Métodos de Evapotranspiração em Garanhuns
Métodos de Evapotranspiração em Garanhuns
Revista Brasileira de
Engenharia Agrícola e Ambiental
v.16, n.4, p.380–390, 2012
Campina Grande, PB, UAEA/UFCG – http://www.agriambi.com.br
Protocolo 189.10 – 27/10/2010 • Aprovado em 30/01/2012
R ESU M O
Para o manejo da irrigação com alta frequência e com base em dados climáticos, é desejável que a
estimava da evapotranspiração de referência seja feita para pequenos intervalos de tempo. Objetivou-se,
neste trabalho, avaliar o desempenho dos métodos FAO-24 Radiação, Priestley-Taylor, Hargreaves-
Samani, Camargo-71 e Blaney-Criddle, para estimativa da evapotranspiração de referência em base
diária na microrregião de Garanhuns, PE, por meio de comparações com o método padrão FAO Penman-
Monteith. Com suporte no erro absoluto médio (EAM), verificou-se, dentre outros indicadores, que o
melhor desempenho foi obtido com o método de Priestley-Taylor. Em relação aos métodos aplicáveis
quando apenas dados de temperatura foram disponíveis, o de Hargreaves-Samani foi o que apresentou
melhor desempenho, tendo sido calibrado com base na minimização do EAM.
A B ST R A C T
For high frequency irrigation management, based on climate data, it is desirable to estimate reference
evapotranspiration at small time steps. This work aimed at to evaluate the performance of daily reference
evapotranspiration estimated by the following methods: FAO-24 Radiation, Priestley-Taylor, Hargreaves-
Samani, Camargo-71 and Blaney-Criddle, for Garanhuns-PE micro-region, having FAO Penman-Monteith
method as standard. Considering the mean absolute error (MAE), among other statistics, it was verified
that the best performance was obtained by the Priestley-Taylor method. Regarding the methods applicable
when only temperature data are available, the Hargreaves-Samani showed the best performance, having
been calibrated based on the minimization of the MAE.
1
Apoio financeiro: CNPq (Processo no 485283-2007-7)
2
CSL/UFSJ, CP 56, CEP 35701-970, Sete Lagoas, MG. Fone: (31) 3697-2032; 3697-2022. E-mail: [email protected]
3
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4
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5
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6
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dado de Tmax ou Tmin estava faltoso, considerava-se a média gerais de umidade relativa e velocidade do vento do local.
dos dias imediatamente anterior e posterior, já que esses dados Apesar disto, expressões para calcular esses coeficientes estão
são mínimos necessários ao estudo. Foram descartados os disponíveis na literatura (Jensen et al., 1990) e foram
anos em que se constataram falhas de dados de temperatura implementadas no programa REF-ET.
máxima e mínima em períodos superiores a dez dias A equação empregada no método de Priestley-Taylor
subsequentes. Reduziu-se, então, a série contínua de 23 anos desenvolvido na Austrália, tem a seguinte forma (Jensen et al.,
(1986 a 2008) a uma série descontínua de quinze anos, 1990; Allen, 2000):
descartando-se os anos de 1987, 1988, 1990, 1991, 1992, 1994,
1998 e 2008.
