0% acharam este documento útil (0 voto)
41 visualizações24 páginas

DIVERSOS

O documento discute a natureza da matemática, abordando sua relação com a cultura, a história e a filosofia. Destaca a visão de filósofos como Platão e Aristóteles sobre a existência dos objetos matemáticos e a aplicabilidade da matemática ao mundo empírico. Também menciona a contribuição de Kant para a compreensão do conhecimento matemático como sintético e a priori, além de sua utilidade na organização da experiência.

Enviado por

Fábio Ferla
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
41 visualizações24 páginas

DIVERSOS

O documento discute a natureza da matemática, abordando sua relação com a cultura, a história e a filosofia. Destaca a visão de filósofos como Platão e Aristóteles sobre a existência dos objetos matemáticos e a aplicabilidade da matemática ao mundo empírico. Também menciona a contribuição de Kant para a compreensão do conhecimento matemático como sintético e a priori, além de sua utilidade na organização da experiência.

Enviado por

Fábio Ferla
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

DIVERSOS

JAIRO
Algumas têm caráter geral e surgem assim que contemplamos a matemática
de uma perspectiva reflexiva. Por exemplo, a zoologia estuda animais, a
astronomia, os corpos celestes; o que estuda a matemática? A resposta óbvia:
a matemática trata de números, figuras, e outros objetos abstratos do gênero;
mais que uma solução, é fonte de novos questionamentos, pois o que são,
afinal, os números, as figuras e os outros objetos matemáticos; que realidade
atribuir-lhes, são meras invenções nossas ou existem independentemente de
nós e, em caso afirmativo, que lugar habitam, já que não são objetos espaço-
temporais? Em geral, que tipo de objeto é um objeto abstrato da matemática?

P23 história
M as ela também não pode ignorar a história da matemática. Imre Lakatos, um
filósofo da matemática que trouxe para essa disciplina alguns temas caros à
filosofia da ciência de Popper (mas não se restringiu a isso, produzindo idéias
originais muito interessantes), dizia, coberto de razão, que a filosofia da
matemática sem a história da matemática é vazia, e esta sem aquela é cega
(adaptando um conhecido dito de Kant: o entendimento sem a sensibilidade é
vazio, a sensibilidade sem o entendimento é cega - sendo que, para Kant, a
sensibilidade é a nossa capacidade, ou faculdade, se sermos afetados pelo
ambiente por meio dos sentidos, e entendimento nossa capacidade de produzir
juízos). A história da matemática gua
A história da matemática guarda lições importantes para um filósofo da
matemática. A maior delas é que a matemática é um produto da cultura
humana, não uma espécie de maná caído dos céus. Ela muda com o tempo,
em função das culturas em que viceja 2 2 JAIRO JOSÉ DA SILVA e dos
problemas práticos e teóricos que essas culturas enfrentam. A matemática dos
gregos, por exemplo, que a inventaram nos moldes como a entendemos hoje,
deve tanto ao espírito teórico-especulativo de sua cultura quanto a matemática
dos babilônios, ao caráter prático de uma cultura talvez mais preocupada com
problemas cotidianos que com metafísica. A geometria projetiva de Kepler e
Desargues, no início do século XVII, para tomarmos outro exemplo, surge em
contraponto ao uso da perspectiva linear na pintura renascentista, e nenhuma
delas seria possível ao espírito finitista e à sensibilidade tátil - não visual - dos
gregos7.
Que a matemática seja um produto cultural, como a ciência, a arte, os sistemas
de crença etc., nos impede de prever como ela será no futuro, o que talvez
sugira ao filósofo historicamente bem informado que é inútil buscar uma
essência imutável da matemática, e que as várias respostas dadas, por
filósofos de várias épocas, sobre a natureza da matemática, seus objetos e
métodos, devam ser lidas à luz da matemática e da cultura à época em que
eles produziram suas filosofias. Ademais, a matemática tem muitas moradas (o
que justifica que seja chamada de matemáticas, no plural, como o fazem o
Inglês e o Francês). Isso, eu creio, explica o poder esclarecedor que múltiplas e
díspares filosofias da matemática parecem ter. Afinal, é possível que cada uma
delas ilumine um recanto particular desse domínio tão amplo e multiforme, ou
então a matemática produzida na época em que essa filosofia foi gestada.

P35
Os pitagóricos são conhecidos principalmente pela teoria, meio metafísica,
meio mágica, que tudo se reduz a números. Além de Galileu, que dizia que o
livro do Universo está escrito em caracteres matemáticos, talvez também
derive do pitagorismo as crenças mágicas da numerologia, ainda bastante
vivas entre os que abrem mão da 1 Veja a propósito Eggers Lan, 1995.
FILOSOFIAS DA MATEMÁTICA 33 ciência, mas não do pressuposto de que há
uma ordem no Universo, onde tout se tient. A teoria da constituição numérica
do mundo é também tributária de uma outra contribuição notável dos
pitagóricos: a descoberta que os intervalos musicais correspondem a razões
numéricas simples (a oitava a V2, a quarta aV3e a quinta a V).

P35
Uma descoberta em particular, atribuída aos pitagóricos, constituiu-se numa
das mais importantes descobertas matemáticas daquela época—e talvez de
qualquer é p o c a a d a s grandezas incomensuráveis. Eles descobriram que a
média proporcional, ou geométrica, entre a unidade e o seu dobro - isto é ,o x
tal que \/x = x / 2 -n ã o podia ser expressa em termos dessa unidade2. M as
essa foi uma conquista amarga, pois levantava dúvidas quanto à correção da
tese pitagórica de que os números eram os constituintes últimos da realidade
(por isso essa descoberta deveria ser mantida em segredo e, segundo a lenda,
custou a vida do filósofo pitagórico que a divulgou Hippasus).

P38
Platão e seu discípulo Aristóteles são, em muitos sentidos, filósofos
paradigmáticos. Os sistemas filosóficos que erigiram oferecem um vasto
repertório de idéias que a tradição freqüentemente retoma e elabora. E isso
não é menos verdade no caso da filosofia da matemática. As teorias sobre a
natureza da matemática - dos seus objetos em particular - propostas por
ambos oferecem dois modelos exem- FILOSOFIAS DA MATEMÁTICA 37
piares de explicação. Enquanto para Platão as entidades matemáticas
constituem um domínio objetivo independente e auto-suficiente, ao qual temos
acesso pelo entendimento4, para Aristóteles os entes matemáticos têm uma
existência parasitária dos objetos reais - uma vez que objetos matemáticos só
existem encarnados em objetos reais - e só nos são revelados com o concurso,
ao menos em parte, dos sentidos. Para Platão, o mundo real apenas reflete
imperfeitamente um mundo puro de entidades perfeitas, imutáveis e eternas -
os conceitos matemáticos entre elas. Para Aristóteles, o mundo sensível é a
realidade fundamental, os entes matemáticos são “extraídos” dos objetos
sensíveis por meio de operações do pensamento, e os conceitos matemáticos
são apenas modos de tratar o mundo real.

De um lado o racionalismo de Platão, que atribui à razão humana o poder de


penetrar nos domínios supra-sensíveis da matemática, e o seu realismo
ontológico transcendente, que afirma a existência independente dos entes
matemáticos num reino fora deste mundo; de outro, o empirismo de Aristóteles,
que se recusa a dar morada aos entes matemáticos em qualquer outro reino
que não o deste mundo, e o seu realismo ontológico imanente, que garante, ele
também, uma existência aos objetos matemáticos independentemente de um
sujeito, mas não de outros objetos do mundo empírico.

