Arqueologia
Prof. Alexsandro Alves da Maia
Prof. Helton da Silva Crepaldi
Prof.ª Natália Tavares
Indaial – 2023
1a Edição
Elaboração:
Prof. Alexsandro Alves da Maia
Prof. Helton da Silva Crepaldi
Prof.ª Natália Tavares
Copyright © UNIASSELVI 2023
Revisão, Diagramação e Produção:
Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI.
Núcleo de Educação a Distância. MAIA, Alexsandro Alves da.
Arqueologia. Alexsandro Alves da Maia; Helton da Silva Crepaldi; Natália Tavares.
Indaial - SC: Arqué, 2023.
172p.
ISBN XXX-XX-XXX-XXXX-X
“Graduação - EaD”.
1. Sociedade 2. Cronologia 3. História
CDD 930.1
Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679
Impresso por:
APRESENTAÇÃO
Na Unidade 1, abordaremos as noções básicas para o conhecimento do que é a
Arqueologia, uma ciência de múltiplas facetas que se desdobra inspirada e orientada por
muitas outras áreas do conhecimento. Para iniciar apresentaremos como a Arqueologia,
enquanto ciência que estuda o tempo, independente do passado ou presente, também
atua na concepção de tempo histórico, o qual, é diferente do tempo cronológico como
o entendemos, com nosso calendário anual, os relógios, as horas, os dias festivos. A
partir disso, trabalharemos com os principais conceitos em Arqueologia, tão difíceis
de delinear devido a diversidade de estudos que essa área tão multidisciplinar abarca.
A partir de diversas teorias e métodos de outras áreas, a Arqueologia bebe de todas
as fontes para se consolidar como um estudo único acerca das sociedades humanas.
Para compreender ainda mais acerca da natureza da Arqueologia enquanto área do
conhecimento, é necessário conhecer sua história, desde os seus primórdios, em uma
fase especulativa, até os dias atuais, quando começa a assumir seu papel enquanto
ferramenta de mudança social. Essa Unidade oferece ao acadêmico os princípios
básicos da disciplina, para que se familiarize com todo o contexto em qual a Arqueologia
atua e, posteriormente, possa se aprofundar em temáticas específicas da área.
GIO
Olá, eu sou a Gio!
No livro didático, você encontrará blocos com informações
adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento
acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender
melhor o que são essas informações adicionais e por que você
poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações
durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais
e outras fontes de conhecimento que complementam o
assunto estudado em questão.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos
os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina.
A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um
novo visual – com um formato mais prático, que cabe na
bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada
também digital, em que você pode acompanhar os recursos
adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo
deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura
interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no
texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que
também contribui para diminuir a extração de árvores para
produção de folhas de papel, por exemplo.
Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente,
apresentamos também este livro no formato digital. Portanto,
acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com
versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
Preparamos também um novo layout. Diante disso, você
verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses
ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos
nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos,
para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os
seus estudos com um material atualizado e de qualidade.
QR CODE
Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e
dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes
completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você
acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar
essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só
aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos.
ENADE
Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um
dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de
educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar
do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem
avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo
para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira,
acessando o QR Code a seguir. Boa leitura!
LEMBRETE
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma
disciplina e com ela um novo conhecimento.
Com o objetivo de enriquecer seu conheci-
mento, construímos, além do livro que está em
suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem,
por meio dela você terá contato com o vídeo
da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa-
res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de
auxiliar seu crescimento.
Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que
preparamos para seu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
SUMÁRIO
UNIDADE 1 - ARQUEOLOGIA: ORIGENS E CONCEITOS......................................................... 1
TÓPICO 1 - TEMPO CRONOLÓGICO VERSUS TEMPO HISTÓRICO........................................3
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3
2 O TEMPO CRONOLÓGICO.....................................................................................................4
2.1 O TEMPO GEOLÓGICO............................................................................................................................ 6
2.1.1 Geologia do Quaternário .............................................................................................................8
3 O TEMPO HISTÓRICO......................................................................................................... 10
3.1 O ESPAÇO................................................................................................................................................ 11
RESUMO DO TÓPICO 1..........................................................................................................14
AUTOATIVIDADE................................................................................................................... 15
TÓPICO 2 - O QUE É ARQUEOLOGIA?.................................................................................. 17
1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 17
2 BREVE HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA............................................................................... 18
2.1 OS ANTECEDENTES DA ARQUEOLOGIA.......................................................................................... 18
2.2 ARQUEOLOGIA CIENTÍFICA...............................................................................................................20
2.3 ARQUEOLOGIA À SERVIÇO DO IMPERIALISMO............................................................................22
3 NATUREZA E OBJETIVOS DA ARQUEOLOGIA................................................................. 24
3.1 OS TIPOS DE MATERIAIS ESTUDADOS NA ARQUEOLOGIA........................................................26
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................... 29
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................. 30
TÓPICO 3 - CONCEITOS E TERMINOLOGIA........................................................................ 33
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 33
2 ARQUEOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL.......................................................................... 34
3 ARQUEOLOGIA PROCESSUALISTA ................................................................................. 36
4 ARQUEOLOGIA PÓS-PROCESSUAL................................................................................. 38
5 METODOLOGIAS DA ARQUEOLOGIA................................................................................ 40
5.1 PROSPECÇÃO ARQUEOLÓGICA....................................................................................................... 40
5.2 ESCAVAÇÃO ARQUEOLÓGICA ......................................................................................................... 41
5.3 OS MÉTODOS DE DATAÇÃO ARQUEOLÓGICA ..............................................................................42
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................. 45
RESUMO DO TÓPICO 3.......................................................................................................... 51
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................. 52
REFERÊNCIAS...................................................................................................................... 54
UNIDADE 2 — O PASSADO CULTURAL DA HUMANIDADE..................................................59
TÓPICO 1 — TECNOLOGIA E CULTURA................................................................................. 61
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................... 61
2 A DIVERSIDADE CULTURAL DO HOLOCENO....................................................................67
RESUMO DO TÓPICO 1.......................................................................................................... 71
AUTOATIVIDADE...................................................................................................................72
TÓPICO 2 - AS SOCIEDADES PRODUTORAS DE ALIMENTOS............................................75
1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................75
2 A ORIGEM DAS SOCIEDADES PRODUTORAS DE ALIMENTOS........................................75
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................... 86
AUTOATIVIDADE...................................................................................................................87
TÓPICO 3 - A EMERGÊNCIA DAS SOCIEDADES COMPLEXAS
NA PRÉ-HISTÓRIA AMERICANA......................................................................................... 89
1 INTRODUÇÃO..................................................................................................................... 89
2 A PRÉ-HISTÓRIA NO CONTINENTE AMERICANO............................................................ 90
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................105
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................106
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................107
REFERÊNCIAS.....................................................................................................................109
UNIDADE 3 — ARQUEOLOGIA NO BRASIL EM PERSPECTIVA...........................................111
TÓPICO 1 — BREVE HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA............................................................. 113
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 113
2 ARQUEOLOGIA IMPERIAL................................................................................................ 114
3 AS INFLUÊNCIAS DAS ESCOLAS ESTRANGEIRAS NA ARQUEOLOGIA BRASILEIRA . 116
4 A ARQUEOLOGIA NO FINAL DO SÉCULO XX................................................................... 119
5 OS PRINCIPAIS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS NO BRASIL .................................................120
5.1 O POVOAMENTO AMERICANO E OS SÍTIOS MAIS ANTIGOS DO BRASIL ..............................120
5.1.1 A Serra da Capivara................................................................................................................... 122
5.1.2 Lagoa Santa............................................................................................................................... 123
5.1.3 Santa Elina................................................................................................................................. 124
5.2 OS SÍTIOS DO HOLOCENO............................................................................................................... 125
5.2.1 Os sítios da floresta amazônica............................................................................................ 125
5.2.2 O sítio Lajedo de Soledade....................................................................................................128
5.2.3 Os sítios de caçadores-coletores e as indústrias líticas............................................... 129
5.2.4 Os sambaquis............................................................................................................................131
5.2.5 Os sítios das populações ceramistas................................................................................. 132
5.3 OS SÍTIOS HISTÓRICOS ................................................................................................................... 135
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................ 137
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................138
TÓPICO 2 - PARA ALÉM DA CULTURA MATERIAL............................................................. 141
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 141
2 ARQUEOLOGIA E MEMÓRIA.............................................................................................142
3 ARQUEOLOGIA DA PAISAGEM....................................................................................... 144
4 ARQUEOLOGIA COGNITIVA.............................................................................................146
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................149
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................150
TÓPICO 3 - O TRABALHO DO ARQUEÓLOGO E
AS CARREIRAS PROFISSIONAIS NO BRASIL....................................................................153
1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................153
2 O APARATO LEGAL DA ARQUEOLOGIA BRASILEIRA.....................................................154
3 A ARQUEOLOGIA DENTRO DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO E PESQUISA....................155
4 A ARQUEOLOGIA E O LICENCIAMENTO.......................................................................... 157
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................159
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................165
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................166
REFERÊNCIAS.....................................................................................................................169
UNIDADE 1 -
ARQUEOLOGIA: ORIGENS E
CONCEITOS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• Compreender a diferença entre o tempo cronológico e o tempo histórico e como
eles podem se cruzar e complementar, a partir de diversos exemplos que permeiam
a área das ciências humanas e sociais, especialmente a Arqueologia.
• Perceber a importância dos estudos espaciais para as ciências que, assim como a
Arqueologia, estudam a humanidade em diversos tempos históricos.
• Entender como o contexto de surgimento da Arqueologia como disciplina científica
influenciou nas primeiras teorias para o estudo da cultura material das sociedades
ao longo do tempo.
• Visualizar a trajetória acadêmica da disciplina, destacando as principais áreas do
conhecimento que contribuíram para os avanços teóricos da Arqueologia.
• Aprender os principais vestígios estudados pela Arqueologia, assim como as
diferentes subáreas da disciplina que se dedicam ao estudo dos diferentes tipos de
vestígios.
• Aprender os principais métodos empregados na pesquisa arqueológica, incluindo
os processos de prospecção e escavação.
PLANO DE ESTUDOS
A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de
reforçar o conteúdo apresentado.
TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – TEMPO CRONOLÓGICO VERSUS TEMPO HISTÓRICO
TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – O QUE É ARQUEOLOGIA?
TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – CONCEITOS E TERMINOLOGIA
CHAMADA
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
1
CONFIRA
A TRILHA DA
UNIDADE 1!
Acesse o
QR Code abaixo:
2
UNIDADE 1 TÓPICO 1 -
TEMPO CRONOLÓGICO VERSUS
TEMPO HISTÓRICO
1 INTRODUÇÃO
Invisível aos sentidos humanos, percebemos o tempo em seu desenrolar
seguindo os princípios básicos da vida, o de nascer, envelhecer e morrer. Quando
comparamos o Homo sapiens às demais espécies de animais existentes no planeta, uma
das questões pontuais dos biólogos recai justamente sobre o tempo. Conforme Vieira
(2022), os animais possuem uma percepção diferente do tempo, a qual está diretamente
proporcional ao seu tamanho, quanto mais pequeno, mais lenta a sua percepção será. Os
humanos, por sua vez, ao combinarem simultaneamente suas modalidades sensoriais,
conseguem perceber e diferenciar o “agora”, do “antes” e “depois”. Dessa forma, a espécie
humana é a única que percebe a profundidade e projeção do tempo, e como de praxe a
tudo ao nosso redor, temos a necessidade de explicar e dimensionar o que ele significa.
A diversidade de culturas humanas acaba por refletir também uma diversidade
de concepções de tempo. Ao perceber essa grandeza, as sociedades humanas criam
meios de organizar e delimitar o tempo, sejam elas quantitativas, estabelecendo
durações ao compartimentalizar o tempo, geralmente de maneira proporcional, como
os calendários; sejam elas qualitativas, as quais estabelecem durações baseadas na
observação de algum fenômeno, podendo ou não serem proporcionais entre si, como o
tempo astronômico que organiza o tempo do universo baseado em eventos específicos.
A isso chamamos tempo cronológico, no qual a forma como ele atua se resume nos
eventos diacrônicos, ou seja, que ocorrem sucessivamente em uma linha do tempo.
O tempo histórico, por sua vez, não tem um compromisso com organizar
o tempo e moldar uma concepção deste no seio de uma cultura, mas sim, reúne a
trajetória da espécie mais inusitada que já pisou na Terra, o Homo sapiens. Desde o
surgimento dos primeiros ancestrais hominídeos na África, até os dias atuais, o tempo
histórico se dedica ao desenvolvimento das culturas humanas para a compreensão
do que visualizamos hoje no presente, e ainda, perspectivas para a construção de um
futuro. O tempo histórico nos permite diagnosticar eventos sincrônicos, ou seja, que
estão ocorrendo ao mesmo tempo. Esses eventos, ao contrário do tempo cronológico,
não possuem compromisso com uma duração pré-determinada, podendo ter diferentes
intervalos de tempo dependendo das sociedades e dos lugares.
Logicamente, o tempo cronológico e o tempo histórico não atuam de formas
totalmente discrepantes, e sim se cruzam e complementam. No caso das ciências
humanas e sociais, como a Arqueologia, a História, a Antropologia, a Geografia, dentre
outras que lidam com o tempo histórico, é comum o uso da concepção de tempo
3
cronológico linear, ou seja, que a história se desenrola em uma linha do tempo contínua.
Essa linha do tempo sofre fortes influências do contexto social e cultural no qual
nasceram os campos científicos referidos anteriormente, como exploraremos no Tema
de Aprendizagem 2 desta unidade, acerca da história da Arqueologia. Nesse sentido, é
muito comum a divisão do tempo baseada no calendário gregoriano, dividindo o tempo
histórico com o marco do nascimento de Jesus Cristo.
Outro ponto importante com relação ao tempo histórico é a questão do espaço.
Ao nos referirmos a um evento ou período histórico, é importante que para além da
cronologia, ele esteja situado em algum lugar para compreendermos o contexto como
um todo. Muitas vezes, acontecimentos que ocorrem em um dado lugar ou região podem
ter consequências e refletirem em outros lugares, principalmente com o contato mais
intensivo entre diferentes povos ao longo do tempo, conectando região longínquas. Na
Arqueologia, o espaço se torna primordial em qualquer pesquisa arqueológica, pois é
a partir dele e de todos os seus vestígios que se dará início ao estudo de uma ou mais
populações que ocuparam aquele local, contextualizando-as no tempo.
Assim, neste primeiro Tema de Aprendizagem, navegaremos por conceitos
e exemplos que permeiam o tempo cronológico, o tempo histórico e o espaço,
sempre orientados em suas aplicações e dimensões dentro da área da Arqueologia e
Antropologia. A discussão dessas temáticas será importante quando dermos início a
aprendizagem acerca da origem e desenvolvimento da Arqueologia enquanto campo
científico, no segundo Tema de Aprendizagem, a fim de situar os objetos de estudo
desse campo tão vasto em seus conhecimentos e aplicações.
2 O TEMPO CRONOLÓGICO
A contagem do tempo por diferentes sociedades humanas visa organizar e
delinear o cotidiano das pessoas, além de sinalizar eventos específicas e importantes
para dada cultura, como ritos e festividades. Visto que a concepção de tempo é diferente
para cada cultura, a forma como se dá essa contagem também é mutável. Miller (2009,
p. 175) coloca como a cosmologia das línguas indo-europeias dividem “as ações ou os
processos em passado, presente e futuro. Isto nos dá uma imagem do tempo como
uma linha, começando num passado desconhecido através do presente até um futuro
também desconhecido”. Embutida na concepção de tempo linear, está a noção de
progresso, na qual a humanidade, desde o seu surgimento, estaria progredindo rumo
ao futuro, acumulando tecnologias e descobertas que refletissem tal progresso. Essa
visão, embora altamente disseminada em nossa sociedade, acaba por conduzir a ideias
equivocadas de que determinadas culturas “pararam no tempo”. Como futuros(as)
cientistas sociais, os(as) acadêmicos(as) devem ter muito clara a ideia de que não existe
uma forma certa ou errada de ver e organizar o tempo, e sim que cada cultura constrói
o seu próprio tempo cronológico, tornando afirmações como as referidas anteriormente
sem sentido.
4
Como exemplo, temos o calendário gregoriano, o qual é utilizado por nós
e por grande parte do mundo atual, e o calendário asteca, frequentemente exposto
em livros de história e Arqueologia. Dentro do calendário gregoriano, estipulamos um
ciclo anual solar, compartimentando este com 12 meses de duração, que por sua vez
se dividem em 28 a 31 dias, que em conjuntos de sete formam uma semana. Toda a
sociedade ocidental organiza o seu cotidiano com base nesse calendário, por exemplo,
os calendários escolares, que podem ser bimestrais ou trimestrais, delimitando períodos
de provas e férias. No mundo capitalista, os dias podem ser divididos em dias úteis e
não úteis, definindo os dias a serem trabalhados, que por sua vez, são divididos em
diferentes cargas horários que determinarão o salário do trabalhador. Em contrapartida,
o calendário asteca compartilha uma noção de tempo entre muitos povos antigos
da Mesoamérica. Segundo o historiador Santos (2009), a contagem de dias para os
povos mesoamericanas era realizada por meio de 13 números e 20 signos, os quais
representavam animais e fenômenos da natureza, totalizando 260 dias que eram
divididos em 20 trezenas, repetindo-se de forma cíclica e infinita desde a criação do
calendário.
Esse agrupamento dos dias em subconjuntos remete a outra
característica geral do sistema calendário e das concepções
temporais mesoamericanas: a multiplicidade de cargas, qualidades
ou significados contidos em cada unidade do sistema e, assim, em
cada lapso temporal (SANTOS, 2009, p. 85).
A História, assim como a Arqueologia e Antropologia, surgiu como disciplina
independente durante o século XIX na Europa, assim, há uma tendência em transferir
a noção de tempo cronológico do calendário gregoriano para o tempo histórico
(BITTENCOURT; NADAI, 2001). Tal confusão se dá pelo uso dessa concepção de tempo
na construção do conhecimento histórico. É o caso de termos como antes de Cristo
(a.C.), depois de Cristo (d.C.) e Anno Domini (A.D. uma variação de d.C. que significa
“ano do senhor” em latim), extremamente recorrentes na leitura histórica, assim como a
referência dos séculos que marcam determinados eventos. A própria divisão de períodos
históricos mantém em seu cerne uma ideia de tempo cronológico. Mesmo a tentativa
de caracterizar um “tempo” conforme os seus principais acontecimentos, como a Pré-
História, História Medieval etc. não contemplam o tempo histórico de fato. Isso porque
essas divisões da História foram pensadas exclusivamente para a história dos povos
Euroasiáticos, levando em consideração apenas eventos diacrônicos que ocorriam
nessa macrorregião, ignorando o restante do planeta, que formavam suas histórias,
com rupturas e permanências próprias. Nesse sentido, não faz muito sentido falarmos
em uma “pré-histórica americana”, pois o desenvolvimento das sociedades americanas
seguiu por caminhos distintos. Dessa forma, termos como pré-colombiano (referente
a antes da chegada de Colombo em 1492), pré-hispânico, pré-colonial, pré-cabralino
se tornam mais viáveis no contexto americano, embora seja uma forma sucinta de
caracterizar um período com tantas transformações culturais. A chegada dos primeiros
humanos no continente americano, até o primeiro contato com os povos europeus,
milhares de anos depois, marca uma extensa história com uma ampla diversidade de
povos e territórios.
5
IMPORTANTE
As divisões da “Pré-História” americana
Na tentativa de enquadrar as culturas americanas ao longo do período pré-colonial,
arqueólogos americanos criam uma divisão aos moldes da divisão europeia, que postula
os períodos Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais. O período mais antigo da história
americana é chamado Paleoíndio, segundo Moreno (2021), ele remonta ao povoamento
americano mais antigo, no qual os povos baseavam a sua subsistência na caça e na coleta,
a primeira principalmente de grandes mamíferos (megafauna), antecedente ao surgimento
da agricultura e cerâmica. A maioria dos sítios arqueológicos é datado entre 13 e 5 mil anos
atrás, mas existem casos que podem persistir até cerca de 1 mil anos atrás. O segundo
período, denominado Arcaico, foi utilizado para designar um estágio de caçadores-coletores
migratórios que viviam em condições ambientais semelhantes às atuais. As principais
características desse período seria a dependência de uma fauna menor, aumento da coleta,
aumento de instrumentos utilizados no processamento de vegetais, aumento
da estabilidade de ocupação baseada na subsistência especializada (pesca,
coleta etc.), maior variabilidade de pontas líticas, artefatos confeccionados
em outros materiais que não rochas como ossos e conchas, e a presença
de enterramentos (FIEDEL, 1996). O terceiro e último período é chamado
Formativo, inicialmente pensado para a região da Mesoamérica e dos Andes,
acabou sendo aplicado para descrever diversas sociedades ao longo das
Américas. Ele se caracteriza pelas sociedades sedentárias, as primeiras
cidades, surgimento da agricultura, amplo manejo das paisagens, construção
de montes e monumentos cerimoniais em homenagem aos ancestrais e uma
alta valorização dos ambientes aquáticos (IRIARTE et al., 2016).
Dentro da Arqueologia há um crescente na tentativa de abandonar esse tipo
de divisão temporal, visto que ela não representa a totalidade de sociedades humanas
que ocuparam tempos e espaços distintos, além da tendência de enquadrá-las em uma
visão progressista, como já discutimos anteriormente. Por isso, a Arqueologia tem se
utilizado cada vez mais do tempo geológico para situar as transformações culturais
das sociedades ao longo do tempo. O tempo geológico não deixa de ser um tempo
cronológico, pois ele marca a divisão do tempo com base na evolução geológica do
planeta. Ainda assim, a utilização do seu uso é interessante, pois o seu único compromisso
é com acontecimentos externos às culturas humanas, dessa forma, podendo englobar
em um mesmo intervalo de tempo toda a gama de eventos históricos que se sucedem
nas sociedades humanas. Por essas razões, iremos dedicar o próximo subtema para
explorarmos mais o assunto.
2.1 O TEMPO GEOLÓGICO
O tempo geológico trabalha com uma imersão no tempo muito maior do que a
que veremos a seguir, no tempo histórico. Ele contempla desde a formação do planeta
Terra, a cerca de 4,5 bilhões de anos, até os diais atuais, pontuando os principais
6
eventos que representavam mudanças climáticas e ambientais drásticas nos ambientes
terrestres. Essa história da Terra é geralmente ilustrada por meio de uma escala do tempo
geológico, que marca os diferentes éons, eras, períodos e épocas do planeta (Figura 1).
Figura 1 – Escala de tempo geológico
Fonte: Press et al. (2006, p. 4)
A escala registra eventos importantes ao longo da evolução do planeta, como
o início da vida a cerca de 3,5 bilhões de anos, o aumento considerável do oxigênio na
atmosfera, tornando-se o principal gás presente nesta, a cerca de 2,5 bilhões de anos,
o surgimento dos primeiros animais, a cerca de 600 milhões de anos, e uma série de
extinções em massa que renovavam a biodiversidade conforme ocorriam (PRESS et al.,
2006). Por sorte, o que interessa às ciências humanas contempla somente os últimos
1,8 milhões de anos, chamado período Quaternário, em função justamente do início da
7
linhagem evolutiva dos ancestrais dos humanos modernos. Devido a sua importância
para a história humana, iremos dedicar um espaço especial para debatermos sobre esse
período.
2.1.1 Geologia do Quaternário
O Quaternário, como mostra a Figura 1, pode ser dividido em duas épocas,
o Pleistoceno, que vai desde o início do Quaternário, a 1,8 milhões de anos, até 11,7
mil anos atrás, quando se inicia o período Holoceno, o tempo geológico atual no qual
nos encontramos. É no chamado limite Plio-pleistocênico (a transição da época do
Plioceno, no período Terciário, para a época do Pleistoceno, já no Quaternário) que
há uma importante separação dos ramos da evolução humana, com o surgimento da
locomoção bípede-vertical concomitante ao também surgimento do gênero Homo na
África (NEVES, 2006). Por essa razão, todo o futuro estudante de Arqueologia e áreas
afins, deve ter uma noção básica de geologia do Quaternário, a fim de entender os
diferentes processos e caminhos que concomitaram no surgimento de nossa espécie, a
somente cerca de 300 mil anos atrás (HUBLIN et al., 2017).
No senso comum, é recorrente termos como “homens das cavernas” e “era do
gelo” para se referir aos acontecimentos do Pleistoceno. Isso porque a época é marcada
por quatro grandes glaciações, ou seja, períodos de resfriamento do Planeta quando
há a formação de extensas geleiras com o aprovisionamento das águas oceânicas,
tornando o nível do mar mais baixo e extensas faixas continentais emersas. Dentre as
glaciações, existem períodos denominados interglaciares, os quais são representados
por períodos de aquecimento do planeta. As quatro glaciações recebem o nome de
Gunz, Mindel, Riss e Würm (mais recente) na Europa e Nebraska, Kansas, Illionois e
Wisconsin, respectivamente, na América do Norte. A fauna do Pleistoceno é marcada
por uma grande dominância de mamíferos de grande porte, chamada Megafauna.
Mamutes, gliptodontes (tatus gigantes), megatérios (preguiças gigantes), dentre tantos
outros, representam essa megafauna, a qual muitos grupos humanos se especializaram
em sua caça, sendo muito comum encontrar ferramentas líticas de grande porte nos
sítios arqueológicos desse período. O Pleistoceno, além da evolução humana, também
marcou a migração do Homo sapiens, saindo do continente, para todas as regiões do
globo (exceto a Antártida). Por isso é tão importante nos estudos em Arqueologia a
dimensão espacial em conjunto a dimensão temporal, como iremos explorar mais no
subtema a seguir.
Como você irá aprender na Unidade 2 deste livro, a época do Holoceno,
iniciando-se com o fim da última glaciação com o retorno de boas condições climáticas
de umidade e temperatura, é marcada por profundas transformações culturais nas
sociedades humanas em todas as regiões do planeta, assim como transformações
ambientais. Baseado nessas mudanças no clima e ambientes que, recentemente,
geólogos e arqueólogos se esforçaram para dividir o Holoceno em três estágios distintos.
8
O Holoceno Inicial, que vai desde 11,7 a 8,2 mil anos; o Holoceno Médio, de 8,2 a 4,2 mil
anos; e por fim o Holoceno Final/Tardio, que segue os últimos 4,2 mil anos (WALKER
et al., 2018). Essas subdivisões do Holoceno vêm sendo cada vez mais utilizadas nas
pesquisas arqueológicas, por isso, agora quando você ler em algum lugar coisas como
“as populações amazônicas do Holoceno Inicial” já estará habituado com os termos,
sendo capaz de se localizar no tempo a qual se refere. Fazer toda a revisão do significado
de tempo cronológico, destacando o tempo geológico nos estudos em Arqueologia
é importante, pois muitas vezes ele fornece uma base para compreendermos e nos
situarmos no tempo histórico.
INTERESSANTE
O relógio da vida
Geólogos da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, desenvolveram um método
que englobasse toda a história da Terra em um relógio cronológico de 24 horas. Alguns
acontecimentos representados no relógio incluem o surgimento da Lua aos dez minutos,
os primeiros fósseis de organismos vivos procariotas, às 4 horas, as primeiras plantas, por
sua vez, só surgem às 20 horas e 30 minutos, a era dos dinossauros em 22 horas e 47
minutos, dentre tantos outros eventos. A partir desse relógio é possível visualizar como a
presença da espécie humana é extremamente recente, visto que, surgimos
às 23 horas 59 minutos e 56 segundos. Mesmo em tão pouco tempo, nossa
espécie foi capaz de causar grandes transformações em todos os ambientes
do planeta. Tal constatação não deve ser vista como uma forma de vangloriar
nossa espécie e a ver a parte do mundo natural, mas sim para lembrar
como somos frágeis e tão novos nesse planeta. A história da Terra
está para nos lembrar de muitos processos de extinção seguidos de
um boom de biodiversidade e surgimento de outras formas de vida.
O tempo histórico, apesar de reunir tantas informações, é ainda muito
pequeno quando comparado ao tempo da Terra. Nesse sentido, alguns
historiadores têm ampliado a percepção do tempo histórico por meio da
história ambiental.
Muitas vezes, como já destacado, o tempo cronológico, seja o geológico, seja
o estabelecido por nosso calendário gregoriano, serve de base para organizarmos
o tempo histórico, traduzi-lo para nossas próprias percepções de tempo. Embora
haja a confluência dos tipos de tempos em alguns casos, por exemplo, o período do
Quaternário (tempo cronológico) também consiste no tempo histórico, visto que este
se dedica ao estudo da humanidade e as suas origens, ou ainda, como o século XIX
(tempo cronológico) reuniu grande parte dos processos de independência dos países da
América do Sul (tempo histórico), o tempo histórico nem sempre se limita a um intervalo
de tempo cronológico. Para compreendermos melhor a sua dissociação, iremos nos
dedicar a compreender os principais conceitos que constituem o tempo histórico.
9
3 O TEMPO HISTÓRICO
Como vimos, muitos aspectos do nosso tempo cronológico, o qual é métrico,
servem de base para contextualizarmos o tempo histórico, estabelecendo cronologias
e periodizações. Para além disso, como coloca Bittencourt (2008), o tempo histórico
consiste em um tempo que é qualitativo ao estudar as durações, sucessões (diacronia),
simultaneidades (sincronia), mudanças e permanências das sociedades humanas.
Assim, é necessário ter em mente que as distintas ações humanas “ocorrem de forma
desigual em distintos períodos e em diferentes espaços dentro do mesmo espaço
temporal” (PETRY RAHMEIER, 2013, p. 2).
A história tradicional repousa o seu foco sobre uma história política, repleta de
acontecimentos de curta duração, destacando personagens ilustres dentro destes.
Apesar de ainda prevalecer no ensino da rede de educação básica, ela vem sendo
criticada desde o início do século XX pelos historiadores da Escola dos Annales, na
França (BITTENCOURT; NADAI, 2001). Um dos principais historiadores dessa escola
foi Fernand Braudel, o qual contribuiu significantemente para que a noção de tempo
histórico não se limitasse a datas e acontecimentos breves. Braudel coloca que a
mudança dessa perspectiva veio pela preocupação ao se estudar a história econômica
e social das sociedades, as quais não podem ser compreendidas apenas por eventos
breves e isolados, mas necessitam de um tempo mais profundo, visto que não possuem
valores absolutos (BRAUDEL, 1965).
A partir disso, Braudel estabelece duas outras noções importantes do tempo
histórico, a conjuntura e a estrutura. A conjuntura consiste em ciclos e interciclos que
propõem períodos de tempo maiores, como uma dezena de anos até meio século. Ela não
se limite somente a uma conjutura econômico ou social, já que, segundo o historiador “as
ciências, as técnicas, as instituições políticas, as ‘utensilagens’ mentais, as civilizações,
tem igualmente seu ritmo de vida e de crescimento, e a nova história conjuntural só se
realizará plenamente quando tiver completado seu conjunto” (BRAUDEL, 1965, p. 267).
Por sua vez, a estrutura lida com os problemas de longa duração. Ela estabelece
uma organização, coerência e relações fixas, as quais, por perdurarem no tempo,
marcam uma miríade de gerações (BRAUDEL, 1965). Para o historiador, elas comandam
o fluxo da história ao servir de sustentação ou obstáculo para as sociedades (no sentido
em que não podem facilmente serem “quebradas”, como certas barreiras ambientais),
e também caracterizam permanências e rupturas. Nesse sentido, o próprio Braudel
exalta o papel da Arqueologia nos estudos de longa duração, já que ela abarca grandes
espaços cronológicos, sendo vanguarda nos estudos de uma história “profunda”.
Assim, os eventos, conjunturas e estruturas do tempo histórico “flutuam”
sobre o tempo cronológico, já que eles não têm compromisso nenhum em seguir
uma organização de tempo pré-determinada. Por exemplo, a Revolução Industrial, ela
aconteceu pela primeira vez na Inglaterra do século XVIII, já em outros lugares, como
10
na China, ela ocorre apenas em meados do século XX. Ambos os eventos históricos
estão caracterizados por uma industrialização em larga escala que acabou por afetar
não só aspectos econômicos, mas políticos, sociais e culturais de seus países, embora
em tempos diferentes. Temos a designação de um período comum, mas que ocorre em
longa duração. Além disso, os desdobramentos de cada processo de industrialização
são diferentes para cada lugar, seu “conjunto” é próprio ao seu espaço.
Novamente, temos a Arqueologia como um campo privilegiado a esses debates,
pois, ao dedicar-se ao estudo de um espaço, independentemente de seu contexto
cronológico, ela foca no que é particular a ele, escrevendo uma história ainda não
contada, que foge dos grandes personagens ilustres que a História tradicional reforça
e nos é repassada na escola. Ela nos permite, por meio dos dados arqueológicos
produzidos, ampliar o conhecimento de histórias que não sejam exclusivas de uma
perspectiva europeia, e, em conjunto com a Antropologia e outras ciências sociais,
tentar chegar ao máximo perto das concepções que os próprios povos tinham de seus
espaços e de sua história. Miller (2009) destaca como a Arqueologia pode nos ajudar a
pensar em perspectivas em relação ao futuro, ao estudar como outros povos lidam com
o seu espaço e tempo. No mundo atual, no qual ouvimos notícias diárias acerca da crise
climática emergente e os problemas sérios que o aumento da densidade demográfica
representa, estudar outros “mundos” ao longo da história podem nos fazer pensar em
nossas perspectivas.
Para finalizar essa parte, pensemos na importância do tempo histórico, como
coloca Bittencourt (2008, p. 212),
não é suficiente o aluno conhecer os calendários ou indicar os
acontecimentos nos séculos. A aquisição dessas informações e
habilidades é, sem dúvida, necessária, mas deve ser acompanhada
de uma reflexão sobre o significado da datação. O uso das datas
precisa estar vinculado a uma busca de explicação sobre o que vem
antes ou depois, sobre o que é simultâneo ou ainda sobre o tempo
de separação de diversos fatos históricos. Deve-se, em suma, dar um
sentido às datações, para que o aluno domine as datas como pontos
referenciais para o entendimento dos acontecimentos históricos.
3.1 O ESPAÇO
Se o tempo cronológico ocorre a partir de uma perspectiva de cada sociedade,
que ocupam diferentes lugares, e se o tempo histórico, ao registrar os eventos,
conjunturas e estruturas que, por sua vez, também não podem ser dissociados de seus
lugares, a noção de espaço se faz imprescindível para compreender tanto a diferença
dos tempos, como ao estudo do tempo histórico. O espaço nos permite conhecer as
migrações e as construções de paisagens e territórios, além de como o ser humano
organiza o seu espaço. Como coloca Braudel (1965, p. 293), é necessário reduzir “a
realidade social ao espaço que ela ocupa”.
11
O espaço estudado dependerá muitos dos objetivos do(a) pesquisador(a), que
definirá a sua escala, ou seja, o quanto do espaço será contemplado nos estudos. Vamos
ver alguns exemplos no âmbito da Arqueologia para que possamos visualizar diferentes
tipos de escala. Ela pode abarcar todo o continente americano, em temáticas como o
povoamento inicial das Américas, investigando as rotas de migrações e as origens dos
diferentes povos que vieram a ocupar esse vasto território. Da mesma forma, pelos olhos
da Arqueologia Urbana, pode contemplar toda uma cidade, investigando a organização
de seu espaço e como ele está influenciado diretamente pelas dinâmicas culturais dos
diferentes grupos sociais que habitam a cidade. Por fim, pode contemplar a unidade
básica de investigação da Arqueologia, o sítio arqueológico, que por sua vez, também
pode variar de escala.
ESTUDOS FUTUROS
O conceito de sítio arqueológico será discutido mais a frente, no Tema de
Aprendizagem 3 desta unidade.
O principal recurso no estudo do espaço nas ciências humanas é por meio
da cartografia. Ela se utiliza da representação gráfica dos espaços, sejam por meio
de mapas, plantas, cartas, gráficos e/ou tabelas. Mediante essas representações
podemos conhecer a localização das sociedades humanas em dados espaços, assim
como as mudanças em sua ocupação (BITTENCOURT, 2008). Indo mais afundo nessas
representações espaciais, sejam elas naturais ou artificiais, temos o espaço como
influenciador das dinâmicas culturais humanas, ao passo que, as sociedades também
influenciam nos espaços, ao criarem e modificarem estes. Vamos a mais exemplos da
Arqueologia para compreendermos melhor: 1) os senhores de escravos adotavam uma
prática de gestão dos espaços das plantations cubanas no século XIX semelhantes à
uma prisão, em uma tentativa de controlar e impedir fugas e rebeliões dos escravizados,
que por sua vez procuravam formas discretas de resistência (SINGLETON, 2001); 2) as
populações amazônicas manejaram a floresta durante milênios, criando galerias de
jardins artificiais ao longo da floresta, privilegiando categorias de plantas úteis, o que
explicaria a predominância de espécies alimentícias ao longo da floresta atualmente,
principalmente de árvores frutíferas (LEVIS et al., 2018).
Assim, caro(a) acadêmico(a), você agora está familiarizado com os principais
fundamentos que norteiam uma pesquisa na área das ciências humanas, dando particular
ênfase a Arqueologia. Para além de marcos cronológicos e datas específicas, o contexto
político, social, econômico e cultural em que estão envolvidos os acontecimentos
históricos, nos revelam informações muito mais ricas que nos dão compreensão sobre
o que levaram aos fatos e os seus desdobramentos. Da mesma forma, reconhecemos
agora que o tempo histórico não se resume somente a momentos específicos, e sim,
que os tempos de média e longa duração nos têm a revelar muito mais, visto que o
12
desenvolvimento das sociedades humanas se desdobra de forma lenta, envolvendo
diversos agentes e perspectivas sincrônicas (simultâneas) e diacrônicas (sucessivas).
Nesse caminho, o tempo cronológico, a forma como nossa sociedade organiza o tempo,
não é meramente descartado. É ele quem orienta a construção do conhecimento
histórico e nos dá a base para nos situarmos no tempo, e não há como falar em tempo
sem falar do seu espaço. Como coloca Braudel (1965), é necessário que toda a realidade
social seja reduzida ao espaço em que ela ocupa.
13
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu:
• O tempo cronológico consiste na forma como cada sociedade organiza e delimita
o seu tempo. Ele organiza períodos pré-determinados que simbolizam algo para
cada sociedade, ou ainda, como cada sociedade percebe o tempo. Exemplos
do tempo cronológico são o nosso calendário gregoriano e a escala de tempo
geológico, tão importante nos estudos da Arqueologia.
• O tempo histórico, apesar de muitas vezes ser organizado com base no nosso
tempo cronológico, não possui um compromisso em segui-lo. Ele pode ser de
curta, média ou longa duração e depende fundamentalmente do espaço em que
ocorre. É nesse tempo histórico, que se situam os contextos os quais a Arqueologia
estuda.
• O espaço é a base para compreender os dois tipos de tempo, visto que, cada
sociedade ou cultura tem o seu próprio tempo cronológico e os fenômenos sociais,
culturais, políticos e econômicos estudados pela Arqueologia só podem ser vistos
e estudados a partir das próprias particularidades locais.
14
AUTOATIVIDADE
1 A escola dos Annales foi um importante movimento na historiografia durante o
século XX. Ela surge em meio às universidades francesas e traz críticas à história
tradicional praticada até então, a qual focava somente em uma agenda política. O
movimento passa a defender uma perspectiva interdisciplinar com o emprego de
teorias e metodologias de outras áreas das ciências sociais, como a inclusão de uma
agenda econômica nos estudos historiográficos. Um dos principais nomes desse
movimento foi Fernand Braudel, o qual postulou importantes considerações sobre
o estudo do tempo histórico, como os conceitos de evento, conjuntura e estrutura,
para dimensionar os fenômenos históricos. Com base nas críticas e considerações
de Braudel, assinale a alternativa CORRETA acerca da concepção atual no estudo do
tempo histórico.
a) ( ) O tempo histórico é o estudo de datas específicas que marcam os acontecimentos
históricos importantes.
b) ( ) O tempo histórico é o estudo da linha do tempo humano a partir da definição de
períodos como a História Antiga, História Medieval, dentre outras.
c) ( ) O tempo histórico é o estudo dos diferentes fenômenos históricos que podem
ser de curta, média ou longa duração, definidos a partir de seu próprio espaço.
d) ( ) O tempo histórico é o estudo do registro do calendário gregoriano, baseado nos
fenômenos históricos posteriores ao nascimento de Cristo.
2 Na segunda-feira se inicia o dia útil de uma semana. Pela manhã, a tradição é do café
da manhã para que se inicie uma jornada de trabalho ou estudo, por volta do meio-dia,
há a tradição do almoço, para que, muitas vezes, se retorne as jornadas de trabalho.
Em grande parte, assim se organiza o cotidiano no mundo capitalista, no qual as
horas de um relógio analógico compartimenta o tempo, que, por sua vez, equivale
ao dinheiro pelas horas trabalhadas. A isso se denomina tempo cronológico, o qual
varia de sociedade para sociedade. Baseado nisso, analise as sentenças a seguir que
melhor expressam a relação entre o tempo cronológico e o tempo histórico.
I- O tempo cronológico auxilia na organização e dimensão do tempo histórico, de
forma que o tempo histórico “flutue” sobre as periodizações estabelecidas pelo
tempo cronológico.
II- O tempo cronológico e o tempo histórico são sinônimos e consistem no estudo da
humanidade ao longo do tempo.
III- O tempo cronológico determina a construção do tempo histórico, quando os
fenômenos ocorrem conforme os períodos estabelecidos pelo tempo cronológico.
15
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
c) ( ) Somente a sentença II está correta.
d) ( ) Somente a sentença I está correta.
3 Fernand Braudel trouxe importantes contribuições para o estudo do tempo histórico,
estabelecendo distintas formas de contextualizar os fenômenos sociais, políticos,
econômicos e culturais. A Arqueologia se beneficiou desses conceitos e a tendência
da disciplina sempre se voltou mais a algumas dessas noções de tempo histórico.
Com base nas noções de tempo histórico de Braudel e o estudo em Arqueologia,
assinale a alternativa CORRETA.
a) ( ) A Arqueologia se dedica ao estudo dos eventos que marcaram rupturas nas
sociedades ao longo do tempo.
b) ( ) A Arqueologia se dedica ao estudo dos ciclos de média e longa duração para
compreender as mudanças e permanências das sociedades no tempo e espaço.
c) ( ) A Arqueologia se dedica ao estudo dos aspectos políticos das sociedades visando
suas permanências ao longo do tempo.
d) ( ) A Arqueologia não contempla toda a dimensão do tempo histórico, focando
somente na cronologia da Pré-História.
4 Uma das formas de tempo cronológico mais utilizadas nas ciências é o tempo
geológico. A partir dos principais eventos que deram origem a Terra, assim como o seu
desenvolvimento, o surgimento de vida, extinções e tantos outros acontecimentos
marcam os diferentes períodos geológicos, os quais são atribuídos principalmente
pelo estudo das rochas. A Arqueologia é uma das ciências sociais que mais se utiliza
do tempo geológico em seus estudos. Devido a sua importância para a disciplina,
explique as principais razões do uso cada vez mais recorrente do tempo geológico
nos estudos arqueológicos.
5 A questão espacial anda em conjunto com o tempo em todo o estudo na área das
ciências sociais e humanas. A noção de espaço é muito importante para delimitar onde
estão ocorrendo os diferentes fenômenos históricos, imprescindível na compreensão
do contexto como um todo. Com base na importância dos estudos espaciais, disserte
sobre como ele pode ser utilizado no âmbito da Arqueologia.
16
UNIDADE 1 TÓPICO 2 -
O QUE É ARQUEOLOGIA?
1 INTRODUÇÃO
A primeira visão que nos vem à mente quando falamos em Arqueologia é a
visão clássica e romântica dos cinemas: aventureiros desbravando lugares longínquos
e inóspitos, lutando contra a natureza e nativos selvagens, descobrindo tesouros
perdidos e resgatando o passado da humanidade. Há ainda também a ideia absurda
de caçadores de dinossauros, mas, de fato, a única coisa que compartilhamos com
a Paleontologia são os métodos de pesquisa. Voltando à visão inicial, na qual figuras
célebres da cultura ocidental popular como os personagens Indiana Jones e Lara Croft
ajudaram a moldar esse estereótipo, apesar dela não se assemelhar em nada com a
realidade da Arqueologia atual, ela mantém uma herança dos primórdios dessa disciplina
e dos primeiros arqueólogos.
O século XIX, na Europa, marcou grandes revoluções no campo da ciência,
com a consolidação e separação de muitas disciplinas que passaram a construír o
seu próprio escopo teórico e metodológico. É nesse cenário que nasce a Arqueologia,
assim como tantas outras áreas de conhecimento das ciências humanas, mas como
vimos anteriormente, a história não se resume a eventos específicos, ela depende de
um contexto mais amplo, de longa duração. Dessa forma, para compreendermos como
a Arqueologia, enquanto ciência, surgiu no seio da sociedade oitocentista europeia, é
necessário regressar ainda mais no tempo, em uma fase que é comum designações
como “especulativa” ou “pré-científica”. Entender a história de uma disciplina é tão
importante quanto a sua prática na atualidade, pois o que ela é hoje ou deixa de ser são
questões que remetem aos desdobramentos de sua trajetória.
Muitas vezes, é comum o pensamento de que a Arqueologia é uma mera auxiliar
da História, produzindo constantemente novos dados que reescrevem esta a todo o
momento. Aqui veremos que embora integrantes das humanidades, que compartilham
muitos métodos e objetos de pesquisa, incluindo a concepção de tempo histórico
discutida anteriormente, elas são disciplinas à parte. Embora a Arqueologia se utilize de
fontes escritas e orais para as suas pesquisas, o grande foco repousa sobre a cultura
material. Segundo Glassie (1999), a cultura material começa com as coisas, mas não
termina com elas, visto que o seu estudo usa os objetos para abordar o pensamento e
a ação humanos.
Outra percepção recorrente de Arqueologia é de que ela se dedica ao estudo
do passado. As origens da disciplina, como veremos a seguir, assim como a própria
etimologia da palavra, do grego arckhé “antes; o que veio primeiro; velho” e logos “tratado;
17
estudo” remetem a essa noção, e, de fato, grande parte dos profissionais arqueólogos(as)
se dedicam a estudos de contextos passados, mas esse passado não necessariamente
deve ser distante e profundo no tempo aos olhos do pesquisador (CAMPOS, 2018).
Na virada para o novo milênio se inicia um crescente nos estudos designados como
“Arqueologia do passado recente” ou “Arqueologia do contemporâneo”. Ela se dedica ao
estudo dos séculos XX e XXI, quando muitos de seus vestígios se encontram presentes
em nosso cotidiano, podendo ser aplicada a diversas áreas como, por exemplo, urbana,
gestão, universidades, instituições públicas, associações, dentre outras (SANTOS, 2020).
Assim, temos a Arqueologia como o estudo das sociedades humanas, seja no passado
ou no presente, com o auxílio da cultura material e das relações com o seu meio físico,
podendo abarcar desde vestígios microscópios até grandes obras de arquitetura.
Haja fôlego para comportar todo o universo material de tantos tempos e
espaços em uma disciplina! A diversidade de vestígios estudados pela Arqueologia
reflete também o seu caráter interdisciplinar ao se associar com diversas áreas do
conhecimento, dependendo do contexto e dos objetivos da pesquisa. Assim, nessa
temática navegaremos pelo início da Arqueologia, quando esta ainda estava muito
vinculada ao estudo do passado e de povos até então “desconhecidos”, até chegarmos
a sua formação como um campo científico robusto, para, por fim, pontuarmos todas as
possibilidades de estudo que a disciplina oferece hoje em dia.
