DIVERSOS
DIVERSOS
JAIRO
Algumas têm caráter geral e surgem assim que contemplamos a matemática
de uma perspectiva reflexiva. Por exemplo, a zoologia estuda animais, a
astronomia, os corpos celestes; o que estuda a matemática? A resposta óbvia:
a matemática trata de números, figuras, e outros objetos abstratos do gênero;
mais que uma solução, é fonte de novos questionamentos, pois o que são,
afinal, os números, as figuras e os outros objetos matemáticos; que realidade
atribuir-lhes, são meras invenções nossas ou existem independentemente de
nós e, em caso afirmativo, que lugar habitam, já que não são objetos espaço-
temporais? Em geral, que tipo de objeto é um objeto abstrato da matemática?
P23 história
M as ela também não pode ignorar a história da matemática. Imre Lakatos, um
filósofo da matemática que trouxe para essa disciplina alguns temas caros à
filosofia da ciência de Popper (mas não se restringiu a isso, produzindo idéias
originais muito interessantes), dizia, coberto de razão, que a filosofia da
matemática sem a história da matemática é vazia, e esta sem aquela é cega
(adaptando um conhecido dito de Kant: o entendimento sem a sensibilidade é
vazio, a sensibilidade sem o entendimento é cega - sendo que, para Kant, a
sensibilidade é a nossa capacidade, ou faculdade, se sermos afetados pelo
ambiente por meio dos sentidos, e entendimento nossa capacidade de produzir
juízos). A história da matemática gua
A história da matemática guarda lições importantes para um filósofo da
matemática. A maior delas é que a matemática é um produto da cultura
humana, não uma espécie de maná caído dos céus. Ela muda com o tempo,
em função das culturas em que viceja 2 2 JAIRO JOSÉ DA SILVA e dos
problemas práticos e teóricos que essas culturas enfrentam. A matemática dos
gregos, por exemplo, que a inventaram nos moldes como a entendemos hoje,
deve tanto ao espírito teórico-especulativo de sua cultura quanto a matemática
dos babilônios, ao caráter prático de uma cultura talvez mais preocupada com
problemas cotidianos que com metafísica. A geometria projetiva de Kepler e
Desargues, no início do século XVII, para tomarmos outro exemplo, surge em
contraponto ao uso da perspectiva linear na pintura renascentista, e nenhuma
delas seria possível ao espírito finitista e à sensibilidade tátil - não visual - dos
gregos7.
Que a matemática seja um produto cultural, como a ciência, a arte, os sistemas
de crença etc., nos impede de prever como ela será no futuro, o que talvez
sugira ao filósofo historicamente bem informado que é inútil buscar uma
essência imutável da matemática, e que as várias respostas dadas, por
filósofos de várias épocas, sobre a natureza da matemática, seus objetos e
métodos, devam ser lidas à luz da matemática e da cultura à época em que
eles produziram suas filosofias. Ademais, a matemática tem muitas moradas (o
que justifica que seja chamada de matemáticas, no plural, como o fazem o
Inglês e o Francês). Isso, eu creio, explica o poder esclarecedor que múltiplas e
díspares filosofias da matemática parecem ter. Afinal, é possível que cada uma
delas ilumine um recanto particular desse domínio tão amplo e multiforme, ou
então a matemática produzida na época em que essa filosofia foi gestada.
P35
Os pitagóricos são conhecidos principalmente pela teoria, meio metafísica,
meio mágica, que tudo se reduz a números. Além de Galileu, que dizia que o
livro do Universo está escrito em caracteres matemáticos, talvez também
derive do pitagorismo as crenças mágicas da numerologia, ainda bastante
vivas entre os que abrem mão da 1 Veja a propósito Eggers Lan, 1995.
FILOSOFIAS DA MATEMÁTICA 33 ciência, mas não do pressuposto de que há
uma ordem no Universo, onde tout se tient. A teoria da constituição numérica
do mundo é também tributária de uma outra contribuição notável dos
pitagóricos: a descoberta que os intervalos musicais correspondem a razões
numéricas simples (a oitava a V2, a quarta aV3e a quinta a V).
P35
Uma descoberta em particular, atribuída aos pitagóricos, constituiu-se numa
das mais importantes descobertas matemáticas daquela época—e talvez de
qualquer é p o c a a d a s grandezas incomensuráveis. Eles descobriram que a
média proporcional, ou geométrica, entre a unidade e o seu dobro - isto é ,o x
tal que \/x = x / 2 -n ã o podia ser expressa em termos dessa unidade2. M as
essa foi uma conquista amarga, pois levantava dúvidas quanto à correção da
tese pitagórica de que os números eram os constituintes últimos da realidade
(por isso essa descoberta deveria ser mantida em segredo e, segundo a lenda,
custou a vida do filósofo pitagórico que a divulgou Hippasus).
