Desenvolvimento Econômico no Governo JK
Desenvolvimento Econômico no Governo JK
INSTITUTO DE ECONOMIA
MONOGRAFIA DE BACHARELADO
__________________________________
THIAGO ANDRADE MOELLMANN FERRO
Matrícula nº: 109023886
ABRIL 2013
As opiniões expressas neste trabalho são de exclusiva responsabilidade do autor
1
Dedico este trabalho ao meu país e seu povo
2
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos meus pais, que se preocuparam com minha educação e incentivaram
meus estudos.
Agradeço ao Instituto de Economia da UFRJ pelo amplo conhecimento em
economia e sua preocupação com a diversidade teórica.
Agradeço aos meus professores, que estimularam meu estudo, como Reinaldo
Gonçalves, Lena Lavinas e outros, e, ao professor Ricardo Bielschowsky, que me orientou
com dedicação e gentileza.
3
RESUMO
4
SÍMBOLOS, ABREVIATURAS, SIGLAS E CONVENÇÕES
5
ÍNDICE
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 2
CAPÍTULO I - O CONTEXTO HISTÓRICO E IDEOLÓGICO ...................................... 3
I.1 - BREVE RESUMO DOS ANTECEDENTES HISTÓRICOS................................................................. 3
I.2 - O DESENVOLVIMENTISMO E SUA INFLUÊNCIA IDEOLÓGICA NO GOVERNO JK ......................... 6
I.3 - A ESTABILIDADE POLÍTICA .................................................................................................... 9
I.4 - O APROFUNDAMENTO DAS RELAÇÕES ENTRE ESTADO E ECONOMIA .................................... 11
CAPÍTULO II - A POLÍTICA ECONÔMICA ................................................................... 17
II.1 - A POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO ................................................................................... 17
II.2 - O PLANO DE METAS ........................................................................................................... 18
II.3 - A POLÍTICA CAMBIAL ......................................................................................................... 24
II.4 - O FINANCIAMENTO E O PAPEL DO BNDE ............................................................................. 34
II.5 - O PLANO DE ESTABILIZAÇÃO MONETÁRIA ......................................................................... 43
II.6 - A SUDENE .......................................................................................................................... 47
II.7 - BRASÍLIA ........................................................................................................................... 48
CAPÍTULO III - O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E AS
CONSEQÜÊNCIAS DE POLÍTICA ECONÔMICA ......................................................... 50
III.1 - INFLAÇÃO E DÍVIDA EXTERNA .......................................................................................... 50
III.2 - O DESENVOLVIMENTO ...................................................................................................... 57
III.3 - A AVALIAÇÃO DO PLANO DE METAS ................................................................................. 61
CONCLUSÃO ......................................................................................................................... 66
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 67
1
INTRODUÇÃO
2
CAPÍTULO I – O CONTEXTO HISTÓRICO E IDEOLÓGICO DO
GOVERNO JUSCELINO KUBITSCHEK (1956-1961)
O ano de 1954 foi marcado por notáveis acontecimentos no cenário político brasileiro.
No dia 1º de maio, o presidente Getúlio Vargas anunciou um aumento de 100% do salário
mínimo, o que desencadeou uma série de protestos. O aumento real de salário tenderia a
agravar a inflação. Apesar disso, a medida considerava que o processo inflacionário não tinha
origem em salários elevados e que os trabalhadores viam sua remuneração deteriorada por
anos de inflação.
3
não mais existia. Foi composto um manifesto à nação por vinte e sete generais – inclusive
Henrique Lott - exigindo a renúncia do presidente, que proferiu seu último ato, tomando sua
própria vida.
4
1955), já tendo sido prefeito de Belo Horizonte (1940-1945). Nesse contexto, revitalizou-se a
aliança PSD-PTB para apoiar o candidato pelo getulismo - já vencedora em 1945 quando
elegeu o presidente Dutra. O candidato de oposição, protagonista da UDN pelo antigetulismo,
foi, novamente, um militar: Juarez Távora, chefe da Casa Militar no governo Café Filho.
Foi por ocasião das eleições que Juscelino iniciou seu efusivo discurso pelo
desenvolvimento econômico do país – pretendia promover um desenvolvimento de
“Cinqüenta anos em cinco”-, com apoio nos capitais público e privado. Não obstante,
mostrou-se, à época, contrário a intervenções estatais excessivas na economia, que
ameaçavam o progresso do país causando desequilíbrios.
Nas eleições de outubro, JK foi eleito com 36% dos votos, enquanto Jango foi eleito
vice-presidente com percentual levemente superior. Em novembro, Café Filho foi vítima de
um ataque cardíaco, impossibilitando-o de exercer a presidência. Conforme a sucessão
presidencial, Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu o cargo.
1
A estabilidade que se atribui ao período é compreendida em padrões brasileiros.
5
I.2 O desenvolvimentismo e sua influência ideológica no governo JK
6
recessiva. E eram nacionalistas, uma vez que preferiam a alternativa estatal aos
investimentos estrangeiros.
“No caso brasileiro, para ser específico, parece claro que o desenvolvimento
econômico deve ser associado a uma industrialização intensiva, não só pelo alto
coeficiente de crescimento demográfico (que eventualmente criará a necessidade
de uma absorção mais rápida de mão-de-obra deslocada da agricultura), como
também pelas potencialidades de um amplo mercado interno; e ainda por uma
estrutura de recursos minerais conducente à industrialização e apenas amenizada
por deficiências energéticas francamente superáveis.” pp. (62-63)
7
O predomínio da ideologia desenvolvimentista também era observado nas questões de
balanço de pagamentos e inflação. A partir de 1953, a Instrução 70 da SUMOC instituía um
sistema de múltiplas taxas de câmbio no país. Essa medida visava a proteger a
industrialização, penalizando a importação de bens com similar nacional e favorecendo a
importação de bens essenciais como petróleo, trigo e bens de capital. A despeito de pressões
do FMI, que defendia a unificação das taxas de câmbio, o presidente aprovou a Lei 3.244, em
1957, que simplificava o sistema de taxas múltiplas de câmbio, sem, no entanto, prejudicar a
política de incentivos à indústria. Além disso, a lei impunha novo sistema de tarifas ad
valorem com objetivos protecionistas sem, no entanto, instigar inflação. Em relação a isto,
Roberto Campos almejava a unificação da taxa cambial, sendo precedida da introdução de um
sistema alfandegário protecionista.
