TRIBUNAL DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
APELAÇÃO
Processo eproc n. 2000264-58.2020.9.13.0002
Referências: Processos eproc n. 2000947-32.2019.9.13.0002; 2000594-21.2021.9.13.0002
Relator: Desembargador Jadir Silva
Revisor: Desembargador Sócrates Edgard dos Anjos
Julgamento: 22/09/2022
Publicação: 29/09/2022
Decisão: UNÂNIME
EMENTA
APELAÇÃO CRIMINAL MINISTERIAL – IMPUTAÇÃO DE
PRÁTICA DE FALSO TESTEMUNHO NA MODALIDADE “CALAR
A VERDADE” – AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA VERDADE
SOBRE A OCORRÊNCIA DE PROFERIMENTO DE PALAVRAS
DE AMEAÇA POR PARTE DE UM MILITAR EM DESFAVOR DE
OUTRO – PEDIDO DE CONDENAÇÃO – IMPOSSIBILIDADE –
AUSÊNCIA DE PROVAS SEGURAS A SUSTENTAR A
PRETENSÃO ACUSATÓRIA DE TESTEMUNHO FALSO –
DÚVIDA AVALIADA A FAVOR DO ACUSADO – ABSOLVIÇÃO
MANTIDA – RECURSO IMPROVIDO.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, sendo apelante o
Ministério Público do Estado de Minas Gerais e apelado o 3º Sgt PM Alex
da Silva Brandão, acordam os desembargadores da Segunda Câmara,
por unanimidade, em negar provimento ao recurso do Ministério Público,
mantendo a absolvição do 3º Sgt PM Alex da Silva Brandão, nos termos
do art. 439, letra “e”, do Código de Processo Penal Militar.
RELATÓRIO
Trata-se de recurso de apelação interposto pelo Ministério Público
do Estado de Minas Gerais em face da sentença proferida pelo Conselho
Permanente de Justiça (CPJ) da 2ª Auditoria de Justiça Militar Estadual
(AJME) que julgou improcedente a denúncia oferecida contra o 3º Sgt PM
Alex da Silva Brandão e o absolveu do delito previsto no art. 346 do
Código Penal Militar (CPM).
Em 11 de fevereiro de 2020, o Ministério Público ofereceu denúncia
em desfavor do 3º Sgt PM Alex da Silva Brandão e do Sd PM Gustavo
Deivid Paiva Mattedi, imputando ao primeiro o crime de falso testemunho
e, ao segundo, o delito de ameaça.
Narra a denúncia:
[...]
Consta dos que, no dia 12 de março de 2019, a Cb PM
Alessandra, juntamente com o 2º Ten. PM Emerson, foram
designados pelo comando do 21º BPM, para fazerem uma visita a Cb
PM Carina de Oliveira Mattedi, esposa do denunciado Gustavo, a
qual se encontrava de licença médica por problemas de saúde.
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Diante da ordem recebida, de pronto ambos os militares, fardados e
em viatura policial, se descolaram juntos para o endereço da militar.
Ao chegarem ao local, se depararam com a residência
trancada com um cadeado, não sendo a Cb PM Carina localizada.
No dia 14 de março de 2019, por volta das 08h00min, estando
a Cb PM Alessandra, escala em operação policial de cumprimento de
Mandado de Busca e Apreensão na cidade de Ubá/MG, e ao realizar
consultas ao Centro de Operações da Polícia Militar/210 BPM
(COPOM) sobre a situação dos veículos, isto via ligação telefônica,
obteve a informação por parte do Sgt PM Alex da Silva Brandão, de
serviço naquele momento no COPOM, de que o denunciado Sd PM
Gustavo Deivid Paiva Mattedi estava dizendo no batalhão que a
militar (Cb PM Alessandra), estava indo à rua de sua casa, em
veículo particular, para vigiá-lo, e que o mesmo iria matar quem
estivesse indo até lá.
Sendo assim, há indícios suficientes nos autos que
demonstram o cometimento do crime de Ameaça, previsto no art. 223
do Código Penal Militar, em tese, praticado pelo denunciado Sd PM
Gustavo Deivid Paiva Mattedi.
Outrossim, o denunciado 3º Sgt PM Alex da Silva durante a
oitiva de seu depoimento, alegou que no dia 14/03/2019, que
realmente estava escalado como atendente no COPOM, no horário
de 07h às 12h, e que neste dia recebeu uma ligação telefônica da Cb
PM Alessandra, isto por volta das 08h00min, via telefone do COPOM,
contudo o militar negou ter tecido algum comentário envolvendo o Sd
PM Mattedi. Alegou que só teve conhecimento do fato, objeto da
apuração, após a instauração do IPM.
