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Estruturas Cerebrais da Linguagem

O documento explora a relação entre o cérebro e a linguagem, destacando como diferentes estruturas neuronais mediam a elaboração de conceitos e a formação de palavras e frases. A linguagem é apresentada como uma ferramenta evolutiva que permite a comunicação de conceitos abstratos, e a organização cerebral é descrita em três conjuntos de estruturas que processam interações não linguísticas, fonemas e a mediação entre conceitos e palavras. Lesões em áreas específicas do cérebro podem resultar em deficiências na linguagem, evidenciando a dominância do hemisfério esquerdo na maioria dos indivíduos para o processamento linguístico.

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Estruturas Cerebrais da Linguagem

O documento explora a relação entre o cérebro e a linguagem, destacando como diferentes estruturas neuronais mediam a elaboração de conceitos e a formação de palavras e frases. A linguagem é apresentada como uma ferramenta evolutiva que permite a comunicação de conceitos abstratos, e a organização cerebral é descrita em três conjuntos de estruturas que processam interações não linguísticas, fonemas e a mediação entre conceitos e palavras. Lesões em áreas específicas do cérebro podem resultar em deficiências na linguagem, evidenciando a dominância do hemisfério esquerdo na maioria dos indivíduos para o processamento linguístico.

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O Cérebro e a Linguagem

Revista: Viver Mente & Cérebro Scientific American


Ano XIII Nº143 - Dezembro 2004

António Damásio e Hanna Damásio

Estruturas essenciais de mediação coordenam a atividade dos centros cerebrais.


Alguns destes centros são especializados na elaboração dos conceitos, outros, na de
palavras e frases.

Os neuropsicólogos que estudam a linguagem tentam compreender como utilizamos e combinamos


palavras (ou signos, no caso de uma linguagem gestual) para formar frases e transmitir os conceitos
elaborados pelo cérebro. Investigam também como compreendemos palavras expressas por outros e
de que forma o cérebro as transforma em conceitos.

A linguagem surgiu e se manteve ao longo da evolução porque constitui um meio de comunicação


eficaz, sobretudo para conceitos abstratos. Ela nos auxilia a estruturar o mundo em conceitos e a
reduzir a complexidade das estruturas abstratas a fim de apreendê-las: é a propriedade de
"compreensão cognitiva".

O termo "chave de fenda", por exemplo, evoca várias representações dessa ferramenta: as
descrições visuais de sua aparência e utilização, as condições específicas de seu emprego, a sensação
que provoca seu manuseio ou o movimento da mão quando a utiliza. Da mesma forma, a palavra
"democracia" é associada a diversas representações conceituais. A "economia cognitiva" que a
linguagem autoriza ao reagrupar numerosas noções sob um mesmo símbolo permite-nos elaborar
conceitos complexos e alcançar níveis de abstração elevados.

Na aurora da humanidade, a palavra não existia. A linguagem surgiu quando o homem, e talvez
algumas espécies que o precederam, soube conceber e organizar ações, elaborar e classificar as
representações mentais de indivíduos, eventos e relações. Da mesma forma, os bebês concebem e
manipulam conceitos e organizam inúmeras ações bem antes de pronunciar as primeiras palavras e
frases. Entretanto, nem sempre a maturação da linguagem depende da dos conceitos: algumas
crianças têm deficiência dos sistemas conceituais, mas possuem uma sintaxe correta. Os centros
neuronais que asseguram certas operações sintáticas parecem se desenvolver de forma autônoma.

A ASSOCIAÇÃO DE SÍMBOLOS

A linguagem surge como produção humana voltada para o mundo exterior (um conjunto de
símbolos corretamente ordenados, difundido para fora do organismo) e representação intracerebral
destes símbolos e regras para associá-los. O cérebro representa a linguagem e qualquer outro objeto
da mesma forma. Ao estudar as bases neuronais da representação de objetos, eventos e suas
relações, os neurologistas esperam descobrir os mecanismos de representação da linguagem.

O cérebro elabora a linguagem mediante a interação de três conjuntos de estruturas neuronais,


segundo acreditamos. O primeiro, composto de numerosos sistemas neuronais dos dois hemisférios,
representa interações não linguísticas entre o corpo e seu meio, percebido por diversos sistemas
sensoriais e motores; ele forja uma representação de tudo o que uma pessoa faz, percebe, pensa ou
sente. Além de decompor essas representações não linguísticas (forma, cor, sucessão no tempo ou
importância emocional), o cérebro cria representações de nível superior, pelas quais gere os resultados
dessa classificação. Assim ordenamos intelectualmente objetos, eventos e relações. Os níveis
sucessivos de categorias e representações simbólicas produzidos pelo cérebro gerenciam nossa
capacidade de abstração e de metáfora.

