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Sebenta DQC

O documento discute a dualidade do conceito de drogas, que pode ser tanto terapêutico quanto prejudicial, e analisa a intervenção das drogas em várias dimensões, como prevenção e tratamento. Apresenta dados sobre o consumo de substâncias psicoativas, os padrões de uso e as consequências do consumo problemático, incluindo a relação com a criminalidade e doenças. Além disso, aborda a importância da pesquisa e monitoramento do fenômeno das drogas em um contexto globalizado.
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Sebenta DQC

O documento discute a dualidade do conceito de drogas, que pode ser tanto terapêutico quanto prejudicial, e analisa a intervenção das drogas em várias dimensões, como prevenção e tratamento. Apresenta dados sobre o consumo de substâncias psicoativas, os padrões de uso e as consequências do consumo problemático, incluindo a relação com a criminalidade e doenças. Além disso, aborda a importância da pesquisa e monitoramento do fenômeno das drogas em um contexto globalizado.
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2018/2019

Faculdade de Direito da Universidade do Porto

REALIZADA POR: LILIANA RIBEIRO


FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
PARTE 1 Licenciatura em Criminologia
Jorge Negreiro

Droga vem do
conceito de
“phamacon” que tem
um duplo
significado:

⇨ Veneno;
⇨ Saúde.

Esta
dicotomia, ainda,
hoje
permanece válida.
As sociedades atuais
acreditam na
DROGAS E QUESTÕES CRIMINAIS

investigação sobre as drogas para fins terapêuticos, ao longo dos anos houve avanços notáveis

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto

na síntese de medicamentos para combater doenças. Quando falamos de drogas ilícitas, de


drogas de abuso, do lado do veneno, falamos de substâncias que têm também finalidades
terapêuticas: a cannabis e toda a polémica que se desenvolveu sobre as prioridades terapêuticas,
tendo-se tornado prevalecente, apesar das posições críticas. Portanto, a mesma substancia pode
tornar as pessoas mais apáticas, mas também pode ajudar a mitigar o sofrimento de doenças.
Encontra-se isso, ainda, na morfina, tanto para fins terapêuticos como para abuso – com o
avanço dos cuidados paliativos são mais frequentes as unidades que usam a morfina para
estados terminais, sendo esta a que mais eficácia tem revelado no combate à dor intensa.
Todavia, pode ser usada abuso.

INTERVENÇÃO DAS DROGAS

É uma área vasta que se caraterizássemos num ponto poder-se-ia dizer que vai desde as
questões de intervenção mais macro até ao mais micro envolvem uma reflexão sobre aspetos
como:

⇨ Prevenção;
⇨ Internamento;
⇨ Tratamento;
⇨ Redução dos riscos.

As leis estão também envolvidas na intervenção das drogas, por causa da


descriminalização e criminalização das drogas. No caso português, quando em 2001 se decidiu
descriminalizar o consumo de drogas o que estava na ideia dos autores desta medida era que
seria melhor do que criminalizar, achavam que era mais benéfico do que prejudicial.

USO DE DROGAS: Conceitos gerais

Podemos caraterizar o nosso funcionamento enquanto seres humanos, a partir de 3


patamares básicos: emoções, comportamento e/ou as cognições. No caso das drogas
(substancias psicoativas) o facto de considerarmos uma droga psicoativa significa que essa vai
produzir alterações nestas três dimensões do funcionamento humano, no comportamento
(euforia, inibição/desinibição, estados de abatimento, agressividade), quer ao nível das emoções
(tristeza, apatia) e, por último, ao nível da cognição (défice da atenção, melhora o desempenho).
Quais os motivos para o consumo das drogas? Melhorar o desempenho, sentimento de inclusão,
entre outras.

Definição de Drogas:

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1. Qualquer substancia natural ou artificial, pela sua natureza física ou química,


modifica o funcionamento físico, psicológico ou químico de um organismo vivo (Ray
e Ksir, 1996);
2. Substancias suscetíveis de alterar a sensação, o humor, a consciência ou outras
funções psicológicas ou comportamentais (Brands et al., 1998).

Um indivíduo consome drogas porque pretende produzir uma modificação no seu estado
de consciência – as pessoas que consomem drogas opiáceas como a heroína, vivendo em
contexto de exclusão social, muitas vezes, fazem o consume pela ideia de evasão, consome para
modificar o estado de consciência, impede que tenha uma consciência tão aguda das suas
dificuldades.

Padrões e consequências do consumo de substâncias psicoativas

Quais os impactos das diferentes substâncias, na humanidade? Um dos conceitos-chave


são os padrões de consumo, porque admitimos que há diferentes formas de consumir e essas
diferentes formas podem ter consequências distintas. Quando tentamos perceber o fenómeno
(com múltiplas ramificações) está associado o padrão de consumo – conjunto de caraterísticas
que definem o modo de consumo de uma dada substância.

Quando é que podemos dizer que têm um padrão de consumo de cannabis ocasional?
Consome em situações sociais (festas).

Quando é que tem um padrão de consumo regular? Quando tem uma rotina.

Estima-se que, em 2015, cerca de um quarto de bilião de pessoas consumiram drogas, o


que corresponde a cerca de 5% da população adulta. Cerca de 29,5 milhões de pessoas, ou
0,6% da população adulta global, tiveram consumos problemáticos, incluindo perturbações
relacionados com o consumo de drogas como as dependências (UNODC, 2017). Desta forma, o
que é o consumo problemático? O critério que podemos utilizar para diferenciar um consumo
problemático do não problemático: o consumo é problemático quando interfere negativamente
em diferentes áreas do funcionamento da pessoa (absentismo no trabalho, começa a ter conflitos
em contexto familiar e laboral). Em geral, podemos dizer que mais de meio % da população
mundial apresenta um consumo que pode ser considerado problemático. A O.E.D.T. –
Observatório Europeu das Drogas e Toxicodependência, organismo pertencente à União
Europeia, com sede em Lisboa, é uma das agências que se ocupa de questões relacionadas com
a intervenção das drogas no espaço europeu, produz, todos os anos, um relatório do problema da
droga, na Europa, este relatório descreve os padrões de consumo, nos diferentes países que
compõe a UE e descreve indicadores chave efetua uma monitorização do fenómeno.

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O consumo problemático é o consumo de drogas por via injetada, para além do primeiro
critério, frisa-se que não se vai utilizar o critério do consumo de prejudicar a pessoa
negativamente aos mais diversos níveis, mas sim basta que a forma de administração da droga
seja por via injetada para que seja considerado problemático. Outro critério tem a ver com a
frequência e ainda outro com tipo de drogas.

Quais os tipos de drogas que o O.E.D.T. considera vir a induzir o consumo problemático?
Heroína, cocaína e as anfetaminas. Os cientistas consideravam que não era suscetível incluir o
grupo de substâncias de conduzir a este consumo como é a cannabis, pelas suas caraterísticas
terapêuticas, pelo modo de utilização. Portanto, esta definição de consumo problemático sofreu
uma pequena alteração, há 3 anos, no sentido de adicionar a cannabis, porque na Europa tem-se
registado um aumento de pessoas que procuram ajuda para problemas relacionados com o seu
consumo (algo quase inexistente até aos anos 90 do século passado). Em termos de padrões de
consumo o que se tem vindo a assistir é que o potencial consumo problemático de cannabis não
é a frequência, mas o problema de consumo recreativo – recorre-se em contexto recreativo (de
festa), que pode levar ao consumo de risco, já que pode consumir em quantidades que produzem
um efeito negativo, em diferentes áreas, mesmo que a pessoa não tenha um consumo regular.
Portanto, pode haver consumo problemático, designado consumo de risco, estando associado ao
consumo da substância para fins recreativos, a razão para o seu consumo é a diversão.

Uma consequência dos consumidores problemáticos é que a taxa de mortalidade pode ser
20 vezes superior à população geral e, ainda, há consequências a nível de acidentes, de
criminalidade e doenças que podem ser transmitidas relacionadas com o consumo de drogas. A
relação entre o consumo de drogas e práticas de crimes está solidamente enraizada.

Esta população está, também, associada a uma incidência de doenças relacionadas com o
consumo de drogas como o HIV, Hepatite B e C, Tuberculose, entre outros.

Conceitos:

1. Dependência física – estado fisiológico alterado induzido por um consumo repetido


de uma substancia, envolvendo uma utilização contínua por forma a prevenir o
aparecimento de um sindroma característico de cada droga – o sistema de abstinência.
Quando se desenvolve uma dependência física e quando o interrompe o consumo da
substância, emergem sintomas associados à privação da droga que são o síndrome de
abstinência (ressaca).
2. Síndrome de abstinência – conjunto de sintomas específicos de cada tipo de droga
que se manifestam sempre que a administração da droga é interrompida por um
determinado período de tempo. Agrupamento de sintomas que se manifestam pela

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interrupção do consumo de uma substância, pela qual o indivíduo vem a revelá-la.


Assim, há sindromas diferentes consoante a droga. Um conceito associado a isto está
a tolerância, isto é, quando está em marcha um processo de dependência em relação a
uma substância, há um outro fenómeno que é complitante que é a tolerância,
detetamo-lo quando o indivíduo ativou o processo de dependência física acontece que
ele para obter o mesmo efeito que obteria quando utilizava uma dose mais pequena
vai ter de aumentar a dose. A tolerância é uma resposta do organismo à necessidade
deste ter doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito que antes conseguia com
uma dose mais pequena. Por um lado, temos de ter a tolerância e por outro deve
desenvolver um conjunto de sintomas, quando fica privado do consumo da substancia
(síndrome de abstinência)
3. Dependência psicológica – consumo repetido de uma determinada droga não
acompanhado de dependência física, em que o indivíduo recorre ao seu uso em ordem
a funcionar a um nível que ele perceciona como satisfatório.
4. Policonsumos – utilização simultânea ou sucessivas de diversos tipos de droga –
grande parte das vezes os consumidores consumem mais do que uma substância.

Abuso de substâncias/consumo problemático

A. (DSM – IV) Abuso de substâncias – padrão de consumo de drogas conduzindo a


consequências negativas, recorrentes e significativas, relacionadas com o consumo
repetido dessas substâncias. Os sintomas não obedecem aos critérios de dependência
de substâncias para essa classe de substância;
B. ICD – 10ª ver. Abuso de Substância – consumo pernicioso (isto é, um padrão de
consumo que causa prejuízos para a saúde física ou mental) ou uma dependência de
substâncias psicoativas.
C. OEDT (1997) – Consumo problemático – uso de drogas por via intravenosa ou o uso
regular/de longa duração de drogas opiáceas, cocaína e/ou anfetaminas.

Classificação dos tipos de droga (Brands et al., 1998)

Grupo 1 (Depressoras) – álcool, ansioliticos, tranquilizantes, drogas opióides como a


heroína, morfina e metadona.

Grupo 2 (Estimulantes) – Cocaína, anfetaminas, MDMA (ecstasy), cafeína;

Grupo 3 (Alucinogénios) – LSD, mescalina, marijuana, haxixe;

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Grupo 4 (Medicação Psiquiátrica) – medicações antipsicóticas, anti-depressivos,


estabilizadores do humor.

Que métodos é que utilizamos para saber o que sabemos hoje acerca das drogas? Que
informação esses métodos têm permitido recolher acerca das drogas? Quais as limitações que
essa informação encerra?

Do ponto de vista mais pragmático, do ponto de vista de informação que nos orienta para
a prevenção, para controlar o problema: o que se faria num lugar onde a população já sofria
consequências devastadoras, por causa das drogas?

1. Apurar que substância (s);


2. Avaliar as consequências sociais, económicas e de saúde;
Avaliação do
3. Identificação de fatores de risco;
fenómeno
a. Grupo etário;
b. Nível socioeconómico;
c. Género;
4. Regulação. Intervenção

Ao fazer este trabalho estaríamos a delinear um perfil sociodemográfico. Se deixássemos


de nos focar nos fatores de risco relacionados com caraterísticas sociodemográficas de um
determinado grupo para as caraterísticas relacionadas com o comportamento problemático
(consumo de drogas), se nos desligássemos dos fatores de risco ligadas a essas pessoas, se nos
centrássemos nos fatores de risco ligados aos padrões de consumo, o que poderíamos analisar?

A. Tipo de drogas – faria toda a diferença, na medida de que a amplitude dos problemas
e caráter destrutivo do grupo poderia muito estar relacionado com o tipo de drogas;
B. Quantidade/frequência do consumo;
C. Acesso às drogas;
D. Os primeiros contactos/primeiras experimentações = fatores de iniciação:
a. exercem uma influência determinante na iniciação ao uso de substâncias
psicoativas. Um fator que tem sido recorrentemente identificado na literatura
é a pressão do grupo de pares, quando começa a consumir uma substância é
consumida num grupo de pares e em relação a esse grupo é que pode ser
exposto a pressões diversas para consumir, podendo acabar por sucumbir ao
consumo. Poder-se-ia aqui também perceber qual o grupo etário mais
vulnerável (12 a 15 anos). Os fatores de continuação/manutenção, também,

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são importantes analisar, porque uma das diferenças mais marcantes é que o
indivíduo pode ter desenvolvido dependência, não sendo já pressões externas
(quando se inicia no consumo).

A investigação sobre as drogas tem procurado centra-se na avaliação dos problemas que
acarretam as drogas, procurando, então avaliar a extensão e padrões de consumo, ou seja, qual a
prevalência do fenómeno, que tipo de drogas, com que frequência. Outra tentativa foi perceber
as caraterísticas das pessoas que consomem e quais os fatores de iniciação e de continuação
(que fatores se pode associar à iniciação e quais à continuação). Por último, tentar perceber os
impactos sociais, médicos, económicos das drogas.

Como obter toda esta informação?

1. Inquéritos – questionário cujas áreas tivessem a ver com as questões iniciais,


administrando-o, para depois recolher e tratar dados – são medidas de autorrelato e
alguns processos que podemos usar para melhorar o risco de desejabilidade social
pode-se garantir o anonimato, não havendo meio algum de o identificar e, ainda,
confidencialidade;
2. Observação participante – ir para o meio procurar fazer uma observação que tinha
como caraterística ser o investigador parte do grupo;

No problema das drogas há o fenómeno da Globalização, sendo que há 100 anos só


grupos restritos da população consumiam, grupos de elites sociais, por exemplo (como é o caso
de Freud). Só no século XX, quando o fenómeno se estendeu aos pontos do globo e aqui
aparece a globalização, sendo que um dos fatores apontado para esta globalização do consumo
de drogas foi a abertura das fronteiras. Portanto, hoje em dia a pertinência da atenção do
fenómeno decorre do facto de ser globalizado, tendo formas de expressão muito diferenciadas,
ou seja, é necessário monitorizar o fenómeno, no sentido de apreender as diferentes formas que
ele acarreta ao longo de tempo, sendo ele um fenómeno dinâmico, volátil. Nos últimos 5 anos,
por exemplo, surgiram novas substâncias psicoativas e o “boom” das drogas sintéticas,
implicando que os diferentes países se coordenassem a nível internacional para monitorizar o
fenómeno e as suas transformações (O.E.D.T é um dos organismos internacionais e, ainda, a
Organização Mundial da Social (O.M.S)). A avaliação do fenómeno é um pré-requisito para
criar intervenção. Preocupando-se com o maior rigor e precisão nas estimativas sobre o
problema, avaliação mais rigorosa da extensão, natureza, padrões e consequências do consumo
de drogas e, ainda, apoio na decisão, visando melhorar a qualidade das intervenções.

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Duas situações que potenciam a globalização do uso de drogas: (1) a constituição da


União Europeia – há uma facilidade de circulação das pessoas muito maior do que no passado e
(2) aumento da atividade turística.

Quais as organizações internacionais que se ocupam da avaliação do fenómeno das


drogas?

A. Grupo Pompidou do Conselho da Europa – Country Profiles;


B. Observatório Europeu das Drogas e Toxicodependência (O.E.D.T.) – European Drug
Report 2015 (Countries Drug Reports);
C. Organização Mundial da Saúde (O.MS.) – Global Status Reporto n Alcohal and
Health 2014;
D. Nações Unidas (United Nations Office on Drug and Crime) – World Drug Report.

Não só o fenómeno se globalizou como também os sistemas para o monitorizar.

As quatro organizações produzem conhecimento científico sobre as drogas a nível


mundial, para que não seja um trabalho produzido redundante cada uma se procurou
especializar num domínio relacionada com o consumo de substâncias. O primeiro assume a
responsabilidade de fazer avaliação do terceiro mundo, já o segundo tem o papel mais relevante
na área, sobretudo, no espaço da União Europeia, porque elabora anualmente um texto
científico sobre consumo nos 27 países do UE. Portanto, tem de haver uma organização para
que todos os anos haja o retrato da situação do consumo de drogas nos diferentes 28 (27, sem
Grã-Bretanha) países. O terceiro especializa-se em produzir informação sobre o consumo de
álcool, não tem caráter anual e à semelhança do relatório anual europeu traça um cenário
mundial da situação do consumo de álcool e as suas consequências no mundo. Por fim, as
Nações Unidas (representa uma grande instituição, com varias ramificações, sendo uma delas
United Nations Office on Drug and Crime ) foca-se nas relações entre consumo de droga e
crime, por um lado, concentra-se nas estratégias com a redução da procura e com a
redução da oferta – um conjunto de estratégias que visam dificultar o acesso das pessoas
às drogas –, por outro.

No Relatório Anual usam-se três tipos de prevalência para medir o fenómeno:

− Ao longo da vida (alguma vez consumiu alguma destas substâncias?);


− Ao longo dos últimos 12 meses;
− No último mês (no ultimo mês consumiu algum tipo destas substâncias?), incide
com o consumo regular.

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De acordo com as Nações Unidas 0,6% das pessoas em todo o mundo podem ser
entendidos como consumidores problemáticos (consumidores que têm um padrão de consumo
que originou consequências negativas em diferentes áreas da sua vida).

O Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência visa:

− acompanhar a evolução do fenómeno da droga na Europa (nomeadamente as


tendências emergentes);
− acompanhar as respostas encontradas para os problemas ligados às drogas;
− facultar informações sobre as melhores práticas nos países da UE e incentivar a
respetiva partilha.

Além disso:

− Avalia os riscos de novas substâncias psicoativas (NSP);


− É responsável por um sistema de alerta rápido sobre as novas substâncias
psicoativas (NSP), ou seja, é um sistema que tem dispositivos nos diversos países
da UE que permitem detetar a existência de uma nova substância.
− Desenvolve ferramentas e instrumentos para ajudar os países da UE a
acompanhar e a avaliar as suas próprias políticas nacionais, bem como a
Comissão a acompanhar e avaliar as políticas europeias (podem ser questionários,
inquéritos, escalas que permitam avaliar o que se está a fazer).

Indicadores epidemiológicos-chave (OEDT, 2001) – são fontes de informação que


ajudam a compor o quadro da situação do consumo num país: até 2001, se qualquer um país
quisesse caraterizar o fenómeno das drogas podiam faze-lo, usando o seu entendimento do
problema, mas não havia nenhum quadro de referência, tendo surgido a partir daqui 5
indicadores:

1. Inquéritos à população geral – fazem-se inquéritos à população de determinada idade,


ou a um grupo específico;
2. Risco elevado do uso de drogas – procura detetar situações em que o indivíduo
consume quantidades elevadas de determinada substancia pondo em risco ou a saúde,
ou a sua segurança, por exemplo;
3. Indicadores sobre a procura de tratamento;
4. Doenças infeciosas relacionadas com o consumo de drogas – centros de saúde,
centros de unidade terapêuticas, recolhem informação sobre doenças relacionadas
com o consumo (HIV, Hepatites);
5. Mortalidade relacionada com o consumo de drogas – identificar qual o número de
pessoas cuja morte esteve relacionada com o consumo de drogas.

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Quando avaliamos uma estratégia nacional, avalia-se o impacto que ela pode ter nos
cinco indicadores.

QUESTÕES GERAIS SOBRE A INTERVENÇÃO NAS DROGAS

Estamos perante um fenómeno que não é estático, pelo que devemos adotar uma postura
de monitorização permanente que visa acompanhar as mutações nas tendências e padrões de
consumo.

Quando se fala de estratégias de intervenção e diferentes tipos de opções, sabe-se que


essas estratégias devem estar baseadas no conhecimento rigoroso e preciso do problema. O
conhecimento que temos acerca do fenómeno não responde a todas as questões. Mas quanto
maior a informação que dispomos acerca do fenómeno mais reduzida é a margem de incerteza e
mais sustentadas, sólidas e fundamentadas são as opções que se possam tomar na área. Portanto,
é mais correto tomar uma opção conseguida numa investigação do que a partir das crenças,
convicções, das ideologias de cada um.

O fenómeno das drogas cruza vários saberes que procura dar ferramentas mais eficazes
para o compreender e minimizar as consequências mais negativas para pessoas, grupo e
sociedade em geral.

Quando se fala de intervenção nas drogas evoca uma vasta panóplia de abordagens, que
se a quisermos dispor por aspetos de intervenção e examinar com base num sistema de
classificação tem-se que adotar alguns conceitos (a partir de um campo semântico).

Conceitos básicos – Conceções gerais sobre a intervenção nas drogas

− A prevenção é um objetivo de intervenção que se associa às abordagens


preventivas – evitar que desenvolvem o consumo problemático. = PREVENÇÃO
PRIMÁRIA
− Tratamento, onde se está preocupado em atuar junto dos que já desenvolveram os
padrões de consumo problemático. = PREVENÇÃO SECUNDÁRIA
− Reabilitação (pretende reparar sequelas)/Reinserção Social, ou seja, trazer de
volta o individuo à vida normativa. Visaria ajudar a pessoa, por exemplo, na
ajuda de encontrar emprego. = PREVENÇÃO TERCIÁRIA

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Há quem diga que a terminologia de “Prevenção” para os três momentos não é o correto,
por existir uma diferença qualitativa entre prevenção primária e secundária, por exemplo, é
trilogia da saúde pública.

