0% acharam este documento útil (0 voto)
52 visualizações76 páginas

Análise de Problemas em Teoria dos Números

Este trabalho de conclusão de curso analisa conjecturas e problemas em aberto na Teoria dos Números, com foco em números primos e suas aplicações. O estudo inclui a Conjectura de Goldbach, a Conjectura de Legendre e a Conjectura de Collatz, além de explorar problemas como números perfeitos e amigos. A pesquisa destaca a importância da Teoria dos Números e os desafios que os matemáticos enfrentam ao tentar resolver questões não solucionadas.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
52 visualizações76 páginas

Análise de Problemas em Teoria dos Números

Este trabalho de conclusão de curso analisa conjecturas e problemas em aberto na Teoria dos Números, com foco em números primos e suas aplicações. O estudo inclui a Conjectura de Goldbach, a Conjectura de Legendre e a Conjectura de Collatz, além de explorar problemas como números perfeitos e amigos. A pesquisa destaca a importância da Teoria dos Números e os desafios que os matemáticos enfrentam ao tentar resolver questões não solucionadas.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Instituto Federal de Educação, Ciência e

Tecnologia da Bahia - Campus Valença


Licenciatura em Matemática

Sávio Ribeiro Gomes Negrão

Teoria dos Números: Uma Análise Sobre


Problemas em Aberto

Valença-BA
2023
Sávio Ribeiro Gomes Negrão

Teoria dos Números: Uma Análise Sobre


Problemas em Aberto

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia da Bahia - Campus Valença como
parte dos requisitos para a obtenção do título
de Licenciado em Matemática.

Orientador: Prof. Me. Diego Coutinho Vieira


Santiago

Valença-BA
2023
Sávio Ribeiro Gomes Negrão
Teoria dos Números: Uma Análise Sobre
Problemas em Aberto

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao


Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia da Bahia - Campus Valença como
parte dos requisitos para a obtenção do título de
Licenciado em Matemática.

Aprovado em: _____/_____/_____.

BANCA EXAMINADORA

Profº. Me. Diego Coutinho Vieira Santiago


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia

Profº. Dr. Diogo Soares Dórea da Silva


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia

Profª. Ma. Renata de Moura Issa Vianna


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia

Valença - BA,_______de________________de 2023.


N385t Negrão, Sávio Ribeiro Gomes
Teoria dos números: uma análise sobre problemas
em aberto.-Valença- BA: IFBA, 2023.
65f.;il.

Orientador: Prof. Me. Diego Coutinho Vieira


Santiago

Trabalho de conclusão de curso (Graduação)


Licenciatura em Matemática- Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia – Campus
Valença, 2023.
1.Teoria dos números- Matemática. 2. Problemas em
1. aberto 3. Conjecturas. 4. Números primos I. Santiago,
Diego Coutinho Vieira. II. Título.
CDD: 512.7

Catalogação na fonte: Cátia Almeida de Andrade. CRB1403-5.


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia
- Campus Valença
“A Matemática, vista corretamente,
possui não apenas verdade,
mas também suprema beleza.”

Bertrand Russell (1872 - 1970)


In memoriam:
Amando Tanan,
meu eterno avô.
Agradecimentos

Primeiramente a Deus, por me permitir chegar até aqui; sem Ele, nada seria possí-
vel. Agradeço imensamente a minha incrível mãe, Salete Ribeiro Gomes Negrão e ao
meu grandioso pai, Sílvio Pereira Negrão, por terem me ensinado a trilhar o caminho do
bem, do respeito, da honestidade e principalmente dos estudos; por sempre me apoiar e
me guiar na estrada da vida. Aos meus avós paternos, Zelí Dias e Antônio Negrão (in
memoriam), pessoas que fizeram parte da minha criação.

Ao meu orientador e professor, Diego Coutinho, pela belíssima orientação e dedicação


em compartilhar seus conhecimentos, além de orientador e amigo, é um grande conse-
lheiro. Obrigado pelo incentivo para utilizar o LATEX, ferramenta que deixou o trabalho
extremamente organizado, a altura da beleza da Matemática, exatamente como deve ser.
Obrigado por toda ajuda e orientação.

Aos membros da minha banca, Diogo Dórea e Renata Vianna, por contribuirem para
a excelência desse trabalho. Aos professores que tive durante o período de graduação,
professores os quais me espelho, que são exemplos para mim, como Jamille, Ruth, Már-
cia Rebeca, Eliete, Patrícia Argôlo, Renata, Roque, Marcelo, Diego, Diogo, entre outros
professores e professoras que auxiliaram imensamente para minha formação.

Aos meus amigos pelos incansáveis estudos frequentes, em singular, minha prima, Da-
niele Negrão, que além de uma grande amiga, foi uma parceira de estudos durante todo
o curso. Um agradecimento sublime para Vânia Ramos, pela parceria e principalmente
pela paciência e compreensão nos momentos de aflições na longa jornada do curso.

Por fim, trago meu agradecimento especial para minha avó, Ruth Maria e em memória
ao meu avô, Amando Tanan, por serem pessoas que sempre acreditaram em mim, sempre
acreditaram que eu seria capaz. Obrigado por tanto carinho!
Resumo

Este trabalho de monografia visa apresentar uma análise sobre as conjecturas e pro-
blemas em aberto dentro do estudo da Teoria dos Números. Abordaremos desde conceitos
básicos para o entendimento desta análise, como o conceito de números primos, sua infini-
tude, suas aplicações e seu padrão de formação, sendo este, o primeiro problema elementar
em aberto analisado neste trabalho. Além disso, veremos também outros problemas em
aberto envolvendo os números primos, como os famosos Primos de Mersenne e os primos
gêmeos, mostrando a importância do estudo sobre a teoria dos números primos. No campo
das conjecturas, começaremos estudando uma das mais belas conjecturas apresentadas:
A Conjectura de Goldbach. Tal conjectura possui um enunciado relativamente simples
de ser entendido e uma importância extremamente relevante para a Teoria dos Números.
Apresentaremos também a Conjectura de Legendre, que retoma as aplicações dos núme-
ros primos, mostrando novamente o quão misteriosos são esses números e a sua extrema
relevância para a Matemática. Veremos também a Conjectura de Collatz, um importante
enunciado para a teoria dos números primos e repleto de aplicações, principalmente no
campo da Computação. Contemplaremos também outros problemas em aberto, nos quais
veremos os chamados números perfeitos e números amigos. O estudo destes números é
de extrema importância para a Teoria dos Números, pois retoma conceitos básicos como
divisibilidade e congruência modular.

Palavras-chave: Teoria dos Números. Problemas em Aberto. Conjecturas.


Abstract

This monograph work aims to present an analysis of the conjectures and open problems
in the study of Number Theory. We will cover basic concepts to understand this analy-
sis, such as the concept of prime numbers, its infinity, its applications and its formation
pattern, which is the first elementary open problem analyzed in this work. Moreover, we
will also see other open problems involving prime numbers, such as the famous Mersenne
Primes and twin primes, showing the importance of the study of prime number theory.
In the field of conjectures, we will begin by studying one of the most beautiful conjec-
tures presented: The Goldbach’s Conjecture. This conjecture has a relatively simple
statement to understand and an extremely relevant importance for Number Theory. We
will also present the Legendre Conjecture, which resumes the applications of prime num-
bers, showing again how mysterious these numbers are and their extreme importance for
Mathematics. We will also see the Collatz Conjecture, an important statement for prime
number theory and full of applications, especially in the field of Computing. We will
also contemplate other open problems, in which we will see the so-called perfect numbers
and friendly numbers. The study of these numbers is extremely important for Number
Theory, since it recovers basic concepts such as divisibility and modular congruence.

Keywords: Number Theory. Open Problems. Conjectures.


Sumário

1 Introdução 1

2 Problemas em aberto envolvendo números primos 6


2.1 Divisibilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
2.2 Números Primos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
2.3 Infinitude dos números primos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
2.4 À procura dos números primos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
2.5 Aplicações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
2.6 Primos de Mersenne . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
2.7 Primos Gêmeos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

3 Conjecturas na Teoria dos Números 30


3.1 Conjectura de Goldbach . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
3.2 Conjectura de Legendre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
3.3 Conjectura de Collatz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40

4 Outros Problemas em Aberto na Teoria dos Números 47


4.1 Números Perfeitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
4.2 Números Amigos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50

5 Conclusões e Perspectivas 52

Referências 53

A Representação dos Primos de Mersenne menores que 10100 55

B Representação dos pares de Primos Gêmeos menores que 10.000 56

C Representação da Conjectura de Goldbach para os naturais até 100 58

D Representação da Conjectura de Legendre para 10, 102 e 103 60


E Representação da Conjectura de Collatz para 1010 61

F Representação dos 10 primeiros Números Perfeitos na forma


(2p−1 ) · (2p − 1) 63

G Representação dos 10 primeiros pares de Números Amigos 64


Capítulo 1

Introdução

Ao longo da história, muitos matemáticos se debruçaram para resolver problemas que


até o momento não possuíam solução; geralmente são vários anos de dedicação para solu-
cionar um problema que, na maioria das vezes, o enunciado chega a ser simples, porém, a
sua complexidade está na tentativa de demonstração que tal afirmação é verdadeira (ou
falsa). Os problemas em aberto na Matemática são questões cuja solução é desconhecida
ou não totalmente compreendida pelos matemáticos. Esses problemas podem surgir de di-
versas áreas da Matemática, como a Teoria dos Números, Geometria, Topologia, Análise,
entre outras. Muitas vezes, tais problemas são formulados em termos de conjecturas, que
são afirmações que se acredita serem verdadeiras, mas que ainda não foram demonstradas
formalmente. Os matemáticos trabalham para provar ou refutar essas conjecturas, e a
resolução desses problemas pode levar a novas descobertas e avanços em diversas áreas
da Matemática.
Os problemas em aberto são importantes porque eles desafiam os matemáticos a pen-
sarem criativamente e a explorarem novas áreas da Matemática. Além disso, muitos
desses problemas são fundamentais para o desenvolvimento de novas teorias e aplicações
práticas em várias áreas do conhecimento, como Física, Engenharia, Ciência da Compu-
tação e Criptografia. Muitos dos problemas em aberto na Matemática são extremamente
difíceis de resolver, e alguns deles têm sido objeto de estudo por décadas, senão séculos.
No entanto, os matemáticos continuam a trabalhar nesses problemas, na esperança de
que novas técnicas e ideias possam levar a uma solução em algum momento no futuro.
O Teorema de Fermat (também conhecido como “O Último Teorema de Fermat”),
foi um problema algébrico proposto em 1637 pelo matemático francês Pierre de Fermat
(1601 − 1665), onde enunciava que não existe solução para a equação xn + y n = z n , onde
n é um inteiro maior do que 2 e (x, y, z) são inteiros positivos. Tal enunciado permaneceu
sem solução por mais de 350 anos desde sua publicação, enquanto diversos matemáticos
tentaram solucioná-lo. Uma das tentativas de sua demonstração foi realizada em 1993, no
famoso seminário anual de Matemática, realizado na Universidade de Cambridge. O ma-
1. Introdução 2

temático britânico Andrew Wiles (1953−) passou 7 anos se dedicando totalmente em um


único problema, porém, a sua primeira demonstração apresentava erros. Wiles se dedicou
por mais 1 ano, e por fim, apresentou a demonstração completa em 1994. Outro exemplo
interessante é a Conjectura de Poincaré, proposta pelo matemático francês Henri Poin-
caré (1854 − 1912) no ano de 1900, e é um dos problemas matemáticos considerados mais
difíceis da história. O problema ficou por séculos sem solução, até que foi demonstrada
em 2003 pelo russo Grigori Perelman (1966−), um matemático que recusou o prêmio de
1 milhão de dólares e todas as honrarias acadêmicas pelo seu feito, pois afirmava que
seu único interesse era “fazer matemática”, e não receber honrarias por isso. Outro pro-
blema que desafia os matemáticos é a Hipótese de Riemann, proposta pelo matemático
alemão Bernhard Riemann (1826 − 1866) em 1859, um problema sem solução até os dias
atuais, e que, diferente dos outros, seu enunciado é tão complexo quanto suas tentativas
de demonstração. Tal problema, se demonstrado verdadeiro, abrirá portas para um novo
entendimento da Matemática e suas aplicações.
A Teoria dos Números é um campo da Matemática Pura que estuda as propriedades
dos números em geral (em particular dos números inteiros). É nessa área da Matemática
que se encontra grande parte dos problemas em aberto, onde na maioria das vezes, tais
problemas estão intimamente ligados aos números primos. De modo simples, números
primos são números que possuem apenas dois divisores positivos. Como 1 é divisor de
todo número inteiro e o próprio número é divisor dele mesmo, então dizemos que um nú-
mero é primo quando possui apenas dois divisores positivos: 1 e o próprio número. Como
exemplo, temos que 5 é primo, pois os únicos divisores positivos de 5 são 1 e o próprio
5. Importante citar que o conjunto dos números primos é infinito, tal demonstração será
abordada no segundo capítulo deste trabalho. Note que o conceito de número primo é
simples, porém, estes números possuem um enigma interessante: a regularidade na qual
esses números aparecem. Se analisarmos, por exemplo, os números pares e ímpares, é fácil
encontrar uma regularidade nesses números, sendo possível até determinar uma fórmula
matemática que resultará apenas em tais números. Porém, em relação aos números pri-
mos, essa regularidade não é evidente. Sendo assim, tem-se os seguintes problemas: existe
um padrão ou regularidade para os números primos? Há alguma fórmula que expresse
apenas esses números? Essas e outras questões serão abordadas mais especificamente no
segundo capítulo e ao longo deste trabalho.
Ainda no capítulo sobre os números primos, iremos discutir sobre os números da forma
Mp = 2p −1 (com p primo), conhecidos como Primos de Mersenne. Marin Mersenne (1588
- 1648), matemático francês, percebeu que para alguns valores de p primo, Mp também
seria primo. Por exemplo, para p = 3, teríamos:

M3 = 2 3 − 1
M3 = 8 − 1
M3 = 7.
1. Introdução 3

Um outro exemplo a se analisar é o número 31, que também é um número primo consi-
derado Primo de Mersenne, pois:

M5 = 2 5 − 1
M5 = 32 − 1
M5 = 31.

Essa descoberta foi muito significativa para a área da Teoria do Números, principal-
mente no que tange aos números primos, pois, os maiores números primos encontrados
atualmente são no formato dos Primos de Mersenne. Mas, fica o questionamento: sabe-
mos que o conjunto dos números primos é infinito, mas será que o conjunto dos Primos
de Mersenne também é? Note que saber que o conjunto dos números primos é infinito
não garante que o conjunto dos Primos de Mersenne também seja.
Outro estudo curioso para se analisar dentro dos números primos são os chamados
“primos gêmeos”. Tais números são pares escritos da seguinte forma: (p, p + 2), onde p e
p+2 são primos. Por exemplo, temos (3, 5), (5, 7), (11, 13), entre outros. Note que cada par
é formado por números primos e a diferença entre eles resulta em 2. Atualmente, existem
pares muito grandes de números primos gêmeos, os quais veremos mais detalhadamente
no capítulo sobre os números primos. A grande questão em relação ao conjunto dos primos
gêmeos é sobre sua infinitude, ou seja, existem infinitos pares de primos gêmeos? Note que
saber que o conjunto dos números primos é infinito não garante que o conjunto dos pares
de primos gêmeos também é, tal afirmação precisa ser analisada de forma independente
e com cautela.
No Capítulo 3, iremos apresentar e discutir três conjecturas dentro da Teoria dos
Números: Conjectura de Goldbach, Conjectura de Legendre e Conjectura de Collatz.
A conjectura de Goldbach foi enunciada por um matemático prussiano nascido em Kö-
nigsberg (hoje pertencente à Rússia), chamado Christian Goldbach (1690 - 1764). Tal
conjectura diz que todo número par maior que dois pode ser escrito como a soma de dois
números primos. Por exemplo,

4 = 2+2
8 = 3 + 5.

Observe que 2, 3 e 5 são números primos.


