INSTITUTO SUPERIOR DE GESTÃO E EMPREENDEDORISMO GWAZA
MUTHINI
Licenciatura em Saúde Pública – Laboral
ANITA MANJATE
CLADIMIRA CHIRINDZA
PERCEPÇÕES DAS MULHERES GRÁVIDAS EM
RELAÇÃO AOS FACTORES QUE INFLUENCIAM A PRÉ-
ECLÂMPSIA NO CENTRO DE SAÚDE 1 DE JUNHO, IIº
SEMESTRE DE 2024
Dra: Rassul Nala
Marracuene, Agosto de 2024
Índice
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 3
1.1 Contextualização ................................................................................................ 3
2 Identificação do problema e sua justificativa ............................................................ 4
2.1 Identificação do Problema ................................................................................. 4
2.2 Justificativa ........................................................................................................ 5
1. REVISÃO DE LITERATURA .............................................................................. 7
3 Conceitos chaves ....................................................................................................... 7
3.1 Pré-eclâmpsia (PE) ............................................................................................ 7
3.2 Eclâmpsia ........................................................................................................... 7
4 Epidemiologia de eclâmpsia...................................................................................... 7
5 Importância da Consulta Pré-Natal (CPN) durante a Gestação ................................ 8
5.1 Factores de risco ................................................................................................ 9
5.2 Prevenção de pré-eclâmpsia............................................................................. 11
6 Estudos sobre a temática ......................................................................................... 11
7 Contribuições à Luz das Teorias em Saúde ............................................................ 14
7.1 Teoria Social-Cognitiva de Bandura................................................................ 14
7.2 Modelo de Auto-regulação de Leventhal ......................................................... 15
7.3 Teoria da Ação Planejada de Ajzen ................................................................. 15
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................ 17
2
1 INTRODUÇÃO
1.1 Contextualização
A pré-eclâmpsia (PE) é uma das principais causas de morbi-mortalidade materna
constituindo assim uma preocupação para a saúde pública. É uma patologia heterogénea,
multifactorial, sem etiologia esclarecida e fisiopatologia complexa. A identificação de
factores de risco pode auxiliar na sua prevenção e ajudar no melhoramento dos agravos a
saúde (Amaral, 2016).
A pré-eclâmpsia está a tornar-se um diagnóstico cada vez mais comum no mundo com
destaque os países em desenvolvimento (Phipps; Devika; Wunnie & Belinda, 2016). A
enfermidade é igualmente uma das principais causas de morbi-mortalidade materna entre
as mulheres grávidas e a sua incidência mostra discrepância entre as diferentes
populações (Shegaze et al., 2016).
Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia
[FEBRESO] (2017), as Síndromes Hipertensivas recorrentes na gravidez constituem um
dos problemas mais relevantes dentro da obstetrícia, pois é uma das maiores causas de
mortalidade materna e perinatal em todo o mundo. Embora ainda se afirme que há
subestimação das estatísticas, a sua incidência calculada para a nível global é de 7,5%
para a pré-eclâmpsia e 5,5 % para a eclâmpsia.
Não existem informações precisas sobre a incidência de PE, porém estima-se que ocorra
entre 3,0% e 5,0% das gestações nos países em desenvolvimento. Para Brasil, uma revisão
sistemática identificou a incidência de 1,5% para PE e 0,6% para eclampsia (Abalos;
Cuesta; & Say, 2013).
Segundo o Instituto Nacional de Estatística [INE], (2019), em Moçambique, as taxas de
mortalidade materna (MM) e do recém-nascido permanecem persistentemente elevadas.
O rácio de Mortalidade Materna Nacional estagnou em torno das 450 mortes por 100 000
nados-vivos.
É com base neste estudo que se pretendeu analisar o Conhecimentos das mulheres
grávidas em relação aos factores de risco da PE no Centro de Saúde 1 de Junho, segundo
Semestre de 2024.
