0% acharam este documento útil (0 voto)
86 visualizações4 páginas

Vida Dura na Ilha da Fome Negra

O texto descreve a dura realidade dos trabalhadores na ilha da Conceição, onde eles enfrentam condições desumanas em troca de salários miseráveis enquanto extraem manganês e carvão. Os operários, em sua maioria portugueses e espanhóis, vivem em um ciclo de exploração, sem esperança de mudança, e são tratados como autômatos pelos feitores. A narrativa retrata a desumanização e o sofrimento desses homens, que trabalham longas horas em um ambiente opressivo, sonhando apenas em juntar dinheiro para escapar da pobreza.

Enviado por

Adriano Duarte
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOC, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
86 visualizações4 páginas

Vida Dura na Ilha da Fome Negra

O texto descreve a dura realidade dos trabalhadores na ilha da Conceição, onde eles enfrentam condições desumanas em troca de salários miseráveis enquanto extraem manganês e carvão. Os operários, em sua maioria portugueses e espanhóis, vivem em um ciclo de exploração, sem esperança de mudança, e são tratados como autômatos pelos feitores. A narrativa retrata a desumanização e o sofrimento desses homens, que trabalham longas horas em um ambiente opressivo, sonhando apenas em juntar dinheiro para escapar da pobreza.

Enviado por

Adriano Duarte
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOC, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

A FOME NEGRA

De madrugada, escuro ainda, ouviu-se o sinal de acordar. Raros ergueram-se.


