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Modernismo - Captulo I

Na década de 1920, o Rio Grande do Norte passou por significativas transformações culturais, políticas e sociais, com a diminuição da dependência entre a cultura e o poder político local. O movimento modernista emergiu, impulsionado por figuras como Henrique Castriciano, que promoveu a literatura regional, e poetas como Ferreira Itajubá, que simbolizavam a boemia e a busca por novas expressões artísticas. A modernização da cidade, impulsionada pela economia algodoeiro-pecuária e pela aviação comercial, trouxe contradições entre a cultura sertaneja e as novas influências modernistas.

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Modernismo - Captulo I

Na década de 1920, o Rio Grande do Norte passou por significativas transformações culturais, políticas e sociais, com a diminuição da dependência entre a cultura e o poder político local. O movimento modernista emergiu, impulsionado por figuras como Henrique Castriciano, que promoveu a literatura regional, e poetas como Ferreira Itajubá, que simbolizavam a boemia e a busca por novas expressões artísticas. A modernização da cidade, impulsionada pela economia algodoeiro-pecuária e pela aviação comercial, trouxe contradições entre a cultura sertaneja e as novas influências modernistas.

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MODERNISMO

Anos 20 no Rio Grande do Norte


A renovação cultural do Rio Grande do Norte na década de 20:
repercussões do regionalismo e do modernismo

o Rio Grande do Norte, os anos 1920 foram marcados por diversas mudanças
na vida política, na economia, nas relações sociais, na cultura e na literatura.
Em Natal, capital do estado, a produção cultural foi atingida por essas
mudanças, resultando do processo uma diminuição da relação de dependência quase
exclusiva que existia, até então, entre a esfera cultural e a esfera do poder político local.
Como se verá, ao longo de toda a década permaneceram as estreitas ligações existentes
entre os intelectuais provincianos e os representantes do poder político e econômico, em
circunstâncias que garantiram a continuidade do patrocínio de boa parte da vida literária.
No entanto, surgiram alternativas de estímulo à produção literária, sem as quais o
movimento modernista dificilmente teria chagado a Natal naqueles anos.
No início do século, governava o estado um grupo oligárquico (Albuquerque
Maranhão) representante da economia do Nordeste açucareiro. Por dentro do poder

(governos de 1900-1904 e 1908-1914) e como guia intelectual Henrique Castriciano


(entre o período que vai de 1900 a 1924, foi Secretário de Governo, Procurador-Geral do
estado e Vice-Governador). No mesmo grupo político, dois outros governadores também
tiveram destacada participação na vida cultural: Tavares de Lyra, que foi historiador, e
Antônio José de Melo e Souza (1867-1955) que, além de bibliófilo, foi um dos primeiros
romancistas do estado sob o pseudônimo de Polycarpo Feitosa2.
Os dois poetas mais populares da cidade eram Lourival Açucena (1827-1907) e
Ferreira Itajubá (1877?-1912). Boêmios, esses dois poetas representaram as primeiras
manifestações literárias de algum valor na província, entre o século XIX e o início do
século XX.
Lourival Açucena, além de popular, era uma espécie de poeta oficial da cidade,
sendo inclusive amigo de Presidentes da Província. Segundo Câmara Cascudo, na
introdução do livro Versos
XVIII e durante sessenta anos governou as serenatas, as ceias e as festas íntimas de Natal.

2
O período entre a virada do século XIX e os dois decênios iniciais do século XX é estudado por Tarcísio
Gurgel dos Santos (2009) como uma manifestação tardia da Belle Époque, de que foram protagonistas as
personagens citadas neste parágrafo.
Mas foi Ferreira Itajubá o poeta que melhor simbolizou a figura do boêmio, do seresteiro,
podendo, por isso, ser considerado como o mais popular poeta natalense de todos os
tempos3. O autor de Terra Natal mereceu a seguinte consideração de João Ribeiro (1926):

[...]
Luís Cascudo, crítico nortista, chamou a atenção para esse poeta que morreu
estragado de doença ruim; foi vagabundo como Verlaine, desordeiro como
Camões, jornalista boêmio, ébrio e desgraçado, sem nenhum tino para colocar
a vida no seguro burocrático, chorar misérias por abstração ou cantos às
florestas, os rios e o mar dentro de casa, à luz da lâmpada elétrica.
Ferreira Itajubá (que excelente nome para o Oswald!) escreveu o seu poema
lírico do retirante que troca a jangada pelas gaiolas do inferno verde, à busca
do ouro negro dos seringais. E volta desenganado.
É realmente um precursor como Whitman dos poetas novos: natural, ingênuo,
imperfeito, mas profundamente inspirado nas belezas da terra.
Eu quisera, pois, que se fizesse alguma justiça retrospectiva a esse poeta que
não quis repetir os lugares comuns da mitologia arcádica nem o pedantismo
da chamada literatura sertaneja, nem a ênfase do mendubi torrado na Paulicéa
[...].

Embora os dois poetas mencionados tenham sido os mais populares, a principal


referência cultural do período de transição entre os dois séculos é, no entanto, Henrique
Castriciano (1874-1947) -rio-
um dos poucos conhecidos fora do estado (ao lado de sua irmã, também simbolista, Auta
de Souza), Henrique Castriciano conseguiu, com a sua influência junto a Alberto
Maranhão, criar uma lei estadual (n. 145, de 06.08.1900), única no Brasil, que mandava
editar livros julgados úteis à cultura local. Pode-se afirmar que foi ele o primeiro
pesquisador do Rio Grande do Norte, inaugurando o estudo de uma possível cultura
A República,
assegurando para a formação de um sistema literário da província a figura desse poeta;
promoveu, em 1914, a publicação póstuma do livro de versos Terra Natal, de Ferreira
Itajubá; reuniu informações indispensáveis para as pesquisas que se fizeram acerca da
obra e da pessoa de Nísia Floresta (1810-1885); destacou a importância de Segundo
Wanderley (1860-1909) na formação literária do estado; propagou o livro Horto, de Auta
de Souza (1876-1901) fora de Natal; ofereceu exibições folclóricas aos visitantes ilustres