3
2 Identificação do problema e sua justificativa
2.1 Identificação do Problema
A pré-eclâmpsia é reconhecida como um problema significativo de saúde pública global.
De acordo com Wallis et al. (2018), estima-se que essa condição afete entre 3% a 5% das
gestações em todo o mundo, embora dados precisos de incidência ainda sejam escassos.
A pré-eclâmpsia apresenta-se de maneira peculiar, ocorrendo predominantemente em
primigestas e afetando 6% das gestantes em países desenvolvidos, enquanto sua
prevalência é de duas a três vezes maior em nações subdesenvolvidas, onde o acesso aos
cuidados de saúde e a conscientização sobre os riscos podem ser limitados (Peraçoli &
Parpinelli, 2005).
As manifestações clínicas da pré-eclâmpsia incluem o desenvolvimento gradual de
hipertensão, proteinúria e edema generalizado, complicações que elevam
significativamente as taxas de mortalidade materna, especialmente em países de baixa e
média renda, onde essas taxas podem variar de 10% a 20%, em contraste com os 5% a
9% observados em países de alta renda (Frebosgo, 2017). Além disso, aproximadamente
3% a 7% das gestantes são afetadas pela pré-eclâmpsia, que costuma surgir após a 20ª
semana de gestação e, em até 25% dos casos, desenvolve-se durante o pós-parto,
especialmente nos primeiros quatro dias e até seis semanas após o parto (Shegaze et al.,
2016).
Estudos apontam que a incidência de pré-eclâmpsia entre primíparas é o dobro em
comparação à população geral, sendo mais frequente entre mulheres negras, associada a
fatores como hipertensão arterial crônica e primiparidade (Sibai & Ewell, 2014). Em
Moçambique, as complicações durante a gravidez e o parto, incluindo a pré-eclâmpsia,
são a principal causa de morte entre adolescentes e mulheres jovens de 15 a 19 anos. Nas
áreas com alta mortalidade materna, a pré-eclâmpsia e a fístula obstétrica podem ocorrer
com uma taxa de até três casos por 1.000 gestações (UNFPA, 2017).
Em Maputo, a mortalidade materna, majoritariamente evitável, poderia ser reduzida em
até 80% com atenção e cuidados adequados à mulher gestante durante o período pré-natal,
parto e puerpério (Nehemia, 2014). Esse contexto ressalta a importância do conhecimento
das mulheres em relação aos fatores de risco da pré-eclâmpsia, possibilitando a adoção
4
de medidas preventivas para evitar seu surgimento e reduzir complicações de curto, médio
e longo prazo.
O Relatório do Sistema de Informação em Saúde para Monitoria e Avaliação (SISMA,
2022) do Centro de Saúde 1 de Junho mostra que os casos de pré-eclâmpsia aumentaram
em 15% de 2021 para 2022, com 87 casos registrados no primeiro trimestre de 2021 e
103 no mesmo período de 2022, revelando um agravamento da situação e destacando a
pré-eclâmpsia como um problema de saúde pública.
Diante desse contexto, a questão que se coloca é: Qual é o nível de conhecimento das
mulheres grávidas atendidas na Consulta Pré-Natal (CPN) do Centro de Saúde 1 de Junho
em relação aos fatores que influenciam a pré-eclâmpsia?
2.2 Justificativa
A pré-eclâmpsia (PE) é uma condição de alta prevalência e impacto global, porém muitas
vezes subnotificada em países em desenvolvimento, o que dificulta a obtenção de dados
precisos para ações de saúde pública. Embora a maioria dos profissionais de saúde esteja
ciente da gravidade da PE, a falta de conhecimento e de medidas efetivas de prevenção
entre a população, em especial entre as gestantes, configura-se como um desafio. Essa
lacuna no entendimento dos fatores de risco pela comunidade, principalmente pelas
gestantes, representa uma preocupação significativa para a saúde pública e motivou a
escolha desse tema pela estudante, com o objetivo de aprofundar e compreender o
problema no contexto local.