Δ
ETo 1,26 R n G (3)
Métodos para estimativa da evapotranspiração de referência Δγ
Os métodos FAO Penman-Monteith, FAO-24 Radiação e
Priestley-Taylor, foram aplicados empregando-se o programa O método de Blaney-Criddle foi implementado em planilha
REF-ET (Allen et al., 2000), com procedimentos descritos eletrônica, conforme descrito na publicação FAO-24
também em Allen et al. (1998), enquanto os métodos Blaney- (Doorenbos & Pruitt, 1975). Mesmo assim, algumas diferenças
Criddle, Camargo-71 e Hargreaves-Samani foram implementados relativas à obtenção dos coeficientes foram empregadas
na planilha eletrônica Excel (Microsoft® Corporation). utilizando-se procedimentos equivalentes aos do programa
O método FAO Penman-Monteith é sintetizado na seguinte REF-ET (Allen, 2000). A aplicação do método de Blaney-Criddle
equação (Allen et al., 1998): foi feita considerando-se apenas os dados de temperatura
máxima, mínima e média, visando-se simular uma situação de
900 escassez de dados. A ETo é determinada por meio da equação
0,408 ΔR n G γ U 2 e s e a (Jensen et al., 1990):
Tmed 273
ETo (1)
Δ γ 1 0,34 U 2
ETo a BC b BC f (4)
em que: em que:
ETo- evapotranspiração de referência, mm d-1 aBC - coeficiente linear da relação entre ETo e f, mm d-1
- declividade da curva de pressão de vapor na saturação bBC - coeficiente angular da relação entre ETo e f
versus temperatura do ar, kPa oC-1 f - fator de uso consuntivo (o produto bBC f tem unidade
Rn - saldo de radiação na superfície do cultivo, MJ m-2 d-1 mm d-1)
G - densidade de fluxo de calor no solo, MJ m-2 d-1
- constante psicrométrica, kPa oC-1 O fator de uso consuntivo é obtido através da equação:
U2 - velocidade do vento a 2 m de altura, m s-1
es - pressão de vapor na saturação, kPa
e a - pressão de vapor atual, kPa f p0,46Tmed 8,13 (5)
Tmed - temperatura média do ar tomada a 2 m de altura, oC
em que: p é a porcentagem de horas diurnas anuais durante o
O método FAO-24 Radiação é descrito por Doorenbos & período considerado. Os coeficientes aBC e bBC foram calculados
Pruitt (1975), demandando observações de insolação, empregando-se as equações (Jensen et al., 1990; Allen, 2000):
nebulosidade ou radiação, além da temperatura do ar. Pode ser
empregado na ausência de dados de umidade relativa e a BC 0,0043 UR min n N 1,41 (6)
velocidade do vento requerendo, contudo, o conhecimento de
níveis gerais desses elementos para o local. A relação sugerida
pelos autores é: b BC 0,908 0,00483UR min 0,7949n N 0,0768ln U d 12
0,0038UR min n N 0,000443UR min U d
(7)
ETo a bW R s (2) 0,281ln U d 1lnn N 1
0,00975ln U d 1ln UR min 12 lnn N 1
em que:
a - coeficiente linear da reta, mm d-1
b - coeficiente angular da reta, adimensional em que:
W - índice de ponderação dependente da temperatura e URmin - umidade relativa mínima diária, %
altitude, adimensional n - duração da insolação diária, h
Rs - radiação solar de ondas curtas recebida pela superfície N - duração máxima possível da insolação diária, h
terrestre em um plano horizontal, expressa em equivalente de Ud - velocidade diurna do vento a 2 m de altura, m s-1
evaporação, mm d-1
A URmin foi obtida conforme descreve Allen (2000). Para
Valores dos coeficientes a e b são apresentados em figuras, obtenção da duração da insolação diária, n, empregou-se a
por Doorenbos & Pruitt (1975), levando-se em conta condições fórmula de radiação de Hargreaves (Allen et al., 1998):
podendo-se, por meio deste índice, classificar o desempenho rométrica, e um semestre mais chuvoso, de abril a setembro. O
do método, conforme critérios sugeridos por Camargo & semestre mais seco foi designado como semestre de primavera-
Sentelhas (1997). Além dos indicadores acima descritos, tanto verão enquanto o semestre mais chuvoso, como semestre de
para o método padrão quanto para cada um dos métodos outono-inverno.
avaliados, foram calculados as médias, desvios padrão (Sd), Tendo-se identificado o método de estimativa da ETo com
coeficiente de variação (CV), máximos e mínimos. Gráficos base apenas em temperatura (Hargreaves-Samani, Camargo-71
relativos à regressão visando auxiliar a análise visual, também e Blaney-Criddle) de melhor desempenho, procedeu-se à sua
subsidiaram as comparações. calibração local, com base na minimização do EAM,
O conjunto de estatísticas foi definido procurando-se gerar empregando-se a ferramenta Solver do Excel.
base de comparação com outros trabalhos, abordando o assunto.