A Conjectura de Legendre, enunciada pelo matemático francês Adrien-Marie Legendre
(1751 - 1833), afirma que existe pelo menos um número primo p entre n2 e (n + 1)2 , para
qualquer n inteiro positivo, ou seja, n2 < p < (n + 1)2 . Por exemplo, para n igual a 1,
temos

12 < p < (1 + 1)2


1 < p < 22
1 < p < 4.
1. Introdução 4

Note que p = 2 e p = 3 satisfazem a condição 1 < p < 4, já que 2 e 3 são números primos.
Já a Conjectura de Collatz, enunciada pelo matemático alemão Lothar Collatz (1910 -
1990), não faz uso dos números primos, porém, apresenta uma característica bem interes-
sante: a conjectura segue um determinado algoritmo e afirma que, para qualquer número
inteiro positivo inicial n, se n for par, divida-o por 2, caso contrário, multiplique-o por 3
e some 1. Repetindo esse processo para os próximos números gerados, o resultado final
irá convergir para 1. Então, a conjectura afirma que, independentemente do valor inicial
de n, a sequência resultante sempre chegará eventualmente ao número 1. Apesar de mui-
tos matemáticos terem estudado essa conjectura e encontrado evidências empíricas que
a suportam, ela ainda não foi provada nem refutada. Por isso, a Conjectura de Collatz
é considerada um dos maiores mistérios da Matemática contemporânea dentro da Teoria
dos Números. Por exemplo, escolhendo o número ímpar 3 para iniciar o algoritmo, temos
os seguintes passos (chamaremos de iterações):

1a Iteração
3 · 3 + 1 = 10
2a Iteração
10
=5
2
3a Iteração
5 · 3 + 1 = 16
4a Iteração
16
=8
2
5a Iteração
8
=4
2
6a Iteração
4
=2
2
7a Iteração
2
=1
2
Perceba que o resultado convergiu para 1, como prevê a conjectura. Porém, até o momento
nada foi provado ou refutado, o que torna esta conjectura, no mínimo, interessante de se
analisar.
Abordaremos também problemas em aberto que envolvem a ideia de divisibilidade, parte
da Matemática extremamente importante para a Teoria dos Números. Tais problemas
estão ligados aos números perfeitos e aos números amigos. Temos que, de modo resumido,
um número inteiro positivo é considerado perfeito se ele for igual à soma de todos os seus
1. Introdução 5

divisores próprios. Como exemplo, veja o número 6, este tem como divisores: 1, 2, 3 e 6.
Se somarmos todos os divisores de 6 menores que ele, obteremos o próprio número 6, ou
seja: 1 + 2 + 3 = 6. Essa característica dos números perfeitos foi pensada desde a época de
Euclides de Alexandria (aproximadamente 323 a.C. - 283 a.C.) e intriga os matemáticos
até hoje. A grande questão é: será que existem infinitos números perfeitos? Tal problema
ainda está sem solução.
Já nos números amigos, o conceito é semelhante, porém, dois números inteiros positivos
a, b são considerados números amigos se a soma dos divisores de a (exceto o próprio a) for
igual a b, e a soma dos divisores de b (exceto o próprio b) resultar em a. Como exemplo,
temos o par dos menores números amigos conhecidos: (220, 284). Note que os divisores
de 220 (exceto o próprio 220) são: 1, 2, 4, 5, 10, 11, 20, 22, 44, 55, 110, onde a soma destes
números resulta em 284. O mesmo acontece com o 284, seus divisores (com exceção do
próprio 284) são: 1, 2, 4, 71, 142, onde a soma destes divisores resulta em 220. Por essa
condição específica, o par (220, 284) é considerado um par de números amigos. Assim
como os números perfeitos, aqui também há a grande questão: será que existem infinitos
pares de números amigos?
Para abordar tais assuntos de forma aprofundada, temos como metodologia de pes-
quisa a revisão de literatura, que possibilitou investigar, ampliar, sistematizar e ordenar
a estrutura deste trabalho.

Revisão da literatura é o processo de busca, análise e descrição de um


corpo do conhecimento em busca de resposta a uma pergunta específica.
Literatura cobre todo o material relevante que é escrito sobre um tema:
livros, artigos de periódicos, artigos de jornais, registros históricos, re-
latórios governamentais, teses e dissertações e outros tipos. (MATTOS,
2015, p. 2)

Trazemos também a importância da organização da apresentação dos dados, seguindo


uma ordem lógica, pois dessa forma, há uma melhor compreensão do que está sendo
apresentado. Traz-se assim, uma produção concisa das informações levantadas durante
esta pesquisa. Dessa forma, segundo Mattos (2015), nesse tipo de produção, o material
coletado pelo levantamento bibliográfico é organizado por procedência, ou seja, fontes
científicas e fontes de divulgação de ideias, e, a partir da análise, permite ao pesquisador
a elaboração de ensaios que favorecem a contextualização, problematização e uma primeira
validação do quadro teórico a ser utilizado na investigação empreendida.
Capítulo 2

Problemas em aberto envolvendo


números primos

Neste capítulo trataremos de conceitos sobre a definição dos números primos, sua
infinitude, a incessante procura por números primos cada vez maiores e algumas das
principais aplicações. Além disso, abordaremos também problemas em aberto como os
Primos de Mersenne e os Primos Gêmeos. Utilizaremos como referência a obra de Santos
(2009), com a qual iremos enunciar e demonstrar o Teorema Fundamental da Aritmética
e o conceito de divisibilidade.

2.1 Divisibilidade
Definição 2.1. Se a e b são inteiros, dizemos que a divide b, denotando por a | b, se
existir um inteiro k tal que b = a · k. Se a não divide b, escrevemos a ∤ b. Se temos que
a | b, podemos dizer ainda que, b é divisível por a, ou que a é divisor de b.

Como exemplo, temos que 5 | 10, pois existe k ∈ Z tal que 10 = 5 · k, neste caso,
k = 2. Por outro lado, temos que 7 ∤ 10, pois não existe k ∈ Z tal que 10 = 7 · k. Esses
exemplos com essa notação nos ajudará a entender a continuação desse trabalho.

2.2 Números Primos


Definição 2.2. Um número inteiro p (p > 1), é denominado primo quando possui apenas
dois divisores inteiros positivos, p e 1.

Teorema 2.1. (Teorema Fundamental da Aritmética). Todo número inteiro n maior do


que 1 pode ser representado de maneira única (a menos da ordem) como um produto de
fatores primos.
2.2. Números Primos 7

Demonstração:

Se n é primo, não há o que ser demonstrado. Supondo agora que n seja composto,
temos p1 (p1 > 1), como o menor dos divisores positivos de n. Podemos afirmar que p1 é
primo, pois, caso contrário, existiria p, (1 < p < p1 ), com p | n, contradizendo a escolha
de p1 . Temos então que n = p1 · n1 .
Se n1 for primo, nossa demonstração está completa. Caso contrário, tomamos p2 como o
menor fator de n1 . Pelo argumento anterior, p2 é primo e temos que n = p1 · p2 · n2 .
Repetindo este procedimento, obtemos uma sequência decrescente de inteiros positivos
n1 , n2 , . . . , nr . Como todos eles são inteiros maiores do que 1, este processo deve terminar.
Como os primos na sequência p1 , p2 , . . . , pk não são, necessariamente, distintos, n terá,
em geral, a forma:

a
n = p1 · p2 · . . . · pk = q1a1 · q2a2 · . . . · qj j

.
Para mostrarmos a unicidade, usamos indução forte em n. Para n = 2, vemos que
a afirmação é verdadeira. Assumimos, então, que ela se verifica para todos os inteiros
maiores do que 1 e menores do que n. Vamos provar que ela também é verdadeira para
n. Se n é primo, a demonstração está feita. Vamos supor, então, que n seja composto e
que tenha duas fatorações, ou seja:

n = p1 · p2 · . . . · ps .

n = q 1 · q2 · . . . · qr .

Vamos provar que s = r, e que cada pi (1 ≤ i ≤ s) é igual a algum qj (1 ≤ j ≤ r). Temos


que, como p1 divide o produto q1 · q2 · . . . · qr , então ele divide pelo menos um dos fatores
qj . Sem perda de generalidade, podemos supor que p1 | q1 . Como ambos os números são
primos, isto implica que p1 = q1 . Logo, temos:

n
= p 2 · . . . · p s = q2 · . . . · qr .
p1
n
Como 1 < < n, a hipótese de indução nos diz que as duas fatorações são idênticas,
p1
isto é, s = r e, a menos da ordem, as fatorações p1 · p2 · . . . · ps e q1 · q2 · . . . · · · qr são
exatamente iguais.


2.3. Infinitude dos números primos 8

2.3 Infinitude dos números primos


Teorema 2.2. A sequência dos números primos é infinita.

Demonstração:
Tal demonstração baseia-se por uma técnica conhecida como redução ao absurdo,
ou, demonstração por contradição. Esta técnica consiste em supor inicialmente uma
determinada hipótese, e ao desenvolver uma determinada sequência lógica, chega-se a
uma contradição, um absurdo, sendo então a hipótese inicial negada.
Vamos supor inicialmente que a sequência dos números primos seja finita. Temos então
P = {p1 , p2 , . . . , pn } como sendo o conjunto de todos os números primos. Considerando o
número R = p1 · p2 · . . . · pn + 1, temos que R não é divisível por nenhum dos pi (1 ≤ i ≤ n)
da nossa lista, e que R é maior do que qualquer pi . Porém, pelo Teorema Fundamental
da Aritmética, temos que R é primo ou possui algum fator primo. Note que R ∈ / P , o que
contradiz a nossa hipótese que P é finito. Com isso, podemos concluir que o conjunto dos
números primos é infinito.

2.4 À procura dos números primos


Platão (aproximadamente 428 a.C. - 348 a.C.) foi um matemático e filósofo grego,
fundador da Academia de Atenas, primeira instituição de educação superior do mundo
ocidental, teve um aluno chamado Euclides de Alexandria, este, por sua vez, muito in-
teressado pelo mundo da Filosofia e da Matemática, escreveu um livro denominado Os
Elementos. Tal livro possui grande parte dos fundamentos elementares essenciais para a
Geometria, por este motivo, Euclides é considerado por muitos matemáticos como o pai
da Geometria.
Figura 1: Euclides de Alexandria

Fonte: <https://editoraunesp.com.br/>
2.4. À procura dos números primos 9

Porém, o grande diferencial dessa obra é que, além de trazer grandes contribuições
para a Geometria, traz também conceitos e definições sobre a Teoria dos Números. Tais
conceitos são utilizados e estudados pelos matemáticos até os dias atuais. Atualmente,
Os Elementos é um conjunto de livros que dão fundamentos para a base da Matemática.
No livro VII, Definição 2, sob a tradução de Bicudo (2009), Euclides diz:

“Um número é uma pluralidade composta de unidades.”

Euclides, livro Os Elementos.

Tal definição de Euclides nos permite observar os números como um conjunto. Porém,
ao analisar as propriedades de alguns conjuntos de números, percebe-se que existem alguns
conjuntos que são, de certa forma, especiais; especificamente os números primos, um
conjunto de números com características especiais descobertas pelos antigos matemáticos.
Euclides decide então se debruçar em seus estudos sobre os números primos, sendo então,
o primeiro a mostrar através da argumentação lógico-matemática que o conjunto dos
números primos é infinito. E em seu livro IX, na Proposição 20, ele diz:

“Os números primos são mais numerosos do que toda a quantidade que tenha sido
proposta de números primos.”

Euclides, livro Os Elementos.

Partindo desse teorema, será que conseguiremos então determinar quantos números
primos há entre 1 e algum outro número inteiro positivo? Por exemplo, quantos números
primos há entre 1 e 50? Avançando um pouco mais no tempo, iremos analisar agora a
abordagem de Eratóstenes para os números primos. Segundo Eves (1997), Eratóstenes
viveu no século III a. C, nasceu em Cirene, mas passou grande parte da sua vida em Atenas
e depois foi para Alexandria, onde foi bibliotecário da universidade local. Trabalhou como
astrônomo, matemático, geógrafo, historiador, filósofo, atleta e poeta. Ele desenvolveu
um método que posteriormente ficou conhecido por Crivo de Eratóstenes. Tal aplicação
reconhecia números primos entre 1 e um certo n inteiro. Por exemplo, quantos números
primos existem entre 1 e 100? Quais são esses números? O Crivo de Eratóstenes era
capaz de responder essas perguntas.
O algoritmo consiste no método da eliminação, onde são descartados os números os
quais sabemos que não são primos. É um método simples, porém, muito eficaz. Vejamos
um exemplo: quantos números primos existem de 1 a 16? Quais são esses números?
Inicialmente, montaremos uma tabela com tais números.
2.4. À procura dos números primos 10

Figura 2: Busto de Eratóstenes

Fonte: <https://www.iag.usp.br/>

Tabela 2.1: Tabela numérica

1 2 3 4
5 6 7 8
9 10 11 12
13 14 15 16

Fonte: Elaborado pelo autor

Agora iremos eliminar os números que sabemos que não são primos, como o número
1 e os múltiplos de todos os outros números primos. Eliminaremos o 4, 6, 8, 10, 12 e
16 que são múltiplos de 2, o 9 e o 15 que são múltiplos de 3, e assim sucessivamente.
Para exemplificar, colocaremos as células eliminadas em vermelho, indicando que aquele
número foi excluído. Os números que sobraram do nosso algoritmo, ficarão com as células
em verde. Nossa tabela ficará da seguinte forma:

Tabela 2.2: Algoritmo aplicado na tabela numérica

1 2 3 4
5 6 7 8
9 10 11 12
13 14 15 16

Fonte: Elaborado pelo autor

Note que os números dentro da célula verde, responde a nossa pergunta inicial: quantos
números primos existem de 1 a 16? Fazendo a contagem, temos seis números primos.
2.4. À procura dos números primos 11

Quais são esses números? São 2, 3, 5, 7, 11 e 13, conforme mostrado no algoritmo.


Observe que para números pequenos o processo de análise e contagem é relativamente
simples, porém, e se quiséssemos saber a quantidade de números primos de 1 a 500?
Agora o processo seria mais trabalhoso, o que não é tão interessante para otimização do
tempo gasto na análise. Mas, para números maiores, ficaríamos testando e eliminando
para todos os números da lista? Existe algum critério de parada? Sim! Por exemplo,
para descobrirmos a quantidade de números primos menores que n ∈ N, o critério de

parada do Crivo de Eratóstenes é “eliminar” todos os números até os mútiplos de n,
onde n é o maior número a ser analisado. Em nosso caso, estamos analisando o número

16, então, iremos verificar o algoritmo do Crivo até os múltiplos de 4, pois 16 = 4.

Para raiz quadrada não exata, arredondaremos o resultado de n para o maior inteiro
menor ou igual ao resultado. Por exemplo, se quiséssemos saber os números primos até

30, utilizaríamos como critério de parada 30, que neste caso, seria aproximada para 5,
onde aplicaríamos o algoritmo até os múltiplos de 5.
No século XVIII, Leonhard Euler (1707 - 1783), um importante matemático suíço,
também trouxe grandes contribuições para a Matemática, principalmente para o campo
da Teoria dos Números. Euler teve como um dos seus principais estudos a análise sobre
o infinito. Tal conhecimento constitui um dos fundamentos indispensáveis da Matemá-
tica Moderna. Em 1723, com 16 anos, ele recebeu o grau de Mestre em Artes, com
uma dissertação que comparava os sistemas de Filosofia Natural de Newton e Descartes
(D’AMBROSIO, 2009).
Euler começou a se dedicar aos estudos dos padrões matemáticos, e já mais velho, em
1770 com 63 anos, ele publica seu livro de problemas matemáticos “A Álgebra”.

Figura 3: A Álgebra

Fonte: <https://rbhm.org.br/>
2.4. À procura dos números primos 12

Nessa publicação, Euler traz um compilado de seus estudos algébricos onde há alguns
tópicos abordando os números primos, dentre eles, o Polinômio de Euler, um polinômio
p(n) que relaciona números primos de uma forma bem interesante. O polinômio de Euler
é expresso como: p(n) = n2 − n + 41. Se assumirmos valores inteiros para n (n ≥ 0),
perceba o que acontece:
p(0) = 02 − 0 + 41 = 41

p(1) = 12 − 1 + 41 = 41

p(2) = 22 − 2 + 41 = 43

p(3) = 32 − 3 + 41 = 47

p(4) = 42 − 4 + 41 = 53

p(5) = 52 − 5 + 41 = 61

p(6) = 62 − 6 + 41 = 71.

Note que, para valores inteiros de 0 a 6, o polinômio p(n) retorna apenas números primos.
Tal polinômio foi uma grande descoberta no estudo dos números primos, pois imaginou-
se que existiria então uma fórmula para expressar números primos. Porém, o padrão do
Polinômio de Euler de retornar apenas números primos é válido de n = 0 até n = 40,
pois, para n = 41 temos que p(41) = 1.681 = 41 · 41, que não é um número primo. Euler
também formulou uma função φ(n) que determinava a quantidade de números inteiros
positivos que são primos com um determinado n. Números primos entre si pertencem a
um conjunto de dois ou mais números naturais cujo único divisor comum a todos eles seja
o número 1. Por exemplo: de 1 a 10, quantos números são primos entre si com o próprio
10? Perceba que tais números são 1, 3, 7 e 9, temos então 4 números. Note que 9 não
é um número primo, mas 9 e 10 são primos entre si, pois o maior divisor comum (mdc)
entre 9 e 10 é 1. Para números pequenos o processo de contagem é relativamente simples,
mas, e se quiséssemos saber quantos números de 1 a 1.000 são primos entre si com o pró-
prio 1.000? Perceba que o processo de contagem agora é um pouco mais trabalhoso. Para
isso, Euler desenvolveu uma função que posteriormente ficou conhecida como função φ(n):
( ) ( ) ( )
1 1 1
φ(n) = n · 1 − · 1− · ... · 1 − ,
p1 p2 pk
2.4. À procura dos números primos 13

ou na forma de produtório:
k (
∏ )
1
φ(n) = n · 1− ,
i=1
pi
em que n é o número que desejamos analisar e p1 , p2 , . . . , pk são os números primos presen-
tes na fatoração de n. Para o caso mencionado, temos como fatoração que 1.000 = 23 · 53 .
Iremos então utilizar a função φ(n) como sendo:
( ) ( )
1 1
φ(n) = n · 1 − · 1− ,
p1 p2

onde p1 e p2 são fatores primos do número dado, neste caso, p1 = 2, p2 = 5. Aplicando


na função, temos:
( ) ( )
1 1
φ(1000) = 1000 · 1 − · 1−
2 5
( ) ( )
1 4
φ(1000) = 1000 · ·
2 5
φ(1000) = 400.

Logo, de 1 a 1000, há quatrocentos números que são primos com o próprio 1000. Tal
fórmula traz uma excelente praticidade para a Teoria dos Números e principalmente para
o estudo dos números primos. Aplicando a mesma fórmula para o nosso problema inicial:
de 1 a 10, há quantos números primos entre si com o próprio 10?
( ) ( )
1 1
φ(10) = 10 · 1 − · 1−
2 5
( ) ( )
1 4
φ(10) = 10 · ·
2 5
φ(10) = 4.

Temos então quatro números; exatamente como havíamos contabilizado anterior-


mente. Perceba então, a importância de tais soluções para os estudos dos números primos
trazidas aqui por Leonhard Euler.

