DO CONCEITO DE DARSTELLUNG
EM WALTER BENJAMIN OU
VERDADE E BELEZA
Jeanne-Marie Gagnebin*
[email protected]
RESUMO Este artigo tenta explicitar o conceito de Darstellung utilizado
por W. Benjamin para caracterizar a tarefa da filosofia no prefácio de Origem
do Drama Barroco Alemão. Procede em três tempos: primeiro, a diferença
entre verdade e conhecimento; segundo, a relação entre verdade, exposição,
de si mesma e beleza; terceiro, a interpretação bastante peculiar que Benjamin
dá da doutrina das Idéias e do Symposion de Platão.
Palavras-chave Darstellung, W. Benjamin, Verdade, Conhecimento,
Platão
ABSTRACT This article tries to render explicit the concept of
Darstellung used by W. Benjamin to characterize the task of the philosophy on
the preface of The origin of German Tragic Drama. It proceeds in three times:
first, the difference between truth and knowledge; second, the relationship
between truth, its own exposition and beauty; third, Benjamin’s interpretation,
rather peculiar, of the doctrine of the Ideas and the Symposion by Plato.
Keywords Darstellung, W. Benjamin, Truth, Knowledge, Plato
* Professora titular do Departamento de Filosofia da PUC/SP e livre-docente do Departamento de Teoria
Literária da Unicamp. Artigo recebido em 15/09/05 e aprovado em 15/11/05.
KRITERION, Belo Horizonte, nº 112, Dez/2005, p. 183-190
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Neste artigo, gostaria de tentar eliminar alguns mal-entendidos freqüentes
na leitura das primeiras páginas do “Prefácio”1 ao livro sobre o drama barroco
de Walter Benjamin. Proponho explicitar melhor a tarefa da escrita filosófica
tal como Benjamin a evoca nessas páginas densas, obscuras e, sim,
assumidamente esótericas, mas, no entanto, rigorosas. O ganho dessa
explicitação consiste, particularmente, em mostrar a relação intrínseca, segundo
Benjamin, entre história, linguagem e verdade: entre a dimensão estética e a
dimensão histórica do pensamento filosófico, ou, ainda, entre verdade e
exposição da verdade, ontologia e estética. Trata-se, fundamentalmente, da
reabilitação das dimensões histórica e estética do pensamento filosófico.
O primeiro mal-entendido a ser dirimido é uma questão de tradução. A
palavra Darstellung — utilizada por Benjamin para caracterizar a escrita
filosófica — não pode, (aliás, nem deve), ser traduzida por “representação”,
como o faz Rouanet (que comprendeu perfeitamente o alcance do texto,
conforme sua “Apresentação” muito esclarecedora demonstra, mas que o
traduziu, às vezes, de maneira pouco precisa), nem o verbo darstellen pode ser
traduzido por “representar”. Mesmo que essa tradução possa ser legítima em
outro contexto, ela induz, no texto em questão, a contra-sensos, porque poderia
levar à conclusão de que Benjamin se inscreve na linha da filosofia da
representação — quando é exatamente desta, da filosofia da representação, no
sentido clássico de representação mental de objetos exteriores ao sujeito, que
Benjamin toma distância. Proponho, então, que se traduza Darstellung por
“apresentação” ou “exposição”, e darstellen por “apresentar” ou “expor”,
ressaltando a proximidade no campo semântico com as palavras Ausstellung
(exposição de arte) ou também Darstellung, no contexto teatral (apresentação).
Benjamin retoma em seu texto uma antiga discussão filosófica e retórica,
cujos termos transforma e desloca. Na retórica antiga, já são distinguidos, no
interior da enunciação de um discurso, os momentos da inventio (assunto,
argumento, técnicas de persuasão), da dispositio (ordenação das partes maiores
de um discurso) e da elocutio (escolha e ordenação das palavras, dos detalhes).2
Na reflexão filosófica nascente, os diálogos de Platão foram classificados em
dois gêneros maiores por Diógenes Laercio: os diálogos de pesquisa (gênero
1 Trata-se da “Erkenntniskritische Vorrede” ao livro Ursprung des deutschen Trauerspiels. BENJAMIN, W.
Gesammelte Schriften. I-1. Frankfurt/Main: Suhrkamp, 1974. p. 207 et seq. Citado, a partir de agora, como
GS-I-1, com indicação da página. Tradução brasileira de Sergio Paulo Rouanet: “Questões introdutórias de
crítica do conhecimento”, prefácio ao livro Origem do Drama Barroco Alemão. São Paulo: Ed. Brasiliense,
1984. Citado, a partir de agora, como Origem..., com indicação da página correspondente, muitas vezes
com algumas modificações de meu punho. Menciono também a tradução portuguesa de João Barrento,
Assírio Alvim, Lisboa, 2004.