P38
Platão e seu discípulo Aristóteles são, em muitos sentidos, filósofos
paradigmáticos. Os sistemas filosóficos que erigiram oferecem um vasto
repertório de idéias que a tradição freqüentemente retoma e elabora. E isso
não é menos verdade no caso da filosofia da matemática. As teorias sobre a
natureza da matemática - dos seus objetos em particular - propostas por
ambos oferecem dois modelos exem- FILOSOFIAS DA MATEMÁTICA 37
piares de explicação. Enquanto para Platão as entidades matemáticas
constituem um domínio objetivo independente e auto-suficiente, ao qual temos
acesso pelo entendimento4, para Aristóteles os entes matemáticos têm uma
existência parasitária dos objetos reais - uma vez que objetos matemáticos só
existem encarnados em objetos reais - e só nos são revelados com o concurso,
ao menos em parte, dos sentidos. Para Platão, o mundo real apenas reflete
imperfeitamente um mundo puro de entidades perfeitas, imutáveis e eternas -
os conceitos matemáticos entre elas. Para Aristóteles, o mundo sensível é a
realidade fundamental, os entes matemáticos são “extraídos” dos objetos
sensíveis por meio de operações do pensamento, e os conceitos matemáticos
são apenas modos de tratar o mundo real.
P46
Podemos dizer que, para Aristóteles, os objetos matemáticos são uma
abstração apenas ou, na pior das hipóteses, uma ficção útil. Eles não têm
existência separada dos objetos empíricos, são apenas aspectos deles, e se à
vezes os pensamos como independentes, isso é apenas um modo de pensar
sem maiores conseqüências práticas20. Um objeto empírico é um objeto
matemático na medida em que nós podemos considerá-lo do ponto de vista de
seu aspecto matemático, ou seja, como um objeto matemático.
P47
Assim, numa compreensão mais ampla, a matemática, segundo Aristóteles,
trata não apenas de formas abstratas atuais, mas também de formas
simplesmente possíveis2
P53
Aristóteles e o infinito
Mas as contribuições de Aristóteles à matemática não param por aí. Devemos-
lhe a distinção fundamental entre o infinito atual e o infinito potencial, ou seja,
entre a noção de uma totalidade finita em que sempre cabe mais um
indefinidamente-- o infinito potencial—e uma totalidade infinita acabada.
Segundo Aristóteles, aos matemáticos bastava a noção de infinito potencial. Se
bem que essa idéia não corresponda à realidade da prática matemática, uma
vez que a noção de infinito atual é essencial a muitas teorias matemáticas, ela
foi, e ainda é, aceita por muitos matemáticos, que não vêem na matemática do
infinito senão uma fonte de absurdos e contradições. Poincaré, já no século
XX, ainda afirmava que o infinito matemático é sempre potencial. O infinito
atual recebeu um tratamento matemático apropriado apenas com a teoria dos
conjuntos de Cantor, no século XIX, mas essas idéias foram criticadas em seu
tempo e, ainda hoje, há quem resista a elas, como os matemáticos de índole
construtivista, para os quais nada existe que não possa ser de algum modo
construído efetivamente - o que conjuntos atualmente infinitos evidentemente
não podem, se, como parece, os conjuntos são construídos a partir de seus
elementos.
P95
Kant
A filosofia teórica de Kant se apresenta precisamente como uma resposta à
pergunta "Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?” . Ou seja, como é
possível um conhecimento, útil na organização dos dados da experiência, mas
que, paradoxalmente, é independente dela? Para Kant, contrariamente a
Leibniz, o conhecimento matemático é o paradigma de tal conhecimento.
Afinal, nós não precisamos de modo essencial do testemunho dos sentidos
para desenvolver a ciência matemática; as teorias matemáticas dispensam o
teste da experiência, mas, não obstante, são indispensáveis para a
organização dessa mesma experiência. O conhecimento matemático não é
(acreditava Kant) uma imensa tautologia; ele não se constitui na mera
explicitação dos conceitos envolvidos nos enunciados matemáticos, como
pensava Leibniz. Asserções como “nenhum homem solteiro é casado”, por
exemplo, explicitam, mas não acrescentam nada de novo ao que já sabemos.
