Edição: Flavia Lago
Editora-assistente: Thaíse Costa Macêdo Preparação: Fabiane Zorn Revisão:
Flávia Yacubian, Flora Manzione e Natália Chagas Máximo Diagramação e
ePub: Pamella Destefi Arte de capa: © Sammy Yuen, 2014
Título original: False Future
© 2014 by Dan Krokos
© 2014 Vergara & Riba Editoras S/A vreditoras.com.br
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transmissão por meios eletrônicos ou mecânicos, fotocópias ou qualquer
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ISBN 978-85-1512-947-7
1ª edição, 2016
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira
do Livro, SP, Brasil) Krokos, Dan
Futuro falso [livro eletrônico] / Dan Krokos; tradução Ivan Hegenberg.
– São Paulo: Vergara & Riba Editoras, 2016.
– (Coleção trilogia falsa; v. 3) 782 Kb; e-Pub Título original: False future.
ISBN 978-85-7683-947-7
1. Ficção científica – Literatura juvenil 2.
Ficção norte-americana I. Título. II. Série.
15-10524 CDD-028.5
Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção científica: Literatura juvenil
028.5
À minha mãe, por me fazer ler para ela na cozinha.
A Terra Verdadeira chegou a Manhattan para nos liquidar em 21 de
dezembro. Eles vieram no meio de uma nevasca tão forte que não dava para
enxergar nada, a pior tempestade de neve em dez anos. Como se não bastasse
aos cidadãos de Nova York terem de atravessar as ruas escorregadias, agora
precisavam lidar com uma invasão. Eu devia reconhecer o brilhantismo da
Terra Verdadeira.
Era difícil organizar qualquer
tipo de resistência quando não dava para ver sequer um metro à frente do
nariz. Cruel, mas brilhante.
Eu estava no meu posto, em nosso apartamento no 53º andar da Columbus
Circle, número 80.
Era o turno da Sofia na vigilância, mas ela pediu para eu cobri-la, pois estava
com uma enxaqueca ou algo assim. Ela apelou para um truque, olhando para
mim e tocando meu braço enquanto dizia: “Por favor, Rhys”. Talvez
não fosse bem um truque, mas funcionou. Sempre funcionava comigo.
Meu posto era uma cadeira ao lado da janela que ia do chão ao teto, com vista
para o Central Park. Noble disse que seria ali que iria acontecer se eles
voltassem. E todos nós sabíamos que voltariam.
A neve caía lá fora e se acumulava nos cantos da janela.
A brancura infinita e rodopiante causava um efeito hipnótico, por
isso a cada hora eu fazia cem flexões
para
me
manter
desperto. Quando meus olhos não aguentavam mais observar a brancura,
comecei a ler uma história em quadrinhos, olhando por cima das páginas a
cada 30
segundos para checar o parque.
Eu estava de pijama, bebendo leite com achocolatado em uma caneca
vermelha
de
Natal.
Naquele momento, a vida não parecia tão ruim.
Por volta das duas da tarde,
eles vieram. Olhei de soslaio por cima do gibi e espreitei a janela.
Através da brancura, vi que um buraco escuro enorme apareceu no meio do
Central Park. Era um círculo perfeito, tão negro que o contraste com a neve
machucava meus olhos. Eu sabia o que era aquilo.
Sentei-me
por
um
momento, com uma ligeira
vertigem. Era o fim da paz. Nós teríamos que lutar mais uma vez.
Então eu me levantei e gritei:
“Eles estão aqui!”, com toda a
força dos meus pulmões.
Sofia e Noble correram para a sala. Peter estava em reunião com alguns
militares, discutindo como levar mais tanques de forma discreta para a
cidade.
Não conhecíamos exatamente o poderio tecnológico da Terra Verdadeira
(Noble não soube fornecer detalhes sobre o que eles investiriam contra nós),
portanto os militares decidiram que, se quiséssemos aumentar as chances de
causar dano real, era
melhor usar munições de 120
mm ou maiores.
Ficamos na janela por mais tempo do que deveríamos, mas era impossível
tirar os olhos.
Máquinas
voadoras
estavam
subindo pelo buraco como um enxame de vespas, às dezenas, planas e
pontudas, sem asas. Elas disparavam mísseis que faziam arcos por cima dos
prédios, deixando trilhas de fumaça no céu
cinzento
de
inverno.
Enquanto
olhávamos,
todos
sabíamos que deveríamos estar nos preparando para a batalha, mas
por
onde
começar?
Havíamos combatido monstros antes, mas não um exército.
Os últimos meses haviam
sido dedicados à preparação: táticas e estratégias de guerra no solo, treinadas
com alguns dos melhores militares. Mas, diante de tudo aquilo, nada me
parecia suficiente.
No último ataque, a Terra Verdadeira enviara milhares de
monstros com garras e dentes.
Quem poderia dizer o que eles enviariam dessa vez? É claro que eu nunca
ousei falar isso em voz alta.
Minha esperança estava em
baixa, mas eu não precisava desanimar todo mundo. Então eu punha um
sorriso na cara e dava o sangue no treinamento com homens durões que
tinham olhos de assassinos, mesmo sabendo que poderia acabar com eles
apenas com minhas mãos e que,
logo mais, gente como eu estaria chegando para matá-los.
De
repente,
os
mísseis
despencaram
pela
cidade,
criando enormes nuvens pretas alaranjadas,
borradas
pela
nevasca. Eu podia sentir pela vibração nos meus pés que as explosões
estavam próximas.
Um míssil passou rente à janela, da esquerda para a direita. Caí para trás
sobre uma mesa, com os ouvidos apitando por causa do barulho e as retinas
marcadas
pela sombra do percurso do míssil. Eu sabia o que a Terra Verdadeira estava
fazendo. Era uma tática militar com a qual os Estados
Unidos
estavam
familiarizados:
chocar
assombrar, também conhecida como domínio rápido. Espantar os inimigos
nos primeiros
momentos da batalha para que não possam se organizar.
Destrua a percepção do
campo de batalha e irá destruir o ânimo deles para reagir. Isto,
combinado à nevasca, não dava a menor chance de vencermos a primeira
rodada. Ninguém disse, mas tenho certeza de que todos estávamos pensando
a mesma coisa: “Já perdemos”.
– Precisamos dela – Sofia disse. – Precisamos de toda ajuda possível. Ou
então deveríamos desistir agora e fugir.
Mais explosões fizeram o
vidro atrás dela tremer. Ela não se moveu, apenas me encarou até o fundo da
alma com seus
grandes olhos castanhos, aqueles olhos encantadores.
Mas, de qualquer modo, meu peito se comprimia. Eu sentia falta da minha
amiga, mas ela estava em paz. Havia cumprido sua missão e feito com que
ganhássemos tempo. Merecia o descanso.
Noble não disse nada no
início, o que me deu esperança.
Certamente
ele
concordava
comigo. E não por sermos
geneticamente idênticos, mas
porque era o certo.
Além disso, Peter não estava ali. Não poderíamos decidir antes de falar com
Peter. E ele diria não, eu tinha certeza.
– Nós precisamos dela – Sofia disse mais uma vez, percebendo claramente
nossa hesitação. –
Agora tudo o que há é esta missão. Não temos escolha. A hora é agora.
Tanta dedicação de Sofia à nossa equipe tornava impossível não amá-la
(mesmo que eu ainda
não tivesse reunido coragem para dizer isso a ela). Aquele não era o seu
mundo, mas ela estava disposta a lutar por ele. Era uma de nós. Nos últimos
meses, a garota subnutrida havia se transformado em uma jovem
mulher,
cuja
pele
escura
emanava
saúde.
Quando
praticávamos
corrida
pela
cidade, ela nunca ficava para trás.
Noble ainda não respondera, mas eu podia sentir que ele avaliava as opções.
Finalmente
abriu a boca.
– Precisamos encontrar o
Peter – e foi até o telefone vermelho, a linha direta com nossos contatos
militares. Ele ergueu o fone e eu pude ouvir o barulhinho da digitação. Então
ele o afastou do rosto e olhou para nós.
– Está mudo.
– Ela iria querer ajudar –
Sofia insistiu, passando seus olhos do Noble para mim. – Ela iria querer.
Noble acenou, com seriedade.
– Você está certa. É o que devemos fazer.
– Espere – interrompi, com um nó na garganta. Estava em nossos planos
trazê-la de volta se precisássemos de ajuda, e aquele certamente era o
momento, mas ainda assim hesitei. Nós não tínhamos como saber realmente o
que ela iria querer. – Eu não sei.
Noble se virou para mim com
um olhar do qual vou me lembrar para o resto da vida. Havia dor
em sua expressão. Ele havia tomado a decisão, mas aquilo iria assombrá-lo
para sempre.
– Faça isso, Rhys – naquele momento, acho que ele se tornou meu pai
novamente. Porque, apesar de eu não ter certeza do que eu queria, eu iria
fazer o que ele tinha pedido, como um filho deve fazer.
Parte do Central Park já
estava em chamas. Havia fumaça e neve por toda parte, e mais coisas iam
saindo do buraco.
Pareciam pessoas, mas era difícil dizer olhando de longe. Eu não queria mais
ver, já havia me desesperado o suficiente.
Eu me afastei da janela, Sofia e Noble vieram comigo. O
controle remoto estava em uma pasta travada sob a pia. Noble puxou para
fora da camisa um cordão que estava pendurado em seu pescoço e o tirou. Na
ponta, havia a única chave para a pasta, e ele a colocou na minha mão.
Destravei a pasta e a abri.
Dentro havia um cubo preto com um único comutador vermelho, como o que
usamos em um
quadro de luz. Não havia nada escrito. Eu pus meu polegar e o indicador em
volta, mas parei. O
comutador era tão pequeno, uma coisa tão simples, e mesmo assim, virá-lo
por apenas um centímetro iria mudar tudo.
Sofia pôs sua delicada mão sobre a minha, e com o calor da pele dela
encontrei minha força.
Tentei olhar para ela, mas era
difícil enxergar através das lágrimas.
– Vamos fazer juntos – ela disse.
Então
nós
viramos
comutador.
1
Eu estava ficando sem
sangue. a bomba tinha rolado para o outro lado da sala. Um sem-olho ferido
me passou uma rasteira
quebrou
meu
tornozelo. Ele se rompeu e eu caí, com os dedos rasgando o
carpete.
Noah se agachou ao meu
lado.
– Vamos, Miranda. Você
consegue!
Você
tem
que
conseguir! Não desista!
Eu me arrastei para mais
longe. Noah continuava ao meu lado.
–
Continue.
Levante-se,
Miranda.
Levante-se
agora
mesmo.
Os sem-olhos atrás de mim eram
um
bando
raivoso,
tombando no chão sobre o
próprio sangue e as próprias
vísceras. Mais deles chegavam pelo
buraco.
Meus
dedos
cravaram no chão com tanta força que as mãos doíam.
Serpenteei até perto da bomba, fraca, com vertigem, piscando.
Peguei o controle, tonta
demais para enxergar direito. De alguma maneira, consegui me levantar,
pondo todo o meu peso em uma perna. Olhei para baixo e vi o tamanho do
buraco em meu estômago. O traje repleto de sangue. A dor já não era tão
ruim.
Talvez pela perda de sangue não dava para sentir muita coisa.
– Você consegue – Noah
disse. Ele estava ao meu lado, como eu me lembrava dele.
Brilhante e vibrante e vivo. – Eu acredito em você.
Ele me puxou para um abraço
e eu envolvi os braços ao redor dele. Ele não estava realmente ali, mesmo
assim aqueles braços me ajudavam a ficar em pé.
– Você consegue – ele
sussurrou no meu ouvido. – Não
está sozinha.
Os sem-olhos se reagruparam
e avançaram na nossa direção, em círculo, como lobos. O mais próximo deu
um salto, com as garras esticadas para a minha garganta.
Era só apertar o botão para salvar o mundo.
Era só apertar o botão.
Eu iria salvar o mundo.
Eu apertei o botão.
Vi o brilho do fogo através dos meus olhos fechados e senti a pressão, rápido
demais para compreender.
Aquilo
me
atravessava, como dor em um sonho. Abri meus olhos e a luz forte foi
esmaecendo e se tornando verde-azulada. Tentei respirar e, em vez de ar, veio
alguma coisa molhada e espessa.
Engasguei. O chão escapou dos meus pés e eu escorreguei, atingindo o solo
com a nuca, gritando e tossindo o fluido. A
dor na minha perna quebrada e no meu estômago se tornou apenas um
formigamento, e logo foi sumindo. Levei mais um segundo para perceber que
não estava morta, que ainda sentia as coisas,
que
fogo
desaparecera. Sentada, tentei localizar os sem-olhos, mas estava claro que
não havia mais nenhum,
compreensão
finalmente me atingiu como uma guilhotina.
Eu estava em um quarto
pequeno. Vi uma janela cheia de neve em uma parede de tijolos vermelhos.
O tanque para clone estava atrás de mim, vazio, um cilindro enorme de
plástico inclinado a um ângulo de 45 graus. A parte de baixo se abrira e me
soltara no chão, junto com o fluido esquisito verde-azulado. Havia uma TV
no canto, coberta por uma fina camada de poeira. O
chão
tinha
mais
de
um
centímetro de fluido.
E eu estava sozinha.
– Peter – tentei chamar, mas engasguei. Engatinhando, me apoiei sobre os
cotovelos e vomitei um jato comprido de fluido que não tinha gosto de nada.
Nesse momento percebi que estava nua. O gel já resfriava na minha pele. Só
havia um motivo para eu ter saído do tanque: eu não era eu. Estava em um
novo
corpo,
sem
queimaduras, sem buracos ou ossos quebrados. Eu tinha
morrido e, mesmo assim, lá estava eu.
“Eles me trouxeram de volta.”
“Por que eles me trouxeram de volta?”
Como se minha mão direita pudesse se mover por conta própria, ela foi até
minha nuca.
Meus dedos passaram pelos
meus cabelos e tocaram uma peça pequena e circular instalada na base do
meu crânio. O disco.
Não podia ser nenhuma outra coisa; não fosse o disco, eu não
estaria ali. Não havia como me lembrar do que acontecera. De alguma
maneira
eles
me
encontraram e, em vez de
finalmente me deixarem morrer, me trouxeram de volta.
“Porque sentiram minha falta ou porque precisam de mim?”
Eu havia me explodido para matar os monstros que estavam planejando
literalmente devorar o nosso mundo. Minha pele ainda formigava com a
sensação da explosão. Ou melhor: a sensação
do
primeiro
microssegundo,
antes de tudo se tornar uma dor breve, e em seguida o nada.
Minha morte salvara o mundo?
Eu esperava que não tivesse sido em vão.
Olhei para minhas mãos, e eram minhas mãos. Eu estava em um corpo de
Miranda. Meu
cabelo era ruivo e na altura dos ombros, como antes. Entretanto, a cicatriz na
minha bochecha, um corte horizontal de cortesia da sra. North, desaparecera.
Esse já
era meu terceiro corpo. Da última vez que eu voltara só me lembrava de
fragmentos do
passado. Dessa vez eu me
lembrava de tudo. Eu estivera morta, mas de repente estava viva. E não tinha
ideia de como me sentir a respeito disso.
Eu me levantei e não caí.
– Noah? – chamei, mas não obtive resposta. Procurei pela presença dele na
minha cabeça, mas não o senti. Um tremor percorreu minhas vísceras. O
som parecia o de um trovão, só que não ouvi chuva.
Tentei mais uma vez, para ter certeza.
– Noah? Noah, por favor –
mas ele não respondeu e eu ainda não podia senti-lo.
Ele se fora. Dessa vez, para sempre. O disco não devia ter salvado sua
identidade, sua presença dentro de mim. Tudo o que eu podia sentir era o
espaço vazio que ele deixara.
Ele merecia mais do que
aquilo. Eu disse em voz alta: –
Você merecia mais.
Noah podia ter ido embora, mas eu não pararia de pensar nele.
Eu não deixaria que ele
desaparecesse.
No canto oposto ao da TV
havia uma bancada. Sobre ela, um traje com escamas negras dobrado.
E, em cima dele, a Língua de Fogo, minha espada. A lâmina estava
desgastada em alguns
pontos e o cabo, parcialmente derretido, porém ainda intacto.
Também vi um revólver de prata apoiado sobre uma caixa de munição. E
uma toalha de praia com estampa de melancia. As fatias de melancia estavam
dançando. Não havia mais nada no quarto.
Olhando melhor, havia sim: um pedaço de papel debaixo da toalha. Eu o
puxei e o fluido nos meus dedos manchou a tinta.
Mas
ainda
pude
ler:
Passei a língua por dentro da boca e cuspi mais fluido.
– Peter – gritei mais uma vez e o som pareceu um soluço. Era mesmo um
soluço. Eles me
trouxeram e eu não podia fazer nada além de chorar. Deveria estar feliz. Iria
ver minha equipe novamente. Poderia olhar nos olhos deles, tocá-los,
conversar.
A ideia bastava para me animar, ao menos por um momento
ínfimo.
E Peter iria me buscar. Deixei que isso fizesse eu me sentir bem por mais
alguns segundos, antes de notar o som que retumbava como um trovão. Fui
até a janela e a abri com ambas as
mãos.
Ela
guinchou
balançou, mas foi o bastante para que eu pudesse pôr a cabeça para fora.
Lá embaixo havia um beco
cheio de lixo. Em cima, o céu em chamas.
2
As chamas se dispersaram
em fumaça enquanto escombros
caíam do céu. Ouvi vidro
estilhaçando, metal derretendo e pessoas gritando.
A Terra Verdadeira estava ali.
Era por isso que eu estava de volta. Morri para deter a guerra deles contra
nós, mas estava
claro que não fora o bastante. E
minha equipe precisava de mim.
Corri até a bancada, peguei a toalha e a passei pelo meu corpo.
fluido
foi
absorvido
rapidamente, revelando minha pele fresca, limpa e renovada (literalmente).
Enrolei
meu
cabelo com a toalha para secá-lo, então desdobrei o traje blindado com um
único gesto. Vesti-lo era familiar e tranquilizante. Eu não estava mais
desesperada. Não estava mais chorando. Sabia que
estava de volta por um motivo e aquelas eram minhas únicas posses no
mundo.
O traje deslizou pela minha pele úmida. Encaixei as mãos nas luvas, remexi
os pés nas
extremidades,
que
pareciam
meias, então me encolhi para ajeitar os ombros. Insistindo um pouco, o fecho
subiu pelas costas até a nuca. Eu sentia o traje se movendo
se
contraindo,
abraçando-me, apertando um
pouco em torno das minhas
juntas para dar uma sustentação extra. Quando acabou, eu estava vestindo
minha segunda pele de escamas negras.
Peguei a Língua de Fogo da mesa.
sensação
da
empunhadura era um pouco
diferente
depois
que
ela
derretera um pouco. Pratiquei uma
estocada
no
ar.
distribuição do peso parecia a mesma, o que era tudo o que importava, desde
que a lâmina mantivesse
sua
integridade.
Seria bem constrangedor entrar em uma luta de espada e ver minha lâmina
escapar. Essa ideia me fez rir, até eu bater a mão na boca e as lágrimas
escaparem dos meus olhos.
“Não perca o foco. Você acabou de voltar.”
“E precisam de você.”
Coloquei a Língua de Fogo nas costas e ela se prendeu às escamas imantadas
do traje, com o cabo encostando em meu
ombro direito. Abri a porta do
quarto, cujo batente estava rachado – provavelmente o
haviam raspado ao trazerem meu tanque para dentro. Passei para
sala
principal
do
apartamento com cheiro de
mofo. Havia duas garrafas de água sobre a mesa da cozinha e um bilhete com
a letra de Peter.
“Beba isto aqui.” Agarrei ambas.
Na mesa também havia uma
calça jeans e uma blusa com gorro. Outro bilhete dizia: “Vista isto, está frio e
seu traje chama
muita atenção. Eu te amo”.
Ler aquelas palavras me fez chorar de novo, mas me deixou uma sensação
boa. Peter me amava.
Que tal acordar da morte com
isso?
Vesti as roupas por cima do traje. Ele fora atencioso: na blusa havia um
buraco nas costas para a Língua de Fogo.
Um tremor vindo de fora fez vibrar todos os vasilhames de vidro dentro dos
armários. Havia
mais duas coisas sobre a mesa: uma seringa cheia de um líquido amarelado e
mais um bilhete:
“Aplique isto para que você não se esqueça de mim” . A injeção iria manter
minhas
lembranças
intactas
por
algum
tempo.
Deslizei a agulha no meu pescoço e o calor que brotou era familiar, até
mesmo reconfortante. Eu estava pronta.
Abri a porta do apartamento com uma pequena expectativa de me deparar
com Peter. Em vez
dele, o que vi foram seis pessoas apavoradas falando umas com as outras
sobre as causas do barulho. Duas senhoras de
camisola estavam de mãos
dadas. Todo mundo paralisou quando me viu no corredor.
Talvez por não me reconhecerem como uma das vizinhas. Ou talvez porque
eu tinha um cabo de espada aparecendo sobre o ombro.
– Fiquem em suas casas – eu
disse a todos. – Encham tantos
recipientes quanto puderem com água.
Eles
continuaram
paralisados, mesmo eu tendo acabado de lhes dar um bom conselho. Mais
uma explosão sacudiu a poeira do teto.
– Mexam-se! – arranquei pelo
corredor, desci a escadaria, disparei em direção à saída, saltando a cada
passo. Passei pela porta da frente cinco segundos depois.
O ar congelante me atingiu no
rosto, trazendo-me o cheiro de fumaça.
Flocos
de
neve
derretiam-se
nas
minhas
bochechas.
As
explosões
chegavam
dez
vezes
mais
barulhentas, vibrando em meus tímpanos, e eu via colunas de fumaça se
erguendo por todo o céu. As pessoas corriam para todas as direções e
estranhos jatos zuniam entre os prédios acima de nós, aquecendo o ar
enquanto passavam. Eu não
entendia; não deveria ser assim.
Terra
Verdadeira
queria
preservar nosso mundo para uma
readaptação,
mas
ali
estavam
jogando
bombas.
Parecia que tinham decidido nos explodir e nos mandar para o inferno da
maneira mais fácil.
Um míssil atingiu um prédio à minha esquerda, formando uma nuvem de
vidro sobre as pessoas na rua.
Os sem-olhos eram algo que eu podia enfrentar. Mas como nós iríamos deter
isso?
Corri pela calçada sem um plano de verdade. Não sabia como encontrar
minha equipe, a menos
que
eles
me
encontrassem antes. Havia gente por toda parte, escorregando e deslizando na
neve.
Obviamente também não
tinham um plano, estavam
apenas correndo. Correndo para casa, talvez, apesar de saberem que não
estariam a salvo lá tampouco. O caos se espalhava por toda parte. A rua
estava
repleta de carros destroçados, amontoados.
As
pessoas
passavam, encapuzadas, olhando com olhos arregalados para o céu
esfumaçado. A cena me lembrou do último verão, quando um punhado
de
Rosas
rendeu
Cleveland. Fiquei olhando por um momento, espantada. Eu havia morrido
por nada.
Por nada mesmo. Talvez eu tivesse até provocado aquilo ao destruir os sem-
olhos.
Uma buzina estridente à
direita me chamou a atenção.
Vindo na minha direção, um Taurus
todo
preto,
com
lâmpadas led no topo e grandes antenas espetadas no porta-malas. Era um
carro oficial.
Ele diminuiu a marcha até parar na calçada, forçando as pessoas
que
corriam
contornarem pelas laterais. Um homem
acertou
espelho
retrovisor com o quadril.
Atrás do volante estava Rhys.
Seu cabelo loiro escondido por
uma blusa com gorro, mas o rosto à vista. Nós nos encaramos por um
segundo. Fiquei feliz em vê-lo, mas apavorada ao mesmo tempo.
Peter disse que viria me
buscar, então por que era Rhys que estava ali? Ele saiu do carro e nós
corremos um ao encontro do outro. Ele me abraçou e me ergueu e nós
giramos. Quando ele me colocou de volta no chão, vi que havia lágrimas em
seus olhos.
– Você voltou – ele disse.
– Bem a tempo para a festa –
eu quis falar com suavidade, mas o tom saiu sombrio. – E o Peter?
Rhys soltou uma risada curta.
– Por que quer saber? Já não está bom o bastante comigo? –
ele sorriu. – O Peter está ocupado.
Você vai vê-lo em breve – ao
balançar a cabeça, o sorriso dele se contraiu. – Eu sinto muito.
– Deixei isso para depois. Nós temos um trabalho a fazer. –
respondi.
Fui em direção à porta do motorista, pois queria dirigir em vez de ficar
parada. Mas alguém tomou o volante antes de mim.
Algum cidadão qualquer, usando jaqueta de flanela vermelha e óculos
escuros pretos de aro grosso. Ele olhou para mim e tentou puxar a porta, mas
rapidamente eu a segurei. Ele não se intimidou. Puxou duas vezes mais forte,
dizendo: –
Solte! Por Deus, garota! Solte.
– Você pegou o carro errado.
Ele sustentou contato visual comigo por cerca de um segundo, então decidiu
que eu estava certa.
Dava para dizer que Rhys
pensou bastante no que dizer em seguida. Ele começou com um “E
aí...”, seguido por “C omo é que está a vida?”.
– Estou bem.
– Sabe, andei pensando na
sua volta.
– É mesmo?
– Sim. E eu não queria que você sentisse que não é real de novo, como se
fosse menos que uma pessoa.
Eu não me sentia exatamente
como se fosse menos que uma pessoa. Eu não sabia dizer o que sentia. Só
sabia que não se pode estar morto por semanas, ou meses, e de repente voltar
em um novo corpo e ser a mesma.
Não dava.
– Certo.
– Quero dizer, todas as
pessoas são basicamente clones delas
mesmas.
Enquanto
crescemos, nossas células estão constantemente
sendo
substituídas por novas células.
Em algum momento, não há um único átomo dentro de nós que já estava ali
no começo. Mas ainda somos nós mesmos. Entendeu?
Eu acho isso muito bacana.
A rua coberta de neve se tornou um borrão, até que
pisquei para afastar as lágrimas.
Coloquei minha mão no joelho de Rhys.
– Obrigada – eu disse. Era um bom argumento e eu fiquei feliz em ouvi-lo,
mas ainda assim não era bem a mesma coisa. Eu morrera. E, de repente,
estava de volta. Eu ainda podia ver os sem-olhos. Como eles me cercaram,
vieram pra cima de mim com garras e dentes. Sentia como se eles houvessem
arrebentado
meu corpo minutos antes. Pensei
ter realizado um grande feito ao me sacrificar, mas agora não parecia
mais.
Parecia
sem
sentido.
A intenção era deter a
invasão de nosso planeta. Um universo
paralelo
enviara
monstros que iriam nos matar sistematicamente, um por um, deixando nosso
mundo intacto.
Eu levei os monstros para outro mundo, os reuni e os explodi.
Junto comigo. Mesmo assim, o outro universo contra-atacou.
Então, eu não os impedi de nada Rhys sorriu.
– Sem problema.
Um rugido alto veio pela
frente. Olhei a tempo de ver um tanque se aproximando de nós.
Avaliei a ameaça. Era um m₁
Abrams. Um dos nossos.
– Por favor, desvie – Rhys disse calmamente e eu virei o carro para cima da
calçada, derrubando uma caixa de correio que fez duas pessoas tropeçarem
enquanto corriam. Foi nesse
instante que notei que não era apenas um tanque, mas uma fila de tanques.
Cinco ao todo, rugindo pela Broadway. Eles amassavam todos os carros pelo
caminho, empurrando-os para os lados como se fossem frágeis como papel,
até passando por cima de alguns, estraçalhando-os contra a neve. O vidro das
janelas estilhaçava ruidosamente – pop-pop-pop!
– Continue em frente – Rhys pediu.
– Não vai ser suficiente, Rhys
– respondi, com o pânico
embargando minha voz. – Alguns tanques
contra
Terra
Verdadeira?
– Temos mais tanques e
tropas por toda a cidade. Mesmo assim... não sei se é o bastante.
Eles abriram um buraco no Central Park. E é grande.
– Os militares estão se
organizando?
Virei o carro de volta para a rua, o lado direito sacudiu ao
passar por um buraco feito pelos tanques.
– Não sei – Rhys disse. – O
Noble tentou entrar em contato, mas o telefone estava mudo.
Tenho certeza de que a essa altura
não
estão
apenas
esperando sentados. Nós vamos tentar nos encontrar com os militares
depois
de
nos
juntarmos ao Noble e à Sofia.
– Como eles estão?
Ótimos.
Noble
anda
atarefado
por
causa
dos
preparativos.
acho
que
estaríamos mortos sem ela.
Enquanto passávamos pela
Broadway, vi pessoas saindo das lojas com os braços cheios de mercadorias.
Saqueadores. À
nossa
vista,
dois
homens
carregavam um sofá pela porta da frente de uma loja de móveis.
O ataque mal tinha começado e as pessoas já haviam sucumbido aos seus
impulsos mais baixos.
Por
um
breve
instante,
compreendi o ponto de vista da
Terra Verdadeira. Nós realmente podíamos ser animais.
Um
destroço
despencou
rodopiando do céu e se chocou contra o chão no cruzamento, bem à nossa
frente.
– Caramba! – Rhys gritou, enquanto o destroço quicava e rolava em nossa
direção. Peguei na maçaneta da porta e me preparei para saltar fora, mas
Rhys me deteve e girou o volante para o lado, gritando: “Segure firme!”.
Continuamos derrapando
e nos aproximando do escombro, mas as rodas reagiram a tempo e ele pegou
apenas no para-lamas traseiro. O impacto nos fez rodar até batermos em um
poste.
Minha cabeça se chocou contra a janela lateral com força o bastante para me
fazer ver estrelas.
– Desculpe, desculpe – Rhys disse. – Eu só não queria que você saltasse e
fosse esmagada.
Pisei no acelerador, mas
ouvimos um som terrível de algo
raspando na frente e não saímos do lugar.
Logo adiante vimos uma
estação de metrô com os
números 1, 2 e 3 no meio de círculos vermelhos.
– O metrô – apontei.
Rhys já estava saindo do
carro. Corremos até a escada.
– Boa ideia. Tem uma estação
bem na frente do nosso prédio.
Mesmo se os trens não estiverem funcionando, podemos caminhar pelos
túneis e evitar a multidão.
Pouco antes de chegarmos à estação, um carro veio zunindo pelo cruzamento,
em direção à parte oeste do Central Park. Não se parecia com nenhum carro
que eu já havia visto. Um Corvette
blindado
seria
descrição mais aproximada, com pneus Knobby enormes na frente e atrás.
Ele emitia um chiado bem agudo.
– Que diabo é isso? – Rhys perguntou, enquanto o víamos se afastar. Ele se
chocou de bico
contra um táxi, e nem por isso diminuiu a velocidade. A frente inclinada
apenas jogou o táxi para fora do caminho. O carro dobrou uma esquina e
sumiu.
– Vamos – chamei, descendo com pressa os degraus do metrô.
Saltamos
as
catracas
corremos para a plataforma, onde estava ainda mais gelado que do lado de
fora. Estava abarrotada de gente. Cinco policiais tentavam manter a ordem,
pedindo
calma
às
pessoas e que aguardassem, pois logo um novo trem chegaria. O
quiosque
de
doces
estava
fechado, mas isso não impediu dois homens de violarem a tranca com chaves
de fenda. Os policiais pareciam não notar ou não se importar.
– Será que não é melhor
irmos logo pelos túneis? –
perguntei. Seria melhor nos movermos livremente do que ficarmos entalados
em um tubo de
metal
com
cidadãos
apavorados.
– Vamos esperar um pouco –
Rhys disse, olhando para os policiais e para a multidão ansiosa. – Eles podem
precisar da nossa ajuda.
Justamente nessa hora senti uma lufada vinda do túnel e um guincho agudo
que ficava mais sonoro a cada segundo. Um trem estava
vindo.
As
pessoas
imediatamente se amontoaram na faixa amarela, empurrando-se para serem
as primeiras a entrar.
Uma menina pequena quase caiu nos trilhos, mas o pai agarrou sua jaqueta
grossa bem a tempo.
Um dos policiais deu um
passo à frente, acenando com seu cassetete e com a lanterna.
– Todo mundo para trás! Para
TRÁS!
O trem ainda levaria 30
segundos para aparecer, então perguntei ao Rhys: – O que foi que eu perdi
enquanto estive fora?
– Muita coisa. O Noble falou
com o presidente depois que você... fez o que fez.
– Depois que eu me explodi.
Ele tocou no meu braço,
então afastou a mão, desviando o olhar. Pelo jeito, falar sobre minha morte de
maneira tão brusca o deixava desconfortável.
– Sim. O governo nos alojou em Nova York, já que o Noble disse que eles
atacariam aqui primeiro. Parece que meu velho estava certo.
O trem ainda estava vindo.
Logo pude ver os faróis ao longe, no começo do túnel.
– O Noble achou seu disco de
memória
no
meio
dos
escombros da Verge, mas o Peter foi contra trazer você de volta.
Ele disse que não era certo, pois nós nunca saberíamos o que você iria querer.
Porém, eles chegaram a um acordo: você só seria trazida de volta se a Terra
Verdadeira retornasse.
– Porque vocês iriam precisar
de toda ajuda possível.
– Exato. Nós fomos para
Cleveland e pegamos um dos clones, hum, quero dizer, você, da Key Tower.
E levamos para o outro apartamento. Queríamos que você ficasse em um
local separado, no caso de nos
encontrarem e nos atacarem antes.
Noble
instalou
uns
monitores cardíacos internos e os conectou ao seu tanque.
Então, se um de nós morresse, você
seria
ativada
automaticamente.
Pensei na fileira de clones de Mirandas, todas esperando para se tornar
alguém. Eu podia ser qualquer
uma
delas.
Me
perguntei como eles teriam escolhido este corpo.
Tentei
me
imaginar
na
posição deles, decidindo por que deveriam trazer alguém de volta dos mortos.
O que eu teria feito?
Qual é um motivo justo para trazer alguém de volta? E se eu apenas sentisse
saudade de
alguém?
Talvez não seja tão ruim que Noah nunca mais tenha que lidar com nada
disso.
– Qual era a sua opinião sobre me trazer de volta?
Rhys não respondeu. Decidi deixar quieto.
O trem silvou ao chegar, sem
diminuir o ritmo. Ele continuou, passando direto pela estação. O
mais estranho era que eu não via ninguém através das janelas enquanto ele se
deslocava.
A multidão começou a gritar.
Um policial soprou o apito repetidas vezes.
