Abdome Agudo
Abdome Agudo
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Supervisor do Internato em Cirurgia da Escola de Medicina Souza Marques. Subchefe do Departamento
de Cirurgia da Escola de Medicina Souza Marques. Especialista e Membro Titular do Colégio Brasileiro
de Cirurgiões
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Descritores: Abdome agudo. Diagnóstico clínico. Dor abdominal.
Exames subsidiários. Apendicite aguda. Obstrução intestinal. Úlcera
perfurada. Isquemia mesentérica.
Introdução
Abdome agudo é uma síndrome clínica comum na prática médica, e é
caracterizado por dor abdominal intensa de caráter súbito, progressivo ou
devido à agudização de uma doença crônica,
Etiologia
As causas de abdome agudo podem ser de tratamento cirúrgico e não
cirúrgico. As cirúrgicas são classificadas segundo os tipos perfurativo,
inflamatório, obstrutivo, hemorrágico, traumático, isquêmico (Tabela 1). As
causas não cirúrgicas, em geral, têm origem extra-abdominal.
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Síndrome de Diverticulite de Volvo de Gravidez Colite
Boerhaave Meckel ceco ectópica rota isquêmica
Divertículo
Divertículo Abscesso Hérnia gastrointestinal Torção de
perfurado hepático encarcerada com testículo
sangramento
Malformação
Abscesso Invaginação Hérnias
arteriovenosa
diverticular intestinal estranguladas
gastrointestinal
Abscesso do Ulceração
psoas intestinal
Pancreatite
hemorrágica
Rotura
espontânea do
baço
As causas extra-abdominais são de origem endócrina e metabólica,
hematológica e devido a drogas e toxinas (Tabela 2).
Pericardite
Hiperlipoproteinemia
aguda
Embolia
pulmonar
Mulholand MW, Sweeney JF 2003, modificada
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A avaliação no abdome agudo é feita principalmente pela anamnese e
exame clínico. Como complementação podem ser realizados exames
laboratoriais e de imagem. Deve ficar esclarecido que, no diagnóstico, a
anamnese e exame clínico são essenciais. A anamnese representa cerca de
70% do diagnóstico, acrescido do exame clínico este percentual chega a
90%. A realização de exames complementares sem a anamnese rigorosa e
exame clínico muitas vezes retarda o diagnóstico.
Análise da sintomatologia
O principal sintoma do abdome agudo é a dor que pode ter várias
características, ser visceral, parietal e referida. Pode ter várias localizações
que dependem da origem do intestino embrionário. Nos órgãos que se
originam do abdome anterior, as dores viscerais são sentidas no abdome
superior.
A dor visceral é não bem localizada, é difusa e profunda. Tem sua origem
em vísceras como pâncreas, fígado, rim e é produzida por disten-
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A dor da irritação frênica é referida, geralmente causada por sangramento
ou inflamação de uma estrutura vizinha, é sentida no ombro esquerdo. O
sinal de Kehr caracteriza esta dor e sua via de transmissão é o nervo frênico.
As dores produzidas por doenças biliares podem ser referidas no ombro
direito. As estruturas retroperitoneais podem causar dor na região lombar,
dor testicular ou em região inguinal e podem estar relacionadas com
obstrução ureteral por cálculo.
História pregressa
A história clínica pregressa nos fornece importantes informações,
facilitando muitas vezes, o diagnóstico atual. Outros episódios semelhantes
já podem ter ocorrido, como cálculos biliares, ureterais, inflamações
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pélvicas. História de arritmia cardíaca, infarto do miocárdio, angina nos
farão suspeitar de isquemia mesentérica. Cirurgias abdominais prévias
podem explicar o abdome agudo de tipo obstrutivo.
Exame físico
Após rigorosa anamnese e a realização do exame físico completo, os sinais
vitais são de extrema importância.
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Alguns sinais deverão ser pesquisados embora sejam de baixa
especificidade e sensibilidade. (Tabela 3)
Tabela 3
Sinais Signinificado
Murphy Colecistite
Blumberg Apendicite
Kehr Irritação frênica
Cullen Hematoma periumbilical
Gray-Turner Hematoma no flanco
Lenander Inflamação no abdome inferior
Jobert Pneumoperitônio
Giordano Doença inflamatória do retroperitônio
Os toques retal e vaginal devem ser realizados para que sejam colhidos
dados para diagnóstico de causas genital, urológica ou retal.
Exames Complementares
Exames laboratoriais e de imagem nos fornecem subsídios para o
diagnóstico. Outros procedimentos que podem ser realizados são o lavado
peritoneal, laparoscopia e também a laparotomia exploradora que hoje é
exceção.
