Teorias e Processos da Personalidade
Teorias e Processos da Personalidade
Teorias da personalidade:
• Uma teoria da personalidade responde de forma coerente e cientifica às mesmas questões
que os leigos colocam
1 - Estrutura da personalidade
• Unidades de análise
o Diferentes modelos teóricos assentam em diferentes unidades de análise
o Uma das mais populares unidades de análise é o traço de personalidade
• Sistema
o Conjunto de partes interconectadas cujo comportamento reflete, não apenas as
partes individuais, mas também a sua organização
• O todo é mais importante que a soma das partes
o Teóricos que vêm a personalidade como um sistema tendem a enfatizar a
organização das unidades (mais do que as unidades em si)
• Hierarquia
o As teorias diferem na conceção da estrutura da personalidade como
hierarquicamente organizada
2 - Processos da personalidade
• Reações psicológicas que mudam em períodos temporais relativamente breves
(motivações, emoções, ações,…)
• Diferentes teorias utilizam diferentes unidades de análise no estudo dos processos da
personalidade
3 - Crescimento e desenvolvimento
• Como nos tornamos a pessoa única que cada um de nós é
• Nature e nurture (genética vs cultura, familia, classe social,…)
4 - Psicopatologia e mudança
• É necessário um enquadramento que especifique as causas desses problemas e fatores
que possam ajudar a mudança
Teoria da personalidade:
• Como as pessoas mudam
• Porque resistem à mudança 1
• Porque são incapazes de mudar
Papel do psicólogo/investigador da personalidade-
identificar as consistências e diferenças no indivíduo e
entre indivíduos e tentar explicá-las através de um
conjunto de hipóteses testáveis
Exigências aos teóricos da personalidade:
• Observação científica
o Estudar grupos vastos e diversos de pessoas
o Garantir que as observações são objetivas e sem viés
o Utilizar ferramentas especializadas (para além da observação/interação)
• Teoria que seja sistemática
o Obter boas descrições da personalidade
o Formular uma teoria que forneça explicações que relacionem as ideias de forma
lógica, organizada e coerente
• Teoria que seja testável
o Matéria subjetiva que inclui aspetos da vida mental (objetivos, sonhos, impulsos,
desejos, conflitos, emoções, defesas inconscientes)
o Extremamente complexos e difíceis de estudar cientificamente
• Teoria que seja abrangente
o Deve conter todas as questões significativas sobre o funcionamento da
personalidade, o seu desenvolvimento e diferenças individuais
O campo da personalidade
• Não pode ser parcial ou seletiva envolve 3 aspetos:
• Teoria que possa ser convertida em aplicações práticas • Universais humanos
• Diferenças inter-individuais
• Singularidade individual
Abordagens:
• Nomotética
o Procura de leis científicas que se aplicam a todos
o Muitos indivíduos são avaliados nas mesmas condições, com as mesmas técnicas, para
avaliar caraterísticas estáveis, que os diferem
o Pode ser generalizado a um grande número de indivíduos
• Idiográfica
o Concentra se no indivíduo e em conhecer as suas características em várias situações
o Apenas prevê um comportamento (no mesmo indivíduo)
Estratégias de investigação:
• Estudos de caso
o Tem de ser testada para ser validada
o Utiliza descrições detalhadas, cria hipóteses e testa numa população
Vantagens- profundidade e abrangência do conhecimento obtido
Limitações- não permite generalizar, a subjetividade pode afetar a validade e fiabilidade
da evidência
• Estudos correlacionais
o Procura de diferenças interindividuais
o Permite avaliar a relação entre variáveis de personalidade ou entre variáveis de
personalidade e outras (papel preditor)
Vantagens- dimensão das amostras e fiabilidade
Limitações- falta de detalhe e profundidade, impossibilidade de apurar causalidade,
excessivo apoio em questionários de auto-relato
• Estudos experimentais
Vantagens- controlo e possibilidade de aferir causalidade
Limitações- falta de validade ecológica (artificialidade e relevância limitada noutros
contextos), pode perder processos que ocorrem ao longo do tempo
Temperamento
Temperamento- diferenças individuais de base biológica (desde o nascimento) nas
tendências/respostas emocionais e motivacionais (influência do ambiente e da genética)
As 4 dimensões do temperamento:
• Emocionalidade
o Tendência para experienciar humor negativo vs positivo
o Grau, rapidez e duração da ativação
• Atividade
o Ritmo e vigor dos movimentos motores • Estabilidade ao longo do tempo
• Sociabilidade • Similitude nos GM
o Capacidade de resposta aos outros
o Facilidade em aproximar-se dos outros
• Agressividade/impulsividade
3
Pavlov (1927)- interesse nas diferenças no sistema nervoso dos indivíduos