Ressalta-se, porém, a recomendação de Willmott & Matsuura
(2005), relativa ao uso de EAM em comparações baseadas no RESULTADOS E DISCUSSÃO
erro médio, sendo este indicador a medida do erro médio mais
natural, não apresentando ambiguidades inerentes à REQM. As médias mensais dos dados climáticos para os anos
Utilizaram-se REQMs e REQMns com o objetivo de identificar considerados no estudo são apresentadas na Tabela 1. Observa-
porções sistemáticas e não sistemáticas em REQM. Observa-se se que as temperaturas máximas, mínimas e médias são maiores
que as relações EQMs/EQM e EQMns/EQM definem porções nos meses de outubro a março, o mesmo ocorrendo para a
sistemáticas e não sistemáticas, respectivamente, presumida- insolação diária; os meses mais frios correspondem ao trimestre
mente inerentes aos modelos avaliados em que o sistema é junho, julho e agosto, quando se observam, também, os maiores
conservativo, dado que o EQMs, somado ao EQMns, equivale índices pluviométricos e os mais elevados valores de umidade
ao EQM. Empregam-se as raízes quadradas de EQMs e EQMns relativa. Esses dados demonstram claramente a existência de
com o objetivo de interpretar tais diferenças na unidade de Pi e duas “estações” distintas na microrregião de Garanhuns: uma
Oi (mm), apresentando-as em conjunto com EAM e REQM, que se inicia no mês de outubro e se encerra no mês de março, a
conforme sugerido por Willmott (1982). qual apresenta maiores temperaturas e menores precipitações, e
Procederam-se às comparações agrupando-se os dados outra que se inicia em abril e vai até setembro, quando se observa
diários em dois semestres que apresentam características comportamento inverso ao da primeira.
climáticas distintas: um semestre mais seco, abrangendo o Na Figura 1 apresenta-se a variação das médias de
período de outubro a março, com maior demanda evapotranspi- evapotranspiração de referência diária, ETo, ao longo dos meses.
5
Eto (mm d -1)
0
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
Observa-se, nesta figura, um ajuste melhor dos métodos de subestimativas pelo método Blaney-Criddle em praticamente
Priestley-Taylor e Hargreaves-Samani ao método padrão, todo o ano, com maiores erros ocorrendo na estação seca,
sobrestimativa do método FAO-24 Radiação e subestimativas similarmente ao que se observa na Figura 1. O método de
obtidas com os métodos Camargo-71 e Blaney-Criddle, sendo Camargo-71 acarretou, naquele estudo, baixos erros nos meses
as sobrestimativas e subestimativas mais pronunciadas nos mais chuvosos e maiores nos meses mais secos, também similar
meses de maior demanda evapotranspirométrica, que na região ao que se observa na Figura 1.
em estudo coincidem com o período mais seco do ano, ou seja, Os resultados das comparações em base diária são
semestre primavera-verão. apresentados nas Tabelas 2 e 3 e nas Figuras 2 e 3 para os
Utilizando dados de postos meteorológicos situados na semestr es pr ima ver a-ver ão e out on o-i nvern o,
bacia do Rio Jacupiranga, SP, Borges & Mediondo (2007) respectivamente. Com base no erro absoluto médio, EAM, os
verificaram, ao investigar a acurácia dos métodos de estimativa métodos foram ranqueados na seguinte ordem: Priestley-
da ETo, dentre eles Blaney-Criddle, Hargreaves-Samani e Taylor, Hargreaves-Samani, FAO-24 Radiação, Blaney-Criddle
Camargo-71, em comparação com o método padrão FAO e Camargo-71. O ranque é idêntico nos dois semestres, embora
Penman-Monteith, que o método Hargreaves-Samani seja este alterado, conforme a estatística considerada. O
apresentou o menor erro padrão de estimativa (%) e, também, método FAO-24 Radiação proporcionou os coeficientes mais
Tabela 2. Comparação dos métodos avaliados com o método padrão FAO Penman-Monteith para o semestre primavera-
verão
FAO FAO-24 Priestley Blaney Camargo Hargreaves Hargreaves
P-M Radiação Taylor Criddle 71 Samani Samani calib.
