Modernismo - Captulo I
Modernismo - Captulo I
o Rio Grande do Norte, os anos 1920 foram marcados por diversas mudanças
na vida política, na economia, nas relações sociais, na cultura e na literatura.
Em Natal, capital do estado, a produção cultural foi atingida por essas
mudanças, resultando do processo uma diminuição da relação de dependência quase
exclusiva que existia, até então, entre a esfera cultural e a esfera do poder político local.
Como se verá, ao longo de toda a década permaneceram as estreitas ligações existentes
entre os intelectuais provincianos e os representantes do poder político e econômico, em
circunstâncias que garantiram a continuidade do patrocínio de boa parte da vida literária.
No entanto, surgiram alternativas de estímulo à produção literária, sem as quais o
movimento modernista dificilmente teria chagado a Natal naqueles anos.
No início do século, governava o estado um grupo oligárquico (Albuquerque
Maranhão) representante da economia do Nordeste açucareiro. Por dentro do poder
2
O período entre a virada do século XIX e os dois decênios iniciais do século XX é estudado por Tarcísio
Gurgel dos Santos (2009) como uma manifestação tardia da Belle Époque, de que foram protagonistas as
personagens citadas neste parágrafo.
Mas foi Ferreira Itajubá o poeta que melhor simbolizou a figura do boêmio, do seresteiro,
podendo, por isso, ser considerado como o mais popular poeta natalense de todos os
tempos3. O autor de Terra Natal mereceu a seguinte consideração de João Ribeiro (1926):
[...]
Luís Cascudo, crítico nortista, chamou a atenção para esse poeta que morreu
estragado de doença ruim; foi vagabundo como Verlaine, desordeiro como
Camões, jornalista boêmio, ébrio e desgraçado, sem nenhum tino para colocar
a vida no seguro burocrático, chorar misérias por abstração ou cantos às
florestas, os rios e o mar dentro de casa, à luz da lâmpada elétrica.
Ferreira Itajubá (que excelente nome para o Oswald!) escreveu o seu poema
lírico do retirante que troca a jangada pelas gaiolas do inferno verde, à busca
do ouro negro dos seringais. E volta desenganado.
É realmente um precursor como Whitman dos poetas novos: natural, ingênuo,
imperfeito, mas profundamente inspirado nas belezas da terra.
Eu quisera, pois, que se fizesse alguma justiça retrospectiva a esse poeta que
não quis repetir os lugares comuns da mitologia arcádica nem o pedantismo
da chamada literatura sertaneja, nem a ênfase do mendubi torrado na Paulicéa
[...].
(CASCUDO, 1965, p.
119) do artesanato local; juntamente com o seu irmão, Eloy de Souza, divulgou
3
Faz-se necessário ponderar que o poeta não chegou a publicar livro enquanto vivo, diferentemente de Auta
de Souza, cujo Horto (1900) pode ser considerado o livro mais popular do estado, com seis edições até o
ano de 2019.
cantadores sertanejos entre a elite intelectual da cidade, consagrando Fabião das
Queimadas, ex-escravo e tocador de rabeca:
[...] Henrique e Eloy eram apaixonados pela cultura popular, pura, simples,
desprezada, persistente. Deputado Federal, Eloy de Souza, numa conferência
em Natal, no próprio Palácio do Governo, na noite de 20 de fevereiro de 1909,
declamava versos de Fabião das Queimadas e de Manuel Tavares, cantadores
negros, analfabetos, desconhecidos. Uma surpreendente ousadia em 1909.
(CASCUDO, 1965, p. 120).
Como se vê, sabia-se da existência de vozes poéticas, mas tinha-se como certa a
não existência de uma tradição que efetivasse a circulação da produção literária em livros,
pelo menos entre uma elite letrada.
As considerações feitas acima, ao serem incluídas no contexto dos anos 1920,
devem ser acrescidas de observações gerais sobre as mudanças ocorridas na realidade em
questão. Com o enfraquecimento político e econômico da oligarquia açucareira, teve
início o domínio político do grupo que representava a economia algodoeiro-pecuária. A
oligarquia Albuquerque-Maranhão perdeu o poder e iniciou-se um novo período para a
história do estado e, particularmente, para a cidade do Natal, que começou a apresentar
algumas características de vida urbana. Nesse período, destacaram-se os governos de José
Augusto (1924-1928) e de Juvenal Lamartine (1928-1930). Os dois, oriundos do sertão
seridoense, construíram estradas e, com isso, ampliaram a infraestrutura para a exportação
do algodão, o que permitiu, ao mesmo tempo, a abertura de uma via de comunicação entre
a capital e o interior do estado (até então, Natal era praticamente isolada do interior).
