugar onde havia um significante, garantidor do conjunto de significantes e fundante
de uma certa organização psíquica para o sujeito, se coloca a noção de uma
78

fundação contingente, esta ―encarnada na diversidade dos significantes mestres,


relativos, históricos.‖(Zenoni, 2008. p. 24).
Na verdade, o entendimento de Zenoni para essa mudança de estatuto do
nome-do-pai em Lacan, se dá na medida em que a função de autodemonstração do
Outro, que esse nome deveria garantir, evidencia-se como impossível. Nesse
sentido, esse significante perde tanto sua consistência quanto sua unicidade e passa
a cumprir a função de semblante, podendo assim absorver uma multiplicidade de
termos, a mais variada possível, na série das contingências da vida de um sujeito.
No lugar do nome-do-pai, deposto do lugar de lei universal e de exceção, uma oferta
de significantes passam a ser nomeados por Lacan no plural de nomes, os nomes-
do-pai, ou se quisermos, o pai dos nomes, representantes vivos referidos a uma
multiplicidade de exceções a essa lei. Como diz Zenoni, ―os nomes-do-pai serão
tantos quantos forem os suportes à sua função.‖ (Zenoni, 2008. p. 16).
Certamente que não se trata de um movimento aleatório, na medida em que
podemos identificar em todo o percurso de Lacan, como assinalamos no início deste
estudo, com o sociólogo Markos Zafiropoulos, reportando-se ao primeiro movimento
de Lacan para fora da metapsicologia freudiana, em seu texto sobre ―Os Complexos
Familiares‖, precisamente onde com Durkheim atesta o declínio da família ocidental
e a degradação de seu chefe, o pai, insuficiente em sua fecundidade subjetiva no
complexo de Édipo freudiano.
Um outro estudioso de Lacan, Iannini (2012), vê no movimento de Lacan, em
interlocução com a filosofia, a linguística, a literatura e a arte de sua época, uma
tentativa de se desvencilhar-se dos cânones científicos estabelecidos. Na verdade,
todo um esforço teórico para afastar a psicanálise da metalinguagem – teoria
semântica da verdade. Se não existe Outro do Outro, o pai universal ou a verdade
da verdade cabe á psicanálise lançar mão de instrumentos teóricos, de outro tipo de
formalização lógica que possa fazê-la se aproximar-se de seu objeto, o inconsciente,
ainda que fugidio e que não se adequa a qualquer tipo de formalização, que não
seja na escuta de sua emergência no contexto de um ―real de gozo‖ e em ato. É
assim, inclusive, que acreditamos poder ter se desenvolvido o ―estilo Lacan‖ que se
arvorou na escuta desses sujeitos no contexto psiquiátrico de 1932, ―sujeitos fora do
discurso‖ – uma mulher, uma psicótica, como vimos em outros momentos nesse
estudo — e fez avançar passo a passo tanto a teoria, quanto a clínica das psicoses.
79

―Profanação lacaniana‖, diríamos como o filósofo Georgio Agamben, (2007), em


nome do avanço da psicanálise e do próprio conhecimento científico.
Assim, podemos considerar que Lacan consegue desvencilhar a psicanálise
tanto dos enrijecimentos de que padecem os cânones científicos e do familiarismo
das psicologias, quanto da família naturalizadada da doxa, quando o pai deixa
definitivamente de ser abordado sobre o prisma da realidade concreta, que o lugar
do parentesco lhe confere. Tomado inicialmente sob o ângulo metafórico, ou de um
pai tomado em sua universalidade de significante da lei de exceção, um novo pai é
encontrado na particularidade do desejo de um homem por uma mulher e, ainda um
outro, um pai pluralizado em seus nomes como resposta ao ―real do gozo‖. Trata-se,
portanto e desde então, do ―gozo do pai‖, e de como um neurótico ou psicótico irá se
haver com ele na versão particularizada de sua performance discursiva.
Para reafirmar a consistência dessas contribuições de Lacan sobre ―o pai‖,
podemos nos servir ainda dos termos apresentados pela psicanalista Solal
Rabinovicth (2000), para o que na psicanálise vai ser nomeado de retornos do
real, para um sujeito tomado em sua singularidade na neurose ou na psicose:
[…] sejam eles mecanismos metapsicológicos freudianos ou estratégias do
sujeito no sentido lacaniano, o reacalcamento, o desmentido e a foraclusão,
alteram cada um a seu modo, o saber inconsciente; cada um a seu modo
afasta, desfigura, censura, transforma este elemento do saber inconsciente do
sujeito. (Rabinovitch, 2000. p. 47)

Isto para dizer que no campo da fala e da linguagem, do Lacan da década de


50/60, ou do campo do gozo, que não exclui a linguagem do Lacan de 1970,
fragmentos de saber postos em suspensão ou disfarce retornam como estratégias
do sujeito, como sintoma no caso do recalcamento na neurose, como fetiche no
desmentido das perversões e como alucinação ou outros elementos de linguagem, o
sinthoma, por exemplo, no caso da foraclusão do nome-do-pai, ou de representantes
de exceção a essa lei, os nomes-do-pai na psicose.
A psicanalista diz ainda que, foracluído, ―o saber nunca será reconhecido pelo
sujeito como seu. Sua perda que arrasta consigo as palavras para dizê-la, impõe um
achado alhures e a invenção delirante.‖ (Ravinivichr, 2000. p. 65) Entretanto, se por
um lado temos a foraclusão do nome-do-pai que pode acarretar para o sujeito uma
perda maciça que negativiza o funcionamento inteiro da linguagem, por outro esse
―furo no real‖ pode encaminhar o sujeito no sentido de busca intensa - trabalho na
80

psicose - de preenchimento dessa perda que acaba por constituí-lo como um sujeito
em sua singularidade.
É certo que algo funciona diferente nas psicoses. ―O psicótico delira e parece
inventar histórias com ou sem sentido, porém sem substrato verídico, alucina
imagens e sensações irreais, desconfia, deprime-se com virulência, chegando ao
risco de ato suicida, parecendo operar uma lógica difícil de apreender.‖ (Guerra,
2011.p. 8).
Sabemos, também, que muitas vezes ele prescinde da presença do analista e
até mesmo de um tratamento clínico. Outras vezes, busca a ajuda do analista e
necessita de intervenções que possam barrar o que de uma crise se apresenta
iminente, para conter-lhes os riscos de passagens ao ato, ou um sofrimento
insuportável.
Tal como Freud descobriu na sua clínica com as histéricas — o método de
escuta do inconsciente através da associação livre — Lacan nos recomenda dar a
palavra ao psicótico como única via possível de encontrar o caminho de tratamento
do gozo que o invade e o angustia, considerando as formas e estratégias inventadas
por ele mesmo, para amenizar seu sofrimento.
Freud chegou a contra indicar o tratamento psicanalítico da psicose, diante
das dificuldades encontradas por ele na sua clínica, particularmente no que diz
respeito às especificidades da transferência. Ainda assim, considerou que uma
mudança no método psicanalítico poderia tornar viável esse laço com o analista e
consequentemente o seu tratamento. Seguindo a sugestão de Freud, Lacan tomou
para si essa tarefa, partindo de avanços e impasses de Freud, para tornar possível o
tratamento dos psicóticos. Convocou, como vimos, aos psicanalistas a não recuarem
diante da psicose, a partilharem e contribuírem com suas elaborações. Convidou-os
a escutá-los e construir com eles uma saída, uma ―solução subjetiva‖ e ao mesmo
tempo fazer avançar a psicanálise nesse campo. Trabalhar no sentido da inclusão
dos psicóticos que se são foracluídos do simbólico, exilados de seu inconsciente,
―presos do lado de fora‖ (Rabinovicth, 2001. p. 7), isto é, estão fora do laço social.
Essa condição pode lhes dificultar a existência e a convivência com o resto dos
homens. Dar-lhes a palavra e escutá-los, a partir dos instrumentos que a teoria
psicanalítica nos oferece, é o que nos propomos na condução dos casos de
mulheres psicóticas e mães que se seguirão nesse trabalho.
81

CAPÍTULO 5

PSICOSE E MATERNIDADE

Há que experimentar o prazer para só bem suportar a dor.


Vim ao mundo molhado pelo desenlace
a dor do parto é também de quem nasce.
Todo parto decreta um pesaroso abandono.
nascer é afastar-se – em lágrimas – do paraíso,
é condenar-se à liberdade.

(Bartolomeu Campos de Queiroz, 2011)

O fato das mulheres estarem sujeitas à psicose a partir da foraclusão do


significante do nome-do-pai, não as impedem de ascenderem à maternidade. Cada
qual, homem ou mulher, pode ser surpreendido por essa contingência de serem pais
ou mães, desde que possuam o aparelhamento biológico que lhes facultem essa
condição. O que nos interessa interrogar nesse estudo sobre a maternidade e a
psicose, é como cada mulher, uma a uma, pôde ou não se haver com isso a partir
do que lhe coube absorver da contingência da foraclusão, do nome-do-pai, em seu
destino de mulher e mãe, ou seja, extrair da escuta dos casos na clínica as maneiras
como puderam, algumas mulheres e a partir dessa condição, se haverem com a
maternidade.
Vimos com Colete Soler no capítulo 3 deste estudo, o que ela elabora com
relação a dispensabilidade do pai da realidade, para reencontrá-lo no discurso da
mãe, na condição de servir-se dele. O pai então pode ser dispensado, não precisa
ser endeusado, ficar-se submetido a ele como na neurose, mas é preciso de alguma
forma dele se servir. Da mãe, também é possível prescindir, sua dispensabilidade é
até mesmo desejável e necessária, mas na condição de também nos servirmos dela.
Portanto, pelo simples fato das mulheres portarem no nível do corpo biológico um
aparelho de gestação, as condições da maternidade estão dadas para todas elas,
ainda que disso possam prescindir; mas a sua indispensabilidade se coloca
fundamentalmente na função simbólica de um Outro primordial, de pelo menos
produzir um corpo.
82

Vimos, ainda no capítulo 3 deste estudo, algumas pistas dadas por Lacan e
seguidas por psicanalistas de nossa atualidade sobre a mulher, a maternidade e o
feminino, que podem nos auxiliar na compreensão do que pode vir a ser as
vicissitudes da maternidade na psicose. Quando ele diz, por exemplo, que o fato da
mulher por ―Não estar toda submetida a castração‖ — o que serve tanto para as
mulheres neuróticas quanto para as psicóticas que estão fora dessa lógica — não
inviabiliza para nenhuma delas a existência do que ele chama de corrente do instinto
materno. E quando coloca as mulheres em sua condição de implicadas na natureza
da procriação, na condição de ―poedeiras‖. Também quando ele se refere aos
humanos que ―por mais seres falantes que sejam, não se atrapalham em suas
coiterações.‖ (SOLERSoler, 2001. Op.cit. p. 16). Sendo assim, ainda que as
mulheres sejam psicóticas, não são avessas a se reproduzirem pelas vias da citada
natureza e nem de se colocarem frente a essa questão enquanto sujeitos
desejantes.
A pergunta sobre o que podemos encontrar das vicissitudes da maternidade
no discurso das mulheres psicóticas é a que vamos sustentar na escuta dos casos
clínicos que se seguirão. O que nos interessa investigar nessa interlocução com o
campo psicanalítico, levado ao limite de nossas possibilidades, é o que se passa
com uma mulher que se vê na condição de mãe na psicose. Bem como o que se
passa em torno de uma relação mãe/criança nessa condição. Que serviço pode
prestar uma criança na composição subjetiva ou organização psíquica de uma
mulher e mãe psicótica. Ou ainda, como uma mulher psicótica desse lugar, o
materno, pode se servir de uma criança, ou seja, o que vem a ser uma criança para
ela.
Sustentamos até aqui que para cada mulher/mãe, seja ela psicótica ou não,
existe um lugar ao menos biológico, ao menos de ―bolsa canguru‖, lembrada ou
esquecida, para uma criança ao mais, o de objeto de desejo. E que esse lugar que
ela lhe reserva tem a função de responder por algo incomensurável de sua realidade
psíquica.
Que a teoria e a clínica da psicanálise se inicia com as mulheres é um dado
que encontramos desde Freud, com Ana O. Dora e Elizabeth Von R. a Lacan que
buscou em uma mulher – A Aimée de Lacan – como a chama Allouch (2005), a
primeira fonte de seus construtos teóricos. Da clinica da neurose a clinica da
83

psicose, os princípios, tanto teóricos quanto éticos da psicanálise, se fundam nas


questões colocadas inicialmente pelas mulheres.
A despeito de termos destacado no capítulo 2 desse estudo, elementos que
colocam a mulher como mãe ou quem cuida de uma criança no lugar de um
simulacro do que vem a ser a possibilidade de constituição do sujeito na psicanálise
e do lugar materno como uma via de acesso ao pleno amor e uma saída para o
sujeito feminino, sabemos que o encontro de Freud com a questão da mulher nunca
foi sem dificuldades. Apurado com a questão da feminilidade, Freud mantém com
ela uma relação de mistério e de obscuridade, chegando mesmo a colocar a questão
como algo impossível no campo do conhecimento psicanalítico, legando seu
desvelamento ao campo da poesia e ao progresso da ciência. No que ele não errou
de todo, posto que ao campo poético e literário é vasto na insistência da pergunta
sobre o que é e o que quer uma mulher.
Freud entra em contato com a questão da mulher e do feminino, a partir da
subversão de suas pacientes vienenses, que insistem em falar num momento em
que o silêncio e a submissão são sua única condição, tal como constatamos no
primeiro capítulo deste estudo. Mulheres belas e destituídas de poder social, que
rodopiam em busca do olhar e do reconhecimento masculino nos bailes dos
palacetes barrocos do final do século XIX, ou se refugiam em suntuosas mansões,
impedidas que são da circulação nas vias públicas desacompanhadas dos homens.
Entretanto a mulher vai aparecer em outro lugar, na clínica de Freud, como diz
Tomaz (2001):
[...] entra em cena a figura da histérica, a grande simuladora, capaz de
desafiar o saber instituído da medicina de toda uma época. Com uma
anatomia imaginária, uma vez que o que está em questão é o corpo erógeno,
as histéricas oitocentistas montam o cenário onde teatralizam a
impossibilidade de entrar em contato com os próprios desejos. (Tomaz, J. p.
2001.p.18).

E foi nessa clínica, bastante numerosa com mulheres, que Freud vislumbrou a
trilha da formulação do conceito de inconsciente. Mulheres que traziam as mais
diversas faces de seu sofrimento, as paralisias faciais e a dos membros inferiores, a
inibição da sexualidade e outros sintomas identificados até então como dissimulação
e trapaças do feminino, incorporados aos traços de negatividade moral e de
malevolência que marcaram o ser da mulher daquela época.
84

O que a psicanálise deve para as formulações sobre o inconsciente e outros


desdobramentos teóricos, ao indizível do continente negro feminino, em termos de
seu desenvolvimento e evolução, parte de uma pergunta de Freud em uma
confidência feita à amiga, a princesa Marie Bonaparte: O que quer uma mulher?
Anna O, Freulein Katharina, Rosalie H, Miss Lucy R, Elizabeth Von R, estarão entre
as primeiras mulheres a frequentar a rua Bergasse 19, em Viena, Cecíle M. foi por
ele tratada em domicílio. Ilda Bauer, que Freud chamou de Dora em um exaustivo
trabalho teórico, que mereceu dele retificações posteriores em torno da questão da
sexualidade, interrompeu seu tratamento abruptamente, deixando Freud perplexo e
às voltas com o inexprimível do desejo feminino. E uma outra Emmy Von N, a
paciente que exigindo o silêncio do analista para o que se inaugura como campo da
fala e da linguagem, distanciou Freud de seus mestres Josef Breuer e Jean Martin
Charcot e definitivamente da clínica médica.
Ainda que possamos encontrar na clínica de Freud vários momentos que
atestam esse encontro delicado com a mulher, suas elaborações teóricas sobre as
relações entre os sexos têm valor inestimável para o avanço teórico e clínico da
psicanálise. Quando rompe com uma relação natural entre os sexos, introduzindo a
questão do primado do falo e a definição das pulsões como parciais, por exemplo,
Freud acaba por criar alguns impasses com relação à sexualidade da mulher, ao
mesmo tempo em que promove avanços, no campo que com elas inaugura.
Também quando constatou a diferença no que diz respeito à castração no menino e
na menina e as possíveis consequências dessa particularidade, na posição frente ao
que é da ordem de uma posição sexuada para ambos.
Na menina, Freud constata que algo no âmbito da castração não se
completa, sem com isso deixar de manifestar a sua impotência quanto à
compreensão de outros destinos para a mulher além da possibilidade de um
superinvestimento narcísico, uma realização pela via amorosa e pela maternidade.
As respostas de Freud à especificidade do feminino não foram além dos
deslizamentos de sua equação simbólica, colocadas na reivindicação ao falo,
inclusive criança-falo, na substituição da mãe pelo pai e do pai pelo parceiro sexual,
como consentimento em ser um objeto causa de desejo de um homem, como via de
inscrição na norma fálica.
Lacan por sua vez, como vimos no capítulo 3 deste estudo, parte exatamente
dessa brecha deixada por Freud, dos limites da castração na menina, para extrair o
85

que vai ser a base de suas elaborações sobre a questão do feminino. A partir das
elaborações de Freud, em torno da castração na menina que não se completa,
encontra na mulher um ―gozo outro‖ que não passa pela castração. Um outro gozo,
o gozo feminino não redutível ao gozo fálico, o gozo além do falo, um gozo a mais
não subtraído à castração, que inclusive faculta às mulheres um quantum de
loucura.
Jacques Alan Miller (2003), no texto ―Uma Partilha Sexual‖, vai explorar o que
encontrou em Lacan referente a uma dificuldade estrutural inerente a essa lógica do
não-todo, no que diz respeito à partilha dos sexos. Uma dificuldade que vai ser
chamada por Lacan de devastação já identificada por Freud como catástrofe,
passível de ocorrência particularmente no âmbito da relação da mãe e filha.
Na medida em que uma mulher ama de sua posição de não-toda submetida à
castração, a dialética amorosa com seu filho, fica mediatizada por sua posição além
do falo. Assim, dessa posição de não-toda a mulher veicula, em uma das
expressões do feminino, no caso a maternidade, algo que Lacan vai chamar de um
gozo suplementar.
Inclui-se no âmbito dessa possibilidade de expressão do feminino com seu
gozo, uma ambiguidade que faz com que esse plus de gozo que a mulher porta
enquanto mãe possa ir do melhor ao pior. Isso porque o estrago, que pode ocorrer
na relação da mãe com sua filha pode se situar tanto do lado do ódio, como pelo
lado do amor. Freud já havia abordado essa questão em termos do ódio da mãe,
com ―a ambiguidade que comporta o genitivo, ou seja, desde a mãe e da mãe ao
filho, fonte de perseguição na menina.‖ (Stendlardz, 2005. p. 153), como o que
ocorreu com uma jovem paranoica na relação com sua mãe, que Freud relata em
1915. E nomeia de: ―Um Caso de Paranoia que Contraria a Teoria Psicanalítica da
Doença‖.
No âmbito das indagações de Freud, sobre o que é próprio do feminino, esse
caso que inclusive contraria a teoria psicanalítica merece nossa particular atenção.
Ele encontra, no contexto da castração da menina, a possibilidade de uma aderência
na relação da menina com sua mãe num momento anterior ao Édipo. No que se
refere à relação mãe e filha, ele descobre que a jovem em questão está sob o
domínio absoluto do Outro materno, no interior do qual aparece a imagem materna
originária, uma dama de cabelos brancos. É onde ele diz:
86

[…] constitui tarefa da filha emancipar-se dessa influência e resolver por si


mesma, num terreno amplo e racional, qual deverá ser sua parcela de fruição
ou negação do prazer sexual. Se em vez de emancipar-se, vier a ser vítima
de uma neurose, isso implica a presença de um complexo materno que, em
geral é super poderoso e por certo não dominado. (Freud 1915/1969.p.302).