Estudos mostram que a maioria das mortes relacionadas à PE e eclâmpsia é evitável com
o devido cuidado e acompanhamento de gestantes em situação de risco. Intervenções
eficazes para reduzir a mortalidade materna e neonatal são amplamente conhecidas, mas
sua implementação depende de sistemas de saúde integrados e de conscientização sobre
os fatores de risco, fundamentais para prevenir a condição. Esse aspecto foi determinante
para a estudante, tanto no nível pessoal quanto acadêmico, ao decidir explorar o nível de
conhecimento das gestantes sobre os fatores de risco da PE.
Dados do Centro de Saúde 1 de Junho revelam um aumento preocupante nos casos de PE:
87 casos registrados no primeiro trimestre de 2021 em comparação com 103 no mesmo
período de 2022, um aumento de 15%, o que evidencia a necessidade urgente de
5
melhorias na atenção à saúde da mulher (MISAU, 2022). A pesquisa visa, portanto, apoiar
o setor de saúde com informações que permitam melhorar o cuidado à mulher, sua família
e sua comunidade, considerando que a PE em gestantes gera não apenas elevados custos
financeiros para o sistema de saúde, mas também graves consequências para a saúde
materna e neonatal.
No âmbito comunitário, a pesquisa busca contribuir para o fortalecimento das ações de
saúde desenvolvidas pelos Agentes Comunitários de Saúde, especialmente na
identificação precoce e no encaminhamento adequado de mulheres com sinais de PE para
as unidades de saúde. A morte de uma mulher por complicações relacionadas à PE
representa uma perda significativa para a família e para a comunidade, com repercussões
que podem atravessar gerações, dada a importância da mulher como suporte moral, social
e econômico para sua família e comunidade.
Para as autoridades de saúde, os resultados deste estudo podem auxiliar no
desenvolvimento de estratégias preventivas adaptadas à realidade do país e, em particular,
à população atendida pelo Centro de Saúde 1 de Junho, contribuindo para a redução da
mortalidade materna.
No âmbito acadêmico, este estudo responde à motivação da estudante em contribuir com
conhecimento aprofundado sobre o nível de informação das gestantes moçambicanas a
respeito dos fatores que influenciam a PE, tema que ainda carece de literatura local. Além
disso, os resultados desta pesquisa podem servir como referência e instrumento de apoio
para futuros estudos sobre a temática, fortalecendo a base de conhecimento sobre a PE no
contexto de Moçambique.
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1. REVISÃO DE LITERATURA
3 Conceitos chaves
3.1 Pré-eclâmpsia (PE)
É doença exclusiva da gestação humana e se caracteriza pelo aparecimento de hipertensão
e proteinúria após a 20a semana de gestação. Na sua vigência, a mortalidade perinatal
está aumentada de cinco vezes (Ministério de Saúde-Brasil, 2011).
Pré-eclâmpsia é o surgimento ou agravamento da hipertensão e proteinúria após 20
semanas de gestação. Pressão arterial> ou = a 140x90 mmHg a partir de 20 semanas de
gestação. Deve-se considerar pré-eclâmpsia, mesmo na ausência de proteinúria, na
presença de hipertensão grave (> ou = 160x110 mmHg) (MISAU, 2016).
A pré-eclâmpsia impacta aproximadamente 5-8% das gestações em nível global e é
responsável por uma fração significativa de complicações durante a gravidez,
especialmente em países de baixa e média renda (American College of Obstetricians and
Gynecologists [ACOG], 2020). Em Moçambique, a condição é prevalente e está
associada a uma série de desfechos adversos, devido ao acesso limitado a cuidados pré-
natais adequados e ao conhecimento insuficiente sobre práticas preventivas (OMS, 2019).
3.2 Eclâmpsia
É a ocorrência de convulsões generalizadas e inexplicadas com pré-eclâmpsia. A
eclâmpsia caracteriza-se pela presença de convulsões tónico-clónicas generalizadas ou
coma em mulher com qualquer quadro hipertensivo, não causadas por epilepsia ou
qualquer outra doença convulsiva, podendo ocorrer na gravidez, no parto e no puerpério
imediato (Ministério de Saúde-Brasil, 2011).