Assim que a composição
entrou no túnel até a metade, ouvi a energia do trem se desligar e as rodas
arranharem os trilhos. Aquele trambolho parou quando já tinha passado por
uns 70 metros da plataforma.
As luzes da traseira brilharam como olhos de um demônio na escuridão, antes
de piscarem e apagarem.
As
pessoas
na
plataforma voltaram a gritar.
Rhys e eu olhamos um para o
outro. Então saltamos no vão e começamos
correr,
com
cuidado para evitar o trilho central, eletrificado. Paramos assim
que
chegamos
na
escuridão do túnel. Uma dúzia de pessoas
corajosas
e/ou
estúpidas estavam nos seguindo.
– Se outro trem vier, eles serão esmagados – eu disse. –
Isso
se
não
morrerem
eletrocutados.
Rhys acenou com a cabeça.
Precisamos
mantê-los
afastados. Você pode cuidar disso? Eu precisaria de mais uma injeção...
– Está bem, pode deixar.
Disparei uma pequena onda
de medo, apenas o suficiente para desencorajar qualquer um que quisesse nos
seguir. A pressão permanente em meu
cérebro ampliou-se no início, depois se amenizou, provocando uma sensação
amarga e doce ao
mesmo tempo, que fazia meu couro cabeludo formigar. O
centro do meu cérebro estava quente, de um jeito quase prazeroso, como uma
pedra
aquecida envolvida em um
cobertor.
As pessoas que nos seguiam passaram a correr no sentido oposto; dois
tropeçaram nos trilhos, mas logo se ergueram.
– O que é isso? O que é isso? –
um deles perguntava, enquanto eles quase se atiravam de volta
para a plataforma. Nenhum sabia a resposta.
– Muito bem – Rhys falou.
Voltamos nossa atenção mais
uma vez para o trem.
As luzes de emergência no vagão traseiro estavam acesas, mas eu não via
ninguém. Saltei na parte de trás e abri a porta, então dei um passo à frente,
em meio à fraca luz amarela.
O vagão estava vazio, porém os assentos e o chão estavam cobertos de
sangue.
3
Sacamos nossas espadas
simultaneamente. Rhys tirou uma pistola Glock de baixo da blusa.
Ficamos
imóveis,
escutando. A porta se fechou com um estalo atrás de nós; em seguida, o
silêncio era completo, exceto pelos baques amortecidos das explosões acima
do solo.
– O que você acha? – Rhys sussurrou.
Aquilo não era o estilo de um Rosa. Era o estilo de um monstro.
Pensei
que
tivesse
destruído todos os sem-olhos.
Atravessamos
vagão,
passando
por
manchas
de
sangue. Elas seguiam todas para a mesma direção, o que indicava que
os
sem-olhos
haviam
embarcado
pela
traseira
começado a rasgar com suas garras e dentes. Haviam ferido as
pessoas e as obrigado a fugir para a parte da frente do vagão.
Vi os primeiros corpos dentro do vagão seguinte. Uma idosa caída de costas,
um homem em um terno azul, de lado, e um rapaz preso entre os vagões.
A porta insistia em fechar no tornozelo dele. Ela abria e fechava, abria e
fechava.
Virei minha cabeça e cerrei meus olhos, engolindo em seco.
Então tropecei em uma sacola de supermercado, espalhando ovos
pelo chão. Três deles quebraram e as gemas se misturaram com o sangue.
– Você está bem? – Rhys
perguntou,
com
os
olhos
arregalados, como os meus
também deviam estar.
– Sim.
Eu
precisava
estar.
Continuamos andando.
O tablet de alguém, com a tela trincada, continuava exibindo um programa de
TV.
Passamos pelo cara que
estava preso na porta. Arrastei o tornozelo dele para dentro, e a porta se
fechou às nossas costas.
Segui Rhys tão rápido quanto
minhas
pernas
bambas
permitiam. Atravessamos mais dois vagões, onde havia outras pessoas mortas
amontoadas.
Meu pescoço ficava mais tenso a cada segundo que passava, como se alguém
apertasse um parafuso no topo da minha coluna. O
silêncio era tão grande que eu podia ouvir nossa respiração.
quinto
vagão
estava
completamente escuro, a não ser por uma luz de emergência que piscava logo
acima de uma forma descaída. À minha esquerda, na escuridão, alguma coisa
gotejava no chão.
Rhys apertou um botão na
arma e uma pequena lanterna foi acionada. Veio a calhar. Ele sacudiu a luz
neutra e branca da esquerda para a direita e avançamos com cautela. Do
fundo do vagão vinha uma batida
ritmada, como um tambor. Mais uma porta deslizante, abrindo e fechando,
abrindo e fechando.
– Você está com medo? –
Rhys indagou.
Minha pulsação dizia que sim.
Eu preferia estar no meu tanque.
Entretanto, estava contente em ter Rhys ao meu lado.
– Estou bem.
Chegamos até a parte frontal do vagão, onde encontramos mais corpos. A
maioria era de jovens, capazes de correr mais
que os outros. A porta da extremidade
do
trem
se
escancarava, mas além dela não havia nada, apenas escuridão e silêncio. Eu
me esgueirei até ali e lentamente fechei a porta.
Rhys usou sua arma para
arrombar a porta da cabine do condutor, no canto direito do primeiro vagão.
Ela estava vazia.
Eu não tinha ideia de onde o condutor estava, nem de por que o trem perdera
a energia. Talvez toda a rede do metrô tivesse
pifado. Do lado de fora do vidro dianteiro, a escuridão não se alterava.
– Onde estão as luzes? – Rhys perguntou.
Os controles eram metade
digitais,
metade
analógicos.
Havia uma caixinha na tela que dizia luzes dianteiras. Eu a pressionei e o
túnel se iluminou com um amarelo brilhante.
Quando
meus
olhos
se
ajustaram, identifiquei algumas formas. Eram monstros.
Mas não eram os sem-olhos.
4
As criaturas se remexiam,
balançando pra frente e pra trás.
Elas não tinham corpo, só braços
braços
humanos.
Oito
membros negros conectados a uma bola de músculo. Cada braço terminava
em uma mão, cinco dedos com garras na ponta. Eram como aranhas enormes
sem
corpo. Minha garganta se fechou, emitindo um som estrangulado,
sussurrando um “Ai, meu Deus”.
Nos trilhos, vi um cadáver vestido com um uniforme azul: o condutor do
trem.
Engoli em seco. Era como
engolir uma pedra. As mãos negras se ergueram e se abriram na nossa
direção, como se estivessem enxergando através das palmas.
Meu coração batia tão forte que eu podia senti-lo sacudindo
dentro do peito. Rhys agarrou meu pulso e apertou, num
reflexo. Tentei superar meu medo concentrando-me na raiva.
“Essas ABERRAÇÕES mataram todas aquelas pessoas. O que você vai fazer
a respeito?”
As aranhas se amontoavam,
com
seus
braços
negros
lustrosos de sangue. As garras delas estalavam nos trilhos e algumas se
agachavam antes de saltar para a frente do trem. Tum-tum-tum.
Elas estavam voltando para nos pegar.
– Vamos! – Rhys gritou.
Encontrei uma alavanca no
painel de controle. A única alavanca. Eu a empurrei com prazer, pronta para
esmagar as aranhas sob toneladas e mais toneladas de metal.
Mas nada aconteceu.
– Onde está o botão de ligar?
– Rhys berrou.
Uma aranha colou na frente do trem e começou a bater as
garras de uma de suas mãos no vidro.
Sua mão era do tamanho de uma frigideira grande. O vidro se estilhaçou na
segunda batida.
Rhys apontou sua arma e
disparou uma bala pela janela na massa retorcida de músculos e tendões onde
os braços da aranha se encontravam. Ela caiu, saindo do nosso campo de
visão.
Nesse meio-tempo, as outras
saltaram para o vagão e ficaram penduradas,
balançando-se
como macacos.
Uma
delas
agarrou
maçaneta da frente.
– Não! – segurei a maçaneta com toda a minha força para que não abaixasse,
mas logo ela se quebrou nas minhas mãos. A aranha escancarou a porta, que
rebateu e voltou a se fechar. A criatura se encolheu, então a abriu novamente.
Dessa vez a porta arrebentou, escapando dos encaixes.
– Rhys!
Ele disparou um tiro às cegas, então atingiu a aranha com sua espada. Então,
ele bateu a porta mais uma vez e passou uma trava nela. Ainda assim, a porta
estava meio fora do lugar e duas garras forçavam-na pela parte de cima.
– Faz a gente andar, Miranda.
– Vidros se estilhaçavam na outra ponta do vagão.
Eu olhava para o painel
enquanto outra aranha saltava no vidro da frente. Havia uma
chave, a qual virei com tanta força que pensei até que iria quebrá-la. O trem
voltou à vida com um murmúrio alto e
vibrante. Empurrei a alavanca para a frente e nós aceleramos.
– Mais rápido! – Rhys
implorou.
– Estou tentando!
Algumas aranhas insistiam
em arrebentar as portas duplas da lateral do vagão. O espaço que havia era
exatamente a distância entre elas e a parede do túnel.
Diante dos meus olhos, duas aranhas que ainda estavam
penduradas na frente do trem foram derrubadas por um farol.
Seus membros se agitaram, as mãos se abriam e fechavam. Eu quase gritei
“Toma essa!” com toda a força dos meus pulmões.
Com a alavanca acionada ao máximo, o trem ganhou tanta velocidade que eu
tive que me agarrar à porta. Mais uma aranha saltou na frente do trem e
infiltrou suas garras através do
rombo deixado pela bala do Rhys. Ao abrir o buraco, ela ia se estraçalhando,
com os cacos de vidro penetrando sua pele.
Parecia não sentir dor. Enterrei minha espada no buraco bem quando
chegamos à estação
seguinte. A plataforma iluminada estava abarrotada de gente e nós passamos
direto por ela, de volta ao túnel. “Sinto muito, mas acho que vocês iriam
preferir pegar o trem seguinte.”
Deixei o acelerador em
posição, então me reuni ao Rhys no meio do vagão. Ficamos de costas
coladas. Uma aranha se arrastava pelo teto, outra se agachava em um banco
próximo.
De repente, elas se viraram e foram em direção à outra ponta do vagão. As
que estavam
tentando forçar a porta lateral sumiram. Por quê?
Eu me virei e vi que
chegávamos com tudo à estação seguinte. Havia um trem parado adiante.
Voltei correndo para a cabine e puxei a alavanca até o fim, na minha
direção.
As
rodas
responderam, deixando duas
trilhas de faíscas. Bati minha cabeça contra o vidro da frente, já
meio
quebrado.
Nós
estávamos a 30 metros do trem, depois 15, e não estávamos desacelerando o
suficiente.
– Precisamos saltar fora! –
Rhys disse. Eu já estava forçando as portas laterais, terminando o trabalho
que
as
aranhas
começaram. Consegui entreabrir uma e vi as pessoas passando na estação a
poucos passos de nós.
– Você primeiro! – gritei, empurrando Rhys para a porta.
Ele saltou, rolando ao cair. Eu fiz a mesma coisa, enquanto os dois trens
colidiam com tanta força que dava para sentir o baque no ar.
Como nas duas primeiras,
aquela estação tinha dezenas de pessoas espantadas.
– Subam, subam, subam! –
Rhys ordenou. – Subam a escada!
Talvez
fossem
nossas
espadas, ou o sangue das
aranhas em nós, mas o fato é que elas obedeceram. Seguimos as pessoas
pelos degraus, enquanto víamos aranhas atrás de nós, e emergimos na
Columbus Circle, logo na esquina sudoeste do Central Park.
Sobre o solo era o caos, como antes. Mais daqueles estranhos automóveis
blindados zunindo pelas ruas, batendo nos carros
comuns e atirando-os para os lados
como
se
fossem
brinquedos. As pessoas saíam correndo do parque, chutando a neve com suas
botas. Através das árvores desfolhadas dava para ver uma dúzia de focos de
incêndio brilhando e corpos e veículos se movendo com um objetivo
claro,
em
marcha
ritmada para a invasão. Não era a temperatura que me deixava gelada.
Havia um táxi vazio na
calçada ao meu lado, com as quatro portas abertas. Alguém tentou assumir o
volante, mas eu atravessei correndo, cheguei antes ao assento do motorista,
acionei o câmbio e então parti para o asfalto, com as rodas patinando um
pouco na neve.
– Miranda! – Rhys me
chamou.
Mas eu não iria muito longe.
Virei o carro e dirigi direto para a escadaria do metrô. As quatro portas
bateram nas paredes e se
fecharam. As rodas quicavam nos degraus enquanto uma aranha aparecia no
canto da escada, pronta para subir e passar suas garras onde pudesse. A frente
do táxi a acertou e o carro a prensou contra a parede no primeiro degrau da
escada, não deixando espaço algum para outra passar por ali. Dois dos braços
da aranha prensada forçaram o para-choque até derrubá-lo; em seguida,
causaram
bons
arranhões
no
capô.
Eles
rasparam e cavaram e se contorceram, e então pararam.
Rhys já estava ao lado do porta-malas do táxi, quebrando o vidro traseiro
com sua bota. O
vidro se tornou uma única peça estilhaçada. Ele agarrou minha mão e me
tirou dali. As aranhas gritavam (não me pergunte como) na estação abaixo,
antes de se afastarem, procurando por outra saída. Elas logo iriam encontrar
uma, mas com isso eu ganharia tempo.
Subimos a escada e seguimos rumo aos arranha-céus do Time Warner Center.
Alguns idiotas estavam correndo pela porta da frente com roupas caras e –
juro por Deus – panelas e frigideiras de cobre.
De repente, uma voz ressoou,
mas de alguma maneira estava dentro da minha cabeça, como telepatia. Eu
sabia que todo mundo à minha volta também escutava,
porque
todos
estancaram.
Paralisaram.
“Saudações, povo de Nova York. Eu sou a líder do exército que está
invadindo sua cidade.
Não temam. Só pretendemos causar o dano necessário.”
Eu conhecia aquela voz. Ela pertencia à diretora da Terra Verdadeira.
Miranda
North
Original, de quem eu era um clone.
“Há algo nesta ilha de Manhattan que nós desejamos.
Quando
o
encontrarmos,
vamos embora e vocês jamais nos verão novamente. Nesse meio-tempo,
não
tentem
partir.
Enquanto
falamos,
armas poderosas estão sendo instaladas em torno de todo o perímetro da
ilha. Nada irá entrar ou sair, eu lhes garanto.
Seu país tentará posicionar aviões e satélites sobre nosso espaço aéreo,
mas eles serão abatidos.
Repito:
só
pretendemos causar o dano necessário. Sigam as instruções
e estarão a salvo.
Quem
for
visto
desrespeitando as ordens será destruído.”
Duas metralhadoras ecoaram
pelos prédios. Era impossível descobrir de onde.
“Panfletos
serão
distribuídos. Eles irão mostrar a
vocês
que
estamos
procurando. Quanto mais cedo encontrarmos o que queremos, mais cedo
sua cidade será devolvida a vocês. Ânimo,
cidadãos de Nova York. Este não é seu fim.”
5
Todo
mundo
parecia
perplexo no silêncio que se seguiu. Uma mulher deixou
tombar o computador novo que ela estava carregando. Algumas pessoas
apenas ficaram paradas, olhando para o céu, à espera de mais. Então um
motorista de táxi buzinou para alguém na rua,
rompendo o feitiço. Em pouco tempo, muitos voltaram a correr, mas dessa
vez eles não estavam em pânico, como se a promessa de que nem todos iriam
morrer fosse reconfortante.
Alguém chegou a gritar:
– ISSO É UMA PIADA?!
Um homem usando um terno
azul listrado berrava ao celular, até que alguém o arrancou de seu ouvido e
disparou em direção à escada rolante do metrô.
– Não vá por aí – avisei, mas
já era tarde demais.
Vamos
ter
bastante
trabalho pela frente – Rhys sussurrou.
Vi mais gente nas ruas vindo
em nossa direção, só que em uma marcha constante.
Definitivamente, não eram
pedestres.
Peguei na mão do Rhys.
– Precisamos entrar.
Ele me levou para a ala norte da torre mais próxima, em uma entrada
elegante. A guarita de
vigilância
estava
deserta.
Seguimos até um dos elevadores e Rhys usou uma chave, então pressionou o
botão que marcava
“53”. Enquanto subíamos, eu contava a minha pulsação em queda.
Ainda podia ouvir as palavras da diretora na minha cabeça, mais claras que
uma mera
lembrança.
Não dava pra engolir que eles não estavam ali para nos fazer mal,
especialmente depois de já
terem disparado mísseis por toda a cidade, mas eu acreditava que estavam à
procura de
alguma coisa.
Nosso primeiro passo devia ser encontrar um daqueles
panfletos.
A porta do elevador se abriu para um saguão espaçoso. À
nossa frente havia janelas que iam do chão ao teto, com vista para o parque.
Corri até lá.
Metade do Central Park estava em chamas, mas aeronaves de
aspecto
estranho
pairavam
sobre as labaredas e espirravam uma espuma que extinguiu o fogo
rapidamente. Era difícil discernir os detalhes à distância, mas aqueles jatos
claramente não eram do nosso mundo. Eram retangulares, com um motor
vertical em cada um dos quatro cantos. Nas ruas, mais daqueles carros
estranhos corriam por toda parte.
Ao Sul, quatro caças norte-americanos voavam baixo sobre
cobertura
dos
prédios,
disparando com sua artilharia pesada,
rajadas
amarelas
brilhantes contra o céu cinzento.
Ao vê-los, meu peito se enchia de esperança. Isso era para calar a boca da
diretora, com sua promessa de que ninguém
passaria pelas armas deles. Um dos jatos da Terra Verdadeira explodiu em
uma bola de fogo vermelha e preta. “Toma!” As outras
naves
da
Terra
Verdadeira saíram da formação,
partindo em alta velocidade em direções aleatórias, como óvnis.
Os
jatos
foram
adiante,
circulando em torno da ponta norte de Manhattan.
Mais perto, na direção do meio do Central Park, pude ver as margens da
Escuridão. Era um vazio familiar na forma de um círculo, um buraco no
próprio tecido de nosso mundo. Eu nunca quis ver aquilo novamente e pensei
que jamais precisaria.
A pé, o exército de Rosas
escoava do parque e avançava para
Sul.
Em
grupos,
infiltravam-se
nas
ruas
na
mesma marcha constante que havíamos visto antes.
– Miranda – uma voz familiar
chamou às minhas costas.
Quando me virei, ali estava Noble, bem como eu me
lembrava dele: alto, loiro e barbudo, com um sorriso capaz de nos aquecer
por dentro. Eu o vira um dia antes, mas para ele haviam sido meses.
– O Peter ainda não voltou? –
eu soube assim que entrei no apartamento.
De
alguma
maneira, pude sentir.
– Não, ainda não.
Havia uma gentileza nos
olhos dele que me fazia lembrar do dr. Tycast. Noble estendeu os braços
eu
abracei
brevemente.
– Sinto muito – foi tudo o que ele disse e eu aceitei.
– Eu entendo.
Finalmente, dei uma olhada
no apartamento. À minha direita, vi uma cozinha repleta de caixas com
equipamentos. A mesa de café da manhã estava entulhada de armas e
munições. Reparei num arpão com um carretel de metal, como o que Tobias
usara para evitar que Grace e eu caíssemos mortas no último verão.
– Noble arrumou brinquedos novos para nós – Rhys disse. –
Foi o que ele descolou enquanto você
estava
fora,
pegando
emprestado dos militares tudo o que eles deixavam.
– Essas armas não são
brinquedos – falei, passando um dedo sobre o cano de um rifle de assalto.
– Você sabe o que eu quis dizer – ele respondeu. E eu sabia.
– Você deveria ver o quarto de hóspedes. Ele o transformou em um
laboratório para preparar injeções de memória a partir de itens de
supermercado.
Eu sorri em agradecimento a
Noble. Rhys e Peter eram capazes de se virar sozinhos, sem dúvida.
Ainda assim, saber que Noble
estava cuidando deles fazia eu me sentir melhor a respeito da minha ausência.
Sofia apareceu, vindo do
outro quarto, e me deu um abraço. Seu cabelo preto havia crescido o
suficiente para ser amarrado em um rabo de cavalo curto. E ela devia ter
ganhado uns cinco quilos em músculos.
Sem dúvida estava treinando
com Rhys e Noble. Agora que ela não estava mais comendo restos, não
parecia mais uma menininha frágil.
– É tão bom ver você – ela celebrou, como se fôssemos velhas amigas que
apenas não haviam tido oportunidade de sair para a balada por um tempo.
Eu acenei.
– É bom ver você também – e,
para ninguém em particular, falei: – Preciso ir para o telhado.
– Por aqui – Noble indicou.
Nós tomamos o elevador.
– Peter foi encontrar tropas do
governo
que
estavam
escondidas na cidade quando o ataque começou – Noble contava, enquanto
subíamos. – Não
consegui falar com ele pela linha direta.
Parece
que
todas
as
comunicações caíram.
– Eu estava preocupada com o Rhys lá fora sozinho – Sofia disse para mim. –
Que bom que ele encontrou você para protegê-
lo.
Rhys deu uma fungada, mas logo se conteve. Sofia lhe deu um tapinha
brincalhão. Ele pegou na mão dela e a segurou por um segundo
antes
de
soltá-la,
relutante.
– Que interessante.
– Então, se Peter estava
trabalhando para o governo – eu continuei de onde Noble havia parado –,
onde está nosso contra-ataque? Eu vi alguns jatos e tanques, mas era pouco.
Cadê a
defesa?
– Não vamos conseguir
vencer apenas pela força – Noble disse. – Colocar tudo o que temos em uma
única batalha vai apenas resultar em nossa derrota. Nós precisamos de uma
reserva.
Precisamos nos organizar e então atacar.
Enquanto
as
pessoas
morrem – eu disse.
Ninguém respondeu.
As portas se abriram no topo
do prédio, revelando o rio
Hudson e, além dele, Nova Jersey.
Tudo parecia frio e cinzento daquela altura, apesar de a neve ter se reduzido a
poucos flocos.
O vento soprava no meu
capuz e o fazia abaixar. Nós andamos pela beirada e vimos exatamente o que
a Terra
Verdadeira quis dizer sobre o cerco à cidade. Vários daqueles jatos
de
quatro
motores
sobrevoavam
margem,
despejando cargas em caixas.
Diante de nossos olhos, as caixas
se abriam e revelavam torres mecânicas
enormes
que
tomavam duas pistas da estrada.
Parecia haver uma torre a cada 30
metros.
Logo
que
os
primeiros jatos voltavam para a cidade, outros chegavam e
continuavam a soltar caixas.
Do outro lado do rio, dois helicópteros militares pairavam sobre a orla de
Nova Jersey. As torres perto da estrada giraram sobre
suas
bases
até
se
alinharem com os helicópteros,
então
subitamente
se
contraíram,
estalando
com
eletricidade azul. Do outro lado do rio, os dois helicópteros explodiram em
enormes nuvens de fogo.
Meu
Deus
–
Noble
espantou-se.
Mais longe, outros jatos
militares passavam de um lado a outro no céu, mas não ousavam se
aproximar.
– Olhem para isso – Rhys gritou. Ele estava na outra ponta
da cobertura. Corremos até lá, meu coração já estava na
garganta. A vista para o parque era
ainda
mais
espantosa
daquele ponto. A coluna de fogo devia ter mais de um quilômetro de
extensão. Ela seguia na direção leste, chegando ao bairro do Queens. Mais
perto do chão, 20 dos estranhos jatos de quatro motores sustentavam o que
parecia ser um disco de metal espesso com centenas de metros de diâmetro.
O disco estava
pendurado por cabos entre eles.
Nós observamos enquanto eles desciam o disco até o meio do parque.
Aquilo
cobriu
completamente a Escuridão, algo que parecia impossível, pois o disco só
podia ter vindo de lá.
Assim que o disco foi posto em seu lugar, os jatos partiram com pequenas
rajadas de luz, e eu percebi que tinham atirado em alguma coisa, mas não
podia ver o quê. Quase imediatamente ocorreram
várias
explosões
entre as árvores, seguidas pelo som de troncos partidos e o ruído de dezenas
de galhos farfalhando ao cair. Só consegui vislumbrar
os
escombros
quando o vento limpou a fumaça.
Eram tanques. Os tanques que tínhamos visto na Broadway.
Então
percebi
que
não
importava o que mais os
militares
tinham
planejado.
Precisávamos nos virar sem eles.
– O que é esse disco? – Rhys perguntou.
Antes que alguém pudesse responder, um movimento no topo da torre sul do
nosso prédio capturou nosso olhar. Duas pessoas
estavam
nos
observando por trás do cercado, com posturas rígidas. Elas estavam vestidas
com trajes como os nossos, mas eram
vermelho-escuros em vez de pretos. Estavam longe demais para notarmos os
detalhes, porém reconheci o cabelo ruivo –
meu cabelo ruivo – de uma
Miranda e as mechas loiras de um clone de Rhys. Por um momento apenas
olhamos uns para os outros, completamente confusos, antes que eles se
afastassem do cercado com um impulso e corressem para os degraus.
Na torre norte, Rhys e eu fizemos o mesmo um segundo depois. Nós nem
falamos.
– Use o arpão! – Noble gritou atrás de nós. – Temos dois! – ele sabia dos
riscos. Os Rosas
estavam fugindo porque iriam reportar nossa localização, se é que já não
tinham feito isso.
“Como sabiam que éramos nós?”
Mas eu tinha a resposta. Se fôssemos apenas Rhys e eu, poderíamos ter
encenado, porém com Noble e Sofia não daria para enganar.
Pegamos o elevador para o apartamento. Rhys agarrou um arpão da mesa de
café da manhã enquanto eu me ocupava de atirar uma cadeira pela janela do
meio. Ou tentar. A cadeira bateu e voltou, só que eu a peguei de novo e a
atirei na janela de novo até fazer estremecer e romper o vidro de segurança, o
que deixou uma rajada de ar frio entrar. A segurança da nossa base já era.
Mas não tínhamos mais
escolha.
A mistura de ar quente com frio fez meu nariz escorrer. Rhys me jogou um
arpão. Meus olhos perscrutaram
ambiente,
escolhendo o melhor ponto para
mirar. Nós estávamos ali havia 15 segundos. Se o elevador já estava no topo
quando eles o tomaram, podiam estar na
metade da descida.
– Como isso funciona? –
perguntei, e logo percebi que tinha um gatilho e um botão marcando
ATIRAR/RETRAIR.
Rhys disparou o dele no chão
e a extremidade do arpão se enterrou no concreto sob o carpete.
Fiz o mesmo. A recolhida era
tão poderosa que quase escapou da minha mão.
Assim
ele
disse,
prendendo o cabo com os dois pés. – Aperte o gatilho para desacelerar a
descida. Mas vamos logo.
Ele segurou a arma com as duas mãos e mergulhou de
costas pela janela.
– Ah! – exclamei.
Rhys voou para o chão, com o
arpão zumbindo em suas mãos enquanto
rapidamente
desenrolava o carretel. Saltei depois dele, de cabeça, notando o quanto aquilo
era insano. Não fazia nem uma hora que eu tinha voltado da morte.
Apertei meu queixo contra o peito para manter as mãos firmes na
empunhadura. A corda arranhava os pés enquanto
desenrolava com um ruído alto.
Embaixo de mim, o asfalto se aproximava a cada segundo, enquanto o vento
congelava as lágrimas nos meus olhos e
fustigava meu cabelo contra o rosto. Apertei o gatilho e minha descida
desacelerou. O sangue latejava veloz pela minha cabeça, dando a sensação de
que eu iria explodir . “Não solte.” Rhys estava bem na minha frente, quase
no solo. Mantive uma pressão
constante no gatilho enquanto o som da cidade ficava mais alto.
As
pessoas
ainda
estavam
correndo pelas calçadas e o trânsito
estava
totalmente
parado, com muitos carros
abandonados impedindo que o fluxo
voltasse
ao
normal.
Faltavam três metros para o solo.
Soltei a pistola e dei uma cambalhota para trás, caindo em pé,
momentaneamente tonta
quando o sangue subiu à minha cabeça. Rhys me deu a mão para ajudar a me
aprumar e dois segundos
depois
estávamos
correndo na calçada de nosso prédio.
– Por onde eles vão sair? –
perguntei sem fôlego.
– Provavelmente pelo lado sul.
Nós dobramos a esquina da 58th Street, então paramos perto de
outro
tanque
norte-
americano.
Este parecia abandonado,
com a escotilha no topo aberta e o motor ligado à toa, com um ruído rouco.
Mas não foi isso o que chamou minha atenção.
Logo à frente havia mais um dos estranhos veículos blindados da Terra
Verdadeira, estacionado
junto ao meio-fio, como se o motorista tivesse parado para ir à farmácia ou
algo assim. Devia pertencer à outra Miranda e ao outro
Rhys.
Nós
tínhamos
chegado a tempo.
Tirei a Língua de Fogo das costas e nos aproximamos da saída do prédio.
Como esperado, 20 segundos depois os dois Rosas vestidos de vermelho
surgiram, indo direto para o carro
blindado.
Se
eles
chegassem ali antes de nós,
estaria tudo terminado, não poderíamos
detê-los.
Nós
cobrimos a distância o mais rápido que pudemos e em
relativo silêncio, com os passos abafados pela neve da rua.
Cheguei primeiro até a Miranda.
Ela
se
virou
quando
me
aproximei. Agarrei seu braço e ela se moveu para me bloquear.
Eu a fiz girar e dei um tapa em sua nuca, então bati a testa dela na porta do
carro, deixando-a inconsciente.
Rhys lutou com o clone dele, que estava atrás de mim.
– Dê uma ajudinha... – ele bufou.
O clone ia me dar um chute, mas agarrei a perna dele e o chutei em um lugar
que não era o joelho. Ele uivou de dor e vacilou, então Rhys passou uma
rasteira na outra perna, com força o bastante para fazê-lo girar no ar.
A cabeça dele se chocou contra o chão da rua e ele ficou imóvel.
Eu me ajoelhei ao lado de
Miranda, passei os dedos pelo pescoço dela, com os olhos no espaço à nossa
volta.
– Ele está morto?
Rhys checou a pulsação de seu clone.
– Não, ainda não.
As pessoas na rua tinham
parado
para
nos
observar,
inclusive um bombeiro todo aparamentado.
– Saiam daqui! – gritei para eles.
O bombeiro começou a dizer
algo, mas um dos jatos da Terra Verdadeira passou num voo
rasante pela esquina acima de nós e o deslocamento de ar o derrubou. O jato
diminuiu a velocidade e parou, com calor irrompendo dos motores, e o
barulho eriçou minha pele.
Cambaleei com a lufada, a neve ao meu redor se tornou vapor. As pessoas se
afastavam como
baratas e eu ia procurar abrigo quando
pedaços
de
papel
começaram a flutuar pela rua,
esvoaçando por baixo do jato.
Eles enchiam o ar, soprados pelo vento.
Agarrei um.
No
topo
estava
escrito:
ENCONTREM ESTE HOMEM.
Embaixo,
lia-se:
DENUNCIEM/ENTREGUEM-NO
AO
INVASOR MAIS PRÓXIMO.
Bem, ao menos eles eram
sinceros a respeito de como deveríamos chamá-los.
No meio, havia uma foto de um homem que eu reconheci, apesar de nunca tê-
lo visto antes.
Parecia
com
meu
ex-
namorado, Noah, que apagara minhas memórias e depois
morrera tentando me proteger. A diferença era que esse homem aparentava
ter cerca de 30 anos a mais.
Era Noah East , Sr. East , um de nossos criadores.
6
–Rhys... – comecei a dizer.
– Isso pode esperar – ele rosnou; em seguida, arrastou o clone dele até a
traseira do carro blindado.
– Pegue a outra.
Enfiei o papel no bolso da minha calça jeans, então peguei o peso morto do
meu próprio
clone.
Havia um distintivo no traje dela, logo abaixo do pescoço.
Estava escrito M-96. Peguei suas armas, uma espada como a
minha e um rifle de assalto que parecia futurístico demais para nosso mundo.
Então a arrastei para o
veículo, ao lado do clone do Rhys.
Rhys tocou na porta, que se abriu para cima com um silvo metálico. Por
dentro, parecia um ônibus espacial.
– Vou estacionar isto aqui na garagem e então levar nossos novos
amigos
para
apartamento. Vá na frente para se certificar de que eles não chamaram
reforços.
Ele fechou a porta sem
esperar por uma resposta. O
carro blindado deu partida com um gemido baixo que aumentava
progressivamente enquanto se movia.
Os
dois
clones,
amolecidos no banco traseiro, sacudiram com os trancos, mas
não rolaram. A visão me fez rir, por algum motivo.
Segui adiante, com o rosto escondido pelo meu capuz e as mãos no bolso, tão
discreta quanto possível. Pensando bem, talvez eu tivesse me misturado
melhor à multidão andando
como uma tonta. As pessoas ainda pareciam confusas depois do anúncio
mental da diretora.
Da frente do prédio, eu
vigiava enquanto o exército de Rosas continuava vindo do
parque. A maioria tinha trajes de escamas pretas, mas alguns vestiam prata,
vermelho ou branco. Olhei para eles por algum tempo; nenhum se movia em
minha
direção.
Até
aquele
momento, barra-limpa.
A tropa mais próxima passou
por um grupo de pessoas que tentaram fugir, mas os Rosas ergueram as mãos,
como se sinalizassem “Está tudo bem, não vamos
machucá-los!” ,
as
pessoas pararam. Como eles os
estavam controlando? Recorri ao meu sexto sentido, entretanto não senti
nenhuma onda de medo vindo dos invasores.
Os Rosas os cercaram e
varreram os olhos deles com uma espécie de caneta a laser, um por um.
Presumi que era algum tipo de
escaneamento.
Estavam
procurando pelo East . Se ele fosse esperto como nós, estaria usando um
disfarce, e os Rosas sabiam disso.
Depois de um minuto, os
Rosas prosseguiram, deixando as pessoas ainda mais confusas.
Eu
esperei
mais
dois
minutos,
então
decidi
que
estávamos seguros e entrei no nosso prédio.
Rhys já havia amarrado os Rosas em cadeiras de metal quando cheguei. O
clone dele tinha um distintivo no uniforme, como o da outra Miranda: estava
escrito R-34. Os dois clones ainda estavam desmaiados, com os queixos nos
peitos. A M-96
estava com um hematoma roxo bem feio na testa.
Atrás deles, Sofia se ocupava de cobrir a janela quebrada com um papelão,
mas o vento
continuava soprando, sacudindo bastante
aquele
remendo
improvisado.