Média (mm) 4,7 5,40 4,90 3,80 3,60 4,70 4,80
Sd (mm) 0,96 1,37 0,94 0,63 0,24 0,58 0,84
CV 20% 26% 19% 17% 7% 13% 17%
Máximo (mm) 7,4 8,10 6,60 6,00 4,90 6,50 7,70
Mínimo (mm) 1,7 1,70 2,30 1,30 2,80 1,60 1,00
r 0,96 0,92 0,83 0,49 0,84 0,84
EAM (mm) 0,72 0,34 0,98 1,30 0,48 0,40
EQM (mm2) 0,67 0,17 1,19 2,15 0,33 0,27
REQM (mm) 0,82 0,42 1,09 1,47 0,57 0,52
EQMs (mm2) 0,51 0,04 1,07 2,11 0,23 0,07
EQMns (mm2) 0,15 0,14 0,12 0,04 0,10 0,20
REQMs (mm) 0,72 0,19 1,04 1,45 0,48 0,26
REQMns (mm) 0,39 0,37 0,35 0,21 0,32 0,45
EQMs/EQM 77% 21% 90% 98% 69% 25%
EQMns/EQM 23% 79% 10% 2% 31% 75%
d 0,88 0,95 0,69 0,49 0,86 0,91
C 0,85 0,87 0,57 0,24 0,72 0,77
* Nd = 2733 pares de dados; Sd - desvio padrão; CV - coeficiente de variação; R - coeficiente de correlação; EAM - erro absoluto médio; EQM - erro quadrado médio; REQM - raiz quadrada do erro quadrado
médio; EQMs - erro quadrado médio sistemático; EQMns - erro quadrado médio não sistemático; REQM - raiz quadrada do erro quadrado médio sistemático; REQMns - raiz quadrada do erro quadrado
médio não sistemático; EQMs/EQM - proporção sistemática de EQM; EQMns/EQM - proporção não sistemática de EQM; d - índice de concordância; C - índice de confiança
Tabela 3. Comparação dos métodos avaliados com o método padrão FAO Penman-Monteith, para o semestre outono-
inverno
FAO FAO-24 Priestley Blaney Camargo Hargreaves Hargreaves
P-M Radiação Taylor Criddle 71 Samani Samani calib.
Média (mm) 3,10 3,40 3,30 2,50 2,70 3,10 3,00
Sd (mm) 0,91 1,35 0,97 0,60 0,32 0,67 0,86
CV 30% 40% 29% 24% 12% 22% 28%
Máximo (mm) 6,40 7,00 5,60 4,80 3,90 5,40 6,30
Mínimo (mm) 1,30 1,10 1,80 1,00 2,00 0,80 0,40
r 0,98 0,97 0,90 0,70 0,90 0,90
EAM (mm) 0,50 0,31 0,61 0,68 0,36 0,31
EQM (mm2) 0,37 0,13 0,55 0,69 0,18 0,16
REQM (mm) 0,61 0,36 0,74 0,83 0,43 0,40
EQMs (mm2) 0,28 0,07 0,48 0,64 0,10 0,02
EQMns (mm2) 0,09 0,06 0,07 0,05 0,09 0,14
REQMs (mm) 0,53 0,26 0,69 0,80 0,31 0,15
REQMns (mm) 0,30 0,25 0,27 0,23 0,30 0,37
EQMs/EQM 76% 53% 87% 92% 52% 15%
EQMns/EQM 24% 47% 13% 8% 48% 85%
d 0,93 0,96 0,87 0,77 0,94 0,95
C 0,91 0,93 0,78 0,54 0,84 0,86
* Nd = 2745 dados; Sd - desvio padrão; CV - coeficiente de variação; R - coeficiente de correlação; EAM - erro absoluto médio; EQM - erro quadrado médio; REQM - raiz quadrada do erro quadrado médio;
EQMs - erro quadrado médio sistemático; EQMns - erro quadrado médio não sistemático; REQM - raiz quadrada do erro quadrado médio sistemático; REQMns - raiz quadrada do erro quadrado médio
não sistemático; EQMs/EQM - proporção sistemática de EQM; EQMns/EQM - proporção não sistemática de EQM; d - índice de concordância; C - índice de confiança
