Angola e Conflitos nos Grandes Lagos
Angola e Conflitos nos Grandes Lagos
Luanda, 2025
Sumário
Tema ................................................................................................................................. 3
Problema ........................................................................................................................... 3
Hipotese ........................................................................................................................ 5
1.3. Origem dos conflitos armados na Região dos Grandes Lagos .......................... 8
METODOLOGIA........................................................................................................... 17
Problema
Segundo e Gil (2002) e Lakatos; Marconi (2003), o problema pode ser entendido
como sendo uma dificuldade específica que não pode ser resolvida com uma só acção.
Ou seja, o prolema é aqui entendido por estes autores como sendo o desafio que
impulsiona a pesquisa e ela é resultado da observação de que existe uma dificuldade por
resolver podendo possuir as seguintes característica: claro e preciso, dever ser empírico,
ser suscetível de solução e delimitado a uma dimensão viável.
Assim, ao observarmos o continente africano, verificamos que ele tem sido nos
últimos tempos, palco de inúmeros conflitos armados envolvendo uma multiplicidade
de atores (estatais e não estatais) que têm colocado em causa o seu desenvolvimento
socioeconómico.
Esta situação tem levado a comunidade internacional a intervir de diversas
formas nos chamados Estados em situação de conflitualidade, de modos a conter e
mesmo resolver estes conflitos nas regiões mais afetadas. Este intervencionismo tem
envolvido não só organizações regionais e sub-regionais, como também, alguns estados
mais capacitados e organizados que ao nível regional passam de modo rotativo a adotar
políticas e estratégias de operacionalização, com os meios necessários para o
estabelecimento e gestão da paz e da segurança, de modos a criarem condições para um
desenvolvimento sustentável.
Dentre as regiões mais afetadas pelos conflitos nos últimos séculos, está
sem dúvidas a Região dos Grandes Lagos, onde fazem parte como membros originário,
países como: Ruanda, Burundi, RDC, Uganda, Tanzânia, Zâmbia, República do Congo,
RCA, Sudão do Sul, Quénia e Sudão. Esta região tem sido classificada pela comunidade
internacional, como sendo uma das regiões mais inseguras do mundo e com maior
3
dificuldade de desenvolvimento socioeconómico, constituindo-se ao mesmo tempo
numa ameaça à segurança e à estabilidade regional e internacional.
Nesta ordem de ideias, Angola, que durante a Guerra Civil tinha uma
política externa orientada para o eliminar das ameaças que atentavam contra a segurança
do país, após a sua independência procurou firmar-se na arena internacional. Assim, se
a nível global a sua diplomacia conseguiu que, entre 2003 e 2004 e novamente em
2015-2016, fosse eleita para membro não permanente do Conselho de Segurança das
Nações Unidas, no contexto regional, tem consolidado a sua imagem como parceiro
para a estabilidade e segurança, nomeadamente junto de organizações sub-regionais tais
como a Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos, onde é membro
aderente e assumiu pela primeira vez a presidência rotativa em 2014.
Justificativa do estudo
Para Lakatos; Marconi, (2003), a justificativa do estudo é o item que apresenta
respostas à questão por quê? Ou seja, ela é entendida como sendo o convencimento de
que o trabalho de pesquisa é fundamental de ser efectivado, que o tema escolhido é
importantes para a sociedade, pois permite ao investigador apresentar as razões que lhe
levaram a escolher o tema, destacando a sua importância para diferentes esferas da
sociedade. Assim, nossa curiosidade em pesquisar sobre o tema foi motivado
essencialmente pela percepção de que os conflitos na Região dos Grandes Lagos põem
em causa a estabilidade regional. Deste modo, um estudo relacionado a resolução dos
conflitos na Região dos Grandes Lagos afigura-se importante para sociedade por poder
contribuir para uma maior percepção da necessidade de Angola continuar a manter os
seus esforços no apaziguamento desta região tendo em conta a vasta fronteita partilhada
com a República Democrática do Congo, epicentro deste conflito.
Pergunta de Partida
Para Quivy (2005), a pergunta de partida é uma das etapa do procedimento
científico, constituindo-se no fio condutor de uma investigação científica. Ela ajuda o
pesquisador a focar sua pesquisa, fornecendo um caminho através do processo de
pesquisa.
Assim sendo, a pergunta de partida do presente estudo é: Qual foi o papel de
Angola na resolução dos conflitos armados na República Democrática do Congo
durante a sua presidência na Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes
Lagos?