Figura 4: Leonhard Euler

Fonte: <https://www.ime.unicamp.br/>
2.4. À procura dos números primos 14

É importante citar que o número conhecido como e (um número irracional que vale
aproximadamente 2,718), já era um número conhecido. Foi incialmente deduzido pelo
matemático suíço Jacob Bernoulli (1655 - 1705) em seus estudos sobre Matemática Fi-
nanceira. Posteriormente esse número foi deduzido para sua forma analítica como
( )x
1
e = lim 1+ .
x→∞ x

Tal número tem extrema importância, além de estar presente em outras relações mate-
máticas como a Identidade de Euler:

eiπ + 1 = 0,

que além de relacionar o próprio número e, relaciona também outras duas constantes ma-
temáticas importantes: i, a unidade imaginária dos números complexos e π, a razão entre
o comprimento da circunferência e seu diâmetro. Veremos posteriormente uma aplicação
do logaritmo cuja base é o número e. Para isso, iremos então adotar que loge (x) = ln(x),
também chamado de logaritmo natural.

No final do século XVIII, iniciando o século XIX, outro grande matemático se destaca
em seus estudos: Johann Carl Friedrich Gauss (1777 - 1855), um matemático alemão que
contribuiu em diversas áreas da ciência, dentre elas a Teoria dos Números, Estatística,
Análise Matemática, Geometria Diferencial, Geofísica, Astronomia e os estudos da Óp-
tica. Atualmente, talvez Gauss seja mais conhecido pela criança prodígio que foi, onde
a história nos diz que, quando Gauss tinha 10 anos, seu professor pediu que os alunos
somassem todos os números inteiros de um a cem. Com precisão e rapidez, ele informou
o resultado: 5.050. (EVES, 1997).

Gauss encontrou o seguinte padrão: por exemplo, vamos determinar qual a soma dos
números de 1 a 5. Observe o seguinte desenvolvimento:

Tabela 2.3: Soma de Gauss


1 + 2 + 3 + 4 + 5
+ 5 + 4 + 3 + 2 + 1
6 6 6 6 6

Fonte: Elaborado pelo autor

Note que, dispondo os números em ordem crescente, em seguida em ordem decres-


cente e somando as colunas, o resultando é sempre o mesmo. Gauss percebeu que foram
2.4. À procura dos números primos 15

Figura 5: Retrato de Gauss

Fonte: <https://www.surveyhistory.org/>

somados números equidistantes da ordem crescente com a decrescente, porém, essa soma
foi efetuada duas vezes, então bastava dividir o resultado por dois. Para este caso temos:

(1 + 5) · 5
1+2+3+4+5= = 15.
2
Gauss então expandiu esse algoritmo para os números de 1 a 100, conforme foi solici-
tado a soma pelo professor. Então, foi feito:

(1 + 100) · 100
1 + 2 + . . . + 100 = = 5.050.
2
Isso mostrou então o brilhantismo do pequeno aluno ao professor. Dessa dedução de
Gauss, surge então a fórmula para calcular a soma dos números inteiros de 1 até n, sendo:


n
(1 + n) · n
k = 1 + 2 + ... + n = .
k=1
2
O mesmo método acima foi utilizado para calcular a soma dos n primeiros elementos
de uma progressão aritmética:

(a1 + an ) · n
Sn = .
2

Neste caso, Sn é a soma dos n primeiros elementos, a1 é o primeiro elemento da sequência,


an é o último elemento a ser somado e n é a quantidade de elementos que serão somados
da sequência.
Voltando para a questão dos números primos, um fato importante a se considerar é que
Gauss foi aluno de Euler, com o qual absorveu conhecimentos necessários para continuar a
desenvolver sua matemática. Eis que então, Gauss com todo seu brilhantismo, conjectura
aos 16 anos o que posteriormente ficou conhecido como o Teorema dos Números
Primos. Tal teorema nos permite encontrar uma excelente aproximação para quantos
2.5. Aplicações 16

números primos há de 1 até um determinado valor x. O teorema foi enunciado da seguinte


forma:

“Seja π(x) a quantidade de números primos menores que, ou iguais a x, então temos
x
que π(x) tende a para valores cada vez maiores de x”.
ln(x)

Matematicamente, temos:
x
π(x) ≈ lim
x→∞ ln(x).

Gauss sempre foi fascinado pelos números primos e tentava incansavelmente encontrar
um padrão nesse conjunto misterioso de números; conjecturar esse padrão π(x) foi apenas
uma das suas brilhantes descobertas na Teoria dos Números. Tal padrão só foi provado
verdadeiro cem anos depois, pelo matemático francês Jacques Hadamard (1865 - 1963),
juntamente com o matemático belga Charles-Jean de La Vallée Poussin (1866 - 1962).
Vamos testar a função π(x) de Gauss para calcular uma aproximação de quantos
números primos há até 10. Temos então que:

10
π(10) ≈ ≈ 4, 34.
ln(10)
Considerando apenas a parte inteira, de fato, temos quatro números primos de 1 até
10, que são 2, 3, 5 e 7. Note que a função π(x) retorna um valor aproximado, porém, nos
traz excelentes aproximações para valores cada vez maiores de x.
A procura pelos números primos sempre foi constante; tentar descobrir uma fórmula
que retornasse apenas números primos fascinou diversos matemáticos; estamos então di-
ante de um dos maiores problemas em aberto da história da Matemática. Saber se um
determinado número é primo também não é uma tarefa tão simples quando se tem um nú-
mero extremante grande. Os métodos conhecidos até aqui são trabalhosos e os métodos
mais sofisticados retornam valores aproximados, porém, as buscas por números primos
cada vez maiores encantam os matemáticos até hoje (STEWART, 2014).
No ano de 1900, o matemático alemão David Hilbert (1862 - 1943) durante a con-
ferência do Congresso Internacional de Matemáticos de Paris, propôs uma lista de 23
problemas matemáticos considerados os mais difíceis da época. Alguns problemas foram
resolvidos, outros ainda continuam em aberto. O fato interessante é que a conjectura
de Goldbach, que será vista posteriormente, é um dos problemas da lista de Hilbert que
continuam em aberto.

2.5 Aplicações
Uma das principais aplicações dos números primos é no sistema de criptografia e
segurança de dados. Para entendermos a sua aplicação, é necessário estudarmos a evolução
dos métodos de criptografia. Um dos primeiros sistemas de criptografia desenvolvidos foi a
2.5. Aplicações 17

criptografia de César, mais conhecida como “Cifra de César”. Desenvolvido pelo imperador
romano Júlio César (100 a.C. - 44 a.C.), esse sistema é um dos mais antigos e simples
métodos de criptografia conhecidos. O método, apesar de ser um dos pioneiros, não
envolve diretamente os números primos, porém, a fim de entendermos melhor o sistema de
criptografia, iremos analisá-lo. O algoritmo consiste em substituir cada letra do alfabeto
por outra letra que esteja um certo número de posições à frente ou atrás no alfabeto.
Esse número de posições é chamado de “chave” e pode ser qualquer número inteiro. Por
exemplo, se a chave for 3, a letra A seria substituída por D, a letra B seria substituída
por E, e assim por diante. A mensagem original é escrita usando a cifra, e para decifrá-la,
basta aplicar a mesma chave e retroceder o número de posições correspondentes para cada
letra da mensagem cifrada.
Apesar de ser um método bastante simples, a Cifra de César foi muito utilizada ao
longo da história, e ainda é usada em alguns casos simples de criptografia. No entanto,
hoje em dia ela é considerada insegura, já que é facilmente quebrada com ferramentas de
análise estatística de texto.
Figura 6: Disco da cifra de César

Fonte: <https://projects.raspberrypi.org/>

Por exemplo, suponha que a chave escolhida seja 5 e a mensagem a ser cifrada seja
“MATEMATICA”. Para cifrar essa mensagem, basta substituir cada letra por outra que
esteja 5 posições à frente no alfabeto (poderia ser utilizado o disco da cifra de César para
realizar as rotações necessárias). Assim, a palavra “MATEMATICA” seria cifrada como
“RFYJRFYNHF”. Para decifrar a mensagem, basta aplicar a chave −5 (ou 21, já que
26 − 5 = 21) e retroceder 5 posições no alfabeto para cada letra da mensagem cifrada.
Esse sistema, apesar de eficiente, não é tão seguro, pois, como algumas palavras possuem
repetições de letras, fazendo uma análise cautelosa, a palavra poder ser “descriptografada”
em um período curto de tempo. Com isso, como montar então um sistema de criptografia
mais seguro? Utilizando números primos!
Uma das aplicações mais conhecidas dos números primos na criptografia é o algoritmo
2.5. Aplicações 18

RSA, que é um dos sistemas criptográficos mais utilizados na atualidade. Esse sistema
se baseia na dificuldade de se fatorar números grandes, que é uma tarefa extremamente
complexa e que consome muitos recursos computacionais. O algoritmo RSA utiliza o
produto entre dois números primos grandes e diferentes para gerar chaves públicas e
privadas, que são usadas para criptografar e decifrar informações (PERUZZO, 2017).
A segurança do sistema depende da dificuldade ou até impossibilidade de se fatorar
números extremamente grandes em um tempo viável, mesmo com recursos computaci-
onais avançados. Por exemplo, sendo montada uma “chave” com o número 15, quais
foram os números primos que o produto resultaram em 15? Para este exemplo simples,
é fácil ver utilizando a fatoração que estes números são 3 e 5, pois 3 · 5 = 15. Po-
rém, montando agora uma “chave” com o número 58.801, quais números primos geraram
esse número com seu produto? Agora, é uma tarefa um pouco mais trabalhosa para se
fazer manualmente, porém, com um auxílio de um computador, podemos verificar que
58.801 = 127 · 463. Acontece que para números cada vez maiores, o processamento com-
putacional ficará comprometido devido a alta quantidade de informação que precisará ser
computada.
Vamos imaginar agora uma “chave” que é um número inteiro n = p · q, com 50
algarismos, onde p e q são números primos distintos. Temos então que n < 1050 . Portanto,

n < 1025 , ou seja, pelo algoritmo da tentativa de fatoração já visto, precisaríamos testar

o algoritmo até os múltiplos de n, que sabemos que é menor que 1025 . Pelo Teorema
dos Números Primos, visto no subcapítulo 2.3, temos que existem, aproximadamente,
1, 7 × 1023 números primos menores que 1025 .
De acordo com o site oficial da USP (Universidade de São Paulo), seu supercomputador
inaugurado em 2015 faz cerca de 20 trilhões (2 × 1013 ) de cálculos por segundo, ou seja,
para esse supercomputador realizar uma única testagem vericando se n é divisível por
um número primo, ele levaria apenas 0, 00000000000005 ou 5 × 10−14 segundos. Porém,
se utilizássemos esse supercomputador para realizar todos os cálculos de testagem do
exemplo anterior, precisariamos de aproximadamente

1, 7 × 1023
= 8, 5 × 109
2 × 1013
segundos, o que levaria em torno de 269 anos para realizar todos os testes com os cálculos
necessários. Se imaginarmos produtos de números primos ainda maiores, já que o conjunto
dos números primos é infinito, o tempo para calcular esses resultados tenderia a aumentar
exponencialmente. Isso nos mostra o poder dos números primos e a sua importância em
algoritmos de criptografia, já que um “ataque a força bruta” em um sistema computacional
criptografado levaria anos para ser quebrado. É notório que essas aplicações de “chaves”
é de grande utilidade na Computação e segurança de dados.
Os números primos também possuem aplicações na Física. Embora não tão comum,
um exemplo de como os números primos podem estar envolvidos na Física é através da
2.5. Aplicações 19

Teoria dos Grupos. Os grupos são usados para descrever simetrias na Física e os números
primos são importantes para determinar o tamanho e a estrutura desses grupos. Por
exemplo, o grupo de simetria de uma partícula elementar pode ser descrito em termos de
um grupo finito, como um grupo cíclico, que é baseado em números primos. Na Física
Quântica (ramo da Física que estuda interações em níveis atômicos), os números primos
são usados na teoria quântica de campos para descrever o comportamento entre partículas
elementares.
Dentro da Física Quântica, existe a Mecânica Quântica, que é uma teoria física que
descreve o comportamento das partículas subatômicas. Na Mecânica Quântica, a distri-
buição de energia dos estados quânticos é dada pela função zeta de Riemann. Essa função
matemática é definida como a soma de uma série infinita que envolve os números primos.
Essa conexão entre os números primos e a distribuição de energia dos estados quânticos
é conhecida como a Hipótese de Riemann, um problema matemático ainda em aberto
que tem sido objeto de pesquisa intensa. A relação entre a função zeta de Riemann e os
números primos foi descoberta pelo matemático alemão Bernhard Riemann (1826 − 1866)
em 1859, e é considerada uma das conexões mais profundas entre a Matemática e a Física.
A forma como os números primos se distribuem na função zeta de Riemann é importante
para entender a distribuição de energia dos estados quânticos, o que tem implicações para
o comportamento de partículas subatômicas (ALVITES, 2012).
Há também aplicações na Teoria das Cordas, que é uma teoria que postula que as
partículas fundamentais são cordas vibrantes em várias dimensões extras além das três
dimensões espaciais e uma dimensão temporal que percebemos no nosso universo. Essas
dimensões extras são “enroladas” em si mesmas e só são percebidas em escalas muito
pequenas. A Teoria das Cordas propõe que a natureza das cordas é descrita por uma
equação matemática conhecida como equação de onda.
As dimensões extras necessárias para a Teoria das Cordas funcionar são descritas em
termos de números primos. Esses números primos aparecem como comprimentos mínimos
para as dimensões extras, conhecidos como raios de compactificação. Por exemplo, se
assumirmos que o raio de compactificação de uma das dimensões extras é um número
primo, isso significa que a dimensão extra tem um comprimento mínimo de um múltiplo do
número primo. Esses comprimentos mínimos são importantes para garantir a consistência
matemática da teoria. A conexão entre os números primos e a Teoria das Cordas é mais
uma prova da profundidade da relação entre a Matemática e a Física. A Teoria das Cordas
é uma área de pesquisa muito ativa na Física Teórica, e a conexão entre os números primos
e a Teoria das Cordas é um exemplo fascinante de como a Matemática pode ajudar a
entender os fenômenos físicos mais complexos. (REIS, 2021).
Por fim, ainda na Física, temos aplicações também na Astronomia. Um exemplo
acontece quando um planeta extrassolar passa na frente de sua estrela hospedeira, ele
bloqueia parte da luz da estrela e produz uma pequena queda no brilho observado. Para
2.6. Primos de Mersenne 20

identificar com precisão o período de trânsito do planeta, os astrônomos procuram por


números primos que representem a duração do período de trânsito. Isso ocorre porque, se
o período de trânsito for um número inteiro, ele será divisível por muitos outros números,
o que torna difícil distinguir os sinais de trânsito planetário dos sinais de ruído estelar.
Por outro lado, se o período de trânsito for um número primo, ele será divisível apenas
por 1 e por si mesmo, tornando mais fácil detectar o sinal do planeta.
Nas galáxias, a sua distribuição no universo segue uma lei conhecida como lei de po-
tência. Essa lei descreve a relação entre o número de galáxias e sua luminosidade, e é
semelhante à Lei de Zipf, lei que descreve a distribuição de palavras em textos. Os nú-
meros primos aparecem em modelos matemáticos da lei de potência, que indicam que a
distribuição de galáxias segue uma lei de potência com base nos números primos. Es-
ses modelos sugerem que a distribuição de galáxias é influenciada por fatores como a
densidade do universo e a distribuição de energia escura (ALVITES, 2012).
A idade do Universo também pode ser calculada utilizando os números primos. Esse
cálculo pode ser realizado usando o tempo de vida das estrelas mais antigas conhecidas
como estrelas globulares. As estrelas globulares são aglomerados estelares muito antigos,
que contêm centenas de milhares de estrelas. A idade dessas estrelas pode ser determi-
nada medindo-se a quantidade de elementos radioativos em suas atmosferas. Os números
primos são usados para determinar a idade dessas estrelas porque eles são importantes
na identificação dos elementos radioativos mais estáveis que são usados para determinar
a idade das estrelas globulares.
É notório ver as diversas aplicações dos números primos. Desde sistemas de cripto-
grafia e segurança de dados até os padrões da natureza atômicas da Física Quântica e
Teoria das Cordas; no universo interestelar como distâncias de planetas e sua localiza-
ção no espaço; no padrão como as galáxias são distribuídas e na determinação da idade
do universo. Tais aplicações são fascinantes e mostram como a Matemática descreve os
padrões da Natureza.

2.6 Primos de Mersenne


Era 8 de setembro de 1588, em uma família de camponeses nascia Marin Mersenne
(1588 - 1648) na França. Apesar de poucas informações sobre sua infância, sabe-se que
aos 16 anos, Mersenne foi para Sorbonne (antiga Univerdade em Paris), estudar Teologia
com os jesuítas (membros de uma ordem religiosa cristã).
Nessa época, existia uma grande dualidade entre a igreja católica e a comunidade
científica. Diante dessa grande disputa e movido pela curiosidade em aprender mais,
Mersenne então conhece os trabalhos de Galileu (1564 - 1642), grande astrônomo da
época, ficando então cada vez mais entusiasmado em pesquisar por assuntos científicos.
Um pouco mais velho, começa então a estudar ondulatória, ficando conhecido por seus
2.6. Primos de Mersenne 21

estudos em acústica e música, onde ele aplicou suas habilidades matemáticas para analisar
as propriedades do som. Ele publicou vários livros sobre o assunto, incluindo “Harmonie
Universelle” em 1636, uma obra de três volumes sobre teoria musical.
Além de seus trabalhos em música e acústica, Mersenne também fez contribuições
significativas para a Matemática e a Física, tendo contato através de correspondências
com grandes matemáticos da época, como Descartes (1596 - 1650), Fermat (1607 - 1665),
Pascal (1623 - 1662) e Torricelli (1608 - 1647). Mersenne também desempenhou um papel
importante no desenvolvimento da ciência experimental. Ele defendeu a importância de
testar ideias e teorias por meio da experimentação, em vez de simplesmente confiar na
especulação ou na autoridade. Ele acreditava que a ciência deveria ser uma busca pela
verdade objetiva, e que isso só poderia ser alcançado por meio da observação cuidadosa e
da experimentação. Ele se tornou então um pensador influente em sua época, e suas ideias
e trabalhos ajudaram a lançar as bases para muitos dos avanços científicos e filosóficos
que se seguiriam nos séculos seguintes.

