FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
Exame de DIREITO CONSTITUCIONAL
EXAME FINAL
Época de Recurso - 3 de Julho de 2020
Duração: 2h
N.B. Apresente respostas completas, referindo o fundamento teórico das soluções
encontradas e/ou as querelas doutrinais nos casos em que se justifique.
I. Comente as seguintes afirmações (8 valores/4=2 valores cada questão)
1. A referenda prevista hoje na CRP tem origens noutros institutos da história
constitucional portuguesa.
2. O entendimento da separação de poderes é diferente nos modelos britânico e norte
americano.
3. Uma norma de revisão tem um propósito expresso de vicissitude constitucional.
4. Os princípios de inter-relação legislativa previstos no artigo 112.º da CRP reflectem
a estrutura da forma de Estado português.
II. Resolva o seguinte caso prático (12 valores/4=3 valores por número):
1. A 1 de Julho de 2019, na sequência da aplicação de sanções a Portugal no âmbito de
um procedimento por défice excessivo conduzido pela Comissão Europeia, o Presidente
da República apresentou uma proposta de lei de Orçamento de Estado à Assembleia da
República. Invocando, para tal, uma situação de emergência financeira, nela procedeu a
um corte abrupto de 20% da despesa do Estado. Tendo aberto o período de férias dos
Deputados, apenas 115 puderam estar presentes nas três votações, tendo votado todos a
favor na votação final global, a 15 de Julho. Aconselhado a esperar pelo fim do verão, o
Presidente da República promulgou e referendou o referido decreto no primeiro dia do
Outono.
2. O artigo 75.º da referida lei do Orçamento do Estado tinha o seguinte teor: “É proibida
a caça ao açor na Região Autónoma dos Açores”. O Governo Regional dos Açores
protestou violentamente contra a sua aprovação, por considerar que se violava o Estatuto
Político-Administrativo da Região Autónoma, e aprovou um decreto legislativo regional
com um artigo único que procedia à revogação da referida norma.
3. A pedido do Governo Regional, o Representante da República para a Região Autónoma
dos Açores formulou, em dezembro, um pedido de fiscalização da constitucionalidade do
citado artigo 75.º da lei de Orçamento do Estado ao Tribunal Constitucional. Este,
passados 3 anos, prolatou um acórdão em que considerava que, não só a referida norma,
mas a totalidade do diploma era inconstitucional. Determinava, contudo, que a decisão
do TC só produziria efeitos no ano seguinte.
4. Considerando o acórdão inconstitucional, a doutoranda Tânia pretende impugná-lo por
forma a que lhe sejam devolvidos os cortes mensais de 20% à sua bolsa de Doutoramento
ao longo dos 3 anos em que vigorou a lei em questão.
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Exame de DIREITO CONSTITUCIONAL
EXAME FINAL
Época de Recurso - 3 de Julho de 2020
Critérios indicativos de correcção
I. Comente as seguintes afirmações (8 valores/4=2 valores cada questão)
1. O artigo 140.º da CRP e a justificação da figura (e diferenças) face à Constituição de
1933.
2. Explanação dos modelos e, em especial, dos sistemas de governo; A coordenação por
integração e a coordenação por oposição.
3. Caracterização do poder constituinte derivado; A aplicação das normas constitucionais
no tempo
4. O princípio da tipicidade; A forma de Estado soberano unitário parcialmente
regional; a justificação da previsão da autonomia legislativa regional; Crítica à
evolução do artigo 227.º.
II. (12 valores/4=3 valores por número):
1. Iniciativa legislativa reservada ao Governo, nos termos do artigo 161.ºg); O PR
de resto nem sequer detém qualquer iniciativa legislativa (artigo 167.º a
contrario); A proposta de lei não viola a lei travão (artigo 167.º/2) visto que se
trata de uma redução de despesa; A sessão teve lugar fora do período normal de
funcionamento da AR (artigo 174.º/2), o que não constituiria obstáculo desde que
se procedesse como determina o artigo 174.º/3; Há necessariamente lugar a
discussão e votação na generalidade e especialidade e a votação final global
(artigo 168.º/ 1 e 2); O quorum não foi respeitado, uma vez que estavam presentes
menos de 116 Deputados (artigo 116.º/2); Não se tratando de lei orgânica, nem de
matéria em relação à qual a constituição exija maioria qualificada, a maioria de
aprovação era a maioria simples (artigo 116.º/3), que se encontraria respeitada na
votação final global; A promulgação tem um prazo de 20 dias contados da
recepção por parte do PR (artigo 136.º/1), o que é altamente improvável que tenha
sido respeitado; Ultrapassado o referido prazo, o PR apenas não poderia exercer
o direito de veto, podendo ainda promulgar, verificando-se uma mera
irregularidade; A referenda ministerial compete ao Governo (artigo 140.º/1), não
tendo prazo, mas sem a qual o acto será inexistente (artigo 140.º/2).
2. Deveria discutir-se a qualificação como cavaleiro orçamental; Nos termos dos
artigos 112.º/4 e 227.º/1 a) é duvidosa a possibilidade de a AR legislar em termos
exclusivos quando não se trate da matéria reservada; A LOE não pode violar os
direitos das RA que estejam consagrados nos respetivos EPA (a contrario artigo
281.º1d)); No que diz respeito ao DLR, é organicamente inconstitucional (artigo
232.º/1); Seria necessário discutir se, e em que medida, são respeitados os três
requisitos constitucionais para o exercício da competência legislativa regional
inscritos nos artigos 112.º/4 e 227.º/1a)) e 228.º; Em todo o caso, a forma como a
CRP configura as relações entre lei, DL e DLR não é de revogação, pelo que o
DLR nos termos do arrigo 228.º/2 não poderá ter pretensões revogatórias.
3. O RR tem legitimidade activa nos termos do artigo 281.º/2g) ; Dado que o diploma
já tinha sido promulgado trata-se de um processo de fiscalização sucessiva
abstracta, que não tem prazo; O TC pode restringir os efeitos da declaração mas
não pode diferir efeitos (artigo 282.º/1 e 4).
4. A fiscalização é de norma jurídica (artigos 204.º e 280.º) do qual estão excluídas
normas da função jurisdicional.