Segundo Silva (1978), Oliveira (1985) e Silva; Bezerra; Azevedo (1986), a época
segunda metade da década mencionada é marcada pelos indícios de uma política de
planejamento, do governo federal, como forma de intervenção do Estado na economia do
Nordeste. A modernização chegava com as rodovias, as comunicações aéreas (foram
das distâncias, apenas, o que eles têm realizado, mas o derramamento de uma nova
A valorização da cultura sertaneja, em si, não teria uma maior importância se não
fosse a existência de outros fatos que, radicalmente opostos a essa cultura, geravam
contradições importantes para o contexto histórico da época: contracenando com a
presença marcante de elementos sertanejos na provinciana cidade do Natal, os elementos
da modernização chegavam de todas as formas, trazendo materializada a cultura da
modernidade. Essa cultura era oposta, vale lembrar, não apenas à cultura sertaneja. Era,
4
Eloy Castriciano de Souza (1873-1959) é autor do livro O calvário das secas (Imprensa Oficial/RN, 1938),
além de publicações póstumas, relacionadas ao tema: Cartas de um desconhecido (Natal: Fundação José
Augusto, 1969), Cartas de um sertanejo (Brasília: Gráfica do Senado, 1983) e Economia das secas (Natal:
UFRN, 1987).
5
Sobre o papel das revistas literárias no processo de renovação da cultura local, nos anos de 1920, cf. os
estudos de Maria Suely da Costa, O canto de Cigarra e outros cantos: revistas literárias do Rio Grande do
Norte nos anos 20 (Dissertação de mestrado, PPgEL/UFRN, 2000) e Produção em revista: representação
do moderno e do regional na experiência potiguar anos 1920. (Tese de Doutorado, PPgEL/UFRN, 2008).
igualmente, contraditória em relação a toda uma estrutura social enraizada historicamente
e com base no poder das oligarquias locais, guardiães do tradicionalismo e do
conservadorismo.
Pode-se afirmar que os novos elementos culturais, relacionados à modernidade,
chegaram a Natal reforçados por dois fatores que muito contribuíram para as mudanças
ocorridas: a intensificação do comércio do algodão com o mercado inglês e a inauguração
da aviação comercial que, facilitada pela posição geográfica da cidade, foi a grande
novidade na pacata Natal dos anos 1920. Com isso, dois elementos entraram para as
páginas principais da imprensa de então: automóveis e aviões.
Adherbal de
Propagandas que tomavam quase uma página de jornal usavam expressões como:
aleatoriam -gerimú
Polyantok (1924):
limitação, que faz englobá-lo ironicamente com o atraso em relação ao qual ele é
Diante desse quadro, restam ainda alguns dados da vida literária que podem ajudar
no sentido de compor o aspecto cultural da época: trata-se da divulgação, nos jornais, de
novidades editoriais lançadas na província, e fora dela, como também notícias e artigos,
crônicas etc., que dão alguma medida da repercussão, em Natal, do que estava
acontecendo no mundo intelectual.
Já a partir de 1920, começou a aparecer a divulgação do material que, de certo
modo, trouxe para a província as notícias do movimento de renovação literária. Do
Recife, vinha o informe sobre a publicação de Tentames, de Joaquim Inojosa, e de
Senhora de Engenho, de Mário Sette. Em maio de 1920, A República publicou um
comentário elogioso sobre a revista pernambucana Vida Moderna [...] temos à mão
vários exemplares da Vida Moderna, brilhante revista que circula no Recife sob a direção
de um grupo de moços p (VIDA
Moderna, 1920).
Eram constantes os elogios antecipados ao livro Alma Patrícia (1921), de Câmara
Cascudo, que estava no prelo e seria lançado no ano seguinte com enorme sucesso. Nele,
Câmara Cascudo deu os primeiros passos para o estudo das manifestações literárias locais
e introduziu a crítica literária em forma de livro na província: estudou dezoito escritores
e poetas norte-rio-grandenses ou radicados no estado.