– Bom trabalho – Noble disse
quando entrei. Deixei que ele me guiasse até a cozinha. Havia um
shake proteico e um sanduíche de presunto no balcão, mais duas garrafas de
água. Ao lado da comida
vi
um
mapa
de
Manhattan, com algumas regiões circuladas em vermelho. A
caligrafia dele, com letras bem pequenas, espalhava-se por todo o mapa.
– Obrigada – eu disse,
enquanto Noble se inclinava sobre o mapa, com uma caneta na mão. Meu
nariz ainda estava dormente por causa do frio.
Peguei uma garrafa de água e comi metade de um sanduíche, então me
aproximei dos dois Rosas.
– Acho que devemos deixá-
los acordar – Rhys sugeriu, mas meu tapa no rosto da M-96 o interrompeu. –
Ou podemos
despertá-los assim.
Em seguida, dei um tapa forte no R-34 .
A M-96 acordou primeiro,
piscando os olhos em ritmos variados, como uma boneca
esquisita ganhando vida. Ela girou a cabeça para um lado e para o outro,
avaliando o entorno.
– Solte-nos – ela ordenou.
– Pode esperar sentada –
respondi.
Ela me encarou.
– O que vocês estão fazendo aqui? – perguntei.
O R-34 acordou tossindo. Ele
se remexeu, tentando se livrar das amarras. Atrás deles, Noble havia trocado
a caneta por uma
espingarda. Ele sempre nos dava cobertura.
– O que vocês estão fazendo aqui? – repeti.
– Vocês não viram o panfleto?
– a M-96 disse. Ela falou como se cuspisse as palavras; dava para notar o
quanto estava furiosa.
Panfleto?
Noble
perguntou.
Tirei o papel do meu bolso e o entreguei a ele. A sobrancelha dele
se
ergueu
quando
reconheceu o East . Ele disse: –
Hmm. Eu envelheci melhor do que ele.
– Então vocês isolaram toda a ilha para encontrar um homem?
– Rhys perguntou.
O R-34 fitava Rhys.
– Você é um traidor – ele disse. – Você foi criado para estudar este mundo,
não para defendê-lo.
– E quem é você? – a M-96
cuspia em mim. – Você não é a Miranda da equipe Alfa. Ela está morta. Ela
se explodiu.
– A não ser que você tenha voltado à vida – o R-34 disse com um sorriso
afetado.
Eu não respondi.
Interessante
ele
continuou. Meu silêncio era toda a confirmação de que ele
precisava. – De quanto você se lembra desta vez?
“Como eles sabem tanto a nosso respeito?”
Sem uma palavra, Rhys
chutou o R-34 no peito. A cadeira se inclinou para trás e tombou. O
r-34 perdeu o fôlego e se contorceu para trás e para a frente. Mas com isso ele
pôde ver Sofia colando as últimas fitas na janela.
Ele soltou um riso vitorioso quando o puxamos de volta à posição anterior.
No segundo seguinte, quando minha mão se fechava ao redor do pescoço
dele, eu captei o aroma de rosas.
– Não! – eu o soquei no rosto, mas a M-96 estava disparando suas
próprias
ondas,
acrescentando o poder dela.
Noble deu um passo para trás, com o rosto contraído de medo, apesar de estar
preparado para essa energia, como os outros criadores.
Só que não era o caso da Sofia. Ela soltou um berro agudo, machucando
meus ouvidos. Ela já
estava
soluçando,
cambaleando para trás, com as mãos sobre o rosto, os dedos se fechando
como garras. Todos nós gritamos o nome dela:
“SOFIA!”. Ela deu um passo, dois, então
três.
Seus
ombros
encostaram no papelão, que se curvou para fora. A fita saiu gemendo
pela
janela,
se
estendendo,
se
estendendo,
enquanto ela se contorcia, sem conseguir afastar as ondas de pavor.
No momento em que o
papelão se rompia, Rhys se lançou na direção dela e agarrou seu pulso.
– TE PEGUEI!
Dei um tapa tão violento nas costas do R-34 que ele saiu do lugar, então
saltei por cima dele para ajudar Rhys. Sofia quase o puxou pela janela junto
com ela, porém ele espalmou a mão no vidro com força o suficiente para
segurar ambos. Sofia arranhava o braço dele, tentando escapar da pegada,
revirando-se para a frente e para trás.
– Sofia, pare! – Rhys disse, envergando mais para fora da janela.
Noble e eu chegamos no segundo seguinte. Eu agarrei o outro braço da Sofia,
o ar frio fustigando meu rosto, e Noble puxou Rhys por trás, fazendo-se de
âncora até conseguirmos trazer os dois de volta para dentro.
Sofia
continuava
tentando escapar para fora, com os
braços
trepidando,
arranhando nosso rosto com os dedos, até Rhys prender os braços
dela
pelas
costas,
segurando-a firme e tirando-a do
chão.
Marchei até o R-34 e o chutei com tudo na têmpora para fazê-
lo parar. A onda de medo dele se esvaneceu, já dava para sentir novamente o
ar tomado pela fumaça que vinha de fora. As pálpebras dele tremelicaram
antes
de
se
estabilizarem.
Entretanto,
Sofia
ainda
estrebuchava e gritava.
– Pare a outra, Miranda! –
Rhys gritou, virando o rosto de lado
para
que
Sofia
não
quebrasse seu nariz com a nuca.
Fui até a M-96 e a sufoquei até que o aroma de rosas desaparecesse
completamente.
Os olhos dela saltaram e
pequenas veias capilares nas bochechas e nos olhos incharam.
– Miranda, já chega – Noble disse. – Já chega.
Eu levei mais um segundo, então a soltei. Arrastei-a para o banheiro, que era
enorme,
repleto de mármore, e bati a porta. Sofia estava soluçando no
outro
banheiro
soluços
engasgados,
resfolegantes;
angústia dela era como agulhas nos meus ouvidos. Empurrei a M-96 com um
tranco no peito, e ela caiu para trás até a cadeira bater na banheira, parando
em um ângulo de 45 graus.
A M-96 estava respirando
pesadamente,
encarando-me
com olhos arregalados. Supus que era assim que eu ficava quando sentia
medo.
Tirei a Língua de Fogo das
costas e coloquei a ponta entre o fim do pescoço dela e o
distintivo.
– Acabei de ressuscitar pela segunda vez e meus sentimentos a
respeito
disso
são
complicados.
Especialmente porque morri
pensando que eu faria alguma diferença.
Os olhos dela ficaram ainda mais arregalados do que antes.
– Você é mesmo ela.
– Sim. E não estou com
paciência. Nenhuma. Diga-me por que a diretora quer tanto o East e eu não
atravesso isto pela sua garganta. Se você não... Bem, ao menos seu pescoço
está ao lado de uma banheira.
Ela fechou os olhos e engoliu em seco.
Fiquei
quase
surpresa
quando ela abriu a boca e começou a falar. Quase.
– O East possui um item de grande importância – as palavras dela saíam
apressadas, como se
ela tentasse terminar antes de se arrepender.
Coloquei a espada na pia, mas não retirei a mão de cima dela.
– Aham. Importante por quê?
Alguém bateu à porta.
– Abra, Miranda – era Rhys.
– Me dê um minuto – eu sabia
que
deveria
incluí-lo
no
interrogatório,
mas
minha
paciência estava por um fio.
Apertei o botãozinho de trava na porta.
– Por favor – ele pediu. Ele
bateu à porta de novo, dessa vez suavemente. – Não faça nada estúpido.
Eu o ignorei e me voltei para o clone.
– Eu perguntei: importante por quê?
A M-96 disse:
– Não sei. Eu juro! Nós vamos ter uma reunião daqui a pouco.
Na Verge. Daqui a uma hora e meia.
– Miranda, é sério, você
precisa ver isso aqui – Rhys disse
através da porta.
– Já vou – pus a mão na maçaneta. – Do que você está falando? Eu destruí a
Verge.
Ela não disse nada.
Rhys forçou tanto a maçaneta
que o botão de trava saltou. Ele abriu a porta.
– Você precisa mesmo ver isso.
Pensei que sabia o que ele queria me mostrar.
– Nós ainda não acabamos –
eu disse para a M-96 . Ela acenou
rapidamente, tão obediente que eu quase quis passar a mão na cabeça dela.
Apertei um pouco mais as amarras dela para garantir que tudo estivesse em
segurança.
Na sala principal, Sofia estava no sofá, agarrada a um cobertor.
O cabelo escuro dela estava despenteado
lágrimas
brilhavam em suas bochechas.
Ela voltava o queixo para a janela quebrada, onde estava Noble, olhando para
fora.
Eu me juntei a ele bem a tempo de ver a Verge tomando forma. O disco de
metal sobre o parque não estava mais plano.
Desdobrava-se para cima, como uma montanha que se ergue da terra,
afunilando-se em níveis, até o prédio assumir a forma de uma colmeia
metálica.
Mas havia uma diferença em relação à Verge que eu destruíra.
Essa tinha uma coluna enorme no topo em vez de um escritório.
Enquanto observávamos, uma
luz vermelha começou a brilhar na extremidade da coluna. Logo ficou intensa
demais para se olhar. Antes que eu me virasse, um raio vermelho espesso foi
disparado na direção do céu.
Meus olhos o seguiram até as nuvens,
onde
um
avião
sobrevoava a cidade. Creio que era uma aeronave espiã militar, pois nesse
momento o tráfego aéreo normal provavelmente já estava suspenso. O raio
atingiu o avião, transformando-o em uma
bola de fogo que logo se reduziu a pedaços de sucata em chamas.
Os destroços choveram sobre Manhattan,
levando
uma
eternidade para cair, como faíscas de tenebrosos fogos de artifício.
7
–Nós temos duas opções – eu
disse. – eu e o Rhys podemos pegar os uniformes deles e ir à reunião na
Verge, ou podemos procurar pelo Peter e ver se ele está articulado com as
forças armadas na cidade.
Secretamente, eu esperava
não encontrar Peter tão cedo. Por
mais que eu o quisesse lutando ao meu lado, torcia para que ele estivesse
pegando
leve,
esperando até as coisas se ajeitarem. Andar sozinho seria um risco para ele,
pois as pessoas iriam confundi-lo com os outros Peters que atacavam a
cidade.
“Proteja-se”, pensei com toda força que pude, mas eu não sou telepata.
Nós estávamos na cozinha. O
R-34 ainda estava desmaiado e a
M-96 sabia que já havia esgotado nossa
paciência.
Eu
havia
conferido um minuto antes e ela estava
na
mesma
posição,
olhando para mim como um
animalzinho ferido. Achei um pouco repulsivo ela ter sido domada tão
facilmente.
– Creio que o melhor é
fazermos as duas coisas – Noble respondeu.
– E o que vamos fazer com os
clones? – Rhys perguntou.
Noble franziu a testa e coçou
a barba.
– Eles não vão a parte alguma.
Podemos mantê-los presos por mais tempo, afinal já deixamos claro o que vai
acontecer com eles se usarem os poderes novamente.
Sofia se aproximou. Ela
deixou o cobertor cair no chão.
– O Noble e eu podemos
procurar pelo Peter. E, com sorte, à noite nos encontramos em algum lugar.
– Procurar por ele onde? –
perguntei. – Não é uma cidade pequena.
–
Nós
temos
outros
esconderijos – Noble disse. –
Podemos começar por eles.
– Os invasores certamente
nos reconhecem – falei. – Caso contrário, a Coisa Um e a Coisa Dois aí não
teriam se abalado ao nos verem. E o exército deles está escaneando todos que
encontra.
Sofia sorriu, e eu ousaria dizer que com certa arrogância.
– Miranda, sem ofensa, mas o Noble e eu aprendemos a nos mover com
discrição há muito tempo.
não
estaremos
completamente indefesos, em termos de armamentos – Noble disse,
colocando sua mão no meu ombro. – Mas obrigado pela preocupação – ele
me lançou um sorriso paternal e reconfortante.
Rhys olhou para mim.
– Temos que ir andando, Mi.
– Está bem.
Meu coração queria procurar pelo Peter, com Noble e Sofia, entretanto eu
sabia que ir para a Verge era mais importante. A prioridade número um era
descobrir se a Terra Verdadeira estava realmente procurando pelo East ou se
tinham voltado para terminar de matar cada ser humano do planeta. Meu
palpite era de que eles não iriam apenas recuperar um brinquedinho e voltar
para casa.
– Fiquem longe do metrô, não
importa o quanto vocês queiram usá-lo – eu aconselhei ao Noble e à Sofia. –
A Terra Verdadeira tem novos monstros. Não são sem-olhos.
Sofia franziu o cenho.
– Será que eu quero saber?
– Tenho certeza que não –
Rhys se adiantou. – Mas vou contar mesmo assim.
Deixei
todo
mundo
na
cozinha e voltei para o banheiro enquanto Rhys começava a
explicar sobre as aranhas. A M-
96 estava olhando para um canto no chão. Pisei no pé da cadeira e a trouxe
para a vertical.
– Você vai usar seu poder? –
perguntei.
Ela balançou a cabeça.
– Diga.
– Não – ela respondeu.
– Acho bom – eu sorri para ela. – Preciso do seu traje.
O lábio superior dela se
curvou um pouco.
– Você vai me causar
problemas.
– Você acha mesmo que tem escolha? – Ela ficou imóvel enquanto eu
removia o traje, sem jamais libertar mais de um membro por vez. Por baixo,
ela usava algum tipo de macacão fino. Um músculo do antebraço dela
começou a latejar; eu podia sentir o quanto queria me agredir. Mas ela
pensaria duas vezes.
– Conte-me como funciona a hierarquia – mandei, enquanto checava mais
uma vez suas
amarras.
– O que significa cada cor de traje? Quero detalhes.
Ela bufou, com um bico que soprou o cabelo da testa.
– No topo estão os trajes azuis. Existem 30 deles. Abaixo, os prateados, que
são capitães. E
então
temos
nós,
os
especialistas. Trajes pretos ou brancos são para a infantaria.
Satisfeita?
– O que faz um especialista?
Ela sorriu.
Nesta
missão,
nós
controlamos o H10.
Um arrepio desceu pela
minha espinha. O H9 é um tipo de plástico explosivo que derrete
– mais do que explode – qualquer coisa em que encosta. No último verão
usamos um monte daquilo para destruir o laboratório principal dos criadores
em Cleveland. Presumi que o H10
fosse algum tipo de variante.
Ela deve ter intuído que eu estava prestes a fazer mais
perguntas.
– Escute, vá para a reunião e lá você vai descobrir o que devemos fazer. Nós
vamos usar os prédios onde suspeitamos que o East esteja escondido. É
simples.
– O que o East possui que vocês querem?
– Eu já disse. Não sei. Iríamos descobrir nesta noite, até você nos atacar.
A audácia dessa frase me
deixou de queixo caído. Nós que
atacamos? Quero dizer, sim, fizemos isso, mas será que dá para dizer que
alguém ataca um invasor? A M-96 parecia querer rir, mas dei um tapão no
peito dela mais uma vez, o que a fez se reclinar de volta contra a banheira. Só
que dessa vez a cadeira escapou e ela tombou de costas no chão.
Levei o traje para o quarto do Peter. Sabia que era dele porque havia uma foto
minha no criado-mudo. Eu não me lembrava de
ter tirado a foto. A imagem me mostrava em nossa cozinha, com o rosto meio
virado para o lado, meu cabelo caindo sobre meu olho direito. Parecia que eu
estava fazendo pose, mas não estava.
Fechei a porta, então tirei o traje que eu estava vestindo.
Deixei-o sobre a cama, ao lado do vermelho da M-96, e me estendi sobre o
edredom. Eu podia sentir o cheiro do Peter no travesseiro.
Meus olhos arderam com
lágrimas.
Nós
havíamos
combinado de conversar depois que salvássemos o mundo. Eu prometera isso
a ele, mesmo sabendo que iria morrer. Agora eu estava de volta. E ele não
estava ali, e eu não tinha ideia do que ele iria achar daquilo tudo.
Será que eu ainda era a mesma pessoa para ele? Não fazia diferença quantas
vezes eu voltava? Provavelmente sim.
Era errado, mas bisbilhotei as gavetas.
Encontrei
roupas
diversas
que
não
estavam
dobradas.
Uma camiseta velha que eu costumava usar para dormir. Na cômoda
dele,
armas
desmontadas estavam alinhadas de maneira bem organizada, limpas
lubrificadas.
No
armário, um traje de escamas reserva e uniformes militares.
Pensei em pegar a espada que encontrei na prateleira de cima, já que não me
sentia bem usando a da m-₉₆, mas no fim achei que
já estava me acostumando com o cabo derretido da Língua de Fogo. Nós
passamos por tanta coisa juntas, aquela espada e eu, e a lâmina ainda parecia
intacta –
que era o que importava.
Alguém bateu à porta e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se
abriu.
– Ei... Oh, meu Deus! – Rhys disse, tampando os olhos com a mão.
Eu pulei para dentro do
armário.
– A maioria das pessoas espera por uma resposta depois de bater à porta.
– Desculpe! Mas é que... Está ficando tarde! E...
– Vire para lá!
Ele se virou. Eu me arrastei até a cama, então peguei o traje vermelho. A
sensação não era diferente da do meu próprio traje. As escamas eram de um
vermelho intenso, como sangue meio úmido.
– Pronto – eu disse.
Ele virou de volta, com as bochechas coradas.
– Eu não vi nada. Só um pouquinho.
Não
foi
muito
mesmo, é bom dizer. Além disso, você é quem estava andando pelada pra lá e
pra cá, como uma louca.
– Aham. Não vamos perder
mais tempo. Você também
precisa pôr seu traje do R-34 .
– Sim, é mesmo. Eu vim pedir
sua ajuda. É bem esquisito...
despir a mim mesmo.
– Rhys. Você se despe todos os dias. Ao menos eu espero que sim.
– Sim, mas sou eu! Ele é ele.
Mas é eu. E eu... Vamos, por favor?
Eu não pude evitar um
sorriso.
– Está bem, vamos lá.
O R-34 estava acordado
quando saímos do quarto. Ele viu meu traje e o distintivo sob meu pescoço.
Seus olhos ficaram arregalados e ele rangeu os
dentes.
– Noventa e seis, cadê você? –
ele chamou.
– Estou aqui – ela gritou do banheiro. – Não tente nada estúpido – Rhys havia
dito a mesma coisa para mim poucos minutos antes.
Rhys passou pelo mesmo
processo que eu para remover o traje do R-34 , e eu ajudei, imobilizando-o
quando
necessário.
– Sinto muito por isso,
camarada – Rhys falou. – Ei, como vocês chamam aquele
carro bacana que eu roubei de vocês?
– Nós o chamamos de... – o R-
34 não terminou a frase, como se ele se lembrasse de repente de que não
deveria nos dar
informações voluntariamente.
– Temos mesmo que passar
por tudo aquilo cada vez que fizermos uma pergunta? – eu disse.
– Espinho. Nós o chamamos
de Espinho.
Rhys e eu olhamos um para o
outro, então explodimos em gargalhadas.
– Espinho... – eu quase não conseguia falar. – Rosas...
Nossa
risada
contagiou.
Noble, que estava analisando os mapas, começou a rir. Sofia ria se sacudindo
no sofá. O R-34 ficou olhando para o chão. Eu não conseguia parar; mal
podia respirar.
Lágrimas escorriam pelo meu
rosto. Quando penso nisso, não era engraçado, não tinha mesmo graça
nenhuma, mas na hora sentimos a tensão aliviada em ondas.
Rhys falava entrecortado,
gargalhando:
– Vocês... são tão... patéticos.
As
bochechas
do
R-34
ficaram coradas.
– Não fui eu quem inventou o
nome.
Logo depois conseguimos
nos controlar. Foi bom dar
risada, mas de repente a ausência do riso ficou quase dolorosa.
– Muito bem – Rhys disse, enxugando uma lágrima. – Então como é que
chamam os jatos? De estames? – ele riu de novo, mas dessa vez já não tinha o
mesmo sentimento. O momento passara.
– Eles têm um nome técnico, mas nós os chamamos de
Machados. Porque são planos e retangulares, como as lâminas de um
machado. É engraçado?
Talvez fosse, mas eu já tinha rido o suficiente.
– E as armas? – perguntei.
O R-34 continuava enquanto Rhys ia vestindo o traje.
– Chamamos os rifles de AIRs: Armas de Investida dos Rosas.
Eles disparam balas de irídio, que transferem a energia para o alvo
sem
atravessá-lo,
basicamente
vaporizando-o,
dependendo do material. Se você atirar
em
si
mesmo
acidentalmente
na
potência
máxima, vai morrer – ele respirou fundo, tremendo um pouco. – Cada AIR é
conectada a um dos nossos trajes. Se você não estiver usando o traje, não
poderá disparar.
– Ótimo, conte tudo para eles!
– a M-96 gritou do banheiro.
– Estou tentando nos manter
vivos! – ele gritou de volta.
– E está fazendo um bom
trabalho – eu disse a ele.
Nós os checamos pela última
vez. Rhys ficou bem de vermelho.
Ele apertou a mão do Noble, que o puxou para um abraço. Eles deram
tapinhas nas costas um do outro, como os homens gostam de fazer.
– Você tem um plano? – Rhys
perguntou.
– Sim – Noble respondeu. –
Pensei em um trajeto pela cidade que vai nos manter longe das avenidas
principais. Se o Peter estiver escondido, nós vamos encontrá-lo.
Sofia me abraçou novamente.
– Estou feliz que você tenha voltado. Ser a única garota na casa...
– ... É um saco – Rhys sugeriu.
– Sim – Sofia concordou. –
Demais – mas ela sorriu para mostrar que não era tanto.
– Também estou feliz por ter
voltado – respondi, apesar de tecnicamente ainda não ter decidido como me
sentia. Mas eu não iria ficar brava por estar viva. – Você está se sentindo bem
agora?
Ela fungou.
– Sim. Obrigada por não me deixarem cair e morrer. Eu não vou permitir que
eles me
peguem desprevenida de novo.
Seria bom, se ela tivesse controle sobre isso. Mesmo assim, eu acenei com a
cabeça.
Noble
nos
deu
escutas
eletrônicas tão pequenas que eram quase invisíveis.
– Apertem aqui para acioná-
las. Não as usem dentro da Verge, para evitar que rastreiem as
ondas de transmissão. Depois que saírem, entrem em contato para termos
notícia.
– Pode deixar – Rhys disse.
– Você tem algo para nos contar sobre o East? – perguntei.
Noble
coçou
a
barba
novamente. Ele encolheu os ombros.
– Eu não o vejo faz anos. Para todos os efeitos, ele... era um dos bons. Quero
dizer, se qualquer um de nós fosse bom. Não sei no que ele anda se metendo,
mas sei
que ele abandonou os criadores por vontade própria um pouco depois de
mim. Pensei que o tivessem matado, mas...
– Aparentemente não – Rhys concluiu.
– Aparentemente – Noble
reforçou, dando uma palmadinha no ombro do Rhys. – Tomem cuidado lá
fora. E fique de olho nele, Miranda. Aliás, mantenham os dois olhos nele.
– Sim, senhor – respondemos
em uníssono.
Nós entramos no elevador.
Noble e Sofia nos olhavam, e eu podia dizer que Sofia queria falar alguma
coisa para o Rhys, mas ela apenas mordeu o lábio inferior, acenou com a
cabeça e se virou.
Noble estava segurando a
espingarda, o que fez eu me sentir melhor.
O R-34 também estava nos
observando.
– Boa sorte – ele disse, com um sorriso afetado.
Enquanto
descíamos,
cutuquei Rhys com o cotovelo.
– Eu não sei o que perdi mas
se você não disser para a Sofia o que sente por ela, eu vou dizer –
era um blefe, mas eu achava que o palpite estava certo.
Rhys
ficou
em
silêncio
durante dez andares. Então ele suspirou.
– Eu conto. Quando tudo
acabar – ele me cutucou de volta.
– E não venha me ameaçar.
Caramba, voltou faz só algumas
horas e já está toda mandona.
Circunstâncias à parte, era bom estar de volta com Rhys.
Na garagem, ele tirou duas AIRs do Espinho.
– Você quer ir de Espinho? –
ele perguntou, e me entregou uma das AIRs, que era comprida e pesada.
Havia botões com números na lateral, os quais eu presumi que regulassem a
potência
de
cada
disparo.
Apontei-a para a parede mais distante, apoiei-a com firmeza
no meu ombro e puxei o gatilho.
parede
simplesmente
explodiu.
Escombros choveram sobre
os carros estacionados ao lado. O
buraco tinha três metros de largura. Não senti o coice do disparo e o único
som foi um chiado, o que era estranho, porque a carga tinha que ter quebrado
a barreira do som para causar tanto estrago.
– Talvez seja melhor não
fazer isso de novo – Rhys disse.
– Ao menos agora eu sei como funciona – abaixei a potência para o número
três.
Imaginei como seria atirar em um corpo humano com aquilo, mas
imediatamente
me
arrependi da imagem.
Pusemos as AIRs em nossas costas, ao lado das espadas, então subimos a
rampa para a 60th Street, no meio de uma tarde fria de rachar. Meu rosto
ficou dormente em um instante, mas ao menos parara de nevar.
Automaticamente, olhei em volta procurando pelo Peter, como se ele
estivesse
na
rua
nos
esperando. Quem me dera.
A rua estava desocupada
agora, como um cenário de filme vazio,
com
apenas
alguns
figurantes passando ao longe.
Somente o uivo do vento nos fazia companhia. A maioria das pessoas
provavelmente
encontrara abrigo àquela hora, mas temporariamente, como se todo mundo
estivesse esperando
para ver o que iria acontecer.
Olhei para as janelas à nossa volta e vi rostos nos observando.
Pessoas
apontando,
pessoas
notando nossa presença. Nós precisávamos
continuar
andando.
O ar estava impregnado de fumaça, com uma poeira branca que sem dúvida
era do concreto pulverizado do ataque inicial.
Provavelmente não era seguro respirar aquilo, o que se tornava mais ou
menos a quarta coisa
mais importante em que pensar no momento.
Alguém saiu de um café e atravessou a rua, nos viu, e então voltou para
dentro.
– Não parecemos muito
amistosos – comentei com Rhys.
– Sério? – Rhys perguntou.
Cruzamos a rua e chegamos ao parque alguns segundos
depois. Uma passagem havia sido aberta em meio à neve.
Através das árvores eu ouvi sons estranhos
emitidos
pelos
Espinhos
enquanto
patrulhávamos a área.
– O Noble é um cara muito bacana – eu disse, para ver como ele ia reagir.
Quando morri, Rhys e
Noble
ainda
estavam
retomando as relações, após anos afastados.
Ele pensou por um momento
antes de falar.
– Sim, ele é bacana. Estamos nos entendendo, você sabe como é.
– Não, não sei bem como um
clone se entrosa com outro clone
– eu havia tentado uma vez, com Sequência, antes de ela ser controlada por
uma maníaca homicida que matou Noah.
Rhys soltou uma risada meio
amarga.
– Pois é. Eu acho que nunca vai ser normal. Mas posso dizer que estar com
ele ao lado é ótimo.
Ele é como um...
– Pai?
Ele acenou com a cabeça.
– Sim. O mais perto disso que eu poderei ter.
– Isso vale para mim também
– acrescentei.
Uns cem metros depois,
deparamos com o primeiro Rosa.
Era um Peter, usando um traje branco que parecia puro e angélico em
contraste com a neve cinzenta. O distintivo dele dizia P-908 . Ver os olhos
azuis do clone foi o bastante para me fazer passar mal. Da última vez que eu
vira meu Peter, os olhos
dele
tinham
escurecido
arroxeado por ter usado a faixa de memória.
O P-908 pareceu se endireitar ao nos ver, então acenou com a cabeça. Nós
acenamos de volta e continuamos andando.
– Aja com naturalidade – eu disse.
Entramos em uma parte
chamuscada do parque. Troncos carbonizados de árvores sem galhos surgiam
do chão como estacas. Adiante, um Espinho
corria de um lado para o outro, passando por cima das árvores como se elas
fossem meros fósforos.
Encontramos
mais
Rosas armados com AIRs que estavam saindo do parque. Eles ou acenavam
ou nos ignoravam, graças aos trajes vermelhos.
Meus
olhos
passavam
rapidamente de árvore em
árvore e percebi que não estava perscrutando os Rosas. Eu estava checando
se havia mais daquelas aranhas. A céu aberto, seríamos
presas fáceis.
Que tipo de mente doentia poderia não apenas sonhar com uma criatura como
aquela, mas também criá-la?
Depois de passarmos por
mais algumas árvores, a Verge surgiu à nossa vista. Era maior que a do
comandante Gane, tão larga quanto qualquer arranha-céu, mas no formato de
uma colmeia. Eu podia sentir uma espécie de poder irradiando de lá. Sem
qualquer aviso, uma luz
vermelha começou a brilhar no topo novamente e em seguida emitiu um som
tão alto que fez meus dentes vibrarem.
Precisei cobrir os olhos.
Quando olhei para o céu, só pude ver um buraco que o laser deixara no meio
das nuvens e o azul acima. Através do buraco, uma mancha de fumaça, que
não parecia maior do que uma
ervilha. Mais um avião espião, ou talvez eles estivessem tentando outras
coisas e usando satélites.
A raiva que eu sentia era a do pior tipo: desconsolada. Minha pele estava
ardendo tanto que parecia que eu estava sob o sol em um dia de verão.
Rhys apertou minha mão e
continuamos andando, porque era o que devíamos fazer. A entrada para a
Verge era logo adiante.
“Vou acabar com esse lugar”, pensei enquanto entrávamos.
8
Por dentro, a Verge era igual à outra onde morrera, se não me falhava a
memória. Os andares eram circulares e voltados para um
interior
aberto,
com
passarelas ramificadas que se conectavam à coluna no meio.
Esta começava no segundo
andar, suspensa por quatro
pontes, como os aros de uma roda.
Quando
entramos,
deparamos com um pequeno
terminal com uma tela que dizia: DIGITE SEU NÚMERO.
Mais adiante, a Escuridão
ocupava a maior parte do chão.
Rosas continuavam emergindo dali, como animais saindo de um poço de
piche. Uma sirene soou e os Rosas abriram caminho,
enquanto dois guindastes se sacudiam. Dois segundos depois, um
Machado
irrompeu
da
Escuridão, preenchendo o ar com barulho, calor e vento. Os quatro motores
nas extremidades do avião lançavam um fogo verde-azulado, e o calor me
forçou a cobrir o rosto com uma mão. Ele saiu voando por uma porta grande
do outro lado da Verge.
Mais dois Machados surgiram
do buraco em rápida sucessão.
Então os guindastes começaram a tirar Espinhos da Escuridão.
Cada um já vinha ocupado por Rosas, que imediatamente saíam
dirigindo da Verge para o parque.
Rhys e eu só estávamos
plantados ali, embasbacados, observando a força invasora borbulhando de um
buraco no chão. Tudo era muito eficiente.
Eu tinha certeza de que eles estavam bem orgulhosos.
– Vamos – eu disse, puxando-o para a frente assim que a sirene parou. Mais
Rosas subiam pelo buraco, agora que a passagem estava aberta. Nós fomos
até o terminal. Digitei “M-96” e apertei
ENTER. A tela imediatamente respondeu com “EQUIPE 16, 9ºANDAR,
DORMITÓRIO 16”.
– Espero que estejamos no mesmo quarto – Rhys disse, digitando
seu
número.
A
resposta foi a mesma, felizmente.
Percorremos a circunferência
da Verge até chegarmos às escadas. Elas se erguiam sobre a Escuridão e
levavam à porta do elevador localizado na base da coluna.
O círculo negro silencioso
estava bem abaixo de nós. Eu me perguntava o que aconteceria se eu caísse
nele.
– Não entendo – Rhys disse, olhando à sua volta. – Como eles podem fazer
uma reunião aqui?
Não tem espaço o suficiente.
– Não sei – respondi,
enquanto
entrávamos
no
elevador. – E eles não iriam convocar todo mundo da cidade para
cá
apenas
para
um
encontro.
– Andar? – o elevador
perguntou.
– Nono – respondi.
Subimos por alguns segundos
e as portas se abriram para outra passarela. Três Rosas – um P, um R e um N
– estavam esperando para entrar. O P e o N estavam em trajes prateados.
Todos os andares, provavelmente, tinham dormitórios. Encontramos o que
anunciava “16”. Um aparelho instalado na porta escaneou os distintivos em
nosso peito e a porta se abriu, deslizando.
Era como em nossa velha casa. Beliches em ambos os lados. Armários, uma
geladeira, um banheiro. Tão familiar que até doía.
Na mesa, no meio, estavam sentados uma Olivia, um Noah e um Peter. Os
outros membros da minha equipe estavam bem ali na minha frente, mas claro
que não eram os mesmos. Dois dos meus verdadeiros colegas de equipe Alfa
estavam mortos e eu não fazia ideia de onde se
encontrava meu Peter. Mas eu não poderia notar a diferença entre eles e essa
equipe, ao menos não à primeira vista.
Os olhos do Peter tinham um
brilho familiar e a postura da Olivia era a mesma de que eu me lembrava.
O Peter se inclinou ao lado do Noah para nos encarar.
– Até que enfim. Por onde vocês andaram?
Nós entramos no quarto e a porta se fechou às nossas costas.
Um segundo excruciante se passou enquanto Rhys e eu esperávamos para ver
quem iria falar alguma coisa primeiro.
– Hã... – Rhys disse. Um bom começo.
O Noah e o Peter estavam vestidos de preto e a Olivia de branco, o que
significava que nosso status era maior que o deles. Então não teríamos que
responder a qualquer pergunta. E
se tínhamos status diferentes, talvez significasse que a equipe
não estivesse treinando junta desde o início. A M-96 e o R-34
podiam não ser tão íntimos deles. Assim eu esperava.
– Não se preocupem com isso
– eu disse.
O Peter e o Noah se
entreolharam,
como
se
dissessem “O que está havendo?”.
Eu
li
rapidamente
seus
distintivos enquanto seus olhos se fixavam um no outro. O-9, P230 e N-7.
O N-7 se recostou na cadeira
e colocou um baralho sobre a mesa.
Seus
colegas
Rosas
estavam destruindo a cidade do lado de fora e eles estavam jogando baralho.
– Falem sério, onde vocês estavam? Nós deveríamos estar em uma missão 25
minutos
atrás.
Rhys e eu ainda estávamos parados na entrada do quarto, o que
devia
parecer
meio
esquisito. Eu dei alguns passos para a frente e me sentei à mesa.
Rhys fez o mesmo. Os três aguardavam
enquanto
elaborávamos a resposta.
– Tivemos um contratempo –
Rhys falou.
– Pensei que tivéssemos uma
reunião daqui a pouco – eu disse.