9 9
A. B.
8 8
ETo, FAO 24 - Radiação (mm d -1)
)
7 7
-1
ETo, Priestley-Taylor (mm d
6 6
5 5
4 4
3 3
2 2
7 7
5 5
4 4
3 3
2 2
8 8
ETo, Hargreaves-Samani (mm d -1)
7 7
6 6
5 5
4 4
3 3
2 2
ETo, FAO Penman-M onteith (mm d -1) ETo, FAO Penman-M onteith (mm d -1)
Figura 2. Evapotranspiração de referência diária, ETo, para o semestre primavera-verão: método FAO Penman-Monteith
versus métodos avaliados, comparados por regressão linear (linha tracejada indica reta 1:1)
elevados de correlação e foi o segundo no ranque, com base nos valores dos índices de confiança, C, iguais a 0,85 e 0,91,
no índice de confiança, C. respectivamente, para os semestres primavera-verão e outono-
O método FAO-24 Radiação propiciou elevados valores do inverno, classificando-se como de desempenho “ótimo”, conforme
coeficiente de correlação e índice de concordância, o que refletiu critério de Camargo & Sentelhas (1997). Valores de EAM iguais a
9 A. 9
B.
8 8
ETo, FAO 24 - Radiação (mm d -1)
)
7 7
-1
ETo, Priestley-Taylor (mm d
6 6
5 5
4 4
3 3
2 2
7 7
ETo, Camargo 71 (mm d -1)
6 6
5 5
4 4
3 3
2 2
8 8
ETo, Hargreaves-Samani (mm d -1)
7 7
6 6
5 5
4 4
3 3
2 2
0,72 e 0,50 e de REQM iguais a 0,82 e 0,61 mm d-1 foram obtidos este parâmetro tende à REQM com o aumento do número de
para os dois semestres (Tabelas 2 e 3). Jensen et al. (1990) dados, o que o torna, portanto, passível de comparação.
apresentam valores de erro padrão de estimativa médios iguais a Nas Figuras 2A e 3A observa-se o ótimo ajuste do método
0,64 para locais áridos e 0,81 mm d-1 para locais úmidos, sendo que FAO-24 Radiação em comparação com o método FAO Penman-
Monteith, com coeficientes de determinação, R2, iguais a 0,9180 apresentado, no qual se obteve C igual a 0,24 e 0,54, para os
e 0,9516, para os semestres primavera-verão e outono-inverno, semestres primavera-verão e outono-inverno, respectivamente.
respectivamente. Mendonça & Dantas (2010) empregaram um Para este método se observa, nas Tabelas 2 e 3, a baixa amplitude
método de Radiação similar ao aqui apresentado para estimativa entre valores máximos e mínimos em relação ao método FAO
da ETo em base diária no município de Capim, PB, e obtiveram Penman-Monteith; nelas também se verifica que a porção
valores de R2 variando de 0,88 a 0,96. Oliveira et al. (2008) sistemática do erro quadrado médio (EQMs/EQM) foi de 98 e
utilizaram o método da radiação solar em bacia experimental do 92%, respectivamente, para os semestres primavera-verão e
riacho gameleira (Vitória de Santo Antão, PE) e encontraram outono-inverno, indicando um elevado potencial de melhoria
que a ETo diária obtida por este método foi a que mais se com a calibração do coeficiente K (Eq. 10), o que se percebe
ajustou aos valores obtidos num lisímetro de pesagem nas Figuras 2D e 3D. Syperreck et al. (2008) encontraram valores
hidráulica. de r, d e C iguais a 0,86, 0,84 e 0,72, utilizando dados diários
Observa-se, nas Tabelas 2 e 3, que o método Priestley- para a região de Palotina, PR. O valor de C encontrado por
Taylor, com base em dados de radiação, proporcionou o menor esses autores foi consideravelmente superior aos aqui obtidos
erro absoluto médio, EAM, dentre todos os avaliados, nos para os dois semestres, o que sinaliza a forte necessidade de
semestres de primavera-verão e de outono-inverno, com calibração local do método.
