CAPÍTULO
16
O USO DE TÉCNICAS ANALÍTICO-COMPORTAMENTAIS
NA TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA
RESUMO
O presente artigo busca evidenciar a possível aplicabilidade das técnicas
Luiz Eduardo de
analítico-comportamentais no exercício clínico da terapia familiar sistêmica.
Castro Nascimento
FASB Trata-se de uma revisão bibliográfica do tipo qualitativo que investigou
trabalhos produzidos por autores conhecidos em ambas as abordagens, em
Luiz Carlos livros e base de dados CAPES, Scielo, Pepsic, LILACS. Ao longo do estudo
Rodrigues de Matos verificou-se que técnicas como Reforçamento; Punição; Reforçamento
Souza Sobrinho Diferencial de Respostas Alternativas (DRA), entre outras técnicas vistas
FASB
na abordagem Comportamental, são aplicáveis e eficazes na prática da
Anchielle C. Henrique Terapia familiar. No mais, deve-se levar em consideração o fato de que
Silva somente a utilização de tais técnicas, sem análise sistemática do caso,
FASB se faz insuficiente para a obtenção de evolução terapêutica. Bem como,
a importância da realização de futuros estudos dentro deste contexto, por
ambas as abordagens possuírem maior integração e assim serem passível
no acompanhamento de famílias.
Palavras-chave: Famílias, Abordagens; Psicologia
10.37885/200500243
1. INTRODUÇÃO BORGES; CASSAS, 2012), de modo a reunir emba-
samento teórico sobre o tema (TOURINHO, 1999;
A atuação clínica do/a profissional de psico- CATANIA, 1999; MOREIRA, 2013).
logia, independente da abordagem, consiste em
2.MÉTODO
buscar meios de modificar comportamentos e/ou
pensamentos disfuncionais que afetam de forma
negativa tanto o/a paciente/cliente, quanto aque-
Trata-se de uma revisão de literatura, do tipo
les que estão a sua volta. Neste sentido, a terapia
qualitativa-bibliográfica. Os dados para a concepção
familiar sistêmica foi concebida com a proposta de
do estudo foram coletados em livros e artigos cien-
intervenção focada não apenas em um único sujeito,
tíficos, através das bases de dados CAPES, Scielo,
mas ampliada a todos os/as indivíduos que fazem
Pepsic, LILACS e PsyInfo. As principais referências
parte do seu contexto familiar, buscando modificar
utilizadas da terapia familiar sistêmica e da clínica
o sistema familiar disfuncional que causa sofrimen-
analítico-comportamental foram Minuchin e FishMan
to aos seus membros (BORGES; CASSAS, 2012;
(2007) e Borges e Cassas (2012). Autores eventuais
DIAS, 1990).
também foram utilizados, com o intuito de enriquecer
De acordo com a visão sistêmica “o paciente identifi- o estudo. Os dados obtidos foram catalogados, de-
cado” é o porta-voz do sintoma; a causa do problema vidamente fichados e, posteriormente, elaborou-se
são as transações disfuncionais da família; e o pro- o texto final.
cesso de mudança envolverá a transformação destas
transações disfuncionais” (MINUCHIN; FISHMAN,
2.1 A APLICABILIDADE DAS TÉCNICAS
2007, p. 37). Consequentemente, o trabalho do/a
terapeuta familiar objetiva compreender a realidade
ANALÍTICO-COMPORTAMENTAIS NO
familiar, focando em possíveis fatores ambientais que EXERCÍCIO CLÍNICO DA TERAPIA FAMILIAR
contribuam para o sofrimento do sujeito sintomático SISTÊMICA
e dos demais familiares, com o intuito de tornar este
Quando se trata de terapia familiar, o/a analista-
um sistema mais saudável para os membros que o
-comportamental deve, antes de iniciar qualquer tipo
compõem (MOREIRA, 2013; DIAS, 1990).