2
Skidmore (1976) ratifica que o governo JK merece o rótulo de nacionalismo desenvolvimentista, não apenas
desenvolvimentismo, como foi apresentado. A industrialização urgente seria solução para problemas como
injustiças sociais e tensões políticas. O sucesso da política econômica foi resultado direto do sucesso em
estabelecer a estabilidade política. Kubitschek evitava conflitos diretos com seus inimigos, capitalizando as
alianças getulistas sem autoritarismo e populismo de Vargas.
Campos e Lopes procuraram alcançar a estabilização gradualmente, cientes do perigo da estagnação. Ao
contrário da Argentina e Chile, eles não aderiram ao tratamento de choque proposto pelo FMI.
8
No entanto, o governo não sacrificaria de forma alguma o Programa de Metas, tido
como compatível com o Plano de Estabilização. Diante do dilema da escolha entre prosseguir
o programa para a obtenção de suas metas e a necessidade de conter a economia doméstica
para satisfazer os credores estrangeiros, JK aderiu às suas metas. Em junho de 1959, rompeu
negociações com o FMI e substituiu Lucas Lopes por Sebastião Pais de Almeida e Roberto
Campos por Lúcio Meira, selando, então, a recusa ao Plano de Estabilização e decretando a
persistência de seus planos desenvolvimentistas.
O governo JK foi considerado como singular na política por ter sido efetivamente
estável, combinando eficácia com legitimidade. Apesar disso, tal estabilidade foi marcada por
profundas crises no início e no fim do período.
9
indispensável para fortalecer o sistema político. Nesse ambiente, JK percebe a necessidade de
conciliar as forças armadas e a atuação partidária quanto à política econômica. Por sua vez,
em 1959, as crises são de cunho econômico, com pressões internas e externas sobre o
cumprimento do Planejamento. Já em 1960, existiu preponderantemente a preocupação com a
instalação do governo em Brasília e a transferência do cargo ao sucessor.
10
Dessa forma, resumidamente, acredita-se que os momentos de ruptura entre as três
variáveis – estabilidade, aliança política e apoio das forças armadas – eram compensados por
momentos de convergência. Tal convergência baseava-se na aplicação do Programa de Metas,
que conciliava a política militar e a política partidária. Cita-se como momento de ruptura, o
crescente antagonismo entre nacionalismo e “entreguismo” conforme aumentava a
importância do capital estrangeiro. Como compensação, atendia-se a reivindicações dos
militares, assumindo postos civis no Governo e tomando decisões.
Ainda, constata-se que o sistema político era estável no jogo das forças políticas,
porém instável do ponto de vista institucional. Segundo o próprio JK, em depoimento4:
Nesta seção, discorre-se sobre o processo decisório e institucional que tomou forma
durante a formulação de política econômica no governo JK. Especificamente, apresentam-se
as diretrizes para decisões de planejamento que se fizeram notórias durante o governo e as
4
Disponível em: http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/area-presidencia/pasta.2008-10-
08.1857594057/pasta.2008-10-08.9262201718/pasta.2008-12-17.7704369480/discursos
5
Benevides encerra sua obra ao propor uma discussão sobre um ponto de vista adquirido: a falta de
correspondência estrutural ente desenvolvimento econômico e desenvolvimento político. Apesar da inegável
relevância, tal discussão foge ao escopo desta monografia.
11
agências formuladoras da política econômica, bem como particularidades de suas gestões.
Demonstra-se, dessa forma, que as decisões econômicas foram centralizadas no poder
Executivo, deixando o Congresso à margem da tomada de decisões na política cambial e no
planejamento.
Avalia-se que o papel estratégico desempenhado pelo governo Juscelino tinha fins de
inserir o Brasil na articulação das grandes potências capitalistas 7, e de atender a pressões de
setores econômicos e políticos. No entanto, o ponto chave e inegociável da política do
presidente era o desenvolvimentismo, que explica o estabelecimento de suas prioridades: o
crescimento econômico e a construção de Brasília.
6
Para a autora, a despeito de correntes cepalinas, a conjuntura internacional teve um “efeito muito importante
sobre as escolhas políticas até então feitas, mas não condicionou a tomada de decisão (...)” pp 109.
7
Segundo Skidmore (1969), desde o princípio, JK percebeu que o sucesso da industrialização dependia de
estreita cooperação com o governo dos EUA e investimentos privados americanos. Promoveu programas às
autoridades americanas públicas e privadas. Nenhum outro governo brasileiro promoveu relações públicas em
Nova Iorque e Washington até então como este. Depois do rompimento de ligações com Cuba, os EUA lançam
versão atrasada de Aliança para o Progresso, similar à Operação Pan-Americana, que JK havia proposto. Em
1959, foi criado o Banco Interamericano de Desenvolvimento.
12
c) Capacidade de resolver crises mediante negociação e adiamento de questões
problemáticas.
8
O ministro sofreu um enfarte e se ausentou de função.
9
Foi presidente do Banco do Brasil.
13
Brasileiro do Café relacionava os cafeicultores com o Ministério da Fazenda, gerindo o
comércio do café nos mercados externos. Conforme informa Leopoldi (2002):
10
Empresa do setor energético fundada em 1952 por Juscelino Kubitschek enquanto governador de Minas
Gerais.
