FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Exame de DIREITO CONSTITUCIONAL I e II
Época Normal - 19 de Junho de 2012
Duração: 3h (1 hora por Grupo)
I
Responda sucintamente a apenas TRÊS das seguintes questões (1, 75 valores por questão):
a) Concorda com a existência de limites jurídicos ao poder constituinte?
b) Existem no ordenamento jurídico português excepções ao princípio de que as normas
jurídicas declaradas nulas com fundamento em inconstitucionalidade devem ser
imediatamente erradicadas do ordenamento jurídico?
c) Veto e recusa de promulgação de norma com fundamento em inconstitucionalidade são
conceitos equivalentes?
d) Em que circunstâncias é que os recursos de decisões judiciais relativas à constitucionalidade
podem ser directamente interpostos para o Tribunal Constitucional?
e) Distinga Federalismo verdadeiro e federalismo fictício.
II
Comente DUAS das seguintes afirmações (2,25 valores):
a) “São múltiplas as condições que permitem caracterizar o sistema norte-americano como
presidencialista”.
b)"Perante a indeterminação do conceito de leis reforçadas introduzido pela 2ª revisão
constitucional, a Lei Constitucional nº1/97 pretendeu eliminar algumas dúvidas através da
densificação jurídico-constitucional de tal conceito. Fê-lo, porém, de forma contestável no plano da
legiferação constitucional. (...) Vê-se, assim que em termos de técnica se misturam critérios
funcionais com critérios paramétricos, sem que com toda a segurança se tenha resolvido o
problema aberto desde a 2ª revisão. O de saber se as leis reforçadas seriam uma categoria
meramente dogmática ou se aspiravam a perfilar-se como um tipo jurídico constitucional de lei”
Gomes Canotilho, Conceito de Leis de valor reforçado, Legislação, nº 19/20, 1997
c) “(...) os preceitos constitucionais relativos aos direitos, liberdades e garantias não têm, todos eles,
o mesmo grau de determinação em face do legislador, como se vê precisamente na diversidade de
poderes que a Constituição a este reconhece” Vieira de Andrade, Legitimidade e legitimação da justiça
constitucional (obra colectiva) Coimbra, 1995
III
Atente no seguinte caso prático:
Em 20 de Abril de 2010, um grupo de cinco deputados de um partido da oposição apresentou na
Assembleia da República (AR) um projeto de lei de autorização legislativa, nos termos do qual o
Governo ficava autorizado a, no prazo de 600 dias, aprovar a criação do “crime de esbanjamento
em tempos de crise”. Tal lei obteve 100 votos favoráveis, 80 votos contra e 30 abstenções.
Passado apenas um mês da publicação daquela lei de autorização, já Amâncio havia sido julgado e
condenado pela prática de um “crime de esbanjamento …”, tendo de imediato solicitado ao
Tribunal Constitucional (TC) a declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral da
mesma lei.
Entretanto, como medida social, o Primeiro-Ministro aprovou um decreto-lei, no uso da
autorização legislativa, nos termos do qual pelo “crime de esbanjamento …” apenas poderiam ser
condenados cidadãos sujeitos ao último escalão de IRS. O Presidente da República (PR), porém,
vetou o decreto-lei passados trinta dias da sua receção, mas o Governo viria a confirmar o mesmo,
sob a forma de resolução do Conselho de Ministros.
Já em Outubro, o Governo apresentou na AR uma proposta de lei que visava a alteração da “Lei do
Tribunal Constitucional”, no sentido de apenas ele poder julgar cidadãos pela prática do “crime de
esbanjamento ...”, o que viria obter 114 votos favoráveis, 70 contra, e 20 abstenções. De imediato,
o PR promulgou o diploma.
a) Aprecie as diversas questões jurídico-constitucionais relevantes (6 valores).
b) A iniciativa legislativa que o Governo apresentou em Outubro poderia antes ser uma proposta
de lei de bases? E poderia o Governo desenvolvê-la? (2,5 valores)
c) Na última frase do caso prático, em lugar de promulgar, poderia o PR ter vetado o diploma?
(1,75 valores)
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Exame de DIREITO CONSTITUCIONAL I e II
Época Normal - 19 de Junho de 2012
Critérios indicativos de correção
I TRÊS das seguintes questões (1,75 valores cada)
a)
- noção de poder constituinte;
- limites ao poder constituinte ( imanentes, transcendentes, heterónomos);
- limites ao poder constituinte derivado ( poder de revisão).
b)
- artigo 282.º CRP;
- efeitos da declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral;
- possibilidade de limitação desses efeitos pelo Tribunal Constitucional.
c)
- veto e promulgação;
- veto político e veto jurídico (com envio ao TC);
- artigos 136.º e 279.º CRP.
d)
- fiscalização sucessiva concreta da constitucionalidade;
- artigo 280.º CRP e 70.º LTC (em especial, n.º 2, a contrario).
e)
- noção de federalismo;
- federalismo verdadeiro e fictício ( como exemplo, a URSS).