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Perguntas de Derivadas
Objectivos do Estudo
O item Objectivos do estudo responde a pergunta: Para que pesquisar? Ou seja,
visa responder o que move o pesquisador, podendo este objectivos tomar uma visão
global e abrangente do tema, como também, apresentar um carácter mais concreto ou
intermediária permitindo, de um lado, atingir o objetivo geral e, de outro, aplicá-lo a
situações particulares (Lakatos; Marconi, 2003).
Assim, para a prossecução desta pesquisa foram traçados os seguintes
objectivos:
Objectivo Geral:
Compreender qual foi o papel de Angola na resolução dos conflitos armados na
República Democrática do Congo durante a sua presidência na Conferência
Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos.
Objectivos específicos:
Descrever a gênese da Região dos Grandes Lagos;
Perceber os factores geopolíticos dos conflitos na República Democrática do
Congo;
Descrever as principais missões de Angola durante a sua presidência na
Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos.
Hipotese
Segundo Gil ( 2002: 31) “ a hipótese é a proposição testável que pode vir a ser a
solução do problema. Ou seja, ela é uma tentativa ou criação de resposta imediata ao
problema identificado. A função da hipotese segundo Lakatos; Marconi, (2003), é de
propor explicações para certos fatos e ao mesmo tempo orientar a busca de outras
informações. Assim sendo, para responder a pergunta acima levantada, formulou-se a
seguinte hipótese:
H1- Durante a sua presidência na Conferência Internacional sobre a Região
dos Grandes Lagos, Angola exerceu um papel significativo na resolução dos conflitos
armados na República Democrática do Congo, por ter promovido um diálogo entre as
diferentes parte envolvidas no conflito.
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CAPÍTULO I-ENQUADRAMENTO TEÓRICO
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Naturalmente, existem também conflitos que contrapõem indivíduos a
organizações, podendo estes ser; ideológicos, conflitos de interesses e conflitos
revolucionários (Pignatelli, 2010).
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FIGURA 1: Mapa da região dos grandes lagos
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continental, como também, uma análise do sistema internacional. Pois, tal como
observamos na sessão anterior, as influências externas que tiveram o inicio no processo
de unificação da África, no que diz respeito a cultura, étnia, a geográfia e história,
deixou aos países africanos problemas comuns dentre os quais os mais relevantes são:
as rivalidades entre grupos diferentes que foram instigadas como forma de dominação
interna e externa; e em segundo lugar, a assimilação cultural das elites locais (Visentini,
2012).
Esses são assim os frutos amargos deixados pelo sistema colonial, originando
conflitos tribais que vem marcando na história de África sendo que um dos mais
conhecidos é o conflito no Burundi e Ruanda, sendo classificado como um conflito
étnico, porque engloba duas etnias os Tutsi e os Hutus.
Segundo Nyer (2009), os conflitos entre os grupos étnicos são geralmente
chamados de guerra étnicas, guerras em que os beligerantes se definem em parte de
acordo com fundamentos culturais, tais como idioma, religião ou características
semelhantes. Podemos relacionar esse conceito apresentado por Nyer, com um dos
maiores conflitos existente entre duas tribos na região dos grandes lagos que é a disputa
entre a etnia Tutsis e os Hutus onde temos como gênese desse conflito o ano de 1994,
quando aconteceu um dos maiores genocídios da história da humanidade e foram
mortas mais de 1.000.000 tutsis, como cosequência do assassinato do ex-líder da tribo
hutus Juvenal Habyarimana, que na volta da sua viagem da Tanzânia onde havia
assinado o acordo de paz , o seu avião foi abatido, culminando com a sua morte naquele
dia.
Devido a esses acontecimentos, muitos dos sobreviventes desse genocídio foram
obrigados a migrar para os países vizinhos, tais como; o Burundi, a República
Democrática do Congo e Uganda, onde mesmo assim se tornaram alvos de
perseguições, o que foi causando conflitos em outros territórios da região dos grandes
lagos (Silva, 2012).
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verdadeira ameaça para a paz e segurança de toda a região da África central. Com base
nisto, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Africana ( UA) decidiram
trabalhar de forma conjunta para se chegar à Paz naquela região de África, optando
assim, por organizar uma conferência internacional onde se obordarias questões
ralecionadas ao conflito.