Instantaneamente, eu soube que soava estúpida. Afinal, eu não deveria saber
o que tínhamos de fazer?
A Olivia ergueu a sobrancelha ao encarar o Noah.
– Vocês estão se sentindo
bem?
Sacudi a cabeça, tentando ser convincente.
– Não, não muito. Alguns
cidadãos estavam agitados e o 34 teve que detê-los.
– Tiveram que detê-los – o P-
230 repetiu.
– Sim – eu disse, sentindo minhas bochechas corarem com o calor. Será que a
frase soou deslocada? Eu não fazia ideia se estava piorando as coisas ou não.
– Vocês viram como está lá
fora? Está uma loucura.
– Não – o N-7 disse. – Vocês nos
mandaram
ficar
aqui.
Estávamos esperando até que vocês voltassem.
– Mas não faz muito tempo –
a O-9 disse, disparando um olhar para o Noah que eu já vira antes.
Um olhar que dizia “Cale a boca ou eles vão nos causar problemas”. – Nós
acabamos de chegar.
– Minha arma estava com
defeito – o P-230 disse. – Eu pedi
a todo mundo que esperassem enquanto ia ao arsenal.
Rhys se levantou.
– Bem, então vamos logo –
algumas
gotas
de
suor
apareceram em seu cabelo.
– Ótimo – o N-7 disse,
evidentemente exasperado.
Os três Rosas se ergueram ao
mesmo tempo e pegaram suas armas. Rhys e eu olhamos um para o outro e
eu sabia que ele estava sentindo o mesmo pavor que eu. Nós não tínhamos
ideia
do que faríamos e eles iriam nos desmascarar cedo ou tarde. No momento,
restava-nos dançar conforme a música.
Saímos do dormitório e
voltamos
para
o
elevador,
passando por várias outras equipes ao longo do caminho.
– Onde vocês estacionaram o
Espinho? – a O-9 perguntou ao Rhys.
– Eu o deixei na rua – Rhys disse em tom neutro.
A O-9 engasgou.
– Relaxe – Rhys disse e eu podia notar que ele estava pensando rápido. – Eu
quis manter uma presença lá fora, mesmo tendo que sair logo.
Alguns cidadãos estavam se aproximando, mas os Espinhos os assustam.
– Bem pensado – o P-230
disse. Rhys quase sorriu para mim.
Alguma coisa vibrou no meu antebraço
esquerdo.
Todo
mundo parou, o que significava
que
eles
também
estavam
sentindo. Virei minha palma para cima e as palavras rolaram pelas escamas
do meu antebraço.
REUNIÃO CANCELADA.
FUGITIVO
AVISTADO
ENTRE A 7ª E A 8ª AVENIDAS
HÁ CERCA DE 90 SEGUNDOS
CERCO NO PERÍMETRO SE
ESTABELECENDO
CONSIDERÁ-LO
EXTREMAMENTE PERIGOSO
É
POSSÍVEL
QUE
ELE
TENHA A CHAVE
EQUIPES 3, 4, 9 E 16: DIRIJAM-SE AO LOCAL
DEMAIS
EQUIPES:
MANTENHAM-SE
NO
PERÍMETRO
Nós eramos a equipe 16. Dois
segundos se passaram, então outra sentença surgiu no meu braço, uma que
fez eriçar o cabelo da minha nuca.
CONFIRMADO: FUGITIVO
POSSUI A CHAVE
– Uau – a O-9 disse. – Acho que vamos voltar para casa mais cedo do que
pensávamos.
– Eu nem acredito que
estamos dentro dessa – o N-7
disse, alternando o apoio entre um pé e outro. – Que diabos é
essa Chave? Por que eles não nos contam essas coisas?
– É um trabalho rápido – a O-
9 disse. – Ouvi um rumor de que a diretora perdeu alguma coisa muito
importante.
Extremamente importante.
O N-7 sorriu com malícia.
– Como quando ela perdeu a Tocha?
Os
olhos
da
O-9
se
arregalaram mais uma vez com aquela expressão de “Cale a boca, seu
idiota”.
O P-230 pôs a mão no meu ombro.
– Isso significa que você precisa pegar seu Espinho.
Agora. Nós vamos pegar um Machado e encontrá-los lá.
Acenei
com
cabeça,
tentando passar a impressão de que aquela era a melhor ideia que tinha
ouvido. Todos nós descemos pelo elevador e Rhys e eu nos separamos de
nossa equipe sem sequer dizer “Até logo”.
Um
minuto
depois,
estávamos correndo pelo Central Park, de volta à garagem.
Por todos os lados, Espinhos barulhentos disparavam rumo ao Sul, abrindo
grandes trilhas na neve com os pneus Knobby.
Sobre nossas cabeças, Machados cruzavam o céu. Eles vinham de toda parte
da cidade.
Rhys e eu saímos correndo à toda. Eu não sabia o que era a Chave, mas tinha
certeza de que não seria bom se estivesse nas mãos da Terra Verdadeira.
Voltamos à garagem sem fôlego, mas aquecidos. Minhas pernas estavam
tremendo. Por causa da adrenalina, eu esperava.
Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar, por mais que tivesse acabado de
sair do meu tanque.
– Eu dirijo – toquei na porta pelo lado do motorista e ela se abriu para o alto.
Rhys e eu saltamos dentro. Ele apertou um botão vermelho no painel e o
Espinho vibrou, despertando. O
console exibia um mapa com
dados em tempo real dos outros veículos na cidade, o que me fazia perceber
que os Rosas podiam ter rastreado aquela coisa até Noble e Sofia. Eu gostaria
de ter notado isso antes.
Para nossa sorte, eles tinham problemas maiores com que se preocupar, e
naquele momento não havia outros veículos por perto. Os Espinhos,
marcados com pontos vermelhos, e os Machados, marcados em azul,
tomavam a cidade em um
enxame, como abelhas.
Pisando no acelerador, injetei no motor um pouco de gasolina –
ou seja lá que combustível mova essas coisas – e o Espinho disparou, batendo
em uma
Mercedes e em um Bentley que estavam estacionados nas duas vagas à nossa
frente. Nós mal sentimos o impacto.
– Bacana – Rhys disse.
– É comovente.
Eu dei ré, então subi pela rampa para a cidade. Guinei para
o Sul, em direção à Broadway.
Adiante e acima, um monte de Machados despejava um
estranho líquido em um prédio de apartamentos. Os tijolos e as janelas
ficaram lambuzados com aquilo, como se estivessem cobertos de seiva. No
nível do solo, pessoas saíam às pressas, muitas delas em roupas de baixo, e
logo eram dominadas por Rosas que empunhavam suas
espadas e AIRs. Eu sentia tênues ondas de medo liberadas pelos
Rosas, suficientes para subjugar as pessoas, para impedi-las de reagir, mas
não fortes o bastante para
causar
um
pânico
descontrolado. Os Rosas na rua cercavam o perímetro com os Espinhos e se
posicionavam em cima deles, disparando redes de contenção.
– O que eles estão fazendo? –
Rhys indagou.
O líquido que cobria o prédio se
incendiou
no
segundo
seguinte,
com
chamas
tão
intensas que tive de desviar o olhar. Quando meus olhos se ajustaram, o
prédio estava implodindo, derretendo-se em uma poça, como se fosse feito de
neve. Eu pisei no acelerador sem pensar.
– Miranda, não. Não! – Rhys disse quando entendeu que eu estava acelerando
para trombar com o primeiro Espinho que vi na nossa frente. – Precisamos
manter o disfarce! Nós estamos bem situados!
Ele me socou no braço com força. Tirei o pé do pedal e o ruído do motor do
Espinho diminuiu. A raiva se transformou em vergonha. Eu quase arruinara
tudo com uma reação de cabeça quente.
– Que diabos foi isso? – ele perguntou.
– Sinto muito.
– Na próxima vez, eu que vou
dirigir.
Os outros Espinhos iam se retirando dali enquanto os
resíduos derretidos do prédio gotejavam na rua. Três Machados deram
rasantes, usando a forte propulsão dos motores para derrubar
os
poucos
que
conseguiram fugir. Os Rosas cercaram
as
pessoas
começaram a escaneá-las antes que pudessem se levantar.
Parei bruscamente fora do
cerco e ninguém me lançou sequer um olhar de soslaio. Nós saímos
do
Espinho
caminhamos até o anel de Rosas.
Os moradores do prédio estavam amontoados
no
meio,
claramente apavorados até o fundo da alma. As ondas fracas de medo que eu
sentira antes ficavam mais fortes conforme eu me aproximava, uma coceira
no interior do meu crânio. O desejo de soltar minhas próprias ondas de medo
era forte e me enchia de desgosto.
Era
uma
reação
automática, acho que uma
espécie de programação mental do meu cérebro. Mas eu a
continha, deixando a coceira sem coçar.
As
pessoas
estavam
reduzidas a um bando de
humanos
desgraçados
soluçando.
Os
Rosas
os
obrigaram a sentar bem ali na rua gelada. Não havia nada que eu pudesse
fazer no momento.
Eu teria que ficar ali e sentir o medo deles.
Nesse instante, a diretora apareceu.
9
A diretora saltou de um
machado que estava pairando ali perto, uns sete metros acima do chão. Ela
mergulhou e rolou para a frente e se ergueu como se não tivesse saltado de
um jato. A adrenalina fluiu pelas minhas veias,
como
um
soco
no
estômago, o que deixou minhas
pernas trêmulas novamente.
Meus dedos tocaram na AIR
às minhas costas. Cheguei a puxar a arma, pensando em ajustar a potência
para o dez e disparar bem no meio dos olhos dela. Mas uma mão forte
agarrou meu pulso, apertando até que eu a soltasse. Não era Rhys, pois ele
estava voltado para a frente, olhando para a diretora, com a boca entreaberta.
Eu virei a cabeça e vi a Olivia.
A Olivia Original, uma das
Cinco Líderes, vestida em uma armadura dourada, tão polida que parecia um
espelho. Só podia ser ela. Era a mulher de mil anos de idade. Ela tinha os
mesmos olhos amendoados, a pele pálida e o cabelo escuro como a noite,
iguais aos da minha amiga Olivia, que tinha sido assassinada. Ela impediu
que eu empunhasse a arma, mas foi extremamente discreta, não fazendo um
contato visual sequer.
– Não – ela sussurrou, então
me soltou e caminhou até a diretora. Um homem idoso se amedrontou com
ela, caindo em cima de uma mulher. A calça cáqui dele ficou úmida com
urina. Ele estava apavorado, e não por causa de ondas de medo.
Apenas o velho medo natural; de alguma maneira, eu podia sentir a diferença.
Aquilo me deixava mal. Aquele cara não acordara de manhã pensando que
iria se assustar a ponto de mijar na calça.
Minha mão tocou a AIR
novamente, mas não a saquei. Eu sabia que precisava dar uma oportunidade à
Olivia para que ela
fizesse
alguma
coisa,
qualquer coisa. Forcei-me a soltar a arma uma segunda vez, expirando
lentamente ao fazê-lo.
– Noah East está entre vocês?
– a diretora perguntou. O cabelo dela era dourado, não ruivo como o de
qualquer outra
Miranda. A luz que caía sobre ela era tênue, porém as escamas de
seu traje ainda brilhavam como as da Olivia.
Olivia
a
diretora
começaram a circundar o grupo de pessoas. Atrás delas, um par de Machados
pairava sobre os escombros derretidos do prédio, com lasers que varriam a
área de um lado a outro.
O ar estava rarefeito e fétido, tomado por resíduos químicos e fumaça.
As pessoas continuavam em
silêncio, a não ser por um
choramingo aqui e ali.
A diretora confabulou com
um Rhys próximo que vestia traje prateado. Rhys se infiltrou na multidão e
puxou um homem
baixinho e meio calvo que vestia um casaco leve demais para o inverno.
respiração
dele
saía
entrecortada, como rajadas de metralhadora.
Esgueirei-me
para
mais
perto. O meu Rhys puxou meu braço, mas eu me desvencilhei.
– Por que você disse que o fugitivo estava aqui? – a diretora perguntou ao
homem.
O homem gaguejava.
– Sinto muito, s-sinto muito.
Eu, eu, eu pensei que o tinha visto. Eu queria lhe dar o que v-você procura.
Por favor. M-minha família.
A diretora contraiu os lábios.
– Você me fez gastar tempo.
– Sinto muito! Eu, eu...
A diretora o socou tão forte na bochecha que deu para ouvir
o som de um osso se partindo.
Ele caiu de joelhos, então virou para o lado, com um pé
trepidando.
Todo
mundo
começou a gritar, mas os gritos viraram choramingos assim que os Rosas
dispararam uma onda curta de medo com o intuito de subjugar.
Aquilo era loucura. O que eu estava fazendo ali, se iria apenas deixar as
pessoas morrerem?
Contudo, mesmo que eu
atirasse na cabeça da diretora,
ela voltaria em outro corpo. A identidade dela estava salva em vários lugares
diferentes; eu não fazia ideia de onde, já que eles eram
constantemente
atualizados.
Jamais
poderia
matá-la. Enquanto isso, eu morreria por nada.
Mais uma vez.
– Isso é o que acontece
quando vocês me fazem perder tempo – ela disse às pessoas amedrontadas. –
Vão para o Central Park. Nós temos um
abrigo lá – as pessoas não se moveram imediatamente e eu senti que a
diretora soltou uma carga curta, mas forte, de medo.
As
pessoas
gritaram
tropeçaram umas nas outras e seguiram pela Broadway em
direção ao parque.
A diretora percebeu que
todos os Rosas estavam ao seu redor.
– De volta ao trabalho! –
gritou.
– Vocês a ouviram – Olivia
disse.
Os
olhos
dela
se
encontraram com os meus,
depois desviaram.
Os Rosas retornaram para
seus Espinhos, então seguiram para onde deveriam ir.
Meu braço zumbiu com uma
nova ordem.
EQUIPE
16
SOLICITA
CHECAGEM DE COMUNICAÇÃO
N-7: M-96 E R-34, POR
QUE VOCÊS NÃO ESTÃO COM
SEUS PONTOS ELETRÔNICOS
NO OUVIDO?
O-9:
NÓS
PODEMOS
OUVIR UNS AOS OUTROS,
VOCÊS
NÃO
ESTÃO
NOS
OUVINDO?
Fiquei olhando para as
palavras no meu braço por dois segundos completos, com meu coração
martelando.
Rhys estava lendo seu braço também.
– Ah, meu Deus – ele disse. –
Os Rosas têm algum tipo de equipamento de comunicação
escondido.
Ergui os olhos e vi que a diretora se fora. Olivia estava entrando no Espinho
dela do
outro lado da rua.
Nossa
“Equipe”
estava
tentando entrar em contato conosco,
porém
os
Rosas
capturados
em
nosso
apartamento não haviam nos prevenido. Por quê?
O ponto eletrônico que
acionei foi o que Noble me dera.
Ouvi um clique que me dizia que o canal estava livre, seguido pelo chiado
vindo do outro lado da linha.
– Noble, Noble, você está aí?
Nenhuma resposta.
Olivia ligou o Espinho dela, no outro lado da rua. Ela olhou de novo para
mim. Era um convite.
Os únicos Rosas próximos eram os que circulavam pelas ruínas fumegantes
do
prédio,
procurando por algo. Pela Chave, eu podia presumir.
Agarrei o braço do Rhys.
– Você precisa voltar e se certificar de que o Noble e a Sofia estão seguros.
Ele acenou prontamente com
a cabeça.
– Ok. E você, aonde vai?
Eu já estava cruzando a rua quando
respondi:
Vou
descobrir
que
diabos
está
acontecendo.
10
A Olivia me observava de
dentro do espinho enquanto eu passava pela frente. Perscrutei a área
rapidamente e concluí que ninguém estava nos vigiando.
Cada cidadão nas cercanias havia dado o fora.
porta
de
passageiro
deslizou para o alto e eu me
acomodei no assento. A lufada de calor
do
aquecimento
era
gloriosa. Eu quase me senti uma pessoa de verdade novamente.
Olivia começou a dirigir sem pronunciar uma palavra. Nós atravessamos a
nuvem de vapor gigante que permanecia na rua.
– Você ia fazer algo muito estúpido se eu não impedisse.
– Então foi bom você ter me impedido – retruquei. – Como você sabia que
era eu?
Ela me lançou um olhar que
parecia dizer “Qual é, não sabe com quem está falando?”.
– Sinto muito pelo seu
sacrifício não ter ganhado mais tempo. Eu achei que nos daria mais – no
entanto, ela disse como se já soubesse disso. –
Deve ter sido uma experiência desagradável.
– Quase não senti – eu falei, pois era verdade. Apenas uma dor breve, então
nada, nem mesmo a lembrança da dor ao desaparecer.
Talvez
minha
mente estivesse tentando se proteger do trauma.
Com
ataque
inicial
aparentemente terminado, os pedestres ressurgiam, apesar de as ruas ainda
parecerem meio vazias. Todos os olhos se voltavam para o Espinho que
passava. As pessoas carregavam coisas aos montes – roupas, comida, tudo
que conseguissem.
Alguns mais estúpidos levavam eletrônicos.
As ruas estavam abarrotadas
de carros abandonados, mas Olivia desviava, ou passava direto
por
cima
deles,
empurrando-os para o lado. Uma van de entregas de alimentos fora
completamente
escancarada,
com
caixas
arrombadas e esvaziadas e
legumes esmagados na neve.
– O que eu posso fazer por você? – Olivia perguntou.
– Eu preciso saber o que é a Chave.
Ela
virou
em
um
estacionamento e atravessou a cancela,
arrebentando-a.
Subimos alguns andares, dando voltas rápidas na rampa, até Olivia estacionar
em uma vaga com uma manobra ágil.
Ela ficou um momento em
silêncio com as duas mãos no volante antes de dizer: – O seu mundo está
prestes a mudar.
– Não me diga.
Ela sacudiu a cabeça.
– Eu não fui muito franca com você. Desde o início.
Senti uma pontada funda no estômago, do tipo que se sente quando sabe-se
que uma má notícia está por vir, mas ainda não tem noção do que é.
Olivia deixou passar mais um
segundo.
– Me conte.
Ela suspirou pelo nariz.
– Eu ainda não posso contar.
Ainda não sei o que pode acontecer se eu te contar.
– Muito beeeeem... – tique-taque,
tique-taque.
Você
precisa me contar alguma coisa.
Um músculo na boca dela se contraiu.
– Eu não posso dizer o que fazer a seguir e não posso impedi-la. Só posso lhe
dar um pouco de orientação.
– Sobre o que você tinha mentido para mim? – o calor dentro do Espinho
agora estava aumentando e eu senti ânsia de vômito. – Me conte. Você
precisa me contar.
Ela me ignorou.
– Eu não acho que você deveria reagir dessa vez.
– Como é que é?
Uma porta de carro se abriu e se fechou no andar em que estávamos, então
ouvi um motor demorar um pouco para pegar por causa do frio. Pouco
depois, avistei-o pelo vidro traseiro enquanto um carro passava
perto. Quando o motorista
avistou o Espinho, dobrou
correndo em direção à saída.
– A Terra Verdadeira está
aqui para fazer uma coisa bem específica. E impedir que essa coisa acabe
com seu mundo para sempre.
– Então agora você quer dizer que eles querem nos salvar?
Olivia acenou com a cabeça.
– Nós estamos aqui para
abrir a Escuridão em seu mundo.
Não vai mais ser um portal entre universos. Vai ser parte da sua realidade.
– O que isso significa? – o medo me dava uma sensação
estranha na boca; eu não conseguia engolir.
–
Abrir
Escuridão
diretamente no seu mundo irá recriar um evento que apagamos por acidente.
– Isso não está fazendo
sentido algum.
– Escute. Eu ajudei você no início porque queria evitar que algo horrível
acontecesse, algo que só eu sabia. Algo que não iria dividir com os outros
Originais.
– O que é?
Ela ainda não podia me encarar.
– Antes que eu lhe conte, você precisa
entender
que
este
mundo, o mundo no qual
vivemos, não é um universo diferente. Ele é o passado do meu mundo.
– Pode repetir?
Dessa vez ela olhou para
mim.
– Este mundo um dia vai se tornar a Terra Verdadeira, no futuro.
– Mentira – minhas mãos estavam tremendo.
– É verdade. Quando a
diretora decidiu que era hora de devastar seu mundo, eu quis detê-la...
– Por que você simplesmente
não contou a verdade a ela?
– Eu não poderia.
– Por que não?
– Porque eu fiz uma coisa errada! – ela gritou. Eu nunca ouvira ela gritar
antes. Nunca ouvira nenhuma Olivia gritar
antes. – A diretora sabe a verdade agora. Ela sabe o que este mundo significa
para nosso futuro, para o futuro da Terra Verdadeira. E, Miranda... se ela não
vencer, vai ser ruim para todo mundo.
O silêncio no Espinho era pesado.
Finalmente eu perguntei:
– O que você fez de errado?
Ela olhou para baixo, para o colo dela, e então percebi. Aquele ser que existia
há mais de mil
anos estava inseguro.
– Eu não sei o que teria acontecido se os sem-olhos tivessem
consumido
este
mundo. Acho que nunca vou saber. Mas sei o que aconteceu depois que você
os deteve...
– O quê? – deveria ser algo bom, mas soava como se fosse algo ruim.
– Eu vou lhe mostrar tudo –
ela disse em voz baixa.
Olivia pegou uma máscara,
como uma das que usei tantas
vezes. Ela fazia com que o usuário pudesse vivenciar as lembranças
que
alguém
armazenara antes no aparelho.
Entretanto,
esta
tinha
um
conjunto de fios percorrendo-a, fios que se conectavam a uma outra máscara.
– Eu vou lhe mostrar o que você quer ver. Apenas ouça minha voz.
Coloquei o capacete e fechei meus olhos, esperando pela já conhecida
dorzinha das agulhas
microscópicas pinicando meu crânio, mas ela não veio.
Quando abri os olhos, estava sentada a uma mesa com três outros Originais –
Peter, Noah e Rhys.
Todos estavam falando, mas eu não podia ouvi-los. Eu enxergava através dos
olhos da Olivia.
No Espinho, Olivia disse:
– Nos reunimos um dia no mês de setembro. Eu nunca esquecerei. Foi o dia
em que
decidimos derrubar nossa líder.
Houve um tempo em que não éramos os Cinco Líderes. Éramos subalternos
da Miranda. Ela era a líder suprema. E ela era má.
Ah, que novidade.
Olivia prosseguiu com a
explicação. Durante suas viagens pela Escuridão, ela descobrira um novo
mundo. Mas não era um universo alternativo... Era o passado. Era o nosso
mundo.
Nosso
mundo
Terra
Verdadeira eram o mesmo lugar,
com mil anos de distância.
– Os outros três Originais e eu queríamos tirar a diretora do poder – ela disse.
– Mas a alteração em nosso equilíbrio poderia nos fazer parecer fracos para
mundos como o nosso, para outros altamente avançados.
Então bolei um plano com base na
minha
descoberta.
problema foi que eu não dividi o que descobri com os outros. Fui tola e
decidi conduzir o plano todo com minhas próprias
mãos... Eu pensei que poderia mudar tudo sozinha.
A cena mudou, e de repente estávamos em uma escola. Era uma turma de
Ensino Médio, a julgar pela idade dos alunos. Nós víamos uma garota com
cabelos ruivos carregando livros pelo corredor.
Eu a reconheci. Era eu.
Ninguém pareceu notar a Olivia observando-a, como se ela
estivesse invisível.
Um garoto com cabelo curto e
olhos escuros se aproximou da garota, mas ela não podia vê-lo ao seu lado
por causa de seus cachos barrando sua visão. Ela afastou a cabeleira do rosto
e tomou um susto, então sorriu quando viu que era o Noah.
Lentamente, ela envolveu o braço no pescoço dele e olhou para seu rosto. A
maneira como o Noah sorria para a garota fazia eu me lembrar de como ele
costumava sorrir para mim.
Mas não poderia ser eu; não
estava certo. Naquela idade, eu não estava na escola, estava treinando com a
equipe Alfa.
– É a diretora?
– Sim – Olivia disse. – Há muito tempo, quando ela estava vivendo uma vida
normal.
Meu coração começou a
acelerar.
– Espere. Isso quer dizer que ela ainda está por aí? Na vida normal dela? Se
esse é o passado da Terra Verdadeira, então ela está andando por aí agora
mesmo.
– Sim... – Olivia respondeu.
– Bem, onde ela está? Nós podemos encontrá-la. Podemos detê-la agora
mesmo.
– Não, não podemos. Já matei
a diretora quando ela era uma adolescente.
– Mas você acabou de dizer...
– eu comecei.
– Apenas observe.
A cena mudou mais uma vez.
Nós estávamos na cobertura de um prédio. Estava caindo um
temporal. Havia um cadáver no chão, lá embaixo, e o sangue formava uma
poça que se
misturava com a água da chuva, embora eu não conseguisse ver mais detalhes
por causa da distância. Olivia virou o rosto para a chuva e eu pude sentir as
gotas frias na minha pele, como se aquilo estivesse acontecendo dentro do
Espinho.
Ela continuou narrando.
Substituí
versão
adolescente da diretora, que não
sabia de nada disso, por um clone, que eu podia acompanhar à distância. E
funcionou. Quando voltei à Terra Verdadeira, as coisas estavam mudadas. Eu
alterara toda a história da Terra Verdadeira
meus
companheiros jamais souberam de mudança alguma. O planeta estava
estável. A diretora, dessa vez, era uma a mais entre nós, não
uma
rainha.
Nós
governávamos juntos.
Ela me mostrou imagens
fragmentadas: os
cinco
governando lado a lado; a paisagem dourada, da qual eu me lembrava por
causa da breve visita à Terra Verdadeira. Eu vi os cidadãos da Terra
Verdadeira disparando mísseis em um céu cinzento e fumacento. Quando
explodiam, uma onda dourada se espalhava,
mudando
permanentemente a cor do
firmamento.
– Era como gravar por cima de uma fita.
As
palavras
dela
me
inundavam como água. Eu sentia que estava sonhando. Existir não parecia
uma
coisa
natural
naquele momento. Ela parou de me mostrar imagens. Eu só via escuridão.
– As mudanças que estão
acontecendo
aqui
e
agora
afetaram o futuro, mas o
problema
que
algumas
alterações
não
são
tão
impactantes quanto outras. E, neste momento, não há como
saber o que será importante. Não até que se faça.
Ela suspirou.
– Mas notei que as coisas estavam
começando
se
deteriorar na Terra Verdadeira. A unidade durou pouco tempo e, quando
começou
a
se
despedaçar, ficou pior do que antes. Eu não podia explicar para os outros sem
admitir o que fizera. Era tudo minha culpa. Eu sabia que jamais me
perdoariam.
As coisas pioraram mais e mais,
até o ponto de não existir mais unidade. Houve disputa de
poder. Tivemos guerras secretas.
A voz dela ficou rouca com a emoção e o arrependimento.
– Então eu voltei mais uma vez. Para tentar de novo.
Alguma coisa zumbia dentro do carro. Ela tirou a máscara e eu fiz o mesmo.
– Preciso ir – ela disse, olhando para o mostrador no seu braço.
– Você ainda não me contou
tudo – eu sabia que estava faltando alguma coisa crucial.
Era como não ter um pedaço do pulmão.
– Eu vou contar. Mas
mantenha-se
longe
de
problemas.
Ela levou a mão a uma bolsa na sua cintura. O meu lado mais desconfiado,
um lado que nunca, nunca
desaparecera,
estava
tenso,
preparado
para
possibilidade de uma arma. Claro que não havia nenhuma, e sim
apenas um disquinho, como o que estava instalado na base do meu crânio.
Ela o deixou na palma da minha mão.
– Use isto quando estiver em
um lugar tranquilo, um lugar seguro. Entendeu? Isto pode deixá-la
desorientada. Eu não sei o quanto, ou por quanto tempo.
Acenei com a cabeça, fitando os olhos avermelhados dela, como os meus
também deviam estar depois de usar a máquina.
Eu esperava poder manter meus olhos verdes por um tempinho.
– Os outros Originais estão por aqui? – eu queria saber quantos inimigos eu
tinha.
– Não. Eles estão ocupados tentando controlar um mundo em frangalhos
antes que seja tarde
demais.
Nós
não
controlamos
mais
Terra
Verdadeira com a facilidade de antes. Agora, por favor, saia.
Eu realmente a obedeci sem enfrentá-la, para variar. Mas
antes de fechar a porta, precisei perguntar: – E o que é que a abertura da
Escuridão em nosso mundo irá causar? O que
acontece se a diretora encontrar a Chave e usá-la? Quero dizer, vai afetar a
Terra Verdadeira, não vai? Tudo o que nos fere também fere vocês.
O olhar que Olivia lançou para mim apagou qualquer resquício de calor do
Espinho.
– Qualquer um que possua a Chave ao entrar na Escuridão irá
para uma sala específica entre os universos. Ali, poderá controlar e direcionar
a Escuridão como quiser.
– Você não respondeu à
minha pergunta – mas eu tatuei aquela informação no meu
cérebro:
“Possuir
Chave
significa controlar a Escuridão”.
A expressão severa dela de alguma maneira ficou ainda mais dura.
– Ao abrir a Escuridão, haverá trevas. Poucos sobreviverão. Mas
com o tempo vocês florescerão novamente.
Eu tentei colocar na minha cabeça a imagem da minha
gêmea clonada pensando: “Quer saber? Que se dane, vamos tentar de novo.
Nós podemos apagar esse mundo quase inteiro!”. Será que ela chegou a essa
conclusão na hora do jantar? Enquanto estava no banho? Ou talvez bebendo
com amigos? Aliás, ela tinha amigos?
– Por que você não faz alguma
coisa? – eu perguntei bem baixinho.
– Porque precisa acontecer.
Tudo precisa acontecer. Use o disco que eu lhe dei e você vai entender.
– O que devo fazer enquanto isso?
– Fique viva – ela disse.
Olivia
disparou
ladeira
abaixo e eu fui pela escadaria, pensando sobre Chave, clones e o
fim do mundo. Não parecia real.
“Precisa acontecer”, ela havia dito. Esfreguei meu polegar no disco
em
meu
bolso,
perguntando-me o que ele
poderia me mostrar para me convencer de que tudo aquilo devia acontecer,
que tantos precisavam morrer. Eu não
engolia. Durante muito tempo pensara que ela estava do nosso lado.
Na rua, o vento soprava e a noite caía. No cruzamento mais
próximo, dois carros estavam estraçalhados um contra o outro, com os para-
brisas congelados pela neve. Corri até um caminhão que parecia em melhor
forma e entrei. As chaves ainda estavam na ignição. Eu dei a partida, então
tomei o rumo para o meu
“Lar”.
“Talvez tenham encontrado o Peter e todos estejam lá.”
A ideia era tão boa que doía.
Eu queria me apegar a ela, como se
bastasse
desejá-la
com
bastante força para torná-la real.
O clima no apartamento,
quando saí do elevador, era semirrelaxado, e imediatamente me senti
aliviada.
Rhys estendeu as mãos.
– Sem preocupação. Eles
entregaram os comunicadores deles para o Noble assim que saímos.
Colaboraram
bem.
Não
conseguimos falar com o Noble
antes por causa de algum problema de recepção, mas eu entrei em contato
com ele. A Terra Verdadeira aparentemente está interferindo em várias
frequências na cidade.
– Onde estão os Rosas? –
perguntei.
– Amarrados no quarto do
Noble. Eles não vão a lugar algum.
– E o Noble e a Sofia? E o Peter?
Rhys franziu a testa.
– O Noble e a Sofia ainda estão procurando pelo Peter.
Eu fui até a pia e enchi um copo com água, então busquei comida na
geladeira. Era a única ação em que pude pensar para disfarçar a minha
decepção.
– Não se preocupe com eles –
Rhys disse. – Vamos falar sobre a Verge. Eu... não acho que devemos voltar.
– Nós interrompemos o
contato por muito tempo e nossos
colegas
já
estavam
suspeitando – emendei. – Se entrarmos na Verge, a chance de nos
aprisionarem é grande.
– Foi o que pensei também –
ele falou, parecendo aliviado.
– Mas nós temos que sair daqui, mesmo assim.
– Por quê?
Expliquei o que era a Chave e o que podia ocorrer se a diretora pusesse as
mãos nela. Isso levava a outras questões, e eu lhe contei o que a Olivia me
mostrara.
A pele dele, que já era pálida,
pareceu mudar para um tom mais frio de cinza.
– Eu bem que achei seus
olhos um pouco vermelhos.
–
O
principal
que
precisamos encontrar a Chave –
resumi
–,
então
podemos
descobrir o que fazer com ela.
– Mas por que precisamos
deixá-los abrir a Escuridão? Por que devemos permitir que isso aconteça?
Está
brincando
comigo?
– Eu não sei de nada além do
que já contei.
– Aqui é um lugar seguro. Por que você não usa o disco agora?
– Porque eu não sei o que vai acontecer comigo. A Olivia disse que eu iria
me desorientar e ela não sabia por quanto tempo.
Você
não
concorda
que
precisamos encontrar a Chave antes de qualquer outra coisa?
– Concordo – ele respondeu. –
Então vamos.
Eu tomei mais um copo
d’água, para o caso de não haver
água para beber mais tarde.
– Vamos precisar de ajuda. O
East pode estar em qualquer lugar. Se os Rosas o encontrarem e conseguirem
a Chave antes de nós, ao menos vai ser mais fácil de roubá-la se estivermos
por perto.
Os
olhos
do
Rhys
se
iluminaram com uma ideia.
– E se encontrássemos os
Originais
crianças
os
matássemos ou déssemos uma bela surra neles, ou algo do
gênero? A Olivia disse que o futuro
será
alterado
por
mudanças no passado, não é?
– Se você tiver alguma ideia de onde eles estão, em qualquer lugar do país ou
do mundo, ótimo. E se você tiver uma ideia de como sair desta ilha, melhor
ainda. Mas tenho certeza de que a Olivia os mantém protegidos.
Além disso, se eles morrerem, o que isso vai causar a nós? É
melhor confiarmos na Olivia até termos mais informações. Claro
que estou falando em confiar com uma pulga atrás da orelha.
A testa dele se enrugou.
– O que eu não entendo é que, se os Originais ainda estão por aí, vivendo
suas vidas antes de se tornarem os Originais, então como é que nós podemos
estar aqui há anos?
– Porque nós viemos da Terra
Verdadeira, entendeu?
Ele soltou um suspiro lento.
– Caramba. Por todo esse
tempo nós vivemos no mesmo
mundo em que as pessoas que um dia vão nos criar no futuro e nos trazer de
volta para o agora.
