Unid 2
Unid 2
Unidade II
5 O ANTIRRACISMO NA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA
É comum no Brasil nos orgulharmos de nossas leis como sendo as mais modernas e avançadas
do mundo. Temos uma das constituições mais progressistas e igualitárias do planeta. Promulgamos
estatutos específicos de proteção a várias minorias: Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
Estatuto do Idoso, do Índio, da Igualdade Racial e a Lei Maria da Penha, que combate a violência
contra as mulheres. Todos esses são exemplos de que, em termos de legislação, o Brasil possui um
referencial de primeiro mundo.
Entretanto, por que é necessário termos legislações que regulem tanto as relações sociais e os
interesses desses grupos? Para tentar responder, pense nas seguintes situações:
• Por que seria necessária uma lei proibindo e punindo a discriminação racial?
• Por que temos um estatuto que obriga o Estado e a sociedade a garantirem às crianças e aos
adolescentes direitos fundamentais como educação, alimentação e lazer?
• Por que precisamos de uma lei que trate especificamente da violência contra idosos e
mulheres?
• Precisamos de leis que punam atitudes racistas porque o racismo está presente em nosso cotidiano,
de maneira dissimulada, mas evidente.
• As crianças precisam de um estatuto porque lhes são negados no Brasil seus direitos mais
fundamentais, como educação, alimentação e o direito a brincar.
• Idosos e mulheres precisam da proteção da lei no Brasil porque são sistematicamente violentados,
em números alarmantes, todos os dias.
Conclusão: o que nossas leis tentam fazer é corrigir uma realidade desigual, violenta e injusta, de
maneira artificial, como se “a força da lei” fosse suficiente para mudar comportamentos e mentalidades,
o que de fato não ocorre. Ao contrário, sabemos que, infelizmente, no Brasil, poucas pessoas são de fato
condenadas e punidas por crimes de racismo, maus‑tratos a idosos e crianças, violência contra mulheres
e indígenas, apenas para mencionar alguns exemplos.
64
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL
Observação
Entretanto, vivemos num país democrático e, para mudar nossa realidade, por mais complexa que
seja, precisamos sem dúvida de leis que amparem essas minorias, fortalecendo, assim, os movimentos
sociais na garantia de proteção e equidade de direitos e oportunidades. No caso das relações
étnico‑raciais (que nos interessam nesta disciplina), precisamos de uma legislação antirracista, que
ajude a coibir atitudes discriminatórias e sirva de base para uma ampla discussão popular capaz
de transformar comportamentos e mentalidades, por mais profundas que sejam suas raízes e as
resistências enfrentadas.
Leis para isso nós já temos, e vamos conhecê‑las agora. Resta‑nos, como educadores, encontrar as
melhores estratégias para colocá‑las em prática e, assim, promover as mudanças sociais necessárias,
assunto que abordaremos mais adiante.
No dia 5 de outubro de 1988, foi promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil, com
um amplo processo de mobilização popular, resultado da abertura democrática experienciada a partir
de 1985, que colocou fim aos vinte anos de ditadura militar no Brasil.
Figura 20
Em seu artigo 20, inciso XI, a Constituição Federal define que as terras tradicionalmente ocupadas
pelos índios são bens da União, isso significa que o Estado detém o direito sobre a propriedade desses
territórios, por isso assistimos a diversas manifestações e movimentos em busca da demarcação de
terras indígenas, problema que se arrasta há séculos no Brasil. E o artigo 49, inciso XVI, afirma que cabe
exclusivamente ao Congresso Nacional autorizar a exploração e o aproveitamento de recursos hídricos
e a pesquisa e lavra de riquezas minerais em terras indígenas, o que autoriza o Congresso a definir a
construção de usinas hidrelétricas naquelas terras, por exemplo.
65
Unidade II
Como vemos, as questões indígenas foram mantidas sob o controle do governo federal, o que é
uma tentativa de garantir, por meio dos órgãos centrais, uma política específica para essas populações
em geral. Mas também gera contradições, à medida que mantém a tutela política, negando maior
autonomia aos grupos ou etnias mais organizados.
Mesmo assim, essa constituição apresenta grandes avanços no que tange ao campo dos direitos das
chamadas “minorias sociais”, como índios, negros, crianças e idosos, entre outros. Ela tem um capítulo
inteiro dedicado aos índios, o capítulo VIII, que reconhece os direitos desses grupos e atribui à União o
dever de zelar por eles, protegê‑los e fazê‑los respeitar.
Outro importante avanço a ser destacado é o fato de que é nessa constituição que a prática de
racismo passa a ser considerada crime, de acordo com o seguinte artigo:
Perceba que, segundo o texto, se trata de um crime que não é passível de fiança, ou seja, só pode
ser punido por prisão; além disso, não prescreve, quer dizer, pode ser punido mesmo depois de passados
muitos anos do ocorrido. Isso, sem dúvida, foi um importante instrumento para a ampliação do alcance
das ações até então desenvolvidas pelo movimento negro. A esse respeito, observam De Paula e Heringer
(2009, p. 9):
Para que se compreenda a profundidade dessa citação e a enorme importância que a Constituição
teve na luta antirracista, na ampliação do enfrentamento da violência e na afirmação do orgulho racial,
leia também a afirmação de Guimarães (2009, p. 61):
Desse momento em diante, o movimento negro se fortalecia no Brasil, principalmente por sua
autovalorização, sua “percepção racializada de si mesmo e do outro”, de suas raízes africanas, suas
influências latino‑americanas, sua cultura e religião, sua música e sua arte, sua história e heranças
deixadas. A partir disso, a promulgação de outras legislações específicas foi um passo rápido, sobre o
qual comenta Silva (s.d.):
O que esse autor confirma é que, de fato, somos um país com leis avançadas em relação a nossos
vizinhos latino‑americanos. Além dessas mudanças no Código Penal de 1940, tínhamos agora uma
legislação específica qualificando e punindo a prática de racismo. Vejamos, segundo Guimarães (2004,
p. 19), quais são os significados de racismo cobertos pela legislação brasileira atual:
Um aspecto fica claro e ainda incomoda nessa citação: toda forma de racismo manifesto publicamente
merece, nos termos da lei, a devida punição; entretanto, as ações de racismo praticadas no âmbito
privado não podem ser enquadradas na lei vigente. Isso nos leva mais uma vez à reflexão acerca da
necessidade de ações educativas na transformação das relações étnico‑raciais no Brasil.