Os enunciados matemáticos, como 2 + 2 = 4, porém (ainda segundo Kant), não
são desse tipo, eles nos dizem mais do que poderiamos descobrir pela mera
análise dos conceitos neles envolvidos.
As ciências empíricas, como a física ou a biologia, contêm apenas enunciados
informativos de tipo sintético, e é fácil entender como eles são possíveis. Que
certos conceitos estejam entre si de certa forma relacionados, como os
conceitos de água e ponto de ebulição no enunciado “o ponto de ebulição da
água pura no nível do mar é 100°C” , é uma informação que os usuais cinco
sentidos podem nos dar. Ela está sustentada pelo menos em parte (pois há
nela um elemento de generalidade que não pode ser fundado na experiência)
no testemunho dos sentidos. Por isso as verdades sintéticas das ciências
empíricas são a posteriori, como diz Kant, isto é, elas dependem de
confirmação empírica. Mas como a experiência é sempre limitada e sujeita à
revisão, os enunciados empíricos só podem ser generalizados para todos os
casos (todas as amostras de água; em qualquer momento; etc.)àcusta de
pressupostos a priori sobre a regularidade da natureza e a legalidade dos
fenômenos naturais, ou, na falta deles, uma dose de fé. Nós certamente temos
razões para crer que certos enunciados sintéticos a posteriori gerais, como a lei
que rege a ebulição da água, sejam verdadeiros, mas não podemos eliminar
logicamente a possibilidade que não o sejam.
P98
M as ainda há mais. Talvez o que mais impressiona na matemática seja sua
aplicabilidade ao mundo da experiência. Apesar de imune à confirmação ou
negação pela experiência, isto é, apesar de a priori como quer Kant, a
matemática é, paradoxalmente, capaz de organizar os dados empíricos. Esse
mistério clama por elucidação. Gomo é possível que a matemática seja
simultaneamente a priori e útil? Essas são questões que a filosofia crítica de
Kant responde de modo exemplarmente elegante. Vejamos como.
Esse exemplo ilustra bem dois fatos: que não pode haver atribuição de um
número a uma coleção de objetos a menos de um conceito que fixe uma
unidade; e que atribuições de quantidade são operações do entendimento
antes que da sensibilidade, para usar uma distinção kantiana. O próprio Kant
admitiu que o número fosse um conceito do entendimento1, por oposição aos
conceitos geométricos, que são conceitos sensíveis. Para ele, ainda que
sintéticas, as verdades da aritmética envolvem conceitos não-sensíveis.
P129
Se uma demonstração possível de uma proposição envolve apenas leis lógicas
gerais e definições, essa proposição é analítica; se, pelo contrário, qualquer
demonstração dela lança mão de verdades de escopo limitado (como os
axiomas da geometria), ela é sintética. Se há uma demonstração da asserção
que se fundamenta apenas em verdades gerais, ela é a priori; se qualquer
demonstração sua, porém, utiliza verdades particulares, embora não
demonstráveis (como as asserções que expressam os dados imediatos dos
sentidos), ela é a posteriori.
P130
Como já vimos, a tradição responde a essa questão em coro: números são
atributos de coleções (de coisas, de unidades indiferenciadas, seja lá o que
for). Frege discrepa. Para ele, números são atributos de conceitos. Dizer que
há quatro estações no ano é dizer que quatro é o número de estações do ano.
Para Frege, o número 4 se refere ao conceito “estações do ano” , não à
extensão desse conceito, a coleção de estações do ano. A diferença entre a
formulação adjetiva “há quatro estações no ano” e a formulação substantiva
“quatro é o número de estações no ano” é fundamental. Mostrar que o uso
adjetivo de termos numéricos pode ser reduzido ao seu uso substantivo — mas
não reciprocamente - desempenha um papel importante no argumento de
Frege de que números são objetos (e objetos lógicos ademais). E essa é uma
verdadeira idéia fixa de Frege.
Se denotarmos o conceito “estações do ano” por E a asserção numérica “há
quatro estações no ano” pode, segundo Frege, ser escrita assim: 4 = NxEx, lido
como “4 é igual ao número que pertence ao conceito E ” . Analogamente com
todas as asserções numéricas. Uma pergunta agora é crucial: quando dois
conceitos têm o mesmo número? A resposta, aparentemente óbvia, que Frege
dá é a seguinte: quando existe entre as coleções de objetos aos quais eles se
aplicam (suas extensões) uma correspondência um a um (biunívoca.)
P132
M as atentemos um instante para a caracterização dos números como objetos.