Que época para se viver! – ele falou com entonação de piada, só que eu podia
ver como aquilo o fazia se sentir. Rhys podia fingir indiferença o quanto
quisesse, porém eu via a dor por trás dos olhos dele. Não é fácil saber que
não se é uma pessoa, mas uma coisa...
Ele estava prestes a dizer mais, quando um barulhinho
veio do balcão. Eu olhei em volta em busca da origem e achei dois pontos
eletrônicos, não muito diferentes dos nossos.
Eu tirei a escuta do Noble e coloquei a outra. Ouvi a voz da O-9.
– ... de volta à Verge. Estou captando alguns ruídos. P-230, nenhuma palavra
até agora?
Meu coração saltou. A O-9
não soava alarmada, mas era possível que a equipe tivesse ouvido nossa
conversa. Um erro.
Mas
Noble
provavelmente
deixara os pontos eletrônicos sabendo que iríamos precisar deles.
– Nada – o P-230 respondeu.
– Isso é estranho – a O-9
disse.
– Caras – o N-7 falou –, vamos esperar mais um pouco. Vocês não notaram a
cor dos trajes deles?
Não somos nós que temos
que decidir.
– A decisão cabe a um azul ou
a um prata, que é o que eu me tornarei se eles continuarem sumidos – a O-9
completou.
– Vamos com calma – o P-230
pediu.
– Aqui quem fala é a M-9 – eu disse.
– Está vendo? – o N-7 disse.
– Onde vocês estavam? – a O-
9 quis saber, ríspida.
– É assim que você fala
comigo?
indaguei.
Rhys
rapidamente colocou o ponto eletrônico dele.
Eu sabia exatamente como iria seguir com o jogo.
O silêncio do outro lado da linha se adensou.
– Tivemos um problema de
comunicação, mas agora ela se restabeleceu. Você tem alguma queixa?
Mais alguns segundos se
passaram, então a O-9 disse: –
Não.
– Muito bom. Qual é a
situação?
– Nós deveríamos estar na
missão com H10 15 minutos atrás – o P-230 disse. – Estamos nos
reagrupando na Verge.
Dezessete novos alvos suspeitos, todos os quais precisam ser confirmados.
O N-7 chegou a rir.
– Tem um monte de prédios para queimar.
– Eu não tenho certeza se é a melhor tática – o P-230 disse. –
Essas pessoas vão ficar furiosas se continuarmos transformando os prédios
delas em pasta
derretida.
– Nós podemos controlá-las –
o N-7 disse. – Esqueceu-se disso?
– Não, é claro que não. Mas será que queremos mesmo
incitar uma rebelião organizada?
– Vamos deixar as decisões estratégicas para os trajes azuis
eu
disse.
Nós
os
encontraremos no dormitório.
Toquei no meu ponto e notei
que ele ficou em silêncio.
– Alô? – eu falei para testar, mas não houve resposta. Rhys
fez o mesmo.
Por cima do ombro do Rhys, vi as janelas do outro lado do apartamento, as
que tinham vista para o rio Hudson. O vidro trepidava de tantos em tantos
minutos, sempre que os ataques das
torres
mecânicas
recomeçava. Os Estados Unidos enviavam míssil atrás de míssil rio acima, e
as torres os abatiam em pleno ar. O Hudson estava emporcalhado pelos
escombros flutuantes. Partes do rio estavam
em chamas. A maioria das luzes de Nova Jersey estava apagada, mas
provavelmente era por
precaução, como nas cidades da Europa durante a Segunda
Guerra, que ficavam no escuro para dificultar o trabalho dos pilotos inimigos.
Não vi qualquer atividade do
outro lado do rio. A caçada da Terra
Verdadeira
era
em
Manhattan.
Por enquanto, o resto do
mundo podia descansar em paz.
– Vamos – Rhys se apressou, depois de observar por um momento.
Eu o segui, de volta ao frio.
Ele estacionara o Espinho na rua, entre dois caminhões brancos.
Um pouco adiante, vimos uma ambulância com as luzes da sirene
acesas,
tingindo
os
prédios com vermelho piscante.
Os paramédicos nos olhavam cautelosamente
enquanto
cuidavam de algumas pessoas feridas.
Um arrepio de desgosto percorreu meu corpo. “Estou do lado de vocês”, eu
queria gritar.
“Eu só pareço com os inimigos.”
Então notei que três Rosas vestidos de preto estavam na calçada, perto das
ambulâncias, vigiando os paramédicos, com os braços cruzados. O Noah
deles olhou para nós, mas alcançamos o Espinho antes que ele tentasse falar
conosco. Ao menos os Rosas estavam permitindo cuidados médicos às
pessoas.
Rhys nos conduziu de volta à Verge
em
silêncio.
Apenas
quando estacionamos ao lado de algumas árvores ele perguntou: –
Você está pronta?
Eu podia sentir o medo na minha garganta, mas também um alívio estranho,
uma certeza que só vem quando não se tem outra escolha. Era isso o que
precisávamos
fazer
se
quiséssemos ter alguma chance.
– Vamos ver no que vai dar.
Rhys pôs sua mão sobre a
minha, então fechou os dedos em volta dela. As escamas de nossos trajes
rasparam umas nas outras.
Não
importa
que
acontecer, você sabe. Blá-blá-blá, palavras sentimentais.
Eu pus minha outra mão
sobre a dele.
– Eu sei, Rhys. Eu digo o mesmo.
Saímos do carro e entramos na Verge. Rhys foi na frente para não chegarmos
juntos. Não
queríamos levantar suspeitas.
Parei
para
observar
os
guindastes tirarem um Espinho após o outro da Escuridão. Assim que as
rodas tocavam o solo, o veículo saía correndo da Verge, adicionando ainda
mais caos à cidade. Outro Espinho se ergueu da Escuridão enquanto eu subia
a escada até o elevador.
A porta do elevador se abriu, revelando um Peter. P-81, para ser mais
específica. Um traje preto.
Mantive contato visual, mas
não por muito tempo. Eu sentia que a mentira estava escrita na minha testa e,
verdade seja dita, preferia não olhar para um Peter que não fosse o meu.
O Peter deu um passo e
parou, hesitante, e eu pensei:
“Oh, meu Deus, ele sabe”.
Então ele se moveu, passando
por mim, roçando o ombro no meu.
– Perdão – ele falou.
– Desculpe – eu reagi
automaticamente, e ele voltou o
rosto para mim e deu um aceno rápido, como se dissesse “Sem problemas”,
antes de continuar seu caminho.
“Será que eu acabei de ver...?”
Olhei para a nuca dele,
esperando que ele se virasse para trás, mas ele não virou.
Permaneci ali por mais dez segundos, até que alguém tomou o elevador. Um
outro Rhys.
– Você vai entrar? – ele perguntou.
– Em um minuto. Obrigada.
Ele ergueu uma sobrancelha, então a porta se fechou. O
elevador zumbia enquanto subia.
Meus olhos estavam fixos no andar
térreo,
mas
não
encontravam mais o Peter.
Repassei o momento na
minha mente várias e várias vezes. O rosto dele. Os olhos, que deveriam ser
azuis brilhantes, tinham uma cor mais escura, mais arroxeada.
E o queixo...
A pequena cicatriz no queixo
dele, como no do Peter que eu chamava de meu.
11
Estarrecida, tomei o elevador até o nono andar. Meu rosto estava corado e
minha mente estava nas nuvens. Peter estava ali. Concluí que devia ser ele,
por mais que a lembrança de seu queixo ainda estivesse meio embaçada... Ou
será que eu apenas queria que fosse ele? Mas
não, ele também suspeitou que fosse eu, com apenas um olhar.
Foi por isso que ele parou e hesitou. Só podia ser.
P-81. Eu precisava encontrar o P-81.
Quando
cheguei
ao
dormitório, Rhys estava falando com os outros. O N-7 acenou para mim.
– Aí está você – Rhys disse. Eu devia parecer distraída, pois ele me olhou de
um jeito estranho. –
Eu estava falando sobre nosso
problema de comunicação. Eles nos arrumaram novos pontos eletrônicos.
– Tá – eu falei em tom neutro.
Mas logo pensei: “Foco no jogo, Miranda”. – Que bom. Eu preciso ir ao
banheiro.
– Obrigado por avisar – o P230 disse enquanto eu passava por ele. Eu não
queria olhar para ele no momento.
No banheiro, joguei água no rosto, então me olhei no espelho.
A bochecha jamais fora cortada
pela espada da sra. North. A cicatriz
com
que
eu
me
acostumara não existia mais.
Mesmo assim, toquei minha pele no lugar onde ela ficava antes.
Havia uma escova de dentes em uma embalagem plástica e meu nome escrito
nela. Eu não saberia dizer se tinha sido usada ou não, mas resolvi escovar
meus dentes pela primeira vez desde que renascera. A Terra Verdadeira não
nos dava o luxo nem mesmo de uma banheira de
hidromassagem.
Quando saí, minha equipe
estava
jogando
cartas
novamente, inclusive Rhys. A Olivia estava lendo um livro de capa dura no
beliche dela. Onde ela conseguira o livro? Será que eles haviam feito um
intervalo na patrulha
para
pilhar
uma
livraria? A cena toda parecia estranha. Eles saíam e faziam tudo que tinham
que fazer, derretiam prédios, escaneavam e machucavam
pessoas,
não
importava
quê,
depois
voltavam e jogavam cartas e matavam o tempo? Eu queria gritar com toda a
minha força: “O
QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?” .
– Mudança de planos – o N-7
disse para mim. – Temos mais uma hora antes da próxima patrulha.
– Nós deveríamos dormir – o
P-230 disse.
– Deveríamos é a palavra exata – o N-7 respondeu.
Eles falavam como se não
estivesse
acontecendo
nada.
Antes, eu podia aceitar que era estranho, mas dessa vez era como
um
arame
farpado
raspando na minha pele. Eu estava tão furiosa que minha mão começou a
tremer, então cerrei o punho e escondi a mão atrás das costas. O N-7 me
olhava com uma cara esquisita.
– Eu já volto – eu disse e marchei até a porta antes que alguém pudesse
contestar. Bem naturalmente. Fechei a porta e
me recostei na parede ao lado do quarto, enquanto outros clones caminhavam
em nosso andar.
Duas Mirandas carregavam um tanque de plástico enorme com a inscrição
“H10” na lateral. Eu queria fazê-las beberem aquilo.
Então elas se foram e eu tive o prazer de ficar sozinha.
Mas não por muito tempo. A porta se abriu e o N-7 apareceu.
Ele olhou para os dois lados para checar se estavam s a sós. Eu fiquei tensa.
Antes que eu
percebesse
que
estava
acontecendo, ele se inclinou e me beijou. Eu o empurrei com as duas mãos.
– Ei, o que você está fazendo?
– ele indagou. Não estava bravo, mais
parecia
espantado.
respiração dele ficou pesada, com olhos desconcertados, uma expressão que
eu nunca vira no Noah que eu conhecia.
A M-96 e o N-7, pelo jeito, estavam “Juntos”, o que quer que isso
significasse para essas
pessoas.
– Sabe, eu não ia dizer nada, mas você tem se comportado de forma ridícula
desde que foi promovida. Você e o 34 – as sobrancelhas dele se ergueram. –
O que foi? Agora não somos mais bons o suficiente para vocês?
Isso liquidava com a minha esperança de que nossa equipe não tivesse muita
familiaridade.
– Desculpe – não soei muito convincente.
Eu
tentei
me
recuperar: – Só acho melhor que
a gente não faça isso aqui.
– Fala a verdade, qual é o problema? O que há de errado com vocês?
– Não tem nada de errado comigo.
“Eu só estou no meu terceiro corpo, até onde sei, infiltrada nas linhas
inimigas com os dois remanescentes da minha equipe, sendo que com um
deles eu não posso contar.”
– Estou preocupado com você
– ele disse suavemente. – Você
está
esquisita
desde
que
chegamos aqui.
Eu
acreditei
nele;
preocupação em seus olhos
estava bem ali, e eu podia vê-la.
Dessa vez sim ele me fez lembrar do Noah que eu perdera.
– Desculpe. Sinto muito por ter agido como uma estranha.
Meu braço vibrou antes que ele
pudesse
responder.
O
mostrador
dizia :
“PRÓXIMA
PATRULHA: 52 MINUTOS. DIRIGIR-SE AO
INTENDENTE PARA RECARGA”.
– Entre e fale comigo – ele
pediu.
– Não temos tempo – eu
disse, erguendo o braço para mostrar a ele.
– Então mais tarde, sem falta.
Promete?
– Está bem – eu disse e comecei a me afastar.
– Espere. Vamos até a
intendência juntos – ele disse.
Eu acenei com uma mão.
– Encontro você lá. Só quero um minuto sozinha – quando olhei por cima do
ombro, vi que
ele
estava
voltando
ao
dormitório. Senti uma pontada no estômago por deixar Rhys, mas eu sabia
que ele poderia se virar sozinho.
Tomei o elevador de volta ao térreo, depois fui até aquele terminal eletrônico.
Digitei “P-81”. A tela mostrou: “EQUIPE 27, 12º ANDAR,
DORMITÓRIO 12”. As palmas
das
minhas
mãos
começaram a suar.
Uma nova cópia da minha
equipe Alfa rastejava para fora da
Escuridão, todos eles em trajes brancos.
Acenaram
com
deferência para mim, então foram até o terminal, onde a Miranda
da
equipe
deles
procurou
pelo
número
do
dormitório.
– Isso é empolgante – a Olivia disse para mim, e eu quase a atirei de volta
para a Escuridão.
Mas
me
controlei
permaneci no lugar, com os pés plantados no chão. Se eu estava certa, Peter
saberia que eu iria
procurá-lo. Eu podia visitar seu dormitório sem ter de responder a muitas
perguntas por causa do meu traje vermelho.
Tomei
uma
decisão
instantaneamente
me
senti
melhor. Quase pulei de volta ao elevador. “Você é um bom observador,
Peter?”
Eu
não
conseguia parar de pensar que ele tinha me reconhecido, que ele sabia que era
eu, mesmo sem a minha cicatriz.
O elevador me levou ao 12º
andar
eu
encontrei
dormitório 12 com facilidade. A porta estava aberta. Dentro, o quarto era
idêntico ao meu. O
Peter estava sentado na cama, com as mãos nos joelhos. A cabeça dele se
virou para mim quando paralisei no corredor.
Nós estávamos a sós.
– Posso ajudar? – ele
perguntou, olhando o distintivo no meu peito. – Talvez você esteja no quarto
errado.
– Eu...
Eu estava longe demais para ver o queixo dele.
– Pois não?
– P-81 – eu disse e minha voz soou tão seca que era quase um sussurro. – P-
81 – eu disse mais uma vez, com mais força.
– É o meu número. Algum
problema comigo?
Fechei a porta às minhas
costas.
– Não, não é esse o caso – eu podia sentir minha pulsação latejando no meu
pescoço.
Acenei em direção ao banheiro. –
Você poderia me acompanhar?
Ele estava com o pé atrás, mas eu podia ver a expectativa em seus olhos, uma
pequena faísca de esperança. Os lábios dele se entreabriram. Passei por ele e
fui até o banheiro. Ele me acompanhou com cautela, com as mãos livres e
desimpedidas ao lado do corpo, prontas para atacar se fosse necessário.
– Alguma coisa errada com minha equipe? – ele perguntou.
Fechei
porta
quando
entramos e mantive minha mão na maçaneta. Aquilo era uma aposta alta.
Tudo estaria perdido se eu cometesse um engano. E eu não era a única em
perigo: Rhys também corria risco. “Diga que você cometeu um erro. Saia.
Andar errado, dormitório errado.”
– Por que você não me
responde?
Eu me virei para ele.
Eu vi a cicatriz.
– Você me conhece – eu disse.
Ele não pôde esconder a
reação. Instantaneamente, ele engoliu em seco e começou a piscar, e seus
olhos azuis arroxeados ficaram brilhantes.
Ele fingiu tossir.
– Ah, é? – ele disfarçou. – Eu não reconheço seu número – ele ainda estava
sendo cauteloso.
– Peter... – eu disse.
Ele avançou até mim, mas
não para atacar. As mãos dele me pegaram sob os braços e me
ergueram e eu envolvi minhas pernas em torno da cintura dele, enquanto
minhas costas eram pressionadas contra a parede.
Em seguida, a boca dele se juntou à minha com tanta força que nossos dentes
se tocaram e eu senti sangue em seus lábios, senti a umidade de seus olhos
nas minhas bochechas. As pernas dele
tremiam
ele
me
empurrava contra a parede com tanta força que eu não conseguia respirar,
mas nem liguei. Para
que respirar, afinal?
Nós nos beijamos por um
longo tempo. Não sei quanto. Eu provavelmente deveria saber.
Mas não importava. A boca dele tinha gosto de hortelã, como a pasta de
dente que eu acabara de usar. Em dado momento, nós não movemos mais
nossos lábios, apenas os mantivemos colados, enquanto
nos
abraçávamos,
ofegando.
Ele recuou um pouco para
olhar em meus olhos.
– Eu sabia que era você. No elevador. Eu sabia. Eu não sei como, mas sabia –
ele engoliu em seco.
– Sinto muito. Sinto muito por você ter que voltar. Não é certo.
Naquele momento eu estava
bem contente por estar viva.
– Agora parece certo.
Ele me beijou mais uma vez, suavemente. Tinha um pouco de sangue no
lábio superior dele.
Limpei com meu polegar e
apertei seu rosto entre as minhas mãos. Eu podia sentir sua pulsação na
minha palma, forte e constante, e o calor da pele dele. Havia uma guerra do
lado de fora e eu não queria lutar.
Queria ficar ali, com ele.
– Isso é perigoso – ele disse.
– Eu não me importo. Por onde você andou?
Ele balançou a cabeça.
– Sinto muito. Eu devia ter ficado ao seu lado. Mas encontrei uma brecha e
precisei aproveitar
a oportunidade. Pensei que poderia
aprender
mais
se
estivesse infiltrado.
– E aprendeu?
– Nada que possa nos ajudar.
Os outros devem ter ficado extremamente preocupados. Eu tive só 12
segundos para tomar o lugar desse Peter. Não deu tempo de avisar o Noble
sobre o que eu iria fazer. Tentei usar o rádio mais tarde, só que estava...
Eu o silenciei com um beijo.
– Eles vão dominar tudo.
Eu o beijei de novo. Nada importava naquele instante. Ele estava ali, vivo.
Mas então ouvi a porta do quarto 12 se abrir.
Nós
dois
hesitamos,
inseguros quanto à história que inventaríamos. Então tomei uma decisão
repentina e o empurrei; em seguida, me escondi na cabine de banheiro mais
longe, a terceira. As paredes dela iam do chão ao teto. Peter agarrou meu
braço mais uma vez. Ele me
puxou para um abraço rápido e me beijou com força, rápido.
– Espero que não seja o
último... – ele sussurrou.
– Vai!
Fechei a porta o mais
silenciosamente que pude. Havia um vão embaixo dela, de cerca de 30
centímetros, e qualquer um poderia ver tudo pelo alto com um pulinho. O
banheiro estava repleto de um líquido.
Apoiei os pés sobre o vaso, com os lábios ainda latejando
por causa do beijo. Minha respiração soou alta, saindo pelo nariz. Do lado de
fora do banheiro, ouvi Peter conversar com alguém.
Pareciam falar banalidades, mas eu não conseguia decifrar as palavras.
Dois segundos depois, a porta do banheiro se abriu. Ouvi passos quase
silenciosos no chão, um roçar de cabelos – o que significava que era a
Miranda ou a Olivia –, e em seguida, nada. A
Rosa
ficou
completamente
imóvel durante cinco segundos completos.
Prendi
minha
respiração.
Então, uma fungada.
A Rosa estava farejando. Eu suava, mas não sabia se estava fedendo. Meu
cabelo não podia ter cheiro de xampu, porque eu não havia tomado banho
desde que saíra do tanque. Talvez ela tivesse tomado friagem do lado de fora
e por isso estava fungando.
Meu peito ardia de calor, então eu expirei o ar da maneira mais silenciosa
possível. Ainda assim dava para ouvir, e no silêncio tive a impressão de que
soava como um tornado. Inspirei lentamente, por um longo tempo.
A Rosa limpou a garganta, então entrou na cabine ao lado da minha. Eu
escutei quando ela abaixou o assento, então ouvi alguns
ruídos
metálicos
abafados, os sons de quem retira o traje blindado. Depois que ela
terminou, foi até a pia e saiu.
Respirei mais uma vez, quase
desabando. Havia sido estúpido ir até ali, mas ainda assim eu não podia
me
arrepender.
Os
minutos se passaram enquanto eu esperava pela volta do Peter e meu corpo
começou a formigar.
Finalmente, desci do assento e me alonguei.
Peter
chegou
logo
em
seguida. Ele não disse nada, apenas abriu a porta da cabine e envolveu um
braço na minha
cintura enquanto me puxava para perto.
– Quem era?
– A Olivia da minha equipe. O-620. Dentro do possível, ela parece bacana.
– Isso é estranho – eu disse, porque sabia do que ele estava falando,
mas
não
queria
acrescentar nada a respeito.
– Você tem que ir agora – ele apertou o braço com um pouco mais de força,
puxando-me para mais perto. – Não que eu queira
que você vá, eu realmente não queria isso. Mas vamos nos encontrar mais
tarde.
– É claro. Você vai ficar em segurança?
Ele me beijou de novo em vez
de me responder. Os dedos dele encontraram o fecho do meu traje no topo do
pescoço, mas eu detive suas mãos.
– Melhor não, se você quer que eu saia logo daqui – eu disse.
– Eu não acredito que você está aqui – ele me fitava,
maravilhado.
– Não importa que eu não seja mais a mesma?
– Não. Não importou da
primeira vez. Para você importa?
– Antes eu não tinha certeza.
Mas... agora estou feliz – e eu estava sendo sincera. Talvez eu pudesse
encarar aquilo como uma chance extra na vida. Meu sacrifício não precisava
ser inútil, podia ser apenas mais um passo do caminho. Eu sabia que não era
mais a mesma pessoa.
Aquela pessoa morrera de uma maneira horrível, literalmente explodida em
pedaços depois de ser mutilada por monstros, mas...
de certa forma, eu sou ela ao mesmo tempo. Eu sou eu. Eu sei disso quando
fecho meus olhos.
– Bom. Quero que você fique feliz. Nós precisamos encontrar o East e acabar
com isso tudo. E
depois vamos dar o fora, para um lugar onde ninguém poderá nos encontrar.
Aquilo parecia tão bom que
até me deu um arrepio.
– Eu me encontrei com a
Olivia, com a Olivia Original – eu disse, voltando à nossa missão.
Ele precisava ser informado.
– Eu também falei com ela, mas foi rápido. Ela sabia que era eu. Me contou o
que está acontecendo, disse o que a Terra Verdadeira está tentando fazer
aqui... Ela me pediu para tomar cuidado, mas não vou parar de procurar
pela
Chave.
Não
podemos deixá-los fazer tudo o
que
quiserem.
Não
até
descobrirmos o que poderia acontecer.
– Eu estou preocupada. Ela não está contando a história inteira.
Será
que
podemos
confiar nela?
Ele deu de ombros.
– Não sei. Mas ela sabe como
nos encontrar, e não nos
prenderam, então...
Eu
ainda
não
estava
convencida, mas não sabia o que mais
poderíamos
fazer
no
momento. Por isso disse apenas:
– Ótimo. Vamos salvar o mundo e seguir com nossas vidas.
– Exatamente – ele desviou o
olhar para o chão por um segundo.
– O que foi?
Ele emitiu um som que
parecia um pouco com uma
risada.
– Eu fiquei furioso com você.
Por um longo tempo. Fiquei furioso por você ter partido e se sacrificado sem
nos dizer nada.
– Peter. Eu...
– Calma, escute. Eu não estou mais bravo. O fato de você estar aqui me faz
lembrar do que realmente importa.
– E o que é?
– A vida – ele respondeu.
Ele me deu um último beijo lento, demorado, então afastou os lábios e me
beijou na testa.
– Agora vá. Nós vamos nos ver em breve.
De algum modo, eu consegui.
Eu saí de lá. Não olhei para trás
ao partir, porque sabia que ele estaria me observando. E, se olhasse para trás,
eu iria voltar.
Deixei o 12º andar e desci até meu dormitório, e quando abri a porta vi uma
pessoa que não reconheci.
12
–M-96! – ele falou, como se fôssemos velhos amigos.
Ele estava usando nosso
traje, mas não era um Rosa.
– Sim – eu respondi.
– É ótimo conhecê-la. Meu nome é Albin.
Seu cabelo castanho descia até o ombro, penteado para trás.
Ele sorria para mim, e tinha covinhas nas bochechas e dentes brancos
brilhantes. Seus olhos eram calorosos, de um castanho tão claro que parecia
cor de mel, mas inchados e vermelhos, como se ele tivesse passado a noite
toda bebendo. As escamas no traje dele eram cor de ameixa, e aparentemente
ele não portava nenhuma arma. Seu distintivo tinha apenas a letra A, sem
número.
– Oi, Albin.
Ele sustentou o contato visual. Meus colegas olhavam ora para mim, ora para
ele. Alguma coisa ia muito, muito mal.
– Como posso ajudá-lo? – fiz o meu melhor para me manter firme. Ver Peter
tinha renovado minhas energias, e eu as usava nesse momento.
– Ah, estou contente por você ter me perguntado isso – ele disse. – Você
pode me ajudar muito, então é bom que esteja disposta a ser prestativa.
Rhys estava atrás de todo mundo, mas eu podia notar o peito dele se
expandindo e se contraindo mais rápido que o normal. Ele moveu sutilmente
a cabeça, como se pedisse: “Não vá estragar seu disfarce”.
Albin se demorou um pouco mais olhando para mim, então inspirou
rapidamente, como se tivesse acabado de perceber que precisava continuar.
– Você se importaria de me acompanhar a um outro andar? –
Albin estendeu a mão, com a palma para cima, só que ainda estava longe
demais para eu alcançá-la, o que tornava o gesto esquisito.
– Claro – eu disse com
firmeza. – Vamos.
Captei o olhar do Rhys mais uma vez, brevemente, e parecia que ele queria se
aproximar, porém era esperto o bastante para saber que isso declararia a
nossa morte.
Albin passou por mim e
chegou ao corredor.
Minha
equipe
estava
claramente com os nervos à flor da pele.
– Boa sorte – o P-230 disse.
Acenei em agradecimento,
então segui Albin porta afora.
Ele estava esperando perto da balaustrada com aquele
sorriso grande e bonito.
– Ei, pode relaxar – ele disse.
– Ninguém está em apuros –
enquanto ele falava, eu podia ouvir um pouco de muco fazendo
seus pulmões chiarem. “Se ele está doente, talvez esteja fraco.”
– Eu estou relaxada, apenas não estou me sentindo muito bem – eu disse.
– Você consultou um médico?
– ele fungou.
Eu não queria ver um médico.
Apenas encolhi os ombros e esperei que ele mudasse de assunto.
Nós entramos no elevador, e no espaço apertado eu pude sentir o seu cheiro.
Ele exalava
um odor de canela. Não essência de canela, mas canela mesmo, como se
estivesse armazenada em um pote, levemente amarga.
Ele olhava para a frente, esperando pacientemente até que o elevador parasse
no terceiro andar.
Eu o segui para fora, até a metade do caminho que levava a uma porta que
não tinha nenhum número inscrito. Não havia inscrição nenhuma. Ele abriu a
porta e deu um passo para o lado.
– Depois de você.
Estava
completamente
escuro no quarto e todos os meus instintos me diziam para não entrar ali, mas
eu não podia apenas ficar parada do lado de fora.
Atravessei
a
soleira,
tentando captar a presença de outras pessoas por meio da audição, mas a sala
parecia mesmo vazia. Havia um leve aroma de plástico no ar.
Albin fechou a porta e
acendeu a luz. Engasguei quando
vi. A sala só tinha uma cadeira, à qual
se
ligavam
correntes
espessas. A adrenalina explodiu nas minhas veias como uma bomba. Eu me
virei para trás, mas Albin deu um tapa com as costas da mão no meu rosto.
Foi como ser atingida por uma pá.
Minha cabeça se chocou contra a parede e eu escorreguei até o chão.
Minha visão ficou turva do lado direito, onde eu tinha sido atingida, mas ele
não tirava
proveito da minha condição desfavorável.
Apenas
ficou
parado na frente da saída com os braços
cruzados
e
uma
expressão neutra no rosto.
– Sinto muito por isso – ele disse. – Não quer se sentar? Eu não vou
acorrentá-la.
Eu me pus em pé e quase caí
de novo. Minha cabeça estava latejando e eu sentia o lado esquerdo mais
pesado, como se eu fosse tombar e bater mais uma vez na parede. “Você
devia
ter ficado com o Peter”, eu pensei.
“Não. Você devia ter pegado o Peter e o Rhys e dado o fora deste lugar.”
– Tome um segundo para se recompor. E então, por favor, sente-se – ele
ainda não tinha se movido e seus olhos jamais se descolavam de mim.
O calor da pancada dele
suavizou, passou para uma dor formigante que irradiava pelo meu rosto.
Mexi a mandíbula para me
certificar de que não estava quebrada. Então eu me sentei, preparando-me
mentalmente
para saltar da cadeira se ele desse um passo em minha
direção. Porém ele não saiu do lugar.
– Você é um Rosa? –
perguntei, esforçando-me para não tremer. Minha bochecha já estava
inchada,
tornando
doloroso falar.
Não.
Meu
papel
ligeiramente diferente – ele
fungou.
– Diferente como?
– Eu não posso lhe contar, mas prometo que você vai saber em breve.
Imaginei Rhys no dormitório e Peter no outro. “Saiam da Verge”, eu pensei.
“Vão embora.”
– Eu sei quem você é,
Miranda – Albin disse. Ele puxou catarro da garganta e cuspiu no canto. A
bola de muco estava sangrenta.
– Você está doente? –
indaguei. – O que você tem? –
forcei um tom provocativo, tentando irritá-lo.
– Eu sei quem você é – ele repetiu.
– Você se importaria em me dizer?
Eu
venho
tentando
descobrir faz algum tempo.
Ele riu pelo nariz e, de certo modo, o som foi delicado.
– Humor. Muito bom. Uma
ótima reação diante do perigo. É
um mecanismo de defesa contra o
medo.
Algumas
pessoas,
especialmente as que não são como nós, geralmente optam pelo pânico.
Elas se abalam. Mas você e o
medo são velhos amigos, não são?
Eu não sabia que tipo de resposta ele esperava. Fosse qual fosse, eu queria
lhe dar o exato oposto. Então fui tentando.
– Isso é interessante –
comentei.
– Hum – ele respondeu. – Na verdade, a diretora está feliz por
ter você aqui.
Meu sangue gelou. Como ela descobrira? Um momento se
passou em que considerei abrir meu comunicador para ao menos avisar Rhys
para que ele fugisse.
Mas Albin só se interessara por mim,
quando
ele
poderia
facilmente ter levado nós dois, então talvez o disfarce dele continuasse
intacto.
Albin sorriu.
– Sim, ela sabe que você está aqui.
– Eu não dou a mínima para isso – mas depois de um
momento não pude ficar calada.
– Por que ela está contente?
– Essa é a minha pergunta para você. Parece que eu não fui informado sobre
alguma coisa. A diretora tem um interesse
especial por você, mas até agora ninguém pôde me dizer por quê.
Não há sequer um boato a seu respeito em meio às fileiras no momento. Todo
mundo ainda
pensa que você está morta.
Então, por quê?
– Não faço ideia.
Ele não disse nada. Pude
notar que ele queria fungar de novo. O nariz dele estava coçando, as narinas
estavam inflamadas. Mas ele se conteve.
– Você está doente – eu disse mais uma vez, tentando ganhar algum tempo
enquanto pensava.
– Você sabe por que eu estou
doente,
Miranda?
tranquilidade na voz dele estava se perdendo.
Eu percebia que o estava irritando. Isso era bom.
– Você não tomou vitamina C?
Albin avançou, parando a
poucos centímetros do meu
rosto, com as duas mãos
apoiadas nos braços da cadeira e o corpo inclinado sobre mim. Eu continuei
encarando-o direto nos olhos. Estava acostumada com
pessoas
tentando
me
assustar.
– Minha doença é o motivo de
estarmos aqui – a febre irradiava da pele dele. Senti o cheiro de canela de
novo.
Eu esperei, preferindo não falar.
Ele
se
levantou,
mas
continuou olhando para mim, de cima para baixo. Alguma coisa mudou no
rosto dele.
– Eu quero que você entenda
uma coisa. A Terra Verdadeira não é maligna. Eles estão simplesmente se
defendendo. De vocês – ele disse eles. Não nós.
Mas a maneira como ele disse...
Parecia decorado. Como se
estivesse falando em nome de alguém. Talvez alguém que
estivesse nos observando?
De repente, eu me dei conta.
Estão
simplesmente
se
defendendo. Albin não estava totalmente informado. Ele não sabia que
estávamos no passado da Terra Verdadeira, ou que a Terra Verdadeira era
nosso futuro, dependendo do ponto de vista. Ele ainda pensava que a
Terra Verdadeira estava ali para nos destruir.
Decidi não entregar o que eu
sabia,
ao
menos
naquele
momento.
Ele escarrrou mais uma vez, então
passou
antebraço
blindado debaixo do nariz.
– Eu estou doente por causa deste planeta. Um planeta cheio de
gente
disposta
se
autodestruir.
Quantas pessoas, quantos
cidadãos deste mundo não
acabariam
com
tudo
se
pudessem? Se pudessem apertar um botão e apagar tudo? Uma centena? Mil?
Milhões, talvez. O
que você acha?
– Eu acho que você deveria me contar exatamente o que quer de mim e parar
de tentar racionalizar
respeito
de
extermínio em massa – porém aquilo não era uma interrogação.
Ele não estava me fazendo perguntas de verdade. Mas o que ele queria?
Albin cuspiu mais uma bola de muco sangrento no chão. Ele fechou os olhos.
Suas pálpebras vibraram por um segundo, então ele fixou o olhar em mim
mais uma vez. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
Ele fechou os olhos de novo e eu decidi parar de esperar. Saltei da cadeira,
corri até a porta, abri e pulei sobre a balaustrada. Eu estava no terceiro andar,
então meus
pés
doeram
quando
aterrissei no chão. Uma dor
aguda percorreu dos meus pés à cintura. Rolei para a frente, compacta, e surgi
em meio a um grupo de Rosas espantados.
Passei por eles, empurrando-os, e continuei correndo. Eu não queria deixar
Rhys e Peter para trás,
mas
nossas
chances
aumentariam se escapássemos separadamente.