valores iguais a 0,34 e 0,31, respectivamente. Obtiveram-se Dentre os métodos com base em temperatura, aquele que
valores elevados de coeficiente de correlação (r = 0,92 e r = gerou menor EAM foi o de Hargreaves-Samani, para o qual foi
0,97) e índices de concordância (d = 0,95; d = 0,96) e, executada a calibração. A calibração consistiu, a rigor, em
consequentemente, de confiança (C = 0,87; C = 0,93), o que modificação dos coeficientes AHS e CHS e do expoente BHS,
indica desempenho “ótimo”, sendo seu uso indicado como obtendo-se valores que proporcionassem a minimização de
alternativa ao método FAO Penman-Monteith na ausência de EAM, com base na equação:
dados de velocidade de vento, para a microrregião de
Garanhuns, PE, no Agreste Meridional Pernambucano. ETo A HS R a Tmax Tmin BHS Tmed C HS (18)
Em estudo aplicado no estado da Geórgia (EUA) e
comparando os métodos Priestley-Taylor e FAO Penman-
Utilizando como os valores de partida AHS = 0,0023, BHS =
Monteith, Suleiman & Hoogenboom (2007) encontraram valores
0,5 e CHS = 17,8 (Eq. 11), obtiveram-se, com a ferramenta Solver
de d variando de 0,95 a 0,99. Fietz & Fisch (2009) verificaram
(Excel), os seguintes valores calibrados: AHS = 0,0013, BHS =
desempenho “muito bom” deste método, com C = 0,78, com
0,76, CHS = 17,76, para o semestre primavera-verão e AHS =
tendência de sobrestimativa, na região de Dourados, MS.
0,0014, BHS = 0,74, CHS = 17,79, para o semestre outono-inverno.
O ótimo desempenho do método Priestley-Taylor é
Os valores foram truncados para quatro casas decimais para
corroborado por meio da análise das Figuras 2B e 3B,
AHS e duas para BHS e CHS.
observando-se coeficientes linear, angular e de determinação,
Os resultados obtidos com o método Hargreaves-Samani
obtidos na regressão. Encontraram-se valores de R2 iguais a
calibrado são apresentados nas Tabelas 2 e 3 e nas Figuras 2F
0,845 e 0,935 nos dois semestres, enquanto Silva et al. (2005)
e 3F. A calibração do método de Hargreaves-Samani acarretou
encontraram valores de 0,91 e 0,42 em dois meses analisados
redução em EAM de 0,48 para 0,40, no semestre primavera-
no ano de 2002, em Petrolina, PE.
verão e de 0,36 para 0,31, no semestre de outono-inverno. A
Para o método de Blaney-Criddle, Camargo & Sentelhas
calibração também possibilitou a melhoria em outras estatísticas,
(1997) obtiveram C igual a 0,59, comparável ao obtido para o
como o índice de concordância, d, e o índice de confiança, C,
semestre primavera-verão neste estudo (C = 0,57 - classificação: este último aumentado de 0,72 para 0,77 no semestre primavera-
“sofrível”) e inferior ao obtido para o semestre outono-inverno verão e de 0,84 para 0,86 no semestre outono-inverno. Com
(C = 0,78 - classificação: “muito bom”), conforme se observa base no coeficiente de variação (CV), observa-se que a
nas Tabelas 2 e 3. Jensen et al. (1990) apresentam valores de dispersão em torno da média após calibragem, também se
erro padrão de estimativa médios iguais a 0,66 e 0,71 mm d-1, aproximou dos valores verificados para o método padrão: o CV
para locais áridos e úmidos, em diferentes continentes, inferiores aumentou de 13 para 17% no semestre primavera verão e de 22
aos valores de REQM iguais a 1,09 e 0,74 mm d-1, para os para 28% no semestre outono inverno. Nesses períodos os
semestres primavera-verão e outono-inverno, verificados neste valores de CV foram iguais, respectivamente, a 20 e 30% para o
estudo. Também se verificam, nas Tabelas 2 e 3, porções método FAO Penman-Monteith. Assim, recomenda-se a
sistemáticas elevadas do EQM (90 e 87%), indicando que a aplicação do método de Hargreaves-Samani, com coeficientes
calibração de coeficientes deve acarretar considerável melhoria e expoente calibrados, na microrregião de Garanhuns, PE,
de desempenho do método, tendendo a aproximar, para a quando apenas dados de temperatura máxima, mínima e média
unidade, os coeficientes angulares das retas de regressão iguais forem disponíveis.