Verifica-se que a testemunha, Sub Tem PM Pompeia Francisca
Lopes afirmou que, o denunciado, Sgt Brandão, durante uma
conversa com ela no pátio do Quartel, confirmou que teria visto e
ouvido, juntamente com o Sgt PM Pastor, o denunciado Sd PM
Mattedi falando que iria "meter” tiro nestes carros que estavam indo
na porta da sua casa, podendo ser carros particulares ou viaturas
policiais. Confirmou também que o denunciado, Sgt PM Brandão
disse à declarante que já teria alertado a Cb PM Alessandra, sobre as
ameaças.
Em vista disso, há indícios suficientes nos autos que
demonstram o cometimento do crime de Falso Testemunho, previsto
no art. 346 do Código Penal Militar, em tese, praticado pelo
denunciado 3º Sgt PM Alex da Silva Brandão.
Diante do exposto, o denunciado Gustavo Deivid Paiva
Matted encontra-se incurso no art. 223 do Código Penal Militar
(ameaça), e o denunciado Alex da Silva Brandão encontra-se
incurso no art. 346 do Código Penal Militar (falso testemunho), pelo
que o Ministério Público requer sejam os mesmos citados para
interrogatório e defesa que quiserem produzir, ouvidas as
testemunhas abaixo relacionadas, cumpridas as demais formalidades
da lei, para, ao final, serem condenados nas sanções cabíveis
(Evento 1 – DENUNCIA1 – AJME)
O juiz de direito da 2ª AJME recebeu a denúncia em 13 de março de
2020 (Evento 1 – RECE_ DENUN2 – AJME).
Em audiência presencial, realizada em 2 de setembro de 2020, o
parquet reiterou a oferta de proposta de Suspensão Condicional do
Processo ao Sd PM Gustavo Deivid Paiva Mattedi; todavia o benefício
não foi aceito por ele. O Ministério Público deixou de oferecer proposta de
Suspensão Condicional do Processo ao apelado 3º Sgt PM Alex da Silva
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Brandão, em virtude de este não preencher os requisitos legais (Evento
111 – AJME).
Foram ouvidas a vítima (Cb PM Alessandra Pazini Peron) e 4
(quatro) testemunhas arroladas pela acusação (Subten PM Pompeia
Francisca Lopes Gomes, 1º Sgt PM Gelson José Rodrigues, 3º Sgt PM
Fernando Balbino Pastor e Cb PM Diego Pires Teixeira), em audiência
presencial remota ocorrida em 24 de fevereiro de 2021. Na oportunidade,
a defesa do apelado suscitou a contradita da testemunha Subten PM
Pompeia Francisca Lopes Gomes, por considerá-la amiga íntima da
vítima. O CPJ, entretanto, após a manifestação do Ministério Público, à
unanimidade de votos, não acolheu a contradita, em razão de não ter
ficado comprovada a amizade íntima alegada (Evento 182 – AJME).
Em audiência presencial remota, realizada em 19 de abril de 2021,
houve a oitiva de 3 (três) testemunhas arroladas pela defesa do réu Sd
PM Gustavo Deivid Paiva Mattedi (2º Sgt PM Maike Gonçalves da Silva,
Itiberê Guarçoni Marinho e Cb PM Willian Folhaça Ferreira).
Durante a audiência, o Ministério Público suscitou a contradita da
testemunha Sgt PM Maike Gonçalves da Silva, por considerar que ela
teria animosidade com a Subten PM Pompeia Francisca Lopes Gomes;
contudo, após a manifestação dos advogados dos réus, o CPJ, à
unanimidade de votos, não acolheu o pedido recebido como impugnação,
por entender que não existiam elementos probatórios aptos a demonstrar
uma animosidade entre a testemunha e a subtenente.
O Ministério Público, ainda, requereu que fosse oficiado o
Comandante do 21º BPM, com uma cópia da ata e dos depoimentos que
foram prestados, para que fosse aberto IPM para apurar a suposta prática
do crime de assédio moral, cometido, em tese, pela Subten PM Pompeia
Francisca Lopes Gomes e por oficiais médicos, em desfavor do acusado
Sd PM Gustavo Deivid Paiva Mattedi. O pleito foi deferido pelo CPJ, à
unanimidade de votos.
