O olhar steiniano sobre os desvelamentos do arquétipo em diálogo com o
arquétipo numinoso em Jung.
Soraya Cristina Dias Ferreira
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Nosso itinerário investigativo sobre O HUMANO A CAMINHO DE UM CENTRO MAIS
PROFUNDO: leituras da alma da alma apresentada por Edith Stein e da totalidade psíquica
por Jung, tese doutoral defendida no ano de 2020, colocou em pauta o humano desperto para
sua máxima interioridade. Foi utilizado o método analítico, pautado em pesquisas
bibliográficas, no departamento de Ciências da Religião, área de concentração: Religião e
Cultura; linha de pesquisa: Pluralismo Religioso, Diálogo e Linguagem e Subárea da Capes:
Epistemologia das Ciências da Religião.
Escolhemos amplificar o tema supracitado em concepções humanas diferentes, que
ora priorizam a consciência, ora o inconsciente em suas instâncias pessoais e coletivas/a priori,
mas com pontos que se tocam em termos de entendimento e de sentido. Os desvelamentos
sobre os elementos da complexa estrutura/Natureza Humana e sua abertura em busca da
unicidade tríade (corpo, psique/alma e espírito) nos conduziram por vias mais profundas.
Constatamos que a fenomenóloga husserliana e monja Edith Stein-Teresa Benedita da
Cruz (1891-1942), ao buscar a verdade, encontra repouso no vivido, retratado pelos místicos
do Carmelo Descalço Teresa de Jesus ou d’ Ávila (1515-1582) e João da Cruz (1542-1591), e
em sua singular entrega aos mistérios da Cruz de Cristo, caminhos formativos que a ajudam a
reconhecer, na alma da alma, atuações da graça. Em seus escritos filosóficos mais maduros,
nos quais aborda o pensamento cristão (2020, p.198), a autora considera que o divino espírito
santo é o arquétipo regente de toda a vida criada, atuando nos sentidos e sob os sentidos.
Verificamos que o psiquiatra e psicólogo Carl Gustav Jung (1875-1961), a partir de suas
atuações clínicas, viagens culturais, autoexperimentações e estudos sobre os fenômenos
religiosos ocidentais e orientais, vai criando sua Psicologia Complexa. Sua análise sobre como
a junção dos opostos conscientes e inconscientes acontecem na natureza da energia psíquica
nos evidencia que o arquétipo numinoso regido por imagens primordiais nela atua.
Constatamos que esta potencialidade infinita e autônoma (2020, p. 304) emerge em direção
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à consciência transformando-a. Nesta atuação a dimensão do espírito é considerada por Jung
a parte mais sutil e elevada.
Portanto, ao encontrar em ambos os autores o conceito de arquétipo, sua ampla
atuação na alma nos instiga a continuar averiguando, na envergadura destas diferentes
epistemologias, como O olhar steiniano sobre os desvelamentos do arquétipo em diálogo com
o arquétipo numinoso em Jung pode contribuir para novos aprofundamentos sob o que está
abaixo dos sentidos do humano místico.
Nesse contexto, ao unirem Ciência, fenômeno humano e o inefável, os autores
demonstram que o eu se constitui nas trilhas do Princípio de Individuação (Principium
individuationis), aberto/religado ao Princípio Transcendente. Sua forma interna permanece
preenchendo-o, podendo determinar certa posição na alma, pois, assim como um botão de
rosa ao desabrochar permanece em sua essência preenchendo a beleza da sua forma,
constata-se que o humano alcança o mais belo de si mesmo quando livremente permite
encontrar-se com o seu núcleo originário e/ou totalidade psíquica (conceito que não é para
Jung um estado de perfeição, mas sim de inteireza).
Acreditamos que a anima não pode ser compreendida sem a busca pelo entendimento
da Natureza que a constitui e a habita, portanto, é na tessitura relacional dos aspectos
intrapsíquicos, interpsíquicos, sociais, culturais, religiosos, espirituais, místicos e
transcendentes que continuamos lançando o nosso olhar.
Pensar a Natureza Humana coabitada pela Natureza do Criador nos leva a percorrer
fenômenos que ultrapassam o discurso capturado pelo logos, pois nos insere em específicas
trilhas do sentido espiritual e místico. No entanto, inebriados pelo mistério do inefável e pela
vontade de compreender tais fenômenos através dos aportes existenciais e científicos,
constatamos que não foram poucos os humanos que tentaram expressar em linguagem
imagética, poética, musical, artística, religiosa, teórica/conceitual, dentre outras formas de
apreensão e/ou expressão, o que a alma em profundidade torna-se — em liberdade,
entendimento e graça — capaz de experienciar.
Como conceitos polissêmicos, a espiritualidade e a mística não se encontram na
regularidade do silêncio mental ou na estabilidade emocional contínua, pois, por maior que
seja o esforço humano para atingi-los, são fenômenos oscilatórios, com pontos obscuros.