Figura 7: Retrato de Mersenne

Fonte: <https://www.deviantart.com/>

Em uma de suas cartas enviadas a Mersenne, Fermat afirma que os números escritos
n
na forma Fn = 22 +1, são números primos, onde n ∈ N. Tais números ficaram conhecidos
como “Números de Fermat” e deixou Mersenne fascinado com os números primos. De
fato, se testarmos variando o valor de n, temos:
0
F0 = 2 2 + 1 = 3
1
F1 = 2 2 + 1 = 5
2
F2 = 22 + 1 = 17
3
F3 = 22 + 1 = 257
4
F4 = 22 + 1 = 65.537.

Porém, perceba que quanto maior o valor de n, maior será o valor de Fn , sendo cada
vez mais difícil verificar se Fn é um número primo, principalmente com os conhecimentos
do século XVII. No entanto, se calcularmos o valor de F5 , iremos obter como resultado
2.6. Primos de Mersenne 22

5
F5 = 22 + 1 = 4.294.967.297, o que aparenta ser um número primo. Eis que então, o
matemático suíço Leonhard Euler mostra que F5 é um número composto, podendo ser
escrito como F5 = 4.294.967.297 = 641 · 6.700.417.
Mersenne então se dedica ao estudo do conjunto dos números primos, tentando en-
contrar um padrão numérico que satisfaça uma lei de formação. Ele parte dos Números
n
de Fermat (Fn = 22 + 1) e começa a desenvolver seu trabalho, analisando e verificando
para quais valores o resultado seria um número primo. Após um longo estudo minucioso
e detalhado, ele começa a escrever um dos seus principais trabalhos, e em 1644, Mersenne
o publica, chamando de “Cogitata Physico-Mathematica”, onde é apresentada a maioria
dos seus estudos sobre os números primos. Tal trabalho foi mundialmente prestigiado
pelos matemáticos da época.
Figura 8: Artigo de Mersenne

Fonte: <https://www.europeana.eu/>

Dentre os estudos publicados por Mersenne nesse artigo, estava uma análise para sobre
um padrão numérico interessante, os Números de Mersenne.

Definição 2.3. Sendo n ∈ Z e n > 1, temos que Mn será um número de Mersenne


quando Mn = 2n − 1.

Proposição 2.1. Se Mn é um número primo, então n também é um número primo.

Demonstração:
Para demonstrar essa particularidade, iremos utilizar a contrapositiva, ou seja, iremos
provar que, se n é composto, então Mn também é composto. Para isso, faremos n = a · b,
com a, b ∈ Z e a, b > 1. Agora basta mostrarmos que se a | n, então Ma | Mn . De fato,
Mn = 2 n − 1
Mab = 2ab − 1
Mab = (2a − 1) · (2a(b−1) + 2a(b−2) + . . . + 2a + 1)
Mn = Ma · k.
2.6. Primos de Mersenne 23

Com k ∈ N. Ou seja, temos que Mn é composto.

A recíproca não é válida. Por exemplo, para n = 11, temos M11 = 2.047 = 23 · 89.
Portanto, n ser um número primo é uma condição necessária, mas não suficiente para que
Mn também seja um número primo.
Podemos então simplificar a nossa expressão e dizer que, para Mn = p (p um número
primo), n também será um número primo. Sendo assim:

Mp = 2p − 1.

Todos os números primos que possam ser escrito dessa forma ficaram conhecidos como
Primos de Mersenne. Importante citar que, nem todo número primo poderá ser escrito
na forma Mp , como por exemplo, o número 5.
Para Mersenne, ele teria então encontrado uma fórumla que, teoricamente, descreveria
o padrão dos números primos. Nesse artigo, devido a limitação da época, foram testados
os números de forma Mp até p = 257.
Tais números são interessantes para os matemáticos pois sua forma simples permite a
aplicação de técnicas matemáticas complexas para estudá-los. O que torna esse enunciado
tão interessante é que, será que existem infinitos Primos de Mersenne? É um problema
ainda em aberto.
Veja o exemplo para os 8 primeiros números primos:

Tabela 2.4: Os oito primeiros Primos de Mersenne


p 2p − 1
2 3
3 7
5 31
7 127
13 8.191
17 131.071
19 524.287
31 2.147.483.647

Fonte: Elaborado pelo autor

Para cada caso acima, o resultado é um número primo, porém, note que fica cada vez
mais difícil verificar se Mp é um número primo à medida que escolhemos valores mais
altos para p.
Atualmente, os maiores números primos descobertos estão na forma 2p − 1, ou seja,
são Primos de Mersenne, e a busca para números cada vez maiores continua. Para isso,
2.6. Primos de Mersenne 24

em 1996, o programador George Woltman (1957 - ) desenvolveu o GIMPS (Great In-


ternet Mersenne Prime Search), que de modo simples, pode ser traduzido para “Maior
Pesquisador de Primos de Mersenne da Internet”. O GIMPS é um software que tem como
objetivo utilizar o hardware do usuário para realizar cálculos e encontrar primos de Mer-
senne cada vez maiores. Ele está disponível gratuitamente para download no site oficial
mersenne.org. Em 7 de dezembro de 2018, o programa encontrou o maior número primo
conhecido até hoje:
282.589.933 − 1,

que é o 51◦ Primo de Mersenne e possui 24.862.048 dígitos.


A descoberta de novos Primos de Mersenne é importante porque eles são úteis em
muitas áreas da Matemática e da Ciência da Computação. Além disso, o projeto GIMPS
oferece uma oportunidade para as pessoas contribuírem para a pesquisa científica sem
precisar ter acesso a recursos caros ou ser um cientista profissional. O programa trabalha
desde sua criação em computadores de diversos usuários pelo mundo que se disponibilizam
de forma voluntária para colaborar com a descoberta de novos números primos. Tal
trabalho é de extrema importância, pois ajuda a desenvolver a ciência e contribui para o
avanço de novas tecnologias que utilizam os números primos.
Vale ressaltar que, caso o leitor tenha interesse em também participar do projeto, po-
derá facilmente colaborar utilizando um computador para realizar o download do software
e executá-lo. O programa irá utilizar recursos para computar os dados. O site oficial men-
cionado possui todas as informações para novos colaboradores. O projeto GIMPS é uma
iniciativa de pesquisa colaborativa fascinante que utiliza computação distribuída para des-
cobrir novos números Primos de Mersenne, e que permite a participação de voluntários
em todo o mundo. Com base no site do projeto, elaboramos a tabela a seguir.

Tabela 2.5: Os maiores primos de Mersenne

Descoberta Primo de Mersenne


13/11/1996 21.398.269 − 1
24/08/1997 22.976.221 − 1
27/01/1998 23.021.377 − 1
01/06/1999 26.972.593 − 1
14/11/2001 213.466.917 − 1
17/11/2003 220.996.011 − 1
15/05/2004 224.036.583 − 1
18/02/2005 225.964.951 − 1
15/12/2005 230.402.457 − 1
04/09/2006 232.582.657 − 1
03/08/2008 243.112.609 − 1
2.6. Primos de Mersenne 25

06/09/2008 237.156.667 − 1
04/06/2009 242.643.801 − 1
25/01/2013 257.885.161 − 1
07/01/2016 274.207.281 − 1
26/12/2017 277.232.917 − 1
07/12/2018 282.589.933 − 1

Fonte: Elaborado pelo autor

Além das aplicações dos números primos na criptografia já mencionadas, os números


primos, principalmente os Primos de Mersenne, podem ser aplicados em diversas outras
áreas, como por exemplo, para realizar o teste de primalidade de Lucas-Lehmer. Um
algoritmo desenvolvido pelo matemático francês Édouard Lucas (1842 - 1891) e depois
aperfeiçoado pelo matemático americano Derrick Henry Lehmer (1905 - 1991), cujo obje-
tivo é verificar se um determinado número com grande quantidade de algarismos é primo.
Um exemplo mais prático é na Torre de Hanói, um quebra-cabeça que consiste em uma
base contendo três pinos, em um dos quais são dispostos alguns discos uns sobre os outros,
em ordem crescente de diâmetro, de cima para baixo. O problema consiste em passar to-
dos os discos de um pino para outro qualquer, usando um dos pinos como auxiliar, de
maneira que um disco maior nunca fique em cima de outro menor em nenhuma situação.
O número de discos pode variar sendo que o mais simples contém apenas três discos. O
interessante é que, se considerarmos S a quantidade mínima de movimentos para solu-
cionar a Torre de Hanói e d a quantidade de discos, então temos que S = 2d − 1, que
é um Número de Mersenne, e como já vimos anteriormente, se S for primo, então essa
quantidade mínima de movimentos será um Primo de Mersenne.
Os primos de Mersenne também são usados em códigos de correção de erros, que são
utilizados para corrigir erros em transmissões de dados. Outra aplicação é na construção
de grafos especiais, como o grafo de Golomb, desenvolvido pelo matemático americano
Solomon Wolf Golomb (1932 - 2016) e é muito utilizado em telecomunicações. Por fim, os
primos de Mersenne também são utilizados em protocolos de segurança de redes, como o
protocolo de troca de chaves de Diffie-Hellman, um algoritmo de criptografia que é utili-
zado para trocar chaves (“senhas”) de maneira segura em canal público; foi desenvolvido
pelos matemáticos norte americanos Bailey Whitfield Diffie (1994 - ) e Martin Edward
Hellman (1945 - ) e foi um dos primeiros exemplos práticos de métodos de troca de chaves
implementado dentro do campo da criptografia, tendo sido publicado em 1976. Com isso,
percebemos a importância dos primos de Mersenne.
2.7. Primos Gêmeos 26

2.7 Primos Gêmeos


Os Primos Gêmeos são um dos tópicos mais fascinantes e desafiadores da Teoria dos
Números. Tais números são raros e sua natureza tem sido estudada pelos matemáticos
desde a antiguidade. Os primos gêmeos são pares de números primos que diferem um do
outro em apenas duas unidades, ou seja, sendo o par (p, p + 2), este será um par de primos
gêmeos se, e somente se, p e p + 2 também forem números primos, como por exemplo, o
par (3, 5). Note que este pode ser escrito como (p, p + 2), onde p = 3.
O problema da infinitude dos primos gêmeos é tão antigo que foi pensado desde a época
de Euclides, tendo este conjecturado que sim, existem infinitos pares de primos gêmeos.
Porém, este padrão ainda é considerado um problema em aberto, pois, até o momento,
não há uma demonstração concreta. Os primos gêmeos são importantes porque a sua
existência é uma consequência da distribuição aleatória dos números primos. Em outras
palavras, eles surgem a partir de propriedades fundamentais dos números primos. Isso
torna o estudo dos primos gêmeos importante para a Teoria dos Números e para outras
áreas da Matemática (MOREIRA; MARTÍNEZ, 2010).
Tal questão foi estudada de forma analítica inicialmente pelo matemático francês
Alphonse de Polignac (1826 - 1863) e posteriormente revista pelo matemático alemão
Paul Stäckel (1862 - 1919) e continua em aberto até o momento. A hipótese é bastante
simples de ser enunciada, mas é muito difícil de ser provada. Até agora, os matemáticos
só conseguiram estabelecer resultados parciais.
Polignac analisou um padrão interessante: existe uma certa quantidade de pares de
números primos tais que a distância entre eles é sempre um número par. Tal enunciado
também é um problema em aberto, já que não há prova matemática para tal afirmação,
porém, se trata de uma declaração tão forte que em 1849, Polignac conjecturou em um dos
seus artigos (Recherches Nouvelles Sur Les Nombres Premiers) que, sendo k um número
inteiro positivo, existem infinitos pares de números primos p1 e p2 tais que |p2 − p1 | = 2 · k.
Perceba que, se fizermos p2 > p1 e k = 1, temos o problema dos primos gêmeos, pois
teremos que

p2 − p1 = 2 · k
p2 − p1 = 2 · 1
p2 − p1 = 2
p2 = p1 + 2.

Esse conjunto dos Primos Gêmeos, pensado por Euclides e posteriormente analisado
como uma caso específico dos pares numéricos conjecturado por Polignac é extremamente
fascinante dentro da Teoria dos Números. Observe a formação dos dez primeiros pares de
Primos Gêmeos na forma (p, p + 2) dispostos na tabela a seguir.
2.7. Primos Gêmeos 27

Tabela 2.6: Os dez primeiros pares de Primos Gêmeos


p p+2
3 5
5 7
11 13
17 19
29 31
41 43
59 61
71 73
101 103
107 109

Fonte: Elaborado pelo autor

Em 2013, Yitang Zhang (1955 - ), matemático chinês, provou que existe um número
infinito de pares de números primos separados por uma distância de no máximo 70 mi-
lhões de unidades. O trabalho de Zhang foi considerado um grande avanço, pois foi a
primeira vez que um matemático conseguiu provar que existem infinitos pares de primos
gêmeos com uma separação máxima finita. No entanto, a sua prova não é suficiente para
estabelecer o problema geral dos primos gêmeos. Existem várias técnicas matemáticas que
podem ser usadas para estudar os primos gêmeos, uma das mais importantes é a análise
assintótica, que se concentra no comportamento dos números primos em grande escala. A
análise assintótica pode ajudar a entender como os primos gêmeos se distribuem ao longo
da reta real.
Em 1915, o matemático norueguês Viggo Brun (1885 - 1978) provou que a soma dos
inversos dos primos gêmeos é convergente, sendo enunciado então o Teorema de Brun.
Ou seja, sendo pn e pn+1 um par de primos gêmeos, se fizermos
∑∞ ( ) ( ) ( ) ( ) ( )
1 1 1 1 1 1 1 1 1 1
+ = + + + + + + + + ...,
n=1
pn pn+1 3 5 5 7 11 13 17 19

o resultado irá convergir para uma constante, sendo essa chamada de Constante de Brun,
que vale aproximadamente 1, 90216. Sendo extremamente curioso, tendo em vista que
Euler provou que a soma dos inversos dos números primos Pn diverge. Isto é,
∑∞
1 1 1 1 1 1 1
= + + + + + + ...
n=1
p n 2 3 5 7 11 13

não converge para um número real. Este fato torna os pares de Primos Gêmeos ainda
mais desafiadores para serem interpretados.
Em 15 de setembro de 2016, o projeto computacional TPS / PG (Twin Prime Search
/ Prime Grid), projeto que estuda, analisa e cataloga a distribuição dos números Primos,
2.7. Primos Gêmeos 28

encontrou, até o momento, o maior par de Primos Gêmeos descoberto atualmente. Tal
par pode ser escrito como

2.996.863.034.895 × 21.290.000 ± 1,

com 388.342 dígitos por número. Para efeito de comparação, se uma pessoa levasse um
segundo para escrever cada dígito, seria necessário aproximadamente 4 dias ininterruptos
para escrever todos os dígitos de apenas um número do par de primos gêmeos acima.
Outra particularidade interessante é a teoria dos pares de Siegel, que foi desenvolvida
pelo matemático alemão Carl Ludwig Siegel (1896 - 1981) na década de 1930. A teoria
dos pares de Siegel se concentra na interação entre os primos gêmeos e outros tipos de
números primos, como os primos de Sophie Germain (1776 - 1831). Tais teorias têm sido
usadas para estabelecer resultados relacionados aos Primos Gêmeos.
De forma semelhante aos Primos Gêmeos, os números conhecidos como Primos de
Sophie Germain, são um conjunto de números escritos em pares na forma (p, 2p + 1),
onde p e 2p + 1 são números primos. Tal conjunto numérico foi analisado, estudado e
desenvolvido pela matemática francesa Marie-Sophie Germain. Em uma época arcaica
onde as mulheres não eram bem vindas no mundo acadêmico, Sophie mostrou um talento
e brilhantismo fascinante analisando padrões numéricos, trazendo grandes contribuições
para a Teoria dos Números.

Figura 9: Retrato de Sophie Germain

Fonte: <http://clubes.obmep.org.br/>

Os Primos de Sophie Germain são também um dos grandes problemas em aberto


na Teoria dos Números, pois, assim como os Primos Gêmeos, não há uma demonstração
sobre sua infinitude. Na tabela a seguir, temos os dez primeros pares de Primos de Sophie
Germain na forma (p, 2p + 1):
2.7. Primos Gêmeos 29

Tabela 2.7: Os dez primeiros pares de Primos de Sophie Germain


p 2p + 1
2 5
3 7
5 11
11 23
23 47
29 59
41 83
53 107
83 167
89 179

Fonte: Elaborado pelo autor

Sophie foi uma matemática brilhante. Dentre as contribuições mais notáveis, está uma
análise sobre o Último Teorema de Fermat (xn + y n = z n , n ∈ Z e n > 2), onde já foi
demonstrado que não existe solução para n inteiro maior que dois. Porém, Sophie Germain
deu uma das primeiras contribuições para a demonstração desse teorema, mostrando que
para o caso n = p, quando p e 2p + 1 são números primos, o teorema é verdadeiro. Esse
caso particular do teorema trouxe grande notoriedade para Sophie, principalmente sobre
o seu estudo sobre tais números primos específicos. (MOREIRA; MARTÍNEZ, 2010).
Tais números são usados na teoria dos sistemas dinâmicos para estudar a estabilidade
de sistemas caóticos, como o mapa logístico. Em geral, os primos de Sophie Germain
têm uma ampla gama de aplicações em várias áreas da Matemática, da Criptografia e da
Física, e seu estudo continua a ser de grande interesse para os pesquisadores em todo o
mundo.
Essa relação de pares ordenados entre os Primos Gêmeos e os Primos de Sophie Ger-
main traz grandes aplicações principalmente para a evolução dos computadores que uti-
lizam um sistema forte de criptografia. Além da Teoria dos Números, os Primos Gêmeos
também têm aplicações em outras áreas da Matemática e da Física. Por exemplo, eles
aparecem em várias equações diferenciais parciais que modelam fenômenos físicos. A na-
tureza dos Primos Gêmeos é um enigma para os matemáticos, mas os estudos sobre eles
têm contribuído para o avanço da Teoria dos Números e para o desenvolvimento de novas
técnicas matemáticas.
Capítulo 3

Conjecturas na Teoria dos Números

Conjecturas são comuns na Matemática, muitas vezes servindo como ponto de par-
tida para novas pesquisas e descobertas. As conjecturas são desenvolvidas com base em
observações e padrões identificados pelos matemáticos em seus estudos e pesquisas.