Segundo Ollandet (2015), inicialmente, a RDC discordou com a organização de
uma conferência e acusou o Ruanda e o Uganda de serem os líderes dos movimentos
insurgentes nas províncias de Kivu. Por sua vez, o Ruanda e o Uganda não viam
utilidade na conferência internacional uma vez que para eles, o que estava a acontecer
na RDC era um problema de dimensão interna. Diante de tanta discórdia, Kofi Annan,
antigo Secretário Geral das Nações Unidas preferiu falar de uma conferência que
debateria os diferentes problemas podendo encontrar um consenso entre os Estados-
membros. Assim, aos 30 de Dezembro de 1999 foi instituída a CIRGL através da
resolução 1295/1999, de 30 de dezembro do Conselho de Segurança da ONU. Porém, a
Conferência só foi aprovada no ano seguinte, através das resoluções 1291, de 24 de
fevereiro de 2000, e da resolução 1304, de 16 de junho de 2000, quando o conflito na
RDC foi considerado uma ameaça para a paz na região (Van-Dúnem , 2013).
Mediante estes esforços, durante o período 2001 a 2003 foram realizadas
missões de exploração na região, pelo então Ibrahima Fall, nomeado representante
especial de Kofi Annan na Região, com o objectivo de preparar a primeira cimeira.
Ainda durante o processo preparatório para a constituição desta conferência, houve
uma certa dificuldade em fixar seus participantes. Segundo (Miranda, 2018, 38), em
Novembro de 2004, em Kigali, estipulou-se que a conferência teria quatro tipos de
participantes: “o grupo do champ ou core group, o grupo dos cooptés, o grupo dos
Amigos da região e as diferentes organizações internacionais”. Países como Angola, a
RCA e República do Congo, a quem lhes tinha sido proposto pertencerem ao grupo de
observadores (cooptés) manifestaram o seu interesse em fazer parte do core group pois
teriam maior influência no processo de tomada de decisão. (Ollandet, 2015)
Assim, aos 19 e 20 de Novembro de 2004 em Dar-es-Salaam, na Tanzânia, foi
realizada a 1.ª Conferência Ordinária da CIRGL, na qual os Chefes de Estado e de
Governo adotaram por unanimidade a Declaração sobre a Paz, Segurança e
Desenvolvimento sobre a Região dos Grandes Lagos. A Declaração, além de identificar
a visão estabelecida para a organização, define como opções políticas prioritárias e os
seus princípios orientadores como sendo:
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1. Paz e a Segurança;
2. Democracia e boa Governação;
3. Desenvolvimento Económico e Integração Regional;
4. Questões socias e humanitárias.
Segundo Pedro e Garcia (2020), na mesma Declaração são ainda definidos como
mecanismos de acompanhamento: o estabelecimento de um Pacto sobre Segurança,
Estabilidade e Desenvolvimento; e um Comité Interministerial Regional, encarregado
de preparar protocolos e programas de ação com objetivos específicos de curto, médio e
longo prazo. A ratificação deste Pacto aconteceu dois anos depois, a 15 de dezembro
2006, na 2.ª Cimeira Ordinária da CIRGL, em Nairobi, e entrou em vigor em junho de
2008.
O Pacto constitui a estrutura legal e uma agenda da CIRGL, com o objetivo de
criar as condições de segurança, estabilidade e desenvolvimento entre os Estados-
membros. Este inclui uma série de protocolos e programas, que visam o respeito pela
democracia e boa governação; a resolução dos conflitos pela via pacífica; a garantia da
observância das normas e princípios fundamentais dos direitos humanos; bem como a
implementação coletiva dos programas de ação, protocolos e mecanismos suscetíveis de
materializar as opções políticas e princípios da Declaração de Dar-es-Salaam. Entre os
respetivos programas de ação destacamos o Programa de Acão para a Paz e Segurança,
no qual os Estados-membros se comprometem a assegurar a paz e a segurança, a
promover a cooperação na área da paz, prevenção e resolução pacífica dos conflitos na
Região dos Grandes Lagos, e a combater o terrorismo e os crimes transfronteiriços
organizados. ( CIRGL, 2006)
A ratificação do Pacto marcou assim o fim da fase preparatória e abriu a fase
concreta, ou seja, o da de criação do Secretariado Executivo da CIRGL, estrutura que
coordena, facilita e assegura a estabilidade política e o desenvolvimento na Região dos
Grandes Lagos, cuja sede está em Bujumbura (Ngeli, 2015).