O segundo, um conjunto menor de estruturas neuronais, geralmente situadas no hemisfério


esquerdo, representa os fonemas, suas combinações e as regras sintáticas de ordenação destas
palavras em frases. Quando solicitados pelo cérebro, esses sistemas reúnem palavras em frases
destinadas a ser ditas ou escritas,- se demandados em reação a um estímulo lingüístico externo (uma
palavra ouvida ou um texto lido), asseguram os processamentos iniciais das palavras e frases
percebidas.

Os Centros Cerebrais da Linguagem, no


Os Centros Cerebrais que processam a cor são
hemisfério esquerdo, comportam estruturas que
organizados como estruturas de compreensão e
processam as palavras e as frases, assim como
de utilização da linguagem. O estudo de pacientes
estruturas que asseguram a mediação entre os
com lesões cerebrais mostra que um centro
elementos do léxico e a gramática. As estruturas
neuronal particular governa os conceitos das cores
neuronais que representam os conceitos são
(em azul); um segundo centro comanda as
repartidas entre os hemisfério direito e
palavras que designam as cores (em vermelho) e
esquerdo, em numerosas regiões sensoriais e
um terceiro assegura a mediação entre os
motoras. A zona das palavras pensadas
conceitos e as palavras (flechas).
corresponde às áreas de Broca e de Wernicke.

Enfim, o terceiro conjunto, também presente no hemisfério esquerdo, coordena os dois primeiros.
Produz palavras a partir de um conceito ou conceitos a partir de palavras. Alguns trabalhos
psicolingüísticos já haviam indagado a existência dessas estruturas mediadoras. Willem Levelt, do
Instituto de Psicolingüística de Nimégue, Holanda, sugeriu que as palavras e as frases são elaboradas a
partir de conceitos por um elemento mediador chamado de "lema".

DIZER AS CORES

Esta organização em três partes é bem ilustrada pelos conceitos e pelas palavras que representam
cores. Mesmo quem sofre de um déficit congênito de percepção das cores sabe que algumas delas são
próximas, independentemente de sua luminosidade e saturação. Os conceitos de cor são universais
ainda que, em certas línguas, não existam nomes que as designem. O processamento inicial dos sinais
da cor é feito pela retina e pelo corpo geniculado lateral e então pelo córtex visual primário e por pelo
menos duas outras áreas corticais, V2 e V4, os primeiros centros de processamento da percepção das
cores.

Descobrimos que lesões nas regiões onde estão V2 e V4 provocam a perda da percepção das cores
em pacientes antes normais: eles tornam-se incapazes de imaginar as cores e veem o mundo em preto
e branco. Quando pensam em uma imagem colorida, veem formas, movimentos e texturas, mas
nenhuma cor: um jardim, o sangue ou uma banana não os fazem pensar no verde, vermelho ou
amarelo. Como nenhuma lesão em outras regiões cerebrais produz semelhante deficiência, os
conceitos de cor parecem depender dessas zonas occipitais.

Pacientes com lesões nos córtices temporal posterior e parietal inferior esquerdos conservam a
capacidade de elaborar conceitos, mas pronunciam mal as palavras. Ainda que percebam corretamente
uma cor e saibam seu nome, pronunciam-no mal, dizendo, por exemplo, "zul" em vez de "azul".

Outros com lesão no segmento temporal da quinta circunvolução occipital esquerda sofrem de
anomia das cores, problema que não afeta nem os conceitos de cor nem a pronúncia dos nomes de
cor: eles percebem cores normalmente (distinguem as diferentes tonalidades, classificam-nas
corretamente segundo sua saturação e conhecem a cor dos objetos fotografados em preto-e-branco),
mas não as nomeiam corretamente. Utilizam "azul" ou "vermelho" para designar verde ou amarelo,
mas colocam corretamente uma ficha verde ao lado de uma foto em preto e branco de um vegetal, ou
uma amarela ao lado da imagem de uma banana. Inversamente, quando lhes dizemos o nome de uma
cor, designam uma outra. Como pronunciam corretamente o nome - inexato - da cor que designam e
como seu sistema de concepção da cor e de pronúncia estão intactos, sua deficiência resulta do
sistema neuronal de mediação entre os dois sistemas de manipulação dos conceitos e de palavras.

