Cronituras
Escrito e ilustrado por
Maria Helena Weiss
Quando criança, eu escrevi um livro sobre uma fada,
não me lembro bem da história, mas tinha um final feliz.
Para os meus ursos de pelúcia,
que nunca faltaram aula na minha escola.
Circo
Medo do escuro
Pós-sol
Borboletas amarelas
Jabutis
Folhas de fichário
Crianças
Ônibus de papelão
Domingos
Engenharia de LEGO
Circo
A diferença de idade entre mim e meus
irmãos era de alguns anos, o que nos afastava
um pouco quando o assunto era brincar, mas
me lembro bem de um circo que a gente fazia,
com shows de mágica e peças com fantoches.
Meus irmãos chamavam os vizinhos à tarde e,
à noite, o espetáculo era reservado para meus
pais. Lembro bem do papel que fiz de
bailarina e, mais ainda, de um show de
fantoches que improvisamos com cortinas de
lençóis no varal. Tudo era tão divertido.
Fazíamos a área de palco; o espaço onde o
carro ficava dava lugar aos assentos da
plateia, cada um com seu papel. Fazíamos
números de mágica, encenávamos pequenas
peças e criávamos histórias. Éramos amigos e,
por isso, podíamos ser qualquer coisa. Daria
tudo para encenar de novo.
Medo do escuro
Desde pequena, eu era assombrada por
medos, inclusive o mais famoso: medo do
escuro, o qual ainda tenho um pouco.
Naquela época, minha irmã mais velha e eu
dividíamos uma beliche de ferro, num quarto
com uma televisão pequena de tubo preta
que, nas noites escuras, conseguia iluminar o
meio do quarto como um feixe de luz.
Quando você tem medo do escuro, qualquer
luz é uma salvação, como se todas as coisas
ruins só ficassem no breu à espreita,
esperando a luz acabar.
Em uma dessas noites, o filme da Tela
Quente era algo entre Chucky e A Boneca
Assassina. Talvez eu não lembre exatamente
porque evitei ao máximo olhar, mas minha
irmã, claro, sem medos, estava assistindo. O
medo tinha suas estratégias. Além da TV e da
beliche, a lâmpada do quarto era antiga e reta
e ficava num bocal, onde a luz da TV, ao
bater, reproduzia imagens que me
assustavam. Elas piscavam a cada cena no
filme, aumentando e diminuindo como numa
dança macabra. Aquilo, junto com os sons do
filme, não me deixou dormir.
Pós-sol
Ao crescer, ir de fato à praia, para mim,
nunca foi tão legal quanto ficar no ar
condicionado do quarto da casa de praia.
Mas, na minha infância, tive uma época
que foi regada de sol, mar e, claro, de uma
pele bronzeada quase cinza, que era
responsável por toda minha vitamina D.
Lembro-me bem de uma vez que ficamos
nas férias em uma casa com jardim, onde
eu podia brincar na grama verde com
meus brinquedos de praia e coletar flores
vermelhas (que, ao crescer, descobri que
se chamavam hibiscos). Todas as crianças,
depois da praia, eram levadas por suas
mães para o mesmo chuveirão, onde
dividiam seus xampus e seus fardos de
areia que vinham de suas roupas de
banho, seguidos de uma boa camada de
creme feito de aloe vera, o qual
chamavam de pós-sol. Era legal e gelado.
Borboletas amarelas
Na casa dos meus padrinhos, assim como
no sítio dos meus avós, os jardins eram
cercados por borboletas amarelas que
pareciam planar e repousar nas flores. Eu,
como sempre fui curiosa por insetos e
plantas, costumava esperar que cada uma
juntasse suas asas, capturando-as assim
com as pontas dos dedos em formato de
pinça. Eu as olhava bem de pertinho e
depois as soltava. Aquela linguinha
enrolada era magicamente desenhada em
caracol. Acho que foi ali que me apaixonei
por miudezas como as borboletas. Um
tempo depois, ainda criança, criei
algumas lagartas até completarem seus
ciclos. Mais um tempo depois, criei outras
e outras até que um dia, assim como elas
saem do casulo, me peguei já adulta, mas
com a mesma paixão.
Jabutis
Não me lembro muito bem onde isso começou.
Eu devia estar na primeira série e ter meus
curiosos seis ou sete anos. A vida era boa e eu
não tinha ideia do mundo.