2 BREVE HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA
Muitos povos, ao longo da história, se interessaram por seu próprio passado,
mas o estudo sistemático desse tempo longínquo, englobando o que seria o passado de
toda a humanidade, teve início com as formações das nações europeias e a revolução
científica. Como um campo científico independente, a Arqueologia surge somente em
meados do século XIX, mas nos séculos antecedentes diversos fatores culminaram para
que ela se consolidasse como disciplina, no mesmo contexto que vimos amadurecer
e surgir outras disciplinas das ciências humanas e naturais. Estudar a história da
Arqueologia se torna uma tarefa importante, pois o seu início ajudou a moldar o que
muitos ainda hoje pensam sobre o trabalho de um arqueólogo, além disso, o contexto
histórico no qual a disciplina surgiu também reflete nas primeiras teorias e métodos que
a Arqueologia se debruçou.
2.1 OS ANTECEDENTES DA ARQUEOLOGIA
O início das Grandes Navegações, no século XV, marcou uma expansão dos
povos europeus ao redor do mundo, entrando em contato com diferentes culturas. Os
relatos de viajantes e cronistas desses períodos efervesciam o imaginário europeu acerca
do mundo lá fora, despertando o interesse e a curiosidade sobre lugares distantes e
povos muito diferentes. Muitos desses viajantes retornavam consigo objetos peculiares,
18
advindos dessas terras até então desconhecidas, os quais passavam a compor coleções
particulares de entusiastas do tema. Essas coleções, por sua vez, foram ganhando
cada vez mais notoriedade e, durante o século XVI, se transformaram nos gabinetes de
curiosidades ou de maravilhas.
Segundo Gonçalves, Ramos e Amorin (2012), os gabinetes de curiosidade
reuniam diversos objetos, tanto naturais, quanto artificiais, incorporando maravilhas
da arte e da natureza tanto em seu interior, quanto em seu design. A singularidade
dos objetos que mesclavam o artístico e o natural chamavam a atenção e, de acordo
com Gonçalves, Ramos e Amorin (2012, p. 5) “protagonizaram uma rede de comércio,
correspondências e turismo”, na qual os detentores das coleções eram pessoas que
possuíam muitas riquezas. Inicialmente não havia uma distinção entre “as curiosidades
naturais e as de origem humana” (GONÇALVES; RAMOS; AMORIM, 2012, p. 47). Elas
começaram a ser tecidas conforme o esforço de alguns donos de gabinetes em catalogar
a sua coleção de maravilhas, organizando e agrupando objetos.
Conforme a ciência avançava e substituía visões de mundo baseadas na Bíblia,
havia uma maior especialização disciplinar, ou seja, a criação de campos científicos
delimitados, tornando-os gabinetes de curiosidades cada vez mais obsoletos,
separando muitas das maravilhas em mais ou menos conceituados pela visão científica
(GONÇALVES; RAMOS; AMORIM, 2012). O compromisso com a verdade científica passou
a delinear os interesses daqueles que se dedicavam a reunir objetos dos mais variados
tipos, formando espaços que, a partir de então, compunham momentos da história
conhecida da humanidade, como a Antiguidade Clássica. Nesse contexto, começam-se
a se formar e popularizar os antiquários, reunindo muitos objetos e textos das grandes
civilizações antigas. O deslumbramento dos europeus a toda técnica aplicada às artes e
a arquitetura clássica tornou o ambiente favorável para o surgimento de uma disciplina
que focasse seus olhos no passado.
Ao longo do tempo, diferenciaram-se dois tipos de antiquários (TRIGGER, 2004).
O primeiro era o viajante, focando justamente em objetos provenientes do passado das
regiões do Mediterrâneo e Oriente próximo. Como havia um crescente no interesse
pelas origens da humanidade e o seu passado, mas nem sempre havia meios de
viajar para reunir objetos para os seus antiquários, muitos voltaram-se para as suas
próprias antiguidades. O segundo tipo de antiquário, o local, reunia o interesse pelo
passado dentro do território nacional, explorando muitos monumentos que pertenciam
a distintos momentos da história. Em meio a um contexto em que muitas nações
europeias consolidavam os seus territórios, a tentativa de criar um sentimento de nação
e pertencimento repousava sobre o interesse pelo seu próprio passado.
A grande quantidade de objetos referentes ao passado tornou evidente a
necessidade de explorá-los a fim de criar descrições mais completas, instaurando uma
fase seguinte de um antiquarismo científico. Segundo Trigger (2004), ele representou um
avanço muito grande na história do pensamento arqueológico, visto que apresentava
novas maneiras de se organizar o passado. Com a observação, experimentação e
19
classificação, os antiquários montavam conclusões sucintas acerca das sociedades
passadas, preenchendo algumas lacunas e desenvolvendo métodos, como a tipologia,
que viriam a ser cruciais para a Arqueologia moderna. O único problema acerca desses
métodos era que se debruçavam exclusivamente sobre os textos escritos dos povos
antigos, englobando os estudos em uma tradição monótona. A Arqueologia passou a se
dedicar exclusivamente e independente aos estudos materiais a partir de dois momentos:
os esforços do erudito Johann Wickellman, que ao focar-se em objetos greco-romanos
para escrever uma história da arte, estabeleceu a prática de análises com a cultura
material; assim como a constatação de uma “Pré-História” da humanidade.
INTERESSANTE
Os museus da Europa e as peças de outas partes do mundo
Os grandes museus europeus reúnem uma grande diversidade de objetos arqueológicos e
obras de arte do mundo inteiro. Muitos desses itens estão sob posse das nações europeias
desde o século XVIII, quando ainda eram comuns os antiquários. Recentemente, devido ao
avanço das discussões sobre as consequências das práticas colonialistas que reverberam
até hoje, muitos países que têm sua história marcada pelo colonialismo, têm reivindicado
muitos objetos de origem que se encontram atualmente expostos nas vitrines dos
museus ao longo de toda Europa. A justificativa dos países é de que muitas das
peças foram saqueadas de seus lugares originais por expedições de punição
que envolvem tanto as praticadas nas colônias do passado, quanto em
contextos de conflitos bélicos. Os museus, por sua vez, justificam a não entrega
dos materiais pelo perigo em danificar as peças durante o transporte, ou ainda,
apontar que os museus dos países de origens das peças supostamente não
teriam condições para acondicionar e preservas as peças. Apesar da recusa,
muitos museus da Europa têm cedido e devolvido as peças devido à enorme
pressão dos países reivindicantes (MARTINEZ, 2019).
2.2 ARQUEOLOGIA CIENTÍFICA
Possivelmente a obra de maior impacto no século XIX, a qual representou uma
virada de chave em muitos aspectos da humanidade, principalmente em relação ao
seu “lugar” no mundo, foi A Origem das Espécies de Charles Darwin, em 1859. A ideia
de que os seres vivos nem sempre foram como o visualizamos hoje, inclusive a espécie
humana, sofreu muita resistência na sociedade oitocentista europeia, embora não
houvesse escapatória devido às evidências cada vez mais numerosas à luz da evolução,
principalmente com os avanços da Paleontologia e Geologia.
Conforme Bicho (2012, p. 31), essas descobertas auxiliaram no processo
“reconhecimento dos artefatos líticos pré-históricos e da sua associação a restos
humanos e a fósseis de espécies animais já extintas”. Esse reconhecimento, segundo
o arqueólogo, ganhou força a partir dos contatos entre os povos europeus com as
20
populações originárias africanas e americanas. Tanto na África quanto nas Américas
havia muitos utensílios líticos semelhantes aos que eram encontrados na Europa,
indicando esse passado distante da humanidade.
Durante este período destacam-se dois aspectos históricos: a
formação de coleções que depois se transformaram em museus; e
a constituição de associações científicas ou culturais. Os primeiros
permitiram a visualização dos objetos “exóticos e raros” de forma
tão pública quanto possível na época, resultando na creditação das
teorias científicas pela sociedade civil (BICHO, 2012, p. 33).
Com a formação dos museus ao longo de toda a Europa no século XIX, grandes
coleções eram reunidas advindas tanto dos territórios nacionais, quanto de outros
lugares do mundo. Estudando muitas dessas coleções, especialmente provenientes do
norte da Europa, o estudioso dinamarquês Christian J. Thomsen cria o sistema das Três
Idades da Pré-História: Idade da Pedra, posteriormente dividindo-se em Paleolítico e
Neolítico; Idade do Bronze; e Idade do Ferro. Esse sistema, apesar de ter sido criado
especificamente para a Europa, foi um grande avanço para o método da tipologia na
Arqueologia. Segundo Renfrew e Bahn (2012), ao estudar e classificar os artefatos pré-
históricos, seria possível chegar a uma cronologia e delimitar a qual período em questão
pertencia cada objeto. O trabalho de Thomsen foi também o precursor em datações
relativas de artefatos (TRIGGER, 2004), inspirando o refinamento de metodologias
arqueológicas no século seguinte. Assim, a Arqueologia passa a se tornar uma disciplina
independente, com métodos de escavação meticulosos e um estudo sistemático dos
objetos, sempre olhando para o passado da humanidade (RENFREW; BAHN, 2012).
DICA
Filma: A Escavação
Lançado em 2017 e dirigido por Simon Stone é inspirado em uma história real sobre uma
das principais descobertas arqueológicas da Inglaterra no século XX. No ano de 1939, em
meios aos conflitos da Segunda Guerra Mundial, uma viúva da região de Suffolk, Edith Pretty,
resolve contratar o escavador e arqueólogo amador Basil Brown para escavar um grande
montículo de terra que havia em seu terreno, suspeitando que poderia ser um cemitério
viking. Com o avanço das escavações, eles acabam por descobrir um importante capítulo da
história dos ingleses, o qual não havia muitas pesquisas e evidências no início do
século XX. O achado foi um grande barco funerário e diversos artefatos que
pertenceram aos anglo-saxões. O filme retrata diversas questões pertinentes,
até os dias atuais, acerca da escavação arqueológica, como processos pós-
deposicionais e a dificuldade em escavar em certas condições climáticas. Além
disso, ele está contextualizado na história da Arqueologia que exploramos
ao longo deste tema de aprendizagem, um crescente nacionalismo entre
as nações europeias por meio da exploração de seu passado em meio a
conflitos bélicos entre as potências. A descoberta representou, também,
uma mudança acerca da visão dos povos anglo-saxões, que eram vistos até
então como povos bárbaros pouco desenvolvidos.
21
2.3 ARQUEOLOGIA À SERVIÇO DO IMPERIALISMO
Como já destacado, o antiquarismo e a posterior criação dos museus, assim
como a consolidação da Arqueologia como disciplina científica, moveu esforços de
muitos eruditos a fim de conhecerem a sua própria história. Em um século de expansão
política e econômica, as nações europeias procuravam fortalecer seus impérios, criando
um sentimento de nacionalismo atrelado à ideia de progresso, no qual as sociedades
europeias estariam simbolizando o apogeu da humanidade, as maiores civilizações
da história (TRIGGER, 2004). Durante esse período, a Arqueologia, assim como a
Antropologia, foram aliadas aos interesses imperialistas da Europa. Com a materialidade
em mãos, desde pequenos objetos a grandes ruínas, a Arqueologia possuía uma fonte
incontestável da verdade dos fatos, utilizando-a para reafirmar a supremacia europeia,
seja por meio do seu “progresso” ao longo da Pré-História, sintetizada no sistema das
Três Idades de Thomsen, seja pela vinculação de sua própria sociedade com grandes
civilizações antigas, principalmente Grécia e Roma, as quais representavam bem o tipo
de artefato encontrado nos museus da época.
Dessa forma, a figura do arqueólogo era a única chave para os conhecimentos
reveladores e ocultos do passado. Suas descobertas alimentavam a ideia de progresso
na história humana, na qual se inseriam todos os seres humanos, independentemente de
sua cultura, ou nos termos infelizes da época, de sua “raça”. Por se considerarem a frente
na linha de progresso da humanidade, representantes da civilização, a qual era revelada
pelas luzes do passado como o maior feito humano, as nações europeias justificam
o processo de colonização em diversos continentes como uma tentativa de “levar a
civilização” a esses lugares. Essas concepções tiverem fruto em uma deturpação da
teoria evolucionista de Darwin, entendendo a evolução como um sinônimo de melhoria,
quando o conceito original reflete mudanças nos organismos, visto que, a natureza e a
evolução não seguem um caminho pré-estabelecido.
Surge um dos capítulos mais horrendos da história europeia, o darwinismo
social. A teoria propunha uma escala de evolução e desenvolvimento das sociedades
consideradas primitivas em direção às civilizadas, estas últimas representadas pelos
povos europeus. Assim, a Arqueologia, usufruindo desta teoria social, reunia informações
acerca do passado e construía conclusões que eram benéficas aos presentes interesses
imperialistas da Europa (TRIGGER, 2004). Ao constatar o modo de vida dos humanos
pré-históricos, como o nomadismo, a caça e a coleta, ferramentas em pedra, dentre
outros, a Arqueologia criava um comparativo com as sociedades atuais para nomear
quem evoluiu ou “parou no tempo”. A consequência dos conhecimentos produzidos
foi desastrosa, legitimando práticas cruéis, como a criação dos zoológicos humanos,
quando pessoas de outros lugares do planeta eram levadas à força para a Europa e
expostas nesses zoológicos, a fim de mostrar à sociedade como era o modo de vida
ancestral do homem.
22
Um dos principais representantes deste período na Arqueologia foi o inglês John
Lubbock. Em seus estudos sobre a Pré-História a partir de vestígios materiais, Lubbock
acreditava que a melhor maneira para compreender esse modo de vida ancestral era
voltar-se para as sociedades ditas primitivas contemporâneas a sua civilização europeia
(TRIGGER, 2004). Essas sociedades eram vistas como “fósseis-vivos”, já que, na sua
concepção, viviam como os seres humanos pré-históricos. Suas conclusões adivinham
de um aparato teórico evolucionista bem ilustrado por homens como os antropólogos
Henry L. Morgan e Walter B. Spencer. O primeiro acreditava nos estágios da humanidade
a partir dos domínios tecnológicos das sociedades, criando um sistema hierárquico que
ia do selvagem, passando pelo bárbaro, até a civilização. O segundo, influenciado pelo
positivismo, acreditava em estágios da humanidade a partir de noções simbólicas do
mundo a sua volta, indo do mágico, passando pelo religioso, até chegar ao científico.
Com base nisso, Lubbock reunia as sociedades “inferiores” à Europa em períodos
da história, os quais, um dia, os próprios europeus haviam vivenciado, defendendo
arduamente que a evolução determinava os propósitos de cada indivíduo, os quais
muitas vezes não poderiam ser modificados. Assim, ao utilizar-se da Arqueologia e do
evolucionismo social, o arqueólogo inglês parecia justificar a superioridade europeia
em relação ao resto do mundo, assim como a desigualdade interna às sociedades
ocidentais, tornando todo o sistema de hierarquia algo natural (TRIGGER, 2004).
NOTA
Positivismo
O positivismo foi uma doutrina filosófica que surgiu no século XIX na Europa, criada pelo
filósofo francês Augusto Comte, tinha como princípio a crítica ao romantismo e idealismo
exacerbado que predominava no pensamento europeu. Contextualizado na Revolução
Industrial, o pensamento de Comte buscou refletir na ciência emergente do período a ideia de
especialização. Na tentativa de compreender os fenômenos sociais e históricos,
ele começa a delinear regras e leis para a observação desses fenômenos,
fundando os princípios do que viria a se tornar o campo da Sociologia. Comte
elaborou a teoria dos Três dos Estados, os quais representavam estágios da
humanidade, o primeiro seria o teológico, o segundo metafísico e por fim o
científico. Dessa forma, a cientificidade representava para o filósofo o apogeu
da humanidade, e a Ciência, portanto, seria detentora da verdade absoluta
sobre os fatos sociais e políticos. A doutrina de Comte também influenciou
na política a partir de uma lógica progressista, como podemos visualizar na
bandeira do Brasil por meio dos dizeres ordem e progresso.
As ideias de Lubbock e muitos contemporâneos de seu período ecoaram
fortemente na Arqueologia do século XX. Apesar de muito avanço nas técnicas
e métodos de campo e escavação, muitas das concepções do darwinismo social
chegaram a influenciar as principais teorias da Arqueologia ao longo do século
novecentista, como veremos no último tema de aprendizagem desta unidade. Na
23
Arqueologia americana, território que sofreu fortemente com o processo de colonização,
muitos dos(as) arqueólogos(as) pioneiros refletiam essas teorias sociais ao classificarem
muitas populações originárias como simples, sem estratificação social e forrageadoras.
A construção dessa visão dos povos indígenas pode ser percebida até os dias atuais,
tanto em discursos do senso comum, quanto de dentro da academia. Felizmente, com
os avanços das pesquisas nas áreas das ciências humanas, e uma grande reformulação
das disciplinas no intuito de tentar se desvincular de uma vez por todas de seu passado
racista e imperialista, a Arqueologia tem conseguido refutar essas antigas ideias
e comprovar como anteriormente sociedades ditas como simples, de fato, são tão
complexas quanto as civilizações que supostamente seriam o seu oposto. Muito desse
resultado advém justamente dos tipos de vestígios e abordagens dadas a eles dentro
da Arqueologia, os quais vem se ampliando cada vez mais ao longo dos anos. Assim,
veremos agora todo o escopo que a Arqueologia pode abarcar em seus estudos.
3 NATUREZA E OBJETIVOS DA ARQUEOLOGIA
Agora que compreendemos as origens e o desenvolvimento da Arqueologia
enquanto ciência das humanidades, os objetivos se tornam mais claros. De forma simples
e sucinta, a Arqueologia tem o ser humano como o foco e em todas as ramificações do
seu ser, como a sua cultura, lugar de origem e sua organização social ao longo do tempo,
mas a isso também estuda a Antropologia e a História, disciplinas que sempre andaram
muito em conjunto à ciência arqueológica, se formando no mesmo contexto. Como
veremos no Tema de Aprendizagem 3, as teorias da Arqueologia sempre oscilaram entre
uma e outra área, onde a ciência arqueológica bebeu de muitas teorias e métodos das
outras duas. O que a diferencia e fortalece como disciplina é o seu ponto de partida, o
vasto universo material. Seja por meio das suas próprias invenções e tecnologias, seja
nas modificações feitas no ambiente físico, seja nas suas próprias mudanças a nível
biológico, toda a pesquisa arqueológica parte da materialidade. Como coloca Thomas
(1999, p. 17), a cultura material não é “um simples produto da sociedade, ela é integral à
sociedade”.
Os meios para estudar essa materialidade revelam uma característica da
Arqueologia que tem se tornado cada vez mais recorrente na disciplina, a sua
interdisciplinaridade. Devido à grande diversidade de tipos de vestígios que podem ser
estudados, a Arqueologia tende a se associar com diversas outras disciplinas, importando
e adaptando teorias e métodos que satisfaçam os objetivos de cada pesquisa.
A mais óbvia é a Antropologia. Desde o início dessas disciplinas, as teorias
antropológicas refletem diretamente em como a Arqueologia interpreta os vestígios
materiais. A própria visão da escola norte-americana tem a Arqueologia como um
subcampo da Antropologia, que englobaria mais três, a Antropologia Social ou Cultural,
a Antropologia Física e a Antropologia Linguística. Como a Antropologia se dedica a
estudar a humanidade em todos os seus aspectos, ela gera muitos dados e teorias que
24
servem ao arqueólogo para pensar as sociedades em que estudam, principalmente se
há uma continuidade histórica entre elas. Por exemplo, na Arqueologia brasileira há o
estudo dos sítios deixados pelos povos Guaranis, que reúnem um grande território, visto
que esse povo ocupou muitos lugares ao longo da América do Sul ao longo do Holoceno
Tardio (agora que você já está habituado ao tempo geológico, sabe do que estamos
falando). Atualmente, em todo território nacional, existem muitas aldeias guaranis e uma
grande literatura antropológica acerca desses povos, por isso os arqueólogos utilizam
muitas dessas informações para compreender a trajetória desses povos no passado até
o presente.
Dessa forma, um dos ramos mais fortes da Arqueologia é a chamada
etnoArqueologia. Segundo Silva (2009, p. 121), ela
é uma especialidade da Arqueologia que estuda sociedades
contemporâneas para testar hipóteses, formular modelos
interpretativos e teorizações sobre a relação entre as pessoas e o
mundo material. Ela surgiu da prática arqueológica de utilizar o
dado etnográfico para embasar interpretações sobre os contextos
arqueológicos e foi desenvolvida no contexto dos debates sobre
o modo como as interpretações deveriam ser conduzidas, sobre o
refinamento dos procedimentos de obtenção de dados etnográficos
pelos próprios arqueólogos e da ampliação dos temas de pesquisa.
Outra disciplina que contribui fortemente à Arqueologia é sobre a qual
começamos nosso debate aqui, a História. É nesse campo que surgem os debates
acerca do que é tempo histórico e dos diferentes tempos inseridos neste, como os
eventos, conjunturas e estruturas de Braudel. Uma das principais divisões desse tempo
histórico dentro da Arqueologia também revela a importância da disciplina histórica, a
Arqueologia pré-histórica e a Arqueologia histórica. Ambas acessam e se debruçam
sobre os textos escritos a fim de contribuir na investigação arqueológica, embora a
Arqueologia histórica consiga se utilizar ainda mais desse tipo de registro. Os textos
servem de revisão inicial necessária à pesquisa em Arqueologia histórica, pois, ao acessar
os vestígios materiais relacionados aos textos, o(a) arqueólogo(a) é capaz de confirmar
ou refutar as informações escritas, ampliando a compreensão dos fatos e tirando do
foco os grandes personagens da História oficial para focar no cotidiano de todos os
setores da sociedade. A partir dessa lógica, a Sociologia é outra disciplina que oferece
muitos subsídios para a Arqueologia, principalmente da influência da teoria marxista.
Segundo Trigger (2004, p. 338) “os marxistas têm pressuposto que as contradições
com maior influência sobre a promoção de mudanças sociais são as que vigem entre
relações de produção e meios de produção”. Por esse viés, a Arqueologia assume uma
agenda política.
Não são apenas as humanidades que oferecem meios de interpretação
na pesquisa arqueológica, as geociências são extremamente importantes para a
Arqueologia. A Geografia, a Física, a Química, a Biologia e a Matemática brindam a
ciência arqueológica com muitos métodos que ajudam o(a) arqueólogo(a) a responder
suas perguntas, seja por meio dos métodos de campo, seja de laboratório. A Geografia
25
fornece os estudos dos solos e formações geológicas onde existiram as sociedades
ao longo do tempo, o estudo sobre o clima, assim como a Cartografia, extremamente
importantes para representar graficamente lugares onde a pesquisa arqueológica atua.
A Física fornece uma das questões mais importantes na Arqueologia, a cronologia, por
intermédio dos métodos de datações absolutas de diversos tipos de materiais, conforme
debateremos na parte dos métodos no Tema de Aprendizagem 3. A Química fornece
análises da proporção dos elementos químicos, sejam nos artefatos, sejam nos solos que
sofreram alguma interferência antrópica, a fim de responder perguntas de cunho cultural.
A Biologia fornece o estudo da anatomia humana, importante para compreendermos
um dos principais vestígios da Arqueologia, os remanescentes humanos, assim como de
outros seres, como os animais por meio da Zoologia e as plantas por meio da Botânica.
Por fim, a Matemática fornece diversas análises fundamentais a Arqueologia, como a
estatística e o conhecimento espacial.
Da mesma forma, as artes têm uma longa relação com a Arqueologia, desde
os seus primórdios. Como vimos anteriormente, na breve história da Arqueologia, esta
disciplina e a História da Arte sempre caminharam em conjunto. Segundo Trigger (2004,
p. 40),
muito embora a pesquisa da história da arte continuasse dependente
de registros escritos para o ordenamento cronológico de seus
dados, a extensão deste método a períodos mais recuados tornou
um número cada vez maior de arqueólogos conscientes de quanto
os objetos resgatados arqueologicamente são fundamentais como
fonte de informação a respeito das realizações humanas.
Além disso, como coloca Navarro (2014), a visão artística acerca dos materiais
arqueológicos vai além das concepções internas da disciplina que só se preocupam
com questões tipológicas e cronológicas. As artes podem fornecer um olhar sobre os
gestos de produção, compreendendo as motivações e pensamentos que fizeram o
artista a escolher cada gesto, “investigando e experenciando, até certo ponto, a função
simbólica dos artefactos” (NAVARRO, 2014, p. 125).
3.1 OS TIPOS DE MATERIAIS ESTUDADOS NA ARQUEOLOGIA
Com inúmeras possibilidades de estudo, a Arqueologia tem se associado a
diversas áreas das ciências humanas, naturais e das artes, a fim de criar novos meios na
compreensão das relações humanas com o mundo material, seja ele criado, modificado
ou inerente aos seres humanos. Muitas dessas associações dentro da Arqueologia
ultrapassam a ideia da interdisciplinaridade, ou seja, o diálogo entre diferentes áreas
para se tornarem transdisciplinares, quando o diálogo e a integração tornam-nas uma
área só. Nessa transdisciplinaridade, os vestígios tornam-se passíveis de serem o objeto
de estudo por diferentes perspectivas e tipos de análises.
26
A principal linha de evidência da Arqueologia parte dos vestígios produzidos
pelos seres humanos. Instrumentos, habitações, monumentos, manifestações artísticas,
dentre outros. Tudo o que foi criado pelo ser humano, seja de forma intencional, seja
não, é susceptível à investigação arqueológica. Podem ser um conjunto de ferramentas
líticas, um conjunto de louças, fogueiras, as casas onde as pessoas moravam, podem
ser espaços criados para rituais sagrados, espaços criados para a produção como as
indústrias, podem ser artes entalhadas ou pintadas em paredões rochosos, todas as
ações humanas para com o mundo material podem servir de estudo para a Arqueologia.
Outro viés estudado pela Arqueologia consiste em sua relação com o ambiente
físico ao redor e todos os seres que o compõe. Plantas, animais, fungos, rios, mares,
montanhas, planícies são elementos que, embora não sejam criados pelos seres humanos,
possuem uma relação estreita e indissociável, como qualquer relação ecológica. Para
além de meros recursos, o que o ocidente convencionalmente denomina “natureza”,
está imbricado nas sociedades ao longo do tempo. Como coloca o ecólogo Odum (2001),
nossa sociedade ocidental tem a errônea impressão de que dominamos o ambiente
e o subjugamos da forma como bem entendermos, entretanto esquecemos que as
nossas tecnologias não são capazes de driblar as mudanças climáticas, não podemos
nos isolar em nossas cidades pensando em uma autossuficiência, é necessário uma “e
completa consciência pública de que o homem e a paisagem constituem um só todo”
(ODUM, 2001, p. 646). As características das paisagens também são utilizadas pelas
pessoas como um meio de referenciar o seu mundo social, então elas não se limitam a
informações de mudanças físicas, mas igualmente em como as pessoas pensavam, se
relacionavam entre elas e compreendiam as suas vidas (EVANS, 2003).
Dentro da Arqueologia Ambiental, que estuda as relações humanas com os
seus ambientes, existem uma diversidade de subáreas. A Geoarqueologia consiste
em uma investigação arqueológica que utiliza os métodos e conceitos das ciências da
Terra (BUTZER, 1989) para examinar os processos de formação de terra, e padrões de
solos e sedimentos (RENFREW; BAHN, 2012). A Arqueobotânica, ou Paleoetnobotânica,
é o estudo de culturas passadas por uma análise das interações das populações
humanas com o mundo das plantas (HASTORF; POPPER, 1988), que reúne dois tipos
de abordagens, a arqueológica e a ecológica (PEARSALL, 1989). Outra subárea forte
da Arqueologia Ambiental é a Zooarqueologia, que consiste no estudo dos vestígios
de animais escavados em sítios arqueológicos (REITZ; WING, 1999) a fim de discutir
questões como dieta, domesticação, dentre outras relações humanos/animais.
O que resta de nós, depois que partimos, também consiste em um dos principais
vestígios estudados pela Arqueologia: os remanescentes humanos. Nesse âmbito, se
integram as chamadas Bioarqueologia, assim como a Arqueologia da morte ou, ainda,
Arqueologia das práticas funerárias. A primeira consiste no estudo de esqueletos
humanos encontrados em contexto arqueológico. Ao serem estudados, contribuem na
compreensão da dinâmica populacional do passado em geral e da condição humana
27
em particular, por meio de fatores como dieta, saúde e estilo de vida, podendo partir de
uma noção individual ou ainda compreender extensas áreas do globo (LARSEN, 2015). A
segunda compreende os sepultamentos humanos, os quais
incluem os comportamentos mortuários (formas de deposição e
tratamento do cadáver), os acompanhamentos funerários (artefatos
depositados com o morto durante o funeral), a distribuição espacial
do cemitério (localização, inserção ambiental, período de uso),
mortalidade (causas da morte), patologias e anomalias (características
de morbidez que afligiam as populações) e a dieta e indicadores de
saúde (SILVA, 2005, p. 38).
Agora que o(a) acadêmico(a) está familiarizado com todas as possibilidades de
materialidade que a Arqueologia estuda e o quanto esse universo é amplo, conectando
invenções e intervenções humanas de diversos tempos, podemos partir para como
abordar e estudar toda essa gama de vestígios. Para isso, precisamos navegar pelas
principais teorias que envolveram o pensamento arqueológico ao longo do século XX
e XXI, quando – embora algumas teorias sejam mais recentes e atualizadas quando
comparadas a outras, inclusive tornando as mais antigas “rejeitadas” – todas elas
repercutiram fortemente na Arqueologia e seus desdobramentos podem ser visualizados
até hoje, por isso é tão importante o estudo de todas elas, independentemente de não
serem mais tão utilizadas.
28
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu:
• Como a Arqueologia se tornou uma ciência social e humana que se dedica ao estudo
do tempo, inicialmente voltado ao passado da humanidade, mas que abrange seus
estudos para tempos recentes. A história da disciplina está muito atrelada a essas
ideias que vemos recorrentemente na mídia popular, do arqueólogo aventureiro e
explorador, que remete suas raízes ao início da disciplina, na sociedade europeia
modernista.
• A Arqueologia passa a se desenvolver cada vez mais como uma área do conhe-
cimento multidisciplinar, importando teorias e métodos tanto de outras áreas das
ciências humanas e sociais, quanto das áreas das ciências naturais e também das
artes. Dessa forma, a natureza múltipla da Arqueologia também reflete na diversi-
dade de tipos de vestígios, cultura material, registros, dentre tantos outros termos
que ela estuda.
29
AUTOATIVIDADE
1 A Arqueologia, assim como muitas outras áreas das ciências, surge como disciplina
com escopo teórico e metodológico durante o século XIX na Europa, influenciada
pelo movimento positivista que prezava uma especialização maior entre as áreas
de conhecimento científico. O primórdio dessa Arqueologia científica estava ligado
a uma agenda política das nações europeias, que se consolidavam os seus próprios
territórios e ampliavam sua influência no cenário global. Com base nesse período
inicial da Arqueologia como disciplina científica, classifique V para as sentenças
verdadeiras e F para as falsas.
( ) A Arqueologia do século XIX estava alinhada aos interesses imperialistas dos países
europeus, pois ao estudar os povos e a história dos países colonizados, buscavam
legitimar a posição superior dos povos europeus, justificando as práticas de
subjugação.
( ) A Arqueologia do século XIX na Europa buscava em sua própria história, ao
resgatar elementos materiais de seu passado, construir um nacionalismo forte que
expusesse seus feitos e glórias.
( ) A Arqueologia do século XIX consistiu em uma tentativa dos países europeus em
defender a história dos povos originários de suas colônias ao se debruçar sobre o
passado material desses.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA.
a) ( ) V – F – V.
b) ( ) F – V – F.
c) ( ) V – V – F.
d) ( ) F – V – V.
2 A Arqueologia tem uma relação de longa data com os antiquários, muito comuns a
partir do século XVIII ao longo da Europa. Esses antiquários reuniam inúmeros objetos
provenientes tanto dos territórios europeus quanto de diversas partes do mundo, e
são considerados os precursores dos museus modernos. Ao levar em consideração
a relação entre a Arqueologia e os antiquários, assinale a alternativa CORRETA que
explique a principal contribuição dos antiquários para o estudo em Arqueologia.
a) ( ) Os antiquários, ao registrarem a documentação dos objetos que faziam parte de
suas coleções, contribuíram para o estudo dos textos antigos na Arqueologia.
b) ( ) Os antiquários, enquanto espaços que priorizavam as obras de arte e pinturas,
contribuíram para que a Arqueologia se dedicasse ao estudo desse tipo de
registro.
30
c) ( ) Os antiquários, ao reunirem muitos elementos da botânica e zoologia,
contribuíram para que a Arqueologia estudasse os remanescentes de plantas e
animais antigos.
d) ( ) Os antiquários, ao classificarem os objetos a partir de suas semelhanças,
contribuíram para que a Arqueologia desenvolvesse o método da tipologia de
artefatos.
3 A Arqueologia é uma ciência humana e social que estuda a cultura material dos
povos de diversos lugares e tempos. Para comportar toda a gama de relações
humanas com o seu mundo material, a Arqueologia se debruça sobre diversos tipos
de vestígios, que podem ser abordados de diversas formas dependendo do escopo
teórico e metodológico escolhido. Com relação à diversidade de vestígios estudados
na disciplina, analise as sentenças a seguir e assinale as que mais se enquadram no
estudo arqueológico.
I- A Arqueologia estuda os artefatos confeccionados em rochas e a partir disso cria
indústrias líticas que podem estar relacionadas a determinada cultura ou ainda a
determinados períodos do tempo histórico.
II- A Arqueologia estuda os solos terrestres na intenção de buscar assinaturas
antrópicas que comprovem a presença humana em dado local.
III- A Arqueologia estuda as antigas fábricas do período da Revolução Industrial em
diversos países a fim de compreender como se deram essas relações em cada local.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
c) ( ) Somente a sentença I está correta.
d) ( ) Todas as sentenças estão corretas.
4 A Arqueologia, ao estudar muitos aspectos das sociedades humanas ao longo do
tempo por meio de sua materialidade, acaba por empregar diversas teorias e métodos
de outras áreas do conhecimento a fim de refinar as pesquisas e interpretações
arqueológicas. Nesse sentido, o caráter da disciplina é totalmente transdisciplinar.
Baseado nessa característica ampla da Arqueologia, disserte acerca de três áreas do
conhecimento que podem auxiliar à disciplina e suas principais contribuições a ela.
5 Um dos principais vestígios estudados na Arqueologia consiste na análise dos
remanescentes humanos preservados, geralmente ósseos, e seus contextos. A partir
de seu estudo, a Arqueologia é capaz de tecer diversas informações sobre a vida
dessas pessoas no passado. A subárea responsável pelo estudo dos remanescentes
humanos é chamada BioArqueologia. Baseado nas principais contribuições da
BioArqueologia no estudo das populações passadas, disserte acerca das principais
linhas de evidência que ela pode fornecer.
31
32
UNIDADE 1 TÓPICO 3 -
CONCEITOS E TERMINOLOGIA
1 INTRODUÇÃO
Situamos o tempo histórico pelo qual a Arqueologia investiga e atua,
conhecemos a sua história devido as suas origens relacionadas a um período da história
muito polêmico envolvendo os processos de colonização e práticas de imperialismo
europeu, mas, da mesma forma, como a sua preocupação e compromisso com a ciência
representou grandes avanços que impulsionaram o desenvolvimento da disciplina. Da
mesma forma, delineamos os objetos de estudo da Arqueologia, todo o universo da
cultura material que é passível da investigação arqueológica. A partir desse ponto,
podemos começar a delinear as formas como tratar e interpretar essa cultura material.
Nesse sentido, o século XX marcou grandes mudanças na área da Arqueologia, com o
surgimento de novas teorias que se tornaram paradigmas de sua época e influenciaram
gerações de arqueólogos, criando referências na área que são lidas até hoje.
No início do século XX, há um movimento crescente entre os estudiosos da
Arqueologia na Europa, uma teoria que pudesse explicar as mudanças tecnológicas
observadas na cultura material de diversos povos ao longo do tempo. Essa teoria,
conhecida como histórico-culturalismo, possuía a ideia predominante de que as
tipologias materiais observadas nos artefatos refletiam a etnicidade dos seus povos, em
uma noção normativa de cultura.
Já em meados do século XX, na América do Norte, surge uma preocupação
com as metodologias de campo da Arqueologia, com a constatação de que o registro
arqueológico que visualizamos no presente, é resultado de processos culturais no
passado e naturais depois de seu abandono. A Nova Arqueologia, como foi denominada,
se aproximou das ciências naturais e possuía uma visão adaptacionista da cultura,
na qual toda a tecnologia refletia a adaptabilidade humana de cada grupo frente as
pressões do ambiente, preocupando-se em estabelecer leis gerais da evolução cultural.
No final do século XX, surgem críticas com relação à visão determinista da última
teoria vigente, com a chamada Arqueologia Interpretativa. Ela surge entre arqueólogos
europeus e defendia que a Arqueologia deveria se dedicar a decodificar e compreender
o universo simbólico dos grupos, entendendo que cada sociedade é particular e deve
ser entendida por si, em seu próprio contexto e particularidades. Há também um foco no
indivíduo e no cotidiano das pessoas, buscando lê-las como textos.
Com o início do novo milênio, influenciados pela última, a Arqueologia passa a
se reconhecer como importante ferramenta política, na qual a figura do arqueólogo não
é meramente a de um pesquisador frente ao seu objeto de estudo, mas sim, que todo o
33
seu próprio contexto social influencia na interpretação arqueológica. Para tentar ampliar
esse escopo interpretativo, a Arqueologia se volta para grupos sociais marginalizados e
para os seus contextos pós-coloniais. Nesse âmbito surgem Arqueologias como a social
latino-americana e a indígena.
Com a preocupação crescente em ouvir o que os diferentes povos têm a falar do
seu próprio passado, a Arqueologia se volta para uma perspectiva ontológica. Em termos
filosóficos e simplificados, a Ontologia consiste na realidade em si de cada indivíduo e
seu grupo, ou ainda, como eles constroem e percebem essa realidade. Visto que muitos
povos possuem essa percepção distinta do mundo, os seres e as coisas neles inseridas,
inclusive, não havendo esse tipo de distinção que nós ocidentais fazemos, a Arqueologia
continua voltada ao mundo material, mas passando a percebê-lo como animado, como
detentor de vida, exercendo ação no mundo, independente do ser humano.
A Arqueologia, então, é tão múltipla em suas teorias como é múltipla na grande
diversidade de coisas que ela estuda. Para falar tanto das coisas, da cultura material,
do registro arqueológico, da materialidade, ou seja, qual for o termo empregado,
existem uma série de procedimentos metodológicos para encontrar, reunir e analisar os
materiais. Por isso, veremos também os principais métodos arqueológicos em seus dois
principais lugares de atuação: o campo e o laboratório. Nem toda a pesquisa precisa
necessariamente passar pelos dois, visto que às vezes o campo é indispensável, pois
o material se encontra a nosso alcance, ou ainda, às vezes, a pesquisa arqueológica
se volta mais a debates teóricos importantes, sendo a parte de análises de laboratório
dispensáveis.
2 ARQUEOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL
Como já mencionado, a Arqueologia parece seguir os movimentos ascendentes
na Antropologia, e no início do século XX não foi diferente. Com a influência do relativismo
cultural e do particularismo histórico do antropólogo Franz Boas, em que o primeiro
estabelece que cada cultura humana só pode ser analisada por meio de suas próprias
categorias, e não utilizando comparativos, e o segundo coloca que não há um passado
comum a humanidade, e sim que cada sociedade tem o seu próprio passado e somente
ele poderá responder questões presentes e futuras. É nesse contexto que surge o
histórico culturalismo. Na Europa, inúmeros arqueólogos adotaram as ideias boasianas
ao olharem para o seu próprio passado, no intuito de fortalecer suas nacionalidades.
Com o foco nos artefatos, há um aprimoramento das classificações de Thomsen, em
que os objetos eram agrupados por suas semelhanças. Esses agrupamentos tipológicos
eram descritos conforme a sua “complexidade”. Objetos com tecnologias mais
avançadas eram considerados mais recentes, enquanto aqueles classificados como
mais simples deveriam ser mais antigos. Segundo Trigger (2004, p. 147), “o interesse
por problemas étnicos e históricos levou os arqueólogos a prestar atenção crescente
à distribuição geográfica de tipos distintos de artefatos e conjuntos de artefatos, no
34
esforço de relacioná-los com grupos históricos”. Havia também uma clara inspiração
desses arqueólogos com a teoria evolucionista ao apresentar a evolução tecnológica
à semelhança da evolução biológica. Com o passar do tempo, os objetos tenderiam a
adquirir características mais elaboradas, assim como os organismos vivos adquiriam
novas adaptações.
Dedicada a seriação dos artefatos, a Arqueologia Histórico-cultural acabou por
deixar de lado o “humano atrás do objeto”, criando o conceito de cultura arqueológica.
Presente pela primeira vez nos trabalhos do arqueólogo nacionalista alemão Gustaf
Kossina, o conceito de cultura arqueológica foi ganhar força com um dos grandes
nomes da teoria histórica-cultural, Gordon Childe, o qual coloca os conjuntos de
artefatos, incluindo ferramentas, habitações, ritos funerários, dentre outros, associados
de forma recorrente (TRIGGER, 2004). Com isso, Childe passou a criar um complexo
mosaico de culturas, relacionando as culturas arqueológicas entre si em uma mesma
região geográfica. Na Figura 2 é possível observar um mosaico de culturas baseados
nas culturas arqueológicas das cerâmicas brasileiras, desenvolvido na década de
1960, período importante no desenvolvimento da Arqueologia brasileira, totalmente
influenciada pela teoria histórico-cultural.
Figura 2 – Exemplo de mosaico de culturas elaborado para as tradições cerâmicas brasileiras do litoral
Fonte: Brochado et al. (1969, p. 22)
A principal crença dos histórico-culturalista com relação ao que impulsionava
as mudanças tecnológicas observadas em suas seriações de culturas arqueológicas
recaía sobre a difusão e a migração. Segundo Trigger (2004, p. 151),
quase toda a mudança cultural no registro arqueológico era atribuída
à difusão de ideias de um grupo a outro, ou a migrações que levavam
à substituição de um povo e sua cultura por outro de cultura distinta.
Como acreditavam na capacidade de um grupo aprender com
35
outro, os arqueólogos cujas teses davam destaque à difusão, eram,
geralmente, mais otimistas quanto à capacidade de mudança das
sociedades humanas do que os arqueólogos que atribuíam quase
toda a mudança à migração.
Assim, a Arqueologia desse período não admitia que poderiam existir as mesmas
invenções e descobertas de forma independente ao redor do mundo.
3 ARQUEOLOGIA PROCESSUALISTA
Como vimos, a teoria darwiniana da evolução nunca abandonou a Arqueologia,
sendo utilizada de diversas formas dentro da disciplina. Com o advento do
neoevolucionismo na segunda metade do século XX, houve um abandono das ideias
racistas do evolucionismo social do século anterior, e o foco passou a repousar sobre
o quanto as culturas humanas se adaptavam ao seu ambiente, sendo a sua tecnologia
parte fundamental frente a esses debates. A década de 1960 viu emergir, por parte dos
arqueólogos, uma série de críticas à “Grande Tradição”, e novas propostas teóricas e
metodológicas de como a Arqueologia deveria lidar com os seus dados começaram
a circular. Essa “Nova Arqueologia” foi inspirada por antropólogos como Leslie White
e Julian Steward. O primeiro gerou um conceito de cultura distinto dos histórico-
culturalistas, pensando essa como uma equação em que “a cultura evolui à medida
em que a quantidade de energia utilizada per capita aumenta, ou à medida em que
aumenta a eficiência da aplicação da energia ao trabalho” (TRIGGER, 2004, p. 287). Para
White, a tecnologia, como forma de aprisionar mais energia, seria um fator determinante
em um esquema de evolução da cultura em geral, aplicando a isso noções de estágios
culturais (ORTNER, 2011).
Julian Steward, por sua vez, desenvolveu uma teoria de ampla aplicação na
Arqueologia emergente desse período, a Ecologia Cultural. Diferente de White, Steward
abandonou a ideia de uma evolução cultural em geral e adotou a metodologia da
evolução multilinear. Para ele
culturas específicas evoluem em formas específicas no processo
de adaptação a condições ambientais específicas, e que a aparente
uniformidade dos estágios evolutivos é de fato uma questão de
adaptações similares às condições naturais similares em diferentes
partes do mundo (ORTNER, 2011, p. 426).
Assim compreende-se que, para Steward, a principal mudança na evolução das
diferentes culturas é impulsionada pela troca entre essas e o meio ambiente. A visão
adaptacionista da Ecologia Cultural foi corroborada pela influência da teoria de sistemas
que, por sua vez, teve grande influência na forma como os “novos arqueólogos” abordavam
os sítios e a própria dimensão de um sistema cultural passado. A abordagem sistêmica
estava intimamente ligada aos estudos em ecologia, visto que a interdependência dos
organismos vivos era reconhecida desde o século XIX.
36
INTERESSANTE
Orientado pela sua teoria da Ecologia Cultural, Julian Steward organizou, ao longo da década
de 1940, um compilado de obras em seis volumes intitulada Handbook of South American
Indians. Os livros reúnem contribuições de diversos pesquisadores do período, expondo
temas pertinentes a história, antropologia, linguística e Arqueologia dos diversos povos ao
longo da América do Sul. Steward divide as culturas sul-americanas baseadas em uma lógica
de determinismo ambiental, agrupando-as em regiões geográficas a partir de
seu grau de complexidade. As culturas dos Andes estariam representando
as Altas culturas, o auge da civilização, as culturas caribenhas, as culturas
das tribos das florestas tropicais, e, por fim, as culturas do Grande Chaco e
leste brasileiro, consideradas marginais e sem estratificação social, as quais
a Arqueologia tem conseguido desconstruir com grande êxito essas velhas
e engessadas percepções. Apesar de manter em seu cerne uma lógica de
determinismo ambiental, as informações dos volumes são muito ricas e
detalhadas, mas, quando utilizadas, é importante que a sua leitura seja de
forma crítica e filtrada.
Inspirado nesse escopo teórico, o arqueólogo norte-americano Lewis Binford
inaugura a abordagem da Arqueologia Espacial, totalmente assentada na Arqueologia
Ambiental, visto que, possui como norte a análise das áreas de captação de recursos
e como elas estão intimamente relacionadas às áreas residenciais em populações
caçadoras-coletoras (BINFORD, 1982). Na análise de captação, Binford (1982) estabelece
diferentes zonas de alcance, a partir do acampamento residencial, que seriam mais
ou menos exploradas pelos grupos humanos. Dentre as contribuições do arqueólogo
também se destacam as chamadas Teorias de Médio Alcance. Segundo Dias (2000, p. 8),
"as pesquisas de médio alcance de Binford centraram-se na explicação da variabilidade
de registros arqueológicos associados a grupos caçadores coletores, proporcionando
uma nova base de reflexão e ação para os estudiosos do tema”. Para o arqueólogo,
a variabilidade encontrada no registro arqueológico estava intimamente relacionada
ao tipo de atividade que ocorreu naquele local, concebendo três categorias de
artefatos: tecnoeconômicos (technomic), sociotécnicos (socio-technic) e ideotécnicos
(ideotechnic). O primeiro tem o seu contexto funcional diretamente em contato com
o ambiente físico, constituindo o subsistema tecnológico dentro do sistema cultural;
o segundo está relacionado ao subsistema social; ao passo que o terceiro remetia ao
sistema ideológico, que por sua vez, faz parte do subsistema social (BINFORD, 1962).