A fim de levar a cabo os seus objetivos, a CIRGL é estruturada em termos
organizacionais, por um conjunto de órgãos que executam as tarefas necessárias ao seu
bom funcionamento. Sendo estes: a Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo; o
Comité Regional Internacional; o Secretariado da Conferência; os Mecanismos
Nacionais de Coordenação/Comissão Nacionais; e outras estruturas ou fóruns
específicos necessários para assegurar a implementação do respetivo Pacto
(CIRGL,2006).
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Contudo, com 12 membros, (Angola, Burundi, Quénia, República Centro-
Africana, República do Congo, República Democrática do Congo, Ruanda, Sudão,
Tanzânia, Uganda, Zâmbia e o Sudão do Sul), o objetivo principal da CIRGL é o de
evitar que a região continue a ser o foco de instabilidade em África, cujas consequências
afetam os Estados limítrofes, mesmo que não estejam diretamente envolvidos no
conflito, bem como gerir os esforços para a paz e desenvolvimento de uma das regiões
mais ricas do mundo, em termos de recursos naturais, mas também uma das mais pobres
em termos de desenvolvimento socioeconómico, sendo essa uma das principais razões
para a tendência quase endémica de instabilidade política e para os conflitos armados
que agravam a região. Pois, verificou-se que neste quadro, a criação da CIRGL resultou
do reconhecimento da dimensão regional desses conflitos e da necessidade de um
esforço concertado com vista à promoção da paz e do desenvolvimento.
1.5. Os interesses de Angola na Região dos Grandes Lagos
Desde os tempos mais remotos, o factor geográfico tem sido visto do ponto de
vista geopolítico, como fonte de Poder de um Estado. A extensão, a configuração, a
morfologia e a localização de um Estado servem como factores que
influenciam/aumentam as bases dos poderes dos Estados, porém, estes factores podem
igualmente despertar os interesses dos outros Estados ou ainda de actores não estatais.
Localizado na costa ocidental e central de África, entre os paralelos 5 e 18 de
latitude sul e os meridianos 12 e 24 de longitude leste, a colocalizacão de Angola
coloca-o na condição de elemento de ligação entre a região Austral e Central do
continente africano. Ela faz fronteira a Oeste com o Oceano Atlântico (1650 Km); a
Norte com as Repúblicas do Congo (201 Km) e com a república Democrática do
Congo; a Leste com as Repúblicas do Congo Democrático e da Zâmbia (1110 Km); e a
Sul com a República da Namíbia (1376 Km).
Angola é um país de posição mista, sendo caracterizado pela posse de extensa
fronteira terrestre e amplo acesso ao mar (1650 Km de costa) (Veríssimo, 2014).
De acordo com Pegado,
Angola é uma região onde se concentram recursos naturais, gás natural,
depósitos de minerais, solos férteis para a agricultura, madeiras, além de esta
região estar estrategicamente posicionada no Atlântico Sul, granjeando-lhe
acesso ao mar ( Pegado, 2014, p. 121).
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Como observado neste esboço, Angola possui uma vasta fronteira terrestre
partilhada com a República Democrática do Congo, fronteira esta que segundo Oliveira
(2007) e Kivuna (2019), constitui numa vulnerabilidade para o Estado angolano devido
não só ao fluxo migratório proveniente do norte e centro do continente, como também,
pelo facto desta região do continente ser palco de inúmeros conflitos.
Tal como observado anteriormente, os desafios de segurança na Região dos
Grandes Lagos estão sobretudo, relacionados com inúmeras actividades ilegais, tais
como o tráfico e a proliferação de armas ligeiras e as constantes movimentações dos
diferentes grupos armados. Por este motivo, Angola tem empenhado todos os seus
esforços no sentido de proteger os seus interesses dos perigos que pode enfrentar por
causa da sua partilha, ao norte, de uma vasta fronteira com a RDC, atual epicentro dos
conflitos na região dos Grandes Lagos.
Segundo Couceiro (2018) apud Miranda (2018), é necessário buscar pelos canais
da História para sabermos porquê que Angola terá ligação com os Grandes Lagos.
Segundo este autor, a posição geoestratégica de Angola, obriga o país a estar dentro de
um processo integrado. A questão da segurança na Região dos Grandes Lagos é
fundamental uma vez que a estabilidade desta região permitirá explorar devidamente as
potencialidades dos países membros em benefício do seu povo. Angola é um país que se
pacificou, mas cuja estabilidade depende muito da vizinhança próxima e imediata e da
vizinhança afastada.