Durante toda a década, a realidade local foi pesquisada e procurou-se, de alguma
forma, acompanhar as manifestações culturais do Sul do país. Neste sentido, surgiu todo
um movimento no intuito de incluir na história do estado poetas e escritores que dariam
um estatuto literário à província que se modernizava. O produto desse movimento se
expressou na Revista do Centro Polymathico6, nos livros Alma Patrícia e Joio (ambos de
Câmara Cascudo), e na coletânea Poetas Rio-grandenses do Norte7. Além dessas
publicações, destacou- -
forma de paródia a biografia e a obra literária dos principais poetas e literatos locais, num
Cigarra foi a grande novidade no meio intelectual. Essa revista circulou entre os anos de
1928 e 1929, tornando-se um excelente material para estudo das relações entre a estrutura
do poder local e as manifestações artísticas. Apesar da fama da revista, o que mais chama
a atenção do leitor, possivelmente, não é a colaboração literária que existe nela, e sim o
trabalho de vanguarda do desenhista Erasmo Xavier8. Outro produto do movimento de
documentação das manifestações literárias da província foi a publicação póstuma das
obras dos poetas mais populares da Natal: Versos, de Lourival Açucena (reunidos por
Câmara Cascudo, publicado em homenagem ao primeiro centenário de nascimento do
poeta, pelo Instituto Histórico e Geográfico, em 1927), e Terra Natal, de Ferreira Itajubá,
também em 1927.
Outras notícias editoriais também se destacaram, no contexto local. Jardim
Tropical, de Othoniel Menezes, foi publicado em 1923 e divulgado antecipadamente já a
no Teatro Carlos Gomes. Fogo Sagrado, de Jayme dos Guimarães Wanderley, foi
-
Governo (conforme nota publicada em A República, 22 fev 1922), obteve grande sucesso
6
Publicação trimestral que circulou em Natal entre os anos de 1920 e 1922. A resenha de n. 05 agosto
1921 apresenta o sumário com os seguintes colaboradores, entre outros: Câmara Cascudo (diretor da
publicação), Palmyra Wanderley, Raul Bopp, Tasso da Silveira e Jorge Fernandes. Cf. A República, 12 ago
1921; e Manoel Rodrigues de Melo, Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte, 1987, p. 208-209.
7
A República deu um destaque especial para esse livro, a partir do ano de 1920. A coletânea compreendia
108 poetas nascidos em território potiguar, 296 páginas, e seguia a evolução entre 1809 e 1900. O registro
bibliográfico do livro aconteceu em A República, no dia 26 de setembro de 1922. Ezequiel Wanderley
(1872-
Também A Imprensa deu um destaque especial para a revista Era Nova, da Paraíba.
Em maio de 1923, esteve em Natal Francisco Coutinho Filho, como divulgador da
referida revista, a qual continuou propagada nos anos seguintes, na imprensa local.
9
A República, 11 dez 1927.
artísticas pelo interior do estado. Surgiram, em 1925, o Instituto de Letras do Atheneu e
a Escola de Belas Artes10.
Ainda outros fatos alteraram um pouco o cotidiano da vida cultural provinciana: o
cinema passou a fazer parte do dia a dia de Natal, trazendo como novidade a onda de
cabeças. Cano de Ferro. O jogo fechado. A ficha na mão. História de Perú etc.
A rapaziada desta capital deve estar satisfeita, pois que hoje se realiza com o
concurso do grande jazz-band um grandioso baile neste club, com danças
modernas e várias atrações. Será vedada a entrada a quem não se achar
conveniente.11
10
Na década seguinte, em 1936, foi fundada a Academia Norte-rio-grandense de Letras, de acordo com o
estudo de Carlos Roberto de Miranda Gomes, As confrarias e o tempo (Natal: Sebo Vermelho, 2018). Muito
provavelmente, o empenho dos intelectuais no sentido de institucionalizar as representações literárias
culminou na criação dessa confraria após uma década.
11
-Royal Cinema, além de uma exibição
de Jazz mania.
cultural desenvolvida por Henrique Castriciano e de modo mais espontâneo nas
atividades da vida literária e social dos intelectuais locais, indiscriminadamente.