A defesa do réu Sd PM Gustavo requereu que fosse analisada a
possibilidade de deferimento de proteção às testemunhas, em razão da
suposta prática de assédio moral, o que foi indeferido, à unanimidade,
pelo CPJ, por considerar que caberia ao parquet formular tal pedido, além
de entender que não existiam elementos que demonstrassem a existência
de qualquer perigo às referidas testemunhas.
A defesa do apelado, 3º Sgt PM Alex da Silva Brandão, por sua vez,
pleiteou uma possível conexão entre o IPM – que será aberto para
apuração de assédio moral – e esta ação penal, com a suspensão desse
feito pelo prazo de 6 meses. O pedido foi indeferido, à unanimidade, pelo
CPJ, por considerar que não se encontravam presentes os elementos
configuradores da conexão (Evento 212 – AJME).
Foi realizada a oitiva de 3 (três) testemunhas arroladas pela defesa
do apelado (2º Ten PM QOR Edson Honório de Oliveira, 3º Sgt PM Arilan
Miranda Soares e Cb PM Letícia Felício) em audiência presencial remota
ocorrida em 24 de maio de 2021 (Evento 241 – AJME).
No dia 27 de setembro de 2021, em audiência presencial remota, foi
realizado o interrogatório dos réus (Evento 278 – AJME).
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Na fase do art. 427 do Código de Processo Penal Militar (CPPM), o
Ministério Público requereu que fosse oficiado o Comando do 21º BPM,
para que remetesse ao juízo eventual cópia do relatório da investigação
determinada no Evento 212, a fim de que fosse analisada como prova
destes autos, o que foi deferido. As defesas dos réus não requereram
diligências (Evento 278 – AJME).
Já na fase do art. 428 do CPPM, as partes manifestaram-se pela
apresentação das alegações finais em plenário (Evento 278 – AJME).
Em sessão de julgamento presencial remota, realizada no dia 9 de
março de 2022, o Ministério Público, em alegações finais, requereu a
absolvição do réu Sd PM Gustavo Deivid Paiva Mattedi, com fulcro no art.
439, alínea “e”, do CPPM, e a condenação do 3º Sgt PM Alex da Silva
Brandão, nos exatos termos da denúncia. A defesa do apelado, por sua
vez, pleiteou a absolvição do 3º Sgt PM Alex, nos termos da alínea “a” ou
da alínea “c”, ambas do art. 439 do CPPM. A defesa do Sd PM Gustavo
também pugnou pela sua absolvição, com fulcro na alínea “a”, primeira
parte, ou na alínea “e”, ambas do art. 439 do CPPM. O CPJ, à
unanimidade de votos, absolveu o Sd PM Gustavo do delito de ameaça
previsto no art. 223 do CPM e também absolveu o apelado 3º Sgt PM
Alex do crime de falso testemunho descrito no art. 346 do CPM, ambos
com fundamento no art. 439, alínea “e”, do CPPM (Evento 362 – AJME).
A sentença absolutória foi publicada em 15 de março de 2022
(Evento 364 – AJME).
Irresignado com a absolvição do 3º Sgt PM Alex da Silva Brandão, o
Ministério Público interpôs o presente recurso de apelação (Evento 362 –
AJME). Nas razões recursais, o parquet sustentou que a vítima procurou
sua superior hierárquica, Subten PM Pompeia Francisca Lopes Gomes, e
lhe informou sobre as ameaças que havia recebido do Sd PM Gustavo
Deivid Paiva Mattedi.
Relatou que a Subten Pompeia, entre os dias 21 e 22 de março de
2019, se deparou com o 3º Sgt PM Alex e o indagou a respeito das
ameaças, tendo este confirmado que teria visto e ouvido, juntamente com
o 3º Sgt PM Fernando Balbino Pastor, o Sd PM Gustavo falar que iria
“meter” tiro nos carros que estavam indo na porta da sua casa.
Disse que a testemunha 1º Sgt PM Gelson José Rodrigues afirmou,
em juízo, que ficou sabendo dos fatos pelo 3º Sgt PM Fernando Balbino
Pastor, que estava trabalhando junto com o apelado no dia em que este
ligou para a vítima; que a testemunha Cb PM Diego Pires Teixeira
confirmou que a ofendida recebeu a ligação telefônica do recorrido; e que
a palavra da vítima no sentido de ter sido ameaçada por apenas ter
seguido ordem de superior hierárquico para ir à casa de um militar merece
prevalecer, tendo em vista que foi ratificada pela testemunha Subten PM
Pompeia, que tomou conhecimento dos fatos pela própria ofendida e pelo
apelado 3º Sgt PM Alex.