Tinha havido serão até meia-noite. Então, o feitor, um homem magro, corcovado,
de tamancos e beiços finos, o feitor, que ganha duzentos mil réis e acha a vida um
paraíso, o senhor Correia, entrou pelo barracão onde a manada de homens dormia
com a roupa suja e ainda empapada do suor da noite passada.
- Eh! lá! Rapazes, acorda! Quem não quiser, roda. Eh lá! Fora!
Houve um rebuliço na furna sem ar. Uns sacudiam os outros amedrontados, com
os olhos só a brilhar na face cor de ferrugem; outros, prostrados, nada ouviam,
com a boca aberta, babando.
- Ó João, olha o café...
- Olha o café e olha o trabalho! Ai, raios me partam! Era capaz de dormir até
amanhã.
Mas, já na luz incerta daquele quadrilátero, eles levantavam-se, impelidos pela
necessidade como as feras de uma ménagerie ao chicote do domador. Não
lavaram o rosto, não descansaram. Ainda estremunhados, sorviam uma água
quente, da cor do pó que lhes impregnava a pele, partindo o pão com escaras da
mesma fuligem metálica, e poucos eram os que se sentavam, com as pernas em
compasso, tristes.
Estávamos na ilha da Conceição, no trecho hoje denominado – a Fome Negra. Há
ali um grande depósito de manganês e, do outro lado da pedreira que separa a
ilha, um depósito de carvão. Defronte, a algumas braçadas de remo, fica a Ponta
da Areia com a Cantareira, as obras do porto fechando um largo trecho coalhado
de barcos. Para além, no mar tranqüilo, outras ilhas surgem, onde o trabalho
escorcha e esmaga centenares de homens.
Logo depois do café, os pobres seres saem do barracão e vão para a parte norte da
ilha, onde a pedreira refulge. Há grandes pilhas de blocos de manganês e montes
de piquiri em pó, em lascas finas. No solo, coberto de uma poeira negra com
reflexos de bronze, há rails para conduzir os vagonetes do minério até ao lugar da
descarga. O manganês, que a Inglaterra cada vez mais compra ao Brasil, vem de
Minas até à Marítima em estrada de ferro; daí é conduzido em batelões e saveiros
até às ilhas Bárbaras e da Conceição, onde fica o depósito.
Quando chega o vapor, de novo removem o pedregulho para os saveiros e de lá
para o porão dos navios. Esse trabalho é contínuo, não tem descanso. Os
depósitos cheios, sem trabalho de carga para os navios, os trabalhadores atiram-se
à pedreira, à rocha viva. Trabalha-se dez horas por dia, com pequenos intervalos
para as refeições, e ganha-se cinco mil réis. Há, além disso, o desconto da
comida, do barracão onde dormem, mil e quinhentos; de modo que o ordenado da
totalidade é de oito mil réis. Os homens gananciosos aproveitam então o serviço
da noite, que é pago até de manhã por três mil e quinhentos e até meia-noite pela
metade disso, tendo, naturalmente, o desconto do pão, da carne e do café servido
durante o labor.
É uma espécie de gente essa que serve às descargas do carvão e do minério e
povoa as ilhas industriais da baía, seres embrutecidos, apanhados a dedo,
incapazes de ter idéias. São quase todos portugueses e espanhóis, que chegam da
aldeia, ingênuos. Alguns saltam da proa do navio para o saveiro do trabalho
tremendo, outros aparecem pela Marítima sem saber o que fazer e são
arrebanhados pelos agentes. Só têm um instinto: juntar dinheiro, a ambição voraz
que os arrebenta de encontro às pedras inutilmente. Uma vez apanhados pelo
mecanismo de aços, ferros e carne humana, uma vez utensílio apropriado ao
andamento da máquina, tornam-se autômatos com a teimosia de objetos movidos
a vapor. Não têm nervos, têm molas; não têm cérebros, têm músculos
hipertrofiados. O superintendente do serviço berra, de vez em quando:
- Isto é para quem quer! Tudo aqui é livre! As coisas estão muito ruins,
sujeitemo-nos. Quem não quiser é livre!
Eles vieram de uma vida de geórgicas paupérrimas. Têm a saudade das vinhas,
dos pratos suaves, o pavor de voltar pobres e, o que é mais, ignoram
absolutamente a cidade, o Rio; limitam o Brasil às ilhas do trabalho, quando
muito aos recantos primitivos de Niterói. Há homens que, dois anos depois de
desembarcar, nunca pisaram no Rio e outros que, passando quase uma existência
na ilha, voltaram para a terra com algum dinheiro e a certeza da morte.
Vivem quase nus. No máximo, uma calça em frangalhos e uma camisa de meia.
Os seus conhecimentos reduzem-se à marreta, à pá, ao dinheiro; o dinheiro que a
pá levanta para o bem-estar dos capitalistas poderosos; o dinheiro, que os recurva
em esforços desesperados, lavados de suor, para que os patrões tenham carros e
bem-estar. Dias inteiros de bote, estudando a engrenagem dessa vida esfalfante,
saltando nos paióis ardentes dos navios e nas ilhas inúmeras, esses pobres entes
fizeram-me pensar num pesadelo de Wells, a realidade da História dos Tempos
Futuros, o pobre a trabalhar para os sindicatos, máquina incapaz de poder viver
de outro modo, aproveitada e esgotada. Quando um deles é despedido, com a
lenta preparação das palavras sórdidas dos feitores, sente um tão grande vácuo,
vê-se de tal forma só, que vai rogar outra vez para que o admitam.
À proporção que eu os interrogava e o sol acendia labaredas por toda ilha, a
minha sentimentalidade ia fenecendo. Parte dos trabalhadores atirou-se à pedreira,
rebentando as pedras. As marretas caíam descompassadamente em retintins
metálicos nos blocos enormes. Os outros perdiam-se nas rumas de manganês,
agarrando os pedregulhos pesados com as mãos. As pás raspavam o chão, o
piquiri caía pesadamente nos vagonetes, outros puxavam-nos até a beira d’água,
onde as tinas de bronze os esvaziavam nos saveiros.
Durante horas, esse trabalho continuou com uma regularidade alucinante. Não se
distinguiam bem os seres das pedras do manganês: o raspar das pás replicava ao
bater das marretas, e ninguém conversava, ninguém falava! A certa hora do dia
veio a comida. Atiraram-se aos pratos de folha, onde, em água quente, boiavam
vagas batatas e vagos pedaços de carne, e um momento só se ouviu o sôfrego
sorver e o mastigar esfomeado.
Acerquei-me de um rapaz.

- O teu nome?

- O meu nome para quê? Não digo a ninguém.

Era a desconfiança incutida pelo gerente, que passeava ao lado, abrindo a chaga
do lábio num sorriso sórdido.

- Que tal achas a sopa?

- Bem boa. Cá uma pessoa come. O corpo está acostumado, tem três pães por dia
e três vezes por semana bacalhau.

Engasgou-se com um osso. Meteu a mão na goela e eu vi que essa negra mão
rebentava em sangue, rachava, porejando um líquido amarelado.

- Estás ferido?

- É o trabalho. As mãos racham. Eu estou só há três meses. Ainda não acostumei.

- Vais ficar rico?


Os seus olhos brilhavam de ódio, um ódio de escravo e de animal sovado.