Como dissemos antes, Frege acreditava que os números são objetos que
existem independentemente de nós. Embora existindo independentemente, e,
portanto, objetivamente, os números não eram para ele objetos reais em
nenhum sentido do termo. Isto é, não eram objetos físicos nem mentais. Frege
fornece um exemplo prosaico de outras entidades objetivas, mas não reais, Por
exemplo, o trópico de Capricórnio. Essa linha imaginária tem até localização no
espaço, mas nenhuma propriedade física, ela existe objetivamente, mas não é
um objeto real. O trópico de Capricórnio só existe na verdade, e só podemos
localizá-lo, no contexto de um sistema de coordenadas e um conjunto de
convenções de medida, fora disso não podemos nem sequer nos referir a ele e
a expressão “trópico de Capricórnio” não tem um sentido determinado. O
mesmo se passa com os números. Só podemos nos referir a eles no contexto
de uma teoria que fala deles, isto é, a aritmética. Isso garante simultaneamente
um locus, isto é, uma “residência” para esses objetos, e uma forma de acesso
a eles. Os números existem no contexto da aritmética, eles “habitam” os
espaços dessa teoria, para usar uma metáfora. E ademais nosso acesso a eles
é mediado por essa ciência, só por meio da aritmética (que é uma ciência
objetiva) podemos ascender ao domínio (objetivo) dos números. Isso tudo é
conseqüência de um princípio que Frege considera fundamental, o chamado
princípio do contexto: nunca pergunte pelo significado de um termo
isoladamente, apenas em proposições os termos têm significado7
Se pudermos mostrar que a aritmética é redutível à lógica pura, então, como os
números só existem no contexto da aritmética (princípio do contexto), teremos
mostrado que, na verdade, eles só existem no contexto da lógica, isto é, os
números são eles próprios objetos lógicos
P145
Como vimos antes, Kant exigia que os enunciados geométricos e aritméticos
verdadeiros fossem intuitivamente justificados (isto é, demonstrados por meio
de construções intuitivas), e os conceitos numéricos e geométricos, construídos
(isto é, seus exemplos deveriam ser apresentados a priori na intuição pura).
Kant não hesitou em banir da matemática tudo o que não fosse atual ou
potencialmente construído, como as raízes quadradas de números negativos.
Segundo ele, essas raízes são pseudonúmeros, por não admitirem
exemplificação intuitiva (na verdade, para Kant, a própria noção de número
imaginário era absurda, como já dissemos).
P223
Qualquer teoria do conhecimento deve enfrentar talvez o mais sério problema
levantado pelo conhecimento matemático: como é possível que uma ciência a
priori seja relevante para o conhecimento da realidade empírica? Pois ser
independente da experiência, mas aplicar-se a ela, parece ser a característica
mais fundamental da matemática1. Aparentemente, ela é criada sem nenhum
apelo essencial à experiência, mas contra toda expectativa razoável, a
natureza só parece disposta a revelar seus segredos em forma matemática.
Como se explica isso?
STEPHEN F. BARKER
P43
Platão apresentou, a propósito, um argumento incisivo. Sustentou que os
nossos conhecimentos das verdades geométricas não poderiam receber apoio
da evidência colhida pelos sentidos, uma vez que através dêstes nunca
chegamos a entrar em contato com pontos, linhas ou figuras genuínos. Nunca
vemos pontos; o que vemos são manchas que têm partes. Nunca vemos linhas
retas; o que vemos são linhas com certa largura e sempre com algum desvio.
Nunca vemos um círculo genuíno ou um triângulo eqüilátero genuíno; com
efeito, as figuras que vemos nunca são limitadas por linhas perfeitas e bem
proporcionadas. Em conseqüência, o conhecimento geométrico não pode estar
assentado na evidência sensorial, pois essa evidência não existe. O
conhecimento geométrico deve ser a priori, não empírico, se o argumento é
correto.