14
Segundo Orenstein e Sochaczewski (1989), na metade dos anos 1950 se acelerava a
tendência de delegar ao setor público as obras de infraestrutura que objetivavam romper os
estrangulamentos que atrapalhavam a industrialização, como transportes e comunicações.
Além disso, o setor público proveria insumos básicos como aço (CSN, Cosipa e Usiminas);
produção e refino de petróleo (Petrobrás); produção e exportação de minério de ferro
(Companhia Vale do Rio Doce); energia elétrica (CHESF e Furnas); transporte ferroviário
(Rede Ferroviária Federal); construção de rodovias (DNER). Os autores informam ainda que a
crescente intervenção do governo na atividade econômica não encontrava resistência do setor
privado, que acreditava que a atividade empresarial direta até então exercida pelo governo
havia realmente contribuído para o desenvolvimento econômico do país.
Portanto, desde o início de seu governo, JK contava com importantes atores na área
econômica, o Ministério da Fazenda, o Conselho do Desenvolvimento – coordenando as
metas-, e o BNDE – implementando as metas. O Conselho do Desenvolvimento e o BNDE
foram presididos por Lucas Lopes até junho de 1958, quando este migrou para o Ministério da
Fazenda11, passando a responsabilidade sobre o Plano de Metas para Roberto Campos, na
presidência do BNDE.
11
Alkmin renunciou, supostamente, para anunciar sua candidatura a deputado federal nas eleições daquele ano.
No entanto, este já sofria pressões constantes da imprensa por sua política cambial e de café.
15
prestar contas e conter o descontentamento social que surgiu com o processo inflacionário e a
elevação do custo de vida.
16
CAPÍTULO II – A POLÍTICA ECONÔMICA
12
Este plano foi abandonado pelo governo.
17
cumprimento de metas. Neste sentido, a comissão ainda propôs financiamentos externos, que
foram concedidos por organismos financeiros internacionais em menor volume do que o
desejado e com longos atrasos, o que provocou o abandono de muitos projetos.
De acordo com Lessa (1982) 13, o Plano de Metas correspondeu a uma defesa dos
interesses industriais favoráveis ao crescimento acelerado do investimento em oposição a
13
Trabalho escrito para o escritório CEPAL/ILPES.
18
políticas de estabilização macroeconômica. O plano viria para defender o nível de atividade,
e, mais do que isso, elevar a taxa de crescimento.
14
Disponível em: http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/area-presidencia/pasta.2008-10-
08.1857594057/pasta.2008-10-08.9262201718/pasta.2008-12-17.7704369480/discursos
15
A preocupação com tal questão se manifestaria em 1959 na criação da SUDENE.
19
Postulavam-se investimentos diretos do governo no setor de energia e de transporte e
em algumas atividades industriais básicas, como siderurgia e refino de petróleo, bem como
estímulos aplicados à expansão e diversificação do setor secundário. Dessa forma, visava-se à
construção dos estágios superiores da pirâmide industrial verticalmente integrada e se daria
continuidade ao processo de substituição de importações que se manifestava nas duas décadas
anteriores.
Segundo Lessa (1982), a preocupação com aqueles setores veio da observação de uma
industrialização desordenada com claros pontos de estrangulamento. O parque industrial
privado assumia uma posição de desequilíbrio com o sistema de transporte e de geração de
energia, defasado com a expansão industrial. A constatação de desequilíbrios estruturais
motivaria a redistribuição de recursos em favor do setor público, a criação do BNDE em 1952
e do regime de sobretaxas de câmbio em 1953 com a Instrução nº 70. No entanto, dadas as
reduzidas transferências iniciais e os períodos de maturação dos investimentos, em 1956
persistia a necessidade de ampliar os setores de transporte e de produção energética.
Lessa (1982) também aponta que o caráter não seletivo da substituição de importações
observado até então avançou a produção de bens pouco essenciais (como seriam chamados
por autoridades cambiais), com alta dependência de matérias-primas e insumos importados.
Portanto, a indústria intermediária não havia acompanhado o crescimento do setor produtor de
bens de consumo. A elevada rigidez introduzida na pauta de importações acentuava a
vulnerabilidade da economia. Nesse sentido, existiam fortes razões para um efetivo apoio
empresarial à montagem das indústrias intermediárias básicas. Conforme defende o autor,
20
esses fatos justificaram o apoio do setor privado – consciente da vulnerabilidade e desejoso
em reduzir seus custos - ao Plano de Metas, que fortalecia as funções que o governo vinha
desempenhando desde o início da década no sentido de fomentar o setor industrial.
Tabela 1
Setor Meta
1 Energia elétrica
2 Energia nuclear
Energia 3 Carvão
4 Produção de petróleo
5 Refino de petróleo
6 Reequipamento de ferrovias
7 Construção de ferrovias
8 Pavimentação de rodoviais
Transporte 9 Construção de rodovias
10 Portos e drenagem
11 Marinha Mercante
12 Transporte aéreo
13 Trigo
14 Armazéns e silos
15 Frigoríficos
Alimentação
16 Matadouros industriais
17 Mecanização da agricultura
18 Fertilizantes
19 Siderurgia
20 Alumínio
21 Metais não-ferrosos
22 Cimento
23 Álcalis
Indústrias de
24 Celulose e papel
Base
25 Borracha
26 Exportação de minério de ferro
27 Indústria automobilística
28 Indústria de construção naval
29 Indústria mecânica pesada e material elétrico
Educação 30 Pessoal técnico
Fonte: Elaboração própria
21
intermediários, sobressaindo a indústria siderúrgica; instalação de indústrias de bens de
capital; e, a construção da nova capital do país. A construção da nova sede administrativa foi
incluída como “31ª meta”, como é explicado na seção sobre Brasília. O autor considera
marginalmente o peso dos investimentos do PM na agropecuária, expansão de exportações de
minério de ferro e outras atividades primárias, e gastos sociais.