Cobriram-se três domínios onde é possível preencher a intervenção nas drogas, mas há
outros:

− Legislação – instrumento na intervenção nas drogas. Há algumas questões


importantes que dizem respeito a esta que têm um impacto evidente na utilização
das drogas pelas pessoas e as consequências que podem originar;
− Políticas públicas – fazem apelo à responsabilidade do Estado – o Estado tem
uma responsabilidade em matéria de intervenção de drogas. Essa
responsabilidade corporiza-se num desenvolvimento de políticas públicas que,
muitas vezes, assumem uma configuração específica, dando origem à Estratégia
Nacional. Portanto, nos últimos anos tem-se assistido a um movimento que
atravessa vários países que se carateriza por haver uma consciencialização, cada
vez maior por parte dos Governos, acerca da responsabilidade que eles têm na
conceção e implementação de políticas públicas na intervenção das drogas.
Quando existe esta consciência faz com que, cada governo, tenha em atenção as
idiossincrasias do respetivo país e põe em prática uma estratégia nacional. Há
várias questões que são equacionadas de forma integrada e articulada para se
conseguir isto, sendo um esforço do Estado para conter os problemas
relacionados com o uso de drogas no respetivo país.

Uma primeira distinção que se pode fazer ao nível dos conceitos básicos diz respeito à
distinção entre redução de oferta e de procura.

1. Redução de Oferta (“supply reduction”) – conceito utilizado para designar um vasto


conjunto de atividades destinadas a impedir a produção, manufatura e distribuição de
drogas ilícitas. Mais direcionada para a substância.
2. Redução da Procura (“demand reduction”) – conceito utilizado para designar um
vasto conjunto de atividades destinadas a reduzir o desejo dos indivíduos para obter e
consumir drogas. A procura das drogas pode ser reduzida, através da prevenção,
tratamento e políticas sociais destinadas a mitigar os fatores que contribuem para o
uso de drogas. Mais direcionada para o indivíduo.

A legislação pode ser uma estratégia usada na intervenção das drogas, podendo ter efeito
quer na redução de oferta quer na redução de procura (descriminalização, por exemplo, mas
poderá ter um efeito perverso no consumo de substâncias psicoativas).

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A política sobre drogas (“Drug Policy”) é um sistema de leis, medidas de regulação,


cursos de ação e prioridades de financiamento relativas a drogas psicoativas ilícitas e
promulgada por uma entidade governamental ou pelos seus representantes (Kipatrick, 2000).
Abarca um conjunto de medidas suscetíveis de influenciar a redução da procura e oferta de
drogas ilícitas, localmente ou a nível nacional. As políticas estão no vértice da pirâmide, a
estratégia nacional, também não é estática, porque acompanha o fenómeno. Se as capturas de
droga aumentaram, pode-se colocar a hipótese de existir uma maior procura/consumo de droga
no país. Desta forma, as estratégias devem ser reexaminadas e revistas na medida em que devem
refletir as necessidades do país ao nível da intervenção.

A legalização/descriminalização é a remoção de uma proibição em relação a uma


atividade que continua, no entanto, a ser proibida e sujeita a regulações e sanções não penais
(exemplo, as sanções administrativas como a apreensão da carta de condução).

A abordagem estratégica dá grande importância não só ao tipo de intervenção do


tratamento, mas também na redução de riscos e minimização de danos. A estratégia cria as
conjunturas para que as condições técnicas e logísticas se possam desenvolver num país. As
estratégias devem ser integrada, no sentido em que deve ter estratégias da redução da oferta e da
redução da procura, postula que ao desenhar as estratégias se combine medidas do pólo da
redução da oferta e do pólo da redução da procura. Outro aspeto é que deve ser objeto de uma
avaliação, que dá informações acerca do modo como as diferentes componentes das estratégias
estão a resolver os problemas do consumo. E, ainda, deve ser uma estratégia em que os cidadãos
possam exprimir as suas opiniões, é uma espécie de democratização da tomada de decisão,
envolvendo as populações.

A Lei 30/2000 estipula que a posse de droga(s) para uso pessoal é descriminalizada,
sendo estabelecido um sistema de “Comissões de Dissuasão da Toxicodependência” –
constituídas por três membros, normalmente, uma especialista da área legal, um profissional da
área da saúde e outro do serviço social – que fazem avaliação e encaminhamento. Foi adotada
uma nova base legal para as medidas de redução de riscos (através do Decreto-lei 183/2001).

A estratégia portuguesa de intervenção nas drogas:

− A descriminalização como um dos elementos de uma política mais integrada e


abrangente de intervenção nas drogas;
− Transferência progressiva das responsabilidades do Ministério da Justiça para o
Ministério da Saúde;
− Desenvolvimento de planos de intervenção mais detalhados;

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− Ênfase nos procedimentos de avaliação como um instrumento de gestão das


políticas de intervenção;
− As questões da intervenção no álcool passam a ser tratadas conjuntamente com as
do consumo de drogas ilícitas.

Conceções gerais sobre a intervenção nas drogas

Como se está a falar de fenómenos com várias caraterísticas, uma das quais ser muito
complexa, onde se cruzam várias dimensões (psicológica, jurídica, médica,…), não é de
estranhar que quando se reflete sobre as intervenções nas drogas (o que se pode fazer na área) a
obsessão pelo rigor, pela objetividade, acaba por ser prejudicada pelos limites do saber. Estes
limites fazem com que se preencha a ignorância sobre o fenómeno recorrendo à ideologia –
como não se tem todas as respostas às questões da compreensão acerca das drogas, nem para a
intervenção, aparecem perspetivas de intervenção nas drogas que dão mais importância a
determinados aspetos em detrimento de outros.

Se se pensar numa perspetiva histórica: como é que se conceberam estas questões de


intervenção? O modo como se entende as questões das drogas, hoje, é diferente do modo como
a humanidade as entendia há 20 anos atrás. Esta evolução pode ser entendida à luz das
diferentes conceções.

Portanto, as conceções que hoje vigoram sobre intervenção nas drogas diferem em muitos
aspetos da que vigorava há 20 anos atrás. Além disso, no momento atual coexistem conceções
sobre intervenção das drogas que se postulam em pressupostos diferentes, entrando no domínio
em que como não se sabe tudo preenche-se as lacunas, dando mais importância a certos aspetos
em detrimento de outros.

Há dois modelos distintos:

1. Modelo de doença:
a. o abuso de drogas como condição (biomédica) determinada geneticamente;
b. o toxicodependente como incapaz de exercer um controlo sobre o seu
comportamento aditivo;
2. Modelo de autocontrolo:
a. o abuso de drogas como padrão de hábitos adquiridos que podem ser
modificados através de novas aprendizagem;
b. o toxicodependente como sendo capaz de exercer esse controlo

Os dois modelos representam dois modos diferentes de compreender o fenómeno das


drogas e do seu abuso, ambos coexistem atualmente, ou seja, é possível que distintos

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profissionais tenham entendimentos diferentes acerca das drogas (será que o uso de drogas pode
ser assimilado à noção de doença?). Há uma rutura entre os dois modelos.

O modelo da doença pela conceção que defende limita a capacidade do indivíduo exercer
um controlo, há um certo determinismo biológico que faz com que os graus de liberdade que o
indivíduo tem para exercer controlo sobre o seu problema sejam reduzidos. O que se preconiza
a alguém que teve uma dependência de álcool e que recuperou é que a única abordagem é a
abstinência total. Neste caso, não se considera que a única solução possível seja a abstinência
total, mas admite-se que possa adotar um padrão de consumo controlado, pelo que mesmo tendo
tido uma dependência pode consumir em níveis que não comprometam a sua saúde, nem que
venha a desenvolver outra dependência.

A base biológica (“não escolhemos os nossos genes”) é muito importante, porque se diz
haver uma predisposição genética para o consumo de drogas. Também há muitos estudos da
relação entre a dependência de uma substância e as mudanças da estrutura e funções do cérebro
(isto é, “doença do cérebro”). Segue-se a questão de que quando o indivíduo tem uma
dependência como que está prisioneiro desses processos, pelo que o consumo de drogas é um
consumo compulsivo, sendo compatível com esta perspetiva de droga como doença. Nesta
visão, vê-se o grau de liberdade do sujeito, considerando que o consumo, no início, é voluntário,
mas à medida que aumenta o contacto com a substância, digamos que há uma redução da
capacidade de controlo sobre essa, podendo culminar num comportamento compulsivo.

O consumo de drogas é visto como um padrão persistente de comportamentos


autodestrutivos, isto é, são involuntários. As doenças são involuntárias. O consumo de drogas é
uma doença. Se as doenças são involuntárias e o consumo de drogas também, então, o consumo
de drogas é involuntário.

Quando a pessoa desenvolve uma dependência, desenvolve também craving (desejos


irresistíveis de consumir uma droga que conduzem ao seu consumo compulsivo) muito intensos.

Outra perspetiva é quando se considera o comportamento de drogas como um


comportamento voluntário. No fundo, as duas perspetivas representativas das conceções que se
tem acerca do ser humano – uma em que é devastadora, que indica a capacidade de controlo
próxima de zero e outra preconiza que apesar disso consegue exercer controlo sobre o problema,
conseguindo mudar alguns aspetos.

Defende-se que o consumo de drogas é voluntário, ou seja, há uma plasticidade do


cérebro como uma oportunidade para a recuperação (“mudar o comportamento muda o
cérebro”) – Schwartz, 1998). Além disso, há remissões espontâneas por volta dos 30 anos, isto
é, quando se analisa as trajetórias de consumo que tiveram um envolvimento nas drogas, num

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número muito expressivo das situações, a maior parte acaba por espontaneamente retornar à
situação de não consumo (pode ser pela natureza desenvolvimental, por exemplo). Outra fonte
de explicação, vem das investigações que procuram saber o porquê de haver remissão
espontânea. Portanto, se fosse uma doença seria impensável esta remissão, assim essas razões
são transversais, idênticas às que motivam a maioria das ações humanas (dinheiro, emprego,
autoestima, responsabilidades, familiares). A esta conceção está subjacente a de que os graus de
liberdade do indivíduo, apesar de estarmos a falar de um fenómeno que pode ser compulsivo,
estão sempre ativos, ele é sempre capaz de mudar alguma coisa, de fazer escolhas (análise
custos/benefícios), a mudança, por vezes, é feita nesta base do peso dos prós e contras. Há uma
capacidade executiva do sujeito que permanece intacta e faz com que ele consiga mudar.

Quando se olha para o modelo de autocontrolo insere-se num registo onde se dá mais
atenção aos aspetos sociais que tem a ver até com as capacidades que ele tem para exercer o tal
controlo para resolver os problemas com o consumo das substâncias.

Prevenção do Abuso de Drogas

Prevenção do abuso de drogas é evitar que as pessoas usem drogas (definição), estando
implícito um objetivo que visa evitar que as pessoas consumam drogas. A prevenção do
consumo de drogas não visa unicamente evitar que as pessoas em geral consumam drogas,
podem também visar outros objetivos que se englobam no conceito de prevenção como evitar
riscos e danos. Outra caraterística presente na definição de prevenção é a idade de iniciação,
porque há um período da vida do indivíduo que a probabilidade de contacto com as drogas é
maior – a fase da adolescência. Existe uma relação em termos de idade e iniciação ao consumo,
dizendo-se que a maior parte das iniciações ocorrem na adolescência.

As investigações comparam a trajetória do consumo em pessoas que se iniciaram mais


cedo e em pessoas que se iniciaram mais tarde, emergindo um dado com grande consistência: os
indivíduos que tiveram um contacto mais precoce com uma substância psicoativa,
comparativamente com os que iniciaram mais tarde, têm uma trajetória mais longa, com
consequências mais problemáticas. Assim, um contacto mais precoce com o crime ou com
drogas é responsável por uma trajetória mais longa, mais diversificada e mais grave. No caso
das drogas uma iniciação mais precoce tem efeito idêntico, verificando-se que os que iniciam
mais precocemente têm trajetórias mais longas, um consumo precoce prolonga-se para além da
adolescência.

Outro objetivo é prolongar o mais possível o primeiro contacto que o indivíduo vai ter
com a substância, ou seja, impedir que se inicie muito precocemente. A prevenção é, então, uma

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abordagem que pretende evitar o consumo de drogas e/ou adiar o primeiro contacto, bem como
reduzir o próprio consumo.

Quais os tipos de prevenção? É a trilogia da saúde pública. As ciências sociais


apropriaram-se desta definição para caraterizar as estratégias de intervenção.

a. Prevenção primária;
b. Prevenção secundária;
c. Prevenção terciária.

No entanto, surgiu outra classificação que se usa mais:

A. Prevenção;
B. Tratamento;
C. Reinserção.

Os críticos dizem que esta trilogia tem lacunas, por exemplo, o termo prevenção quando
se diz tratamento não faz sentido, para quê usar prevenção quando se pode referir tratamento ou
para quê dizer prevenção terciária se se pode dizer reinserção.

Mas há outra distinção de tipos que surgiu nos anos 90, como uma classificação
alternativa, mais utilizada no meio científico e profissional, que se baseia nas caraterísticas da
população alvo. Este sistema não procura tomar em consideração critério temporal, mas um
critério utilitário. Fala-se em três tipos de prevenção:

1. Prevenção Universal – aplica-se um programa à população


independentemente do nível de risco, percebe-se como sendo baixo e
afetando de igual forma a todas as pessoas. Assume-se que todas as pessoas
são potenciais consumidores;
2. Prevenção Seletiva – é uma prevenção direcionada a um grupo de risco (por
exemplo, se a prevenção fosse direcionada a um grupo de jovens filhos de
pais consumidores de drogas);
3. Prevenção Indicada – o nível de risco, enquanto comparado com a seletiva
sobre alguns pontos, porque na seletiva elege-se um público alvo que já tem
algum envolvimento com as drogas, podendo dar ou não a situações de
dependência. Mas a população objeto de prevenções indicada já tem
problemas com as drogas. Já consome, ainda que não seja considerado
toxicodependente, está numa fase que pode evoluir para essas situações.

Esta classificação repousa no princípio das intervenções preventivas que se devem


adequar às populações específicas. Defende-se que as abordagens de intervenção de prevenção

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devem variar consoante as caraterísticas da população alvo. Na União Europeia todos os países
integram nos planos de estudos das escolas conteúdos sobre a prevenção de drogas.

Evolução das Estratégias

Em qualquer domínio da intervenção pode-se sempre identificar fases em que o


conhecimento do fenómeno não era bem desenvolvido, indo acrescentar-se construtos. Na
prevenção das drogas podemos identificar esses paradigmas. Thomas Kunn foi um investigador
que diz que podemos identificar diferentes saberes, técnicas, abordagens, que conjugadamente
contribuem para a identificação de diferentes paradigmas. O conhecimento vai sofrendo uma
evolução e os paradigmas entram em crise, quando o conjunto de saberes, práticas, métodos,
sistemas de conhecimentos não é capaz de se compatibilizar com o novo conhecimento, que
transformou o paradigma desatualizado. Há uma crise paradigmática sempre que uma área do
conhecimento entra em crise, que provoca rutura paradigmática que dá origem a outro
paradigma. O estado do paradigma é sempre transitório e volátil.

Antes do século XX, a humanidade preocupa-se com outras questões, as questões de


prevenções eram questões que se orientavam por ideias do senso comum, até aos anos 70. Só
nos anos 70 é que se fazem estudos para ver se as medidas eram adequadas. Em 1974, Stuart
publica um artigo “Drug Education: pushing or preventing”, colocando a questão se a educação
sobre as drogas leva ao consumo, demonstrando que, depois de 10 sessões, comparando
adolescentes que participaram e não, os estudantes que participaram apresentavam níveis de
conhecimentos mais elevados do que os que não participavam. O programa mostrou, também,
que os adolescentes que participaram apresentavam atitudes mais favoráveis ao consumo, não se
preocupavam tanto que o seu colega começasse a consumir drogas. Por fim, os níveis de
consumo de várias substâncias tinham aumentado no grupo experimental em comparação com o
grupo de controlo. Este estudo veio provar a crise paradigmática, fazendo abalar crenças nas
estratégias preventivas na área das drogas. O estudo mostrou que os programas baseados na
transmissão de conhecimento das drogas podem gerar efeitos iatrogénicos, ou seja, tem a ver
com o facto de um tratamento pode ter efeitos negativos/perversos, suplantando os potenciais
benefícios que lhe estariam associados. Começa a duvidar-se das intervenções baseadas no mero
conhecimento sobre drogas.

Uma das explicações avançadas na época, para esta situação de aumentar o consumo com
um maior conhecimento foi que quando se fala sobre as drogas está-se a dessensibilizar as
pessoas sobre o consumo, anormaliza-se o consumo, deixa-se de ver como algo proibido. Além
disso, a informação sobre as drogas tinha outro efeito iatrogénico, tratando-se de adolescentes
podia-se aumentar a curiosidade sobre as drogas. E o facto de muitas vezes estarem orientadas
para gerar medo nas pessoas era uma outra crítica lançada.

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Portanto, podemos dizer que há dois paradigmas que vão até aos anos 60.

Paradigma da instrução didática:

− com ênfase na transmissão de informação sobre as drogas;


− assenta numa integração nos currículos das escolas;
− com objetivos orientados para a abstinência;
− intervenções centradas em dimensões cognitivas;
− as intervenções apresentam uma validade empírica e teórica desconhecida.

O outro paradigma (sociológico) que vem de estudos como o de Stuart põe em causa o
anterior paradigma. Pretendendo diluir preconceitos que têm inibido o uso de droga nos
adolescentes, levar os indivíduos a pensar em si próprios como potenciais consumidores de
drogas, dessensibilizar os jovens relativamente ao uso de drogas e conduzir a uma
experimentação ao estimular a curiosidade dos jovens pelas drogas.

Com este “novo” paradigma defendia-se que:

− “lições” sobre drogas tornaram os sujeitos mais interessados por essas


substâncias e menos contrários à sua utilização (Morgan e Hayward, 1976);
− alunos do 9ºano de escolaridade que participaram num programa de informação
sobre drogas apresentaram níveis mais elevados de consumo de álcool, marijuana
e LSD, quando comparados com os estudantes do grupo de controlo;
− 75% dos jovens universitários a quem foi fornecida informação sobre as drogas
consumiam pelo menos uma droga, em contraste com 57% dos estudantes que
nunca participaram nesse tipo de intervenções (Hanson, 1980).

Tendências de prevenção das toxicodependências (Botvin & Dusenbury, 1989)

A prevenção é algo recente, sendo que estes estudos surgem no final dos anos 80, sendo
uma tentativa de mostrar como é que este domínio na intervenção nas drogas evolui. Estes
autores no essencial consideram fazer uma análise que consiste em delimitar 3 fases ou 3
gerações de programas:

1. 1ª Geração de Programas – há duas caraterísticas que se associam a esta geração,


sendo a primeira o facto de terem como objetivo transmitir informações acerca das
drogas, ou seja, o que carateriza a prevenção nas drogas (não dizem quando vigorou
ou terminou). Os primeiros esforços que se fizeram estão relacionados com o
transmitir informações sobre as consequências do consumo de drogas e o seu impacto
na vida das pessoas. Além disso, defendem um pensamento linear e reducionista –

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linear, porque o que esta abordagem considera é um dos fatores de risco do consumo
de drogas, centra-se apenas num fator. Assim, pode-se assumir que é a falta de
informação que impele as pessoas para o consumo de drogas (algo que se teria de
comprovar).
2. 2ª Geração de Programas – designam como fase de transição – o traço mais
distintivo desta fase diz respeito ao facto dos programas aplicados nesta estarem
associados a abordagens afetivas, ou seja, talvez o consumo de drogas não tenha a ver
com o conhecimento das drogas (a informação), pelo que defende que o que se tem
de fazer é quando estão a abordar as questões das drogas, os adolescentes devem ter
um espaço para examinar dimensões afetivas que possam estar relacionadas com o
consumo ou não de drogas. Uma dimensão afetiva são os valores (construto usado em
muitos domínios para explicar o comportamento humano, sendo subjetivo). Os
processos de socialização que ocorrem dentro de relações familiares permitem a
transmissão de informação e, portanto, a criação de valores, levando a considerar o
consumo correto/incorreto. A atitude das pessoas, talvez não resulte só da
informação, mas também do fenómeno afetivo, que leva a determinados
comportamentos. A mesma informação pode levar a atitudes e, consequentemente,
comportamentos distintos, pela forma idiossincrática como se trata a informação que
se recebeu. Desta forma, os jovens consomem drogas, porque os valores que
defendem em relação às mesmas não estão clarificados (defende-se nesta 2ªfase).
Assim, apoia-se que se devem clarificar os valores, isto é, discutir com os jovens o
que pensam acerca do consumo de drogas, percebendo-se o que acham aspetos
positivos ou negativos, o que acham quando se pratica crimes sob efeito de drogas,
entre outros. Quando tiverem os valores clarificados vão estar melhor preparados para
resistir ao consumo de drogas, tendo uma posição mais madura quanto ao fenómeno.
Estas abordagens tinham objetivos muito difusos, ou seja, aumentar a capacidade do
jovem fazer escolhas, escolher os seus valores. O Humanismo tem ganho uma
notoriedade no domínio da Psicologia pelas teorias que desenvolveram, por exemplo,
Maslow, com a Teoria da Motivação Humana, que procura explicar o que nos faz
“correr” no Mundo.
Esta é importante, porque, pela primeira vez, se assiste a um fenómeno nesta área: quando se
desenvolve estratégias de intervenção, elas devem ser suportadas por estudos, têm de
estar baseadas em investigação biopsicossial. Isto entende-se como um tipo de
investigação que procura identificar e compreender os processos sociais de iniciação
ao consumo de drogas. Permite identificar o que esta na base da decisão de usar ou
não as drogas, defendendo-se que não será a maior ou menor informação, mas a
exposição a influências sociais que podem sucumbir. A inoculação social é um termo

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trazido para esta área, sendo que, num primeiro momento, foi para prevenir,
inicialmente, o consumo de tabaco (equipa de investigadores liderada por Evans et
al.), estudando o que fazia com que os jovens comecem a consumir tabaco.
Verificaram que os fatores de iniciação ao consumo de tabaco são, evidentemente,
sociais, pelo que o que explica grandemente este efeito este início é a pressão de
pares, bem como a família, através de processos de modelagem (indivíduo adota o
comportamento que vê ser praticado por outro). A terceira fase dos efeitos sociais era
a publicidade, já que havia muita publicidade ao tabaco, na época. O programa de
inoculação social visava mostrar aos jovens as técnicas que a publicidade usava para
vender os produtos, realçando-se a técnica de associar o consumo de Marlboro aos
comportamentos de risco (enfrentavam as maiores aventuras, saindo imunes). Assim,
pretendia-se dar ferramentas ao jovem para resistir ao consumo do tabaco que lhe
eram transmitidas socialmente. Esta inoculação divide-se em duas componentes:
componente cognitiva não se centram nos efeitos do tabaco, mas pretende esclarecer
as pessoas acerca das influências sociais. Portanto, esta componente é uma
informação sobre o que origina a iniciação às drogas, numa perspetiva de fatores
sociais (fatores de risco). Para além desta, há a componente de treino de
competências que pretende apresentar vídeos aos adolescentes onde se representam
situações de pressão para fumar, onde há outras fases – observação e aquisição de
competências – o processo termina quando o indivíduo desenvolve capacidades para
resistir à pressão, ensaiando-se formas de reagir às tensões sociais (vindas do grupo
de pares), no sentido de recusar o uso de drogas, sem por em causa a aceitação que
valoriza por parte do grupo de amigos.
3. 3ª Geração de Programas – seria a geração mais avançada dos programas de
intervenção. Desta forma, baseiam-se em dois princípios: primeiro, atualmente as
estratégias de intervenção não devem ser uma intervenção curta, mas devem ser
programas, ou seja, é uma intervenção organizada em várias sessões, é um tipo de
intervenção com objetivos bem precisos (compreensivos e sistemáticos). São
intervenções que utilizam técnicas testadas empiricamente, mostrando eficácia e
eficiência. O programa deve ser complexo, composto de unidades específicas, mas
integradas. A segunda é que uma das técnicas deveria estar centrada em levar o
indivíduo a desenvolver competências para resistir às drogas. Além disso, dever-se-ia
verificar o que causa e os efeitos das drogas. É preciso adotar uma abordagem
flexível que permita responder às necessidades de informação de cada um (adequar
informação à população alvo).