Assim, para Pedro e Garcia (2020, p. 848), “apesar de geograficamente Angola
não fazer parte da Região dos Grandes Lagos, o país aderiu à Conferência Internacional
sobre a Região dos Grandes Lagos ( doravante CIRGL) essencialmente por questões
geoestratégicas e de segurança e defesa”. Pois, pelo facto de a vizinha RDC fazer parte
desta região e que um qualquer conflito que envolva aquele país acabará por ter um
impacto na estabilidade regional e também na segurança e na economia angolana. Com
esta adesão, Angola pretendeu marcar uma posição em matéria de resolução de conflitos
em toda a vasta região abrangida pela SADC e pela CIRGL factor este que lançou bases
para que Angola oucupasse simultâneamente a presidência desta organização durante
dois mandatos consecutivos ( 2014-2017).
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1.6. A dupla presidência de Angola na Conferência Internacional sobre a
Região dos Grandes Lagos (2014- 2017)
Sob o lema “Promovamos a paz, Segurança, estabilidade e desenvolvimento da
Região dos Grandes Lagos”, Angola assumiu sob liderança do Ex-Presidente da
República José Eduardo dos Santos, a presidência da CIRGL em Janeiro de 2014, por
um período de dois anos. Estavam assim lançados os desafios à presidência de Angola
numa região sensível aos antagonismos políticos, socioculturais e de outra natureza.
Segundo Pedro e Garcia (2020), no seu primeiro mandato a presidência de
Angola focou a sua intervenção no tratamento de questões que afetavam o processo de
Paz e de estabilidade regional, assim como enfatizou a promoção de emprego no seio da
juventude, como pilar importante para uma paz efetiva, Segurança, estabilidade e
desenvolvimento na CIRGL, conferindo particular atenção às questões de Segurança,
eixo principal de intervenção.
No plano político, o mandato de Angola visou também aplicar sanções, de
acordo com o artigo 23º do Ato Constitutivo da União Africana (doravante UA), a
qualquer Estado-membro que não pagasse as suas contribuições para o orçamento da
CIRGL, assim como o estabelecimento de prazos para o pagamento das referidas
contribuições. Nesta ordem de ideias procurou incentivar os Estados-membros a
primarem pelo cumprimento das suas obrigações financeiras e ao estabelecimento de
mecanismos para o seu controlo; promover os princípios e as normas democráticas;
fomentar a necessidade de uma cultura de boa governação, prestação de contas, a gestão
participativa; criar condições para um diálogo franco e aberto entre a Tanzânia e o
Ruanda, visando impedir a criação de mais conflitos na região; e manter a paz e
estabilidade.
Já nos planos de Defesa, Angola apostou em:
a) Implementar a construção da paz e reconstrução pós-conflito para consolidar a
paz e evitar o ressurgimento de violência;
b) Promover a gestão conjunta da Segurança das fronteiras comuns;
c) Promover a cooperação entre os Estados-membros em questões gerais de
Segurança, incluindo o combate ao tráfico de seres humanos, à proliferação
ilícita de armas, à criminalidade transnacional e ao Terrorismo;
d) Coadjuvar a formação técnica e pedagógica das forças de defesa dos países da
região;
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e) Coordenar e harmonizar os esforços da UA e da Organização das Nações Unidas
( doravante ONU) para a prevenção e combate ao terrorismo interno na região;
f) Incentivar a implementação do protocolo de não-agressão e Defesa mútua na
CIRGL;
g) Incentivar os Estados-membros a não apoiarem as forças de oposição armada ou
a não tolerarem a presença em seus territórios de grupos armados ou atos de
violência ou sublevação contra o governo legítimo de outro Estado;
h) Promover a cooperação em todos os níveis, a fim de desarmar e desmantelar os
grupos armados existentes;
i) Promover a gestão conjunta da participação dos Estados na segurança humana e
suas fronteiras;
j) Continuar a estimular a necessidade de estruturar as forças neutras para a
imposição de paz.
Depois do resultado do primeiro mandato e com a indisponibilidade do Quénia
para suceder Angola na presidência da CIRGL, Angola assumiu um segundo mandato
de praticamente dois anos a 14 de Junho de 2016, durante a VIª Cimeira de chefes de
Estado da CIRGL. No âmbito do sistema rotativo da CIRGL, Angola devia ter sido
substituída pelo Quénia, no entanto, como interpretou o diplomata Santos (2017), talvez
o Quénia não estivesse ainda em condições e juntamente com a maioria dos países pediu
para Angola continuar.