Focados nos processos culturais que geravam o registro arqueológico, a Nova
Arqueologia também é conhecida como Processualismo. Nesse sentido, outro grande
representante da Arqueologia processual foi o arqueólogo Michael Schiffer, focado em
compreender a formação do registro arqueológico, que ao seu ver, incluía elementos
de origem antrópica e natural. Para ele, os artefatos e outros elementos recuperados
arqueologicamente estavam inseridos em um sistema adaptativo e depositados dentro
de uma matriz sedimentar. Posteriormente, esses materiais passam por uma dinâmica
a qual outros processos culturais e naturais atuam sobre eles, e por conta disso, as
37
inferências sobre as propriedades de interesse arqueológico dentro desse sistema
podem não ser o melhor caminho. Ao invés disso, o arqueólogo deve identificar e levar em
conta os processos de formação (SCHIFFER, 1983). Os processos de formação culturais
estão orientados pela dinâmica que os elementos sofreram durante sua vida, divididos
em procura, manufatura, uso, manutenção, descarte e, quando não necessariamente
seguem um caminho unilinear por meio do sistema, a reciclagem (SCHIFFER, 1972). Os
processos naturais, por sua vez, atuam então sobre esses elementos depositados, que
se encontram no contexto arqueológico, por meio de intemperismo, erosão, bioturbação
etc.
4 ARQUEOLOGIA PÓS-PROCESSUAL
A Arqueologia Processual representou grandes avanços para a metodologia
arqueológica, dando ênfase nas relações inter e intrassítios e não somente nos artefatos
em si, entretanto a crença de que os seres humanos eram totalmente reféns das
mudanças ambientais e que somente estas poderiam impulsionar as mudanças culturais
limitava o entendimento da Arqueologia acerca das sociedades humanas. Assim, o rigor
científico, a falta de flexibilidade em suas opiniões e o caráter alheio aos problemas
sociais contemporâneos tornou a “Nova Arqueologia” passível de diversas críticas.
Essas “abordagens radicais”, segundo Earle e Preucel (1987), rejeitavam o positivismo
e possuíam um grande interesse em compreender a distribuição espacial da cultura
material por meio da construção de analogias estruturais significativas. O foco recaiu
sobre o simbolismo, o estruturalismo e o marxismo estrutural, fazendo que as novas
teorias emergentes permitissem a análise das relações políticas e sociais, ignoradas
pelas abordagens positivistas (EARLE; PREUCEL, 1987).
Essas novas teorias consagraram-se como Arqueologia Pós-Processual.
Segundo Patterson (1989), as concepções de cultura e história para os pós-
processualistas eram mais amplas, quando a cultura não pode ser concebida como algo
fora de si mesma, ao contrário, ela está diretamente relacionada às realidades diárias
das sociedades historicamente concretas e específicas. Um dos principais autores
desse novo movimento foi o arqueólogo britânico Ian Hodder. Segundo Hodder (1987),
embora a Arqueologia se dedique ao estudo dos restos materiais, não há como separá-
los de seu idealismo, visto que o mundo ideal se constrói a partir do mundo material,
portanto, são indissociáveis. Da mesma forma, a Arqueologia Pós-Processual amplia
uma visão focada nos grupos, para também priorizar o indivíduo, considerando que as
ações e os feitos individuais também afetam o contexto de dado grupo. Outra questão
relevante elencada por Hodder (1987) fala da objetividade e subjetividade. Apesar dos
dados gerados pelo arqueólogo serem reais, os significados atribuídos a eles fazem
parte do próprio contexto social e atual do pesquisador, dessa forma, a Arqueologia,
ao utilizar-se do passado, pode contribuir para grandes reflexões críticas acerca do
presente. Conforme Hodder (1987, p. 26)
38
la interpretación del pasado debe implicar también el intento de
recuperar la creatividad de las acciones sociales. Los arqueólogos no
deben de ser sólo antropólogos que apliquen teorías generales, sino
también historiadores, sensibles al contexto particular que estudian,
que intentan recrear la intencionalidad del actor.
Nesse sentido, a cultura material passa a ganhar um destaque não apenas como
um reflexo da cultura, mas a constitui ativamente, ou seja, um meio em que os valores,
ideias e distinções sociais são legitimados, reproduzidos ou transformados (LIMA, 2011).
Visto que a cultura material está repleta de signos, assim como a linguagem, ela pode
ser considerada como um texto a ser lido pelo arqueólogo. Para os pós-processualistas,
os significados produzidos pela Arqueologia se situam sempre no presente e abarcam as
suas ressonâncias políticas e sociais (JOHNSON, 2000), fazendo com que a Arqueologia
não reconstrua o passado conforme a concepção dos processualistas, mas o crie,
existindo múltiplas construções de passado. Segundo Shanks (2008), a Arqueologia
pós-processual não é uma escola teórica que visa substituir a Arqueologia processual,
mas sim um fenômeno acadêmico autocrítico que busca o renovado interesse por
cognição/comunicação e simbolismo, tal como uma crença na criatividade cultural.
Segundo Barrett (2001), as principais teorias que inspiraram os arqueólogos
pós-processualistas são o estruturalismo e o marxismo. A primeira postula que as
categorias pelas quais o mundo é conhecido não são inerentes a esse mundo, ou seja,
independentes dos seres humanos, mas sim fruto das ações humanas sobre esse
mundo. Essa perspectiva se difere da Arqueologia Processual ao levar em consideração
a agência humana, e não somente respostas adaptativas ao ambiente. O marxismo,
por sua vez, busca o entendimento e interpretação das ordens simbólicas que levam e
sustentam as assimetrias de poderes entre as classes sociais.
Percorremos aqui um longo caminho entre as principais teorias da Arqueologia,
seus contextos e inspirações. A escolha, por parte do histórico-culturalismo, se deu
pela sua recorrência ainda presente na Arqueologia, principalmente no Brasil. Como
já destacado, embora paradigmáticas de seu próprio tempo, as teorias arqueológicas
não possuem um efeito de substituição, ou seja, elas não deixam de ser abordadas
somente porque novas perspectivas surgiram. Um grande exemplo é a Arqueologia
Processual, a qual trouxe grande parte da metodologia científica da Arqueologia que
debateremos no último subtema, amplamente utilizada até hoje, mesmo as teorias
aplicadas à interpretação não se limitam ao mesmo escopo processualista. A única coisa
em mente que o(a) futuro(a) arqueólogo(a) deve ter é a sua responsabilidade frente ao
conhecimento que está sendo construído sobre o passado, seja ele em um passado
distante ou recente.
39
5 METODOLOGIAS DA ARQUEOLOGIA
Antes de começarmos a conhecer um pouco dos principais métodos utilizados
na investigação arqueológica, é necessário explorarmos o conceito da unidade básica
dessa investigação, os sítios arqueológicos. Segundo Renfrew e Bahn (2012), eles
podem ser pensados como lugares onde os artefatos, características, estruturas e
restos orgânicos e ambientais são encontrados em conjunto, ou ainda, simplesmente
locais onde existem vestígios significativos da presença humana. Para Dunnell (1992),
eles são fenômenos acrescidos, visto que a relação histórica de suas peças é altamente
variável e não diretamente correlacionada com a proximidade espacial. Da mesma forma,
Dunnell (1992) também aponta a deficiência do conceito de sítio, pois estabelece áreas
de interesse arqueológico em meio a áreas que não possuem essa mesma relevância à
primeira vista, podendo destruir o registro arqueológico e prejudicar nossa compreensão
do passado. Mesmo assim, o conceito ainda predomina na Arqueologia, principalmente
em pesquisas de salvaguarda, embora se tenha feito um esforço cada vez maior para
compreender esses “sítios” em relação a sua paisagem, concebendo-as como partes de
territórios ancestrais.
Nem sempre os sítios arqueológicos estão sob a terra, como o caso de
monumentos e grandes estruturas, como as pirâmides, castelos medievais, casarões
históricos, antigas fábricas, dentre outros. Por isso, a escavação não é uma prática
obrigatória à Arqueologia, ou seja, uma pesquisa arqueológica não necessariamente
terá alguma utilidade para a escavação, embora muitas vezes, mesmo em relação a
grandes estruturas, o pesquisador sinta necessidade de escavar os seus arredores.
Assim, a escavação é apenas uma metodologia da Arqueologia e não a sua característica
principal. Talvez ainda mais importante do que a escavação seja a etapa de prospecção.
5.1 PROSPECÇÃO ARQUEOLÓGICA
A prospecção parte de uma pesquisa prévia sobre determinado local, a qual
reunirá informações importantes que serão alinhadas aos objetivos de pesquisa vigente.
Ela serve para o reconhecimento do território em questão para que, posteriormente,
possam ser definidas outras etapas da pesquisa. Nesse processo, há a delimitação de
lugares de interesse que são incluídos na categoria de sítios arqueológicos, e a decisão
de haver necessidade ou não de algum tipo de intervenção. Segundo Renfrew e Bahn
(2012), existem dois tipos de prospecção: o reconhecimento em solo e o reconhecimento
aéreo.
O primeiro inclui a consulta de fontes documentais, mas principalmente o
trabalho de campo. Durante o trabalho de campo, o diálogo com a população local
é fundamental para que possam ser definidas as áreas de interesse arqueológico,
especialmente quando os vestígios não forem proeminentes na paisagem. Além disso,
Renfrew e Bahn (2012) destacam como nos últimos anos os arqueólogos têm se voltado
40
ao impacto da atividade humana nas paisagens, nas quais muitas vezes não existem
tantos artefatos, embora sejam áreas de atividade humana significativa. Essa etapa
de reconhecimento de superfície inclui caminhadas que podem ser assistemáticas ou
sistemáticas (RENFREW; BAHN, 2012): a primeira é mais simples, pois consiste em andar
em uma área, definindo onde se encontram as maiores concentrações de artefatos que
podem ou não serem coletados; a segunda define previamente uma grade, ou transect,
dentro da área de pesquisa, delimitando os caminhos a serem percorridos, dessa forma
não há risco de uma área ser sub ou super-representada, além de tornar mais fácil a
localização das descobertas, visto que sua posição exata já é conhecida.
O segundo método de reconhecimento é o aéreo, cada vez mais utilizado pela
Arqueologia, devido ao avanço das tecnologias nesse setor e a facilidade para detectar
áreas de interesse arqueológico sem perder o tempo com dias de caminhada. A utilização
de sensoriamento remoto aéreo e espacial serve para duas etapas da pesquisa, tanto
a coleta de dados, por meio de imagens e fotografias áreas de satélite ou aeronaves,
quanto a análise de dados desse mesmo material, que será interpretado e até mesmo
integrado (RENFREW; BAHN, 2012). Posteriormente, a integração dos dois tipos de
reconhecimentos gerará importantes informações por meio da confecção de mapas
topográficos e planimétricos, assim como o uso do Sistema de Informações Geográficas
(SIG). O SIG consiste em programas e processos de análise que utiliza uma base de
dados computadorizados, os quais se baseiam em uma tecnologia de armazenamento,
análise e tratamento de dados espaciais, não espaciais e temporais (TEIXEIRA; MORETTI;
CHISTOFOLETTI, 1992).
5.2 ESCAVAÇÃO ARQUEOLÓGICA
Como já destacado, apesar de nem sempre ser necessária para o tipo de
pesquisa arqueológica estabelecido, a escavação ainda consiste em um importante
método. Segundo Renfrew e Bahn (2012), a distinção entre lapsos de tempo horizontais
e sequências verticais é o que determina as metodologias de escavação. A dimensão
horizontal lida com uma contemporaneidade a partir da associação de artefatos que
pertenceriam ao mesmo tempo e espaço, enquanto a vertical lida com a disposição dos
artefatos e estruturas ao longo do tempo, por meio do estudo da estratigrafia.
Segundo Harris (1991), existem quatro leis básicas da estratigrafia arqueológica,
fortemente inspiradas pela geologia. A primeira delas é a lei da sobreposição, que
consistem em uma série de estratos e interfaces em que as unidades superiores são as
mais recentes, ao passo que as unidades inferiores são as mais antigas. A análise dessas
interfaces entre os estratos é o que determina o estudo da sequência estratigráfica de
um sítio (HARRIS, 1991). A segunda lei é a de horizontalidade original, a qual estabelece
que todo o estrato arqueológico que foi depositado de forma não sólida, ou seja, de
forma rígida, tende à posição horizontal. Assim, essa lei remete aos estratos em si e ao
ato de deposição.
41
A terceira lei refere-se à continuidade original, a qual postula que todo o
depósito arqueológico é delimitado por uma cavidade que vai diminuindo sua espessura
progressivamente em direção aos lados. Harris (1991) chama atenção para se um
depósito apresentar uma face verificar abrupta em suas extremidades, indicando que
a continuidade foi perdida, seja pela escavação, seja por erosão. A última lei é a de
sucessão estratigráfica, e é a única de todas que tem origem puramente na Arqueologia
e não na Geologia como as demais. Essa lei coloca que uma unidade de estratificação
arqueológica ocupa um lugar exato na sequência estratigráfica de um sítio, entre a
mais baixa dentre as unidades que a cobrem, e a mais alta dentre as unidades que ela
mesmo cobre, tendo contato com todas elas. A partir desta última lei, temos a criação da
Matriz de Harris, um desenho gráfico que visualiza como as unidades de estratificação
arqueológica estão conectadas entre si e dispostas na sequência estratigráfica.
A delimitação dessas unidades passa por determinadas características como
cor, textura, granulometria etc., que, ao serem escavadas, determinam um método de
escavação por camadas naturais. Muitas vezes, essas unidades não são diagnosticáveis,
onde há uma certa homogeneidade nos componentes de um depósito arqueológico,
dessa forma, é necessário aplicar o método de escavação por camadas artificiais,
ou seja, definir um tamanho exato para cada camada, por exemplo, 10 cm ou 20 cm,
método muito aplicado na escavação de sítios arqueológicos no Brasil. Assim, todos os
métodos de escavação precisam ser adaptados às questões da pesquisa pretendida,
assim como a natureza do local de escavação (RENFREW; BAHN, 2012). Dentre os tipos
de escavação, Renfrew e Bahn (2012) destacam o método das quadrículas, que consiste
em uma grade delimitada, na qual algumas ou a totalidade de quadrículas podem ser
escavadas; assim como o método de escavação em área aberta, no qual grandes áreas
são privilegiadas sem o uso de nenhum tipo de barreira, apenas orientada pelo corte de
seções verticais.
5.3 OS MÉTODOS DE DATAÇÃO ARQUEOLÓGICA
Outra forma de compreender e elucidar a estratigrafia de um sítio arqueológico é
por meio da sua cronologia. A partir da cronologia o arqueólogo é capaz de compreender
as relações sincrônicas e diacrônicas de um sítio, assim como estabelecer por quanto
tempo ele foi ocupado, se houve uma ou mais ocupações, por quanto tempo elas estão
separadas, se podem estar relacionadas ao mesmo grupo, dentre tantas outras questões.
Como vimos, as primeiras noções cronológicas aplicadas a Arqueologia consistiam em
uma datação relativa, baseada nos atributos dos artefatos, que dependendo de sua
complexidade, colocava-os como mais antigos ou recentes. Quando possível, ainda
eram e são utilizados documentos escritos que auxiliam a contextualizar os achados
arqueológicos no tempo. Com o avanço de tecnologias na área das geociências, a
Arqueologia se apropriou dos métodos de datação para compreender as diversas
sociedades humanas ao longo do tempo, e a vantagem era que grande parte dos
materiais deixados por elas ou encontrados em contextos associados eram passíveis
de serem datados.
42
Um dos principais métodos de datação utilizados na Arqueologia é por meio
do radiocarbono. De maneira simples, todos os seres vivos possuem carbono em sua
composição e no momento de sua morte, um tipo de isótopo de carbono – o C14 –, que
passa a diminuir gradualmente ao longo do tempo. Com a determinação de sua meia-
vida, ou seja, quanto tempo ele demora para se extinguir pela metade, os cientistas são
capazes de dizer o quanto de C14 decaiu, e, assim, determinar a idade de tal objeto.
Como somente seres vivos produzem carbono, as amostras que são possíveis de serem
datadas pelo método do radiocarbono são de origem orgânica, como ossos e carvão.
Sua precisão varia entre 50 e 100 anos e o seu alcance temporal vai até no máximo 50
mil anos antes do presente (AP) (RENFREW; BAHN, 2012).
Há também o método por Termoluminescência (TL), que data os minerais
enterrados no solo que foram expostos ao fogo. Os materiais mais datados por esse
método são as cerâmicas, mas também é possível datar blocos de argila que foram
queimados, ou ainda, partes de estruturas. Conforme Renfrew e Bahn (2012) método
segue a mesma lógica de decaimento radioativo da datação por C14, entretanto, a
datação por TL marca o momento em que a radiação é liberada por meio do aumento
da temperatura a mais de 500 °C, “zerando o relógio radioativo”. A sua precisão varia
entre 5% e 10% e o seu alcance temporal pode chegar até um milhão de anos, sendo
interessante em contextos em que não existem amostras orgânicas que possam ser
datadas pelo método de radiocarbono, assim como idades que estão fora do alcance
deste último método (SUGUIO; TATUMI; BARRETO, 2003).
NOTA
O significado de AP
Nomenclatura que significa Antes do Presente, utilizada no método de
datação absolutapor radiocarbono, indicando o limite do presente em 1950.
Muitas vezes aparecem associadas a sigla cal. que significa calibrada. A
calibração é realizada tendo em vista as diferentes concentrações de carbono
na atmosfera ao longo do tempo, interferindo na proporção do isótopo.
Outros métodos de datação utilizados na Arqueologia incluem a
dendrocronologia, a qual se baseia nos anéis de crescimento das árvores, entretanto,
ele é mais aplicado em regiões de clima temperado, visto que as espécies arbóreas da
zona tropical não produzem anéis de crescimento característicos. Há também outros
métodos que utilizam elementos radioativos, como a datação por Potássio-Argônio (K-
Ar), que data rochas vulcânicas e tem o alcance temporal mais antigo que 80 mil anos
AP, e a datação por Urânio (U) que data rochas ricas em carbonato de cálcio e dentes,
com o alcance entre 10 mil e 500 mil anos AP. Estes dois últimos métodos são os mais
43
utilizados para datas amostras de sítios relacionados aos ancestrais humanos na África,
assim como o surgimento de nossa própria espécie e o seu processo de migração ao
longo dos continentes.
Por fim, podemos dizer que completamos uma volta de 360°. Iniciamos
com os debates teóricos acerca do tempo histórico e cronológico, os quais estão
intrinsecamente ligados ao espaço em que se originam e estudam, passando pelas
definições de Arqueologia, como essa ciência humana estuda as sociedades no tempo
e espaço, quais as semelhanças e diferenças em relação a outras áreas das ciências
humanas e sociais, a história dessa disciplina, suas principais teorias e métodos de
pesquisa, e, finalmente, detendo-se a um desses métodos, as datações absolutas,
como a Arqueologia trabalha com a questão cronológica a fim de situar os contextos
arqueológicos no tempo histórico.
Esta unidade introdutória pretendeu familiarizar o acadêmico com conceitos
básicos da disciplina e de seu funcionamento, para, posteriormente, nas demais
unidades, se aprofundar em temas de estudo específicos da área.
44
LEITURA
COMPLEMENTAR
NEM TEMPO, NEM MÉTODO. NEM HISTÓRIA, NEM ANTROPOLOGIA. O QUE É
ARQUEOLOGIA?
Beatriz Valladão Thiesen
Martial Pouguet
Ainda que várias proposições tenham surgido ultimamente, demonstrando
um momento de grande fertilidade do pensamento teórico na Arqueologia, ainda se
mantém fortemente arraigada: Arqueologia é o estudo do passado das sociedades
humanas tendo a escavação como metodologia emblemática. Esta definição considerou
implicitamente, mesmo aceitando que o arqueólogo não faz só escavar, que sem
escavação não há Arqueologia. Além disto, ela foi teoricamente vinculada à História, ou
à Antropologia.
Não objetivamos aqui dar mais uma definição que se pretenderia melhor que
as demais, mas avaliar a situação e tentar eliminar aquelas que francamente não
funcionam. Alguns falam de uma crise da Arqueologia frente a essa legião de definições,
porém, se é verdade que uma ciência em crise tem vontade de se redefinir, qualquer
ciência que faz uma autoreflexão, que se autocritica, está sempre em crise. As crises
científicas são sintoma de boa saúde de uma ciência e, partindo disso, a definição de
uma ciência é um exercício de saúde, um tipo de “higienização”.
Geralmente as definições apresentadas o são de forma peremptória (a
Arqueologia é isso e aquilo) que lhes dão um caráter dogmático e servem somente para
justificar rejeições, cortes, limitações, fronteiras e submissões. O problema é que elas são
geralmente a justificação de práticas profissionais, do ofício, que servem (consciente ou
inconscientemente) de fundamentos a essas mesmas definições. Em outras palavras:
se define o que se faz na base do que se faz para justificar o que se faz. Podemos sentir
a tautologia, às vezes mal escondida, de tal circularidade.
Mais raras são as definições estabelecidas acerca da base de discussões
epistemológicas, ou seja, definições apoiadas em seu objeto científico, seu objetivo e sua
finalidade, porém, mesmo nesses raros casos, os dados foram muitas vezes lançados
de antemão, resultando em apoios confortáveis, mas epistemologicamente enviesados,
que querem consolidar o status quo de uma prática tradicional do fazer arqueológico
para o qual se sente a necessidade de dar um verniz de cientificidade. Aqui também
podemos sentir a tautologia, porém, desta vez, bem escondida.
45
A busca pelo reconhecimento da cientificidade tem sido fundamental na
definição da Arqueologia, mas de que cientificidade se fala?
As ciências da natureza se deram o direito (pelo prestígio adquirido dos seus
sucessos na previsão dos fenômenos naturais e nas aplicações técnicas) de definir
todas as demais ciências e de se tomar como referências. De fato elas consideram que
é preciso fundar as ciências como se estas nunca teriam existindo ainda.
Não pode ser questão aqui de excluir sistematicamente das ciências
do espírito humano alguns procedimentos das ciências da natureza
quando estes manifestam sua fecundidade; porém a redução das
ciências do espírito às ciências da natureza, longe de favorecer a
sua eclosão, coloca entraves ao seu desenvolvimento pelo fato de se
fundar em outro tipo de inteligibilidade. A consequência disto é que
é preciso considerá-las como ciências autônomas maiores (FREUND,
1973, p. 82).
Ora, as ciências humanas (ou do espírito, conforme a época) são tão antigas
quanto as da natureza. Isto significa: 1) que elas são tão bem fundadas quanto as
ciências formais e da natureza; 2) que elas são autônomas; 3) que quando se observe a
história da sua fundação e do seu desenvolvimento (como o preconiza DILTHEY, 1942),
só podemos constatar que sua natureza e sua dinâmica são diferentes daquelas das
ciências formais e da natureza e que, portanto, devem ser diferentes os critérios da sua
definição, do estabelecimento da sua teoria e das suas metodologias. “Essas ciências
cresceram no meio da prática da vida” (DILTHEY, 1942, p. 36). O que significa que o seu
objeto não tem uma natureza imutável por obedecer a leis constantes, o seu objeto
é “um conjunto de obras e de convenções que o homem teve de criar primeiro para,
depois, desenvolver a ciência destas” (FREUND, 1973, p. 83).
Seguindo esse raciocínio, a Arqueologia não precisa tomar como modelo as
ciências formais ou da natureza para construir a sua definição, quer dizer, seu objeto
científico, ou para elaborar a suas metodologias.
Determinar o objeto de uma ciência significa “especificar um tipo de olhar sobre
a realidade, [...] [além de] especificar os aspectos dos fenômenos que dependem dela
e rejeitar aqueles que ficam fora do seu campo de investigação” (SOLER, 2000, p. 18).
O problema é que os objetos de uma ciência não existem em si no mundo. É a própria
ciência quem os determinou no decorrer da sua constituição.
Se olharmos para a história da Arqueologia, podemos constatar que aquilo que
interessava os “ancestrais” desta ciência, os antiquaristas, eram os objetos de qualquer
tipo, os remanescentes da Antiguidade. É, aliás, interessante ver que um desses
antiquaristas, Jacob Spon, forneceu uma definição daquilo que chamava Arqueografia:
“O conhecimento daquilo que os Antigos quiseram ensinar à posteridade da sua religião,
das suas ciências, da sua história, e da sua política, pelos monumentos originais que
nos deixaram” (SPON, 1679, p. 63; SPON, 1685, p. V). Spon divide sua ciência em oito
46
disciplinas dentre das quais figuram a aquitectografia, definida como “a descrição dos
edifícios antigos, templos, arcos de triunfos, teatros, pirâmides, obeliscos, banhos,
aquedutos, portos, caminhos públicos, termais, miliares, máquinas de guerra, bastiões,
torres, tumbas, mausoléus etc.” (SPON, 1679, p. 65) e a Angeiografia, entendida como
o vasto e espinhoso estudo que explica os pesos, os vasos
e as medidas, os instrumentos para a agricultura e para
o doméstico, aquilo que pertencia aos jogos, às roupas,
à navegação, e as mil outras coisas cujo exame não pode
facilmente ser relacionado às ciências anteriores e que
acreditamos poder chamar do nome de Angeia apesar de
não ser geral o suficiente (SPON, 1679, p. 70).
Spon se depara aqui, indubitavelmente, com o enorme universo dos objetos
inclassificáveis nas categorias da sua época. As demais disciplinas são a numismática,
iconografia (que ele divide em iconografia, gliptografia e toreumatografia), epigrafia e
bibliografia (que chamaríamos agora de paleografia), todas disciplinas contempladas
pela Arqueologia atualmente, segundo as suas necessidades.
Mas a questão da cientificidade está ligada à necessidade de reconhecimento
da comunidade científica por parte da Arqueologia, e à sua sobrevivência acadêmica. E
é aqui que a Arqueologia se rendeu por muito tempo à Antropologia, especialmente nos
países anglo-saxões, e à História, sobretudo na Europa continental. Conforme Tramasoli
(2017), a Arqueologia assegurou sua presença institucional na academia vinculando-se
aos já existentes centros de História, ou Antropologia,
a partir da premissa de que cabe a ela o trato dos
vestígios do passado, seja a partir da adaptação das
teorias antropológicas a eles, seja a partir da competência
exclusiva do saber recuperar a dimensão material que
serve de fiadora do discurso histórico (TRAMASOLI, 2017,
p. 192).
As práticas profissionais, como se vê, vão muito além das técnicas e métodos
cotidianos empregados pelo arqueólogo no desempenho do seu ofício e incluem,
inclusive, o lugar do arqueólogo nas disputas por espaço e reconhecimento acadêmicos.
Isso, por si só, parece um bom argumento para não aceitar uma definição da Arqueologia
elaborada na base da atividade profissional dos arqueólogos. Ainda assim, pensamos
que é útil discutir alguns pontos - a partir dos argumentos de Bruneau e Balut (1997, p.
36) - que chamaremos aqui de transbordamento e entrincheiramento.
No transbordamento, temos o arqueólogo que se dedica a outras atividades
que, apesar de tudo, podem servir à Arqueologia. Por exemplo, é possível dedicar-se à
química por razões arqueológicas, mas não significa que a química define a Arqueologia,
ou que ela seja um elemento fundamental na sua definição. Igualmente, se o arqueólogo
precisar mergulhar, não significa que o mergulho seja uma metodologia que pertence
à Arqueologia. Tudo o que faz um arqueólogo não é necessariamente Arqueologia,
47
portanto tudo o que faz um arqueólogo não pode servir para definir a Arqueologia. Para
distinguir o que é arqueológico daquilo que não o é nas atividades do arqueólogo, é
necessário ter primeiramente uma definição da Arqueologia. Dizendo de outra maneira,
é porque se tem na cabeça uma definição da Arqueologia (nem sempre claramente
enunciada e nem sempre consciente) que é possível dizer de tal ou qual atividade que
ela é, ou não, arqueológica.
No entrincheiramento, temos, por assim dizer, o movimento inverso: um cientista,
no lugar de ultrapassar a sua ciência, pode se entrincheirar em uma especialidade
desta. Alguns podem se especializar no estudo das cerâmicas, por exemplo, o que não
significa que a Arqueologia se resume a isso, porém, estranhamente, no que concerne à
escavação (uma tarefa específica de duração bem delimitada), a Arqueologia parece ser
totalmente dependente dela.
Parece que a escavação se transformou, tanto na comunidade científica, como
no público em geral, em um critério tradicional de definição fundamental. É importante
demostrar porque essa tradição deve ser eliminada.
Essa tradição parece remontar às escavações de Pompéia e Herculano, e talvez
antes. De todas as maneiras, como os vestígios que interessavam na época estavam
muitas vezes enterrados, era necessário escavar (não importa aqui os aspectos
técnicos). O aspecto muitas vezes espetacular e abundante dos achados só fez
reforçar o interesse. Os procedimentos de escavação foram aprimorados e discutidos
regularmente (já se tem tratados sobre o assunto desde o século XVIII) sem que ninguém
se importe com a mesma dedicação à definição da disciplina – que, aliás flutuava
alegremente na terminologia: arqueografia, Arqueologia, antiguidades, Pré-História,
estudos antediluvianos. Gabriel de Mortillet (1885) falou até de paleoetnologia, termo
que Leroi-Gourhan retomou, porém com outro propósito. Esse paradoxo contribuiu por
deslocar a preocupação com a cientificidade da ciência para a “tecnicização” de uma
das suas práticas de observação.
Hoje se aceita considerar que a Arqueologia não se reduz à escavação, mas
se continua pensando “que sem a escavação não existe Arqueologia. Assim o estar
enterrado se mostra como um critério de arqueologicidade” (BRUNEAU e BALUT, 1997,
p. 37). Essa concepção desemboca em uma tripla consequência:
1) a Arqueologia estuda somente o enterrado, ou
2) a Arqueologia só estuda o antigo, o que está em desuso, o obsoleto; e quando
estuda o que está ainda em uso, é para entender aquilo que está em desuso. O
critério é o da obsolescência.
3) a Arqueologia faz da escavação a sua especialidade e sua especificidade quando,
na realidade, esse método é usado por outras ciências como a paleontologia – com
a qual é tantas vezes confundida! Se a escavação é um critério de definição de
ciência então efetivamente paleontologia e Arqueologia são a mesma coisa.
48
Se a obsolescência nos salva de uma concepção unicamente escavadora, ela
nos fecha o acesso à atualidade e nos encerra no passado por mais recente que seja. Não
saímos de uma Arqueologia que estuda só o passado. Fora o fato que uma Arqueologia
da atualidade orientada para a atualidade é descartada – mas que sempre podemos
realizar por simples teimosia, arriscando ser marginalizados, senão desprezados -, o
principal problema reside no fato que se perde de vista o fato de que, se o passado serve
para entender o presente, o presente constrói o passado (OLIVIER, 2008).
Tal definição erguida sobre a escavação, o enterrado, ou o obsoleto reduz
a Arqueologia ao seu archeos, a confinando no archaion (o passado), e rejeita o seu
archai (princípio primeiro, fundamento). Se a Arqueologia quer absolutamente estudar
o passado do mais antigo ao mais recente (FUNARI, 2003), ela deve estudar, ou pelo
mínimo entender, o seu presente e, ao mesmo tempo, situar-se nele (a Arqueologia,
a comunidade arqueológica e o arqueólogo). Se a Arqueologia pode ser o estudo das
origens longínquas, ela é também a ciência do tempo presente que contempla e define
essas origens. Fazendo ressurgir as coisas do passado no presente, a Arqueologia
os transforma em coisas do presente, “assim não é tanto a lembrança do passado
revelado, que a Arqueologia faz ressurgir, quanto uma memória movente do passado,
cujo significado se estabelece unicamente na e pela atualidade” (OLIVIER, 2008, p. 15).
Portanto, a Arqueologia não conta o passado; ela deixa essa tarefa à
História. A Arqueologia dá conta do passado atualizando-o para reavivar a memória atual.
Reflexivamente ligada à contemporaneidade, a Arqueologia transforma sua relação com
os vestígios à medida que mudam “as condições de experiência da realidade material do
mundo” (OLIVIER, 2008, p. 16) presente. E a transformação dos modos de representação
da Arqueologia são os sintomas das transformações dos modos da atualidade de se
representar o mundo: “os materiais arqueológicos podem ser definidos como «objeto-
memórias» funcionando na reiteração e na repetição” (OLIVIER, 2008, p .17).
Mas não é só isso. Tramasoli nos avisa:
é preciso ter uma noção mais coerente do tempo que não se limite
à concepção simplista de que a única relação entre o passado e
o presente é de precedência, e sim de que o tempo é muito mais
complexo do que as nossas tradições arqueológicas permitiram
[pensar] (TRAMASOLI, 2017, p. 195).
Não se trata de ver a passagem de um tempo linear. Trata-se de entender
uma temporalidade distinta daquela que a modernidade nos ensinou. Aquilo que,
ingenuamente, atribuímos ao passado, como contas de vidro, cacos de cerâmica, ou
lascas afiadas, estão aqui e agora. Juntos à câmera fotográfica que registra a descoberta
e à pilha que eventualmente serviu de escala. Mais ainda: o espaço por meio do qual nos
movemos, onde trabalhamos, o sítio arqueológico, guarda marcas e estruturas feitas
num tempo que consideramos passado, mas que estão no presente, nos tocando, nos
impondo condições.
49
Abraçando a proposição de Olsen (2012), consideramos a importância de pensar
a noção de tempo percolante, ou seja, um tempo que não é mais um parâmetro externo,
mas que se impõe a partir das relações entre diferentes entidades de distintos e variados
passados. Vistos desta forma, passado e presente estão completamente mesclados
(TRAMASOLI, 2017).
Além do tempo, o debate na Arqueologia hoje se volta para as coisas. E não por
acaso.
Se há uma constante na Arqueologia é o fato de dedicarmo-nos a
estudar nossa relação com a dimensão material do mundo. A despeito
do modo como entendemos nosso objeto – testemunho, significante,
ente – e, por consequência, de como nos referimos a ele – vestígio,
cultura material, materialidade –, esta é a principal constante
que estabelece a nossa identidade sincrônica e diacronicamente
(TRAMASOLI, 2017, p. 193).
No entanto, esse voltar-se para as coisas, não se dá mais pelo olhar da História
(que sempre viu as coisas como ilustração), ou da Antropologia (que quase esqueceu
que coisas existem), mas vem do interior da própria Arqueologia que busca reconhecer
as qualidades que as coisas sempre possuíram e a diferença que elas causam no
mundo, tanto entre elas, como para os humanos (OLSEN et al, 2012). Essas coisas que
nos constituem, que estão intrinsecamente entrelaçadas a nós.
É esta Arqueologia, sem parâmetros temporais, que não se define por um
método e que pensa a si própria, que defendemos e que esperamos que se firme.
Fonte: THIESEN, B. V.; POUGUET, M. Nem tempo, nem método. Nem história, nem antropologia. O que é
Arqueologia? Tessituras, Pelotas, v. 6, n. 1, p. 13-22, jan./jun. 2018. Disponível em: [Link]
Acesso em: 14 de março de 2022.
50
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu:
• Os principais paradigmas teóricos da Arqueologia que, embora tenham surgido
como críticas às práticas anteriores de seus antecessores, podem ser visualizados
até hoje simultâneos na Arqueologia brasileira. Ao longo do século XX e início do
século XXI, podemos visualizar como os movimentos do histórico-culturalismo,
processualismo e pós-processualismo se desenvolveram. Essas diferentes teorias
lidam com a forma como a Arqueologia pesquisa as suas distintas temáticas.
• Os principais métodos e técnicas empregados na pesquisa arqueológica, desde a
sua elaboração até a aplicação das distintas metodologias. Essas metodologias são
muito múltiplas e podem ou não envolver práticas como a prospecção e a escavação,
levando em consideração que existem práticas arqueológicas não interventistas.
• A forma como a Arqueologia trabalha com o tempo cronológico e histórico por
meio de métodos de datação absoluta, sendo as mais comuns o Radiocarbono,
Termoluminescência e Potássio-Argônio (K-Ar).
51
AUTOATIVIDADE
1 O primeiro grande paradigma teórico da Arqueologia foi o histórico-culturalismo,
que começou a se desenvolver em meados dá década de 1920 nos Estados Unidos,
fortemente influenciado pelas teorias do particularismo histórico e relativismo cultural
de Franz Boas. Ela marcou as primeiras análises clássicas da Arqueologia, como a
tipologia e a seriação dos artefatos, e repercutiu no desenvolvimento da Arqueologia
de muitos países, como o Brasil. Ao considerar a teoria histórico-cultural, assinale a
alternativa CORRETA que expresse os principais objetivos dos arqueólogos adeptos a
essa teoria.
a) ( ) Ao analisar os artefatos, os histórico-culturalistas buscavam estabelecer
datações relativas que organizassem os objetos dos mais simples e mais antigos
aos mais complexos e recentes, buscando relacioná-los com etnias culturais.
b) ( ) Com base na seriação dos artefatos, os histórico-culturalistas buscavam a
origem dos materiais empregados na confecção desses, mapeando os locais de
localização dos recursos.
c) ( ) Ao estabelecer as seriações, os histórico-culturalistas buscavam estabelecer
quais eram as inspirações artísticas utilizadas pelos indivíduos ao produzirem os
artefatos.
d) ( ) Mediante classificação e catalogação dos artefatos, os histórico-culturalistas
buscavam ideias para elaborar as exposições dos museus.
2 Muitas pesquisas arqueológicas dependem de uma metodologia de escavação para
acessar os vestígios pretendidos de serem estudados. A escavação segue uma lógica
pré-determinada e controlada que pode se modificar conforme o seu andamento para
atender as principais perguntas que o arqueólogo se faz durante a pesquisa. Nesse
sentido, ela não consiste em uma prática simples e desenfreada de “cavar buracos”
no solo. Para a organização de uma escavação e compreensão do sítio arqueológico,
é fundamental que se tenha noção dos princípios básicos de estratigrafia. O
arqueólogo Edward Harris foi responsável por estabelecer esses princípios na prática
arqueológica. Levando em considerações os princípios de estratigrafia arqueológica,
assinale a alternativa CORRETA.
a) ( ) Lei da bioturbação, lei da continuidade original, lei da seriação artefatual e lei da
sucessão artefatual.
b) ( ) Lei da sobreposição, lei da horizontalidade original, lei da continuidade original e
lei da sucessão estratigráfica.
c) ( ) Lei da sobreposição, lei da horizontalidade original, lei da continuidade lateral e
lei da sucessão artefatual.
d) ( ) Lei da bioturbação, lei da horizontalidade original, lei da continuidade lateral e lei
da sucessão estratigráfica.
52
3 A Arqueologia, como uma ciência que lida com o tempo histórico, busca mecanismos
para situar as diferentes dinâmicas das sociedades humanas em períodos do tempo
e do espaço. Para isso, existem diversas técnicas de datação relativa e absoluta. Com
o avanço da tecnologia, a última, que emprega métodos das geociências, é capaz
de estabelecer cronologias e situar as pessoas, seus objetos e suas construções no
tempo e espaço. Com base nas principais técnicas de datação absoluta utilizadas na
Arqueologia, analise as sentenças a seguir.
I- A datação por radiocarbono utiliza o princípio do decaimento de radioatividade do
isótopo de C14, presente em todos os seres vivos, para determinar há quanto tempo
morreu e assim estabelecer sua idade.
II- A datação por radiocarbono utiliza a análise do isótopo de carbono C14, presente na
atmosfera terrestre, que a partir da morte dos seres vivos passa a se acumular em
seus remanescentes, determinando a sua idade.
III- A datação por dendrocronologia utiliza os anéis de crescimento das árvores para
determinar há quanto tempo houve a sua morte e estabelecer a idade, mas só
pode ser utilizada em ambientes tropicais, onde há muita umidade e temperaturas
elevadas.
Assinale a alternativa CORRETA.
a) ( ) A sentença I e III estão corretas.
b) ( ) A sentença II e III estão corretas
c) ( ) Somente a sentença I está correta.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
4 Uma das etapas do trabalho de campo fundamental da Arqueologia é por meio da
prospecção. Mesmo em áreas previamente conhecidas, ela se demonstra necessária
para a elaboração da pesquisa e estabelecer a necessidade de haver algum tipo
de intervenção, como a escavação, ou não, trabalhando apenas com seu aspecto
original. Considerando as metodologias de prospecção, disserte sobre os principais
tipos de reconhecimento, apontando exemplos pertinentes.
5 No final do século XX começa a surgir um movimento teórico dentro da Arqueologia
que questiona as formas como a Arqueologia processual abordava o comportamento
humano e a diversidade cultural. O conjunto de críticas realizadas nesse período recebe
o nome de Arqueologia pós-processual, a qual busca novas formas de entendimento
acerca das sociedades e culturas ao longo do tempo. Baseado nos debates realizados
pelos arqueólogos pós-processualistas, disserte brevemente acerca das principais
críticas elencadas por esses pesquisadores e as suas contribuições para a teoria
arqueológica.
53
REFERÊNCIAS
BARRETT, J. C. Agency, the duality of structure, and the problem of the archaeological
record. In: HODDER I. Archaeological theory today. Cambridge: Cambridge, Polity
Press, 2001.
BICHO, N. F. Manual de Arqueologia pré-histórica. Lisboa: Edições 70, 2012.
BITTENCOURT, C.; NADAI, E. Repensando a noção de tempo histórico no ensino. In:
PINSKY, J. O ensino de história e a criação do fato. São Paulo: Contexto, 1997. p.
73-92.
BITTENCOURT, C. Ensino de História: fundamentos e métodos. 2. ed. São Paulo:
Cortez, 2008.
BINFORD, L. R. Archaeology as anthropology. American Antiquity, [s. l.], v. 28, n. 2, p.
217-225, 1962.
BINFORD, L. R. The archaeology of place. Journal of Anthropological Archaeology,
[s. l.], v. 1, n. 1, p. 5-31, 1982.
BRAUDEL, F. História e ciências sociais: a longa duração. Revista de História, São
Paulo, v. 30, n. 62, p. 261-294, 1965.
BROCHADO, J. et al. Arqueologia brasileira em 1968: um relatório preliminar sobre o
programa nacional de pesquisas arqueológicas. Belém: Publicações Avulsas do Museu
Paraense Emílio Goeldi. n. 12, p. 3-33,1969.
BUTZER, K. Arqueología una ecologia del hombre. Barcelona: Ediciones Bellaterra,
1989.
CAMPOS, L. Sítio arqueológico. In: GRIECO, B.; TEIXEIRA, L.; THOMPSON, A. (org.).
Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. 2. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro; Brasília,
DF: IPHAN; DAF/Copedoc, 2018.
DIAS, A.S. A questão da variabilidade na obra de Lewis R. Binford e sua contribuição
para a construção de uma teoria arqueológica. Revista do CEPA, Santa Cruz do Sul, v.
24, n. 31, p. 7-42, jan./jun. 2000.
DUNNELL, R. C. The notion site. In: ROSSIGNOL, J.; WANDSNIDER, L. (ed.). Space,
time, and archaeological landscapes. Berlin: Springer Science & Business Media,
1992.
54
EARLE, T. K.; PREUCEL, R. W. Processual archaeology and the radical critique. Current
Anthropology, [s. l.], v. 28, n. 4, p. 501-538, August-October 1987.
EVANS, J.G. Environmental archaeology and the social order. London/New York:
Routledge, 2003.
FIEDEL, S. J. Prehistoria de América. Barcelona: Crítica, 1996.
GONÇALVES, M.; RAMOS, C. M.; AMORIM, A. Gabinete de curiosidades: o paradoxo das
maravilhas. Educação: Teoria e Prática, Campinas, v. 22, n. 40, p. 223-238, 2012.
GLASSIE, H. Material culture. Bloomington: Indiana University, 1999.
HARRIS, E. C. Principios de estratigrafía arqueológica. Barcelona: Crítica, 1991.
HASTORF, C; POPPER, V. Current paleoethnobotany: analytical methods and
cultural interpretations of archaeological remains. Chicago: The University of
Chicago Press, 1988.
HODDER, I. La arqueología en la era postmoderna. Trabajos de prehistoria, Madrid, v.
44, p. 11, 1987.
HUBLIN, J. et al. New fossils from Jebel Irhoud, Morocco and the pan-African origin
of Homo sapiens. Nature, [s. l.], v. 546, p. 289–292, 2017.
IRIARTE, J. et al. Emergent complexity, changing landscapes, and spheres of
interaction in Southeastern South America during the Middle and Late Holocene.
Journal of Archaeological Research, [s. l.], v. 24, n. 4, 2016.
JOHNSON, M. Teoría arqueológica: una introducción. Barcelona: Editorial Ariel, 2000.
LARSEN, C. Bioarchaeology: interpreting behavior from the human skeleton.
Cambridge: Cambridge University Press, 2015.
LEVIS, C. et al. How people domesticated Amazonian forests. Frontiers in Ecology
and Evolution, [s. l.], v. 5, p. 171, 2018.
LIMA, T. A. Cultura material: a dimensão concreta das relações sociais. Boletim do
Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 6, p. 11-23, 2011.
MARTINEZ, H. O que aconteceria se os museus europeus tivessem que devolver a arte
colonial espoliada. El País, Madrid, Cultura, 25 mar. 2019. Disponível em: [Link]
ly/3LLWebz. Acesso em: 15 de março de 2022.
55
MILLER, T. Usos da Arqueologia na sala de aula. Revista HISTEDBR, Campinas, n. 34,
p. 167-179, jun. 2009.
MORENO, J. C. Arqueologia e Pré-História: a ocupação do continente americano à
luz dos novos dados genéticos e o sensacionalismo midiático. Arqueologia e Pré-
História, São Paulo, 30 mar. 2021. Disponível em: [Link] Acesso em: 14
de mar. 2022.
NAVARRO, S. Potes e transfigurações: a Arqueologia como pretexto para a escultura.
In: GARCIA, J. C.; GRÁCIO, A. H. Rotas da cerâmica a sul do Tejo. Lisboa: IEFP, 2014.
p. 10-21.
NEVES, W. A. E no princípio... era o macaco!. Estudos Avançados, São Paulo, v. 20, n.
58, p. 249-285, 2006.
ODUM, E. P. Fundamentos de ecologia. Rio de Janeiro: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2001.
ORTNER, S. B. Teoria na antropologia desde os anos 60. MANA, Rio de Janeiro, v. 17, n.
2, p. 419-466, 2011.
PATTERSON, T. La historia y las arqueologías pos procesuales. Boletín del Museo de
Arqueología y Antropología de la Universidad Nacional Mayor de San Marcos,
Lima, p. 4-12, 1989.
PEARSALL, D. M. Paleoethnobotany: a handbook of procedures. Cambridge:
Academic Press, Inc, 1989.
PETRY RAHMEIER, A. H. O que é tempo histórico. 2013. (Apresentação de Trabalho/
Comunicação).
PRESS, F. et al. Para entender a Terra. 4. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006.
REITZ, E. J.; WING, E. S. Zooarchaeology. Cambridge: Cambridge University Press,
1999.
RENFREW, C.; BAHN, P. Archaeology: theories, methods, and practice. 6th ed.
London: Thames & Hudson, 2012.
SANTOS, E. Além do eterno retorno: uma introdução às concepções de tempo dos
indígenas da Mesoamérica. Revista USP, São Paulo, n. 81, p. 82-93, 2009.
SANTOS, A. Arqueologia, sociedade e poder: breves considerações sobre uma
Arqueologia do passado recente. Revista Noctua, Recife, v. 1, n. 5, p. 61-75, 2020.
56
SCHIFFER, M. Archaeological context and systemic context. American Antiquity, [s.
l.], v. 37, n. 2, 1972.
SCHIFFER, M. Toward the identification of formation processes. American Antiquity,
[s. l.], v. 48, n, 4, 1983.
SHANKS, M. Post-processual archaeology and after. In: BENTLEY, R. A.; MASCHNER,
H. D. G.; CHIPPINDALE, C. (ed.) Handbook of archaeological theories. Lanham:
AltaMira Press, 2008. p. 133-144.
SILVA, F. A. EtnoArqueologia: uma perspectiva arqueológica para o estudo da cultura
material. Métis: história & cultura, Caxias do Sul, v. 8, n. 16, p. 121-139, 2009.