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Prevenção baseada na intuição (William Hansen, 1996)

Desenvolveu três tipos de intervenção:

1. Prevenção baseada na intuição – diferente da primeira geração de programas, mas é


muito próxima da ideia de que grande parte do que se fez nesta área, numa fase
inicial, resultava da intuição do que doutro tipo de critério. Quando a prevenção
estava baseada na intuição podia-se atribuir caraterísticas a esse tipo de prevenção:
− focava-se na consequência para a saúde do consumo de drogas;
− focava-se nos efeitos farmacológicos das drogas;
− recurso a ex-toxicodependentes;
− justificação baseia-se em princípios do senso comum;
− havia uma ausência de procedimentos de avaliação.
2. Prevenção baseada na teoria:
− as prevenções já se baseavam na teoria não resultantes da investigação sobre
o consumo de drogas;
− ecletismo aberto em que múltiplas teorias dão suporte teórico a uma dada
intervenção preventiva;
− inclusão de procedimento de avaliação;
− os programas mais eficazes incluem abordagens baseadas nas competências
de vida nos modelos de influência social.
3. Prevenção baseada em dados empíricos:
− evidência empírica das variáveis mediatizadoras determina o conteúdo das
intervenções;
− a teoria é colocada em plano secundário relativamente aos dados empíricos;
− as variáveis que não permitem distinguir entre consumidores e não
consumidores não são selecionadas;
− as variáveis têm que ser modificáveis, isto é, atuar como agentes de
mudança nos programas de prevenção. Os fatores de riscos ligados à
prevenção são estáticos (idade) e dinâmicos.

Modelos de prevenção

Abordagens que se distinguem ao nível dos pressupostos teóricos que estão na sua
génese. Os modelos da prevenção mais não são do que um conjunto de pressupostos teóricos de
métodos e de princípios que regem o modo de conceber a prevenção (diferentes modalidades de
prevenção). Os princípios são aquilo a que se dá mais valor, podem ser as pessoas, por exemplo:

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o ser humano é iminentemente racional/não o ser humano não é completamente racional,


quando se adere a um dos princípios, está-se a fazer uma análise que permite a emergência de
diferentes modelos. Assiste-se ao surgimento de três modelos.

O grande salto que se deu na área de prevenção foi a elaboração de programas que têm
associados abordagem teóricas respeitáveis, ou seja, que derivam de domínios da Psicologia,
sendo uma dessas abordagens a psicologia social. O objeto de estudo da psicologia social é o
comportamento humano, tendo em atenção os contextos sociais que o podem interferir,
condicionar ou influenciar.

1. Modelo informativo

A Psicologia Social legitimou o aparecimento do modelo informativo de prevenção. A


psicologia social vai tratar da questão das drogas, reabilitando um modelo informativo. A
informação é importante, no ser humano, porque a adquire e processa, tendo influência no seu
comportamento, havendo uma relação entre informações, atitude e comportamento. A área do
marketing sofreu influências da psicologia social, porque tentou perceber o que levaria as
pessoas a consumir.

O que vem mostrar a psicologia social é que as informações não são negligenciáveis, mas
sim um aspeto fundamental, sobretudo, as informações persuasivas (o que pode ser um produto
sem qualidade, pode tornar-se apetecível), neste caso, pretende-se tornar as drogas um produto
não apetecível, mas rejeitável. No fundo, se se utilizar o modelo do marketing, pode-se obter
bons resultados, ao nível das questões da informação. Sendo importante utilizar-se os princípios
da informação persuasiva. Se a informação for dada na dose certa, considerando as caraterísticas
do recetor, conseguir-se-á ter atitudes favoráveis, que terão expressão no comportamento.

No que respeita à prevenção, a psicologia social analisa aspetos relacionados com:

− o emissor – qual o tipo de emissor que transmite uma imagem capaz de mudar as
atitudes dos agentes? O que é mais eficaz, quando se dá uma mensagens sobre
drogas, que se tenha um emissor especialista ou um par que tem caraterísticas
idênticas às do recetor dessa mensagem1?
− o recetor.
− a mensagem – saber se a mensagem sobre drogas vai ser ou não geradora de
medo, ou seja, do ponto de vista científico pode-se equacionar a questão de uma
determinada mensagem que visa um sujeito que não tem aquele comportamento,

1 Os adolescentes aceitam a mensagem, o impacto da mensagem é potenciado, sempre que é transmitida


por uma pessoa, ligeiramente mais velha do que eles, mas com caraterísticas de interesse próximas com
as quais se identificam (é o que teorias comprovam).

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pode ser ou não indicado contenha elementos que provoquem medo. Quando
transmite mensagem geradora de medo alto, há muitas vezes uma rejeição, pelo
facto de os efeitos não serem plausíveis e pouco credíveis, isto depende, também
da própria experiência e da experiência com os amigos.
▪ Unilateral – dizer aspetos negativos apenas;
▪ Bilateral – dizer aspetos negativos e positivos.

Neste âmbito, surge a inoculação psicológica, ou seja, a melhor maneira de proteger o


adolescentes, em relação ao consumo de drogas, é informa-los dos argumentos favoráveis que
vão ouvir. Fazendo isto, estará melhor preparado para lidar com esses argumentos e para os
perceber. É mais positivo conhecer antecipadamente afirmações favoráveis ao consumo do que
não o fazer.

Surgem, assim, abordagens com base nesta inoculação social, que deixam de estar
focadas na informação para se focarem sobre as influências sociais, que determinam a iniciação
do agente no comportamento/consumo de drogas.

2. Modelo Humanista

Este nasce da Psicologia Humanista. Um dos princípios mais importante deste modelo é
que a prevenção não releva de fatores cognitivos, mas releva de dimensões emocionais. Estes
fatores emocionais são os valores das pessoas, as necessidades que a pessoa procura na
utilização de uma droga. São estas dimensões que determinam o facto das pessoas virem ou não
a consumir drogas. Portanto, desloca-se o foco da substância (modelo informativo) para a
pessoa (modelo humanista), olha-se para crenças, necessidades. Advoga uma perspetiva
interacionista, ou seja, enfatiza as funções que as drogas têm para os indivíduos e para a
sociedade. No consumo das drogas não deve ser analisado as funções que têm para um
determinado sujeito, que vivem num meio social.

Assim, encontra-se, sobretudo, objetivos relacionados com o significado que o sujeito


atribui às drogas:

− Ajudar os indivíduos a compreender-se numa sociedade consumidora de drogas


(Floyd & Lotsof, 1978);
− Centração nos fatores emocionais e afeticos responsáveis pela iniciação ao uso de
drogas;

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− Promover um envolvimento ativo dos sujeitos nas atividades preventivas


(mediante o recurso de técnicas como role-play, as discussões em pequenos
grupos, etc.);
− Promover o autoconhecimento e a tomada de decisão responsável;
− Proporcionar ao indivíduo experiências em que o significado e funções do uso de
drogas possa ser analisado e discutido livremente.

A gestão emocional tem a ver com aquilo que a pessoa valoriza. Uma das críticas que se
pode colocar ao modelo é que o modelo não dá importância às influências sociais (fatores
determinantes na iniciação ao consumo de drogas).

3. Modelo cognitivo-comportamental

Com influência da Psicologia Cognitiva, este modelo integra um maior número de fatores
de risco no consumo de drogas. Dá-se muita importância às pressões, às influências sociais.
Vai-se considerar que um dos principais fatores de risco são as pressões sociais, bem como se
considera a iniciação ao consumo de drogas interpretada como um processo de aprendizagem
social. São esses processos que regulam o facto de poder consumir ou não consumir.

Além disso, concessiona-se a ideia de muitas vezes a pessoa não ser capaz de resistir às
tensões sociais, porque não tem competências sociais eficazes, neste sentido, pretende-se dotar o
sujeito de competências sociais, nomeadamente, de recusa às drogas.

Alguns dos objetivos associados a este modelos:

− Possibilitar ao indivíduo a identificação das influências sociais e situações de


pressão para usar drogas;
− Favorecer o desenvolvimento de competências para resistir a essas pressões;
− As competências devem refletir a vasta gama de fontes de influência (e.g. família,
grupo de pares, publicidade,…);
− O desenvolvimento dessas competências deverá reforçar a crença de que se pode
resistir com sucesso e dum modo socialmente aceitável a essas pressões.

Na realidade, o que acontece é a complementaridade dos três modelos.

Critérios de eficácia (em termos da prevenção)

NIDA (National Institute and Drug-Abuse) publica alguns estudos, neste âmbito. Uma
publicação mais antiga, em 1997 – princípios de prevenção do abuso de drogas em meio escolar

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–, sendo retomada em 2003, onde se acrescenta alguns aspetos resultantes da investigação sobre
prevenção. O primeiro (1997) abrangia crianças desde o ensino básico até ao secundário. A não
ser assim, abrangiam, pelo menos os adolescentes a partir dos 13-14 anos, até ao fim do ensino
secundário, pelo que estavam organizados em múltiplos anos de investigação.

Os princípios são ideia-chave, quando se desenvolve estratégias de prevenção:

− Usam materiais devidamente testados, com planos detalhados das sessões;


− Os programas ensinam competências de resistência às drogas mediante o recurso
a métodos interativos (modelagem, role-play, discussões);
− Promovem a ligação à escola e à comunidade;
− Promovem a aprendizagem da competência social (comunicação, auto-eficácia,
assertividade) bem como outras competências culturalmente apropriadas;
− Incluem uma duração adequada (10-15 sessões no primeiro ano e 10-15 sessões
de reforço);
− Promovem normas sociais contrárias ao uso de drogas;
− Existe uma avaliação no sentido de determinar se os programas são eficazes.

A publicação de 2003, mantem os mesmos princípios, acrescentando o princípio de que


os programas devem reforçar os fatores de proteção e reduzir os fatores de risco. Além disso:

− os programas de prevenção devem dirigir-se a todos os tipos de drogas lícitas ou


ilícitas, isoladas ou em combinação.
− os programas devem intervir sobre o problema do abuso de drogas na
comunidade e devem ser desenvolvidos em função dos riscos específicos da
população ou caraterísticas da audiência, como a idade, género ou grupo etário.
− os programas devem ser dirigidos à família, reforçando a qualidade das relações e
incluindo a aprendizagem de competências parentais;
− devem ser aplicados na idade pré-escolar de forma a contrariar fatores de risco do
abuso de drogas como o comportamento agressivo, fracas competências sociais e
fraco rendimento escolar.

Já para as crianças de ensino básico, os programas de prevenção deverão focar-se nas


seguintes competências:

− Autocontrolo;
− Regulação emocional;
− Comunicação;
− Resolução de problemas sociais;

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− Apoio à aprendizagem, particularmente na área da leitura.

Para os adolescentes, os programas devem aumentar a competência escolar e social


mediante a aprendizagem das seguintes competências:

− Hábitos de estudo;
− Relações entre os pares;
− Auto-eficácia e assertividade;
− Competências de resistência às drogas;
− Reforço das atitudes anti-drogas.

No geral, os programas dirigidos às populações podem produzir efeitos positivos, sendo


que os que combinam dois ou mais programas eficazes, são-no mais do que um único programa.
Porém, a eficácia dos programas acresce, quando se aplicam em diversos contextos – escola,
media, clubes. Sempre que uma certa comunidade adapta um programa, deverá reter os
elementos essenciais da intervenção (isto é, estrutura, conteúdo, implementação). Por fim os
programas de intervenção devem ter uma longa duração com intervenções repetidas.

Na última publicação incluem-se algumas das áreas onde se pode intervir. A melhor
intervenção é a que faz o empoderamento das pessoas, ou seja, desenvolver nas pessoas
competências de vida (se for capaz de regular melhor os seus sentimentos, se for mais capaz de
resolver os seus problemas), está globalmente mais protegida de consumir drogas. Deve-se
promover os fatores de proteção.

Assim, Cuijpers, 2002, propõe critérios de qualidade dos programas de intervenção em


meio escolar:

− Adoção de métodos interativos;


− Baseados nos modelos de influência social;
− Baseados em normas, compromisso para não consumir e intenções para não
consumir;
− Adicionar intervenções comunitárias às intervenções do programa;
− Adicionar o treino de competências de vida aos programas de influência social.

Redução de Riscos e Danos

Como é que se vai atuar, quando se verificou que as estratégias de intervenção


fracassaram?

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Neste caso, deparamo-nos com pessoas que se envolvem no consumo de drogas,


causando danos ao próprio e a terceiros. Neste sentido, direciona-se para o tratamento. Quando
se fala em estratégias de redução de riscos e minimização de danos, será que configuram
estratégias de tratamento? Elas ficam numa zona de transição entre prevenção e tratamento. Não
são estratégias de prevenção, porque o objetivo central é de reduzir os riscos e atenuar as
consequências negativas do consumo de drogas. Mas não é estritamente uma abordagem que
vise especificamente o tratamento, eliminado o consumo. A preocupação central do modelo de
redução de riscos não é tanto a de eliminar os consumos, mas sim de reduzir os riscos que
possam estar associados a esse consumo e quando já há impactos negativos, procura-se
minimizar esses danos.

É um modelo que vai romper com uma lógica de que a intervenção das drogas devia estar
orientada para a supressão dos consumos, era o critério da abstinência. A ideia de que a
intervenção podia incluir outros objetivos que não o principal (pessoas alcançassem abstinência)
confrontou algumas resistências. Na origem dessas resistências estavam o facto de ser um
domínio científico na área das drogas que lhe confere importância neste fenómeno. O
Congresso, em 1994, foi alvo de críticas por opositores à redução de riscos e danos, porque
defendiam que este modelo tinha capitulado perante o objetivo de erradicar o consumo de
drogas. Portanto, as sociedade deviam tomar medidas cujo efeito final fosse a erradicação do
consumo de drogas. O que se podia depreender com o Congresso da Redução de Danos, em
1994, em Toronto, era que esta abordagem humana e pragmática, desistia do erradicar do
consumo de drogas. Não se estava, prioritariamente, preocupados com a erradicação do
consumo, porque o objetivo destas intervenções era iminentemente pragmático, ou seja,
pretendiam aplicar medidas que fossem concretas e exequíveis.

Este modelo pode ser definido como “políticas, programas e práticas que visam reduzir as
consequências adversas ao nível da saúde, sociais e económicas do uso de substâncias
psicoativas legais e ilegais, que são baseados num forte compromisso com a saúde pública e os
direitos humanos” (Rhodes & Hedrich, 2010, p,37). As ações de intervenção das drogas que se
associa ao sistema de justiça têm algumas especificidades, por exemplo, se o consumidor é
criminoso, pelo que tem de ser perseguido, utilizando o meio mais adequado para erradicar o
consumo – isto seria o modelo repressivo.

Neste modelo, a perspetiva que se adota acerca do consumidor de drogas é antagónica ao


modelo repressivo. Enfatiza-se a ideia de que o consumidor de drogas tem problemas diversos,
nomeadamente, saúde e sociais, que resultam do seu envolvimento com a substância, sendo que
o foco deve ser minimizar os impactos negativos que elas têm nas suas vidas. Quando se
considera que alguém que consume drogas ilícitas a questão central é considerar criminoso,

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quando se admite que este pressuposto é válido está-se a infringir os direitos humanos do
consumidor de drogas, isto é, ao fazer isto faz com que outras dimensões sejam remetidas para
segundo plano, não se dá tanta atenção (saúde, economia, …).

Dados históricos

Se se procurar as primeiras tentativas de aplicação de estratégias de intervenção


relacionados com este modelo, encontra-se nos anos 70, nalguns países, como na Holanda, em
resposta às limitações do modelo de tratamento tradicional baseado na abstinência.

A partir desta data, foi considerada uma das abordagens mais adequadas de intervenção
nas drogas, tendo sido incluída nas políticas sobre drogas de vários países, como Holanda,
Alemanha, Inglaterra, Canadá e Portugal.

Em Portugal, nos anos 90, com a entrega de seringas, para diminuir a transmissão de
doenças foi muito contestada, ainda que não tendo impedido a execução da medida. Isto teve
um grande impacto, porque todas as farmácias disponibilizaram gratuitamente seringas
esterilizadas, tendo impactos na redução das doenças transmissíveis. Até ser aceite, foi
complicado, porque se colocavam objeções de natureza filosófica e pratica aos objetivos do
modelo, sendo objeções que emergiam nos próprios profissionais da área.

Em geral, a aceitação do modelo faz-se no decurso dos anos 80- 90.

O que é que favoreceu uma atmosfera propicia à aceitação do modelo?

Desde logo, a magnitude dos problemas relacionados com o consumo de drogas,


nomeadamente a injetada, pelo que mesmo os mais relutantes acabaram por aceitar esta solução,
pondo em primeiro lugar a saúde pública e não tanto a eliminação do consumo de drogas. As
bases científicas do modelo de redução de riscos surgem, porque A. Marlah escreveu um artigo
importante para a sua afirmação – “Venha receber apoio tal como está” – tendo tomado contacto
com o modelo Holandês que continha aspetos positivos, tendo incorporado no modelo de
redução de riscos:

− Realista e pragmático – alicerça-se numa abordagem social e de saúde pública,


deslocando a atenção para o consumidor com vários problemas necessário de
resolver;
− Recurso a estratégias de baixo limiar – se há uma pessoa com problemas de
drogas, o primeiro nível de exigência pode ser fazer uma desintoxicação – as
estratégias com baixas exigências;
− Abordagem social e de saúde pública;
− Tolerância – o consumidor não deve ser objeto de perseguição legal;

29
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− Políticas de normalização.
− Distinção entre drogas “duras” e drogas “leves;

No modelo holandês fez-se a distinção entre drogas duras e drogas leves – a cannabis é
ilícita, mas leve, pelo que se se separar os mercados evita-se que os consumidores da droga leve
entrem em contacto com as redes de tráfico e, consequentemente, evitar que se comecem nas
drogas duras. É uma normalização em relação ao consumo de cannabis.

O modelo Holandês é apresentado em contraponto ao modelo americano:

− Recurso a abordagens de alto limiar no acesso aos programas de prevenção e de


tratamento;
− Abordagem criminal – consumidor = criminoso;
− Tolerância zero;
− Políticas de “desnormalização”.

Um dos princípios básicos do modelo de redução de riscos e danos é de proporcionar ao


indivíduo a possibilidade de beneficiar de estratégias de baixo limiar. As estratégias de alto
limiar são mais do foro médico, pelo que não surtem efeito na maioria dos consumidores,
levando a que desistam do tratamento.

As estratégias de baixo limiar são flexíveis, pelo que se podem adaptar às necessidades de
cada um, não exige um pressuposto de que todas as intervenções têm de ter como objeto último
a abstinência. Não se exige mais do que o indivíduo tem capacidade para dar, radica na ideia de
pragmatismo.

O modelo de Merseyside (Reino Unido) é visto como precursor da abordagem de redução


de riscos e minimização de danos, porque em 1990, antes do grande congresso Internacional,
em Liverpool realiza-se uma conferência sobre redução de danos, sendo a instituição que a
possibilita a Merseyside Health Authority. Foi pioneiro na abordagem de medicalização, através
da qual se prescrevem aos utentes drogas como a heroína ou a cocaína numa base de
manutenção. Combate-se as drogas, dando-as ao indivíduo. Também se aplicaram medidas
como troca de seringas, informação/educação, prescrição de drogas, serviços de
aconselhamento, emprego e habitação. O modelo de redução de riscos tem preocupação
humanista, vendo a resposta aos problemas de drogas como estando inscritas numa perspetiva
mais global, entendendo que a drogas atingem fatores das populações.

