CONTEXTO HISTÓRICO
Com o Tratado de Roma, ficou estabelecida, como um dos objetivos principais, a criação de um mercado
comum que envolvia a eliminação de barreiras comerciais e a promoção da livre circulação de mercadorias,
pessoas, serviços e capitais. No entanto, os Estados-membros ainda mantinham leis nacionais que poderiam ser
vistas como restrições ao comércio intra-comunitário.
A Itália, por exemplo, adotou uma série de medidas de proteção económica que, embora tenham sido
explicadas sob a premissa de proteção da saúde pública e da economia local, acabaram por criar obstáculos à
importação de produtos de outros Estados-membros.
O CASO
A Simmenthal, uma empresa italiana, importou carne bovina da França, mas ao tentar comercializá-la
na Itália, a empresa foi confrontada com a legislação italiana que impunha o pagamento de uma taxa sanitária
pela inspeção feita à carne e outros controlos adicionais. A Simmenthal sustentou que a legislação italiana
violava o princípio da livre circulação de mercadorias, consagrado nos Tratados da Comunidade Europeia ao
referir que a cobrança das taxas era incompatível com o direito comunitário, exigindo a restituição do que tinha
sido, de acordo com a Simmenthal, indevidamente cobrado e que se deixasse de aplicar a lei interna. A empresa
argumentou que a imposição de taxas adicionais não era justificada e que representava uma barreira ao
comércio, contrária aos objetivos do mercado comum. A Administração das Finanças recusou-se a restituir esses
montantes.
Ou seja, tratava-se de saber qual das leis tinha primazia sobre a outra: a lei comunitária, ou a lei nacional
posterior? A aplicabilidade de uma disposição de direito comunitário implica que os Estados-membros possam
usufruir dos seus efeitos na plenitude e de forma igual, desde o momento em que entra em vigor, até à cessação
de vigência da mesma. Isto significa que tanto os Estados-membros como o juiz devem garantir que os direitos
conferidos pelo direito comunitário não são infringidos.
Importa também reforçar que, devido ao primado do direito comunitário, as disposições do Tratado
devem, a partir do momento em que entram em vigor, tornar inaplicáveis quaisquer normas que o contrariem,
mas também impedir que se formem leis nacionais que lhe sejam posteriores e incompatíveis com o mesmo.
O tribunal italiano que recebeu o caso enfrentou a tarefa de decidir se deveria aplicar a legislação
nacional, que impunha as taxas, ou as normas comunitárias que favoreciam a livre circulação. Diante da
incerteza sobre a primazia do direito comunitário, o tribunal decidiu remeter a questão ao Tribunal de Justiça
da UE , questionando a compatibilidade das normas italianas com o direito europeu.
Sendo assim, qualquer juiz nacional tem o dever de aplicar o direito comunitário e considerar a não
aplicação de todas as disposições de direito interno que não estejam em conformidade com a norma
comunitária, sejam elas anteriores ou posteriores a essa norma, sem ter de esperar para agir sobre a eliminação
de tais disposições.
Também é posto em questão se a eliminação dessas disposições deve ser retroativa, de modo a evitar
quaisquer prejuízos causados.
No Tribunal de Justiça da UE, a Itália argumentou que:
• 1º O governo italiano defendeu a legislação como uma medida necessária para garantir a saúde pública
e a segurança alimentar, afirmando que tinha o direito de proteger seus cidadãos.
• 2º A Itália argumentou que a manutenção destas normas era uma questão de soberania nacional,
permitindo-lhe regular as condições de importação de produtos.
PROBLEMAS
1 – A incompatibilidade de uma norma interna com o direito comunitário implica uma violação do artigo 11° da
constituição italiana. Isto significa que é facilitada a aplicação do direito comunitário, sendo que a
inconstitucionalidade será aplicada com força obrigatória geral. Ainda assim, o representante do governo
italiano salientou que essas disposições já tinham sido declaradas inconstitucionais.
2 – Os deveres do juiz são questionados no sentido de que a incompatibilidade com o direito comunitário apenas
se refere a medidas que impeçam o juiz de fazer tudo o que é necessário para a aplicação do direito comunitário.
3 – Um terceiro problema questiona os efeitos do princípio do primado, pois considera-se que as leis internas
anteriores à norma comunitária seriam consideradas inaplicáveis de pleno direito e as leis posteriores implicam
que o primado proíba a “formação de novos atos legislativos nacionais”. Contudo, o Tribunal concluiu que se
devem tornar inaplicáveis as normas contrárias ao direito comunitário.
O Tribunal de Justiça proferiu várias considerações:
1º O Tribunal reafirmou que o direito comunitário possui primazia sobre o direito nacional. Essa
afirmação é fundamental para o funcionamento do sistema jurídico da União Europeia, pois garante que as
normas europeias sejam aplicadas de maneira uniforme em todos os Estados-membros. Ou seja, o princípio do
primado é o princípio fundamental da ordem jurídica da União Europeia, que surgiu da necessidade de
esclarecer, no âmbito da relação entre Direito da União Europeia e os Direitos nacionais dos Estados-membros,
qual o ato que prevalecerá perante um conflito entre um ato europeu e um ato interno de um Estado membro.
O princípio do primado esclarece que nestes conflitos prevalecerá o ato jurídico de Direito da União.
2º O Tribunal enfatizou que os direitos conferidos pelo direito comunitário devem ser aplicados
diretamente pelos tribunais nacionais, sem necessidade de legislação nacional que os implemente. Isso
fortalece a ideia de que os cidadãos e empresas podem invocar diretamente os seus direitos garantidos pelo
DUE.
3º O Tribunal de Justiça da UE declarou que os tribunais nacionais têm a obrigação de não aplicar normas
nacionais que sejam incompatíveis com o direito da União Europeia. Isso implica que, se um tribunal nacional
encontrar uma norma que contrarie o direito europeu, ele deve desconsiderá-la, mesmo que essa norma esteja
em vigor.
4º O Tribunal clarificou que não era necessário aguardar uma decisão de um órgão superior sobre a
compatibilidade da norma nacional antes de deixar de a determinar inaplicável.
Após a decisão tomada neste caso, foi fortalecida a primazia do Direito da EU, sendo que se aplicava a
normas nacionais anteriores E posteriores à norma comunitária; o TJCE clarificou que os tribunais nacionais não
tinham de esperar por uma decisão dos órgãos superiores para eliminar/ignorar uma norma nacional em
inconformidade com as normas comunitárias; e, por último, foi reforçado o princípio de que o Direito da EU
deve ser plenamente eficaz nos seus Estados-membros, sendo que qualquer obstáculo ao seu funcionamento
ou aproveitamento deve ser afastado.