4 Epidemiologia de eclâmpsia
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2017), a incidência de eclâmpsia
varia de acordo com o nível de assistência à saúde: em países desenvolvidos, a taxa é de
1 caso para cada 2.000 gestações, enquanto em países em desenvolvimento, a incidência
pode ser tão alta quanto 1 caso para cada 100 gestações. A pré-eclâmpsia (PE) aumenta
significativamente o risco de morte materna, com uma probabilidade 3,73 vezes maior
(IC 95%: 2,15-6,47) em comparação com gestantes sem o diagnóstico. Já para a
7
eclâmpsia, o risco relativo de morte materna é 42,4 vezes maior (IC 95%: 25,1-71,4),
destacando a gravidade dessas complicações para a saúde materna.
A prevalência de PE pode variar conforme a localização geográfica e os fatores
socioculturais. No Brasil, por exemplo, a PE é a principal causa de morbi-mortalidade
materna, com uma incidência de aproximadamente 10% (Seiffert, 2020). Em
Moçambique, os distúrbios hipertensivos na gravidez, especialmente a PE e a eclâmpsia,
são responsáveis por cerca de 10% da mortalidade materna e perinatal anual,
representando 19% das causas diretas de morte materna (MISAU, 2016).
Fatores socioeconômicos, como o emprego precário que exige carga laboral elevada, o
baixo nível de escolaridade e o desemprego, influenciam o desenvolvimento da PE
durante a gravidez (Nogueira, 2010). Esses determinantes destacam a necessidade de
estratégias de intervenção que considerem as condições sociais e econômicas das
gestantes para reduzir o impacto da PE e da eclâmpsia na saúde materna.
5 Importância da Consulta Pré-Natal (CPN) durante a Gestação
Segundo Amaral (2016), a ausência de métodos eficazes de prevenção da pré-eclâmpsia
(PE) em nível populacional torna a assistência pré-natal essencial. Essa assistência
permite a promoção de uma vigilância mais atenta para o diagnóstico precoce dos
primeiros sinais e sintomas da doença. Ao identificar esses sinais, é possível tomar
medidas para evitar o agravamento da condição, reduzindo, assim, a morbimortalidade
materna e perinatal.
A Consulta Pré-Natal (CPN) é um momento oportuno para desenvolver ações educativas,
utilizando ferramentas como o diálogo, a criação de vínculos e a escuta ativa das gestantes
e seus acompanhantes. Essa abordagem fortalece a relação entre os profissionais de saúde
e as gestantes, ampliando o conhecimento e esclarecendo dúvidas (Gomes et al., 2019).
De acordo com o Ministério da Saúde do Brasil (2015), a realização da CPN desempenha
um papel fundamental na prevenção e detecção precoce de patologias maternas e fetais,
promovendo um desenvolvimento saudável do bebê e reduzindo os fatores de risco para
a gestante e para o momento do parto.
8
Um estudo realizado em Malawi por Martins (2017) revelou que as mulheres consideram
a consulta pré-natal como uma oportunidade importante para esclarecer e informar sobre
os riscos da pré-eclâmpsia. As práticas tradicionais relacionadas à prevenção e tratamento
da doença frequentemente não abordam adequadamente os fatores de risco que podem
agravar a situação.
Os conselhos oferecidos durante as CPN incluem orientações sobre dieta alimentar, além
de alertas sobre a necessidade de evitar diversos fatores de risco que podem comprometer
a gestação. Além disso, são realizadas análises que possibilitam diagnosticar doenças ou
potenciais complicações, monitorar a posição do feto e implementar campanhas de
imunização. As gestantes também recebem redes mosquiteiras para prevenir a malária
durante a gravidez e no pós-parto, além de fármacos e suplementação com ferro e ácido
fólico, entre outras atividades (Save the Children, 2011).