Era comum naquela época as pessoas terem
jabutis em casa. Geralmente, alguém tinha um
casal que botava ovos, dos quais nasciam
filhotes, e embora meu primeiro jabuti fosse
pequeno, um filhote herdado de alguém, eu
nunca soube ao certo a sua idade.
Contar as formas geométricas do seu casco era
uma atividade bem divertida; afinal, ele cabia na
minha mão, como uma bolinha de tênis. Ali,
aprendi que o amor não precisava de palavras,
sons ou muita rapidez.
O pequeno dividia espaço na casa com Sansão,
um pinscher laranja muito curioso. Essa era
uma péssima ideia, mas ninguém percebeu até
Sansão morder o casco do jabuti.
O coitado passou alguns dias dentro de sua
casinha, sem dar muitos sinais de vida. Todos os
dias eu olhava, acariciava suas patinhas e nada.
Um belo dia, ele voltou e parecia ter se
recuperado sozinho do trauma.
Meu pai viu o quanto eu gostava daquela
casinha com patas e me trouxe mais duas,
menores ainda.
Agora, todos os três filhotes precisavam de
uma casa, e preparamos uma espécie de
terrário embaixo de alguns tijolos. Aquele
era um ambiente confortável, mas ficava
num lugar onde a gente, mais uma vez, não
fazia ideia dos perigos noturnos.
Entre um final de semana e outro na casa
dos meus padrinhos, recebi uma ligação da
minha mãe - a notícia que ainda me
assombra: os filhotes tinham sido devorados
por um rato, restaram só as carcaças. Eu
chorava por eles todos os dias, em casa e na
escola, e meu pai, coitado, para me deixar
menos triste, ao longo dos anos, me
presenteava com tartarugas de pelúcia até o
dia que eu pudesse cuidar de outro jabuti.
E assim, tivemos outros, que já chegaram
adultos, todos com a mesma forma de amor.
Mas aqueles filhotes... difícil de esquecer.
Folhas de fichário
Começo de ano era minha época favorita
quando criança, dando o segundo lugar às
férias de julho. Comprar material escolar
era, para mim, a aventura mais
deslumbrante de todas. Eu e minha mãe
chegávamos com a lista no balcão e,
quando o dinheiro permitia, eu podia
escolher a dedo todos os lápis comuns
que achasse válidos para uma vida
escolar descolada. A escolha dos cadernos
era um pedaço quase inteiro da ida à
papelaria e eu me perguntava: “qual será
o meu humor deste ano? Será que serei
mais moderna ou ficarei com o caderno
do Looney Tunes mais uma vez? As
borrachas serão coloridas ou brancas
como sempre? E a grafite (também
conhecida como lapiseira), seria rosa ou
minimalista?"
Eu amava desbravar as prateleiras
daquele lugar, criado por cadernos e
canetas hidrográficas coloridas. Ainda
guardo folhas de fichário e, claro, aquele
mesmo sentimento.
Crianças
Desde muito pequena, passei meus
primeiros anos em uma escola da cidade,
onde fiz amigos que aprenderam o alfabeto
e os números ao meu lado, desde as
menores até as maiores equações. Alguns
desses amigos estavam mais próximos de
mim, outros mais distantes, como a vida
deve ser. Todos os meus três irmãos
estudavam na mesma escola que eu, mas,
como toda criança em seu desenvolvimento
natural, eles cresceram. Aquela pequena
escola não oferecia classes a partir do
quinto ano (a antiga quarta série), então eles
tiveram que mudar de escola.
Isso foi uma experiência diferente para
todos nós, especialmente para mim, a
caçula, que os acompanhou na mudança.
Lembro da sensação de entrar por aqueles
portões em forma de lápis de cor: era tudo
novo, de novo. Passei dois anos nessa nova
escola e fiz amigos, mas não tantos quanto
na escola anterior. Meus pais perceberam a
diferença e me colocaram de volta na escola
antiga, onde comecei meu quarto ano
(antiga terceira série).