O vínculo dessa jovem com sua mãe permanece tão forte que ela não
consegue voltar-se para o homem pelo qual se sente atraída. O que faz com que
Freud conclua que a ligação com alguém do mesmo sexo (com a mãe), se opõe às
suas tentativas de adotar uma pessoa de outro sexo como objeto de amor.
Vimos no capítulo 3 deste estudo, que Lacan na década de 60 encara esse
resto de gozo que concerne ao da pulsão que escapa à norma fálica na mulher,
como termos de insaciabilidade e da voracidade materna. Nesse sentido, o materno
aí se coloca como desejo sem lei. A partir da teorização do gozo, em um segundo
momento de seu ensino, ele fala de um resto de gozo não simbolizado, que pode
chegar à concretude de uma ―devastação‖, um estrago possível, particularmente na
relação entre a mãe e sua filha. Em contrapartida, algo também escapa na psicose e
retorna ao sujeito como puro vazio. Poderíamos dizer, portanto, que, a mulher
psicótica, além de ter que se haver com o enigma sobre o significante da inscrição
paterna que se instala pela foraclusão na ausência da inscrição do nome-do-pai, ela
terá que se haver também com o enigma sobre o feminino.
Na neurose, o que escapa ao feminino, cujo complexo de Édipo não resolve
essencialmente, traz algumas particularidades do gozo não referido à lógica fálica. A
condição da mulher mascarada ou a mulher que faz o homem na
heterossexualidade ou homossexualismo são emblemáticas dessa situação. Já na
psicose, o que escapa pela foraclusão do nome-do-pai também tem efeitos na
posição sexuada dos sujeitos.
Acreditamos que o que escapa da significação fálica na mulher e que pode
resultar em uma devastação na relação entre mãe e filha, por um lado, e o que não
é simbolizado a partir da foraclusão do nome-do-pai no campo das psicoses por
outro, pode ter uma incidência, um duplo efeito nos casos de algumas mães
psicóticas. Portanto, os efeitos da devastação e da foraclusão podem também se
sobrepor no contexto da maternidade de mulheres psicóticas. É o que vamos
conferir, mais a frente, na escuta dos casos clínicos.
87

5.1 A metodologia de pesquisa

5.1.1 O universo da pesquisa


Este estudo foi realizado, em duas unidades básicas de saúde –UBS – no
município de Belo Horizonte, a partir da escuta de cinco mulheres na clínica de
saúde mental. A primeira UBS é uma unidade, com atendimento prioritário para
usuários moradores em área de risco elevado, o Aglomerado da Serra.
A princípio, minha expectativa era o de conhecer o universo de homens e
mulheres psicóticos em atendimento nessas duas unidades de saúde que possuíam
filhos sob seus cuidados ou sob os cuidados da família, doados ou em processo de
adoção. Até então, a pesquisa tinha como objetivo indagar sobre as possibilidades e
condições do exercício das funções maternas e paternas. Objetivava também,
compreender a produção de laços estruturantes em contextos supostamente
desfavoráveis para crianças, filhas de homens e mulheres para os quais o exercício
dessas funções, essenciais na estruturação do sujeito, se encontra de fato
comprometidas, como é no caso das psicoses.
Entrementes, o que de alguma forma já havia emergido da escuta dos
colegas no doutorado, no contexto dos seminários de tese, retornou à época do
exame de qualificação. Questões sobre a amplitude do tema e a exiguidade do
tempo, foram colocadas. Também, foram discutas questões em torno da dificuldade
de acesso às crianças e a seus pais, aos abrigos ou famílias substitutas onde
algumas delas poderiam estar. Foi ―preciso‖ escolher e a pesquisa na clínica, em
torno da maternidade na psicose, se mostrou ser a direção mais acertada.
Nesse trabalho contei ainda com o suporte das equipes de saúde da família
dessas unidades, os médicos de apoio, principalmente os psiquiatras das equipes
de saúde mental e, de forma pontual, com os pediatras, as ginecologistas e com as
assistentes sociais. Contei também com a participação singular dos agentes
comunitários de saúde - profissionais que têm se mostrado de grande valor para o
trabalho de atenção à saúde mental de pessoas em sofrimento psíquico e suas
famílias. Necessário acrescentar o trabalho intersetorial, particularmente o realizado
junto aos educadores sociais de rua, da Secretaria de Assistência Social do
município, sem o qual, esse estudo não passaria de uma intenção não concretizada.
88

5.1.2 Os sujeitos da pesquisa


Escolhi como sujeitos da pesquisa cinco mulheres com idade entre 20 e 56
anos, que residem nas áreas de abrangência das duas unidades de saúde. Dentre
elas, apenas uma passou pela experiência oficial de casamento. Os filhos de três
delas foram frutos de experiências conjugais diferentes e de pouca duração. Uma
delas não contou com a presença do pai de sua filha, nem antes, ou seja, durante a
gestação, nem após a sua doação.
A escolha destes casos se deveu ao fato de apresentarem questões
pertinentes à função da maternidade na estrutura psicótica, sua possibilidade de
suplência ou estabilização, como também seu fracasso e devastação.
Cabe ressaltar que este trabalho conta com as dificuldades próprias de ―não
ter pronto e acabado‖ um método que vise sustentar uma experiência psicanalítica,
para dela extrair elementos para uma pesquisa. Assim, optamos pela pesquisa
clínica em psicanálise, cujo instrumento metodológico – a construção do caso – é o
pivô. Estabelecer um enlace entre a clínica e a pesquisa não é tarefa fácil, pois se
no campo da psicanálise uma se alimenta da outra, elas não se confundem, nem
tampouco se complementam. No entanto, a construção do caso clínico, põe em ato
um saber inédito para a pesquisa, nascido no campo da clínica. Extraí-lo com o
cuidado de manter o sigilo clínico, que a ética exige, e mais especialmente, com o
sujeito que se deu a escutar é, para nós, fundamental.

5.1.3 Os instrumentos metodológicos


Em uma Conferência realizada em 1997em Belo Horizonte, MG, Carlo Viganò
faz recordar à comunidade de analistas e não analistas presentes, que Lacan
sustenta a ideia de que o psicótico é um sujeito estruturado, mesmo que ele se
encontre fora do laço social. E que não levá-lo em consideração, não falar com ele,
não escutá-lo é uma forma de sustentar a sua exclusão, ainda que ele esteja fora
das instituições clássicas de exclusão que são os manicômios.
E é nessa perspectiva, a de considerar a presença e a fala de mulheres
psicóticas e mães, nos serviços substitutivos à instituição psiquiátrica, que
recuperamos desse psiquiatra e psicanalista italianos, o que ele propõe como
89

dispositivo metodológico na clínica psicanalítica, a ―construção do caso clínico‖


Viganò (1999); tomando desta construção – no mesmo gesto e movimento – aquilo
que se delineou como material de pesquisa.
Método que se pauta pela escuta do sujeito do inconsciente, que se atualiza
pela via da transferência, no que ele traz de particular, no lugar do universal do
saber teórico estabelecido. O autor sustenta que a construção do caso, faculta a
emergência do sujeito como único em sua singularidade, o que o torna o verdadeiro
operador da clínica ―desde que o coloquemos em condição de sê-lo‖ (Viganò, 1999.
p. 53), e artífice de sua resolução.
Como Pujó (1994) diria: ―adequar o caso ao já estabelecido pela teoria, é
provavelmente menos proveitoso que interrogar o já sabido do que poderia constituir
uma fronteira à sua universalidade.‖ (Pujó, 1993. p. 19). No campo da pesquisa em
psicanálise e em defesa do sujeito, outros autores se apresentam para essa
discussão em torno da relação entre o saber e a verdade, entre o necessário e o
contingente, entre o universal e o particular, enfim, entre a ciência dos cânones
formais e a psicanálise, no que lhes compete inovar nesse campo de produção de
saber. Assim, tomamos a construção do caso clínico no âmbito da pesquisa em
psicanálise.
Em seu texto ―Quem Tem Medo do Contingente? O problema do método e a
necessária interdependência entre psicanálise e ciência‖, Pinto (2013) sustenta que,
―para a psicanálise, o sujeito surge exatamente como demonstração do fracasso do
saber em apreendê-lo, como ponto de furo na estrutura da linguagem.‖ (Pinto, 2013.
p. 2). E é justamente nesse ponto de insuficiência do simbólico e de emergência do
real, onde a clínica tropeça, que a teoria psicanalítica é convocada, senão, para dar
conta desse ponto intransponível, ou ao menos para situá-lo.
Na verdade, trata-se neste estudo da sustentação de um método do fazer
clínico inaugurado por Freud, que envolve ao mesmo tempo clínica, pesquisa e
transmissão. Considera-se, pois, quem escuta e quem é escutado, em um trabalho
no qual o operador privilegiado é o caso, ou seja, o sujeito do inconsciente.
Nesse sentido o que se coloca na perspectiva do método em psicanálise, é a
preservação de manifestações do inconsciente, ―mesmo quando tal registro
ultrapassa a condição de abordá-lo ou quando dissipa sua opacidade‖ (Vorcaro,
2010. p. 11), característica do método freudiano que é intima à responsabilização do
90

analista quanto ao seu ato, e quanto à transmissão de uma prática clínica que
obriga a cada analista, caso a caso, a recriar o método, constituindo um estilo.
A pesquisa em psicanálise, diz Iribarry (2003), ―justamente por trabalhar com
a impossibilidade de previsão do inconsciente, não poderia jamais exigir uma
sistematização completa e exclusiva‖ (Iribarry, 2003. p. 117). Nesse sentido será
sempre uma apropriação pelo analista, do método ―metapsicológico‖ freudiano, a
partir do qual ele pode descobrir um modo de fazer clínico que o singularize.
Trata-se finalmente, da indexação no campo da ciência, da qual a psicanálise
é tributária, daquilo que é da ordem de um real, que não cessa de não se inscrever.
No texto ―A Pesquisa clínica em psicanálise‖ de Sauret (2003), encontramos uma
referência à pesquisa em psicanálise, como pertencente a uma nova etapa da
ciência moderna e admitida em sua consistência a partir do campo da lógica de Kurt
Godel (1931). Esse lógico matemático produziu um verdadeiro corte epistemológico
no campo das ciências, quando introduziu o conceito de incompletude do sistema,
sustentando que existem proposições verdadeiras que não são demonstráveis.
Assim, se justifica o empenho de Lacan na formalização do saber e do discurso
psicanalítico, ―com a produção de matemas suscetíveis de indexar o real em jogo na
experiência psicanalítica.‖ (Sauret, 2003. p. 89).
Em seu livro Transmitir a clínica psicanalítica - Freud, Lacan, hoje, Porge
(2009) fala do relato do caso em Freud que com estilo romanesco, ainda que com
contradições, institui o lugar em que se pode encontrar a verdade do paciente e o
saber que dela se transmite. Quanto a Lacan, ainda que não tenha publicado casos,
a não ser o Caso Aimée que citamos nesse estudo, também fez de seu estilo
aforístico e po(ético), um trunfo portador de um valor clínico e de um método em seu
ensino, que permitiram á clínica psicanalítica escapar de uma redução a uma forma
de psicoterapia de uma antropologia, e até mesmo de uma Weltanschauung, e
sustentar a razão ética de seu fazer. Razão pela qual sua especificidade não tem
sentido, a não ser que dela algo possa se transmitir.
Quanto a essas questões, também se pronuncia Porge (2005) para quem a
transmissão da clínica a partir de Freud e Lacan, faz parte da própria clínica
psicanalítica:
A fórmula que se nos impôs é a de que a especificidade da clínica analítica,
do estabelecimento de um fato clínico psicanalítico, de uma verdadeira nova
clínica, reside no método de sua transmissão. Trata-se de encontrar a justa
medida entre a clínica e o que dela se transmite. (Porge, 2005.p.12).
91

Preocupado com o fato de seus discípulos se ocuparem mais com a


interpretação entendida como pura produção de sentido, do que com a manifestação
do inconsciente de seus pacientes, Freud escreveu um texto sobre a técnica da
análise que nomeou ―Construções em análise‖ (Freud, 1937). Nesse texto ele
exemplifica o trabalho de construção, que precede ao ato clínico da interpretação,
como o trabalho do arqueólogo, que só interpreta a realidade do lugar que está
escavando e estudando, a partir de pequenos resíduos que encontra pelo caminho.
Freud nos lembra ainda, que o objeto buscado pelo arqueólogo, seja um
edifício, uma cidade ou uma obra, tal como o objeto psíquico, não se mostra em sua
totalidade. Na clínica, esse objeto emerge: na atividade fantasmática através da qual
o sujeito foi estratificando as próprias satisfações, fica inconsciente ou aparece nas
transformações alucinatórias da realidade e da imagem do corpo. Nesse sentido,
Viganò (1999), atento ao texto de Freud, sustenta que: ―No trabalho de construção
do caso, não se trata apenas de analisar as próprias reações emotivas do analista,
sua contratransferência, mas de deixar-se surpreender pelo real veiculado pela
palavra, pelo inter-dito que é a verdadeira resposta do sujeito.‖ (Viganò, 2003. p. 46)
Além dos aspectos que a abordagem clínica em psicanálise exige sempre
problematizar dentro ou fora de uma pesquisa, na clínica, o essencial na abordagem
do caso clínico, é a possibilidade de colocar em interlocução o saber adquirido e os
ensinamentos do caso, tornando-o capaz, a partir de seu ineditismo, de sua
singularidade de caso único, ―de interrogar, de reformular, distinguir ou ultrapassar o
que já foi explicitado pela generalização teórica da psicanálise.‖ (Vorcaro, 2010. p.
15)
Dito de outro modo, para que a singularidade do caso possa ser surpreendida
e acolhida, é necessária a interrogação da experiência e a colocação de questões.
―Para que assim a consideração do detalhe, sirva à elaboração do saber clínico‖.
(Allouch apud Vorcaro, 2010. p. 21). Deste modo, o método clínico da psicanálise,
além de ser permeável à pesquisa e à transmissão, pode tornar-se tributário da
consideração de cada caso como único, constituindo um método de inscrição
singular do sujeito no laço social.
As recomendações de Freud com relação à ―construção do caso‖ poderão
ser identificadas neste estudo, a partir da escuta realizada na clínica de cinco
92

mulheres, uma a uma, consideradas como ―autoridade clínica‖ (Viganò, 1999. p. 58),
em sua condução. Essas recomendações parecem ter produzido efeitos de
linguagem para algumas delas, ou seja, tanto um esvaziamento de gozo, motor do
sofrimento do sujeito, quanto a produção de significantes novos, que concorreram
para uma mudança na posição do sujeito frente ao Outro perseguidor, na posição de
objeto do Outro, de sujeito devastado ou abandonado.
Outro elemento importante que foi considerado na condução dos casos que
aqui são apresentados, diz respeito ao fato deles serem conduzidos no contexto de
uma ―clínica feita por muitos‖, que é a clínica sustentada pela rede de saúde pública
da qual faço parte. Carvalho (2010), no prefácio que escreveu para o livro
―Metodologia em Ato‖, nos lembra que o funcionamento automático das nossas
instituições são fortemente marcadas e agenciadas por um discurso de mestria, que
geralmente produz uma cifra: os diabéticos, os hipertensos, os loucos, os tabagistas,
os alcoólatras, as mães etc. Nas nossas instituições, geralmente os sujeitos, estes
pelos quais se interessa a psicanálise, correm o risco de se tornarem objetos mais-
gozar. Nesse contexto as mulheres, a quem se dirigiu a nossa escuta, são, a
principio, nomeadas no interesse da criança, apenas como mães, que devem se
adequar às prerrogativas dos protocolos das políticas de atenção à criança, exigidos
pelo Ministério da Saúde, no interesse da diminuição dos índices de mortalidade
materno infantil, o que é um avanço enorme, mas não como sujeitos do discurso.
Portanto, no interesse também das mulheres, consideramos nesse estudo
para a ―construção do caso‖ e seus efeitos de método, a existência de uma rede
simbólica construída em torno do sujeito, eleito como ―autoridade clínica‖. Rede que
absorve, os dispositivos de ―matriciamento‖ 8, as equipes de saúde da família, as
supervisões, as reuniões de micro área e os demais equipamentos de atenção em
saúde mental e intersetorial. Também elegemos como instrumento de trabalho, para
dois casos, o dispositivo da conversação em família.
Tais procedimentos, instalados em uma práxis clínica, feita por muitos, (desde
que ao menos um esteja advertido do inconsciente), considerados inclusive
estratégicos na estabilização da psicose, foram cruciais para retirá-las do lugar de

8
Matriciamento.: dispositivo eleito pela Rede de Saúde Mental do município de Belo Horizonte, inspirado no
conceito de “Apoio Matricial” de Gastão Wagner ( 2012), que pretende alcançar a diminuição da assimetria no
saber entre os técnicos no contexto da saúde pública. Esse conceito ampliado, leva em consideração a palavra e o
saber do paciente, bem como as saídas que ele inventa, no contexto das discussões sobre o caso, com as equipes
de Saúde da família nas unidades básicas de saúde.
93

objeto de intervenções, comandadas tanto pelo discurso do mestre, muitas vezes


moralizantes e nas quais estavam mergulhadas, quanto para a maioria delas, do
lugar de objeto de gozo do Outro avassalador na psicose.