Ninguém gritou, ninguém me
seguiu. Do lado de fora estava frio como nunca e a neve soprava com força.
Havia um Espinho a
sete metros da Verge, com a porta do motorista aberta. Era bom demais para
ser verdade, mas não era hora de duvidar.
Meu corpo era pura ação, porém minha
mente
continuava
escapando
para
lembranças
aleatórias, coisas que vêm à memória, sem controle.
Vi o rosto do Peter, senti o sabor da boca dele. Vi o sangue no rosto do Noah.
Eu me lembrei dos braços dele me envolvendo, reais apenas na minha
cabeça,
pouco antes de morrermos.
Noah podia não estar mais em minha mente, mas eu sabia o que ele diria.
“Não tenha medo.
Não ouse se entregar.”
Eu não iria desistir.
Então entrei no Espinho e disparei para longe da Verge. Os pneus
cortavam
asfalto
congelado.
Passei por cima de uma
árvore pequena como se fosse um palito de dente. A barra estava livre atrás
de mim,
ninguém
me
perseguia.
Entretanto,
eu
continuava
conferindo, porque aquilo não podia estar certo. Albin devia ter soado algum
alarme àquela
altura.
Dirigi para o Oeste, em
direção ao apartamento. Dez segundos depois de deixar o parque, estacionei e
abandonei o Espinho. Eles iriam rastreá-lo, sem dúvida. Saí, ofegante pela
adrenalina, e corri pelo resto do caminho, indo de um lado a outro
pelas
ruas,
ignorando
os
cidadãos que me olhavam. Minha respiração
formava
nuvens
enormes de fumaça, o ar frio arranhava
minha
garganta.
Prossegui pelo estacionamento, passando através da parede que eu destroçara
com minha AIR, então tomei o elevador e subi. O
ar quente provocava um choque térmico, quase doloroso, na pele.
Eu me curvei, apoiando as mãos nos joelhos, e respirei fundo enquanto o
elevador me levava
para o alto. Eu confiava que Noble concordaria que o melhor plano era tirar
Rhys e Peter da Verge.
Ele saberia como proceder.
Eu estava quase sorrindo. Não podia
acreditar
que
tinha
escapado de lá com tanta
facilidade.
Que
segurança
descuidada, a deles.
Abri a porta do nosso
apartamento e chamei:
– Noble! Sofia! Onde estão vocês?
Nenhuma resposta. Chequei todos os quartos.
– Noble?
O R-34 e a M-96 também se foram.
– Pessoal... – eu disse, mesmo sabendo que estava sozinha. Eu me sentia mal.
Fechei os olhos.
Quando os abri, estava de volta no quarto com Albin se matando de rir.
13
Albin não parou de rir por uns bons 20 segundos. eu quase pensei que fosse
fingimento.
Eu ainda estava na cadeira.
As correntes estavam à minha volta, mantendo-me no lugar, cortando a
circulação das minhas mãos. Estava confusa demais para ficar brava,
esperando
atordoada
que
alguém
me
explicasse a piada. Eu olhava para minhas mãos, as abria e fechava,
então
apertava,
sentindo a pressão nas palmas.
Albin riu até tossir e cuspir mais catarro.
– Fácil demais, fácil demais –
ele disse.
Pisquei rapidamente, então
apertei bem meus olhos, a ponto de doerem. Quando os abri, ainda estava na
sala. Mas como? Era impossível. Eu podia me lembrar
do calor incômodo do elevador e de como meus pulmões e minha
garganta arderam de frio por causa do ar de fora. Era real. E
mesmo assim, eu estava ali. Será que de alguma maneira eles tinham
me
apanhado
no
apartamento e me trazido de volta?
– Você ainda não entendeu –
Albin disse. Ele estava calmo novamente. – Ei, olhe, um gato! –
ele estalou os dedos. No canto da sala, de repente havia um gato
preto. Ele me encarou, então começou a se limpar, lambendo uma pata e
esfregando o rosto. –
Olhe – Albin disse –, agora ele se foi – ele estalou o dedo mais uma vez e o
gato desapareceu.
Finalmente eu entendi.
– Você me perguntou se eu sou um Rosa. Eu não sou um Rosa, não deixo as
pessoas com medo. Eu as faço verem coisas.
Qualquer coisa que elas queiram.
Fiz você ver sua liberdade. E
aonde você foi? Você foi para
casa.
Ele tossiu de novo, e um fio de sangue surgiu em seus lábios.
– Eu fiquei ao seu lado em sua mente e na sua viagem pela neve
– ele limpou o sangue dos lábios, revelando um sorriso. – Agora eu sei onde
vocês moram.
Ele disse outra coisa depois disso, mas eu não pude escutar com o zumbido
em meus
ouvidos. Eu havia levado o inimigo até a Sofia e o Noble.
“Você não sabia”, eu queria dizer
a mim mesma. Mas eu deveria saber. Estava fácil demais. O
Espinho estava esperando por mim do lado de fora, depois ninguém me
seguiu. Eu devia ter desconfiado.
– Não precisa se culpar – ele disse. – Aliás, precisa, sim. Seus amigos vão
morrer. Mas você já está acostumada com isso, não está?
Um zumbido nos meus
ouvidos soou em uma sequência que eu logo decifrei, um sinal
com
qual
eu
estava
familiarizada. Raiva.
– Eu vou matar você – eu disse.
– Chame seu namorado – ele disse. – Eu sei que seu Peter está aqui. Eu vou
lidar com ele em seguida. Acho que vou fazê-lo ver um monte de coisas. Vou
fazê-lo ver você, mesmo depois que você morrer. E então, quando ele
pensar...
Ele parou de falar quando a porta se abriu.
A diretora entrou na sala.
Ela ficou parada na entrada por
vários
segundos.
Com
cabelos
dourados,
escamas
douradas, ela não se parecia nem um pouco comigo, mesmo tendo
o mesmo rosto. Ela era antiga de uma maneira que eu não saberia explicar.
Como uma vampira, que é velha, mas parece jovem. Ela me encarou.
Da última vez que travamos contato, sem contar quando eu a avistara
algumas horas antes, ela
estava tentando recuperar a Tocha e meu plano era usá-la para destruir seu
exército de sem-olhos.
E isso eu cumpri.
Mas, enfim, lá estávamos nós.
– Obrigada, Albin – a diretora agradeceu, sem desgrudar os olhos de mim.
– Eu vivo para servir – Albin disse, quase com sarcasmo, mas não
exatamente. Ele se inclinou e sussurrou algo no ouvido da diretora.
– Aposto que você jamais pensou que me veria novamente
– eu disse a ela.
– Na verdade, eu não sabia quem era você até alguns dias atrás.
As
palavras
dela
me
causaram um arrepio, por mais que eu não soubesse bem o que ela quisera
dizer. Era claro que ela sabia quem eu era. Eu fui a pedra no sapato dela; eu
arruinara todo o seu plano.
Ela se aproximou e se
inclinou em minha direção, perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro de
seu xampu. Então, as mãos dela me libertaram das correntes. Eu pensei em
morder o nariz ou a orelha dela, arrancá-
los com os dentes, mas isso não iria me tirar dali mais cedo.
Tentei não tremer.
Tentei não demonstrar medo.
Acima de tudo, tentei reunir um pouco de coragem. Porém falhei
completamente. “Nós estávamos apenas começando”, pensei. “Eu
acabei de voltar da morte, eu acabei de reencontrar o Peter. Ao menos nós
tivemos aquele último momento juntos.” Eu me lembrei dos olhos dele, dos
seus lábios e do toque de suas mãos. Eu vestiria essa recordação como uma
armadura.
Eu não queria que ele me encontrasse. Eu queria que ele escapasse.
Outra Miranda entrou na sala.
Mas esta era diferente e eu a reconheci em um instante. Ela
também tinha meu rosto, mas o cabelo dela estava estilizado com um corte
joãozinho, tingido de preto. Aquela era a Nina, a Nina Original,
que
instalara
sua
identidade na nossa amiga
Sequência para se infiltrar em nossa equipe. Eu a matara no Salão Oval da
Casa Branca antes que ela pudesse enviar um exército de monstros para
devorar nosso mundo. Eu sabia que ela era a verdadeira Nina, podia apostar
qualquer coisa.
– Lembra-se de quando você me matou? – Nina perguntou. Ela estava
sorrindo
quase
frivolamente. – A vingança é doce em qualquer universo.
Universo. Ela não sabe da verdade sobre nossos mundos?
– Silêncio, Nina – a diretora disse. Em seguida ela me ergueu da cadeira. Eu
não oferecia resistência,
afinal,
do
que
adiantaria?
– Eu me lembro de quando matei você – devolvi. – E você
implorou por sua vida – era um blefe, Nina não fizera nada do tipo, mas
assim eu constatava a reação dela. Seu queixo chegou a cair. Ela não sabia o
que acontecera com a Nina que eu matara. Ela não estava lá. – Ela devia ter
um defeito.
Tenho certeza de que você jamais iria implorar.
A diretora me guiou para fora da sala, quase gentilmente, antes que a Nina
pudesse responder.
– Mas você está com o
mesmo cabelo mal cortado – eu disse, por cima do ombro. –
Interessante...
A diretora me empurrou em direção à balaustrada e eu me agarrei na beirada,
mas as mãos dela pegaram em minhas pernas e ela me arremessou. Eram três
andares.
Dei um giro no ar e caí sobre meus calcanhares, então de bunda, e por fim de
costas. Uma dor
terrível
me
percorreu
horizontalmente, dos ombros
para os braços, e não consegui respirar. “Dor ruim”, pensei. O
tipo de dor que nos diz que estamos bem machucados; o tipo que provoca um
medo dos mais primitivos.
Pouco
depois,
dois
pés
estancaram ao meu lado, e eu ergui os olhos até chegar ao rosto da diretora.
Ela pairava sobre mim, desfigurada pela luz acima dela.
– Você me causou muitos
transtornos. Então preciso puni-
la – ela agarrou meu braço e me puxou para cima antes que eu pudesse
retomar o fôlego. Alguns Rosas no térreo haviam parado para assistir. Acima,
Albin e Nina estavam inclinados sobre a balaustrada, olhando para nós.
Nina ria como uma maníaca. O
ardor nos meus ombros passava à região lombar, mas eu estava de pé, então
era possível que não tivesse quebrado nada.
Finalmente
dei
uma
respirada decente, e a diretora
me escorou enquanto eu me apoiava nela. Ela me conduziu para fora da
Verge, ajudando-me enquanto eu mancava.
– Eu preciso moldá-la agora.
Você verá.
Eu me desvencilhei dela, mas
perdi o equilíbrio e quase caí de joelhos. Eu me recuperei, então passei pelas
portas, tropeçando.
O ar frio me atingiu como um martelo.
– Você não pode sair
correndo – ela disse calmamente.
– Não até eu lhe contar uma coisa.
– Revelar seu plano maligno?
– eu disse, tossindo um pouco mais e sentindo sangue na minha garganta.
Meu olho direito ainda estava embaçado do golpe do Albin.
“Você está em má forma, Miranda”, pensei, com uma calma que me
assustava.
Eu estava calma demais.
Como se já estivesse aceitando o que viria em seguida. O que era
quase desistir.
– Você deve saber que esta é
a hora em que a vilã é derrotada
– continuei.
– É engraçado você usar a palavra vilã – ela disse. – Eu não usaria essa
palavra.
Senti um tremor profundo e surdo em meus ossos quando o laser do topo da
Verge disparou mais uma vez no céu. O calor do raio aqueceu meu pescoço e
cavou um buraco nas nuvens, mas eu não conseguia ver o que
ele atingira.
De repente a diretora estava em cima de mim, agarrando meu braço e meu
punho, formando uma alavanca. Mais uma vez, eu a deixava me dominar.
– Então conte – eu disse. –
Vamos acabar logo com isso.
Primeiro
eu
preciso
mostrar algo a você – nós passamos por uma fileira de árvores desfolhadas e
chegamos a uma clareira, de onde o panorama da cidade era visível à
distância, em meio ao cinza.
Comecei a tremer, contendo-me para não olhar para o Time Warner
Center,
para
não
entregar o Noble e a Sofia. Ao sul, uma esquadrilha de Machados pairava
sobre
os
prédios.
Silenciosamente,
eu
queria
induzir a diretora a continuar se afastando da Verge, para longe do Peter e do
Rhys.
“Eu sei que seu Peter está aqui”, Albin dissera. Eu esperava que Peter
escapasse assim que
descobrisse
que
tinha
acontecido comigo. Era o que ele devia fazer. Os outros contavam com ele.
Eu conseguia ver para onde os Machados estavam indo.
Vários Rosas surgiram do meio das
árvores.
Eles
nos
circundaram em grupos de cinco, mas mantinham uma distância respeitosa.
Todas as cores de trajes estavam representadas.
Albin também estava lá, com os lábios manchados de sangue
devido à doença. Mais adiante havia cerca de uma centena de Rosas, todos de
pé, sem se abalar com o vento gélido. Eu procurei pelo meu Peter e pelo meu
Rhys entre os rostos, mas todos pareciam iguais.
diretora
se
inclinou,
aproximando-se.
– A Olivia me contou quem é
você. Assim como ela me contou quem eu sou. Ela se intrometeu na minha
memória, o que quase arruinou tudo. Na verdade, ela
arruinou tudo mesmo. Mas como eu poderia odiar uma amiga minha de mil
anos? – ela virou o rosto para o céu. – Além disso...
agora
estamos
aqui
para
consertar.
Estremeci ainda mais. Eu
estava cansada de não entender.
Estava cansada de toda aquela complexidade.
– Eu a perdoo pelo que você fez, Miranda, porque você ainda não aprendeu.
Você ainda tem muito chão pela frente. Mas isso
vai acontecer. Eu sei disso porque eu existo – o hálito quente dela parou de
soprar no meu ouvido e eu quase senti falta dele. Ela encarou meu rosto,
procurando
tipo
de
compreensão que ela queria me inculcar. Eu não tinha nada para mostrar a
ela.
– Mate-me de uma vez – pedi.
– Você vai ficar mais esperta
– ela disse, apertando meu ombro. – Eu não vou matar você.
Porque você sou eu.
Nesse instante, os Machados abriram fogo. Cada um soltou um pequeno
clarão, e no segundo seguinte a base no Time Warner Center explodiu.
14
Meu grito foi abafado pelo barulho. primeiro o estrondo grave da explosão,
depois os guinchos e gemidos de ferro se retorcendo por dentro do prédio.
Os dois arranha-céus estavam se curvando em nossa direção, caindo
lentamente,
muito
lentamente, e eu só tive tempo
para pensar “Ela disse que eu sou ela”
antes
que
eles
ultrapassassem alguma linha invisível e desmoronassem. A terra tremeu e
alguns Rosas tiveram que se apoiar nas árvores. O topo de cada torre chegou
ao chão em outro
quarteirão, com estilhaços de vidro e escombros voando em nossa direção
como facas, e desejei ser perfurada por um deles para não ter mais que sentir
o que eu estava sentindo.
A Escuridão não parecia nada comparada à escuridão dentro de mim naquele
momento.
O vento diminuiu quando as torres
destroçadas
se
sedimentaram em suas novas formas. O ar estava repleto de uma poeira cinza
sufocante. Eu mal conseguia enxergar três metros à minha frente.
A diretora me escorava.
– São estes os momentos que
a transformam – ela disse. – Seu único consolo é que eu não vou
matar você, Miranda. Você vai construir o futuro. A Escuridão conduz a
muitas possibilidades, porém às vezes o passado e o futuro estão ligados. É
isso o que acontece entre nós.
Os Rosas ainda estavam nos observando, querendo saber o que iria acontecer
a seguir. Dois prédios jaziam despedaçados perto deles, e eles pareciam
entediados com aquilo. Eu ouvia as palavras da diretora e decidi acreditar
nela por ora, porque
negar não iria me ajudar em nada. Eu era ela, com certeza.
Que fosse. Ela obviamente
entendera errado alguma coisa, porque eu sempre teria a chance de me
suicidar, então eu tinha a escolha nas mãos.
Como se estivesse lendo
minha mente, a diretora pegou o disco da base do meu crânio e o retirou.
Se eu morresse e de alguma maneira fosse trazida de volta, aquilo seria a
última coisa de que
eu me lembraria.
Foi nesse momento que a
escuridão se tornou fogo; eu decidi assumir o controle da minha vida.
Ergui o cotovelo na direção do rosto dela, tão rápido quanto possível, com
cada grama de força que pude reunir.
Ela se agachou, desviando-se.
– Reagir não é a melhor
escolha.
Eu mal a escutava; estava ocupada
demais
tentando
arrebentar a cara dela com um soco. Ela se esquivou para o lado com
facilidade e eu caí na neve. A diretora me pegou pelo cabelo e me colocou de
joelhos, então me chutou na cara. Meu nariz quebrou e jorrou sangue pelas
narinas, cobrindo minha boca e meu queixo. Era tão quente que foi até uma
sensação boa, uma coisa abstrata latejando no meu nariz, que ainda não
chegava a ser promovida a uma dor. Caí de costas, com a vista turva, e quase
ri. Foi nessa hora que percebi que estava me perdendo. Eu podia perceber, de
uma maneira cínica e desapegada. Eu tentei me lembrar de um momento em
que tivesse sido feliz.
Devia ter sido a dança no baile, antes da morte do Noah.
Na época em que um futuro brilhante não parecia apenas uma ideia insana.
Quando eu estava com os braços em volta do pescoço do Peter e nós
dançamos, e todos os nossos
problemas podiam ser deixados para depois.
– Há mais coisas que
precisam acontecer hoje – a diretora disse, encarando-me de cima para baixo.
Eu podia senti-la; mal a enxergava através das lágrimas. – Você precisa ser
destruída antes de renascer, antes de se tornar tão forte quanto precisará ser
para liderar nosso mundo no futuro.
Nesse momento, uma Olivia e
um Noah vieram marchando da
Verge com Peter, o meu Peter.
Ele
estava
amarrado
amordaçado,
como
eu
encontrara no porão da Key Tower, mas dessa vez seus olhos estavam
enlouquecidos,
tomados por ódio. Ele estava se debatendo, entretanto os Rosas logo o
contiveram, empurrando-o em nossa direção e erguendo seus pés da neve
quando ele resistia.
Percebi que eram a Olivia e o Noah da nossa nova “Equipe”, a
O-9 e o N-7. Peter estava gritando através da mordaça.
Eu olhei nos olhos dele. Ele estava sacudindo a cabeça para a frente e para
trás, e eu sabia que se ele pudesse falar, estaria dizendo “Me perdoe”, mesmo
não tendo sido culpa dele. Não era culpa de ninguém.
– Eu sei que isso dói, Miranda
– a diretora disse. – Mas prometo que o tempo irá curar todas as feridas. Eu
sou uma prova disso.
Ela tirou uma espada das
costas. Eu nem sequer notara que ela estava com uma. Em um instante eu
estava de pé, por mais que meu corpo me pedisse para ficar deitada. Ela
brandiu a espada, então a posicionou na horizontal, na altura do pescoço do
Peter.
Eu fui com tudo para a frente, sabendo que a lâmina iria chegar na carne do
Peter muito antes de mim, mas ainda assim eu tinha que tentar. Eu tinha que
tentar.
Notei
uma
silhueta
se
movendo à minha direita, uma forma se materializando na poeira. Era Rhys,
que surgiu avançando com sua própria
espada, que se chocou contra a da diretora em uma profusão de faíscas. Era o
meu Rhys.
– Saia daqui! – ele gritou para mim. – Vai!
A diretora riu quando a
lâmina dela se chocou com a dele.
Rhys investiu com força
contra a diretora e ela cambaleou
para
trás.
Peter
rodopiou,
erguendo os punhos atados
enquanto Rhys passava a espada, rasgando com precisão suas amarras.
Simultaneamente, cem Rosas
tiraram as espadas de suas costas.
O vento aumentou, mas não parecia natural, era repentino e forte demais.
Três segundos depois, vimos um Machado
pairando
sobre
clareira,
incrivelmente
barulhento.
escotilha traseira se abriu. A propulsão dos motores fez
alguns Rosas a três metros de distância
se
agacharem,
encolhidos, ao mesmo tempo que lhes tirou a visibilidade por causa de toda a
neve levantada. O
ar estava quase opaco com a neve, o vapor e a poeira.
Em meio à brancura, vi a figura borrada do Rhys entretido em um duelo
mortal contra a diretora,
com
as
espadas
balançando e se chocando, no
alto, embaixo, no alto. A neve sob seus pés estava salpicada de sangue. Peter
pegou no meu braço e me puxou de costas em direção ao Machado, de onde
uma corda espessa pendia. Ele me agarrava em um abraço de urso.
– Não! NÃO! – eu gritava e me debatia,
tentando,
sem
conseguir, afastar o braço dele do meu tórax. Eu não conseguia sequer forçar
uma brecha com os dedos. Peter continuava me
arrastando, lentamente e sem descanso. Dois Rosas vieram até nós,
mas
os
disparos
de
metralhadora do Machado os derrubaram. As pessoas no
Machado estavam do nosso lado, só que eu não me importava.
Peter agarrou a corda e de repente
estávamos
subindo.
Duas mãos nos puxaram para dentro do Machado. Era Sofia!
– Peguei você! – ela disse, e por um instante eu senti uma onda de alegria por
ela ainda
estar viva.
Embaixo, a diretora fez Rhys recuar alguns passos, então olhou para cima.
Ela gritou alguma coisa para mim, porém o barulho do motor era alto demais
para que eu escutasse.
Enxuguei o sangue e as
lágrimas do rosto, então tentei novamente me libertar. Pisei no pé do Peter,
mas isso só fez com que ele me prendesse com mais firmeza.
– Ajude o Rhys! – Sofia gritou.
– Nós vamos pegá-lo! Nós vamos pegá-lo! – Peter disse.
O Machado virou para a
direita e logo Rhys estava balançando na corda. Dois Rosas tentaram subir
também, mas Rhys deu um giro e cortou a corda logo acima de sua cabeça,
para impedi-los de a agarrarem.
No mesmo giro, ele cortou o pescoço de ambos. As escamas dos
trajes
saíram
voando,
manchadas de sangue.
No instante seguinte, a
propulsão dos motores do Machado derrubou Rhys. Ele tateou a neve, em
busca de sua espada.
– Afaste-se! – eu gritei para o piloto. O Machado deslizou alguns metros para
o lado.
– Solte mais corda! – Peter gritou.
Mas era tarde demais. Rhys encontrou sua espada e ia se levantar, mas um
Noah – só podia ser o N-7 – se aproveitou e pisou em suas costas, enquanto
sacava sua própria espada. Rhys tentou se desvencilhar, mas o N-7 o
mantinha imobilizado. Ele não conseguia sequer rolar para se soltar. A
diretora ergueu suas mãos e gritou alguma coisa para o N-7, mas ninguém
conseguiu ouvir por causa dos motores ruidosos. O N-7 não estava olhando
para ela, ou teria parado.
Ele teria parado, mas não foi o que ele fez.
Eu estava gritando o nome do
Rhys quando o N-7 ergueu a
espada e depois a enterrou fundo bem no meio das costas do Rhys.
15
Depois disso, as coisas
aconteceram em questão de
segundos, mas tudo ficou meio embaralhado na minha mente.
Eu me lembrei da Sofia gritando.
Eu sabia que estava tentando me soltar do Peter.
Quase saí pela escotilha
traseira de novo, porém dessa
vez Peter me deu uma chave de pescoço. Ele também estava gritando alguma
coisa. Parei de me debater quando o Machado subiu, e fiquei só olhando, para
ter algo de que me lembrar depois.
A neve debaixo do Rhys ficou
vermelha dos dois lados. Ele não se movia, e eu sabia que nunca mais ele iria
se mover. A espada nas costas dele se inclinava um pouco para a esquerda.
Uma dúzia de Rosas em trajes
prateados sacaram suas AIRs, mas a diretora fez um gesto com a mão para
que parassem e eles obedeceram. Ela deu quatro passos e golpeou com sua
própria espada, separando a cabeça do N-7 de seu pescoço.
Ele ficou ereto por dois segundos completos, enquanto todos em volta se
afastaram, trocando olhares estarrecidos.
Então a diretora disse alguma coisa ao Albin. Ele acenou com a cabeça,
virando o rosto para
nossa direção, e fechou os olhos.
No momento seguinte, eu fiquei completamente cega. Tudo o que vi foram
trevas. Mas meus outros sentidos estavam intactos. Eu conseguia ouvir os
ruídos do Machado, sentir a vibração sob a sola dos meus pés, subindo pelas
minhas canelas e me levando a cair de joelhos. Peter se ajoelhou ao meu lado,
ainda me agarrando firme contra o peito dele, seu braço como uma barra de
ferro prendendo meu corpo.
– Virar à direita! Virar à direita! – eu ouvi alguém gritar da frente. Parecia ser
Noble, o que aliviava ao menos um pouco o aperto em meu coração. Ele
também estava vivo. Claro que estava.
Afinal, quem mais poderia
nos resgastar?
Machado
virou
violentamente para a direita, arremessando-nos
contra
parede. Eu escapei de ser prensada pelo Peter e caí de
barriga para baixo, perto da escotilha, que ainda estava aberta. O vento
turbulento na abertura soprava com força no meu rosto, e eu até saboreava a
dor, as pequenas partículas de gelo beliscando minha pele. Eu podia avançar
mais um passo e me jogar pela abertura, nunca mais ter que lidar com toda
aquela merda. Eu não teria que passar por mais nenhuma perda.
Não precisaria me tornar a diretora. Eu ainda não conseguia
acreditar que aquilo era uma possibilidade... Mas por que ela iria mentir?
Qual seria o objetivo? Será que isso se encaixava com o que Olivia me
contara? Eu precisava ver o que tinha naquele disco. Se os eventos
que
estavam
acontecendo ali tivessem um efeito no futuro da Terra Verdadeira, então eu
ainda tinha uma escolha. Talvez eu tivesse uma oportunidade para mudar
tudo.
Além disso, se eu morresse logo, a diretora estava com meu disco de
memória. Ela podia simplesmente me trazer de volta em outro corpo.
As vozes na frente do
Machado eram de pânico. Senti que estávamos desacelerando.
– Eu não consigo ver droga nenhuma! – gritou uma voz que eu não conhecia.
Um homem, mas não Noble.
Um alarme começou a soar.
Eu
ainda
não
conseguia
enxergar, mas ele soava como se estivéssemos voando perto da rua, com os
prédios altos amplificando o barulho do motor à nossa volta.
– Agarrem-se e preparem-se para o impacto! – Sofia gritou. O
metal sob minha mão esquerda começou a se levantar. A
escotilha traseira estava se fechando.
Apertei meu rosto contra o chão frio de metal do Machado.
Peter também se colocou em
cima de mim, cobrindo meu corpo com o dele. Ele apertava a bochecha
contra
minha,
deixando o lado direito do meu rosto aquecido, enquanto o esquerdo
congelava.
– Eu te amo – Peter sussurrou no meu ouvido. Tudo o que pude fazer foi
acenar com a cabeça, mas ele entendeu, pois seu rosto estava grudado no
meu.
No segundo seguinte, o
Machado colidiu com algo e nós voamos para o teto. A escuridão
continuou, mas de um outro jeito.
Pisquei até acordar e
descobri que conseguia enxergar novamente. A primeira coisa que se formou
em mim, a primeira coisa que eu senti, foi decepção, e isso me deixava
envergonhada.
Eu queria que a cegueira durasse para sempre. Havia muitas
coisas para pensar no momento, e eu não conseguia nem mesmo
organizar as ideias.
A sra. North havia dito que Olivia
mexera
com
as
lembranças dela. Isso significava que ela não sabia o que eu iria fazer em
seguida? Se eu era mesmo ela, ela não poderia se lembrar
nos
encontrar
facilmente?
Não. Do contrário, nós jamais teríamos escapado.
A menos que ela soubesse
que seríamos capturados mais tarde.
A incerteza era um grito que eu sufocava na minha garganta, um veneno que
eu tinha que engolir à força. “O que é isso?”
Outra pessoa gemia na
escotilha, e eu sentia a mão do Peter percorrer meu rosto. Eu não conseguia
ver com meu olho direito, e quando tentei me mover, a dor estourou da minha
nuca para o nariz e para o ombro direito. Então não tentei me mover. O
Machado estava de ponta-cabeça, com a escotilha
traseira escancarada. A neve entrava no compartimento. Ouvi o rosnado e o
assobio de um motor
turbo
diesel
se
aproximando. Humvees.
Eu tentei me colocar de pé com minha mão esquerda, mas era inútil. Eu não a
sentia. Eu olhava para ela. As escamas haviam sido arrancadas do traje e
meus dois dedos menores estavam inchados, fazendo com que minha mão
latejasse.
Quando pude ver melhor,
começou a doer.
Estava feio.
Peter estava sentado à minha
frente, segurando meu joelho.
Mas ele parecia bem. Seus olhos percorreram
meu
corpo,
avaliando
os
ferimentos,
piscando
quando
os
encontravam.
– Você está bem? – ele
perguntou.
– Não – respondi.
Virei minha cabeça para a esquerda e vi Noble à minha
frente, com o cabelo e a barba manchados de sangue. Ele estava claramente
estonteado, com os olhos fora de foco. Difícil dizer se era por uma concussão
ou pela morte do Rhys.
– Miranda – ele disse. Havia outra silhueta humana atrás dele, mas eu não
conseguia distingui-la.
Toquei em meu olho direito para ter certeza de que ainda estava
ali.
Estava.
Apenas
inchado. – Como ele morreu?
– De maneira honrosa –
contei a mentira através dos lábios inchados.
Ele acenou com a cabeça,
então ajudei Sofia a se erguer.
Mais uma vez senti algum alívio por saber que eles não estavam no Time
Warner Center. Eu queria continuar me sentindo bem a respeito disso, mas a
sobrevivência deles não era uma vitória. Todos os outros que estavam nas
torres haviam
morrido. Apenas porque eu
revelara o local.
Noble pegou Sofia e lhe deu um abraço apertado. Ele passava a mão em seus
cabelos enquanto ela chorava silenciosamente no peito dele.
– Está tudo bem – ele disse, mas não estava, jamais estaria.
Os motores a diesel de
repente estavam próximos. Ouvi portas pesadas se abrirem e se fecharem.
Ouvi rifles pesados sendo montados com estalos, passos de botas abafados
pela
neve, ordens sendo gritadas de um canto a outro. Através do vão da escotilha
aberta, vislumbrei a camuflagem urbana, azul, cinza e branca. Não sentíamos
urgência dentro do Machado; estávamos apenas esperando. As pessoas ali
fora não eram Rosas, mas não significava que fossem menos perigosas. Não
há nada mais perigoso do que um humano com medo.
Peter engatinhou até o meu lado, fazendo careta por causa
das dores. Ele se sentou e envolveu meu ombro com o
braço, então me beijou na bochecha, deixando uma mancha de sangue. Ele
olhava para mim como se não acreditasse que eu estava ali. Ele beijou a outra
bochecha e a testa, e continuou olhando para mim. Ele sacudiu a cabeça.
– Você está viva – ele disse e depois pressionou a bochecha dele contra a
minha. A barba rala do queixo dele pinicava minha
pele, porém era uma sensação boa. – Eu não posso passar por isso de novo,
Miranda. Não posso ver você morrer. Diga que não vai fazer isso comigo.
– Acho que minha mão está machucada de verdade – eu disse em tom neutro.
Talvez eu
estivesse em choque. – Mas não vou.
– Essas pessoas vão curá-la –
ele garantiu. – Nós estamos vivos, é isso que importa.
“Será mesmo?”
Os soldados do lado de fora usaram um cabo ligando a porta ao Humvee,
para acelerar e forçar a abertura até o final. Uma luz branca brilhante tomou
conta do Machado. Meus olhos se ajustaram e eu enxerguei uma dúzia de
soldados apontando os rifles em nossa direção. Peter se posicionou à nossa
frente, como um escudo.
O estranho na cabine do
Machado desapertou o cinto do piloto, caiu ruidosamente, então
se pôs em pé, cambaleante, com uma mão na têmpora. Eu firmei a vista com
meu olho bom e mal pude distinguir os detalhes do seu rosto. A identidade
dele foi confirmada um momento depois, quando um soldado gritou: –
Puta merda! É ele!
E outro gritou:
– É o cara que estávamos procurando!
Eu me voltei na direção do homem mais uma vez e vi como
Noah ficaria se tivesse vivido o
suficiente para se tornar um homem de meia-idade.
16
Os soldados correram para
dentro e pegaram East primeiro, empurrando-o pelo chão/teto do Machado e
atando suas mãos às costas com movimentos ágeis e precisos. Eles o
colocaram no Humvee mais próximo, que
partiu dois segundos depois. Eu olhei através da escotilha aberta
para o céu, mas não vi outros Machados nos perseguindo, nem Espinhos na
rua. Apenas a neve rodopiando ao vento; ela voltava a cair, com entusiasmo.
Eu me perguntei por que eles
não tinham vindo atrás de nós.
“Talvez porque a diretora já saiba onde estamos.”
Mas se ela já sabia de tudo, como é que ainda não havíamos perdido? Como
ainda estávamos vivos? O que ela esperava que eu fizesse?
Se eu fosse ela no futuro, então mil anos ou mais tinham se passado para ela.
Ela estaria se lembrando do que estava acontecendo naquele instante?
Talvez não. A memória podia estar embaçada, ou as coisas podiam estar
saindo de maneira diferente. Tinha de ser isso. Do contrário, não fazia
sentido.
Toquei no bolso que continha
o disco da Olivia. “Logo mais.”
Mais soldados chegavam.
Eles agarraram Peter e o
ergueram.
– Nós estamos do seu lado –
Peter disse calmamente. – Quem está no comando? Eu estava a caminho,
indo encontrar alguns soldados, quando eles atacaram...
– Cale a boca – o soldado que o segurava gritou.
Outro soldado vociferou:
– Se eles fizerem o truque do medo, atire. Entendeu?
Eles pensavam que éramos o
inimigo,
que
era
compreensível. Nós éramos um
bando de clones em um jato do inimigo. Um soldado me segurou de forma
brusca, então suavizou a pegada quando viu meu rosto.
Isso não impediu seu parceiro de atar meus pulsos.
– Eu não sou do time dos caras maus – murmurei.
Sem saber como responder a
isso, ele e seu parceiro apenas me fizeram marchar para fora.
Eu pensara que estava frio dentro do Machado, mas havia me enganado.
– E se eles estiverem sendo rastreados?
–
um
soldado
perguntou. Pisquei rapidamente, tentando forçar meu olho direito a se abrir,
porém não conseguia nem saber se minha pálpebra estava se movendo.