A redução de riscos e danos em Portugal

− Visibilidade praticamente nula até meados dos anos 90;

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto

− Oficialização como medida necessária através do Dec. Lei 183/2001, ou seja, nos
anos 90 falava-se nelas, algumas praticavam as estratégias, mas não havia a
chancela governamental que permitisse dar um enquadramento legal a estas
medidas e integra-las num plano alargado de intervenção nas drogas. Esta
legislação sucede às indicações presentes na Estratégia Nacional de Luta contra a
Droga.

A primeira fase (clandestina) estende-se de 1977 a 1992, isto é, as intervenções eram


quase inexistentes. Mas, na segunda fase (1993-1998) é uma fase experimental, porque o
modelo começa a ter uma aceitação crescente, mas ainda não está oficializada, que permitiu que
as estratégias de intervenção associadas à redução de riscos e minimização de danos fossem
incluídas na nossa legislação. A terceira fase, estendeu-se de 1999 a 2005. O modelo começa a
ser difundido junto dos operacionais que operam junto das drogas, integrando-se, mais tarde,
estratégias do modelo na Estratégia Nacional de Luta contra a Droga.

Os dois grandes marcos, no que respeita à droga, no nosso país, foram a


descriminalização e consagração das estratégias de redução de riscos como estratégias Nacional
de Luta contra a Droga.

Quais os princípios do modelo de redução de riscos e minimização de danos?

1. O consumo de drogas é um aspeto inerente ao funcionamento das sociedades atuais,


sendo preferível minimizar os seus efeitos negativos do que ignorar ou condenar tais
comportamentos (“humanizar não demonizar” – a demonização pode acontecer por
parte dos técnicos, que aplicam as estratégias, potenciando a estigmatização).
2. O uso de drogas é um fenómeno complexo, multideterminado que inclui um
continuum de comportamentos desde a abstinência a um forte envolvimento em
drogas – os níveis e especificidades que o indivíduo pode ter com as drogas podem
ser variados, podendo ver-se vários graus desde não consumo até dependência, pelo
que as estratégias devem ser flexível para se adaptarem à diversidade do fenómeno.
3. Certos modos de utilização das drogas são claramente mais seguros do que outros –
pode-se aconselhar a pessoa a mudar de via injetada por modo de utilização sem
riscos do ponto de vista da propagação de doenças que é a via fumada. Mas há a
resistência por parte dos fumadores.
4. Os consumidores de drogas devem ter uma voz quando se trata de desenvolver
programas destinados a procurar resolver os seus problemas com as drogas.

Redução de Riscos

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto

As consequências negativas do consumo de drogas podem ser analisada no âmbito de um


continuum. Aliás, os passos que se vai dar para reduzir as consequências negativas, têm que
estar em consonância com o ponto de continuum em que ele ocupa em termos de consequências
negativas.
Há 3 paradigmas:

1. Excesso;
2. Moderação;
3. Abstinência.

Na redução de riscos, pequenas mudanças no modo de utilização, essas são sempre


positivas e benéficas para o sujeito, sendo que vão reduzir o impacto negativo que o consumo
pode ter na sua vida.

Princípios do modelo de redução de danos

O modelo de redução de riscos considera que a abstinência é um objetivo importante mas


exigente, e, assim sendo, se tivermos apenas focados na abstinência, pode acontecer que outras
pequenas mudanças sejam inviabilizadas.

A ideia de que as intervenções não estão exclusivamente centradas na questão dos


malefícios para a saúde, mas mais na promoção de qualidade de vida. Mais uma vez, coloca-se a
questão de abstinência que não é prioritária, a qualidade de vida do indivíduo pode ter-se sem
que implique o abandono dos consumos. O uso de drogas reforça as vulnerabilidades que a
pessoa já tem, nomeadamente sociais. Portanto, uma perspetiva integrada nas drogas deve
necessariamente contemplar estas vulnerabilidades sociais associadas às drogas. A pobreza, o
racismo, o isolamento social, a discriminação sexual e outras desigualdades sociais aumentam a
vulnerabilidade das pessoas para lidar eficazmente com os malefícios provocados pelo consumo
de drogas.

Caraterísticas básicas da intervenção do modelo

− Facilita o acesso a serviços de baixo limiar (e.g. programas de metadona) –


serviços de rua, por exemplo, que desenvolvem trabalhos de proximidade – como
uma alternativa a serviços de alto limiar (e.g. comunidade terapêutica), através de
estratégias como:
▪ Promover uma cooperação com a população alvo, tendo em vista
desenvolver novos programas e serviços;

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▪ Reduzir o estigma associado à procura de ajuda para esse tipo de


problemas;
▪ Proporcionar abordagens interativas (e.g., práticas sexuais e de
consumo de drogas de alto risco)
− Encorajar um trabalho de proximidade com os consumidores problemáticos de
drogas em diferentes contextos (ruas, hospitais e prisões) – são estratégias sociais,
podendo ser postas em prática por assistentes sociais, psicólogos, criminólogos,
entre outros.

Objetivos das abordagens de redução de danos:

− Vias de administração de drogas menos prejudiciais;


− Substâncias alternativas, menos prejudiciais (metadona, por exemplo) – uma
forma de o ajudar consiste em dar-lhe outra droga, dizendo-lhe as vantagens que
tem em trocar de uma para outra. Na área de drogas lícitas substituir o tabaco por
uso de pastilhas elásticas com nicotina;
− Reduzir a frequência do uso de drogas;
− Reduzir a intensidade do uso de drogas;
− Reduzir as consequências negativas do uso de drogas.

Objetivos das estratégias de prevenção baseadas no modelo de redução de danos


(Marlatt, 1998)

Quando se utiliza o modelo numa perspetiva preventiva o que se ensina às pessoas são
formas menos prejudiciais de utilizar certas substâncias:

− Aumentar a consciência do indivíduo em relação a comportamentos de alto risco


e as suas consequências;
− Promover a aprendizagem de competências de coping no sentido de ajudar a
pessoa a enfrentar situações de alto-risco que envolvam o uso de drogas ou
comportamentos sexuais;
− Facilitar a aquisição de comportamentos orientados para a promoção da saúde e
para a redução de riscos (e.g. treino de competências de moderação).

O programa é interativo, sendo que a informação é apresentada numa base interpessoal.


Evita-se o recurso a “palestras”, não havendo conteúdos pré-determinados da informação que se
vai apresentar, mas sim é apresentada em função das necessidades que as pessoas têm em saber,
como as consequências de determinado consumo. Utilizam-se role-plays para praticar
competências e ensaiar modos de atuação em situações de alto-risco.

33
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Os objetivos das estratégias de prevenção baseadas no modelo de redução de danos passa


pelo uso de álcool e drogas ser integrado em discussões sobre o comportamento sexual,
enfatiza-se a escolha pessoal e a responsabilidade. O objetivo geral das intervenções é aumentar
a consciência para os comportamentos de alto-risco e as suas consequências (benéficas ou
prejudiciais).

Como é que se intervem nesta área? Com intervenções relacionadas com o HIV/SIDA,
incluindo quer serviços direitos (e.g., substituição de seringas e material de injeção para
toxicodependentes) quer outros serviços como a prescrição de cuidados de saúde primários, a
psicoterapia ou o acesso a alojamento. Também se podem fazer abordagens de tratamento
orientadas para a abstinência ou tratamento de substituição.

Pode-se fazer, ainda, a gestão do uso – uso de drogas mais seguro (e.g., técnicas
adequadas de injeção, alterar o modo de administração da droga, consumir drogas menos
prejudiciais). Além disso, pode-se promover o consumo de drogas mais responsável (e.g., maior
controlo sobre quando como e com quem se consomem as drogas).

Pode-se, também, advogar mudanças na política das drogas, tornando os tratamentos mais
acessíveis, reduzindo as penas para os crimes relacionados com drogas, defendendo programas
de reabilitação social e de orientação profissional nas prisões.

Estratégias de redução de riscos para o abuso de drogas opiáceas

1. Programas de substituição com metadona – esta representa atualmente o método de


redução de danos mais eficaz. A metadona, um opiáceo sintético, previne a
ocorrência de sintomas de abstinência, diminui o desejo de consumir e bloqueia os
efeitos euforizantes de outras drogas opiáceas. É administrada oralmente, uma vez
por dia (em contraste com a heroína que é administrada entre 2-5 vezes por dia). O
método foi pela primeira vez utilizado em Portugal, em 1977, no então Centro de
Estudos e Profilaxia da Droga situado no Porto.
a. Reduz a atividade criminal;
b. Melhora a saúde física e psicológica dos participantes;
c. Estabiliza os sintomas psiquiátricos;
d. Forte redução dos riscos para a saúde (o modo de administração é oral);
e. Riscos reduzidos para o feto tratando-se de grávidas toxicodependentes (peso
abaixo da média mas ausências de anomalias no feto);
f. Taxas de retenção mais elevadas do que comunidades terapêuticas ou centros
de tratamento ambulatório.

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2. Alfa-Acetilmetadol (LAAM) – foi aprovada pela FDA (Food and Drug


Administration) como um agente de tratamento de manutenção da dependência das
drogas opiáceas, em 1993. É administrada oralmente (como a metadona), prevenindo
o aparecimento de sintomas de abstinência durante 72 horas comparativamente às 24
horas para a metadona. Implica unicamente três visitas por semana ao centro de
tratamento para administração da dose. Os resultados da avaliação mostram que o
LAAM é uma alternativa eficaz ao tratamento através da metadona.

3. Prescrição da heroína – programa bastante controverso. Visa retirar os


toxicodependentes da rua e do “mundo da droga”, fornecendo ao indivíduo a droga
(heroína ou cocaína) de que necessita. Destina-se em geral a indivíduos com várias
tentativas fracassadas de tratamento da sua toxicodependência. Os resultados da
avaliação são dum modo geral positivos (a taxa de HIV positivos manteve-se nos 5%
nos heroinómanos de Liverpool um valor bastante mais baixo do que noutras cidades
da Inglaterra).

ENTREVISTA MOTIVACIONAL

Porque é que a motivação é tão importante, quando se fala do problema de drogas?

A motivação para o paciente é muito importante, porque os obstáculos são


essencialmente de natureza motivacional.

Há duas conceções:

1. Clássica;
2. Atual

A forma como se pensava a motivação evolui de uma perspetiva clássica para uma
perspetiva atual. Na perspetiva clássica, a motivação era vista como um traço da personalidade,
ou seja, quando a motivação é vista como um traço significa que é imutável (podem nascer com
o traço de personalidade). No caso das drogas, a perspetiva clássica, repousava na motivação =
traço de personalidade – normalmente, as pessoas com problemas com as drogas são pessoas
desmotivadas, com fraca motivação para o tratamento.

Conceções acerca da motivação

− Motivação enquanto traço ou caraterística do toxicodependente (clássica);

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− Motivação enquanto probabilidade de uma determinada pessoa iniciar, manter e


aderir a uma estratégia específica de mudança (atual);
− Motivação enquanto capacidade para reconhecer o problema, encontrar um
caminho para mudar e manter essa estratégia de mudança;
− A motivação não como algo que a pessoa tem mas como algo que a pessoa faz;
− Motivação enquanto interação interpessoal – a taxa de retenção diz respeito ao
número de pessoas que completa o tratamento. Dependendo do terapeuta que
segue o indivíduo com problemas de drogas, encontra-se taxas de retenção mais
baixas ou mais altas, ou seja, o perfil do profissional é crucial para motivar ou
desmotivar a pessoa para o tratamento.

Nos anos 90, delineia-se uma abordagem para ajudar pessoas com problemas com drogas
(entrevista motivacional), tendo-se estendido a outras áreas, nomeadamente ligadas à saúde
(doenças crónicas, por exemplo). Surgiu, porque havia o problema de qual seria o tipo de
intervenção que ajudaria a diminuir as resistências da procura do tratamento.

As caraterísticas gerais do conceito de motivação, que são contrastantes com as


caraterísticas associadas à perspetiva clássica:

− Conceito dinâmico;
− Apresenta flutuações, ao longo do tempo;
− Influenciada por acontecimentos específicos;
− Depende do tipo de relação terapeuta-cliente (motivação como interação
interpessoal) – não tem tanto a ver com o indivíduo, mas com as atividades que
se faz com ele.

Antes utilizavam-se técnicas confrontativas – assume-se que são detentores de verdade e


se consegue ensinar a pessoa como se faz – são técnicas que põem em causa as suas decisões,
apresentando argumentos que fundamentam a contestação feita. Estavam muito associadas à
perspetiva clássica da motivação (delinquente como mentiroso/manipulador, pelo que a única
forma de o mudar era usar estas técnicas). Estas técnicas são o oposto da entrevista
motivacional.

Em alternativa a estas técnicas confrontativas, deve-se perceber antes como é que as


pessoas mudam. Para mudar é preciso reconhecer o problema, tendo a ver com os estádios de
mudança (Prochaska & DiClemente, 1982). A decisão não acontece de forma abrupta, mas sim
de forma gradual, que com algumas ações podem culminar na própria mudança.

Estes estádios procuram perceber as pessoas que não são capazes de reconhecer o
problema e entender as pessoas que já o reconhecem e procuram resolver.

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Pré-contemplação (1º estádio):

− Ausência de intenção em modificar o comportamento num futuro próximo;


− O indivíduo não tem consciência do seu problema;
− O recurso à terapia ocorre em resultado de pressões sociais – motivação
distrínseca;
− Resistência em reconhecer ou modificar o problema;
− Avaliação não tem intenção em modificar o comportamento nos seis meses
seguintes.

Contemplação (2º estádio)

− Consciência do problema;
− Considera seriamente a possibilidade de mudar;
− Não estabelece um compromisso para a ação – fase ambivalente;
− Procede a uma avaliação do tipo custos/benefícios;
− Avaliação: manifestar intenção de modificar o comportamento aditivo nos seis
meses seguintes;
− “Tenho um problema que gostaria de tentar resolver”

As pessoas que estão nestes dois estádios são pessoas que não perspetivam ainda os benefícios
da mudança, quer porque não têm consciência disso (pré-contemplação) quer porque se
encontram prisioneiros de uma situação de ambivalência (contemplação).

Preparação (3º estádio)

Funciona, quase, como uma etapa de transição entre os dois anteriores e os que se
seguem.

− Intenção de atuar durante o mês seguinte;


− Tentativas mal sucedidas de alterar o comportamento no passado;
− O indivíduo refere pequenas mudanças comportamentais (e.g., redução dos níveis
de consumo).

Ação (4º estádio)

− Modificação do comportamento ou meio ambiente com vista a solucionar o


problema: deixar de consumir; evitar o grupo de pares, …, mostra que o seu nível
de motivação é elevado.

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− Abandono do consumo de drogas ou imposição de diferentes tipos de controlo


sobre esse comportamento;
− Avaliação: alteração do problema com as drogas por um período de um a seis
meses;
− “Estou a tentar mudar com todas as minhas forças”.

Manutenção (5º estádio)

− Ações visando uma consolidação dos ganhos obtidos no estádio precedente;


− Ações destinadas a prevenir a recaída;
− Avaliação: ser capaz de permanecer livre do comportamento aditivo por um
período superior a 6 meses;
− “A manutenção não é ausência da mudança mas a continuação da mudança”
(Prochaska & DiClemente, 1984)

Estes estádios não são uma sequência linear, quando há um processo de mudança, eles
percorrem sequencialmente os estádios, mas pode haver avanços e recuos.

Recaída (6º estádio)

− Incapacidade de manter a mudança comportamental;


− Eventual retorno aos estádios de pré-contemplação ou contemplação.

Deve-se saber, antes de intervir, em que estádio é que se encontra.

Porque é que estas questões são importantes, nas áreas das drogas? Há estudos que
estudam a relação entre estádios de mudança e eficácia do tratamento:

− Só 22% das pessoas no estádio da pré-contemplação é que mostraram uma reação


positiva ao tratamento;
− No estádio da contemplação, só 43% mostraram uma reação positiva;
− No estádio de ação ou preparação, 76% tiveram sucesso.

Portanto, a eficácia do tratamento consegue-se mais facilmente, quando estão em estádios


mais avançados.

A entrevista motivacional pode ser utilizada individualmente ou em grupos, visando


diminuir as resistências ao tratamento, levar a que o indivíduo adira a um plano de mudança,
pelo que se apoia no modelo dos estádios de mudança.

Além disso, há nesta o princípio de que o indivíduo é o principal responsável pelas suas
decisões, ou seja, dá-se responsabilidade ao sujeito pelas suas escolhas, na área das drogas.

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Rejeita-se técnicas confrontativas, dando-se importância à escuta atenta e à reformulação


enquanto meios de diminuir a resistência do indivíduo ao tratamento. A entrevista motivacional
é uma “Diretiva, centrada no cliente, visando desencadear mudanças comportamentais, através
da ajuda ao indivíduo no sentido de explorar e resolver a ambivalência” (Miller, 1996).

Que tipo de relacionamento se deve ter com as pessoas? Devemos ter um relacionamento
que produza um impacto positivo no indivíduo.

O propósito da entrevista motivacional enfatiza um obstáculo com o qual se depara


frequentemente quando se pretende ajudar alguém a mudar e quando se tem essa intenção,
normalmente há um obstáculo difícil de superar que se tem de enfrentar para ajudar a pessoa –
as pessoas devem estar psicologicamente preparadas. Desta forma, é muito importante o
indivíduo reconhecer o problema. As pessoas com problemas com as drogas têm muita
tendência de negar o problema, sendo que o não reconhecimento é um grande obstáculo.
Ressalvando-se que a ambivalência é, também, um conceito fulcral para o uso da entrevista
motivacional, porque o indivíduo está numa situação ambivalente (há razões que favorecem e
outras que prejudicam). O consumo de drogas, quase sempre, está ligado à vivência
ambivalente.

Para ajudar a reconhecer, a entrevista motivacional, aponta-nos algumas atitudes que


podem funcionar como fatores para que a pessoa reconheça que tem o problema:

− Fornecer informação – dá-se uma informação básica, com base no nível de risco.
Quando se assume uma relação de contrariar o indivíduo, leva a que ele não
reconheça o problema;

Isto possibilita que ele vá ponderando a possibilidade do consumo o estar a afetar,


podendo reconhecer e abandonar o mesmo.

Quando queremos diminuir os obstáculos para que a pessoa mude, aumentar a motivação
para a mudança, também se pode ajudar a:

− Fazer um exercício de ponderação/avaliação das vantagens e desvantagens de


manter um comportamento – isto tem um impacto importante ao nível da
motivação, porque se se confrontar o indivíduo com o identificar de custos e
benefícios o desenvolvimento lógico é de que ele vá reconhecendo, cada vez
mais, mais custos e menos benefícios associados ao comportamento aditivo. Este
exercício chama-se “balanço decisional” aumenta a capacidade do indivíduo
reconhecer que tem um problema, apresentando argumentos para mudar. Os

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argumentos que ele apresenta não são dos outros, mas os que a reflexão gerou. Os
argumentos têm de partir do próprio.

A entrevista motivacional é a fase que antecede uma qualquer mudança, porque a pessoa
não está preparada para a mudança. É muito importante desencadear afirmações
automotivacionais, ou seja, é uma afirmação que exprime uma dimensão de envolvimento na
mudança de caráter cognitivo, emocional ou comportamental.

Afirmação automotivacional de caráter cognitivo – “Eu sei …” – faz uma espécie de


reconhecimento do problema, sendo que realça os aspetos do conhecimento que tem sobre o
problema.

Afirmação automotivacional de caráter emocional – “Estou preocupado com o meu


consumo de álcool!”

Afirmação automotivacional de caráter comportamental – “Vou parar de consumir.”

Princípios da entrevista motivacional

1. Expressar empatia – a aceitação facilita a mudança; a escuta reflexiva é fundamental;


ambivalência é normal.
2. Desenvolver discrepâncias – um conhecimento das consequências é importante; a
discrepância entre o comportamento atual e determinados objetivos de vida poderá
motivar a mudança; o cliente deve apresentar os argumentos para mudar.
3. Evitar a argumentação – a argumentação é contraproducente; a resistência é um
indicador de que se devem mudar as estratégias; a etiquetagem é desnecessária.
4. Diminuir a resistência ao tratamento – as perceções podem ser alteradas; sugerem-se
novas perspetivas; o cliente é um recurso fundamental na procura de soluções para os
problemas.
5. Reforçar a auto-eficácia – a crença na possibilidade de mudança é um importante
motivador; o cliente é responsável por escolher e executar estratégias específicas de
mudança; transmite-se um sentimento de esperança em relação às diferentes
estratégias de mudança propostas. Portanto, cada um tem uma perceção acerca de si
em termos de nível de auto-eficácia. As pessoas com elevada auto-eficácia são
pessoas que atingem resultados muito mais positivos do que pessoas com baixa auto-
eficácia.

PARTE 2
Jorge Quintas

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Faculdade de Direito da Universidade do Porto

Condutas de consumo de droga são proibidas. O álcool e o tabaco são de uso livre, ainda
que com restrições. No entanto, não é crime o seu consumo, já que foi descriminalizado, em
2001, em pequenas quantidades.

Quais as consequências do crime? As penalizações? No Brasil não é possível ir preso por


consumo de drogas. Em Portugal, não sendo crime, mas havendo uma limitação de qualidade,
gerou-se uma relação ambígua: não se trata como crime nenhum consumo, chamando atenção
ao “transporte” da droga. Num país de descriminalização é possível ir preso por consumo, ainda
que seja raro (houve já alguns sujeitos que foram presos, pelo consumo, por terem quantidades
superiores ao que era indicado). A lei de descriminalização revogou a que dizia ser crime,
surgindo um vazio legislativo, o que levou a “ressuscitar” a lei antiga. Apesar de ter revogado o
crime, ressurge o crime (acórdão 8/2008).