Observação
O Brasil tem, entre suas legislações, uma série de estatutos específicos que visam proteger grupos
de minorias, bem como promover sua inclusão social e a garantia de acesso a direitos fundamentais.
Segundo o Portal Brasil (BRASIL, s. d.), “um estatuto é um regulamento ou código com significado e
valor de lei ou de norma”. É o caso, por exemplo, do Estatuto do Idoso, do Estatuto do Índio, do ECA e
do Estatuto da Igualdade Racial. Neste tópico, trataremos desses três últimos, que mostram relação com
nossa disciplina.
Após a promulgação da nova Constituição brasileira, em 1988, esta foi a legislação mais importante
para crianças e adolescentes no Brasil, e que trouxe reflexos também sobre as políticas de assistência
67
Unidade II
social e educacionais a partir de então. Sobre a questão étnico‑racial, o único artigo que faz alusão à
discriminação é:
Figura 21
Dessa forma, pela primeira vez, crianças e adolescentes passam a ser tratados como cidadãos de
direitos, fruto de um intenso debate internacional em voga nas últimas décadas, conforme indicam as
autoras Lima e Veronese (2009, p. 7‑8):
Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas
(ONU) em 1948, é representativa do avanço nos direitos e liberdades individuais do
ser humano e no reconhecimento do princípio da dignidade da pessoa humana,
reconhecendo que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos
independentemente de sua raça ou cor (art. 1º e 2º) (LIMA; VERONESE, 2009, p. 23).
Não restam dúvidas de que as ideias desses instrumentos internacionais influenciaram também
um sem‑número de debates no Brasil, principalmente entre juristas, educadores, sociólogos e outros
profissionais interessados na questão da infância e da adolescência. Podemos afirmar que há estreita
relação entre o ECA, aprovado em 1990, e a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que seria aprovada em
1996. Nesse sentido, os debates desencadeados por influência do ECA acabaram norteando as diretrizes
adotadas pelas políticas educacionais brasileiras a partir de então, conforme veremos a seguir.
Em maio de 2003, o Senador Paulo Paim (PT‑RS) apresentou o projeto de lei no Senado que instituía
o Estatuto da Igualdade Racial. Desde então, o projeto tramitou na Câmara e no Senado, até ser
finalmente aprovado com emendas no dia 20 de julho de 2010, validando, por meio da Lei nº 12.288, o
Estatuto da Igualdade Racial.
Figura 22
O estatuto, já em seu artigo 1º, faz alusão aos principais focos dessa lei, a saber: (a) combater a discriminação
racial ou étnico‑racial; (b) promover a igualdade racial, nos campos político, econômico, social, cultural e
outros da vida pública ou privada; (c) combater as assimetrias de gênero e raça, dando condições de inclusão
69
Unidade II
às mulheres negras; (d) valorizar a autodefinição de cor ou raça às pessoas que se autodeclararem pretas e
pardas, conforme critérios definidos pelo IBGE; (e) abrir caminhos para a implantação de políticas públicas
adotadas pelo Estado com o objetivo da promoção da igualdade racial; (f) incentivar as ações afirmativas,
adotadas pelo Estado ou pela iniciativa privada, para a promoção da igualdade de oportunidades.
Essas definições iniciais se estendem até o artigo 5º, quando o estatuto passa a definir capítulos específicos
para cada direito fundamental a ser defendido: saúde, educação, cultura, esporte e lazer, liberdade de consciência
e de crença, livre exercício dos cultos religiosos, acesso à terra e à moradia adequada, direito ao trabalho e
valorização da herança cultural da população negra na história do país pelos meios de comunicação.
Por fim, institui o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir), um órgão criado para
organizar e articular as estratégias para implantação do “conjunto de políticas e serviços destinados a
superar as desigualdades étnicas existentes no país, prestados pelo poder público federal”, segundo seu
artigo 47 (BRASIL, 2010), entre eles, a implantação de ouvidorias permanentes em defesa da igualdade
racial e o investimento em financiamentos de iniciativas de promoção de igualdade racial.
Observação
Conforme já havíamos discutido na unidade anterior, há muito debate em torno da questão das
cotas raciais, e até mesmo dentro do movimento negro há grupos favoráveis e contrários às cotas para
negros nas universidades como parte dos critérios de seleção de candidatos nos vestibulares, talvez
razão pela qual esse artigo tenha sido retirado da versão final do documento.
Esperamos que o aluno já tenha feito suas análises a respeito e seja capaz de argumentar com
propriedade sobre os prós e contras dessa ação afirmativa.
Esse documento é conhecido como Lei nº 6.001. Promulgada em 1973, ela dispõe sobre as relações do
Estado e da sociedade brasileira com os índios e coloca que estes sendo “relativamente incapazes”, devendo ser
tutelados por um órgão indigenista estatal – de 1910 a 1967, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI); atualmente,
a Fundação Nacional do Índio (Funai) –, até que fossem integrados à sociedade. Chamamos essa visão de
assimilacionista, pois entende que os índios devem ser integrados à sociedade vigente, abrindo mão de sua
organização social e cultural, vista como primitiva, e assimilando os valores sociais dos brancos.