(CASCUDO, 1965, p.
119) do artesanato local; juntamente com o seu irmão, Eloy de Souza, divulgou

3
Faz-se necessário ponderar que o poeta não chegou a publicar livro enquanto vivo, diferentemente de Auta
de Souza, cujo Horto (1900) pode ser considerado o livro mais popular do estado, com seis edições até o
ano de 2019.
cantadores sertanejos entre a elite intelectual da cidade, consagrando Fabião das
Queimadas, ex-escravo e tocador de rabeca:

[...] Henrique e Eloy eram apaixonados pela cultura popular, pura, simples,
desprezada, persistente. Deputado Federal, Eloy de Souza, numa conferência
em Natal, no próprio Palácio do Governo, na noite de 20 de fevereiro de 1909,
declamava versos de Fabião das Queimadas e de Manuel Tavares, cantadores
negros, analfabetos, desconhecidos. Uma surpreendente ousadia em 1909.
(CASCUDO, 1965, p. 120).

Apesar do empenho, nem mesmo o trabalho desenvolvido por Henrique Castriciano


conseguiu atingir um nível de repercussão maior entre a intelectualidade da cidade que,
nem de longe, chegaria a um padrão de efervescência cultural como o reinante, por
exemplo, em Recife, do qual Natal era periferia. O que se pode observar, no entanto, a
partir do trabalho desenvolvido por Henrique Castriciano, é que nele estavam assentadas
as bases para a formação de uma cultura regional no Rio Grande do Norte, na direção do
que seria desenvolvido nos anos 1920, em Pernambuco, por Gilberto Freyre.
Se, por um lado, a ação intelectual do primeiro pesquisador da cultura potiguar é
reveladora de indícios da germinação de um movimento regionalista no Rio Grande do
Norte, por outro lado, existiram fatos que, na mesma época, eram relacionados à grande
transformação cultural que as vanguardas artísticas anunciavam mundialmente, embora
sem repercussões amplas na região ou mesmo na província. Segundo Pereira (1985), no
dia 05 de junho de 1909, quatro meses após a publicação do Manifesto do Futurismo na
Itália, o jornal A República publicou uma tradução do texto de Marinetti, possivelmente
a primeira no Brasil. No mesmo ano, criou fama uma conferência proferida pelo jornalista
Manuel Dantas (o provável tradutor do Manifesto do Futurismo) no salão de honra do

Conforme alguns trechos transcritos em Miranda (1981), a conferência previa um quadro


utópico-fantástico da cidade: as suas ruas seriam totalmente asfaltadas, o rio Potengi seria
cortado por várias pontes, o jornal A República teria três edições diárias e estaria situado
em um prédio de vinte andares. Além disso, Natal seria conhecida por sua estação

Tais fatos demonstram, se não a existência de um sistema literário na província,


pelo menos a existência de uma vida intelectual, a ocorrência de uma preocupação
beletrista que, de alguma forma, preparou o terreno para a conformação de um possível
movimento literário nos anos 1920, em condições diferentes daquelas propiciadas pelos
governos Albuquerque-Maranhão e pela influência de Henrique Castriciano.
Não obstante, ao explicitar a necessidade da pesquisa da realidade local, já no

resumo da literatura norte-rio-


histórico das manifestações literárias da cidade do Natal: havia, segundo ele, uma grande
deficiência de datas, de fatos publicados, de sínteses dos movimentos, além de uma
absoluta falta de livros, jornais e coletâneas que representassem correntes literárias
presentes na província. Nesse artigo, faz um balanço do movimento cultural potiguar
entre os anos de 1840 e 1880:

Os escritores (com um pouco de bondade, vá o título) primaram no horror da


seleção e do contato com o passado. Não existe analogia de ação intelectual.
Os centros, sociedades, sodalícios, academias, reuniões de moços
esperançosos , destoavam completamente uns dos outros. Eram núcleos de
irradiação nula pela pouca intensidade emitida. As influências reuniam
prosélitos de uma época limitada em tempo e exígua em ação. Ao que parece,
os natalense cada hombre ès um mundo ...]
Acresc criação artística uma
literatura de reflexo . [...] O naturalismo, o parnasianismo, morreram e não
chegaram ao Rio Grande do Norte. A produção é diletante, superficial.

Como se vê, sabia-se da existência de vozes poéticas, mas tinha-se como certa a
não existência de uma tradição que efetivasse a circulação da produção literária em livros,
pelo menos entre uma elite letrada.
As considerações feitas acima, ao serem incluídas no contexto dos anos 1920,
devem ser acrescidas de observações gerais sobre as mudanças ocorridas na realidade em
questão. Com o enfraquecimento político e econômico da oligarquia açucareira, teve
início o domínio político do grupo que representava a economia algodoeiro-pecuária. A
oligarquia Albuquerque-Maranhão perdeu o poder e iniciou-se um novo período para a
história do estado e, particularmente, para a cidade do Natal, que começou a apresentar
algumas características de vida urbana. Nesse período, destacaram-se os governos de José
Augusto (1924-1928) e de Juvenal Lamartine (1928-1930). Os dois, oriundos do sertão
seridoense, construíram estradas e, com isso, ampliaram a infraestrutura para a exportação
do algodão, o que permitiu, ao mesmo tempo, a abertura de uma via de comunicação entre
a capital e o interior do estado (até então, Natal era praticamente isolada do interior).
Segundo Silva (1978), Oliveira (1985) e Silva; Bezerra; Azevedo (1986), a época
segunda metade da década mencionada é marcada pelos indícios de uma política de
planejamento, do governo federal, como forma de intervenção do Estado na economia do
Nordeste. A modernização chegava com as rodovias, as comunicações aéreas (foram

cangaceirismo e o incentivo à industrialização.