SILVA, S. Arqueologia das práticas mortuárias em sítios pré-históricos do
litoral do Estado de São Paulo. 2005. 408 f. Tese (Doutorado em Arqueologia) –
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
SINGLETON, T. A. Slavery and spatial dialectics on Cuban coffee plantations. World
Archaeology. [s. l.], v. 33, n. 1, p. 98-114, 2001.
SUGUIO, K.; TATUMI, S. H.; BARRETO, A. M. F. Comparação entre os métodos do
radiocarbono (14C) e da termoluminescência (TL) na datação do Quaternário. In:
CONGRESSO SOBRE PLANEJAMENTO E GESTÃO DAS ZONAS COSTEIRAS DOS
PAÍSES DE EXPRESSÃO PORTUGUESA, 2.; CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE ESTUDOS DO QUATERNÁRIO, 9.; CONGRESSO DO QUATERNÁRIO DOS PAÍSES
DE LÍNGUA IBÉRICAS, 2., 2003, Recife. Anais [...]. Recife: Instituto de Geociências,
Universidade de São Paulo, 2003. p. 1-3.
TEIXEIRA, A. L. A.; MORETTI, E.; CHISTOFOLETTI, A. 1992. Introdução aos sistemas de
informação geográfica. Rio Claro: Universidade Estadual Paulista, 1992.
VIEIRA, M. P. de F. Os animais conseguem perceber a passagem do tempo? Meus
Animais, Notícias, [s. l.], 22 dez. 2022. Disponível em: [Link] Acesso
em: 3 de mar. 2022.
THOMAS, J. A materialidade e o social. Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia, São Paulo, supl. 3, p. 15-20, 1999.
TRIGGER, B. G. História do pensamento arqueológico. 2. ed. São Paulo: Odysseus
Editora, 2004.
WALKER, M. et al. Formal ratification of the subdivision of the Holocene Series/Epoch
(Quaternary System/Period): two new Global Boundary Stratotype Sections and
Points (GSSPs) and three new stages/subseries. Episodes Journal of International
Geoscience, [s. l.], v. 41, n. 4, p. 213-223, 2018.
57
58
UNIDADE 2 —
O PASSADO CULTURAL
DA HUMANIDADE
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• analisar as interações entre tecnologia, cultura e produção de alimentos ao longo
da história humana, e como essas interações afetaram o desenvolvimento das
sociedades humanas;
• identificar os desafios enfrentados pelas sociedades humanas no passado e no
presente em relação à diversidade cultural, produção de alimentos e desenvolvimento
de sociedades complexas, e discutir possíveis soluções para esses desafios;
• compreender a importância da colaboração e diálogo entre as culturas, tanto
no passado quanto no presente, para a construção de sociedades mais justas,
sustentáveis e prósperas;
• refletir sobre a relação entre o desenvolvimento humano e a sustentabilidade
ambiental, e discutir formas de alcançar um equilíbrio entre essas duas áreas para
garantir um futuro melhor para todos os seres vivos.
PLANO DE ESTUDOS
A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de
reforçar o conteúdo apresentado.
TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – TECNOLOGIA E CULTURA
TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – AS SOCIEDADES PRODUTORAS DE ALIMENTO
TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – A EMERGÊNCIA DAS SOCIEDADES COMPLEXAS NA PRÉ-
HISTÓRIA AMERICANA
CHAMADA
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
59
CONFIRA
A TRILHA DA
UNIDADE 2!
Acesse o
QR Code abaixo:
60
UNIDADE 2 TÓPICO 1 —
TECNOLOGIA E CULTURA
1 INTRODUÇÃO
Desde os primórdios da história humana, a tecnologia e a cultura têm sido
aspectos inseparáveis do desenvolvimento das sociedades. Desde as ferramentas
rudimentares utilizadas pelos nossos antepassados na pré-história até as tecnologias
mais avançadas de hoje em dia, a tecnologia tem sido um fator fundamental no
progresso humano. No entanto, o impacto da tecnologia na cultura humana tem sido
tema de muita discussão e debate ao longo dos anos.
De acordo com Gradstein, Ogg, Schmitz e Ogg (2012), o Holoceno é a época
geológica atual, que começou há cerca de 11.700 anos, após o fim da última glaciação.
Durante o Holoceno, houve um aumento significativo da temperatura global e uma
mudança nas condições climáticas, levando ao desenvolvimento da agricultura e ao
surgimento das primeiras civilizações humanas. Além disso, o Holoceno é caracterizado
por uma diversidade de eventos geológicos e climáticos, como o aumento do nível do
mar, o derretimento das calotas polares e a ocorrência de terremotos e vulcanismo.
Esses eventos moldaram a superfície terrestre e influenciaram a evolução da vida na
Terra.
Com a escala de tempo geológico estabelecida por Gradstein, Ogg, Schmitz
e Ogg (2012), o Holoceno é a mais recente das unidades cronológicas, seguida pelo
Pleistoceno, que abrange a maior parte da era Cenozoica e é caracterizada por períodos
de glaciação e interglaciação. A precisão da datação do Holoceno é um dos temas mais
estudados na geologia e é fundamental para a compreensão da evolução do planeta e
da humanidade.
A tabela geológica é uma ferramenta útil para entender a história da Terra e das
diferentes épocas geológicas, como o Holoceno.
Época Geológica Duração Principais Eventos
Período que engloba as eras glaciais e o
Quaternário 2,6 milhões Holoceno.
Início do período mais recente da história
da Terra, marcado pela estabilidade do
Holoceno 11.700 anos clima e o desenvolvimento da agricultura e
civilizações humanas.
2,6 milhões de Período anterior ao Holoceno, marcado pelas
Pré-Holoceno anos eras glaciais.
110.000 a Período em que ocorreu a última grande era
Última glaciação 12.000 anos glacial, marcado por mudanças significativas
atrás no clima e na geologia da Terra.
61
Época Geológica Duração Principais Eventos
Marcou o início do Holoceno e permitiu o
Desenvolvimento 10.000 anos estabelecimento das primeiras civilizações
da agricultura atrás humanas.
Marcou uma nova fase do Holoceno,
Desenvolvimento 5.000 anos com o desenvolvimento de culturas
das primeiras atrás mais complexas e avanços tecnológicos
civilizações significativos.
Esses dados são apenas algumas sugestões e podem ser complementados
com outras informações relevantes, dependendo do objetivo da tabela geológica. É
importante destacar que a tabela geológica é uma ferramenta dinâmica e pode ser
atualizada com novas descobertas e informações conforme o conhecimento científico
avança.
Foi a partir do Holoceno que a diversidade cultural humana, começou a aumentar
significativamente, à medida que as sociedades humanas se espalhavam pelo mundo.
As diferenças culturais e tecnológicas entre as sociedades tornaram-se mais evidentes,
à medida que cada comunidade se adaptava às suas próprias necessidades e recursos
naturais.
Com a descoberta da agricultura, a produção de alimentos tornou-se mais
eficiente, permitindo o surgimento de sociedades complexas e o desenvolvimento
de cidades e centros urbanos. Essas cidades eram centros de inovação tecnológica
e cultural, onde novas ideias e técnicas eram desenvolvidas e disseminadas entre as
comunidades.
Figura 1 - Origem do Neolítico
Fonte: [Link] Acesso em: 5 maio 2023.
62
O Holoceno é uma época geológica que se iniciou há cerca de 11.700 anos e
marca um período de mudanças significativas no clima e na vida na Terra. Durante esse
período, também surgiram as primeiras civilizações humanas, que desenvolveram suas
culturas ao longo do tempo histórico. Durante esse período, a humanidade passou
por grandes mudanças tecnológicas, que foram fundamentais para a evolução e o
desenvolvimento da sociedade.
Uma das primeiras tecnologias importantes do Holoceno foi a agricultura. Por
volta de 10.000 anos atrás, os primeiros humanos começaram a cultivar plantas e
domesticar animais, o que possibilitou a formação de assentamentos fixos e o surgimento
das primeiras civilizações. A agricultura também permitiu o desenvolvimento de
técnicas de conservação de alimentos, como a secagem e a fermentação, e possibilitou
o aumento da população mundial.
Outra importante tecnologia que surgiu durante o Holoceno foi a metalurgia. A
partir de cerca de 6.000 anos atrás, os humanos começaram a trabalhar com metais,
como cobre e bronze, o que possibilitou a criação de ferramentas mais eficientes
e duráveis. Com o tempo, surgiram técnicas mais avançadas de metalurgia, como a
fundição de ferro, o que possibilitou a criação de armas, utensílios e equipamentos mais
sofisticados.
Durante o Holoceno, também houve grandes avanços na navegação e no
comércio. Por volta de 4.000 anos atrás, surgiram os primeiros barcos a vela, o que
possibilitou a exploração de novos territórios e o comércio entre diferentes regiões. Com
o tempo, foram criadas rotas comerciais mais elaboradas, como a Rota da Seda, que
conectava a Ásia e a Europa.
Outra importante tecnologia que surgiu durante o Holoceno foi a escrita.
Por volta de 3.500 anos atrás, os sumérios desenvolveram um sistema de escrita
cuneiforme, o que possibilitou a criação de registros escritos e o desenvolvimento de
literatura e conhecimento acumulado. Com o tempo, a escrita se espalhou pelo mundo,
possibilitando a preservação da história e a transmissão de conhecimentos de geração
em geração.
O Holoceno também foi marcado pelo surgimento de tecnologias mais recentes,
como a eletricidade, a energia nuclear e a internet, que transformaram profundamente a
sociedade e o mundo em que vivemos. As tecnologias do Holoceno foram fundamentais
para o desenvolvimento da humanidade e para a construção da sociedade moderna, e
continuam a evoluir e se desenvolver até os dias de hoje.
O tempo é uma medida fundamental para compreender a evolução do mundo
e das espécies que habitam o planeta Terra. Duas escalas que são frequentemente
utilizadas para se referir a diferentes períodos da história são o tempo histórico e o
tempo geológico.
63
O tempo histórico é a medida do tempo que os humanos utilizam para
compreender os eventos que aconteceram na história da humanidade. Essa medida se
baseia no calendário e nos registros escritos, que datam desde o surgimento da escrita,
há cerca de 5000 anos. O tempo histórico é dividido em eras, períodos, épocas, idades
e outras subdivisões para melhor organizar os eventos ocorridos no passado. Essa
medida é fundamental para entender a evolução das culturas, tecnologias e sociedades
humanas. O tempo geológico é uma forma de medir e descrever a história do planeta
Terra, desde sua formação até os dias atuais. Ele é baseado em eventos geológicos
significativos, como a formação de rochas e a ocorrência de eventos naturais como
terremotos e erupções vulcânicas. O tempo geológico é dividido em diferentes unidades
que refletem esses eventos e são utilizadas por geólogos e outros cientistas para estudar
a evolução do planeta.
As unidades do tempo geológico incluem éons, eras, períodos e épocas, e são
organizadas hierarquicamente. O éon mais antigo é o Hadeano, seguido pelo Arqueano
e Proterozoico, que compõem juntos o Pré-Cambriano. A partir daí, temos as eras
Paleozoica, Mesozoica e Cenozoica. Cada era é composta por vários períodos e épocas,
que são definidos por eventos geológicos distintos.
O tempo geológico é medido em milhões ou bilhões de anos, o que pode ser
difícil de compreender para a maioria das pessoas, pois está além da escala temporal
humana. No entanto, é crucial para entendermos como o nosso planeta evoluiu e como
ele pode evoluir no futuro. É importante ressaltar que o tempo geológico é diferente
do tempo histórico, que é baseado na história humana e nas sociedades humanas. O
tempo histórico é medido em anos, séculos e milênios e está relacionado a eventos e
datas históricas, como o surgimento das primeiras civilizações, guerras e descobertas
científicas.
Embora sejam distintos, o tempo geológico e o tempo histórico são interligados,
já que as atividades humanas podem afetar a geologia e a biodiversidade do planeta. É
importante estudar ambos para entendermos a história e evolução da Terra e a relação
entre humanos e meio ambiente.
Uma das principais diferenças entre o tempo histórico e o tempo geológico é
a escala de tempo utilizada. O tempo histórico é medido em anos, décadas, séculos e
milênios, enquanto o tempo geológico é medido em milhões e bilhões de anos. Outra
diferença importante é a forma como essas medidas são obtidas: o tempo histórico é
baseado em registros escritos e documentos, enquanto o tempo geológico é baseado
na datação de rochas e fósseis.
Em resumo, o tempo histórico e o tempo geológico são medidas diferentes
utilizadas para compreender diferentes aspectos da história da Terra e da humanidade.
Enquanto o tempo histórico se concentra na evolução das culturas, tecnologias e
64
sociedades humanas, o tempo geológico se concentra na evolução da Terra e de suas
formas de vida. Ambos são importantes para compreendermos a história do mundo em
que vivemos.
A arqueologia enquanto ciência, se dedica ao estudo da história das sociedades
humanas por meio do registro material deixado por elas ao longo do tempo. Uma das
áreas de interesse da arqueologia é o período paleoíndio, que se refere ao período mais
antigo da presença humana nas Américas, datado aproximadamente entre 13.000 e
7.000 anos atrás.
Diversas culturas foram identificadas no período paleoíndio, algumas delas As
culturas do paleoíndio são um importante período da história pré-colonial das Américas,
que se estende desde o surgimento dos primeiros humanos na região até a chegada
dos europeus. Essas culturas são conhecidas por suas habilidades de caça e coleta,
bem como por suas práticas agrícolas e cerimoniais. A seguir, destacaremos algumas
das culturas mencionadas anteriormente e suas principais características.
A cultura Mimbres, que se desenvolveu entre 200 e 1150 d.C. no sul do Novo
México, era composta por povos agrícolas que cultivavam milho, feijão e abóbora. Além
da agricultura, os Mimbres também praticavam a caça e coleta, e utilizavam cerâmicas
com desenhos intricados e simétricos para representar figuras humanas, animais e
cenas cotidianas.
A cultura Chaco Canyon, que se desenvolveu entre 800 e 1250 d.C. no norte do
Novo México, é caracterizada por suas construções arquitetônicas monumentais, como
as Casas Grandes, que eram usadas como centros cerimoniais e residências. A cultura
Chaco também possuía um sistema de estradas e canais de irrigação para a agricultura.
A cultura Mesa Negra, que se desenvolveu entre 700 e 1000 d.C. no norte do
Novo México, construía estruturas arquitetônicas em formato de torre, conhecidas
como torres de pedra, que eram usadas para observação e para fins cerimoniais. Essa
cultura também se destacava pela produção de cerâmica.
A cultura Nasazi, que se desenvolveu entre 500 e 1300 d.C. na região sudoeste
dos Estados Unidos, construía grandes habitações em cavernas e penhascos, como as
conhecidas Cliff Dwellings, que eram usadas como residências e centros cerimoniais.
Essa cultura também é conhecida por seus desenhos em rocha e cerâmica.
A cultura Kayenta, que se desenvolveu entre 750 e 1200 d.C. na região sudoeste
dos Estados Unidos, construía habitações em penhascos e alcovas, como as conhecidas
Betatakin e Keet Seel, que eram usadas como residências e centros cerimoniais. Essa
cultura também é conhecida por seus desenhos em rocha e cerâmica.
65
A cultura Mogollon, que se desenvolveu entre 200 e 1450 d.C. no sudoeste dos
Estados Unidos e norte do México, construía habitações em cavernas e penhascos,
como as conhecidas gila cliff dwellings, que eram usadas como residências e centros
cerimoniais. Essa cultura também se destacava pela produção de cerâmica e tecelagem.
Os Nasazi, também conhecidos como Anasazi, foram uma cultura que habitou
a região sudoeste dos Estados Unidos, principalmente no que é hoje o Arizona,
Colorado, Novo México e Utah. Eles viveram na área entre 200 a.C. e 1300 d.C. A cultura
nasazi é conhecida por suas técnicas avançadas de construção de habitações em
penhascos, conhecidas como cliff dwellings. Eles também eram agricultores habilidosos
e desenvolveram técnicas de irrigação para cultivar milho, feijão e abóbora em áreas
desérticas.
A cultura Hohokam habitou a região central do Arizona entre 1.000 e 1.500 d.C.
Eles eram conhecidos por suas habilidades em irrigação e foram capazes de criar um
sistema complexo de canais para transportar água de rios para suas plantações. Eles
também eram habilidosos em cestaria e cerâmica, com destaque para as cerâmicas
vermelhas polidas com desenhos geométricos elaborados.
Uma das principais características das culturas do período Paleoíndio é o uso
de ferramentas líticas, ou seja, feitas de pedra. Essas ferramentas eram utilizadas para
a caça, pesca e coleta de alimentos, e eram produzidas com técnicas variadas que
demonstravam habilidade e conhecimento das propriedades das diferentes pedras.
Além disso, as culturas do período Paleoíndio possuíam um forte vínculo com
a natureza, utilizando recursos naturais de forma sustentável e adaptando-se às
condições locais para sobreviverem. Algumas culturas, como os Mogollon e Hohokam,
desenvolveram técnicas avançadas de irrigação para cultivo de alimentos em regiões
áridas.
As culturas do período Paleoíndio também apresentavam formas de organização
social diversas, desde grupos nômades de caçadores-coletores até sociedades mais
complexas, com construções arquitetônicas impressionantes, como as encontradas em
Chaco Canyon e Mesa Verde.
Em suma, as culturas do período paleoíndio apresentam uma riqueza cultural
e uma diversidade impressionante, demonstrando a habilidade humana de adaptação
e sobrevivência em diferentes ambientes ao longo do tempo. A arqueologia tem
contribuído para o entendimento dessas culturas e para a valorização do patrimônio
cultural das sociedades que as criaram.
Em resumo, o período de 11700 a.C. é um momento fascinante na história
humana, em que a tecnologia e a cultura começaram a se desenvolver de forma mais
intensa, e as sociedades humanas começaram a se diversificar. Este período serve como
66
um lembrete da importância da compreensão da relação entre tecnologia e cultura ao
longo do tempo, para que possamos aprender com o passado e construir um futuro
mais justo e sustentável.
2 A DIVERSIDADE CULTURAL DO HOLOCENO
Uma das principais características do Holoceno é a chamada Revolução
Neolítica, que marcou o início da agricultura e da domesticação de animais, permitindo
que as sociedades humanas se fixassem em determinados locais e desenvolvessem
culturas distintas. Com a agricultura, os seres humanos passaram a ter uma fonte
estável de alimentos, o que permitiu o crescimento das populações e o surgimento de
cidades.
Ao longo do Holoceno, diversas culturas floresceram em diferentes partes do
mundo, cada uma com suas próprias tradições, crenças e práticas. Por exemplo, na
América do Sul, os povos indígenas desenvolveram culturas complexas, como os Incas,
Maias e Astecas, que deixaram um legado de monumentos, templos e cidades que
ainda impressionam pela sua grandiosidade. Na África, surgiram civilizações como a
do Egito Antigo, que deixou um legado monumental em arquitetura, arte e religião. Na
Ásia, surgiram impérios como o Chinês e o Mongol, que deixaram sua marca na história
do mundo.
Além disso, ao longo do Holoceno, as culturas também se misturaram e
se influenciaram mutuamente. A migração humana permitiu que diferentes povos
entrassem em contato uns com os outros, trocando conhecimentos, crenças e práticas.
Isso resultou na formação de culturas híbridas, que combinam elementos de diferentes
tradições.
A diversidade cultural do Holoceno é um patrimônio da humanidade e deve
ser valorizada e preservada. Cada cultura tem sua própria história e contribuição para
o desenvolvimento da humanidade. Ao reconhecer a riqueza da diversidade cultural,
podemos aprender uns com os outros e construir um mundo mais justo e tolerante,
onde todas as culturas são respeitadas e valorizadas.
Para compreender melhor a diversidade cultural do Holoceno, podemos recorrer
a alguns autores que se dedicaram a estudar o tema. O antropólogo Claude Lévi-
Strauss, em sua obra O Pensamento Selvagem, propõe que todas as culturas possuem
um sistema de pensamento complexo e estruturado, que reflete a forma como cada
sociedade percebe e organiza o mundo ao seu redor. Lévi-Strauss argumenta que, ao
invés de buscar diferenças superficiais entre as culturas, devemos buscar compreender
as estruturas profundas que unem todas as sociedades humanas.
67
O historiador Jared Diamond, em seu livro Armas, Germes e Aço, explora as
razões pelas quais algumas sociedades se desenvolveram mais rapidamente do que
outras ao longo da história. Segundo Diamond, a geografia e a disponibilidade de recursos
naturais desempenham um papel fundamental na formação e desenvolvimento das
culturas. O autor argumenta que, embora as culturas tenham se desenvolvido de forma
desigual ao longo do Holoceno, todas elas possuem um potencial de crescimento e
inovação.
Já o sociólogo Anthony Giddens, em sua obra As Consequências da
Modernidade, discute como a globalização e a modernização têm afetado as culturas
em todo o mundo. Giddens argumenta que a modernidade trouxe uma homogeneização
cultural, na medida em que os valores e crenças ocidentais se tornaram predominantes
em todo o mundo. No entanto, o autor também destaca que as culturas são dinâmicas
e estão em constante transformação, e que a globalização pode trazer oportunidades
para a valorização e preservação da diversidade cultural.
A diversidade cultural do Holoceno é um tema vasto e complexo, que abrange
desde a pré-história até os dias atuais. Vamos explorar algumas das principais
transformações culturais ocorridas ao longo desse período e como elas contribuíram
para a formação da diversidade cultural que conhecemos hoje.
Pré-História
Durante o Paleolítico (entre 2,5 milhões e 10.000 a.C.), os seres humanos eram
nômades e viviam da caça, pesca e coleta de alimentos. Nessa época, as culturas
eram bastante simples e pouco estruturadas, com poucas distinções sociais e crenças
religiosas ainda em desenvolvimento.
No Neolítico (entre 10.000 e 4.500 a.C.), a revolução agrícola permitiu que as
sociedades humanas se fixassem em determinados locais e desenvolvessem uma
agricultura mais eficiente. Com isso, surgiram as primeiras cidades e civilizações, como
a Suméria, no Oriente Médio, e o Egito Antigo, na África.
Antiguidade
Durante a Antiguidade (entre 4.500 a.C. e 476 d.C.), surgiram grandes impérios
e civilizações que deixaram um legado cultural até os dias de hoje. Na Grécia Antiga, por
exemplo, desenvolveram-se a filosofia, a arte e a literatura que influenciaram a cultura
ocidental por séculos. Já no Império Romano, surgiram grandes obras de arquitetura,
como o Coliseu e o Pantheon, que ainda impressionam pela sua grandiosidade.
68
Idade Média
Durante a Idade Média (entre 476 e 1453 d.C.), a Europa passou por profundas
transformações culturais, sociais e religiosas. A Igreja Católica exerceu um papel central
na organização da sociedade e na difusão do conhecimento, contribuindo para o
surgimento das universidades e para a preservação de obras clássicas da Antiguidade.
Renascimento
No Renascimento (entre 1453 e 1600), surgiram grandes artistas e pensadores
que revolucionaram a cultura europeia. Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael foram
alguns dos artistas que desenvolveram novas técnicas e estilos, enquanto filósofos
como René Descartes e Francis Bacon contribuíram para o surgimento do pensamento
científico moderno.
Idade Moderna
Na Idade Moderna (entre 1600 e 1789), a Europa passou por uma série de
transformações políticas, sociais e culturais. O Iluminismo, movimento filosófico que
valorizava a razão e a ciência, contribuiu para o surgimento de novas ideias e concepções
sobre a sociedade e a natureza humana.
Idade Contemporânea
Na Idade Contemporânea (a partir de 1789), o mundo passou por profundas
transformações culturais, políticas e tecnológicas. A Revolução Industrial, por exemplo,
transformou a forma como as sociedades produzem e consomem bens, criando novas
formas de trabalho e de organização social.
No século XX, surgiram movimentos culturais e políticos que valorizavam a
diversidade cultural e lutavam contra a discriminação e a desigualdade. O movimento
pelos direitos civis nos Estados Unidos, liderado por Martin Luther King Jr., foi um
exemplo de luta contra o racismo e a segregação racial.
A diversidade cultural do Holoceno também é marcada pela difusão e intercâmbio
cultural entre as diferentes regiões do mundo. A expansão do comércio e das relações
diplomáticas contribuiu para a circulação de ideias, bens e pessoas entre as diferentes
culturas.
A globalização, que se intensificou a partir do final do século XX, trouxe novos
desafios e oportunidades para a diversidade cultural. Por um lado, a circulação de
informações e ideias permite que diferentes culturas sejam valorizadas e divulgadas
em escala global. Por outro lado, a influência dominante de algumas culturas pode levar
à homogeneização cultural e à perda da diversidade.
69
Existem alguns autores e suas contribuições para o estudo da diversidade
cultural:
• Claude Lévi-Strauss (1908-2009) foi um antropólogo francês que estudou as
culturas indígenas da América do Sul. Ele propôs a teoria do estruturalismo, que
busca entender as estruturas sociais e culturais que fundamentam a vida humana
em diferentes culturas. Segundo Lévi-Strauss, todas as culturas possuem uma
lógica interna e uma estrutura que podem ser compreendidas por meio da análise
das relações entre seus elementos.
• Edward Said (1935-2003) foi um intelectual palestino que estudou a relação entre
o Ocidente e o Oriente. Ele propôs a teoria do orientalismo, que busca entender
como as culturas orientais foram representadas e interpretadas pelo Ocidente ao
longo da história. Segundo Said, o orientalismo é uma forma de poder que permite
ao Ocidente exercer dominação sobre o Oriente, construindo uma imagem exótica
e inferiorizada das culturas orientais.
• Stuart Hall (1932-2014) foi um sociólogo britânico que estudou as relações entre
cultura, identidade e poder. Ele propôs a teoria dos estudos culturais, que busca
entender como as culturas são produzidas, consumidas e transformadas em
diferentes contextos sociais. Segundo Hall, as culturas não são fixas ou naturais,
mas sim produtos da negociação entre diferentes grupos sociais e interesses
políticos.
A diversidade cultural do Holoceno é resultado das transformações culturais,
sociais e políticas que ocorreram ao longo da história humana. Cada cultura possui suas
próprias características e valores, que são transmitidos de geração em geração e se
transformam ao longo do tempo. O estudo da diversidade cultural é importante para
compreendermos as diferentes formas de vida humana e para valorizarmos a riqueza
cultural das diferentes regiões do mundo.
70
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu:
• Durante o Holoceno, o uso de tecnologias aumentou significativamente, permitindo
o desenvolvimento de novas ferramentas e técnicas para a caça, pesca, agricultura
e construção. A partir do período Paleoíndio, a tecnologia foi sendo aprimorada,
possibilitando a criação de artefatos como pontas de flechas, lanças e ferramentas
de pedra polida.
• O período Paleoíndio foi marcado pela presença de povos nômades e caçadores-
coletores. Essas sociedades dependiam da caça e da coleta para sobreviver e
desenvolveram tecnologias para caça, como a criação de pontas de flechas e lanças.
Ao longo do tempo, essas tecnologias foram sendo aprimoradas, possibilitando a
criação de ferramentas mais eficientes.
• O período geológico é um conceito que se refere à história da Terra, dividida em eras,
períodos e épocas, enquanto o período histórico se refere à história da humanidade.
A principal diferença é que o período geológico é medido em milhões de anos,
enquanto o período histórico é medido em anos, décadas ou séculos.
• O Holoceno foi um período de grande diversidade cultural, marcado pelo
desenvolvimento de diferentes sociedades e culturas em todo o mundo. Durante o
período Paleoíndio, por exemplo, diferentes culturas surgiram nas Américas, como
as culturas Mimbres, Chaco Canyon, Mesa Negra, Nasazi, Mesa Verde, Kayenta,
Mogollon e Hohokam, cada uma com suas próprias tradições, tecnologias e modos
de vida.
71
AUTOATIVIDADE
1 Durante a história da Terra, diferentes períodos foram marcados por mudanças
climáticas e . ambientais significativas. Um desses períodos é o Holoceno, que
começou há cerca de 11.700 anos, logo após o fim da última era glacial. Durante o
Holoceno, ocorreram importantes mudanças no clima, no nível do mar, na distribuição
de plantas e animais, além do surgimento e desenvolvimento de diversas civilizações
humanas. Com base nesse contexto, qual é o período da história da Terra em que
ocorreram importantes mudanças no clima, no nível do mar, na distribuição de
plantas e animais, além do surgimento e desenvolvimento de diversas civilizações
humanas?
a) ( ) Pré-Cambriano.
b) ( ) Cretáceo.
c) ( ) Paleogeno.
d) ( ) Holoceno.
2 O Holoceno é a época geológica em que vivemos atualmente, caracterizada pelo clima
relativamente estável e pela presença da espécie humana. Com início aproximado há
11.700 anos, ela é marcada por uma série de mudanças ambientais e sociais. Sobre o
Holoceno, analise as sentenças a seguir:
I- É a época geológica em que vivemos atualmente.
II- Iniciou-se há aproximadamente 11.700 anos.
III- Caracteriza-se pelo intenso resfriamento global.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
c) ( ) As sentenças II e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença II está correta.
3 O Holoceno é uma unidade de tempo geológico que se iniciou há cerca de 11.700
anos, após o fim da última glaciação, e se estende até os dias atuais. Durante esse
período, ocorreram mudanças significativas no clima, na vegetação e na fauna, além
do surgimento e desenvolvimento da civilização humana. A respeito do Holoceno,
classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) Durante o Holoceno, ocorreram importantes mudanças no clima, na vegetação e na
fauna.
72
( ) O Holoceno é a época geológica mais recente, que se iniciou há cerca de 11.700
anos.
( ) O desenvolvimento da civilização humana ocorreu durante o Holoceno.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V - F - V.
b) ( ) V - V - F.
c) ( ) F - F - V.
d) ( ) F - V - F.
4 O Holoceno é uma unidade temporal que começou após o fim da última era glacial,
há cerca de 11.700 anos, e é caracterizado pelo desenvolvimento da agricultura,
da civilização e do aumento populacional. Explique o papel da agricultura no
desenvolvimento do Holoceno.
5 O Holoceno é uma unidade temporal que começou após o fim da última era glacial,
há cerca de 11.700 anos, e é caracterizado pelo desenvolvimento da agricultura, da
civilização e do aumento populacional. Como o aumento populacional afetou o meio
ambiente durante o Holoceno?
73
74
UNIDADE 2 TÓPICO 2 -
AS SOCIEDADES PRODUTORAS DE ALIMENTOS
1 INTRODUÇÃO
A produção de alimentos é uma atividade essencial para a sobrevivência
humana desde os primórdios da civilização. Desde o início da história, as sociedades
humanas desenvolveram formas de cultivar, coletar e criar alimentos para garantir
sua subsistência. Neste texto, exploraremos a história das sociedades produtoras de
alimentos, desde seus primórdios até os dias de hoje.
As sociedades produtoras de alimentos evoluíram ao longo do tempo, passando
por diferentes períodos e civilizações, cada uma com suas próprias técnicas de
produção de alimentos e práticas agrícolas. Desde as sociedades agrícolas primitivas
até as civilizações antigas, passando pela Idade Média e a Idade Moderna, a produção
de alimentos tem sido um elemento essencial no desenvolvimento econômico, cultural
e social de muitas sociedades.
Hoje, a produção de alimentos continua a desempenhar um papel crucial em
nossa vida cotidiana, com a agricultura moderna em larga escala e o comércio global
de alimentos garantindo que milhões de pessoas tenham acesso a alimentos nutritivos
e saudáveis. No entanto, também enfrentamos desafios crescentes em relação à
sustentabilidade e ao impacto ambiental da produção em larga escala.
Nesse contexto, é importante entendermos a história e evolução das sociedades
produtoras de alimentos, a fim de compreender melhor as práticas agrícolas atuais e
explorar possíveis soluções para enfrentar os desafios futuros relacionados à produção
de alimentos.
2 A ORIGEM DAS SOCIEDADES PRODUTORAS DE
ALIMENTOS
A produção de alimentos é uma atividade essencial para a sobrevivência
humana desde os primórdios da civilização. Desde o início da história, as sociedades
humanas desenvolveram formas de cultivar, coletar e criar alimentos para garantir sua
subsistência. Neste contexto, exploraremos a história das sociedades produtoras de
alimentos, desde seus primórdios até os dias de hoje.
75
As sociedades produtoras de alimentos na pré-história foram as primeiras a
desenvolver técnicas de produção de alimentos que permitiram a sua sobrevivência.
Essas sociedades eram compostas por grupos de caçadores-coletores que se
deslocavam em busca de recursos naturais para a sua subsistência.
A pré-história é dividida em três períodos: Paleolítico, Mesolítico e Neolítico.
Durante o Paleolítico, que começou há cerca de 2,5 milhões de anos e se estendeu
até cerca de 10.000 anos atrás, as sociedades eram nômades e dependiam da caça,
da pesca e da coleta de frutos e raízes para a sua subsistência. Eles se deslocavam em
busca de recursos naturais, e a sua vida era marcada pela incerteza e pela dependência
das condições climáticas e da disponibilidade de recursos naturais.
No entanto, durante o final do Paleolítico e o início do Mesolítico, as sociedades
começaram a desenvolver técnicas de domesticação de animais e plantas. Eles
começaram a criar animais para a sua subsistência, o que lhes permitiu ter acesso a
alimentos ricos em proteínas, como carne e leite. Eles também começaram a cultivar
plantas, como trigo, cevada e legumes, o que lhes permitiu ter acesso a alimentos ricos
em carboidratos.
No Neolítico, que começou há cerca de 10.000 anos atrás, as sociedades
produtoras de alimentos começaram a se estabelecer em vilas e cidades permanentes.
Eles desenvolveram técnicas de irrigação, que permitiram a produção em larga escala de
alimentos, e começaram a utilizar ferramentas mais sofisticadas, como arados e foices.
Eles também começaram a desenvolver técnicas de armazenamento de alimentos, o
que lhes permitiu ter acesso a alimentos durante todo o ano.
Durante o Neolítico, as sociedades produtoras de alimentos se desenvolveram
de forma significativa. Eles criaram cidades e vilas permanentes, onde desenvolveram
artesanato e comércio. Eles começaram a utilizar a cerâmica e a metalurgia para a
produção de ferramentas e utensílios. Além disso, eles criaram sistemas de governo e
leis que regulamentavam a vida em sociedade.
De acordo com Gordon Childe, arqueólogo britânico pioneiro no estudo das
sociedades produtoras de alimentos, "a Revolução Neolítica foi a maior transição já
feita pela humanidade: a passagem de grupos humanos caçadores-coletores para
comunidades que dependiam da produção de alimentos cultivados e criavam animais
domesticados" (CHILDE, 1936, p. 6).
Dessa forma as sociedades produtoras de alimentos na pré-história passaram
por diversas mudanças ao longo dos períodos Paleolítico, Mesolítico e Neolítico. Eles
desenvolveram técnicas de domesticação de animais e plantas, técnicas de produção
em larga escala de alimentos e sistemas de armazenamento de alimentos. Essas
mudanças foram fundamentais para o desenvolvimento da humanidade e para a sua
capacidade de se adaptar e sobreviver em ambientes cada vez mais desafiadores.
76
De acordo com Kent Flannery, "a evolução cultural não segue uma trajetória
única, mas depende da adaptação a circunstâncias históricas específicas e de diferentes
ambientes" (FLANNERY, 1968, p. 17). As sociedades produtoras de alimentos continuaram
a evoluir ao longo da história antiga, e várias civilizações surgiram em diferentes partes
do mundo. Estas civilizações foram marcadas por avanços significativos na produção de
alimentos, que lhes permitiram alimentar populações cada vez maiores e desenvolver
economias complexas. A produção de alimentos também permitiu o desenvolvimento
de estruturas sociais mais complexas. As sociedades produtoras de alimentos puderam
desenvolver sistemas de comércio e troca de bens e serviços, além de estabelecer
hierarquias sociais e políticas mais elaboradas. Essas estruturas sociais permitiram a
criação de cidades e civilizações mais avançadas, como a antiga civilização egípcia, a
mesopotâmica, a chinesa e a indiana.
Uma das primeiras civilizações produtoras de alimentos na história antiga foi
a civilização egípcia, que surgiu no vale do rio Nilo, no nordeste da África, por volta de
3100 a.C. Os antigos egípcios foram pioneiros na criação de técnicas de irrigação para a
produção de alimentos em larga escala. Eles construíram sistemas de canais e represas
para controlar as águas do rio Nilo e utilizá-las para irrigar as plantações. Os antigos
egípcios cultivavam uma grande variedade de plantas, incluindo trigo, cevada, lentilhas,
ervilhas, cebolas e alho. Eles também criavam animais como bois, vacas, ovelhas, cabras
e porcos.
Outra civilização antiga que se destacou na produção de alimentos foi a
civilização chinesa, que surgiu no vale do rio Amarelo, na China, por volta de 2100 a.C. Os
chineses foram pioneiros na criação de técnicas agrícolas como a rotação de culturas, o
uso de fertilizantes naturais e o cultivo em terraços. Eles cultivavam arroz, trigo, cevada,
soja, feijão e uma grande variedade de vegetais. Os chineses também criavam animais
como porcos, gado, ovelhas, cabras e aves.
A civilização mesopotâmica, que surgiu na região entre os rios Tigre e Eufrates,
no atual Iraque, por volta de 4000 a.C., também foi uma importante produtora de
alimentos na história antiga. Os mesopotâmicos foram pioneiros na criação de sistemas
de irrigação para a produção de alimentos em larga escala. Eles cultivavam trigo, cevada,
legumes, frutas e vegetais. Os mesopotâmicos também criavam animais como bois,
cabras, ovelhas e aves.
A civilização romana, que surgiu na região da península Itálica, por volta de 753
a.C., também foi uma importante produtora de alimentos na história antiga. Os romanos
foram pioneiros na criação de sistemas de irrigação e na utilização de técnicas agrícolas
avançadas, como o cultivo em linha reta e a rotação de culturas. Eles cultivavam trigo,
cevada, legumes, frutas e vegetais. Os romanos também criavam animais como bois,
cavalos, ovelhas, cabras, porcos e aves.
77
A história das sociedades produtoras de alimentos na história antiga é marcada
pela evolução das técnicas agrícolas, que permitiram a produção de alimentos em larga
escala e o desenvolvimento de economias complexas. As civilizações egípcia, chinesa,
mesopotâmica e romana são exemplos de sociedades que foram pioneiras na produção
de alimentos e que deixaram um legado duradouro na história da humanidade. Essas
civilizações foram capazes de alimentar populações crescentes, o que permitiu o
desenvolvimento de cidades, comércio, cultura e religião.
Além dessas civilizações, outras sociedades produtoras de alimentos surgiram
em diferentes partes do mundo durante a história antiga. Na Índia, por exemplo, a
civilização do vale do rio Indo, que surgiu por volta de 2500 a.C., foi uma importante
produtora de alimentos. Os indianos cultivavam trigo, cevada, arroz, legumes, frutas e
vegetais. Eles também criavam animais como bois, búfalos, cabras, ovelhas e porcos.
No continente americano, os povos indígenas também desenvolveram técnicas
avançadas de produção de alimentos. Os incas, por exemplo, que governaram uma
vasta região da América do Sul a partir do século XIII, foram pioneiros na criação de
sistemas de irrigação para a produção de alimentos em regiões montanhosas. Eles
cultivavam milho, batatas, feijão, quinoa e outras plantas, além de criar animais como
lhamas, alpacas e vicunhas.
A história das sociedades produtoras de alimentos na história antiga é um
testemunho da capacidade humana de inovar e criar soluções para os desafios da
vida. Através do desenvolvimento de técnicas agrícolas avançadas, essas sociedades
foram capazes de alimentar populações cada vez maiores e criar as condições para o
surgimento de civilizações complexas. Esses avanços na produção de alimentos foram
fundamentais para a história da humanidade e deixaram um legado duradouro na forma
como nos relacionamos com a comida até hoje.
Na Idade Média, as sociedades produtoras de alimentos continuaram a
desempenhar um papel fundamental na economia e na vida cotidiana das pessoas.
Durante esse período, o feudalismo se tornou uma das principais formas de organização
social e política na Europa, com senhores feudais possuindo grandes extensões de terra
e usando camponeses para produzir alimentos para suas famílias e para a venda em
mercados locais.
Os camponeses da Idade Média geralmente cultivavam uma mistura de grãos,
como trigo, cevada e centeio, juntamente com legumes e hortaliças, como ervilhas,
feijão, cenouras e cebolas. Eles também criavam animais, como vacas, porcos e galinhas,
para obter leite, carne e ovos.
78
Além disso, a Idade Média viu o surgimento de grandes impérios agrícolas
em outras partes do mundo. Na China, por exemplo, a dinastia Tang (618-907) foi
uma importante produtora de alimentos, cultivando arroz, trigo, cevada e sorgo, bem
como frutas e legumes. Eles também criavam porcos, ovelhas, cabras e vacas, e eram
conhecidos por suas habilidades na pesca e na criação de seda.
No mundo islâmico, a produção de alimentos também desempenhou um papel
fundamental na economia. Os muçulmanos desenvolveram técnicas avançadas de
irrigação e construíram sistemas complexos de canais e aquedutos para levar água
às áreas cultiváveis. Eles cultivavam trigo, arroz, cevada, frutas e vegetais, e criavam
animais, como cabras e camelos.
Embora a Idade Média tenha sido marcada por guerras, fome e doenças, as
sociedades produtoras de alimentos desempenharam um papel vital na sobrevivência
e no desenvolvimento das comunidades ao longo desse período. Suas inovações e
técnicas agrícolas foram cruciais para alimentar populações crescentes e sustentar as
economias locais.
Na Idade Moderna, a produção de alimentos se tornou cada vez mais importante
para atender às demandas crescentes de uma população em expansão. Isso foi
especialmente verdadeiro na Europa, onde o crescimento da população levou a um
aumento da produção de alimentos e à melhoria das técnicas agrícolas.
Um dos principais desenvolvimentos da Idade Moderna foi a Revolução Agrícola,
que começou na Inglaterra no século XVIII e se espalhou por toda a Europa e América
do Norte. A Revolução Agrícola envolveu o uso de novas técnicas, como a rotação de
culturas e a seleção de sementes, além do uso de fertilizantes e pesticidas. Isso permitiu
que os agricultores aumentassem a produção de alimentos em suas terras existentes.
Outro desenvolvimento importante na Idade Moderna foi o aumento do comércio
de alimentos. Com a expansão do comércio marítimo e a colonização de novas terras,
como as Américas e a África, os europeus foram capazes de acessar novas fontes de
alimentos, como milho, batatas, abóboras, tomates e pimentas. Esses alimentos foram
introduzidos na Europa e tiveram um impacto significativo na dieta e na culinária
europeias.
Além disso, a Idade Moderna também foi marcada por mudanças significativas
nas relações sociais e políticas em torno da produção de alimentos. Na Europa, o
sistema feudal começou a se desintegrar, e a propriedade da terra e a produção de
alimentos passaram a ser controladas por proprietários capitalistas. Isso levou a um
aumento da produção de alimentos em larga escala, bem como a uma maior exploração
dos trabalhadores agrícolas.
79
No entanto, a produção de alimentos ainda era predominantemente baseada na
agricultura tradicional, com a maioria dos agricultores cultivando pequenas quantidades
de alimentos em suas próprias terras. Na América do Norte, a agricultura comercial
começou a se desenvolver na forma de plantações de algodão, tabaco e outras culturas
para exportação.
Em resumo, a Idade Moderna foi um período de intensificação da produção de
alimentos, com o surgimento da Revolução Agrícola, o aumento do comércio de alimentos
e a mudança das relações sociais e políticas em torno da produção de alimentos.
Na história contemporânea o advento da Revolução Industrial, no século XVIII,
a produção de alimentos passou por uma grande transformação. A mecanização da
agricultura e a utilização de fertilizantes químicos permitiram o aumento da produção
de alimentos em larga escala, o que possibilitou o suprimento das necessidades
alimentares de uma população crescente.
No entanto, a produção em larga escala trouxe novos desafios relacionados à
sustentabilidade e à diversidade alimentar. A busca por uma agricultura sustentável
envolve a utilização de técnicas que minimizem o impacto ambiental e promovam
a conservação da biodiversidade. Isso inclui a utilização de fertilizantes orgânicos, a
prática de rotação de culturas e a utilização de sistemas agroflorestais, que combinam
a produção de alimentos com a preservação de áreas florestais.
Desde os primórdios da humanidade, a produção de alimentos tem sido uma
das atividades mais fundamentais para a sobrevivência das sociedades. Com o passar
do tempo, a produção de alimentos evoluiu de simples técnicas de caça e coleta para
sofisticados sistemas agrícolas que permitem a produção em larga escala de alimentos.
Ao longo da história, a produção de alimentos foi influenciada por diversos
fatores, como mudanças climáticas, tecnológicas, políticas e sociais. Na antiguidade, as
sociedades produtoras de alimentos enfrentavam desafios como a falta de técnicas de
irrigação e a dependência das condições climáticas para a produção de alimentos. Além
disso, muitas sociedades enfrentavam conflitos territoriais pela posse de terras férteis
e recursos naturais.
Além disso, há uma crescente valorização da diversidade alimentar e da produção
de alimentos locais e orgânicos. Isso se deve, em parte, ao aumento da consciência
em relação à importância da alimentação saudável e da relação entre a alimentação
e a saúde. A produção de alimentos locais e orgânicos também pode contribuir para a
valorização das culturas locais e para o desenvolvimento sustentável das comunidades.
No entanto, a produção de alimentos contemporânea ainda enfrenta muitos
desafios, como o aumento da demanda por alimentos devido ao crescimento
populacional e ao aumento do consumo de alimentos de origem animal. Isso pode levar
80
à intensificação da produção e à utilização de técnicas que prejudicam o meio ambiente
e a saúde humana.
Para superar esses desafios, é necessário buscar soluções que garantam
uma produção de alimentos sustentável e que promovam a diversidade alimentar, a
conservação da biodiversidade e o desenvolvimento das comunidades locais. Isso
pode incluir a promoção de técnicas agrícolas sustentáveis, o incentivo à produção e
ao consumo de alimentos locais e orgânicos, e a busca por soluções tecnológicas que
permitam uma produção mais eficiente e sustentável de alimentos.
Na Idade Contemporânea, a produção de alimentos teve um papel ainda mais
importante na economia global, com um aumento significativo na produção e no
comércio de alimentos em todo o mundo.
Um dos principais desenvolvimentos na Idade Contemporânea foi a Revolução
Verde, que começou na década de 1940 e continuou até a década de 1970. A Revolução
Verde envolveu a introdução de novas variedades de sementes, fertilizantes e pesticidas,
bem como o uso de técnicas modernas de irrigação e máquinas agrícolas. Isso permitiu
que os agricultores aumentassem significativamente a produção de alimentos em todo
o mundo, especialmente em países em desenvolvimento.
Outro desenvolvimento importante na Idade Contemporânea foi a globalização
da produção de alimentos. Com a melhoria dos sistemas de transporte e comunicação,
os produtores de alimentos foram capazes de comercializar seus produtos em todo
o mundo. Isso permitiu que os países mais desenvolvidos importassem alimentos
de regiões produtoras de baixo custo, enquanto os países em desenvolvimento
exportassem seus excedentes agrícolas para outras partes do mundo.
No entanto, a globalização da produção de alimentos também teve seus desafios.
Os produtores de alimentos em países em desenvolvimento muitas vezes enfrentaram
preços baixos e concorrência acirrada de produtores de países mais desenvolvidos. Além
disso, a produção em larga escala muitas vezes teve impactos ambientais negativos,
como a degradação do solo e a poluição da água.
Outra tendência importante na Idade Contemporânea foi o aumento do
interesse em alimentos orgânicos e sustentáveis. Isso se deve em parte à preocupação
com os impactos ambientais da produção em larga escala, bem como aos problemas
de saúde associados a pesticidas e fertilizantes químicos. Como resultado, muitos
consumidores estão dispostos a pagar mais por alimentos orgânicos e sustentáveis, e
muitos produtores estão adotando práticas mais sustentáveis em suas fazendas.