5.2 O caso Joana

Trata-se de uma jovem mulher que chegou à unidade básica de saúde no


início de 2009. Antes ela passou por um equipamento de urgência após uma
tentativa de autoextermínio. Na ocasião apresentava-se lúcida, orientada e sem
sintomas produtivos evidentes. Tinha 21 anos de idade, solteira e mãe de uma
criança de 1 ano e meio. Fala que tentou pular de uma laje com sua filha porque
havia perdido a vontade de viver. Essas tentativas de ceifar a vida bem como a de
sua filha são motivadas pelo intenso desconforto que lhe causa a convivência com
ela. Algo na relação com essa filha toca um ponto de impossibilidade.
Durante esse episódio, que se configura mais como um acting-out do que
uma passagem ao ato, ligou de seu celular para a polícia a fim de entregar-lhe a
filha ―antes que fizesse o pior‖. Em resposta a esse apelo, foram levadas mãe e filha
pelos policiais para a casa dos irmãos. As tentativas de autoextermínio tiveram
início aos 10 anos de idade após a morte de sua mãe. Tem diversas passagens
pelo CPP, hoje CEPAI que é uma unidade de atendimento ambulatorial de urgência
e internação para crianças e adolescentes da Fhemig. Após a morte do pai quando
tinha 16 anos, teve que assumir o cuidado dos irmãos mais novos, dos quais depois
de sua gravidez passou a manter uma certa distância.
Nos atendimentos que se seguem fala de suas dificuldades no
relacionamento com a filha, pautado por uma forte intolerância, irritabilidade e
impulsividade. Por diversas vezes já pensou em ―doá-la de papel passado, porque
ela é impossível‖. Esse significante ele escuta, ter recuperado de sua mãe que
assim se dirigia a ela na sua infância. Nos primeiros meses de vida da criança, ela
foi denunciada ao Conselho Tutelar, por vizinhos que a viram batendo em sua filha
ainda bebê. Nessa época, morava com a filha em uma banca de revistas, herdada
dos pais na partilha dos bens entre os irmãos. Em um de seus momentos de intensa
irritabilidade e ―antes que cometesse uma loucura‖ entregou a filha, a essa instância
94

de defesa e direitos da criança. Na semana seguinte se arrepende e solicita a mim e


ao psiquiatra de referência um relatório, condição colocada pelo Juizado da Infância
e Adolescência para que ela retomasse a sua guarda. Aqui a ambiguidade na
relação mãe e filha, como vimos no capítulo 3 desse estudo, comparece. Zalcberg
(2003), em seu livro A Relação Mãe e Filha, recupera de Lacan o neologismo
hainamoration, isto é haine (ódio) enamoration (enamoramento), a propósito dessa
situação. Nessa sessão, aceita nossa orientação no sentido de mobilizar a família e
dividir com ela o cuidado da criança, bem como colocá-la em uma creche. Aceita
também trazer a filha para alguns atendimentos mãe-bebê.
Nesses atendimentos, a criança interage com o ambiente, sobe e desce do
colo da mãe, sorri para ela dizendo mamãe e Jô, apelido pelo qual a mãe é
chamada pelos parentes. Ao brincar com alguns objetos, joga-os no chão para
depois apanhá-los, numa espécie de jogo de Fort/Dá, nome de um jogo que
recolhemos das elaborações de Freud para as brincadeiras infantis. A mãe por sua
vez, lhe devolve os brinquedos, gesto sempre seguido de uma admoestação ―ela é
impossível‖ e outros comentários em torno de sua intolerância quanto a sua
insubordinação. Por sua vez, essa criança tem asma. Andrade (1991), em um artigo
em que estabelece uma interlocução entre a medicina e a psicanálise, fala desse
sintoma como uma resposta do sujeito, na ambiguidade de sua relação com o outro.
[...] ser asmática é uma forma de ser alguma coisa quando se vive a ameaça
de não ser ninguém. Pela relação da respiração, com o choro, com a fala,
com a vida, a crise asmática é a um só tempo é uma tradução da angústia
de morte e uma expressão de vida. ( Andrade,1991.p.23).

A escuta de Joana nos coloca em primeiro lugar frente a questões em torno


do diagnóstico que encontramos em seu relatório, extraído a princípio da última
Classificação Internacional de Doenças — Paciente acometida por uma amnésia
dissociativa, transtorno da personalidade com instabilidade emocional e
personalidade histriônica. Os elementos extraídos dessa listagem descritiva
poderiam reportar-nos tanto á psiquiatria clássica quanto à psicanálise e leva-nos
inicialmente a decidir por uma estrutura histérica. As demais observações colocadas
em seu relatório também não esclareciam muito por se tratar de referências a uma
depressão leve ou moderada, destacada de uma leitura estrutural que se fosse feita
levaria também a um diagnóstico de histeria. Podem essas observações também
serem localizadas nas referências de Jacques Lacan a um discurso que faz
95

predominar a estatística, a descrição exaustiva de uma medicina baseada em


evidências, cuja tendência é registrar tudo quanto o exame e o interrogatório podem
produzir, sem a mínima preocupação com o estilo que deve ser apreendido da
escuta do sujeito.

Entretanto nesse caso, os acting-out e as passagens ao ato, verdadeiros


retornos de pontos de gozo, e sua tradução na vertente da impossibilidade de viver,
o total desamparo dessa paciente frente a situações de falta em si e no outro,
apesar da medicação. Também, as crises que se sucederam à perda da mãe aos
dez anos, de quem guarda uma relação de hostilidade, e posteriormente a perda do
pai aos 16 anos, mais afetuoso. A ausência de suporte simbólico para lidar com a
maternidade e com as transformações do corpo, a sensação de deformação que
essa condição lhe impôs e, mais recentemente, o aparecimento de alucinações
visuais, fez-nos optar por uma hipótese diagnóstica de uma psicose.
Mas é importante enfatizar que, ainda que o diagnóstico possa ser
determinado nos termos mais clássicos, alguma coisa sempre permanece em
suspenso quanto ao sentido do sintoma. Assim, o que poderá nos orientar, quando a
dimensão real e incurável de um sintoma nesse caso, e nos demais que se seguirão,
sobre uma problemática subjetiva ou institucional, de um impasse concernente ao
laço social do sujeito, emerge na fala dessa paciente.
Na escuta de um caso clínico em psicanálise, o que se tem apontado como
indicação de método, diz respeito á necessidade de se colocar acento em um ponto:
o ponto inscrito em uma gravitação da lógica significante no campo do gozo. Isso
que do real se repete e não cessa de se inscrever. Nesse caso, um significante
―impossível‖ endereçado à filha e partindo da mãe uma irritabilidade desmedida e
uma vontade de morte (ideação suicida), frente a situações de falha do outro.
O que consideramos advir de um gozo mortífero que emerge e invade essa
mãe, quando a criança lhe oferece o seu cocô e se deixa sujar a ela e aos cômodos
da casa de excrementos, quando não responde aos apelos de obediência da mãe,
quando faz pirraça. Atitudes, inclusive, compatíveis com a necessidade de uma
criança nessa idade de marcar uma distância e uma diferença com o outro,
correlativo dos tempos lógicos do Édipo, de alienação e separação do outro no
espelho. Nesse significante ―impossível‖, acreditamos se encontrar o ponto pivô em
96

torno do qual gira a evocação do caso e que coloca em causa o significante do


desejo ali, onde se instala o diálogo do sujeito com seu inconsciente.
Há ainda algo a ser cotejado com Lacan (1998) que, no Seminário 5, fala
sobre ―As formações do Inconsciente‖ com relação à eminência do trágico, que toca
esse ponto de gozo que escutamos gravitar em torno do caso e que se associa à
questão das tentativas de auto extermínio e à reação terapêutica negativa. Um ponto
de resistência para os sujeitos que foram crianças não desejadas ou que vem dos
significantes de uma possível devastação, que envolve Joana com o seu Outro
materno, que a leva a um irresistível empuxo à autodestruição.
{...} é a medida mesmo que melhor se articula para eles o que deve fazê-los
se aproximar de suas histórias de sujeito que mais e mais eles se recusam a
entrar no jogo, querem literalmente sair. Não aceitam ser o que eles são,
não querem esta cadeia significante na qual eles só foram admitidos por sua
mãe a contragosto. ( Lacan, 1957-58/1999. p.254).

Um caso clínico conduzido por uma psicóloga e psicanalista do Serviço de


Saúde Mental de Ipatinga, em Minas Gerais. Soares (2008) vem ao encontro de
questões que nos ocupam chamando-nos atenção pela maneira encontrada pelo
sujeito psicótico para circular e fazer laço social quando se encontra diante de
situações que o ultrapassam. Trata-se de uma mulher que aportava frequentemente
nas imediações de um serviço que fazia carteiras de identidade. Momentos depois,
ela chega ao serviço de saúde levada por policiais a pedido de órgão de assistência
social. Em um percurso de 17 anos de tratamento e até então afastada da família, a
paciente volta á escola, participa de reuniões políticas de movimentos sociais,
trabalha como vendedora de roupas, consegue uma casa em terreno invadido com
outras famílias que mais tarde é legalizado pela prefeitura. Dessa forma e de posse
de uma nova identidade, mantém-se estável. Inscreve-se e nomeia-se como cidadã
e como mãe de uma filha a quem se dedica muitas vezes com excessivo zelo.
Esse trabalho nos remete ao trabalho de Jean Allouch (2000), em seus
estudos sobre o Caso Aímée de J. Lacan e, reforça nosso interesse por um tema na
condução de alguns casos em que se apresenta o indício de um excesso de zelo de
mães psicóticas para com seus filhos. Para o autor trata-se de ―Um gozo [do]
materno para o qual certas psicoses seriam uma via de acesso privilegiado. Uma
pedoforia materna‖. (Allouch, 2000. p. 364).
97

No caso conduzido pela psicanalista em Ipatinga, destacamos o fato de que


se tratava de uma paciente para quem a gravidez e o surgimento da filha lhe trouxe
um novo lugar afetivo/social, como sustentou a psicanalista em sua condução. Na
verdade, uma nova identidade, uma nomeação através da maternidade. Diferente ao
que parece do que acontece com a nossa paciente, buscando um companheiro mais
velho que dela se afastou, e se vendo inesperadamente só nessa condição. Na
relação com a filha, uma mínima atitude própria de crianças na primeira idade, faz
retornar para ela um gozo desmedido, uma irritabilidade de difícil contenção, uma
vontade de morte das duas e a busca de recursos institucionais, verdadeiros
referenciais simbólicos, para contenção de si e guarda da criança ameaçada.
Recursos aos quais recorre frente ao desamparo e que lhe foram oferecidos desde a
adolescência, como forma de barrar um gozo mortífero e avassalador que faz
enigma para ela.
Esta paciente que evoca o fato de ―morrer com a filha‖, matar-se com ela
como solução, para além da resistência do sujeito aos significantes que o mortificam
se aproxima do que Laurent (2006) chamou de ―infanticídio altruísta‖ (Laurent, 2006.
p. 139), que tem a seu ver a mesma forma do suicídio altruísta. Matar-se junto com
a filha para não sofrer, é para esse psicanalista a excelência do suicídio altruísta, do
assassinato. No caso trabalhado por Laurent (2006), no texto, ―O amor louco de uma
mãe‖, ele diz que o fato da paciente anunciar a passagem ao ato, permite a tomada
de uma série de providencias, de anteparos ao sujeito, que evitem o choque
passional mortífero entre ela e sua filha. E que é preciso considerar que, a partir do
nascimento de um filho franqueia-se um umbral, uma aceleração do chamado ao
nome-do-pai que é convocado para que algo ponha ordem na relação mãe-criança.
Onde, em vez de resposta, só há devastação, abre-se um abismo, por onde o
sujeito ameaça lançar-se, muitas vezes mãe e filho, em busca de uma pacificação,
de um apaziguamento.
Moreira (2011) em um trabalho onde propõe uma análise das posições
maternas junto a crianças vítimas de negligência e abuso sexual, em torno da mãe
ideal e da maternidade possível, leva em conta as condições psíquicas e sociais de
mulheres quando as mesmas ―falham‖ no exercício da maternidade. Ela propõe,
para o nosso entendimento da questão, uma discussão em torno da articulação
entre maternidade e desamparo. Freud com seu projeto para uma psicologia
científica, em 1895, introduz a questão da ―experiência de satisfação‖ como aquela
98

que vem determinar a primeira inscrição fundante do aparelho psíquico. O


desamparo (hilflosigkeit), essa carência inicial do bebê humano, não lhe deixa outra
saída que a da ―assistência alheia de uma pessoa experiente para a sua
sobrevivência.‖ E é com o grito diz Freud, que o pequeno humano faz apelo ao
Outro para o suprimento dessa carência.
O desamparo é uma condição humana e é a partir da relação com o outro
que a humanização se inscreve. A vida em seu estado puro e bruto, não é
necessariamente humana; e é preciso a acolhida do outro para
circunscrever-se essa vida no campo humano. Assim a narcisação realizada
pela função materna é decisiva para esse processo de humanização e,
portanto, de percepção do desamparo. (Moreira, 2001.p.47).

Uma publicação da psicanalista Tânia Ferreira, ―A escrita da clínica –


psicanálise com crianças‖ ilustra bem a função do grito e o que ele inaugura para o
bebê humano.
O grito que convoca o Outro, funciona como o ingresso do sujeito à
linguagem, uma vez que a mãe, enquanto um esteio, sustenta o corpo do
bebê e seu destino, já que traduz em significantes seu apelo. A mãe
enquanto Outro, vai mais além de sua função de maternar, de cuidar. Ela
entra com sua dimensão simbólica na relação com a criança, posto que dela
além do alimento, do cuidado, vem a palavra.(Ferreira, 2001.p.47).