Nessa conjuntura, iniciou-se todo um processo de valorização da cultura sertaneja,
que passou a ter espaço privilegiado nos jornais, especialmente em A República. Eram
constantes as notícias e
estradas um tom épico, marcadamente propagandístico, como se pode verificar na notícia

das distâncias, apenas, o que eles têm realizado, mas o derramamento de uma nova

A República e no Diário de Natal


4
.
Ainda fazendo parte do processo de formação de uma ideologia regional, sertaneja,
em 1926 A República resenhou a revista Nossa Terra... Outras Terras5

representava um dos centros do poder político-econômico: era o lendário coronel José

A valorização da cultura sertaneja, em si, não teria uma maior importância se não
fosse a existência de outros fatos que, radicalmente opostos a essa cultura, geravam
contradições importantes para o contexto histórico da época: contracenando com a
presença marcante de elementos sertanejos na provinciana cidade do Natal, os elementos
da modernização chegavam de todas as formas, trazendo materializada a cultura da
modernidade. Essa cultura era oposta, vale lembrar, não apenas à cultura sertaneja. Era,

4
Eloy Castriciano de Souza (1873-1959) é autor do livro O calvário das secas (Imprensa Oficial/RN, 1938),
além de publicações póstumas, relacionadas ao tema: Cartas de um desconhecido (Natal: Fundação José
Augusto, 1969), Cartas de um sertanejo (Brasília: Gráfica do Senado, 1983) e Economia das secas (Natal:
UFRN, 1987).
5
Sobre o papel das revistas literárias no processo de renovação da cultura local, nos anos de 1920, cf. os
estudos de Maria Suely da Costa, O canto de Cigarra e outros cantos: revistas literárias do Rio Grande do
Norte nos anos 20 (Dissertação de mestrado, PPgEL/UFRN, 2000) e Produção em revista: representação
do moderno e do regional na experiência potiguar anos 1920. (Tese de Doutorado, PPgEL/UFRN, 2008).
igualmente, contraditória em relação a toda uma estrutura social enraizada historicamente
e com base no poder das oligarquias locais, guardiães do tradicionalismo e do
conservadorismo.
Pode-se afirmar que os novos elementos culturais, relacionados à modernidade,
chegaram a Natal reforçados por dois fatores que muito contribuíram para as mudanças
ocorridas: a intensificação do comércio do algodão com o mercado inglês e a inauguração
da aviação comercial que, facilitada pela posição geográfica da cidade, foi a grande
novidade na pacata Natal dos anos 1920. Com isso, dois elementos entraram para as
páginas principais da imprensa de então: automóveis e aviões.

Adherbal de

Propagandas que tomavam quase uma página de jornal usavam expressões como:

aleatoriam -gerimú
Polyantok (1924):

As cousas andam pretas. É melhor


comprar a prestações um carro Ford
E pra que Ford com D? não usaremos.

Ao mesmo tempo, nomes ligados à corrida internacional em torno da aviação


comercial foram
incorporados ao noticiário da imprensa local, enquanto se tornavam vocábulos novos em
revistas literárias e em textos de poemas.
As contradições existentes na realidade colocavam em evidência duas ordens de
coisas que se interpenetravam: por um lado, a cultura regional era reforçada pela estrutura
do poder local; por outro lado, a cultura da modernidade penetrava de forma intensa na
vida urbana que se formava na província. Na própria estrutura governamental existia essa
contradição: o Presidente do estado, José Augusto (bem como o sucessor, Juvenal
Lamartine), recebia em sua residência, e no Palácio do Governo, os poetas e intelectuais
de renome nacional ou regional, que eram trazidos a Natal por intermédio de Câmara
Cascudo, como Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Peryllo Doliveira, representantes
do modernismo. Tal fato mostra como, dentro de um mesmo círculo de intelectualidade,
existiam simultaneamente as influências do modernismo e do regionalismo,
diferentemente do que aconteceu em Recife, onde, segundo o estudo de Azêvedo (1984),
existiam dois grupos distintos, ambos com forte poder de penetração na esfera da cultura
e cada um representando um grupo oligárquico em luta pelo poder.
Assim, pode-se dizer que a Natal dos anos 1920 era um misto de província atrasada
(ou assustada) ante as novidades que se apresentavam na realidade. O
choque do passado com o presente, e do universo civilizado com um universo quase
primitivo, era relativizado, pois os seus elementos, de alguma forma, se acomodavam.
Guardando-se as devidas proporções em relação a outras realidades, a afirmação que
melhor definiria a situação descrita talvez fosse esta, feita por Roberto Schwarz (1987,

limitação, que faz englobá-lo ironicamente com o atraso em relação ao qual ele é

Diante desse quadro, restam ainda alguns dados da vida literária que podem ajudar
no sentido de compor o aspecto cultural da época: trata-se da divulgação, nos jornais, de
novidades editoriais lançadas na província, e fora dela, como também notícias e artigos,
crônicas etc., que dão alguma medida da repercussão, em Natal, do que estava
acontecendo no mundo intelectual.
Já a partir de 1920, começou a aparecer a divulgação do material que, de certo
modo, trouxe para a província as notícias do movimento de renovação literária. Do
Recife, vinha o informe sobre a publicação de Tentames, de Joaquim Inojosa, e de
Senhora de Engenho, de Mário Sette. Em maio de 1920, A República publicou um
comentário elogioso sobre a revista pernambucana Vida Moderna [...] temos à mão
vários exemplares da Vida Moderna, brilhante revista que circula no Recife sob a direção
de um grupo de moços p (VIDA
Moderna, 1920).
Eram constantes os elogios antecipados ao livro Alma Patrícia (1921), de Câmara
Cascudo, que estava no prelo e seria lançado no ano seguinte com enorme sucesso. Nele,
Câmara Cascudo deu os primeiros passos para o estudo das manifestações literárias locais
e introduziu a crítica literária em forma de livro na província: estudou dezoito escritores
e poetas norte-rio-grandenses ou radicados no estado.
Durante toda a década, a realidade local foi pesquisada e procurou-se, de alguma
forma, acompanhar as manifestações culturais do Sul do país. Neste sentido, surgiu todo
um movimento no intuito de incluir na história do estado poetas e escritores que dariam
um estatuto literário à província que se modernizava. O produto desse movimento se
expressou na Revista do Centro Polymathico6, nos livros Alma Patrícia e Joio (ambos de
Câmara Cascudo), e na coletânea Poetas Rio-grandenses do Norte7. Além dessas
publicações, destacou- -

forma de paródia a biografia e a obra literária dos principais poetas e literatos locais, num