A Constituição Federal de 1988 rompe com essa visão e, como já apontado anteriormente, reconhece
o direito dos índios de manter e preservar sua própria cultura, numa perspectiva mais multiculturalista.
Apesar de não tratar de maneira expressa da capacidade civil, a Constituição reconheceu, no seu
artigo 232, a capacidade processual ao dizer que “os índios, suas comunidades e organizações, são
70
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL
partes legítimas para ingressar em juízo, em defesa dos seus direitos e interesses”. Significa que os índios
podem, inclusive, entrar em juízo contra o próprio Estado, o seu suposto tutor.
O novo Código Civil retira os índios da condição de “relativamente incapazes” e estipula que sua
condição específica será regulamentada em legislação própria, o que ainda não foi realizado. Também
o Estatuto do Índio está sendo objeto de reformulação desde a promulgação da Constituição. Está em
tramitação no Congresso Nacional um projeto de Estatuto das Sociedades Indígenas, mas que caminha
lentamente. No entanto, pelo título do estatuto já é possível reconhecer uma perspectiva mais avançada,
na medida em que trata as nações indígenas como “sociedades”, mudando o patamar das relações.
Há diversos pontos polêmicos na lei, mas o que se destaca na questão indígena é a posse da terra.
Para ter uma breve dimensão do seu significado, veja o que diz o documento do IBGE (2012, p. 16) sobre
as características gerais dos indígenas:
A posse, o usufruto e o controle efetivo da terra pelos índios têm sido reconhecidos
como condição sine qua non para a sobrevivência dos povos indígenas. A ausência
ou pouca disponibilidade de terras tem, reconhecidamente, enormes impactos
sobre o cotidiano das sociedades indígenas, afetando não somente os padrões de
subsistência como também dimensões de caráter simbólico no plano da etnicidade.
Figura 23
71
Unidade II
Lembrete
Podemos compreender algumas das diferenças e especificidades dos povos indígenas que nós,
educadores ou profissionais afins, temos o dever de conhecer e contribuir para garantir o seu direito
à diversidade e respeito à manutenção de sua história e de sua cultura. E nesse campo a educação é
fundamental, como veremos a seguir.
Já fizemos alusão à influência que o ECA teve nos debates educacionais quando foi publicado, em
1990. A questão étnica também passou a ocupar importante espaço na legislação brasileira, como vimos
no tópico anterior, chegando à instituição do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, vinte anos mais tarde.
Assim, é importante verificar neste tópico sobre a legislação e o antirracismo no Brasil que os
processos sociais de conquistas de direitos são lentos, graduais e integrados, isto é, uma demanda social
não surge de um momento para o outro, repentinamente; ao contrário, é fruto de um amplo e longo
debate entre grupos e movimentos que se unem em defesa de seus interesses.
Lembrete
Vale também destacar que a igualdade racial não pode ser encarada
como uma necessidade apenas do movimento negro, mas de todos os
brasileiros que buscam encontrar suas verdadeiras raízes históricas e
culturais e querem viver numa sociedade mais justa e igualitária.
O Brasil tem uma das legislações mais modernas do mundo, no que diz respeito às suas diretrizes
para a educação. Em 1996, foi aprovada a Lei nº 9.394, que ficou mais conhecida como nova LDB.
Este é, sem dúvida, um documento importantíssimo para a população negra no Brasil, pois fornece
pressupostos importantes para a ampliação do debate sobre relações étnico‑raciais e afrodescendência.
Veja o que diz o seu artigo 26:
72
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL
Figura 24
Aqui, portanto, está o início do debate que “preparou o terreno” para a aprovação da Lei
nº 10.639/2003, dando mais um passo para a afirmação, o reconhecimento e a valorização dos negros
no quadro da diversidade da cultura brasileira.
Observação
Após a leitura do trecho dessa lei, qual seria, em sua opinião, o papel dos
cidadãos nesse processo de mudança no sistema educacional brasileiro?
No dia 9 de janeiro de 2003, foi sancionada a Lei nº 10.639, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional de 1996 e inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática
História e Cultura Afro‑Brasileira.
Apesar de imprescindível e de extremamente relevante, esta é uma lei de enunciado bastante breve,
que vem acrescentar à LDB somente os artigos 26‑A, 79‑A e 79‑B, reproduzidos a seguir:
73
Unidade II
§ 3º. (Vetado)
Em poucas linhas, essa legislação consegue chamar a atenção das autoridades, dos educadores e da
sociedade para a importância da inclusão no currículo escolar da perspectiva étnico‑racial, instituindo,
inclusive, o dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra.
Alguns anos depois, em 10 de março de 2008, foi aprovada a Lei nº 11.645, que modifica o texto da
Lei nº 10.639/2003 e inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História
e Cultura Afro‑Brasileira e Indígena”, passando a vigorar a seguinte redação:
Observação
Para incentivar e promover a implantação dessa lei no sistema de ensino brasileiro, o Ministério
da Educação (MEC) publicou no Diário Oficial da União, no dia 19 de maio de 2004, as “Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico‑raciais e para o Ensino de História e Cultura
Afro‑Brasileira e Africana”. Esse é um documento que, como o próprio nome diz, traz todas as diretrizes
para que a Lei nº 10.639/2003 possa ser finalmente colocada em prática. É sobre esse parecer que
trataremos a seguir.