2 Ver o verbete “Darstellung” no dicionário Ästhetische Grundbegriffe, v. I. Stuttgart: Metzler Verlag, 2000.
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zètètikos) e os de orientação, “mostração”, quase poderíamos dizer de
apresentação (gênero huphègètikos).3 Essa divisão é retomada na famosa
distinção metodológica de Marx no posfácio de 1873 à segunda edição do
Capital:
Die Forschung hat den Stoff sich im Detail anzueignen, seine verschiedene
Entwicklungsformen zu analysieren und denen inneres Band aufzuspüren. Erst
nachdem diese Arbeit vollbracht, kann die wirkliche Bewegung entsprechend
dargestellt werden.4
A distinção clássica entre método de pesquisa e método de exposição,
aliás uma distinção imprescindível à redação de trabalhos universitários, realça
a importância decisiva da exposição: é na exposição/ordenação do material
pesquisado que, geralmente, se manifesta a contribuição singular do autor. Em
suas escolhas narrativas e argumentativas pode o autor reinterpretar a profusão
do material pesquisado e lançar uma nova luz sobre ele. Talvez o melhor
exemplo dessa importância seja a própria exposição da crítica da economia
empreendida por Marx: em vez de uma pretensa descrição cronológica dita
histórica, na qual o capitalismo parece ser o fruto orgânico e bem-vindo de um
desenvolvimento natural da sociedade humana, uma apresentação crítica do
sistema capitalista a partir da estrutura contraditória da mercadoria.
O “Prefácio” do livro sobre o drama barroco prossegue nesta reflexão
sobre o valor retórico e heurístico da “exposição” na filosofia e elabora uma
teoria da escrita filosófica, em particular da forma do “tratado”, que Adorno
deverá retomar mais tarde nas suas famosas reflexões, muito ligadas às de
Benjamin, sobre “O Ensaio como Forma”.5 Agora, as reflexões de Benjamin
visam um alcance especulativo determinado; não se trata somente de insistir
no papel essencial da ordenação dos diversos elementos pesquisados à
disposição do escritor. Trata-se, antes, de elaborar e defender um certo modo
de aproximação contemplativa da verdade. Em outros termos: não temos em
Benjamin somente uma questão retórica ou metodológica, por mais importante
que possa ser, mas também a defesa da especificidade especulativa do itinerário
3 LAERCIO, Diógenes. Vie de Platon, Paris, ed. Les Belles Lettres, 1999, parágrafos 49 e 50.
4 MARX, Karl. Das Kapital. MEW. Berlim, Dietz Verlag, 1968, t. 23, p. 27. v. I. Ressaltei o verbo darstellen, na
citação de Marx (JM G.) “É, sem dúvida, necessário distinguir o método de exposição formalmente, do
método de pesquisa. A pesquisa tem de captar detalhadamente a matéria, analisar as suas várias formas
de desenvolvimento e rastrear sua conexão interna. Só depóis de concluído esse trabalho é que se pode
expor adequadamente o movimento efetivo.” (trad. ligeiramente modificada de R. F. Kothe, O Capital. São
Paulo: Abril cultural, 1983. p. 20. v. I.)
5 ADORNO, Th. W. “O Ensaio como forma” em Adorno, coletânea organizada. por Gabriel Cohn. São Paulo:
Ed. Ática, 1986. (Col. “Grandes Cientistas Sociais”).
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de pensamento filosófico. A exposição não diz respeito apenas à ordenação de
elementos já escolhidos, mas ao próprio recolher e acolher desses elementos
pelo pensar. Para Benjamin, portanto, não se trata somente de analisar as várias
formas de exposição que pode adotar o conhecimento filosófico; mais
radicalmente, trata-se de resguardar uma outra dimensão do pensamento e da
escrita filosóficos: não levar a conhecimento(s), mas expor/apresentar a ver-
dade.6
Will die Philosophie nicht als vermittelnde Anleitung zum Erkennen, sondern als
Darstellung der Wahrheit das Gesetz ihrer Form bewahren, so ist der Übung dieser
ihrer Form, nicht aber ihrer Antizipation im System Gewicht beizulegen.7
Proponho algumas observações preliminares sobre essa estranha afirmação,
antes de tentar entender melhor o que seria essa “exposição da verdade”.