intervenção, compreender a estrutura e interação
Sobre os mecanismos de atuação dos/as terapeu- do grupo familiar que solicita seu atendimento. Isto
tas sistêmicos no setting terapêutico, estes são va- também se aplica ao exercício da terapia familiar
riados, podendo, inclusive, ser absorvidos de outras sistêmica, que tem como principal objetivo a com-
abordagens da Psicologia. A vertente Behaviorista preensão e atuação nos sistemas disfuncionais
radical, por exemplo, apresenta diversos conheci- que afetam de maneira negativa os membros das
mentos relacionados aos mecanismos de compor- famílias (BORGES; CASSAS, 2012; MINUCHIN;
tamentos individuais e interações sociais/familiares, FISHMAN, 2007).
sendo aplicados na prática através das técnicas
Neste sentido, as técnicas utilizadas nas interven-
analítico-comportamentais, possuindo efetividade
ções terapêuticas devem ser adaptadas ao contexto
também na prática do terapeuta sistêmico (TOURI-
do grupo familiar que solicitou atendimento, a fim
NHO, 1999; BORGES & CASSAS, 2012).
de que se possa obter melhores resultados no que
Quando conceitos como o de comportamento operan- diz respeito aos objetivos propostos em terapia. Por
te (Cf. MOREIRA; MEDEIROS, 2007) são aplicados consequência, sabendo que as técnicas propostas
ao contexto familiar, infere-se que o sujeito é afetado pela vertente analítico-comportamental foram empi-
pelo ambiente social, modificando-o, e passando ser ricamente testadas através da prática experimental,
afetado por ele. Por consequência, as interações fa- tornam-se vastas as possibilidades de estas serem
miliares não são consideradas lineares, mas sim cir- aplicadas, tanto na terapia familiar, quanto em outras
culares, da mesma forma que defende a abordagem abordagens da Psicologia (TOURINHO, 1999).
Sistêmica, já que Costa (2010) cita a circularidade
Falando especificamente sobre a eficácia da uti-
“como a lente para compreensão das influências mú-
lização de técnicas analítico-comportamentais no
tuas entre os membros da família” (p. 96).
exercício da terapia familiar, esta irá depender dos
Neste sentido, o presente artigo tem o objetivo de objetivos iniciais traçados pelo terapeuta, alguns
demonstrar a possível aplicabilidade das técnicas destes listados por Borges e Cassas (2012): “com-
analítico-comportamentais no exercício clínico da prometer família com o trabalho; estabelecer obje-
terapia familiar sistêmica. Trata-se de uma revisão tivos a serem alcançados por todos e por cada um;
bibliográfica do tipo qualitativo que investigou traba- fazer uma análise comportamental das interações
lhos produzido por autores conhecidos em ambas e desenvolver e implementar uma estratégia de in-
as abordagens (e.g., MINUCHIN; FISHMAN, 2007; tervenção” (p. 298).
Psicologia: Um Olhar Do Mundo Real - Volume 1 133
Além de contar com o comprometimento de pelo me- exercício da terapia familiar. Tais processos podem
nos parte dos membros da família, se faz necessário ser do tipo positivo, quando a adição de estímulos
que este profissional possua conhecimentos básicos reforçadores no ambiente eleva a taxa de respostas
sobre o comportamento humano dentro da filosofia de um comportamento em específico por parte de
behaviorista radical, como os níveis de causalidade organismo; ou negativo, quando a retirada de estí-
comportamental que são classificados como Filo- mulos aversivos do ambiente aumenta as respostas
gênese, Ontogênese e Sociogênese (MOREIRA; que interrompem ou adiam este mesmo comporta-
MEDEIROS, 2007). mento (CATANIA, 1999).