A Idade Contemporânea foi um período de intensificação da produção de
alimentos em todo o mundo, com a Revolução Verde e a globalização da produção
de alimentos. No entanto, também houve preocupações crescentes com os impactos
81
ambientais da produção em larga escala e um aumento do interesse em alimentos
orgânicos e sustentáveis.
Nos últimos séculos, a produção de alimentos se tornou cada vez mais
industrializada e mecanizada. A Revolução Industrial trouxe novas tecnologias para a
agricultura, como o uso de máquinas e fertilizantes, o que permitiu aumentar a produção
de alimentos de forma significativa. No entanto, esse modelo também teve seus efeitos
negativos, como a degradação do solo e a contaminação ambiental.
Além disso, a produção de alimentos tem se tornado cada vez mais globalizada,
com a expansão do comércio internacional. Isso tem permitido que diferentes regiões
do mundo possam acessar alimentos que antes não estavam disponíveis em suas
dietas, mas também tem gerado desigualdades na distribuição de alimentos e impactos
ambientais.
A história das sociedades produtoras de alimentos é uma história de
desenvolvimento e evolução. Desde os primórdios da agricultura até os dias de hoje,
a produção de alimentos tem sido essencial para a sobrevivência humana e para o
desenvolvimento das civilizações. No entanto, a forma como essa produção é realizada
tem mudado ao longo do tempo, com novas tecnologias e desafios surgindo a cada
período.
Hoje em dia, é importante pensar em como podemos produzir alimentos de
forma sustentável e garantir a segurança alimentar de toda a população mundial. É
preciso buscar soluções que considerem a relação entre a produção de alimentos, o
meio ambiente e a sociedade, e que permitam que todos tenham acesso a alimentos
saudáveis e nutritivos. A história das sociedades produtoras de alimentos nos mostra
que a agricultura é uma atividade vital e que precisa ser valorizada e respeitada em
todas as suas dimensões.
Atualmente, as sociedades produtoras de alimentos enfrentam novos desafios,
como a necessidade de garantir a segurança alimentar em um mundo com uma
população cada vez maior. A agricultura sustentável tem surgido como uma alternativa
viável para enfrentar esses desafios.
A agricultura sustentável busca equilibrar as necessidades da produção
de alimentos com a proteção do meio ambiente, a promoção da biodiversidade e o
desenvolvimento socioeconômico. Essa abordagem envolve o uso de técnicas como
a rotação de culturas, a redução do uso de pesticidas e fertilizantes químicos, a
conservação do solo e a valorização da diversidade genética.
Essas práticas mais responsáveis da produção de alimentos têm sido adotadas
por muitas empresas e governos ao redor do mundo, buscando uma solução para o
desafio da segurança alimentar. Além disso, a agricultura sustentável tem o potencial de
82
contribuir para a mitigação das mudanças climáticas, por meio da redução das emissões
de gases de efeito estufa e do aumento da capacidade de sequestro de carbono do solo.
A agricultura sustentável também pode ser uma importante ferramenta para
a promoção da igualdade social, uma vez que pode garantir o acesso a alimentos
saudáveis e de qualidade para todas as pessoas, independentemente de sua
condição socioeconômica. Além disso, a agricultura sustentável pode contribuir para
o desenvolvimento das comunidades rurais, por meio da geração de emprego e renda.
Apesar de suas vantagens, a adoção da agricultura sustentável ainda enfrenta
alguns desafios, como a falta de incentivos financeiros e políticas públicas adequadas.
No entanto, é fundamental que as sociedades produtoras de alimentos sigam
buscando alternativas mais responsáveis para a produção de alimentos, garantindo a
sustentabilidade ambiental, econômica e social.
Diante desses desafios, as sociedades produtoras de alimentos precisam buscar
alternativas mais responsáveis e sustentáveis para a produção de alimentos. Uma das
soluções é a agricultura sustentável, que busca equilibrar as necessidades da produção
de alimentos com a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento socioeconômico.
A agricultura sustentável envolve o uso de técnicas que reduzem o impacto
ambiental da produção de alimentos, como a rotação de culturas, a redução do
uso de pesticidas e fertilizantes químicos, a conservação do solo e a valorização da
diversidade genética. Essas práticas garantem a produção de alimentos mais saudáveis
e de qualidade, ao mesmo tempo em que protegem o meio ambiente e promovem o
desenvolvimento socioeconômico.
Além disso, a agricultura sustentável pode ser uma ferramenta importante
para a promoção da igualdade social, garantindo o acesso a alimentos saudáveis e de
qualidade para todas as pessoas, independentemente de sua condição socioeconômica.
A agricultura sustentável também pode contribuir para o desenvolvimento das
comunidades rurais, por meio da geração de emprego e renda.
No entanto, a adoção da agricultura sustentável ainda enfrenta desafios. A falta
de incentivos financeiros e políticas públicas adequadas pode ser um obstáculo para a
sua implementação em larga escala. Além disso, as sociedades produtoras de alimentos
também precisam enfrentar desafios relacionados à tecnologia, como a necessidade de
desenvolver novas técnicas de produção de alimentos mais eficientes e sustentáveis.
Diante desses desafios, é fundamental que as sociedades produtoras de
alimentos continuem a buscar alternativas mais responsáveis e sustentáveis para a
produção de alimentos, garantindo a sustentabilidade ambiental, econômica e social.
A produção de alimentos é uma atividade crucial para a sobrevivência da humanidade,
e é responsabilidade de todos garantir que essa atividade seja realizada de forma
responsável e sustentável.
83
No entanto, a produção de alimentos também teve um impacto significativo no
meio ambiente. A expansão das áreas cultiváveis levou ao desmatamento e à perda de
habitats naturais, além da contaminação do solo e da água por pesticidas e fertilizantes
químicos. A produção de alimentos também é responsável por uma parte significativa
das emissões de gases de efeito estufa, contribuindo para o aquecimento global e as
mudanças climáticas.
Diante desses desafios, as sociedades produtoras de alimentos têm buscado
alternativas mais sustentáveis e responsáveis para a produção de alimentos. Uma dessas
alternativas é a agricultura orgânica, que utiliza técnicas de cultivo que minimizam o
impacto ambiental e priorizam a saúde do solo e dos alimentos. A agricultura orgânica
também promove a biodiversidade e a conservação de recursos naturais, garantindo
uma produção de alimentos mais saudável e sustentável.
Outra alternativa é a agricultura de conservação, que envolve a preservação
do solo e a redução do uso de insumos químicos. A agricultura de conservação utiliza
técnicas como a rotação de culturas e a utilização de culturas de cobertura para manter
a saúde do solo e reduzir a erosão. Essas práticas garantem uma produção de alimentos
mais eficiente e sustentável, ao mesmo tempo em que protegem o meio ambiente.
Outro aspecto importante na história das sociedades produtoras de alimentos
é a relação com as culturas alimentares e as tradições culinárias. Cada região do
mundo desenvolveu suas próprias práticas e sabores, baseados nas plantas e animais
disponíveis naquela região. A diversidade de alimentos e culturas culinárias é uma
riqueza cultural que deve ser valorizada e preservada.
No entanto, a globalização e a padronização da alimentação têm ameaçado a
diversidade alimentar e as tradições culinárias. A produção em larga escala de alimentos
e a crescente influência de empresas transnacionais de alimentos têm levado a uma
homogeneização da alimentação, com a predominância de alimentos processados e
industrializados. Isso pode levar a problemas de saúde, como obesidade e doenças
crônicas, além de ameaçar a biodiversidade e as culturas alimentares locais.
Ao longo dos séculos, a produção de alimentos continuou a evoluir e se
desenvolver. Novas técnicas de cultivo e criação de animais foram desenvolvidas,
e a produção de alimentos se tornou cada vez mais eficiente e produtiva. O advento
da Revolução Industrial também teve um grande impacto na produção de alimentos,
permitindo que os alimentos fossem produzidos em larga escala e distribuídos para um
número cada vez maior de pessoas.
No entanto, a produção de alimentos também teve um impacto significativo no
meio ambiente. A expansão das áreas cultiváveis levou ao desmatamento e à perda de
habitats naturais, além da contaminação do solo e da água por pesticidas e fertilizantes
84
químicos. A produção de alimentos também é responsável por uma parte significativa
das emissões de gases de efeito estufa, contribuindo para o aquecimento global e as
mudanças climáticas.
Diante desses desafios, as sociedades produtoras de alimentos têm buscado
alternativas mais sustentáveis e responsáveis para a produção de alimentos. Uma dessas
alternativas é a agricultura orgânica, que utiliza técnicas de cultivo que minimizam o
impacto ambiental e priorizam a saúde do solo e dos alimentos. A agricultura orgânica
também promove a biodiversidade e a conservação de recursos naturais, garantindo
uma produção de alimentos mais saudável e sustentável.
Outra alternativa é a agricultura de conservação, que envolve a preservação
do solo e a redução do uso de insumos químicos. A agricultura de conservação utiliza
técnicas como a rotação de culturas e a utilização de culturas de cobertura para manter
a saúde do solo e reduzir a erosão. Essas práticas garantem uma produção de alimentos
mais eficiente e sustentável, ao mesmo tempo em que protegem o meio ambiente.
Além disso, as sociedades produtoras de alimentos têm buscado promover
a agricultura familiar e a produção local de alimentos, como forma de fortalecer as
economias locais e garantir a segurança alimentar das comunidades. A produção local
de alimentos também reduz a pegada de carbono dos alimentos, uma vez que reduz a
necessidade de transporte e armazenamento em longa distância.
Para enfrentar esses desafios, as sociedades produtoras de alimentos têm
buscado promover a agricultura sustentável e a produção de alimentos saudáveis e
diversificados. Isso pode incluir a promoção da agricultura urbana, a utilização de
tecnologias de baixo impacto ambiental, a conservação da biodiversidade e a valorização
das culturas alimentares locais. Além disso, é importante garantir o acesso a alimentos
saudáveis e diversificados para toda a população, por meio de políticas públicas e
programas de segurança alimentar.
Em resumo, a história das sociedades produtoras de alimentos é uma história
de evolução e mudança. Desde as primeiras práticas agrícolas até a produção em
larga escala de alimentos industrializados, a produção de alimentos tem sido uma das
atividades mais fundamentais e importantes da humanidade. No entanto, também
é uma história de desafios e mudanças necessárias para garantir a sustentabilidade
ambiental e a segurança alimentar das comunidades. A valorização da diversidade
alimentar e das tradições culinárias locais é fundamental para garantir uma produção
de alimentos saudável e sustentável para as gerações presentes e futuras.
85
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu:
• A tecnologia tem sido um fator fundamental no progresso humano desde os
primórdios da história, desde as ferramentas rudimentares utilizadas pelos nossos
antepassados na pré-história até as tecnologias mais avançadas de hoje em dia.
• O período de 11700 a.C. marca o fim da última glaciação e o início do período do
Holoceno, um período de mudanças significativas na história da humanidade, em
que as sociedades humanas começaram a se desenvolver de forma mais intensa,
e novas tecnologias surgiram para auxiliar as comunidades na sobrevivência e no
progresso.
• A diversidade cultural humana começou a aumentar significativamente, à medida
que as sociedades humanas se espalhavam pelo mundo, e as diferenças culturais e
tecnológicas entre as sociedades tornaram-se mais evidentes, à medida que cada
comunidade se adaptava às suas próprias necessidades e recursos naturais.
• A tecnologia e a cultura tiveram tanto efeitos positivos quanto negativos no período
de 11700 a.C., como o surgimento de sociedades complexas e o desenvolvimento de
cidades e centros urbanos, mas também a expansão das sociedades humanas muitas
vezes levou a conflitos e guerras entre diferentes grupos culturais, e a tecnologia
em si pode ter impactos negativos no meio ambiente e na sustentabilidade das
comunidades.
86
AUTOATIVIDADE
1 Desde os primórdios da humanidade, a busca por alimentos foi uma das principais
preocupações das sociedades. Entre as diferentes sociedades produtoras de
alimentos, uma das mais importantes e influentes foi a sociedade agrícola, que se
desenvolveu no crescente fértil, região que englobava parte do atual Oriente Médio,
entre os rios Tigre e Eufrates, onde hoje está localizado o Iraque. As sociedades
agrícolas dependiam da agricultura para produção de alimentos, desenvolvendo
técnicas avançadas de irrigação e cultivo. Diante desse contexto, o que melhor
descreve as sociedades produtoras de alimentos?
a) ( ) São sociedades que dependem da caça e coleta de alimentos para sobrevivência,
como era o caso das sociedades nômades que vagavam em busca de fontes de
alimento disponíveis na natureza.
b) ( ) São sociedades que dependem principalmente da criação de animais para
alimentação, como os povos nômades das estepes da Eurásia, que dependiam
da criação de cavalos, ovelhas e cabras.
c) ( ) São sociedades que dependem da agricultura para produção de alimentos, como
as antigas civilizações do Egito e Mesopotâmia, que desenvolveram técnicas
avançadas de irrigação e cultivo para garantir a produção de alimentos.
d) ( ) São sociedades que não se preocupam com a produção de alimentos e dependem
da natureza para suprir suas necessidades, o que não é uma característica
presente em nenhuma sociedade humana conhecida.
2 Desde o surgimento da humanidade, a produção de alimentos sempre foi uma das
principais preocupações das sociedades. Ao longo do tempo, as sociedades foram
se adaptando às condições naturais e às necessidades alimentares de seus povos,
desenvolvendo diferentes formas de produção de alimentos. Uma das sociedades
mais antigas e influentes na história da produção de alimentos foi a sociedade
agrícola. Essa sociedade se desenvolveu no crescente fértil, região que abrangia o
atual Oriente Médio, entre os rios Tigre e Eufrates, há cerca de 10.000 anos atrás.
Nesse período, as sociedades passaram a cultivar plantas e criar animais, em vez de
depender exclusivamente da caça e coleta de alimentos. Considerando a diversidade
de sociedades produtoras de alimentos ao longo da história, analise as seguintes
sentenças:
I- As sociedades agrícolas foram as primeiras a cultivar plantas e criar animais como
forma de produção de alimentos.
II- As sociedades pastoris eram caracterizadas pela criação de animais e utilização da
carne e do leite na sua alimentação.
III- As sociedades nômades dependiam da caça e coleta de alimentos e se deslocavam
em busca de novas fontes de recursos naturais.
87
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças II e III estão corretas.
d) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas.
3 As sociedades produtoras de alimentos são fundamentais para o fornecimento de
alimentos para as populações ao redor do mundo. Sobre esse assunto, classifique V
para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) As sociedades produtoras de alimentos são compostas apenas por grandes
empresas multinacionais.
( ) A produção de alimentos em grande escala pode trazer consequências ambientais
negativas, como o desmatamento e a contaminação do solo e da água.
( ) A agricultura familiar é uma forma de sociedade produtora de alimentos que visa à
sustentabilidade, à diversificação e à preservação dos ecossistemas.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – V.
b) ( ) V – V – F.
c) ( ) F – F – V.
d) ( ) F – V – F.
4 As sociedades produtoras de alimentos têm um papel crucial na garantia da segurança
alimentar da população. No entanto, muitas vezes, os métodos de produção utilizados
podem ter impactos negativos no meio ambiente e na saúde humana. Como essas
sociedades podem equilibrar a produção de alimentos em grande escala com a
proteção ambiental e a saúde dos consumidores?
5 As sociedades produtoras de alimentos enfrentam diversos desafios, como a
necessidade de aumento da produção para atender a demanda crescente da
população e a variação climática, que pode afetar a qualidade e quantidade das
safras. Como essas sociedades podem lidar com esses desafios e garantir a segurança
alimentar em longo prazo?
88
UNIDADE 2 TÓPICO 3 -
A EMERGÊNCIA DAS
SOCIEDADES COMPLEXAS NA
PRÉ-HISTÓRIA AMERICANA
1 INTRODUÇÃO
Ao longo da história, a América Latina foi palco de diversas civilizações antigas
que deixaram um legado cultural e histórico impressionante. Entre as mais importantes
estão as civilizações Olmeca, Maia, Teotihuacán, Nazca e Inca, que floresceram em
diferentes momentos e regiões da América Latina, deixando marcas significativas na
história e na cultura da região.
Cada uma dessas civilizações tinha suas próprias características únicas, desde
a arte e a arquitetura até a religião e as práticas cotidianas. As civilizações Olmeca, por
exemplo, foram uma das primeiras sociedades complexas da América Latina, conhecidas
por sua arte monumental e pelo desenvolvimento de uma escrita hieroglífica. Já os
Maias eram conhecidos por suas habilidades matemáticas e astronomia avançada, além
de sua escrita hieroglífica bem desenvolvida e uma arquitetura impressionante.
A civilização Teotihuacán, por sua vez, foi uma das maiores cidades da América
Latina pré-colombiana, conhecida por sua arquitetura impressionante e pelo grande
número de habitantes que possuía. Os Nazcas se destacaram por sua habilidade na
construção de linhas e figuras gigantes em desertos, que só foram descobertas a partir
de imagens aéreas na era moderna. E os Incas foram conhecidos por seu vasto império
e pela engenharia impressionante usada em sua arquitetura, como a construção de
Machu Picchu.
Em comum, todas essas civilizações deixaram um legado significativo para
a América Latina e para o mundo. Suas realizações culturais e históricas ainda são
admiradas e estudadas até hoje, ajudando-nos a entender a riqueza e a diversidade
das culturas que existiram na região. Além das realizações culturais e históricas, as
civilizações Olmeca, Maia, Teotihuacán, Nazca e Inca também foram importantes
na formação das sociedades e culturas que existem hoje na América Latina. Muitas
tradições, costumes e crenças que existem atualmente na região têm suas raízes
nessas civilizações antigas.
Por exemplo, a religião católica, que é predominante na América Latina, tem
influências de crenças indígenas que existiam antes da chegada dos colonizadores
europeus. Os Maias, por exemplo, acreditavam em diversos deuses e realizavam
89
cerimônias religiosas elaboradas em suas pirâmides e templos. A civilização Inca
também tinha uma religião bem desenvolvida, com acreditavam na existência de
diversos deuses e na importância de sacrifícios rituais.
Além disso, muitas línguas indígenas que ainda são faladas na América Latina
hoje têm suas raízes nas línguas que foram faladas por essas civilizações antigas. O
quéchua, por exemplo, ainda é falado por milhões de pessoas no Peru, Bolívia, Equador
e outros países da região, e é a língua dos Incas.
Em resumo, as civilizações Olmeca, Maia, Teotihuacán, Nazca e Inca foram
muito importantes para a história e a cultura da América Latina. Seus legados ainda
são sentidos e apreciados até hoje, ajudando-nos a entender melhor a diversidade e a
riqueza cultural da região.
2 A PRÉ-HISTÓRIA NO CONTINENTE AMERICANO
A pré-história americana é um período de milhares de anos que precede a
chegada dos europeus nas Américas, caracterizado por um grande número de culturas
e sociedades distintas. Muitas dessas culturas desenvolveram sociedades complexas,
com governos centralizados, estratificação social e complexas economias agrícolas.
Este livro explora a emergência dessas sociedades complexas, as condições que as
tornaram possíveis e como elas se desenvolveram.
Os primeiros assentamentos humanos nas Américas foram datados de
cerca de 15.000 anos atrás, mas foi há apenas cerca de 5.000 anos que as primeiras
sociedades complexas começaram a emergir. Acredita-se que as primeiras sociedades
complexas tenham surgido na Mesoamérica, onde os olmecas, maias e astecas
estabeleceram poderosas cidades-estado com governos centralizados e economias
agrícolas sofisticadas. No entanto, outras culturas também desenvolveram sociedades
complexas, como a civilização Chavín na região andina do Peru e a cultura Adena na
América do Norte.
Um dos fatores mais importantes que permitiram o surgimento de sociedades
complexas na pré-história americana foi o desenvolvimento da agricultura. A agricultura
permitiu que as sociedades produzissem excedentes alimentares, o que permitiu a
especialização do trabalho e o desenvolvimento de economias mais complexas. Isso,
por sua vez, permitiu o surgimento de governos centralizados e a estratificação social.
A estratificação social era uma característica comum das sociedades complexas
na pré-história americana. As elites governantes controlavam os recursos e os bens
materiais, enquanto a maioria da população trabalhava em atividades agrícolas ou
artesanais. Isso resultou em desigualdades sociais significativas e frequentemente em
conflitos violentos entre diferentes grupos sociais.
90
A cerâmica também desempenhou um papel importante no desenvolvimento
de sociedades complexas. A cerâmica permitiu o armazenamento e transporte de
alimentos e líquidos, o que permitiu que as sociedades crescessem em tamanho e
complexidade. Além disso, a cerâmica era frequentemente usada para fins cerimoniais
e religiosos, o que ajudou a unir as sociedades em torno de crenças comuns.
O comércio também desempenhou um papel importante no desenvolvimento
de sociedades complexas. O comércio permitiu que as sociedades obtivessem recursos
que não podiam ser encontrados em sua região, como obsidiana, jade e metais
preciosos. Isso, por sua vez, permitiu que as sociedades desenvolvessem economias
mais complexas e se tornassem mais interconectadas.
A religião e a arte também foram importantes para o desenvolvimento
de sociedades complexas na pré-história americana. A arte, em particular, era
frequentemente usada para fins cerimoniais e religiosos e servia para expressar a
identidade cultural das sociedades. A religião também ajudou a unir as sociedades em
torno de crenças comuns, o que era importante para a coesão social e política
Apesar do sucesso de muitas sociedades complexas na pré-história americana,
muitas delas acabaram por entrar em colapso. As razões para o colapso variam, mas
incluem fatores como mudanças climáticas, esgotamento de recursos naturais, conflitos
internos e externos e doenças. O colapso de sociedades como a dos maias e dos incas
é um exemplo de como mesmo as sociedades mais complexas podem ser vulneráveis
a fatores externos e internos.
A emergência de sociedades complexas na pré-história americana foi um
processo complexo que envolveu o desenvolvimento da agricultura, estratificação social,
comércio, religião e arte. Essas sociedades eram capazes de desenvolver governos
centralizados, economias complexas e coesão social. No entanto, elas também eram
vulneráveis a uma série de fatores, incluindo mudanças climáticas, conflitos internos e
externos e doenças. O estudo dessas sociedades complexas é importante para entender
a história da humanidade e as condições que levaram ao surgimento de sociedades
cada vez mais complexas ao longo do tempo.
De acordo com John Rowe, "os antigos habitantes de Mesoamérica não eram
apenas agricultores simples e primitivos, mas sim membros de uma cultura complexa
e sofisticada, que alcançou níveis notáveis de desenvolvimento em muitas áreas,
incluindo a arquitetura, a escrita, a astronomia e as artes" (ROWE, 1956, p. 12).
A pré-história americana é marcada por diversas civilizações complexas que
floresceram ao longo de milhares de anos antes da chegada dos europeus ao continente.
Essas sociedades se desenvolveram em diferentes regiões e possuíam culturas
distintas, mas compartilhavam características como a construção de grandes cidades
e monumentos, a prática da agricultura, a divisão do trabalho e a criação de sistemas
91
políticos e religiosos elaborados. Neste texto, serão abordadas as principais civilizações
das sociedades complexas na pré-história americana, incluindo a civilização Olmeca,
Maia, Teotihuacán, Nazca e Inca.
Olmeca
A civilização olmeca foi uma das primeiras civilizações mesoamericanas e
é considerada uma das culturas mais influentes da região. Embora tenha sido pouco
estudada, a civilização olmeca deixou uma marca indelével na história da Mesoamérica.
Neste texto, vamos explorar a cultura, a religião, a economia e a arquitetura dos olmecas,
e entender como eles moldaram a história da região.
A civilização olmeca floresceu na região costeira do Golfo do México, no
que é hoje o estado mexicano de Veracruz, entre cerca de 1400 a.C. e 400 a.C. As
origens dos olmecas ainda são um mistério, mas os arqueólogos acreditam que eles
se desenvolveram a partir de uma cultura anterior conhecida como San Lorenzo, que
existiu no mesmo local entre cerca de 1600 a.C. e 1200 a.C.
Os olmecas eram uma sociedade complexa e estratificada, com uma classe
dominante de elites e uma classe trabalhadora. Eles tinham uma religião politeísta que
adorava vários deuses, incluindo o deus do sol, da chuva e da serpente. A religião olmeca
estava intimamente ligada à natureza, e muitos dos seus rituais e cerimônias envolviam
a oferta de sacrifícios humanos.
Os olmecas também foram conhecidos por sua arte sofisticada, que incluía
esculturas de pedra monumentais, máscaras de jade, figuras de cerâmica e pinturas
murais. As esculturas olmecas são particularmente impressionantes, com rostos
humanos estilizados e corpos fortes e musculosos. Eles também foram pioneiros na
criação de retratos realistas, e muitas das suas esculturas retratam indivíduos reais com
características físicas distintas.
A economia olmeca era baseada na agricultura e no comércio. Eles cultivavam
milho, feijão, abóbora e algodão, e também eram habilidosos na pesca e na caça. Os
olmecas foram os primeiros a usar a borracha natural, que eles coletavam das árvores
de sapoti, para fazer bolas de borracha usadas em jogos de bola ritualísticos.
O comércio era uma parte importante da economia olmeca. Eles trocavam
produtos agrícolas, como cacau, com outras civilizações mesoamericanas, e também
exportavam jade e outras pedras preciosas. Os olmecas construíram uma rede de
estradas e canais que conectava suas cidades e facilitava o transporte de mercadorias.
Os olmecas construíram algumas das estruturas mais impressionantes da
Mesoamérica. Eles são mais conhecidos por suas cabeças colossais de pedra, que
pesam várias toneladas e medem mais de três metros de altura. Essas cabeças retratam
rostos humanos estilizados, e muitos acreditam que elas representam líderes olmecas.
92
Além das cabeças colossais, os olmecas construíram plataformas cerimoniais
e pirâmides, bem como palácios e centros cerimoniais. Muitas dessas estruturas eram
decoradas com esculturas e pinturas murais elaboradas, que retratavam cenas da vida
cotidiana, bem como rituais e cerimônias religiosas.
Embora a civilização olmeca tenha desaparecido por volta de 400 a.C., seu
legado vive até hoje. Os olmecas foram os primeiros a construir centros cerimoniais e
plataformas cerimoniais na Mesoamérica, e essa tradição continuou com as civilizações
que vieram depois, como os maias e os astecas. A arte olmeca também influenciou
a arte mesoamericana posterior, e muitos elementos estilísticos olmecas podem ser
vistos em esculturas maias e astecas.
Além disso, os olmecas foram os primeiros a desenvolver um sistema de escrita
na Mesoamérica, embora esse sistema ainda não tenha sido decifrado. Eles também
foram os pioneiros na criação de calendários, e seu calendário sagrado influenciou o
desenvolvimento do calendário maia.
A civilização olmeca pode ter sido uma das primeiras civilizações
mesoamericanas, mas sua influência foi duradoura. Sua arte sofisticada, arquitetura
impressionante e realizações culturais e religiosas continuam a fascinar e inspirar
pessoas até hoje. Embora muitos aspectos da cultura olmeca ainda sejam um mistério,
seu legado é inegável, e sua contribuição para a história da Mesoamérica é inestimável.
De acordo com o arqueólogo Michael D. Coe, "os olmecas foram a primeira
grande cultura da Mesoamérica e estabeleceram muitas das tradições que seriam
adotadas posteriormente pelos povos que os seguiram" (COE, 1999, p. 14).
Figura 2- Cabeça Olmeca
Fonte: [Link]/rJLQS. Acesso em: 15 mar. 2023.
93
A cabeça olmeca ou cabeça colossal é rotulada com o número 1 no museu de
Antropologia de Xalapa. Também é conhecido como el rey (o rei). Foi encontrado em
San Lorenzo Tenochtitlán (nome do sítio arqueológico, geralmente encurtado para San
Lorenzo), localizado em Texistepec, Estado de Veracruz, México. Data de 1200 a 900
anos a.C. e tem 2,9 metros de altura e 2,1 metros de largura. Mostra traços da civilização
Olmecas como sendo uma civilização que culturalmente influenciou civilizações da
América pré-colombiana.
Maia
A civilização maia é uma das civilizações pré-colombianas mais fascinantes da
história. Eles foram uma das mais avançadas e sofisticadas culturas da Mesoamérica,
com realizações notáveis em áreas como a arquitetura, astronomia, matemática, escrita,
arte e religião. Nesse texto, vamos explorar a história e cultura dos Maias, bem como seu
legado duradouro na Mesoamérica e no mundo.
Os maias floresceram na Mesoamérica entre os anos 2000 a.C. e 1500 d.C. Eles
viveram em uma vasta área que inclui os atuais países do México, Belize, Guatemala,
Honduras e El Salvador. A civilização Maia passou por várias fases de desenvolvimento,
com muitas cidades-estado autônomas que governavam seus próprios territórios.
Os maias foram uma sociedade complexa e altamente estratificada, com uma
elite governante e uma grande população camponesa. Eles acreditavam em um universo
dividido em três partes - o céu, a terra e o submundo - e adoravam vários deuses e
deusas que governavam essas três áreas.
Os maias foram pioneiros em várias áreas da cultura, incluindo a escrita
hieroglífica, a arte da cerâmica, a astronomia e a arquitetura. Eles eram particularmente
conhecidos por suas realizações em matemática, tendo desenvolvido um sistema
numérico vigesimal, que era baseado em 20 em vez de 10. Eles também foram os
primeiros a desenvolver um sistema calendário complexo e preciso, que influenciou
outras culturas mesoamericanas posteriores.
A economia maia era baseada na agricultura, com a maioria da população
trabalhando na produção de culturas como o milho, o feijão e o algodão. Eles também
eram habilidosos na pesca e na caça, e negociavam produtos como sal, jade e plumas
com outras culturas mesoamericanas. Além disso, a civilização maia tinha uma rede de
estradas e canais que conectava suas cidades-estado e facilitava o comércio.
A arquitetura maia é uma das mais impressionantes do mundo antigo. Eles
construíram muitas estruturas monumentais, incluindo grandes pirâmides, templos,
palácios e quadras de bola. Suas estruturas eram decoradas com esculturas, inscrições
e pinturas murais, muitas vezes retratando cenas da vida cotidiana, bem como rituais e
cerimônias religiosas.
94
Localizado na antiga cidade de Chichén Itzá, no estado mexicano do Yucatán,
o Templo de Kukulkán, também conhecido como Pirâmide de Kukulkán ou "El Castillo",
é um notável exemplo da arquitetura maia itzá. A construção da pirâmide teve início no
século VI d.C e foi ampliada nos séculos VIII e XI d.C.
Com sua forma piramidal e nove níveis ou patamares, o Templo de Kukulkán
apresenta quatro fachadas principais, cada uma com uma escadaria central e um
patamar superior que culmina em um templo. Esse impressionante monumento maia
era utilizado para a adoração do deus Kukulcán, também conhecido como "Serpente
Emplumada" na língua maia.
Além de sua importância religiosa, o Templo de Kukulkán é notável por apresentar
símbolos que representam os números mais importantes do calendário Haab, que é um
calendário solar agrícola, do calendário Tzolkin, que é um calendário sagrado, e da roda
calendárica. Cada uma das quatro faces da pirâmide está alinhada com um dos pontos
cardeais, e os 52 painéis esculpidos nas paredes referem-se aos 52 anos do ciclo de
destruição e reconstrução do mundo de acordo com a crença maia.
Em suma, o Templo de Kukulkán é um exemplo impressionante da habilidade
arquitetônica dos maias itzáes e um testemunho da sua rica cultura e história. Sua
construção elaborada e simbolismo complexo continuam a fascinar e encantar visitantes
do mundo inteiro até os dias de hoje.
Figura 3 – El Castillo
Fonte: [Link]/awGHV. Acesso em: 15 mar. 2023.
Embora a civilização maia tenha entrado em declínio por volta do século X,
seu legado continua vivo até hoje. Sua arquitetura impressionante, arte sofisticada e
realizações culturais e científicas continuam a fascinar e inspirar as pessoas. A escrita
hieroglífica maia influenciou a escrita mesoamericana posterior, e muitos elementos
estilísticos e matemáticos da cultura maia podem ser vistos em outras culturas
mesoamericanas posteriores.
95
A civilização maia é um dos exemplos mais notáveis de uma cultura altamente
desenvolvida que floresceu na Mesoamérica. Suas realizações em arquitetura, arte,
escrita, astronomia e matemática são testemunhos da habilidade e criatividade dos
maias. Embora a civilização maia tenha entrado em declínio no final do primeiro milênio,
seu legado vive em muitas formas, desde a língua e cultura dos maias modernos até as
influências na cultura mesoamericana posterior.
Os maias deixaram um impacto duradouro em nosso mundo, e seu legado é
prova da resiliência e da capacidade humana para criar e inovar. Eles também são um
lembrete de que a história da humanidade é rica e diversificada, com muitas culturas
e civilizações contribuindo para a nossa compreensão do mundo e da nossa própria
existência. É importante aprender sobre a história e cultura dos maias e de outras
civilizações antigas para que possamos apreciar a riqueza da diversidade humana e nos
tornarmos melhores globalmente conscientes e informados.
Teotihuacán (Asteca)
A civilização Teotihuacán foi uma das mais influentes da Mesoamérica. Seu
nome significa "cidade dos deuses", e foi construída no atual território do México, cerca
de 50 km a nordeste da Cidade do México. Nesse texto, vamos explorar a história e
cultura da civilização Teotihuacán, bem como seu legado duradouro na Mesoamérica e
no mundo.
Teotihuacán foi fundada por volta de 200 a.C. e se tornou uma das cidades mais
importantes da Mesoamérica entre os séculos III e VII d.C. Sua localização era estratégica,
perto de ricos depósitos de obsidiana, que era usada para a fabricação de ferramentas
e objetos de arte. Teotihuacán também era um importante centro comercial, com rotas
que se estendiam até a América Central e a costa do Golfo do México.
A cultura Teotihuacán era altamente sofisticada, com uma grande população
de até 100.000 pessoas. Eles adoravam vários deuses e deusas, incluindo o deus do sol
e da chuva, bem como a deusa da água e da fertilidade. A religião era central na vida
cotidiana dos teotihuacanos, e eles realizavam muitas cerimônias e rituais para agradar
aos deuses.
A civilização Teotihuacán foi pioneira em várias áreas culturais, incluindo a
arquitetura, a arte e a astronomia. Eles construíram muitas estruturas monumentais,
incluindo as famosas pirâmides do Sol e da Lua, bem como o Templo de Quetzalcóatl.
Suas estruturas eram decoradas com esculturas, murais e objetos de arte de obsidiana,
jade e outras pedras preciosas.
A economia Teotihuacán era baseada na agricultura, com a maioria da
população trabalhando na produção de culturas como o milho, o feijão e o algodão. Eles
também eram habilidosos na produção de cerâmica, tecelagem e trabalhos em pedra,
96
e negociavam produtos com outras culturas mesoamericanas. Além disso, a civilização
Teotihuacán tinha uma rede de estradas e canais que conectava suas cidades-estado
e facilitava o comércio.
A arquitetura Teotihuacán é uma das mais impressionantes do mundo antigo.
Eles construíram muitas estruturas monumentais, incluindo grandes pirâmides, templos,
palácios e complexos residenciais. Suas estruturas eram decoradas com esculturas,
inscrições e pinturas murais, muitas vezes retratando cenas da vida cotidiana, bem
como rituais e cerimônias religiosas.
De acordo com o arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, "os astecas foram
capazes de criar uma das maiores e mais complexas civilizações da história da
América, com um sistema político altamente centralizado e uma rica tradição religiosa"
(MOCTEZUMA, 2001, p. 45).
O Calendário Asteca, também conhecido como Piedra del Sol, é um círculo
monolítico que é cercado por uma série de discos esculpidos que contêm figuras
complexas e significativas. Esse calendário é uma importante obra de arte asteca e
reflete a profunda compreensão que os astecas tinham sobre a natureza do tempo e do
universo.
As figuras que adornam o Calendário Asteca são intricadas e altamente
simbólicas. Cada figura retrata a ordem temporal do mundo e descreve o destino da
humanidade. Por exemplo, o Sol, a Lua e as estrelas são representados no calendário,
bem como os deuses astecas, animais e plantas importantes para a cultura asteca.
O Calendário Asteca é um exemplo notável do nível de sofisticação alcançado
pela cultura asteca. Sua arte e arquitetura continuam a fascinar e inspirar as pessoas
até os dias de hoje, fornecendo um vislumbre da rica história e cultura da civilização
asteca.
Figura 4 – Calendário Asteca
Fonte: [Link]/hqKQX. Acesso em: 15 mar. 2023.
97
Embora a civilização Teotihuacán tenha entrado em declínio por volta do século
VII, seu legado continua vivo até hoje. Sua arquitetura impressionante, arte sofisticada
e realizações culturais e científicas continuam a fascinar e inspirar as pessoas. A escrita
hieroglífica Teotihuacán influenciou a escrita mesoamericana posterior, e sua tecnologia
de fabricação de objetos de obsidiana era considerada a melhor de sua época.
Além disso, a influência de Teotihuacán se estendeu para além de suas
fronteiras. Seus contatos comerciais e culturais com outras culturas mesoamericanas
ajudaram a disseminar sua influência, e muitos elementos da cultura Teotihuacán foram
incorporados nas tradições subsequentes. Por exemplo, o calendário sagrado dos
maias, uma das realizações mais notáveis da cultura maia, foi inspirado pelo calendário
Teotihuacán.
A civilização Teotihuacán foi uma das mais importantes e influentes da
Mesoamérica. Sua cultura sofisticada e realizações em arquitetura, arte, astronomia e
tecnologia ainda impressionam e inspiram as pessoas de todo o mundo. Seu legado
duradouro é uma prova da resiliência e capacidade humana de criar e inovar, bem como
a importância de aprender sobre a história e cultura de civilizações antigas para apreciar
a riqueza da diversidade humana e nos tornarmos melhores globalmente conscientes
e informados.
Nazca
A civilização Nazca floresceu na costa sul do Peru, entre os séculos I e VII d.C.
Eles são famosos por suas linhas e geoglifos intrigantes que foram esculpidos no deserto
do sul do Peru. Neste texto, vamos explorar a história, cultura e legado duradouro da
civilização Nazca.
A civilização Nazca surgiu na costa sul do Peru, cerca de 400 km ao sul de Lima.
Eles viviam em uma região desértica e árida, que recebe pouca chuva, mas que era rica
em recursos naturais, como guano, salitre e metais preciosos. Os Nazcas construíram
seus assentamentos em vales férteis, irrigados por rios que corriam das montanhas.
A cultura Nazca era altamente sofisticada, com uma sociedade hierárquica
liderada por sacerdotes e nobres. Eles adoravam vários deuses, incluindo o deus do sol,
da água e da fertilidade, e acreditavam na vida após a morte. A religião era central na
vida cotidiana dos Nazcas, e eles realizavam muitas cerimônias e rituais para agradar
aos deuses.
Os Nazcas eram especialistas em agricultura, engenharia hidráulica e tecelagem.
Eles produziam tecidos finos e intrincados, que eram altamente valorizados por outras
culturas andinas. Além disso, a civilização Nazca era conhecida por suas habilidades em
metalurgia e cerâmica, produzindo objetos e joias decorativas em ouro, prata e cerâmica.
98
A arte Nazca é caracterizada por sua habilidade em representar animais,
plantas e figuras humanas em tecidos finos e cerâmicas decorativas. No entanto, sua
fama mundial veio principalmente de suas misteriosas linhas e geoglifos esculpidos no
deserto. Essas linhas são enormes desenhos esculpidos na superfície do solo, que só
podem ser vistos do ar. Eles retratam figuras humanas, animais e geometrias, e sua
finalidade ainda é objeto de debate.
Algumas teorias sugerem que as linhas Nazca tinham um propósito religioso ou
astronômico, enquanto outras sugerem que elas estavam relacionadas à irrigação ou
navegação. O mistério e a beleza dessas linhas têm fascinado pessoas de todo o mundo
e continuam a ser um tesouro arqueológico valioso e único.
As Linhas de Nasca, ou Nazca, são um impressionante conjunto de geoglifos que
se encontram no deserto de Sechura, no sul do Peru. Foram criadas entre os anos 500
a.C. e 500 d.C. pela cultura Nasca, que realizou uma incrível façanha ao fazer incisões
rasas no solo do deserto, retirando seixos e deixando exposto o pó de diferentes cores.
Como resultado, surgiram impressionantes formas e figuras, tanto geométricas como
figurativas, que percorrem mais de 1.300 km de extensão e cobrem uma área de cerca
de 50 km².
O clima seco e estável do planalto ajudou a preservar naturalmente as linhas,
que foram reconhecidas como Patrimônio Mundial pela Unesco em 1994. Embora os
estudiosos ainda não tenham chegado a um consenso sobre o propósito dos projetos,
é amplamente aceito que eles tenham um significado religioso. Entre as formas mais
notáveis estão figuras zoomórficas de animais, como o beija-flor, aranha, peixe, condor,
garça, macaco, lagarto, cachorro e gato, bem como formas geométricas e figuras
humanas.
As Linhas de Nasca continuam sendo um mistério intrigante para os estudiosos.
Embora se acredite que a cultura nasca as tenha criado por razões religiosas, ainda não
se sabe ao certo qual era o propósito exato dos desenhos. Algumas teorias sugerem que
eles eram utilizados em cerimônias religiosas e rituais, enquanto outras propõem que
poderiam ter servido como um calendário astronômico ou mesmo um mapa de água
subterrânea.
No entanto, ainda há muito a ser descoberto sobre as Linhas de Nasca e sua
cultura criadora. Acredita-se que essas linhas possam estar relacionadas a rituais
religiosos ou astronômicos, mas ninguém sabe ao certo o motivo de sua criação. A
cultura nasca desapareceu há mais de mil anos, e suas crenças e práticas se perderam
com o tempo.
Alguns estudiosos sugerem que as linhas foram construídas para serem vistas
do espaço, como uma forma de comunicação com seres extraterrestres. Embora essa
teoria seja popular, não há evidências concretas para apoiá-la.
99
Independentemente do propósito original das Linhas de Nasca, é inegável que
elas representam uma das maiores maravilhas da engenhosidade humana. Elas são
um testemunho da habilidade e criatividade da cultura nasca, e um exemplo notável
de como a arte pode se integrar harmoniosamente com a natureza. Como resultado, as
Linhas de Nasca são um destino turístico popular, atraindo visitantes de todo o mundo
que desejam ver essas obras impressionantes de perto.
Figura 5 – Linhas de Nasca
Fonte: [Link] Acesso em: 15 mar. 2023.
A civilização Nazca entrou em declínio por volta do século VII, possivelmente
devido a mudanças climáticas e à exaustão dos recursos naturais. No entanto, seu legado
duradouro ainda é evidente hoje em dia. Seus geoglifos e cerâmicas são apreciados
como obras de arte de grande valor histórico e cultural, e sua tecnologia em irrigação e
engenharia hidráulica foi posteriormente incorporada por outras culturas andinas.
Além disso, a influência dos nazcas na cultura andina continua a ser sentida até
hoje. Muitos elementos da cultura Nazca foram incorporados nas tradições e crenças de
culturas andinas posteriores, como os incas. Por exemplo, a adoração do deus sol pelos
Nazcas pode ter influenciado a religião inca, que considerava o sol como a divindade
suprema.
Outro legado importante dos nazcas é o conhecimento que eles nos deixaram
sobre a agricultura em regiões desérticas. Eles desenvolveram técnicas avançadas
de irrigação, incluindo canais subterrâneos, reservatórios e canais de superfície, que
permitiram a eles cultivar suas terras em um ambiente hostil e árido. Essas técnicas
de irrigação foram posteriormente utilizadas pelos incas e outras culturas andinas,
permitindo a elas prosperar em regiões áridas e montanhosas.
100
A civilização Nazca foi uma cultura altamente sofisticada que floresceu na
costa sul do Peru. Sua habilidade em tecelagem, metalurgia e cerâmica, bem como seu
conhecimento avançado em engenharia hidráulica e irrigação, são testemunhos de sua
inteligência e capacidade inovadora. No entanto, é principalmente por seus geoglifos e
linhas intrigantes que eles são lembrados hoje em dia. Seu legado duradouro é evidente
na arte, tecnologia e tradições de culturas andinas posteriores, e seu impacto na história
e cultura da América do Sul continua a ser valorizado e estudado por arqueólogos,
historiadores e entusiastas de todo o mundo.
Inca
A civilização Inca, também conhecida como Império Inca, é uma das mais
conhecidas e fascinantes civilizações da história. Localizada na região Andina da
América do Sul, os incas governaram um vasto império que se estendia da Colômbia ao
Chile, com sua capital em Cusco, no Peru. Neste texto, vamos explorar a história, cultura
e legado da civilização inca.
A história dos incas remonta a mais de mil anos antes da formação do Império
Inca propriamente dito. Os primeiros habitantes da região Andina foram os povos pré-
incas, que viveram na área por milhares de anos. O Império Inca foi fundado no século
XIII por Manco Capac, que se tornou o primeiro líder inca.
A sociedade Inca era altamente organizada e estratificada. Na base da sociedade
estavam os camponeses, que trabalhavam a terra e forneciam alimentos para o império.
Acima deles estavam os artesãos, que produziam tecidos, cerâmica e objetos de metal.
Os nobres, que eram descendentes diretos do líder fundador, Manco Capac, governavam
o império, juntamente com o imperador.
Figura 6 – Vista panorâmica de Machu Picchu
Fonte: [Link]/cpLUV. Acesso em: 15 mar. 2023.
101
Machu Picchu é um dos pontos mais deslumbrantes da Terra e uma caminhada
de inverno pode ser uma ótima experiência. Durante os meses mais frios, de dezembro
a abril, menos pessoas tentam a Trilha Inca e há menos multidões em Machu Picchu.
O clima mais quente também significa menos chuva em dezembro, tornando-se um
dos melhores meses para uma gota de Machu Picchu. As vistas fazem de abril um dos
melhores meses para visitar, mas com ainda menos pessoas ao redor.
De um modo geral, Machu Pichu no inverno é uma estação seca com clima
decente e excelente época para visitar esta cidade antiga. Durante a alta temporada
turística, do final de julho a agosto e início de outubro são a época mais popular para
visitar. É importante notar que pode haver mais chuva durante este período do que em
outros meses, mas de um modo geral ainda é um bom momento para os turistas.
Isso é chamado de temporada do ombro para Machu Pichu e há significativamente
menos pessoas. O clima em agosto e outubro tende a ser ótimo com menos pancadas
de chuva do que na estação chuvosa, mas ainda é seco o suficiente para tornar a
caminhada confortável.
Os melhores meses para visitar seriam do final de maio até meados de junho ou
final de agosto até o início de outubro, quando grandes multidões são menos prováveis.
Estes meses também têm bom tempo e condições geralmente secas, tornando-os
épocas ideais do ano para visitar Machu Pichu. A alta temporada turística de Machu
Pichu é de maio a setembro, quando há uma chance maior de dias claros, perfeitos para
passear.
O governo Inca era altamente centralizado, com o imperador tendo o controle
absoluto sobre o império. A administração do império era feita através de uma rede
de governadores regionais e de aldeões locais, que coletavam impostos e garantiam a
segurança do império.
A religião Inca era politeísta e baseada na crença em muitos deuses, incluindo
o deus do sol, Inti, e a deusa da terra, Pachamama. Os incas acreditavam que a terra
e seus recursos eram sagrados, e praticavam cerimônias e rituais para honrar seus
deuses e agradecer-lhes por sua generosidade.
Os incas eram conhecidos por suas habilidades em arquitetura e engenharia,
tendo construído muitas das estruturas impressionantes que ainda existem hoje. Entre
as mais famosas estão Machu Picchu, uma cidade fortificada nas montanhas, e a cidade
de Cusco, a capital do império. Os incas usavam técnicas avançadas de engenharia,
incluindo a construção de paredes de pedra sem o uso de argamassa.