Ressaltou que há provas suficientes para condenação do apelado,
pois, de fato, ocorreu a ligação, tendo este confirmado os fatos tanto para
a vítima quanto para a Subten PM Pompeia. Acrescentou, também, que
não se pode ignorar que as declarações de um policial em juízo sempre
buscarão legitimar sua conduta e de seus pares.
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Ao final, requereu a condenação do 3º Sgt PM Alex da Silva
Brandão pelo delito de falso testemunho, nos termos da denúncia (Evento
387 – AJME).
Em contrarrazões, a defesa alegou que as declarações da vítima Cb
PM Alessandra Pazini Peron e o depoimento da testemunha Subten PM
Pompeia Francisca Lopes Gomes são contraditórios, razão pela qual
compreende que não podem lastrear um édito condenatório, salientando,
inclusive, que o Sd PM Gustavo Deivid Paiva Mattedi foi absolvido por
insuficiência de provas, com pedido formulado pelo próprio Ministério
Público.
Salientou que a testemunha 3º Sgt PM Fernando Balbino Pastor, em
momento algum, afirmou ter ouvido o apelado falar sobre ameaças
proferidas pelo Sd PM Gustavo. Asseverou que o apelado nunca
conversou com a Subten PM Pompeia sobre supostas ameaças
proferidas pelo Sd PM Gustavo no pátio do quartel e que, na data
mencionada por ela, sequer se encontrava na cidade.
Disse que a vítima Cb PM Alessandra e a testemunha Subten PM
Pompeia possuem amizade íntima, o que demonstrou a partir da juntada
de fotos extraídas das redes sociais, as quais estão acostadas no Evento
311 – AJME; que o apelado não nega que recebeu a ligação da Cb
Alessandra no dia dos fatos, mas afirma, em todos as suas declarações,
que o assunto tratado nessa ligação foi decorrente das operações
policiais, não tendo falado de eventuais ameaças proferidas em desfavor
da militar; e que a ligação ocorreu no dia 14 de março de 2019 e a vítima,
a qual relatou que estava temerosa, somente elaborou um relatório 12
(doze) dias depois, o que, no seu entender, pode ter provocado uma
confusão sobre os nomes com quem havia conversado.
Destacou que a vítima não comentou sobre a ameaça com seu
comandante de guarnição, o Sgt Arilan Miranda Soares, o qual afirmou
que a ofendida não lhe relatou nada de anormal no dia dos fatos, bem
como não notou qualquer alteração no seu comportamento. Ressaltou
que as testemunhas Sgt Anderson Luiz Prata de Faria, Cb Wellington
Carlos Leonel de Paiv, 1º Sgt PM Gelson José Rodrigues e Cb Leticia
Felício Pereira do Val asseveraram que nada sabiam sobre as ameaças
antes da instauração do IPM, o que compreende ir de encontro ao
depoimento da Subten PM Pompeia, de que esse assunto estava sendo
tratado no pátio do quartel e que seria do conhecimento de todos. Aduziu,
ainda, que a denúncia é confusa e não descreveu se o apelado teria feito
“afirmação falsa”, ou se ele “negou ou calou a verdade” na condição de
testemunha, em prejuízo da ampla defesa e do contraditório.
Por fim, pleiteou o não provimento do recurso ministerial, mantendo-
se, na íntegra, a sentença absolutória (Evento 397 – AJME).
A douta e culta procuradora de justiça atuante junto a este Tribunal,
doutora Elba Rondino, manifestou-se pelo provimento do recurso
ministerial. Veja-se:
[...]
Possui toda razão o representante do Órgão Ministerial quando
clama pela condenação do réu Alex pelo crime de falso testemunho,
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TRIBUNAL DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
uma vez que restou devidamente comprovado que, ao ser inquirido
como testemunha compromissada nos autos do IPM n. 104.778/2019,
que apurava a prática de crime de ameaça supostamente cometido
pelo Sd Gustavo contra a Cb Alessandra (evento 1 - OUT3 - fls. 02/03
dos autos n. 2000947-32.2019.9. 13.0002), ele negou ter tecido
qualquer comentário a respeito dos fatos durante o contato telefônico
mantido com a ofendida, muito embora, na verdade, houvesse sido,
sim, o responsável por informá-la acerca das palavras proferidas pelo
Sd Gustavo em seu desfavor, além de ter relatado a outros colegas
de farda que, de fato, presenciara o momento em que este último
verbalizou que iria “meter bala” em quem comparecesse à sua rua
para vigiá-lo.