O que são, então, as drogas? São substâncias que alteram o comportamento, que podem
criar dependência. Mexem com a consciência, sensação, perceção, com o corpo e com a
afetividade. Estas drogas têm uma caraterística em que o pouco pode mudar muito. É, por isto,
que são procuradas: para mudar alguma coisa. Por comparação, os alimentos, em geral,
ingerimos muito e não alteram nada. A história das drogas é a história da civilização do mundo.
Ninguém fala nem de lei nem de doença. Algumas têm essa potencialidade. No início, na China,
na Suméria, em toda a área do Sul, os Homens descobriram vinho, cerveja, opiáceos,
canabinóides, entre outros. O ópio era produzido e cultivado. A história das drogas é sinónimo
da história do Homem, não há civilizações sem drogas. Usavam as drogas para curarem
doenças, a indústria farmacêutica surge disto. Usavam para prazer. Portanto, o uso de drogas
tem motivos tripartidos: religião, tratamentos e hedonismo.

As drogas são, mais ou menos, localizadas, há mais ou menos drogas em certos locais do
mundo. Todavia, a certo ponto, os europeus começaram a fazer expansão, nas expedições pelo
Médio Oriente, indo parar a um dos sítios dos opiáceos: Índia, Paquistão. Não há nenhum fiscal
que verifique a entrada destas drogas, no início, na Europa, sendo fácil traze-las. Desta forma,
portugueses e espanhóis andam à descoberta do mundo, descobrindo o continente americano,
rico em substâncias psicoativas. Rei D. Manuel II foi um dos Homens que pertenceu a esta
“operação”, as drogas eram vendidas, livres, autorizadas e usadas pelos Estados.

O século XVIII foi marcado por desenvolvimentos farmacêuticos, o nascimento da


indústria tem muita ligação com quem começou a querer produzir algo diferente do que pura e
simplesmente colhe-la das árvores. No século XIX, começa-se a difundir o consumo pelas
classes superiores, como artistas.

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As drogas têm uma componente misteriosa, ligada às artes, parece que ajuda os artistas.
Em 1850, a morfina surge, com auxílio das seringas (1890), que até então não havia. Mais para
o final do século, na Alemanha, a Bayer, tem a heroína, que foi vendida, durante 15 anos, para
melhorar tudo o que tinha a ver com pulmões e vias respiratórias, alívio de dores e tratamento
da morfinómania.

O final do século XIX é um período em que nos EUA cresce um movimento musculado
de tentativa da proibição das drogas, com todas as substâncias (ultraconservadores), embora já
os chineses tenham pensado nisso. Na Europa, há também uma preocupação com a saúde
pública, com o consumo excessivo, numa altura em que crianças trabalham 14-15horas diárias,
pelo que a maioria consume todo o tipo de substâncias, gerando um problema, por razões
humanitárias. O problema da saúde e a tentativa do proibicionismo surge nesta altura (final do
séc. XIX início do séc. XX que os Homens começaram a pensar na saúde pública).

No século XX, em Xangai, em 1909, os EUA (com o bispo Brent) assinaM e outros
países queriam impor uma moral ao mundo para proibir as drogas, entre os quais estava
Portugal. A primeira conferência Mundial sobre drogas tinha como intenção acabar com as
drogas no mundo. Os alemães apoiaram, excetuando o uso médico. Os portugueses não
queriam, deviam olhar às culturas das populações. O que está em causa não era o mal que as
substâncias fazem, mas a proibição do álcool para os portugueses. Desta forma, os EUA
implementaram a “Lei Seca Americana”, em 9 anos. Em Haia (Holanda), em 1912, Conferência
dos Primeiros Primórdios da Proibição das Drogas. A primeira grande proibição das drogas
interdindo-se o consumo e comércio delas, exceto para uso médico, incluindo os opiáceos
(contido em medicamentos). As drogas continuaram a ser relevantes, mas com as Guerras foram
atenuados estas questões. A maior parte dos Estados, as primeiras leis surgem nos anos 20, em
Portugal, em 1926. Nos anos 30, marcam outras convenções, porque não haviam grande
controlo, polícias especiais, continuando os povos, relativamente, tranquilos com o uso de
drogas.

Nos anos 60, as drogas são de artistas, culturas próprias, marginais, é um problema com
pouca visibilidade, pelo que os Universitários fazem uma revolução: Movimentos Hippies –
religiões diferentes, sexo livre e drogas, todos tomavam drogas, todos contestavam. De repente,
as drogas estão no centro da preocupação, as drogas contestam a organização social. As drogas
são o inimigo, número 1, da sociedade americana. Já não estávamos a progredir, está a guerra
aberta, todos os meios são legítimos para lutar contra as drogas. Mixel quis fechar fronteiras
para impedir a entrada das drogas. Estamos em guerra com as drogas, desde esta altura. Há
muitas consequências desta guerra.

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Começou-se a tratar as drogas de uma forma muito severa. É por esta altura que as
sociedades ocidentais começam a tomar como grande preocupação pública as drogas,
penalizando-se o próprio consumidor. A guerra às drogas é marcada com muitas diferenças de
tratamento de pais para pais, mas há uma similitude é que deviam fazer tudo para combater este
fenómeno (guerra verdadeira, destruir colheitas). Mas o problema parecia não se resolver,
pensava-se que havia ainda mais problemas com esta atitude, nos anos 80/90, com mais
problemas de saúde e integração social, maior número de presos.

No início é o movimento de contestação, no entanto, torna-se mais abrangente mais tarde,


entrando outros setores a contestar todas estas ideias como economistas liberais, dizendo que
atentava contra a liberdade do comércio, outros ensinavam e promoviam, como Jorge Sampaio.

É preciso não se penalizar os consumidores, porque é um problema de saúde pública são


necessárias medidas de saúde e educação. Começam a aparecer experiência, nomeadamente
portuguesas, de modos de lidar com as drogas de forma legal, alterando os estatutos. Nalguns
estados propôs-se a descriminalização do consumo de cannabis, como os EUA. Estamos num
período de crise da incerteza de como responder a este problema.

Na verdade, existe um ambiente mais repressivo, mais libertador, mais de saúde pública,
representado por algum movimento de legalização (como da marijuana). São movimentos
sociais que querem a legalização das drogas, muitos e diferentes momentos e alternativas à
guerra das drogas.

Portanto, podemos ter consumo destas substâncias sem que não aconteça nada às pessoas,
locais onde já há alguma legalização ou, noutros, onde se pode mandar prender. Vivemos
tempos de grande mudança em matéria da regulação das drogas.

Devemos prevenir o uso das drogas, não é contesta-las. Devemos tratar as pessoas que
têm problemas que são dependentes de drogas, do ponto de vista da saúde, mas nem sempre está
disponível para estas pessoas os cuidados terapêuticos de que elas necessitam e, nem sempre
temos uma abertura suficiente para considerarmos um problema que devemos tratar. Desta
forma, podem ter um problema de saúde de que pode ser dependente de uma substância, mas
devemos tratá-los? Nem sempre se investe o suficiente no seu tratamento, defendendo-se que se
deve antes prevenir, mas em geral defende-se que se deve tratar.

O tratamento da dependência das substâncias é dos mais difíceis de tratar. Há sítios onde
é difícil aceder a um tratamento. Em Portugal, as pessoas achavam que se deviam tratar, mas
que não devia ser perto das suas casas.

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As dúvidas principais tem a ver com o direito – qual o melhor regime? Como é que
devem ser punidas? Só para consumidores? Para traficantes? Ou podemos introduzir comércio
de droga? – redução de danos e dos riscos de consumo – tudo o que tiver a ver com o saber
que há pessoas que vão ter consumo, tentando que elas consumam com menos problemas para
si e para os outros (ex.: oferecer seringas – medida profilática de altíssimo valor por causa do
HIV e das Hepatites, útil para prevenção de doenças relacionadas com o uso de drogas). Quando
se fala de redução de danos sabemos que podem ou não querer tratar-se, mas facilita-se e
melhora-se o consumo. Há contestações porque consideram que estão a ajudar que ele consuma,
achando que se não lhes derem seringas vão inibir-se de consumir. No lugar de comprar heroína
no mercado negro, dá-se-lhes a heroína e metadona, sem precisarem de ter problemas com o uso
dessa droga. Há um conjunto amplo quando se presta auxílio às pessoas. É possível dar coisas a
pessoas, fornecer serviços a pessoas que não estão exatamente a pensar que aquelas pessoas não
vão consumir drogas, mas querem diminuir os riscos. Há questões legais que pode levar a
contradições.

Se for um crime o consumo pode ter um polícia a detetar, o juiz a punir com o máximo e
outro que não, tendo um técnico a tratar uma pessoa.

EM PORTUGAL…

Portugal era um país, até aos anos 70, cuja tradição do consumo de drogas era diferente
de outros países do mundo, não tendo essa tradição, em Espanha consume-se mais do que em
Portugal.

O nosso país tem tradição de utilização de vinho, havendo muitos problemas com
alcoólicos, com o tabaco (fuma-se muito).

Drogas ilegais na metrópole portuguesa eram coisas estranhas, não existia. Os


portugueses que tinham problemas com elas estão em Macau, Goa ou Índia onde tinham
contacto com os opiáceos, trazendo depois muita mais droga do que existia na cultura
portuguesa.

É no pós-25 de abril que começa a haver comércio de produtos cannabinóides e comércio


de substâncias psicoativas. Têm o primeiro contacto com as drogas, nas festas, salões de jazz,
sendo que os retornados tinham muito mais essa experiencia e os soldados. Surge de um
momento para o outro, quase. Começa a vender-se, no Porto e Lisboa, heroína, sendo uma parte
dessa anterior geração que consumia cannabinóides. A preocupação é um pouco precedente que
tem a ver com o mundo exterior a Portugal – com o pós-25 de abril surgem as drogas – lá fora já
havia a preocupação das drogas, surgindo o Centro de Estudo da Juventude, no final de 75. Em
76, cria-se o Centro de Estudo e Profilaxia das Drogas, abrindo centros em Lisboa, Coimbra e

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no Porto (Boavista). No ponto de vista da polícia, cria-se uma polícia especial para as drogas,
que mais tarde é reintegrado na Judiciária. Cria um Gabinete Coordenador do Combate à Droga.

O problema ultrapassa os centros. Nos anos 80 está a heroína a entrar no país. Está-se
numa fase de transição, onde o problema de droga se agudiza, mais problemas, mais gente a
consumir. Os nossos níveis de consumo são geralmente sempre mais baixos. Os anos 80/90
veem nascer toda uma nova geração de consumidores de droga. Há uma visibilidade pública do
consumo das drogas, com poucas respostas.

Resposta clínica do Centro de Atendimento das Taipas, em Lisboa, abre em 1988, o


Centro de Tratamento, na Cedofeita. Passamos a ter uma concentração com a preocupação nos
opiáceos.

É um problema que começa a trazer uma grande reflexão, de que as respostas deviam ser
equacionadas, com o Governo de António Guterres, com José Sócrates na matéria das drogas,
criaram uma nova estratégia portuguesa para a luta contra as drogas. Em 1998, o governo
decidiu que se devia dar uma nova direção à política das drogas, tendo peritos a dar parecer aos
políticos, percebendo-se que era preciso introduzir políticas de reduzir riscos de danos
(prevenir), cuidar os danos do consumo e mudar a politica da regulação legal das drogas.

Foi no início do século XX, com a preocupação com a saúde das pessoas e uma tentativa
de acabar com tudo o que fazia mal (EUA que queria o mundo puritano), que surgiu a regulação
das drogas.

A intenção do Bispo Brent era acabar com tudo o que era psicoativo, proibindo tudo. O
ideal era um mundo sem drogas. A primeira objeção foi a do álcool. Pelo que a primeira
discussão foi saber quais as drogas. O álcool exclui-se, mas opiáceos ficaram só para produzir
medicamentos. Portanto, uso terapêutico médico, científico era admitido, em Xangai, em 1909.
Já em Haia, em 1912 é introduzida a ideia de interdição, mandando fazer legislação para proibir
o uso de drogas, que cumprem algures nos anos 20. Em Genebra, em 1925 e 1936 é frisado que
não se quer o comércio de drogas.

Depois destas convenções internacionais, não há uma politica internacional e muito


menos polícia internacional, pelo que é importante que cada país introduza uma lista das
substâncias e respetiva punição. A preocupação é com o consumo, mas não dizem que os devem
punir, a questão era o comércio, são convenções que se focam nos aspetos fiscais. Em Nova
Iorque surge a Convenção Única sobre Estupefacientes (1961), há a imposição de uma moral,
que visava controlar “a saúde física e moral da humanidade” e também controlar a fabricação e
comercialização de produtos por via repressiva. A moral era: “não toquem em drogas”, era
absolutamente proibido. Centenas de países assinaram esta convenção. É uma política que apela

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à repressão do comportamento. O mundo acertou que reprime o tráfico e consumo da droga, só


valendo o álcool, o tabaco e os medicamentos, sendo tudo o resto proibido.

Em 1971, há a Convenção sobre as Substâncias Psicotrópicas defendendo a penalização


do tráfico de drogas, prendendo e submetendo às penas mais pesadas de sempre os traficantes
de drogas (severidade, repressão musculada). Começa a haver a ideia de tratar certas pessoas,
que se cuide no âmbito de processos penais. No processo penal para consumo cada país deve ter
respeito pela convenção internacional, se se tratarem, se forem cordiais e deixarem de consumir
já não vão presas, é ideia de tratamento no lugar de prisão. A complicação é que quem vende
também consome.

Em 1988 surge a Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de


Estupefacientes e Substâncias Psicotrópicas (Viena), voltando-se a penalizar os traficantes, mas
surge a necessidade de controlar os precursores e dá-se atenção ao branqueamento de capitais,
porque é introduzido no mercado financeiro. O mercado financeiro legal não é desligado do
tráfico de drogas.

AS LEIS DAS DROGAS

Foram possibilitadas por termos aderido às Convenções no inicio do século. Portugal


decidiu, em meados dos anos 20, instalar uma legislação que proíbe as drogas. Pode-se chamar
de legislação extravagante, ou seja, grosso modo os crimes estão no Código Penal, mas a
questão das drogas não.

Em 1926, é que passou a existir uma legislação que interditiu o uso de determinadas
drogas – Decreto 12 210, de 31 de agosto – 1º diploma substantivo do direito das drogas,
interditou, exceto para uso médico/cientifico, mas não uso recreativo.

A legislação não parte da criação de nenhum problema. Particularmente, em Portugal, não


existia nenhuma preocupação com o uso ou comércio de drogas, era largamente conhecido,
usado em meios artísticos e médicos, mas não há necessidade nenhuma do país estabelecer uma
proibição de drogas. Foi apenas uma obediência à ideia de que deviam controlar o comércio
internacional de drogas. Tanto assim é que o uso propriamente dito não é muito divulgado, não
se diz que o consumo é proibido, mas sim que se pretende controlar o comércio de drogas – lei
de controlar o movimento aduaneiro das substâncias, não tanto preocupado com o consumidor.

O artigo 13º enuncia quais as proibições em matérias de drogas com implicações penais.
Portanto, (artigo 13º, a)) “todo aquele que, sem estar autorizado a negociar com drogas
medicinais, importe ou exporte, detenha, prepare, compre ou venda, ofereça à venda ou

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pretenda comprar ou forneça de qualquer modo, mesmo gratuitamente, os produtos” designados


no artigo 2º incorre na prisão correcional de 6 meses a 1 ano e multa de 3000 a 5000$00.

Alínea b) farmacêuticos que forneçam estes produtos “ao público, sem receita médica ou
em quantidade superior à indicada na receita (…) e as pessoas que procurem obter esses
produtos ou os tenham obtido servindo-se de uma receita alterada ou falsificada ou de uma
receita já aviada” incorre na prisão correcional de 6 meses a 1 ano e multa de 3000 a 5000$00.

Alínea c) “importadores, depositários, fabricantes ou comerciantes de drogas e 2º a


pessoas não autorizadas a adquiri-los para exercício da sua profissão ou para uso científico” ou
que não observem o regime instituído para autorizações e licenciamentos incorre na prisão
correcional de 6 meses a 1 ano e multa de 3000 a 5000$00 (negligencia será punida com pena
de multa até 1000$00).

Alínea d) “dono ou gerente de casas de reunião e divertimento, tais como clubes e cafés,
ou de casas de toleradas ou de passe que nelas consintam o uso ou tráfico de estupefacientes
incorre na prisão correcional de 6 meses a 1 ano e multa de 3000 a 5000$00 (pena acessória de
encerramento do estabelecimento por tempo não inferior a 1 ano.

Alínea e) “os médicos, no caso de não preencherem corretamente as receitas, indicando a


sua identificação pessoal e a do doente, bem como os farmacêuticos que avisem tais receitas”
incorrem numa multa de 500 a 1000$00.

É a primeira vez que Portugal tem uma interdição e punição associadas.

EVOLUÇÃO LEGISLATIVA PORTUGUESA

Não havia casos de tráfico ou consumo de drogas relevantes. Praticamente, não houve
aplicação. Há legislação que estabelece interdição, no entanto, não há casos.

Em 1970 (DL 420/70, de 3 de setembro), vive-se tempos de mudança, breve, temerosa,


mas é o período final da Ditadura, tempos de Guerra Colonial, vivia-se fora do país tempos de
gerações a contestar (tempos “loucos”). Surge, nesta época, uma nova lei, sobre drogas, a mais
punitiva das leis. Em Portugal, em 70, pretende-se com a lei prevenir. Em 1971, houve um
movimento de contestação: Droga, Loucura e Morte, foi o “susto antes do surto” – cuidado para
algo que não acontece. Os jovens mais providos financeira e socialmente, têm algum acesso a
essa informação. Neste contexto, aparecem os consumos de drogas. Não há propriamente um
mercado, ainda.

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A questão, agora, era olhar para o utilizador final – consumidor – quem é e o que se deve
fazer? É alguém que se deve considerar como grave transgressor das normas sociais. É um
criminoso. O indivíduo que vai consumir as substâncias que se proibiu vai cometer um crime e
põe o Estado em causa. Começa a distinguir consumidor de traficante. Devia-se agir sobre ele,
tornando possível que se regenere. Maior penalização para que não se verifica-se consumidores,
ou seja, devia-se prevenir, porque as drogas tinham perigosos diversos sobre a saúde física e
moral (racionalidade criminal).

As leis portuguesas passam a olhar para o tráfico e consumo, sendo preciso diferenciar,
mas punir (também de formas diferentes).

DL 420/70, de 3 de setembro:

− Tráfico (artigo 2º, nº1) – Aquele que importe, exporte, compre, obtenha de
qualquer modo, produza, prepare, cultive as plantas donde se possam extrair,
prescreva, ministre, detenha, guarde, transporte, venda, exponha à venda ou de
qualquer modo ofereça ou entregue ao consumo estupefacientes será condenado
a prisão maior de dois a oito anos e multa de 10000$00 a 100000$00.
− Tráfico (artigo 5º) – O médico que prescreva estupefacientes sem que para tal
haja necessidade terapêutica ou em doses superiores às necessidades
terapêuticas com intenção de favorecer o abuso de estupefacientes será punido
com prisão de dois a oito anos e multa de 10000$00 a 100000$00.
− Tráfico (artigo 5º) – Aquele que forneça indicações falsas para obter uma receita
ou requisição de estupefacientes será punido com prisão até três anos e multa de
5000$00 a 50000$00.
− Tráfico (artigo 6º) – O proprietário, possuidor, detentor, administrador ou
gerente de casas ou recintos, ou por eles de qualquer modo responsável, que
nesses locais consentir o uso ou guarda ilegal de substâncias da lista anexa será
condenado a prisão e multa de 10000$00 a 100000$00.
− Consumo (artigo 2º, nº2) – Se os actos previstos no número anterior se
destinarem a uso pessoal do agente, ou a uso alheio, mas sem intenção lucrativa,
quando se não destinem à prática de crimes sexuais, a pena será de prisão até
dois anos e multa de 5000$00 a 50000$00.
− Consumo (artigo 4º, nº1 e 2) – Quem, por efeito do uso habitual de
estupefacientes, se torne perigoso para si ou para outros, ou provoque escândalo
público, será punido com prisão de seis meses a dois anos e multa de 5000$00 a
50000$00.

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Na mesma pena incorre quem consuma estupefacientes na presença de terceiros com a


consciência de poder incentivar ou difundir o uso de estupefacientes.
− Consumo (artigo 4º, nº3) – Quando o uso habitual de estupefacientes houver
provocado uma toxicomania, aplicar-se-á o regime do parágrafo 2.º do artigo
71.º do Código Penal – de 6 meses a 3 anos.

A legislação portuguesa cresceu muito do seu potencial repressivo sobre traficantes e


sobre consumidores de drogas, sendo que nesta se chegou ao topo da punição.

Em 1983, surge o Decreto-Lei 430/83, de 13 de dezembro, preparando-se a entrada de


Portugal na União Europeia. Após o 25 de abril de 1974 começaram a tomar substâncias,
consumos mais generalizados, mas muito concentrados nos jovens (15/16/17 anos). Nesta
altura, aparece um forte mercado de heroína. Não se mexeu na lei que penaliza o consumo, mas
na criação de estruturas policias que não interferem no que está estabelecido na lei de 70.

Este decreto de lei diz expressamente que tem dois objetivos: controlar o mercado ilícito
de estupefacientes (já instalado) e controlar a procura (contribuir para o tratamento dos
toxicodependentes). A pena serve, agora, para tratar. O principal objetivo é incentivar o
tratamento (racionalidade biopsicossocial), a ajuda, não pensam nos consumidores criativos.