5.3.3 Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação das relações étnico‑raciais e para o
ensino de história e cultura afro‑brasileira e africana de 2004 – Parecer CNE 003/2004
Esse parecer é um documento que todo educador deveria conhecer na íntegra e estudar seu conteúdo
a fundo, pois seu texto é claro e eficaz no estímulo ao reconhecimento da importância de promovermos
ações para a igualdade racial. Como não é possível reproduzi‑lo por inteiro, selecionamos dois trechos
que nos dão uma ideia bastante clara sobre seus propósitos. O primeiro traz uma apresentação do
público ao qual o texto se dirige:
De acordo com o que temos defendido, essas diretrizes interessam não somente ao poder público
ou aos educadores e gestores educacionais, mas a todo cidadão brasileiro que, de alguma forma, esteja
interessado em uma educação de qualidade para todos. No segundo trecho, que escolhemos para
demonstrar um pouco do conteúdo do parecer, vemos claramente a importância que a Lei nº 10.639/2003
assume no contexto de construção de uma sociedade igualitária e verdadeiramente democrática:
O grande auxílio desse parecer foi, portanto, identificar as contribuições da Lei nº 10.639 para o
reconhecimento e a valorização da diversidade étnico‑racial brasileira, passo fundamental para uma
sociedade de fato igualitária e livre do racismo.
Mas, passados seis anos, podemos afirmar que pouca coisa avançou na direção de colocar em prática
o que determina a Lei nº 10.639/2003, ou seja, poucas escolas de fato incluíram em seus currículos
a temática da História e Cultura Afro‑Brasileira e Africana. Por isso, mais uma vez, o Ministério da
Educação (MEC), junto com a Subsecretaria de Políticas de Ações Afirmativas da Seppir (Subaa), tomou
a iniciativa de publicar, em 13 de maio de 2009, o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes
Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico‑raciais e para o Ensino de História e Cultura
Afro‑brasileira e Africana.
Esse é um documento que detalha cada uma das responsabilidades dos poderes públicos, seja no âmbito
federal, estadual ou municipal, além de enfatizar três problemáticas principais em relação à implantação
da Lei nº 10.639/2003: a formação dos professores para o trabalho em sala de aula na perspectiva das
relações étnico‑raciais; a produção de material didático adequado, que desfaça os estereótipos de raça/
cor/gênero; e a sensibilização de todos os agentes envolvidos nesse processo para um compromisso efetivo
com a implantação da igualdade racial na escola e em nosso país.
Ainda em complemento a essa lei, foi promulgada em 10 de março de 2008 a Lei nº 11.645, que
insere no texto anterior também a matriz indígena, estabelecendo, portanto, que “os conteúdos
referentes à história e cultura afro‑brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados
no âmbito de todo currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e
História Brasileiras”.
Saiba mais
76
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL
Neste tópico, começaremos trabalhando o conceito de africanidades brasileiras, com sua especificidade
e paradigma. Em seguida, faremos uma abordagem histórica, fundamental para compreendermos a
inserção dos negros africanos no processo de colonização brasileira, as raízes de nossa construção
nacional e os fundamentos de nosso racismo velado.
Figura 25
77
Unidade II
A partir dessas concepções, é mister que façamos essa reconstrução histórica por meio de uma
perspectiva diferente daquela que temos utilizado em nossas escolas durante tanto tempo. Uma
perspectiva que reconheça a grande participação dos africanos na formação do Brasil, que os apresente não
apenas em sua condição de escravizados, mas como personagens participantes da construção histórica,
que, com suas culturas, línguas, formas de organização e economia, participaram expressivamente da
construção disso que somos atualmente.
Aproveitando a expressão “o fio da história”, presente no livro de Cunha Júnior (2010), pretendemos,
neste tópico, chamar a atenção para a história da África antes da chegada dos portugueses à América.
Isso porque fomos ensinados a pensar a partir de uma série de concepções bastante deturpadas ou
incompletas sobre o continente africano e sua população, concepções essas, em geral, propagadas
pelo pensamento conservador, responsável em grande medida pela formulação do chamado racismo
científico (CUNHA JÚNIOR, 2010, p. 10):
É nesse sentido que toda a história da África passou a ser sistematicamente distorcida, esquecida
ou menosprezada nos livros de história e assim foi transmitida a nós e aos nossos alunos há tantas
gerações. Vamos começar a rever um pouco tudo isso, primeiro com um trecho de Salum (2005):
A impressão que temos com o que estudamos em nossa vida escolar é de que a África, antes
do início da exploração portuguesa, era um território “perdido no mapa”, com povos “primitivos”,
sem cultura escrita e com tribos selvagens que guerreavam e se escravizavam mutuamente.
Atualmente, nosso conhecimento sobre esse continente é tão parco que chegamos a pensar
nele como um único país, “a África”. Oliva (2003, p. 423) inicia seu artigo, intitulado “A história
da África nos bancos escolares: representações e imprecisões na literatura didática”, fazendo
a seguinte pergunta: “O que sabemos sobre a África?”. Repare como sua resposta nos parece
infelizmente bastante familiar:
Temos de reconhecer que sabemos nada ou quase nada sobre a África. Feita essa constatação, cabe a
nós, educadores, a responsabilidade de sanar tal deficiência em nossa formação e procurar nos apropriar
dos conteúdos sobre a história da África e dos negros no Brasil, disponíveis na íntegra para downloads
na internet, conforme já indicamos.
Neste ponto do livro‑texto, a intenção é apenas sinalizar alguns elementos importantes sobre a
história da África, tendo em vista o volume enorme de conteúdos passíveis de serem estudados.
Observação
79
Unidade II
Figura 26
80
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL
O que queremos reafirmar aqui é a riqueza histórica e cultural dos países africanos, a começar pelo
Egito, que pode ser considerado uma das civilizações mais desenvolvidas e antigas do mundo. Portanto,
a história da África não começa no ano de 1500 e não pode ser resumida ao episódio da escravidão de
suas populações durante quatrocentos anos de história do Brasil.