Diante disso, a versão apresentada pelo apelado por ocasião
de sua oitiva formal em sede de IPM mostrou-se indiscutivelmente
falaciosa e contrária à verdade, o que nos leva a crer que ele
somente se expressou de tal maneira porque não queria se envolver
nos fatos em apuração ou prejudicar o colega de farda que, àquela
época, estava sendo investigado pelo crime de ameaça.
De mais a mais, extrai-se do Termo de Declaração constante
do evento 1 (OUT3 - fls. 02/03 dos autos n. 2000947-
32.2019.9.13.0002) que o acusado Alex prestou o compromisso legal
antes de iniciar a sua inquirição, o que significa que inexistem motivos
para se questionar a prática do crime de falso testemunho, já que, ao
longo da instrução processual efetivada nos presentes autos, obteve-
se a comprovação de que a narrativa por ele sustentada perante o
Encarregado do IPM era notadamente incompatível com o que ele
próprio havia relatado às demais testemunhas do caso.
Conclui-se, desta maneira, que a sentença merece ser
reformada nos termos do apelo da acusação, até para que se
possibilite dar uma resposta à sociedade, que hoje clama
incessantemente por uma punição aos agentes estatais que
contrariam as regras de comportamento social, evitando-se, com isto,
a impunidade e o incentivo à prática de infrações altamente
reprováveis, sob pena de, assim não se fazendo, levar o judiciário ao
descrédito ante os olhos da sociedade, no mínimo a questionamentos
tão corriqueiros nos dias atuais.
Diante do exposto, esta Procuradoria de Justiça opina pelos
conhecimento e provimento do recurso interposto pela acusação, a
fim de que seja reformada a decisão de 1ª instância com a
condenação do 3º Sgt PM ALEX DA SILVA BRANDÃO nas sanções
do artigo 346 do Código Penal Militar (Evento 7 - TJM).
É o relatório.
VOTOS
DESEMBARGADOR JADIR SILVA, RELATOR
Recebo o recurso de apelação porque foram satisfeitos os requisitos
e pressupostos de admissibilidade.
Insurge-se o Ministério Público contra decisão do egrégio Conselho
Permanente de Justiça atuante na 2ª AJME que absolveu o 3º Sgt PM
Alex da Silva Brandão do delito previsto no art. 346 do Código Penal
Militar, considerando não haver provas idôneas e isentas de incertezas
para sustentar a condenação do referido militar como incurso no crime de
falso testemunho.
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Saliento que o ilustre representante do Ministério Público apresenta
razões desconexas com a sentença, razão pela qual me limito a apreciar
o recurso em seu efeito devolutivo.
Pois bem. Da leitura da denúncia, verifica-se que o ilustre
representante do Ministério Público imputa o crime de falso testemunho
ao apelado em razão das declarações prestadas junto ao Inquérito
Policial Militar (nesse ponto, sem indicação de qual Portaria) no sentido de
que:
afirmou que, o denunciado, Sgt Brandão, durante uma
conversa com ela no pátio do Quartel, confirmou que teria visto e
ouvido, juntamente com o Sgt PM Pastor, o denunciado Sd PM
Mattedi falando que iria "meter” tiro nestes carros que estavam indo
na porta da sua casa, podendo ser carros particulares ou viaturas
policiais. Confirmou também que o denunciado, Sgt PM Brandão
disse à declarante que já teria alertado a Cb PM Alessandra, sobre as
ameaças.
Essas declarações, no entanto, são contrárias à afirmação da
Subten Pompéia Francisca Lopes de que o apelado, Sgt Brandão,
durante uma conversa com ela no pátio do quartel, confirmou que teria
visto e ouvido, juntamente com o Sgt PM Pastor, o denunciado Sd PM
Mattedi falando que iria "meter” tiro nestes carros que estavam indo na
porta da sua casa, podendo ser carros particulares ou viaturas policiais. E,
ainda, a dita testemunha confirmou que o denunciado, Sgt PM Brandão,
disse a ela que já teria alertado a Cb PM Alessandra sobre as ameaças.
À síntese, considera-se falsa a afirmação do apelado de
desconhecer a suposta ameaça realizada pelo soldado PM Gustavo
Deivid Paiva Mattedi em desfavor da cabo PM Alessandra Pazini Peron e
de haver tomado conhecimento do fato em virtude da abertura de
inquérito policial militar para apuração da suposta ameaça.