Ambos comungam da tese que a verdade matemática é independente da ação


de um sujeito — a tese do realismo epistemológico —, mas discordam quanto
ao que deve fazer o sujeito para revelar essa verdade. Enquanto para Platão
basta o entendimento para que ela nos seja desvelada (e a metáfora de uma
verdade sob véus cabe bem a Platão), Aristóteles deve contar também, e não
de modo meramente acidental, com os sentidos, se bem que não possa confiar
apenas neles (contia teses empiristas mais radicais). Para Platão, o mundo
empírico é uma degradação do real propriamente dito, e a matemática em nada
sofreria se o mundo que experimentamos pelos sentidos não existisse; para
Aristóteles, a destruição desse mundo seria concomitantemente a destruição
dos domínios e da verdade matemáticas

P46
Podemos dizer que, para Aristóteles, os objetos matemáticos são uma
abstração apenas ou, na pior das hipóteses, uma ficção útil. Eles não têm
existência separada dos objetos empíricos, são apenas aspectos deles, e se à
vezes os pensamos como independentes, isso é apenas um modo de pensar
sem maiores conseqüências práticas20. Um objeto empírico é um objeto
matemático na medida em que nós podemos considerá-lo do ponto de vista de
seu aspecto matemático, ou seja, como um objeto matemático.
P47
Assim, numa compreensão mais ampla, a matemática, segundo Aristóteles,
trata não apenas de formas abstratas atuais, mas também de formas
simplesmente possíveis2
P53
Aristóteles e o infinito
Mas as contribuições de Aristóteles à matemática não param por aí. Devemos-
lhe a distinção fundamental entre o infinito atual e o infinito potencial, ou seja,
entre a noção de uma totalidade finita em que sempre cabe mais um
indefinidamente-- o infinito potencial—e uma totalidade infinita acabada.
Segundo Aristóteles, aos matemáticos bastava a noção de infinito potencial. Se
bem que essa idéia não corresponda à realidade da prática matemática, uma
vez que a noção de infinito atual é essencial a muitas teorias matemáticas, ela
foi, e ainda é, aceita por muitos matemáticos, que não vêem na matemática do
infinito senão uma fonte de absurdos e contradições. Poincaré, já no século
XX, ainda afirmava que o infinito matemático é sempre potencial. O infinito
atual recebeu um tratamento matemático apropriado apenas com a teoria dos
conjuntos de Cantor, no século XIX, mas essas idéias foram criticadas em seu
tempo e, ainda hoje, há quem resista a elas, como os matemáticos de índole
construtivista, para os quais nada existe que não possa ser de algum modo
construído efetivamente - o que conjuntos atualmente infinitos evidentemente
não podem, se, como parece, os conjuntos são construídos a partir de seus
elementos.

P95
Kant
A filosofia teórica de Kant se apresenta precisamente como uma resposta à
pergunta "Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?” . Ou seja, como é
possível um conhecimento, útil na organização dos dados da experiência, mas
que, paradoxalmente, é independente dela? Para Kant, contrariamente a
Leibniz, o conhecimento matemático é o paradigma de tal conhecimento.
Afinal, nós não precisamos de modo essencial do testemunho dos sentidos
para desenvolver a ciência matemática; as teorias matemáticas dispensam o
teste da experiência, mas, não obstante, são indispensáveis para a
organização dessa mesma experiência. O conhecimento matemático não é
(acreditava Kant) uma imensa tautologia; ele não se constitui na mera
explicitação dos conceitos envolvidos nos enunciados matemáticos, como
pensava Leibniz. Asserções como “nenhum homem solteiro é casado”, por
exemplo, explicitam, mas não acrescentam nada de novo ao que já sabemos.
Os enunciados matemáticos, como 2 + 2 = 4, porém (ainda segundo Kant), não
são desse tipo, eles nos dizem mais do que poderiamos descobrir pela mera
análise dos conceitos neles envolvidos.
As ciências empíricas, como a física ou a biologia, contêm apenas enunciados
informativos de tipo sintético, e é fácil entender como eles são possíveis. Que
certos conceitos estejam entre si de certa forma relacionados, como os
conceitos de água e ponto de ebulição no enunciado “o ponto de ebulição da
água pura no nível do mar é 100°C” , é uma informação que os usuais cinco
sentidos podem nos dar. Ela está sustentada pelo menos em parte (pois há
nela um elemento de generalidade que não pode ser fundado na experiência)
no testemunho dos sentidos. Por isso as verdades sintéticas das ciências
empíricas são a posteriori, como diz Kant, isto é, elas dependem de
confirmação empírica. Mas como a experiência é sempre limitada e sujeita à
revisão, os enunciados empíricos só podem ser generalizados para todos os
casos (todas as amostras de água; em qualquer momento; etc.)àcusta de
pressupostos a priori sobre a regularidade da natureza e a legalidade dos
fenômenos naturais, ou, na falta deles, uma dose de fé. Nós certamente temos
razões para crer que certos enunciados sintéticos a posteriori gerais, como a lei
que rege a ebulição da água, sejam verdadeiros, mas não podemos eliminar
logicamente a possibilidade que não o sejam.

Com a matemática as coisas se passam diferentemente. Suas verdades estão


ao abrigo de vicissitudes de natureza empírica, que, segundo Kant, não podem
nem confirmá-las nem negá-las19. M as isso não as torna trivialidades vazias
de conteúdo, meros esclarecimentos de idéias, úteis talvez, mas desprovidas
de “valor agregado” . Contrariamente, os enunciados matemáticos, ainda
segundo Kant, enriquecem os conceitos neles envolvidos. Por mais que
analisássemos o conceito de triângulo, por exemplo, não encontraríamos
razões para afirmar nada sobre seus ângulos senão que são em número de
três. Jamais a simples análise conceituai da noção de triângulo poderia nos
revelar que a soma dos ângulos internos dos triângulos é invariavelmente igual
a dois retos. Kant não abre exceções: as verdades matemáticas são sintéticas,
além de a priori. Como isso é possível, como podemos verificar a adequação
da síntese entre os termos dessas verdades se nem a razão, nem os sentidos
bastam à tarefa?

P98
M as ainda há mais. Talvez o que mais impressiona na matemática seja sua
aplicabilidade ao mundo da experiência. Apesar de imune à confirmação ou
negação pela experiência, isto é, apesar de a priori como quer Kant, a
matemática é, paradoxalmente, capaz de organizar os dados empíricos. Esse
mistério clama por elucidação. Gomo é possível que a matemática seja
simultaneamente a priori e útil? Essas são questões que a filosofia crítica de
Kant responde de modo exemplarmente elegante. Vejamos como.

P126 – Gota de agua


Que sentido, entretanto, tem dizer que 1 + 1 poderia não ser 2? Claro, uma
gota d ’água juntada a outra gota d ’água continua sendo uma gota d’água. M
as isso, é óbvio, não é uma evidência para a asserção 1 + 1 = 1, pois mesmo
que os meus olhos, isto é, meus sentidos, testemunhem que efetivamente uma
gota d ’água juntada a outra continua sendo uma gota d ’água, meu
entendimento me diz que aquelas duas gotas originais ainda estão lá, apesar
de não detectáveis pelos sentidos. A gota resultante da fusão é una apenas em
virtude de um novo conceito de unidade, e dizer que uma gota d ’água juntada
a outra resulta em apenas uma gota d ’água envolve uma ambigüidade no
conceito de unidade de contagem. Se formos coerentes quanto ao padrão de
contagem, e preservarmos o sentido dos termos e operações numéricas, 1 + 1
só pode ser igual a 2.

Esse exemplo ilustra bem dois fatos: que não pode haver atribuição de um
número a uma coleção de objetos a menos de um conceito que fixe uma
unidade; e que atribuições de quantidade são operações do entendimento
antes que da sensibilidade, para usar uma distinção kantiana. O próprio Kant
admitiu que o número fosse um conceito do entendimento1, por oposição aos
conceitos geométricos, que são conceitos sensíveis. Para ele, ainda que
sintéticas, as verdades da aritmética envolvem conceitos não-sensíveis.