O Plano de Metas foi um plano quinquenal e a maioria de seus projetos estava baseada
na CMBEU e nos programas CEPAL-BNDE. De acordo com Sochaczewski (1993), ao
contrário dos planos anteriores, o PM contou com total comprometimento do setor público.
c) A receita de exportação de produtos outros que não café cresceria à taxa anual de
6,2%;
22
Tabela 2
Estimativa do Investimento Total do Plano de Metas (1957-1961) em milhões de Cr$ e US$
Produção interna Cr$ Importação US$ Importação Cr$ Total Cr$ %
Energia 110,0 862,2 69,0 179,0 42,4
Transporte 75,3 582,6 46,6 121,9 28,9
Alimentação 4,8 130,9 10,5 15,3 3,6
Indústria Básica 34,6 742,8 59,2 93,8 22,3
Educação 12,0 - - 12,0 2,8
Total 236,7 2.318,5 185,3 422,0 100,0
% 56,1 43,9 100,0
Fonte: Relatório do Conselho do Desenvolvimento, 1959.
23
No capítulo de conclusão deste trabalho, serão abordados os resultados do PM,
avaliados positivamente. De fato, o planejamento implicou crescimento acelerado e bom nível
de cumprimento das metas.
Lessa (1964) sugere explicações ao fato de a manutenção de uma taxa de câmbio fixa,
em um primeiro momento, não ter enfrentado a resistência do setor exportador. Acostumado
com uma atitude passiva diante da ação do governo que tentava conter crises econômicas
desde o início do século, o setor exportador não visava a fixação de políticas. Ademais,
acreditava-se que a taxa de câmbio era variável explicativa quase que absoluta da taxa de
inflação. A adoção da taxa de câmbio fixa implicaria reduzir ainda mais a taxa de inflação, em
contexto de declínio nos anos 1947 e 1948.
24
Com temor de que a desvalorização do Cruzeiro trouxesse consequências
desagradáveis ao preço internacional do café, escolheu-se adotar controle de importações para
lidar com o déficit. Com a medida, esperava-se que o controle de importações não provocasse
pressões internas sobre preços. No entanto, não houve nenhum controle sobre os preços de
venda de produtos importados, o que garantiu altos lucros aos importadores. Controlavam-se
as importações através da concessão de licenças-prévias pela Carteira de Exportação e
Importação do Banco do Brasil, adotando um critério de prioridades, isto é, priorizando a
essencialidade das importações. Esse sistema16 perdurou de junho de 1947 até janeiro de
1953, declarando ao FMI uma taxa de câmbio de Cr$ 18,50/US$.
16
O modelo adotado sofreu flexibilizações especialmente em 1951.
25
Gráfico1
Acrescenta-se a isso, a situação fiscal do setor público, carente de recursos para dar
continuidade aos gastos em infraestrutura, conforme resumido em Sochaczewski (1993):
26
O autor ressalta, ainda, a impressionante sobrevivência deste sistema por cinco anos.
Realmente, apesar de prejudicar principalmente o setor exportador, o sistema de taxa de
câmbio fixa beneficiava altamente outros setores. Este fato evidenciava a perda de influência
do setor exportador sobre o processo decisório de política econômica. Apesar de
possivelmente permitir que os importadores retivessem parte da diferença entre preço externo
e interno do produto importado, o sistema de taxa fixa beneficiava amplamente o setor
industrial, que se via como principal beneficiário do sistema. Conforme Sochaczewski (1993):
Fez-se necessária uma reforma cambial em 1953. Compreende-se que tal reforma
visava a revitalizar as exportações, a eliminar o controle burocrático das importações, e a
aumentar a participação do Estado nas rendas das transações com o exterior. Como poderá ser
visto, a reforma pôde ser viabilizada tão somente na medida em que não rebaixava a posição
do setor industrial como principal privilegiado. Em adição a isto, a reforma cambial de 1953
beneficiava o setor exportador e, também, o setor público, amenizando seus problemas fiscais.
27
Nesse sistema, os bancos autorizados eram responsáveis pela compra de divisas de
exportação. Eles repassavam, então, as divisas às autoridades monetárias. Pagava-se ao
exportador a taxa oficial de Cr$18,50/US$, existindo bonificação de Cr$ 5,00 para
exportações de café e Cr$ 10,00 para as demais. Para estimular a produtividade e exportação
de certos produtos, posteriormente o sistema foi dividido em quatro categorias, com diferentes
bonificações.
Gráfico 2
Exportações (FOB) brasileiras em US$ milhões
2.000,00
1.800,00
1.600,00
1.400,00
1.200,00
1.000,00
800,00
600,00
400,00
200,00
0,00
1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961
28
Sochaczewski (1993) explica o decréscimo observado durante a maior parte da década
nas receitas de exportações a partir de razões externas. O autor refuta, portanto, o argumento
freqüentemente utilizado na literatura de que o fenômeno possa ter sido conseqüência de
política a exemplo de uma taxa de câmbio de exportação sobrevalorizada, uma vez que a
mesma teve tendência ascendente de 1952 a 1961, ou, ainda, de desvalorizações atrasadas em
relação aos preços internos. Nesse sentido, a queda de receita de exportação teria explicação
no hiato representado pela Guerra da Coréia, que desaqueceu o comércio internacional e a
demanda por nossos produtos.