Uma conjectura matemática é uma afirmação para a qual ainda não se


dispõe de uma demonstração que comprove sua validade, ou de um con-
traexemplo para garantir que ela não é válida. Numa conjectura, alguém
emite sua opinião sobre algum resultado e afirma sua convicção de que de-
terminado fato é válido ou não. Como essa pessoa não consegue provar a
opinião que deu, cabe à comunidade matemática encontrar uma demons-
tração ou um contraexemplo para a opinião emitida. É claro que para
chamar uma sentença de conjectura deve-se ter bastante desconfiança da
veracidade do que se está afirmando. (FILHO, 2013, p. 179).

Apesar de serem amplamente utilizadas na Matemática, conjecturas não são tratadas


como verdades absolutas. Para que uma conjectura seja aceita como verdadeira, ela deve
ser completamente provada por meio de um rigoroso processo matemático, que inclui
demonstrações lógicas. Uma vez que uma conjectura é provada, ela se torna um teorema.
Teorema é uma afirmação matemática cuja validade é comprovada por meio de uma
demonstração.
Embora as conjecturas possam parecer um obstáculo para o progresso da Matemática,
elas são uma fonte de inspiração para muitos matemáticos, que trabalham incansavelmente
para encontrar novas maneiras de abordar esses problemas complexos. A exemplo, temos a
Conjectura de Goldbach, Conjectura de Legendre e a Conjectura de Collatz, que veremos
neste capítulo. É importante destacar que a conjectura é um importante instrumento
de trabalho na matemática. Elas podem inspirar novas pesquisas e descobertas, além de
fornecer novas direções para o avanço da ciência.
3.1. Conjectura de Goldbach 31

3.1 Conjectura de Goldbach


Christian Goldbach nasceu em 18 de março de 1690, na cidade de Königsberg, na
Prússia Oriental (hoje Kaliningrado, Rússia) e faleceu em 1764, em Moscou (Rússia).
Ele estudou Filosofia, História e Teologia na Universidade de Königsberg, mas foi a Ma-
temática que o atraiu. Mais tarde, Goldbach estudou Matemática na Universidade de
Königsberg, onde foi aluno de Gottfried Leibniz (1646 - 1716), famoso matemático ale-
mão, que contribuiu para o desenvolvimento do Cálculo Diferencial e Integral. Em 1710,
ele se tornou professor de Matemática na Universidade de São Petersburgo, na Rússia,
onde permaneceu por cerca de 20 anos. Sendo uma figura importante na comunidade
matemática de seu tempo, ele manteve correspondência com muitos dos principais mate-
máticos da época, incluindo Leonhard Euler.

Figura 10: Retrato de Christian Goldbach

Fonte: <https://clube.spm.pt/>

Além da Matemática, Christian Goldbach tinha interesses em outras áreas, ele era
fluente em várias línguas, incluindo latim, grego, francês e inglês, e escreveu poesia e
peças teatrais em seu tempo livre. Ele também era um grande apreciador de música
e tinha habilidades em tocar violino. Em reconhecimento às suas contribuições para a
Matemática, Goldbach foi eleito para a Royal Society de Londres em 1745. Ele também
foi um membro da Academia de Ciências de São Petersburgo e da Academia de Ciências
de Berlim.
Goldbach ficou conhecido por sua contribuição na Teoria dos Números, em particular,
por uma conjectura que leva seu nome, a Conjectura de Goldbach. Esta conjectura afirma
que todo número par maior que 2 pode ser escrito como a soma de dois números primos.
Embora a conjectura ainda não tenha sido completamente provada, ela continua a intrigar
e inspirar matemáticos em todo o mundo. A Conjectura de Goldbach foi apresentada em
uma carta que ele escreveu para Euler em 1742. De forma analítica, a Conjectura de
Goldbach pode ser descrita como:

Conjectura 3.1. Sendo k um inteiro maior ou igual a 2, existem p1 e p2 primos tais que
2k = p1 + p2 .
3.1. Conjectura de Goldbach 32

A conjectura de Goldbach é uma das conjecturas mais famosas da Teoria dos Números,
e continua a intrigar e inspirar matemáticos em todo o mundo. Além disso, a pesquisa em
torno da conjectura levou ao desenvolvimento de novas técnicas e ferramentas que podem
ter aplicações em outras áreas da Matemática. (CHAVES et al., 2014).
Vamos analisar agora uma tabela contendo os dez primeiros números pares escritos de
acordo com a Conjectura de Goldbach:

Tabela 3.1: Os dez primeiros pares da Conjectura de Goldbach


2k p1 + p2
4 2+2
6 3+3
8 3+5
10 5+5
12 5+7
14 7+7
16 5 + 11
18 7 + 11
20 7 + 13
22 5 + 17

Fonte: Elaborado pelo autor

Note que, para os primeiros exemplos da Conjectura de Goldbach, fica fácil encontrar
os números primos que satisfazem a condição, porém, para números cada vez maiores,
fica cada vez mais difícil encontrar tais números.
Em abril de 2012, o matemático português Tomás Oliveira e Silva (1980 - ) conseguiu
provar a veracidade da Conjectura de Goldbach até o limite superior 4 × 1018 . Apesar de
seu status de “problema não resolvido”, a Conjectura de Goldbach continua a atrair inte-
resse e esforços contínuos da comunidade matemática. Prêmios são oferecidos para quem
conseguir provar a conjectura ou alcançar avanços significativos em sua resolução. Porém,
embora a evolução dos resultados mostrar que é válido até um determinado valor máximo
(limite superior), isso não prova que será válida para qualquer valor dado (SOUSA, 2013).
Com base nas informações fornecidas no site oficial do projeto GIMPS e para fins de
análise temporal, elaboramos uma tabela para mostrar as principais evoluções de testes
da Conjectura de Goldbach conforme o limite superior correspondente, ou seja, conforme
o número máximo testado. Essa tabela nos fornece uma ideia da quantidade de tempo
que foi necessário para conseguir tais avanços, nos mostrando o trabalho de diversos
matemáticos que se empenharam para encontrar, de alguma forma, uma solução.
3.1. Conjectura de Goldbach 33

Tabela 3.2: Evolução dos testes da Conjectura de Goldbach


Limite superior Autor Período
1000 Georg Cantor Século XIX
2000 A. Aubry Século XIX
5000 R. Haussner Século XIX
104 Desboves Século XIX
105 Pipping 1938
108 Stein and Stein 1965
2 × 1010 Granville 1989
4 × 1011 Sinisalo 1993
1014 Deshouillers e Saouter 1998
4 × 1014 Richstein 1999
2 × 1016 Oliveira e Silva Março de 2003
6 × 1016 Oliveira e Silva Outubro de 2003
2 × 1017 Oliveira e Silva Fevereiro de 2005
3 × 1017 Oliveira e Silva Dezembro de 2005
12 × 1017 Oliveira e Silva Julho de 2008
15 × 1017 Oliveira e Silva Julho de 2009
16 × 1017 Oliveira e Silva Dezembro de 2009
2 × 1018 Oliveira e Silva Novembro de 2010
4 × 1018 Oliveira e Silva Abril de 2012

Fonte: Elaborado pelo autor

Alguns matemáticos dedicaram suas carreiras inteiras a tentar provar, de forma analí-
tica, a Conjectura de Goldbach. Já outros, a usaram como ponto de partida para pesquisas
e aplicações em outras áreas da Matemática, como é o exemplo do matemático chinês Te-
rence Tao (1975 - ), que em 2013 usou a Conjectura de Goldbach como ponto de partida
para uma série de trabalhos em que ele desenvolveu novas ferramentas para estudar os
números primos.

Reparem no tesouro produzido pelas tentativas de demonstração da Con-


jectura de Goldbach, e vejam como é tão pouco significativa, compara-
tivamente, a questão da descoberta do seu valor lógico absoluto! [...]
Suponhamos que um dia alguém aparece com um contra-exemplo para
a Conjectura de Goldbach, ou com uma demonstração de que existem
números pares que não se podem representar como soma de dois primos.
Será que isso tornaria falsas ou tiraria algum valor a todas as teorias mag-
níficas, conceitos e técnicas que foram desenvolvidos para demonstrar a
conjectura que estamos agora a supor que é incorreta? Nada disso! Uma
demonstração da falsidade da Conjectura de Goldbach apenas serviria
como catalisador de novos desenvolvimentos, sem nenhum efeito nos mé-
todos desenvolvidos até aqui na tentativa de demonstrar a conjectura.
Porque começaríamos imediatamente a colocar novas questões, como por
exemplo acerca da quantidade de números pares “nãogoldbachianos”: se-
rão em número finito? infinitos? [...] Novos tesouros viriam juntar-se
aos primeiros, a par deles e não em vez deles - e é assim o percurso das
demonstrações em Matemática! (VILLIERS, 2002, p. 1)
3.1. Conjectura de Goldbach 34

Da conjectura inicial, também chamada de “Conjectura Forte de Goldbach”, deriva-se


a “Conjectura Fraca de Goldbach”. Tal variação da conjectura é enunciada por:

“Todo número ímpar maior do que 5 é igual à soma de três números primos.”

Se a conjectura “forte” for demonstrada, a “fraca” é consequência, ou seja, uma vez


provada a conjectura inicial (conjectura forte), a conjectura fraca também estará automa-
ticamente provada. Vamos assumir inicialmente que a “conjectura forte” seja verdadeira,
ou seja, de fato existem p1 e p2 números primos tais que 2k = p1 + p2 , para todo k ⩾ 2.
Sendo assim, temos que

2k = p1 + p2
2k + 3 = p1 + p2 + 3
2k + 2 + 1 = p1 + p2 + 3
2 · (k + 1) + 1 = p1 + p2 + 3
2n + 1 = p1 + p2 + 3, n ⩾ 3.

Realmente, fazendo uma pequena análise podemos constatar essa veracidade pelo
menos para os dez primeiros números ímpares da “conjectura fraca”, observe:

Tabela 3.3: Conjectura Fraca de Goldbach


2n + 1 p1 + p2 + 3
7 2+2+3
9 3+3+3
11 5+3+3
13 5+5+3
15 7+5+3
17 7+7+3
19 11 + 5 + 3
21 11 + 7 + 3
23 13 + 7 + 3
25 17 + 5 + 3

Fonte: Elaborado pelo autor

Uma outra variação da Conjectura Fraca de Goldbach é que

“Todo número ímpar maior que 7 pode ser expresso como soma de três números primos
ímpares”.

Perceba que conjecturar que “todo número ímpar maior do que 5 é igual a soma de
três números primos”, é o mesmo que presumir que “todo número ímpar maior que 7 pode
3.1. Conjectura de Goldbach 35

ser expresso como soma de três números primos ímpares”, já que, para este novo caso, não
poderemos mais utilizar o número 2 na decomposição dos números, como por exemplo,
7 = 2 + 2 + 3. Na Tabela 3.4, temos os dez primeiros números seguindo a variação da
Conjectura Fraca de Goldbach.

Tabela 3.4: Variação da Conjectura Fraca de Goldbach


2n + 1 p1 + p2 + 3
9 3+3+3
11 5+3+3
13 5+5+3
15 7+5+3
17 7+7+3
19 11 + 5 + 3
21 11 + 7 + 3
23 13 + 7 + 3
25 17 + 5 + 3
27 19 + 5 + 3

Fonte: Elaborado pelo autor

O problema da Conjectura de Goldbach se tornou tão famoso que foi retratado de


forma cômica no livro “Tio Petros e a Conjectura de Goldbach”, do autor Doxiadis (2001).
No livro, o sobrinho do personagem Petros Papachristos (Tio Petros) narra todos os
percursos e acontecimentos do seu tio, que na juventude era um matemático brilhante e
passou a vida toda tentando demonstrar a Conjectura de Goldbach. Em uma das frases
marcantes do livro, Tio Petros diz:

“Na verdade, a constituição psicológica do verdadeiro matemático está mais próxima do


poeta, ou do compositor musical, isso é, de alguém envolvido com a criação do belo, e
com a busca da harmonia e da perfeição.”

O personagem nos traz uma reflexão sobre a essência do “ser matemático”, sobre a
busca pela criação de algo inovador e surpreendente, algo tão belo quanto um quadro
pintado por um grande artista, comparando então a Matemática como uma arte, e de
fato, a Matemática tem sua própria beleza intrínseca. As equações e fórmulas que pare-
cem abstratas à primeira vista, quando examinadas mais de perto, muitas vezes revelam
padrões fascinantes e relações surpreendentes. Christian Goldbach foi um matemático e
intelectual brilhante, com interesses em várias áreas além da Matemática. Sua conjectura
continua a desafiar matemáticos até hoje e é um testemunho do poder e da beleza da
Matemática.
3.2. Conjectura de Legendre 36

3.2 Conjectura de Legendre


Pouco se sabe sobre a história de Adrien-Marie Legendre, porém, suas contribui-
ções para a Matemática se tornaram extremamente importantes para aplicações práticas.
Sabe-se que Legendre nasceu em Paris, no dia 18 de setembro de 1952 e faleceu tam-
bém em Paris no dia 10 de janeiro de 1833, sendo um dos mais brilhantes matemáticos
da França, trazendo grandes contribuições para diversos campos, incluindo a Teoria dos
Números, a Análise Matemática e a Geometria.
Uma das suas contribuições mais conhecidas é a criação da “função elíptica”, uma
generalização das funções trigonométricas que desempenham um papel fundamental na
teoria das integrais elípticas. Ele também desenvolveu métodos para resolver equações
diferenciais parciais e integrais, que foram amplamente utilizados na Física Matemática.
Legendre mostrou que partindo de integrais do tipo
∫ x
r(x)
√ dx,
c p(x)

onde r(x) é uma função racional, p(x) é um polinômio de grau inteiro n (3 ≤ n ≤ 4) com
nenhuma raiz repetida e c uma constante, sendo y = f (x), se obtém então 3 tipos funções
de integrais elípticas, são essas:

Integral Elíptica de 1a Classe

∫ x
dt
f1 (x) = √ , onde 0 < k 2 < 1 ,
0 1− k 2 sen(t)

Integral Elíptica de 2a Classe

∫ x √
f2 (x) = 1 − k 2 sen(t)dt , onde 0 < k 2 < 1 ,
0

Integral Elíptica de 3a Classe

∫ x
dt
f3 (x) = √ , onde a ̸= 0, a2 ̸= k 2 .
0 1 − k sen(t) · (1 + a2 sen2 (t))
2

Além disso, Legendre é conhecido por ter dado uma das primeiras provas do Teorema
Central do Limite, que afirma que a distribuição de médias amostrais de uma popula-
ção qualquer se aproxima de uma distribuição normal, independentemente da forma da
3.2. Conjectura de Legendre 37

distribuição original. Na Teoria dos Números, assim como Gauss, Legendre também ana-
lisou uma fórmula para calcular o número de primos menores que um determinado valor,
estudando as propriedades dos números primos em geral. Legendre então deduz que essa
contagem dos números primos pode ser definida como
∫ x
1
π(x) ≃ dt,
2 log(t)

ou seja, partindo da mesma análise de Gauss, Legendre viu, de forma independente, que

π(x)
lim ∫ x 1 = 1.
x→∞
2 log(t)
dt

Uma de suas obras mais conhecidas é o livro “Elementos de Geometria”, publicado


em 1794, que foi utilizado como um livro-texto padrão para estudantes de Geometria por
muitos anos. Ele também escreveu um livro sobre cálculo de variações e contribuiu para
a Matemática Aplicada, trabalhando em problemas de Astronomia e Geodésia. Adrien-
Marie Legendre foi um matemático muito respeitado em sua época e seu trabalho teve
uma grande influência no desenvolvimento da Matemática moderna.
Além da Geometria Diferencial, Legendre trouxe também importantes contribuições
para o estudo do Cálculo Diferencial, desenvolvendo então o que posteriormente ficou
conhecido como a “equação diferencial de Legendre”, que pode ser definida por

(1 − x2 )y ′′ − 2xy ′ + n(n + 1)y = 0,

onde y é a função desconhecida, n é um parâmetro inteiro ou real e y ′ e y ′′ denotam,


respectivamente, a primeira e a segunda derivada da função y em relação a x. Esta
equação é de grande importância na Física Teórica, especialmente na Mecânica Quântica
e na Teoria Eletromagnética, pois ela descreve o comportamento de certas quantidades
físicas em sistemas com simetria esférica, como átomos e moléculas.
A Função de Legendre tem muitas aplicações na Matemática e na Física. Por exem-
plo, ela é usada na expansão de funções em séries de potências, na solução de problemas
de valor de contorno em Eletrostática e na descrição dos movimentos orbitais em Física
Celeste. Além disso, a Função de Legendre é fundamental na teoria de harmônicos esfé-
ricos, que é usada na descrição de fenômenos em Física, como a emissão de radiação por
átomos e moléculas, além das aplicações na descrição dos estados de energia em sistemas
quânticos, na análise de propriedades dos campos elétricos e magnéticos, e na teoria dos
harmônicos esféricos (RAMOS, 2010).
Outra contribuição extremamente importante, é a decomposição de números fatoriais
em fatores primos, que ficou conhecido como Teorema de Legendre, onde ele afirma que:

Qualquer que seja o inteiro positivo n, o expoente do número primo p na decomposição


em números primos de n! é igual a
3.2. Conjectura de Legendre 38

∞ ⌊ ⌋
∑ n
, para n ≥ pi .
i≥1
pi
⌊ ⌋
n
Para a nossa análise, a notação i indica que estamos utilizando apenas a parte inteira
p
ao fazermos a divisão de n por pi .
Esse Teorema nos ajuda a resolver problemas do tipo

“Qual o maior valor de n para que 320! seja divisível por 7n ?”