P128 – Citação Gauss


[...] p ro fu n d am en te con ven cid o de q u e a teo ria d o espaço ocu p
a u m a p o sição inteiram ente diferente com resp eito a n o sso
conhecim ento a priori d aq u ele d a [aritm ética]; a p erfeita convicção d
a n ecessid ad e e co n seqü en tem en te a v erd ad e ab so lu ta q u e é
característica d e sta é c o m pletam ente ausente no n osso conhecim
ento daq uela. D ev em o s confessar com tod a h u m ildade qu e o núm
ero é apen as u m p rodu to d e n ossa m ente. O espaço, p o r ou tro
lado, p o ssu i tam b ém u m a realid ad e fora de n o ssa m ente, cu jas
leis n ão p o d e m o s p rescrever com p letam en te a priori2.

P129
Se uma demonstração possível de uma proposição envolve apenas leis lógicas
gerais e definições, essa proposição é analítica; se, pelo contrário, qualquer
demonstração dela lança mão de verdades de escopo limitado (como os
axiomas da geometria), ela é sintética. Se há uma demonstração da asserção
que se fundamenta apenas em verdades gerais, ela é a priori; se qualquer
demonstração sua, porém, utiliza verdades particulares, embora não
demonstráveis (como as asserções que expressam os dados imediatos dos
sentidos), ela é a posteriori.

P130
Como já vimos, a tradição responde a essa questão em coro: números são
atributos de coleções (de coisas, de unidades indiferenciadas, seja lá o que
for). Frege discrepa. Para ele, números são atributos de conceitos. Dizer que
há quatro estações no ano é dizer que quatro é o número de estações do ano.
Para Frege, o número 4 se refere ao conceito “estações do ano” , não à
extensão desse conceito, a coleção de estações do ano. A diferença entre a
formulação adjetiva “há quatro estações no ano” e a formulação substantiva
“quatro é o número de estações no ano” é fundamental. Mostrar que o uso
adjetivo de termos numéricos pode ser reduzido ao seu uso substantivo — mas
não reciprocamente - desempenha um papel importante no argumento de
Frege de que números são objetos (e objetos lógicos ademais). E essa é uma
verdadeira idéia fixa de Frege.
Se denotarmos o conceito “estações do ano” por E a asserção numérica “há
quatro estações no ano” pode, segundo Frege, ser escrita assim: 4 = NxEx, lido
como “4 é igual ao número que pertence ao conceito E ” . Analogamente com
todas as asserções numéricas. Uma pergunta agora é crucial: quando dois
conceitos têm o mesmo número? A resposta, aparentemente óbvia, que Frege
dá é a seguinte: quando existe entre as coleções de objetos aos quais eles se
aplicam (suas extensões) uma correspondência um a um (biunívoca.)

P132
M as atentemos um instante para a caracterização dos números como objetos.
Como dissemos antes, Frege acreditava que os números são objetos que
existem independentemente de nós. Embora existindo independentemente, e,
portanto, objetivamente, os números não eram para ele objetos reais em
nenhum sentido do termo. Isto é, não eram objetos físicos nem mentais. Frege
fornece um exemplo prosaico de outras entidades objetivas, mas não reais, Por
exemplo, o trópico de Capricórnio. Essa linha imaginária tem até localização no
espaço, mas nenhuma propriedade física, ela existe objetivamente, mas não é
um objeto real. O trópico de Capricórnio só existe na verdade, e só podemos
localizá-lo, no contexto de um sistema de coordenadas e um conjunto de
convenções de medida, fora disso não podemos nem sequer nos referir a ele e
a expressão “trópico de Capricórnio” não tem um sentido determinado. O
mesmo se passa com os números. Só podemos nos referir a eles no contexto
de uma teoria que fala deles, isto é, a aritmética. Isso garante simultaneamente
um locus, isto é, uma “residência” para esses objetos, e uma forma de acesso
a eles. Os números existem no contexto da aritmética, eles “habitam” os
espaços dessa teoria, para usar uma metáfora. E ademais nosso acesso a eles
é mediado por essa ciência, só por meio da aritmética (que é uma ciência
objetiva) podemos ascender ao domínio (objetivo) dos números. Isso tudo é
conseqüência de um princípio que Frege considera fundamental, o chamado
princípio do contexto: nunca pergunte pelo significado de um termo
isoladamente, apenas em proposições os termos têm significado7
Se pudermos mostrar que a aritmética é redutível à lógica pura, então, como os
números só existem no contexto da aritmética (princípio do contexto), teremos
mostrado que, na verdade, eles só existem no contexto da lógica, isto é, os
números são eles próprios objetos lógicos

P145
Como vimos antes, Kant exigia que os enunciados geométricos e aritméticos
verdadeiros fossem intuitivamente justificados (isto é, demonstrados por meio
de construções intuitivas), e os conceitos numéricos e geométricos, construídos
(isto é, seus exemplos deveriam ser apresentados a priori na intuição pura).
Kant não hesitou em banir da matemática tudo o que não fosse atual ou
potencialmente construído, como as raízes quadradas de números negativos.
Segundo ele, essas raízes são pseudonúmeros, por não admitirem
exemplificação intuitiva (na verdade, para Kant, a própria noção de número
imaginário era absurda, como já dissemos).

P146 Dedekind Peano


Restava então a questão: e a aritmética dos inteiros não-negativos, em que
bases assentá-la? Dedekind, um dos principais atores do processo de
aritmetização, debruçou-se sobre esse problema, realizando um elaborado
escrutínio dos conceitos aritméticos. Devemos a ele a axiomatização usual da
aritmética, se bem que esses axiomas tenham passado para as gerações
futuras com o nome de Peano, o matemático que os divulgou por meio de um
sistema de notação que criara

P223
Qualquer teoria do conhecimento deve enfrentar talvez o mais sério problema
levantado pelo conhecimento matemático: como é possível que uma ciência a
priori seja relevante para o conhecimento da realidade empírica? Pois ser
independente da experiência, mas aplicar-se a ela, parece ser a característica
mais fundamental da matemática1. Aparentemente, ela é criada sem nenhum
apelo essencial à experiência, mas contra toda expectativa razoável, a
natureza só parece disposta a revelar seus segredos em forma matemática.
Como se explica isso?
STEPHEN F. BARKER