Gráfico 3
Taxa de Câmbio de Exportação Cr$/US$
deflacionada pelo IPA/FGV
40
35
30
25
20
15
10
5
0
1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961
Tabela 3
Taxa de Câmbio Real para Importação deflacionadas pelo IGP/FGV
Categoria de importação
Período I II III IV V
out/53 31,22 35,37 36,88 44,80 55,67
dez/53 31,75 35,78 40,23 49,00 89,00
jun/54 28,15 30,32 40,24 49,00 84,00
dez/54 39,67 39,05 52,78 60,00 106,00
jun/55 48,77 49,11 61,67 66,00 123,00
dez/55 49,22 48,12 66,32 70,00 157,00
jun/56 53,04 57,60 65,85 82,00 132,00
dez/56 32,31 39,01 52,05 59,00 141,00
ago/57 38,01 45,24 61,36 90,00 168,00
Fonte: Relatório do BCB, Conjuntura Econômica.
29
A reforma cambial de 1953 ajudaria a selecionar as importações diante de contínua
escassez relativa de divisas por conta da queda dos preços do café a partir de 1954. Conforme
observado o ponto de inflexão no gráfico 4 (cotações do café), este produto teve seu preço
internacional violentamente reduzido neste ano. Ocorre, então, uma queda geral nos termos de
intercâmbio do comércio externo brasileiro.
Gráfico 4
Café (Brasil) - Cotação internacional em centavos de dólar americano
(US$) por libra-peso
60
50
40
30
20
10
30
Gráfico 5
31
Nesse contexto, modificou-se a política de incentivos através da Instrução 113 em
janeiro de 1955. Esta Instrução regulamentava investimentos diretos de capital e
financiamentos.
Uma nova reforma cambial ocorreu em agosto de 1957. Essa reforma visava a:
32
instituída pela Instrução 70, que tratava igualmente os produtos de mesma
categoria.
Com o novo sistema, foi criado o Conselho de Política Aduaneira como instrumento
de política econômica. O Conselho se encarregaria de enquadrar os produtos em categorias de
33
importação e de estabelecer alíquotas pagas aos grupos de produtos a que o produto específico
pertencesse. Nesse sentido, eram promovidos incentivos para acelerar a substituição de bens
de capital, em detrimento da ênfase na substituição de bens de consumo. Realmente, essa
reorientação adequou a política de importação ao estágio alcançado pela industrialização.
Gráfico 6
Reservas internacionais em US$ milhões
1400
1200
1000
800
600
400
200
0
1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do BCB Boletim/BP.
34
como bibliografia. Entende-se que o financiamento inflacionário foi a base da industrialização
do governo JK. No terceiro capítulo deste trabalho, este aspecto inflacionário do
financiamento, como a política emissionista, será tratado com mais ênfase.
Com perspectiva semelhante, Leopoldi (2002) sustenta que nem o Plano de Metas nem
a construção de Brasília previram formas de captação de recursos para seu financiamento, o
que provocou incerteza quanto às formas de financiamento durante todo o governo
Kubitschek. O presidente e coordenadores do Plano pensavam ser factível o financiamento
35
através de empréstimos públicos externos e investimentos de risco junto ao setor privado. No
entanto, o Estado precisou participar efetivamente com sua política de aprofundar os déficits
públicos, cobertos por expansão monetária do Banco do Brasil. Segundo Skidmore (1964), em
1956, esperava-se que fundos suficientes fossem obtidos de fontes públicas e privadas no
exterior, através de lucros nas exportações brasileiras. O balanço de pagamentos brasileiro, no
entanto, era deficitário desde 1955 e tais lucros se esgotavam.
No mesmo sentido, Dias (1996) afirma que o governo pensava operar em três esferas
distintas:
Tabela 4
Previsão de Recursos para o Plano de Metas em milhões de Cr$
Indústrias
Energia Transportes Alimentação Educação Total %
Básicas
Recursos Próprios e
48,6 18,4 5,3 28,5 - 100,8 35,4
Empresas Privadas e
Financiamento de
13,1 11,9 2,1 14,2 - 41,3 14,5
Agências Públicas
36
Portanto, o financiamento do Plano de Metas se caracterizou pela atividade de
organismos públicos como o Banco do Brasil, a SUMOC e o BNDE e, também, pela atuação
dos capitais privado e estrangeiro. Como explica Sochaczewski (1993), ao setor público,
caberia cerca de 50% do desembolso, enquanto os fundos privados contribuiriam com 35% e
o restante viria de agências públicas para os programas tanto públicos quanto privados. No
entanto, os recursos externos não eram detalhados no plano. Sochaczewski (1993) insinua que
essa ausência se deve às previsões pessimistas quanto ao desempenho futuro do balanço de
pagamentos – como de fato se verificou. Voltaremos ao ponto no último capítulo.
Como pode ser visto com mais ênfase na seção sobre política cambial deste trabalho, a
Instrução nº 70 da SUMOC – o banco central da época - foi uma das medidas adotadas na
intenção de financiar o desenvolvimento. A Instrução estabeleceu um sistema de leilão de
divisas, a serem distribuídas conforme critérios de prioridade, que favoreciam os setores
críticos para o desenvolvimento. Ao chamado custo de câmbio – taxa de câmbio subsidiada
base para importação – era possível importar trigo, papel, combustível e bens de capital. Este
câmbio era utilizado pelo governo ao importar, enquanto ao setor privado cabia uma taxa
menos favorecida. Realmente, a Instrução atenuou os impactos dos gastos com a construção
de Brasília e com o cumprimento das metas.
Em 1957, foi instituída uma Lei de Tarifas. Com a medida, foi possível discriminar
mais especificamente a proteção tarifária aplicada aos produtos categorizados. Anteriormente,
o tratamento tarifário era dado por categorias – estas foram reduzidas a duas. A categoria
Geral se privilegiava de uma taxa de câmbio subsidiada, de modo a favorecer os produtos
considerados essenciais nela contidos. Também criada em 1957, a Comissão de Política
Aduaneira ficava a cargo da alteração de tarifas, podendo introduzi-las de modo a beneficiar o
processo de substituição de importações, conforme o país necessitasse.