Lembrete
Primeiro, acompanhe esta breve revisão histórica: sabemos que o Brasil é resultado de um longo
processo de exploração colonial promovido por Portugal, com apoio financeiro da burguesia de então,
que, apesar de ainda não deter o poder político no século XVI, já era proprietária de boa parte das riquezas
disponíveis na época, reservas suficientes para servirem de investimentos às empresas colonizadoras
portuguesas rumo às Américas.
Assim, é importante ficar claro que já estávamos em pleno capitalismo moderno e que o Brasil nada
mais era do que um negócio bastante interessante e promissor, tanto para os monarcas portugueses,
que comandavam politicamente a empreitada colonizadora, quanto para os burgueses e homens de
negócio da Europa, que patrocinavam tais empreendimentos.
Existe uma linha de raciocínio que já faz parte de nosso senso comum, segundo a qual os problemas
do Brasil estão diretamente ligados à formação de sua população, uma vez que teriam sido mandados
81
Unidade II
para cá os “piores cidadãos” portugueses, indesejados na Europa, quase “deportados” para uma terra
onde poderiam “fazer do seu jeito” todas as coisas reprováveis que antes faziam em Portugal. Daí vem
também uma das explicações correntes sobre o nosso “jeitinho brasileiro”, no sentido de que as leis não
funcionam aqui porque, desde a formação do Brasil, foram trazidos para cá somente ladrões, bandidos,
vagabundos, prostitutas e desocupados de todo tipo.
Isso não é verdade, e a explicação fundamental está no fato de sermos, naquela época, a empresa
mais rentável de Portugal.
Observação
Tínhamos, portanto, aqui, uma base importante para o sustento da monarquia portuguesa, que já
enfrentava problemas sérios, tanto políticos quanto econômicos, para se manter nas relações capitalistas
europeias daquele momento. É nesse sentido que homens e mulheres passam a ser enviados ao Brasil
com a incumbência de fazer esse país‑continente fornecer riquezas suficientes para sustentar os luxos
e as extravagâncias da família real e sua aristocracia e, ao mesmo tempo, para pagar os investimentos
feitos pela burguesia de então, elite econômica durante aquele período.
Foi com essa mentalidade que os portugueses começaram a explorar de todas as formas o território
brasileiro, retirando de nossos solos e florestas todas as matérias‑primas que tivessem algum valor no
mercado capitalista europeu.
A primeira matéria‑prima a ser transformada em mercadoria valiosa foi o pau‑brasil. Para isso, os
portugueses fizeram, nas três primeiras décadas de colonização, uma interessada aliança com povos
indígenas. Por estarem em pequeno número, os portugueses podiam ser incorporados às aldeias sem
causar grandes problemas ao cotidiano das tribos, sujeitando‑se à vontade dos nativos. Não que tenha
havido uma convivência pacífica entre brancos e índios. Ao contrário, como afirma Olivieri (s.d.):
Muito cedo, entretanto, os portugueses perceberam que um dos grandes problemas que teriam em
sua missão de exploração brasileira seria a escassez de mão de obra para realizar um trabalho de tão
grande monta como o que precisava ser feito por aqui. A esse respeito, Olivieri (s.d.) continua:
Apesar de serem aproximadamente cinco milhões no século XVI (população reduzida a cerca de 700
mil nos dias de hoje), no início da exploração portuguesa, os índios não foram uma boa fonte de mão
de obra escrava, ao contrário do que pretendiam os colonizadores, devido principalmente às guerras
que se travaram a partir de 1530 entre brancos e índios e ao extermínio em massa, que praticamente
dizimou milhões de indígenas nos primeiros séculos de colonização do Brasil. Além do fato de não ser da
cultura indígena o trabalho agrícola em grande produção, sua cultura baseava‑se na caça, na pesca, na
extração e em pequenas plantações. Não fazia sentido para os grupos indígenas um sistema de trabalho
que visava à acumulação da produção.
Uma solução encontrada foi trazer negros africanos, vindos de Angola e do Congo, para trabalharem
na agricultura, tendo em vista que aqueles povos já eram grandes produtores agrícolas e dominavam as
tecnologias do plantio. Como os portugueses já dominavam a arte das navegações, não foi difícil forçar
populações africanas a se transferirem para o Brasil, submetendo‑as a uma das condições de vida e
trabalho mais desumanas que a história já assistiu.
É interessante que, mais uma vez, o que aprendemos em nossos bancos escolares a respeito das
justificativas sobre o tráfico negreiro aponta os índios como seres acostumados à liberdade e que se
recusaram ao trabalho escravo; já os negros, por estarem acostumados à escravidão já existente no
continente africano, teriam se submetido mais passivamente à condição de objeto, coisa. Novamente,
essas são explicações que não fazem qualquer sentido lógico. Assim, comentam Munanga e Gomes
(2006, p. 24):
Dizer que o colonizador português foi para a África buscar escravos que
ele adquiria, comprando‑os pela troca de fumo da Bahia e de outras
mercadorias, graças à cumplicidade dos reis e príncipes africanos, não deixa
dúvida sobre a crença na existência dos escravos como categoria natural,
ou seja, na existência de seres humanos que nasceram escravos na África. A
partir dessa crença, podemos já suscitar uma dúvida e fazer uma primeira
indagação. Algumas pessoas podem nascer escravas, ou todos nascem livres
até que algum sistema os escravize no decorrer de suas vidas?
83
Unidade II
Lembrete
Mais uma vez, podemos verificar como esse processo, cujas raízes são profundas, perdura até os dias
de hoje, sendo que tais representações ainda aparecem na maioria dos livros didáticos disponíveis para
nossos alunos e professores.