P29 EGÍPCIOS E GREGOS


Medir as terras para fixar os limites das propriedades era uma tarefa importante
nas civilizações antigas, especialmente no Egito. Ali, as enchentes anuais do
Nilo, inundando as áreas férteis, derrubavam os marcos fixados no ano
anterior, obrigando os proprietários de terras a refazer os limites de suas áreas
de cultivo. Em algumas ocasiões, a questão era refazer os limites com base em
informações parciais; conhecida a forma do terreno, tratava-se, por exemplo,
de reconstruir os lados restantes, se um dêles se havia preservado. Em outras
ocasiões, destruídas por completo as fronteiras, tratava-se de refazê-las- de
modo a demarcar o desejado número de propriedades, conservando as áreas
relativas que possuíam no passado. Os egípcios tornaram-se hábeis
delimitadores de terras e devem ter descoberto e utilizado inúmeros princípios
úteis relativos às características ·de linhas, ângulos e figuras - como, por
exemplo, o de que a soma dos três ângulos de um triângulo é igual a dois
ângulos retos, e o de que a área de um paralelogramo é igual à do retângulo
que tenha a mesma base e a mesma altura.
Os antigos egípcios devem ter obtido êsses princípios por intermédio da
observação e da experimentação - isto é, por intermédio de um raciocínio
indutivo. Mediram muitos triângulos e muito ângulos retos e notaram que quase
sempre a soma dos três ângulos de um triângulo era· aproximadamente igual a
dois fingulos retos; notaram, ainda, que nos casos de diferença apreciável
entre a soma dos três ângulos de um triângulo e dois retos havia, em geral,
alguma explicação para a discrepância: os ângulos não haviam sido
corretamente medidos ou os lados do triângulo não eram retilíneos. De maneira
análoga, os egípcios devem ter medido as áreas de muitos paralelogramos e
retângulos (possivelmente procurando ver a quantidade de pequenos
quadrados que continham) e devem ter notado que as áreas dos
paralelogramos eram, quase sempre, iguais ou quase iguais às áreas dos
correspondentes retângulos de mesma altura e mesmo comprimento. Devem
ter notado também que as eventuais discrepâncias podiam ser atribuídas às
imprecisões de medidas ou ao mau traçado das linhas. Parece que os egípcios
se limitaram à acumulação de conhecimentos que os habilitavam a resolver
problemas de traçado de limites, de comparação de áreas, de projetos
arquitetônicos e de engenharia de construções.
as, de projetos arquitetônicos e de engenharia de construções. Os gregos
perceberam o que os egípcios eram capazes de fazer, e assimilaram seus
princípios empíricos. Ao conhecimento assim delimitado, os gregos deram o
nome de Geometria - isto é, medida da terra. Os gregos, porém, ao contrário
dos egípcios, apreciavam a Geometria não apenas em virtude de suas
aplicações práticas, mas em virtude de seu interêsse teórico, desejando
compreender a matéria por ela mesma, e não em têrmos de sua utilidade. Aos
gregos não bastou o critério empíl'ico; procuraram encontrar demonstrações
dedutivas rigorosas das leis acêrca do espaço, que governavam as aplicações
práticas da Geometria. Durante·muitos séculos, os gregos deram atenção à
Geometria, descobrindo e demonstrando um número crescente de princípios
geométricos. Alguns filósofos gregos, em partícular Pitágoras e Platão, davam
enorme importância intelectual à Geometria, considerando que em sua forma
pura e abstrata ela se aproximava·bastante da metafísica e da religião. Foi
aproximadamente 300 anos antes de Cristo que Euclides escreveu seu livro
clássico, Os Elementos, em que reuniu e apresentou de modo sistemático as
principais descobertas geométricas de seus precursores. Esta obra é um dos
clássicos que maior influência exerceu no pensamento ocidental. Nos tempos
antigos, na Idade Média, no período moderno, até o século XIX, os Elementos
de Euclides foram não apenas o livro texto da Geometria, mas o modêlo
daquilo que o pensamento científico devia ser.

P43
Platão apresentou, a propósito, um argumento incisivo. Sustentou que os
nossos conhecimentos das verdades geométricas não poderiam receber apoio
da evidência colhida pelos sentidos, uma vez que através dêstes nunca
chegamos a entrar em contato com pontos, linhas ou figuras genuínos. Nunca
vemos pontos; o que vemos são manchas que têm partes. Nunca vemos linhas
retas; o que vemos são linhas com certa largura e sempre com algum desvio.
Nunca vemos um círculo genuíno ou um triângulo eqüilátero genuíno; com
efeito, as figuras que vemos nunca são limitadas por linhas perfeitas e bem
proporcionadas. Em conseqüência, o conhecimento geométrico não pode estar
assentado na evidência sensorial, pois essa evidência não existe. O
conhecimento geométrico deve ser a priori, não empírico, se o argumento é
correto.

P80
Desde os seus primórdios, o desenvolvimento da Matemática dos números
deve ter dado origem a perplexidades filosóficas. Os números inteiros, 1, 2, 3,
etc., não são, por certo, muito embaraçosos, já que a sua legitimidade parece-
nos clara quando contamos os animais de uma horda ou os reis de uma
dinastia. As frações também não são muito perturbadoras, já que as podemos
encarar como quocientes de números inteiros, muito úteis para comparar
tamanhos de terras ou durações de tempo. Podemos imaginar, porém, que
deve ter havido um movimento de inquietação quando os babilônios, desejando
referir-se ao resultado obtido ao subtrair um número dêle mesmo, introduziram
o símbolo para o zero, tratando-o, depois, como se o zero fôsse um dos
números inteiros. Zero parece o vazio, é como o nada; como é possível, pois,
fazer referências ao zero, admitindo que seria alguma coisa, um número
genuíno? A inquietação· decresceu gradualmente, sem dúvida, quando se
percebeu que o zero é adequado para "contar" o número de animais de um
campo vazio ou o número de reis de um período republicano. A introdução de
símbolos para os números negativos deve ter sido outra fonte de dúvidas; os
números negativos parecem ser, de algum modo, números que não estão aí,
fantasmas imaginários de números. Seria legítimo chamá-los números? Nos
tempos modernos, a introdução de símbolos para os números imaginários
despertou questões semelhantes. Mesmo que se admita a legitimidade de um
discurso acêrca de números negativos, não seria ir longe demais falar da raiz
quadrada de menos um como se fôra um número? Não ·sefia mais sensato
dizer que menos um não admite raiz quadrada?