– Vamos revistá-los – o outro respondeu. Eu me pus a andar, contudo, o
joelho esquerdo não estava muito prestativo. Os dois soldados
praticamente
me
arrastavam.
Paramos em frente a um
soldado parrudo um pouco mais baixo que eu. Ele estava usando uma boina
azul, que por algum motivo me dava vontade de rir.
Tinha um queixo proeminente e pelos faciais grisalhos. Ele me avaliava,
firmando a vista. A placa de identificação em seu peito indicava “R.
KELLOGG”.
– Como o jato caiu? – ele me perguntou.
– É uma longa história –
respondi.
Outro soldado se aproximou
de mim com um detector portátil. A antena comprida soltava
chiados
enquanto
passava pelo meu corpo.
– Você foi informada a
respeito de Rhys Noble? – virei minha cabeça em direção à escotilha. – O
homem logo ali?
Nós estamos do seu lado.
Ele me olhou por mais algum
tempo. O soldado com o detector parou no meu antebraço, com o mostrador.
– Tem alguma coisa no traje
dela, bem aqui.
– Se os Rosas estivessem
conosco, já teriam chegado – eu apontei para o céu, para o caminho por onde
viéramos.
Havia poeira cinzenta e fumaça preta sobre os prédios, onde o Time Warner
Center tombara.
Alguns Machados eram visíveis, mas ficaram naquela área. – Está vendo?
Falem com o Peter. Ele estava trabalhando com vocês.
Olá? Vocês sabem de alguma coisa?
– Relaxe, Mi – Peter disse. –
Nós vamos esclarecer tudo assim que sairmos da rua.
Kellogg me ignorava.
– Corte a manga dela fora. A do rapaz também.
– Ah, isso não vai ser tão simples.
Um soldado tentou, mesmo
assim, com sua faca. Aconteceu o que era previsto. Ele mal conseguiu
arranhar as escamas da blindagem.
– Será que não é melhor
tirarmos a roupa deles? – o soldado com a faca perguntou.
Eles estavam usando capacetes camuflados com óculos para neve, de modo
que eu não conseguia diferenciá-los.
– Tente e veja o que acontece
– Peter disse às minhas costas.
– Por favor – Noble falou, cambaleando ao nosso lado. Ele e Sofia estavam
com os punhos atados.
– Onde está o General Davis?
Ele sabe quem nós somos.
– O General Davis está morto
– Kellogg respondeu. Então se voltou para o colega dele. –
Vamos pegar o caminho mais longo. Se formos por baixo da terra, podemos
despistá-los. Eu quero estudar esses trajes.
– Isso é uma má ideia – eu disse. – Os túneis estão cheios de aranhas de
braços humanos – eu me sentia entorpecida. Abalada.
Eu
estava
em
choque,
provavelmente.
Kellogg apertou os olhos com
curiosidade.
– Estou a par disso. Nós isolamos uma seção do túnel –
ele respirou fundo e então rugiu:
– Vamos andando!
Alguns dos soldados subiram
nos
Humvees
partiram,
enquanto outros nos cercaram e marcharam para os degraus da estação de
metrô mais próxima.
A plataforma estava mais quente que no nível da rua, mas não muito. Pular a
catraca foi mais doloroso do que eu esperava. A
plataforma estava deserta, mas as luzes ainda estavam acesas.
Saltamos para os trilhos. Era difícil pular com as amarras, e eu caí com um
joelho no chão, justo o que estava ruim. Peter caiu duro de ombro, logo sobre
uma poça d’água entre os trilhos.
Os soldados nos levantaram novamente, não exatamente com brutalidade,
mas também sem gentileza.
– Calma – Kellogg pediu-lhes.
– Com respeito.
Começamos a marchar pelo túnel. Mantive meu olho bom aberto, checando a
presença de aranhas. Eu sobressaltava a cada sombra, mas não via nada.
Nenhuma mão com garras para agarrar minhas canelas e me arrastar para as
trevas.
Ao meu lado, a Sofia tropeçou em uma das travessas e também espalhou
água de uma poça.
– Ajudem-na, caramba! –
Noble disse quando viu que os soldados não faziam nada. Eles a
puseram de pé. Ela parecia tão infeliz quanto eu, com a boca frouxa em uma
careta, como se estivesse prestes a gritar.
Nós marchamos, talvez por
quilômetros.
Lanternas
iluminavam o caminho à nossa frente,
mas
apenas
alguns
poucos metros. Dois soldados, em certo momento, ajudaram Peter, apoiando-
se um de cada lado, de tão ruim que estava o joelho dele. Meu nariz latejava e
a dor na minha mão esquerda
ardia mais. Eu estava com medo de retirar a luva e ver como estava por
baixo.
– O Rhys sabia o que estava fazendo – Peter sussurrou. A voz dele quase
sumia em meio ao eco dos
passos
ressoando
nas
paredes dos túneis.
– E daí? – eu disse.
Ele não falou mais nada
depois disso.
– Desculpa – falei após alguns minutos.
Depois
de
um
tempo,
apareceu literalmente uma luz no fim
do
túnel,
cintilando
vermelha, e logo depois pude notar que o brilho vinha das chamas sobre o
chão. Havia mais soldados
protegendo
plataforma de metrô seguinte, alguns agachados em volta dos trilhos, com
armas apontadas para nós.
– Alto lá – um soldado gritou, adiante.
– É o Kellogg – o próprio Kellogg respondeu.
Os soldados se mantiveram alertas até nos aproximarmos.
Eles ficaram tensos quando viram Peter e eu.
– Meu Deus – um rapaz com barba
disse.
Vocês
os
trouxeram aqui?
Um soldado chamado Q.
Tavaras se adiantou:
– Nós ouvimos dizer que eles
estavam com o fugitivo. É
verdade?
– Sim – Kellogg falou. –
Prestem cuidados médicos a
esses dois – ele apontou para Peter e para mim –, e chequem esse homem e a
outra menina.
Quero vigilância completa em cima deles o tempo todo – ele saltou para a
plataforma, então virou e olhou para nós. – Vou pedir aos meus homens que
removam suas amarras. Isso vai nos causar problema?
– Não, senhor.
O olhar dele relaxou um
pouco.
– Espero que seja verdade o
que vocês estavam dizendo.
Vamos precisar de um aliado.
Eu acenei com a cabeça.
– Nós também.
Ele se afastou correndo do grupo e desceu algumas escadas, enquanto
os
soldados
nos
libertavam
das
amarras.
Descobri que era uma das
entradas para a Penn Station.
Subir na plataforma era mais doloroso do que descer. Eu só podia usar uma
mão e o esforço quase fazia meu nariz voltar a
sangrar.
Eu
provavelmente
estava meio tonta, pois só notei a pilha de cadáveres de aranhas quando me vi
ao lado delas. O
monte
de
braços
negros
entrelaçados estava lacerado, com sangue, e as mãos com garras abertas
estavam viradas para cima.
Os soldados nos fizeram
marchar pelos mesmos degraus, e então subimos uma rampa que levava a um
túnel comprido e alto, de onde se podia ver uma
dúzia
de
restaurantes
estendendo-se à nossa esquerda.
Havia lixo espalhado pelo chão, mas alguns soldados estavam limpando
com
vassouras
enormes, ajeitando tudo em pilhas organizadas Os portões de metal de todas
as lojas estavam abertos, mas a maioria delas estava com luzes apagadas. Os
soldados pararam a limpeza para nos observar com suspeita . “Nós estamos
do seu lado”, eu diria, se pensasse que iriam acreditar em
mim.
Subimos mais uma escada,
passando por mais soldados armados, e chegamos ao andar principal da Penn
Station, onde havia um painel gigante no meio, que normalmente mostraria
que trem partiria de qual trilho.
Estava apagado. Refugiados se espalhavam por toda parte – não havia outra
maneira de chamá-
los. Eles apenas estavam por ali, esperando. Aquilo me deixava irritada por
alguma razão.
Eu não sabia dizer se ficava furiosa por vê-los simplesmente sentados ali,
esperando por alguém que os salvasse, ou pela situação
toda.
Eu
queria
respostas, claro, mas eles não iriam me deixar falar com o East , mesmo que
eu pedisse com
educação.
Os soldados nos conduziram,
protegendo-nos
dos
olhares.
Mesmo assim um refugiado nos viu e gritou como se alguém o estivesse
esfaqueando.
Mais
algumas pessoas nos estudaram, mas a essa altura já estávamos nos afastando
deles, dobrando um corredor, saindo do espaço principal da estação.
Ao
usar
minha
mão
machucada para coçar minha coxa, a dor acendeu como lenha na fogueira. Eu
não conseguia nem imaginar o aspecto dela. Até onde eu sabia, e pelo que
sentia, meus
dedos
podiam
estar
decepados por baixo da luva. Eu suspeitava que não ia ter que
imaginar por muito tempo.
Seguimos o caminho para
outra área aberta, onde havia macas
com
rodinhas
enfileiradas,
assim
como
instrumentos médicos e vários monitores aqui e ali. Era uma enfermaria
improvisada. Por sorte, havia apenas um homem sendo cuidado, com um
corte comprido em seu antebraço. Mas notei que outras camas estavam
manchadas com sangue de
pacientes anteriores. Eu não
podia imaginar o número de feridos em meio ao pânico durante e depois do
ataque inicial.
O soldado que parecia estar no comando – um sargento, a julgar pela insígnia
em sua manga – ergueu uma mão para duas mulheres de avental.
– Levem esses dois para a lanchonete. Eu os quero longe dos olhares de
curiosos.
As duas mulheres hesitaram um pouco, chegando a parar.
– Está tudo bem – o sargento disse.
Elas olharam uma para a
outra; estava claro que já trabalhavam juntas há algum tempo. Elas podiam
ser irmãs.
Ambas tinham cabelos tingidos de vermelho.
Elas empurraram as macas
móveis para a lanchonete, que estava vazia, com as cadeiras e as mesas
arrancadas do chão, o que deixou alguns buracos no azulejo. Eu podia engolir
que
Manhattan não tivesse uma base militar, mas aquilo era o melhor que eles
tinham a nos oferecer? A Penn Station tinha mais entradas e saídas do que eu
conseguia contar. Eu só podia acreditar que eles estivessem esperando por
reforços para atravessarem a cidade... Caso contrário, parecia que estavam
apenas aguardando até que a Terra Verdadeira os encontrasse, ou que o frio
os matasse.
Peter e eu ficamos parados
ali, inúteis, tentando nos manter em pé. As mulheres ligaram as luzes, então
acenaram para nós, para que deitássemos nas macas.
Eu
baixei
guarda,
simplesmente
porque
não
poderia ficar na defensiva por mais tempo.
A mulher não olhava nos meus
olhos. Ela tinha um adesivo na camisa escrito “OI, MEU NOME É
LAURIE”.
– Oi, Laurie – cumprimentei.
Ela ficou sobressaltada e
deixou cair a prancheta, como se esta estivesse quente. Então fechou os olhos
e respirou fundo.
– Sinto muito por tudo o que
está acontecendo – eu disse. –
Juro que não tenho nada a ver com isso.
Uma mentira, se a diretora estivesse dizendo a verdade sobre mim.
Laurie se recompôs.
– Sua mão está ferida.
Só de pensar nisso eu já sentia uma nova onda de dor.
– Seus instrumentos não vão atravessar o traje – falei.
Ela acenou com a cabeça,
mordendo o lábio inferior, inclinando-se sobre mim e
esquecendo-se temporariamente do medo, diante de um novo problema.
– E você não pode puxar a manga? – ela pediu.
Olhei para minha mão de
novo. O traje estava tão inchado que achei que desmaiaria antes de conseguir
raspá-lo na pele.
– Tem um fecho no punho –
Peter disse, a poucos passos de mim. As pálpebras dele estavam pesadas; a
outra enfermeira já havia lhe anestesiado. O joelho ruim estava estendido
sobre a mesa e o outro encolhido contra o peito, seguro pelas duas mãos.
Para compensar a mão
inchada, o traje, no fecho, já tinha começado a se abrir. Ainda bem, pois do
contrário o problema seria ainda maior.
Cansei de adiar e resolvi
puxar
pelo
fecho.
Algumas
escamas se soltaram, como os dentes de um zíper, e então um fluxo espesso
de sangue brotou do fundo, chegando ao sapatos da Laurie.
17
Pelo visto, eu iria perder minha mão. a enfermeira não tinha que dizer nada;
eu podia adivinhar pela expressão dela. A primeira coisa que ela fez foi sair
correndo atrás de um médico.
Peter estava tentando se levantar da maca dele para me ajudar, mas ele já
estava alterado
demais e a outra enfermeira não teve muito trabalho para mantê-
lo deitado de costas. Ela aplicou mais uma seringa cheia de algum líquido e
ele afundou no
travesseiro,
com
os
olhos
fechados. Melhor assim. Eu não queria que ele visse aquilo.
Quanto a mim? Eu estava
chorando. Não sabia se pela dor ou por saber que alguma coisa ruim iria
acontecer comigo. Algo que tornaria mais difícil lutar. Eu me lembrei da
diretora mais uma
vez.
Ela tinha as duas mãos. Então eu também teria duas mãos, não é? Ou talvez
uma delas fosse biônica? Como saber?
Ou
talvez
ela
estivesse
mentindo. Eu ainda não estava convencida.
Eu não iria saber até ver as lembranças da Olivia.
Ainda escorria sangue para fora da minha luva. Começou como um rio tão
espesso quanto meu pulso, mas o fluxo tinha
diminuído para uma linha fina como um traço de caneta. Eu não conseguia
sentir meu dedo
anular ou o mindinho. Além disso, não conseguia sentir meu rosto.
“Coragem”, pensei. “Você ainda está viva, a luta ainda não terminou.” O
pensamento era surpreendentemente articulado, considerando a confusão em
minha mente. Noah, Rhys e Olivia estavam mortos, mas eu sabia o que eles
fariam se estivessem vivos. Continuariam lutando. E
eu tinha que fazer o mesmo.
Meu Deus, como eu sentia
falta deles.
O médico voltou e começou a
trabalhar na minha luva. Ele chegou a engasgar quando a retirou.
Eu ainda não queria olhar para minha mão. Mas sentia nela o ar gelado, o que
era bom.
– Dê alguma coisa para ela, Laurie. Meu Deus.
Laurie aplicou alguma coisa em mim. Uma agulha foi inserida
gentilmente no meu pescoço, já que os braços ainda estavam blindados.
Alguma coisa me pôs para dormir, felizmente.
Acordei em outra lanchonete.
Devia ser o tour do atendimento médico fast-food, ou algo assim.
Kellogg estava de pé ao meu lado na cama, com dois soldados armados no
canto. Seus olhos examinavam
minha
mão
esquerda, e eu acompanhei o
olhar dele até vê-la envolta em uns 200 quilos de gaze. Aquilo parecia um
taco de golfe bizarro.
Mas eu me sentia ótima. Era como se meu sangue tivesse sido trocado por...
alguma coisa incrível, que eu não sabia o que era. Eu me sentia aconchegada.
Podia ficar ali deitada para sempre, se não tivesse coisas a fazer. Eu ainda
estava vestindo o traje vermelho, mas agora ele terminava logo acima do meu
cotovelo esquerdo. Eu não fazia a
menor ideia de como eles haviam conseguido cortá-lo.
Meu nariz estava coberto de bandagem e parecia pior e melhor ao mesmo
tempo, o que significava que alguém havia dado um trato nele.
– Eu fui informado sobre a aliança que o Noble tinha com o General Davis –
Kellogg disse, sem preâmbulo. – O Davis estava no comando, agora sou eu.
Aparentemente, poucas pessoas sabiam que o Noble e sua equipe
estavam trabalhando para nós.
– Que bom – eu disse.
– Mas... Eu quero saber por que
vocês
se
parecem
exatamente como as pessoas que estamos combatendo. O Noble me contou a
versão dele, mas eu quero ouvir de você agora.
Eu não tinha energia o
bastante para ficar brava com as exigências dele – fosse por causa dos
remédios que haviam me dado ou por perceber que
finalmente
podíamos
nos
entender.
Provavelmente
as
duas
coisas. E eu acabava de me dar conta
de
que
ainda
não
conseguia enxergar com o olho direito.
– Sem ofensas, mas eu não me importo com o que você quer saber. Acabei de
ver meu amigo morrer – minha voz saiu
nasalada e eu mal a reconheci. Eu respirava pela boca, já que meu nariz
parecia ter sido entupido com concreto.
– Todos nós vimos amigos morrerem
ele
retorquiu
secamente.
– Onde está o Peter? Como que você e seus homens
entraram na ilha?
Ele tomou uma pausa, que só
podia ser para avaliar se iria responder ou não.
– Meus homens e eu estamos
permanentemente na cidade.
Sempre há uma presença militar em Manhattan, para o caso de nos vermos
separados do resto
do país. Assim que o ataque começou, fomos acionados. Até onde sei, a
defesa da cidade ainda estava sendo planejada quando ocorreu o ataque. Foi
por isso que não tínhamos uma retaliação
completamente
organizada. A comunicação com o continente e com meus
superiores parece estar cortada.
– Eu quero ver minha equipe.
– Eles estão descansando em
quartos diferentes. Sãos e salvos.
Olhei para o lado quando uma
onda de náusea me percorreu, deixando-me tonta.
– Se é verdade o que você disse, que estamos do mesmo lado, você deve
querer nos ajudar a entender... – Kellogg deixou esse argumento pairando no
ar. –
Davis não compartilhou seus planos comigo antes de ser morto. Eu não tinha
a clareza da situação. Tecnicamente, ainda não tenho.
– Deixe-me falar com o
prisioneiro e então nós vamos
discutir o que você quer saber.
Depois de um momento, ele assentiu com a cabeça.
Vocês
estarão
sendo
vigiados.
– É claro. Como está a minha
mão?
– Não está boa – ele disse. –
Dois dos...
Uma rajada de metralhadora o interrompeu. Veio do corredor, alto o bastante
para me fazer saltar.
– Fique aqui – ele aconselhou,
enquanto se movia rapidamente para fora da lanchonete. Os dois soldados
seguiram
Kellogg,
deixando-me
sozinha.
As
pessoas
gritavam
pelos
corredores.
– ARANHAS! ARANHAS! – um
homem berrava com toda a
força.
A
carga
de
adrenalina
acelerou meu coração, o que fazia minhas feridas incharem e latejarem.
Era como se houvesse um
bisturi no meu crânio que eu queria remover. Dei uma olhada rápida em volta
do restaurante, mas não havia armas nem nada que pudesse facilmente ser
usado no lugar. Eu me lembrei de quando tinha visto as aranhas pela primeira
vez nos túneis.
Recordei-me de como estava tudo escuro, e de repente todas ficaram visíveis
ao mesmo
tempo.
Saí da maca e quase caí de joelhos. A sensação suave em
meu corpo evaporara; em vez disso, eu sentia um chumbo quente pesando na
minha mão.
Não queria olhar nunca para aquilo. Kellogg estava dizendo
“Dois dos...”. Dois do quê? Dedos?
Estavam quebrados, decepados, destruídos?
Dei um passo adiante e quase
arranquei o acesso do meu braço. Segui o caninho com os olhos até a bolsa
de soro ao lado da minha cama, então a tirei do gancho e a segurei com
minha
mão boa.
Cambaleei para fora do
restaurante
enquanto
mais
rajadas
de
metralhadoras
martelavam em meus ouvidos.
Pouco
depois
os
soldados
gritavam uns para os outros: –
Liberado!
A ameaça fora eliminada, por
enquanto. Fiquei parada em um grande espaço aberto até que Kellogg
voltasse correndo. Eu não tinha energia para sair vagando por aí sozinha.
Ele pegou em meu braço e me conduziu até um corredor.
– Não se mova novamente, a não ser que alguém ordene. Você precisa de
escolta o tempo todo.
– Eu não estava algemada.
– Não importa.
– Quantas aranhas havia ali? –
puxei o cateter do meu braço e coloquei a bolsa de soro sobre uma maca
próxima. Outra pessoa faria um uso melhor daquilo do que eu.
– Três – ele disse. – Eles nos
enviam algumas de tempos em tempos, como se estivessem testando nossa
força.
– Então a Terra Verdadeira conhece sua localização. O que significa que em
algum momento virão atrás de vocês – nós passamos por mais refugiados,
que notavelmente se encolhiam ao nos verem, ou ao me verem. O
medo deles me causava uma dor que não era física.
– Eu sei que virão até nós.
Talvez estejam esperando pela
melhor
oportunidade
para
minimizar as perdas do lado deles, então vamos evitar que essa oportunidade
surja.
– Qual é o seu plano?
No
momento
nós
simplesmente não temos dados ou
armas
suficientes
para
preparar um ataque.
– Então, em todos os
sentidos,
estamos
apenas
gastando tempo – eu disse, apesar
de,
sinceramente,
também não saber o que poderia
ser feito.
Kellogg parou diante da porta do banheiro masculino.
– O East está aqui.
– É mesmo?
Ele acenou com a cabeça.
– Vocês têm dois minutos.
Entrei
mancando
no
banheiro, virei em uma quina e encontrei um guarda armado que não fez
contato visual nem falou comigo. A sete metros dele estava o East . O criador
se encontrava de joelhos, entre as
cabines e os mictórios. Estava acorrentado, com os pulsos presos ao chão,
conectados a canos que saíam dos azulejos. Ele ergueu a cabeça lentamente.
Seu cabelo era mais comprido do que o do Noah, e ele estava usando óculos
redondos. Ele parecia um homem gentil que ainda não era velho, mas que
começava a sentir a idade.
– Fico feliz em conhecê-la, Miranda – ele me disse.
Eu apenas continuei olhando
para ele.
– Presumo que você eles
tenham lhe concedido um curto espaço de tempo para falar comigo, em troca
de alguma outra coisa.
Acenei
com
cabeça,
aproximando-me dele.
– Isso é muito bom. Qual é sua primeira pergunta?
– Como o Noble encontrou
você?
Ele ergueu uma sobrancelha.
– É essa sua primeira
pergunta?
– Eu quero saber se não é uma armadilha.
Ele consentiu, pensativo.
– Não é má ideia. O Noble estava
monitorando
uma
frequência de rádio que nós costumávamos
usar
antigamente,
conforme
eu
esperava que ele fizesse. Eu enviava as coordenadas em
código Morse quando podia. Com isso, eu achava que os outros criadores me
encontrariam, mas
desde então compreendi que somos os dois únicos que
restaram. Graças a Deus.
– Pois é, eu não era uma grande fã deles.
– Eu também não – ele
concordou. – Só lamento não ter tido a coragem de me aproximar mais do
Noble antes de ele abandonar os Originais, para que ele soubesse como eu me
sentia.
Eu teria me unido a ele. Os criadores
estavam
sempre
lutando entre si. A Terra
Verdadeira tinha uma política de não intervenção, e nós só os conhecíamos
de
maneira
indireta. Era principalmente a sra. North, como vocês a
chamam, que estabelecia o
contato. O resto de nós estava apenas
seguindo
ordens,
cumprindo com aquilo que
crescemos acreditando ser nossa tarefa – ele olhou para o teto e deu um
sorriso, pensativo. – Que Deus guie a alma infeliz e corrompida dela.
Ele não disse mais nada, então perguntei:
– O que é a Chave?
Os olhos dele abaixaram por um momento.
– Eu sou a Chave. Se eu viajar pela Escuridão, posso escolher entrar em uma
sala que existe fora do espaço-tempo. Nessa sala,
pode-se
acabar
com
qualquer universo. Ou com uma guerra.
Era como Olivia dissera:
“Possuir
Chave
significa
controlar a Escuridão” . Mas ela não dissera nada sobre o East em pessoa ser
a Chave.
– Mas você sabe que a Terra Verdadeira é parte dessa linha do tempo, não
sabe? Você sabe que estamos conectados?
– Sim. Isso não significa que não haja uma ameaça para nós agora. O que é o
tempo para criaturas imortais?
– Eu não sei responder.
A pele ao redor dos olhos dele tremeu, como um tique.
– Hum. Ainda tem muita coisa que você parece não saber. A Terra
Verdadeira está aqui para recriar uma guerra nuclear, que eles
acidentalmente
interromperam, mas que era totalmente necessária para que o mundo se
tornasse o que eles consideram
“Perfeito”.
Você
entendeu?
“Guerra nuclear?”
como
eles
interromperam?
– Depois que você deteve os
sem-olhos, a guerra nuclear que estaria no seu futuro não acontece da
maneira como
aconteceria
se
Terra
Verdadeira
jamais
tivesse
interferido. Em vez disso, o mundo vai se unir e as diferenças serão
superadas. Vocês estavam a poucos anos do aniquilamento completo, mas
agora somos
todos irmãos contra um inimigo comum. Não entendeu?
– Então, por ter detido os sem-olhos, eu também detive a
guerra mundial que estava por vir, e tudo isso altera o futuro?
– Exatamente – ele acenou com a cabeça. – Se eles jamais tivessem trazido os
sem-olhos para cá, as coisas teriam acontecido como planejado...
Entretanto, acho que alguém não estava sabendo.
– E por que você não quer que eles recriem uma guerra?
Ele olhou para mim como se a
resposta fosse completamente óbvia, e talvez fosse, mas eu
ainda não sabia o quanto podia confiar nele.
– Você acha correto eles
matarem bilhões agora como um esforço para preservar a ideia deles de
futuro? Para preservar a Terra Verdadeira perfeita? Não.
Se depender de mim, eu não vou deixar isso acontecer.
– Como você se sentia a
respeito disso antes? Quando a Terra Verdadeira não sabia que éramos
parte
do
mesmo
universo?
Quando
eles
só
queriam nos erradicar como uma peste? – meu tom de voz se alterava, e eu
me concentrei para mantê-lo baixo. O pequeno
esforço já me deixara tonta.
Eu pisquei.
– Como eu me senti? Fiquei horrorizado. Foi por isso que eu abandonei os
criadores, pouco depois do Noble. Eu não
aprovava o que eles estavam fazendo. Queria fazer diferente.
East não soava muito como Noah. A voz dele era um pouco
mais profunda, e as palavras, diferentes. Mas eu ainda podia captar a mesma
atitude por trás delas.
– Eu sou a diretora? –
sussurrei, na esperança de ter sido silenciosa o bastante para que ninguém
mais me escutasse além dele. O East parecia saber muito e essa podia ser
minha única chance de ouvir uma segunda opinião a respeito. Se Noble
soubesse, certamente já teria me contado.
East se contraiu, quase dramaticamente. As correntes rangeram no chão.
– Por que você diria isso?
Quem lhe contou isso?
– Ela própria. Ela disse que precisava me moldar. Disse que não sabia sequer
quem eu era até alguns dias atrás, e ela...
– Pare – ele disse, cortante, antes que eu falasse mais. – Nós estamos sendo
vigiados – os olhos dele foram até o teto, onde, em um canto, uma câmera
havia
sido instalada recentemente.
Ele deixou o olhar despencar
até o chão de azulejos e começou a tremer com a cabeça, para frente e para
trás, movendo-se em silêncio.
– O que é isso? Conte para mim.
– Você precisa me libertar –
ele pediu, erguendo os olhos e fixando-os
nos
meus.
desespero em seu olhar me arrepiou até a alma. – Ou tudo estará perdido.
18
Eu não tive escolha, porque Kellogg estava avançando em minha direção,
pela esquerda.
– O tempo acabou – ele disse, agarrando meu braço.
– Calma – eu me encolhi para
me soltar dele. – Eu não sou sua prisioneira.
A boina azul dele estava torta.
Ele estava ao alcance do meu braço. Eu podia atingir seu pomo de adão e
acabar com ele.
Poderia ser rápida o bastante, mesmo com os ferimentos e as medicações.
Porém ele acenou com a
cabeça, o que me convenceu a tomar a direção certa.
– Tenho mais perguntas para
ele – eu disse.
– Você vai falar com ele mais tarde.
Kellogg me puxou, e eu deixei
o sr. East . Quando olhei para trás uma última vez, ele estava novamente de
olhos presos ao chão, com os lábios se movendo em silêncio. Ele deveria
poder nos ajudar.
– Aonde você está me
levando? – perguntei ao Kellogg.
– Você queria ver sua equipe, não queria?
Kellogg me levou a uma loja de conveniência e passamos pela área restrita a
funcionários (mas antes agarrei um frasco de
analgésico da prateleira de remédios).
Passamos
pelos
corredores por trás das lojas, onde o lixo era depositado.
Tivemos que escalar sacos de lixo cheios, altos como um carro.
Eu sabia que não deveria estar de pé e vagando por aí, mas não me importei.
Peguei quatro comprimidos e os engoli a seco.
Entramos em uma garagem
cheia
de
cestos
de
lixo
transbordantes. As portas da garagem estavam fechadas, e
mesmo à distância eu podia ver as marcas de solda fresca selando as frestas.
Não havia como sair por ali, mas
eles
estavam
muito
enganados se pensavam que um pouco de solda iria impedir a Terra
Verdadeira quando ela decidisse
arruinar
nossa
festinha.
Dois tanques m 1 Abrams
ocupavam a garagem – o
principal tanque usado pelos militares
norte-americanos
desde 1980. Supus que os militares não precisariam abrir as portas para os
tanques saírem rodando na hora h.
Noble estava no meio da
garagem, entre os dois veículos, com três soldados e o Peter. Eu não via Sofia
em parte alguma.
Os soldados seguravam os rifles firmemente contra o peito. Eles mantinham
uma
distância
segura, o que mostrava como eles confiavam em nós nesse momento.
O rosto do Peter desabou quando viu o meu; eu devia estar mesmo
um
caco.
Noble
estremeceu.
Peter deu um passo na minha
direção, mas cambaleou no meio do caminho e Noble precisou ampará-lo
para que não caísse.
Peter rangeu os dentes.
– Eu quero respostas e eu quero agora – Kellogg exigiu.
– Você não pode destruir a Verge – Noble lhe disse.
Eu não estava sabendo que
eles planejavam atacá-la.
– Por que não? – Kellogg perguntou.
– Porque nela tem uma
entrada para a Escuridão. É a única entrada aqui perto. Se você destruir a
Verge, os escombros vão cobri-la e nós nunca
poderemos passar por ela.
– Então me diga como
derrotar essas pessoas, sr. Noble
– Kellogg pediu.
– Primeiro, eu preciso saber o que o East fez com a Chave.
– Ele diz que ele é a Chave –
informei.
Noble pendeu a cabeça para o
lado.
– Entendi.
Peter veio na minha direção e eu suportei um pouco do peso dele. Eu podia
sentir a perna dele tremendo com o esforço; ele não deveria ter saído da
cama. Se nós fôssemos
continuar
lutando,
aquele joelho precisava ser curado antes.
Eu estava ansiosa para contar
ao Noble e ao Peter o que mais o East me dissera, porém eu ainda não
confiava plenamente no Kellogg e em seus homens.
– Nos dê algum tempo a sós –
pedi ao Kellogg. – Quando chegarmos a uma decisão, vamos lhe contar.
Kellogg
demonstrou
que
estava considerando a proposta.
Ele não gostava dela, mas o que mais poderia fazer?
–
Está
bem,
mas
não
demorem. Aquelas pessoas estão
com alguns dos meus homens em um campo de prisioneiros.
Neste frio congelante. Pretendo resgatá-los.
Apenas acenei com a cabeça.
– E eu ainda estou esperando
por uma resposta sobre o motivo de vocês se parecerem com as pessoas que
estão nos atacando.
– É complicado – eu disse.
Afinal, não tinha a menor ideia de como explicar isso a ele.
Kellogg nos levou de volta à lanchonete, onde eu me deitei
novamente. Ele saiu logo em seguida, sem dizer nada. Uma enfermeira
preparou a cama do Peter, e Noble se sentou em uma das mesas.
– Onde está a Sofia? –
perguntei, olhando para os rostos lá fora, na área aberta.
– Foi buscar mantimentos
para nós – Noble respondeu. –
Ela saiu incrivelmente ilesa, a não ser pelo machucado na cartilagem da
orelha.
Peter suspirou pesadamente,
aliviado.
– Isso é fantástico. Mesmo.
– Sim, sem dúvida – eu disse, imaginando como ela estaria se sentindo por
dentro. Rhys nunca chegou a lhe dizer o que sentia por ela... e ela nunca
chegou a ouvir. – Nós vamos falar sobre o Rhys?
Noble sacudiu a cabeça
lentamente, com o olhar perdido.
Eu sabia o que Rhys significava para ele. No início, Noble o criara como a
um filho.
– Acho que deveríamos –
insisti.
– Isso não vai nos ajudar a vencer – ele disse, um tanto seco.
– Você não se importa o
bastante para falar a respeito?
Por que você está aqui, então? –
eu me arrependi das perguntas assim que elas saíram da minha boca. Estava
sendo agressiva sem motivo.
Noble me encarou.
– Eu me sinto ofendido por essa pergunta.
– Miranda – Peter interviu –, cada pessoa lida com o luto de maneira
diferente.
E subitamente me senti
envergonhada.
Os olhos de Noble estavam vermelhos e os lábios tremiam.
Ou talvez fosse minha visão limitada, só com um olho bom.
– Eu estou tentando fazer as coisas certas. Estou lutando contra tudo o que eu
fui criado para ser.
Nunca insinue novamente
que eu não me importo, Miranda.
Eu vou prestar luto mais tarde, quando o resto da minha família estiver a
salvo.
As palavras dele foram como um punhal no meu coração. Eu nem sabia por
que eu tinha dito aquilo. Estar furiosa, triste e confusa não era uma desculpa.
– Eu sinto muito. Não quis dizer isso.
– Eu entendo – Noble disse.
Era claro que entendia.
– Também quero lutar contra
o que sou – expliquei. – A diretora disse que eu sou ela. Ou que eu serei ela
no futuro – as palavras me escaparam como uma enxurrada. Enfim, meus
amigos sabiam e eles iriam me ajudar a descobrir a verdade a qualquer custo.
Peter sacudiu a cabeça, com as sobrancelhas franzidas.
– Isso não é verdade. É mais um dos jogos mentais dela. Você nunca vai ser
como ela.
– Isso não é tudo – completei.
– Tanto ela quanto a Olivia, a Olivia Original, dizem que a Terra Verdadeira
não é outro universo.
É apenas o futuro deste nosso universo.
Noble não esboçou reação
alguma. Nada.
– Isso é verdade, Noble? –
pressionei.
Enfim ele disse:
– Talvez, não tenho certeza.
Eu deixei minha cabeça cair no
travesseiro.
Meu
rosto
latejava como se tivesse sido
picado por mil formigas. Mas eu me aprumei assim que pensei a fundo na
reação dele.
– Você sabia que era uma possibilidade. Só que não nos contou. Por quê?
Ele apenas sacudiu a cabeça lentamente.