A intenção aqui não é apenas recontar nosso passado, mas mostrar outras explicações para o nosso
presente, ainda autoritário, hierarquizado e com tantas dificuldades para a efetivação da cidadania
plena de sua população. Nota‑se que, numa sociedade que viveu tantos séculos de escravidão, a ideia de
servidão e senhorio acabou se naturalizando em nossa mentalidade, como se fossem relações “normais”,
aceitas socialmente, reforçando a ideia sugerida por DaMatta (1987, p. 76) sobre a formação do Brasil,
segundo a qual “cada coisa tem um lugar e cada lugar tem uma coisa”. O que isso significa?
84
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL
Fazendo uma pesquisa no site Domínio Público, encontram‑se algumas fotografias de famílias
da elite do século XIX registrando alguns de seus “escravos”. É possível perceber nessas imagens
esse lugar “naturalizado” do negro como escravizado, conforme se observa nas fotos a seguir:
uma mulher negra somente identificada como “ama de leite Mônica”, ao lado do menino de
nome composto, “Artur Gomes Leal”; e um homem negro, denominado simplesmente de “escravo
Belisário”.
Figura 27
Figura 28
85
Unidade II
Lembrete
Você já deve ter ouvido falar destas questões: das tristes condições dos navios negreiros; das
situações deploráveis às quais africanos eram submetidos, já em terras brasileiras, para se alimentar,
dormir, trabalhar e viver; e aos castigos e suplícios que sofriam por qualquer motivo que fosse ou até
sem motivo algum. Evidentemente, tanto sofrimento é capaz de acabar com qualquer resquício de
humanidade e dignidade que possa restar em um ser humano. Entretanto, outra forma de transformar
seres humanos em coisas é apagar definitivamente toda sua herança cultural e histórica, o bem mais
precioso que temos em nossa construção como pessoa, como afirma Schwarcz (2001, p. 39):
É nesse sentido que toda a história da África foi sendo apagada da vida dos negros, agora escravizados
no Brasil e, futuramente, dos livros, que passaram a contar a história apenas sob a perspectiva do
branco colonizador. E é nesse sentido que a instituição de uma lei que obrigue as escolas a inserir em
seus currículos a temática da História e Cultura Afro‑Brasileira e Africana, como a Lei nº 10.639/2003,
torna‑se um fator de tanta relevância para a promoção da igualdade racial em nosso país, ainda tão
marcado pelas desigualdades e relações hierarquizadas entre as diferentes raças/etnias.
Conforme já foi dito há pouco, foram quase 4 milhões de negros africanos trazidos ao Brasil e
escravizados por mais de três séculos. Com base nesses dois dados, não se pode negar as muitas
influências que a cultura brasileira, em formação, recebeu como herança africana.
Observação
86
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL
Figura 29
Para o momento, basta destacarmos três aspectos da forte presença africana na formação do
Brasil, segundo Munanga e Gomes (2006): no campo econômico, os negros serviram como força de
trabalho não remunerado, ajudando a construir as riquezas que deram sustentação econômica à
empresa colonial portuguesa; no campo demográfico, sem dúvida, esse elevado número de africanos
agora fazia parte da população brasileira, colaborando no trabalho de povoamento desse novo país;
e, no campo cultural, podemos destacar a influência linguística, por meio de inúmeras palavras
africanas incorporadas à língua portuguesa falada no Brasil, as religiões de matriz africana, entre as
quais o candomblé e a umbanda, que atualmente compõem o campo religioso brasileiro, além das
inúmeras heranças deixadas no campo das artes, por meio de instrumentos musicais, ritmos, danças,
entre tantos outros elementos que ajudaram a construir parte da identidade cultural brasileira. A esse
respeito, afirma Narloch (2009, p. 71):
Esses fenômenos certificam uma boa metáfora que Joaquim Nabuco usa
no livro O Abolicionismo, clássico do movimento brasileiro pelo fim da
escravidão. Nabuco dizia que o tráfico negreiro provocou uma união das
fronteiras brasileiras e africanas, como se a África tivesse aumentado seu
território alguns milhares de quilômetros. “Lançou‑se, por assim dizer, uma
ponte entre a África e o Brasil, pela qual passaram milhões de africanos, e
estendeu‑se o habitat da raça negra das margens do Congo e do Zambeze
às do São Francisco e do Paraíba do Sul.”
É preciso que se lembre, entretanto, que, durante toda a história do Brasil, essa união de fronteiras
foi relegada ao descaso e tudo o que se associasse ao povo africano era considerado ruim, inferior e até
demoníaco. É recente o movimento de valorização e resgate da cultura e da história dos negros africanos
87
Unidade II
e afro‑brasileiros como parte de um projeto de igualdade racial para o Brasil, conforme é possível
perceber por meio das legislações antirracistas vigentes atualmente no país e expostas anteriormente.
Uma primeira pergunta que trazemos do livro de Olivier Pétré‑Grenouilleau, A história da escravidão,
é a seguinte: “Os escravos contribuíram para a sua libertação?”. A resposta do autor é bastante direta:
“Sem dúvida nenhuma. [...] Sabemos atualmente que, sempre e por toda parte, os escravos tentaram
resistir” (PÉTRÉ‑GRENOUILLEAU, 2009, p. 130).