REPRESENTAÇÃO CEREBRAL

A mesma organização existe para outros conceitos. Sob que forma física eles são representados
em nosso cérebro? Supomos que não exista representação "pictórica" permanente de objetos e
pessoas, mas que o cérebro conserve uma "impressão" da atividade neuronal que se exerce no córtex
sensorial e motor durante sua interação com um objeto. Esta impressão corresponde a um circuito de
neurônios e sinapses cuja atividade recria aquela que caracterizou cada objeto ou evento memorizado.
Ativada, uma impressão pode suscitar outras associadas (ver pág 48). O cérebro registra não só os
diversos aspectos da realidade exterior, mas também o modo pelo qual o corpo explora o meio e reage
a ele. Os sistemas neuronais que descrevem as interações entre uma pessoa e um objeto registram
um encadeamento rápido de micropercepções e de microações quase simultâneas. Modificações
ocorrem em várias regiões especializadas, cada uma subdividida em vários centros,- a área visual, por
exemplo, é composta de centro menores, especializados no processamento de cor, forma e
movimento.

Mas onde são conservadas as impressões que ligam estas atividades fragmentadas? Acreditamos
que seja em grupos de neurônios para os quais convergem axônios provenientes de regiões mais
externas, de onde partem axônios que enviam retroativamente os sinais para áreas mais internas.
Uma reativação destas zonas de convergência excita simultaneamente vários grupos de neurônios
anatomicamente separados e dispersos, que reconstroem a atividade mental previamente registrada.

Se o cérebro armazena as informações relativas aos objetos e seus usos, também ordena estas
informações, de forma que eventos e conceitos associados (formas, cores, trajetórias no espaço e no
tempo, movimentos e reações corporais) possam ser reativados simultaneamente. Estas informações
são classificadas com a ajuda de outra impressão, situada numa zona de convergência diferente. As
representações das principais propriedades dos objetos e dos eventos estão assim imbricadas: em
relação à xícara, por exemplo, o cérebro registra dimensões, forma, matéria, estado sólido,
deslocamento ao longo de uma trajetória precisa e a sensação que provoca nos lábios.

A atividade dessas redes neuronais convergentes assegura a compreensão e a expressão da


linguagem. Ativadas, estas redes reconstituem os conhecimentos para remetê-los à consciência, onde
estimulam os centros de mediação entre conceitos e linguagem e onde permitem a formulação correta
de palavras e estruturas sintáticas associadas aos conceitos. Como o cérebro registra simultaneamente
aspectos variados das percepções e das ações, estas redes produzem também representações
simbólicas como as metáforas.

As lesões nas regiões do cérebro correspondentes a estas redes provocam deficiências cognitivas
associadas às diversas classes de conceitos processados pelo cérebro; a acromatopsia é um exemplo.
Elisabeth Warrington, do Hospital das Doenças Nervosas, de Londres, descobriu que certos pacientes
são incapazes de reconhecer objetos de um determinado tipo. Junto com Daniel Tranel, mostramos
que sistemas neuronais específicos processam conceitos de certos tipos.

Um de nossos pacientes, por exemplo, não consegue manipular os conceitos ligados a entidades
isoladas, como uma pessoa, um lugar ou um evento particular, embora tenha conhecido estas
entidades antes de sua lesão cerebral. Ele perdeu ainda os conceitos ligados aos membros de
categorias particulares: assim, vários animais se tornaram para ele completamente desconhecidos,
embora saiba tratar-se de seres vivos. Diante da imagem de um rato, ele disse tratar-se de um
animal, mas não tinha idéia do seu tamanho, hábitat ou comportamento.
Curiosamente, as capacidades cognitivas desse paciente ainda permitiam que ele manipulasse
conceitos ligados a outra categorias contendo vários elementos. Ele reconhecia e sabia nomear
ferramentas. Dispunha também de conceitos de atributos de objetos: sabia, por exemplo, o que era
uma coisa bela ou feia; reconhecia ainda o sentido de idéias que exprimem um estado ou uma
atividade, como estar apaixonado, saltar ou nadar, e compreendia relações abstratas entre entidades
ou eventos. Em suma, se não podia mais manipular os conceitos relativos a entidades designadas por
nomes comuns ou próprios, ele processava normalmente os conceitos referentes a atributos, estados,
atividades e relações, definidos na linguagem por adjetivos, verbos, preposições ou conjunções; as
estruturas gramaticais não lhe apresentavam qualquer problema, e a sintaxe de suas frases era
impecável.