- Até já nem chegam os baús para guardar o ouro. Depois, numa franqueza:
ganha-se uma miséria. O trabalho faz-se, o mestre diz que não há.... Mas, o
dinheiro mal chega, homem, vai-se todo no vinho que se manda buscar.

Era horrendo. Fui para outro e ofereci-lhe uma moeda de prata.

- Isso é para mim?

- É, mas se falares a verdade.

- Ai! Que falo, meu senhor...

Tinha um olhar verde, perturbado, um olhar de vício secreto.

- Há quanto tempo aqui?

- Vai para dois anos.

- E a cidade não conheces?

- Nunca lá fui, que a perdição anda pelos ares...

Este também se queixa da falta de dinheiro porque manda buscar sempre outro
almoço. Quanto ao trabalho, estão convencidos que neste país não há melhor.
Vieram para ganhar dinheiro, é preciso ou morrer ou fazer fortuna. Enquanto
falavam, olhavam de soslaio para o Correia e o Correia torcia o cigarro, à
espreita, arrastando os socos no pó carbonífero.

- Deixe que vá tratar do meu serviço, segredavam eles quando o feitor se


aproximava. Ai! Que não me adianta nada estar a contar-lhe a minha vida.

O trabalho recomeçou. O Correia, cozido ao sol, bamboleava a perna, feliz. Como


a vida é banal! Esse Correia é um tipo que existe desde que na sociedade
organizada há o intermediário entre o patrão e o servo. Existirá eternamente,
vivendo de migalhas de autoridade contra a vida e independência dos
companheiros de classe.

Às 2 horas da tarde, nessa ilha negra, onde se armazenam o carvão, o manganês e


a pedra, o sol queimava. Vinha do mar, como infestado de luz, um sopro de brasa;
ao longe, nas outras ilhas, o trabalho curvava centenas de corpos, a pele ardia, os
pobres homens encobreados, com os olhos injetados, esfalfavam-se, e mestre
Correia, dançarinando o seu passinho:

- Vamos gente! Eh! nada de perder tempo. V. Sª não imagina. Ninguém os prende
e a ilha está cheia. Vida boa!

Foram assim até a tarde, parando minutos para logo continuar. Quando escureceu
de todo, acenderam-se as candeias e a cena deu no macabro.

Do alto, o céu coruscava, incrustado de estrelas, um vento glacial passava, fogo-


fatuando a chama tênue das candeias e, na sombra, sombras vagas, de olhar
incendido, raspavam o ferro, arrancando da alma longos gemidos de esforço.
Como se estivesse junto do cabo e um batelão largasse, saltei nele com um
punhado de homens.

Íamos a um vapor que partia de madrugada. No mar, a treva mais intensa


envolvia o steamer, um transporte inglês com a carga especial do minério. O
comandante fora ao Casino; alguns boys pouco limpos pendiam da murada com
um cozinheiro chinês, de óculos. Uma luz mortiça iluminava o convés. Tudo
parecia dormir. O batelão, porém, atracava, fincavam-se as candeias; quatro
homens ficavam de um lado, quatro de outro, dirigidos por um preto que corria
pelas bordas do barco, de tamancos, dando gritos guturais. Os homens nus,
suando apesar do vento, começavam a encher enormes tinas de bronze que o
braço de ferro levantava num barulho de trovoada, despejava, deixava cair outra
vez.

Entre a subida e a descida da tina fatal, eu os ouvia:

- O minério! É o mais pesado de todos os trabalhos. Cada pedra pesa quilos.


Depois de se lidar algum tempo com isso, sentem-se os pés e as mãos frios; e o
sangue, quando a gente se corta, aparece amarelo... É a morte.

- De que nacionalidade são vocês?

- Portugueses... Na ilha há poucos espanhóis e homens de cor. Somos nós os


fortes.

O fraco, deviam dizer; o fraco dessa lenta agonia de rapazes, de velhos, de pais de
famílias numerosas.

Para os contentar, perguntei:

- Por que não pedem a diminuição das horas de trabalho?

As pás caíram bruscas. Alguns não compreendiam, outros tinham risinho de


descrença:

- Para que, se quase todos se sujeitam?

Mas, um homem de barbas ruivas, tisnado e velho, trepou pelo monte de pedras e
estendeu as mãos:

- Há de chegar o dia, o grande dia!

E rebentou como um doido, aos soluços, diante dos companheiros atônitos.

(RIO, João do. A alma encantadora das ruas)

Você também pode gostar