5.1 Factores de risco
Em 2018, investigadores da Fundação Owaldo Cruz e do Instituto Nacional de Saúde
(INS) identificaram os seguintes factores de risco para a pré-eclâmpsia:
a) Factores Familiares
A pré-eclâmpsia é uma doença complexa, que se considera hereditária em um padrão
familiar;
b) Factores ligados a Idade
Extremos de idade materna foram associados com risco de pré-eclâmpsia/eclâmpsia;
c) Factores relacionados ao Peso ao nascer materno
As mulheres com baixo peso ao nascer (< 2500 g) apresentaram o dobro do risco de
experimentar pré-eclâmpsia (OR 2,3, IC 95% 1,0-5,3) quando comparadas com as
mulheres que pesavam 2500-2999g ao nascimento;
d) Índice de massa corporal pré-gravidez
O aumento do IMC é um factor de risco importante para pré-eclâmpsia e pré-eclâmpsia
grave com risco atribuível de 64%;
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e) Paridade
A pré-eclâmpsia é mais comum a primeira gravidez da mulher;
f) Intervalo entre gestações
O risco de pré-eclâmpsia geralmente é menor na segunda gravidez se concebido com o
mesmo parceiro.
Segundo FEBROSO (2017), os principais factores de risco para o desenvolvimento da
PE são primigestação, história prévia ou familiar de PE, hipertensão crónica, diabete,
colagenose, raça negra, obesidade e trombofilias. Nestas pacientes, deve-se ter atenção
especial no pré-natal para realizar o diagnóstico da pré-eclâmpsia o mais cedo possível.
Resultados de Martis (2017), concluíram que, no histórico dos antecedentes familiares e
pessoais, verificaram-se três dados importantes no estudo, o primeiro, dos 250
participantes, 112 possuem como antecedente familiar (44,80%), o segundo, as que
apresentavam o DM foi de (38,4%), e por último, aquelas que não apresentavam nenhum
histórico familiar nem de DM foi de (16,8%).
Ainda com o mesmo autor, as condições socioeconómicas desfavoráveis, como baixa
escolaridade e baixa renda familiar, têm levado mulheres à gestação de alto risco, visto
que essas situações estão associadas, em geral, ao estresse e a piores condições
nutricionais.
Quando a mulher gera um filho na idade jovem aumenta o risco de ocorrerem
complicações como hipertensão, aborto e mortes neonatais não só, a gravidez na
adolescência é considerada de alto risco para a mortalidade infantil, em função de
aspectos fisiológicos, como peso, estatura, estado nutricional e desenvolvimento do
aparelho reprodutivo da mãe (César & Abreu, 2015).
Resultados acima divergem com os de Cau e Arnaldo (2013), cujo o titulo: Ė Urgente
Reduzir a Mortalidade Materna em Moçambique, relata que, há mitos que influenciam
negativamente na procura dos serviços de saúde pelas mulheres grávidas, as comunidades
acreditam que uma Mulher grávida conhecida mais cedo “influencia em gravidez de
risco”. Com esta alegação, as mulheres procuram tarde á CPN, o que retarda o
diagnóstico, tratamento, e outras informações que podem ajudar na redução das diversas
patologias.
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5.2 Prevenção de pré-eclâmpsia
Dentre as síndromes hipertensivas gestacionais, especial atenção deve ser dada à PE ou
doença hipertensiva específica da gravidez que ocorre como forma isolada ou associada
à hipertensão arterial crónica, pois estão ligados aos piores resultados maternos e
perinatais (Nehemia, 2014).
A prevenção é o melhor caminho e o esclarecimento das mulheres em relação aos sinais
e sintomas representa o alerta para o início do tratamento e o controle da pressão arterial
na gestação, principalmente, no grupo de risco. A pré-eclâmpsia ocorrida na gravidez
deve ser uma preocupação constante para as mulheres gestantes e para os serviços de
saúde, devendo ser encarada como um problema de saúde pública (Guevara, 2019).