Grito que Lacan na década de 70 diz ser proveniente de um depósito de


gozo, de ― lalangue,‖ (Lacan, 1985 [1972-73]. p.190), a língua de cada um, língua
materna transmitida e não apreendida. Saber inscrito no corpo e recebido do Outro:
―de onde precipitam os significantes que serão posteriormente organizados segundo
leis próprias.‖ (Guerra, 2011. p. 47).
A mãe, portanto, ou quem ocupa esse lugar, contém e coloca, através da
lalíngua, os limites para uma vida que emerge em estado bruto, fluxo sonoro, saber
inconsciente inscrito no corpo da criança, oferta de formas de simbolização e
organização. Uma mãe em condições de devotar-se a uma criança pode, assim,
com lalíngua, mitigar o desamparo em que ela se encontra lançada no
descompasso temporal entre o período de gestação e o seu nascimento e que
traduz uma experiência de lançamento na vida caótica, excesso pulsional sem
borda, gozo sem contenção. Uma dificuldade, ou melhor, uma indisposição, colada
nos significantes que vem do Outro materno, nos termos de uma impossibilidade, é
o que parece se colocar para Joana convocada para sustentar esse lugar.
99

Lucia Grossi (2007) em seu texto ―O Amor Louco‖, parte das afirmações de
Lacan (1972-73/1985) no Seminário 20, ―Mais ainda‖, onde ele sustenta que o amor
vem como suplência à inexistência da relação sexual. E isto vale para todas as
formas de amor, inclusive o materno. Com Lacan, ela faz uma leitura do livro de
André Breton (1937) L'amour Fou e estabelece referência a um tipo de amor
carregado de estranheza, o que nos faz perguntar sobre o tipo de amor que devota
essa mãe á sua filha.
Tudo vai bem até que a criança objeto de amor falha e repete a falha do amor
enganoso e da relação devastadora dessa mulher com sua mãe. Um amor que a
deserta de um desejo próprio. No amor louco de André Breton, a dimensão de
conflito pulsional, aparece na impossibilidade de resolução. Sem restos desse
conflito, ele ganha, no caso do poeta, uma dimensão narrativa onde as palavras
seguem fazendo amor. No caso de Joana, o que emerge é uma dimensão de um
gozo absoluto, a partir de uma impossibilidade de laço, entre o eu e seu objeto de
amor.
Pensar nas condições psíquicas dessa jovem nos leva para o que é da ordem
de uma hostilidade entre mãe e filha que perpassa a cadeia de significantes e se
perpetua entre gerações. Uma mãe hostil para um sujeito que, por sua vez, coloca a
maternidade no lugar de do impossível de suportar, a partir desse significante
colocado pela mãe e que se repete na relação dela com sua filha. Isso corrobora
com essa condição do sujeito, lançado nessa catástrofe anunciada por Freud e na
devastação sustentada por Lacan na relação entre a menina e sua mãe, o que pode
ocorrer associada à foraclusão do nome-do-pai, quando a transição para o objeto
paterno não é franqueada. Tal como diz a psicanalista Cristina Drummond (2001)
em sua leitura do texto de Lacan em L’ Etourdit:
Se o sujeito entra no registro simbólico da troca, ele pode metaforizar o
desejo da mãe. Quando isso não ocorre a mãe permanece numa posição de
Outro real, interpretado como Outro do gozo que convoca o sujeito para uma
fusão impossível ou para a perseguição.(Drummond,2002.p.1)

A devastação que, tanto na neurose quanto na psicose, implica em uma


dificuldade do sujeito de transitar no universo de trocas, de colocar o corpo na troca
amorosa, na partilha sexual, e também em sua disposição ao exercício materno, é,
o que podemos recolher de Lacan para a escuta desse caso, o que seria uma
posição de devastação na relação de Joana com sua mãe, e que está ligada a troca
100

fálica impossível, na medida em que algo da mãe escapa à lei simbólica que faria
dela um objeto na estrutura da troca.
No caso dessa mãe psicótica, às voltas com a função materna, com o
exercício da maternidade, a devastação na relação mãe e filha se sobrepõe à
ausência de resposta ao apelo ao nome-do-pai. Uma dupla condição que responde
ao desaparecimento do sujeito e do objeto. Que trabalho em equipe, que lugar de
analista na condução desse tratamento, poderiam produzir respostas que pudessem
retirar esse sujeito mãe e essa filha dos riscos de uma passagem ao ato, do real se
repete, de um encontro anunciado com a morte?
De início fizemos uma aposta que vem do que nos sugere Laurent (2006) no
texto ―Os tratamentos psicanalíticos das psicoses‖: ―Na clínica é imprescindível uma
conversação sobre o gozo, que visa nomear esse inominável que faz enigma para o
sujeito.‖ (Laurent, 2006).
Na condução desse caso, uma série de sessões com a participação de outros
membros da família foi realizada. Nesse percurso, nos sentimos autorizados por
Freud, como vimos no segundo capítulo desse estudo, a introduzir o que vamos
chamar de maternidade compartilhada (mãe, primas, irmã e madrinha da criança)
que trouxe para essa jovem, além de efeitos de apaziguamento, a possibilidade de
sustentação de um lugar não mais tão ―impossível‖, o dos cuidados maternos que
ela sozinha, dificilmente seria capaz de sustentar.
Introduzimos também a partir desse caso, um outro recurso que, a partir de
agora chamaremos de maternidade assistida, para nomear o trabalho em equipe
para os casos de mães psicóticas e seus filhos. Atendimentos individuais e conjunto
mãe-bebê foram sustentados ao longo de três anos de atendimento, até que a
criança completou cinco anos e fez sua própria demanda de análise. Essa criança
está frequentando uma UMEI — Unidade de Educação Infantil Municipal — de seu
bairro, onde responde de maneira precoce aos apelos educacionais e é assistida
pela pediatra da unidade de saúde. Mãe e filha são ainda acompanhadas pelo SOSF
— Serviço de Orientação Familiar da Secretaria Municipal de Assistência Social —
dispositivo próximo à sua residência. Nas conversações9 realizadas com a família,

9
Dispositivo elaborado por Jacques Alain Miller nos anos 1990, que tem na associação livre coletivizada, o
ponto de sustentação que permite que o objeto de estudo seja analisado a partir de uma proliferação de
significantes, produzidos pelo coletivo de profissionais, que determinam a condução do caso. A conversação,
gira em torno do caso clínico na perspectiva de construção do projeto terapêutico que afasta o discurso do mestre
ou universitário e privilegia a fala do paciente. Essa estratégia clínica começou a ser utilizada em 2011, no
101

uma solução foi construída, no sentido de uma dosagem calculada de convivência


mãe e filha e uma distribuição do cuidado da criança entre os seus membros.

5.3 Filhas abandonadas, mães negligentes?

Os dois casos que se seguem se assemelham em vários aspectos, ao mesmo


tempo em que trazem diferenças entre si e com relação ao primeiro. O que os
assemelha é o fato de se tratar de mulheres com histórico de institucionalização e
que tiveram seus filhos em situação de extrema pobreza. E com uma realidade
marcada por uma vulnerabilidade psíquica, econômica e social do grupo familiar,
que a levou à institucionalização e posterior doação da totalidade ou da maioria de
seus filhos considerados pelos órgãos de proteção em situação de negligência.

5.3.1 Caso Carmem


À primeira vou chamá-la de Carmem, uma mulher de 27 anos que foi
encontrada nas ruas pelos profissionais de abordagem10 e, encaminhada à unidade
de saúde em 2002. Grávida de dois meses, e portadora do vírus HIV, escuta vozes
que lhe dizem para morrer e a xingam de ―nêga‖. Diz também que não é incomum as
pessoas cuspirem nela nas ruas.
Sua primeira filha, fruto do que chamou ―uma paixão da adolescência‖, foi
doada para uma família de estrangeiros quando tinha 5 anos. Essa criança nasceu
pré-matura e exigiu cuidados médicos intensivos em seus primeiros meses de vida.
A tia que a criou e com quem vivia nessa época, lhe disse que ela havia se perdido,
mas ainda que tenha sido surpreendida por essa gravidez, diz ter ―se sentido feliz e
com uma sensação de ser mulher‖. Entretanto, pelo fato de andar com as criança
pelas ruas, alcoolizada e atrás do namorado e pai da criança, os órgãos de proteção
à infância levaram-na para adoção.

contexto da rede de saúde mental no município de B. Horizonte, também para o trabalho com as famílias de
pacientes graves (crianças, adolescentes e adultos), a partir do Curso de Capacitação: “Conversação em
Família”, conduzido pela psicanalista Tânia Ferreira.
10
Abordagem de rua: atividade realizada pelos educadores sociais de rua.
102

A primeira crise que ela chamou ―sua depressão pós-parto‖ ocorreu após o
nascimento de seu segundo filho, a quem ela diz ter transmitido o ―vírus da raiva‖. 11
Depois de um longo tratamento médico essa criança também foi dada em adoção.
Carmem nos fala de um ciúme intenso e uma agressividade sem limites dirigida ao
pai dessa criança e de quem ela se separa, após sua primeira internação. Quanto
ao que é usualmente chamado de depressão pós-parto nas mulheres, como diz
Zalcberg (2003), ―está frequentemente relacionada a problemas causados pelo fato
da criança ser considerada, desde a gravidez, um objeto de gozo na fantasia da
mãe‖ (Zalcbergz, 2003. p. 129). Uma tristeza infinita, um afastamento da criança,
causada pela perda de um quantum de gozo no corpo, que essa criança
representava em sua fantasia se instalou. O luto da perda de uma criança, como
objeto pequeno a, causa do desejo na fantasia dessa mãe, parece não ter se
realizado.
Entretanto, Carmem encontra no ano seguinte ―um novo Amor‖ e com ele tem
mais dois filhos. Com uma diferença de apenas nove meses entre as duas
gestações, chega a amamentá-los ao mesmo tempo no peito. Com o repentino
assassinato do pai dessas crianças, sente-se só e insegura, não encontrando outro
recurso senão consentir com a guarda das crianças pelos avós paternos. Data
dessa época, sua ida para as ruas. Nessa condição e novamente grávida de três
meses, é bordada por educadores sociais de rua e aceita ser atendida pela equipe
de saúde mental e morar em uma república feminina. Essa gravidez é acompanhada
por toda a equipe da unidade de saúde, especialmente pela ginecologista com apoio
do Centro de Referência de Doenças Infectocontagiosas, e a criança nasce livre do
vírus do HIV. Diante de seu quadro de saúde e agravantes que poderiam advir de
sua doença, aceitou da ginecologista a indicação de se submeter a uma
Salpingoclasia12.
Fica pouco tempo na república e dá a guarda provisória da criança para uma
amiga da família. Muda-se com um novo companheiro para uma casa em bairro
próximo à moradia da filha. Visita-a algumas vezes e me diz que está tranquila
porque a filha está bem cuidada. Chegou a ser convocada pelo Juizado da Infância
e da Adolescência em resposta a sua demanda de retomada da guarda de sua filha,

11
Raiva: doença infecciosa transmitida por um vírus (veneno em latim) aos humanos por cães. Rabere em latim:
fúria, delírio. No Sanscrito; tornar-se violento. Lyssa ou lytta em grego: loucura.
12
Salpingoclasia: método definitivo feminino de extração da salpingue uterina, que impede a fecundação.
103

entretanto, na eminência desses encontros com a lei, é tomada de uma


ambivalência quanto ao desejo, entra em crise de agitação, amnésia, perde
documentos, briga com o companheiro de ocasião, ao mesmo tempo em que se
queixa da amiga que não quer lhe devolver a criança. Em 2010, perde a guarda
definitiva da filha e no ano seguinte o companheiro é vítima de um atropelamento.
Em consulta recente, fala que conseguiu uma ―Bolsa Família‖, recurso do
governo oferecido para famílias em situação de risco e estendido às pessoas com
trajetória de rua. Ainda que esse recurso lhe traga um certo apaziguamento, ele não
é suficiente para sua subsistência e nem tampouco para que ela se sinta digna de se
aproximar de seus filhos. Fala das características físicas, das diferenças de gênio e
a idade atual de cada um deles, mas tanto a visita aos que estão sob a guarda dos
avós paternos, quanto à filha que foi adotada pela amiga, continuam sendo adiada.
Do pai essa mulher não guarda nenhuma lembrança. Sabe que ele se afastou
da família, quando da morte de sua mãe, quando ela tinha 4 anos. Lembra-se do
que essa mãe lhe dizia um pouco antes de sua morte: ―Você não é mais minha filha,
sua mãe agora é outra‖. Outra, que é sua tia e irmã da mãe, essa que, ―não me
registrou e nem permitiu que eu a chamasse de mãe.‖ E que por ocasião de sua
primeira gravidez lhe disse: ―você é uma perdida‖. O que nos faz escutar algo de um
ponto de gozo que gravita em torno desse caso, que como no caso de Joana, toca
em algo da devastação que pode ocorrer na relação entre a mãe e a filha que, nesse
caso, se desdobrou entre ela e a tia, nos termos de Freud e Lacan, e a foraclusão do
nome-do-pai que retorna no real para essa mulher, quando convocada, para ocupar
o lugar do materno.
Como disse Lacan (1932), ―o psicótico não é em absoluto um sujeito sem
razão‖. Razões de estrutura, podemos dizer, tem de sobra essa mulher para quem
as significações se apresentam repetitivamente estanques em relação a qualquer
dialética intersubjetiva. Isto porque lhe falta o significante primordial, através do qual
o sujeito poderia orientar-se e localizar-se num dos campos da sexuação. Nesse
mapa subjetivo, de significantes lançados sem amarração, essa mulher ainda
encontra alguma coisa que assinala para ela um lugar. O da paixão pelos homens
que sempre se vão e o de ―nêga‖, o significante da voz, bússola de sua posição na
estrutura de linguagem na psicose.
Jean Allouch vai localizar a questão dos estados puerperais clinicamente
manifestos que parecem serem desencadeantes em algumas psicoses, em sua
104

leitura do caso conduzido por Lacan em 1932, no livro, Marguerite ou A Aimée de


Lacan. O autor diz que Lacan encontra na gravidez de Aimée a necessidade de
uma certa rebelião contra a maternidade e que ―... não é enquanto tal que a
maternidade é tomada à parte pela psicose, mas como signo demasiadamente
manifesto do envolvimento de uma mulher na sua sexualidade.‖ (Allouch, 2005. p.
240).
Ainda que com ―o benefício‖ de uma bolsa família essa mulher acredite em
algum momento que seja finalmente digna de se apresentar aos filhos como mãe
biológica e até causar-lhes uma boa impressão, em outro nos diz: ―não tenho
agrados para levar para eles‖. O agrado dos significantes que a autorizaria a
sustentar esse lugar. Em consulta recente, considerei a possibilidade de introdução
de uma orientação do gozo dessa paciente, através de um dizer que poderia fazer
uma báscula entre os significantes que ela porta — o da derrisão da mãe e o vazio
de significação do nome-do-pai. Assiná-lo para ela, um outro jeito possível para
escutar o que sua mãe lhe falou pouco antes de sua morte, deixando-a aos cuidados
da tia. Atitude materna que poderia ser considerada um dom de amor e de cuidados,
em vez de derrisão. E que ainda que ela não tenha conhecido o pai, o seu nome
consta em seu registro de nascimento. Um dizer que pudesse fazer frente à
ausência de uma nomeação ―registro‖ no simbólico e antes o que ela escutou da
mãe e repete com a destituição do lugar materno, que a deixou á deriva de
significação.
Com o declínio do lugar do Outro primordial sem o significante do signo do
amor, ―o dom daquilo que não se tem‖ (Lacan, 1956-57/1995. p. 142), como pode
uma mulher transmitir, reconhecer-se enquanto tal e acolher um filho do lugar que
seria o materno?
Alguns elementos ela pôde agregar: O ser mulher a partir da sedução pela via
do amor, na figura do homem amado, ali onde faltou um endereçamento ao nome-
do-pai. Ou, como diz Eric Laurent a propósito de um caso conduzido por ele, onde
faltou o que ele chama de ―representantes impossíveis do pai, segundo Freud. Um
chamado de socorro a um pai, a algo que faça as vezes de função paterna, com diz
Lacan, não encontra destinatário, diante do que ela não pode senão repetir-se.‖
(Laurent, 2006. p. 137).
Algo que ela tenta encontrar em seus ensaios do feminino na psicose, de ser
mulher pela via do amor pelos companheiros cuja escolha se repete, sobre aqueles
105

que morrem de forma trágica. E tendo por isso de deixar os filhos aos cuidados de
outrem ou em uma instituição.
Ainda que ela busque recursos que lhe facultem o exercício do materno,
assim que encontra um novo amor, essa busca se interrompe. A verdadeira
consistência de seu ser, o que é da ordem de uma suplência na psicose, não é pela
via da maternidade que essa mulher encontra. Aí, ela está mais como as ―poedeiras‖
de Lacan. A consistência de seu ―falasser‖, ela encontra pela via amorosa, e desta
forma, uma certa estabilização e até mesmo uma distância da clínica, para onde ela
retorna somente quando essa estabilização vacila. Também por outras vias, pelas
bordas fora da transferência, enquanto o amor não vem, a drogadicção.
À devastação que escutamos ter ocorrido nesse caso, na relação entre mãe e
filha, onde o significante materno é transportado para outrem que não lhe imprime
substância, sobrepõe-se a foraclusão do nome-do-pai. Foraclusão que passa a agir
sobre o predicado que orienta o sujeito na estrutura. Falta, ―um registro‖, uma
palavra, um significante que faria o giro do eixo imaginário para o eixo simbólico,
fazendo vacilar o eixo especular, onde ela ficou cativa. Surge, então, na paciente um
sentimento de estranheza de si mesma, a partir da voz que ela escuta e a nomeia
Nêga. Voz que lhe dá o sentido de exclusão e lança-a para fora, de casa para as
ruas. Essa voz que a torna indigna e a uma distância calculada de seus filhos.
O psicanalista Nestor Torralbas (2005), em seu texto ―Tecido do Fora‖, nos
diz que:
[…] o sujeito psicótico recebe sua mensagem de forma direta de um outro,
voz que petrifica, imã de amargura. A realidade, constituída de sensações e
percepções, vocifera, critica, desilude. A estrutura lhe fala. Um significante
qualquer é realmente escutado no real e é a própria mensagem do sujeito que
se encontra sob os efeitos das palavras impostas pelo Outro. A captura pelo
duplo no imaginário é correlativa ao discurso permanente. Sua estrutura
própria é significante. (Torralbas,2005.p.107)