Cigarra foi a grande novidade no meio intelectual. Essa revista circulou entre os anos de
1928 e 1929, tornando-se um excelente material para estudo das relações entre a estrutura
do poder local e as manifestações artísticas. Apesar da fama da revista, o que mais chama
a atenção do leitor, possivelmente, não é a colaboração literária que existe nela, e sim o
trabalho de vanguarda do desenhista Erasmo Xavier8. Outro produto do movimento de
documentação das manifestações literárias da província foi a publicação póstuma das
obras dos poetas mais populares da Natal: Versos, de Lourival Açucena (reunidos por
Câmara Cascudo, publicado em homenagem ao primeiro centenário de nascimento do
poeta, pelo Instituto Histórico e Geográfico, em 1927), e Terra Natal, de Ferreira Itajubá,
também em 1927.
Outras notícias editoriais também se destacaram, no contexto local. Jardim
Tropical, de Othoniel Menezes, foi publicado em 1923 e divulgado antecipadamente já a

no Teatro Carlos Gomes. Fogo Sagrado, de Jayme dos Guimarães Wanderley, foi
-
Governo (conforme nota publicada em A República, 22 fev 1922), obteve grande sucesso

6
Publicação trimestral que circulou em Natal entre os anos de 1920 e 1922. A resenha de n. 05 agosto
1921 apresenta o sumário com os seguintes colaboradores, entre outros: Câmara Cascudo (diretor da
publicação), Palmyra Wanderley, Raul Bopp, Tasso da Silveira e Jorge Fernandes. Cf. A República, 12 ago
1921; e Manoel Rodrigues de Melo, Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte, 1987, p. 208-209.
7
A República deu um destaque especial para esse livro, a partir do ano de 1920. A coletânea compreendia
108 poetas nascidos em território potiguar, 296 páginas, e seguia a evolução entre 1809 e 1900. O registro
bibliográfico do livro aconteceu em A República, no dia 26 de setembro de 1922. Ezequiel Wanderley
(1872-

principal nos anos 1920.


8
Cf. o estudo de Rejane Cardoso, A arte modernista de Erasmo Xavier. Natal-RN: Verbo Comunicações
& Eventos, 2022.
e esgotou-se rapidamente. A opinião de Cascudo (1927b), no entanto, divergia do aplauso
da crítica local:

[...] é muito mais sagrado do que fogo [...];


[...] Não sei, revendo o seu amor obstinado às fórmulas rígidas do verso
medido e curto, se, em boa e leal verdade, devo aconselhá-lo a estadas em
outra poética [...].

Destacaram-se também Sombra e Telas, de Amaro Barreto Sobrinho, Histórias que


o Tempo Leva, de Câmara Cascudo, e Roseira Brava, da Palmyra Wanderley. Este último,
publicado em 1929, já em 1927 era apresentado como inédito em Recife, com ampla
divulgação na imprensa9.
Com relação a publicações de outros estados, foram noticiados alguns títulos. A
Imprensa registrou o intercâmbio com o semanário Dom Casmurro, do Recife:

Recebemos a visita deste novo órgão da imprensa pernambucana que obedece


à direção dos jornalistas Lins do Rego e Osório Borba, dois jovens de brio e
talento.

[...] Dom Casmurro é panfleto que se inicia com muita independência e


desassombro.
(DOM Casmurro, 1922)

Também A Imprensa deu um destaque especial para a revista Era Nova, da Paraíba.
Em maio de 1923, esteve em Natal Francisco Coutinho Filho, como divulgador da
referida revista, a qual continuou propagada nos anos seguintes, na imprensa local.

Terra do Sol, organizada por


Tasso da Silveira e Álvaro Pinto.
Nesse contexto, os poetas e intelectuais já consagrados pela elite eram festejados
no círculo cultural que girava em torno do palácio governamental, ao mesmo tempo em
que eram criadas instituições que dariam status a esses literatos: Jayme dos Guimarães
Wanderley, Sebastião Fernandes (irmão da Jorge Fernandes e membro da alta
administração estadual), Othoniel Menezes, Francisco Palma, Palmyra Wanderley,
Henrique Castriciano e o próprio Câmara Cascudo, entre outros, participaram de serões
literomusicais no salão nobre do Palácio, de festivais no teatro Carlos Gomes e de turnês

9
A República, 11 dez 1927.
artísticas pelo interior do estado. Surgiram, em 1925, o Instituto de Letras do Atheneu e
a Escola de Belas Artes10.
Ainda outros fatos alteraram um pouco o cotidiano da vida cultural provinciana: o
cinema passou a fazer parte do dia a dia de Natal, trazendo como novidade a onda de

circularam nos jornais:

cabeças. Cano de Ferro. O jogo fechado. A ficha na mão. História de Perú etc.