Lembre-se que 320! = 320 · 319 · 318 · . . . · 3 · 2 · 1. Para resolver esse problema, iremos
utilizar o Teorema de Legendre. Para isso, temos que

320! = 7n · k, k ∈ N.

Então, temos n = 320 e p = 7. Note que 73 > 320, então utilizaremos até 72 . Faremos
⌊ ⌋ ⌊ ⌋
320 320
n = +
7 72
⌊ ⌋ ⌊ ⌋
320 320
n = +
7 49
n = 45 + 6
n = 51.

Portanto, o maior valor de n para que 7n divida 320! é n = 51.


Apesar de suas contribuições para o avanço da Matemática Moderna, talvez Legendre
tenha ficado mais conhecido por uma conjectura que leva o seu nome, a “Conjectura de
Legendre”, que foi proposta por ele em 1798.

Conjectura 3.2. Existe pelo menos um número primo entre os quadrados consecutivos
de números inteiros.

De forma analítica, temos que para qualquer número inteiro positivo n, existe pelo
menos um número primo p tal que:

n2 < p < (n + 1)2 .

Por exemplo, para n = 1, a conjectura afirma que sempre existe pelo menos um número
primo entre os quadrados 1 e 4, o que é verdadeiro, pois o número 2 e o número 3 são
números primos nessa faixa. Sendo considerada uma das grandes questões abertas da
Teoria dos Números, este problema tem sido objeto de intensa pesquisa ao longo dos
séculos.
Para entender mais detalhadamente esse padrão numérico, vamos analisar a tabela a
seguir.
3.2. Conjectura de Legendre 39

Tabela 3.5: Os dez primeiros números da Conjectura de Legendre


n n2 p (n + 1)2
1 1 2, 3 4
2 4 5, 7 9
3 9 11, 13 16
4 16 17, 19, 23 25
5 25 29, 31 36
6 36 37, 41, 43, 47 49
7 49 53, 59, 61 64
8 64 67, 71, 73, 79 81
9 81 83, 89, 97 100
10 100 101, 103, 107, 109, 113 121

Fonte: Elaborado pelo autor

Note que, até n = 10, temos pelo menos um número primo compreendido entre n2 e
(n + 1)2 . A conjectura foi testada computacionalmente para elevados valores de n, e para
todos eles, foi verificada verdadeira. No entanto, a prova dessa conjectura continua sendo
um problema em aberto na Matemática. Muitos matemáticos tentaram demonstrar tal
conjectura, porém, existem apenas resultados parciais. Um dos feitos mais importantes
é o trabalho de Jing Run Chen (1933 - 1996), matemático chinês que provou existir
entre n2 e (n + 1)2 um número p que é primo ou semiprimo (semiprimos são números
compostos formados pelo produto de dois números primos, não necessariamente distintos).
O resultado de Chen trouxe grandes avanços para a análise da Conjectura de Legendre,
pois agora, se tem um resultado (mesmo que parcial) mais preciso e consistente. (ASSIS,
2019).
A Conjectura de Legendre também se associa a outras conjecutras, no mínimo, cu-
riosas, como o postulado de Bertrand, desenvolvida pelo matemático francês Bertrand
Russell (1822 - 1900), que afirma que sempre existe um número primo entre n e 2n para
qualquer número inteiro positivo n, que pode ser interpretada como uma variação da
Conjectura de Legendre. Outro exemplo é o teorema dos números primos de Dirichlet,
analisada pelo matemático alemão Johann Peter Gustav Lejeune Dirichlet (1805 - 1859),
que estabelece que, se d ≥ 2 e a ̸= 0 são números inteiros primos entre si, ou seja, o
mdc(a, d) = 1, então a progressão aritmética a, a + d, a + 2d, a + 3d, . . . , contém uma
infinidade de números primos. Todos esses trabalhos desenvolvidos possuem como base
os estudos de Legendre.
A busca pela prova da conjectura tem levado ao desenvolvimento de novas técnicas e
ideias matemáticas, e tem sido um estímulo para a pesquisa na Teoria dos Números e em
áreas relacionadas. Perceba a importância de todos os brilhantes trabalhos de Legendre,
um matemático a frente da sua época, trazendo importantes avanços para a Matemática
Moderna, como estudos sobre Geometria Diferencial, Cálculo Diferencial e Algebra.
3.3. Conjectura de Collatz 40

3.3 Conjectura de Collatz


Alemanha, 6 de Julho de 1910, na cidade de Arnsberg, nascia Lothar Collatz. Assim
como muitos estudantes alemães da sua época, Collatz estudou em várias universidades,
entre elas, a Universidade de Berlim, Munique, Universidade de Greifswald e Universidade
de Göttingen, se dedicando à Matemática e Física durante o período de 1928 a 1933. Ele
teve professores aclamados pela comunidade científica da época, como o famoso matemá-
tico alemão David Hilbert (1862 - 1943) e o físico austríaco Erwin Schrödinger (1887 -
1961).
As contribuições de Lothar Collatz para a Matemática e a Ciência da Computação
foram muito importantes, e muitas delas ainda influenciam pesquisas e estudos atuais. A
investigação de Collatz permitiu que ele fosse um dos pioneiros no uso de computadores
para solucionar problemas matemáticos avançados e complexos. Seu trabalho ajudou a
estabelecer as bases para a aplicação de técnicas computacionais na Matemática e em
outras áreas científicas.
Figura 11: Lothar Collatz

Fonte: <https://people.math.sc.edu/>

Collatz também se dedicou aos estudos de Sistemas Dinâmicos, onde sua pesquisa
tem sido aplicada em uma ampla variedade de áreas, como Criptografia, Teoria da Infor-
mação, Modelagem Matemática, Biologia e Ecologia. Seu trabalho em aproximação de
funções e equações diferenciais parciais também tem sido fundamental para o desenvol-
vimento de métodos numéricos utilizados em diversas áreas da Ciência e da Engenharia.
Ele também teve uma carreira acadêmica notável, tendo lecionado em diversas univer-
sidades alemãs, entre elas a Universidade de Hamburgo, onde atuou como professor de
Matemática Aplicada. Collatz era conhecido como um professor talentoso e dedicado, que
inspirou muitos estudantes a seguirem carreiras em Matemática e Ciência da Computação
(ONODY, 2021).
Dentre os trabalhos de Collatz, existe uma análise na Teoria dos Números que o fez
adquirir destaque na comunidade matemática. Uma conjectura proposta em 1937 que
3.3. Conjectura de Collatz 41

leva o seu nome, a Conjectura de Collatz. Essa conjectura pode ser enunciada como:

Conjectura 3.3. A partir de qualquer número inteiro positivo n, dividindo-o por 2, se


for par, ou multiplicando-o por 3 e adicionando 1, se for ímpar, e fazendo assim sucessi-
vamente, chegaremos sempre ao número 1.

Iremos verificar essa conjectura testando para alguns valores e realizando as iterações
seguindo o algoritmo mencionado acima, e para esse primeiro exemplo, usaremos como
ponto de partida n = 10. Então teremos:

Tabela 3.6: Conjectura de Collatz para n = 10

Iteração Operação Resultado


10
1a 5
2
2a 3·5+1 16
16
3a 8
2
8
4a 4
2
4
5a 2
2
2
6a 1
2
Fonte: Elaborado pelo autor

Perceba que começando de n = 10, chegamos em 1 em 6 iterações, tendo a seguinte


sequência: 10, 5, 16, 8, 4, 2, 1. Note que a conjectura é simples de ser enunciada e testada,
porém, até então ela não foi demonstrada verdadeira ou refutada. De acordo com o site
MIT Technology Review (2021), até o momento, a conjectura foi testada por computa-
dores para todos os valores iniciais até 3 × 107 , com cada número dos testes, o resultado
terminou em 1, ou seja, a conjectura foi verificada verdadeira com n variando até 30
milhões.
De forma analítica, também podemos escrever essa conjectura como uma função:
{ n
, se n for par.
f (n) = 2
3 · n + 1 , se n for ímpar.

Partiremos da função analítica para plotar o gráfico seguinte utilizando como parâ-
metro de ponto de partida n = 60.
3.3. Conjectura de Collatz 42

Figura 12: Conjectura de Collatz para n = 60


180
160
140

Valor da sequência
120
100
80
60
40
20
1
1 4 7 10 13 16 19 22
Número de iterações

Fonte: Elaborado pelo autor

Note que, graficamente, para n = 60, a curva chega no ponto máximo 160 e decresce até
1, com 19 iterações. De fato, se escrevermos todos os números da sequência teremos: 60,
30, 15, 46, 23, 70, 35, 106, 53, 160, 80, 40, 20, 10, 5, 16, 8, 4, 2, 1. Perceba que o maior
valor encontrado é 160 e temos 19 números após o primeiro número (ponto de partida),
sendo essa quantidade o número de iterações.
Para números maiores, mesmo utilizando o recurso gráfico, fica cada vez mais difí-
cil determinar a sequência das iterações e a quantidade de iterações. Para exemplicar,
vejamos o seguinte gráfico para n = 1.000.

Figura 13: Conjectura de Collatz para n = 1.000


10.000
9.000
8.000
Valor da sequência

7.000
6.000
5.000
4.000
3.000
2.000
1.000
1
1 23 46 69 92 115 138
Número de iterações

Fonte: Elaborado pelo autor

Perceba que, para n = 1.000, fica difícil determinar com precisão os valores numéricos da
sequência e a quantidade de iterações, até mesmo no gráfico. Note também que a curva
não é definida por um padrão específico, sendo aleatória a distribuição dos números. Essa
3.3. Conjectura de Collatz 43

aleatoriedade na conjectura e da distribuição dos pontos no gráfico também é chamada


de efeito granizo, pela associação com o modo imprevisível que o granizo cai das nuvens.
Collatz era um grande defensor do poder computacional para resolver problemas com-
plexos de Matemática em uma época em que a Computação ainda estava dando os primei-
ros passos. Afim de defender a ideia de Collatz do poder computacional, desenvolvemos
a seguir um programa utilizando Python, uma linguagem de programação simples e ex-
tretamente poderosa. Nossa aplicação desenvolvida será capaz de nos fornecer todos os
valores da sequência e a quantidade de iterações partindo de um determinado valor n
dado. O nosso código ficará da seguinte forma:

Figura 14: Conjectura de Collatz em Python


1 while 1==1:
2 n = int ( input ( " Digite um número inteiro positivo para começar novas
iterações : " ) )
3 print ( " Os valores das iterações são : " )
4 def collatz ( n ) :
5 count = 0
6 while n != 1:
7 print (n , end = " " )
8 if n % 2 == 0:
9 n = n // 2
10 else :
11 n = 3 * n + 1
12 count += 1
13 print ( n )
14 print ( " Quantidade de iterações : " , count )
15 collatz ( n )

Fonte: Elaborado pelo autor

Vamos entender cada linha de código:

1a linha:
1 while 1 == 1:

O código começa com um loop (repetição) while infinito que executa continuamente en-
quanto a condição especificada for verdadeira. No nosso exemplo, temos “enquanto 1
for igual a 1, faça o comando abaixo:”. Como 1 é sempre igual a 1, o código irá se
repetir inifinitamente, portanto, o loop nunca terminará a menos que seja interrompido
manualmente. Essa parte serve apenas para que, após o código ser executado, todo o pro-
cedimento se repita e seja perguntado novamente um valor para novas iterações, fazendo
com que o programa seja sempre executado.
3.3. Conjectura de Collatz 44

2a linha:

1 n = int ( input ( " Digite um número inteiro positivo para começar novas
iterações : " ) )

Como a Conjectura de Collatz é válida apenas para números inteiros positivos, o programa
solicita ao usuário que digite um número inteiro positivo n para iniciar novas iterações. O
número é lido da entrada do usuário usando a função input(), convertido em um inteiro
usando a função int() e atribuído à variável n.

3a linha:

1 print ( " Os valores das iterações são : " )

O programa “printa” (imprime) uma mensagem na tela para indicar que os valores das
iterações serão exibidos a seguir.

4a linha:

1 def collatz ( n ) :

O programa define uma nova função chamada collatz que recebe o número inteiro n.

5a linha:

1 count = 0

A variável “count” é inicializada como zero para contabilizar o número de iterações ne-
cessárias para alcançar o valor 1 na sequência de Collatz.

6a linha:

1 while n != 1:

Um loop while é iniciado e continuará enquanto o valor n for diferente de 1, o que indica
que a sequência de Collatz ainda não chegou ao fim.

7a linha

1 print (n , end = " " )

O valor atual de n é impresso na tela, seguido de um espaço em branco, para mostrar o


progresso da sequência da sequência da Conjecutra de Collatz de acordo com o número
inteiro positivo digitado pelo usuário.
3.3. Conjectura de Collatz 45

8a a 11a linha:

1 if n % 2 == 0:
2 n = n // 2
3 else :
4 n = 3 * n + 1

O programa verifica se o valor atual de n é par ou ímpar, ou seja, ele analisa se o resto
da divisão do número n por 2 é igual a zero. Se (if) n for par, o valor é dividido por 2.
Se não (else), ou seja, se n for ímpar, o valor é multiplicado por 3 e adicionado 1. Este
processo é repetido até que o valor 1 seja alcançado.

12a linha:

1 count += 1

Temos um contador count que é acrescido em “1” para cada iteração do loop while, para
registrar o número total de iterações necessárias até alcançar o valor 1 na sequência de
Collatz.

13a linha:

1 print ( n )

Quando o valor “1” é finalmente alcançado pelos comandos anteriores, a sequência de


Collatz é impressa na tela.

14a linha:

1 print ( " Quantidade de iterações : " , count )

Nesse comando, programa imprime o número total de iterações realizadas para alcançar o
valor 1 na sequência de Collatz. Este valor é armazenado na variável count e foi atualizado
em cada iteração do loop while.

15a linha:

1 collatz ( n )

Finalmente, o programa chama a função collatz(n) com o argumento n para iniciar a


execução da sequência de Collatz com o valor fornecido pelo usuário. Esse último garante
que toda a função será executada realizando todos os passos. Como inicialmente temos um
loop infinito while, o programa continuará executando até ser interrompido manualmente.
Podemos verificar o programa através de um computador de mesa ou até mesmo um ce-
lular, basta acessar um compilador de Python online, trazemos como exemplos alguns com-
piladores virtuais como o site <https://www.onlinegdb.com/online_python_compiler>,
3.3. Conjectura de Collatz 46

ou o site <https://www.programiz.com/python-programming/online-compiler/>, que são


os melhores compiladores online. Após acessar qualquer um dos sites mencionados, basta
inserir o nosso código para verificar a sua execução.
Para facilitar ao leitor, inserimos o nosso código no seguinte link: <https://onlinegdb.
com/_UxEAFG9T>. Basta acessar e clicar em Run.
Ao exercutar o nosso código, o programa irá solicitar um número inteiro para come-
çarmos as iterações, como mostra abaixo:

1 Digite um número para começar novas iterações :

Se escolhermos, por exemplo, um valor inicial igual a 500, o programa irá nos retornar
o seguinte resultado:

1 Digite um número para começar novas iterações : 500


2 Os valores das iterações são :
3 500 250 125 376 188 94 47 142 71 214 107 322 161 484 242 121 364 182 91
274 137 412 206 103 310 155 466 233 700 350 175 526 263 790 395 1186
593 1780 890 445 1336 668 334 167 502 251 754 377 1132 566 283 850
425 1276 638 319 958 479 1438 719 2158 1079 3238 1619 4858 2429 7288
3644 1822 911 2734 1367 4102 2051 6154 3077 9232 4616 2308 1154 577
1732 866 433 1300 650 325 976 488 244 122 61 184 92 46 23 70 35 106
53 160 80 40 20 10 5 16 8 4 2 1
4 Quantidade de iterações : 110

Perceba que apenas em quatro linhas do terminal, o programa é capaz de nos fornecer
todas as iterações em ordem de acordo com o valor inicial dado. Além disso, também
é fornecido a quantidade total de iterações, conforme havíamos definido anteriormente
na escrita (script) do nosso código. A ideia em fornecer todo o algoritmo em Python, é
aguçar a curiosidade do leitor para que ele também possa verificar a Conjectura de Collatz,
testando para os mais variados valores. Um obstáculo que pode limitar o código é o poder
computacional no qual ele está sendo executado. Para computadores mais potentes, o
código poderá calcular números altos com maior velocidade; para computadores mais
fracos, o tempo de execução poderá ser maior.
A Conjectura de Collatz é impressionante por envolver operações aritméticas simples e,
ao mesmo tempo, possuir uma complexidade enorme para as tentativas de demonstrações.
Collatz foi um matemático brilhante, grande defensor do poder dos computadores para
a resolução de problemas matemáticos complexos, em uma época em que a Computação
ainda dava seus primeiros passos. Ele faleceu em 26 de setembro de 1990 em Hamburgo,
na Alemanha, porém, sua vida e carreira continuam sendo exemplos do papel fundamental
da Matemática e da Ciência da Computação para o avanço da tecnologia e da sociedade
em geral. A contribuição de Collatz para a Matemática é amplamente reconhecida e
continua a ser estudada por matemáticos e cientistas da computação em todo o mundo.
Capítulo 4

Outros Problemas em Aberto na Teoria


dos Números

Veremos agora alguns problemas em aberto que não envolvem diretamente os números
primos. Para essa nova análise, abordaremos alguns problemas que estão relacionados com
o conceito de divisibilidade, para isso, precisaremos de algumas definições importantes que
utilizaremos, como o conceito de Mínimo Múltiplo Comum, Máximo Divisor Comum e a
ideia dos divisores próprios de um número inteiro.