• Foco nas respostas do animal no que respeita à orientação para um novo estímulo
• Para se adaptar ao ambiente, o organismo tem que responder de forma apropriada (sem
hiperreatividade)
4
• Interativo
o Interação mútua entre o indivíduo e o ambiente
o A socialização ocorre por meio de trocas entre o sujeito e os agentes socializadores
• Transacional
o Processo contínuo com influências bideracionais
o O indivíduo e o ambiente transformam-se mutuamente ao longo do tempo
Perspetiva de traços
Estrutura da personalidade:
Traços- dimensões contínuas
Tipos- agrupamento de vários traços diferentes (categorias)
• Consistência
o Regularidade do comportamento (tendência para)
o É esperado que determinado traço seja apresentado em situações com potencial de
ativação do mesmo
• Distintividade
o Preocupação com as caraterísticas psicológicas em que as pessoas diferem
• Fiabilidade e validade
o Apenas se deve defender uma estrutura de personalidade se a análise estatística
sugerir a sua evidência
Modelos de traços:
• Descrição
Taxonomia da personalidade- procura de um esquema descritivo que se aplique a todos
• Predição
o Uso de testes da personalidade para predição em todo o tipo de contextos/situações
• Explicação
o Nível mais avançado (nem todos a procuram, mas a maioria sim)
o Diferentes níveis de um traço da personalidade levam a diferentes comportamentos
Um traço expressa o que uma Alguns traços tendem a co-ocorrer, tal como
pessoa faz em muitas situações, nas caraterísticas físicas
não o que será feito em qualquer
situação
5
Traços Estados
• Internos • Induzidos por circunstâncias externas
• Duradouros • Temporários
• Necessários para explicar a consistência
Análise fatorial- identifica um pequeno número de fatores responsáveis pelas correlações entre
um maior número de variáveis, aos quais é atribuído um rótulo verbal
Traços de origem- estruturas psicológicas internas que são a fonte das intercorrelações entre os
traços de superfície (são a estrutura da personalidade)
Traços de capacidade- aptidões que permitem ao indivíduo funcionar eficazmente
Traços de temperamento- vida emocional e aspetos constitucionais da resposta
Traços dinâmicos- vida motivational do indivíduo, ação rumo a uma meta
Limitações:
• A complexidade do modelo pode dificultar a aplicação prática e interpretação
• Falta de consenso em relação aos 16 fatores específicos
o Pode gerar inconsistências nos resultados e na interpretação
• A extensa lista de fatores pode tornar o sistema menos acessível e de difícil memorização
6
Limitações:
• As teorias sobre as bases biológicas do neuroticismo e do
psicoticismo não têm apoio inquestionável
• Bastarão três fatores para descrever a personalidade?
Hans Eysenck: 1916-1997
• Avanços na análise fatorial
Influências • Investigação sobre a hereditariedade das características psicológicas
• Trabalho experimental- Condicionamento clássico
• Vantagem de conjugação do método correlacional com o método experimental
• Necessidade de compreender a biologia dos traços
Conjunto de traços que no extremo
• Análises fatoriais secundárias (“superfatores” independentes) são considerados patológicos:
o Introversão-extroversão • Agressividade
o Neuroticismo • Falta de empatia
• Frieza interpessoal
o Psicoticismo
• Tendências comportamentais
antissociais
Elevado N + baixa E + baixo P = pacientes neuróticos
Elevado N + elevada E + elevado P = perturbação antissocial da personalidade
7
Linguagem natural/quotidiana- usamos para descrever as pessoas (adjetivos)
Procedimento básico- pedir aos indivíduos para se pontuarem ou a outros numa vasta variedade
de traços cuidadosamente extraídos do dicionário
Big five:
Abertura à experiência (O)- amplitude e profundidade da vida intelectual e experencial
• Fantasia, estética, sentimentos, ações, ideias, interesses (?), valores
Conscienciosidade (C)- comportamento orientado para tarefas e objetivos
• Ordem, obediência ao dever, esforço de realização, autodisciplina, deliberação,
competência
Extroversão (E)- sociabilidade e foco de onde os indivíduos retiram a sua energia
• Acolhimento caloroso, gregariedade, assertividade, atividade, procura de excitação,
emoções positivas
Agradibilidade (A)- gentileza e preocupação com o outro
• Confiança, retidão, altruísmo, complacência, modéstia, sensibilidade
Neuroticismo (N)- grau de reatividade e qualidade emocional
• Ansiedade, hostilidade, depressão, auto-consciência, impulsividade,
vulnerabilidade
Adaptações caraterísticas- variam entre culturas, famílias e fases do ciclo vital, têm plasticidade
Plasticidade- mudança ao longo do tempo em resposta à maturação biológica, papéis
sociais/ expetativas e mudanças no ambiente ou intervenções deliberadas