Bem. Na configuração do crime de falso testemunho, o douto
desembargador do egrégio Tribunal de Justiça de São Paulo e renomado
autor Guilherme de Sousa Nucci1, ao discorrer sobre os aspectos
objetivos, destaca os verbos integrantes do tipo e a relevância do teor do
fato falseado, in verbis:
(...omissis...) As condutas possíveis são as seguintes: fazer afirmação
falsa (mentir ou narrar fato não correspondente à verdade); negar a
verdade (não reconhecer a existência de algo verdadeiro ou
recusar-se a admitir a realidade); calar a verdade (silenciar ou não
contar a realidade dos fatos). A diferença fundamental entre negar
a verdade e calar a verdade é que a primeira conduta leva a
pessoa a contraria a verdade, embora sem afirmação (ex.:
indagado pelo juiz se presenciou o acidente, como outras
testemunhas afirmaram ter ocorrido, o sujeito nega), enquanto a
segunda conduta faz com que a pessoa se recuse a responder
(ex. o magistrado faz perguntas à testemunha, que fica em
1
NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Militar Comentado. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,
2013.
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TRIBUNAL DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
silêncio ou fala que não responderá). É essencial que o fato falso
(afirmado, negado ou silenciado) seja juridicamente relevante, isto é,
de alguma forma seja levado em consideração pelo delegado ou juiz
para qualquer finalidade útil ao inquérito ou ao processo, pois, do
contrário, tratar-se-ia de autêntica hipótese de crime impossível. Se o
sujeito afirma fato falso, mas absolutamente irrelevante para o
deslinde da causa, por ter-se válido de meio absolutamente ineficaz,
não tem qualquer possibilidade de lesar o bem jurídico protegido, que
é a escorreita administração da Justiça. Defendendo ser
indispensável a potencialidade lesiva à administração da justiça: STF:
HC 69.047-RJ, 1ª T., rel. Sepúlveda Pertence, 10.03.1992, v.u., DJ
24.04.1992, p. 5.377. (...omissis...)
Para se configurar o delito de falso testemunho, teríamos que ter
como verdadeiro o fato de a ameaça ter sido realizada pelo Sd PM
Mattedi e, ainda, ter o apelado dito à Cb PM Alessandra Pazini Peron
sobre tal ameaça para que, nos autos do Inquérito Policial Militar, o
apelado tenha-se calado sobre a verdade.
Dos autos, não foi possível afirmar que o Sd PM Gustavo Deivid
Paiva Mattedi tenha ameaçado a Cb PM Alessandra Pazini Peron por ela
estar indo até a sua residência ou próximo dela. Mesmo porque o relato é
de que o Sd PM estava dizendo palavras genéricas, direcionadas ao
grupo ou a qualquer um.
Sendo assim, não foi provado que o fato sobre o qual o apelado
supostamente teria negado a verdade – se presenciou ou não a suposta
ameaça – tenha de fato acontecido.
Assim, mostra-se coerente o fundamento da absolvição realizada
pelo egrégio Conselho Permanente de Justiça porquanto a prova
testemunhal não foi capaz de formar uma convicção segura e levar ao
grau de certeza exigido para uma condenação criminal em razão de o Sd
PM Gustavo Deivid Paiva Mattedi ter ameaçado a ofendida Cb PM
Alessandra Pazini Peron. E, de igual forma, não há convicção de que
tenha sido o apelado a pessoa quem disse à cabo PM Alessandra sobre a
existência da ameaça por a ter ouvido diretamente do Sd PM Mattedi ou
se ela estava reproduzindo falas ouvidas no pátio do quartel.
As testemunhas dão conta de que havia conversas e falas soltas no
pátio do quartel, o que nos leva ao ditado segundo o qual “quem conta um
conto, aumenta um ponto” e, talvez, esse ponto possa ter levado a todo
esse processo judicial.
Nesse sentido, seguem as declarações das testemunhas arroladas
pela acusação:
Cabo PM Diego Pires Teixeira, página 4/5 do Evento 1 – OUT3, dos
autos do processo de n. 20009473220199130002:
(...) DISSE QUE: no dia 14/03/2019, estava escalado em uma
operação de cumprimento de mandado de busca e apreensão/prisão,
juntamente com a CB Alessandra e o 3º Sgt Miranda/35ª Cia PM; que
durante o desenrolar dos trabalhos foi necessário acionar o COPOM,
via telefone, com a finalidade de consultas de veículos, o que foi feito
pelo Cb PM Alessandra que se encontrava no interior da garagem do
imóvel alvo; que enquanto a referida militar fazia as pesquisas, o
declarante aguardava, em via pública, o guincho para remoção de
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uma motocicleta; que em dado momento a Cb Alessandra se
aproximou do declarante nervosa, aparentando estar bastante
preocupada; neste momento o declarante ao notar a mudança de
comportamento da Cb Alessandra perguntou-se o motivo da
preocupação, tendo como resposta desta que ao conversar, via
telefone com o Sgt Brandão, o qual se encontrava escalado no
COPOM naquele dia e hora, este teria lhe alertado que o Sd Mattedi
estaria comentando no pátio do 21º BPM que iria receber a bala
quem estivesse rondando a casa dele; que segundo a Cb Alessandra
o fato ensejador da possível ameaça poderia ser a visita que esta fez,
juntamente com o Ten Emerson, à casa do Sd Mattedi a fim de visitar
a esposa deste, Cb PM Carina, a qual se encontra de licença médica.