Esse psicanalista ainda se pergunta se aquele que recebe os significantes


que lhe retornam do real, pode chegar a alguma amarração entre o que relata e o
que ouve? Tomando como referência o caso Scherber, lembra-nos que esse
magistrado não recuou diante de sua psicose e fez réplicas às frases interrompidas,
fez ato psíquico. O que parece estar ainda distante para a nossa paciente que quer
curar-se dos ditames do Outro do seu gozo — Nêga, e não encontra, por isso,
condição para tornar-se digna de apresentar-se ao mundo. Da vivência da nostalgia
106

do nome-do-pai ―se eu tivesse sido registrada‖, podemos escutar que diz respeito à
vivência de uma falha íntima, acompanhada de uma ―virulização‖ de um
dilaceramento no próprio corpo da linguagem, preparado pela cena trágica de
devastação que se instalou na relação entre mãe e filha.
Colette Soler (1991) cita o caso de uma paciente de Lacan que evoca em sua
fala a existência de uma espécie de morte subjetiva: ―Eu não existo, flutuo ou durmo,
sou uma pura ausência, não tenho papéis, não tenho funções, o que sou?‖. Nesse
caso, diz a psicanalista, não se trata da indeterminação subjetiva do neurótico.
Quando a paciente diz á Lacan que é assim porque ―não me deram a luz‖, faltou-lhe
a luz de um significante. Ali, onde ―não ouve registro‖, para Carmem pode-se
reconhecer o que o psicótico Jean-Jacques Rousseau chamou de ―vazio
inexplicável‖ e que o Dr. Schreber chamou de ―assassinato de almas‖, para nomear
essa desordem provocada na articulação mais íntima do sentimento da vida,
instalada no sujeito psicótico, pela falha do significante.
O que não impede as tentativas fracassadas de nossa paciente de tentar
fazer laço com os significantes soltos que recolheu no campo do Outro, da cultura de
preconceitos de cor, da pouca provisão materna. Na tentativa de tornar-se mulher e
tomar seus filhos como seus verdadeiramente. Há momentos inclusive que ela
mesma se surpreende com sua história de repetição, principalmente na forma
trágica das perdas de amor e tenta, sem sucesso, uma mudança de posição.
Diferentemente do Dr. Schreber que pôde encontrar um ponto decisivo onde o
sujeito pode se responsabilizar pelo seu drama.
No caso do magistrado Schreber, uma borda, fora transferência, pode ser
construída por ele depois da circunscrição de seu delírio, borda pela escrita, que
consegue fazer cessar a interdição que pesava sobre seus ombros e contribuir no
restabelecimento de seus direitos civis, inclusive sem o repúdio de seu conteúdo,
tornado público, na forma de manuscritos.
No caso de nossa paciente, o lugar do analista aí é o de anteparo, que gira do
eixo imaginário ao eixo simbólico, no esquema L, de Lacan, intervindo com a palavra
nas vias mortíferas do eixo especular. Na clínica trouxemos a ela um suporte – o da
presença do analista quando ela o convoca. Outros anteparos são oferecidos a partir
da ―construção do caso clínico‖ (Viganò, 2001) em equipe. Construção esta que
exige o enlaçamento de uma rede de atenção intersetorial. O CRT— Centro de
Referência de Doenças Sexo Transmissíveis — com sua equipe de infectologistas, o
107

CMT- Centro Mineiro de Toxicomania, o psiquiatra da equipe de saúde mental da


UBS, a assistência social encarregada de buscar o resto que sobrou de sua fatria, a
equipe de saúde da família, com destaque para a educadora social de rua,
convocada a visitá-la semanalmente em sua moradia. O próprio dispositivo da
clínica, lugar do funcionamento significante do exercício da fala, na expectativa de
que algo aí possa ser escutado e tenha efeito de barra, dessa invasão de gozo
mortífero. E é o que temos conseguido na condução deste caso em que a
maternidade, até o momento só pôde ser exercida pelas lembranças e a uma
distância calculada.
Impossível não nos reportarmos para a escuta deste caso a um outro
momento do trabalho de Lacan, no Seminário 3, sobre As psicoses. Quando ele
trabalha os elementos de uma frase enigmática que veio de uma de suas pacientes:
―eu venho do salsicheiro‖, seguida de uma palavra quase inaudível – ―Porca‖ (Lacan,
1955-56. p.64), à propósito do significante alusivo de uma injúria e que não faz
cadeia - ―nêga‖, ouvido pela nossa paciente.
No retorno do real na psicose, um ponto de certeza inquestionável se impõe.
A presença deste ―objeto voz‖ que não constitui falsa percepção e pertence ao
verbo, tal como nos adverte Lacan. Presença da estrutura significante que não se
reduz nem aos órgãos de sentido, nem ao sensorium, ainda que tentativa de
estabilização, de conter o gozo insuportável. ―Na alucinação verbal a cadeia
significante se impõe por si ao sujeito em sua dimensão de voz.‖ (Lacan, 1957-58. p.
515). Sem intervalo entre a alucinação verbal, ou seja, a voz e o próprio sujeito,
resta este último possuído, habitado e lacerado pela linguagem.
Nesse caso, ainda que o esforço institucional seja visível, o trabalho
empreendido pela equipe no sentido da sustentação do que estamos chamando de
uma ―maternidade assistida e maternidade compartilhada‖ (quando a instituição e
(ou) o grupo familiar se apresentam para suprir o vazio de existência que se instala
para um sujeito), ainda não encontrou ressonâncias.

5.3.2 Caso Rosa Maria


Trata-se de uma mulher que desde a pequena infância, precisamente dos 5
aos 18 anos, viveu em instituições públicas ou filantrópicas de abrigamento. Aos 32
anos chega á unidade de saúde e fala de sua grande dificuldade de manter-se junto
108

aos filhos. Sua mãe separou-se do marido e foi morar com ela e um irmão já
falecido, primeiro nas ruas da cidade onde nasceu e, posteriormente, em Belo
Horizonte. Essa paciente relata que até essa idade tentou manter-se perto da mãe
que a espancava constantemente. Diz que essa mãe não se furtava a esses atos de
violência mesmo quando ia visitá-la na FEBEM. Mais tarde foi encontrada na rua, já
com três filhos pequenos, por uma educadora social de rua, que acompanhou o
abrigamento provisório de seus filhos e encaminhou-a para uma Bolsa Moradia.
Nos primeiros anos de atendimento na unidade, Rosa Maria apresentava uma
agressividade difícil de contenção. Agredia com palavras os técnicos da unidade de
saúde e a guarda municipal, ameaçava com faca pessoas nas ruas e nas
instituições de assistência social, com as quais mantêm até hoje um vínculo
reivindicativo. Queixava-se do afastamento por determinação judicial de seus três
filhos, uma menina de 10 anos, um menino de 8 anos e um bebê de um ano. Ter
mais um filho é solução que sustentou durante um tempo, como forma de suprir a
falta dos que lhes foram tomados.
Da filha mais velha Rosa Maria tinha muita dificuldade de se aproximar. Dizia
que a filha parecia não gostar dela, não aceitava as bonecas que lhe dava,
mantendo-se distante da mãe nos dias de visita no abrigo. Acredita que sua
dificuldade em se aproximar dessa filha pode ter a ver com o fato dela ter sido ―filha
de um estupro‖ e não de seu desejo. Já o filho de 8 anos sempre permitiu-lhe uma
certa aproximação. Nos dias em que antecedia a essas visitas, vinha muito
angustiada às sessões. Temia não saber o que dizer a esse filho e tinha receio de
que ele a rejeitasse como a mãe. Chegamos a fazer alguns atendimentos mãe-filho,
mas esses atendimentos eram interrompidos com as fugas da criança da casa da
mãe ou do abrigo. Pouca distinção havia entre a mãe e a criança nesse
relacionamento. Considerávamos que algo se apresentava nessa relação que levava
mãe e criança a se afastarem um do outro. Algo marcado por um transitivismo, uma
relação de espelhamento difícil para um e outro suportar.
Entrementes, uma relação entre mãe e filho com o suporte dos órgãos de
atenção, ainda que intermitente, tem sido construída. Muitas vezes, essa criança
fugiu, e ainda foge da casa da mãe, que imediatamente põe em seu encalço os
órgãos de proteção. Não sem dificuldades essa mulher esforça-se em oferecer a
esse agora adolescente os agrados que entende serem importantes na sustentação
109

de seu lugar materno. Brinquedos, computador, internet, saídas para fazerem


lanche, conversar. E é quando ela vê também a oportunidade de educá-lo.
Relevante é o fato de Rosa Maria, diferentemente de Carmem, ter conseguido
manter-se na casa conquistada através do Programa Bolsa Moradia da Secretaria
de Assistência Social. E também administrar, ainda que com dificuldades, o
Benefício da Previdência Social, ao qual também teve acesso. Todo esse empenho
o fez, e o faz, em nome do ―desejo de ser uma boa mãe‖, agora apenas do filho que
lhe restou próximo. A agressividade que apresentava na unidade, no Centro de
Convivência13 e setores da assistência social, quando suas demandas não eram
respondidas de imediato, já não se apresentam com a contundência dos primeiros
anos de tratamento.
Do bebê, Rosa Maria perdeu a guarda, sem o seu consentimento, no primeiro
ano de atendimento na unidade de saúde. A filha saiu do abrigo ao completar 18
anos sem deixar rastros. Durante os últimos 8 anos, sustentamos sua escuta na
clínica e uma interlocução com setores da assistência social que a acompanha no
cuidado com a casa, com a administração financeira, a qualificação profissional e
educacional. Esse trabalho corresponde ao que estamos chamando nesse estudo
de ―maternidade assistida‖. Rosa Maria tem valorizado no seu tratamento os
momentos que ela chama de preparação dos encontros, ainda que intermitentes,
com seu filho. Seja em sua casa, seja no abrigo, seja no Programa Miguilim, lugares
por onde esse adolescente nômade, (como sua avó e mãe foram outrora), hoje
transita.
Podemos finalmente pensar que para Rosa Maria e Carmem, além da
devastação, se colocam alguns elementos que Lacan trabalhou em sua Nota sobre
a criança. (Lacan, 1969). Quando ele introduz um comentário sobre o fracasso das
―utopias comunitárias‖ (Lacan, 1969. p. 373), destacando a função de resíduo
exercida e ao mesmo tempo mantida pela família conjugal na evolução das
sociedades e a irredutibilidade de uma transmissão. Na concepção elaborada por
Lacan, o sintoma da criança acha-se em condições de responder ao que existe de
sintomático na estrutura familiar, onde a transmissão é de outra ordem que não a
vida, segundo as satisfações das necessidades, mas sim de uma constituição
subjetiva, implicando a transmissão de um desejo que não seja anônimo.

13
Unidade de artes e ofícios que compõe a rede de saúde mental do município.
110

O sintoma da criança, para Lacan nessa nota, pode representar a verdade do


par parental. Mas quando o sintoma que domina na criança é consequência da
subjetividade da mãe, a articulação se reduz muito, de forma que ela responde na
sua como correlato da fantasia materna. A criança, nessa condição, torna-se objeto
da mãe, restando-lhe a função de revelar a verdade desse objeto. Diz ainda Lacan
que se a distância entre a identificação ao ―ideal do eu‖, e a parte que pertence ao
desejo da mãe não têm mediação, aquela que normalmente assegura o nome-do-
pai deixa a criança aberta a todas as capturas fantasísticas e aí estamos no campo
das psicoses.
É o que parece ter se colocado para Carmem e Rosa Maria, duas mulheres
que buscam, uma pela via do ―amor‖ e outra pela via da ―maternidade‖, uma forma
de realização, de sustentação subjetiva, a solução encontrada pela ausência de
significação de que elas padecem.

5.4 Diana, uma mãe melancólica


Iniciei o atendimento a uma mulher de 50 anos que chamarei de Diana em
julho de 2004. Desde os primeiros atendimentos ela optou por encontros mensais e
sua fala, ao longo de dois anos, se limitou às preocupações com uma obesidade
crônica, com um sedentarismo, com seu desânimo e medo de sair de casa. Sua
atividade principal é a de fazer tricot14 de roupinhas de bebês que nascem na sua
família, nas famílias de amigos muito próximos e de seus empregados. Possui casa
na cidade onde nasceu, herdada dos pais que faleceram quando ela era
adolescente. Mas passa boa parte do tempo em casa de uma irmã, que diz sempre
ter lhe dado apoio e a acompanha aos atendimentos. Como era de costume na
família, veio estudar e trabalhar na capital aos 17 anos, chegando a assumir o cargo
de auxiliar de enfermagem no setor de pediatria de alguns hospitais infantis.
Nos tempos em que passa em sua casa no interior, diz: ―vejo o mundo pela
janela‖. Ressalta que suas amizades, se restringem aos membros da família que,
além de ser unida, comunga a mesma fé religiosa, mantendo a tradição de reunir-se

14
Nota de pé de página: Dicionário de Francês-Português. Porto editora. Lisboa, 1979. Tricot: Ponto de meia;
vestuário; camisa de malha. Tricoter: trabalhar em malhas, tricotar; fazer meia; pop. andar muito depressa; fugir;
tricoter. Les côtes à, ant. fig. estar sem recursos, e pop: partir as costelas; dar uma sova a. Côte; encosta, declive;
pendor. Aller à la cote, faire cote; andar de lado; être á la cote; estar sem recursos.
111

de dois em dois meses para celebrar essa união. Digo-lhe nessa sessão que ―ao
menos uma janela... você tem!‖.
Possui histórico de internações psiquiátricas desde os dezoitos anos; a última
ocorreu em maio de 2004, após falecimento de uma irmã, a mais velha. Fazia nove
anos que não se fazia internar. Suas crises são esporádicas, porém, quando
ocorrem são muito fortes. Nessas ocasiões tem insônia, isola-se dos outros e tem
medo de sair de casa. É quando fica ―sem vontade de viver‖. O acompanhamento
clínico dessa paciente aponta o desenvolvimento de uma diabetes, uma hipertensão
e uma obesidade de difícil remissão.
Após um período de atendimento, ela fala da vontade de voltar para sua casa
no interior. Diante dessa decisão, recomendo-lhe a frequência em um espaço de
artesanato local. Retorna seis meses depois dizendo que frequentou durante um
tempo o espaço recomendado, mas que desanimou. Traz seus últimos trabalhos de
tricô, várias peças de roupinhas de bebês, dizendo ―com eles, teço os fios de
esperança‖. Traz também um jornal, confeccionado por uma sobrinha, que é
distribuído nas reuniões familiares tradicionais e um calendário que assinala as
datas de aniversário de todos os seus membros, feito anualmente e distribuído no
natal. ―Minha família é muito unida, gosto dessas reuniões, embora fique sempre
mais calada‖.
Ao fim do segundo ano de atendimento, fala da existência de ―um ―segredo‖,
que gostaria de me contar: ―Tive uma filha aos 25 anos, que foi dada em adoção
com o meu consentimento‖. Fala que nunca deixou de pensar nessa criança que
teve nos braços uma única vez. E que, embora tenha se dado conta de sua gravidez
somente aos sete meses de gestação, se sente culpada por essa decisão. Lembra-
se que a pele da criança era clarinha, os cabelos lisos e negros e olhos azuis. E do
nome que lhe foi dado ao nascer. Fala ainda, da vontade de saber de seu destino,
com quem e como vive e se está bem. Mas que tem muito medo de tocar nesse
assunto ―tabu‖ em sua família.
O período de gravidez passou-o, ora trancada em seu quarto, só se
comunicando com os familiares através de bilhetes passados por debaixo da porta,
ora no hospital psiquiátrico. Duas de suas irmãs se desdobraram, sem sucesso, na
procura do pai da criança, um jovem com o qual ela se envolveu e que nem ficou
sabendo de sua gravidez. Seguindo orientação dos médicos do hospital psiquiátrico,
optaram pela sua adoção. Em sua última internação, estava com ―um barrigão‖ e foi
112

espancada por outras pacientes. Sua concordância quanto à adoção, ela justifica: se
sentia insegura quanto as suas condições emocionais e financeiras para cuidar de
uma criança.
Mais um tempo se passa e a paciente retorna ao assunto do ―Tabu familiar‖.
Fala que sua irmã mais velha, antes de morrer, pediu-lhe perdão pelo mal que lhe
fez, ao lhe dizer em uma carta que deplorava a sua gravidez e que se pudesse
mataria a criança. E que preferia antes vê-la morta, do que com um filho na barriga.
Diz ainda que depois da doação da filha, foi morar com essa irmã que a tratava
muito mal, chegando a deixá-la passar fome. Sentiu um certo alívio quando a
perdoou em seu leito de morte, ―mas fiquei com mágoa‖.
Em maio de 2007, ela consente que a irmã a acompanha nos atendimentos
seja convidada a falar sobre esse ―Tabu ‖. A irmã confirma a sua história e diz que a
criança foi doada a um casal residente em outro estado, por intermediação de uma
amiga da família, infelizmente já falecida.
Com relação a seus relacionamentos amorosos, diz que em toda a sua vida
amou apenas dois homens. O primeiro por ser mais velho, não foi aceito pela
família. Chegaram a mandá-la morar longe para que ela o esquecesse. O segundo,
o pai de sua filha.
Em uma de suas últimas sessões, no ano de 2010, fala novamente da filha e
traz o nome dos dois médicos que a acompanharam durante sua gravidez no
hospital psiquiátrico, os mesmos que orientaram a família com relação à pertinência
da adoção da criança. Segue-se a essa sessão uma forte crise e ela é encaminhada
para um CERSAM15. No dia seguinte pede para ser internada em hospital
psiquiátrico particular, onde permanece por 30 dias.
Desta vez, no lugar do delírio de autorrecriminação, comum em suas crises
anteriores, ―sou má, não mereço viver‖ vem-lhe o pensamento insistente e absurdo,
―matar a irmã de quem mais gosto‖. Disse-me que foi para conter o risco de
passagem ao ato que pediu novamente para ser internada. Em princípio veio-me a
suposição de que o desencadeamento dessa última crise poderia ter se dado a partir
da intensificação das conversas sobre a filha doada, a conversa com a irmã, enfim,
do desvelamento do ―tabu familiar‖. Mas sua irmã revela que ela, desta vez, adoeceu
justo depois que um irmão, que também tem hábitos muito estranhos, escreveu uma