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Exames laboratoriais
Diante de quadro clínico de abdome agudo dois exames devem ser
solicitados inicialmente, pois nos dão várias informações: o hemograma
completo e elementos anormais e sedimentos na urina.
A leucopenia, por sua vez, pode significar infeção grave, em geral por
bactéria Gram negativo e mau prognóstico.
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paciente com dor abdominal aguda, deve ser solicitada a sua dosagem,
principalmente se o paciente for etilista ou tiver história de doença biliar.
Na pancreatite aguda, a hiperamilasemia acontece desde as primeiras
horas, permanecendo por cerca de cinco a sete dias. Em outras doenças, a
hiperamilasemia poderá estar presente, mas não tão elevada como na
pancreatite aguda.
Exames de imagem
Radiologia - Dois são os métodos radiológicos, radiografia convencional
(RC) e a TC. Ambos contribuem para o diagnóstico de abdome agudo, sendo
necessário que o médico forneça as informações dos sintomas e dos
achados do exame clínico, assim como suas suspeitas diagnósticas para que
o radiologista possa melhor opinar. É importante a experiência do
radiologista na interpretação das imagens e o seu conhecimento de
Medicina Interna.
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pneumoperitônio, distensão de alças, níveis hidroaéreos, edema de parede
das alças, empilhamento de modas, ausência de gás e massas inflamatórias.
Outros Procedimentos
Dentre outros procedimentos se incluem o lavado peritoneal que é útil para
fazer o diagnóstico de hemoperitônio, a presença de pus ou de materiais
provenientes de rotura ou perfuração de víscera oca.
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A laparoscopia tem importância na exploração da cavidade abdominal,
separando as doenças que têm indicação cirúrgica daquelas que requerem
tratamento clínico.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico de abdome agudo segue o algoritmo que foi consenso do
XXVI Congresso Brasileiro de Cirurgia (Tabela 4).
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Preparo do paciente para a cirurgia de urgência
No momento da decisão cirúrgica, o estado geral do paciente varia de
acordo com o tempo de evolução da doença. Grave ou não, todo paciente
necessita de tempo para o preparo pré-operatório. Medidas clínicas e
alguns procedimentos necessitam ser realizados. O acesso venoso deve ser
providenciado, aproveitando-se o momento para a coleta de sangue para
exames. Estando o paciente desidratado, será feita a infusão de líquidos,
optando-se por cristaloides, e feita a correção eletrolítica se necessária. Em
geral, estes pacientes têm a necessidade da administração de antibióticos,
quer profiláticos quer terapêuticos. As bactérias são muito comuns nos
casos de abdome agudo. Nos casos de abdome agudo inflamatório, o
antibiótico deve ser iniciado no momento em que o diagnóstico é feito. A
escolha recai sobre os antibióticos para Gram negativos e anaeróbios,
porque esta é a microbiota local.
Apendicite aguda
A apendicite aguda, apesar de ser diagnosticada em qualquer faixa etária, é
o abdome agudo mais comum entre adultos jovens. Nas hipóteses
diagnósticas de abdome agudo inflamatório, sempre deve ser incluída como
diagnóstico diferencial, pois se apresenta sob diversos aspectos.
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distensão é responsável pela dificuldade da drenagem venosa e linfática
com subsequente isquemia da mucosa que acrescido ao processo
inflamatório pode contribuir para gangrena e perfuração.
Consequentemente, o processo inflamatório atinge o peritônio, podendo
haver a formação de abscesso que fica bloqueado pelo intestino delgado e
omento??. É rara a perfuração em peritônio livre e quando ocorre há a
formação de microabscessos ou peritonite generalizada, que pode evoluir
para choque séptico. A perfuração ocorre após cerca de quarenta e oito
horas após os sintomas iniciais.
O diagnóstico de apendicite aguda é clínico e apoia-se na anamnese e no
exame físico. A apendicite aguda típica inicia-se por dor periumbilical. É
uma dor visceral consequente à obstrução da luz do apêndice. A dor é
seguida de náuseas e anorexia. A dor inicialmente periumbilical passa para
o quadrante inferior direito conforme o processo inflamatório evolui e
atinge o peritônio parietal. Alguns autores julgam esta dor migratória como
o sintoma mais confiável da apendicite aguda.7 O paciente pode apresentar
um episódio de vômito que normalmente não se repete. A febre surge
acompanhada de leucocitose. Alguns pacientes têm sintomas urinários
devido ao processo inflamatório nas proximidades do ureter e da bexiga.