Dentro desta perspectiva, denomina-se como “com- Na terapia familiar esta técnica pode ser utilizada
portamentos filogenéticos” os comportamentos ina- desde a relação terapeuta-paciente, onde o tera-
tos ao indivíduo, sendo comuns a todas os seres peuta irá reforçar a participação e evolução dos pa-
de uma mesma espécie, visto que são adquiridos cientes no que diz respeito aos objetivos propostos
através da herança genética de seus ancestrais em terapia; ou através da psicoeducação, em que o
(e.g., sucção do bebê no momento da amamen- terapeuta destacará a importância de que os mem-
tação; o choro do bebê; etc.). Em contraponto, os bros da família reforcem comportamentos que con-
comportamentos ontogenéticos são aqueles adquiri- siderem adequados a uma convivência familiar har-
dos através da experiência individual do organismo, moniosa, em cada um de seus familiares (BORGES;
através de sua interação direta com os estímulos CASSAS, 2012; MOREIRA; MEDEIROS, 2007).
ambientais (e.g., uma criança passa a sentir medo
Consequentemente, pode-se obter considerável me-
de cachorro após levar uma mordida deste animal).
lhora na relação familiar pelo simples fato incentivar
Este último tem grande importância no exercício da
os membros da família a demonstrarem sentimentos
terapia individual, já que grande parte do repertó-
importantes, como afeto e gratidão pelos demais
rio comportamental dos seres humanos é adquirido
familiares. Além disso, tal fato aumentaria a frequ-
através da ontogênese, que tem como característica
ência dos comportamentos que foram reforçados e
a adaptação rápida do indivíduo a novos estímulos,
diminuiria, por conseguinte, a ocorrência dos com-
tornando seu repertório comportamental mutável
portamentos que são considerados incômodos pelos
(CATANIA, 1999).
membros da família (BORGES; CASSAS, 2012).
Já os comportamentos sociogênicos são adquiridos
Assim como as técnicas de reforçamento, as técni-
através do contato com seres da mesma espécie,
cas de punição – que Moreira e Medeiros (2007) con-
ou seja, são comportamentos aprendidos através
ceituam como o “tipo de consequência do compor-
da interação social e cultural, conforme destacado
tamento que torna sua ocorrência menos provável”,
por Moreira (2013), que ressalta que “grande parte
podendo esta ser positiva, acrescentando um esti-
do comportamento humano ocorre em ambientes
mulo aversivo ao sujeito do ambiente, ou negativa,
sociais que se caracterizam principalmente pela im-
retirando algo reforçador ao indivíduo do ambiente
portância do ‘outro’ como integrante fundamental
– são possíveis de serem utilizados na psicoterapia
desses ambientes” (p. 96).
sistêmica, do mesmo modo como técnicas mais com-
Neste sentido, observa-se o quanto o ambiente so- plexas, a exemplo de Reforçamento Diferencial de
cial afeta diretamente o comportamento do indiví- Respostas Alternativas (DRA), Reforçamento Dife-
duo (ANDERY, 2001; CATANIA, 1999; MOREIRA, rencial de Outras Respostas (DRO) e Reforçamento
2013; TOURINHO, 1999; MOREIRA; MEDEIROS, Diferencial de Respostas Incompatíveis (DRI).
2007). Por conseguinte, considerando que o primei-
O reforçamento diferencial de respostas alternativas
ro contato social do sujeito é com os membros da
(DRA) é definido por Borges e Cassas (2012) como
sua família, conclui-se que o ambiente familiar terá
“respostas diferentes daquelas que se pretende re-
grande influência para o desenvolvimento e o re-
duzir a frequência, mas que também produzam as
forçamento de repertórios comportamentais futuros
suas mesmas consequências”. Aplicando isto na
(MOREIRA, 2013). A esta constatação, Minuchin
terapia familiar, os familiares passariam a tirar o foco
e FishMan (2007) acrescentam que todo indivíduo
de determinados comportamentos indesejados (e.g.