P80
Desde os seus primórdios, o desenvolvimento da Matemática dos números
deve ter dado origem a perplexidades filosóficas. Os números inteiros, 1, 2, 3,
etc., não são, por certo, muito embaraçosos, já que a sua legitimidade parece-
nos clara quando contamos os animais de uma horda ou os reis de uma
dinastia. As frações também não são muito perturbadoras, já que as podemos
encarar como quocientes de números inteiros, muito úteis para comparar
tamanhos de terras ou durações de tempo. Podemos imaginar, porém, que
deve ter havido um movimento de inquietação quando os babilônios, desejando
referir-se ao resultado obtido ao subtrair um número dêle mesmo, introduziram
o símbolo para o zero, tratando-o, depois, como se o zero fôsse um dos
números inteiros. Zero parece o vazio, é como o nada; como é possível, pois,
fazer referências ao zero, admitindo que seria alguma coisa, um número
genuíno? A inquietação· decresceu gradualmente, sem dúvida, quando se
percebeu que o zero é adequado para "contar" o número de animais de um
campo vazio ou o número de reis de um período republicano. A introdução de
símbolos para os números negativos deve ter sido outra fonte de dúvidas; os
números negativos parecem ser, de algum modo, números que não estão aí,
fantasmas imaginários de números. Seria legítimo chamá-los números? Nos
tempos modernos, a introdução de símbolos para os números imaginários
despertou questões semelhantes. Mesmo que se admita a legitimidade de um
discurso acêrca de números negativos, não seria ir longe demais falar da raiz
quadrada de menos um como se fôra um número? Não ·sefia mais sensato
dizer que menos um não admite raiz quadrada?
P88
A teoria de Cantor vale-se da importante noção de correspondência um-a-um
( ou biunívoca). Dizemos que os elementos de um conjunto S1 estão em
correspondência biunívoca, ou um-a-um, com os elementos de outro conjunto
S2 se existir algum modo de associar elementos de um conjunto a elementos
do outro de tal maneira que a, cada elemento de S1 se associe exatamente um
elemento de S2, e a cada elemento de S2 se associe exatamente um elemento
de S1. Consideremos os passageiros de um ônibus: se cada passageiro
ocupar um assento, o conjunto de passageiros e o conjunto de assentos
estarão em NÚMEROS E FILOSOFIAS ACÊRCA DOS NÚMEROS 87
correlação biunívoca. Nessas circunstâncias, o conjunto de passageiros teria,
como é claro, o mesmo número de elementos que teria o conjunto de assentos
- não importando qual fôsse êsse número. Por outra [Link], se cada assento
estivesse ocupado por um passageiro, havendo, contudo, passageiros viajando
em pé, o conjunto de passageiros seria mais amplo que o conjunto de
assentos. Consideremos, nesse exemplo, dois conjuntos de tamanho finito
(não poderia existir um ônibus de tamanho infinito). A idéia de Cantor era que
os conjuntos infinitos também poderiam estar em correlação um..:a-um,
tornando-se possível comparar conjuntos, mesmo no caso de conterem uma
infinidade de elementos. Sustentava Cantor que dois conjuntos infinitos
deveriam ser considerados de mesma grandeza se, e sàmente se, fôsse
possível correlacionar seus elementos um-a-um; e que um conjunto infinito
deveria ser considerado maior do que outro se, e sàmente se, correlacionados
os elementos dêste último conjunto, um-a-um, aos elementos do primeiro,
sempre restassem alguns elementos dêsse primeiro conjunto. Assim, por
exemplo, o conjunto de números ímpares e o conjunto de números pares são
da mesma grandeza, já que é possível correlacionar biunivocamente seus
elementos, ficando cada número ímpar associado ao seu sucessor imediato.
RUSSEL
P13
A matemática é um assunto cujo estudo, quando iniciado nas suas partes mais
familiares, pode ser conduzido em dois sentidos opostos. O mais comum é
construtivo, no sentido da complexidade gradualmente crescente: dos inteiros
para os fraccionários, os números reais, os números complexos; da adição e
multiplicação para a diferenciação e integração e daí para a matemática
superior. O outro sentido, menos familiar, avança, pela análise, para a
abstracção e a simplicidade lógica sempre maiores; em vez de indagar o que
pode ser definido e deduzido daquilo que se admite no começo, indaga-se que
mais ideias e princípios gerais podem ser encontrados, em função dos quais o
que fora o ponto de partida possa ser definido ou deduzido. É o facto de seguir
este sentido oposto que caracteriza a filosofia matemática, em contraste com a
matemática comum. Mas deve ser entendido que a diferença de sentido da
pesquisa não está no assunto mas sim no estado de espírito. Os geómetras
gregos antigos, ao passarem das regras de agrimensura empíricas egípcias
para as proposições gerais pelas quais se constatou estarem aquelas regras
justificadas, e daí para os axiomas e postulados de Euclides, estavam
praticando a filosofia matemática, segundo a definição acima; porém, uma vez
atingidos os axiomas e postulados, o seu emprego dedutivo, como
encontramos em Euclides, pertencia à matemática no sentido comum. A
distinção entre matemática e filosofia matemática depende do interesse que
inspira a pesquisa e da etapa por esta atingida, e não das proposições que
ocupam a investigação.