A arte Inca incluía cerâmica, escultura em pedra e tecelagem, sendo que esta
última era altamente valorizada. Os tecidos produzidos pelos incas eram extremamente
coloridos e intrincados, e incluíam padrões e desenhos simbólicos.
102
A literatura Inca era principalmente oral, com histórias e lendas passadas de
geração em geração. No entanto, os incas também usavam um sistema de cordas
chamado quipu para registrar informações, como registros comerciais e estatísticas.
O legado da civilização Inca é vasto e duradouro. Sua arquitetura e engenharia
ainda são estudadas e admiradas hoje em dia, e a cidade de Machu Picchu é um dos
locais turísticos mais visitados do mundo. A tecelagem Inca também continua a ser
valorizada como uma forma de arte, e muitos artistas modernos se inspiram em seus
designs e padrões.
A língua quéchua, falada pelos incas, ainda é a língua materna de milhões de
pessoas na região Andina, e muitas tradições e costumes Incas ainda são preservados
e celebrados por comunidades indígenas na região.
Além disso, a herança espiritual da religião Inca continua a ser importante
para muitas pessoas na América do Sul, com muitos rituais e cerimônias ainda sendo
praticados hoje em dia.
A civilização Inca é uma das mais impressionantes e fascinantes da história.
Com suas habilidades em arquitetura, engenharia, tecelagem e administração, os incas
construíram um império vasto e duradouro que continua a influenciar e inspirar as pessoas
até hoje. Seu legado é uma prova do poder e da sabedoria desta antiga civilização, que
será sempre lembrada como uma das grandes realizações da humanidade.
Ao longo da história, muitas civilizações floresceram e deixaram sua marca na
humanidade. As civilizações Olmeca, Maia, Teotihuacán, Nazca e Inca são exemplos
notáveis de culturas antigas que tiveram um impacto duradouro na história e na cultura
da América Latina.
Cada uma dessas civilizações teve sua própria contribuição única para a história
e a cultura da região. A civilização Olmeca é conhecida por suas impressionantes
esculturas de pedra e pela influência que teve nas culturas que vieram depois. A civilização
maia é famosa por suas realizações em matemática, astronomia e escrita hieroglífica,
além de sua arquitetura impressionante. A civilização Teotihuacán foi responsável por
alguns dos maiores e mais elaborados templos e pirâmides da América Latina, enquanto
a civilização Nazca é conhecida por suas linhas e geoglifos misteriosos e intrincados. A
civilização Inca é famosa por seu vasto império, habilidades em engenharia e arquitetura,
além de seus avanços em administração e têxteis.
Embora essas civilizações antigas tenham desaparecido há muito tempo, seu
legado ainda é sentido hoje. A influência que tiveram na arte, arquitetura, ciência e
religião é inegável. Muitas tradições e práticas antigas ainda são valorizadas e mantidas
pelas comunidades locais da América Latina.
103
Além disso, o estudo dessas civilizações tem sido fundamental para nossa
compreensão da história e evolução da humanidade. Através de suas realizações,
podemos aprender sobre as habilidades e conhecimentos que as pessoas antigas
possuíam e como elas aplicavam essas habilidades para construir sociedades e culturas
prósperas e sustentáveis.
As civilizações Olmeca, Maia, Teotihuacán, Nazca e Inca são exemplos notáveis
de culturas antigas que deixaram um legado duradouro. Seus avanços em arte, ciência,
religião e administração são uma prova do poder e da sabedoria das pessoas que
viveram nessas sociedades antigas. É nosso dever continuar a estudar e valorizar essas
culturas, a fim de entender e apreciar melhor a história e a riqueza da América Latina.
Além de sua importância histórica e cultural, as civilizações Olmeca, Maia,
Teotihuacán, Nazca e Inca também são um lembrete da resiliência humana. Apesar
das dificuldades que enfrentaram, essas sociedades conseguiram prosperar e se
desenvolver por séculos, deixando um legado impressionante que ainda é admirado e
estudado até hoje.
Essas civilizações antigas também nos mostram a importância da preservação
do patrimônio cultural e histórico. Muitas dessas estruturas e artefatos antigos foram
danificados ou destruídos ao longo do tempo, seja por eventos naturais ou por ações
humanas. É importante que trabalhemos para preservar e proteger essas relíquias do
passado, para que as gerações futuras também possam aprender e se inspirar com
essas culturas antigas.
Por fim, as civilizações Olmeca, Maia, Teotihuacán, Nazca e Inca são um
lembrete da riqueza e diversidade das culturas do mundo. Cada uma dessas civilizações
tinha suas próprias tradições, línguas e costumes, que contribuíram para a riqueza e a
diversidade da região da América Latina. É importante que apreciemos e valorizemos
essa diversidade cultural e trabalhemos juntos para preservá-la para as gerações
futuras.
104
LEITURA
COMPLEMENTAR
1491: NOVAS REVELAÇÕES DAS AMÉRICAS ANTES DE COLOMBO
Charles C. Mann
O livro apresenta uma visão fascinante sobre as culturas pré-colombianas na
América, que eram muito mais complexas e sofisticadas do que se pensava anteriormente.
Mann aborda diversos temas, como a agricultura e a tecnologia avançada dos povos
americanos, as cidades e impérios pré-hispânicos, a arte e a religião, a ecologia e a
diversidade cultural.
Além disso, o autor discute as consequências do contato entre as culturas
americanas e europeias, que levou a uma transformação profunda das sociedades e da
paisagem das Américas. O livro é uma leitura fascinante e enriquecedora para quem se
interessa pela história das culturas pré-colombianas e pelos impactos da colonização
europeia no continente americano.
Fonte: [Link] Acesso em: 30 jul. 2020.
105
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu:
• Diversidade cultural: a América Latina foi palco de diversas civilizações antigas, como
as Olmecas, Maias, Teotihuacán, Nazca e Incas, que deixaram um legado cultural
e histórico impressionante. Cada civilização tinha suas próprias características
únicas, desde a arte e arquitetura até a religião e práticas cotidianas.
• Contribuição para a sociedade atual: além das realizações culturais e históricas, as
civilizações antigas foram importantes na formação das sociedades e culturas que
existem hoje na América Latina. Muitas tradições, costumes e crenças que existem
atualmente na região têm suas raízes nessas civilizações antigas.
• Influência religiosa: a religião católica, predominante na América Latina, tem
influências de crenças indígenas que existiam antes da chegada dos colonizadores
europeus. Os maias, por exemplo, acreditavam em diversos deuses e realizavam
cerimônias religiosas elaboradas em suas pirâmides e templos. A civilização Inca
também tinha uma religião bem desenvolvida, com acreditavam na existência de
diversos deuses e na importância de sacrifícios rituais.
• Raízes linguísticas: muitas línguas indígenas que ainda são faladas na América
Latina hoje têm suas raízes nas línguas que foram faladas por essas civilizações
antigas. O quéchua, por exemplo, ainda é falado por milhões de pessoas no Peru,
Bolívia, Equador e outros países da região, e é a língua dos incas. Essa diversidade
linguística contribui para a riqueza cultural da região.
106
AUTOATIVIDADE
1 Durante a Pré-História americana, várias culturas se desenvolveram na América,
deixando suas marcas em monumentos, ferramentas e obras de arte. Sobre esse
período histórico, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Na América pré-histórica, foram desenvolvidas apenas culturas nômades, que
viviam da caça, pesca e coleta de frutos.
b) ( ) Na América pré-histórica, foram encontrados monumentos megalíticos, como
os famosos moais da Ilha de Páscoa.
c) ( ) A cultura Olmeca, que surgiu no México por volta de 1400 a.C., é considerada a
primeira civilização da América pré-histórica.
d) ( ) Na América pré-histórica, foram desenvolvidas diversas culturas agrícolas, como
a dos maias, incas e astecas, que criaram complexas sociedades com governos
centralizados, arquitetura monumental e avançados sistemas de escrita e
calendário.
2 Considerando as teorias mais aceitas sobre a chegada dos primeiros seres humanos
ao continente americano, analise as sentenças a seguir:
I- A teoria mais aceita atualmente é a que defende a chegada dos primeiros humanos
por meio do estreito de Bering, que ligava a Ásia à América durante as últimas
glaciações. Essa teoria se baseia em evidências arqueológicas e genéticas, que
sugerem que os primeiros humanos a habitar a América vieram da Ásia há cerca de
15 mil anos, atravessando o estreito de Bering a pé ou em barcos primitivos. Essa
teoria é amplamente aceita pela comunidade científica.
II- Outra teoria afirma que os primeiros humanos chegaram à América através de uma
rota costeira pelo Oceano Pacífico. Essa teoria sugere que os primeiros humanos
chegaram à América navegando pela costa do Pacífico, a partir do sudeste asiático,
há cerca de 20 mil anos. Eles teriam seguido o litoral até chegar à América do Sul,
sem necessariamente passar pelo estreito de Bering. Essa teoria é menos aceita do
que a primeira, mas ainda é considerada uma possibilidade.
III- Existe uma teoria que defende que os primeiros humanos chegaram à América por
meio de embarcações, navegando pelo Oceano Pacífico, a partir de ilhas do sudeste
asiático. Essa teoria sugere que os primeiros humanos chegaram à América há
mais de 60 mil anos, navegando em embarcações rudimentares a partir de ilhas
da Polinésia e da Melanésia. Eles teriam navegado pelo Pacífico até chegar à costa
americana, passando por várias ilhas ao longo do caminho. Essa teoria é menos
aceita do que as outras duas e é objeto de debate na comunidade científica.
107
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a sentença I está correta.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) Somente a sentença III está correta.
d) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas.
3 A pré-história americana refere-se ao período anterior à chegada dos europeus nas
Américas, que ocorreu no final do século XV. Durante esse período, as populações
que habitavam o continente desenvolveram culturas e civilizações distintas e ricas
em diversidade, como os povos indígenas que ainda habitam o continente hoje. Com
base nesse contexto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) A pré-história americana é um período pouco estudado pela ciência, devido à
escassez de vestígios e artefatos encontrados pelos arqueólogos.
( ) As culturas pré-colombianas que habitavam a América eram todas muito
semelhantes, com práticas culturais e religiosas idênticas.
( ) A civilização maia, que floresceu na região da atual Guatemala, México e Honduras,
foi uma das mais importantes culturas pré-colombianas, destacando-se pela
construção de grandes templos e avanços em astronomia e matemática.
a) ( ) V – F – V.
b) ( ) V – V – F.
c) ( ) F – F – V.
d) ( ) F – V – F.
4 A cultura olmeca é considerada a "mãe" das civilizações mesoamericanas, tendo
influenciado outras culturas como os maias, toltecas e astecas. Apesar de terem
deixado poucos registros escritos, sua importância é evidente em suas obras de
arte e arquitetura monumental. A descoberta da Cabeça Olmeca, em 1862, marcou o
início dos estudos sobre a cultura Olmeca, que se intensificaram a partir da década
de 1930, com as escavações do arqueólogo mexicano Alfonso Caso. Quais foram as
principais características da cultura Olmeca na pré-história americana?
5 A agricultura foi um marco na história da humanidade, e seu desenvolvimento teve
grande importância no surgimento das civilizações em diferentes partes do mundo. Nas
Américas, a agricultura teve um papel fundamental no desenvolvimento das culturas
pré-colombianas, que se destacaram pela sua riqueza e diversidade cultural. As técnicas
agrícolas desenvolvidas pelas populações indígenas permitiram a produção de alimentos
em larga escala, o estabelecimento de assentamentos permanentes e o surgimento
de civilizações complexas, como a dos incas. A agricultura também possibilitou a
diversificação da alimentação e a criação de uma ampla variedade de pratos e bebidas
típicas das diferentes regiões das Américas. Qual foi a importância da agricultura para o
desenvolvimento das culturas pré-colombianas nas Américas?
108
REFERÊNCIAS
AMARAL, R. C. M. do. Arqueologia da Amazônia. São Paulo: Editora Contexto, 2015.
ANDRADE, M. C. C. de. O que é diversidade cultural. São Paulo: Editora Brasiliense,
2011.
BALÉE, W. O programa de pesquisa de ecologia histórica. Revista Anual de Antropo-
logia, v. 30, p. 153-158, 2001.
CARNEIRO, R. L. O cultivo da mandioca entre os Kuikuru do Alto Xingu. In: EGGERS, C.
(org.). Mandioca na África e no Novo Mundo. Berlim: Reimer, 1984. p. 235.
CHILDE, V. G. Man makes himself. New York: New American Library, 1936.
COE, M. D. Os olmecas: a primeira civilização da Mesoamérica. São Paulo: Edusp, 1999.
FLANNERY, K. V. Archaeology: a contextual approach. Chicago: University of Chica-
go Press, 1968.
FUNAG. História da Ciência - Vol. I - Da Antiguidade ao Renascimento Científico.
Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2010. Disponível em: [Link]
download/1019-Historia_da_Ciencia_-_Vol.I_-_Da_Antiguidade_ao_Renascimen-
to_CientIfico. Acesso em: 27 mar. 2023.
FUNARI, P. P. A.; PELEGRINI, S. A. de C. Arqueologia da América Latina. São Paulo:
Editora Contexto, 2003.
GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
GRADSTEIN, F. M.; OGG, J. G.; SCHMITZ, M. D.; OGG, G. M. A Escala de Tempo Geológi-
co. 1. ed. Elsevier, 2012.
HALL, S. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2003.
LÉVI STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.
MACHADO, J. R. S. As sociedades produtoras de alimentos e a arqueologia da pré-his-
tória brasileira. Revista USP, São Paulo, n. 92, p. 104-123, 2012.
MOCTEZUMA, E. M. Os astecas. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2001.
109
MENDES, R. de S. A. A diversidade de culturas no Brasil: como valorizá-las na prática
educativa da sala de aula. Revista de Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 19, n. 30,
p. 99-112, 2010. Disponível em: [Link]
-diversidade-de-culturas-no-brasil-como-valoriza-las-na-pratica-educativa-da-sala-
-de-aula. Acesso em: 27 mar. 2023.
OLIVEIRA, J. P. de. Diversidade cultural: desafios e perspectivas. São Paulo: Edito-
ra Peirópolis, 2010.
ROOSEVELT, A. C. Ecologia histórica amazônica. Revista Anual de Antropologia, v.
28, p. 621-642, 1999.
ROWE, J. H. Uma introdução à arqueologia da área mesoamericana. Washington:
União Pan-Americana, Divisão de Relações Culturais, 1956.
SAID, E. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Compa-
nhia das Letras, 2007.
110
UNIDADE 3 —
ARQUEOLOGIA NO BRASIL
EM PERSPECTIVA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender o desenvolvimento da arqueologia brasileira e como ela esteve pautada
desde o início por influências estrangeiras;
• aprender os principais sítios arqueológicos que ocorrem no território brasileiro,
incluindo tantos sítios pré-coloniais quanto históricos;
• visualizar como a Arqueologia trabalha não somente com a cultura material, mas
igualmente com os seus desdobramentos através da Memória, relação com o entorno
por meio da Paisagem, e as ações e pensamentos que levaram a sua elaboração por
meio da Cognição;
• entender o processo para se tornar arqueólogo no Brasil por meio das principais
carreiras profissionais.
PLANO DE ESTUDOS
A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar
o conteúdo apresentado.
TEMA DE APRENDIZAGEM 1 – BREVE HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA
TEMA DE APRENDIZAGEM 2 – PARA ALÉM DA CULTURA MATERIAL
TEMA DE APRENDIZAGEM 3 – O TRABALHO DO ARQUEÓLOGO E AS CARREIRAS
PROFISSIONAIS NO BRASIL
CHAMADA
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
111
CONFIRA
A TRILHA DA
UNIDADE 3!
Acesse o
QR Code abaixo:
112
UNIDADE 3 TÓPICO 1 —
BREVE HISTÓRIA DA ARQUEOLOGIA
1 INTRODUÇÃO
A perspectiva histórica para compreendermos a trajetória da Arqueologia é
muito importante, pois fornece uma visão dos contextos sociais nos quais a disciplina
se desenvolve, repercutindo nas próprias temáticas de pesquisa que passam ou não
a serem priorizadas. Visualizamos essa trajetória a partir das tendências teóricas na
disciplina na Unidade 1, para então compreendermos o desenvolvimento das sociedades
humanas ao longo do Holoceno, época geológica em que houve um florescimento
cultural e tecnológico, na Unidade 2. A Unidade 3, por sua vez, irá reunir essas duas
abordagens ao elucidar as principais influências teóricas e metodológicas na história da
Arqueologia Brasileira e como as transformações na sociedade brasileira, ao longo dos
séculos XIX e XX, influenciaram nas pesquisas e nos temas abordados.
A Arqueologia começou a dar ares como um campo de investigação a partir da
transferência da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808, tornando-se mais presente com
a figura de Dom Pedro II e a independência do Brasil alguns anos depois, em 1824. A
elite intelectual da época próxima ao imperador buscava a mesma tendência crescente
entre os impérios europeus, a construção de um sentimento de nacionalidade, o
que a Arqueologia teve muito a contribuir. Nesse mesmo período, foram fundados
importantes instituição vinculadas à Arqueologia e outras áreas das ciências humanas
e naturais, como o Museu Nacional e o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Com o
fim do Império e o início da República, houve um declínio no interesse pelas pesquisas
arqueológicas, que só viria a ser retomada a partir da década de 1940, com uma forte
influência da arqueologia francesa. Posteriormente, durante a ditatura militar no país,
entre 1964 e 1985, foi desenvolvido um Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas
(PRONAPA) que formou uma geração de arqueólogos nos moldes das tendências
teóricas e metodológicas norte-americanas. Com a volta da democracia, a Arqueologia
passa a se consolidar cada vez mais dentro das universidades, ampliando seu escopo
teórico e metodológico nas pesquisas arqueológicas.
Nesse Tema de Aprendizagem 1, também conheceremos os principais sítios
arqueológicos ao longo do território brasileiro. Há os sítios mais antigos, localizados
temporalmente no Pleistoceno, época geológica anterior ao Holoceno, que são alvo de
debates efervescentes na comunidade acadêmica internacional, sendo importantes
para a discussão sobre o povoamento das Américas. Ao longo do Holoceno, é possível
visualizar, no Brasil, uma grande diversificação de culturas e ambientes que se
desenvolvem em uma estreita relação indissociável. Iremos explorar, de norte a sul do
113
país, as principais culturas desse período, enfatizando sua cultura material associada,
assim como suas feições diagnósticas na paisagem e o tipo de ambiente onde são
encontrados os tipos de sítios arqueológicos. Para finalizar, também serão contemplados
os sítios históricos, referentes ao período do Brasil que se inicia com a colonização
europeia a partir do século XVI.
2 ARQUEOLOGIA IMPERIAL
A Arqueologia começou a aparecer no Brasil a partir da mudança da Coroa Real
para o país, em 1808, motivada pelos conflitos napoleônicos que se espalhava pela
Europa. Dom Pedro I trouxe consigo importantes coleções de materiais arqueológicos,
como elementos do Egito, que viriam compor o Museu Nacional (antigo Museu Real), mas
foi somente com seu sucessor, Dom Pedro II que a Arqueologia ganhou mais espaço.
Além de aumentar a coleção do Museu com diversos objetos oriundos das antigas
civilizações do Velho Mundo, como Grécia, Roma e de outras partes do mediterrâneo, no
intuito de se igualar aos grandes museus europeus, como o Louvre e o Museu Britânico,
D. Pedro II também fundou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), o qual
contemplava tanto a arqueologia clássica e egípcia, como, pela primeira vez, olhava
para a pré-história brasileira (FUNARI;CHEVITARESE, 2013).
Materiais como restos líticos e cerâmicos e fragmentos ósseos humanos
foram alvo de interesse do IHGB, reunidos por meio de descobertas casuais ao longo
das províncias por viajantes e moradores e em menor proporção por investigações
cuidadosamente conduzidas (LANGER; SANTOS, 2002). Inspirados por aquilo que
ocorria na Europa, o imperador e a elite erudita buscavam construir uma nacionalidade
brasileira ao contar a história da nação, incluindo o período anterior à chegada dos
portugueses, o que a Arqueologia poderia contribuir ao buscar por vestígios de cidades
pré-históricos no interior do vasto território ainda desconhecido. Os indígenas passavam
a ser um símbolo nacional, embora fossem considerados remanescentes de antigas
civilizações em decadência, sendo necessária a sua catequização (LANGER; SANTOS,
2002). Em situações de resistência, as populações originárias eram perseguidas e suas
terras tomadas, fatores que ocorreram especial no sul do país, onde eram dadas aos
imigrantes alemães e italianos na tentativa de colonizar e modernizar, visto que a Europa
representava o progresso, enquanto que a influência indígena era relegada somente ao
passado sem compor o futuro da nação (FUNARI;MOURAD, 2016).
Uma das grandes investigações arqueológicas do período, a qual foram
acompanhadas diretamente por Dom Pedro II, foram as incursões do naturalista
dinamarquês Peter Lund à região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Lund chegou a
explorar cerca de 800 cavernas na região, reunindo informações sobre ossos humanos
associados à fauna extinta (FUNARI, 2022). Suas descobertas despertaram um novo
interesse pela pré-história brasileira ao admitir o contexto bastante antigo por meio da
estratigrafia que ganhou repercussão mundial. Assim,
114
A arqueologia brasileira passou para uma nova fase, na qual ocorreu a sua
institucionalização e tornou-se parte das atividades dos museus. Em
1876 o Museu Real passou a denominar-se Museu Nacional, e juntamente
com o Museu Paulista e o Museu Paraense, fomentou novas expedições
realizadas no território nacional pelo cargo recém-criado de naturalista
viajante (CASAGRANDE, 2016, p.45).
Outra figura importante desse período foi o diretor do Museu Nacional, Ladislau
Neto. O pesquisador se esforçou na compreensão dos americanos nativos e estava
em contato constante com a comunidade e os modelos acadêmicos internacionais
(FUNARI, 2022). Foi responsável por publicar a primeira síntese de Arqueologia Brasileira,
em 1885, com o nome de “Investigações sobre Archeologia Brasileira”, além de suas
ideias se destacarem como a defesa da origem antrópica dos sambaquis, os montes de
conchas ao longo da costa brasileira que eram descritos desde os tempos de colônia,
assim como a origem distante da cultura marajoara (BARRETO, 2000).
Com o fim da monarquia e o início da República, em 1889, as pesquisas e o
interesse pela Arqueologia tiveram uma grande diminuição. Como colocam Funari
e Mourad (2016), houve um crescente movimento na transição dos séculos XIX e XX
contra os povos indígenas e as coleções arqueológicas pararam de ser incentivadas
e construídas. Um dos poucos personagens que se dedicava à curadoria do material
arqueólogo foi o diretor do Museu Paulista, o alemão Hermann von Ilhering, embora
defendesse ideias racistas como o extermínio dos indígenas e a origem natural dos
sambaquis como resultados dos avanços e recuos do mar pretéritos, já que não
acreditava na capacidade tecnológica dos povos ameríndios, considerando-os como
selvagens e primitivos (FUNARI;MOURAD, 2016; FUNARI, 2022).
Assim, dava-se o cenário da Arqueologia durante o período republicano, quando
as tradicionais pesquisas publicadas no Archivos, Revista do IHGB e
em outros periódicos desapareceram. A quantidade e qualidade das
escavações cessou até metade do Novecentos. Praticamente levou
mais de meio século para que as pesquisas atingissem a mesma
dimensão e importância que tiveram durante a monarquia, pelo
menos em prestígio internacional e reconhecimento institucional
(LANGER, 2014, p. 102, grifo nosso).
INTERESSANTE
O incêndio do Museu Nacional
Muitos dos itens que chegaram à coleção do Museu em seu início no século
XIX foram perdidos em um incêndio de grandes proporções, que ocorreu em
setembro de 2018. Cerca de 90% dos itens foram destruídos, assim como o
edifício que abrigava o museu sofreu com diversos danos. Atualmente, por
meio do projeto Museu Nacional Vive, uma equipe interdisciplinar com apoio de
instituições nacionais e internacionais, que lutam para a reconstrução do Museu.
115
3 AS INFLUÊNCIAS DAS ESCOLAS ESTRANGEIRAS NA
ARQUEOLOGIA BRASILEIRA
A Arqueologia voltou a florescer no país após a Segunda Guerra Mundial
e o estabelecimento de um período democrático a partir de 1945. A partir de então,
a Arqueologia passa a tomar ares de disciplina com a sua prática agora inserida nas
universidades e não mais tanto vinculada aos museus. O principal representante dessa
retomada foi o humanista Paulo Duarte. Inspirado pelo tempo que passou na França,
Duarte viu por meio do Museu do Homem como os povos nativos deviam ser tratados
como qualquer outro ser humano, passando a defender os direitos humanos dos
povos indígenas (FUNARI, 2022). Como docente da Universidade de São Paulo, Duarte
organizou o Instituto de Pré-História, no qual a Arqueologia tinha um papel central. Foi
responsável por estabelecer a influência da arqueologia francesa no Brasil, que viria a
formar uma geração de arqueólogos no futuro. Por meio de sua relação com o diretor
do Museu do Homem, Paul Rivet, Duarte conseguiu investimentos internacionais
e estabelecer uma tradição de missões franco-brasileiras, que perduram até os dias
atuais (FUNARI;CHEVITARESE, 2013). Essas primeiras missões tiveram como liderança o
casal de arqueólogos Annete e Joseph Laming-Emperaire.
Durante a década de 1950, o casal sucedeu diversos projetos arqueológicos
ao longo do território brasileiro, sendo responsáveis pelas primeiras datações
radiocarbônicas em diversos sítios, como os sambaquis da costa paulista e catarinense,
assim como a retomada dos estudos na região de Lagoa Santa, estudada por Lund
no século passado (BARRETO, 2000), incluindo o achado de um dos fósseis mais
famosos do Brasil, o de Luzia, com cerca de 11 mil anos atrás (SANTOS, 2015). O estudo
da arte rupestre teve um foco especial em suas pesquisas devido as suas inclinações
teóricas, pois as pinturas e entalhes nas paredes e pedras inspiravam os debates sobre
a linguagem e simbologia humana (FUNARI;CHEVITARESE, 2013).
Conforme Barreto (2000, p. 42),
Na bagagem metodológica trazida para o Brasil pelo casal
estavam fatalmente os ensinamentos de mestres como Leroi-
Gourhan aplicados ao contexto de sítios paleolíticos franceses.
Assim, no Brasil, a escolha de sítios pré-cerâmicos é privilegiada,
concentrando-se em métodos de escavação de superfícies amplas
para a reconstrução de solos de ocupação de determinados sítios, e
na análise de artefatos, essencialmente líticos, dentro das tipologias
e terminologias francesas da época.
Em conjunto com o casal, Duarte buscava a preservação do patrimônio pré-
histórico, resultando na proposta da lei de proteção aos sítios arqueológicos, aprovada
em 1961 pelo Congresso. A partir de então, seguiu-se diversas leis que visavam a
proteção do patrimônio arqueológico, o qual também foi expandido para abraçar a
diversidade brasileira, com relíquias indígenas, dos negros e do povo comum (FUNARI;
MOURAD, 2016).
116
Com o início da ditadura militar, em 1964, a arqueologia inspirada pelos franceses
sofreu fortes abalos com cortes de investimentos e a consequente demissão de Paulo
Duarte da Universidade de São Paulo, em 1969. Em contrapartida, as influências da
América do Norte passaram a dominar a Arqueologia brasileira, especialmente pelo
estabelecimento do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA) entre
os anos de 1965-1970, que, embora a curta duração, reverberou nas pesquisas regionais
por muito tempo. O PRONAPA foi liderado pelo casal Betty Meggers e Clifford Evans, do
Smithsonian Institution, os quais, mesmo em tempos de repressão, transitavam livremente
pelo território do país, formando toda uma geração de arqueólogos a sua tutela.
O PRONAPA reuniu pesquisadores de norte a sul e produziu muitos dados
inéditos sobre a arqueologia regional por meio de vários levantamentos ao longo do
território nacional. Ao contrário do que vinha sendo foco anteriormente – sítios líticos
e sambaquis –, o programa focou principalmente nos sítios cerâmicos. Como colocam
os próprios pesquisadores do período, anteriormente ao Programa, os sítios cerâmicos
eram atribuídos aos Tupi ou Guarani, nesse sentido, houve um avanço nos quadros
regionais da arqueologia brasileira (BROCHADO et al., 1969). A Figura 2, na Unidade
1, é um exemplo desses quadros, os quais eram influenciados fortemente pela teoria
histórico-culturalista.
Como colocam Funari e Chevitarese (2013), as bases teóricas e metodológicas
do programa eram contrárias a arqueologia humanista, pois acreditavam que os povos
indígenas e seus ancestrais eram preguiçosos e incapazes de um desenvolvimento
tecnológico aprimorado devido às condições ambientais dos Trópicos, que limitariam
o desenvolvimento cultural como um todo. Um bom exemplo dessas ideias defendidas
por Meggers se referia ao ambiente amazônico, pois, para ela, a floresta não teria a
capacidade de sustentar grandes populações e de que sua biodiversidade não
representava necessariamente abundância de recursos, configurando populações
a uma “tendência adaptativa primária que preconiza a dispersão e transitoriedade”
(MEGGERS, 1987, p. 220).
O objetivo principal do Programa era a elaboração de seriações de artefatos,
que, por sua vez, eram organizados em “tradições” e “fases”. Essas categorias eram
abordadas como um sinônimo de etnia, utilizadas para estabelecer a distribuição
dos artefatos no tempo e no espaço, e, por consequência, das populações que as
produziram. Pouca ênfase foi dada às populações que produziram os objetos, eles em si
constituíam todo o conhecimento produzido, com descrições exaustivas dos métodos
de produção do maior número possível de fragmentos cerâmicos (BARRETO, 2000). A
análise quantitativa desse material era baseada no Método Ford, o qual buscava construir
uma cronologia cultural com base nos atributos cerâmicos, sendo a lógica empregada
do mais simples e antigo ao mais complexo e recente. Toda a mudança cultural era
atribuída ao difusionismo, ou seja, a transmissão de ideias e saberes de um lugar para
o outro, especialmente em casos em que a tecnologia parecia complexa e elaborada
demais aos olhos dos pesquisadores, o que eles atribuíam a origens externas, como
117
a zona andina. Embora se observe alguns resquícios teóricos no Programa, segundo
Barreto (2000, p. 45) “trata-se de uma formação essencialmente prática, de técnicas de
pesquisa de campo e de classificação de materiais arqueológicos em laboratório”.
Comparando as duas escolas, a francesa e a americana, Funari e Chevitarese
(2013) pontuam duas questões de ordem teórica e metodológica: enquanto a arqueologia
inspirada nos franceses trazia fortes contribuições da antropologia e da semiótica na
valorização da diversidade de produção cultural indígena, a arqueologia dos norte-
americanos via esses povos como atrasados, como toda a capacidade tecnológica
aprendida fora daqui; no trabalho de campo, os franceses davam ênfase a escavação
por níveis naturais (Figura 1), orientando-se a partir das particularidades de cada sítio,
em oposição a escavação por níveis artificiais (Figura 2) dos pronapianos (arqueólogos
formados pelo PRONAPA), que tendiam a ignorar temas simbólicos em suas pesquisas,
como a arte rupestre.
Figura 1 – Escavação por níveis naturais na Grécia, priorizando o avanço da escavação conforme
as estruturas arqueológicas
Fonte: [Link]
Acesso em: 5 jun. 2023.
Figura 2 – Escavação arqueológica por níveis naturais em um sítio histórico dos Estados Unidos.
Os arqueólogos avançam, geralmente de 10 cm em 10 cm, independente das diferentes colorações
e estruturas encontradas ao longo da escavação
Fonte: [Link] Acesso em: 5 jun. 2023.
118
Com o término da ditadura militar, em 1984, a Arqueologia começou a ganhar
mais espaço dentro das universidades e floresceu em relação às temáticas, aos métodos
e às teorias empregados. Ainda havia a influência forte das escolas francesas e norte-
americana na prática arqueológica, mas outras abordagens foram sendo inseridas na
arqueologia brasileira, a qual começava também a se integrar mais com a comunidade
arqueológica internacional.
NOTA
As definições de Tradição e Fase Arqueológica
A Tradição foi um termo empregado pelo PRONAPA a partir da definição de Willey e Philips
(1958), que a colocam como uma continuidade temporal por configurações persistentes
dentro de tecnologias singulares, ou melhor, sistemas de formas relacionadas.
No Brasil, o termo ainda é utilizado com uma conotação geográfica, ou seja, de
área limitada por dada Tradição. A Fase, por sua vez, é definida como qualquer
complexo de cerâmica, lítico, padrões de habitação etc. relacionado no tempo
e no espaço, em um ou mais sítios. A definição de Tradição Arqueológica
teria muita semelhança com a definição de uma espécie biológica, enquanto
as Fases seriam equivalentes a populações biológicas.
4 A ARQUEOLOGIA NO FINAL DO SÉCULO XX
A partir da década de 1980, com uma nova geração de arqueólogos, a arqueologia
brasileira passou a estabelecer projetos com orientações teóricas mais definidas, e não
somente uma especialização oriunda de influências estrangeiras (BARRETO, 2000).
A grande maioria dos profissionais eram oriundos das ciências naturais, geociências,
história, ciências sociais e antropologia, o que ampliava o escopo das pesquisas
arqueológicas que prosperaram em diversas abordagens. Como coloca Barreto (2000,
p.47) “reflexos de uma arqueologia anglo-saxônica, mais dedutiva e orientada por
problemas específicos em busca da formulação de modelos e teorias, chegaram ao país,
não sem o atraso típico de países marginais e a resistência de gerações anteriores”.
Sítios pesquisados desde o período imperial, como as grutas de Lagoa Santa
e os sambaquis do litoral, passam a ser pesquisados sobre novas perspectivas, que
passa a priorizar não somente o estudo de um só sítio, mas do conjunto de sítios e
da paisagem em que estavam inseridos. Outras questões também remetem ao estudo
do comportamento humano e das populações passadas, tanto em termos adaptativos,
quanto de sua organização social. Com mais sítios datados e a constatação cada vez
mais clara de um passado bastante antigo para o Brasil, a arqueologia brasileira se insere
nos debates sobre o povoamento americano, integrando-se aos debates internacionais
(BARRETO, 2000). Além dos estudos pré-coloniais, a Arqueologia Histórica Brasileira
começa a se desenvolver a partir de então, dando destaque para os estudos dos
119
quilombos em Minas Gerais, por Carlos Magno Guimarães, e das missões jesuíticas
no Rio Grande do Sul, por Arno Kern, durante a década de 80 (FUNARI; CHEVITARESE,
2013). Também no ano de 1980 foi fundada a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB),
contando com muitos profissionais de diversas instituições de todo o país, a qual segue
como uma comunidade científica influente na área até os dias atuais, promovendo
eventos e periódicos que contemplam a riqueza das pesquisas arqueológicas brasileiras.
Agora que percorremos a história da Arqueologia no Brasil, desde o seu
surgimento durante o Império até a sua vinculação com as universidades e o
estabelecimento de um fazer arqueológico que se desenvolve a partir da década de
1980, nos dedicaremos a conhecer sobre a quem são aplicados todo o conhecimento
teórico e metodológico: os sítios arqueológicos.
5 OS PRINCIPAIS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS NO BRASIL
O Brasil é um país continental que abriga uma grande diversidade de ambientes,
de norte a sul, o território brasileiro pode ser dividido em seis biomas: Amazônia,
Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Da mesma forma, as populações
que ocuparam esse vasto território antes da chegada dos europeus também eram
muito diversas culturalmente, o que implica para a Arqueologia uma grande diversidade
de sítios arqueológicos. O contato com os povos europeus também trouxe uma série de
transformações profundas na sociedade, incluindo episódios trágicos na história como
o genocídio de muitos povos a fim de ocupar o seu território. Os conflitos e a colonização
também trouxeram à Arqueologia uma grande variedade de sítios, denominados
históricos. Precisaríamos de um livro inteiro dedicado aos sítios brasileiros para poder
comportar toda a sua gama, por isso, aqui nos dedicaremos brevemente aos principais
sítios estudados ao longo da história da arqueologia brasileira.
5.1 O POVOAMENTO AMERICANO E OS SÍTIOS MAIS ANTIGOS
DO BRASIL
A teoria mais consolidada e vigente na Arqueologia americana coloca a entrada
das primeiras populações humanas pela Beríngia, uma região entre a Rússia e o Alasca
que em períodos glaciais com a diminuição do nível do mar formava uma espécie de
ponte entre os continentes asiático e americano. A grande questão e motivos de debates
até os dias atuais se dá por meio da cronologia, ou seja, quando teriam ocorrido essas
migrações. O primeiro modelo conhecido como Clóvis devido à cultura arqueológica
encontrada na América do Norte (Figura 3) colocava as populações americanas como
uma mesma origem biológica e uma única onda de migração da Ásia para a América
durante o Pleistoceno Tardio, quando havia grandes volumes de gelo conectando lugares
no norte do planeta. Esse modelo foi colocado sob suspeita a partir da descoberta de
datações muito mais antigas na América do Sul, inclusive no Brasil.
120
Figura 3 – Pontas da cultura Clovis
Fonte: O’Brien, Buchanan e Eren (2015, p. 75)
Outro modelo foi desenvolvido por Joseph Greenberg e colaboradores durante
a década de 1980 denominado “Modelo das Três Migrações”, o qual coloca três levas
distintas de migração para as Américas: uma primeira Proto-ameríndia, entre 14 e 11 mil
AP, que teria dado origem a maioria dos povos ameríndios; uma segunda Proto-Nadene,
entre 9 e 5 mil AP, que teria dado origem aos povos da costa pacífica dos Estados
Unidos e Canadá; e a terceira Proto-aleute, entre 5 e 3 mil AP, que teria dado origem aos
povos esquimós e aleútes. O modelo seguia principalmente por uma variedade genética
advinda de produtos gênicos, e não propriamente da diversidade do DNA em si, o que
acarretou algum tempo depois a sua refutação e a vigência de outro modelo (NEVES;
BERNARDO; OKUMURA, 2007).
O modelo atual denominado “Modelo dos dois componentes biológicos” prevê
que a América foi ocupada por dois fluxos gênicos distintos, um de origem asiática e o
outro de origem australomelanésia. Como colocam Neves, Bernardo e Okumura (2007),
não há como saber o número exato de rotas de migração para as Américas devido à
escassez de esqueletos humanos antigos preservados nos contextos arqueológicos,
mas há como mapear a origem dos povos americanos. Esse modelo segue a análise
da variabilidade morfocraniana de populações nativas extintas. Assim, temos que
populações mais tardias do continente americano mantém entre si uma grande
similaridade, mesmo em contextos geográficos distintos, enquanto que as populações
denominadas paleoindías, ou seja, mais antigas, mantém uma morfologia craniana
própria (NEVES; BERNARDO; OKUMURA, 2007). Baseada nesse modelo, iremos expor,
inicialmente, os sítios arqueológicos paleoíndios do Brasil.
121
5.1.1 A Serra da Capivara
Localizada no Piauí, a Serra da Capivara reúne inúmeros sítios arqueológicos
sob os paredões rochosos, que, por sua vez, estão repletos de desenhos rupestres,
como coloca Esteves (2014, on-line) a respeito desses desenhos “representam tatus,
emas, macacos, lagartos, mas também uma infinidade de figuras humanas, raras na
arte rupestre da Europa. Há pessoas caçando, brincando, dançando, lutando, parindo,
transando”. Elas passam a se tornar mais abundantes por volta de 10 milAP, embora
existam algumas datações mais antigas, na faixa dos 20 mil AP, o que é motivo de certa
suspeita por parte da comunidade arqueológica americana devido às datações muito
mais antigas que o esperado, além de isoladas, ou seja, não existem outros sítios do
período (ESTEVES, 2014).
O primeiro sítio arqueológico a sofrer intervenção na região, e talvez o mais
famoso, é o Boqueirão da Pedra Furada, com datações que chegam até 32 mil AP.
Segundo Prous (2006). existem muitos elementos do contexto do sítio da Pedra Furada
que são frequentemente discutidos, como a origem dos carvões, que poderiam ser
provenientes de incêndios naturais na região e não de fogueiras antrópicas, assim como
os instrumentos de pedra lascada, que são confeccionados com matéria prima local dos
seixos que rolam dos paredões rochosos e por isso muitos pesquisadores acreditam que
sejam de origem natural, além disso, Esteves (2014) coloca que foi sugerida inclusive a
possibilidade de macacos-prego da região terem produzido as ferramentas. Para Prous
(2006, p. 15), essas questões tornam “difícil acreditar na origem antrópica dos indícios
mais antigos do Parque da Serra da Capivara”.
Entretanto, como já mencionada nos tópicos anteriores, as missões franco-
brasileiras, incluindo a região da Serra da Capivara, receberam muitos investimentos e
profissionais qualificados. A Arqueologia francesa é amplamente conhecida pelos seus
estudos em cadeias operatórias, ou seja, o caminho pelo qual se dá a manufatura de
um artefato, especialmente em relação aos artefatos líticos (Figura 3). Esteves (2014, p.
35), ao relatar a visão do arqueólogo responsável hoje pela missão arqueológica franco-
brasileira no Piauí, Eric Boeda, nos fala que “só quem desconhece as ferramentas de
outros cantos do globo é capaz de contestar o caráter antrópico dos seixos lascados da
Serra da Capivara”. Outros sítios datados do mesmo período, por volta de 20 mil AP, como
a Toca da Tira Peia, além do acúmulo de dados consistentes ao longo dos anos, têm
produzido uma certe flexibilidade da comunidade acadêmica em aceitar as ocupações
antigas do Piauí, o que seria preciso reformular os modelos de ocupação americana para
comportar os novos dados (ESTEVES, 2014).
122
Figura 4 – Artefatos líticos do sítio Boqueirão da Pedra Furada
Fonte: Lourdeau e Pagli (2014, p. 606)
5.1.2 Lagoa Santa
Como vimos, a região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, foi pesquisada desde
o século XIX, quando já se falava sobre a antiguidade dos achados devido à associação
dos vestígios humanos com espécies de animais extintas. Os sítios arqueológicos da
região são encontrados em abrigos sob rocha e salões de entradas de grutas, fatores
que facilitam a preservação dos remanescentes humanos. As datações dos mais de
80 esqueletos encontrados vão desde 11 a 8 mil AP (PROUS, 2006), e também há o
esqueleto do fóssil mais antigo do Brasil, Luzia, com cerca de 12.5 mil AP (Figura 5).
123
Figura 5 – Fóssil e reconstituição facial de Luzia exposto no Museu Nacional
Fonte: [Link]
Acesso em: 5 jun. 2023.
Segundo Prous (2006, p. 20),
os “Homens de Lagoa Santa” apresentam características cranianas
que os aproximam de populações australianas e africanas atuais ou
passadas, mais que dos grupos asiáticos atuais. Pesquisas recentes
evidenciaram traços similares nos demais esqueletos – bastantes
raros – datados do início do Holoceno e encontrados em outras
partes da América... Além de uma conformação peculiar do crânio,
as populações de Lagoa Santa, no Brasil central, apresentam outras
feições que as distinguem dos grupos posteriores.
Além da grande quantidade de sepultamentos humanos, há uma abundância
nos sítios arqueológicos de instrumentos líticos lascados sobre quartzo e sementes
carbonizadas, que em conjunto com análises dentárias dos esqueletos, revelaram que
a alimentação dos habitantes de Lagoa Santa era muito mais baseada em vegetais do
que proteína animal (PROUS, 2006).
5.1.3 Santa Elina
O sítio Santa Elina é um abrigo rochoso, localizado no Mato Grosso, que apresenta
uma grande diversidade de figuras pintadas em suas paredes, além de um contexto
cronológico que chega até 27 mil AP, quando foram encontradas associações entre a
ocupação humana mais antiga e vestígios de megafauna extinta (VIALOU; VIALOU, 2019)
Os vestígios encontrados configuram áreas de habitação, com atividades domésticas
como a vasta presença de fogueiras, além de muitos vestígios de plantas antigas,
onde pesquisas revelaram a presença de muitas frutas comestíveis nos arredores
dos sítios no período de sua ocupação (VIALOU; VIALOU, 2019). A partir das pesquisas
no sítio, também concluiu-se que “a sequência contínua de ocupações no abrigo,
124
desde a passagem Pleistoceno-Holoceno, e as duas séries distintas de ocupações no
Pleistoceno testemunham a multiplicidade de circulações de vindas e de moradias no
abrigo” (VIALOU; VIALOU, 2019, p. 362).
5.2 OS SÍTIOS DO HOLOCENO
Ao longo do Holoceno, as sociedades pré-coloniais brasileiras se diversificaram,
vindo a ocupar praticamente todos os cantos do território, em uma grande variedade
de ambientes. Essas sociedades aderiram formas distintas de subsistência, tecnologia,
assentamentos e organização social, de forma que se torna impossível contemplar toda
a diversidade arqueológica pré-colonial brasileira. Assim, iremos expor os principais
sítios estudados da época holocênica, destacando os seus particulares em relação aos
fatores já destacados.
5.2.1 Os sítios da floresta amazônica
As evidências humanas mais antigas na Amazônia podem ser encontradas
no sítio em abrigo rochoso conhecido como Caverna da Pedra Pintada, localizado na
região de Monte Alegre, na margem esquerda do rio Amazonas. As datações realizadas
pela arqueóloga norte americana, Anne Roosevelt, chegam até 11.200 mil AP, e reúnem
evidências de uma ocupação densa de caçadores, coletores e pescadores com milhares
de pedras lascadas (PROUS, 2006). Outro indicativo de que a ocupação do abrigo foi
intensa e não somente sazonal são as camadas de terra preta presentes no sítio (NEVES,
2022). Além disso, também foram registrados restos alimentares, tanto botânicos
quanto faunísticos, que incluem a exploração de uma ampla gama de recursos (NEVES,
2022) Acerca das pinturas rupestres, “as figuras geométricas podem muito bem ter sido
métodos para contagem, enquanto insetos com braços e pernas humanos e homens
com cabeças solares parecem representar seres mitológicos. Adultos e crianças
deixaram impressões de suas mãos nas paredes” (FUNARI; NOELLI, 2002, p. 54).
Na região da Amazônia Central, existe o sítio Dona Stella, datado do início do
Holoceno, a cerca de 9.500 mil AP, caracterizado pela presença de inúmeras pontas
de projétil bifaciais (Figura 6), o que era raro de se encontrar na Amazônia, ainda mais
em contexto de escavação. Quando comparados a outros sítios do mesmo período na
Amazônia, como nas regiões do alto Rio Madeira e baixo Tocantins, com uma cronologia
entre 10 e 7 mil AP, e que não possuem esse tipo de tecnologia lítica, podemos perceber
“uma grande diversidade cultural expressa pela produção de diferentes tipos de artefatos
de pedras lascadas, desde o início da história indígena na região” (NEVES, 2022, p. 73).
125
Figura 6 – Desenho de uma ponta de projétil bifacial encontrada na Amazônia Ocidental
Fonte: Hilbert (1998, p. 302)
Durante o Holoceno Médio, os sítios da região amazônica revelam que
as populações baseavam o seu modo de vida em uma economia que combinava
plantas domesticadas, plantas silvestres e animais, que alternavam a sua
importância na subsistência ao longo do tempo (NEVES, 2022). Assim, “na Amazônia
a fartura de recursos não criou pressões seletivas, ao longo do Holoceno Médio,
que impulsionassem o estabelecimento antigo da vida sedentária e da estratificação
social” (NEVES, 2022, p. 80).
A partir do primeiro milênio da Era Comum, ou seja, entre 2 e 1 mil AP, a
Amazônia passa a sofrer intensas transformações culturais. Neves (2022) resume
essas transformações em três pontos: o estabelecimento da vida sedentária; o
estabelecimento de sinais visíveis de modificação da natureza, ou seja, a criação de
paisagens; e o estabelecimento de duas tradições cerâmicas distintas localizadas
em áreas geográficas específicas. A Tradição Policroma tem origem na ilha de Marajó
e é caracterizada por ser decorada com padrões pintados completos (PROUS, 2006).