Durante o seu segundo mandato, Angola deu maior ênfase às questões
políticas da RDC, mas também deu continuidade aos seus esforços para a neutralização
das forças negativas do país vizinho.
Pelo exposto e apesar da Diplomacia angolana ter dado mais primazia à
resolução dos conflitos armados na RDC e na RCA, pode-se fazer um balanço
relativamente positivo dos mandatos de Angola na presidência da CIRGL por ter
contribuído para dinamizar a Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes
Lagos. Tal como afirma Sebastião (2017), a presidência angolana na CIRGL contribuiu
para o estreitamento das relações bilaterais e multilaterais com os países da região.
Apesar desta visão apresentada por Sebastião, Alcides Sakala fez um balanço
negativo dos quatro anos da presidência de Angola na CIRGL. Segundo o político,
apesar do apoio da União Europeia e da ONU, Angola não conseguiu acalmar o conflito
na região e que o seu papel “ficou muito mais aquém das expectativas” o que fez perder
a credibilidade de Angola (Bento, 2017).
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Do nosso ponto de vista, consideramos este balanço pouco fundamentado uma
vez que como vimos até aqui, Angola empenhou-se bastante na resolução dos conflitos
da RDC e na dinamização da CIRGL. No entanto, quatro anos não são suficientes para
resolver problemas endémicos e que existem há dezenas de anos. Além do mais, Angola
respeitou a soberania dos países membros da CIRGL, não se imiscuiu nos assuntos
internos da RDC e não interveio sem que lhe fosso permitido, respeitando os limites das
prerrogativas que a RDC delegou à CIRGL quando se tornou membro desta
organização. Contudo, podemos considerar que a presidência de Angola fez um esforço
significativo para o reforço das relações bilaterais entre os países da região,
essencialmente no que se refere à preservação da paz e da estabilidade regional.
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METODOLOGIA
A elaboração de um trabalho científico obedece a um conjunto de procedimentos
que têm como objectivos, encontrar soluções para os problemas levantados mediante o
emprego de métodos adequados. Para Bell (2007), a escolha das abordagens e os
métodos adoptados para a recolha de informações dependem da natureza do estudo e do
tipo de informação que se pretende obter. Assim, tendo em conta os objectivos que se
pretende alcançar, optou-se quanto a natureza do tipo de pesquisa, a pesquisa
qualitativa, centrada na compreensão dos fenómenos a observar de forma a perceber as
causas dos conflitos na República Democrática do Congo e encontrar explicações dos
mesmos. A pesquisa qualitativa é segundo Castilho, Borges e Pereira (2014),
caracterizada pela não utilização de instrumentos estatísticos na análise dos seus dados.
Porém, não obsta o uso de dados quantitativos incorporados em sua análise.
Quanto às técnicas escolhidas para a recolha dos dados, optamos pela pesquisa
documental e bibliográfica. A pesquisa documental confunde-se muito com a pesquisa
bibliográfica por ambos recorrerem a fontes documentais. Porém, enquanto a pesquisa
documental socorre-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico,
(mapas, fotos e outros.) a pesquisa bibliográfica é fruto das contribuições dos diversos
autores sobre determinados assuntos (Gil, 2002). Está tecnica de recolha de dados nos
foi importante por nos permitir acessar e verificar lacunas em trabalhos já existentes
relacionados ao tema.
No que diz respeito aos objectivos, a nossa pesquisa é exploratória. A pesquisa
exploratória segundo Zanella (2013: 33), “tem a finalidade de ampliar o conhecimento a
respeito de um determinado fenómeno”. Ou seja, a pesquisa exploratória visa o
aprofundamento de conhecimentos pré-concebidos com a finalidade de obter maior
familiaridade com o assunto ou tema com base em estudos já feitos.
Para entendermos a intervenção de Angola na região dos Grandes Lagos,
utilizamos ainda como técnica auxiliar, o método histórico, este que, segundo Lakatos e
Marconi (2003), consiste em investigar acontecimentos, processos e instituições do
passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje. Utilizamos ainda como
perspectiva de análise a interdisciplinaridade das Ciências Sociais pelo facto desta
temática abrangir áreas como: a Ciência Política, as Relações internacionais e a
Geopolítica.
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