DOMINÂNCIA CEREBRAL

Lesões semelhantes às deste paciente nas regiões anteriores e médias dos dois lóbulos temporais
deterioram o sistema conceituai do cérebro. As lesões do hemisfério esquerdo, próximo à cissura de
Sylvius, perturbam mais a formação de palavras e frases. Essa área é a mais estudada pelos
especialistas em linguagem, desde que Paul Broca e Carl Wernicke descobriram, há mais de 150 anos,
que as estruturas da linguagem aí se localizam. Broca e Wernicke comprovaram também o fenômeno
da dominância cerebral: na maioria dos seres humanos - 99% dos destros e 30% dos canhotos - os
centros da linguagem estão no hemisfério esquerdo.

O estudo de pacientes afásicos (que perderam parcial ou totalmente o uso da palavra) confirma a
importância de estruturas do hemisfério esquerdo na linguagem. Edward Klima, da Universidade de
San Diego, e Ursula Bellugi, do Instituto de Estudos Biológicos, em San Diego, mostraram que lesões
nas estruturas cerebrais de formação das palavras são acompanhadas por afasias da linguagem
gestual. Assim, alguns surdos que apresentam uma lesão cerebral do hemisfério esquerdo perdem a
faculdade de compreender ou de produzir os signos da linguagem gestual. Como o córtex visual deles
está intacto, a deficiência não provém de uma má percepção visual dos signos, mas da incapacidade
de interpretá-los.

COMPONENTES DE UMA LINGUAGEM ARTICULADA

FONEMAS - Elementos sonoros cujo encadeamento em uma ordem


determinada forma os morfemas.

MORFEMAS - Unidades lingüísticas mínimas que têm um sentido ou


cuja combinação forma as palavras (nas linguagens gestuais, os
equivalentes dos morfemas são os signos visuais-motores).

SINTAXE (OU GRAMÁTICA) - Arranjo de palavras em frases segundo


uma ordem que obedece regras precisas.

LÉXICO - Conjunto de palavras de uma língua. Cada elemento do


léxico indica os morfemas e a sintaxe da palavra correspondente, mas
não fornece seu sentido.

SEMÂNTICA - Sentido correspondente a cada elemento do léxico e a


cada frase possível.

PROSÓDIA - Entonação vocal suscetível de modificar o sentido literal


das palavras e frases.

DISCURSO - Seqüência de frases que forma uma narração.

Por outro lado, os surdos que apresentam lesões no hemisfério direito, longe das áreas da
linguagem, tornam-se por vezes incapazes de ver os objetos situados na metade esquerda de seu
campo visual ou de perceber as relações espaciais entre os objetos, embora conservem a capacidade
de compreender e utilizar a linguagem gestual. Portanto, o hemisfério esquerdo contém os centros de
processamento da linguagem, quaisquer que sejam as vias de transmissão dos signos lingüísticos.

Alguns neurologistas mapearam os sistemas neuronais da linguagem ao localizarem as lesões de


pacientes afásicos,-outros analisaram estes sistemas estimulando o córtex cerebral de pacientes
epiléticos que passavam por uma cirurgia, registrando depois suas respostas eletrofisiológicas.

As lesões da região perisilviana posterior perturbam a composição dos fonemas em palavras e a


seleção das palavras. Pacientes com lesões como esta são incapazes de pronunciar corretamente
certas palavras (dizem "felefante" em vez de "elefante", por exemplo) e substituem por vezes palavras
que lhes faltam por outras de sentido mais geral ("pessoa" em vez de "mulher") ou por uma cujo
sentido está ligado ao conceito que querem exprimir ("chefe" em vez de "presidente"). Victoria
Fromkin, da Universidade de Los Angeles, elucidou vários mecanismos lingüísticos responsáveis por
tais erros.