Traços da personalidade- não apresentam plasticidade, são encontrados nas diferentes culturas,
sofrem pouco impacto nas relações pais-criança, geralmente estáveis ao longo da vida adulta
8
Psicopatologia- disfunção que ocorre quando as adaptações não estão adequadas aos objetivos
pessoais/valores culturais
Estabilidade estrutural:
• Se a estrutura da personalidade se mantém ao longo da vida e em que medida as correlações
entre os traços são invariantes ao longo do ciclo de vida
Análise fatorial- a estrutura dos big five tend a emergir no fim da infância e clarifica-se na
adolescência
9
Estabilidade absoluta:
• Comparar transversalmente diferentes grupos etários
• Mudanças normativas na personalidade
• Investigação em culturas/ambientes diferentes
Estabilidade relativa:
• Em que medida os indivíduos mantém a sua posição relativa no contínuo dos traços
• Comparar individuos da mesma idade ao longo do tempo (estudo longitudinal)
o Este tipo de estudos demonstra bastante estabilidade, as correlações continuam
significativas após longos períodos, embora diminuindo a magnitude após a década
• Não varia marcadamente no que respeita aos diferentes traços, nem ao género
10
Evocativas- as pessoas tendem a evocar respostas por parte de outros consistentes com
a sua personalidade
Manipulativas- as pessoas manipulam o seu ambiente, mudando-o para se adaptar às
suas caraterísticas (aumenta o encaixe entre personalidade e ambiente)
Afastamento- as pessoas abandonam/são afastadas dos ambientes que não se ajustam
à sua personalidade devido aos comportamentos consistentes com a sua personalidade
(contorna a oportunidade de mudança)
• Mecanismos identitários
o O processo de desenvolver, comprometer-se com e manter uma identidade,
aumenta com a idade
• Mais conhecedores das suas caraterísticas da personalidade, interesses,
capacidades e história de vida
• Maior bem-estar psicológico e de auto-estima
• Maior consistência
Tipos de consistência:
Longitudinal- estabilidade do comportamento ao longo do tempo
Transituacional- estabilidade do comportamento em diferentes situações
• Questionado pelos críticos da teoria dos traços
• Avaliação do nivel de assertividade em diversas situações quotidianas
• Um comportamento pode ser estável num contexto específico (académico, laboral ou
doméstico) mas muito menos estável inter-contextos
• Deu origem à abordagem dos estados da personalidade
11
Estes princípios buscam integrar
abordagens biológicas, psicológicas e
sociais para um entendimento mais
completo da personalidade
Princípios para uma nova ciência da personalidade integrativa:
• Evolução e natureza humana
o A personalidade deve ser compreendida à luz da evolução humana, considerando
como características psicológicas ajudam na adaptação e sobrevivência
• Assinatura disposicional
o Padrões consistentes de comportamento e experiência que caracterizam um
indivíduo ao longo do tempo, influenciados por disposições internas
• Adaptações caraterísticas
o A personalidade envolve adaptações específicas aos desafios e demandas do
ambiente, sendo moldada por fatores biológicos, sociais e psicológicos
• Narrativa de história de vida
o Cada indivíduo constrói uma narrativa pessoal sobre sua vida, que é crucial para
entender a personalidade, pois ela organiza a experiência de maneira significativa e
coerente
• Papel diferencial da cultura
o A personalidade deve ser analisada considerando as diferenças culturais, pois as
crenças, valores e práticas culturais influenciam profundamente as características
e comportamentos de uma pessoa
Limitação: profundidade
• Análise superficial sem especificar processos
• Sem a profundidade e a riqueza do estudo de caso
• Com exceção de Allport, os teóricos dos traços focaram-se primariamente nas diferenças
individuais na população e não na vida mental e “uniqueness” do indivíduo
12
1º modelo conceptual: estruturas mentais básicas da mente
Níveis de consciência- inconsciente, pré-consciente e consciente
2º modelo conceptual: sistemas mentais e as suas funções Impede o conteúdo do inconsciente de emergir à
consciência/permite que emerja de forma modificada
Superego
• Papel moralizador e crítico (procura a perfeição)
• Procura equilibrar os impulsos primitivos do id com as limitações
impostas pela realidade (controlo do comportamento)
• Desenvolve se após a resolução do “complexo de Édipo”
Ego
• Parte racional da psique
• Media entre os desejos instintivos (id) e o crítico superego
ID
• Fonte original de toda a energia mental
• Parte primitiva e instintiva da mente
• Contém pulsões sexuais e agressivas
Processos da personalidade:
Mecanismos de defesa- atuam a nível não consciente de maneira a proteger o indivíduo de uma