Podemos enunciar a mesma distinção de outra maneira. As coisas mais óbvias
e fáceis da matemática não são as que aparecem logicamente no início; são as
que, do ponto de vista da dedução lógica, surgem em algum ponto intermédio.
Assim como os corpos mais fáceis de ver não são os que se encontram muito
perto ou muito longe, nem os muito grandes ou muito pequenos, também as
concepções de 14 Introdução à Filosofia Matemática mais fácil compreensão
não são as muito complexas ou as muito simples (usando o termo «simples»
no sentido ). E, da mesma lógico forma como necessitamos de instrumentos de
dois tipos, o telescópio e o microscópio, para ampliarmos o nosso poder visual,
necessitamos de dois tipos de instrumento para ampliar a nossa capacidade
lógica: um para nos fazer avançar até à matemática superior, outro para levar-
nos de volta aos fundamentos lógicos das coisas que somos propensos a
aceitar como factos consumados em matemática. Constataremos que,
analisando as nossas noções matemáticas ordinárias, adquiriremos uma
introspecção renovada, poderes novos e os meios de chegar a assuntos
matemáticos inteiramente novos pela adopção de novas linhas de
desenvolvimento após a nossa viagem regressiva. O propósito deste livro é
simplesmente explicar a filosofia matemática de maneira não técnica, sem
demorar nas partes que sejam de tal forma duvidosas ou difíceis que tornem
escassamente possível um tratamento elementar. Um tratamento completo das
mesmas encontra-se nos ; o tratamento no presente livrinho tem Principia
Mathematica6 mero carácter de introdução. Para a pessoa de instrução média
de hoje, o ponto de partida óbvio da matemática seria dos a progressão7
números inteiros [positivos]:
P16 Pitagora
O facto de toda a matemática pura tradicional poder ser derivada dos números
naturais é uma descoberta razoavelmente recente, embora há muito
suspeitada. Pitágoras, que acreditava que não apenas a matemática mas tudo
o mais podia ser deduzido dos números
P17 Peano
Uma vez reduzida toda a matemática pura tradicional à teoria dos números
naturais, o passo seguinte na análise lógica foi reduzir esta própria teoria ao
menor conjunto de premissas e termos não definidos dos quais pudesse ser
deduzida. Este trabalho foi realizado por Peano. Ele mostrou que a teoria dos
números naturais podia ser 10 deduzida de três conceitos primitivos e cinco
proposições primitivas, além das da lógica pura. Estes três conceitos e cinco
proposições tornaram-se, deste modo, por assim dizer, o suporte de toda a
matemática pura tradicional. Se elas pudessem ser definidas e demonstradas
em termos de outras, também o poderia toda a matemática pura. O seu «peso»
lógico, se me é permitido usar tal expressão, é igual ao de toda a série de
ciências deduzidas da teoria dos números naturais; a verdade de todas estas
ciências estará garantida caso esteja garantida a verdade das cinco
proposições primitivas, desde que, naturalmente, nada haja de erróneo no
aparato lógico também envolvido. A tarefa de analisar a matemática fica
extraordinariamente facilitada por este trabalho de Peano.
P18
As cinco proposições primitivas adoptadas por Peano são: (1) é um número; !
(2) O sucessor de qualquer número é um número; (3) Não há dois números
com um mesmo sucessor; (4) não é sucessor de número algum; ! (5) Qualquer
propriedade que pertença a , e também ao sucessor ! de todo o número que
tenha essa propriedade, pertence a todos os números.
Essa última proposição é o princípio de indução matemática. Teremos muito a
dizer relativamente à indução matemática no que segue; de momento, estamos
interessados nela somente quanto à sua presença na análise da aritmética de
Peano.
P24 – Número
Ao buscarmos uma definição de número, a primeira coisa a esclarecer é aquilo
que podemos chamar a gramática da nossa indagação. Muitos filósofos, ao
tentarem definir número, dedicam-se, na realidade, ao trabalho de definir
pluralidade, que é coisa muito diferente. Número homem é o que é
característico dos números, como é o que é característico dos homens. Uma
pluralidade não é um exemplo de número, mas de algum número determinado.
Um trio de homens, por exemplo, é um exemplo do número , e o número é um
exemplo de $ $ número; mas o trio não é um exemplo de número. Este ponto
poderá parecer elementar e dificilmente digno de ser mencionado; no entanto,
provou ser excessivamente subtil para os filósofos, com poucas excepções
P27
. Voltando agora à definição de número: é claro que número é uma forma de
reunir certas colecções, isto é, as que têm um dado número de elementos.