a 0,5460 e 0,5941 (Figuras 2C e 3C). Nota-se que a aplicação Constata-se também, como consequência da calibração do
deste método é mais laboriosa que a dos outros dois métodos método Hargreaves-Samani, uma drástica alteração nas
baseados em temperatura e considerados neste trabalho proporções sistemáticas e não sistemática do EQM. A porção
(Camargo-71 e Hargreaves-Samani). sistemática foi reduzida de 69 para 25% e de 52 para 15%,
Para o método Camargo-71, Camargo & Sentelhas (1997) respectivamente nos semestres primavera-verão e outono-
obtiveram elevado C, divergindo em relação ao estudo aqui inverno. Com base em Willmott (1982) e com respeito a um
“bom” modelo, a REQMs deve ser próxima a zero enquanto a LITERATURA CITADA
REQMns deve ser próxima a REQM, com o objetivo de
representar as principais tendências ou padrões nos valores Allen, R. G. REF-ET: Reference evapotranspiration calculation
observados que, neste caso, são valores estimados com o software for FAO and ASCE standardized equations.
método FAO Penman-Monteith. Moscow: University of Idaho, 2000. 76p.
Visando reduzir sobrestimativas com o método Hargreaves- Allen, R. G.; Pereira, L. S.; Raes, D.; Smith, M. Crop
Samani em clima úmido, Trajkovic (2007) encontrou o valor do evapotranpiration: Guidelines for computing crop water
expoente BHS igual a 0,424, calibrado para a região dos Balcãs requirements. Rome: FAO, 1998. 301p. Irrigation and
Ocidentais, no sudeste da Europa, com erro padrão de Drainage, Paper 56.
estimativa, SEE, variando de 0,17 a 0,24 mm d-1, em relação ao ANA - Agência Nacional de Águas. Conjuntura dos recursos
método FAO Penman-Monteith, inferiores aos valores de REQM hídricos no Brasil 2009. Brasília: ANA, 2009. 204p.
aqui encontrados: 0,52 e 0,40 mm d-1, respectivamente, para os Andrade, C. L. T.; Borges Júnior, J. C. F. Seleção do método de
semestres primavera-verão e outono-inverno. Esta diferença irrigação. In: Albuquerque, P. E. P.; Durães, F. O. M. Uso e
decorre, sem dúvida, das ambiguidades inerentes ao SEE e à manejo de irrigação. Brasília: Embrapa Informação
REQM, em que se potencializam maiores diferenças entre Pi e Tecnológica, 2008. p.317-400.
Oi (Eq. 13), geralmente atreladas a maiores valores de ETo. Borges, A. C.; Mediondo, E. M. Comparação entre equações
Observa-se que patamares de ETo consideravelmente maiores empíricas para estimativa da evapotranspiração de
foram obtidos para Garanhuns em relação à região estudada referência na Bacia do Rio Jacupiranga. Revista Brasileira
por Trajkovic (2007) . de Engenharia Agrícola e Ambiental, v.11, p.293-300, 2007.
Borges & Mediondo (2007) obtiveram, após procedimento Camargo, A. P.; Camargo, M. B. P. Uma revisão analítica da
de calibração, C consideravelmente superior para o método de evapotranspiração potencial. Bragantia, v.59, p.125-37, 2000.
Hargreaves-Samani, chegando a alcançar 0,996. Camargo & Camargo, A. P.; Sentelhas, P. C. Avaliação do desempenho de
Sentelhas (1997), em estudo para o Estado de São Paulo, no diferentes métodos de estimativa da evapotranspiração
qual empregaram dados decendiais de lisímetros, totalizados potencial no estado de São Paulo, Brasil. Revista Brasileira
em base mensal para estimar a evapotranspiração potencial da de Agrometeorologia, v.5, p.89-97, 1997.
grama batatais, obtiveram C igual a 0,71 com o método de Choudhary, O. P.; Ghuman, B. S.; Dhaliwal, M. S. Yield and
Hargreaves modificado. Syperreck et al. (2008) encontraram quality of two tomato (Solanum lycopersicum L.) cultivars
valor de C igual a 0,73, próximo ao referido neste trabalho, para as inXuenced by drip and furrow irrigation using waters
o semestre primavera-verão. having high residual sodium carbonate. Irrigation Science,
Silva et al. (2005) encontraram coeficientes de determinação, v.28, p.513-523, 2010.