O toque retal tem sua importância, algumas vezes, pouco acrescenta, mas
se o apêndice estiver localizado na pelve, ao se realizar o toque exacerba-se
a sensibilidade anterior.
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Nas apendicites complicadas com perfuração e abscesso, a dor torna-se
intensa e difusa, há defesa com espasmo da musculatura abdominal. A
temperatura normalmente é superior a 39oC.
Rotineiramente, são solicitados hemograma e elementos anormais e
sedimentos na urina. Os leucócitos estão aumentados com os neutrófilos
com cifra superior a 75%. Quando a contagem global é superior a 20 000
leucócitos sugere complicação como abscesso ou perfuração. No exame de
urina, é encontrada piúria microscópica mínima. A hematúria macroscópica
afasta apendicite aguda e leva a pensar em cálculo renal.
Obstrução intestinal
A obstrução intestinal se caracteriza pela parada de eliminação de gases e
fezes. São três as suas causas: obstrução devido a causas extraluminares, à
intrínseca à parede intestinal e a que oclui a luz intestinal.
(Tabela 5)
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Hematoma
Estenose isquêmica
Intussuscepção
Endometriose
Enterite actínica
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evoluir para perfuração intestinal e peritonite. Há a modificação da
microbiota local com aumento do número de bactérias.
As náuseas e vômitos podem ser os únicos sintomas e são mais comuns nas
obstruções altas. O aspecto do vômito também é importante. Com a
evolução da obstrução, o vômito toma o aspecto semelhante a fezes, o que
mostra que a obstrução já se instalou há algum tempo.
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Figura 1A – Paciente de pé, mostrando níveis
hidroaérios no intestino delgado, ausência de gás no
cólon (Arquivo do Autor)
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Figura 1C – Obstrução intestinal,
mostrando imagem de empilhamento de
moedas (Arquivo do Autor)
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No caso mais complexo, no qual história, exame físico e radiogra fia pouca
esclarecem, a TC tem sua indicação. A TC tem sua importância quando a
suspeita é de causa extrínseca de obstrução (Figura 4), como tumores,
doença inflamatório ou abscesso (Figura 5).
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Isquemia mesentérica
Bacelli9 introduziu o termo angina abdominal para designar episódios de dor abdominal
recorrente como consequência de oclusões das artérias mesentéricas.
A isquemia mesentérica pode ser secundária tanto à insuficiência arterial como venosa, aguda
ou crônica. Apresenta alguns fatores predisponentes como a doença cardiovascular pré-
existente, as cirurgias vasculares abdominais recentes, a hipercoagulabilidade sanguínea,
algumas medicações e as vasculites.
Há uma alteração súbita do fluxo sanguíneo do intestino, em geral na área vascularizada pela
artéria mesentérica superior. A isquemia é devida em 50% à embolia arterial, 35% por
trombose arterial aguda e 15% por trombose da veia mesentérica.
A embolia arterial na maioria das vezes tem origem nas cavidades cardíacas, são trombos
murais associados à fibrilação atrial ou ao infarto do miocárdio que são liberados. Os trombos
murais dos aneurismas proximais raramente são causas da isquemia. A extensão da lesão é
variável e depende do local onde houve a impactação do trombo.
A incidência de isquemia intestinal aguda é maior em mulheres, 70%, e com idade superior a
setenta anos.
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ser seguida de náuseas, vômitos e diarreia sanguinolenta. Nesta fase inicial, o exame clínico é
pobre, pois não há distensão abdominal, sinais de irritação peritoneal nem febre.
A rotina radiológica de abdome agudo, na fase inicial, mostrar níveis hidroaéreos e edema de
parede. Já na fase tardia podemos observar gás na parede do intestino e na veia porta.
No tratamento devem ser instituídas medidas de suporte de vida com monitorização cardíaca,
reposição hidroeletrolítica agressiva, correção da acidose, heparinização e antibioticoterapia.
A laparotomia está indicada e é realizada através de uma incisão mediana, xifopubiana. Deve
ser realizada avaliação rigorosa da viabilidade das alças intestinais (Figura 7). A alça inviável
deve ser ressecada e feita a reconstituição do trânsito intestinal. Nas alças com perfusão
diminuída verificam-se a sua cor, o brilho, a peristalse. Se houver condições deve ser eleita a
avaliação da borda antimesentérica com Doppler.
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– Baccelli G: Anéurysme de l’artére mésentérique supérieur. Policlinic Sez Méd;121:301-13, 1918.
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