37
De fato, de acordo com Sochaczewski (1993), a Lei de Tarifas de 1957 corroborou a
intensificação deste processo. Conforme sintetizou Villela (2011), a implementação do Plano
de Metas dependeu da adoção de uma tarifa aduaneira protecionista complementada por um
sistema cambial que subsidiava tanto a importação de bens de capital como de insumos
básicos, e que atraía o investimento direto por parte do capital estrangeiro.
Gráfico 7
38
Do ponto de vista financeiro, no início do governo JK, a situação externa brasileira era
crítica, e se complicava por ser dependente de poucos produtos de exportação. Café, algodão e
cacau representavam 80% do padrão de comércio e bens manufaturados, 5%. O excesso de
oferta internacional de café derrubava os preços, como será visto na seção sobre política
cambial. Afirma Dias (1996):
Ainda segundo Dias (1996), entre estes capitais privados, destacavam-se os supplier’s
credits associados ao esforço exportador da recuperação europeia e os investimentos de risco
proporcionados pela legislação favorável ao capital estrangeiro introduzida pela gestão Gudin
do Ministério da Fazenda em 1954 e 1955.
O BNDE forneceu empréstimos a longo prazo com baixas taxas de juros, que eram
negativas descontada a inflação. Além disso, prestou garantias a empréstimos ou
financiamentos vindos do exterior. Contaram com a colaboração financeira do banco o setor
39
ferroviário, o setor elétrico, indústrias básicas, a agropecuária, abastecimento de água,
eletrificação rural, entre outros.
40
Tabela 5
Recursos Estimados em Cr$ bilhões
Fundos do Orçamento Federal
correntes (1957-1961)
Fundo Rodoviário Nacional 8
Fundo Nacional de Pavimentação 3,6
Fundo de Renovação e Melhoramento das Ferrovias 7,8
Fundo para Substituição de Ferrovias 2,7
Fundo Federal de Eletrificação 12,8
Parcela da Petrobrás do Imposto Único de Combustíveis 11
Subvenções Financeiras às Empresas de Aviação 5
Fundo Portuário Nacional 5
Fundo da Marinha Mercante 5,7
Fonte: Conselho do Desenvolvimento, 1959, pp. 35.
O Fundo Rodoviário Nacional, gerenciado pelo DNER, foi criado em 1945 e atendia
às necessidades de construção e pavimentação de rodovias, adquirindo seus recursos através
da quota da União no Imposto Único Sobre Combustíveis e Lubrificantes. Posteriormente, o
tributo se tornou um imposto ad valorem para contornar o problema da corrosão inflacionária.
A mudança também afetou a arrecadação, cabendo 40% para a União e 60% para estados e
municípios. Cada membro da federação deveria aplicar 75% das cotas no Programa
Rodoviário, 15% na subscrição do capital da Petrobrás e 10% na subscrição do capital da
Rede Ferroviária Federal.
41
de Eletrificação (1954) - que era direcionado pelo BNDE para o setor energético-, que
contava com imposto sobre energia elétrica e 4% do imposto de consumo federal.
Tabela 6
Tabela 7
Aplicação de Recursos do BNDE em moeda nacional
1952-1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 Total %
Transporte 10.247,7 1.629,6 530,0 1.925,6 646,7 222,0 - 15.201,6 15,3
Energia Elétrica 3.050,7 4.668,1 5.548,8 3.583,9 1.366,6 15.703,8 10.706,1 44.628,0 44,9
Indústrias Básicas 1.598,6 1.838,9 5.679,7 4.339,0 11.482,6 7.175,7 3.728,8 35.853,3 36,2
Agropecuária 483,9 309,1 483,2 184,0 59,1 771,0 1.328,0 3.618,3 3,6
Total 15.380,9 8.445,7 12.241,7 10.032,5 13.555,0 23.872,5 15.762,9 99.301,2 100,0
Fonte: Quinze Anos de Política Econômica; LESSA, C.; 1982; pp.74.
Por meio da garantia de acesso a créditos externos, o banco era capaz orientar o
investimento privado, discriminando os setores prioritários do PM. Lafer (1970) estima que
42
25% da importação de máquinas e equipamentos demandados pelo PM teriam sido
financiados por avais do BNDE.
Tabela 8
O plano, elaborado por Lucas Lopes e o diretor do BNDE Roberto Campos, seria
composto por uma fase de “Transição e Reajustamento” para reduzir distorções nos
investimentos e melhorar os salários reais – esta fase possuía uma meta econômica para
correção de distorções causadas pela inflação, distribuição de renda, orientação de
investimentos e preços do setor externo, e uma meta social visando a proteger o salário real
em detrimento de reajustes constantes nos salários nominais -, e, conseguida a estabilização,
uma fase de expansão dos meios de pagamento em 1960, para cobrir somente o aumento do
43
produto real – acreditava-se conseguir, assim, razoável estabilidade de preços internos e
reequilibrar o balanço de pagamentos.
44
Ademais, o PEM foi amplamente rejeitado pela sociedade. Nesse sentido, os
industriais se posicionavam contrariamente às medidas restritivas de crédito. Para os
exportadores, o PEM ameaçaria reduzir a compra de excedentes da produção de café. Os
sindicatos argumentavam que não haveria ganhos reais de salário. No âmbito do Congresso
Nacional, as propostas do PEM não foram aceitas.