II
DUAS das seguintes afirmações (2,25 valores)
a)
- Responsabilidade política: impossibilidade de demissão do Presidente por razões políticas, e
impossibilidade de dissolução do Congresso;
- o sistema eleitoral de eleição do Presidente;
- a unidade do executivo e a inexistência de um governo autónomo face ao Presidente.
A responsabilidade política inerente ao sistema de checks and balances e a influência de Montesquieu.
b)
- noção de lei de valor reforçado – 112.º, 2 e 3, CRP;
- pluralidade de critérios: forma e procedimento, e parametricidade material;
- valor reforçado e ilegalidade.
c)
- DLG vs DESC;
- normas preceptivas exequíveis ( ex. artigo 24.º) e não exequíveis por si mesmas( ex. artigo 35.º);
- restrição e conformação;
- inconstitucionalidade por omissão.
III
a) (6 valores)
- A reserva de iniciativa das LAL a favor do Governo: indicação sumária do respetivo fundamento.
- O prazo da LAL: a inexistência de um critério constitucional expresso e o problema dos seus limites – aspecto
a valorizar: renúncia à competência por parte da AR?
- A reserva relativa de competência da AR: art.165.º, n.º 1, c).- Carência de sentido e extensão da LAL? (art.
165.º, n.º 2).
- A maioria necessária para a aprovação da lei: art. 116.º, n.º 3.
- O carácter não inovador da LAL na ordem jurídica em termos da criação de direito e constituição de deveres.
-A fiscalização concreta – e não abstracta -, e os termos em que a mesma é pedida (sumariamente) à luz do
artigo 280.º.
-A competência do Conselho de Ministros para aprovar decretos-leis (art. 200.º, n.º 1, d)).
-O princípio da igualdade (art. 13.º).
-A relação do decreto-lei com o problema da ausência de sentido e extensão da LAL, e a questão da
inconstitucionalidade consequente.
-O prazo da promulgação (art. 136.º, n.º 4).
-A impossibilidade de confirmação governamental na sequência do veto (art. 136.º).
-Ainda assim, a obrigatoriedade do uso do decreto-lei, e não do decreto regulamentar: arts. 112.º, 165.º e 198.º
(valorizar argumentos).
-A iniciativa legislativa genérica do Governo (art. 167.º, n.º 1).
-A distinção entre iniciativa e competência, e a previsão constitucional desta (art. 164.º, c)).
-A identificação como matéria de lei orgânica (art. 166.º, n.º 2); a votação na especialidade pelo Plenário da
AR e a insuficiente maioria para a aprovação da lei (art. 168.º, n.os 4 e 5).
-Regime de fiscalização preventiva das leis orgânicas e promulgação vedada (art. 278.º, n.os 4 a
7).
b) (2,5 valores)
- O problema da sujeição da matéria à reserva (absoluta) de regime jurídico integral.
- A impossibilidade de habilitação de legislação governamental no âmbito da reserva absoluta (e sua relação com as
teses da reserva governamental de desenvolvimento de leis de bases).
c) (1,75 valores)
Analogia de razões com a promulgação vedada? (art. 278.º, n.º 4).
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Exame (FRACCIONADO) de DIREITO CONSTITUCIONAL II
Época Normal - 19 de Junho de 2012
Duração: 2h30
I
Responda sucintamente a apenas duas das seguintes questões (2,5 valores por questão):
a) Existem no ordenamento jurídico português excepções ao princípio de que as normas
jurídicas declaradas nulas com fundamento em inconstitucionalidade devem ser
imediatamente erradicadas do ordenamento jurídico?
b) Veto e recusa de promulgação de norma com fundamento em inconstitucionalidade são
conceitos equivalentes?
c) Em que circunstâncias é que os recursos de decisões judiciais relativas à constitucionalidade
podem ser directamente interpostos para o Tribunal Constitucional?
II
Diga se concorda e comente sucintamente uma das seguintes afirmações (3,5 valores):
a) "Perante a indeterminação do conceito de leis reforçadas introduzido pela 2ª revisão
constitucional, a Lei Constitucional nº1/97 pretendeu eliminar algumas dúvidas através da
densificação jurídico-constitucional de tal conceito. Fê-lo, porém, de forma contestável no plano da
legiferação constitucional. (...) Vê-se, assim que em termos de técnica se misturam critérios
funcionais com critérios paramétricos, sem que com toda a segurança se tenha resolvido o
problema aberto desde a 2ª revisão. O de saber se as leis reforçadas seriam uma categoria
meramente dogmática ou se aspiravam a perfilar-se como um tipo jurídico constitucional de lei”
Gomes Canotilho, Conceito de Leis de valor reforçado, Legislação, nº 19/20, 1997
b) “(...) os preceitos constitucionais relativos aos direitos, liberdades e garantias não têm, todos
eles, o mesmo grau de determinação em face do legislador, como se vê precisamente na diversidade
de poderes que a Constituição a este reconhece” Vieira de Andrade, Legitimidade e legitimação da
justiça constitucional (obra coletiva) Coimbra, 1995
III
Atente no seguinte caso prático:
Em 20 de Abril de 2010, um grupo de cinco deputados de um partido da oposição apresentou na
Assembleia da República (AR) um projeto de lei de autorização legislativa, nos termos do qual o
Governo ficava autorizado a, no prazo de 600 dias, aprovar a criação do “crime de esbanjamento
em tempos de crise”. Tal lei obteve 100 votos favoráveis, 80 votos contra e 30 abstenções.