ansiedade que seria avassaladora
• Recalcamento/repressão Ansiedade- emoção desprazerosa
o Base de todas as outras inespecífica que alerta o ego
o Complexo de édipo (primeiro conteúdo reprimido)
o Bloqueio do desejo, pensamento ou recordação e impedimento de emergir à
consciência, por ser demasiado ameaçador (amnésia)
o Requer um grande gasto de energia psíquica
o O conteúdo reprimido manifesta-se através de sintomas, sonhos, atos falhados
• Negação
o Recusa em admitir a existência/verdade acerca de um evento externo/interno
o Mecanismo simples e imaturo
• Formação reativa
o O conteúdo inaceitável é reconhecido na consciência como o seu exato oposto
13
• Racionalização
o Justificação de comportamentos/sentimentos controversos através de
explicações lógicas, evitando a verdadeira razão por detrás das suas ações
o Mecanismo complexo e maduro
o Reconhecimento da existência de determinado acontecimento mas distorção do
motivo subjacente
• Deslocamento
o A pulsão é desviada/dirigida a um objeto diferente daquele a que se dirige
originalmente
• Mais acessível
• Menos ameaçador
• Mais socialmente aceite
• Identificação
o Incorpora no ego caraterísticas de um objeto de forma a permitir satisfação da
pulsão sexual ou agressiva, que é inaceitável satisfazer diretamente
• Projeção
o O conteúdo inaceitável é colocado num objeto exterior e considerado externo
• Regressão
o O ego volta a estágios anteriores do desenvolvimento psicossexual infantil e às
formas de gratificação típicas e aceites nessa fase
• Sente-se e age de acordo com esse estádio
• Sublimação
o As pulsões inaceitáveis são convertidas de uma forma que permita a sua
satisfação sem causar ansiedade ao indivíduo (por ser socialmente aceite)
Demasiada gratificação- não tem motivação para avançar para o estádio seguinte
Frustração da gratificação- tem receio de avançar para o estádio seguinte Fixação
Avaliação da teoria:
• Observação científica
o Freud desenvolveu o método da associação livre
o Criou uma teoria de enorme amplitude com base num conjunto de casos clínicos
• Sistemática
o Grande coerência na ligação entre todos os elementos, aspetos estruturais e
processuais
• Testável
o Elementos muito difíceis de testar Inconsciente (psicanálise)
o Só usou evidência de estudo de caso ≠
Inconsciente cognitivo
14
• Abrangente
o Captura toda a complexidade do ser humano
• Aplicação
o Escola terapêutica
Desenvolvimento da personalidade:
• Oito estádios psicossociais
o Conflitos em cada estádio (crise psicossocial) → resolução
• Procura da identidade
Resolução
Estádio Conflito básico
positiva
Iniciativa vs culpa
Idade pré-escolar (3-5) Poder
- Exercer a sua ação sobre o meio ambiente
Indústria vs inferioridade
Idade escolar (6-11) - A importância de fazer algo que interessa aos outros Competência
- Início da cooperação
Intimidade vs isolamento
Jovem idade adulta (20-40) Amor
- Unir-se sem fusão, sem idealização, com diferenciação
Criação vs estagnação
Idade adulta (40-65) - Maior preocupação com a sociedade Cuidado
- Altruísmo vs egocentrismo (auto-absorção)
Integridade vs desespero
Velhice (> 65) - Morte psicológica antes da física vs aceitação antecipada Sabedoria
da morte
16
Discordância de Freud em vários aspetos
Freud Rogers
Subjetividade:
• Reação a uma perceção da realidade e não a uma realidade absoluta
17
Aspetos viscerais e instintuais do organismo
Freud Rogers
Estrutura da personalidade:
Self- Noção de “si mesmo”, algo estrutural, primariamente consciente (embora possamos ter
experiências não conscientes)
• Desenvolve-se ao longo da vida, sendo essencial para a formação da identidade e da
autoimagem
• Abrange a essência da pessoa
o Consciência, emoções, pensamentos e a perceção de ser uma entidade
única e distinta dos outros
• Campo fenomonológico do indivíduo
• Retém sempre a sua qualidade organizada e integrada que persiste ao longo do
tempo e caracteriza o indivíduo
Self-real e Self-ideal (perspetiva futura)
Avaliação do Self:
• Método Q (the Q-sort)
o Distribuição forçada (obriga a ponderação cuidadosa e processo comparativo)
o Usado para avaliar a discrepância quantitativa entre o Self-real e ideal
o Conjuga caráter fixo e flexível
• Diferencial semântico
o Pontuar o Self através de escalas
o Grau de diferença prediz insatisfação e drop out
Consistência e congruência:
• Fundamentais para o funcionamento do indivíduo
18
Consistência do Self e papéis sociais Consistência entre tipos de Self
Self-real vs Self-ideal:
• A congruência entre o Self-real (quem a pessoa é) e o Self-ideal (quem deseja ser) reflete
harmonia interna
• Incongruência entre esses dois aspectos pode causar insatisfação e conflitos internos
19