DL 430/83, de 13 de dezembro:

− Tráfico e atividades ilícitas (artigo 23º): Quem, sem se encontrar autorizado,


cultivar, produzir, fabricar, extrair, preparar, oferecer, puser à venda, vender,
distribuir, comprar, ceder ou por qualquer título receber, proporcionar a
outrem, transportar, importar, exportar, fizer transitar ou ilicitamente detiver
substâncias e preparados será punido com a pena de prisão de 6 a 12 anos e
multa de 50000$00 a 5000000$00.
− Tráfico de quantidades diminutas (artigo 24º): Se os actos referidos no número
anterior tiverem por objecto quantidades diminutas a pena será a de prisão de 1
a 4 anos e multa de 20000$00 a 1500000$00.
− Traficante-consumidor (artigo 25º): Quando, pela prática de algum dos actos
referidos no artigo 23.º, o agente tiver por finalidade exclusiva conseguir
substâncias ou preparados para uso pessoal, a pena será a de prisão até 1 ano e
multa de 5000$00 a 200000$00.
− Punição dos consumidores (artigo 36º): A aquisição ou detenção ilícita de
substâncias ou preparados (…) para consumo pessoal, será punido com prisão
de 3 meses e multa até 90 dias.

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A lei de 83 prevê duas possibilidades para aplicar o princípio do tratamento como


alternativa à sanção – terapia do consumidor: há um compromisso do consumidor transgressivo
– e uma lei criminal, compromete-se a tratar-se. Em Portugal, era possível ser preso, mas
evitava-se. Artigo 39º – “será aplicada, em processo autónomo, uma medida de tratamento (…)
àquele que, pelo consumo ilícito de substâncias ou preparados referidos nas tabelas anexas, tiver
tornado um toxicodependente”. Artigo 40º – prevê a possibilidade de não promoção da
aplicação da medida de tratamento se o toxicodependente demonstrar que já está a ser tratado
medicamente.

A lei de 93 (DL 15/93, de 22 de janeiro) muda a lei para fazer acertos, porque a lógica
continua igual. Penalize-se os traficantes, trate-se os consumidores. A “razão determinante do
diploma” é a da ratificação da Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de
Estupefacientes. Secundariamente, o diploma justifica-se na necessidade de adaptações face à
entrada do novo CPP e CP.

− Tráfico e outras atividades ilícitas (artigo 21º): Quem, sem para tal se encontrar
autorizado, cultivar, produzir, fabricar, extrair, preparar, oferecer, puser à
venda, vender, distribuir, comprar, ceder ou por qualquer título receber,
proporcionar a outrem, transportar, importar, exportar, fizer transitar ou
ilicitamente detiver (…) plantas, substâncias ou preparações é punido com pena
de prisão de 4 a 12 anos.
− Tráfico de menor gravidade (artigo 25º): Se a ilicitude do facto se mostrar
consideravelmente diminuída, tendo em conta nomeadamente os meios
utilizados, a modalidade ou as circunstâncias da acção, a qualidade ou a
quantidade das plantas, substâncias ou preparações, a pena é de prisão de 1 a 5
anos.
− Traficante-consumidor (artigo 26º): Quando, pela prática de algum dos factos
referidos no artigo 21.º, o agente tiver por finalidade exclusiva conseguir
plantas, substâncias ou preparações para uso pessoa (as que não excedam o
necessário para o consumo médio individual durante o período de 5 dias) é
punido até 3 anos ou multa.
− Consumo (artigo 40º): Quem consumir ou, para o seu consumo, cultivar,
adquirir ou detiver plantas, substâncias ou preparações, pune-se até 3 meses ou
multa até 30 dias. Nº2 se a quantidade detida ou adquirida exceder a necessária
para o consumo médio individual durante o período de 3 dias pune-se com 1 ano
ou multa até 120 dias.

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O mais importante foi o alargamento do tráfico de menor gravidade, o juiz tem alguma
liberdade de que se a ilicitude for reduzida pode-se incluir muitos traficantes nesta situação. É a
primeira vez que o ato de consumo aparece na lei.

A questão do consumo e das quantidades tem uma consideração de limites de quantidades


que a lei portuguesa tem consagrado.

Se é uma lei que quer ajudar o consumidor, há alguém que praticou um crime, mas vimos
como doente, procurou dar mais oportunidades de índole terapêutica para o crime de consumo.
Algum crime que um consumidor de droga cometa poderia aplicar-se um tratamento terapêutico
(e.g. roubo), não está prevista nesta lei.

Artigo 44º - obrigação de tratamento, introduzida no âmbito da suspensão de pena – não


se pode obrigar ninguém a tratar-se, pelo que o inicio diz “quem voluntariamente aceitar”, ainda
que o seja coercivamente.

Artigo 45º - suspensão da pena com regime de prova.

Artigo 56º - suspensão provisória do processo (pelo M.P., com a concordância do juiz de
instrução do arguido).

Em 1993, oferece a possibilidade de qualquer consumidor detetado por praticar crimes de


consumo ter tratamento judicial que permitisse o seu tratamento terapêutico, não se queria
aplicar a pena principal, ainda que previstas assim. Na esteira das Convenções Nacionais,
Portugal manteve-se profundamente criminalista nesta matéria. Há uma consciência de que o
consumidor não faz tão mal à sociedade, mas a si e aos seus próximos, pelo que cria
alternativas, ainda que mantendo a legislação punitiva.

A LEI DA DESCRIMINALIZAÇAO DO CONSUMO DE DROGAS (LEI 30/2000)

Os anos 90 foram os piores. Foi nessa altura que a droga era problemática, relacionava-se
isso com a criminalidade e a segurança das pessoas, relacionava-se com o flagelo do HIV, os
toxicodependentes estavam na linha da frente dos problemas. É uma perceção de que a
penalização não é suficiente e nem o tratamento, senão o agravamento dos problemas
relacionados com as drogas, pelo que há a necessidade de introdução de medidas que visem
assegurar condições sanitárias do uso de drogas e o controlo social dos consumidores.

Há um debate público importante, os meios jurídicos vão buscar Alexandre Quintanilha


(independente), Cândido Agra que discutem vários aspetos das políticas das drogas, decidindo
que era preciso melhorar o tratamento, prevenção e estrutura, a polícia devia ter cuidado de

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tráfico internacional e, ainda, discutem o que se faz com o consumidor: o ato deve ser ou não
um crime? Muitos dizem que não, porque querem ajudar. Portanto, houve uma abertura para
haver a possibilidade do ato deixar de ser considerado como crime, com todo o simbolismo que
isso traz (descriminalização). É radical, porque andava-se numa linha de penalizações
(severidade). Isto acontece na elaboração da ENLCD (1999) – Estratégia Nacional de Luta
Contra a Droga – que tem por consequências, então, a descriminalização do consumo, a adoção
explicita de uma política de redução de riscos (identificando o que é a droga, fazendo testes) e
minimização dos danos (há consumo e vai-se ajudar na redução dos danos, dando seringas, por
exemplo e sítios sanitariamente adequados para tomar as drogas, dando metadona, também) e,
ainda, a reestruturação das estruturas de combate à droga.

A comissão propôs e, para surpresa, o Governo de António Guterres chamou os agentes


na luta contra a Droga, dizendo ser a estratégia portuguesa. Introduz políticas de redução de
danos sérias e procede à descriminalização do consumo, em 1999 foi anunciada e em 2001
introduzida.

O país não quer manter como crime o consumo! Quer descriminalizar – tornar deixar de
ser crime. Teria de se olhar para o artigo 40º, Lei 15/93, foi o que se fez. Ninguém quis tirar a
interdição, não podia ser livre, nem legal. Portanto, o legislador fez uma lei onde remetesse o
ato para a esfera da contra-ordenação (Direito Administrativo). Mas foi-se mais além, pensou-se
que esta descriminalização, a própria condição dizia que os tribunais não eram os locais
adequados para estes consumidores de droga, os melhores seriam os médicos, terapêuticos, pelo
que se sugeriu a criação de entidades novas (ordenação social), era preciso uma nova estrutura
Comissões para a Dissuasão da Toxicodependência (CDT), são entidades administrativas, um
conjunto de profissionais que aplicam a lei e lidam com os consumidores – “desjudicializou-se”.
Quem devia pertencer a esta comissão eram médicos, juristas, psicólogos, assistentes sociais,
tendo o Governo criado uma Comissão para os distritos do país.

Nada se disse à policia pelo que detetava-se igualmente os consumidores.

É uma lei que visa a “proteção sanitária e social” dos consumidores. Nós não queremos
proteger com quem prevarica, só se tem proteção com os mais jovens, para adultos é algo
estranho. Mas aqui é uma lei que protege adultos.

Faz-se a distinção entre consumidores toxicodependentes e não toxicodependentes,


porque o que se pretende com a lei é proteção mas diferente:

− Não toxicodependentes – convencer dos riscos e da indesejabilidade do uso


− Toxicodependentes – incentivar tratamento ou promover redução de riscos e
danos;

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O que pode acontecer a quem foi detetado? Criaram-se sanções, inspiradas em Itália
(artigo 17º):

1. Não toxicodependentes – coimas (até SMN); sanções não pecuniárias;


2. Toxicodependentes – sanções não pecuniárias.

Diversos mecanismos de suspensão devem-se sobrepor ao cumprimento das sanções:

1. Suspensão provisória do processo;


2. Suspensão de determinação da sanção;
3. Suspensão da execução da sanção.

É todo um regime de proteção, que visa proteger e não aplicar sanção nenhuma para o
efeito.

Consumo – artigo 2º: o consumo, a aquisição e a detenção para consumo próprio de


plantas, substâncias ou preparações constituem contra-ordenações. O pormenor é que não se
pode exceder a quantidade, ainda que tenha sido descriminalizada. O medo das quantidades está
sempre presente nas drogas, há um limite (consumo médio individual para 10 dias). E não deixa
cultivar, um cultivo, desde o início não se descriminalizou, não há acesso legal às substâncias (é
crime cultivo), previsto no artigo 40º da Lei 15/93.

A quantidade necessária para consumo médio individual para o período de 10 dias é uma
contra-ordenação.

No entanto, aparecem pessoas com quantidades superiores a 10 dias que não eram para
venda, mas consumo. Desta forma, após a derrogação operada pelo artigo 28º da Lei nº30/2000,
de 29 de novembro, o artigo 40º, nº2 do Decreto de Lei nº 15/93, de 22 de janeiro, manteve-se
em vigor não só “quanto ao cultivo” como relativamente à aquisição ou detenção, para consumo
próprio, de plantas, substâncias ou preparações.

Nestas circunstâncias o consumo é crime (embora o artigo 40º tenha sito todo revogado,
exceto quanto ao cultivo). As alternativas discutidas no Acórdão seriam: (1) não ser ilegal (dada
a revogação do Artigo 40º da Lei 15/93 e a não previsão na Lei 30/2000); (2) ser tráfico
(ilógica, à partida, porque se trata de consumo); (3) ser uma contra-ordenação (embora a lei
30/2000 tenha expressamente fixado a quantidade).

A descriminalização do consumo é independente deste pormenor que fez uma mudança


relevante da forma como se lida com a situação.

“A lei conta uma história, a aplicação das leis é toda uma outra história”.

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Desde o inicio do século XX, consequência das convenções internacionais e das leis que
se seguiram na generalidade dos países, surgiu o impedimento do consumo, posse, venda,
exportação, entre outras. Interdição que foi genericamente por via criminal. Os países
introduziram uma intervenção quase sempre avulsa. Portanto, o consumo e posse para consumo
é ato criminal, sendo esta a posição, ainda na maior parte do mundo.

A sequência do ato de consumo é habitualmente sistema de muda, existindo a pena de


prisão nalguns países. Há em todas as legislações de pendor criminal uma intenção de que as
pessoas detetadas devem ser remetidas para tratamento. Há vários mecanismos que direcionam
para a saúde, pensando-se em consumidores de drogas dependentes. A ameaça penal sobre as
populações como pressuposto dissuasivo do comportamento temo-la há 100 anos e há
legislações que defendem pena de prisão, ainda que a intenção seja não se aplicar (depende dos
países, porque nos Orientais continuam a ser severos, neste aspeto).

O mundo continua, na sua maior parte dos territórios, com a ideia de que deve responder
com o aparelho penal às drogas, incluindo o seu consumo. Nos últimos 20 anos, tem-se
oferecido mais respostas que quase sempre mantem o princípio do interdito (mesmo para
consumo). Alguns países mantêm a interdição, mas retiraram a ameaça da pena de prisão (às
vezes, chama-se a isso despenalização), ou seja, é menos penalizador. A intenção relativamente
aos atos de consumo foi mais além – procedeu-se a uma descriminalização: o ato punível
criminalmente deixa de o ser. Permanece uma vontade de interdição, permanece como algo que
as pessoas não podem fazer. A sociedade considera errado, só não responde por via criminal,
incorreram noutro tipo de penalização – não é possível prender ninguém por consumo.

Com este movimento de descriminalização também se pode ver, em Portugal, o facto de


não estar a atuar junto dos consumidores de forma a rotulá-los como praticantes de atos
criminais. Não conferem registo criminal, a quem consumiu de forma ilegal. Aconteceu a
descriminalização, em 2001, em Portugal, exceto quanto ao cultivo e exceto quanto as
quantidades ultrapassam o que a lei prevê. Não temos uma descriminalização total.

No entanto, Portugal não foi o primeiro país foi, sim, os EUA. Em 1971 abre guerra às
drogas, a partir de 1974 descriminaliza o consumo. Deixaram de punir o ato de consumo de
canabinóides em vários estados.

A Itália, em 1975, também descriminaliza. Em 1993, decidiram que não queriam que
fosse crime, através de referendos. Espanha nunca criminalizou diretamente o consumo, quer
dizer que nunca criaram lei que falasse de consumo. Até em 1992, numa lei de segurança

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interna onde diziam que a posse para consumo e consumo merecem sanção administrativa. Vão
diretos para sanção administrativa sem passar por crime.

Mantendo-se o interdito nos países, houve outros que decidiram que não queriam ter
problemas com consumo de determinadas drogas, pelo que decidiram decisões sem mexer na lei
geral, criando as coffee shops, tudo estava marcado pelo mercado negro e máfias que vendiam,
pelo que queriam que os holandeses não tivessem de lidar com esses grupos, criando a
possibilidade de nos cafés existir pontos de venda de cannabis. Pode-se vender legalmente às
pessoas, até determinadas quantidades de drogas. Era possível consumir e vender drogas, sem
mexer na legislação que proíbe todos esses atos. Quer dizer que uma pessoa que consuma ou
venda cannabis faz algo que a polícia não pode fazer nada. Mas como é que a droga chega a
esses locais? Através do mercado negro, a entrada da droga é algo misterioso, certamente ilegal.
Criaram, em nome da separação e da proteção dos seus próprios cidadãos, mas irão sofrer com
isso. Passa-se a ter exceções. Há ainda os clubes cannabicos, como na Bélgica e partes de
Espanha (Barcelona, Catalunha, Países Baixos, entre outras), onde solicitam à autoridade ou
provinciais para ter produção para vender aos seus clientes canabinóides. Os consumidores de
cannabis são bastante criativos e criaram clubes, feiras, jornais de cannabis. Em Espanha, não é
nada fácil, porque é interdito.

Uma possibilidade que não tem utilidade na atualidade, apesar de ter sido discutida é a
possibilidade de legalizar o uso de substâncias. Todo o comércio, todo o que vende incorre num
ato criminal, mas não acontece nada ao consumidor de drogas. A compra passa a ser legal. Não
existe esta possibilidade, não há nenhum país que persiga o tráfico e diga que o consumo é
legal.

O que se tem falado mais é da regulação dos mercados, que é uma ideia de que se tem de
intervir no consumo, mas tem de se fazer alguma coisa importante em matéria de drogas e
políticas de drogas, pelo que se deve mexer com todo o circuito de mercado, ou seja, é torna-lo
legal. É arranjar formas de que se possa produzir, comercializar, vender, comprar e consumir
drogas de forma legal.

As drogas legais para uso sanitário podem também ser reguladas. Existe um movimento
muito importante que tem a ver com o uso de canabinóides: estudos dirão que são para uso
terapêutico. No fundo, é torna-las medicamentos. Trata-se de saber se drogas que habitualmente
são vistas como danosas podem ser usadas para uso terapêutico. No entanto, pode levar ao uso
recreativo.

Mais ousado é solicitar a médicos que forneçam drogas para uso recreativo. Mais à frente,
existe a possibilidade de que existem drogas ilegais usadas para uso recreativo. No estado do

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Colorado, nos EUA, passou a ser possível vender-se numa loja, com marca, expressão de
quantidade cannabis, sendo a partir daí que passamos a ter novas experiências de legalização.
Outros estados também seguiram o Colorado, tendo comércio regulado. Existem campos de
produção, agricultores que pagam impostos para essa plantação, há intermediários de comércio
diverso e lojas de vendas ao público (cerca de 13 países).

O Uruguai foi o primeiro país a ter essa intenção, tendo também a intenção de vender em
farmácias, para uso recreativo. Pelo que a América de Sul assume a mudança das políticas das
drogas, limitando-se à lei dos canabinóides, neste momento.

A dúvida é: até onde pode ir a publicidade? Cavallero nas suas invenções teóricas
propunham a teoria do comércio passivo, não havendo interdição, mas cuidado com a
publicidade, não se deve dar acesso à poderosa indústria que poderia levar ao consumo
excessivo. Cabe aos Estados regular.

O Canadá é o primeiro dos grandes estados do mundo a legalizar a cannabis (2018),


havendo muito cuidado com a publicidade.

O que se tem como formas de legalização? Muito pouco, ainda. As experiências foram de
manter alguma tutela sobre os administradores. Caminha-se devagar para a legalização,
transformando tráfico em comércio legal. O comércio regulado significa uma mudança difícil de
implementar, no entanto, já tem caminhos.

A APLICAÇÃO DAS LEIS DAS DROGAS (LAW ENFORCEMENT)

A lei aplicada implica a jurisdição. Ao contrário dos anglo-saxónicos onde o princípio da


oportunidade é mais importante, em Portugal, não. Importa para os portugueses o princípio da
legalidade. A polícia não tem nenhum direito legal a gerir – sabe de um ato criminal atua, tem
de perseguir os delitos – a polícia não faz nenhuma gestão dos casos, deve perseguir tudo:
crimes e contraordenações.

Uma vez que a policia conheça infrações às leis das drogas é obrigatório que comunique
ao Tribunal ou às Comissões de Dissuasão de Toxicodependência. É totalmente impositivo para
a polícia, porque não pode fazer de conta que não sabe.

Mas há uma parte substancial dos delitos que não chegam ao conhecimento das polícias,
porque há a colaboração mínima ou inexistente de vítimas ou cidadãos e, ainda, porque são
atividades clandestinas sem denúncia dos intervenientes (traficantes, dealers ou consumidores).
Em matéria de drogas não há queixas, não se conta com a colaboração, quer nas queixas, quer

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com os cidadãos. Nem os intervenientes e consumidores apresentam queixa. Assim, a


perseguição das drogas é um processo condicionado.

Portanto, a polícia vai ser proativa, fazendo parte dos seus trabalhos saber quem e como
vai ser detidos. Esta é condicionada por fatores extralegais, era conjugado com os poderes do
Ministério Público. Isto depende das competências atribuídas a cada política, depende dos atos
2
administrativos. Além disso, é altamente discricionária a atividade da polícia, há uma
descrição/opção na atuação. Depende dos próprios agentes, porque há uns que acham que se
deve fazer muito nessa matéria, mas outros que acham que não se deve fazer nada. Ressalve-se,
ainda, as pressões políticas e mediáticas que lhes estão subjacentes. A polícia classifica desde
1978, os atos que deteta em três categorias: consumo, tráfico/consumo, tráfico. Todas as
polícias têm um documento próprio que preenche quando regista uma destas atividades. Na
década de 70, a maior parte dos consumidores e traficantes não são detetados. Nos anos 80,
verifica-se um acréscimo, em média de 3000 atos, mais consumo, mais traficantes detetados e,
em 95, não pelo efeito da Lei 93, mas pela atividade policial, começa, verdadeiramente, a busca
policial às zonas urbanas de tráfico. No entanto, o que subiu foram os consumidores e trafico-
consumidores. De 95 ao ano de 2000, os consumidores disparam, passando de 2000 a 5000. Há
a perseguição ao tráfico. O consumo foi descriminalizado e o que faz a polícia é detetar atos de
consumo, apesar da mudança de crime para contra-ordenação. O tráfico/consumo mantém-se
em alta.

Na intervenção da polícia não se apanha as mesmas pessoas. Nos anos 90, a polícia
estava concentrada em heroína, apanhando mais gente por essa substancia do que outra.
Atualmente, quer a heroína quer as polidrogas estão muito menos perseguidas. O que faz é
detetar consumidores de canabinóides. Fruto de uma diminuição dos mercados, há também uma
diminuição dos padrões de consumo dos mais jovens, pelo que a polícia interpretou o seu
trabalho em contacto com a população, atuando no jovem consumidor.

A polícia deteta o tráfico de consumo. Todos os atos criminais são tratados pelos M.P. e
se considerar que há indícios suficientes deverá acusar. Assim, a maior parte dos casos irá a
julgamento. Se se trata de consumo, remete-se para a Comissão. Mas, se a quantidade for
superior, cabe à polícia remeter para as autoridades policiais, a partir de 2008/2009.

Nos anos 90 concedeu-se leis de amnistia: duas por causa das visitas do Papa, o que
acontece é que há um perdão das penas (os presos saem mais cedo), muitos crimes pequenos são
arquivados. Além disso, em abril de 1994 comemorou-se a liberdade (20 anos de 25 de abril).

2 Antes de 1995, já existiam polícias de investigação criminal, ainda que não denominadas dessa forma.

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Os casos de consumo detetados eram amnistiados, muitas vezes, o que fez com que a
percentagem de pessoas condenadas diminua. Na verdade, as penalizações por consumo nunca
foram muito efetivas durante esses anos, o máximo que se alcançou foram em 1997/98. Nos
anos 2000 descriminalizou-se, pelo que não há crime de consumo. A partir de, mais ou menos,
2008 há um crescente de crimes de consumo. No entanto, a partir do momento em que passa a
ser contraordenação, verifica-se um crescente desse fenómeno. As Comissões de Dissuasão
Toxicodependência atuam mais do que alguma vez a polícia atuou. As Comissões começaram a
trabalhar e resolveram 5000 casos por anos, fazendo crescer a sua atividade, pelo que
ultimamente já têm mais de 10000 casos resolvidos.