Perguntado, informou o declarante que o 3º Sgt PM Miranda não
presenciou a sua conversa com a Cb Alessandra referente ao fato em
questão, uma vez que naquele momento o 3º Sgt PM Miranda se
encontrava no interior do imóvel com autora presa em flagrante e
advogado desta. Perguntado, respondeu o declarante que não
presenciou e nem tomou conhecimento de ameaças feitas por parte
do Sd Mattedi a qualquer militar, com exceção da conversa que teve
com a Cb Alessandra no dia 14/03/2019. Perguntado, respondeu o
declarante que após o ocorrido com a Cb PM Alessandra, no dia
14/03/2019, não conversou com nenhum outro militar assunto
referente ao objeto desta apuração.
3º Sgt PM Fernando Balbino Pastor, página 24/33 do Evento 1 –
OUT3, dos autos do processo de n. 20009473220199130002:
(...) PERGUNTADO acerca dos fatos constantes da Portaria n.
104778/2019/IPM/210 BPM, que lhe foi lida, DISSE: que não tem
conhecimento de possível alerta feito pelo Sgt PM Brandão à Cb
PM Alessandra sobre ameaça feita pelo Sd PM Mattedi; que se
recorda de ter, em uma quarta feira, após retornar do almoço, por
volta das 13h15min, ter encontrado com o Sd PM Mattedi próximo
ao bebedouro que fica em baixo do pavilhão do COPOM/210
BPM, e que nesta oportunidade ao perceber que o referido militar
se encontrava aborrecido, o declarante perguntou-lhe o motivo,
tendo como resposta deste que o aborrecimento se devia a
passagem de um veículo na rua onde reside; que o Sd PM
Mattedi não entrou em detalhes a este respeito, tampouco o
declarante estendeu o assunto; que o declarante se recorda de
ter perguntado ao Sd Mattedi se este estava tomando o remédio
direito; que logo em seguida o declarante saiu da presença do Sd
PM Mattedi e foi trocar de roupas, pois o declarante trabalha na obra
do estande de tiro do 21° BPM; que durante o deslocamento pelo
pátio do 21° BPM em direção ao estande de tiro, isto após trocar de
roupas, o declarante se recorda de ter visto o Sd PM Mattedi
desabafando com o 2o Sgt Gelson. PERGUNTADO, respondeu que
quanto ao encontro que teve com o Sd PM Mattedi, isto próximo ao
bebedouro, não sabe precisar a data que ocorreu, com tudo pode
afirmar que o referido encontro ocorreu bem antes da operação
policial desencadeada do dia 14/03/2019, em Ubá/MG.
PERGUNTADO, respondeu que em nenhum momento conversou
com o Sgt PM Brandão sobre as possíveis ameaças feitas pelo
Sd PM Mattedi à Cb Alessandra. PERGUNTADO, respondeu que
após o encontro ocorrido com o Sd PM Mattedi, isto próximo ao
bebedouro, não mais conversou com este militar assunto extra
serviço.
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TRIBUNAL DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
Em juízo, ambas as testemunhas reiteraram as declarações no
sentido de não terem presenciado a possível ameaça feita pelo Sd PM
Mattedi à Cb PM Alessandra, bem como a conversa entre a Cb PM
Alessandra e o Sgt PM Brandão, ora apelado (3º Sgt PM Fernando
Balbino Pastor, no Evento 182 – VÍDEO5 – AJME, e Cb PM Diego Pires
Teixeira, Evento 182 – VÍDEO6 – AJME). Restou a palavra da Cb contra a
palavra do Sgt PM Brandão, ora apelado. Nesse último caso, não há
testemunhas que possam assegurar a mudança de declarações do
apelado porque ninguém presenciou a conversa entre eles.
Ademais, não foi um testemunho do Sgt PM Brandão que deu início
ao procedimento investigativo em desfavor do Sd PM Mattedi.