“influi sobre o comportamento de outros indivíduos
comportamento da filha, uma jovem de quinze anos,
e que eles influenciam o seu. E quando interage
de falar de forma infantil, não adequada a sua ida-
dentro de sua família, experiencia o mapeamento
de), reforçando outros comportamentos do paciente
do mundo da família” (p. 21).
identificado (e.g. quando esta jovem fala de forma
Dessa forma, técnicas como a de reforçamento, que clara e madura), que promova uma relação familiar
pode ser definido como uma operação/processo que mais funcional.
possui a finalidade de manter determinados com-
Já o Reforçamento Diferencial de Outras Respostas
portamentos em ocorrência, adquirem relevância no
(DRO), que possui o mesmo objetivo da técnica an-
134 Psicologia: Um Olhar Do Mundo Real - Volume 1
terior, diferencia-se pelo fato de que será reforçado Perspectivas em análise do comportamento,
qualquer comportamento apresentado pelo/s indi- v. 2, n. 2, p. 203-217, 2011.
víduo/s que não sejam aqueles que são considera-
dos indesejados pela família (e.g. quando a criança BORGES, N. B.; CASSAS, F. A. Clínica ana-
chora demais por motivos inadequados, sua família lítico-comportamental: aspectos teóricos e
passará a dar atenção a todos os comportamentos práticos. Artmed Editora, 2009.
emitidos por ela, evitando dar maior atenção a ela
somente quando esta começa a chorar). CATANIA, A. C. Aprendizagem: comporta-
Por último, o Reforçamento Diferencial de Respos- mento, linguagem e cognição. Porto Alegre:
tas Incompatíveis (DRI) se trata de situações do tipo: Artmed, 1999
a família passar a reforçar qualquer tipo de compor-
tamento (e.g. atividades relacionadas ao pintar as COSTA, L. F. A perspectiva sistêmica para a
unhas, deixa-las crescer, etc.) que torne impossível clínica da família. Psicologia: teoria e pesqui-
ao membro da família apresentar comportamentos sa, p. 95-104, 2010.
indesejáveis (e.g. roer as unhas de forma compul-
siva) (BORGES; CASSAS, 2012). DIAS, M. L. O que é psicoterapia de família.
Brasiliense, 1990.
Além das técnicas citadas anteriormente, existem
várias outras técnicas comportamentais que podem MINUCHIN, S.; FISHMAN, C. H. Técnicas de
ser utilizadas na terapia familiar e adaptadas a pers- Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas,
pectiva sistêmica sem afetar os princípios terapêu- 1990. 285p.
tico de tal abordagem, garantindo desta forma me-
lhores desempenhos e avanços no que diz respeito MOREIRA, M. B. (Ed.). Comportamento e prá-
aos objetivos propostos em terapia. ticas culturais. Instituto Walden4, 2013.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS MOREIRA, M. B.; DE MEDEIROS, C. A. Prin-
cípios básicos de análise do comportamento.
No decorrer do presente estudo foi possível Artmed, 2007.
conhecer algumas técnicas comportamentais aplicá-
veis no exercício da terapia familiar sistêmica, bem TOURINHO, E. Z. Estudos conceituais na aná-
como a eficácia das mesmas, caso estas sejam utili- lise do comportamento. Temas em Psicologia,
zadas de modo apropriado pelo/a terapeuta. Conse- v. 7, n. 3, p. 213-222, 1999.
quentemente, deve-se levar em consideração o fato
de que somente a utilização de tais técnicas se faz
insuficiente para a obtenção de evolução terapêutica
caso não haja uma análise de caso adequada. Por
conseguinte, para uma intervenção clínica ser consi-
derada eficiente, deve-se realizar análise minuciosa
do caso a ser atendido e das possíveis técnicas que
serão utilizadas durante a intervenção.
Dentro deste contexto, por ambas as abordagens
possuírem muitas técnicas e conceitos a serem
avaliados, ressalta-se a importância da realização
de futuros estudos relacionados ao tema, no intuito
de aprofundar os conhecimentos acerca do uso de
técnicas analítico-comportamentais na terapia fami-
liar sistêmica. Isto porque, apesar de possuir muito
conhecimentos produzido, a terapia familiar sistê-
mica poderia ter seu exercício enriquecido através
da inserção de novas possibilidades de intervenção
no setting terapêutico.
REFERÊNCIAS
ANDERY, M. A. P. A. Comportamento e cultura
na perspectiva da análise do comportamento.
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