Como Adorno fez mais tarde em “Ensaio como forma”, Benjamin
reivindica a possibilidade de definir a atividade filosófica de maneira diferente
daquela segundo as regras do método cartesiano. Não contesta, porém, a
grandeza do empreendimento cartesiano, não polemiza contra Descartes, como
fará Adorno, mas relembra a existência de outra tarefa para a filosofia, tarefa
descartada ou condenada pela maior parte da filosofia moderna, desde Descartes
e até hoje: pensar filosoficamente não é única e exclusivamente conhecer ou
refletir sobre as condições e possibilidades do conhecimento humano. O
“Prefácio” marca a despedida de Benjamin do ideal de sistema do idealismo
alemão, em particular do sistema kantiano, perfazendo assim o movimento de
afastamento progressivo de Kant que Benjamin iniciou no seu ensaio de 1917,
“Sobre o programa de uma filosofia futura”. Isso não significa, mais uma vez,
a rejeição da filosofia kantiana; significa, muito mais, a reivindicação de uma
outra possibilidade de fazer filosofia, ela também legítima.
Esse progressivo afastamento de Kant deve-se, em boa parte, ao
aprofundamento, por Benjamin, da reflexão sobre o caráter sprachlich
(lingüístico, lingual, de linguagem) da atividade filosófica, isto é, também,
porque as línguas são históricas, sobre o caráter essencialmente histórico do
filosofar. Nesse contexto, as primeiras páginas do “Prefácio” retomam as últimas
do ensaio “Sobre o programa de uma filosofia futura”, nas quais Benjamin
6 Tenta-se explicitar, a seguir, por que Benjamin ousa ainda falar da “verdade”, em um singular que não
indicaria necessariamente sua crença em uma única verdade absoluta, mas sim sua reverência em relação
a uma dimensão diferente daquela definida pela relação entre sujeito e objeto do conhecimento.
7 In: GS I-1, p. 207-208. Em português: “Se a filosofia quiser permanecer fiel à lei de sua forma, não como
orientação mediadora para o conhecer, mas como exposição da verdade, então deve-se atribuir peso ao
exercício desta sua forma, e não à sua antecipação dentro do sistema.” In: Origem... p. 50, (trad. modificada).
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pedia uma “transformação [Umbildung] e correção do conceito [kantiano] de
conhecimento que segue de maneira unilateral a orientação matemático-
mecânica”, transformação que só poderia advir de “uma relação do
conhecimento à linguagem como, na época de Kant, Hamann já a tentou.”8
Talvez o conceito-chave dessa outra forma de filosofar seja o de Übung,
de exercício, conceito comum tanto aos exercícios espirituais da mística e dos
tratados medievais quanto às práticas estéticas e às performances das
vanguardas. Não é nenhum conceito novo, mas uma tradução possível e bem-
vinda da antiga palavra askèsis, como Michel Foucault, unindo, talvez sem o
saber, as categorias de “ensaio” de Adorno e de “exercício” de Benjamin, devia
ressaltar:
O ensaio — que deve ser compreendido como uma prova modificadora de si mesmo
no jogo da verdade e não como uma apropriação simplificadora de outrém para fins
de comunicação — é o corpo vivo da filosofia, pelo menos se esta ainda for hoje o
que era outrora, isto é, uma “ascese”, um exercício de si do pensar.9
Podemos agora tentar entender melhor essa expressão Darstellung der
Wahrheit ou “exposição da verdade”. Parto da hipótese de que ela somente se
tornará intelegível se percebermos o duplo valor do genetivo “da verdade”.
“Exposição da verdade” significa, de um lado, que a filosofia tem por tarefa
expor, mostrar, apresentar a verdade, mas significa também, do outro lado,
que a verdade só pode existir enquanto se expõe, se apresenta, se mostra a si
mesma. No primeiro momento, a filosofia é a força expositiva e apresentadora;
no segundo, é a própria verdade que tem um movimento essencial de exposição
de si mesma. Esses dois momentos são complementares e indissociáveis. Como
a filosofia, se quiser mostrar, expor, apresentar a verdade, só o pode quando
respeitar a incomensurabilidade desta última à linguagem — e, nesse sentido,
somente consegue expor a verdade ao mostrar a insuficiência da linguagem
que tenta dizê-la, como Platão já afirmava na famosa “digressão filosófica” de
sua Sétima Carta —, assim também a verdade deve, essencialmente, expor-se
a si mesma; ou, dito de maneira mais polêmica, não pode exisitir em si mesma
em uma autoridade soberana inefável, mas só pode se realizar em sua auto-
exposição, em particular em sua auto-exposição nas artes e na linguagem (mas
não na história universal, como em Hegel).