Desde 1985, vários estudos tem sido publicados analisando os efeitos do uso de doses
baixas de aspirina para prevenção da PE. Em revisão sistemática publicada na Biblioteca
Cochrane incluindo 37.560 gestantes com risco moderado e alto para PE, os autores
concluíram que a aspirina em baixa dose (50-150 mg/dia) reduz em 17% o risco de
desenvolver PE (RR: 0,83) com NNT de 72 gestantes (FREBROSO, 2017).
Segundo Sousa e Silva (2000), pode se prevenir a PE tendo em conta as seguintes
medidas: Realizar Consultas Pré-Natais durante a gestação; boas práticas em relação a
alimentação; Adoptar um estilo de vida saudável, e seguir as orientações médicas de
acordo com o seu nível de risco.
A utilização do cálcio baseia se no facto de que a dieta com pouco cálcio tem sido
relacionada a incidência aumentada de eclampsia. Além disso, em populações de baixa
renda, mas que tem dietas ricas em cálcio, a incidência de PE e eclampsia e menor.
Existem vários estudos correlacionando a suplementação de cálcio e as quantidades
ingeridas de cálcio na dieta com os níveis pressoricos e a PE (MISAU, 2016).
6 Estudos sobre a temática
A percepção das gestantes sobre a pré-eclâmpsia e os fatores que a influenciam é uma
área de estudo importante, pois determina o nível de adesão aos cuidados preventivos e
influencia a decisão de buscar ajuda médica em tempo hábil. Em diferentes partes do
mundo, a falta de conhecimento e a presença de crenças culturais em torno da pré-
eclâmpsia afetam a forma como as mulheres lidam com a condição.
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Estudos indicam que a educação formal e o acesso à informação de qualidade são fatores
determinantes para o conhecimento sobre a pré-eclâmpsia (Berhe et al., 2020). Mulheres
com maior nível de escolaridade e acesso a fontes confiáveis tendem a ter maior
compreensão sobre os fatores de risco e a importância do pré-natal. No Centro de Saúde
de 1 de junho, os profissionais de saúde enfrentam o desafio de lidar com pacientes que,
muitas vezes, têm acesso limitado a informações de qualidade.
Em muitos contextos, as percepções sobre a saúde durante a gravidez são moldadas por
crenças culturais e sociais. Por exemplo, algumas mulheres podem acreditar que a
hipertensão gestacional é uma condição "natural" que não necessita de intervenção
médica. Esse tipo de crença pode afetar a busca por atendimento pré-natal e o
engajamento com os cuidados oferecidos.
Um estudo realizado por Silva e Santos (2019) em uma comunidade de baixa renda no
Brasil observou que muitas mulheres grávidas desconheciam os fatores de risco e as
complicações possíveis da pré-eclâmpsia. O estudo destacou a falta de programas
educativos eficazes no sistema de saúde pública e uma tendência das mulheres de
relacionarem os sintomas da pré-eclâmpsia a “alterações comuns” da gravidez, como
inchaço e dores de cabeça, sem perceberem que esses sintomas poderiam indicar uma
condição de risco elevado. A ausência de conhecimento levou a uma baixa adesão aos
cuidados pré-natais regulares e a uma limitação na prevenção de complicações graves,
como eclâmpsia e síndrome de HELLP.
Outro estudo significativo foi conduzido na Nigéria por Obiechina et al. (2018), onde foi
observado que mais de 60% das mulheres grávidas entrevistadas desconheciam a relação
entre hipertensão e pré-eclâmpsia. A pesquisa ressaltou o impacto das crenças culturais,
que frequentemente interpretam doenças durante a gravidez como resultado de
“intervenções sobrenaturais” ou má sorte. Tais crenças contribuíram para uma hesitação
em buscar cuidados médicos e uma desconfiança em relação aos tratamentos
recomendados, afetando a disposição das mulheres para aderir ao pré-natal adequado.