As policias passaram a detetar outro tipo de pessoas e de consumos. Nos anos 90, a
concentração foi enorme nos toxicodependentes de consumo de heroína. Quando atua a policia,
fá-lo junto de consumidores de canabinóides, que poderão alguns ser toxicodependentes. As
decisões da CDT, 2/3, entre 60/70% em média são medidas de suspensão provisórias do
processo para consumidores, dando-lhe algum apoio (algum acompanhamento com alguma
estrutura, por vezes).

Os toxicodependentes têm dois tipos de suspensão: (1) provisória do processo com


tratamento para consumidor toxicodependente e (2) determinação ou execução da sanção. O
espírito é de suspender e não de aplicar a sanção.

Quando é que se aplicam mesmo sanções? Em cerca de 700 pessoas por ano, número que
tem vindo a crescer. Sanções essas que, basicamente, são multas. O esforço técnico das
Comissões está concentrado nas suspensões provisórias do processo e, ainda, procuram o
encaminhamento para o tratamento.

A suspensão provisória do processo, numa primeira vez, é obrigatória. A lei dispõe de


sanções ainda que pouco criativas, ainda que a intenção seja tratar e não punir, é um trabalho
preventivo ou reabilitativo, a propósito da detenção da pessoa.

O que acontece um traficante no sistema? Até ao ano 2000 ia preso, exceto que o tráfico
era de diminuta gravidade. Em 1997/98, manda-se prender 1200 pessoas, por ano. A prisão era
preferencial para o tráfico de drogas. Há menos penas de prisão aplicada com a mesma lei em
vigor, a descriminalização se teve efeito foi simbólico. A Lei 15/93 só perdeu parte de um artigo
(40º).

Decisões (Tribunais e CDT)

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Quando tinha um fim o tribunal multava – 3 em cada 4 acabavam multados, quando o


processo chegava ao fim, 8% vinham a ser presos pelo ato de consumo. Agora, muito menos vai
preso.

Condenados na prisão: em 1991, Portugal tinha cerca de 5000 presos, dos quais cerca de
1000 eram traficantes de droga. Em 2000, tem-se quase 9000 presos, dos quais 4000 são
traficantes de droga (44%). Estamos perante uma prisão maciça de traficantes. A partir de 2007
passou a estabilizar para 2000 traficantes.

Na aplicação das leis das drogas, no que diz respeito à intervenção policial, houve um
aumento moderado dos presumíveis infratores por consumo e tráfico, bem como uma
diminuição da atenção ao mercado de heroína e aumento para o mercado de cannabis.

O exercício da justiça:

− Expansão do seguimento legal das situações de consumo – “net-widening effect”


(pelo menos três vezes mais);
− Para o consumo a multa (resposta típica dos tribunais) é substituída pela
suspensão provisória do processo (resposta típica das CDT);
− Tutela preventiva de consumidores não toxicodependente, geralmente de
cannabis e encaminhamento de toxicodependentes para tratamento;
− Estabilidade das condenações por tráfico;
− Diminuição da severidade da punição do tráfico.

Indicadores de consumo

Realizam-se inquéritos que devem utilizar amostras representativas do país, procurando-


se saber a prevalência (proporção de determinada população que admite consumir) e a
incidência (saber quantas vezes, quantidade de atos). Taxa de prevalência ao longo da vida: se
alguma vez consumiu cannabis, isto é uma taxa de experimentação. Normalmente, pergunta-se
se consumiu no último ano (consumo recente) e o consumo atual.

Pode-se ainda ver dados oficiais, como dados de saúde, quantas pessoas precisaram
tratamento e saber os danos de consumo.

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Evolução dos níveis de consumo

Os canabinóides são a droga mais consumida. Em 2001 é o primeiro ano em que há


inquérito à população. Portugal é um país de baixo consumo e isso não se alterou.

O inquérito “European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs” é o mais
antigo realizado na população escolar, verificando-se que 11/12% dos portugueses tiveram
alguma experiencia de consumo de drogas, registando-se, ainda valores mais baixos do que na
Europa. O consumo manteve-se relativamente estável, em níveis baixos, em Portugal, dizendo-
se internacionalmente que é possível mudar o esquema criminal do consumo sem que daí ocorra
uma desregulação do mesmo. Na população geral, somos menos consumidores e nas populações
jovens aproximamo-nos dos outros países. Os países com maior consumo são os mais
desenvolvidos. Poder-se-ia dizer que um em cada seis jovens, de 16 anos, experimentou.

Na área da saúde e danos associados ao consumo (SIDA), antes não tinham nada
relacionado à partida, não há na substância SIDA. Os consumidores de uso endovenoso, em
particular, podem contaminar a pessoa, não por causa da droga, mas pelo sangue de outra
pessoa que pode estar contaminado. Estas pessoas passam a ter um problema de HIV e
desenvolvem a síndrome de endoficiência, no futuro. O problema do HIV surgiu, nos anos 80,
designadamente, em homossexuais, em São Francisco. Começa-se a verificar, em Portugal, a
partir de 1985, na comunidade homossexual. Aumentou exponencialmente de 1985 para o ano
2000. No primeiro momento era para toxicodependentes são maiores dos que não
toxicodependentes. Os toxicodependentes por via endovenosa são cerca de 40 mil, sendo uma
ínfima parte. Passando a ter cada ano, cumulativamente, mais de 1000 pessoas por ano.

Durante os anos 90, assume-se o aspeto de epidemia e catástrofe. Os toxicodependentes


partilhavam materiais de injeções, pelo que, cada dia, havia mais pessoas a adquirir o HIV. Um
país com baixo nível de consumo e de cultura tem uma concentração de heroína injetada. Há um
esforço para controlar este fenómeno, pretendendo que não fossem contaminados, devendo-se à
Comissão da Luta Nacional contra a SIDA, que se concentra em matérias da redução dos danos.

A 30 de junho de 2017:

− 11020 casos de obtidos em casos de infeção por HIV e 8879 casos de óbitos em
casos de SIDA;
− 5499 associados à toxicodependência (50%) em casos de injeção por HIV e 4459
associados à toxicodependência (50%) em casos de SIDA;
− Em 2012, estimativa de uso endovenoso de 124426 e estimativa mais eleveada de
consumidores problemáticos, pelo multiplicador de tratamento, de 42237 a 50467
(menos de 0,5% da população portuguesa).

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Impacto da lei da descriminalização – consumo de drogas e danos

Descriminalizou-se todas as drogas. Há uma estabilização dos consumos, continuamos a


ter muito menos do que outros países. Ao mesmo tempo diminuíram os consumos
problemáticos e dos danos de consumo. Podemos prescindir da penalização do consumidor, sem
acrescer o consumo e os danos.

INFLUÊNCIA DAS NORMAS LEGAIS NOS COMPORTAMENTOS

Havia uma grande liberalidade, até ao início do século XX, pelo que o Direito tem um
papel limitado, por motivos históricos. Demorou 100 anos a intervir. Na história, a maior parte
dos tempos, não houve regulação do direito legal nas drogas. O comportamento das pessoas
depende das normas pessoais e sociais, ou seja, o controlo depende de normas e sanções não
legais. Quando se diz à população que é proibido, que é crime, deve-se contar com as
convicções das pessoas. As normas sociais, por vezes, são mais fortes e podem ser
conflituantes. O que é relevante é a norma social. O direito vai lutar contra isso, vai ter uma
ação limitada. Acresce que quando se quer que o direito interfira na matéria de drogas, defende-
se o tratamento, pedem-se medidas terapêuticas à saúde.

Mas o direito, também, tem um papel central, porque declara. A lei serve para declarar
(efeito declarativo) o reforço das normas sociais contra o consumo. Portanto, o papel central é
declarar que são más. Tem, ainda, um efeito dissuasivo – diz-se que são más, mas não chega,
tem de haver uma ameaça como inibidor do consumo. A lei quer ajudar o tratamento (efeito
terapêutico), ou seja, há uma ameaça da sanção como alavanca para o tratamento. Portanto,
quer-se o direito no controlo das drogas, quando se pune o consumo, quando se impõe sanções e
quando se remete para tratamento.

Quando se usa esta matriz da norma legal, da proibição, o primeiro debate sobre isto é
profundamente ideológico que procura saber se isto é mais ou menos eficaz. Em primeiro lugar,
o debate engloba pessoas que tentam apresentar as suas ideologias, dizendo que temos um
esquema geral de introdução do direito como formas de controlo, tendo postura repressiva
(“guerra às drogas”). Dizem que há mais problemas, mais consumos, mais danos do consumo,
os países têm problemas, as doenças proliferaram. Fez-se uma dura intervenção, mas não
melhorou, segundo os antiproibicionistas, a guerra causa mais problemas do que os resolve.

É uma polémica indecidível, porque não se saberia como seria o mundo se não tivessem
existido as convenções e proibições.

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A base proibicionista continua no nosso país e noutros. O uso de drogas tem custos para a
saúde, poderá gerar um padrão de doença, sofrimento devido a doenças físicas ou mentais

USO LEI OU APLICAÇÃO

SAÚDE − Custos para a saúde; − Controlo de qualidade das


− Sofrimento devido a substâncias;
doenças físicas ou − Inibição do tratamento
mentais; voluntário;
− Dependência; − Restrição do uso médico de
− Transmissão de doenças drogas;
− Transmissão de doenças

− Redução da performance − Elevação do preço das


ECONÓMICO E
escolar, familiar e substâncias;
SOCIAL
profissional; − Atentados às liberdades
− Influência no uso por individuais.
outros.

− Violência
− Criminalidade aquisitiva
psicofarmacológica;
− Sentimento de desordem
SEGURANÇA E
pública;
ORDEM
− Sentimento de impunidade;
PÚBLICA
− Violência económica-
compulsiva;
− Custos policiais, judiciais e
penitenciários;
− Congestionamento dos
tribunais

− Invasão da privacidade
individual;

− Corrupção de autoridades
legais, estigma de registo
criminal e prisional

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JUSTIÇA
CRIMINAL

A legitimidade é fundamental no Direito. É legitimo interditar substâncias? É legítimo do


ponto de vista formal. A primeira abordagem, nesta resposta, será a liberdade do indivíduo,
seguindo-se em que medida há danos no comportamento para que seja legítimo interditar.

O que protege com a interdição do consumo é o indivíduo e a sociedade, especialmente,


ao nível da saúde. A liberdade do consumo prevalece sobre o Estado.

Danos para terceiros do uso de drogas (legitimação da proibição do uso de droga)

Danos sociais – não cabe ao serviço penal tutelar os danos sociais e não há maneira de
justificar uma penalização dos consumidores, tem de haver um dano sério que derive do uso
sério de drogas, que ultrapasse o dano que provoca a si próprio. Para danos pequenos não cabe a
tutela penal, sendo que a maior parte não produz danos à sociedade. Não há dano considerável,
pelo que o aparelho penal deve abster-se de punir.

A autolesão poderá levar a uma intervenção do estado, de natureza não penal. É


complicado dizer que é um crime e depois punir os atos. Mas há muitas comparações com
outros comportamentos que não são criminalizados (ex.: excesso de açúcar, de gordura).

Para termos um Direito Penal sustentável é preciso que os danos contra terceiros sejam
diretos para que se lhe sejam imputados (ex.: roubo, violação).

O facto de se causar danos pequenos à sociedade será suficiente para criminalizar as


drogas? Não. Fica-se a pensar que será mais um dano próprio, mas tenta-se proteger os danos
contra si próprio? Na lógica penal é anómala, porque não se faz em mais nada algo do género,
os que prevaricam devem ser sancionados, mas aqui o prevaricador é autolesado. Neste caso,
quer-se proteger, por exemplo, os adolescentes. Para adultos as pessoas respondem penalmente
pelos seus atos, a não ser que por anomalia sejam aplicadas medidas de segurança. Os
utilizadores de drogas não são todos incapazes, estamos num direito paternalista.

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Por estes motivos, torna-se a criminalização do uso de drogas altamente criticada. Há


restrições, sempre, na ordem social (não se pode fumar na sala).

O conhecimento empírico

Proibir e não proibir é uma questão mais ideológica, pelo que se deve olhar para questões
mais concretas para ter dados científicos sobre a capacidade de regular o uso de drogas das
populações, percebendo se há alguma norma instituída com eficácia superior.

Neste sentido, vale-se a diversidade de regimes leis e formas de aplicação das leis, que
têm vindo a ser diferentes, em cada país. Como há diversidade pode-se tentar perceber como se
compara as jurisdições diferentes de países ou de Estados, percebendo-se onde há mais
consumo e quem é mais capaz de regular.

A primeira ideia é que se se tiver uma legislação mais restritiva o consumo das
populações diminuiria. Nos que há uma liberdade imensa não há tal dimensão do consumo. Em
Portugal, descriminalizou-se, defendendo-se que seria mais benéfico. É preciso comparar para
saber qual a melhor maneira de regular e diminuir o consumo. Associada a este a segunda
maneira de olhar para isto é pelos efeitos das legislações. Aqui usa-se dados legais, para
comparações.

Há um método alternativo que vem de uma linha de investigação que se chama Dissuasão
Percetual. Recorde-se as perspetivas instrumentais de dissuasão, Beccaria dizia que o
comportamento criminal, quanto mais for controlado, quanto mais certa, severa e célere for a
pena melhor. Desta forma, no consumo de drogas deveria ter-se uma pena severa que levasse à
dissuasão para não se consumir, sendo certa, ou seja, deveria ser curto o prazo da sua punição.
Beccaria já dizia que isto tem a ver com o psicológico individual, já que sabem com uma
certeza iminente que será punido, pelo que não o fará. As perspetivas instrumentais procuram
saber em que medida as penas severas, certas e céleres levam à inibição de consumo. O
pressuposto é que quanto mais o risco estimado de fazer o crime está inversamente relacionado
com o comportamento. Esta é feita por inquérito. Espera-se que quanto mais o risco de ser
detetado (ou mais elevada a pena) menor será o comportamento. Se sabe que vai ser detetado
não vai consumir.

O sistema de justiça quer ajudar no tratamento à prevenção das drogas, a lei tem esse
intuito, é esta a grande penalização dos consumos, isto é, é para ajudar quem prevarica. Assim, é
importante olhar para a capacidade que existe quando a justiça atua com tratamento se isso tem

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efetividade e eficácia – se, de facto, se aplica e quando se aplica as pessoas depois ficam
melhores?

Comparações entre jurisdições

Cada jurisdição é diferente. Se houver regime restritivo à partida teme-se mais as


consequências, pelo que não consumirá. Os países com maior restrição terão mais consumos.
Relembre-se que a estimação dos consumos é bastante difícil. Há um problema de olhar para os
dados de consumo e compara-los, outro problema é o facto da política. A política de drogas
pode ser comparada? Como é que se compara a pena de cada país? Assim, tratou-se de fazer um
apanhado de repressão de cada país, sendo um dado “bruto”.

Os EUA são considerados bastante restritivos, mas consume-se bastante, muito mais do
que na Europa. Segue-se o Canadá com altos níveis de consumo, também, é restritivo. A Suécia
segue a mesma linha. Os mais tolerantes são Holanda, Austrália (considerada ainda mais
liberal), mas têm bastante consumo de droga. Não há a esperada correlação. Os liberais
deveriam ter mais consumo e os restritivos não.

A legislação e forma de aplicação não demonstraram ter uma relação importante com o
consumo de drogas.

Para se ter valores mais fidedignos, compare-se quanto à cannabis – número de efectivos
são 25 milhões nos EUA, 15 milhões americanos, 180 mil portugueses. Países mais
desenvolvidos têm mais consumos dos que não desenvolvidos. Nos delitos de uso de drogas
detetados, tem-se muitas variâncias, a Espanha e Suécia tem muita repressão.

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O risco de ser detido detêm uma correlação não significativa com a prevalência do uso de
drogas (Rs=-,08; p>,05). Também não se encontra uma relação entre quem tem
descriminalização com o uso de cannabis (Rs=-,18; p>,05) ou com o risco de detenção
(Rs=-,14; p>,05). Espanha tem alto nível de uso e alto risco de detenção. República Checa alto

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nível de uso e muito baixo risco de detenção. Em Itália há um médio nível de uso e baixo risco
de detenção. Por fim, Portugal tem baixo nível de uso e médio risco de detenção.

Continua-se com ausência de capacidade de provar um dado que seja inequívoco que
mostre que possibilidade alta de detenção sobre consumidores, gere menor nível de uso de
drogas.

Alterações legais

Há uma tradição de consumo de cannabis em Espanha em relação à população


portuguesa. A comparação entre países não dá a capacidade de linearidade mínima de maior
punição maior consumo.

Há alterações legais, até no que diz respeito às drogas – cannabis legal no Canadá, no
Colorado, entre outras. Em 1971, há guerra às drogas e ao mesmo tempo o Congresso
Americano diz que se deve descriminalizar. Nos EUA, na sequência da recomendação do
Senado, alguns Estados decidiram nos anos 70, descriminalizar a cannabis. Há, assim, uma
espécie de dicotomização – há estados dos EUA onde é crime, noutros não. Com base nesta
realidade histórica, os americanos estudaram estas distinções. Os que descriminalizaram vão ter
mais consumo dos que não descriminalizaram (esperava-se). Os estudos mostram que os
Estados com descriminalização têm um consumo superior (pequeno) dos que não
descriminalizaram (já eram estados com consumo de drogas). Não se provou uma definitiva
alteração dos padrões de consumo desses Estados.

Na Austrália, uns anos depois, nos anos 80, a Austrália do Sul deslegalizou a cannabis.
Deixa de ser crime, passando a ser multa. O Instituto Australiano de Criminologia estudou isto,
olhando para os valores de consumo. Em Camberra também se descriminalizou. Desta forma,
ficou com os Estados divididos na descriminalização de drogas, mostrando-se o mesmo “efeito”
que aconteceu nos EUA – não houve grandes alterações de quem tinha criminalizado o
consumo de droga e dos que descriminalizaram. Há muito mais atuação sobre o consumidor do
que havia antes, quando se descriminalizou.

Espanha tem poucos estudos sobre as alterações legislativas, mas em 1992, criaram os
esquemas administrativos, começando-se a subir os números de consumo. Itália, em 1975, foi o
primeiro país a descriminalizar o consumo técnico de drogas. Em 1990, no auge de problemas
das drogas que emergia na Europa, sendo um governo muito conservador, criminalizou o
consumo. Houve muita contestação, surge um referendo popular, em 1993, votando que não
devia ser crime.

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Os consumos não são efetivamente afetados com as alterações legislativas.

Estudos sobre dissuasão percetual

Os estudos de dissuasão são estudos de inquéritos, não interessa o regime legal em causa,
é importante questionar as pessoas sobre o consumo de drogas e a sua perceção de ser punido.
Estes têm dito que a severidade não é relevante, ser muito severo não importa muito para o
comportamento de pessoas. Assim, é um dado contrário ao esperado. O risco de ser detido tem a
ver com o padrão de consumo das pessoa não se encontra resposta com esta dissuasão.

Aplicam-se, normalmente, a pequenos crimes (furtos, condução com álcool, …), não só
às drogas. Esta linha de investigação, no uso de drogas, questiona as pessoas sobre a doutrina da
dissuasão – certeza de ser punido, severidade, celeridade. O que se defendia era que quanto
mais certa, mais severa e célere fosse a pena, menos crimes eram cometidos. Esta teoria da
dissuasão percetual segue a mesma linha de pensamento de Cesare Beccaria. De facto, quanto
mais considerar que pode ser sancionado menos crimes cometa, segundo muitos estudos da
literatura. Haverá uma correlação entre a estimativa de ser detetado e a estimativa de consumo.
Na verdade, os estudos ainda que tendam dar revelo a esta relação, estas correlações são muito
baixas, não se encontrando uma consideração muito importante. Acresce, ainda com estudos
mais especializados, que há uma série de mecanismos pessoais que leva à diminuição da sua
certeza de punição. Não há a força efetiva da lei no pensamento das pessoas. Parte-se do
princípio de que há um raciocínio para o consumo de drogas.

Além disso, houve outras preocupações de ordem normativa, tendo a ver com normas
sociais e integrativas, perguntando-se se achavam correto/aceitável usar drogas; “os teus amigos
acham aceitável o uso de drogas”, mede-se fontes de pressão social, face à nossa atitude,
perante as drogas e quem os rodeia. As normas interiorizadas, as atitudes ou normas sociais são
as que têm fortes correlações com o comportamento de consumo de drogas, contrariando a
baixa correlação que a certeza de punição, celeridade e severidade tinham com este
comportamento. As perspetivas normativas sobrepõem-se às instrumentais, ou seja, as normas
sociais são mais relevantes do que as leis. Portanto, a ameaça de sanção legal tem um peso
muito reduzido na modificação do comportamento.

Estudos das medidas de tratamento sob coerção social

As legislações que mantem o interdito têm uma intenção, especialmente, por quem tem
dependência, ajudando ao tratamento. Dizer que há um conjunto de medidas que podem ser

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accionadas na sequência de um processo legal sobre pessoas com problemas de uso de drogas e
pratica de crimes (roubos, furtos, …), podendo ser encaminhados para tratamento.

Há uma objeção de base que é: as pessoas estão lá, porque foram medidas, são exteriores
ao sujeito, os clínicos nem sempre estão inclinados para esta correção (tratamento). Tratam-se,
perante algum tipo de coação legal. A eficácia desta medida é sempre limitada.