No teatro, por exemplo, eram significativas as apresentações de revistas de
costumes regionais. As peças escritas por autores locais, como Ezequiel Wanderley e
Jorge Fernandes, eram geralmente representadas pelas companhias teatrais que visitavam
a capital
cidades do interior. Outro ponto forte da cultura regional era a cozinha, presença marcante
em manifestações comemorativas, em homenagem a algum visitante ilustre, em festas
artísticas, em tertúlias e nos cafés onde se reunia a intelectualidade. Nas tertúlias,
principalmente as que aconteciam no ambiente boêmio dos cafés, era comum a presença
de cantadores e de contadores de histórias de cangaceiros, de modo que cronistas como
Guimarães (1952) e Wanderley (1984) chegam a citar nomes dos mais famosos.
Sobre o movimento regionalista que se organizou em Recife, os jornais natalenses
oficialização do movimento, foram noticiados alguns fatos que dariam conta da existência
de esforços na formação e divulgação do regionalismo nordestino a partir da capital
pernambucana12.
Em 30 de janeiro de 1924, A República noticiou que havia recebido a Revista do
Norte
destacando-se uns belos versos Melancolia -
Entre 09 de março e 02 de abril do mesmo ano, A Imprensa publicou uma série de
dois meses na capital pernambucana. Nos artigos, Câmara Cascudo tece elogios ao
desenhista Joaquim do Rego Monteiro, alude à amizade com Gilberto Freyre e elogia o
Carneiro. Sobre os três últimos, avalia o modo como retratam a paisagem pernambucana:
12
Com marcante identidade regional, os irmãos Henrique Castriciano e Eloy de Souza foram colaboradores
do Livro do Nordeste, organizado por Gilberto Freyre, cada um com um capítulo.
E a paisagem pernambucana, fiel e linda em Mário Sette, decisiva e sóbria em
Lucilo Varejão, tranquila e doce em Humberto Carneiro, expressa faces
naturais do seu encanto omnimodu e eterno.
(CASCUDO, 1924c)
[...] exercer viva ação intelectual e social uma vez congregados em seu seio os
elementos mais representativos da Cultura do Nordeste. Anima-o largo
patriotismo nordestino, que se exprime na defesa das nossas cousas e das
nossas tradições, no aproveitamento delas como motivo de arte, no
desenvolvimento dos interesses do Nordeste, região cujas raízes naturais e
históricas se entrelaçam e cujos destinos se confundem num só.
Cascudo, injuriando-o:
[...] O que mais admira é ter sido esse jovem catalogado na Arte Nova do sr.
Joaquim Inojosa como um dos adeptos do futurismo, no Rio Grande do Norte.
Se há uma cousa incompatível é o estudo do passado, como acaba de fazer o
sr. Luís da Câmara Cascudo, dentro das normas do bom senso refreado pelas
datas e pelos fatos históricos, com as rédeas soltas desse futurismo
anarquisador, a quem o confrade da Academia pernambucana classificou de
bolchevismo das letras.
Histórias que o tempo leva bem valeu por uma afirmação do escritor criterioso
Três outras notícias foram selecionadas para efeito de uma possível relação com o
movimento regionalista do Nordeste e/ou com a propagação do movimento modernista
mesmo ano, A
República
embaixada paraibana de estudantes que veio cumprimentar o Presidente José Augusto
pela passagem do seu aniversário. Em meados de 1926, porém, já estivera em Natal outra
Segundo Manoel Rodrigues de Melo (1970, p. 160-161), foi preciso que ocorresse
[...] um novo ato, um novo gesto, desta vez partindo de um homem com ares de profeta,
[...] José Pereira Graça Aranha, em 1924, para sacudir os nervos dos intelectuais norte-
rio-
de Noiré e admirador de Tobias Barreto13, Henrique Castriciano fez no artigo uma réplica
Moderno Estética da Vida,
ressaltando o papel de Graça Aranha como teórico da estética do Monismo sem, contudo,
modernista.
A notícia sobre o ato de Graça Aranha chegou a Natal, contudo, por meio de Câmara
Cascudo, sob o título Na Imortal Companhia
13
(CASCUDO, 1924a)
Em dois outros artigos, Câmara Cascudo voltou ao assunto, desta vez criticando a
classificando-
[...] O primeiro dever de uma literatura tal qual deseja o sr. Graça Aranha é
um país-maria-vai-te-com-as-outras.