Este estudo evidencia a necessidade de intervenções culturais específicas para
desmistificar a condição e oferecer suporte baseado na compreensão dos valores locais.
Na Índia, um estudo de Joshi e Shrivastava (2020) identificou que muitas gestantes
relutavam em aderir às recomendações médicas devido à falta de apoio social e
12
econômico. Para mulheres de baixa renda, os custos relacionados ao transporte e aos
exames médicos adicionais eram obstáculos para um acompanhamento adequado. Esse
estudo ressaltou que, além de fornecer educação em saúde, é necessário que o sistema de
saúde ofereça suporte financeiro e estrutural para garantir o acesso aos cuidados. A
implementação de programas de incentivo, que cobrem os custos de exames essenciais
para o diagnóstico da pré-eclâmpsia, foi recomendada para melhorar o nível de
atendimento e reduzir a mortalidade materna.
Em Uganda, Kaye et al. (2014) conduziram um estudo que revelou como o entendimento
das gestantes sobre a pré-eclâmpsia é profundamente influenciado pelo nível de educação
e por fatores econômicos. Neste contexto, a baixa escolaridade foi associada a uma
percepção limitada sobre os sinais e sintomas da pré-eclâmpsia, e muitas mulheres
acreditavam que complicações durante a gravidez eram inevitáveis e não poderiam ser
prevenidas. O estudo identificou que a introdução de programas de educação em saúde,
que incluíam workshops e sessões de aconselhamento nos postos de saúde, ajudou a
aumentar a conscientização sobre a condição e contribuiu para uma adesão maior ao pré-
natal.
Na Etiópia, um estudo de Molla et al. (2019) examinou a relação entre o conhecimento
das mulheres sobre a pré-eclâmpsia e sua disposição para realizar exames preventivos.
Os pesquisadores constataram que apenas 15% das mulheres grávidas que participaram
do estudo sabiam identificar corretamente os sintomas da pré-eclâmpsia. A pesquisa
concluiu que o baixo nível de informação estava associado a uma menor frequência de
visitas ao pré-natal e à percepção de que o exame de pressão arterial era dispensável. Este
estudo reforçou a importância de capacitar as gestantes, por meio de aconselhamentos
pré-natais específicos sobre hipertensão e condições de risco durante a gravidez.
Nos Estados Unidos, onde o acesso à informação e aos serviços de saúde é amplamente
disponível, um estudo de Wallis et al. (2018) encontrou que, apesar do conhecimento
técnico, muitas mulheres ainda subestimavam os riscos da pré-eclâmpsia. O estudo
sugeriu que a normalização dos sintomas leves de hipertensão gestacional e a falta de
atenção a sintomas “não visíveis” contribuíam para que as gestantes não percebessem a
gravidade da condição. Esse estudo propôs que a educação em saúde fosse incorporada
em cada consulta pré-natal, destacando que o conhecimento contínuo e a comunicação
constante entre médico e paciente são essenciais para a conscientização.
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Comparando esses estudos, percebe-se que o nível de percepção das gestantes sobre a
pré-eclâmpsia varia substancialmente entre regiões e contextos socioeconômicos. Em
países de baixa renda, como Uganda e Etiópia, as mulheres apresentam limitações
informacionais significativas, influenciadas pela escolaridade e pela escassez de
campanhas de conscientização. Em países de alta renda, como os Estados Unidos, embora
o conhecimento técnico esteja disponível, as percepções culturais e a subestimação dos
sintomas podem influenciar a adesão ao tratamento. Esses estudos mostram a importância
de adaptar intervenções conforme o contexto cultural e as necessidades educacionais das
populações locais, o que é particularmente relevante para o estudo no Centro de Saúde de
1de junho
Em Moçambique, onde o presente estudo é contextualizado, pesquisas locais também
mostram uma falta de conhecimento entre as gestantes sobre a pré-eclâmpsia e seus
riscos. Segundo Nhampossa et al. (2021), a falta de campanhas educativas efetivas,
principalmente em áreas rurais e regiões com baixo índice de escolaridade, contribui para
uma compreensão limitada da condição. No entanto, observou-se que o uso de campanhas
comunitárias e a inclusão de líderes locais, como as parteiras tradicionais, podem ter um
papel significativo na disseminação de informações e na desmistificação de mitos sobre
a saúde gestacional.