As lesões da região perisilviana posterior não perturbam o ritmo, a rapidez de elocução ou a


sintaxe das frases desses pacientes, ainda que às vezes eles se enganem na utilização de pronomes e
conjunções. Essas lesões alteram também o processamento dos sons ouvidos: eles têm dificuldade
para compreender as palavras e frases faladas. Este problema não se deve, como se pensava, à
degradação de um centro de armazenamento do sentido das palavras, que estaria presente no setor
perisilviano posterior,- decorre, sim, de uma interrupção na análise acústica das palavras ouvidas,
desde as primeiras etapas de seu processamento.

Os sistemas neuronais da região perisilviana posterior registram as informações auditivas e


cinestésicas relativas aos fonemas e às palavras. A descoberta de projeções neuronais recíprocas entre
as diferentes zonas que memorizam estas informações revela a importância das interações entre elas.

A região perisilviana posterior está conectada ao córtex motor e pré-motor, diretamente e por uma
via subcortical que inclui os gânglios da base e da parte anterior do tálamo esquerdo. A dupla conexão
desempenha um papel crucial na produção dos fonemas, que pode ser governada pelos circuitos
cortical e subcortical ou pelos dois ao mesmo tempo. A via subcortical assegura a aquisição dos
automatismos linguísticos, enquanto a cortical governa a linguagem consciente adquirida pela
aprendizagem associativa.

Quando uma criança aprende, por exemplo, a palavra "amarelo", os sistemas de formação das
palavras e de controle motor seriam ativados mediante as vias cortical e subcortical; a atividade
desses sistemas seria correlacionada à atividade dos sistemas neuronais que governam os conceitos de
cor e a mediação entre conceitos e linguagem. O sistema neuronal de mediação conceito - linguagem
parece estabelecer uma via direta para os gânglios de base, de tal forma que uma fraca ativação da
região perisilviana posterior basta para desencadear a produção da palavra "amarelo". A aprendizagem
posterior da palavra que designa a cor amarela em uma outra língua colocaria novamente em jogo a
região perisilviana posterior, que então estabeleceria as correspondências auditivas, cinestésicas e
motoras entre os fonemas.

O sistema associativo cortical e o sistema automático subcortical parecem operar paralelamente no


processamento da linguagem. O prevalecimento de um ou outro depende do nível de domínio da
linguagem e da natureza dos elementos lingüísticos. Segundo Steven Pinker, do Instituto de
Tecnologia de Massachusetts, a maioria dos indivíduos memoriza as formas do passado dos verbos
irregulares ingleses por meio da aprendizagem associativa e as formas dos verbos regulares por
aquisição automática.

A região perisilviana anterior, próxima à cissura de Rolando, parece conter as estruturas que
comandam o ritmo da elocução e a gramática. Os gânglios da base são elementos ativos desse
sistema, como o são também nas conexões da região perisilviana posterior. O conjunto está
fortemente ligado ao cerebelo e recebe projeções de várias regiões sensoriais do córtex, reenviando
projeções às regiões motoras. Entretanto, ainda é desconhecido o papel dessa estrutura na linguagem
e no conhecimento.

Pessoas com lesões na região perisilviana anterior falam com uma voz monocórdica, longos
silêncios entre as palavras, utilizando estruturas gramaticais defeituosas. Omitem frequentemente os
pronomes e as conjunções e raramente respeitam a ordem gramatical. Como têm mais facilidade para
encontrar substantivos que os verbos, supomos que diferentes regiões cerebrais processam essas duas
classes de palavras.

Imagens do Cérebro Humano obtidas por tomografia de emissão de


pósitrons revelam que a circulação sanguínea no cérebro aumenta em
certas regiões, que diferem segundo o tipo de tarefa efetuada (aqui
ligadas ao exame das palavras e à sua verbalização). Pensá-las
(embaixo, à direita) ativa a área de Broca, que produz a linguagem.

Como as lesões nessa região perturbam tanto a expressão como a compreensão das estruturas
gramaticais, acreditamos que os sistemas neuronais desta área contenham os centros de composição
sintática. Os gânglios da base, que coordenam os movimentos elementares em um conjunto
harmonioso, poderiam cumprir uma função análoga na reunião de palavras em frases. A descoberta de
estruturas similares, embora menos desenvolvidas, no macaco indica que estas estruturas neuronais
estão estreitamente conectadas aos sistemas de mediação sintática do córtex fronto-parietal nos dois
hemisférios cerebrais (ver pág. 44).

SISTEMAS DE MEDIAÇÃO

Os sistemas neuronais de mediação estariam entre aqueles que processam os conceitos e os que
produzem palavras e frases. Estudos neuropatológicos sugerem que esses sistemas mediadores
governariam a seleção das palavras que exprimem conceitos e determinariam a sintaxe que exprime
relações entre eles.