Alguns historiadores, entretanto, fazem uma distinção entre dois tipos de resistência: a passiva,
cujas ações não utilizam violência direta, como recusa a trabalhar, trabalhos malfeitos, fugas e faltas;
e a ativa, que remete a movimentos mais coletivos e violentos, seja com a organização dos quilombos,
seja por meio das insurreições, guerrilhas, entres outros movimentos realizados durante todo o regime
escravista no Brasil. Já para Pétré‑Grenouilleau (2009, p. 135), essa distinção não parece pertinente:
É nesse sentido que queremos enfatizar o caráter extremamente conflituoso da relação escravizador/
escravizado. Durante toda a história da escravidão no Brasil, os negros se colocaram de maneiras diversas
na luta contra sua condição desumana de escravo e, portanto, de objeto. Segundo Munanga e Gomes
(2006, p. 98):
Além das revoltas, a organização dos quilombos também contribuiu como força de resistência
negra durante esse período. Já trabalhamos um pouco sobre temas relativos ao que eram os quilombos
naquele contexto de escravidão e resistência. Vamos acrescentar o seguinte, de acordo com a visão de
Moura (1992, p. 24‑25):
Foram centenas de quilombos espalhados por todos os estados e regiões do país, que tiveram duração
mais curta ou continuam ativos até os dias de hoje. Conforme já havíamos citado, Munanga e Gomes
(2006, p. 71) afirmam: “na África, a palavra quilombo refere‑se a uma associação de homens, abertas a
todos. [...] Sendo assim, os quilombos brasileiros podem ser considerados uma inspiração africana”. Seu
principal objetivo era a implantação de uma nova forma de vida e organização social, diferente daquelas
próprias da estrutura política colonial e escravista. É nesse sentido que fariam parte dos quilombos
todas as pessoas consideradas oprimidas pelo sistema colonial e imperial reinantes na época.
Mas todo esse movimento de resistência negra pouco se relaciona ao movimento abolicionista,
organizado a partir do século XIX, em prol da abolição oficial da escravidão no Brasil. Isso porque o
abolicionismo foi um movimento considerado conservador pelos historiadores, sendo organizado pela
classe política da ocasião, que procurou trazer pouco ou nenhum prejuízo aos senhores de escravo nesse
processo de “libertação”. A preocupação da elite da época era que a abolição se desse de forma pacífica,
sem sustos nem revoluções. Daí as três grandes leis abolicionistas – Ventre Livre (1871), Sexagenários
(1885) e Áurea (1888) – terem oferecido muito mais benefícios aos próprios senhores do que uma nova
condição à população negra.
Não houve qualquer planejamento do poder público no sentido de incorporar a mão de obra negra
recém‑liberta ao novo mercado de trabalho nacional naquele momento, tampouco se pensou em
qualquer forma de indenização aos escravos pelos anos (e séculos) de exploração sem qualquer tipo
de remuneração. Ao contrário, as leis abolicionistas garantiam aos senhores, donos dos escravos, altas
indenizações quando da libertação de cada um de seus trabalhadores. Sobre isso, comenta Schwarcz
(2001, p. 46):
Observação
Vale destacar que essa foi uma das bases para a sustentação do mito da
democracia racial no Brasil, como se o processo abolicionista tivesse sido
89
Unidade II
O fato é que o processo de abolição da escravidão teve, no Brasil, características muito singulares.
Primeiro, como já mencionamos antes, porque não preparou nenhuma condição para que os negros
recém‑libertos obtivessem igualdade de direitos e oportunidades no mercado de trabalho. Ao contrário,
milhares de imigrantes brancos foram trazidos a partir principalmente do início do século XX, a fim
de promover o chamado projeto nacional de branqueamento. Na citação de Moura (1992, p. 57), esse
momento histórico fica bastante claro:
Em segundo lugar, tal situação trouxe como consequência a marginalização social das populações
negras, uma vez que, sem possibilidade de trabalho remunerado, elas acabaram se instalando nas
periferias das cidades, nas regiões mais pobres do Brasil, dados que ainda são confirmados pelos
levantamentos estatísticos atuais, conforme pudemos comprovar no tópico sobre as condições de vida
dos afrodescendentes na atualidade.
Um último aspecto que queremos destacar sobre o ideal de branqueamento é que, por meio desse
processo, se desenvolveram as chamadas “ideologias raciais do negro e mulato e do branco”, segundo
argumenta Ianni (2004, p. 322‑323):
Exemplo de aplicação
Sugerimos a seguir uma relação de filmes para que você possa aprofundar seu olhar sobre as relações
étnico‑raciais. Após assistir cada filme, você pode desenvolver atividades como: debater os conteúdos
com seus colegas em grupos de discussão; escrever resenhas críticas; criar fóruns de discussão na
internet; preparar planos de aulas e atividades para serem desenvolvidas futuramente com seus alunos
etc. O importante é exercitar e estimular o olhar para a questão étnica e transformar a prática educativa.
ALÉM da lousa: culturas juvenis, presente! Dir. Denise Martha. Brasil: 2000. 14 minutos.
ENCONTRANDO Forrester. Dir. Gus Van Sant. EUA: Sean Connery; Laurence Mark, 2000.
KIRIKU e a feiticeira. Dir. Michel Ocelot. França/Bélgica/Luxemburgo: Les Amateurs/Odec Kid Cartoons,
1998. 74 minutos.
LIXO Extraordinário. Dir. Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley. Brasil/Reino Unido: Angus Aynsley;
Hank Levine, 2010. 99 minutos.
MARCHA Zumbi dos Palmares contra o racismo, pela cidadania e a vida (1695‑1995). Dir. Edna
Cristina. Brasil: 1995. 115 minutos.
O FIO da memória. Dir. Eduardo Coutinho. Brasil: Cinefilmes, Funarte,1991. 115 minutos.
O RAP do pequeno príncipe contra as almas sebosas. Direção: Paulo Caldas e Marcelo Luna. Brasil:
Luis Vidal, 2000. 75 minutos.
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Unidade II
OLHOS Azuis. Dir. Bertram Verhaag e Jane Elliott. EUA: Denkmal Filmgesellschaft, 1996. 90 minutos.