7 Contribuições à Luz das Teorias em Saúde
7.1 Teoria Social-Cognitiva de Bandura
A Teoria Social-Cognitiva de Bandura (1986) oferece outra estrutura importante para
compreender o comportamento de saúde. Segundo essa teoria, o comportamento é
influenciado tanto pelas expectativas de resultados quanto pela autoeficácia, ou seja, pela
crença na capacidade de realizar uma ação específica para alcançar um resultado
desejado. Aplicando essa teoria à pré-eclâmpsia, entende-se que as mulheres precisam
acreditar em sua capacidade de prevenir a condição através de medidas como consultas
regulares, controle da pressão arterial e atenção aos sinais de alerta.
A autoeficácia das gestantes pode ser influenciada por fatores como o apoio social
(família e comunidade), experiências anteriores com a saúde e as informações
transmitidas pelos profissionais de saúde. Estudos mostram que as mulheres que se
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sentem capacitadas e recebem apoio contínuo são mais propensas a adotar práticas de
autocuidado.
7.2 Modelo de Auto-regulação de Leventhal
O Modelo de Auto-regulação de Leventhal (1980) sugere que, ao enfrentar uma ameaça
de saúde, como a pré-eclâmpsia, os indivíduos desenvolvem representações cognitivas e
emocionais sobre a condição que influenciam suas respostas de enfrentamento. Segundo
essa teoria, as pessoas geram um “modelo mental” da doença, que inclui suas crenças
sobre causas, consequências, controle e duração da condição.
No contexto da pré-eclâmpsia, esse modelo pode ajudar a explicar por que algumas
mulheres subestimam a gravidade da condição ou acreditam que os sintomas são normais
durante a gravidez. Por exemplo, se uma gestante acredita que o inchaço ou a pressão alta
são normais, ela pode não buscar ajuda médica de imediato. Esse entendimento pode
orientar os profissionais de saúde a fornecer informações corretas e claras sobre o que
esperar e como responder aos sintomas da pré-eclâmpsia, ajudando as gestantes a criar
um modelo mental realista da condição.
7.3 Teoria da Ação Planejada de Ajzen
A Teoria da Ação Planejada de Ajzen (1991) propõe que o comportamento de saúde é
determinado pela intenção de agir, influenciada pela atitude do indivíduo em relação ao
comportamento, pelas normas sociais e pelo controle percebido sobre o comportamento.
Em relação à pré-eclâmpsia, a intenção das mulheres de buscar assistência e seguir
orientações de saúde pode ser impactada por normas culturais e pela percepção de
controle sobre sua própria saúde.
15
16
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Abalos, E., Cuesta, C., & Say, L. (2013). Global and regional estimates of preeclampsia
and eclâmpsia: A systematic review. _European Journal of Obstetrics &
Gynecology and Reproductive Biology_.
Amaral, W. T. (2016). Factores de risco relacionados à pré-eclâmpsia. Brasília.
Berhe, A. K., Ilesanmi, A. O., Aimakhu, C. O., & Mulugeta, A. (2020). Health care-
seeking behavior among pregnant women in rural areas. Journal of Maternal and
Child Health, 5(3), 123–131.
Cau, B. M., & Arnaldo, C. (2013). Ė Urgente Reduzir a Mortalidade Materna em
Moçambique.
César, C. C., & Abreu, D. M. X. (2015). Efeito-idade ou efeito pobreza? Mães
adolescentes e mortalidade neonatal em Belo Horizonte. _Revista Brasileira de
Estudos de População_.
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