P88
A teoria de Cantor vale-se da importante noção de correspondência um-a-um
( ou biunívoca). Dizemos que os elementos de um conjunto S1 estão em
correspondência biunívoca, ou um-a-um, com os elementos de outro conjunto
S2 se existir algum modo de associar elementos de um conjunto a elementos
do outro de tal maneira que a, cada elemento de S1 se associe exatamente um
elemento de S2, e a cada elemento de S2 se associe exatamente um elemento
de S1. Consideremos os passageiros de um ônibus: se cada passageiro
ocupar um assento, o conjunto de passageiros e o conjunto de assentos
estarão em NÚMEROS E FILOSOFIAS ACÊRCA DOS NÚMEROS 87
correlação biunívoca. Nessas circunstâncias, o conjunto de passageiros teria,
como é claro, o mesmo número de elementos que teria o conjunto de assentos
- não importando qual fôsse êsse número. Por outra [Link], se cada assento
estivesse ocupado por um passageiro, havendo, contudo, passageiros viajando
em pé, o conjunto de passageiros seria mais amplo que o conjunto de
assentos. Consideremos, nesse exemplo, dois conjuntos de tamanho finito
(não poderia existir um ônibus de tamanho infinito). A idéia de Cantor era que
os conjuntos infinitos também poderiam estar em correlação um..:a-um,
tornando-se possível comparar conjuntos, mesmo no caso de conterem uma
infinidade de elementos. Sustentava Cantor que dois conjuntos infinitos
deveriam ser considerados de mesma grandeza se, e sàmente se, fôsse
possível correlacionar seus elementos um-a-um; e que um conjunto infinito
deveria ser considerado maior do que outro se, e sàmente se, correlacionados
os elementos dêste último conjunto, um-a-um, aos elementos do primeiro,
sempre restassem alguns elementos dêsse primeiro conjunto. Assim, por
exemplo, o conjunto de números ímpares e o conjunto de números pares são
da mesma grandeza, já que é possível correlacionar biunivocamente seus
elementos, ficando cada número ímpar associado ao seu sucessor imediato.
RUSSEL
P13
A matemática é um assunto cujo estudo, quando iniciado nas suas partes mais
familiares, pode ser conduzido em dois sentidos opostos. O mais comum é
construtivo, no sentido da complexidade gradualmente crescente: dos inteiros
para os fraccionários, os números reais, os números complexos; da adição e
multiplicação para a diferenciação e integração e daí para a matemática
superior. O outro sentido, menos familiar, avança, pela análise, para a
abstracção e a simplicidade lógica sempre maiores; em vez de indagar o que
pode ser definido e deduzido daquilo que se admite no começo, indaga-se que
mais ideias e princípios gerais podem ser encontrados, em função dos quais o
que fora o ponto de partida possa ser definido ou deduzido. É o facto de seguir
este sentido oposto que caracteriza a filosofia matemática, em contraste com a
matemática comum. Mas deve ser entendido que a diferença de sentido da
pesquisa não está no assunto mas sim no estado de espírito. Os geómetras
gregos antigos, ao passarem das regras de agrimensura empíricas egípcias
para as proposições gerais pelas quais se constatou estarem aquelas regras
justificadas, e daí para os axiomas e postulados de Euclides, estavam
praticando a filosofia matemática, segundo a definição acima; porém, uma vez
atingidos os axiomas e postulados, o seu emprego dedutivo, como
encontramos em Euclides, pertencia à matemática no sentido comum. A
distinção entre matemática e filosofia matemática depende do interesse que
inspira a pesquisa e da etapa por esta atingida, e não das proposições que
ocupam a investigação.
Podemos enunciar a mesma distinção de outra maneira. As coisas mais óbvias
e fáceis da matemática não são as que aparecem logicamente no início; são as
que, do ponto de vista da dedução lógica, surgem em algum ponto intermédio.
Assim como os corpos mais fáceis de ver não são os que se encontram muito
perto ou muito longe, nem os muito grandes ou muito pequenos, também as
concepções de 14 Introdução à Filosofia Matemática mais fácil compreensão
não são as muito complexas ou as muito simples (usando o termo «simples»
no sentido ). E, da mesma lógico forma como necessitamos de instrumentos de
dois tipos, o telescópio e o microscópio, para ampliarmos o nosso poder visual,
necessitamos de dois tipos de instrumento para ampliar a nossa capacidade
lógica: um para nos fazer avançar até à matemática superior, outro para levar-
nos de volta aos fundamentos lógicos das coisas que somos propensos a
aceitar como factos consumados em matemática. Constataremos que,
analisando as nossas noções matemáticas ordinárias, adquiriremos uma
introspecção renovada, poderes novos e os meios de chegar a assuntos
matemáticos inteiramente novos pela adopção de novas linhas de
desenvolvimento após a nossa viagem regressiva. O propósito deste livro é
simplesmente explicar a filosofia matemática de maneira não técnica, sem
demorar nas partes que sejam de tal forma duvidosas ou difíceis que tornem
escassamente possível um tratamento elementar. Um tratamento completo das
mesmas encontra-se nos ; o tratamento no presente livrinho tem Principia
Mathematica6 mero carácter de introdução. Para a pessoa de instrução média
de hoje, o ponto de partida óbvio da matemática seria dos a progressão7
números inteiros [positivos]:

P16 Pitagora
O facto de toda a matemática pura tradicional poder ser derivada dos números
naturais é uma descoberta razoavelmente recente, embora há muito
suspeitada. Pitágoras, que acreditava que não apenas a matemática mas tudo
o mais podia ser deduzido dos números

P17 Peano
Uma vez reduzida toda a matemática pura tradicional à teoria dos números
naturais, o passo seguinte na análise lógica foi reduzir esta própria teoria ao
menor conjunto de premissas e termos não definidos dos quais pudesse ser
deduzida. Este trabalho foi realizado por Peano. Ele mostrou que a teoria dos
números naturais podia ser 10 deduzida de três conceitos primitivos e cinco
proposições primitivas, além das da lógica pura. Estes três conceitos e cinco
proposições tornaram-se, deste modo, por assim dizer, o suporte de toda a
matemática pura tradicional. Se elas pudessem ser definidas e demonstradas
em termos de outras, também o poderia toda a matemática pura. O seu «peso»
lógico, se me é permitido usar tal expressão, é igual ao de toda a série de
ciências deduzidas da teoria dos números naturais; a verdade de todas estas
ciências estará garantida caso esteja garantida a verdade das cinco
proposições primitivas, desde que, naturalmente, nada haja de erróneo no
aparato lógico também envolvido. A tarefa de analisar a matemática fica
extraordinariamente facilitada por este trabalho de Peano.

Os três conceitos primitivos da aritmética de Peano são: 0, número, sucessor

P18
As cinco proposições primitivas adoptadas por Peano são: (1) é um número; !
(2) O sucessor de qualquer número é um número; (3) Não há dois números
com um mesmo sucessor; (4) não é sucessor de número algum; ! (5) Qualquer
propriedade que pertença a , e também ao sucessor ! de todo o número que
tenha essa propriedade, pertence a todos os números.
Essa última proposição é o princípio de indução matemática. Teremos muito a
dizer relativamente à indução matemática no que segue; de momento, estamos
interessados nela somente quanto à sua presença na análise da aritmética de
Peano.

P24 – Número
Ao buscarmos uma definição de número, a primeira coisa a esclarecer é aquilo
que podemos chamar a gramática da nossa indagação. Muitos filósofos, ao
tentarem definir número, dedicam-se, na realidade, ao trabalho de definir
pluralidade, que é coisa muito diferente. Número homem é o que é
característico dos números, como é o que é característico dos homens. Uma
pluralidade não é um exemplo de número, mas de algum número determinado.
Um trio de homens, por exemplo, é um exemplo do número , e o número é um
exemplo de $ $ número; mas o trio não é um exemplo de número. Este ponto
poderá parecer elementar e dificilmente digno de ser mencionado; no entanto,
provou ser excessivamente subtil para os filósofos, com poucas excepções

Um determinado número não é idêntico a qualquer colecção que o contenha: o


número não é idêntico ao $ trio consistindo de Artur, Joel e Rui. O número é
algo que todos os trios têm em comum e que os $ distingue de outras
colecções. Um número é algo que caracteriza certas colecções, isto é, aquelas
que têm aquele número.

P27
. Voltando agora à definição de número: é claro que número é uma forma de
reunir certas colecções, isto é, as que têm um dado número de elementos.
Podemos imaginar todos os pares agrupados numa colecção, todos os trios
noutra e assim por diante. Desta maneira obtemos vários agrupamentos de
colecções, consistindo cada agrupamento de todas as colecções que têm um
certo número de elementos. Cada agrupamento é uma classe cujos membros
são colecções, isto é, classes; assim, cada agrupamento é uma classe de
classes. O agrupamento que consiste de pares, por exemplo, é uma classe de
classes: cada par é uma classe com dois membros e o agrupamento inteiro de
pares é uma classe com um número infinito de membros, cada qual uma classe
de dois membros.

Como decidiremos sobre se duas colecções pertencem ao mesmo


agrupamento? A resposta que se impõe é: «Determine quantos membros tem
cada uma, colocando-as num mesmo agrupamento se tiverem o mesmo
número de membros». Mas isto pressupõe que tenhamos definido os números
e saibamos como descobrir quantos membros tem uma colecção. Estamos de
tal forma acostumados com a operação de contar que tal pressuposição poderá
facilmente passar desapercebida. Contudo, a contagem, embora familiar, é de
facto uma operação logicamente muito complexa; mais ainda, só se dispõe
dela, como meio para descobrir quantos elementos tem uma colecção, quando
esta é finita. A definição de número não deve admitir de antemão que todos os
números sejam finitos; e não podemos, de qualquer modo, sem cair num
círculo vicioso, usar a contagem para definir os números, porque estes são
usados na contagem. Necessitamos, portanto, de algum outro método para
decidir se duas colecções têm ou não o mesmo número de elementos.