A rapaziada desta capital deve estar satisfeita, pois que hoje se realiza com o
concurso do grande jazz-band um grandioso baile neste club, com danças
modernas e várias atrações. Será vedada a entrada a quem não se achar
conveniente.11

Como se percebe a partir dos resumos apresentados acima, as mudanças ocorridas


nos anos 1920, no Rio Grande do Norte, expressaram-se nas áreas da política, da
economia e das relações sociais. No que diz respeito à cultura e à literatura, aparentemente
não aconteceram grandes mudanças: as publicações locais, assim como o ambiente
propício a uma vida literária, continuaram sob o patrocínio do governo. No entanto,
sutilmente, acontecia uma mudança substancial no que diz respeito às ligações entre a
produção cultural e os círculos governamentais do Rio Grande do Norte, talvez como
fruto de mudanças mais gerais, nacionais e internacionais.
A mudança referida expressou-se na forma como se deu a ação cultural de Câmara
Cascudo e na forma como surgiu o único produto estritamente literário do modernismo
no Rio Grande do Norte: o Livro de poemas de Jorge Fernandes. Para a compreensão dos
dois fenômenos, faz-se necessário mais um desvio, de ordem histórica, no intuito de
responder à seguinte pergunta: como chegaram a Natal os movimentos regionalista e
modernista?
Antes de ser noticiado como um movimento organizado, em 1924, o regionalismo
expressava-se no Rio Grande do Norte, como em todo o Nordeste, sob a forma de uma
tendência presente na cultura local. Essa tendência apareceu de modo sistemático na ação

10
Na década seguinte, em 1936, foi fundada a Academia Norte-rio-grandense de Letras, de acordo com o
estudo de Carlos Roberto de Miranda Gomes, As confrarias e o tempo (Natal: Sebo Vermelho, 2018). Muito
provavelmente, o empenho dos intelectuais no sentido de institucionalizar as representações literárias
culminou na criação dessa confraria após uma década.
11
-Royal Cinema, além de uma exibição
de Jazz mania.
cultural desenvolvida por Henrique Castriciano e de modo mais espontâneo nas
atividades da vida literária e social dos intelectuais locais, indiscriminadamente.
No teatro, por exemplo, eram significativas as apresentações de revistas de
costumes regionais. As peças escritas por autores locais, como Ezequiel Wanderley e
Jorge Fernandes, eram geralmente representadas pelas companhias teatrais que visitavam
a capital
cidades do interior. Outro ponto forte da cultura regional era a cozinha, presença marcante
em manifestações comemorativas, em homenagem a algum visitante ilustre, em festas
artísticas, em tertúlias e nos cafés onde se reunia a intelectualidade. Nas tertúlias,
principalmente as que aconteciam no ambiente boêmio dos cafés, era comum a presença
de cantadores e de contadores de histórias de cangaceiros, de modo que cronistas como
Guimarães (1952) e Wanderley (1984) chegam a citar nomes dos mais famosos.
Sobre o movimento regionalista que se organizou em Recife, os jornais natalenses

oficialização do movimento, foram noticiados alguns fatos que dariam conta da existência
de esforços na formação e divulgação do regionalismo nordestino a partir da capital
pernambucana12.
Em 30 de janeiro de 1924, A República noticiou que havia recebido a Revista do
Norte
destacando-se uns belos versos Melancolia -
Entre 09 de março e 02 de abril do mesmo ano, A Imprensa publicou uma série de

dois meses na capital pernambucana. Nos artigos, Câmara Cascudo tece elogios ao
desenhista Joaquim do Rego Monteiro, alude à amizade com Gilberto Freyre e elogia o

Carneiro. Sobre os três últimos, avalia o modo como retratam a paisagem pernambucana:

Em Pernambuco teremos um realce de maior valia com Mário Sette. É talvez

possibilidades de afabulação e enredo retardam o motivo do tema ante efeito


pictorial dos capítulos da vida matuta.

12
Com marcante identidade regional, os irmãos Henrique Castriciano e Eloy de Souza foram colaboradores
do Livro do Nordeste, organizado por Gilberto Freyre, cada um com um capítulo.
E a paisagem pernambucana, fiel e linda em Mário Sette, decisiva e sóbria em
Lucilo Varejão, tranquila e doce em Humberto Carneiro, expressa faces
naturais do seu encanto omnimodu e eterno.
(CASCUDO, 1924c)

Noticiados os fatos acima, no dia 09 de março da 1924 apareceu a seguinte notícia


em A Imprensa fundou-se em Recife

especial a Odilon Nestor como um dos fundadores do Centro Regionalista e enumerava


os nomes de outros fundadores, sempre acompanhados de adjetivos elogiosos. O

[...] exercer viva ação intelectual e social uma vez congregados em seu seio os
elementos mais representativos da Cultura do Nordeste. Anima-o largo
patriotismo nordestino, que se exprime na defesa das nossas cousas e das
nossas tradições, no aproveitamento delas como motivo de arte, no
desenvolvimento dos interesses do Nordeste, região cujas raízes naturais e
históricas se entrelaçam e cujos destinos se confundem num só.

Ainda no mesmo ano, A República, em 11 de julho, anunciava que se encontrava à


venda, na livraria Cosmopolita, o livro Velhos Azulejos,

dezembro, a edição do Livro do Nordeste, com a publicação do sumário do livro.


Finalmente, em fevereiro de 1926, A República publicou a notícia sobre o

sempre como resumo das indicações e das conclusões do Congresso, em poucos


parágrafos. Não há informações, pelo menos em A República, sobre o representante do
governo do Rio Grande do Norte no Congresso Regionalista, Salomão Filgueira.
Outras notícias podem ainda ser relacionadas ao movimento regionalista do
Nordeste, pelo modo como se opõem ao modernismo. Seja o caso de um elogio de Mário
Melo ao livro Histórias que o tempo leva, de Câmara Cascudo, transcrito do Jornal
Pequeno, de Recife, para A Imprensa, em 29 de agosto de 1924. No elogio, o autor

Cascudo, injuriando-o:

[...] O que mais admira é ter sido esse jovem catalogado na Arte Nova do sr.
Joaquim Inojosa como um dos adeptos do futurismo, no Rio Grande do Norte.
Se há uma cousa incompatível é o estudo do passado, como acaba de fazer o
sr. Luís da Câmara Cascudo, dentro das normas do bom senso refreado pelas
datas e pelos fatos históricos, com as rédeas soltas desse futurismo
anarquisador, a quem o confrade da Academia pernambucana classificou de
bolchevismo das letras.
Histórias que o tempo leva bem valeu por uma afirmação do escritor criterioso

esse admirável talento dum moço culto a serviço de causas nobres.