Em um intervalo de dois anos, muita coisa
pode acontecer. As amizades estavam
diferentes, o nome da escola havia mudado
e o uniforme também. Meu primeiro dia de
volta à escola antiga foi marcado por um
detalhe: minha calça verde, que por alguns
dias substituiu a do uniforme novo e, claro,
virou uma piada, pois destoava muito do
tom azulado do uniforme. Isso me faz
lembrar até hoje que, por menor que seja
esse detalhe, apesar de tudo estar um pouco
diferente, as crianças ainda eram crianças, e
elas podem ser cruéis às vezes.
Ônibus de papelão
Minhas tardes eram feitas de brincadeiras, e a
maioria das amizades que me faziam
companhia eram pelúcias, geralmente quando
meus vizinhos não podiam brincar. Caixas de
papelão eram o material perfeito para um
ônibus escolar. Minha casa tinha quatro
quartos e duas salas, cada cômodo era a casa de
algum urso, alunos aplicados da minha escola.
Nela, eu era motorista, professora, diretora e
mãe. Eu enviava e recebia os recados na
agenda. Aquela não era uma turma bagunceira,
afinal, eles não falavam muito. E nunca
faltaram uma aula sequer. Eu me dedicava a
preparar as aulas, inventando histórias e
exercícios para os ursos de pelúcia. As lições de
matemática eram minhas favoritas, usando
agendas velhas como material didático.
Ao final de cada dia, colocava meus alunos em
fila, os acomodava no ônibus de papelão e os
levava de volta para seus "lares". Cada urso
tinha uma personalidade única, definida por
mim: havia do mais estudioso ao mais tímido.
Às vezes, me pego pensando em qual faculdade
cada um se formou.
Domingos
Aos domingos, eu, meus irmãos e meus pais
íamos visitar meus avós no sítio. Antes, sempre
fazíamos uma parada estratégica em uma
padaria no caminho. Meu pai, sem falta,
comprava salgadinhos da Elma Chips. Naquela
época, os salgadinhos vinham com brindes, e
um dos mais especiais para mim era uma
bolinha transparente que tinha a imagem do
Homem-Aranha dentro. Cada pacote trazia
uma dessas bolinhas, e era uma grande sorte
quando vinham duas, mesmo que fossem
repetidas. Juntamente com os salgadinhos,
meu pai comprava Nescau de um litro. Assim
que chegávamos no sítio, minha avó fazia ovo
mexido e a gente comia com pão enquanto
assistia “Pequenas Empresas, Grandes
Negócios”. Depois de comer, eu ia passear pelo
jardim em volta da piscina. O cajueiro, a
mangueira bem no meio, na frente da casa
onde, de vez em quando, minha avó sentava
para comer manga com sal. As árvores de
amora, ciriguela… Aquele lugar era incrível,
especialmente aos domingos.
Engenharia de LEGO
Um dia, por algum motivo, a filha de um amigo
do meu pai decidiu me presentear com uma
bolsa gigante de pecinhas de LEGO. A partir
daquele momento, minha vida mudou um
pouco e um traço importante da minha
personalidade começou a se formar. Eu não
conhecia pecinhas daquele tamanho; eram
todas muito bem feitas, de várias cores, e
parecia que eu podia construir qualquer coisa
com elas. Eu as levava para qualquer lugar e
construía castelos, pirâmides, sentindo-me
criativa. Mesmo sem saber muito sobre o que
significava, eu me sentia uma engenheira,
minha única referência para pessoas que
constroem coisas.
Esse foi um período tão feliz dos meus dias de
infância, e até hoje tenho flashes de memória
ao ver qualquer pecinha por aí. Mantive
aquelas peças originais até um certo dia, mas
tento me lembrar até hoje onde as perdi. Elas
deram lugar a réplicas de mesmo tamanho,
mesmas cores e com o mesmo significado e
sensação. Eu as mantenho aqui. Algumas
construções se tornaram presentes e objetos
de decoração. Ainda assim, continuo
construindo castelos e memórias.
Cronituras é um conjunto de dez
crônicas que retratam as memórias de
infância da autora, revivendo
momentos preciosos, engraçados e
até mesmo dolorosos. Desde a paixão
por LEGO e o encanto com pequenos
animais de estimação, até as
aventuras escolares e os medos
noturnos, cada crônica é uma viagem
no tempo, trazendo à tona as emoções
e descobertas de uma criança curiosa
e sonhadora. Com um toque de
nostalgia e reflexão, o livro celebra a
simplicidade da infância e as lições
que permanecem ao longo da vida.