Na realidade, é logicamente mais simples descobrir se duas colecções têm o


mesmo número de elementos do que definir qual seja este número. Um
exemplo esclarecerá este ponto. Se não houvesse poligamia e poliandria em
parte alguma do mundo, é claro que o número de maridos vivos a qualquer
momento seria exactamente igual ao número de esposas vivas. Não é
necessário um recenseamento para nos assegurarmos disto, nem tão-pouco
necessitamos saber o número real de maridos e esposas. Sabemos que o
número deve ser igual em ambas as colecções, porque cada marido tem uma
esposa e cada esposa tem um marido. Dizemos que a relação entre maridos e
esposas é uma relação de «um-para-um»

Dizemos que duas classes são «equipotentes» [ou «equinumerosas»] quando


há uma relação de um-para-um que relaciona cada elemento de uma classe
com um elemento da outra, da mesma forma como a relação de casamento
relaciona os maridos com as esposas. Algumas definições preliminares
ajudarão a enunciar mais precisamente esta definição. A classe dos elementos
que têm uma determinada relação com algo é chamada o daquela relação:
assim, domínio os pais são o domínio da relação de pai para filho, os maridos
são o domínio da relação de marido para esposa, as esposas são o domínio da
relação de esposa para marido e os maridos e esposas, juntos, são o domínio
da relação de casamento. A relação de esposa para marido é chamada da
relação de marido para esposa. Da mesma forma, inversa menor maior mais
tarde mais cedo é o inverso de , é o inverso de e assim por diante. De modo
geral, a inversa de uma determinada relação é a relação que existe entre e
sempre que essa relação C B exista entre e . O de uma relação é o domínio da
B C domínio inverso sua inversa; assim, a classe das esposas é o domínio
inverso da relação de marido para esposa. Podemos agora enunciar assim a
nossa definição de equipotência:

Uma classe diz-se «equipotente» a outra quando há uma relação de um-para-


um da qual uma das classes é o domínio e a outra é o domínio inverso.
Podemos assim usar a noção de «equipotência» para decidir se duas
colecções deverão pertencer ao mesmo agrupamento [classe de classes], no
sentido em que levantámos esta questão mais atrás, neste capítulo. Queremos
formar um agrupamento que contenha a classe que não tem membro algum:
será o agrupamento do número . Depois ! queremos um agrupamento com
todas as classes que têm um membro: será para o número . A seguir, para o
número , queremos um " # agrupamento consistindo de todos os pares; depois,
um de todos os trios e assim por diante. Dada uma colecção qualquer,
podemos definir o agrupamento ao qual ela deve pertencer como sendo a
classe de todas as colecções «equipotentes» a ela. É muito fácil ver que se
(por exemplo) uma colecção tem três membros, a classe de todas as colecções
equipotentes a ela será a classe dos trios. E, seja qual for o número de
elementos de uma colecção, as colecções que lhe sejam «equipotentes» terão
o mesmo número de elementos. Podemos tomar esta observação como uma
definição de «ter o mesmo número de elementos». É óbvio que esta definição
dá resultados em conformidade com a prática, enquanto nos limitarmos a
colecções finitas.

Até agora não sugerimos nada que seja minimamente paradoxal. Mas, quando
chegamos à definição efectiva dos números, não podemos evitar o que deverá
parecer, à primeira vista, um paradoxo, embora esta impressão cedo se
desvaneça. Pensamos, naturalmente, que a classe dos pares (por exemplo)
seja algo diferente do número . # Mas não há dúvida alguma quanto à classe
dos pares: é indubitável e não é difícil de definir, enquanto o número , em
qualquer outro # sentido, é uma entidade metafísica de cuja existência nunca
podemos estar seguros e cuja pista nunca podemos estar seguros de ter
perseguido. É, portanto, mais prudente contentar-nos com a classe dos pares,
da qual estamos seguros, do que tentarmos caçar um problemático número
que se mostrará sempre esquivo.

O número de uma classe é a classe de todas as classes que lhe são


equipotentes

Assim, o número de um par será a classe de todos os pares. Na verdade, a


classe de todos os pares o número , de acordo com a será # nossa definição.
Sem escapar a alguma excentricidade, esta definição garante precisão e
certeza; e não é difícil demonstrar que os números assim definidos têm todas
as propriedades que deles esperamos.

Podemos passar agora à definição dos números em geral como sendo


qualquer um dos agrupamentos nos quais a equipotência colecciona classes.
Um número será um conjunto de classes tais que quaisquer duas são
equipotentes entre si e nenhuma fora do conjunto é equipotente a qualquer
uma de dentro do conjunto. Por outras palavras, um número (em geral) é
qualquer colecção que seja o número de um dos seus membros; ou, com
simplicidade ainda maior:

Um número é qualquer coisa que seja o número de alguma classe

P35 – Numero natural


Os «números naturais» são a posteridade de com respeito à ! relação
«predecessor imediato» (que é a inversa de «sucessor .

P72
Um dos erros que retardaram a descoberta de definições correctas nesta área
é a ideia comum de que cada extensão do conceito de número inclui os tipos
anteriores como casos especiais. Pensou-se, ao tratar dos números positivos e
negativos, que os inteiros positivos podiam ser identificados com os inteiros
originais sem sinal. Pensou- -se também que uma fracção cujo denominador é
pudesse ser " identificada com o número natural que é o seu numerador. E
pensou- -se que os números irracionais, tais como a raiz quadrada de , #
encontrassem o seu lugar entre as fracções racionais, sendo maiores do que
algumas delas e menores do que outras, de modo que os números racionais e
os irracionais pudessem ser tomados juntos como uma classe, chamada
«números reais». E quando a ideia de número voltou a ser estendida de forma
a incluir os números «complexos isto é, », números que envolvem a raiz
quadrada de , pensou-se que os " números reais pudessem ser considerados
como aqueles números complexos nos quais a parte imaginária (isto é, a parte
que multiplica a raiz quadrada de ) fosse zero. Todas estas suposições eram "
erróneas, devendo ser rejeitadas, como veremos, para que possam ser dadas
definições correctas.

P73
As são mais interessantes do que os inteiros positivos ou fracções negativos.
Necessitamos das fracções para muitos fins, mas talvez mais obviamente para
as medições. O meu amigo e colaborador Dr. A. N. Whitehead desenvolveu
uma teoria das fracções especialmente adaptada à sua aplicação às medições,
a qual é apresentada em Principia Mathematica.59 Mas se tudo o que se
necessita é definir objectos que possuam as propriedades puramente
matemáticas requeridas, este propósito pode ser alcançado por um método
mais simples, que adoptaremos aqui. Definiremos a fracção como sendo
aquela 7Î8 relação que existe entre dois números indutivos e quando B C B8 œ
C7 7Î8 . Esta definição permite demonstrar que é uma relação de um-para-um,
desde que nem nem sejam nulos. E, natural- 7 8 mente, é a relação inversa
de . Pela definição acima torna-se 8Î7 7Î8 claro que a fracção é a relação entre
dois inteiros e que 7Î" B C consiste no facto de que . Esta relação, como a
relação , B œ C7 7 não pode de modo algum ser identificada com o número
cardinal indutivo , porque uma relação e uma classe de classes são objectos 7
de naturezas flagrantemente diferentes. Ver-se-á que é sempre a 60 !Î8 mesma
relação, seja qual for o número indutivo ; ela é, em suma, 8 uma relação entre
e qualquer outro cardinal indutivo. Podemos ! chamá-la o zero dos números
racionais; ela não é, naturalmente, idêntica ao número cardinal . Inversamente,
a relação é sempre ! 7Î! a mesma, seja qual for o número indutivo . Não há
cardinal indutivo algum correspondente a . Podemos chamá-la «o infinito dos
7Î! racionais». É um exemplo da espécie de infinito tradicional em matemática,
que é representado por « ». Trata-se de uma espécie _ 61 inteiramente
diferente da do infinito cantoriano, que consideraremos no próximo capítulo. O
infinito dos racionais não exige, para a sua definição ou uso, quaisquer classes
infinitas ou inteiros infinitos. Não é, na realidade, uma noção importante e
poderíamos desprezá-la inteiramente se houvesse algum interesse em fazê-lo.
O infinito cantoriano, por outro lado, é da maior e mais fundamental
importância; entendê-lo abre o caminho para campos inteiramente novos da
matemática e filosofia.