15
Centro de Referência em Saúde Mental – unidade de atendimento à pacientes em crise.
113

carta que foi distribuída em uma das reuniões tradicionais da família, relatando a
história de sua gravidez e ainda trazendo a público a notícia de dois abortos que ela
não realizou. Em um encontro recente com esse irmão, ela descobre através da
cunhada, que os abortos a ela imputados foram, na verdade, realizados por sua
mãe.
Mesmo após o longo período de internação o pensamento absurdo de matar
a irmã persiste e causa-lhe intenso sofrimento. Quer entender a motivação do
deslocamento de seu desejo de morte, por entender que é ela quem não merece
viver, por ter sido irresponsável na sua juventude, passado dias e noites na rua com
amigos, engravidando e dado sua filha para adoção.
Trago-lhe, então, elementos da época em que viveu sua juventude que talvez
fosse importante considerar: a sua idade, sua inexperiência, elementos do contexto
sócio cultural da época, a busca dos jovens por novos caminhos, novas formas de
viver distintas dos padrões familiares estabelecidos. Época de fortes restrições à
liberdade de todos e não só dos jovens, de viverem e de se expressarem no país. E
que, portanto, talvez não fosse o caso dela se culpar, tomando unicamente para si
toda a responsabilidade de seus atos, a ponto de querer mais do que matar sua
irmã, morrer ela mesma.
Ela se lembra, então, dos Beatles e particularmente de uma música de John
Lennon: ―Você pode dizer que sou um sonhador, mas não sou o único‖. Desta vez
mostra-se sensível ao convite para frequentar um Centro de Convivência. Os
pensamentos de morte da irmã cederam completamente. Curiosamente, diminui a
tessitura de roupinhas de bebês e se envolve com um trabalho de artesanato: uma
placa de mosaico com o número de sua casa no interior. Exames clínicos recentes
acusam uma remissão significativa dos índices da diabetes e de hipertensão.
Alguns elementos se destacam nesse caso: a vontade de morrer, o silêncio
em torno da sexualidade dessa mulher, que foi mantido durante um longo tempo em
sua vida por conta de um ―Tabu Familiar‖. Silêncio que só é quebrado na relação
analítica, na transferência com a analista. Mas é quando esse silêncio é quebrado
no contexto familiar que as crises irrompem avassaladoras através da emergência
de um pensamento que se desloca da vontade de morrer, para o pensamento de
matar, ―a irmã boa, que sempre esteve a seu lado‖. Com efeito, não houve uma
sessão sequer na qual essa irmã não estivesse lá. Uma única vez veio sozinha ao
seu atendimento, menos por escolha do que por contingência.
114

Podemos cogitar para a escuta desse caso que esse pensamento insistente
de morte dessa irmã querida seria o protótipo de uma tentativa de separação na
psicose? Se antes ela deveria morrer, por que agora a irmã de quem mais gosta? A
que lógica no discurso desse sujeito responde a essa transmutação, a esse
deslocamento? Uma outra questão que remete a esse estudo sobre a maternidade
na psicose, diz respeito ao lugar dessa criança (objeto) que ela perdeu. Qual o
estatuto do objeto criança nesse caso? A que vem o trabalho de tricotar roupinhas
de bebês. Como suplência? Como uma forma de inscrever essa perda na psicose?
É o que tentaremos trabalhar na interlocução que empreenderemos com alguns
textos de Freud, Lacan e outros psicanalistas.
Uma outra questão que nos interessa cotejar: O que tornou a maternidade
impossível nesse caso? Não nos esqueçamos que ela passou boa parte de sua
gravidez desconhecendo-a e em crise, e que teve um suporte da clínica psiquiátrica
e de sua família na decisão da adoção.
É possível que o trabalho de tecer roupinhas de bebês tenha sido o recurso
do qual lançou mão essa mulher diante da perda de objeto. Ou como diz Lúcia
Castelo Branco (2000) a propósito do trabalho de escritura poética de Clarice
Lispector.
Na tentativa de inventar um começo justamente pelo ponto, não o ponto final,
mas o ponto de fuga – um ponto imaginário no infinito, para o qual convergem
todas as linhas mestras — ou ponto de furo feito com agulha em qualquer
tecido. (Branco,2000.p.20).

O ponto por ponto do tricô que dava corpo, ao que de carne na vida se
perdeu.
Esse recurso a manteve estável durante um longo tempo, mas que diante da
precipitação de um acontecimento: a quebra de um silêncio que faz, ali mesmo,
onde ela costurava a falta de um significante e a vida — um furo no real e de onde
irrompe um gozo maciço, e tem como resposta na psicose uma produção delirante.
Fenda que se abre exatamente no lugar em que ela também tecia, as amarras
imaginárias de uma família unida pelo silêncio imposto e acordado, sobre sua vida
amorosa, a maternidade impedida, enfim, sobre a sua sexualidade.
Podemos encontrar nesse caso um traço melancólico? Trata-se de um caso
de paranoia ou de melancolia? Nesse caso encontramos tanto o discurso paranoico,
―o Outro deve morrer‖, quanto o que se segue de um discurso melancólico ―o sujeito
115

deve morrer‖. No capítulo sobre ―A Coisa Melancólica‖ do livro Psicose e Laço


Social, do psicanalista Antonio Quinet, (2006), vamos encontrar a melancolia, tanto
quanto a paranoia e a esquizofrenia, situada no âmbito da foraclusão do nome-do-
pai, que é a máxima lacaniana que funda esses tipos de afecções psíquicas,
devendo ser por isso abordada, ―como um fenômeno da ordem da linguagem e dos
fenômenos do gozo.‖ (Quinet, 2006. p. 196).
Tanto o neurótico quanto o psicótico falam. Entretanto, o neurótico está no
discurso devido a uma operação de dupla perda e o psicótico não. A entrada do
sujeito no discurso pela operação do nome-do-pai produz significações fálicas, o
sujeito entra na linguagem, marcado por um menos, ou seja, marcado por uma
perda de gozo.
No entanto, não há limite para o gozo; pois ele não se deixa reduzir ao sexo,
nem se aprisionar pelo significante fálico. O gozo enquanto tal, diz Quinet (2006),
não se deixa apreender totalmente, está sempre extravasando, transbordando,
escapando. Se na neurose temos o que poderíamos chamar de erupções de gozo,
que pede tratamento pelo discurso que faz laço social na psicose, teríamos uma
avalanche de gozo fora do discurso, sem amparo ou ponto de basta, que caracteriza
a operação do nome-do-pai.
Vimos, no capítulo 4 deste estudo, que a foraclusão é considerada por Lacan
um mecanismo essencial e referência para a clínica, uma condição preliminar a todo
tratamento possível da psicose que indica a não inclusão de um sujeito na norma
edípica. Termo extraído por ele a partir de sua releitura dos textos de Freud que,
derivado do francês forclusion, e do alemão verwerfung, diz o que está excluído do
lado de dentro e retorna (como delírios e alucinações) ao lado de fora.
Assim como na clinica da neurose, importa não só o recalque, mas sobretudo
o retorno do recalcado no invólucro do sintoma e outras formações do inconsciente,
na psicose, o que interessa ao clínico é o retorno do foracluído. Aquilo que na
realidade do sujeito psicótico emerge povoado por suas criações inconscientes
projetadas nos parentes, vizinhos, amigos e colegas de trabalho. Que coincide com
a ―interferência do inconsciente a céu aberto desse sujeito, que se dá na polis ao
desarranjar os costumes e desacomodar os hábitos da ordem social.‖ (Quinet, 2006.
p. 47).
No inconsciente a céu aberto do psicótico, o que retorna do foracluído é um
outro semelhante, sustentado pelo ‖imaginário‖, transformado em um grande Outro
116

gozador. Outro sem lei e persecutório na paranoia, provocador de retração e


descarrilamento, significante na esquizofrenia, ou um Outro que torna o melancólico
indigno e culpado de sua ruína e a ruína do social, como parece ser esse Outro que
se apresenta para Diana.
Os estudos deste psicanalista sobre o tema da melancolia, partem das
elaborações de Freud a partir do texto ―Luto e melancolia‖, (Freud, 1915-17) que
compreende as relações da melancolia com o luto e onde ele descreve as
características dessa afecção psíquica. Descreve-a como uma depressão
profundamente dolorosa, onde há uma suspensão do interesse pelo mundo externo
– que no caso de Diana, ela só pode partilhar através de uma janela. Brecha aberta
para a presença da analista e pela qual pôde sustentar o seu tratamento.
Freud também identifica a melancolia a uma perda da capacidade de amar, a
inibição de toda atividade e a diminuição da autoestima, manifestando-se em
autoacusações e autoinjúrias, podendo chegar à espera delirante de punição. Não
há em nossa paciente, como vimos, uma total diminuição de suas atividades. Ao
menos, nessa distância que se interpõe entre ela e o mundo exterior, há um trabalho
de tecer ―os fios de uma esperança‖, de reencontro com o objeto perdido, objeto de
um luto sem fim, tecido nas malhas coloridas de roupinhas de bebês. E o que
parece ser a tentativa de um trabalho de suplência em torno desse objeto perdido,
um autotratamento na psicose. Sua capacidade de amar, podemos dizer que ela
existe, ainda que em sua especificidade no campo da psicose.
Miller (2006) discorre sobre a possibilidade de falência do amor no livro que
organizou sobre O amor na psicose. Comenta que Lacan chegou a dizer que o amor
só é possível na psicose, na condição de ser um amor morto. Fala de um caráter
mortífero ou mortificado, que está ligado ao fato de que o sujeito psicótico só ama a
si mesmo ou a um ideal que se substitui à realidade do parceiro e que: ―o psicótico
ama o Outro, tão Outro que não pode encarnar-se em um ser vivente, senão através
de uma ficção delirante‖. (Miller, 2006. p. 10)
Entretanto, esse autor nos lembra ainda que Lacan, nos estudos que
empreendeu sobre o caso Schereber, considera a possibilidade de preservação de
uma forma de amor na psicose. Que se apresenta na forma como Schereber pôde
conservar o amor na sua relação conjugal, ainda que em uma dimensão de amizade
elevada à philia, no sentido aristotélico do termo. Amor possível que envolve uma
ligação entre semelhantes onde a questão do desejo não se coloca. É o que
117

podemos aventar para a estreita relação fraternal que envolve Diana e sua família, e
esse amor que ela sustenta junto à sua irmã, que esteve durante suas crises
absurdamente jurada de morte.
Ainda sobre a questão do amor na psicose, podemos recorrer a um outro
caso clínico ao qual já recorremos a propósito do caso Carmem neste trabalho, que
mereceu um estudo exaustivo de Lacan em torno de uma paranoia de autopunição.
O caso Aimée que apresenta uma erotomania – Elle etait sûre d être Aimeé, (Miller,
2006. p. 11), ou seja, na condição de estar certa de ser amada. E tanto que, cativa
desse amor e tal como Diana se movimenta rumo ao assassinato que poderia lhe
retirar desse domínio.
No caso Aimée, diz Miller (2006), Lacan retoma os passos de Freud, para
quem o amor não parte do Outro senão do narcisismo do sujeito, e que está na raiz
da patologia mental, tema sobre o qual nos detivemos no segundo capítulo desse
trabalho e que está ligado ao ideal do eu. O narcisismo e o amor todo sujeito os
experimenta, sofre-os em seu próprio corpo, em sua imagem em seu eu. Nada
mostra melhor esta força do narcisismo, diz Lacan, que a clínica da psicose, tanto
que Freud a designou pelo termo neurose narcísica. Na psicose, o amor resta
inseparavelmente ligado à figura do ideal do eu do sujeito e, com tal força que vem
se substituir ao outro real, ele o reduz a uma figura ideal. É o que parece ter se
colocado para a nossa paciente, a morte não de si, mas de um outro em seu lugar,
forma de apaziguamento de sua dor de existir, sua irmã que a ama, seu ideal de eu.
Muito antes dos estudos de Freud sobre o luto e a melancolia, vamos
encontrar uma primeira indicação sobre o tema no Rascunho G (1969 [1892-1899]),
de seus manuscritos endereçados a Fliess, onde ele indica à existência uma relação
entre a melancolia e o que ele nomeia de ―anestesia sexual‖, que diz respeito a
abolição do desejo na melancolia, e também com a neurastenia onde ocorre uma
perda da vitalidade, cansaço, fraqueza. Nesses manuscritos, ele fala ainda de uma
relação entre a melancolia e a angústia e finalmente a existência de sua forma
cíclica, da possibilidade de sua transformação em uma mania.
Mas será em ―Luto e melancolia‖, que encontraremos interlocução com Freud
(1917), para os fins da análise do caso que ora nos ocupa, para cotejar o que se
encontra em jogo, questões relativas ao laço da paciente com o mundo, a gravidez,
a maternidade, a perda e a lembrança ―inapagável‖ de seu objeto de amor, a filha
que doou.
118

Nesse trabalho Freud se interessa inicialmente por esse ―lamento amargo‖ da


perda não se sabe do que, que o sujeito traz em seu discurso melancólico. Trata-se
para ele de uma perda pulsional, na verdade uma perda de libido que resta
indefinida. O melancólico, diz Freud, sabe que perdeu alguma coisa, mas não sabe
bem o quê. Na fala de nossa paciente podemos escutar que ela localiza esse algo
que perdeu na filha de quem não se esquece e tenta recuperar/perder através da
tessitura infinita de roupinhas de criança e na vontade escondida de saber com
quem ela está e se ela está bem. A tentativa de trabalho de luto dessa paciente
aparece claramente em uma de suas sessões na qual ela se lembra do nome que
lhe deu, tenta reencontrar-lhe os traços, a cor dos olhos, da pele, sua idade atual.
No Rascunho G, Freud definia a melancolia como um luto provocado pela
perda da libido, perda de gozo, diríamos com Lacan. Sendo sua explicação dada a
partir do esquema sexual, isto é, por meio das ligações dos neurônios entre si.
Quinet (1999) vai nos dizer que, se considerarmos estruturalmente a articulação
neuronal do aparelho psíquico proposta por Freud à articulação significante tal como
Lacan as coloca nos seminários 2, ―O Eu na teoria de Freud e na técnica da
psicanálise‖ (1954-55 ), e no Seminário 7 , ―A ética da psicanálise‖ (1959-1960),
podemos fazer equivaler a transmissão através de neurônios à cadeia de
significantes, á cadeia de pensamentos inconscientes.
No caso da melancolia em Freud, há uma dissolução das associações e essa
dissolução é sempre dolorosa e ―corresponde a um empobrecimento da excitação
que percorre os neurônios e as reservas livres de libido‖. (Quinet, 2006. p. 197). Tal
empobrecimento se parece com uma ―hemorragia interna e se manifesta no âmago
de outras pulsões e de outras funções.‖ (Quinet, 2006. p. 197). A dissolução das
associações corresponde para Freud a um ―furo no psiquismo‖, por onde se esvai a
libido, equivalente a um furo no simbólico nos termos lacanianos, próprio da
foraclusão do nome-do-pai. Daí o sujeito se tornar, como no delírio de ruína,
completamente empobrecido e arruinado. Ali, onde deveria estar o nome-do-pai, só
se encontra um ―furo‖, um buraco, um ralo aberto no dizer de Quinet, por onde toda
a libido escoa, e que explica a anestesia sexual em Freud, que ocorre por conta do
abandono da excitação pelos neurônios.
Porém, o melancólico nem sempre se encontra nesse estado de anestesia
sexual, ―já que ele pode ter a fase maníaca e também estar nos ―intervalos lúcidos‖.
O que nos leva a pensar que nesse ―furo‖ que existe para o melancólico tem algo
119

que funciona como ―tampa‖, (Quinet, 2006. p. 197) que se abre no momento do
desencadeamento e volta a funcionar nos intervalos de lucidez.
Para a nossa paciente, correspondendo a um vazio de significação, uma
fenda que se abre onde não responde o nome-do-pai em momentos de ganhos e de
perdas em sua vida. Frente a sua gravidez, a perda da filha, a perda da irmã mais
velha e dona de seus desafetos, diante da quebra do ―tabu‖ realizada pelo irmão que
traz a público a sua vida amorosa, a sua sexualidade. Então, parece que para a
nossa paciente a coisa funciona assim: tem um primeiro amor na adolescência do
qual ela é afastada. Até aí parece que nada acontece. Ainda que tenha perdido os
pais, nessa época ela nada diz de seu sofrimento, ou de seu luto. Um novo amor
que a engravida, a primeira crise, a doação da criança e a série de crises e
internações que se sucedem. A morte da irmã mais velha, seguida de uma nova
crise, marcada novamente pelo isolamento do mundo e novas internações.
Diferente do que ocorre na depressão neurótica, onde há perda, castração,
luto e substituição de objeto, ou foraclusão e deslocamento da culpa para um Outro
na paranoia, na melancolia ocorre que o sujeito também submetido à foraclusão do
nome-do-pai, se apropria dessa culpa inteiramente. O postulado da culpa que se
traduz em autocensura e auto-difamação é o elemento que decanta e depois
incandesce. Para Quinet (1999), trata-se de:

uma inibição vital, uma anorexia, insônia, abulia, indiferença e convicção


potente e dolorosa da perda. De uma perda essencial e irremediável, sempre
suscetível de ser atualizada pelas múltiplas perdas que a vida impõe a cada
um.‖ (Quinet, 1999. p. 191).