E, nos autos da ação originária, essa verdade da “ameaça” não foi
apurada, tendo sido a conclusão de todo o processado a insuficiência de
provas no sentido da ocorrência do delito de ameaça, bem como do falso
testemunho.
Não vejo como divergir do posicionamento adotado pelo egrégio
Conselho Permanente de Justiça em relação ao Sgt Brandão, ora
apelado, sob pena de se cometer uma injustiça porquanto aqui vigora a
dúvida. A dúvida só poderá ser contada em favor do réu.
Nesse sentido, trago à colação alguns posicionamentos já adotados
pelo egrégio Tribunal de Justiça de Minas Gerais, in verbis:
EMENTA: CRIME DE TORTURA - PRESOS EM PENITENCIÁRIA
REGIONAL - ACUSAÇÃO DE SEREM SUBMETIDOS A
SOFRIMENTO FÍSICO OU MENTAL POR INTERMÉDIO DE ATOS
NÃO PREVISTO EM LEI OU NÃO RESULTANTE DE MEDIDA
LEGAL - MATERIALIDADE E AUTORIA DELITIVAS - PROVA
DUVIDOSA - ABSOLVIÇÃO MANTIDA.
- Mantém-se a absolvição dos réus, diante da insuficiência do
conjunto probatório sobre a autoria e materialidade delitivas a
configurarem o crime de tortura, previsto nos artigos 1º. Inciso II, §§
1º e 4º, inciso I, da Lei 9.455/97.
- Pelo princípio da confiança no Juiz da causa, deve-se valorizar o
convencimento do juiz primevo quem, por estar mais próximo das
partes e dos fatos, detém maior condição de avaliar as provas
colhidas na instrução criminal.
(TJMG - Apelação Criminal 1.0443.14.001114-1/001, Relator(a):
Des.(a) Luzia Divina de Paula Peixoto , 1ª CÂMARA CRIMINAL,
julgamento em 15/06/2022, publicação da súmula em 22/06/2022).
EMENTA: APELAÇÃO CRIMINAL - CRIME DE TORTURA -
RECURSO DEFENSIVO - INTEMPESTIVIDADE - APELO NÃO
CONHECIDO. RECURSO MINISTERIAL - CONDENAÇÃO -
INVIABILIDADE - INSUFICIÊNCIA PROVATÓRIA - SENTENÇA
MANTIDA. RECURSO DEFENSIVO NÃO CONHECIDO E RECURSO
MINISTERIAL NÃO PROVIDO.
1. Deve-se considerar intempestivo o recurso aviado fora do prazo de
cinco dias previsto no art. 593 do CPP.
2. Se as provas constantes dos autos não conduzem à certeza de
que os agentes praticaram a conduta delituosa, deve ser mantida a
sentença absolutória.
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TRIBUNAL DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
(TJMG - Apelação Criminal 1.0071.08.037481-3/001, Relator(a):
Des.(a) Júlio César Lorens, 5ª CÂMARA CRIMINAL, julgamento em
24/08/2021, publicação da súmula em 01/09/2021).
EMENTA: APELAÇÃO CRIMINAL - TORTURA - RECURSO
MINISTERIAL - CONDENAÇÃO - IMPOSSIBILIDADE -
INSUFICIÊNCIA DO CONJUNTO PROBATÓRIO - MANUTENÇÃO
DO DESFECHO ABSOLUTÓRIO.
- O pleito condenatório ministerial não deve ser acolhido quando as
provas produzidas na fase do contraditório são insuficientes para
afastar o estado de inocência que prevalece no ordenamento jurídico
pátrio, por força do artigo 5º, inciso LVII, da Constituição da
República. (TJMG - Apelação Criminal 1.0352.10.006057-8/001,
Relator(a): Des.(a) Maurício Pinto Ferreira, 8ª CÂMARA CRIMINAL,
julgamento em 08/04/2021, publicação da súmula em 14/04/2021)
Pelas razões acima expostas, nego provimento ao recurso do
Ministério Público e mantenho a absolvição do 3º Sgt PM Alex da Silva
Brandão, nos termos do art. 439, letra “e”, do Código de Processo Penal
Militar.
É como voto.
DESEMBARGADOR SÓCRATES EDGARD DOS ANJOS,
REVISOR
Acompanho o voto do eminente desembargador relator.
DESEMBARGADOR JAMES FERREIRA SANTOS
Acompanho as razões e o voto do eminente relator.
Belo Horizonte, sessão ordinária presencial de julgamento do
Tribunal de Justiça Militar do Estado de Minas Gerais, aos 22 de
setembro de 2022.
Desembargador Jadir Silva
Relator
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