Três outras notícias foram selecionadas para efeito de uma possível relação com o
movimento regionalista do Nordeste e/ou com a propagação do movimento modernista

mesmo ano, A
República
embaixada paraibana de estudantes que veio cumprimentar o Presidente José Augusto
pela passagem do seu aniversário. Em meados de 1926, porém, já estivera em Natal outra

vinha da Paraíba e era composta de dezesseis estudantes, apresentados por Câmara


Cascudo e presididos pelo professor Joaquim Pimenta, conforme nota publicada em A
República, em 16 de junho de 1926. Durante três dias consecutivos, A República noticiou
o evento e o programa da visita da embaixada. Estas três notícias ficam como sugestão
para uma pesquisa posterior que esteja interessada, por exemplo, em analisar as relações
culturais entre os intelectuais da região, nos anos 1920, bem como as suas relações com
o poder, haja vista as personalidades envolvidas nelas.
Com relação especificamente à divulgação do movimento modernista no Rio
Grande do Norte, várias opiniões foram dadas sobre o assunto:

Já a Semana de arte Moderna em 1922, passaria despercebida em seu


nascedouro. Natal, de certa forma, continuava a mesma cidade de sempre:
entre o jornalismo literário, a poesia dos bardos das esquinas da cidade e a
politicagem liberalóide.
(CIRNE, 1979, p. 16)

Jorge Fernandes [...] só não foi o iniciador do modernismo cultural em nossa


terra, porque antes dele já o jornalista Luís Torres em artigos assinados pelas
colunas de A República, jornal do qual era ele redator, lançara o primeiro grito,
despertando a mocidade que com ele marchava para o grande êxito da cruzada
redentora.
(WANDERLEY, 1984, p. 97)
A Semana de Arte Moderna [...] só repercutiria nos estados depois da
conferência de Graça Aranha na Academia de Letras. O Diário de Natal [...]
na sua edição de 28 de dezembro [de 1924] publica dois artigos. O primeiro,

de Luís Torres [...]. O

[...] andava empenhado na fundação de um grêmio e de uma revista para


arrancar do marasmo em que vivia a província literária. Sabe-se, no entanto,
que antes desse fato, Luís da Câmara Cascudo já se correspondia com Joaquim
Inojosa, no Recife, e com Mário de Andrade, em São Paulo.
(MELO, 1987, p. 124)

Segundo Manoel Rodrigues de Melo (1970, p. 160-161), foi preciso que ocorresse
[...] um novo ato, um novo gesto, desta vez partindo de um homem com ares de profeta,
[...] José Pereira Graça Aranha, em 1924, para sacudir os nervos dos intelectuais norte-
rio-

do ato de rompimento de Graça Aranha com a Academia Brasileira de Letras.


O episódio ocorrido na Academia Brasileira de Letras suscitou Henrique
Castriciano a escrever o artigo que fazia

em termos de ruptura com o pensamento estabelecido. O paralelo tomava como eixo o


raciocínio desenvolvid
1883, quando apostolava a intuição monístico-darwiniana da Ideia do Direito em um
discurso proferido na Faculdade de Direito do Recife. Afinado com o movimento da

de Noiré e admirador de Tobias Barreto13, Henrique Castriciano fez no artigo uma réplica
Moderno Estética da Vida,
ressaltando o papel de Graça Aranha como teórico da estética do Monismo sem, contudo,

modernista.
A notícia sobre o ato de Graça Aranha chegou a Natal, contudo, por meio de Câmara
Cascudo, sob o título Na Imortal Companhia

13

Homenagem: Henrique Castriciano , em Ensaios de Literatura e Filosofia (Rio de Janeiro: Proust-Clube


do Brasil, 1955).
No dia dezenove de maio, o sr. Graça Aranha, mentor do movimento
ultramoderno no Brasil, realizou uma conferência na Academia Brasileira de
Letras.
Como era de esperar, com imensa assistência, o ilustre escritor criticou o

(e que são inúmeros) estavam presentes e


palmas a cada apóstrofe do mestre de Chanaam.
Perorando, o conferencista declarou o dilema: ou a Academia se reformava ou
morreria de inacção. A assistência aclamou-o. Muitos srs. acadêmicos se
retiraram do recinto, naturalmente nada satisfeitos com o colega.
O sr. Osório Duque Estrada, paxá da literatura carro de boi do Brasil, quis
deitar o verbo. Felizmente não deixaram o conspícuo guarda noturno das letras
brasileiras de abrir o bico. Depois, o mesmo Estrada explicou
do imitável

(CASCUDO, 1924a)

Em dois outros artigos, Câmara Cascudo voltou ao assunto, desta vez criticando a

classificando-

[...] O senhor Graça Aranha é, antes de tudo, um mundo confuso de éticas e


estéticas. Ainda não sabemos o que deseja ele. Tudo quanto aproveitamos
desta bagunça acadêmica é o exemplo da atitude.
[...] Onde vimos renovação partir de um meio classicamente oficializado?
Renovação vem de fora, das praças, das bibliotecas particulares, dos exemplos
pessoais. Sirva de amostra o senhor Ronald de Carvalho.
(CASCUDO, 1924b)

[...] O primeiro dever de uma literatura tal qual deseja o sr. Graça Aranha é
um país-maria-vai-te-com-as-outras.
Reformas? Em quê? A criação seja espontânea. Fora o mestre literário! Fora
o dogma estético. Morra a igrejinha. Abaixo o sino campanudo dos adjetivos
álacres. E só, meus amigos. Cair sem pontuação é um desfrute. Um período
sem ponto final é um rosto sem olhos.
O modernismo, o verdadeiro como eu tenho feito, é ser independente; nunca
achei livro bem escrito porque Ruy Barbosa achava. Nunca encontrei graça
nos lábios convencionalmente alegres.
(CASCUDO, 1924d)

Ainda em 1924, no final do ano, mais uma vez Graça Aranha apareceu no noticiário
local, no seguinte trecho:

No Brasil, o academismo encontra-se, com efeito, meio escandalizado ante o


gesto rebelado e intransigente do sr. Graça Aranha que, antevendo as
formidáveis possibilidades do espírito moderno, definitivamente assumiu
entre nós a liderança desse movimento revolucionário que ora tanto há
inquietado a velha literatura de quase todos os países, abandonando, de uma
vez, o convívio sossegado e ilustre dos colegas que em nada concordam com
suas ideias patrióticas, mas nem de leve ainda se atreveram chamá-lo de
o do que sucedeu em Portugal ao primoroso
Eça de Queiroz quando, cheio de algumas apreensões, enviou ao seio
respeitabilíssimo da Academia de seu país a sua tumultuosa e infeliz Relíquia
rejeitada, unanimemente, pelos conservadores imortais de sua terra.
(FRADIQUE, 1924)

Como se pode notar, a partir da leitura dos trechos de artigos citados acima, o
fundamental no que se refere à influência de Graça Aranha para a divulgação do
movimento modernista, na província, foi mais o ato em si de ruptura com a Academia do
que o conteúdo veiculado pelas suas ideias que, aliás, foram recebidas de forma crítica
Aranha deva-se
ao fato de, já naquele ano, Câmara Cascudo haver travado conhecimento com Mário de
Andrade, e a julgar pelo tom de admiração que se percebe no elogio feito ao escritor
paulista em artigo O sr. Mário de Andrade divulgado um mês antes da notícia sobre
Graça Aranha: O sr. Mário de Andrade é o homem-busca-pé, o foguete, o ele mesmo.
Todos nós somos (desde o exmo. sr. Visconde de Porto Seguro) os outros . (CASCUDO,
1924f) A Imprensa publicou a seguinte
nota:

Mário de Andrade, o mais esfuziante, álacre, invulgar dos gros bonnets da


Arte Nova, uma das mais cultas e talentosas mentalidades sulistas, enviou a
Luís da Câmara Cascudo uma interessante carta agradecendo-
Terra Natal
14

(MÁRIO de Andrade... 1924)

De fato, a referida revista transcreveu o artigo de Câmara Cascudo. Terra Natal


pode ter exercido um papel importante na divulgação do movimento modernista no Rio
Grande do Norte, como se pode supor a partir dos títulos de alguns dos trabalhos
relacionados nos seus sumários, registrados em Melo (1987, p. 218-222), que revelam
alguma influência modernista e/ou regionalista, o que, infelizmente, não pode ser
comprovado nesta pesquisa. Tal revista circulou entre os anos de 1922 e 1924, com nove
números, e foi dirigida por Pedro Lopes Júnior e Reis Lisboa.

14
Com o envio do artigo citado ao amigo paulista, tem início uma longa troca de missivas entre os dois
intelectuais. Cf. a correspondência organizada por Marcos Antonio de Moraes, Câmara Cascudo e Mário
de Andrade: cartas 1924-1944 (São Paulo: Global, 2010), bem como o estudo de Edna Maria Rangel de Sá
Gomes, Correspondências: leitura das cartas trocadas entre Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade.
(Dissertação de Mestrado, PPgEL/ UFRN, 1999).
Ainda com relação a notícias veiculadas no ano de 1924, foi registrada uma pequena

Marinetti, o pontífice do Futurismo, protestando contra a exclusão dos quadros de sua


escola na exposição d arte em Veneza, foi preso. O Rei d Itália soltou-
O principal fato, no entanto, para a divulgação do movimento modernista no estado,
foi o registro bibliográfico de A Arte Moderna, de Joaquim Inojosa, em artigo de autoria

na discussão sobre o modernismo e demonstra o desejo de Câmara Cascudo de uma certa


independência com relação ao movimento, se não uma dúvida ou temor de estar se
filiando a algo comprometedor do seu trânsito livre entre as correntes de ideias então em
voga, o modernismo e o regionalismo:

[...] Como está escrita elegantemente, salpicada de citações e alguns alfinetes,

Palavra de honra.
[...] o que devemos fazer é aplaudir o sr. Joaquim Inojosa. Arte não é capela
de finados. Cada um escreva à vontade sem querer-se constituir mestre e
pontífice. Arte não é pátria, é infinito. Nela podem viver e dominar o Rei
Salomão e o escravo, cabe muita gente.
No Rio Grande do Norte coube-me os galões do generalato. Vindo de tais
mãos dadivosas não recuso. Mas, ponho restrições. Não sei sob qual bandeira
me bato e ajo.
Até aqui a única teoria literária que me seduz é a minha. Há a compensação
de ser eu só. E já é muito.
(CASCUDO, 1924e)

Segundo Azevêdo (1984, p. 65), A Arte Moderna encontrou em Câmara Cascudo

Ainda segundo o mesmo autor, Câmara Cascudo enviou duas cartas a Joaquim Inojosa15,
uma felicitando- -lhe, porém, que avançasse na

15
Sobre a correspondência entre os dois nordestinos, Cf. os estudos:

Arquivos de correspondências: carta e vida literária de escritores do Rio Grande do Norte, organizado por
Humberto Hermenegildo de Araújo e José Luiz Ferreira. (Natal: EDUFRN, 2015, p. 85-109. Disponível
em
[Link]
Cartas de escritores
Hermenegildo de Araújo (Natal: EDUFRN, 2017. Disponível em
[Link]
Eu de mim discordo com a prioridade do Graça no movimento. Já V. estava
fazendo reação. Os paulistas tinham feito a Semana de Arte Moderna. Havia
a Paulicéia do Mário... O Graça tornou o movimento coletivo. Não acha V.?
(AZEVÊDO, 1984, p. 61)

Além desse fato principal, não foram registradas mais notícias sobre o modernismo,
no ano de 1924. No ano seguinte, apareceram dois artigos de polêmica sobre o futurismo.
O primeiro, assinado por LUCANO16

que não se trata de uma nova escola poética e sim de um movimento mais amplo e
indefinido, que atingiria também a prosa, a pintura, a música, a arquitetura e a fotografia.
O artigo é um ensejo para atacar Graça Aranha, que é chamado pejorativamente de

focada:

O sr. Graça Aranha é um homem velho, com aqueles assomos de elegância,


simpatia pessoal e distinção que lhe deram a vida diplomática e a convivência
social dos grandes centros. Já escreveu alguma coisa de interessante. De há
muito que o consideram decadente.