R2, iguais a 0,66 e 0,62 empregando o método de Hargreaves- Doorenbos, J.; Pruitt, W. O. Guidelines for predicting cropwater
Samani em dados diários dos meses de março e agosto de requirements. Rome: FAO, 1975. 179p. Irrigation and
2002, para Petrolina, PE, tendo recomendado o emprego deste Drainage, Paper 24.
método na ausência de dados de insolação e velocidade do Fietz, C. R.; Fisch, G. F. Avaliação de modelos de estimativa do
vento. Já Oliveira et al. (2008) encontraram, comparando os saldo de radiação e do método de Priestley-Taylor para a
valores de ETo diários obtidos por este método e por lisímetro região de Dourados, MS. Revista Brasileira de Engenharia
de pesagem hidráulica, valores de R2 de 0,69 em Vitória de Santo Agrícola e Ambiental, v.13, p.449-53, 2009.
Antão, PE. Os valores de R2 aqui encontrados para o método Jensen, M. E.; Burman, R. D.; Allen, R. G. Evapotranspiration
Hargreaves-Samani calibrado foram 0,7105 e 0,8150, nos and irrigation water requirements. New York: American
semestres primavera-verão e outono-inverno, respectivamente. Society of Civil Engineers, 1990. 332p.
A calibração proporcionou uma aproximação do coeficiente Mendonça, E. A.; Dantas, R. T. Estimativa da evapotranspiração
angular da regressão para a unidade: no semestre primavera- de referência no município de Capim, PB. Revista Brasileira
verão passou de 0,5110 para 0,7405 enquanto no semestre de Engenharia Agrícola e Ambiental, v.14, p.196-202, 2010.
outono-inverno passou de 0,6605 para 0,8482. O melhor ajuste Oliveira, L. M. M.; Montenegro, S. M. G. L.; Azevedo, J. R. G.;
da reta de regressão à reta 1:1, obtido com a calibração, é também Santos, F. X. Evapotranspiração de referência na bacia
percebido comparando-se as Figuras 2E e F e as Figuras 3E e F. experimental do riacho Gameleira, PE, utilizando-se lisímetro
e métodos indiretos. Revista Brasileira de Ciências Agrárias,
v.3, p.58-67, 2008.
CONCLUSÕES Pereira, A. R.; Nova, N. A. V.; Sediyama, G. C.
Evapo(transpi)ração. Piracicaba: FEALQ, 1997, 183p.
1. Dentre os métodos avaliados verificou-se que o melhor Sediyama, G. C. Estimativa da evapotranspiração: histórico,
desempenho foi obtido com o método de Priestley-Taylor, com evolução e análise crítica. Revista Brasileira de
base nos valores do erro médio absoluto, EAM, e no coeficiente Agrometeorologia, v.4, p.1-12, 1996.
de confiança, C. Silva, V. P. R.; Belo Filho, A. F.; Silva, B. B.; Campos, J. H. B. C.
2. Em relação aos métodos com requerimento apenas de Desenvolvimento de um sistema de estimativa da
dados de temperatura, o de Hargreaves-Samani calibrado foi o evapotranspiração de referência. Revista Brasileira de
que apresentou o melhor desempenho. Engenharia Agrícola e Ambiental, v.9, p.547-53, 2005.
Sousa, I. F. de; Silva, V. de P. R. da; Sabino, F. G.; Netto, A. de O. Trajkovic, S. Hargreaves versus Penman-Monteith under humid
A.; Silva, B. K. N.; Azevedo, P. V. de. Evapotranspiração de conditions. Journal of Irrigation and Drainage Engineering,
referência nos perímetros irrigados do Estado de Sergipe. v. 133, p.38-42, 2007.
Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v.14, Vega, E. C.; Jara, J. C. Estimación de la evapotranspiración de
p.633-644, 2010. referencia para dos zonas (Costa y Región Andina) del
Suleiman, A. A.; Hoogenboom, G. Comparison of Priestley- Ecuador. Engenharia Agrícola, v.29, p.390-403, 2009.
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Syperreck, V. L. G.; Klosowski, E. S.; Greco, M.; Furlanetto, C. Willmott, C. J.; Matsuura, K. Advantages of the mean absolute
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evapotranspiração de referência para a região de Palotina, Estado assessing average model performance. Climate Research,
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