8 BENJAMIN, W. Zum Programm der kommenden Philosophie. In: GS II-1, Suhrkamp Verlag, Frankfurt/Main,
1977, p. 168, trad. JM G.
9 FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité. Paris: Gallimard, 1984. p. 15. v. II. (Tradução minha)
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Esse co-pertencimento essencial entre verdade e linguagem ajuda a
entender por que Benjamin aproxima a filosofia da teologia e da arte e por que
constrói uma oposição entre conhecimento (Erkenntnis) e exposição
(Darstellung) na filosofia. Cito as famosas frases, bastante sibilinas, do
“Prefácio”, que consagram o conceito de “exposição” filosófica:
Darstellung ist der Inbegriff ihrer [der Philosophie] Methode. Methode ist Umweg.
Darstellung als Umweg — das ist der methodische Charakter des Traktats. Verzicht
auf den unabgesetzten Lauf der Intention ist sein erstes Kennzeichen. Ausdauernd
hebt das Denken stets von neuem an, umständlich geht es auf die Sache selbst zurück.
Dies unablässige Atemholen ist die eigenste Form der Kontemplation.10
Um rápido comentário pode ajudar a entender melhor como Benjamin vai
opor esse conceito de “exposição” ao de “conhecimento” na filosofia. A forma
filosófica do tratado que ele elege como paradigmática (Adorno dirá a forma
do ensaio) da exposição filosófica tem um método, sim. Mas esse método
consiste, num belo oxímoro, na renúncia ao caminho seguro e bem traçado (a
palavra alemã Umweg como que desvia a palavra grega methodos/com caminho,
Weg). Dupla renúncia: ao ideal do caminho reto e direto em proveito dos desvios,
da errância; e renúncia também ao “curso ininterrupto da intenção”, isto é,
renúncia à obediência aos mandamentos da vontade subjetiva do autor. Em
proveito de quê? De um recomeçar e de um retomar fôlego incessantes em
redor da Sache selbst, da coisa mesma (to on ontôs), centro ordenador e
simultaneamente inacessível do pensar e do dizer. A enunciação filosófica
ordena-se em redor desse centro, presença indizível que provoca e impulsiona
a linguagem, justamente porque sempre lhe escapa. Essa figura de ausência
atuante lembra, naturalmente, os meandros da teologia negativa; mas ela
também pode ser pensada, de maneira profana, como o centro indizível de
fundamentação da própria linguagem, uma espécie de imanência radical que
se furta à expressão.
Vejamos como Benjamin opõe essa definição do método de exposição
filosófica à definição da filosofia como método de conhecimento:
Erkenntnis ist ein Haben. Ihr Gegenstand selbst bestimmt sich dadurch, dass er im
Bewusstsein — und sei es transzendental — innegehabt werden muss. Ihm bleibt der
Besitzcharakter. Diesem Besitztum ist Darstellung sekundär. Es existiert nicht bereits
10 GS I-1, p. 208. Em português: “Exposição é o princípio conceitual de seu [da filosofia] método. Método é
desvio. Exposição como desvio — eis então o caráter metódico do tratado. Renúncia ao curso ininterrupto
da intenção é sua primeira caraterística. Incansavelmente o pensamento começa sempre de novo, minucio-
samente ele retorna à coisa mesma. Esse incessante tomar fôlego é a forma de existência mais própria da
contemplação.” In: Origem..., p. 50, trad. modificada.
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als ein Sich-Darstellendes. Gerade dies aber gilt von der Wahrheit. Methode, für die
Erkenntnis ein Weg, den Gegenstand des Innehabens — und sei’s durch die Erzeugung
im Bewusstsein — zu gewinnen, ist für die Wahrheit die Darstellung ihrer selbst und
daher als Form mit ihr gegeben.11
A démarche do conhecimento, diz Benjamin, caracteriza-se pelo seu alvo:
possuir (dar conta, dominar dirá Adorno) o objeto, mesmo que este último seja
reconhecido como produzido pela consciência. Trata-se sempre de saber qual
é o caminho correto, o método, que permite ao sujeito apoderar-se do objeto.
O método é, portanto, definido pelo rigor da trajetória (Descartes) e/ou pelas
condições transcendentais de apreensão do sujeito do conhecimento (Kant).
Nesse sentido, as qualidades do objeto não influem sobre o caminho de sua
aquisição, mas somente delimitam seu pertencimento ou não ao domínio do
conhecível.