Os EUA tem muitos estudos, pelo que através dos Drug Courts (programas mais
sistemáticos) têm sido intensamente analisados e as meta-análises mostram uma diminuição de
8 a 26% a reincidência criminal (Marlowe et al., 2012). Pode-se usar medidas de coerção desde
que devidamente cuidadas para as utilizar como meio eficaz de reduzir a criminalidade dos
sujeitos e o seu consumo.

Na maior parte dos países o que se aplica são as penas tradicionais – prender ou multar –
e só raramente se utilizam as injunções terapêuticas. Faz-se de forma desigual (discriminatória),
faz-se nuns locais e não noutros. Quando aplicadas, este tipo de medidas poderá ter um
benefício, tendo particularmente interesse para outros crimes que não só os que estão
relacionados com as drogas.

RELAÇÃO ENTRE DROGA E CRIME

A relação entre droga e crime é complexa (“tudo menos simples”). Tudo o que é crime no
que tem a ver com drogas é legislação avulsa.

Crimes praticados e a sua relação com a droga – tráfico, branqueamento de capitais,


consumo – são crimes previstos na lei. Às vezes, retira-se o consumo, mas não o crime de
tráfico, pode-se é encontrar formas de legalizar, pelo que deixam de o ser. Além disso, há outros
crimes que estão relacionados com drogas e outros que não estão. A maioria dos crimes não tem
a ver com droga (homicídios, por exemplo, crime violento, em Portugal). Ressalvando-se que
alguns crimes poderão estar relacionados com as drogas (por exemplo, morte por comércio de
droga). Quando a conexão entre crime e droga existe depende das políticas de controlo de
drogas – o consumo é um crime, quando o país o criminaliza.

Estudos empíricos mostram, direcionados primeiramente para os delinquentes,


prevalências de consumo nos detidos pelas políticas e nas populações prisionais extremamente
elevadas (cerca de 3 em cada 4 dos detidos consumiu drogas) comparando com a população
geral. Há prevalências de consumo entre populações de menores judicializados extremamente
elevadas comparando com resultados de estudos em meio escolar. Os consumidores de drogas
identificados no sistema da justiça estão associados a determinados tipos de crime (por

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exemplo, tráfico de drogas; furtos; …) não a outros (por exemplo, crimes violentos e sexuais).
Estes indivíduos tendem a ser mais precoces no crime, menos inseridos socialmente a apresentar
maiores taxas de reincidência, são, ainda, mais difíceis de trabalhar, falham mais, há mais
problemas. Portanto, quem praticou crimes tem, muitas vezes, consumo de drogas, mas o tipo
de crime tem muita relevância.

Estes estudos empíricos afirmam que, ainda, numa visão mais direcionada para os
consumidores de droga e não delinquentes, a maior parte dos utilizadores de drogas não tem
contactos com o sistema de justiça e que a prática de atos delinquentes tende a preceder o
consumo de drogas. A correlação droga e crime deve fugir a estereótipos, porque os
consumidores de droga não praticam atos delinquentes. A ideia do senso comum é que a droga
leva ao crime, pensando-se que se não houver droga não haverá crime. Todavia, muito
frequentemente, nas trajetórias de vida das pessoas o crime precede o consumo de drogas.
Através de estudos empíricos, percebe-se que se deve pensar no sentido inverso – gente que
pratica crimes poderá passar ao consumo de drogas.

A probabilidade geral de um consumidor de drogas cometer um crime é superior a um


não consumidor (“taken togethet, the 30 studies show that the odds of offending are about 2,8
to 3,8 times greater for users of the drug types shown compared with non-users” (Bennett,
Holloway & Farrignton, 2008,112)). Mas essa probabilidade é altamente dependente do tipo de
consumos, variando desde logo na substância consumida (OR: 6 Crack; 3 Heroína e Cocaína; 2
Anfetaminas; 1,5 Marijuana – Bennett, Holloway & Farrington, 2008). É preciso reter que há
um grupo de pessoas dependentes da substância, estes apresentam nas fases de consumo intenso
forte implicação em determinado tipo de criminalidade (furtos, roubos e tráfico de drogas –
criminalidade aquisitiva). A maior parte da relação droga e crime deve-se a isto. O tratamento
efetivo diminui a criminalidade dos dependentes de drogas.

Porque é que quem consome drogas tem mais possibilidade de cometer crimes?

Poderá ser por questões financeiras e, ainda, porque o consumo de drogas poderá levar ao
descontrolo e agressão. Além disso, o consumo de drogas, levará a desemprego e,
consequentemente, procurarão arranjar dinheiro, através do crime. Em todos os casos
enunciados, vê-se que a Droga leva ao Crime, o facto de estarem correlacionadas não quer dizer
que há causalidade. O facto de existirem consumo de drogas potencia os crimes é a hipótese
mais pensada. Mas pode acontecer que o Crime cause a Droga.

E se Droga e Crime estiverem correlacionadas, porque alguns fatores são comuns aos
dois? Os consumidores de drogas terão caraterísticas de ambientes desfavoráveis, famílias
destruturadas, baixa supervisão parental, baixo autocontrolo, mais impulsivos, mais inseguros.

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A correlação entre dois fenómenos pode ser espúria, por vezes. Talvez, haja aspetos
espúrios. Deve-se pensar a relação droga e crime numa forma probabilística e não
determinística, que varia com o tempo, com as drogas, contextos sociais e até com a legislação.
É uma relação altamente complexa, tendo base empírica que diz haver correlação.

Modelos concetuais de base causal (Goldstein, 1985)

Droga Crime

Primeiro, diz que a droga provoca o crime, porque segundo o modelo


psicofarmacológico, ao consumir drogas o indivíduo fica mais descontrolado, mais agressivo,
mais capaz de praticar crimes. O efeito psíquico do fármaco descontrola a pessoa, torna a pessoa
agressiva, inibe as respostas morais. Efeito direto das drogas como responsável pelos crimes.
Todavia, as drogas depressoras não têm este efeito. Os opiáceos, em geral, não tornam as
pessoas agressivas. Isto está mais direcionado para o álcool que potencia a agressividade.
Quanto às drogas é relativamente modesto, no mundo onde não houvesse drogas, o número de
crimes não iria diminuir drasticamente.

Segundo, a surge o modelo económico-compulsivo, praticam crime para conseguir


dinheiro para drogas. Isto é relevante, na medida em que os consumidores de drogas ilegais
crimes, no momento em que eles estão em fase ativa de consumo com um padrão de
dependência. É evidente que não é a droga que causa o crime, mas a sua falta. A compulsão do
uso de drogas é que leva ao crime em determinadas fases da sua vida, não acontece com
consumidores esporádicos de drogas, mas com dependentes. Poder-se-ia resolver isto com a
regulação do uso de drogas, por exemplo.

Terceiro, o modelo “sistémico”, ou seja, tem a ver com o sistema de regulação de vendas
de drogas em geral. Portanto, são crimes que decorrem do facto de existir um mercado ilegal de
drogas competitivo e criminal, por si. O crime ocorre no âmbito desta relação de compra e
venda (compra de juízes, de presidentes da República, por exemplo). Nos contextos sociais a
probabilidade de haver crimes relacionados com a venda é forte. É possível diminuir esta
violência sistémica? É, regulando. No momento atual, a existência de situações de violência é
uma realidade. Em Portugal, o crime registado não tem tanto a ver com isto.

Só no modelo psicofarmacológico se atribuem aos efeitos das drogas em si os crimes,


nos modelos económico-compulsivos e “sistémico” é a forma de produção, distribuição e uso
de produtos ilegais que se liga com crimes (Caulkins & Kleiman).

Mas, ainda, na base causal há quem defenda o Crime como aumento do uso de Drogas.

Crime Droga 71
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O causal invertido, neste defende-se que é o crime que levará à droga e não ao contrário.
Não se pode ver só do ponto de vista causal, há algo mais complexo. Surge ainda o modelo
tripartido.

Modelos concetuais estruturais

Nestes vê-se a tendência sociológica e psicológica é o estudo das pessoas que têm atos de
consumo e atos criminais. Há pessoas que só consomem drogas e outras que só praticam crimes,
o que diminui o peso da relação droga-crime. Todos os utilizadores de drogas que não praticam
crimes (maioria) ajudarão a negar a teoria da relação.

Há duas direções, portanto, psicopatológica (olhando para a personalidade – tendências


antissociais mais presentes no consumidor de droga e no delinquente – são mais egocêntricos,
mais descontrolado, menos harmonizado com as normas sociais) e psicossocial (síndrome de
desviância). As duas coisas não estão juntas porque uma provoca a outra, mas porque há efeitos
moderados – a personalidade, a moderação, …

São modelos alternativos da compreensão da relação entre droga e crime.

MODELOS DE DROGA E CRIME


Modelos Processuais
1. MODELO INTEGRATIVO (SERGE BROCHU): Este autor tentou explicitar padrões comuns
nesta relação entre o crime e as drogas e, como tal, defendia que existem alguns fatores de risco
comuns às drogas e ao crime que explicam um pouco as duas coisas:

− Afastamento/oposição das instâncias de socialização – o autor defendia que pessoas que


consomem drogas e realizam crimes tendem a mostrar um distanciamento das
instituições de socialização (família, amigos, escola). Estas pessoas não estão nada
interessadas nestas instituições. Quanto à família, existem alguns problemas comuns
(não é relativamente às condições afetivas. É em relação à supervisão parental e
obediência, controlo);

− Condições de vida difíceis – pessoas que apresentam condições de vida complexas;

− Associação com pares delinquentes – o problema não é a associação com pares, mas
sim a associação com pares delinquentes e que, às vezes, são pessoas que se dão

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exclusivamente com eles. É um fator muito forte. Agrupam-se por interesses desviantes
e atividades da mesma índole. A via organiza-se em função do desvio e não da norma;

− História de desvio – obviamente que apresentam diversos comportamentos desviantes à


norma, sendo esta a base estrutural para a relação droga e crime. Verificamos uma
oposição clara à sociedade e às suas normas e crescente padrão de desviância.

O autor defendia que, para além dos fatores de risco comuns, existia também um estilo de
vida desviante em relação às normas que era comum entre os delinquentes, ou seja, os interesses
e as formas de funcionar, pensar e agir são diferentes da normatividade. Na presença dos fatores
de risco acima mencionados, os indivíduos que praticam fases de consumo e atividade criminal
podem passar por diferentes graus de envolvimento como:

1. Coocorrência – os atos coocorrem e coincidem no tempo, ou seja, os indivíduos não


praticam crimes porque necessariamente consomem drogas, são ações individualizadas
que ocorrem em simultâneo;

2. Reforço Mútuo – esta é diferente da conceção acima proposta, pois ambas as ações
podem se reforçar simultaneamente (tanto o crime leva ao consumo, como o consumo
leva ao crime).

3. Económico-compulsivo – este considera que já não há um grande envolvimento na


substância, ou seja, não há dependência, há sim um hábito em praticar crimes. A prática
de coisas ilegais ou desviantes (e.g., furtos, roubos, confrontos, sarilhos, favores,
prostituição, etc) torna-se um hábito – ideia de um drogado tradicional. 3

Defende, ainda, que existem fatores de manutenção, progressão e interrupção, ou seja, há


muitas mudanças na vida das pessoas. Como tal, devemos olhar para os fatores que estão
implicados nestas transições como o contexto, as pessoas, as suas características, bem como as
drogas que estas consomem, ou seja, o efeito das drogas não depende somente da substância,
mas sim de uma relação entre todos estes fatores. Até porque o efeito da mesma droga poderá
ser diferente se aplicado a pessoas diferentes, por exemplo.

2. MODELO EXPLICATIVO (CÂNDIDO AGRA): Este modelo faz uma “repetição” dos fatores
de risco, ou seja, o autor também defende que há fatores de risco comuns entre a relação droga e
crime. Assim, vai defender que existe:

3 É possível que o indivíduo progrida e regrida, nestas fases, por exemplo, há fases (tendo em conta a
idade) que o indivíduo se sente mais “capaz”, mas outras em que ele “acalme”, sendo que aos 50 anos
esta tende a acalmar devido à força física diminuída.

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− Desviância latente como fator comum – esta funciona como uma espécie de
predisposição para não cumprir regras, sendo, então, explicativa dos fatores de risco
comuns às pessoas que tomam drogas e praticam crimes. Pode integrar:

▪ Meio interno negativista, instável, desorganizado – nota-se a presença de


alguma instabilidade e negatividade no comportamento e vida do indivíduo;

▪ Vinculação social precária – esta está associada a um meio que é, já por si só,
austero e difícil de gerir que leva a pessoa, com muita frequência, a aderir a
formas subculturais de desviância. Ou seja, a própria pessoa já tem problemas
internos e negativos, sendo que a socialização com os outros e com o meio que
ao rodeia é muito complicado e, portanto, este “afastamento” da sociedade,
leva-os a subculturas que, normalmente, são delinquentes.

▪ Adesão a subculturas desviantes – como gangs organizados e pares


delinquentes.

São três dimensões que analisam a predisposição e a possibilidade que as pessoas têm de
resolver estas dificuldades com um conjunto de normas e valores, onde aquilo que há são
valores convencionais diluídos (fatores de risco que conjugam com alguma frequência das
pessoas que optam por tomar e traficar drogas). Portanto, existirá esta composição entre as
dificuldades das pessoas e os meios onde se inserem que permite estarmos perante um conjunto
de pessoas que têm maior probabilidade de praticar crimes, consumir drogas e ter uma vida
onde isso vai ter uma importância relevante por contraposição com outras pessoas que sejam
mais seguras de si e que tenham uma personalidade mais bem estruturada e estável e/ou meios
mais fáceis de vida onde se torna menos provável esses cometimentos de atos desviantes.
Probabilidade acrescida de risco.

− Estilos desviantes diferenciais – as pessoas têm opções diversas dentro da possibilidade


de praticar crimes e/ou consumir drogas. Há indivíduos que optam (nem sempre
conscientemente) por entrar no mundo de drogas, mas podem nem se interessar por
praticar crimes, são amantes das drogas e não tem particular prepotência por fazer mal a
outros (estilo mais de dependência de substâncias). Outras têm uma característica mais
marcadamente antissocial e interessam-se pouco por drogas, realizando, com alguma
frequência, crimes diversos.

Estes grupos de extremos podem resultar desta desviância latente, só por si não explicam
esta relação entre droga e crime porque são uma espécie de disjunção. Existem, portanto, vários
indivíduos que são mistos onde começa a aparecer uma sobreposição dos comportamentos por

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variadíssimos motivos. O que é certo é que existe uma certa predisposição para praticar ambos
os comportamentos: os criminais e os de consumo de drogas. Aqui já temos estilos de
operacionalização de desvio onde coocorrem estas duas possibilidades em simultâneo, mas o
problema é perceber qual é a predominante e qual começa primeiro.

− Este autor também realizou uma tipologia de trajetórias droga-crime (através da


precedência e da especialização):

▪ Toxicodependente-delinquente: haverá um conjunto de pessoas que terão maior


probabilidade de cometer ambos os comportamentos. Estas pessoas podem
praticar ambos os comportamentos, mas têm uma preferência particular pelas
drogas (perfil mais vocacionado para a toxicodependência; praticam atos
delinquente para fazer face aos meios necessários económicos, acima já
explicado). Na verdade, a questão é a dependência das drogas: elas começam
por tomar drogas e depois acabam por se envolver em atividades criminais.
Para este grupo de pessoas, a dependência das substâncias é primordial. Se elas
tratarem da questão da dependência, provavelmente param de praticar crimes.
Tendem a ter um percurso criminal muito pouco estruturado e provavelmente
só começaram a praticar crimes a partir da vida adulta (sem precedentes).

▪ Especialista droga-crime: há pessoas verdadeiramente especialistas na droga e


no crime. De algum modo, elas começam as duas coisas em simultâneo e uma
alimenta a outra, sem se conseguir perceber que é um indivíduo marcadamente
toxicodependente ou criminoso. Entram precocemente e de uma forma muito
complicada de gerir em crimes e em drogas.

▪ Delinquente-toxicodependente: quando analisamos indivíduos que têm as duas


coisas, verificamos que, às vezes, as coisas não são assim. Com frequência,
existem muitas pessoas que tomam drogas, mas antes disso já se fartavam de
praticar crimes – precedência. Os sinais de desintegração destas pessoas são
muito mais gravosos – a família e a estrutura tendem a ser bem mais precárias.
São pessoas que já tinham um comportamento bem gravoso e uma vida bem
estruturada de crimes desde novos. Este grupo de pessoas, quando lhes trata das
questões de drogas quando diminuem um padrão de dependência, não é certo
que se resolva a questão criminal – pode-se amenizar, mas a prática delinquente
pode muito bem subsistir, porque ela é precede e antecede muito o consumo de
drogas.

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− Formação droga-crime como processo: é um entendimento de que se trata de um


verdadeiro processo. Primeiro e na sequência da vida das pessoas, há várias fases
possíveis e nem todas chegam à fase da implosão. A maior parte das pessoas não passa
da expressão operotrópica.

▪ Expressão operotrópica – são pessoas que na base da desviância comum,


possam ter tendência para praticar algum crime e consumir alguma droga, mas
cuja a implicação seja mínima, é pontual e não fazem disso vida. A relação
aparece, mas tem um nível muito baixo.

▪ Circularidade oclusiva – a oclusão é quando uma atividade começa a chamar


pela outra. Começa a existir um encadeamento na vida das pessoas. Na
existência de uma desviância latente é possível.

▪ Integração – fase de ligação já com todas as características de ligação forte


entre ambos os comportamentos. A pessoa começa a assumir uma identidade
desviante e que a sua vida se faz dessas atividades e os outros começam a
observa-lo da mesma forma. Estão fundamente integrados e em permanente
retroatividade entre a vida criminal e o uso de drogas (relação em espiral,
circularidade).

▪ Implosão – a pessoa desiste da vida normativa (fenómeno extremo). Só


importam atividades desviantes e que o levem a assumir responsabilidades em
grupos criminais e a ter verdadeiramente um desligar da vida comum,
assumindo completamente a identidade desviante. Os valores tornam-se
diferentes e as pessoas assumem essa identidade efetivamente.

À medida que se aumenta a ligação, é mais difícil as pessoas inverterem este processo.
Contudo, não é de todo impossível.

AVALIAR UMA INTERVENÇÃO

A atitude deve ser a de questionar o que se faz, visando obter informação sobre a forma
como se faz e sobre os resultados obtidos. Todos falam de avaliação, mas de facto, não existe
uma efetiva cultura de avaliação.

Nas intervenções devem distinguir-se:

− Práticas (habituais, institucionais, raramente avaliadas);


− Programas (focalizados num problema, mais frequentemente avaliados).

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Portanto, é preciso definir objetivos para qualquer intervenção. Os programas precisam


de dados, de avaliação, que servem para ter conhecimento dos intervenientes e da comunidade,
serve para uma melhoria dos programas e, ainda para se tomar decisões de financiamento e de
gestão de recursos.

Questões da avaliação:

1. Porque se avalia?
2. O que se quer avaliar?
3. Que necessidades foram avaliadas?
4. Como se planeou a intervenção?
5. Como se implementou a intervenção? Há diferenças no que se diz fazer e no que se
faz, por isso, temos de verificar qual foi o processo de implementação do programa.
6. A intervenção teve os resultados ou impactos esperados) há resultados e fins ou não?

Princípios da avaliação (Agra, 2001)

− Um programa deve prever métodos e instrumentos de auto-avaliação;


− A equipa que concebe e aplica um programa deve incluir especialistas em
avaliação;
− Num programa dotado de mecanismos próprios de auto-avaliação, determina-se o
seu valor em função dos factos estabelecidos pela aplicação dos instrumentos-
avaliadores;
− O dispositivo-avaliador é de natureza instrumental e impessoal;
− A chamada “avaliação externa” estima o valor do dispositivo-avaliador inerente a
todo o programa dotado de mecanismos de auto-avaliação.

Para implementar deve-se preparar a recolha de dados, recolhe-los de forma sistemática,


analisar os dados e reportar os resultados. Os dados servem para melhorar, para modificar ou
parar de implementar determinado programa.

Tipos de avaliação

− Necessidades (o que deve ser o programa);


− Processo (o que acontece no programa, como se implementa);
− Custos;
− Satisfação dos clientes;

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− Resultados (medir as mudanças e determinar o papel do programa nas


mudanças);
− Económica (comparar alternativas).

Desenhos de avaliação

− Experimentações controladas – não têm grandes ameaças à validade interna e à


validade externa;
− Planos quasi-experimentais;
− Planos pré-teste e pós-teste e de séries temporais.

Escala de métodos científicos de Maryland:

1. Nível I – correlação entre programa e medida (p. ex.: crime) num dado momento;
2. Nível II – avaliação antes e depois;
3. Nível III – avaliação antes e depois com grupo de controlo;
4. Nível IV – avaliação antes e depois com grupo de controlo e controlo de variáveis;
5. Nível V – avaliação antes e depois com grupo de controlo e randomização.

As intervenções devem ser analisadas não pelas suas intenções, mas pelos resultados a
que chegam, quer na incidência (número de comportamentos), quer na prevalência (número de
pessoas que se comporta de determinada forma) ou nos danos causados pelos comportamentos e
no retorno comparativo dos custos com os comportamentos prevenidos.

Quais os domínios a avaliar, no consumo de drogas?

1. Prevalência e incidência (LV; UA; UM);


2. Padrões de uso;
3. Modos de utilização;
4. Consequências.

Quanto à delinquência:

1. Auto-relato;
2. Vitimação;
3. Dados oficiais.

No que respeita à saúde:

1. Saúde física;
2. Doenças (HIV; Hepatites; tuberculose);
3. Saúde mental

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Funcionamento psicológico, vínculo social e qualidade de vida:

1. Conceitos psicológicos (personalidade; atitudes; coping; ansiedade; depressão; auto-


conceito; cognições; emoções;…)
2. Ajustamento social (alojamento, alimentação; trabalho; suporte social; cidadania);
3. Funcionamento familiar;
4. Comportamento de risco.

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