Desde os tempos imemoriais somos inseridos em jornadas relacionais opositoras, existentes
entre mundo interno e externo, e estas forças dinamizam os fenômenos
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acausais/inconscientes, ou seja, desafiam o saber objetivo, a compreensão dos deleites que a
alma mística experiencia quando é agraciada pelo Princípio Transcendente que em tudo
habita.
Dessa forma, constata-se que ideias sobre o Absoluto e experiências espirituais e/ou
místicas continuam exigindo unificações entre o singular e o coletivo, entre a Ciência
(Confiança no Logos) e a Fé (Confiança no Transcendente). Compreensões que para os autores
em estudo Edith Stein-Teresa Benedita da Cruz e Carl Gustav Jung irão se efetivar, como vimos
a partir da busca pelo entendimento do dinamismo presente na tríade humana (Corpo,
Alma/Psique e Espírito) em unicidade com fenômenos arquetípicos, com imagens primordiais
herdadas. Portanto, o Arquétipo Divino/numinoso possui em si um fenômeno transcendente,
que atua no humano psicofísico espiritual, afirmativa que continuamos analisando, conforme
o conceito é abordado na envergadura da obra de ambos os autores e agora em outros
escritos místicos.
Torna-se importante, aqui, destacar que o conceito de arquétipo existe desde a
antiguidade e nossa intenção não é realizar uma historiografia das diferentes variações que
ele vem alcançando no pensamento humano. No sentido Platônico é sinônimo de “ideia” e
ambos os autores pesquisados se nutrem inicialmente desta fonte transmissora. Portanto,
compreendido aqui como um elemento “vazio, formal em si, com um núcleo invariável”, mas
que emana imagens primordiais que são herdadas como padrões coletivos pelo humano. O
arquétipo se propaga deixando as mais diversas e infinitas impressões e expressões na alma.
Tal evidência leva-nos a valorar a linguagem imagética, expressões simbólicas do vivido em
vias místicas orientais e ocidentais.
Outro fato relevante a ser ressaltado é que as concepções humanas em destaque
podem até não terem se encontrado nos estudos dos autores pesquisados, mas com certeza,
ao partirem de um ponto de questionamento comum sobre o que é a estrutura da essência
humana na fenomenologia steiniana e/ou da natureza da energia Psíquica em Jung, se
complementam nas curvas do destino humano que deixam para trás concepções científicas
estanques, denominadas de Psicologia sem alma (Psychologie ohne Seele). Ambos os autores
criticam a inocência destas abordagens que, ao se apoiarem no empirismo, tentam apresentar
uma única verdade epistemológica. Este foi um dos nossos necessários pontos de partida.
De forma singular e interdisciplinar, atentos ao cumprimento formativo, cada autor
busca novas fundamentações, para assim comporem a compreensão de um dos maiores
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mosaicos que sempre permanecerá incompleto: o humano (microcosmo) em tessitura com si
mesmo e com o mundo circundante (macrocosmo). Como desvelar os pontos de unicidade
que o religam aos fenômenos transcendentes? Como compreender melhor o conceito de
alma da alma através da Ciência da Cruz vivida por Edith Stein-Teresa Benedita da Cruz, as
amplificações arquetípicas do numinoso suscitadas das autoexperimentações de Jung, fato
que contribui para a apresentação do seu conceito de psicoide? São, então, estes fatos que
nos instigam a continuar desbravando suas extensas obras, que nos leva a dela sair para
compreender os autores que eles abordam e voltar com mais sede em suas frutíferas reflexões
que conciliam vida e obra.
Dessa forma, inseridos neste tema da individuação que nasce na filosofia ontológica
ocidental, cujo sentido demonstra que o ser humano caminha em busca de sua realização,
tornando-se responsável pela formação do seu vir-a-ser no mundo que o circunda, deparamo-
nos com a necessidade de novas continuidades. Nosso itinerário de pesquisa, ao chegar na via
mística, encontra no mais profundo da alma da alma/núcleo originário e/ou na totalidade
psíquica manifestações de imagens arquetípicas que desvelam que, quando o humano
livremente abre as portas dos sentidos, o que está mais profundo se revela, tornando-o
partícipe das partículas de um infinito mistério transcendente.
Portanto, limitadamente, mas com sede, buscamos dar continuidades investigativas
na envergadura da obra de ambos os autores, nos escritos inéditos de Jung, escavando
também nas misteriosas e diversas expressões místicas, atuações do Princípio Transcendente,
de sua gênese vital, que, como substância pura/Absoluta, por gratuitamente continua se
revelando na alma da alma, no Self (totalidade psíquica), se doando de maneiras diversas e
inusitadas à limitada consciência humana.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FERREIRA, Soraya Cristina Dias. O humano a caminho de um centro mais profundo: leituras
da alma apresentada por Edith Stein e da totalidade psíquica por Jung. 2020. Tese (Doutorado)
– Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.
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