Na ilha de Marajó é conhecida como Subtradição Marajoara (Figura 7), relacionada a
construção de montes artificiais de terra conhecidos localmente como tesos, enquanto
que na região do Médio Amazonas é conhecida como Subtradição Guarita (PROUS,
2006). A Tradição Incisa-Ponteada, por sua vez, ocorre na região das terras altas onde
há inúmeros rios e lagos entre Santarém e Óbidos, destacando a cerâmica tapajônica
(Figura 8) (PROUS, 2006).
126
Figura 7 – Urna funerária marajoara (Tradição Policroma) exposta no Museu Americano de
História Natural dos Estados Unidos.
Fonte: [Link]
[Link]. Acesso em: 5 jun. 2023.
Figura 8 – Cerâmica da região do Tapajós
Fonte: [Link]
Acesso em: 5 jun. 2023.
127
DICA
A série Amazônia: arqueologia da floresta
O documentário organizado em quatro episódios fala das escavações
realizadas no sítio Monte Castelo, localizado no estado da Amazônia,
caracterizado por ser um sambaqui fluvial e apresentar evidências
humanas antigas desde 6 mil AP. Conduzido pelo arqueólogo Eduardo
Goés Neves, as pesquisas arqueológicas no sítio e na região demonstram
como a Amazônia sempre foi transformada pelos povos que a habitaram.
O documentário foi produzido pela SescTV e está disponível gratuitamente
na plataforma do Youtube por meio do endereço: [Link]
playlist?list=PLiIQoqgFEbVVMGXd5pXU7NZVlZjL8bZio.
DICA
Os Geoglifos
Na região da Amazônia que compreende o estado do Acre, existem
inúmeras formas geométricas escavadas no solo que quando vistas de
cima nos revelam formas geométricas. O livro ilustrado intitulado Geoglifos:
paisagens da Amazônia Ocidental nos fornece um panorama sobre as
pesquisas nessa região e o potencial turístico, além de inúmeras fotografias.
O livro pode ser acessado em: [Link]
arquivos/Geoglifos_paisagens_da_amazonia_ocidental.pdf.
5.2.2 O sítio Lajedo de Soledade
Localizado na caatinga, na região de Apodi, no Rio Grande do Norte, o sítio
compreende uma formação calcária que foi ocupada por grupos humanos desde
pelo menos 6 mil AP até cerca de 2.5 mil AP (SILVA, 2003). Nas paredes ao longo das
rochas calcárias, são encontradas pinturas rupestres vinculadas à chamada Tradição
Agreste. Não foram encontrados vestígios de habitação no sítio, assim a interpretação
que prevalece é que consistia em um lugar cerimonial, provavelmente por grupos de
coletores/agricultores (SILVA, 2003). As figuras mais recorrentes que formas de mãos,
lagartos e pássaros (Figura 9).
128
Figura 9 – Arte rupestre representando Arara no sítio Lajedo de Soledade
Fonte: [Link]
Acesso em: 5 jun. 2023.
5.2.3 Os sítios de caçadores-coletores e as indústrias líticas
A temática dos sítios arqueológicos brasileiros pré-coloniais poderia se
desenvolver por páginas e mais páginas e não se esgotar tão cedo. Assim, também serve
para as sociedades do Holoceno Inicial, populações de caçadores/coletores/pescadores
que devem ser estudadas a partir das suas particularidades regionais. Entretanto, como
estamos tratando de uma perspectiva introdutória da Arqueologia, destacamos duas
recorrentes associações de indústrias líticas desse período, que vem a se diversificar
e modificar ao longo do Holoceno. Elas foram criadas e denominadas no âmbito do
PRONAPA e vem sendo reformuladas por muitos pesquisadores, ainda que guardem
uma semelhança entre os sítios dentro de uma dada área geográfico, como é o caso da
Tradição Umbu no Brasil meridional e da Tradição Itaparica no nordeste brasileiro.
A Tradição Umbu (Figura 10) contempla uma indústria lítica baseada na produção
de pontas de projétil e lascas retocadas, onde os sítios arqueológicos vinculados a ela
são geralmente encontrados a céu aberto, em áreas com pouca arborização na região
interiorana meridional do país, incluindo São Paulo, mas também aparecem em alguns
abrigos rochosos na encosta do planalto dos estados do Sul (PROUS, 1992). Na região
do rio Uruguai, esses contextos datam entre 10.5 mil e 8 mil AP (PROUS, 1992). Eram
129
considerados grupos de caçadores/coletores pequenos com alta mobilidade dentro do
seu território (PROUS, 2006). A partir da escavação dos abrigos rochosos vinculados a
essa tradição, foi possível verificar:
a presença, no refugo alimentar, de animais de médio e pequeno
porte (incluindo caramujos terrestres) e ovos de ema. Havia pesca
com anzóis de osso, e encontram-se agulhas perfuradas, assim
como adornos feitos de dentes – por vezes, de animais marítimos.
Nos sítios datados com idade relativamente recente aparecem bolas
de boleadeira de pedra (PROUS, 2006, p. 32).
Figura 10 – Pontas da Tradição Umbu
Fonte: [Link]
A Tradição Itaparica (Figura 11), por sua vez, ocorre principalmente na região do
Brasil Central, onde fora identificada inicialmente em Goiás (PROUS, 2006). A indústria
lítica é caracterizada pelos instrumentos pesados e espessos em forma de “lesma”,
e estão associados a pontas de projétil de grande porte lascadas bifacialmente. São
encontrados em contextos de abrigos rochosos, onde é recorrente a presença de
pinturas rupestres relacionadas (PROUS, 2006). As datações mais antigas obtidas para
essa tradição na região nordeste chegam até 11 mil AP e os instrumentos confeccionados
sugerem uma subsistência voltada a caça da megafauna (PROUS, 1992).
130
Figura 11 – Lesmas da Tradição Itaparica
Fonte: Marques e Hilbert (2009, p. 74)
5.2.4 Os sambaquis
Os sambaquis (Figura 12) são sítios arqueológicos amplamente documentados
e estudados no contexto da Arqueologia brasileira e de outras áreas do conhecimento,
dando destaque para a Geologia. Esses assentamentos começam a surgir por volta de 8
mil AP e perduram até cerca de 1 mil AP (SCHEEL-YBERT, 2019). Ao longo desse período,
estendem-se por uma longa faixa de litoral que vai desde o Espírito Santo até o Rio
Grande do Sul. A cerca de 4 mil AP, os sítios se tornam mais numerosos em toda essa
faixa litorânea e, além disso, possuem uma contemporaneidade de ocupação entre si.
A esse período de dispersão da cultura sambaquiana, alguns autores atribuem o termo
“áureo” ou “era de ouro dos sambaquis” (WAGNER; SILVA; HILBERT, 2014).
Figura 12 – Sambaqui da Figueirinha localizado em Santa Catarina
Fonte: [Link] Acesso em: 5 jun. 2023.
131
Os sambaquis eram frutos de um empenho e trabalho organizados por populações
que utilizavam as conchas muito além do que mero suplemento alimentar, mas como
material de construção (GASPAR; KLOKLER; BIANCHINI, 2013). A grande quantidade de
vestígios de animais, fogueiras e sepultamentos em muitos sítios parecia orientar para
uma compreensão multifuncional do sítio, incluindo áreas de habitação. Essa hipótese
vem sendo refutada a partir de um olhar minucioso sobre os processos de formação das
lentes e camadas, visto que, áreas de habitação reconhecíveis não foram encontradas.
Ao contrário, vestígios como estacas, fogueiras e montículos estão intimamente
relacionadas aos sepultamentos, assim como artefatos, incluindo os ilustres zoólitos,
indicando que os “os sambaquis são, portanto, o resultado da repetição de cerimonias
fúnebres que envolviam a mobilização de enorme quantidade de material e pessoas,
integrando diversas ações e atores específicos” (GASPAR; KLOKLER; BIANCHINI, 2013).
No litoral, grande parte dos sambaquis foram encontrados vinculados a regiões
produtivas de baias e ambientes estuarinos. Assim, as populações costeiras exploravam
e retinham seus recursos a partir dessas águas salobras e doces muito mais do que de
mar aberto. Recentemente, estudos indicam que essas populações também praticavam
a horticultura e o manejo das paisagens(SCHEEL-YBERT; BOYADJIAN, 2020).
5.2.5 Os sítios das populações ceramistas
Da mesma forma como os sítios de caçadores/coletores e as associações de
indústrias líticas, os sítios dos grupos ceramistas podem ser muito diversos em relação a sua
tecnologia cerâmica, subsistência e sistema de assentamentos. Por isso, apresentaremos
somente algumas dessas sociedades, buscando contemplar o máximo de regiões brasileiras,
exceto pela Amazônia que já fora contemplada, destacando suas particularidades.
Se levarmos em consideração dispersão geográfica, não há dúvida da importância
dos povos Tupi-Guarani. As dúvidas em relação a origem desses povos começam a se
desvencilhar com o avanço das pesquisas e atualmente há um certo consenso entre a
arqueologia brasileira sobre a sua origem amazônica. Os povos Tupi-Guarani saíram do
norte da Amazônia entre 4 e 3 mil AP, rumo a região do Delta do rio Paraná e posterior
adjacências da costa atlântica, em um movimento migratório de uma notável mudança
latitudinal propiciada por um elo climático entre as duas regiões (IRIARTE et al. 2017). Seus
sítios arqueológicos são conhecidos por se encontrarem em terrenos elevados próximos a
grandes corpos d’água, como rios e lagoas, e se distinguem no solo pela sua camada preta
devido à grande atividade antrópica ocorrida nesses lugares no passado. Nesses sítios,
é comum encontrar vestígios de antigas habitações e áreas cerimoniais, assim como
sepultamentos, muitos em contextos de urnas funerárias. Além dessas características,
a principal forma de identificação de sua filiação cultural se dá por meio da tecnologia
cerâmica diagnóstica, denominada na época do PRONAPA como Tradição Tupiguarani
(Figura 13). O sucesso dessas populações em ocupar diversos ambientes é devido a sua
alta capacidade de manejo ambiental e agricultura, os quais permitiam a construção de
um ambiente estável com níveis adequados de alimentação (NOELLI, 1999). Como coloca
132
Prous (2006), foram os descendentes dessas populações que estabeleceram os primeiros
contatos com os europeus, visto que, ocupavam praticamente todo o litoral brasileiro,
especialmente os povos Tupinambá, Tupiniquim e Carijós.
Figura 13 – Cerâmicas da Tradição Tupiguarani
Fonte: Almeida (2015, p. 98).
Em porções do sudeste e nordeste brasileiro, há destaque para grandes aldeias
ceramistas que começam a aparecer por volta de 1.5 mil AP, instaladas em encostas
de morros suaves próximos aos cursos d’água (PROUS, 2006). Elas são atribuídas a
chamada Tradição Sapucaí na região de Minas Gerais, e Tradição Aratu (Figura 14) em
outros estados do nordeste. A semelhança dos sítios da Tradição Tupiguarani, também
são encontradas grandes manchas de terra preta com alta concentração de material
cerâmico, entretanto, suas aldeias são dispostas em formato circular ou semicircular
no entorno de uma praça central (SOARES, 2012). Seus vasilhames cerâmicos são
conhecidos pelas formas piriforme ou ovoide (SOARES, 2012).
Figura 14 – Cerâmica da Tradição Aratu
Fonte: Kachimareck (2008, p. 48)
133
Na região que compreende o Planalto meridional e adjacências da costa
atlântica, existem vestígios de povos ancestrais dos povos Jê desde cerca de 2 mil
AP, denominados por alguns arqueólogos como proto-Jê, que se caracterizam
principalmente pela sua cerâmica, conhecida no Rio Grande do Sul como Tradição
Taquara, e em Santa Catarina, Paraná e São Paulo como Tradição Itararé, portanto é
recorrente na literatura encontrar a designação Tradição Taquara/Itararé. Os principais
sítios arqueológicos vinculados a esses grupos incluem as casas subterrâneas (Figura
15), sítios a céu aberto, enterros coletivos em grutas, arte rupestre e complexos
funérarios em aterros anelares e montículos (CORTELETTI; IRIARTE, 2020).
Figura 15 – Reconstituição das casas subterrâneas dos povos Jê
Fonte: [Link] Acesso em: 5 jun. 2023.
No litoral do Rio Grande do Sul e no Uruguai, existem sítios arqueológicos
conhecidos como cerritos, que consistem em montículos artificiais de terra que
geralmente tem uma planta circular ou elíptica (Figura 16), podendo chegar a alturas
de até 7 metros, localizados em planícies úmidas ao longo do bioma Pampa e litoral
atlântico (BOCKSAR et al., 2022). Nesses cerritos são encontrados com abundância
terra queimada, restos faunísticos, artefatos líticos e ósseos, cerâmicas e em alguns
casos enterramentos humanos e animais (BOCKSAR et al., 2022). As cerâmicas são mais
recorrentes nos sítios brasileiros, onde aparecem em abundância e foram denominadas
como Tradição Vieira (SCHMITZ, 2011). Enquanto no Uruguai, os sítios mais antigos
começam a aparecer por volta de 6 mil AP, no Brasil, a sua antiguidade não passa de 3
mil AP (BOCKSAR et al., 2022).
134
Figura 16 – Cerrito inserido na paisagem do Pampa
Fonte: [Link]
jpg. Acesso em: 5 jun. 2023.
5.3 OS SÍTIOS HISTÓRICOS
No contexto do Brasil, os sítios históricos são considerados aqueles inseridos
em uma cronologia que se inicia a partir das invasões europeias e não tem um limite
final bem estabelecido, visto que muitas pesquisas contemplam contextos bastante
recentes do século XX (SOUZA, 2022). Os artefatos encontrados nesses sítios podem ser
divididos, segundo Souza (2022), em duas categorias: os artefatos de origem importada
e os artefatos de produção local ou regional. Com relação aos tipos de materiais
encontrados, o pesquisador coloca as categorias cerâmicas que, por sua vez, reúnem
uma ampla diversidade de objetos como porcelanas, faianças, sendo as chamadas
faianças finas, as “louças”, encontradas com mais recorrência nos sítios históricos, e as
cerâmicas comuns. Outras categorias materiais ainda incluem os vidros e os metais, que
dependendo das condições locais, podem apresentar distintos graus de integridade.
Souza (2022) coloca que em termos legais é difícil muitas vezes definir um sítio
histórico, visto que, muitas cidades ao longo do Brasil possuem uma longa história,
repleta de vestígios pretéritos sob suas ruas, o que poderia configurar cidades inteiras
como sítios arqueológicos. Por isso, adotou-se um critério de significância arqueológica,
com o qual se determina a relevância de preservação de um sítio histórico por meio do
“seu potencial informativo, grau de preservação, exposição a riscos e outros fatores”
(SOUZA, 2022, p. 30).
135
Alguns exemplos de sítios arqueológicos históricos incluem vestígios de
estruturas antigas das cidades que podem incluir tanto grandes obras como portos,
exemplo do Cais do Valongo exposto anteriormente, até pequenas unidades domésticas
de diferentes classes sociais. É comum também os sítios históricos estarem vinculados a
um período histórico específico, por exemplo, vinculados a diáspora africana, a mineração,
a industrialização, as embarcações por meio da arqueologia subaquática, e assim adiante.
136
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu:
• Como a Arqueologia Brasileira se desenvolveu, desde as primeiras pesquisas no século
XIX, motivadas principalmente pela vinda da família real para o país, até a sua consolidação
como disciplina dentro das universidades ao longo do século XX e atualmente.
• A influência das diferentes escolas, principalmente a francesa e norte-americana, no
desenvolvimento teórico e metodológico da Arqueologia Brasileira.
• Os principais sítios arqueológicos pré-coloniais e históricos estudados pela
arqueologia brasileira, destacando a sua cultura material e região de ocorrência.
137
AUTOATIVIDADE
1 O desenvolvimento da Arqueologia Brasileira esteve fortemente pautado pela influência
de escolas estrangeiras que orientaram as formas de se fazer arqueologia no país.
Acerca dessas escolas, assinale a alternativa CORRETA que corresponde às principais
influências na arqueologia nacional:
a) ( ) A escola portuguesa por meio do imperador Dom Pedro II e a escola italiana por meio
da imperatriz Tereza Cristina
b) ( ) A escola grega por meio da Sociedade Arqueológica de Atenas e a escola francesa
por meio do Musée de l’Homme.
c) ( ) A escola italiana por meio da imperatriz Tereza Cristina e a escola norte-americana
por meio do Smithsonian Institution.
d) ( ) A escola francesa por meio do Musée de l’Homme e a escola norte-americana por
meio do Smithsonian Institution.
2 O Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA) foi instaurado no Brasil
entre os anos de 1965-1975, dirigido pelos arqueólogos norte-americanos Clifford Evans
e Betty Meggers, responsáveis pela formação de uma geração de arqueólogos que
viriam a influenciar o futuro da arqueologia brasileira. Com base nos princípios teóricos e
metodológicos do PRONAPA, analise as sentenças a seguir:
I - O PRONAPA estava orientado pelas teorias do difusionismo cultural, que acreditava
que tecnologias mais complexas encontradas nos sítios arqueológicos brasileiros só
poderiam ter influência externa.
II - O PRONAPA estava orientado pela teoria do humanismo, que acreditava na
capacidade criativa dos seres humanos, buscando identificar o simbolismo a partir
da cultura material.
III - O PRONAPA estava orientado pelo método fordiano de análise cerâmica, que buscava,
por meio da quantificação dos fragmentos cerâmicos, estabelecer tipologias e seriações.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
3 O surgimento da tecnologia cerâmica no Brasil foi acompanhado de muitas
transformações culturais, como a formação de grandes aldeias, expansões
migratórias e modos de vida sedentários. Ao longo do território brasileiro, podemos
visualizar uma diversidade de técnicas e formas utilizadas pelas sociedades pré-
138
coloniais que acabam por distingui-las. Uma das formas encontradas para essas
distinções foi protagonizada pelo PRONAPA durante a década de 1960 com o
conceito de Tradição. Com base nos estudos das Tradições cerâmicas, classifique V
para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) A Tradição Policrama se estendeu por todo o litoral brasileiro a partir de 4 mil AP,
caracterizada por sítios a céu aberto repletos de cerâmicas lisas e sem decoração.
( ) A Tradição Taquara/Itararé se estendeu pelas regiões do planalto meridional a partir de
2 mil AP, caracteriza por uma grande diversidade de sítios arqueológicos, que incluem
as casas subterrâneas.
( ) A Tradição Tupi-guarani tem origem amazônica e se espalhou em direção ao sul a partir
de 4 mil AP, caracterizada por sítios a céu aberto com manchas de terra escura e altas
concentrações de cerâmica.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – V.
d) ( ) F – F – V.
4 O povoamento americano é um dos temas mais explorados pela Arqueologia americana,
produzindo intensos debates sobre rotas de migração e antiguidade dos sítios
arqueológicos, que a todo momento se atualizam conforme novos dados vão surgindo.
A teoria mais aceita pela comunidade científica se refere a uma entrada pela Beríngia,
região que ligaria os continentes asiático e americano no passado. Com base no exposto,
exponha as três principais teorias que versam sobre as rotas de migração dos primeiros
americanos e qual delas é a mais sustentada atualmente.
5 Os sítios históricos compreendem os materiais arqueológicos provenientes do período
de invasão dos europeus a partir do século XVI até os contextos arqueológicos mais
próximos de nós, já no século XX. Com relação ao tipo de material encontrado nesses
sítios, destaque os principais.
139
140
UNIDADE 3 TÓPICO 2 -
PARA ALÉM DA CULTURA MATERIAL
1 INTRODUÇÃO
Apesar de a Arqueologia se debruçar e ter na cultura material o seu principal
objetivo de estudo das sociedades ao longo do tempo, como uma ciência humana,
ela busca compreender todos os desdobramentos culturais e sociais que envolvem a
vida humana, e, para tanto, os objetos e estruturas arqueológicos por si só não são o
suficiente. A forma como as pessoas viviam, pensavam, experienciavam e construíam a
sua visão de mundo está intrinsecamente ligada a qualquer pesquisa arqueológica, ou
pelo menos deveria estar. Ao voltar-se para o passado, seja ele distante ou recente, a
Arqueologia busca sanar preocupações situadas no presente ao compreender o lugar
de nossa espécie no planeta e os caminhos que as decisões humanas ao longo do
tempo influenciam na trajetória futura da humanidade.
A partir disso, iremos explorar um pouco do papel da Arqueologia na criação de
memórias. Ao resgatar conhecimentos ancestrais por meio da pesquisa arqueológica,
o arqueólogo também está resgatando memórias, que nem sempre despertam
familiaridade na nossa sociedade. Quanto mais recuado no tempo, mais difícil fica a
sensibilização por entrarmos em um terreno até então desconhecido. As exceções
estão nos contextos arqueológicos que fomos ensinados desde pequenos a admirar,
como os grandes monumentos das civilizações passadas, em um processo que forja
uma memória daquilo que merece ou não ser lembrado. Em meio a essas questões, a
Arqueologia tem cada vez mais um compromisso democrático, ao contemplar memórias
de diversos grupos culturais ao longo do tempo, trazendo a compreensão sobre a grande
diversidade cultural da humanidade.
Os sítios arqueológicos representam lapsos de tempo que determinadas
sociedades ocuparam e produziram vestígios em determinado local, seja de forma
intencional, seja não. Esses vestígios nos ajudam a compreender parte de sua vida, mas
não o todo. As pessoas no passado, assim como no presente, não estavam reclusas as
suas áreas de moradia, ou aos seus cemitérios, ou ainda aos seus locais cerimoniais
e religiosos, elas mantinham uma noção de território e estavam por todo o mundo, se
deslocando sobre ele. Recentemente, pesquisas também têm demonstrado como a
espécie humana tem o grande poder de transformar o seu entorno desde a sua origem,
intensificando esses processos na época holocênica. A partir das relações entre as
sociedades e o seu entorno surge o estudo da Arqueologia da Paisagem.
141
Como somos uma espécie singular no planeta, tendo nossas ações inclusive
consequências desastrosas para o planeta, a Arqueologia também se dedica ao estudo do
que nos faz tão diferentes dos demais animais: a capacidade criativa da mente humana.
Toda a habilidade na criação da cultura material de uma sociedade, assim como a sua
organização social e a sua cosmovisão, são aprendidas e transmitidas por meio das
nossas capacidades cognitivas. Tendo isso em vista, a Arqueologia Cognitiva busca, por
meio de evidências físicas dos remanescentes humanos, assim como da cultura material,
entender como as pessoas no passado pensavam e estruturavam o seu modo de vida.
2 ARQUEOLOGIA E MEMÓRIA
De certa forma, a Arqueologia sempre esteve vinculada à memória. Em seus
primórdios na Europa oitocentista, quando se voltava ao passado das civilizações, a
Arqueologia buscava criar na população uma memória de um passado grandioso, o qual
estava repleto de inovações tecnológicas, grandes obras de engenharia e belas obras
de arte. Apesar de durante esse período os primeiros arqueólogos não mencionarem
a ideia de memória vinculada a Arqueologia, é possível perceber como, por meio da
cultura material, a memória é forjada em uma espécie de seleção do que deve ou não ser
lembrado, e consequentemente, preservado. A partir de então, a figura do arqueólogo já
demonstra um ponto importante sobre o seu papel social que só passou a ser debatido e
relativizado com os pós-processualistas no final do século XX, o de criador de memórias.
Ao lidar com os materiais arqueológicos, incluindo os artefatos, ruínas e
monumentos, a Arqueologia não só os estuda, mas também deve lidar com a sua gestão,
ou seja, a sua proteção e divulgação de forma a colaborar com uma construção de uma
memória coletiva do passado (GONZÁLEZ-RUIBAL, 2009). Nesse sentido, a memória
coletiva tem a sua materialização na realidade por meio do patrimônio, pois estabelece
uma conexão com a subjetividade humana, além de atuar em diversas esferas como
a econômica, religiosa, moral, política, jurídica, estética e psicológica (AMORIM, 2013).
O patrimônio na Constituição brasileira de 1988 aparece através de duas dimensões: a
material e imaterial, o que
[...] abarca tanto os sítios arqueológicos, obras arquitetônicas,
urbanísticas e artísticas – bens de natureza material –, quanto
celebrações e saberes da cultura popular, as festas, a religiosidade,
a musicalidade e as danças, as comidas e bebidas, as artes e
artesanatos, mitologias e narrativas, as línguas, a literatura oral –
manifestações de natureza imaterial (VIANNA, 2016, on-line).
Como coloca Amorim (2013), o patrimônio tem sido frequentemente relacionado
a questões identitárias e a narrativas nacionais. Nem sempre essa noção de identidade
vinculada a dado patrimônio é construída a partir das próprias concepções do grupo
social ao qual o patrimônio está associado. Como é o Estado, no caso do Brasil, por
meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), quem delimita
142
os bens culturais, sejam eles materiais ou imateriais que virão a se tornar patrimônio,
há, muitas vezes, uma falta de reconhecimento deste por parte da população. Amorim
(2013) emprega o termo ressonância, já empregado por outros autores que discutem
antropologia e patrimônio, para pensar essa falta de pertencimento da população em
relação ao seu patrimônio. Nas palavras do pesquisador, ela representa a “capacidade
intrínseca do patrimônio de transmissão de ondas simbólicas que possuem uma
variabilidade de duração e de intensidade. E que por isso atinge de forma desproporcional
os diversos grupos de expectadores” (AMORIM, 2013, p. 48).
Vamos a um exemplo para elucidar melhor essas questões. Lima (2013) relata os
trabalhos arqueológicos no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro em 2011 e a relação com a
comunidade descendente. O Cais do Valongo foi um antigo porto por onde desembarcaram
centenas de milhares de africanos que foram trazidos ao Brasil para serem escravizados,
reformado em 1846 para receber a futura imperatriz, Teresa Cristina, passando então a se
chamar Cais da Imperatriz (LIMA, 2013). A equipe sempre buscou a participação e parceria
da comunidade negra na pesquisa, embora tenham observado, durante o ano que se
sucedeu aos trabalhos arqueológicos, pouco envolvimento da comunidade descendente,
exceto por religiosos e alguns segmentos mais intelectualizados da comunidade. A razão
para esse distanciamento para a pesquisadora seria a repulsa da maioria da comunidade
afrodescendente com o passado escravocrata, algo que não deve ser rememorado, e que
a comunidade tende a valorizar movimentos de resistência à opressão, da luta por justiça
social e orgulho étnico do que episódios que relembrem as humilhações sofridas, o que
está dentro do seu direito. Dessa forma, “cabe à Arqueologia a responsabilidade histórica
de trazer à luz aquilo que no passado se pretendeu enterrar e esconder, apresentar suas
evidências às sociedades atuais para que elas possam reviver esse passado e encontrar
novas formas de lidar com ele” (LIMA, 2013, p. 181).
Nesse sentido, Gonzalez-Ruibal (2009) coloca que a forma como os arqueólogos
lidam com o resultado de suas pesquisas pode fomentar uma cultura democrática
ou ainda uma amnésia histórica. Uma sociedade sensata jamais pode levar ao
esquecimento os seus erros, pois eles tendem a retornar como ameaças que não são
facilmente percebidas, e, assim, prejudicar a convivência democrática entre os cidadãos
(GONZÁLEZ-RUIBAL, 2009). O patrimônio, assim, constitui um importante campo para a
reflexão sobre os valores democráticos e civis, tal como de nossa identidade histórica,
o que implica também na reinterpretação desse patrimônio. A Arqueologia torna-se,
então, indispensável nos debates acerca da memória, pois esta última e a materialidade
são características da disciplina como nenhuma outra.
Os monumentos e artefatos arqueológicos, quando encontrados no presente,
passaram por inúmeras temporalidades e contextos distintos, o que pode influenciar em
suas interpretações ao levar em consideração a variedade de significados que pessoas
em seus próprios tempos deram a esses objetos. Como coloca Ayoub (2016, p. 259)
eles “adquirem assim uma extensiva biografia de usos e reusos de múltiplas gerações
que o atribuem significados, interpretações e reinterpretações que tornam os artefatos
143
arqueológicos elementos ativos na geração da memória”. Da mesma forma, a memória
não é estagnada e única, ao contrário, o ato de rememorar é o que organiza e estrutura a
memória, quando uma cadeia de ações relacionadas as construções dos monumentos e
produção e uso dos artefatos é preservada e reconstruída diversas vezes (AYOUB, 2016).
Como já destacado, memória e identidade andam de mãos dadas. Segundo Ayoub
(2016), elas se tornam importantes em relação ao pertencimento físico e temporal de um
indivíduo, tanto em relação ao seu grupo quanto para com os outros. Nesse sentido, tanto
a memória quanto as identidades foram e são eternos processos de negociação, nos quais
se pondera o que será lembrado e o que será esquecido. Em muitas situações, ao longo
do tempo histórico, aqueles que detinham o poder sobre essas escolhas de preservar ou
não as memórias “tinham poder sobre o passado e assim também sobre o futuro” (AYOUB,
2016, p. 262). A partir desses desdobramentos, temos o peso da responsabilidade dos
arqueólogos frente às memórias resgatadas e criadas por eles.
As tendências atuais da disciplina vêm se preocupando cada vez mais com os
sujeitos silenciados e as minorias, recuperando memórias esquecidas ou enfraquecidas,
as quais sobrevivem apenas pelo esforço desses sujeitos (RODRIGUES, 2022). No caso
do Arqueologia Brasileira, lidar com objetos de poder inseridos nos mais distintos grupos
étnicos, assim como a valorização da tradição oral presente em muitos desses povos,
abre portas para as reinvindicações legítimas dos direitos ancestrais (RODRIGUES, 2022).
Dessa forma, como tem se criticado nos últimos tempos acerca da história contada nos
livros ser a história dos vencedores, esta “consegue ser ultrapassada a partir de usos da
Arqueologia e outras fontes de narrativa do passado que não em suporte documental”
(RODRIGUES, 2022, p. 521), e promove uma reformulação das memórias que foram
impostas pelo “poder histórico”.
3 ARQUEOLOGIA DA PAISAGEM
O olhar além dos sítios arqueológicos surgiu com a Arqueologia Processualista
e o foco repousado sobre o ambiente. Como havia a crença da grande influência do
ambiente sobre as culturas, questões como mobilidade, disponibilidade de recursos e
sítios com funcionalidades diferentes fizeram a Arqueologia considerar como os grupos
humanos executavam suas atividades e vida social dentro de um espaço que não
estava recluso a sua moradia ou lugar de enterramento dos seus ancestrais. O estudo
das relações entre os sítios passou a incorporar uma nova metodologia de pesquisa na
Arqueologia por meio do sistema de assentamento. O sistema de assentamento nada
mais é do que a forma como os grupos passados estavam utilizando o seu território,
deixando impressões recorrentes que diagnosticariam o padrão de assentamento
de um grupo. Uma das principais figuras responsáveis pelo desenvolvimento desses
estudos foi o arqueólogo Lewis Binford, que por meio da etnoarqueologia, percebeu que
diferentes atividades produziam diferentes vestígios, e, por sua vez, diferentes sítios
144
arqueológicos. Embora Binford denominasse Arqueologia Espacial, se utilizando do
termo lugar para pensar a variabilidade do registro arqueológico, esses estudos foram
o pontapé inicial para que a Arqueologia da Paisagem se tornasse uma área de grande
importância para a disciplina no futuro.
A partir do estudo de populações caçadoras/coletoras e as relações entre
as áreas residenciais e áreas de captação de recursos, Binford (1982) estabelece
diferentes zonas de alcance a partir do acampamento residencial que seriam mais
ou menos exploradas pelos grupos humanos. Nesse sentido, ele confecciona um
padrão de diferentes mobilidades, pois é por meio da mobilidade que um lugar pode
ser economicamente modificado pelos seres humanos. Nesses padrões de mobilidade,
as diferentes zonas de alcance se interpolam, podendo até mesmo estarem ausentes.
Com essa abordagem, Binford busca compreender como essas relações dinâmicas
produzem um registro arqueológico que é estático, sempre enquadrando a questão dos
recursos e de sua sazonalidade como fatores determinantes.
Os sítios componentes de um sistema de assentamento, portanto,
não são similares dentro dos contextos organizacionais em que fazem
parte, muitas vezes contendo inventários tecnológicos distintos, ou
seja, apresentando conjuntos artefatuais e distribuições, estruturas
e dimensões diferenciadas; entretanto sendo considerados
complementares (FAGUNDES, 2009, p. 308).
O maior problema das abordagens processualistas talvez nem fosse o
demasiado foco no ambiente, mas sim colocá-lo como a única determinante possível
ao desenvolvimento das culturas, como se tudo o que importasse na natureza humana
fosse a sobrevivência e uma eterna busca por recursos e abrigos. Segundo Fagundes
(2009), ao levar em consideração somente um enfoque ecológico, a Arqueologia
acabava por excluir toda a complexidade e modo de vida passados. Com a emergência
das abordagens radicais, o ambiente passou a ser abordado por alguns arqueólogos
como paisagem, pois é um termo que, segundo Evans (2003), evoca mais paixão do que
utilizar termos como regional, por exemplo. Além disso, o termo paisagem começou a
ser visto a partir de uma visão social, como algo culturalmente construído e que evoca
significados e referências de mundo para as populações que a transformaram. Dessa
forma, para Evans (2003), ao construírem seus ambientes ou melhor, suas paisagens,
os humanos estão construindo a sua identidade enquanto grupo social.
A Arqueologia da Paisagem sob o pós-processualismo propõe a
reconstrução de mapas cognitivos e áreas de paisagem verificadas
diferencialmente de acordo com o contexto. Não se trata mais de
uma questão de reconstruir sistemas de assentamento apenas sob
conceitos estruturais e territoriais; é mais uma questão de reconstruir
paisagens rituais ao enfatizar o sistema de atual significância simbólica
representado por seus objetos arqueológicos (PELLINI, 2009, p. 33).
145
Outra questão crescente na Arqueologia que concerne o estudo das paisagens
são as chamadas paisagens humanizadas/culturais/antrópicas/domesticadas. Há muitos
termos utilizados, mas o princípio é o mesmo: onde quer que os seres humanos tenham
pisado, o ambiente é de alguma forma diferente, seja de maneiras sutis, seja de maneiras
profundas. A Arqueologia da paisagem se utiliza de ferramentas das geociências “a
fim de compreender as maneiras pelas quais os grupos pré-históricos ocuparam e
modificaram a paisagem em função de suas práticas econômico-produtivas, sociais e
culturais” (FAGUNDES, 2009, p. 303). Com o avanço dessas metodologias, em conjunto
com reconstruções paleoambientais, os arqueólogos têm percebido a intensidade das
transformações das populações humanas ao construírem as suas paisagens. A paisagem
é uma entidade que imbrica seus aspectos físicos e os rastros das ações humanas, de
modo que as intenções e ações humanas podem ser inferidas, se não lidas como cultura
material, a partir dela. No Brasil, esses estudos têm avançado principalmente na região da
floresta amazônica, a qual é cada vez mais percebida como um grande jardim, manejado
por milhares de anos pelas populações que habitaram seu ambiente tropical.
Assim, a paisagem se mostra imprescindível em qualquer estudo arqueológico,
seja em contextos pré-coloniais, seja em contextos históricos, seja nas florestas, seja
nas cidades, pois é por meio dela que podemos compreender como as pessoas viam,
experienciavam e organizavam o seu mundo. Segundo Pellini (2009, p. 34) é com base nas
[...] suas atividades diárias, de suas crenças, valores, de seus
movimentos, de sua percepção, os indivíduos transformam seu
espaço físico em um espaço significante. Sendo assim a paisagem
não é apenas o mundo que vemos, ela é uma construção, uma
composição. É na paisagem que as pessoas se significam e
significam seu mundo.
4 ARQUEOLOGIA COGNITIVA
Um dos grandes questionamentos dos arqueólogos ao voltarem-se para
o estudo das sociedades pretéritas se dá pela forma como as pessoas pensavam e
experienciavam o seu mundo, como transformavam o mundo material a sua volta e o
significavam conforme as suas crenças. Por muito tempo, a Arqueologia se privou dessas
questões, pois era um desafio pensar em como, por meio da cultura material, poderíamos
acessar esse mundo simbólico perdido no tempo. Tais indagações começaram a tomar
forma e ganhar força com a Nova Arqueologia, inaugurando um novo campo de estudo
que consiste na Arqueologia Cognitiva. Por meio dela, os arqueólogos são capazes de
compreender questões como o planejamento por trás dos monumentos e cidades, de
forma que a disposição das estruturas e vestígios arqueológicos revelam informações
importantes; como a cultura material associada a sepultamentos humanos pode revelar
objetos valiosos para tal sociedade e também questões de poder e autoridade; assim
como entender como as populações concebiam e se relacionavam com o mundo
sobrenatural, por meio dos antigos templos e centros cerimoniais, dentre tantas outras
possibilidades (RENFREW; BAHN, 2012).
146
O uso dos símbolos pela espécie humana é intimamente ligado à nossa própria
existência, visto que nossa própria linguagem se estrutura por meio de uma simbologia,
e é um dos principais fatores que nos distinguem de todos os animais. O estudo
dos símbolos é complexo, pois ele só passa a ter sentido levando em consideração
as concepções e percepção da sociedade que os criaram. Mesmo em um mundo
globalizado como hoje, a diversidade de culturas e línguas revela formas distintas de
expressar muitas vezes a mesma coisa. Segundo Renfrew e Bahn (2012), se todos
os seres humanos fossem ensinados desde o seu nascimento a atribuir os mesmos
significados aos mesmos símbolos, o trabalho dos arqueólogos seria muito mais fácil,
entretanto, a experiência humana seria empobrecida de diversidade.
Um objeto isolado não é capaz de nos revelar o seu significado simbólico, o
máximo que podemos inferir acerca dele é sobre a sua funcionalidade. Para ir além,
a Arqueologia Cognitiva se preocupa também com todo o contexto específico onde
aquele objeto foi encontrado: é o conjunto, a sua totalidade que importa (RENFREW;
BAHN, 2012). Da mesma forma, a representação do objeto não se revela facilmente
ao arqueólogo, especialmente em sociedades ágrafas, o que implica a elaboração de
uma boa metodologia científica, a qual o pesquisador será capaz de montar um quadro
interpretativo adequado. Os materiais arqueológicos que pesquisamos no presente são,
em parte, produtos das intenções e pensamentos humanos, quando os seres humanos
não agem somente em relação as suas impressões sensoriais, mas ao seu conhecimento
existente do mundo, por meio do qual essas impressões são interpretadas e lhe são
atribuídos significados (RENFREW; BAHN, 2012). Indivíduos que convivem juntos e
compartilham a mesma cultura e linguagem tendem a compartilhar a mesma visão de
mundo e mentalidade, o que configura um mapa cognitivo comum, apesar de haverem
diferenças entre os indivíduos e grupos sociais distintos (RENFREW; BAHN, 2012).
Além da compreensão do passado, a Arqueologia busca compreender a
natureza das mudanças culturais e biológicas do ser humano e dos seus ancestrais,
e em razão disso, os arqueólogos precisam também compreender como se dá o
pensamento criativo. Segundo Mithen (2005), a Arqueologia cognitiva-processual
pode ser dividida em três eixos temáticos principais: a cognição como representação
por meio do estudo da ideologia, pensamento religioso e cosmologia, aspectos do
comportamento humano que podem ser estudados pela Arqueologia tanto quanto os
objetos; a cognição como processamento de informação em que o foco repousa sobre
as decisões humanas, levando em consideração que uma perspectiva do indivíduo é
fundamental para explicações das mudanças culturais de longo termo, o que também
implica nos processos de transmissão cultural; por fim, temos os estudos que versam
sobre a evolução da mente humana que se inicia a partir de 2,5 milhões de anos
atrás com o surgimento do gênero Homo, contemplando um período em que houve
o aumento do volume encefálico e a evolução da linguagem moderna e inteligência.
Os estudos evolutivos contemplam, de um lado, o registro fóssil dos hominídeos por
147
meio da morfologia craniana e adaptações anatômicas para a fala e, de outro, o registro
arqueológico, essencial para compreendermos o pensamento e comportamento
passados de nossos ancestrais e os processos evolutivos cognitivos (MITHEN, 2005).
As análises na Arqueologia Cognitiva podem ser apoiadas por vários
métodos, que incluem o estudo meticuloso dos detalhes achados
nos registros arqueológicos, a avaliação de fenômenos similares,
simulação em computador e análises experimentais, essas podem
ser utilizadas para investigar a dificuldade envolvida nos estágios
de confecção dos artefatos, bem como o grau de planejamento e
preparação das técnicas (DI BACO; FACCIO; LUZ, 2010, p. 150).
Como de praxe na ciência arqueológica, a Arqueologia Cognitiva também
depende de uma forte contribuição interdisciplinar. Ciências como a psicologia,
antropologia e etnologia, em que a humanidade é o foco de estudo, são fundamentais
para enriquecer o olhar arqueológico (SOUSA, 2012). Assim, “uma vez que o arqueólogo
busca compreender o conhecimento das sociedades humanas sobre ‘tudo aquilo que
é possível tentar compreender’, surge a importância de entender como o conhecimento
humano é construído, processado e extrovertido” (SOUSA, 2012, p. 2). Um exemplo
da utilização dos estudos em Arqueologia cognitiva se dá por meio da organização
tecnológica e da análise da cadeia operatória. Nelson (1991) a define como o estudo da
seleção e integração das estratégias de manufatura, uso, transporte, e descarte dos
instrumentos, assim como as matérias-primas utilizadas na manufatura, considerando
as variáveis econômicas e sociais que influenciam nessas estratégias.
148
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu:
• Como os estudos arqueológicos não estão limitados somente à análise da cultura
material, e que os seus desdobramentos e relações podem fornecer importantes
informações sobre as populações pretéritas.
• A Arqueologia e o seu compromisso como criadora de memórias, a qual deve
contemplar a totalidade da sociedade, e não somente a uma história oficial.
• A importância da Arqueologia da Paisagem para o estudo entre os sítios arqueológicos
e a relação das populações passadas com o seu entorno.
• Como a Arqueologia Cognitiva contribui para a compreensão dos modos de vida
passados por meio das ações e pensamentos humanos que geraram o registro
arqueológico que chega até nós.
149
AUTOATIVIDADE
1 A Arqueologia e o estudo da memória sempre estiveram relacionados desde os
primórdios da disciplina por meio das descobertas arqueológicas que eram expostas à
sociedade com interesses do que poderia ou não ser lembrado do passado. Atualmente,
essa perspectiva tem se modificado, e a Arqueologia passa a reconhecer a importância
do seu papel como criadora de memórias. Baseado nessas tendências atuais, assinale a
alternativa CORRETA:
a) ( ) A Arqueologia busca lidar com objetos dos mais distintos grupos étnicos e abre
portas para que memórias esquecidas ou enfraquecidas sejam recuperadas, tendo
o poder de reivindicar direitos ancestrais.
b) ( ) A Arqueologia busca, por meio da cultura material, criar uma memória unificada da
nação brasileira no intuito de unificar a sociedade.
c) ( ) A Arqueologia busca, em suas pesquisas, encontrar materiais que confirmem as
memórias destacadas pela história oficial.
d) ( ) A Arqueologia busca esconder os objetos arqueológicos que remetam a períodos
históricos difíceis com o objetivo de estimular o esquecimento das memórias
relacionadas a eles.
2 Com o advento da Nova Arqueologia e o enfoque ambiental, os arqueólogos passaram
a se preocupar com o entorno dos sítios arqueológicos e as relações entre os humanos
e o seu meio. Um dos principais responsáveis pela orientação desses estudos foi Lewis
Binford, por meio da chamada Arqueologia Espacial. Com base em seus estudos, analise
as sentenças a seguir:
I - A Arqueologia Espacial busca estudar os processos de formação naturais de deposição
que deram origem aos sítios arqueológicos.
II - A Arqueologia Espacial busca estudar os sistemas de assentamentos baseados na
variabilidade dos conjuntos artefatuais e a disponibilidade dos recursos naturais.
III - A Arqueologia Espacial busca estudar a disposição dos artefatos dentro de um sítio
arqueológico para entender o comportamento humano antigo.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
150
3 Arqueologia, identidade e patrimônio são questões que caminham em conjunto e se
atravessam o tempo inteiro. Baseado nos debates que concernem esses três conceitos,
assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) A Arqueologia é responsável pela criação de identidades baseadas no
patrimônio arqueológico.
b) ( ) A Arqueologia tem o dever de resgatar o patrimônio cultural da sociedade e se
dedicar para que ele seja incluído de alguma forma nas manifestações identitárias
dos grupos sociais.
c) ( ) A Arqueologia tem o dever de proteger os patrimônios culturais da sociedade da
forma que causas identitárias não possam ter acesso a eles.
d) ( ) A Arqueologia tem o dever de trazer à tona os patrimônios culturais da sociedade,
mas somente os grupos sociais têm o poder de escolher como dado patrimônio
pode ou não reforçar sua identidade.
4 A Arqueologia Cognitiva é um campo de estudo que busca compreender como as
sociedades pensavam e experienciavam o seu mundo, produzindo significados que
estariam presentes em sua cultura material. Existem três linhas de pesquisas principais
adotadas pelos arqueólogos que estudam a cognição humana. Cite-as.
5 A Arqueologia da Paisagem sofreu fortes influências das críticas pós-
processualistas, passando a englobar questões que abrangem muito além do
ambiente físico e do mapeamento de recursos disponíveis. Uma dessas novas
tendências surge com a concepção de paisagens construídas, que levam
sinônimos como antrópicas ou humanizadas. Baseado nesses termos, disserte
como a Arqueologia trabalha com essa perspectiva.
151
152
UNIDADE 3 TÓPICO 3 - O
TRABALHO DO ARQUEÓLOGO E
AS CARREIRAS PROFISSIONAIS NO BRASIL
1 INTRODUÇÃO
Durante todo o livro conhecemos o universo da Arqueologia, o seu
desenvolvimento teórico e metodológico, as suas áreas de aplicação, os tipos de
materiais arqueológicos estudados, as diversas abordagens de estudo que vão além da
cultura material, assim como um panorama geral da pré-história americana e brasileira.
Se depois de toda essa trajetória percorrida, você está interessado em ingressar na área
e tornar-se arqueólogo no Brasil, este é o espaço dedicado para tais questionamentos.
Para tanto, é necessário, inicialmente, ter em mente a legislação que concerne
a prática arqueológica e a proteção do seu patrimônio material. Grande parte dessa
legislação faz referência aos atos publicados pelo Instituto Nacional do Patrimônio
Artístico e Nacional (IPHAN), um órgão federal responsável pela proteção e conversação
do patrimônio cultural brasileiro e tem, nos profissionais de Arqueologia, seus grandes
aliados nessa missão. Também, recentemente, no ano de 2018, a profissão do arqueólogo
foi regulamentada por lei, o que garante uma maior segurança na execução da profissão.
A partir disso, iremos delinear os caminhos para se tornar arqueólogo no Brasil
por meio dos cursos de graduação e pós-graduação espalhados pelo território nacional,
que incluem uma formação diretamente na área da Arqueologia, embora ela seja muito
reduzida e restrita a algumas regiões do país, assim como de áreas afins, que, em conjunto
com a experiência na área, equivalem-se ao título de arqueólogo profissional no Brasil.
Por fim, iremos expor as possibilidades de trabalho na arqueologia brasileira que
incluem as Instituições de Ensino Superior por meio de centros de pesquisas vinculados
à arqueologia, assim como de órgãos públicos de instâncias municipais, estaduais e
federais como museus, prefeituras e ministérios. Além disso, por meio do licenciamento
ambiental, que inclui o arqueológico, os profissionais de Arqueologia podem atuar em
diversos empreendimentos ao longo do país, no intuito de mitigar os danos causados ao
patrimônio arqueológico e, quando necessário, salvaguardá-lo por meio de instituições
e reservas técnicas autorizadas pelo IPHAN.