“O FMI desempenhava um papel vital, não devido aos fundos que liberava, pois
estes eram relativamente pequenos, mas sim ao fato de que sua aprovação
constituía a pré-condição para novos auxílios dos principais credores, tais como
os bancos particulares norte-americanos e europeus e o governo dos Estados
Unidos.” pp. 218
Consultado pelo governo brasileiro, a atitude do FMI foi de “esperar para ver” – na
verdade, defendia o tratamento de choque e exigia simplificações nos mecanismos do câmbio
e equilíbrio no orçamento. Em 1959, JK anuncia redução do orçamento federal para apenas
itens essenciais. Além disso, não se verificou a subordinação do Banco do Brasil às normas de
contenção de créditos e, no mesmo ano, foram dados aumentos salariais.
45
Em junho de 1959, o presidente rompeu negociações com o FMI. Esperava com isso
desviar a opinião pública do aumento da inflação, inevitável a partir do abandono do
programa Lopes-Campos. Sobre o rompimento, afirma Skidmore (1969):
O presidente, então, substituiu Lucas Lopes por Sebastião Pais de Almeida e Roberto
Campos por Lúcio Meira, selando, a recusa ao PEM.
46
II.6 A SUDENE
A superintendência foi chefiada pelo economista Celso Furtado 17, que presidiu a
Comissão Mista CEPAL-BNDE e se tornou diretor do BNDE em 1953. Além disso, Furtado
foi um economista de primeira hora da equipe chefiada por Prebisch na CEPAL 18, onde
dirigiu a Divisão de Desenvolvimento de 1949 a 1957.
17
Foi também no ano de 1959 que Furtado escreveu o clássico “Formação Econômica do Brasil”.
18
Em 1960, foi instalado no Rio de Janeiro o Centro de Desenvolvimento Econômico CEPAL/BNDE, a primeira
representação formal da CEPAL no Brasil. Em 1968, o centro se desvinculou do BNDE, sendo instalado, ainda
no Rio de Janeiro, o Escritório Regional CEPAL/ILPES, transferido para Brasília em 1978 através de um
convênio com o IPEA.
19
Disponível em: http://www.sudene.gov.br/conteudo/download/PDEN%20-%20segunda%20edicao.pdf.
47
II.7 Brasília
Segundo Skidmore (1969), Brasília foi o símbolo que Kubitschek escolheu e, durante
campanha, prometeu retomar a previsão de uma nova capital na Constituição de 1891. Este
projeto foi discutido e revogado por quase um século, considerado utópico e caro. No entanto,
em 1956 o projeto foi proposto e, surpreendentemente, aprovado prontamente por
unanimidade no Congresso. A nova capital ganhava suporte na idealização de levar maior
desenvolvimento à região Centro-Oeste.
48
“Invariavelmente, a ênfase era dada na transformação da maneira de ver
antigos problemas, começando tudo outra vez na solitária situação da nova
capital.” pp. 209
Tabela 9
Rodovias Extensão em Km
Avalia-se esta meta como bem sucedida. Segundo Mensagem ao Congresso Nacional
de 1962, a população estimada em setembro de 1961 foi de 200 mil habitantes; o número de
prédios de alvenaria, 5.114; a potência instalada, 16.200 Km; a pavimentação de vias, 111
Km; e, os aparelhos telefônicos instalados, 5.750.
49
CAPÍTULO III – O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E AS
CONSEQÜÊNCIAS DE POLÍTICA ECONÔMICA
50
Kubitschek. Este, em seu carácter desenvolvimentista, não aderiu a pressões do Fundo
Monetário Internacional e de certos grupos domésticos. Tal fato é exemplificado pela recusa
do presidente com relação à efetiva implementação do Plano de Estabilização Monetária,
conforme explicitado anteriormente.
a) Dificuldades políticas para elevar a carga fiscal. Segundo Dias (1996), tal esforço
era politicamente inviável, pois ameaçaria a base de sustentação do governo no
Congresso;
b) A falta de um mercado de títulos públicos para apoiar o governo, uma vez que a
Lei da Usura inviabilizava a cobrança de juros superiores ao dobro da taxa legal de
qualquer contrato;
51
Gráfico 8
IGP-DI em % a.a.
60
50
40
30
20
10
0
1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961
Em síntese, os déficits orçamentários que financiaram parte das despesas com o Plano
de Metas foram praticamente em sua totalidade cobertos através de empréstimos do Banco do
52
Brasil ao Tesouro20. Como já ressaltado no capítulo, foi inviável recorrer às alternativas de
elevação da carga tributária, colocação de títulos da dívida e contenção de gastos.
Gráfico 9
20
Sochaczewski (1993) ressalva que a verdadeira pressão sobre o Tesouro, no entanto, não se manifestava no
déficit orçamentário, visto que parte desse déficit era transferida para exercícios seguintes sob rubrica “restos a
pagar” e “outras despesas a pagar”, o que não implicava desembolsos efetivos.
53
Gráfico 10 – Déficit e Financiamento via emissão de moeda em Cr$ bilhões
correntes
De fato, segundo Sochaczewski (1993), no plano havia previsão de que 55% dos Cr$
milhões que seriam gastos pela União proviriam de fundos ou dotações de dispêndio
vinculado e este gasto significaria um déficit orçamentário de 2,2% do PIB. É inegável que
esse valor seja incompatível com o objetivo do plano de controle da inflação ao nível de
13,4%, dada a impossibilidade de financiar o déficit sem recorrer à emissão monetária, isto é,
pelo lado fiscal. De modo a sobrecarregar ainda mais a situação fiscal, o plano não
contemplou recursos para a construção de Brasília, que responderia por cerca de 2% a 3% do
PIB do período.
54
poupanças forçadas, via altas taxas de lucro e fácil acesso ao crédito bancário,
possíveis devido ao incremento do produto, que impedia o intenso processo
inflacionário assumir forma espiral.” pp. 33
Ademais, parte da inflação observada também pode ser explicada pela política de
compra de excedentes de produção do café e por desvalorizações da taxa de câmbio.