E que nesse caso talvez possamos traduzir na perda da filha, da irmã mais
velha e finalmente na caída do véu que cobria sua sórdida conduta sexual na
juventude. Mas o que mais importa na melancolia, continua Quinet (1999) em sua
leitura do texto de Lacan, é sua vertente de delírio. No caso de nossa paciente que
irrompe com o tema da ―morte de si mesma‖, em um primeiro momento e depois a
partir da carta de denúncia de sua conduta infame, feita a todos da família pelo
irmão, e que rasga o véu de sua moralidade, tecido à duras penas o tecido no
cotidiano de sua vida, o pensamento absurdo de ―matar a irmã, de quem mais
gosta‖.
120

Na perspectiva de entender essa mudança do tema delirante de nossa


paciente, sustentaremos com Quinet (2006) a pergunta sobre a possibilidade da
autoacusação (eu devo morrer) da melancolia, se transformar em hetero-acusação
(o Outro deve morrer). Ele nos diz ainda que Freud, em seus textos iniciais e
seguindo a tendência da psiquiatria, enfatiza esse aspecto do humor na melancolia.
Diz também que a paranoização pode ser uma saída na melancolia e é o que nos
parece ter ocorrido com Diana no decurso de seu tratamento. Ainda no contexto
delirante, aparece um novo culpado e não é mais ela mesma. Lacan, na introdução
à tradução alemã dos seus Escritos, diz que o paranoico identifica o gozo no lugar
do Outro, ao contrário do melancólico que localiza o gozo em si mesmo. ―O gozo se
concentra no complexo melancólico, que gira em torno do Selbst. No caso de uma
paranoização haverá um deslocamento desse gozo para um Outro reconstituído
delirantemente.‖(Quinet, 2006. p. 220).
Para essa mulher, sua psicose emergiu e aflorou ao que parece muito cedo,
quando as questões da sexualidade na adolescência começaram a se anunciar e
que a gravidez na juventude só veio a confirmar. E imputa-lhe maior fragilidade no
momento da decisão do destino da criança, mas que já havia se manifestado
quando da concordância de afastamento, sem revolta do seu primeiro amor. O
silêncio sobre sua sexualidade imposto pela moral familiar ao preço imaginário de
seu pertencimento, mostra bem a ausência de suporte simbólico, no caso o nome-
do-pai que, se existisse, talvez a ajudasse a confrontar e até mesmo sustentar tanto
a sua condição de amada/amante, quanto a gravidez e o exercício da maternidade.
Vimos que Freud, para fazer uma distinção entre o luto e a melancolia em um
primeiro momento e a partir da psiquiatria clássica, salienta dois aspectos principais
na melancolia: o da anestesia sexual e o da dor. Para ele tanto no enlutado quanto
no melancólico o que está em jogo é a dor de uma perda. Perda de um objeto ideal
ou objeto significante de uma perda. Quando essa relação de objeto é abalada algo
se desencadeia e no enlutado dá-se andamento ao trabalho de luto, que retira o
investimento libidinal desse objeto e cria outro Ideal do eu. O desencadeamento da
melancolia por seu turno é próximo ao desencadeamento do luto, que tem também
como pano de fundo a perda uma pessoa amada, ou uma abstração colocada em
seu lugar – a pátria, a liberdade, etc.
Trata-se em Freud da perda de um objeto, colocado no lugar do eu ideal para
um sujeito que poderia ser sustentado por alguém, ou um significante idealizado, ou
121

ainda, como interpreta Quinet (1999) por um S1, significante mestre idealizado, que
ocuparia o lugar de suplência à foraclusão do nome-do-pai. ―É quando esse
significante é perdido, ou é perdida a sua sustentação que a melancolia
desencadeia.‖ (Quinet, 1999. p. 132).
Freud diz ainda que, no melancólico há uma identificação com o objeto
perdido e é quando ―a sombra do objeto cai sobre o eu.‖ (Freud, 1969 [1917]. p.
281). Isso significa que na neurose o enlutado apresenta uma situação de perda
evidente e entra em um trabalho de luto que Freud descreve como um trabalho que
compreende várias etapas até o seu final, quando o sujeito consegue fazer uma
substituição do ―objeto‖ perdido. Já o melancólico que perde um ente querido, entra
só aparentemente no trabalho de luto, e pouco a pouco o quadro melancólico vai se
instalando e evidenciando que não se trata de algo da ordem de uma perda que
poderá ser simbolizada, uma vez que essa perda toca um ponto no sujeito que
revela um ―furo‖ correspondente aos termos lacanianos à foraclusão do nome-do-
pai.
Com referência, a mudança de mira de nossa paciente – de uma vontade de
morte para si mesma, para um pensamento de morte da irmã de quem mais gosta –,
importa ainda considerar os desdobramentos e transformações possíveis na
melancolia, ―é possível a autoacusação transforma-se em hetero-acusação, assim
como é possível encontrarmos traços de perseguição próprias da paranoia, no
melancólico‖ (Quinet, 199. p. 151). As elaborações desse psicanalista nos
aproximam do que escutamos de nossa paciente, um pedido insistente de ajuda, no
sentido de retirar dela esse pensamento horrível e absurdo de, ―matar a irmã‖ que a
tomava de angústia e medo de realizar.
Na tentativa de estabelecer uma distinção entre a melancolia e a paranoia a
psicanalista Colette Soler, recupera em Freud um elemento de oposição entre o
melancólico e o paranoico: na melancolia o fenômeno é da ordem do afeto,
enquanto que na paranoia ele se encontra no âmbito do pensamento. A psicanalista,
então, se pergunta se a paranoização pode ser considerada na direção de
tratamento de uma melancolia, tal como ocorre para a esquizofrenia. É a questão
que parece se colocar na condução desse caso.
A primeira forma que essa paciente encontrou para se livrar dos sentimentos
aflitivos que a atormentavam, foi o de afastar-se desse outro e se lançar no
trabalho de confecção artesanal do número de sua casa no interior, de seu
122

endereço, em uma placa de mosaico, em uma oficina de artes. Uma viagem de 15


dias em visita a outros parentes, construída na análise, também teve efeito
apaziguador.
Finalmente, esse caso permite-nos perguntar para os fins desse estudo que
enlaça a pesquisa e clínica em psicanálise se: caso a psiquiatria da época e a
família dessa paciente não se apressassem em realizar em si e para a paciente os
cânones da moral científica, cultural e religiosa, com o afastamento sumário de uma
criança de sua mãe, se essa maternidade, desde que compartilhada e assistida e,
fundada em outras bases conceituais, clínicas e políticas, poderia ser exercida.
Trata-se de uma aposta na confecção junto com os pacientes e seus familiares, de
uma ―outra tessitura‖ na clínica, que no caso Joana e Rosa Maria, aqui estudados,
pôde se efetivar.

5.5 Uma mãe religiosa

No início de 2010, uma assistente social de um Centro de Saúde, solicita


acompanhamento de uma mulher de 38 anos a quem chamaremos nesse estudo de
Maria, pelo fato dela haver se mudado com seus quatro filhos menores de cinco
anos da área de abrangência daquela unidade de atendimento. Essa mulher havia
sido denunciada por vizinhos ao Conselho Tutelar, órgão ligado ao Juizado da
Infância e Juventude do município, por negligência e maus tratos a essas crianças.
Consta no relatório enviado pela assistente social, que vizinhos e familiares
relatam que Maria vem submetendo os filhos à prática de jejum, além de impedi-los
de frequentar a escola. Em nome de sua missão de fé, anda pelas ruas de seu
bairro expondo os filhos e entrando em atritos com os transeuntes que se recusam à
conversão religiosa. Durante a gravidez de seu último filho consta ainda no relatório,
que Maria foi levada a um hospital psiquiátrico e posteriormente ao CERSAM, que
por sua vez a encaminhou ao Centro de Saúde. Não aceita nenhum tipo de
medicação, mas compareceu às consultas de pré-natal e planejamento familiar, até
um dia antes do nascimento de seu último filho.
Trata-se de uma mulher que até a idade de 12 anos viveu em companhia da
mãe, uma irmã de onze e um irmão de sete anos, em um outro aglomerado na
123

região central da cidade. Em visita domiciliar, essa irmã, nos relata em sua infância
a mãe recebia homens em casa e passou por várias internações psiquiátricas.
Nessas ocasiões, ela e a irmã iam com o irmão para as ruas até que encontraram
um bando de ―meninos de rua‖. Conheceram vários abrigos e uma casa de
passagem para meninas da Secretaria Municipal de Assistência Social. Nesse
percurso pelas ruas e instituições de proteção à infância e adolescência, faziam uso
de drogas e cometiam furtos em lojas e a transeuntes. Por fim, um membro de um
movimento social católico, denominado Pastoral de Rua que as acompanhava, deu-
lhe a casa onde mora e a irmã foi acolhida por uma igreja evangélica. Onde o
Estado se ausenta a religião comparece.
Em uma visita domiciliar, encontrei Maria em sua residência. Ajoelhada aos
pés da cama com os filhos, escutava no rádio o início de um culto evangélico.
Apresento-me como profissional do Centro de Saúde e ela se apressa em dizer que
não necessita de remédios que a deixem trêmula e desatenta para com as crianças.
Diz ainda que: a fé é sua redenção e que seus filhos não precisam de vacinas, pois
Deus é quem cuida deles, e os cura dos males mundanos. E nem tão pouco de
escola, pois ela mesma os educa na palavra de Deus. Fala ainda que é casada e
que recebe o marido uma vez por semana. A distância que se interpõe entre os dois,
atribui ao fato da resistência do marido em escutar a palavra de Deus. Para ela, uma
mulher só é digna e abençoada por Deus se for casada, se tem marido e filhos
desse casamento. Dos quatro filhos que teve antes desse enlace ela não tem
notícia, e os considera frutos de uma vida ―de pecado‖, ou seja, muito próxima da
prostituição. Daí podermos escutar a coerência de sua indignação, quando mais
tarde, seus filhos pequenos são levados pelos órgãos de proteção: ―Filho de
prostituta, vocês não tomam né?‖.
Em uma segunda visita nega, sem ser questionada, o fato de incluir os filhos
em sua prática de jejum. Nessa visita, levei um saco de brinquedos para as crianças.
O mais velho deles, um menino de cinco anos, se interessou por letrinhas e
bichinhos e a de três anos por minhas bijuteria. A mãe, por sua vez se interessa
especialmente por um camelo, animal que diz aos filhos ter sido citado na bíblia
sagrada. Ao cabo dessa visita, Maria identifica em mim ―as insígnias do feminino‖. A
transferência que se instala vem de sua declaração sobre a decisão de converter-
me, sustentada por um salmo que ela extrai da Bíblia Sagrada sobre o juízo final: ―é
dito que a mulher que enfeita o corpo e se veste de homem tem o destino certo do
124

inferno‖. (Pedro, 3:1.5) e Gêneses, (35:1.5), que orienta no sentido de um


―despojamento da idolatria dos enfeites exteriores que evidencia e promove a
reconsagração a Deus. Ovelha desgarrada, torna-se a analista, objeto de sua
atenção.
Mais duas visitas são realizadas, ocasiões em que Maria aceita ser
acompanhada ao supermercado, nas compras de alimentos para as crianças.
Entretanto, a continuidade dessas visitas é prejudicada por mais uma mudança de
moradia. Essa mulher, nômade, transita rapidamente de uma moradia para outra,
entrando e saindo do que chamamos em saúde pública, áreas de abrangências das
unidades de saúde no contexto do território. A necessidade dessas mudanças
ocorre sempre que algo desencadeia uma produção delirante, algo que se interpõe
entre ela e a sua crença religiosa. Um ―gato‖ na rede elétrica feito pelo locatário é
motivo suficiente para seu desconforto e mudança intempestiva. Mudanças que
dificultam o deslocamento das equipes de saúde da unidades básicas, - UBS, no
que tange a sua responsabilização.
Na verdade, trata-se de um caso que literalmente ―fura‖ a organização da
rede de assistência, no território de sua abrangência. Desse modo, ela mantém uma
certa distância do Outro suspeito e perseguidor, e firme em seu compromisso com o
―Deus‖ de sua proteção. Ainda assim foi possível, por um certo tempo, a
manutenção de uma proximidade cautelosa e sucesso na formulação de acordos
com relação ao cuidado (alimentação correta e vacinação) das crianças.
Entrementes, os esforços, ora de uma equipe de saúde, ora de outra, foram
interrompidos por uma intervenção unilateral do Conselho de Defesa e dos Direitos
da Infância e Adolescência, através do Conselho Tutelar que separou mãe e filhos
levando-os para um abrigo e a mãe à exacerbação de sua peregrinação. Proibida
de visitação aos filhos, Maria passa a questionar de forma incisiva a ação dos
agentes do governo em suas pregações religiosas, agora ampliada pelas ruas da
cidade.
Morano (2003), um estudioso das religiões e leitor de Freud, em seu livro
―Crer Depois de Freud‖ retoma vários escritos de Freud sobre o tema da religião.
Considera que Freud inicialmente lança mão de dois modelos hermenêuticos
básicos para sua interpretação do fato religioso, a neurose e o sonho. O tema da
religião aparece pela primeira vez em seus ―Estudos sobre Histeria‖ de 1895, onde
ele opõe perversão da vontade e desejo inconsciente quando um querer
125

inconsciente proveniente do recalcado, impõe-se ao querer e a vontade consciente


do sujeito.
Para Freud (1905), o recalcamento empreendido com o auxilio da experiência
religiosa na neurose, permanece necessitando dessa experiência para manter o jugo
sobre o desejo recalcado que, entrementes, não perde sua tendência à livre
expressão. Assim, ―a religiosidade aparece em Freud como um importante oponente
do mundo dos desejos e pulsões e consequentemente como um fator que muitas
vezes desempenha um papel decisivo na causalidade das neuroses.‖ (Morano,
2003. p. 35).
Segundo Morano (2003), será na neurose obsessiva que Freud encontrará a
chave interpretativa para uma análise do fato religioso e campo fértil para a
investigação do inconsciente. Diferentemente da neurose histérica, a neurose
obsessiva aos olhos de Freud se apresentará como um tipo de linguagem muito
semelhante à linguagem dos fenômenos culturais. Observada a semelhança entre a
neurose obsessiva e as formações culturais, a prática religiosa passa a ocupar para
ele um lugar paradigmático. ―Nessa perspectiva a neurose obsessiva revela-se em
surpreendente analogia com as práticas religiosas.‖ (Morano, 2003. p. 36).
Freud (1909), no texto ―Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva‖, chega
a considerar a religião ―uma neurose obsessiva universal‖. Em vez de fator de
oposição às pulsões encontrado na neurose histérica, na neurose obsessiva e na
religiosidade, Freud encontrará uma expressão camuflada da própria pulsão
recalcada aliada a um sentimento de culpa. Assim, desejo e proibição selam um
pacto formulado à revelia do sujeito alienado no sentido de sua conduta. Na neurose
obsessiva, a conduta religiosa se apresenta efetivamente em seu caráter de
formação de compromisso, ou seja, como pacto estabelecido entre a pulsão de um
lado e a proibição de satisfação pulsional de outro. Religião e neurose obsessiva se
configuram, portanto, como saídas, como recurso do sujeito em sua tentativa de
domínio das pulsões, de tratamento do recalcado, de construção defensiva frente à
falta de resposta ao real de sua incompletude.
No Ensaio sobre ―Atos Obsessivos e Práticas Religiosas‖, Freud (1907) faz
novamente uma analogia entre os cerimoniais religiosos e obsessivos. Nomeia a
neurose obsessiva como uma religião individual e a religião como vimos uma
neurose universal. No texto Sobre o Narcisismo (1914) ele chega a visualizar entre
esses dois discursos bem mais que uma analogia e encontra aí o estabelecimento
126

de uma identidade de origem entre a neurose e a religião, as duas calcadas na


categoria antropológica e universal do Édipo. Em Totem e Tabu, (1913), obra
considerada chave no que concerne ao tema da religião, ele postula o conflito
edipiano como fonte comum do conflito neurótico e da cultura. Aí ele encontra a
figura do pai, elevado à categoria de Deus. Será justamente no hiato deixado pela
morte do pai mítico de Totem e Tabu, que Freud encontrará lugar para a religião.
Morano (2003) sustenta que delírios e alucinações encontram amplo espaço
no seio das religiões, apesar dos limites que a própria instituição religiosa tenta
impor à essas manifestações. Ele lembra que Freud alude, nesse sentido, aos
inúmeros casos de santas e freiras e mulheres como Kattharina Emmerick, freira,
beatificada pelo papa João Paulo II em 2004, que exemplificam o desejo
descontrolado que rompe as barreiras do mundo exterior para se impor ao sujeito
um gozo sem nenhum tipo de contenção. A religião lhes brinda com essa
oportunidade. (Morano, 2003. p. 62). Importante é lembrar no que diz respeito à
psicose, Freud reporta-se também à criação delirante circunscrita ao sistema
religioso, que produziu o magistrado Schereber, como uma tentativa de tratamento
da angustia que o acometia.
Freud chega a comparar no texto, ―O futuro de uma Ilusão‖ de (1927), os
dogmas religiosos como ―algo inverossímil e afastado das duras condições da
realidade, a ideias delirantes, ainda que não exista critério de distinção entre ilusão e
delírio.‖ (Morano, 2003. p. 62). No texto, ―Grande é Diana dos efésios‖ (1915), Freud
considera que a suspeita de delírio deverá exercer-se tanto quanto maior for a
participação detectável dos antigos desejos infantis e quanto maior for a distância
observável entre o conteúdo da expectativa e as condições da realidade. Freud
sustenta ainda que a religião é uma tentativa pretensiosa de dar um sentido para a
existência do sujeito ao preço de uma ―deformação delirante da realidade‖ (Morano,
2003. p. 63), O que não é privilegio dos psicóticos.
Um texto da psicanalista Stella Jimenez (1998) vai nos servir de interlocução
para o que se segue sobre o pensamento de Lacan sobre a religião. No artigo que
nomeia ―Algumas provas da ex-Sistência de Deus‖, ela declara que os analistas de
hoje, diferentemente dos antigos, já não questionam a ex-sistência de Deus, mas se
perguntam sobre o que é aquilo que ―é‖, e que, quando fala, diz ―eu sou o que sou‖?
Ao que Freud responde, é o pai. E para Lacan ―Deus e os deuses são do campo do
real‖. (Jimenez, 1998. p. 21)
127