Reformas? Em quê? A criação seja espontânea. Fora o mestre literário! Fora
o dogma estético. Morra a igrejinha. Abaixo o sino campanudo dos adjetivos
álacres. E só, meus amigos. Cair sem pontuação é um desfrute. Um período
sem ponto final é um rosto sem olhos.
O modernismo, o verdadeiro como eu tenho feito, é ser independente; nunca
achei livro bem escrito porque Ruy Barbosa achava. Nunca encontrei graça
nos lábios convencionalmente alegres.
(CASCUDO, 1924d)
Ainda em 1924, no final do ano, mais uma vez Graça Aranha apareceu no noticiário
local, no seguinte trecho:
Como se pode notar, a partir da leitura dos trechos de artigos citados acima, o
fundamental no que se refere à influência de Graça Aranha para a divulgação do
movimento modernista, na província, foi mais o ato em si de ruptura com a Academia do
que o conteúdo veiculado pelas suas ideias que, aliás, foram recebidas de forma crítica
Aranha deva-se
ao fato de, já naquele ano, Câmara Cascudo haver travado conhecimento com Mário de
Andrade, e a julgar pelo tom de admiração que se percebe no elogio feito ao escritor
paulista em artigo O sr. Mário de Andrade divulgado um mês antes da notícia sobre
Graça Aranha: O sr. Mário de Andrade é o homem-busca-pé, o foguete, o ele mesmo.
Todos nós somos (desde o exmo. sr. Visconde de Porto Seguro) os outros . (CASCUDO,
1924f) A Imprensa publicou a seguinte
nota:
14
Com o envio do artigo citado ao amigo paulista, tem início uma longa troca de missivas entre os dois
intelectuais. Cf. a correspondência organizada por Marcos Antonio de Moraes, Câmara Cascudo e Mário
de Andrade: cartas 1924-1944 (São Paulo: Global, 2010), bem como o estudo de Edna Maria Rangel de Sá
Gomes, Correspondências: leitura das cartas trocadas entre Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade.
(Dissertação de Mestrado, PPgEL/ UFRN, 1999).
Ainda com relação a notícias veiculadas no ano de 1924, foi registrada uma pequena
Palavra de honra.
[...] o que devemos fazer é aplaudir o sr. Joaquim Inojosa. Arte não é capela
de finados. Cada um escreva à vontade sem querer-se constituir mestre e
pontífice. Arte não é pátria, é infinito. Nela podem viver e dominar o Rei
Salomão e o escravo, cabe muita gente.
No Rio Grande do Norte coube-me os galões do generalato. Vindo de tais
mãos dadivosas não recuso. Mas, ponho restrições. Não sei sob qual bandeira
me bato e ajo.
Até aqui a única teoria literária que me seduz é a minha. Há a compensação
de ser eu só. E já é muito.
(CASCUDO, 1924e)
Ainda segundo o mesmo autor, Câmara Cascudo enviou duas cartas a Joaquim Inojosa15,
uma felicitando- -lhe, porém, que avançasse na
15
Sobre a correspondência entre os dois nordestinos, Cf. os estudos:
Arquivos de correspondências: carta e vida literária de escritores do Rio Grande do Norte, organizado por
Humberto Hermenegildo de Araújo e José Luiz Ferreira. (Natal: EDUFRN, 2015, p. 85-109. Disponível
em
[Link]
Cartas de escritores
Hermenegildo de Araújo (Natal: EDUFRN, 2017. Disponível em
[Link]
Eu de mim discordo com a prioridade do Graça no movimento. Já V. estava
fazendo reação. Os paulistas tinham feito a Semana de Arte Moderna. Havia
a Paulicéia do Mário... O Graça tornou o movimento coletivo. Não acha V.?
(AZEVÊDO, 1984, p. 61)
Além desse fato principal, não foram registradas mais notícias sobre o modernismo,
no ano de 1924. No ano seguinte, apareceram dois artigos de polêmica sobre o futurismo.
O primeiro, assinado por LUCANO16
que não se trata de uma nova escola poética e sim de um movimento mais amplo e
indefinido, que atingiria também a prosa, a pintura, a música, a arquitetura e a fotografia.