Gráfico 11
Dívida externa em US$ milhões
4.500,00
4.000,00
3.500,00
3.000,00
2.500,00
2.000,00
1.500,00
1.000,00
500,00
0,00
1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964 1965 1966
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do BCB Boletim/BP.
55
Gráfico 12
Participação da Exportação de Bens e Serviços no PIB (%)
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964 1965 1966
No gráfico 13, ilustra-se a relação dívida externa vis-à-vis as exportações. Esta razão
supera 1 a partir de 1956.
Gráfico 13
Dívida Externa/Exportações em U$ milhões
3,5
2,5
1,5
0,5
0
1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 1958 1959 1960 1961
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IBGE.
56
III.2 O desenvolvimento
Gráfico 14
57
Realmente, portanto, a expansão do produto industrial (ver tabela 11), de 11,6% entre
1952 e 1961, conduziu a expressiva elevação da participação da produção industrial no PIB.
A parcela de ganho de expressão do setor manufatureiro no PIB foi praticamente semelhante à
perda de representação do setor agropecuário, uma fez que o setor de serviços se manteve
constante em 50%.
Gráfico 15
40
32,2
25,6
30 24,3
17,8
20 24,1 23,5
10
0
1950 1955 1960
Agropecuária Indústria Serviços
Fonte: Elaboração própria com dados de Villela (2011), pp. 30.
A profunda mudança estrutural sofrida pela economia brasileira neste curto espaço de
tempo manifestou a intensificação do processo de substituição de importações (PSI). JK,
através do seu Plano de Metas e da seletividade no mercado de câmbio, obteve um
aprofundamento da fase do PSI iniciada nos anos 1940, em que a substituição é liderada pelo
governo de forma consciente. O período do Plano de Metas deu sequência e aprofundou a
industrialização, ampliando a participação dos setores densos em escala e tecnologia (bens
duráveis e de capital).
58
Tabela 11
Taxa de
Participação Participação Crescimento
Subsetor
(%) em 1952 (%) em 1961 Anual 1952-61
(%)
Não duráveis 55,4 40,0 7,7
Duráveis 6,0 12,0 18,2
Intermediários 32,5 35,7 12,8
Capital 3,1 12,3 20,3
Total 100,0 100,0 11,6
Fonte: Sochaczewski (1993), pp. 79.
Gráfico 16
59
Tabela 12
Síntese de Indicadores Macroeconômicos da Economia Brasileira (médias anuais no período 1956 - 1960)
60
III.3 A avaliação do Plano de Metas
Tabela 13
Síntese: Plano de metas no período 1957-61
Produção de petróleo
96 75 76
(1.000 barris/dia)
Refino de petróleo
200 52 26
(1.000 barris/dia)
Construção de
13 17 138
rodovias (1.000 Km)
Pavimentação de
5 - -
rodovias (1.000 Km)
Carros e caminhões
170 133 78
(1.000 unid.)
Nacionalização de
90 75 -
carros (%)
Nacionalização de
95 74 -
caminhões (%)
Fonte: Orenstein e Sochaczewski; 1989; pp. 180.
61
durante o período. O esforço de construção de novas hidrelétricas foi basicamente
concentrado em usinas de grande porte. A presença do Estado na produção de energia se
justifica pelos longos períodos de maturação e baixa rentabilidade dos investimentos.
Tabela 14
Extensão da Rede Rodoviária Brasileira
Rodovias Rodovias Rodovias
Ano Total
Federais Estaduais Municipais
1955 22.250 54.048 383.416 459.714
1961 35.419 77.293 386.838 499.550
Crescimento 59% 43% 1% 9%
Fonte: Lessa (1982), pp. 41.
62
Com respeito à aviação, foram comprados apenas 13 aviões dos 42 previstos para renovação
da frota aérea.
Tabela 15
Investimento Bruto em Transportes/PIB (%)
Veículos Marítimo Aeroviário Total
Anos Ferrovias Rodovias
Portos e Aviões e
Com Autos Sem Autos Com Autos Sem Autos
Navios Aeroportos
50/54 0,82 1,25 2 1,34 0,15 0,13 4,35 3,69
57/50 1,04 1,74 2,75 1,9 0,19 0,16 5,88 5,03
Fonte: Lessa (1982), pp.38.
Tabela 16
Siderurgia em milhares de toneladas
Aço em lingotes Laminados
Ano
Produção Produção
Importação Importação
nacional nacional
1956 1.365 339 1.074 242
1957 1.470 509 1.130 383
1958 1.659 279 1.304 205
1959 1.866 651 1.492 499
1960 2.279 558 1.707 434
1961 2.485 433 1.928 331
Fonte: Lessa (1982), pp.43.
63
automobilística era função, em parte, dos investimentos na área de transportes. Esta indústria
estimulou a indústria mecânica e promoveu a nacionalização de veículos. Para Lessa (1982), a
criação da indústria automobilística (até 1955 a produção se restringia à Fábrica Nacional de
Motores) foi um dos pontos mais importantes do Plano de Metas. Sem esta, não teria sido
possível o crescimento da frota de caminhões em condições de estrangulamento do setor
externo. No entanto, a construção naval recebeu menor ênfase em relação aos transportes
rodoviários. Suas metas previam a criação de dois estaleiros e o reaparelhamento de catorze
existentes.
64
Portanto, de maneira geral, o objetivo principal de promover uma industrialização
acelerada foi alcançado. Nesse sentido, as metas foram, em geral, bem-sucedidas, inclusive a
construção em tempo recorde de Brasília, meta-síntese e símbolo do governo.
65
CONCLUSÃO
66
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2007.
67
LESSA, C. Quinze anos de política econômica. São Paulo: Brasiliense, 1982.
VILLELA, A. Dos “Anos Dourados” de JK à crise não resolvida. In: Economia Brasileira
Contemporânea: 1945-2010; GIAMBIAGI et al (Org.) – 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier,
2011.
68