No final do artigo, o autor argumenta que o futurismo estaria fadado ao fracasso e


-

O sr. Ronald de Carvalho, por exemplo, de quem nunca mais se ouviu falar
neste gênero. O sr. Oswaldo Orico, novel poeta paraense, que estreou com a

O segundo artigo é uma resposta de Luís Torres à


redação do Diário de Natal, que teria atacado os futuristas, adjetivando-
os quais estariam representados, segundo o Diário de Natal, na revista Letras Novas e

do soneto e assumiu a defesa do verso livre e do pensamento moderno:

16
A República, 15 ago 1925*.
Com que, então só a sensibilidade artística do poeta se deve enclausurar,
escravizar, sujeitar a tantas regrinhas, para reduzir-se a uma mera alvenaria
que produz tijolos absolutamente uniformes e iguais?
É inconcebível.
Por tudo isto, estou com o pensamento moderno, e agrada-me ter a certeza do
que se lhes impõe. Próprio dos que pensam é ter o ideal. É claro, pois, que não
estou mal encaminhado.

Em 1926, A República voltou a noticiar algo relacionado ao movimento, dando


ênfase à visita de Marinetti ao Brasil. O anúncio da visita do futurista italiano estendeu-

total de seis notas. No mês de maio, apareceu a seguinte defesa de Marinetti, assinada por
Durval (1926)17:

Os que tentam delapidar Marinetti são exatamente os que não o


compreenderam, não o compreendem. Marinetti é o apologista do movimento.
Nós, porém, aceitamos os aviões, o telégrafo sem fio, a eletricidade, com
meios irrevelados que a ciência cada dia proporciona ao homem desvendar.

Ainda com relação ao modernismo, em janeiro de 1926 A República havia noticiado


que Letras Novas

p.173-
1926, com cinc


ao artigo de Câmara Cascudo anunciado em A República, mas não é confirmada (pela
transcrição do sumário da revista publicado no Diário de Natal de 16 de janeiro de 1926)
a inclusão de poemas de Mário de Andrade em Letras Novas.
No que se refere ao ano de 1927, os fatos mais importantes foram a visita de Mário
de Andrade a Natal e a publicação do Livro de poemas de Jorge Fernandes, fatos que
serão comentados no capítulo seguinte deste trabalho, por se tratar de assunto mais ligado
aos papéis desempenhados por Câmara Cascudo e por Jorge Fernandes, respectivamente,
no movimento cultural de Natal, nos anos 1920.
Depois dos fatos relatados, somente no final da década, em 1929, apareceram novas
notícias sobre o modernismo. No dia primeiro de julho daquele ano, saiu uma edição
especial de A República, em comemoração ao aniversário do jornal. Parece ter sido uma

17
A República, 30 maio 1926*.
edição histórica e importante para as manifestações modernistas no estado, o que
infelizmente não pode ser comprovado por esta pesquisa, uma vez que a edição de A
República daquela data estava extraviada no momento da coleta de dados, na coleção
existente no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. No entanto, um
artigo publicado a 31 de julho do mesmo ano, transcrito do Diário de São Paulo, ao tecer
comentários elogiosos à referida edição e ao governo Juvenal Lamartine (que patrocinou
o fat

Segundo o mesmo artigo, destacaram-


Andr

DE..., 1929).
Ainda em julho, foi registrada a seguinte nota, sobre a pintora Tarsila do Amaral:

Rio, 20 A exposição de pintura moderna, da senhora Tharcila do Amaral,


continua a despertar intensa curiosidade.
Esse movimento é quase unicamente devido aos quadros da pintora brasileira
possuírem uma feição puramente nacionalista. Em São Paulo é também
grande o interesse por essa exposição, afirmando-se ali ser a pintora Tharcila
Amaral a verdadeira precursora do movimento antropofágico brasileiro.
A exposição deverá inaugurar-se hoje, no Palace Theatro.
(UMA EXPOSIÇÃO que interessa, 1929)

A República. De Câmara

poeta

Como se percebe, uma pesquisa mais aprofundada poderia dar conta de um material
mais vasto, com outros elementos e em outras fontes. Mas, apesar da limitação desta
pesquisa, é possível afirmar que existia um movimento cultural, na província, capaz de
responder às grandes questões colocadas para a intelectualidade naquele momento. Assim
como, também, pode-se afirmar que as duas grandes vertentes literárias oponentes e/ou
complementares, existentes no Nordeste brasileiro, tiveram manifestação no Rio Grande
do Norte. No entanto, foi a vertente modernista a que encontrou nesse estado a
possibilidade de se manifestar de forma mais organizada, devido ao surgimento da figura
de Câmara Cascudo, numa conjuntura diferente daquela anterior, que era dominada pela
oligarquia representante da economia açucareira e que, certamente, seria mais propícia ao
fortalecimento da vertente regionalista.
Não obstante, fica ainda difícil localizar com clareza a configuração dos dois
movimentos, o modernismo e o regionalismo, com limites claros no ambiente cultural do
Rio Grande do Norte. Por enquanto, é possível dizer que havia simpatias em relação a
ambos os movimentos, principalmente por parte de Luís da Câmara Cascudo, o que não
significa dizer que ele, Câmara Cascudo, não fosse o líder e o representante do ideário
modernista em Natal18.

Figura 2 - Página de dedicatória do Livro de poemas de Jorge Fernandes (1927)

18
O estudo de Francisco Firmino Sales Neto, Palavras que silenciam: Câmara Cascudo e o regionalismo-
tradicionalista nordestino (João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2008, p. 161) conclui, no entanto, que

Modernismo: anos 20 no Rio Grande do Norte relegou o regionalismo à informação secundária, às vezes,
tornou-
movimentos, cf. também o estudo de José Luiz Ferreira, Gilberto Freire e Câmara Cascudo: entre a
tradição, o moderno e o regional. (Tese de Doutorado, PPgEL/UFRN, 2008).

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