153
2 O APARATO LEGAL DA ARQUEOLOGIA BRASILEIRA
As primeiras menções aos sítios arqueológicos na legislação brasileira
correspondem ao Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, que são incluídos pela
primeira vez aos olhos da lei como parte do patrimônio cultural brasileiro e passíveis
de tombamento pelo então órgão vigente SPHAN (Serviço ao Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional). Posteriormente, o órgão passa a se chamar Instituto, modificando
a sigla para IPHAN, e, por meio da Lei nº 6.292, de 15 de dezembro de 1975, coloca que
o tombamento dos bens, incluindo os arqueológicos, dependerá da homologação pelo
Ministro de Estado da Educação e Cultura.
A Arqueologia também se faz presente na Constituição de 1988. Em seu Art.
20, os sítios arqueológicos e pré-históricos são considerados bens da união, ao passo
que o Art. 23 coloca a responsabilidade da União, dos Estados, do Distrito Federal e
dos Municípios em proteger os sítios arqueológicos. Ainda se tratando da Constituição
de 1988, o Art. 216 nos fala que os sítios arqueológicos são parte do patrimônio cultural
brasileiro e “portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes
grupos formadores da sociedade brasileira” (BRASIL, 1988). Também no ano de 1988, saem
dois importantes atos para a Arqueologia: a Portaria nº 7, de 1 de dezembro de 1988 que
versa sobre a “a necessidade de regulamentar os pedidos de permissão e autorização e a
comunicação prévia quando do desenvolvimento de pesquisas de campo e escavações
arqueológicas no País a fim de que se resguarde os objetos de valor científico e cultural
localizados nessas pesquisas” (IPHAN, 1988a, p. 1); e a Portaria nº 241, de 19 de dezembro
de 1988, que divulga a padronização do registro de sítios arqueológicos no país a fim de
compor o que viria a ser o Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos, tal portaria conta
com um modelo de ficha de registro utilizada até os dias atuais, a qual pode ser acessada
por meio do Portal do IPHAN na internet (IPHAN, 1988b).
No ano de 2018, foi publicada a Lei nº 13.653 de 18 de abril, a qual dispõe
sobre a regulamentação da profissão de arqueólogo. Assim, segundo o Art. 2º desta
lei, podem ser considerados arqueólogos profissionais aqueles que tiverem diploma de
bacharelado em Arqueologia por instituições reconhecidas pelo Ministério da Educação,
assim como de títulos em escolas estrangeiras que tenham sido revalidados no Brasil,
assim como aqueles que contam com pós-graduação na área de Arqueologia e pelo
menos dois anos no exercício de atividades científicas próprias da Arqueologia. Para
os indivíduos que possuem curso de nível superior em outras áreas do conhecimento,
a lei prevê que devem possuir pelo menos cinco anos de experiência consecutiva ou
dez anos intercalados no exercício da profissão. Os cursos de especialização na área da
Arqueologia, também reconhecidos pelo Ministério da Educação, também são válidos
para a profissão de arqueólogo, contando que possuam três anos consecutivos de
experiência (BRASIL, 2018).
154
A Lei nº 13.653, de 18 de abril de 2018, também conta com as atribuições da
profissão. No Art. 3º são expostos 11 incisos que dispõem sobre essas atribuições, que
incluem a elaboração de projetos e programas na área da Arqueologia, assim como ao
levantamento dos bens arqueológicos e a prestação de serviços que visem a proteção
do patrimônio arqueológico, dentre outras atribuições. Voltando ao Art. 2º da referida lei
(BRASIL, 2018), sobre quem pode ser considerado arqueólogo no país, o IPHAN sentiu
a necessidade de especificar quais os tipos de comprovação que devem ser exigidos
dos profissionais para comprovarem os anos de experiência na área conforme cada
situação, instaurando a Portaria IPHAN nº 317, de 4 de novembro de 2019.
As leis, portarias e instruções normativas que versam sobre o trabalho
arqueológico na área da consultoria e licenciamento serão abordados no Subtema 4
deste tema de aprendizagem. Antes, iremos expor a carreira profissional de Arqueologia
dentro das instituições de ensino e pesquisa, muitas das quais são o principal meio para
se tornar arqueólogo no país.
3 A ARQUEOLOGIA DENTRO DAS INSTITUIÇÕES DE
ENSINO E PESQUISA
Com a demanda de profissionais de Arqueologia em função de grandes obras
realizadas no país ao longo dos 2000, como portos, aeroportos, rodovias, hidrelétricas
etc., a fim de contribuir como parte do licenciamento ambiental, o qual discutiremos
melhor no subtema seguinte, as instituições de Ensino Superior se viram na obrigação de
articular e criar cursos de graduação em Arqueologia. Como vimos, o primeiro passo para
exercer a profissão de arqueólogo no país parte do diploma em Arqueologia. Atualmente,
de Norte a Sul, existem somente nove cursos de graduação em Arqueologia. A região
Nordeste é a que mais conta com a formação em Arqueologia, com quatro cursos, todos
em universidades públicas, são elas: Universidade Federal de Pernambuco (UFPE),
Universidade Federal do Piauí, Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF)
e a Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Atrás da região Nordeste, temos a região Norte e Sul, cada uma com dois cursos
de graduação cada. Na região Norte os cursos também se encontram em universidades
públicas, sendo a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e a Universidade Federal
de Rondônia (UNIR), assim como na região Sul, onde os cursos podem ser encontrados
na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e na Universidade Federal do Rio Grande
(FURG). A região Centro-Oeste conta com um curso de graduação em instituição de
ensino privada, na Pontifícia Católica de Goiás (PUC-Goiás). Na região Sudeste, há o
curso de Arqueologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e também,
a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) oferece o curso de Antropologia com
155
habilitação em Arqueologia, embora, em função da regulamentação da profissão de
arqueólogo, o diploma em Antropologia não é válido para a prática da profissão, exceto
pela comprovação do tempo requisitado de experiência na área pela lei.
Se a logística de ingressar em um desses cursos de graduação em Arqueologia
for impossível, tendo em vista que eles contemplam regiões muito restritas e específicas,
ainda há meios para se tornar arqueólogo no Brasil. Como diz a lei, qualquer curso de
nível superior, contando que tenha o tempo de experiência na área, pode servir para o
processo da formação em Arqueologia, mas alguns apontamentos são interessantes
e facilitam esse processo. O primeiro deles consiste na escolha da instituição, muitas
destas, embora não contem com o curso em Arqueologia, possuem laboratórios e
centros de pesquisa vinculados à área, geralmente vinculados aos centros de ciências
humanas e sociais, assim como ciências naturais. O segundo consiste na escolha do
curso em si, no qual as principais áreas afins da Arqueologia são a Antropologia, a
História, a Sociologia, a Geografia e a Biologia. Como todas são áreas que estudam os
seres humanos a partir de diversas perspectivas, se torna mais fácil fazer uma ponte
dentro desses cursos com a pesquisa arqueológica.
Existem, ainda, os programas de pós-graduação, o que abre um leque de
possibilidades ainda maior. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES) utiliza para o seu sistema de avaliação das áreas de conhecimento,
onde a Arqueologia está inserida em conjunto com a Antropologia. Nessa área de
avaliação, existem 37 programas de pós-graduação espalhados por todo o território
nacional, mas não são somente eles que podem fornecer um caminho para a atuação
do profissional em Arqueologia, visto que a lei só exige que as dissertações e teses
estejam inseridas na área, portanto há a possibilidade de se tornar arqueólogo por meio
da pós-graduação em qualquer programa, contanto que a pesquisa seja de cunho
arqueológico. Geralmente os programas escolhidos seguem a linha das grandes áreas
afins mencionadas anteriormente.
Findado os caminhos que o tornem arqueólogo no Brasil e que desejam seguir
na área como pesquisadores, as atuações dos profissionais podem se dar na carreira
acadêmica por meio das Instituições de Ensino Superior (IES), assim como em órgãos
públicos e privados, como museus, representantes nos municípios, estados, órgãos
federais como o próprio IPHAN e até mesmo nas forças armadas. Quando inseridos
nas IES, os arqueólogos podem atuar tanto como docentes, ou somente como
pesquisadores vinculados, e não necessariamente nos cursos de graduação específicos
em Arqueologia, visto que, como já destacado, diversas IES contam com unidades de
pesquisas arqueológicas. Outra alternativa à carreira acadêmica é por meio da prestação
de serviços de consultoria e licenciamento arqueológico.
156
4 A ARQUEOLOGIA E O LICENCIAMENTO
Vimos que existem diversos respaldos legais que protegem o patrimônio
arqueológico no Brasil como bens da União, que, por sua vez, tem representação no IPHAN,
o qual determina e permeia as diretrizes que tornam possível a proteção e conservação
desse patrimônio. Como vimos no Tema de Aprendizagem 1 desta unidade, existem
vestígios de sociedades de diversos tempos espalhados por todo o território nacional,
o que torna grande parte das áreas desse território como de potencial arqueológico, ou
seja, que há uma grande probabilidade de encontrar nessas áreas objetos e estruturas de
tempos passados que tem grande relevância cultural para a nossa história. A fim de tentar
mitigar os danos causados a esse patrimônio, a Resolução CONAMA nº 1, de 23 de janeiro
de 1986, dispõe sobre os impactos causados ao meio ambiente por atividades humanas
modificadoras, tais como estradas, rodovias, portos, mineração, linhas de transmissão,
hidrelétricas, entre tantas outras, que devem passar anteriormente por um licenciamento
para serem executadas. No Art. 6º da referida lei, visualizamos que o estudo de impacto
deverá compor determinadas atividades técnicas, incluindo para o nosso interesse, “o
meio socioeconômico – o uso e ocupação do solo, os usos da água e a sócio economia,
destacando os sítios e monumentos arqueológicos, históricos e culturais da comunidade,
as relações de dependência entre a sociedade local, os recursos ambientais e a potencial
utilização futura desses recursos” (BRASIL, 1986).
As etapas do licenciamento ambiental como um todo, segundo o Ministério do
Meio Ambiente, incluem a Licença Prévia (LP), a Licença de Instalação (LI) e a Licença
de Operação (LO).
•Licença Prévia (LP): aprova a localização e concepção do
empreendimento, atividade ou obra que se encontra na fase
preliminar do planejamento atestando a sua viabilidade ambiental,
estabelecendo os requisitos básicos e condicionantes a serem
atendidos nas próximas fases de sua implantação, bem como
suprindo o requerente com parâmetros para lançamento de efluentes
líquidos e gasosos, resíduos sólidos, emissões sonoras, além de exigir
a apresentação de propostas de medidas de controle ambiental em
função dos possíveis impactos ambientais a serem gerados.
•Licença de Instalação (LI): autoriza a instalação do
empreendimento, atividade ou obra de acordo com as especificações
constantes dos planos, programas e projetos aprovados, fixando
cronograma para execução das medidas mitigadoras e da
implantação dos sistemas de controle ambiental.
•Licença de Operação (LO): autoriza a operação da atividade, obra
ou empreendimento, após a verificação do efetivo cumprimento das
medidas de controle ambiental e condicionantes determinadas nas
licenças anteriores (BRASIL, 2023, on-line, grifo do original).
Ao longo dos anos 2000, o IPHAN passa então a publicar diversos atos
entre Portarias e Normativas que direcionam o trabalho arqueológico no âmbito do
licenciamento. O mais importante destes talvez seja a Instrução Normativa nº 1, de
25 de março de 2015, a qual estabelece todos os procedimentos administrativos que
157
o IPHAN permeia nos processos de licenciamento. A referida normativa se insere
em contextos em que será necessário a intervenção na área impactada, incluindo a
Área Diretamente Afetada (ADA), que inclui toda a área que será necessária para a
implantação do empreendimento, e a Área de Influência Direta, que consiste na área
diretamente afetada pelo empreendimento. Outra questão importante acerca da
normativa estabelece a classificação do empreendimento em quatros níveis distintos,
os quais exigem determinados procedimentos que serão adotados pelo IPHAN.
A prática do licenciamento arqueológico no Brasil também é conhecida como
Arqueologia de Contrato, visto que, os arqueólogos profissionais firmam contratos de
serviços com os empreendedores. Segundo Funari e Chevitarese (2013), o IPHAN não
atua somente como um órgão de proteção ao patrimônio, mas também de fiscalizador,
entretanto, devido à falta de contingente humano, delegam aos arqueólogos autônomos
o dever dessa fiscalização em seu nome. Nos últimos anos, se multiplicaram as empresas
especializadas em Arqueologia, que prestam serviços às construtoras, ou, ainda, é
comum observar que as próprias construtoras de diversos ramos passam a compor em
suas equipes um profissional de Arqueologia. Assim, “o arqueólogo, além de realizar o seu
meticuloso e necessário trabalho, ainda precisa garantir que a construtora respeite toda
a legislação que trata do patrimônio cultural brasileiro” (FUNARI; CHEVITARESE, 2013, p.
67), o que pode acabar gerando problemas de ordem éticas, visto que deve fiscalizar a
construtora que pagará o seu salário. Além disso, Funari e Chevitarese (2013) colocam
o problema sobre a questão dos prazos curtos e urgentes que os trabalhos devem ser
realizados, o que coloca em prova a qualidade das pesquisas arqueológicas. Nesses
casos, o que acaba ocorrendo com todo o material arqueológico que é salvaguardado,
ou seja, retirado do campo e levado a uma reserva técnica autorizada pelo IPHAN
após a conclusão do licenciamento arqueológico, é a sua utilização em pesquisas
acadêmicas, mas, infelizmente, seu contexto de descoberta já se perdeu, por isso é tão
importante que o licenciamento arqueológico, apesar dos prazos curtos, se dedique a
uma descrição, o mais completa possível, do contexto arqueológico que será destruído,
incluindo inúmeros registros, como escrita, fotografia, desenhos etc.
158
LEITURA
COMPLEMENTAR
ARQUEOLOGIA NO BRASIL E NO MUNDO:
ORIGENS, PROBLEMÁTICAS E TENDÊNCIAS
Pedro Paulo A. Funari
A arqueologia tem passado, nas últimas décadas, por grandes mudanças
epistemológicas e, por consequência, em seus aspectos sociais. Disciplina surgida no
auge do nacionalismo e do imperialismo, como parte da conquista militar e espiritual
do mundo, a arqueologia esteve, por muito tempo, ligada às mais reacionárias e
conservadoras posições sociais e políticas, a serviço, muitas vezes, da opressão
de indígenas, mulheres, pobres, minorias diversas e mesmo maiorias variadas. A
arqueologia, contudo, passou por modificações profundas devido, em grande parte, aos
movimentos sociais e às transformações políticas desde, ao menos, a Segunda Guerra
Mundial (1939 1945). Na esteira do feminismo, das lutas sociais diversas pelos direitos
civis, contra o colonialismo e pela diversidade étnica, religiosa e sexual, a disciplina não
deixou de responder aos novos tempos.
Definida, na origem, como estudo das coisas antigas, a partir da etimologia,
dedicada aos edifícios e objetos provenientes das antigas civilizações, como a grega
e a romana, tornou se, aos poucos, parte dos estudos das relações de poder a partir
das coisas. Em comum, manteve a centralidade do estudo do mundo material, das
coisas, daquilo que pode ser tocado, transformado e feito pelo ser humano, definido,
por convenção como cultura material. Introduziram se, ademais, os aspectos sociais e
de poder, das desigualdades e conflitos, para propor uma disciplina menos distante das
pessoas e mais útil tanto aos indivíduos, como às coletividades.
A fundação, em 1986, do Congresso Mundial de Arqueologia (World Archaeological
Congress) foi, nesse aspecto, marcante, pois introduziu as questões sociais e políticas na
organização mesma da disciplina, com a introdução de indígenas, leigos e arqueólogos
de lugares periféricos no centro da organização. Nunca antes havia sido possível ver
índios, geógrafos, arqueólogos jovens e catedráticos em mesas de discussão em
condições de igualdade. A diversidade foi alçada à condição de valor, assim como a
quebra das hierarquias. A disciplina passou a voltar se, de forma cada vez mais intensa,
para o envolvimento com a sociedade, pela difusão voltada não apenas para os pares,
como para os estudiosos de outras disciplinas e, mais ainda, para as pessoas em geral e
para comunidades específicas em particular, de indígenas a crianças, de idosos àqueles
com necessidades especiais.
159
A ARQUEOLOGIA, IMPERIALISTA E NACIONALISTA
Em linhas gerais, pode se dizer que a história da arqueologia institucionalizada
começa com o surgimento da figura do arqueólogo. Até o final do século XVIII, o estudioso
da Antiguidade era o antiquário, que, a partir daí, é substituído pelo arqueólogo. Com
a nova figura do arqueólogo, as pesquisas se desenvolveram na medida em que
escavações foram sendo realizadas, todavia, de início, as realizações eram de caráter
individual, até que se tornasse coletiva ao longo do século XIX. A mais célebre e
importante instituição foi o Instituto de Correspondência Arqueológica, fundado em
1829 na cidade de Roma. Nesse mesmo espírito, a Grécia cria seu Departamento de
Arqueologia em 1834 e a Sociedade Arqueológica de Atenas em 1837. A França também
cria sua Sociedade de Arqueologia Grega em 1837, e, logo depois, a primeira instituição
estrangeira na Grécia, a Escola Francesa de Atenas em 1846, sendo seguida por outras
de várias nações, como o Instituto Alemão de Arqueologia em 1875, a Escola Americana
de Estudos Clássicos em Atenas em 1882, a Escola Britânica em Atenas em 1885. O
que também aconteceu na Itália com a fundação da Escola Francesa de Roma em
1873, da Escola Italiana de Arqueologia em 1875, do Instituto Alemão de Arqueologia
em 1929. Ainda que estas instituições tenham promovido o surgimento de uma ciência
arqueológica e a institucionalização da disciplina, elas significaram também um interesse
dos Estados pelo patrimônio monumental de seu passado, levando os a sua apropriação
e influenciando, assim, os rumos da pesquisa arqueológica.
A ARQUEOLOGIA NO BRASIL
A arqueologia brasileira é uma das pioneiras, apesar de isso parecer pouco
provável. Dom Pedro I iniciou a arqueologia brasileira, trazendo para o país os primeiros
artefatos arqueológicos, como múmias egípcias e outros materiais. Dom Pedro II se
casou com uma princesa napolitana e coletou material arqueológico de Pompeia, Etrúria
e muitos outros lugares. O Museu Nacional do Rio de Janeiro era projetado para ser rival
do Museu Britânico e do Louvre, deixando, assim, de lado a antiga metrópole, Lisboa. O
imperador fundou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro contemporâneo e similar à
Academia Francesa. Nesse planejamento a arqueologia desempenhava um importante
papel, projetada para estabelecer raízes entre ambos, Velho Mundo (arqueologia clássica
e egípcia) e Novo Mundo (arqueologia pré histórica). Por algumas décadas, a arqueologia
foi o centro da ideologia imperial do Brasil e isso explica seu desenvolvimento precoce.
O fim da monarquia levou ao declínio da arqueologia durante a República Velha (1889–
1930). Nos anos 1930 a forte influência do nacionalismo deu um novo ímpeto para
a história e o patrimônio: o ideal colonial deveria servir para a construção da nação.
O período colonial foi escolhido como aquele definidor da sociedade brasileira, em
particular durante o período da ditadura fascista do Estado Novo (1937 1945), mas a
arqueologia como uma atividade acadêmica começou nessa época como uma reação
contrária ao autoritarismo.
160
Paulo Duarte (n. 1899) foi uma figura chave nesse movimento. Duarte era um
ativista político democrata durante os últimos anos da República Velha e contribuiu
para a fundação da primeira universidade brasileira, a Universidade de São Paulo
(1934), moldada em uma abordagem humanista de ensino. O Musée de l’Homme
serviu de modelo para considerar os povos indígenas como seres humanos igualmente
importantes. Como idealista, Duarte tinha um sonho: a criação do Museu do Homem
Americano, inspirado pelo exemplo parisiense. Ao retornar ao Brasil, de Paris, Duarte
liderou um movimento pelos direitos indígenas e como consequência da arqueologia
pré histórica, durante o período liberal entre 1945 e 1964. Ele foi capaz de organizar
a Comissão de Pré História e depois o Instituto de Pré História, que ele conseguiu
atrelar à Universidade de São Paulo, um movimento muito importante para que a
arqueologia pudesse, pela primeira vez, se tornar um ofício acadêmico no Brasil. Devido
à sua amizade com Paul Rivet (n. 1876), Duarte foi capaz de atrair, pela primeira vez,
arqueólogos profissionais para o Brasil, Joseph e Annette Laming Emperaire, discípulos
de Rivet e pré historiadores pioneiros que estudavam arte rupestre como evidência de
cultura humana, em oposição à tradicional arte alta e baixa. Isso era parte do movimento
humanista decorrente de Lévi Strauss, Marcel Mauss e André Leroi Gourhan, todos
eles enfatizando, de maneiras diferentes, como todos os seres humanos são capazes
de representar o mundo com símbolos. De novo, a pré história não foi apenas um
tema digno de investigação devido a razões intelectuais, mas como uma declaração
da humanidade em si: somos todos portadores de cultura. Não é coincidência que a
arte rupestre tenha desempenhado um papel especial, pois desenhar em cavernas e
inscrever em pedra revela se a maior característica humana, a da comunicação. Todos
os seres humanos dominam a linguagem.
Logo após o golpe militar de 1964, um Programa Nacional de Pesquisas
Arqueológicas (Pronapa) foi acertado em Washington D.C., em coordenação conjunta
com as novas autoridades brasileiras e sob a liderança do Smithsonian Institution, sob
o comando de Clifford Evan e Betty Meggers. O Pronapa estabeleceu um programa de
levantamento ativo por todo o país, particularmente preocupado com áreas estratégicas,
contribuindo para o esforço de controle do território no contexto da Guerra Fria. Os
princípios teóricos e empíricos eram muito reacionários e anti humanistas, promovendo
o conceito de que os povos nativos eram preguiçosos e o país pobre devido às condições
naturais. Os cinco primeiros anos (n. 1965) foram seguidos por um segundo período
na bacia amazônica (Pronopaba). Durante esse longo governo ditatorial, uma rede de
arqueólogos criada nessas circunstâncias nefastas moldou o campo, dificultando a
liberdade e o humanismo.
A luta contra a ditadura se intensificou nos anos 1970 e em 1979 uma anistia foi
concedida pelos militares, o que permitiu a muitos exilados voltarem, partidos políticos
foram logo legalizados e as eleições diretas para cargos oficiais em 1982 possibilitaram
uma ampla gama de atividades acadêmicas e políticas. O final do governo ditatorial, em
março de 1985 marcou assim uma nova fase para o país e para a arqueologia.
161
TENDÊNCIAS RECENTES
É difícil discutir em detalhe os tópicos e assuntos da pesquisa arqueológica,
considerando se o grande número de publicações e a enorme variedade de assuntos. Talvez
a forma mais útil de discutir isso seria abordar os principais assuntos, tais como as ocupações
humanas, a mais antiga arte rupestre, outros assuntos pré históricos, a arqueologia histórica,
a arqueologia clássica, a arqueologia subaquática e a arqueologia pública.
A busca pela presença humana mais antiga no Novo Mundo ganhou força
durante o auge da ditadura militar, quando duas propostas antigas foram criadas por
duas mulheres de perspectivas muito diferentes: Conceição Beltrão (1933-) e Niède
Guidon (1933-). Esta última foi bem-sucedida no ambiente brasileiro. Nas profundezas
do nordeste brasileiro, na mais pobre e atrasada área de sertão do país, Niède Guidon
levou a Missão Francesa (1) para um charmoso paraíso natural, a Serra da Capivara,
uma região serrana. A Missão Francesa foi para lá estudar arte rupestre, mas um dos
primeiros resultados surpreendentes do trabalho de campo nos anos 1970 foi a datação
muito antiga de carbono de fogueiras, talvez associadas a vestígios humanos. Essas
descobertas iam contra a visão até então aceita de que os humanos chegaram às
Américas nos últimos milhares de anos, considerando a chamada evidência Clóvis da
América do Norte e datada de 10.000 anos [antes do presente, (AP)]. Isso significava que
qualquer data anterior, em particular na América do Sul, poria em questionamento todo
o modelo de ocupação das Américas. Hoje em dia, meras três décadas passadas, todos
os livros escolares brasileiros se referem a esse sítio muito antigo, a Serra da Capivara.
Não é apenas o tema arqueológico mais popular, mas o único bem conhecido por todas
as crianças e muitos adultos.
A outra linha de pesquisa sobre ocupação humana segue uma abordagem
biológica. Walter Alves Neves (n. 1958), um biólogo e especialista em esqueletos
humanos, tem estudado já há muitos anos os mais primitivos vestígios humanos (mais
ou menos 9.000 AP). De acordo com seus estudos, os esqueletos provam que houve
uma população de pessoas com características africanas, mais tarde substituída pela
imigração asiática dos ancestrais dos índios americanos. Ele pôde introduzir o segundo
aspecto mais popular da arqueologia brasileira, após a abordagem de Guidon: Luzia, a
Lucy brasileira, representada como uma mulher africana.
A arte rupestre também é um assunto importante por duas razões diferentes:
as pessoas apreciam pinturas de arte rupestre e é um assunto arqueológico muito
elaborado. A influência mais sustentável veio do estruturalismo francês de Leroi
Gourhan e outros esquemas linguísticos interpretativos. Duas das principais escolas
se desenvolveram desde os anos 1970, uma em Minas Gerais, dirigida por André Prous
e a outra no Nordeste, liderada por Guidon e Anne Marie Pessis (n. 1952), mas também
em conjunto a outros acadêmicos, como Dénis e Águeda Vialou no Mato Grasso e
Edithe Pereira na bacia amazônica. Guidon e Pessis fomentaram o estabelecimento
162
das assim chamadas tradições de arte rupestre, tentando estabelecer estilos por áreas
específicas. Prous misturou seu treinamento como historiador clássico e sua inclinação
para a catalogação para promover a produção de uma documentação maciça. Vialou
representa a melhor escola de linguística francesa.
Outras questões pré históricas também são relevantes. A colonização da
Amazônia passou a ser tema de particular relevo e importância, por diversos motivos,
dentre os quais a possibilidade de entender melhor o meio ambiente antigo e atual.
Desde os anos 1950 e 1960, Betty Meggers (1921-) e Donald Lathrap (1927-) discutiam
muito sobre a floresta amazônica, tanto ela, quanto ele. Meggers morreu há pouco tempo
e defendeu até a morte não apenas que a América Latina seria para sempre atrasada
e subdesenvolvida, mas também que a floresta tropical era um paraíso falso, iludindo
trabalhadores árduos a se tornarem índios preguiçosos. Primeiro Lathrap, depois Anna
Roosevelt (1946-) iriam desafiar isso e propor a Amazônia como um enorme ambiente
abrigador de ocupações. Roosevelt, a partir dos anos 1990, adicionou questões de gênero
na equação e propôs um papel de relevância para a mulher no passado pré histórico
do Brasil. Outros, como Eduardo Goes Neves, têm focado no trabalho de campo e na
possível identificação de padrões de ocupação e rotas de migração, enquanto Denise
Schaan focou no simbolismo e Denise Cavalcante Gomes em uma análise refinada do
acabamento de cerâmica e padrões de ocupação.
A arqueologia histórica desenvolveu se tardiamente no Brasil. A disciplina
começou, assim como nos EUA, com um culto às elites, mas logo os estudos
arqueológicos foram dirigidos para as missões jesuítas no sul do Brasil, buscando
descobrir como os índios guaranis e os padres missionários conviviam. A arqueologia
nos quilombos iniciou se no mesmo período, meio e final dos anos 1980, explorando
essas preocupações nas áreas de mineração no século XVIII em Minas Gerais. Quando
a democratização ganhou espaço, a arqueologia histórica passou a se preocupar com
os mais icônicos patrimônios públicos, Palmares século XVII e Canudos final do século
XIX. A arqueologia brasileira foi desafiando velhos discursos estabelecidos para um
povo brasileiro pacífico, simplesmente satisfeito em aceitar a ordem social, inclusive
a escravidão. Palmares é o quilombo mais duradouro, ativo por diversas décadas
(1605 1694). Depois do restabelecimento do regime civil em março de 1985, o sítio foi
logo tombado como patrimônio nacional. A arqueologia começou no início dos anos
1990 e seus resultados são inovadores por terem sustentado uma discussão social
sobre a sociedade brasileira. Evidências arqueológicas de utensílios indígenas, assim
como cerâmicas cotidianas, levaram à discussão sobre o pano de fundo social dos
movimentos populares e sua significação para a sociedade brasileira, uma democracia
multiétnica e com raízes africanas. Mais recentemente, questões de gênero também
vêm sendo estudadas nesse deslocamento de questões relevantes para a sociedade.
Canudos, a revolução popular mais famosa do fim do século XIX, era uma comunidade
católica independente (1893 1897). A área foi mais tarde submersa por uma represa e,
então, nos anos 1990, Paulo Zanettini foi capaz de conduzir lá um trabalho de campo,
163
contribuindo para um melhor entendimento de ambos os lados, dos revoltosos e das
forças repressoras. De novo, houve uma contribuição para a discussão sobre a sociedade
brasileira, em particular alguns aspectos como religiosidade, sociedades alternativas,
mas também violência e ditadura, graças à arqueologia.
Desde então, a arqueologia histórica tem explorado diversos outros temas,
tanto o estudo da ditadura e da repressão, quanto da cerâmica, da arquitetura e ainda
estudos em relação a gênero, etnia e outras questões relevantes à sociedade atual.
A arqueologia subaquática desenvolveu se, de novo, apenas recentemente graças à
comunidade francófona. A arqueologia tem sido ativa em fomentar a interação entre
arqueólogos e pessoas comuns, buscando produzir material acadêmico relevante para
a sociedade como um todo e para grupos específicos. A arqueologia brasileira tem sido
bastante ativa nessa área e agora está sendo reconhecida como um dos principais
contribuidores para o avanço da disciplina na arqueologia pública mundial e isso está
relacionado às condições sociais no Brasil, cujas características contraditórias revelam
mais do que o observador estrangeiro possa perceber. Publicações como a revista
Arqueologia Pública e muitos outros livros, teses de doutorado e artigos atestam o
desenvolvimento da arqueologia pública no Brasil e suas contribuições para a disciplina
além das fronteiras brasileiras.
Fonte: FUNARI, P. P. A. Arqueologia no Brasil e no Mundo: origens, problemáticas e tendências. Ciência
e Cultura, Campinas, v. 65, n. 2, p.23-25, 2013. Disponível em: [Link]
v65n2/[Link]. Acesso em: 5 jun. 2023.
164
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu:
• As principais leis que envolvem a Arqueologia no Brasil e a prática da profissão.
• Como se tornar um profissional de Arqueologia no Brasil por meio dos cursos de
graduação e pós-graduação na área.
• Como o profissional de Arqueologia pode atuar como pesquisador dentro das
Instituições de Ensino Superior, centros de pesquisa, órgãos públicos de diversas
instâncias e museus.
• A atuação da Arqueologia no licenciamento ambiental por meio das exigências
estabelecidas na lei, assim como os principais processos que se dão na
prestação de serviços de consultoria e licenciamento arqueológico e algumas
problemáticas envolvidas.
165
AUTOATIVIDADE
1 Segundo a Lei nº 13.653, de 18 de abril de 2018, que dispõe sobre a regulamentação
da profissão de arqueólogo, incluindo as determinações de quem pode ser considerado
arqueólogo no Brasil. Com base no exercício privativo da profissão em Arqueologia,
analise as sentenças a seguir:
Fonte: BRASIL. Lei nº 13.653, de 18 de abril de 2018. Dispõe
sobre a regulamentação da profissão de arqueólogo e dá outras
providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2018.
Disponível em: [Link]
publicacao/26542398. Acesso em: 5 jun. 2023.
I - Diplomados com o título de bacharelado em Arqueologia.
II - Diplomados com o título de pós-graduação com área de Concentração em Arqueologia
e experiência na área comprovada de 5 anos consecutivos ou 10 anos intercalados.
III - Diplomados com o título de bacharelado em qualquer área afim da Arqueologia
como Antropologia e História que tenham seus trabalhos de conclusão de curso na
área da Arqueologia.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
2 Os cursos de graduação em Arqueologia no país são pouco numerosos, totalizando
somente nove espalhados por todo o território nacional. Com base no exposto, assinale
a alternativa CORRETA acerca de qual das regiões brasileiras abriga o maior número de
cursos em Arqueologia.
a) ( ) Região Sul
b) ( ) Região Sudeste
c) ( ) Região Nordeste
d) ( ) Região Norte.
3 Segundo a Instrução Normativa nº 1, de 25 de março de 2015, que dispõe sobre os
procedimentos administrativos que envolvem o licenciamento arqueológico, analise as
sentenças a seguir:
Fonte: BRASIL. Ministério da Cultura. Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional. Instrução Normativa nº 1, de 25 de março de
2015. Estabelece procedimentos administrativos a serem observados
166
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nos
processos de licenciamento ambiental dos quais participe. Brasília,
DF: Ministério da Cultura; IPHAN, 2015. Disponível em: [Link]
[Link]/uploads/legislacao/INSTRUCAO_NORMATIVA_001_
DE_25_DE_MARCO_DE_2015.pdf. Acesso em: 5 jun. 2023.
( ) A normativa se refere a situações em que o acompanhamento arqueológico é dispensado.
( ) A normativa se refere a situações em que há necessidade de intervenção arqueológica.
( ) A normativa se refere aos impactos nas áreas afetadas, classificando os
empreendimentos por níveis que exigem procedimentos específicos.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – V.
d) ( ) F – F – V.
4 A Resolução CONAMA nº 1, de 23 de janeiro de 1986, dispõe sobre os impactos
causados ao meio ambiente pelas atividades humanas, os sítios arqueológicos fazem
parte dos estudos técnicos requeridos no licenciamento ambiental. Com base no
exposto, indique as principais etapas do licenciamento ambiental e os procedimentos
executadas em cada uma.
Fonte: BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Conselho Nacional do
Meio Ambiente. Resolução CONAMA nº 1, de 23 de janeiro de 1986.
Estabelece procedimentos e critérios para Avaliação Ambiental com o
estudo de impacto ambiental (EIA) e seu respectivo relatório (RIMA). Brasília,
DF: CONAMA, 1986. Disponível em: [Link]
legislacao/MMA/[Link]. Acesso em: 5 jun. 2023.
5 Baseado no funcionamento do licenciamento arqueológico e de todas as partes
envolvidas, disserte sobre como se dá a relação entre arqueólogos, empreendedores e o
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
167
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, F. A arqueologia dos fermentados: a etílica história dos Tupi-Guarani. Estu-
dos Avançados, São Paulo, v. 29, p. 87-118, 2015.
AMORIM, A. DE P. Religião e Sofrimento: Ressonâncias patrimoniais no discurso
religioso em Ouro Preto (MG). 2013. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) –
Faculdade de Ciências Sociais, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2013.
AYOUB, M. L. Arqueologia da memória: estudos e teorias para um novo rumo da compre-
ensão dos artefatos. Revista Territórios e Fronteiras, Cuiabá, v. 9, n. 2, p. 257-273, 2016.
BARRETO, C. A construção de um passado pré-colonial: uma breve história da arqueo-
logia no Brasil. Revista USP, São Paulo, v. 44, p. 35-51, 2000.
BINFORD, L. The Archaeology of Place. Journal of Anthropological Archaeology, [s.
l.], v. 1, n. 1, p. 5-31, 1982.
BOCKSAR, R. B. et al. Comparación de los procesos de acreción de los montículos de
Cañada Saldaña y cuenca de la Laguna Merín a través de dataciones luminiscentes.
Cadernos do CEOM, Chapecó, v. 35, n. 57, p. 29-51, 2022.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Conselho Nacional do Meio Ambiente. Resolu-
ção CONAMA nº 1, de 23 de janeiro de 1986. Estabelece procedimentos e critérios
para Avaliação Ambiental com o estudo de impacto ambiental (EIA) e seu respectivo
relatório (RIMA). Brasília, DF: CONAMA, 1986. Disponível em: [Link]
sophia/cnia/legislacao/MMA/[Link]. Acesso em: 5 jun. 2023.
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de
1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2022]. Disponível em: [Link]
[Link]/ccivil_03/constituicao/[Link]. Acesso em: 6 jun. 2023.
BRASIL. Ministério da Cultura. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Instrução Normativa nº 1, de 25 de março de 2015. Estabelece procedimentos admi-
nistrativos a serem observados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
nos processos de licenciamento ambiental dos quais participe. Brasília, DF: Ministério da
Cultura; IPHAN, 2015. Disponível em: [Link]
TRUCAO_NORMATIVA_001_DE_25_DE_MARCO_DE_2015.pdf. Acesso em: 5 jun. 2023.
BRASIL. Lei nº 13.653, de 18 de abril de 2018. Dispõe sobre a regulamentação da
profissão de arqueólogo e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da Re-
pública, 2018. Disponível em: [Link]
cao/26542398. Acesso em: 5 jun. 2023.
168
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Etapas do licenciamente. Portal Nacional de
Licenciamento Ambiental, Brasília, DF, c2023. Disponível em: [Link]
br/etapas-do-licenciamento. Acesso em: 5 jun. 2023.
BROCHADO, J. P. et al. Arqueologia brasileira em 1969: um relatório preliminar sobre
o Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas. Publicações Avulsas do Museu
Paraense Emílio Goeldi, Belém, v. 12, p. 3-33, 1969.
CASAGRANDE, J. C. Novas questões para a arqueologia do Império: expedição de
Charles Wiener e Fritz Müller na província de Santa Catarina em 1875-76 e o diálogo
entre arqueologia e as ciências naturais. Revista Santa Catarina em História, Flo-
rianópolis, v. 10, n. 1, p. 41-55, 2016.
CORTELETTI, R.; IRIARTE, J. Recent Advances in the Archaeology of the Southern Pro-
to-Jê People. Encyclopedia of Global Archaeology, [s. l.], p. 9077-9087, 2020.
DI BACO, H.; FACCIO, N. B.; LUZ, J. R. Alguns traços iniciais do estudo: da Arqueologia
Cognitiva às tendências teóricas atuais na Arqueologia. Tópos, Presidente Prudente, v.
4, n. 1, p. 146-173, 2010.
ESTEVES, B. Os seixos da discórdia. Revista Piauí, Questões pré-históricas, São
Paulo, v. 88, p. 34-37, jan. 2014. Disponível em: [Link]
os-seixos-da-discordia/. Acesso em: 5 jun. 2023.
EVANS, J. G. Environmental archaeology and the social order. London/New York:
Routledge, 2003.
FAGUNDES, M. O conceito de paisagem em Arqueologia - os lugares persistentes. HO-
LOS Environment, Rio Claro, v. 9, n. 2, p. 301-315, 2009.
FUNARI, P. P. Arqueologia brasileira: visão geral e reavaliação. Revista de História da
Arte e da Cultura, Campinas, v. 1, p. 23-41, 2022.
FUNARI, P. P.; CHEVITARESE, A. Arqueologia no Brasil hoje. Trabalhos de Antropolo-
gia e Etnologia, Porto, v. 53, p. 61-74, 2013.
FUNARI, P. P.; MOURAD, T. O. Curadores do Império: patrimônio como pilhagem colo-
nialista. Revista Heródoto, Guarulhos, v. 1, n. 1, p. 19-36, 2016.
FUNARI, P. P.; NOELLI, F. S. Pré-história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2002.
GASPAR, M. D.; KLOKLER, D.; BIANCHINI, G. F. Arqueologia estratégica: abordagens
para o estudo da totalidade e construção de sítios monticulares. Boletins do Museu
Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 8, n. 3, p. 517-533, 2013.
169
GONZÁLEZ-RUIBAL, A. Arqueología y memoria histórica. Revista Patrimonio Cultu-
ral de España, Madri, v. 1, p. 103-122, 2009.
HILBERT, K. Nota sobre algumas pontas-de-projétil da Amazônia. Estudos Ibero-a-
mericanos, Campinas, v. 24, n. 2, p. 291-309, 1998.
IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Portaria nº 7,
de 1º de dezembro de 1988. Considerando que a Lei nº 3.924, de 26 de julho de 1961,
submete à proteção do Poder Público, pela SPHAN, os monumentos arqueológicos e pré-
-históricos... Brasília, DF: IPHAN, 1988a. Disponível em: [Link]
legislacao/Portaria_n_007_de_1_de_dezembro_de_1988.pdf. Acesso em: 5 jun. 2023.
IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Portaria nº 241,
de 19 de novembro de 1988. Considerando a necessidade de implntar padrões nacio-
nais no âmbito da identificação dos sítios arqueolígicos visando a montagem do Cadastro
Nacional de Sítios Arqueológicos, em conformidade com a Lei nº 3.924, de 26 de julho de
1961, resolve. Brasília, DF: IPHAN, 1988b. Disponível em: [Link]
legislacao/Portaria_n_241_de_19_de_novembro_de_1998.pdf. Acesso em: 5 jun. 2023.
IRIARTE, J. et al. Out of Amazonia: late-Holocene climate change and the Tupi-Guarani
trans-continental expansion. The Holocene, [s. l.], v. 27, n. 7, p. 967-975, 2017.
KACHIMARECK, C. C. Mepani Mekarõ e as memórias nas pedras: um ponto de parti-
da para o estudo da pintura rupestre no complexo de sítios do Rodrigão, Morro do Cha-
péu, Bahia, Brasil. 2008. 208 f. Dissertação (Mestrado em Quaternário e Pré-História) –
Departamento de Território, Arqueologia e Património da Escola Superior de Tecnologia
de Tomar, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Tomar, 2008.
LANGER, J. Expondo o passado: as pesquisas arqueológicas do Museu Nacional durante
o Brasil Império (1876-1889). Cadernos do CEOM, Chapecó, v. 18, n. 21, p. 91-110, 2014.
LANGER, J.; SANTOS, S. F. Império selvagem: a arqueologia e as fronteiras simbólicas
da nação brasileira (1850-1860). Dimensões, Vitória, v. 14, p. 37-64, 2002.
LIMA, T. A. Arqueologia como ação sociopolítica: o caso do Cais do Valongo, Rio de
Janeiro, século XIX. Vestígios, Belo Horizonte, v. 7, n. 1, p. 179-207, 2013.
LOURDEAU, A.; PAGLI, M. Indústrias líticas préhistóricas na região da Serra da Capivara,
Piauí, Brasil. In: PESSIS, A.; MARTIN, G.; GUIDON, N. (org.). Os biomas e as sociedades
humanas na pré-história: região do Parque Nacional Serra da Capivara, Brasil. São
Paulo: A&A, 2014. v. II-B, p. 551-635.
MARQUES, M.; HILBERT, K. A tradição (arqueológica) itaparica: a materialidade textual e a se-
mantização dos objetos. Trajetos – Revista de História da UFC, Fortaleza, v. 1, p. 68-80, 2009.
170
MEGGERS, B. Amazônia: a ilusão de um paraíso. São Paulo: Editora da Universidade
de São Paulo, 1987.
MITHEN, S. Introduction: the archaeological study of human creativity. In: MITHEN, S. Cre-
ativity in human evolution and prehistory. London: Taylor & Francis, 2005. p. 1-11.
NELSON, M. El estudio de la organización tecnológica. In: SCHIFFER, M. (ed.). Archae-
ologic Method and Theory. Tucson: University of Arizona Press, 1991. p. 57-100.
NEVES, W.; BERNARDO, D.; OKUMURA, M. M. A origem do homem americano vista a
partir da América do Sul: uma ou duas migrações? Revista de Antropologia, São
Paulo, v. 50, n. 1, p. 9-44, 2007.
NEVES, E. G. Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia
Central. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
NOELLI, F. A ocupação humana na região sul do Brasil: arqueologia, debates e pers-
pectivas. Revista USP, São Paulo, v. 44, p. 218-269, 1999.
O’BRIEN, M. J.; BUCHANAN, B.; EREN, M I. Clovis colonization of Eastern North America:
a phylogenetic approach. STAR: Science & Technology of Archaeological Resear-
ch, [s. l.], v. 2, n. 1, p. 67-89, 2016.
PELLINI, J. R. Uma conversa sobre arqueologia e paisagem com Robin o bom camara-
da. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, v. 19, p. 21-37, 2009.
PROUS, A. Arqueologia brasileira. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1992.
PROUS, A. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. São Paulo:
Zahar, 2006.
RENFREW, C.; BAHN, P. What did they think? Cognitive archaeology, art and religion. In:
RENFREW, C.; BAHN, [Link]: theories, methods and practice. 6th ed. London:
Thames & Hudon Ltd, 2012. p. 381-420.
RODRIGUES, S. H. Arqueologia, história e memória: um ensaio sobre a circularidade e
as sobreposições destas três práticas de relação com o passado. Epígrafe, São Paulo,
v. 11, n. 1, p. 510-526, 2022.
SANTOS, T. de L. Memória e identidade: o que vem primeiro, Annette Laming Emperaire
ou a missão Franco Brasileira? Revista Memorae, Tubarão, v. 2, n. 2, p. 72-84, 2015.
SCHEEL-YBERT, R. Calibração de datas radiocarbônicas em sítios costeiros. Revista
de Arqueologia, Pelotas, v. 32, n. 2, p. 119-134, 2019.
171
SCHEEL-YBERT, R.; BOYADJIAN, C. Gardens on the coast: consideration on food pro-
duction by Brazilian shellmound builders. Journal of Anthropological Archaeology,
[s. l.], v. 60, p. 1-12, 2020.
SCHMITZ, P. I. Sítios de pesca lacustre em Rio Grande, RS, Brasil. Erechim: Habilis
Editora, 2011.
SILVA, A. F. da. "Lages da Soledade": uma contribuição à Pré-história do Rio Grande
do Norte. 2003. 62 f. Monografia (Graduação em História) – Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, Natal, 2003.
SOARES, J. Discutindo a tradição Aratu: o sítio cerâmico GO-RV-06 e novas contri-
buições. 2012. 209 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Vale do Rio
dos Sinos, São Leopoldo, 2012.
SOUSA, J. C. Arqueologia e Cognição: Dos Processos de Construção de Conhecimento
à Construção de Conceitos. In: WORKSHOP ARQUEOLÓGICO DE XINGÓ (MAX/UFS), 7.;
CICLO INTERNACIONAL DE SIMPÓSIOS TEMÁTICOS, 2.; REUNIÃO DA SOCIEDADE DE
ARQUEOLOGIA BRASILEIRA – NÚCLEO REGIONAL NORDESTE, 2., 2012, São Cristovão/
Laranjeiras. Anais [...] Aracaju: Ed. UFS, 2012.
SOUZA, M. A. T. Introdução ao estudo dos sítios arqueológicos históricos. In: SYMANSKI,
LUIS CLAUDIO; SOUZA, M. A. T. (ed.). Arqueologia histórica brasileira. Belo Horizon-
te: Editora UFMG, 2022. p. 21-46.
VIANNA, L. Patrimônio imaterial. In: GRIECO, BETTINA; TEIXEIRA, LUCIANO; THOMPSON,
A. (org.). Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. 2. ed. rev ed. Rio de Janeiro,
Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2016. Disponível em: [Link]
rioPatrimonioCultural/detalhes/85. Acesso em: 5 jun. 2023.
VIALOU, A. V.; VIALOU, D. Manifestações simbólicas em Santa Elina, Mato Grosso, Brasil:
representações rupestres, objetos e adornos desde o Pleistoceno ao Holoceno recen-
te. Boletins do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 14, n.
2, p. 343–365, 2019.
WAGNER, G.; SILVA, L.; HILBERT, L. O Sambaqui do Recreio: geoarqueologia, ictioar-
queologia e etnoarqueologia. Boletins do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências
Humanas, Belém,v. 15, n. 2, p. 1-12, 2014.
WILLEY, G.; PHILLIPS, P. Method and theory in american Archaeology. Chicago:
University of Chicago Press, 1958.
172