Quando falamos, os sistemas mediadores governam os sistemas que comandam a formação das
palavras e a sintaxe/ inversamente, quando escutamos um interlocutor, os sistemas que asseguram a
formação das palavras e a sintaxe comandam os sistemas de mediação. Tentamos, atualmente,
mapear os sistemas que processam os nomes próprios e os nomes comuns associados a entidades de
diversas classes.

Dois de nossos pacientes, com lesões no córtex anterior temporal e mediano, eram capazes de
reconhecer conceitos de qualquer classe (rostos humanos, partes do corpo, espécies animais ou
vegetais, veículos, construções, ferramentas e utensílios); sabiam definir funções, local ou valor das
coisas e, quando produzíamos sons associados a estes objetos, reconheciam os últimos; enfim, quando
vendávamos seus olhos, conseguiam identificar um objeto colocado entre suas mãos.

Entretanto, eram incapazes de encontrar o nome de vários desses objetos familiares. Diante da
imagem de um rato, um deles disse: "Sei do que se trata: é um animal horroroso; fareja nossos
restos; seu focinho e seu rabo são característicos. Conheço esse animal, mas seu nome me escapa".
Em média, esses pacientes encontram metade dos nomes que procuram, ao passo que seus sistemas
conceituais permanecem intactos.

A proporção de palavras esquecidas varia segundo a classe conceituai das entidades que tentam
nomear. Eles têm mais dificuldade com nomes de ferramentas e utensílios que com nomes de animais,
frutas e plantas, mas a distinção em jogo não é aquela que separa objetos naturais dos fabricados pelo
homem: estes pacientes são perfeitamente capazes de nomear as partes do corpo e não conseguem
nomear corretamente os instrumentos musicais, objetos tão artificiais e manipuláveis quanto
ferramentas de jardim.

Por que as lesões causam o esquecimento do nome de certos objetos e não de outros?
Provavelmente porque o cérebro utiliza diferentes sistemas neuronais para representar entidades que
diferem por sua estrutura, seu comportamento ou pelo modo como as consideramos.

Os nomes próprios também representavam problemas para esses dois pacientes. Eles eram
incapazes, com raras exceções, de nomear amigos, parentes, pessoas ou lugares célebres. Diante da
foto de Marilyn Monroe, por exemplo, declararam: "Não encontro seu nome, mas sei quem ela é:
assisti a seus filmes,- ela teve um relacionamento com o presidente,- ela se matou ou foi assassinada,
talvez pela polícia". Esses pacientes não sofriam do que chamamos de agnosia dos rostos ou
prosopagnosia (eles reconheciam, sem hesitação, um rosto), mas eram incapazes de nomear a pessoa
que reconheciam.

OS COMPONENTES DE UM CONCEITO

Os conceitos são armazenados no cérebro sob a forma de registros "inativos". Quando são
reativados, esses registros recriam as sensações a as ações associadas a uma entidade ou a uma
classe de entidades. Uma xícara de café, por exemplo, evoca ao mesmo tempo representações
visuais ou táteis de sua forma, cor, textura e temperatura, o odor e o gosto do café, assim como a
trajetória da mão e do braço quando levam a xícara à boca. Todas estas representações são criadas
simultaneamente em distintas regiões do cérebro

Curiosamente, utilizavam verbos sem dificuldade e indicaram, com a mesma precisão que pessoas
normais, os correspondentes a mais de 200 estímulos relativos a estados ou ações. O uso que faziam
das preposições, conjunções, pronomes e da sintaxe era correto. Quando falavam ou escreviam,
substituíam os nomes que faltavam por termos como "objeto" ou "coisa" ou por pronomes como
"ele(s)" ou "ela(s)". Os verbos de seus discursos eram, contudo, cuidadosamente escolhidos,
pronunciados e conjugados. Enfim, sua pronúncia e prosódia (entonação das palavras e frases) eram
perfeitas.