P75 Provando que raiz de 2 não existe


Passamos agora a uma extensão mais interessante da ideia de número, isto é,
a extensão aos chamados números «reais que são », uma espécie que
engloba os irracionais. No Cap. I, tivemos ocasião de mencionar os
«incomensuráveis» e a sua descoberta por Pitágoras. Foi através deles, isto é,
da geometria, que se pensou pela primeira vez nos números irracionais. Um
quadrado que tenha cm de lado, terá " para diagonal a raiz de cm. Mas, como
descobriram os antigos, não # há fracção alguma cujo quadrado seja . Esta
proposição é demons- # trada no livro X [dos de Euclides, que é um daqueles
Elementos] livros que os estudantes liceais pensaram ter sido felizmente
perdidos no tempo em que Euclides ainda era usado como manual de ensino.
A prova é extraordinariamente simples. Admitamos que era a raiz 7Î8 quadrada
de , de modo que , isto é, . Assim, # # #8 7 Î8 7 7 ## # # œ œ # é um número
par, e, portanto, deve 7 rá ser par, porque o quadrado de um número ímpar é
ímpar. Mas se é par, deve ser divisível por 7 7# % #: %: , porque se , então .
Assim, devemos ter 7 7œ œ # # %: œ 7 # #8 : #: # # , em que é a metade de .
Portanto, e, por œ 8# conseguinte, será também a raiz quadrada de . Mas
então 8Î: # podemos repetir o argumento: se , também será a raiz 8 :Î; œ #;
quadrada de , e assim por diante, através de uma cadeia infindável de números
que são, cada um deles, igual a metade do seu predecessor. Mas isto é
impossível; se dividirmos um número por e depois # dividirmos a metade ao
meio e assim por diante, deveremos atingir um número ímpar após um número
finito de passos. Ou podemos apresentar o argumento com maior simplicidade
admitindo que a fracção com que começámos já se encontre reduzida aos seus
7Î8 termos mais simples; neste caso, e não podem ser ambos pares; 7 8 vimos,
no entanto, que se , ambos o devem ser. Em 7 Î8 # # œ # conclusão, não pode
haver fracção alguma cujo quadrado seja .

s «cortes de Dedekind».

P80
A 8 fim de decidir o que deverão ser, observemos que um irracional é
representado por um corte irracional, e um corte é representado pela sua
secção inferior. Limitemo-nos a cortes nos quais a secção inferior não tem
máximo algum; neste caso chamaremos à secção inferior um «segmento»
[«segmento inicial»]. Então, os segmentos que correspondem a razões são os
que consistem de todas as razões menores do que aquela à qual
correspondem, e que constitui a sua fronteira, enquanto os que representam
irracionais são os que não têm fronteira alguma. Os segmentos, tanto os que
têm como os que não têm fronteira, são tais que, de quaisquer dois contidos
numa cadeia, um deve ser parte do outro; portanto, eles podem ser todos
arranjados numa cadeia pela relação de todo e parte. Uma cadeia na qual há
lacunas dedekindianas, isto é, na qual há segmentos que não têm fronteira
alguma, dará origem a mais segmentos do que elementos, porquanto cada
segmento definirá um segmento que tem este elemento para fronteira, e então
os segmentos sem fronteiras serão em excesso.

Um «número real» é um segmento da cadeia de razões por ordem de


grandeza. Um «número irracional» é um segmento da cadeia de razões que
não tem fronteira. Um «número real racional» é um segmento da cadeia de
razões que tem uma fronteira.

Assim, um número real racional consiste de todas as razões menores do que


certa razão e é o número real racional correspondente àquela razão. O número
real , por exemplo, é a classe das fracções " próprias.

Nos casos em que naturalmente supusemos que um número racional deveria


ser o limite de um conjunto de razões, a verdade é que ele é o limite do
conjunto de números reais racionais correspondentes na cadeia de segmentos
ordenados pela relação de todo e parte. Por exemplo, é o limite superior de
todos os segmentos da cadeia de È# razões que correspondem a razões cujos
quadrados são menores do VII. Números racionais, reais e complexos 81 que .
Mais simplesmente ainda, é o segmento que consiste de # È# todas as razões
cujos quadrados são menores do que .

P82 - Imaginários
Os números ») complexos foram usados familiarmente pelos matemáticos
durante muito tempo, a despeito da ausência de qualquer definição precisa. Foi
simplesmente suposto que eles obedeciam às regras aritméticas usuais, e o
seu emprego, com base nesta suposição, foi vantajoso

Um número complexo pode ser considerado e definido simplesmente como um


par ordenado de números reais. Aqui, como noutros pontos, muitas definições
são possíveis. É somente necessário que a definição adoptada conduza a
certas propriedades. No caso dos números complexos, se eles são definidos
como pares ordenados de números reais, garantimos logo de uma vez algumas
das propriedades exigidas, a saber, as de que dois números reais são
necessários para determinar um número complexo, de que de entre estes
podemos distinguir um primeiro e um segundo, e de que dois números
complexos só são idênticos quando o primeiro número real envolvido num
deles é igual ao primeiro envolvido no segundo, e o segundo igual ao segundo.
O que é desejado para lá disso pode ser garantido pela definição das regras de
adição e multiplicação.

P87 Infinito
A mais notável e desconcertante diferença entre um número indutivo e este
novo número é que este novo número não se altera ao ser-lhe adicionado ou
subtraído ", ou ao ser elevado ao dobro ou reduzido à metade ou ao ser
submetido a qualquer das várias operações que consideramos tornar
necessariamente um número maior ou menor. O facto de não ser alterado pela
adição de foi usado por " Cantor para a definição do que ele chama números
cardinais «transfinitos mas, por várias razões, al »; gumas das quais
aparecerão com a continuação, é melhor definir um número cardinal infinito
como um número que não possui todas as propriedades indutivas, isto é,
simplesmente como um número que não é um número indutivo. Não obstante,
a propriedade de não ser alterado pela adição de é muito " importante e
devemos demorar-nos nela por algum tempo.

FREGE
P3
Muitos estimarão decerto que isto não paga a pena. Deste conceito tratam
suficientemente, acreditam eles, os livros elementares, encerrando-se assim o
assunto' de uma vez por todas. Pois quem julga ter ainda o que aprender sobre
algo tão simples? Tanto é o conceito de número inteiro positivo tomado como
livre de qualquer dificuldade, que se imagina possível tratá-lo de maneirá
cientificamente completa e adequada a crianças, cada uma delas podendo
conhecê-lo precisamente sem maiores reflexões e sem se familiarizar como
que outros pensarani - a seu respeito. Falta portanto freqüentemente aquele
primeiro pré-requisito da aprendizageM: o saber do não saber. A conseqüência
é Contentar-se com uma concepção ainda grosseira, embora Herbart já nos
tenha ensinado uma mais correta.' É triste e desolador que deste modo um
conhecimento já adquirido esteja constantemente ameaçado de desaparição,
que tanto trabalho pareça tornar-se inútil porque, acreditando-se numa riqueza
imaginária, não se julga necessário apropriar-se de seus frutos. Também .este_
trabalho, vejo-o bem, expõe-se a este perigo. Defronto-me com o caráter
gross*o desta concepção quando o cálculo é chamado de pensamento
agregativo e mecánico. 2 Duvido que haja um pensa: mento assim. Uma
imaginação agregativa já .dei . -xar-se-ia passar mais facilmente; mas ela não
teria significado algum parkO. cálculo. O pensamento é essencialmente o -
mesmo: não se devem considerar .diferentes espécies 0, leis de pensar mento
conforme os objetos emouestão, À. diferença .consiste apenas na maior ou
menor pureza eindependência . cOln444ab a influências psicológicas e
adjutórios • exteriores, como a linguagem, os numerais; etc., e-ainda, em
alguma medida, na finura da estrutura de cOnce4os;mas justamente neste
ponto a matemática não se P(¥[Link] deixar ultrapassarpor nenhuma ciência,
nem mesmo pela filosofia.