Passado apenas um mês da publicação daquela lei de autorização, já Amâncio havia sido julgado e
condenado pela prática de um “crime de esbanjamento …”, tendo de imediato solicitado ao
Tribunal Constitucional (TC) a declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral da
mesma lei.
Entretanto, como medida social, o Primeiro-Ministro aprovou um decreto-lei, no uso da
autorização legislativa, nos termos do qual pelo “crime de esbanjamento …” apenas poderiam ser
condenados cidadãos sujeitos ao último escalão de IRS. O Presidente da República (PR), porém,
vetou o decreto-lei passados trinta dias da sua receção, mas o Governo viria a confirmar o mesmo,
sob a forma de resolução do Conselho de Ministros.
Já em Outubro, o Governo apresentou na AR uma proposta de lei que visava a alteração da “Lei do
Tribunal Constitucional”, no sentido de apenas ele poder julgar cidadãos pela prática do “crime de
esbanjamento ...”, o que viria obter 114 votos favoráveis, 70 contra, e 20 abstenções. De imediato,
o PR promulgou o diploma.
a) Aprecie as diversas questões jurídico-constitucionais relevantes (7 valores).
b) A iniciativa legislativa que o Governo apresentou em Outubro poderia antes ser uma proposta
de lei de bases? E poderia o Governo desenvolvê-la? (2,5 valores)
c) Na última frase do caso prático, em lugar de promulgar, poderia o PR ter vetado o diploma? (2
valores)
FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Exame (FRACCIONADO) de DIREITO CONSTITUCIONAL II
Época Normal - 19 de Junho de 2012
Critérios indicativos de correção
I. DUAS das seguintes questões (2,5 valores cada)
a)
- artigo 282.º CRP;
- efeitos da declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral;
- possibilidade de limitação desses efeitos pelo Tribunal Constitucional.
b)
- veto e promulgação;
- veto político e veto jurídico (com envio ao TC);
- artigos 136.º e 279.º CRP.
c)
- fiscalização sucessiva concreta da constitucionalidade;
- artigo 280.º CRP e 70.º LTC (em especial, n.º 2, a contrario).
II
UMA (3,5 valores):
a) - noção de lei de valor reforçado – 112.º, 2 e 3, CRP;
- pluralidade de critérios: forma e procedimento, e parametricidade material;
- valor reforçado e ilegalidade.
b)
- DLG vs DESC;
- normas preceptivas exequíveis ( ex. artigo 24.º) e não exequíveis por si mesmas( ex. artigo 35.º);
- restrição e conformação;
- inconstitucionalidade por omissão.
III
a) (7 valores)
- A reserva de iniciativa das LAL a favor do Governo: indicação sumária do respetivo
fundamento.
- O prazo da LAL: a inexistência de um critério constitucional expresso e o problema dos seus
limites – aspeto a valorizar: renúncia à competência por parte da AR?
- A reserva relativa de competência da AR: art.165.º, n.º 1, c).- Carência de sentido e extensão da LAL? (art.
165.º, n.º 2).
- A maioria necessária para a aprovação da lei: art. 116.º, n.º 3.
- O carácter não inovador da LAL na ordem jurídica em termos da criação de direito e
constituição de deveres.
-A fiscalização concreta – e não abstracta -, e os termos em que a mesma é pedida
(sumariamente) à luz do artigo 280.º.
-A competência do Conselho de Ministros para aprovar decretos-leis (art. 200.º, n.º 1, d)).
-O princípio da igualdade (art. 13.º).
-A relação do decreto-lei com o problema da ausência de sentido e extensão da LAL, e a questão
da inconstitucionalidade consequente.
-O prazo da promulgação (art. 136.º, n.º 4).
-A impossibilidade de confirmação governamental na sequência do veto (art. 136.º).
-Ainda assim, a obrigatoriedade do uso do decreto-lei, e não do decreto regulamentar: arts.
112.º, 165.º e 198.º (valorizar argumentos).
-A iniciativa legislativa genérica do Governo (art. 167.º, n.º 1).
-A distinção entre iniciativa e competência, e a previsão constitucional desta (art. 164.º, c)).
-A identificação como matéria de lei orgânica (art. 166.º, n.º 2); a votação na especialidade pelo
Plenário da AR e a insuficiente maioria para a aprovação da lei (art. 168.º, n.os 4 e 5).
-Regime de fiscalização preventiva das leis orgânicas e promulgação vedada (art. 278.º, n.os 4 a
7).
b) (2,5 valores)
- O problema da sujeição da matéria à reserva (absoluta) de regime jurídico integral.
- A impossibilidade de habilitação de legislação governamental no âmbito da reserva absoluta (e sua relação com as
teses da reserva governamental de desenvolvimento de leis de bases).
c) (2 valores)
Analogia de razões com a promulgação vedada? (art. 278.º, n.º 4).