Isto quer dizer que na experiência humana tanto o pai quanto Deus, ou os
deuses, surgem no âmago do inefável, ou seja, do não falável, e são maneiras
diferentes de presentificação do objeto pequeno ―a‖ e que, como tal, se apresentam
nos registros do simbólico, do real e do imaginário.
Portanto, em Lacan vamos encontrar a religião como uma tentativa de
amarração entre esses três registros de organização psíquica dos sujeitos no campo
da linguagem, no campo do laço social. O que pode ir bem ao caso das neuroses e
suficiente no campo das psicoses, como foi para Schereber com o seu sistema
delirante religioso. No caso de Maria, em sua postura religiosa extremada parece se
realizar, ainda que de forma precária, uma amarração, mas com a prevalência do
registro do real.
Nessa aderência completa a esse ―Deus Pai‖ protetor por um lado, mas louco
e despótico por outro, essa mulher se encontra ao mesmo tempo em que se perde.
Encontra-se na medida em que se reconhece no mundo como sua serva e
semeeira. Mas se perde na exacerbação — deslizamento metonímico — desse
discurso em sua tentativa de apaziguamento, de contenção do feminino. De barra ao
gozo do que excede na mulher e com ele algum nível de laço social.
Para esse caso, a modernidade da internet vem nos brindar com um vídeo,
que pode ser encontrado no Orkut, gravado em 25 de abril de 2012, onde ela se
envolve em uma discussão feroz com o motorista de um ônibus e um passageiro
que põe em questão a sua fé. É quando ela faz uso do discurso fundamentalista
religioso, rechaçando o que lhe é insuportável com a fórmula, ―Saí capeta!‖,
demonizando assim o mundo, como estratégia de afastar o mal, do Outro do gozo
maléfico, do Outro invasor e perseguidor.
A questão da existência de Deus, ou dos deuses, é certamente aquela que
sintetiza todas as outras questões que concernem ao ser falante, ―Quem sou, para
que estou aqui, o que é a morte, o sentido da existência, o que é um homem, o que
é uma mulher, o que é um pai etc. (JIMENEZ, 1998. p. 30). São as perguntas que o
simbólico abre, mas não consegue fechar, e que restam como mistério consentido
na neurose e como verdade inquestionável em algumas psicoses e por onde se
exprime a impotência dos seres falantes de dar conta, de responder por estas
perguntas no que elas comportam de real.
Retomando a escuta do caso dessa paciente praticante e membro da igreja
―Deus é Amor‖, poderíamos pensar numa tentativa de estabilização na psicose, que
128

se sustenta na religião, enquanto tentativa de cura, de apaziguamento, de


tratamento do real de um gozo sem limites e que atormenta. Onde a religião
comparece e se coloca como uma tentativa de amarração ao nome-do-pai, ainda
que de forma precária — desde que neste caso, o simbolismo religioso prevalece
exacerbando-se ao simbólico — dando margem a uma inconsistência na
estabilização e prevalência de um real de gozo metonímico infindo.
As perguntas que Maria se faz, e que o simbólico não dá conta de responder,
giram em torno da questão do sentido da existência, sobre a maternidade, sobre o
feminino — o que é uma mulher — perguntas que ela responde sustentando-se no
tema místico/religioso onde o nome-do-pai foracluído dá lugar ao nome-de-deus,
como arranjo estabilizador, no âmago de uma falta de resposta sobre o sentido da
existência.
Se para os neuróticos, Deus pode ser o nome-do-pai e do mistério,
convocado a todo o momento, em que se apresenta para ele o inefável de sua
existência. A religião para os psicóticos ―pode ser o ponto de basta que detenha a
metonímia infinita que se produz pela foraclusão do nome-do-pai. (Jimenez, 1998. p.
30).
Desde os primeiros seminários, Lacan percebeu uma estreita relação de Deus
com a lei que rege o ser falante, entretanto seu modo de pensar essa relação, seu
status, seu registro mudaram ao longo de seu percurso. No seminário sobre a
psicose (1955-56), ele diferencia um Deus que engana na psicose, de um Deus que
não engana que é o Deus do neurótico, extraído do Cogito Cartesiano.
Nesse momento de seu percurso teórico, Lacan teoriza Deus como um dos
nomes do Outro, pensado como tesouro dos significantes, como o lugar onde se
sabe a verdade, onde se inscreve o destino do vivente humano. Onde a lei dos
significantes funciona, a partir da lei da castração e da função fálica, Deus é
vivenciado como confiável e onde ela não funciona, ele acaba por ser vivenciado
como enganador, insensato e caprichoso. O ―Deus fora da lei‖ dos psicóticos.
Lacan assinala que a forma de falar com Deus denuncia a relação que o
sujeito tem com a lei dos significantes. Na neurose o Deus seria aquele da lei, que
garante que o significante funcione. Já na psicose, como a lei dos significantes está
foracluída, o Deus suprido pelo delírio é um Deus sem lei, tirânico e louco. Que se
pensado para o caso que estamos trabalhando, retira da mulher devota as insígnias
de seu ser (o feminino), o paternant, (o companheiro que não se submete aos seus
129

desígnios) e por fim o lugar de mãe, na qualidade de nutriz e cuidadora dos filhos,
com a anuência dos órgãos de Proteção da Infância e Adolescência.
Foi pensando em Deus, diz a psicanalista Stella Jimenez, que Lacan, ao final
do seminário sobre a psicose, chegou ao conceito de nome-do-pai, que neste
momento de suas elaborações teóricas, é sinônimo da lei do significante. No
Seminário 4, ―A relação de objeto‖, Lacan faz, também, uma equivalência direta
entre Deus e a lei dos significantes e institui o nome-do-pai como o elemento
mediador essencial do mundo simbólico e de sua estruturação. Assim temos que: o
nome- do- pai é essencial a toda articulação da linguagem humana, e é a razão pela
ele referece ao Eclesiastes quando o insensato diz em seu coração que Deus não
existe. Porque ele diz em seu coração é por não poder dizê-lo em sua boca, diz
(Lacan no seminário sobre A relação de Objeto. E sustenta que falando
propriamente, ―é insensato dizer em seu coração que não há Deus, simplesmente
porque é insensato dizer uma coisa contraditória à articulação mesma da
linguagem.‖ ( Lacan, 2005, p. 374.). O menino Hans, analizando de Freud, porque
não é um insensato, atribui ao psicanalista a faculdade de tudo ver e tudo poder
inclusive de apazigua-lo, em seu favor de filho às voltas com a castração e com a
insipiência de seu pai real para lançar-lhe a lâmina de seu corte.
Francois Regnault (1985), em seu livro Dios Es Inconsciente, recupera nos
escritos de Lacan que em psicanálise o sujeito não funciona sem o Outro da
linguagem: ―A condição do sujeito S (neurose ou psicose) depende do que sucede
no Outro. Na psicanálise, Deus como lugar do Outro é também um nome-do-pai, que
inclusive é atestado pela religião. ( Regnault,1985. p. 40 )
No Seminário 7, sobre a ética da psicanálise (1959-1960), Jimenez encontra
um Lacan tratando de um Deus que mostra mais ainda a sua essência de
significante porque está morto. E é justamente por ele estar morto, (o pai de Totem e
Tabu de Freud) que a lei existe. No Seminário 8, sobre a transferência (1960-1961),
as religiões já aparecem como formas de domesticação dos deuses que pertencem
no campo do real, como modos de revelação deste registro.
No Seminário 11, sobre ―Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise‖
(1964), Lacan retoma esse tema a partir da contestação de uma permissividade,
encontrada no romance dos Irmãos Karamazovi de Dostoievski trabalhado por
Freud. Se Deus está morto — tudo é permitido. Para Lacan, nesse seminário, se
Deus está morto, nada é permitido. Assim conclui que a verdadeira fórmula do
130

ateísmo é ―Deus é inconsciente.‖ (Lacan, 1979. p. 60). Este postulado vai aparecer
partir do conceito de inconsciente que perde o caráter predominantemente simbólico
dos primeiros anos de seu ensino e passa a ser definido como conceito de falta,
antecipando a definição de inconsciente que surge no Seminário 20, RSI (1973-74),
quando o inconsciente passa a ser considerado como algo do real afligido pelo
simbólico.
Se Deus é inconsciente, aquilo que do real toca o simbólico e do qual o
neurótico lança mão na sustentação dos mistérios da vida, na psicose podemos
pensar a partir do caso clínico que ora nos ocupa, a existência de um ―inconsciente
a céu aberto‖, que lança em nome-de-deus/pai, essa mulher mártir penitente e a
seus filhos por um lado no encalço de sua proteção e subserviência e, por outro,
numa ―enxurrada de gozo‖ e prejuízo no que tange aos laços sociais e de direitos.
Podemos pensar que a religião para essa mulher funciona como uma
tentativa de suplência a esse nome-do-pai, que não se inscreveu. Assim ela se
arranja colocando-se a si e a seus filhos a serviço e sob o manto de Deus- pai do
nome. É importante observar que embora haja relatos de negligência e jejum
forçado, imputado a esses filhos, nenhum deles apresentou indícios de desnutrição
nos exames clínicos realizados. E que, entre um naco de pão distribuído com
parcimônia, e as orações de louvor e penitência, os cuidados maternos se exerciam
e essa família monogâmica e nômade se arranjava.
No caso dessa mãe religiosa, o suporte que estamos chamando de
maternidade compartilhada não foi possível de sustentar, dada a distância que sua
religiosidade exacerbada colocou entre ela, seus familiares e a comunidade de
origem. E nem tampouco o de maternidade assistida dada a precariedade das
condições materiais dessa mãe associada à solução nômade que ela inventou para
tratar de seu sofrimento. A modalidade de atenção no território que essa mulher não
considera e atravessa, foi o maior impedimento que as equipes de saúde mental e
de saúde da família encontraram, para a construção de um projeto terapêutico único
e para a condução de um caso que é importante ressaltar, faz furo nesse conceito
caro à saúde pública e coletiva.
Esse caso nos leva ainda a pensar, que lugar de analista e que trabalho em
equipe pode ser construído para e com um sujeito que se coloca no lugar de
todo/saber quanto ao cuidado de seus filhos, contra as leis da cidade e da
responsabilidade como uma Antígona da periferia, que por essa insurgência do
131

gozo, acaba por expor a si e aos filhos à perda do pátrio/mátrio poder. E também na
possibilidade de invenção de algum tipo de suporte institucional ao exercício da
maternidade, para mulheres psicóticas que pudesse evitar a perda definitiva dos
filhos para os órgãos de proteção da Infância.
132

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste estudo, fizemos um percurso que se iniciou com a interlocução dos


saberes produzidos em diversas áreas do conhecimento, na perspectiva de localizar
o lugar da mulher ao longo das épocas para, a seguir, adentrarmos no campo da
psicanálise propriamente dita, estabelecendo uma interlocução que se iniciou com
Freud, e depois com Lacan e outros autores de orientação psicanalítica, que se
debruçam em torno da questão da mulher, da maternidade e do feminino.
Em Freud encontramos o que ele nomeia incompletude na mulher e uma
organização libidinal, simbolizada e limitada pelo falo. Em Lacan essa incompletude
é tomada como inconsistência, que designa para o campo do feminino, na estrutura
lógica da partição sexual, um espaço não-todo submetido à dimensão fálica. Espaço
esse que se estende para além dessa ordenação, facultando à mulher um plus de
gozo, que abre para ela um infinito de possibilidades de se fazer mulher. Uma
mulher, portanto, avessa á universalização, tem que se inventar, uma a uma.
É frente a essa inconsistência, que lhe impõe a condição de não ser toda
regida pela lógica fálica, que a mulher poderá se colocar de uma forma singular no
campo do vivo sexuado. E será assim, que poderá se colocar para além, da mãe
freudiana, do dever de ensinar o filho a amar, e da criança como emblema último da
feminilidade. Vimos com Lacan que a mulher não se confunde com a mãe. E poderá
se colocar como mãe, por seu dom de amor ou por seu ódio na devastação, desde
uma posição masculina ou feminina, como um empuxe a toda-mãe, ou até mesmo,
não se candidatar ao lugar do materno, por acreditar ter coisas mais importantes
com que se preocupar.
O que significa que as possibilidades de se colocar como mulher se
multiplicam na condição de invenção do feminino que não está dado de antemão
para nenhum ser vivo que se coloca do lado direito das tábuas da sexuação. E que
mulheres e mães podem coexistir no contexto da maternidade, onde se pode dar a
inclusão ou não de uma criança na estrutura psíquica e particular de cada uma
delas.
Constatamos que, para uma mulher, a maternidade está colocada como
possibilidade, para além do fato consumado biológico, como elemento de suplência
ao seu gozo, de ser ―não-toda‖ submetida à norma fálica, no campo da neurose.
133

Desde que as mulheres psicóticas passam ao largo da questão da castração e da


mediação fálica, a qual elas não estão submetidas de jeito nenhum, a possibilidade
da maternidade, em vez de desaparecer na clínica se confirma. E também reafirma
o fato de que elas não só têm filhos para além da condição de poedeiras, como
também a expensas da foraclusão. O quer dizer que também para elas um filho
poderá ter um lugar em sua subjetividade.
Se para as mulheres na neurose um filho pode advir como uma suplência à
mulher que não-existe, ele pode muito bem vir a ocupar o lugar de objeto no seu
fantasma para algumas mulheres psicóticas. Pode, também, se colocar para ela no
lugar de uma outra suplência, a da foraclusão do nome-do-pai, inclusive como um
elemento possível para sua estabilização. Para outras, a foraclusão do nome-do-pai
se associa à condição desertada do desejo, na relação com sua mãe da infância.
Vimos, também, a partir dos casos clínicos, que para algumas mulheres a
perspectiva da maternidade é uma contingência do ―amor na psicose‖ e não vem
necessariamente como suplência a ausência do nome-do-pai, podendo inclusive a
gravidez, ser ocasião para um encontro do sujeito com um furo no real, condição
para o surto psicótico que não é sem consequências, tanto para a mãe como para a
criança.
Um outro elemento importante que pudemos extrair da experiência clínica
com mulheres e mães psicóticas, que este estudo evidencia, sendo inclusive um dos
móveis de nosso interesse de investigação, é que no campo das políticas públicas
em geral, muitas vezes decide-se apressadamente, por privar uma mãe da guarda
de seu filho, com base no simples diagnóstico de psicose, enquanto nada em seus
atos justifica tal decisão. Outras vezes, a decisão de não intervir se baseia na
ausência de ―sinais de loucura‖, deixando-se de lado a loucura dos atos, para
salvaguardar a ligação da criança com a mãe, considerada mais essencial para o
desenvolvimento da criança.
Zenoni (2002) introduz a esse respeito, uma discussão muito pertinente em
torno da ―síndrome Munchausen por procuração‖, inventada pela psiquiatria anglo-
saxônica para agrupar as patologias das mães que, apesar de não apresentarem
nenhum sinal aparente de loucura, têm comportamento perigoso para a saúde e até
para a vida de seus filhos, como é o caso de algumas mulheres e mães com as
quais trabalhamos nessa pesquisa clínica.
134

Esse psicanalista chama nossa atenção para a ausência da concepção


freudiana de psicose, em uma psiquiatria que interpreta vagamente o
comportamento dessas mulheres em termos edipianos, como uma relação perversa
entre médico\pai\paciente, passando ao largo da noção do filho como retorno no
real, do objeto do fantasma da mãe.
Nesse sentido, convoca aos analistas a se apropriarem de uma noção mais
estrutural de uma clínica, que permitiria uma abordagem, considerada o real em jogo
nesse tipo de passagem ao ato. Para uma clínica que considera o real em jogo na
psicose, a recomendação de Zenoni (2002) soa como principio ético relevante desde
que orientada por:
Uma referência mais firmemente freudiana, uma melhor orientação no campo
dessa clínica muitas vezes dramática que é a clínica com mulheres e mães
psicóticas, tanto do ponto de vista do acompanhamento que poderia ser
proposto a essas mães, quando do ponto de vista legal e das decisões que
um julgamento judicial implica. (Zenoni, A. 2002.p.71).

A pura e simples retirada do pátrio poder, ou seja, o afastamento definitivo de


uma mãe de seu filho com base na Carta de Direitos da Criança e do Adolescente –
ECA, pode ser louvável e, em alguns casos até mesmo necessários. Mas não é, de
forma alguma, justificativa suficiente para tal procedimento, na medida em que deixa
de lado, a responsabilidade subjetiva do ato ainda que louco de uma mãe que pode
ter consequências danosas para ambos. Nesse sentido, compactuamos com a
aposta de Zenoni (2002), que se reporta a Lacan, para falar da necessidade de ―uma
apreensão mais justa da condição humana da loucura.‖ (Zenoni, 2002. p. 65).
Uma referência importante que pode alimentar essa discussão é o livro
organizado por Ana Freud e Dorothy T. Burlingham publicado em 1965. Esta obra
trata do trabalho realizado em instituições inglesas, francesas, espanholas e
holandesas, a partir de 1936, sustentadas por doações voluntárias americanas,
denominado ―Foster Parents, Plan for war children‖. O objetivo dessas instituições
era voltado para o trabalho de reparação de danos físicos e psíquicos causados pela
guerra, acolhendo crianças de três a seis anos com hospitalidade extensiva a seus
pais que podiam ir e vir, além de receberem apoio de profissionais das mais
variadas especialidades, na reorganização de suas vidas. Portanto, existem
antecedentes históricos de trabalhos que atentam para a sustentação dos laços
psíquicos e sociais entre pais e filhos em situações extremas.
135

Assim, propomos nesse estudo novas formas de acompanhamento que


poderão ser inventadas e sustentadas com mulheres e mães psicóticas a partir de
uma clínica ―feita por muitos‖, como é a que sustentamos na rede de saúde mental,
substitutiva aos hospitais psiquiátricos (onde pelo menos um, se encontra advertido
do inconsciente). E onde os significantes ―maternidade assistida e maternidade
compartilhada‖, se colocam como chaves, como dispositivos que enlaçam a política
e a clínica da psicanálise. Como lugares de acolhimento, acompanhamento e
sustentação, do tratamento de mulheres e mães psicóticas, seus filhos e familiares,
bem como do exercício do materno para muitas delas.
136

Referências Bibliográficas

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