O artigo é um ensejo para atacar Graça Aranha, que é chamado pejorativamente de
focada:
O sr. Ronald de Carvalho, por exemplo, de quem nunca mais se ouviu falar
neste gênero. O sr. Oswaldo Orico, novel poeta paraense, que estreou com a
16
A República, 15 ago 1925*.
Com que, então só a sensibilidade artística do poeta se deve enclausurar,
escravizar, sujeitar a tantas regrinhas, para reduzir-se a uma mera alvenaria
que produz tijolos absolutamente uniformes e iguais?
É inconcebível.
Por tudo isto, estou com o pensamento moderno, e agrada-me ter a certeza do
que se lhes impõe. Próprio dos que pensam é ter o ideal. É claro, pois, que não
estou mal encaminhado.
total de seis notas. No mês de maio, apareceu a seguinte defesa de Marinetti, assinada por
Durval (1926)17:
p.173-
1926, com cinc
bá
ao artigo de Câmara Cascudo anunciado em A República, mas não é confirmada (pela
transcrição do sumário da revista publicado no Diário de Natal de 16 de janeiro de 1926)
a inclusão de poemas de Mário de Andrade em Letras Novas.
No que se refere ao ano de 1927, os fatos mais importantes foram a visita de Mário
de Andrade a Natal e a publicação do Livro de poemas de Jorge Fernandes, fatos que
serão comentados no capítulo seguinte deste trabalho, por se tratar de assunto mais ligado
aos papéis desempenhados por Câmara Cascudo e por Jorge Fernandes, respectivamente,
no movimento cultural de Natal, nos anos 1920.
Depois dos fatos relatados, somente no final da década, em 1929, apareceram novas
notícias sobre o modernismo. No dia primeiro de julho daquele ano, saiu uma edição
especial de A República, em comemoração ao aniversário do jornal. Parece ter sido uma
17
A República, 30 maio 1926*.
edição histórica e importante para as manifestações modernistas no estado, o que
infelizmente não pode ser comprovado por esta pesquisa, uma vez que a edição de A
República daquela data estava extraviada no momento da coleta de dados, na coleção
existente no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. No entanto, um
artigo publicado a 31 de julho do mesmo ano, transcrito do Diário de São Paulo, ao tecer
comentários elogiosos à referida edição e ao governo Juvenal Lamartine (que patrocinou
o fat
DE..., 1929).
Ainda em julho, foi registrada a seguinte nota, sobre a pintora Tarsila do Amaral:
A República. De Câmara
poeta
Como se percebe, uma pesquisa mais aprofundada poderia dar conta de um material
mais vasto, com outros elementos e em outras fontes. Mas, apesar da limitação desta
pesquisa, é possível afirmar que existia um movimento cultural, na província, capaz de
responder às grandes questões colocadas para a intelectualidade naquele momento. Assim
como, também, pode-se afirmar que as duas grandes vertentes literárias oponentes e/ou
complementares, existentes no Nordeste brasileiro, tiveram manifestação no Rio Grande
do Norte. No entanto, foi a vertente modernista a que encontrou nesse estado a
possibilidade de se manifestar de forma mais organizada, devido ao surgimento da figura
de Câmara Cascudo, numa conjuntura diferente daquela anterior, que era dominada pela
oligarquia representante da economia açucareira e que, certamente, seria mais propícia ao
fortalecimento da vertente regionalista.
Não obstante, fica ainda difícil localizar com clareza a configuração dos dois
movimentos, o modernismo e o regionalismo, com limites claros no ambiente cultural do
Rio Grande do Norte. Por enquanto, é possível dizer que havia simpatias em relação a
ambos os movimentos, principalmente por parte de Luís da Câmara Cascudo, o que não
significa dizer que ele, Câmara Cascudo, não fosse o líder e o representante do ideário
modernista em Natal18.
18
O estudo de Francisco Firmino Sales Neto, Palavras que silenciam: Câmara Cascudo e o regionalismo-
tradicionalista nordestino (João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2008, p. 161) conclui, no entanto, que
Modernismo: anos 20 no Rio Grande do Norte relegou o regionalismo à informação secundária, às vezes,
tornou-
movimentos, cf. também o estudo de José Luiz Ferreira, Gilberto Freire e Câmara Cascudo: entre a
tradição, o moderno e o regional. (Tese de Doutorado, PPgEL/UFRN, 2008).