QUANDO crioulo dança? Dir. Dilma Lóes. Brasil: Ministério da Educação e do Desporto – Secretaria
de Educação Fundamental, 1989. 28 minutos.
SEGREDOS e mentiras. Dir. Mike Leigh. Grã‑Bretanha: Simon Channing Williams, 1996. 142 minutos.
VISTA a minha pele. Dir. Joel Zito Araújo. Brasil: Centro de Estudos e Relações de Trabalho e
Desigualdades (Ceert), 2004. 15 minutos.
A seguir, começaremos nossa abordagem retomando a questão dos estereótipos raciais, passando
à análise de imagens e representações do negro na literatura e na mídia, trazendo a discussão para o
campo da educação, a fim de pensarmos estratégias para uma educação que promova a igualdade racial.
Resumo
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RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL
Exercícios
Questão 1. O Parecer CNE 003/2004, relativo às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
das Relações Étnico‑Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro‑brasileira e Africana, elaborado
especialmente para bem informar os educadores e as agências educacionais, é um documento útil a
toda e qualquer ação profissional e a todo cidadão. Isso porque o mito da democracia racial e a ideologia
do branqueamento favoreceram a construção e a manutenção de um imaginário coletivo carregado
de estereótipos negativos no que tange à África, aos africanos e a tudo o que lhes diz respeito. Assim
sendo, não compete exclusivamente aos agentes da educação formal a tarefa de reconstrução desse
imaginário e a constituição de uma sociedade verdadeiramente democrática. Além de propor a adoção
de políticas de ação afirmativa, o parecer busca estimular a formação de identidades positivamente
afirmadas, estimular a passagem da vergonha ao orgulho de ser negro. Certamente uma proposta de
renovação dessa natureza produziria resistências: a implementação da Lei nº 10.639/2003 não vem
ocorrendo com facilidade. A resistência à mudança é verificável nas mais diversas instâncias: na ação
de professores, de administradores escolares e de gestores do poder público e privado, entre outras. A
Lei Federal 10.639/2003 determina a inclusão da temática História e Cultura Afro‑brasileira no currículo
oficial da rede de ensino. O Parecer CNE 003/2004 detalha as responsabilidades que competem aos
poderes públicos – federal, estadual e municipal – e prioriza algumas ações relativas à implementação
da referida lei.
A seguir, apresentamos algumas ações imprescindíveis nos estabelecimentos de ensino. Entre elas,
assinale a afirmativa que não é verdadeira:
A) Formar professores para o trabalho em sala de aula na perspectiva das relações étnico‑raciais.
E) Sensibilizar todos os agentes envolvidos nesse processo para um compromisso efetivo com a
implantação da igualdade racial na escola e em nosso país.
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Unidade II
A) Afirmativa verdadeira.
B) Afirmativa verdadeira.
C) Afirmativa verdadeira.
Justificativa: os recursos analógicos que podem ser utilizados no ensino – contos, poemas e
representações gráficas, entre outros – favorecem muito o processo de elevação da autoestima de
alunos afrodescendentes. A linguagem analógica, ao servir‑se de abundantes expressões metafóricas,
atinge dimensões afetivas que dificilmente seriam mobilizadas por recursos da linguagem lógico‑causal.
Daí a importância da narrativa oral – contos, fábulas, lendas e mitos – para que se atinjam os objetivos
educacionais desejados, quando tratamos das questões étnico‑raciais.
D) Afirmativa falsa.
Justificativa: é preciso que todos os agentes educacionais estejam mobilizados para a tarefa em
questão, e não apenas os professores em sala de aula. Não admitir a abordagem dessa temática fora da
sala de aula seria uma conduta absolutamente inapropriada. Pelo contrário: todo tempo e lugar podem
oferecer oportunidade para que se trabalhem essas questões.
E) Afirmativa verdadeira.
Questão 2. Ribeiro (1996), ao tratar da presença da etnia iorubá no Brasil, lembra que esse grupo
étnico, oriundo da Nigéria, do Togo e do Benin, é muitas vezes aqui identificado como “nagô”. Durante
o último período da escravidão, os iorubás foram concentrados em zonas urbanas e em regiões
suburbanas ricas e desenvolvidas do Norte e do Nordeste, particularmente em Salvador e no Recife.
Como ocorre com todas as etnias africanas, é impossível dissociarmos sua organização sociocultural
de suas práticas religiosas. No caso dos iorubás, o panteão de suas divindades é, em nosso país, o
mais conhecido e difundido, pois, embora muitos de nós nunca tenhamos ouvido a palavra “iorubá”,
dificilmente encontramos alguém que nunca tenha ouvido a palavra “orixás”, designativa dessas
divindades. Permaneceram na constituição de nossa vida sociocultural muitas africanidades de origem
iorubá: o sentido de comunidade; os valores relativos à solidariedade e à hospitalidade; inúmeros
elementos do idioma que, segundo o filólogo João Ribeiro, promoveram alterações profundas do idioma
português, no que diz respeito tanto ao vocabulário quanto ao sistema gramatical. Além disso, muitos
elementos da religião tradicional iorubá constituíram diversas religiões brasileiras de matriz africana
e acham‑se presentes em muitas expressões literárias, artísticas e musicais. Assim sendo, conclui‑se,
sem dificuldades, que a identidade e a cidadania não apenas dos afrodescendentes, mas de todos os
brasileiros, constroem‑se a partir de importantes elementos de cosmovisões africanas.
O texto anterior trata de africanidades brasileiras. Leia as afirmativas apresentadas a seguir e assinale
a alternativa correta:
D) Antes do início da exploração portuguesa, a África era habitada por povos primitivos, que se
escravizavam mutuamente. Entre esses povos, achavam‑se incluídos os iorubás.
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