Definição 4.1. O Mínimo Múltiplo Comum (mmc) de dois inteiros positivos a e b é o


menor inteiro positivo que é divisível por a e b. Denotaremos por mmc(a,b).

Como exemplo, temos que o mmc de 6 e 10 é 30, pois esse é o menor múltiplo comum
a estes números.

Definição 4.2. O Máximo Divisor Comum (mdc) de dois inteiros positivos a e b (a ou


b diferente de zero) é o maior inteiro que divide a e b. Denotaremos por mdc(a,b).

Como exemplo, temos que o mdc de 6 e 10 é 2, pois esse é o maior divisor comum
comum a estes números.

Definição 4.3. Sendo k um número inteiro e D(k) seus divisores positivos, denotamos
Dp (k) como seus divisores prórios, onde Dp (k) = {D(k) − k}.

Como exemplo, temos que os divisores próprios de 6 pode ser representado como
Dp (6) = {1, 2, 3}.

Definição 4.4. Sendo n um número inteiro positivo, temos Sd (n) como sendo a soma
dos divisores de n e Sdp (n) como sendo a soma dos divisores próprios de n.

Como exemplo, temos que Sd (6) = 12 e que Sdp (6) = 6.


4.1. Números Perfeitos 48

4.1 Números Perfeitos


A história dos números perfeitos começa há mais de 2000 anos, na Grécia Antiga. Ma-
temáticos gregos, incluindo Euclides (383 a.C. - 323 a.C.) e Nicômaco de Gérasa, conhecido
como Nicomachus (60 d.C. - 120 d.C.), estavam interessados em estudar a natureza dos
números e, em particular, encontrar números especiais que tivessem propriedades únicas.
Um dos primeiros números que chamaram a atenção dos matemáticos gregos foi o
número 6. Eles descobriram que 6 é a soma dos seus divisores próprios (1, 2 e 3), e que
essa propriedade é compartilhada por outros números, como 28 (Dp (28) = {1, 2, 4, 7, 14})
e 496 (Dp (496) = {1, 2, 4, 8, 16, 31, 62, 124, 248}). Números que obedecem essa condição
são chamados de números perfeitos.

Definição 4.5. Seja n um número inteiro positivo e a1 , a2 , a3 , . . . , ak seus divisores pró-


prios, então temos que n será um número perfeito quando


k
n= ai .
i=1

Um fato curioso é que, até o momento, todos os números perfeitos descobertos são
pares, ou seja, sendo n um número perfeito, temos que Sdp (n) = 2k, k ∈ Z+ . Por enquanto,
nada se sabe sobre a existência de números perfeitos ímpares (CRUZ et al., 2013).
No século XVI, o matemático alemão Michael Stifel (1487 - 1567) foi o primeiro a
utilizar o termo “número perfeito” em sua obra “Arithmetica Integra”, publicada em
1544. Nos séculos XVII e XVIII, o estudo dos números perfeitos foi expandido pelos
matemáticos europeus, incluindo Fermat, Euler e Legendre, matemáticos já mencionados
nesse trabalho. Em particular, Euler descobriu uma fórmula para gerar números perfeitos
a partir de números primos, conhecida como a fórmula de Euler para números perfeitos.
Euler provou que, todo número perfeito par pode ser escrito como
( )
2p−1 · (2p − 1) ,

Para algum p primo. Essa fórmula permite encontrar facilmente os quatro primeiros
números perfeitos: 6, 28, 496 e 8.128. De fato, para os números mencionados, podemos
verificar esse padrão conforme a tabela abaixo.

Tabela 4.1: Números Perfeitos na forma (2p−1 ) · (2p − 1)


Número Perfeito (2p−1 ) · (2p − 1)
6 (22−1 ) · (22 − 1)
28 (23−1 ) · (23 − 1)
496 (25−1 ) · (25 − 1)
8.128 (27−1 ) · (27 − 1)

Fonte: Elaborado pelo autor


4.1. Números Perfeitos 49

Analisando a tabela, é comum pensarmos que temos uma ordem crescente dos números
primos p, e com isso, deduzirmos que o próximo número perfeito seria (211−1 ) · (211 − 1).
Porém, isso não é verdade, pois o próximo número perfeito da tabela é escrito com p = 13,
sendo esse, 33.550.336 = (213−1 )·(213 −1). Uma curiosidade é que, os números perfeitos são
tão particulares que os números tabelados acima são todos os números perfeitos menores
que 105 .
Um padrão descoberto por Leonhard Euler é que, se 2p − 1 é um número primo, então
(2p−1 ) · (2p − 1) é um número perfeito. Porém, note que se 2p − 1 é um número primo,
então esse é um Número Primo de Mersenne, o que torna os números perfeitos ainda
mais interessantes, já que relaciona características de outros números específicos, como os
Primos de Mersenne, estudados anteriormente.
Essa relação é fascinante, pois permite gerar números perfeitos conhecendo apenas
os Primos de Mersenne correspondentes. Por exemplo, se encontrarmos um novo Primo
de Mersenne, podemos aplicar a fórmula de Euler para obter um novo Número Perfeito.
Essa relação tem sido explorada ao longo dos séculos na busca por números perfeitos e
primos de Mersenne.
Com o avanço da computação moderna, foi possível encontrar números perfeitos
ainda maiores. O maior número perfeito foi descoberto em dezembro de 2018, através
do projeto colaborativo GIMPS (já mencionado anteriormente). O número possui um
total de 24.862.048 dígitos e pode ser gerado pela fórmula de Euler, sendo escrito como
(282.589.933−1 ) · (282.589.933 − 1), sendo o número primo p = 82.589.933.
Dentre outras contribuições, uma interessante é do matemático francês Anatole Lucas
(1842 - 1891), mais conhecido como Édouard Lucas, o mesmo criador do jogo da Torre de
Hanói, que em 1876 mostrou que os números perfeitos pares terminam sempre em 6 ou
8. Ele também calculou, de forma manual, o número 2127 − 1, verifcando ser um número
primo, com isso, foi determinando então o maior número perfeito conhecido da época:
(2127−1 ) · (2127 − 1). O que é extremamente impressionante, tendo em vista o tamanho do
número que foi calculado manualmente.
Os números perfeitos são considerados raros. Embora tenham sido feitos avanços
significativos na descoberta de números perfeitos usando técnicas computacionais, até
agora, apenas 51 números perfeitos foram descobertos. Os maiores números perfeitos
conhecidos têm milhões de dígitos.
Apesar da natureza dos números perfeitos ter sido estudada por séculos, muitos mis-
térios ainda permanecem: ainda não se sabe se existem infinitos números perfeitos ou se
existem números perfeitos ímpares, o que tornam problemas em aberto. Portanto, o es-
tudo desses números continua a ser uma área de interesse para matemáticos e cientistas de
todo o mundo, e a descoberta de novos números perfeitos ainda é um desafio emocionante
para a comunidade matemática.
4.2. Números Amigos 50

4.2 Números Amigos


A origem dos números amigos remontam à antiguidade. Acredita-se que os antigos
egípcios já conheciam a existência desses números, embora não tivessem uma formulação
explícita para eles. Eles estavam interessados em encontrar números perfeitos, que são
números cuja soma dos divisores próprios é igual ao próprio número. Os números amigos
podem ser considerados uma extensão dos números perfeitos (ALLAN, 2009).

Definição 4.6. Dados dois números inteiros a e b, esses formarão um par de números
amigos (a, b) quando Sdp (a) = b e Sdp (b) = a.

Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), famoso filósofo grego, mencionou os números amigos
em seus escritos. No entanto, foi apenas no século IX que o matemático árabe Al-Farabi
(870 d.C. - 950 d.C.) forneceu os primeiros estudos mais detalhados. Ele investigou tais
números e descobriu o primeiro par de números amigos: (220, 284).

Tabela 4.2: Os cinco primeiros pares de números amigos


(220, 284)
(1.184, 1.210)
(2.620, 2.924)
(5.020, 5.564)
(6.232, 6.368)

Fonte: Elaborado pelo autor

De fato, note que temos


Para o primeiro par:
Sdp (220) = 1 + 2 + 4 + 5 + 10 + 11 + 20 + 22 + 44 + 55 + 110 = 284.
Sdp (284) = 1 + 2 + 4 + 71 + 142 = 220.
Para o segundo par:
Sdp (1.184) = 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + 32 + 37 + 74 + 148 + 296 + 592 = 1.210.
Sdp (1.210) = 1 + 2 + 5 + 10 + 11 + 22 + 55 + 110 + 121 + 242 + 605 = 1.184.
Para o terceiro par:
Sdp (2.620) = 1 + 2 + 4 + 5 + 10 + 20 + 131 + 262 + 524 + 655 + 1310 = 2924.
Sdp (2.924) = 1 + 2 + 4 + 17 + 34 + 43 + 68 + 86 + 172 + 731 + 1.462 = 2.620.
Para o quarto par:
Sdp (5.020) = 1 + 2 + 4 + 5 + 10 + 20 + 251 + 502 + 1.004 + 1.255 + 2.510 = 5.564.
Sdp (5.564) = 1 + 2 + 4 + 13 + 26 + 52 + 107 + 214 + 428 + 1.391 + 2.782 = 5.020.
Para o quinto par:
Sdp (6.232) = 1+2+4+8+19+38+41+76+82+152+164+328+779+1.558+3.116 = 6.368.
Sdp (6.368) = 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + 32 + 199 + 398 + 796 + 1.592 + 3.184 = 6232.
4.2. Números Amigos 51

Vamos analisar agora o comportamento da distribuição dos dez primeiros pares de


Números Amigos em um gráfico.

Figura 15: Gráfico dos dez primeiros pares de Números Amigos

106

105
Par amigo (y)

104

103

102 2
10 103 104 105 106
Número amigo (x)

Fonte: Elaborado pelo autor

No plano cartesiano, cada ponto é um par de número amigo, o eixo x representa o número
amigo e o eixo y representa o seu par amigo. O critério de ordenação nesse plano cartesiano
está relacionado ao par (x, y), onde ordenamos cada par com x > y, o mesmo padrão de
ordenação está em nosso apêndice sobre os pares de Números Amigos. Observe que
os pontos estão proximos da reta representada pela função identidade f (x) = x (em
vermelho), porém, não se sabe se essa característica é um padrão para os demais pares
de números de amigos. O que se sabe é que os próximos são pares ordenados cada vez
maiores. Embora muitos pares de números amigos tenham sido encontrados, ainda há
desafios abertos na busca por novos pares. Encontrar pares de ordens ainda maiores ou
desenvolver métodos mais eficientes são áreas de pesquisa em andamento.
Capítulo 5

Conclusões e Perspectivas

O presente trabalho visa trazer uma análise aprofundada sobre a Teoria dos Números,
em particular, sobre Problemas em Aberto. Trazendo contextos históricos, definições e
teoremas, temos como intuito estimular o leitor a se debruçar na linha do tempo da Ma-
temática a fim de compreender sua evolução ao longo da história, utilizando como análise
os seus Problemas em Aberto. A Teoria dos Números é um campo vasto e fascinante,
repleto de Problemas em Aberto que têm desafiado matemáticos ao longo dos séculos.
Entre esses problemas, destacam-se os Primos de Mersenne, primos gêmeos, a Conjectura
de Goldbach, a Conjectura de Legendre, a Conjectura de Collatz, Números Perfeitos e
Números Amigos, problemas esses que foram detalhados neste trabalho. Cada um desses
tópicos apresenta características únicas e desafios matemáticos intrigantes.
A busca por soluções e provas teóricas nesses tópicos impulsiona a pesquisa Matemá-
tica e alimenta a nossa compreensão dos números e suas propriedades. À medida que
avançamos no campo da Teoria dos Números, novas descobertas são feitas e novos de-
safios surgem, garantindo que essa área da Matemática permaneça emocionante e cheia
de possibilidades para os matemáticos do presente e do futuro. Com o intuito de ajudar
os avanços nessa área específica, colaborando no desenvolvimento de pesquisas futuras,
este trabalho trouxe uma atualização de alguns dos princiapais problemas em aberto na
Teoria dos Número, bem como das pesquisas que estão sendo realizadas na tentativa de
demonstrá-los.
Embora muitos avanços tenham sido feitos e conjecturas empíricas sustentadas, esses
problemas ainda resistem a soluções definitivas. Eles nos lembram da complexidade e
profundidade dos números e nos incentivam a continuar explorando, pesquisando e des-
vendando os mistérios matemáticos que permeiam esses tópicos. A Teoria dos Números
continua sendo um campo estimulante, repleto de enigmas a serem resolvidos, e a busca
por respostas para esses problemas em aberto permanece como um desafio constante.
Referências

ALLAN, N. D. A Matemática Recreativa de Euler: Números Amigos. Revista Brasileira


de História da Matemática, 2009.

ALVITES, J. C. V. Hipótese de Riemann e Física. Universidade de São Paulo, 2012.

ASSIS, D. I. Os números primos como instrumento de estímulo à curiosidade dos


estudantes. Brasília - Distrito Federal, 2019.

BICUDO, I. Euclides: Os Elementos. Tradução de Irineu Bicudo. 1. ed. São Paulo -


Brasil: Unesp, 2009.

CHAVES, M. S. et al. A linguagem dos números primos: uma abordagem epistemológica


sobre a Conjectura de Goldbach. Cuadernos de Educación y Desarrollo, Servicios
Académicos Intercontinentales SL, n. 45, 2014.

CRUZ, S. O. et al. Números Perfeitos. Universidade Federal da Paraíba, 2013.

D’AMBROSIO. Euler, um matemático multifacetado. 1. ed. São Paulo - Brasil: Revista


Brasileira de História da Matemática, 2009.

DOXIADIS, A. Tio Petros e a Conjectura de Goldbach. São Paulo - Brasil: Editora 34,
2001.

EVES, H. Introdução à História da Matemática. Tradução: Hygino Domingues. 2. ed.


Campinas - Brasil: UNICAMP, 1997.

FILHO, D. C. de M. Um convite à Matemática. SBM, Rio de Janeiro - Brasil, 2013.

MATTOS, P. de C. Tipos de Revisão de Literatura. São Paulo - Brasil: UNESP, 2015.

MIT Technology Review. Os computadores estão prontos para resolver esse


problema matemático notoriamente complicado? 2021. Disponível em: <https:
//mittechreview.com.br/>. Acesso em: 11 de maio de 2023.

MOREIRA, C. G.; MARTÍNEZ, F. E. B. Primos Gêmeos, Primos de Sophie Germain


e o Teorema de Brun. Revista Matemática Universitária, 2010.

ONODY, R. N. A Conjectura de Collatz. Instituto de Física de São Carlos - USP, São


Paulo - SP, 2021.
Referências Bibliográficas 54

PERUZZO, J. O Fascínio Dos Números Primos. Joinville - Santa Catarina: Clube de


Autores, 2017.

RAMOS, M. A. R. Adrien-Marie Legendre (1752-1833) e suas obras em Teoria dos


Números. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal - RN, 2010.

REIS, L. F. de S. Algumas conexões entre Teoria dos Números e Física. 2021.

SANTOS, J. P. de O. Introdução à Teoria dos Números. 3. ed. Rio de Janeiro - Brasil:


SBM, 2009.

SOUSA, J. E. Conjetura de Goldbach: uma visão aritmética. Tese (Doutorado) —


Universidade dos Açores (Portugal), 2013.

STEWART, I. Os Maiores Problemas Matemáticos de Todos os Tempos. Tradução:


George Schlesinger. 1. ed. Rio de Janeiro - Brasil: Zahar, 2014.

USP (Universidade de São Paulo). Uso de supercomputadores é tema de evento


da Superintendência de Tecnologia da Informação. 2021. Disponível em: <https:
//www.usp.br/aunantigo/exibir?id=4980&ed=879>. Acesso em: 11 de maio de 2023.

VILLIERS, M. Para uma Compreensão dos Diferentes Papéis da Demonstração em


Geometria Dinâmica. University of Durban-Westville, 2002.
Apêndice A

Representação dos Primos de Mersenne


menores que 10100

M2 = 22 − 1 = 3.

M3 = 23 − 1 = 7.

M5 = 25 − 1 = 31.

M7 = 27 − 1 = 127.

M13 = 213 − 1 = 8191.

M17 = 217 − 1 = 131071.

M19 = 219 − 1 = 524287.

M31 = 231 − 1 = 2147483647.

M61 = 261 − 1 = 2305843009213693951.

M89 = 289 − 1 = 618970019642690137449562111.

M107 = 2107 − 1 = 162259276829213363391578010288127.

M127 = 2127 − 1 = 170141183460469231731687303715884105727.