Parece claro hoje que os centros de mediação léxica estão localizados em determinadas regiões
cerebrais e que as estruturas neuronais que ligam os conceitos e as palavras se encontram ao longo do
eixo occipitotemporal do cérebro. Para numerosos conceitos gerais, a mediação parece ocorrer nas
zonas posteriores da região temporal esquerda, enquanto que para os conceitos mais especializados
ela ocorre mais para frente, perto do pólo temporal esquerdo. Observamos vários pacientes que
haviam perdido a memória dos nomes próprios mas conservavam a maior parte dos nomes comuns:
suas lesões limitavam-se ao pólo temporal esquerdo e à superfície temporal mediana do cérebro,
poupando as regiões temporais laterais e inferiores. Por outro lado, estas últimas áreas sempre
estavam lesadas em pacientes com dificuldade para encontrar os nomes comuns.

As lesões que atingem o córtex temporal anterior e mediano perturbam a utilização dos nomes
comuns, mas não a dos nomes de cores. As correlações entre estas lesões cerebrais e os problemas da
linguagem revelam que o segmento temporal da quinta circunvolução occipital governa a mediação
entre os conceitos e os nomes de cor, enquanto as estruturas neuronais situadas na extremidade
oposta da rede, no lóbulo temporal anterior esquerdo, governam a mediação entre os conceitos e os
nomes de pessoas. Um paciente examinado recentemente, que apresentava lesões em todo o eixo
occipitotemporal esquerdo do cérebro, era incapaz de encontrar os nomes de várias entidades, das
cores e das pessoas, mas suas capacidades conceituais permaneciam intactas. O estudo desses
pacientes confirmou enfim que o processamento da linguagem é perturbado por uma estimulação
elétrica das áreas corticais, situadas fora das regiões geralmente atribuídas à linguagem.

SISTEMA DE MEDIAÇÃO DOS VERBOS

Se, para os nomes, os sistemas de mediação parecem localizados, onde se encontram os sistemas
que processam verbos? Como os pacientes com lesões no córtex temporal anterior e mediano
conservam a capacidade de encontrar verbos, pronomes e conjunções, os sistemas que processam
estas classes de palavras não estão na região temporal esquerda. Algumas observações clínicas
indicam que esses sistemas se encontram nas regiões frontal e parietal: os pacientes afásicos, que
sofrem de lesões frontais no hemisfério esquerdo, têm mais dificuldade para expressar os verbos que
os nomes. Essa localização foi indiretamente confirmada por estudos de tomografia de emissão
pósitrons. Steven Petersen, Michael Posner e Marcus Raichle, da Universidade de Washington, pediram
a voluntários para pronunciar os verbos correspondentes à imagem de um objeto,- por exemplo, a
imagem de uma maçã devia suscitar a expressão do verbo "comer". A tomografia revelou a ativação
de uma região do córtex frontal dorsolateral inferior que corresponde aproximadamente às regiões que
havíamos localizado anteriormente. Uma lesão dessas regiões perturba não só a expressão dos verbos,
pronomes e das conjunções, mas também a sintaxe.

Durante os últimos 20 anos, progrediu rapidamente o nosso conhecimento das estruturas cerebrais
que governam a linguagem. Graças a técnicas como o imageamento por ressonância magnética,
localizamos precisamente as lesões cerebrais de pacientes que sofrem de afasia e as correlacionamos
aos problemas de linguagem correspondentes. Atualmente, podemos estudar a atividade cerebral de
pessoas normais realizando diferentes processos lingüísticos.

Os mecanismos lingüísticos são tão complexos que algumas pessoas duvidam que a maquinaria
neuronal que os governa seja inteiramente elucidada. O registro dos conceitos pelo cérebro ainda é um
mistério. Conhecemos mal os sistemas de mediação para outros elementos da linguagem além de
nomes, verbos, pronomes e conjunções. E mal compreendemos as estruturas que asseguram a
formação das palavras e das frases, estudadas desde meados do século XIX.

Mas os consideráveis progressos dos últimos anos sugerem que a cartografia destas estruturas e a
análise de seu funcionamento não são inacessíveis. Quando o objetivo será alcançado? Eis a questão.

Para conhecer mais

O Erro de Descartes. A. Damásio, Companhia das Letras, 1996.

Lesion Analysis. H. Damásio e A.R. Damásio, em Neuropsy-chology, Oxford University Press, 1989.

Aphasia. A.R. Damásio, em NewEnglandJournalof Medicine, vol. 326, na 8, pág. 531-539, 20 de


fevereiro de 1992.

Bases Neurologiques des Comportements. M. Habib, Éditions Masson, 1989.

Linguagem e Mente. N. Chomsky, Editora UnB, 1998.

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