Este escrito permitira. perceber que mesmo um raciocínio aparentemente


próprio da matemática, como'o de p. a n,-1- 4,.se assenta sobre leis lógicas
gerais, não carecendo de leis particulares do pensamento agregativo. Pode-se
decerto empregar os -sinais mecanicamente; ift,mesma maneira que se pode
falar como um papagaio; mas-isto dificilmente ~ria ser chamado de
pensamento. Pode apen9 acontecer que; :depois: de construída a linguagem
simbólica por meiO do pensamento efetiva, , ela o seja de tal maneira,
quepasse, por assim dizer, a pensar por nós. Isto não prova que os- números
se -formem de modo particularmente mecânico, mais ou menos como um
monte de areia é formado de grãos de quartzo. É, creio eu, do interesse dos
matemáticos opor-se a uma tal opinião, apropriada a desacreditar um objeto
fundamental de sua ciência, e com isto a própria ciência. Entretanto, também
nos matemáticos encontram-se formulações bastante semelhantes. Deve-se
reconhecer, pelo contrário, que o conceito de número possui uma estrutura
mais fma que a maioria dos conceitos das outras ciências, embora seja ainda
um dos mais simples da aritmética
P5
Devemo-nos lembrar que, pelo que parece, uma proposição não deixa de ser
verdadeira se paro de pensar nela, tanto quanto o Sol não se aniquila se fecho
os olhos. Caso contrário concluiríamos que se deveria fazer menção, na
demonstração do teorema de Pitágoras, ao índice de fósforo de nosso cérebro,
e que um astrônomo recearia estender suas conclusões a um passado remoto,
a fim de que não se lhe objetasse: "você calcula: 2 . 2 = 4; mas a
representação do número possui de fato um desenvolvimento, uma história !
Pode-se duvidar que naquele tempo ela já tivesse ido . tão longe. Como você
sabe que neste passado remoto esta proposição já existia? Não seria possível
que os seres vivos daquela época tivessem a proposição 2.2 = 5, a partir da
qual ter-se-ia desenvolvido, pela seleção natural na luta pela existência, a
proposição 2 . 2 = 4, que estaria por sua vez destinada a progredir, pelas
mesmas vias, até 2. 2 = 3?" Est modus in rebus, sunt certi denique fines 1 4 O
método histórico de reflexão, que procura detectar a gênese das coisas e a
partir da gênese reconhecer sua natureza, tem certamente muitos direitos; mas
tem também seus limites. Se no fluxo constante de todas as coisas nada se
mantivesse firme e eterno, o conhecimento do mundo deixaria de ser possível
e tudo mergulharia em confusão. Imagina-se, pelo que parece, que os
conceitos nascem na alma individual como as folhas nas árvores, e pretende-
se ser possível conhecer sua essência por meio da investigação de sua
gênese, que se procura explicar psicologicamente a partir da natureza da alma
humana. Mas esta concepção lança tudo no subjetivo e, levada às últimas
conseqüências, suprime a verdade. O que se chama de história dos conceitos
é de fato uma história de nosso conhecimento dos conceitos ou dos
significados das palavras. Freqüentemente é apenas mediante um vasto
trabalho do espírito, que pode levar séculos, que se consegue conhecer um
conceito em sua pureza, extraí-lo dos invólucros estranhos que o dissimulavam
aos olhos do espírito. ....
.... ! Falta apenas atribuir ao sabor do pão um significado particulr para o
conceito de número. Contudo, 4 Há uma medida para as coisas; afinal, existem
certos limites. (Horácio) (N. do E.) OS FUNDAMENTOS DA ARITMÉTICA 203
este é precisamente o contrário de um procedimento racional e, de qualquer
modo, tão pouco matemático quanto possível. Não é surpreendente que os
matemáticos não queiram saber dele ! Ao invés de encontrar, onde se julga
estar mais próximo de suas fontes, uma pureza particular dos conceitos, vê-se
tudo confuso e indistinto como através de uma névoa. É como se alguém, a fim
de se instruir sobre a América, desejasse transportar-se à situação de Colombo
no momento do primeiro vislumbre incerto de suas supostas Índias. Uma tal
comparação, é certo, não prova nada; mas espero que esclareça minha tese.
Pode ser que de fato a história das descobertas seja útil, em, muitos casos,
como preparação para pesquisas posteriores; mas ela não pode pretender
tomar seu lugar
Extra
N’Os Fundamentos da Aritmética, Frege acaba por dar a seguinte definição
explícita de número: o número que vem para o conceito F é a extensão do
conceito “ser equinumérico ao conceito F”. É de observar que esta definição
mostra, uma vez mais, que a posição de Frege n’Os Fundamentos da
Aritmética ainda não estava totalmente amadurecida. Com efeito, Frege fala
duma extensão cujos elementos são conceitos, nomeadamente aqueles
conceitos que são equinuméricos ao conceito dado F. Mais tarde, nas
Grundgesetze der Arithmetik, Frege já não se exprime assim. Nesta obra, as
extensões são sempre extensões constituídas por objetos. O número que vem
para o conceito F é agora definido como a extensão do conceito “ser uma
extensão dum conceito equinumérico ao conceito F”.

A noção aritmética de número, no sistema de Frege, é


substituído pela noção lógica de “classe”: os números
cardinais podem ser definidos como classes de classes
com o mesmo número de membros; assim, o número
dois é a classe dos pares, e o número três, a classe dos
trios. Apesar do que parece, esta definição não é
circular, porque podemos dizer o que significa duas
classes terem o mesmo número de membros sem usar
a noção de número: assim, por exemplo, um criado de
mesa pode saber que o número de facas é igual ao
número de pratos que estão na mesa, sem saber
quantos pratos nem quantas facas estão lá, se observar
que há apenas uma faca à direita de cada prato. Duas
classes têm o mesmo número de membros se puderem
ser mapeadas uma na outra (numa função bijectiva).
Podemos definir o número zero em termos puramente
lógicos como a classe de todas as classes com o mesmo
número de membros que a classe de objectos que não
são idênticos a si próprios.

Se eu disser que Vénus tem zero luas, não há


simplesmente qualquer lua ou aglomeração de luas que
sejam objecto de qualquer asserção; o que acontece é
que se está a atribuir uma propriedade ao conceito “lua
de Vénus”, nomeadamente, a propriedade de não incluir
coisa alguma. Se eu disser que a carruagem do rei é
puxada por quatro cavalos, estou a atribuir o número
quatro ao conceito “cavalo que puxa a carruagem do
rei”.
Mas se as afirmações numéricas deste tipo são acerca
de conceitos, que tipo de objecto é um número em si? A
resposta de Frege é que um número é a extensão de
um conceito. O número que pertence ao
conceito F, afirma, é a extensão do conceito
“equinumérico do conceito F”. Isto equivale a dizer que
é a classe de todas as classes que têm o mesmo
número de membros que a casse dos F, como se
explicou já. De modo que a teoria de Frege de que os
números são objectos depende da possibilidade de
encarar as classes como objectos.

Você também pode gostar