Podemos imaginar todos os pares agrupados numa colecção, todos os trios
noutra e assim por diante. Desta maneira obtemos vários agrupamentos de
colecções, consistindo cada agrupamento de todas as colecções que têm um
certo número de elementos. Cada agrupamento é uma classe cujos membros
são colecções, isto é, classes; assim, cada agrupamento é uma classe de
classes. O agrupamento que consiste de pares, por exemplo, é uma classe de
classes: cada par é uma classe com dois membros e o agrupamento inteiro de
pares é uma classe com um número infinito de membros, cada qual uma classe
de dois membros.
Até agora não sugerimos nada que seja minimamente paradoxal. Mas, quando
chegamos à definição efectiva dos números, não podemos evitar o que deverá
parecer, à primeira vista, um paradoxo, embora esta impressão cedo se
desvaneça. Pensamos, naturalmente, que a classe dos pares (por exemplo)
seja algo diferente do número . # Mas não há dúvida alguma quanto à classe
dos pares: é indubitável e não é difícil de definir, enquanto o número , em
qualquer outro # sentido, é uma entidade metafísica de cuja existência nunca
podemos estar seguros e cuja pista nunca podemos estar seguros de ter
perseguido. É, portanto, mais prudente contentar-nos com a classe dos pares,
da qual estamos seguros, do que tentarmos caçar um problemático número
que se mostrará sempre esquivo.
P72
Um dos erros que retardaram a descoberta de definições correctas nesta área
é a ideia comum de que cada extensão do conceito de número inclui os tipos
anteriores como casos especiais. Pensou-se, ao tratar dos números positivos e
negativos, que os inteiros positivos podiam ser identificados com os inteiros
originais sem sinal. Pensou- -se também que uma fracção cujo denominador é
pudesse ser " identificada com o número natural que é o seu numerador. E
pensou- -se que os números irracionais, tais como a raiz quadrada de , #
encontrassem o seu lugar entre as fracções racionais, sendo maiores do que
algumas delas e menores do que outras, de modo que os números racionais e
os irracionais pudessem ser tomados juntos como uma classe, chamada
«números reais». E quando a ideia de número voltou a ser estendida de forma
a incluir os números «complexos isto é, », números que envolvem a raiz
quadrada de , pensou-se que os " números reais pudessem ser considerados
como aqueles números complexos nos quais a parte imaginária (isto é, a parte
que multiplica a raiz quadrada de ) fosse zero. Todas estas suposições eram "
erróneas, devendo ser rejeitadas, como veremos, para que possam ser dadas
definições correctas.
P73
As são mais interessantes do que os inteiros positivos ou fracções negativos.
Necessitamos das fracções para muitos fins, mas talvez mais obviamente para
as medições. O meu amigo e colaborador Dr. A. N. Whitehead desenvolveu
uma teoria das fracções especialmente adaptada à sua aplicação às medições,
a qual é apresentada em Principia Mathematica.59 Mas se tudo o que se
necessita é definir objectos que possuam as propriedades puramente
matemáticas requeridas, este propósito pode ser alcançado por um método
mais simples, que adoptaremos aqui. Definiremos a fracção como sendo
aquela 7Î8 relação que existe entre dois números indutivos e quando B C B8 œ
C7 7Î8 . Esta definição permite demonstrar que é uma relação de um-para-um,
desde que nem nem sejam nulos. E, natural- 7 8 mente, é a relação inversa
de . Pela definição acima torna-se 8Î7 7Î8 claro que a fracção é a relação entre
dois inteiros e que 7Î" B C consiste no facto de que . Esta relação, como a
relação , B œ C7 7 não pode de modo algum ser identificada com o número
cardinal indutivo , porque uma relação e uma classe de classes são objectos 7
de naturezas flagrantemente diferentes. Ver-se-á que é sempre a 60 !Î8 mesma
relação, seja qual for o número indutivo ; ela é, em suma, 8 uma relação entre
e qualquer outro cardinal indutivo. Podemos ! chamá-la o zero dos números
racionais; ela não é, naturalmente, idêntica ao número cardinal . Inversamente,
a relação é sempre ! 7Î! a mesma, seja qual for o número indutivo . Não há
cardinal indutivo algum correspondente a . Podemos chamá-la «o infinito dos
7Î! racionais». É um exemplo da espécie de infinito tradicional em matemática,
que é representado por « ». Trata-se de uma espécie _ 61 inteiramente
diferente da do infinito cantoriano, que consideraremos no próximo capítulo. O
infinito dos racionais não exige, para a sua definição ou uso, quaisquer classes
infinitas ou inteiros infinitos. Não é, na realidade, uma noção importante e
poderíamos desprezá-la inteiramente se houvesse algum interesse em fazê-lo.