Apêndice B

Representação dos pares de Primos


Gêmeos menores que 10.000

(3, 5) (569, 571) (1607, 1609) (2687, 2689)


(5, 7) (599, 601) (1619, 1621) (2711, 2713)
(11, 13) (617, 619) (1667, 1669) (2729, 2731)
(17, 19) (641, 643) (1697, 1699) (2789, 2791)
(29, 31) (659, 661) (1721, 1723) (2801, 2803)
(41, 43) (809, 811) (1787, 1789) (2969, 2971)
(59, 61) (821, 823) (1871, 1873) (2999, 3001)
(71, 73) (827, 829) (1877, 1879) (3119, 3121)
(101, 103) (857, 859) (1931, 1933) (3167, 3169)
(107, 109) (881, 883) (1949, 1951) (3251, 3253)
(137, 139) (1019, 1021) (1997, 1999) (3257, 3259)
(149, 151) (1031, 1033) (2027, 2029) (3299, 3301)
(179, 181) (1049, 1051) (2081, 2083) (3329, 3331)
(191, 193) (1061, 1063) (2087, 2089) (3359, 3361)
(197, 199) (1091, 1093) (2111, 2113) (3371, 3373)
(227, 229) (1151, 1153) (2129, 2131) (3389, 3391)
(239, 241) (1229, 1231) (2141, 2143) (3461, 3463)
(269, 271) (1277, 1279) (2237, 2239) (3467, 3469)
(281, 283) (1289, 1291) (2267, 2269) (3527, 3529)
(311, 313) (1301, 1303) (2309, 2311) (3539, 3541)
(347, 349) (1319, 1321) (2339, 2341) (3557, 3559)
(419, 421) (1427, 1429) (2381, 2383) (3581, 3583)
(431, 433) (1451, 1453) (2549, 2551) (3671, 3673)
(461, 463) (1481, 1483) (2591, 2593) (3767, 3769)
(521, 523) (1487, 1489) (2657, 2659) (3821, 3823)
B. Representação dos pares de Primos Gêmeos menores que 10.000 57

(3851, 3853) (4421, 4423) (5279, 5281) (6197, 6199)


(3917, 3919) (4481, 4483) (5417, 5419) (6269, 6271)
(3929, 3931) (4517, 4519) (5441, 5443) (6299, 6301)
(4001, 4003) (4547, 4549) (5477, 5479) (6359, 6361)
(4019, 4021) (4637, 4639) (5501, 5503) (6449, 6451)
(4049, 4051) (4649, 4651) (5519, 5521) (6551, 6553)
(4091, 4093) (4721, 4723) (5639, 5641) (6569, 6571)
(4127, 4129) (4787, 4789) (5651, 5653) (6659, 6661)
(4157, 4159) (4799, 4801) (5657, 5659) (6689, 6691)
(4217, 4219) (4931, 4933) (5741, 5743) (6701, 6703)
(4229, 4231) (4967, 4969) (5849, 5851) (6761, 6763)
(4241, 4243) (5009, 5011) (5867, 5869) (6779, 6781)
(4259, 4261) (5021, 5023) (5879, 5881) (6791, 6793)
(4271, 4273) (5099, 5101) (6089, 6091) (6827, 6829)
(4337, 4339) (5231, 5233) (6131, 6133)
Apêndice C

Representação da Conjectura de
Goldbach para os naturais até 100

4=2+2 30 = 7 + 23 46 = 3 + 43 58 = 11 + 47
6=3+3 30 = 11 + 19 46 = 5 + 41 58 = 17 + 41
8=3+5 30 = 13 + 17 46 = 17 + 29 58 = 29 + 29
10 = 3 + 7 32 = 3 + 29 46 = 23 + 23 60 = 7 + 53
10 = 5 + 5 32 = 13 + 19 48 = 5 + 43 60 = 13 + 47
12 = 5 + 7 34 = 3 + 31 48 = 7 + 41 60 = 17 + 43
14 = 3 + 11 34 = 5 + 29 48 = 11 + 37 60 = 19 + 41
14 = 7 + 7 34 = 11 + 23 48 = 17 + 31 60 = 23 + 37
16 = 3 + 13 34 = 17 + 17 48 = 19 + 29 60 = 29 + 31
16 = 5 + 11 36 = 5 + 31 50 = 3 + 47 62 = 3 + 59
18 = 5 + 13 36 = 7 + 29 50 = 7 + 43 62 = 19 + 43
18 = 7 + 11 36 = 13 + 23 50 = 13 + 37 62 = 31 + 31
20 = 3 + 17 36 = 17 + 19 50 = 19 + 31 64 = 3 + 61
20 = 7 + 13 38 = 7 + 31 52 = 5 + 47 64 = 5 + 59
22 = 3 + 19 38 = 19 + 19 52 = 11 + 41 64 = 11 + 53
22 = 5 + 17 40 = 3 + 37 52 = 23 + 29 64 = 17 + 47
22 = 11 + 11 40 = 11 + 29 54 = 7 + 47 64 = 23 + 41
24 = 5 + 19 40 = 17 + 23 54 = 11 + 43 66 = 5 + 61
24 = 7 + 17 42 = 5 + 37 54 = 13 + 41 66 = 7 + 59
24 = 11 + 13 42 = 11 + 31 54 = 17 + 37 66 = 13 + 53
26 = 3 + 23 42 = 13 + 29 54 = 23 + 31 66 = 19 + 47
26 = 7 + 19 42 = 19 + 23 56 = 3 + 53 66 = 23 + 43
26 = 13 + 13 44 = 3 + 41 56 = 13 + 43 66 = 29 + 37
28 = 5 + 23 44 = 7 + 37 56 = 19 + 37 68 = 7 + 61
28 = 11 + 17 44 = 13 + 31 58 = 5 + 53 68 = 31 + 37
C. Representação da Conjectura de Goldbach para os naturais até 100 59

70 = 3 + 67 78 = 11 + 67 86 = 7 + 79 94 = 23 + 71
70 = 11 + 59 78 = 17 + 61 86 = 13 + 73 94 = 41 + 53
70 = 17 + 53 78 = 19 + 59 86 = 19 + 67 94 = 47 + 47
70 = 23 + 47 78 = 31 + 47 86 = 43 + 43 96 = 7 + 89
70 = 29 + 41 78 = 37 + 41 88 = 5 + 83 96 = 13 + 83
72 = 5 + 67 80 = 7 + 73 88 = 17 + 71 96 = 17 + 79
72 = 11 + 61 80 = 13 + 67 88 = 29 + 59 96 = 23 + 73
72 = 13 + 59 80 = 19 + 61 88 = 41 + 47 96 = 29 + 67
72 = 19 + 53 80 = 37 + 43 90 = 7 + 83 96 = 37 + 59
72 = 29 + 43 82 = 3 + 79 90 = 11 + 79 96 = 43 + 53
72 = 31 + 41 82 = 11 + 71 90 = 17 + 73 98 = 19 + 79
74 = 3 + 71 82 = 23 + 59 90 = 19 + 71 98 = 31 + 67
74 = 7 + 67 82 = 29 + 53 90 = 23 + 67 98 = 37 + 61
74 = 13 + 61 82 = 41 + 41 90 = 29 + 61 100 = 3 + 97
74 = 31 + 43 84 = 5 + 79 90 = 31 + 59 100 = 11 + 89
74 = 37 + 37 84 = 11 + 73 90 = 37 + 53 100 = 17 + 83
76 = 3 + 73 84 = 13 + 71 90 = 43 + 47 100 = 29 + 71
76 = 5 + 71 84 = 17 + 67 92 = 3 + 89 100 = 41 + 59
76 = 17 + 59 84 = 23 + 61 92 = 13 + 79 100 = 47 + 53.
76 = 23 + 53 84 = 31 + 53 92 = 19 + 73
76 = 29 + 47 84 = 37 + 47 92 = 31 + 61
78 = 5 + 73 84 = 41 + 43 94 = 5 + 89
78 = 7 + 71 86 = 3 + 83 94 = 11 + 83
Apêndice D

Representação da Conjectura de
Legendre para 10, 102 e 103

Para n = 10 :
102 < 101, 103, 107, 109, 113 < 112

Para n = 102 :
1002 < 10007, 10009, 10037, 10039, 10061, 10067, 10069, 10079, 10091, 10093, 10099, 10103,
10111, 10133, 10139, 10141, 10151, 10159, 10163, 10169, 10177, 10181, 10193 < 1012

Para n = 103 :
10002 < 1000003, 1000033, 1000037, 1000039, 1000081, 1000099, 1000117, 1000121, 1000133,
1000151, 1000159, 1000171, 1000183, 1000187, 1000193, 1000199, 1000211, 1000213, 1000231,
1000249, 1000253, 1000273, 1000289, 1000291, 1000303, 1000313, 1000333, 1000357, 1000367,
1000381, 1000393, 1000397, 1000403, 1000409, 1000423, 1000427, 1000429, 1000453, 1000457,
1000507, 1000537, 1000541, 1000547, 1000577, 1000579, 1000589, 1000609, 1000619, 1000621,
1000639, 1000651, 1000667, 1000669, 1000679, 1000691, 1000697, 1000721, 1000723, 1000763,
1000777, 1000793, 1000829, 1000847, 1000849, 1000859, 1000861, 1000889, 1000907, 1000919,
1000921, 1000931, 1000969, 1000973, 1000981, 1000999, 1001003, 1001017, 1001023, 1001027,
1001041, 1001069, 1001081, 1001087, 1001089, 1001093, 1001107, 1001123, 1001153, 1001159,
1001173, 1001177, 1001191, 1001197, 1001219, 1001237, 1001267, 1001279, 1001291, 1001303,
1001311, 1001321, 1001323, 1001327, 1001347, 1001353, 1001369, 1001381, 1001387, 1001389,
1001401, 1001411, 1001431, 1001447, 1001459, 1001467, 1001491, 1001501, 1001527, 1001531,
1001549, 1001551, 1001563, 1001569, 1001587, 1001593, 1001621, 1001629, 1001639, 1001659,
1001669, 1001683, 1001687, 1001713, 1001723, 1001743, 1001783, 1001797, 1001801, 1001807,
1001809, 1001821, 1001831, 1001839, 1001911, 1001933, 1001941, 1001947, 1001953, 1001977,
1001981, 1001983, 1001989 < 10012 .
Apêndice E

Representação da Conjectura de Collatz


para 1010

Valor Inicial: 10000000000, 25a Iteração: 2317429,


1a Iteração: 5000000000, 26a Iteração: 6952288,
2a Iteração: 2500000000, 27a Iteração: 3476144,
3a Iteração: 1250000000, 28a Iteração: 1738072,
4a Iteração: 625000000, 29a Iteração: 869036,
5a Iteração: 312500000, 30a Iteração: 434518,
6a Iteração: 156250000, 31a Iteração: 217259,
7a Iteração: 78125000, 32a Iteração: 651778,
8a Iteração: 39062500, 33a Iteração: 325889,
9a Iteração: 19531250, 34a Iteração: 977668,
10a Iteração: 9765625, 35a Iteração: 488834,
11a Iteração: 29296876, 36a Iteração: 244417,
12a Iteração: 14648438, 37a Iteração: 733252,
13a Iteração: 7324219, 38a Iteração: 366626,
14a Iteração: 21972658, 39a Iteração: 183313,
15a Iteração: 10986329, 40a Iteração: 549940,
16a Iteração: 32958988, 41a Iteração: 274970,
17a Iteração: 16479494, 42a Iteração: 137485,
18a Iteração: 8239747, 43a Iteração: 412456,
19a Iteração: 24719242, 44a Iteração: 206228,
20a Iteração: 12359621, 45a Iteração: 103114,
21a Iteração: 37078864, 46a Iteração: 51557,
22a Iteração: 18539432, 47a Iteração: 154672,
23a Iteração: 9269716, 48a Iteração: 77336,
24a Iteração: 4634858, 49a Iteração: 38668,
E. Representação da Conjectura de Collatz para 1010 62

50a Iteração: 19334, 88a Iteração: 920,


51a Iteração: 9667, 89a Iteração: 460,
52a Iteração: 29002, 90a Iteração: 230,
53a Iteração: 14501, 91a Iteração: 115,
54a Iteração: 43504, 92a Iteração: 346,
55a Iteração: 21752, 93a Iteração: 173,
56a Iteração: 10876, 94a Iteração: 520,
57a Iteração: 5438, 95a Iteração: 260,
58a Iteração: 2719, 96a Iteração: 130,
59a Iteração: 8158, 97a Iteração: 65,
60a Iteração: 4079, 98a Iteração: 196,
61a Iteração: 12238, 99a Iteração: 98,
62a Iteração: 6119, 100a Iteração: 49,
63a Iteração: 18358, 101a Iteração: 148,
64a Iteração: 9179, 102a Iteração: 74,
65a Iteração: 27538, 103a Iteração: 37,
66a Iteração: 13769, 104a Iteração: 112,
67a Iteração: 41308, 105a Iteração: 56,
68a Iteração: 20654, 106a Iteração: 28,
69a Iteração: 10327, 107a Iteração: 14,
70a Iteração: 30982, 108a Iteração: 7,
71a Iteração: 15491, 109a Iteração: 22,
72a Iteração: 46474, 110a Iteração: 11,
73a Iteração: 23237, 111a Iteração: 34,
74a Iteração: 69712, 112a Iteração: 17,
75a Iteração: 34856, 113a Iteração: 52,
76a Iteração: 17428, 114a Iteração: 26,
77a Iteração: 8714, 115a Iteração: 13,
78a Iteração: 4357, 116a Iteração: 40,
79a Iteração: 13072, 117a Iteração: 20,
80a Iteração: 6536, 118a Iteração: 10,
81a Iteração: 3268, 119a Iteração: 5,
82a Iteração: 1634, 120a Iteração: 16,
83a Iteração: 817, 121a Iteração: 8,
84a Iteração: 2452, 122a Iteração: 4,
85a Iteração: 1226, 123a Iteração: 2,
86a Iteração: 613, 124a Iteração: 1.
87a Iteração: 1840,
Apêndice F

Representação dos 10 primeiros


Números Perfeitos na forma
(2p−1) · (2p − 1)

(22−1 ) · (22 − 1) = 6.

(23−1 ) · (23 − 1) = 28.

(25−1 ) · (25 − 1) = 496.

(27−1 ) · (27 − 1) = 8128.

(213−1 ) · (213 − 1) = 33550336.

(217−1 ) · (217 − 1) = 8589869056.

(219−1 ) · (219 − 1) = 137438691328.

(231−1 ) · (231 − 1) = 2305843008139952128.

(261−1 ) · (261 − 1) = 2658455991569831744654692615953842176.

(289−1 ) · (289 − 1) = 191561942608236107294793378084303638130997321548169216.


Apêndice G

Representação dos 10 primeiros pares


de Números Amigos

(220, 284)
Sdp (220) = 1 + 2 + 4 + 5 + 10 + 11 + 20 + 22 + 44 + 55 + 110 = 284.
Sdp (284) = 1 + 2 + 4 + 71 + 142 = 220.

(1184, 1210)
Sdp (1184) = 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + 32 + 37 + 74 + 148 + 296 + 592 = 1210.
Sdp (1210) = 1 + 2 + 5 + 10 + 11 + 22 + 55 + 110 + 121 + 242 + 605 = 1184.

(2620, 2924)
Sdp (2620) = 1 + 2 + 4 + 5 + 10 + 20 + 131 + 262 + 524 + 655 + 1310 = 2924.
Sdp (2924) = 1 + 2 + 4 + 17 + 34 + 43 + 68 + 86 + 172 + 731 + 1462 = 2620.

(5020, 5564)
Sdp (5020) = 1 + 2 + 4 + 5 + 10 + 20 + 251 + 502 + 1004 + 1255 + 2510 = 55644.
Sdp (5564) = 1 + 2 + 4 + 13 + 26 + 52 + 107 + 214 + 428 + 1391 + 2782 = 5020.

(6232, 6368)
Sdp (6232) = 1+2+4+8+19+38+41+76+82+152+164+328+779+1558+3116 = 6368.
Sdp (6368) = 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + 32 + 199 + 398 + 796 + 1592 + 3184 = 6232.

(10744, 10856)
Sdp (10744) = 1+2+4+8+17+34+68+79+136+158+316+632+1343+2686+5372 =
10856.
Sdp (10856) = 1+2+4+8+23+46+59+92+118+184+236+472+1357+2714+5428 =
10744.
G. Representação dos 10 primeiros pares de Números Amigos 65

(12285, 14595)
Sdp (12285) = 1 + 3 + 5 + 7 + 9 + 13 + 15 + 21 + 27 + 35 + 39 + 45 + 63 + 65 + 91 + 105 + 117 +
135+189+195+273+315+351+455+585+819+945+1365+1755+2457+4095 = 14595.
Sdp (14595) = 1+3+5+7+15+21+35+105+139+417+695+973+2085+2919+4865 =
12285.

(17296, 18416)
Sdp (17296) = 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + 23 + 46 + 47 + 92 + 94 + 184 + 188 + 368 + 376 + 752 +
1081 + 2162 + 4324 + 8648 = 18416.
Sdp (18416) = 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + 1151 + 2302 + 4604 + 9208 = 17296.

(63020, 76084)
Sdp (63020) = 1 + 2 + 4 + 5 + 10 + 20 + 23 + 46 + 92 + 115 + 137 + 230 + 274 + 460 + 548 +
685 + 1370 + 2740 + 3151 + 6302 + 12604 + 15755 + 31510 = 76084.
Sdp (76084) = 1 + 2 + 4 + 23 + 46 + 92 + 827 + 1654 + 3308 + 19021 + 38042 = 63020.

(66928, 66992)
Sdp (66928) = 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + 47 + 89 + 94 + 178 + 188 + 356 + 376 + 712 + 752 +
1424 + 4183 + 8366 + 16732 + 33464 = 66992.
Sdp (66992) = 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + 53 + 79 + 106 + 158 + 212 + 316 + 424 + 632 + 848 +
1264 + 4187 + 8374 + 16748 + 33496 = 66928.

Você também pode gostar