Na esteira de Platão (e, igualmente, na da crítica hegeliana a Kant),
Benjamin insiste na legitimidade de uma outra prática do pensar filosófico:
um acompanhar pelo pensar e pela Vernunft a auto-exposição da verdade. Ou
ainda: Benjamin recorre a filosofemas pré-kantianos, sim, mas não porque
teria uma recaída fatal na ontologia realista. Devemos, nesse contexto, nos
guardar de interpretar as “idéias” de Benjamin como seres supra-sensíveis e
ontologicamente primeiros, como em Platão. Se retomarmos a leitura muito
peculiar que Benjamin faz do Banquete nesse “Prefácio”, podemos entender
melhor seu recurso a conceitos platônicos — sem postular a mesma ontologia.
Segundo as interpretações correntes, o Eros platônico aspira ao belo (moço!) e
à beleza, porque a beleza representaria a Verdade, existiria como um reflexo
sensível do Bom e Verdadeiro em si que é puramente inteligível. Há, em Platão,
uma hierarquia ontológica do belo moço à beleza em si, passando pela
pluralidade dos belos corpos e das belas almas, a beleza sendo o último degrau
antes de chegar à inteligibilidade pura da idéia tou agathou, do Bem/Belo em
si. Essa interpretação mais comum, que a própria filosofia platônica pode
reforçar em vários momentos, tem um ganho moral instigante; em certo sentido,
o impulso erótico é justificado, até mesmo desculpado, pelo seu fim último,
fim ignorado pela maioria dos amantes, mas que a dialética platônica tem por
tarefa revelar.
11 GS I-1, p. 209. Em português: “O conhecimento é um ter. Seu objeto se determina a si mesmo pelo fato de
que a consciência — seja ela transcendental ou não — deve dele tomar posse. O caráter de posse lhe é
imanente. Para essa posse a exposição é secundária. Ela não existe já como algo que se apresenta a si
mesmo. Isso vale justamente para a verdade. Método, para o conhecimento, é um caminho para obter o
objeto a possuir — mesmo que pela sua produção na consciência —, para a verdade (método) é exposição
de si mesma e, por isso, dada com ela como forma.” In: Origem..., p. 51-52.
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Benjamin lê o Banquete de maneira muito mais ousada. Se se pode dizer
da verdade que ela é o “teor essencial da beleza”12 (“Wesensgehalt der
Schönheit”13 ), isso também significa que o Banquete “declara que a verdade é
bela” (“erklärt die Wahrheit für schön”)14 . Não só a beleza é redimida de sua
tendência a somente pertencer ao domínio do brilho (Schein) e da aparência
(Erscheinung, Schein) pela sua última ligação à verdade; também esta, a
verdade, precisa por assim dizer, da beleza para ser verdadeira: a verdade não
pode realmente existir sem se apresentar, se mostrar e, portanto, aparecer na
história e na linguagem. Não há, então, subsunção da beleza à verdade em uma
hierarquia ontológica que submete o sensível ao inteligível e o aparecer ao ser.
Entre verdade e beleza haveria uma relação de co-pertencimento constitutivo
como entre essência e forma: como forma da verdade, a beleza não pode se
contentar em brilhar e aparecer, se quiser ser fiel à sua essência, à verdade; e,
reciprocamente, como essência da beleza, a verdade não pode ser uma abstração
inteligível “em si”, sob pena de desaparecer, de perder sua Wirklichkeit
(realidade efetiva). Somente pode ser real enquanto exposição e apresentação
de si através da beleza: “No interior da verdade, esse momento de exposição é
o refúgio da beleza em geral”15 (“In der Wahrheit ist jenes darstellendes Moment
das Refugium der Schönheit überhaupt”16 ).
Essa releitura dialética, quase hegeliana, da filosofia de Platão concede
beleza à verdade e, igualmente, verdade à beleza, fundamentando, assim, a
legitimidade e a nobreza do empreendimento filosófico e artístico. Como em
Platão, a linguagem filosófica sabe de suas deficiências, mas, simultaneamente,
descobre sua força; ao rastrear incansavelmente os diversos caminhos e
descaminhos da exposição da verdade, a filosofia desenha as figuras conceituais
possíveis nas quais a verdade se dá a ver e a entender — como a arte o faz na
figuração sensível. Filosofia e arte, cada uma a seu modo, elaboram e inventam
as formas lingüísticas e históricas nas quais essa “verdade” imanente ao sensível
e ao tempo nasce, aparece e desaparece.
12 Origem..., p. 52.
13 GS I-1, p. 210.
14 Idem.
15 Origem..., p. 53.
16 GS I-1, p. 211.
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