O infinito cantoriano, por outro lado, é da maior e mais fundamental
importância; entendê-lo abre o caminho para campos inteiramente novos da
matemática e filosofia.
s «cortes de Dedekind».
P80
A 8 fim de decidir o que deverão ser, observemos que um irracional é
representado por um corte irracional, e um corte é representado pela sua
secção inferior. Limitemo-nos a cortes nos quais a secção inferior não tem
máximo algum; neste caso chamaremos à secção inferior um «segmento»
[«segmento inicial»]. Então, os segmentos que correspondem a razões são os
que consistem de todas as razões menores do que aquela à qual
correspondem, e que constitui a sua fronteira, enquanto os que representam
irracionais são os que não têm fronteira alguma. Os segmentos, tanto os que
têm como os que não têm fronteira, são tais que, de quaisquer dois contidos
numa cadeia, um deve ser parte do outro; portanto, eles podem ser todos
arranjados numa cadeia pela relação de todo e parte. Uma cadeia na qual há
lacunas dedekindianas, isto é, na qual há segmentos que não têm fronteira
alguma, dará origem a mais segmentos do que elementos, porquanto cada
segmento definirá um segmento que tem este elemento para fronteira, e então
os segmentos sem fronteiras serão em excesso.
P82 - Imaginários
Os números ») complexos foram usados familiarmente pelos matemáticos
durante muito tempo, a despeito da ausência de qualquer definição precisa. Foi
simplesmente suposto que eles obedeciam às regras aritméticas usuais, e o
seu emprego, com base nesta suposição, foi vantajoso
P87 Infinito
A mais notável e desconcertante diferença entre um número indutivo e este
novo número é que este novo número não se altera ao ser-lhe adicionado ou
subtraído ", ou ao ser elevado ao dobro ou reduzido à metade ou ao ser
submetido a qualquer das várias operações que consideramos tornar
necessariamente um número maior ou menor. O facto de não ser alterado pela
adição de foi usado por " Cantor para a definição do que ele chama números
cardinais «transfinitos mas, por várias razões, al »; gumas das quais
aparecerão com a continuação, é melhor definir um número cardinal infinito
como um número que não possui todas as propriedades indutivas, isto é,
simplesmente como um número que não é um número indutivo. Não obstante,
a propriedade de não ser alterado pela adição de é muito " importante e
devemos demorar-nos nela por algum tempo.
FREGE
P3
Muitos estimarão decerto que isto não paga a pena. Deste conceito tratam
suficientemente, acreditam eles, os livros elementares, encerrando-se assim o
assunto' de uma vez por todas. Pois quem julga ter ainda o que aprender sobre
algo tão simples? Tanto é o conceito de número inteiro positivo tomado como
livre de qualquer dificuldade, que se imagina possível tratá-lo de maneirá
cientificamente completa e adequada a crianças, cada uma delas podendo
conhecê-lo precisamente sem maiores reflexões e sem se familiarizar como
que outros pensarani - a seu respeito. Falta portanto freqüentemente aquele
primeiro pré-requisito da aprendizageM: o saber do não saber. A conseqüência
é Contentar-se com uma concepção ainda grosseira, embora Herbart já nos
tenha ensinado uma mais correta.' É triste e desolador que deste modo um
conhecimento já adquirido esteja constantemente ameaçado de desaparição,
que tanto trabalho pareça tornar-se inútil porque, acreditando-se numa riqueza
imaginária, não se julga necessário apropriar-se de seus frutos. Também .este_
trabalho, vejo-o bem, expõe-se a este perigo. Defronto-me com o caráter
gross*o desta concepção quando o cálculo é chamado de pensamento
agregativo e mecánico. 2 Duvido que haja um pensa: mento assim. Uma
imaginação agregativa já .dei . -xar-se-ia passar mais facilmente; mas ela não
teria significado algum parkO. cálculo. O pensamento é essencialmente o -
mesmo: não se devem considerar .diferentes espécies 0, leis de pensar mento
conforme os objetos emouestão, À. diferença .consiste apenas na maior ou
menor pureza eindependência . cOln444ab a influências psicológicas e
adjutórios • exteriores, como a linguagem, os numerais; etc., e-ainda, em
alguma medida, na finura da estrutura de cOnce4os;mas justamente neste
ponto a matemática não se P(¥[Link] deixar ultrapassarpor nenhuma ciência,
nem mesmo pela filosofia.