– Miranda, eu não pensava que era uma possibilidade. Eu não sei tanto assim
sobre a Escuridão, ou sobre a Terra Verdadeira. Sei apenas o que a Olivia me
contou. E ela não me
contou isso.
O tempo passou e ninguém
disse uma palavra. Se Rhys estivesse ali, talvez ele lançasse alguma coisa
para preencher o silêncio. Uma piada que não fosse bem uma piada. Eu já
estava acostumada com ele, pensava que estaria sempre conosco. Eu não
fazia ideia do quanto iria sentir sua falta.
Rhys nunca falava no assunto, em situação alguma, entretanto eu
sabia
que
mais
atormentava na vida. Ele matara toda sua equipe para que não fossem
controlados
pelos
criadores. Aquilo o mudara para sempre. “Mas agora você está livre, Rhys.”
A Olivia, o Noah, o Rhys...
todos se foram. Por quanto tempo
mais
nós
iríamos
aguentar?
Não
existe
destino,
Miranda. Você deveria saber disso – a voz do Noble me espantou, fez meu
coração pular
sobressaltado.
– Explique, por favor.
Ele coçou a barba. Suas
pálpebras inferiores estavam flácidas,
com
as
bordas
vermelhas.
– Bem, a Terra Verdadeira pode ser um futuro, mas não necessariamente é o
único
futuro.
apenas
uma
possibilidade. Se mudarmos as coisas aqui, teoricamente vamos caminhar
para uma nova direção.
– Está certo – Peter retomou.
– Ainda que a diretora tenha dito que você vai se tornar ela, como isso poderá
acontecer se você não quiser? Apenas não se torne a diretora.
– Não está nos meus planos –
falei.
Noble ergueu as duas mãos com as palmas abertas.
– Pare com isso. O futuro deles não é relevante. Vou repetir: não é relevante.
Porque o que nos importa são as pessoas que estão vivendo agora mesmo,
no presente. Não é? Nós não vamos
engendrar
nenhum
evento que eles acham que precisa acontecer apenas para preservar o que
conhecem como o futuro. Aliás, são muitas as variáveis envolvidas nisso
tudo.
Eles brincaram com o passado deles e agora estão pagando o preço – os olhos
dele nos fitavam apreensivos,
conferindo
se
estávamos
escutando
com
atenção. E nós estávamos. Ele estremeceu ao respirar fundo. –
Mas ainda precisamos vencer.
Isso ainda não mudou. Vocês acham
que
Rhys
iria
simplesmente se entregar?
– Ninguém está falando em se
entregar
eu
afirmei
calmamente.
Após um instante, ele acenou, com
os
olhos
no
chão.
Finalmente olhou para mim com a velha empatia.
– Sim. Bem, nunca dá para ter muita certeza. Não importa quebrar a cabeça
pensando que
outros universos pertencem a quais linhas do tempo, ou quais estão
conectados e quais estão diretamente ligados ao nosso mundo. O que nos
interessa é este mundo. Vamos manter isso em mente daqui para a frente.
Vamos manter o foco. É melhor ignorar todo o resto – a voz dele oscilou um
pouco na última frase e quase esganiçou quando disse resto.
Mais um período de silêncio, com um peso que dava para
sentir no sangue. A desesperança ainda era um espectro que pairava, à
espreita.
– Por enquanto, vocês dois precisam descansar – Noble disse. – Vocês estão
feridos.
Foi nesse momento que Sofia
voltou com os braços cheios de provisões do exército prontas para comer.
Não eram deliciosas, e sim nutritivas. Ela não estabeleceu contato visual com
nenhum de nós, apenas nos entregou a comida sem palavra
alguma. Ela também tinha alguns pedaços de uma pizza ressecada, que nos
ofereceu.
– Sofia... – eu disse.
– Não diga nada – ela disse. –
Eu não quero ouvir nada de ninguém agora – o lábio inferior dela tremia. –
Nem uma palavra.
Eu acenei com a cabeça. Com
a mandíbula latejando, ingeri alimentos que não tinham gosto de nada. E me
preparei para o momento em que finalmente
pudesse ver as lembranças da
Olivia.
Quando eu finalmente iria
entender quem eu era.
19
Eu esperei até que todo
mundo dormisse. não levou
muito tempo. Não tomei mais nenhuma pílula, então a dor no meu nariz foi o
suficiente para me manter desperta.
Antes de eu usar o disco de memória, cheguei ao lado da cama do Peter. Ele
estava em um
sono agitado, os dedos se retorcendo
de
quando
em
quando. Emitia alguns ruidinhos, parecia estar falando, mas devia estar
dormindo. Fiquei olhando para ele, para o caso de nunca mais poder vê-lo.
Eu gostaria que minha visão não estivesse tão embaçada.
Tentei tocar no cabelo dele com meus
dedos,
mas
acabei
passando as mãos no pescoço.
Sua pele estava quente, e eu sentia os batimentos lentos e
constantes de seu coração sob a ponta dos meus dedos. Ele se remexeu e eu
tirei minha mão, parte de mim querendo acordá-
lo. Mas ele não acordou, nem mesmo quando eu o beijei na têmpora.
Eu deixei a lanchonete para trás com passos silenciosos, então entrei em uma
pequena farmácia.
Todos os remédios para dor já haviam sido levados, mas encontrei um frasco
de spray
nasal. Borrifei nas duas narinas até sentir um estalo queimando nos seios da
minha face, cheguei a cair de joelhos.
Mas aquilo rompeu com o
bloqueio no meu nariz e eu pude respirar direito. Cuspi a coisa sem olhar, que
saiu em um papel-toalha. Então virei uma Coca diet para absorver cafeína.
Bem no fundo da loja, encontrei uma prateleira com roupas baratas.
Peguei um chapéu preto de inverno e o último remanescente
de um blusão com capuz.
Eu me sentei na farmácia, atrás de uma estante cheia de cartões-postais com
várias fotos de Nova York. Um dizia “QUERIA QUE VOCÊ ESTIVESSE
AQUI!” e trazia o céu da cidade em um dia agradável de verão, o sol
brilhando entre os prédios.
“JUSTIÇA PARA TODOS” estava escrito em outro, que mostrava a Estátua
da Liberdade. Eu queria que as frases fossem verdade.
Tirei o disco do bolso e
esfreguei o polegar nele. Era pequeno, preto e duro, mais pesado do que
parecia. “O que você está esperando?”, perguntei a mim mesma. Mas sabia
por que estava esperando. Eu não tinha a menor ideia de como aquilo iria me
afetar. Eu não tinha ideia se conseguiria lidar com o que aquilo iria me
mostrar.
Mas, como em vários outros momentos da minha vida, eu não tinha
realmente uma escolha.
Fechei meus olhos, procurei a
entrada no meio dos meus
cabelos, e inseri o disco na base do meu crânio.
Senti um calor suave, então uma sensação líquida fresca que se espalhou pelo
meu cérebro.
Recostei-me na parede. E
então, eu soube a verdade.
Não passei muito tempo
vivendo dentro da memória da Olivia. Apenas o suficiente para entender.
Em um tempo remoto, as coisas eram muito diferentes na Terra Verdadeira.
Os Cinco Líderes deviam ser considerados Quatro
Sub-líderes,
com
diretora reinando suprema sobre eles. Os cinco haviam resgatado o mundo
das cinzas de uma guerra nuclear, mas outros problemas surgiram. Olivia foi
descobrindo que a humanidade vivia em ciclos, e que estávamos marchando
firmemente para um
segundo
apocalipse.
Nessa
época, a diretora se ocupava em destruir as ameaças externas em vez de
resolver os problemas da própria Terra Verdadeira.
A descoberta de que meu
mundo e a Terra Verdadeira eram o mesmo lugar aconteceu por acaso.
Três anos antes (da nossa escala temporal atual), Olivia percorrera a
Escuridão até chegar no que ela pensava ser outro mundo, um mundo que ela
vinha acompanhando havia um
bom tempo. Seria o próximo mundo que a Terra Verdadeira conquistaria, a
menos que Olivia impedisse. Fazia anos que ela vinha combatendo
secretamente a selvageria da Terra Verdadeira, sem se atrever a enfrentar a
diretora
diretamente.
Olivia
sabia que iria perder e ser morta de maneira permanente.
Anos antes, ela levara Noble dali para prepará-lo para a invasão. Naquele
tempo, ela não fazia ideia da conexão entre os
mundos. Ela mostrou os sem-olhos ao Noble, a arma que a Terra Verdadeira
iria usar em sua guerra, e perguntou se ele gostaria de se rebelar. Ele disse
que sim.
Mas nessa visita, três anos antes, quando o momento da invasão se
aproximava, ela descobriu uma coisa nova. Olivia encontrou
os
Originais
adolescentes vivendo em um subúrbio de Cleveland.
Eles eram apenas estudantes
que andavam com suas mochilas, levavam vidas normais com os pais,
faziam
atividades
extraescolares e encontravam os amigos. Vi imagens de suas vidas cotidianas
enquanto Olivia os avaliava
de
longe.
Ela
testemunhava a si mesma, como fora mil anos antes. Foi nesse momento que
ela compreendeu que a Terra Verdadeira estava planejando invadir seu
próprio passado.
Se Olivia e a Terra Verdadeira
jamais tivessem interferindo, o passado dela teria acontecido da mesma
maneira
que
ela
lembrava. Os adolescentes iriam tocar suas vidas, sem saber que dez anos
depois o mundo estaria praticamente destruído por uma guerra nuclear e que
a civilização iria sucumbir por todo o globo.
Apenas a China manteve alguma forma de governo, enquanto nuvens
de
radiação
se
espalhavam por todo o planeta. E
isso durou cerca de um ano.
Olivia sabia, pois vivera isso.
Tendo sobrevivido, o grupo de amigos viajou para a China, onde Olivia tinha
parentes no alto escalão do que sobrou do governo. Os anos se passaram, até
que eles, como a maioria dos sobreviventes,
começaram
sofrer da radiação que estava presente na maior parte do planeta. Eles
passaram por tratamentos.
Envelheceram.
Então o governo chinês também ruiu, e logo restaram apenas
territórios destruídos e desertos, com
pequenos
bolsões
de
sobreviventes.
Mas a ciência prosseguia. Nas ruínas
de
Pequim,
uma
comunidade de 567 pessoas
descobriu como limpar o ar. Eles descobriram
chave
do
envelhecimento.
Os
sobreviventes não iriam apenas se
curar,
iriam
também
rejuvenescer. Nesse momento, os Originais eram líderes da pequena
comunidade, e levaram
essa tecnologia para o resto do planeta ao longo das décadas seguintes.
E começaram a assumir o
controle.
Quando Olivia voltou à Terra Verdadeira,
decidiu
tomar
providências antes que fosse tarde demais. Ela não queria ver a diretora
destruir tudo mais uma
vez,
depois
que
humanidade trabalhara tanto para sobreviver por tantas eras.
Ela não queria que o passado se
repetisse. E estava cansada de ficar assistindo enquanto a Terra Verdadeira
destruía qualquer reino considerado uma ameaça à sua ideia distorcida de
perfeição.
E agora ela sabia que podia mudar as coisas.
Na tentativa de fazer da Terra Verdadeira o que ela deveria ser, mantendo a
boa vocação do início de sua existência, Olivia decidiu apagar as identidades
da diretora e de seus amigos na adolescência, inclusive a sua
própria. Ela as substituiu por memórias fabricadas de um
passado que nunca aconteceu.
Essas novas identidades tinham base em coisas que eles todos viveram,
mas
alteradas
de
maneira a se encaixarem em nossa nova realidade.
No futuro, não apenas eu
seria a diretora, como Peter também seria o Peter Original, Noah seria o Noah
Original, Olivia seria a Olivia Original, Rhys seria o Rhys Original. Noah
e Olivia podiam estar mortos no presente, mas Olivia tinha as identidades
deles armazenadas, prontas para serem trazidas na hora certa.
Os criadores já haviam
estado aqui décadas antes, pensando que se preparavam para outra invasão,
mesmo
ignorando a verdade a respeito do nosso mundo. Eles estavam apenas
seguindo ordens, como o East
disse.
Quando
Olivia
finalmente descobriu que nossos
mundos estavam interligados, os criadores viveram vidas inteiras aqui,
crescendo como os adultos que mais tarde iríamos conhecer.
Três anos antes, Olivia nos tirou de nossas vidas, de nossos pais e nossos
amigos. Antes da interferência dela, eu ia à escola com meus colegas da
equipe Alfa.
Nós fazíamos coisas normais.
Assistíamos aos jogos de
futebol americano às sextas-feiras.
Mas
tudo
isso
foi
substituído por memórias de
lições de combate e de táticas militares, missões e exercícios.
Apenas os últimos três anos da equipe Alfa foram reais. Nós não havíamos
sido criados desde crianças para sermos usados como armas. Éramos apenas
crianças. Mas para Olivia fazia mais sentido nos retirar de nossas vidas
normais e nos preparar para a guerra nuclear que estava por vir.
Afinal,
um
dia
os
sobreviventes iriam precisar de
nossa liderança.
Olivia voltou para a Terra Verdadeira para ver se as mudanças que ela havia
feito a afetavam e constatou que sim.
Depois de transformar a diretora em alguém que ela podia
controlar, sua equipe se tornara realmente os Cinco Líderes, mais unidos do
que jamais haviam sido em séculos. A Terra
Verdadeira era um lugar um pouco mais próspero e a ameaça de guerra já não
parecia tão
provável.
Agora, quando a guerra
nuclear chegasse de fato à nossa época, nossa equipe estaria pronta para
tomar conta de um mundo aos pedaços. Nós não teríamos
que
esperar
pela
tecnologia ou pelas habilidades que viriam mais tarde, como acontecera da
primeira vez. Não precisaríamos ir até a China, evitando as gangues errantes
que
pretendiam
matar/estuprar/saquear tudo o
que
vissem
pela
frente.
Podíamos assumir o controle antes, de maneira mais eficiente.
Com nossa organização e nosso poder, podíamos criar o melhor mundo
possível, completamente livre de guerra, fome, estupro e assassinato. Um
mundo livre do ódio e do racismo. Nós podíamos criar o mundo mais honesto
de todos.
Mas então o futuro se alterou mais uma vez. Por minha causa.
Olivia não teve coragem de
contar aos outros o que ela fizera. Como poderia? Ela estava mexendo com a
vida deles e com o futuro de todos no planeta.
Então,
Terra
Verdadeira
invadiu nosso mundo assim
mesmo, com os sem-olhos, e Olivia só pôde fazer o melhor possível para
detê-los, para manter as coisas nos eixos. Se ela deixasse
os
sem-olhos
completarem sua missão, a
destruição de qualquer futuro possível estaria garantida.
Entretanto,
quando
eu
derrotei os sem-olhos, mudei o futuro de uma outra maneira. O
mundo se tornou mais unido depois daquilo, e a guerra nuclear jamais
aconteceu. A ameaça externa dos sem-olhos acordou todo mundo e as
pessoas perceberam que não podiam mais brigar entre si. Mas nada de bom
dura para sempre.
O resultado? Agora estamos falando de uma Terra Verdadeira que se tornou
um caos, apesar
dos países mais ou menos unidos. Com a ausência da guerra nuclear, a
humanidade continuou em seu caminho normal, porém isso significa que a
lenta decadência de nosso meio
ambiente e da cultura e o esgotamento de quase todo
recurso natural continuaram. Um céu escuro na maior parte do tempo, um ar
contaminado
demais para se inalar com segurança. Tudo porque os
Originais
nunca
dominaram
depois de uma guerra nuclear, como deveriam. O reset em nosso mundo
nunca aconteceu, e a população continuou a crescer.
Depois que destruí os sem-olhos, os Originais voltaram à Terra Verdadeira e
descobriram que ela não era mais como eles a haviam deixado.
Olivia, obviamente, sabia o motivo.
Ela
acabou
sendo
forçada a compartilhar seu segredo com os Originais, e o plano de invadir
Nova York
começou. Os outros não a haviam
perdoado
pelas
artimanhas, mas depois de mil anos de companheirismo, não conseguiam
matá-la.
Mas agora a diretora estava disposta a recriar os efeitos da guerra nuclear
para voltar para o mundo que conheciam antes, o mundo que eles se
esforçaram tanto para construir. E abrir a Escuridão em nosso mundo
poderia causar esse resultado.
Talvez
coisa
mais
importante que o disco da Olivia me mostrou foi que a diretora não queria
nos deter. Ela queria me ajudar a assumir o controle junto com minha equipe,
para vivermos
as
vidas
que
deveríamos viver e, algum dia, nos tornarmos os Cinco Líderes e criarmos
futuro
mais
esplêndido de todos.
A compreensão do que estava
diante de mim e dos meus amigos se estabeleceu em volta do meu pescoço
como uma
corrente de chumbo. Mas eu me recusava a deixar o peso me abater. Porque
aquilo tudo também me mostrava uma coisa.
Havia um futuro e, com isso, uma certeza. O futuro estava mudando o tempo
todo.
Olivia me deixara uma última
lembrança, que era mais a compreensão de uma ideia do que qualquer outra
coisa.
A diretora não sabia de todos os meus passos antes que eu os desse, porque
eu tinha livre-
arbítrio.
As
coisas
estavam
se
desenrolando de uma maneira inédita.
E isso significava que eu ainda tinha escolha.
Eu não sabia de que lado Olivia estava. Talvez parte dela não quisesse mexer
com nosso mundo mais do que ela já havia mexido. Talvez ela quisesse
deixar os eventos acontecerem por conta própria.
Contudo, eu sabia que parte
dela continuava leal aos Cinco Líderes e à ideia deles de um mundo perfeito.
Porque a última coisa que aprendi foi que ela me dera essas lembranças com
o consentimento da diretora, como um primeiro passo para que minha
equipe
eu
nos
tornássemos quem havíamos
sido criados para ser.
E então percebi que o
aparelho
que
levava
as
lembranças ao meu cérebro
tinha uma função extra, a de um
sinalizador, que fora ativado assim que comecei a usá-lo.
A Terra Verdadeira sabia que
estávamos ali. E eles logo chegariam para garantir que cumpríssemos nossa
missão.
20
Eu saí do meu transe e me pus de pé, esquecendo-me
temporariamente da dor. Saí da loja e gritei o mais forte que pude: – Estão
cheegaaaandooo!
O alerta percorreu toda a estação sonolenta e outras vozes repetiram as
palavras, e logo havia soldados por toda parte.
Retirei o disco da minha nuca e tentei destruí-lo sob meu pé, mas era duro
demais, então eu o chutei para baixo de uma
máquina de refrigerantes.
Eu queria ficar e lutar, mas não podíamos ser pegos com vida. Quem sabia o
que eles fariam para que seguíssemos com os planos deles? Eles poderiam
não nos matar, mas nos obrigar a coisas piores que a morte. Se abandonar
aquelas pessoas
significasse
salvar
muitas mais no final, talvez bilhões a mais, nós tínhamos que fugir.
Não sei por que Olivia me deu as
informações.
Talvez
ela
estivesse se sentindo mal. Talvez ela soubesse que havia causado uma
confusão que não sabia mais como consertar.
Fui mancando o mais rápido que pude até Peter. Noble e Sofia já estavam ali,
arrancados do sono com rostos perturbados. Ao vê-los em segurança, o aperto
no
meu
peito
diminuiu
um
pouquinho.
Olhei para Peter, tentando imaginar a vida que ele deixara para trás. E a vida
que eu deixara para trás. As vidas que haviam sido roubadas de nós. Tentei
imaginar como eram nossas
famílias e o que pensaram quando fomos levados pela
Olivia e entregues aos criadores.
Nós éramos amigos antes de sermos levados, e a coisa mais perigosa que
tínhamos com que
nos preocupar era a escola. Se ao menos houvesse uma maneira de voltar ao
que éramos... Mas eu poderia abandonar a vida que eu conhecia agora. Será
que eu poderia apagar minha identidade de propósito mais uma vez?
Peter me olhava de um jeito esquisito, provavelmente porque eu o olhava de
um jeito esquisito também.
– Você está bem?
– Estou bem. Sim. Desculpa.
Estou inteira.
– Esconderijo.
– O quê? – perguntei.
– Vamos para o segundo
esconderijo, na 23rd Street, em frente ao Flatiron. O que tem vista para o
Madison Square Park.
– Ótimo, vamos lá.
– Vamos deixar essas pessoas
lutando
sozinhas?
Sofia
indagou.
Peter sacudiu a cabeça,
descendo de sua maca.
– Quando a Terra Verdadeira
descobrir que não estamos mais aqui, eles não vão mais se importar com
essas pessoas. O
fato de continuarmos aqui coloca a vida de todos em perigo.
Sofia não contestou, então fomos em direção à saída. Eu não estava tão
convencida do que Peter dissera. O que os impediria de matar por simples
crueldade?
Enquanto andávamos, Noble
dizia:
– Não podemos andar em
grupo. Miranda, você vai na
frente, com o capuz cobrindo o rosto, e finja que está apenas tentando evitar
problemas. Eu sei que não vai ser uma boa caminhada para você.
– Pode confiar – respondi.
Surpreendentemente,
Peter
concordou em vez de objetar. Eu puxei meu capuz e o apertei para esconder o
rosto, então fui andando numa direção diferente.
Os guardas na escada rolante
haviam ido para o outro lado da estação. Rajadas de tiros e
ordens gritadas vinham de lá.
Subi a escada rolante desligada o mais rápido que pude, com a dor
percorrendo todos os meus
ferimentos. Cheguei exausta ao patamar e vi que a passagem estava
bloqueada por dezenas de carros empilhados. Os soldados deviam ter feito
isso para criar uma barricada improvisada.
Mas a janela de um carro estava aberta. Eu me agachei para olhar para dentro
e vi que tinha espaço para passar para a
outra janela. Os carros estavam arranjados de modo que dava para rastejar
entre eles. Dessa maneira, mesmo que os inimigos viessem, só poderia entrar
um por vez.
Eu
me
esgueirei
pela
primeira janela de um pequeno sedã vermelho. Em seguida, atravessei pela
janela de uma suv preta.
Era
um
esforço
complicado,
especialmente
porque eu só conseguia usar umas mãos e gemia sempre que
meu corpo batia em uma parte do carro. Estava tão frio que eu pensava em
desistir e voltar para trás. Não conseguia sentir meu nariz e o inchaço no
rosto começava a arder.
Passei pela montanha de
carros e cheguei à rua. Mais veículos se espalhavam pelo asfalto,
alguns
colididos
estraçalhados,
todos
abandonados. O céu estava preto e sem estrelas. A cidade ainda tinha luz, só
que a maioria das
lâmpadas estava apagada, como se a escuridão pudesse manter as pessoas em
segurança nas suas casas. O silêncio era atordoante.
Eu só tinha que andar por dez quadras,
mas,
considerando
minha condição no momento, eu estava preocupada com qualquer pessoa que
quisesse roubar minhas coisas, mesmo não tendo nada de valor. Pensei mais
uma vez em voltar e cheguei a diminuir o ritmo por um
momento
(que
já
estava
superlento), entretanto apertei o passo. Depois de uma quadra, encontrei um
atalho por um beco.
Estava escuro, como os becos
costumam ser. Passei pela fresta de um alambrado e me vi no meio da ruela,
com minha
respiração saindo em nuvens de fumaça. A luz era tão fraca que eu não
conseguia ver meus dedos no final do braço.
Ouvi passos suaves atrás de
mim, um pé pisando na neve. Eu me virei, e alguma coisa me atingiu no
quadril com força o bastante para me fazer girar até cair no chão. Com dor
em todos os ossos do corpo, eu não me levantei imediatamente. Rangi os
dentes, então me apoiei nos joelhos.
Na escuridão à minha frente, uma sombra se delineou.
Era a diretora, com sua
armadura dourada e um casaco de pele espessa que descia até os
joelhos.
Ela estava com um cachecol carmim, enrolado delicadamente em volta do
pescoço, e um sorriso nos lábios.
– Olá, Miranda – ela disse.
“Que merda.”
– Eu nem tentaria – ela se adiantou, suavemente, enquanto eu tentava me
levantar. Havia uma espada em sua mão direita.
Ela pressionou a ponta no meu pescoço, mantendo-me grudada no chão
congelante.
– Você nem tentaria? Então nós realmente não somos a mesma pessoa –
desafiei.
– Você viu as lembranças que
a Olivia lhe entregou, certo?
Eu acenei com a cabeça sem tirar os olhos dela.
– Então agora você sabe o quanto você e seus amigos são vitais. Você vai ter
que colocar esse mundo sob controle, ou tudo estará realmente perdido.
Não há propriamente uma
escolha.
Eu estava ficando um pouco cansada de ouvir isso. Eu tinha uma escolha.
– Você sabe que nós nos
importamos com o futuro de vocês – a diretora continuou. – A guerra nuclear
vai acabar com este mundo, seja daqui a cinco anos ou vinte. Mesmo que não
estivéssemos aqui agora, sua civilização iria acabar. Então que diferença faz
quando isso vai acontecer?
– Engraçado, você não se
importava com nosso mundo antes de a Olivia contar a verdade, antes de sua
época ser transformada.
Você
estava
pronta para nos varrer do mapa, como fez com muitos outros mundos antes.
Ela não podia realmente se defender daquilo, e nem tentou.
Apenas
desviou
os
olhos
brevemente, então disse: – As coisas mudam. Agora estamos aqui para fazer
do jeito certo –
ela afastou a ponta da espada do
meu pescoço.
Lentamente, eu me levantei, esforçando-me para não cair de repente.
A diretora pôs a mão no meu
ombro.
– E você sabe que estou certa
– ela repetiu. – Porque você vê o mundo em que vive agora.
Guerra,
fome,
corrupção.
Genocídio. Assassinato e estupro
diretora
se
inclinou,
colocando os lábios no meu ouvido, e sussurrou: – O que você
está tentando salvar?
Eu sinceramente não sabia.
– Sei como vai ser daqui a poucos anos. Eu vivi isso. É ainda mais terrível e
brutal do que qualquer coisa que pudermos fazer contra vocês agora. Por que
você não iria querer evitar o pior?
Eu queria. Eu queria evitar.
Mas queria fazê-lo sem
sacrificar vidas inocentes.
– Você sabe que seu mundo é
tóxico e até onde essa toxicidade
vai chegar com o tempo – a diretora disse. – Faça a coisa certa, Miranda.
Certo ou errado, eu sabia de que lado estava.
E ela pareceu notar minha decisão assim que a tomei. Os olhos dela se
apertaram e eu não tive sequer tempo de reagir. Ela me deu uma pancada na
maçã do rosto com tanta força que fiquei inconsciente antes mesmo de cair
no chão.
Acordei no beco, segundos ou
minutos mais tarde, sem saber quanto tempo havia se passado.
Eu estava de costas, tremendo na neve. A cada tantos segundos, a dor
irradiava do meu olho direito, espalhando-se para a parte de trás do meu
crânio. Eu gemia e tentava rolar de lado, mas tudo doía.
A diretora se agachou ao meu
lado, encarando-me de perto. Os dedos dela tocaram na minha
bochecha, gentilmente.
– Eu não espero que você aceite tudo imediatamente – ela disse. – Ou que
saiba o que é melhor para este mundo. Agora descanse. Sua jornada está
apenas começando.
– Espere... – quase perguntei a respeito do Peter e dos outros, se eles também
tinham sido capturados, mas eu não queria entregar nada a ela. A diretora
apenas me encarou de cima para baixo, com uma expressão entre
a esperança e a decepção, até que minha dor ficou forte demais e a escuridão
voltou.
Acordei novamente, seca e
aquecida, na cama. Todas as minhas
dores
tinham
desaparecido. Peter, Noble e Sofia estavam no quarto comigo.
Parecia um flat. Peter estava sentado ao meu lado. Noble estava em pé,
encostado a uma mesa com uma cafeteira e uma
jarra de suco de laranja. Sofia estava em outra cadeira, com os joelhos
encolhidos rentes ao peito.
quarto
todo
estava
iluminado à luz de velas e com alguns adesivos brilhantes de emergência
espalhados no chão.
Eu vestia o mesmo traje
vermelho surrado.
Peter pegou minha mão e a apertou, então piscou para afastar algumas
lágrimas.
– Você está bem. Ficou
desmaiada durante quatro dias, mas você está bem.
Eu também queria chorar,
mas não sentia nada além de torpor.
– O que aconteceu?
Noble despejou café em uma caneca. Ele recolocou a cafeteria na mesa com
força demais.
– Quatro dias atrás, nós
estávamos desesperados. Você tinha sumido. Os soldados da Penn
Station
foram
todos
capturados ou mortos, e as
pessoas foram empurradas de volta para as ruas.
Vinte horas atrás, uma equipe de Rosas nos colocou neste quarto com você.
Quatro horas atrás, as luzes se apagaram e nos deram essas velas. Você
esteve em coma. Eles nos disseram que seu cérebro havia tido uma
hemorragia, mas que um dos médicos deles a curara.
Aceitei as informações da
forma que elas estavam sendo passadas e não senti nada. Eu
simplesmente não conseguia.
Nós tínhamos conhecido alguns soldados, e de repente eles estavam
mortos.
Qualquer
resistência que se formara estava aniquilada.
– Por que eles nos puseram juntos? E por que nos deixaram sozinhos?
Noble sentou-se ao lado da minha cama e pousou a mão na minha testa. O
rosto dele estava carregado de sofrimento e eu duvidava de que ele havia
dormido muito nesses quatro dias, mas ainda podia enxergar o velho calor
por trás de seus olhos.
– Porque não somos mais
uma ameaça a essas pessoas.
Parabéns, nós perdemos. Tudo o que você tem que fazer é dar uma olhada
para fora e constatar.
– Eles nos contaram tudo –
Sofia disse. – Sobre quem você e o Peter realmente são. O Noble acha que
eles queriam que soubéssemos
quanto
necessário prosseguirem com o plano deles.
Peter e eu olhamos um para o
outro. O que poderíamos dizer?
Ele pousou os dedos dele nos
meus, e eu me concentrei nisso.
“Sinta alguma coisa.” Eu deveria sentir alívio por estarmos todos juntos, mas
alguma coisa crucial estava faltando. Esperança. Era como se estivéssemos
apenas esperando para morrer.
Ainda
assim,
foquei
na
sensação provocada pela palma
dele nas costas da minha mão, quente, seca e um pouco áspera.
Ainda estávamos vivos, e juntos.
As coisas sempre poderiam ser piores,
mesmo
que
não
parecesse.
– Você tem que parar de me pregar esses sustos – Peter sussurrou no meu
ouvido. Eu apenas olhei para ele. Eu não tinha nenhuma resposta esperta
dessa vez.
Alguma coisa estava estranha
na maneira como Peter segurava
minha mão. Então eu tentei me lembrar do meu ferimento.
Gentilmente soltei minha mão e a coloquei diante dos olhos. Eu tinha uma
nova cicatriz na minha palma, que subia até a ponta do meu dedo mindinho.
Parecia que estava curada havia semanas, mas eu podia dizer que em algum
momento passara por uma
cirurgia
completa.
Continuei
olhando para aquilo, incapaz de dobrar o mindinho até o final. O
processo de cura certamente
havia sido acelerado de alguma maneira, como da vez em que o dr. Delaney
reparou meu nariz quebrado (que, aliás, parecia reparado pela segunda vez).
Ninguém disse nada. Peter
apenas pegou na minha mão de novo e a segurou, agachado ao lado da cama.
– Eles ligam a TV de quando e quando – ele disse. – Eles nos mostram as
notícias. Mas da última vez foi... Há quanto tempo? Umas seis horas?
Noble deu um gole no café e encolheu os ombros.
– Mais ou menos.
– Seis horas – Peter disse, como se estivesse contente por conseguir
confirmar
alguma
coisa.
Como se fosse uma pequena vitória.
“Uau, nós descobrimos quanto tempo se passou, talvez possamos descobrir
uma
maneira
de
sairmos daqui.”
– E ainda estamos vivos
porque a diretora precisa do Peter e de mim – deduzi. –
Porque ela precisa de nós para colocar o futuro de volta nos eixos.
– Ela não precisa de ninguém
– Noble cuspiu, mas então seu olhar duro suavizou. – Ela é você no futuro.
Mas isso não significa nada. Poderia pegar qualquer um dos clones dela e
reconstruir esse mundo. Poderia fazer por conta própria, se quisesse. Mas os
Originais estão dispostos a
fazer da maneira certa. Você ainda está viva... Nós ainda estamos vivos
porque ela acha que pode convencer você a fazer o que ela quer.
Sofia ergueu a cabeça de
repente.
– Se você é ela, então nós deveríamos matar você – ela disse secamente.
Olhei para ela e ela devolveu o olhar. Encolhi os ombros. Ela estava certa.
– Deus! – Peter se levantou. –
Ninguém vai matar ninguém. Se você fizer isso, vai ter que me matar
também. Não percebe? A Miranda ainda pode escolher. Se estamos em uma
nova linha do tempo, ela pode fazer o que der na
telha.
A
diretora
está
mantendo o mundo todo como refém, mas a Miranda tem uma escolha.
Todos nós temos.
– É verdade – eu disse. – Nada está predeterminado.
– Tudo o que eu sei é que o Rhys
está
morto
Sofia
lamentou. – E ele morreu para salvá-la.
Peter balançou a cabeça.
– Mas está mesmo morto? Ao
que tudo indica, todas as nossas identidades estão armazenadas em algum
lugar. Até a identidade do Noah, e especialmente a da Olivia.
– Sim, Peter, ele está morto –
Sofia disse, seca. – Eu o vi morrer,
caso
você
tenha
esquecido.
– Vamos lembrar que temos
quase certeza de que estamos sendo
vigiados
Noble
aconselhou.
Nós
os
levamos
diretamente ao East – Sofia disse baixinho.
Noble esfregou a testa.
– Já basta, por favor.
Eu olhei para os olhos do Peter, que pareciam pretos sob a luz amarelada das
velas, e quis mergulhar profundamente neles.
Ainda estavam calorosos. De alguma maneira, eles sempre
estavam calorosos ao olharem para mim.
– O East me contou – minha boca estava com gosto de bolas de algodão –
que, se não o libertássemos,
tudo
estaria
perdido.
– Como eu disse, dê uma
olhada pela janela – Noble repetiu.
Deslizei para fora da cama, com a pele meio repuxada nos lugares onde havia
sofrido os ferimentos, mas de modo geral
me sentia bem.
Sofia voltou a falar, mas eu a ignorei. Saí do apartamento, seguindo os
adesivos brilhantes por alguns passos. Peter me seguiu a uma curta distância.
Subi alguns degraus, absorvendo a sensação nos meus músculos rígidos, um
tipo bom de dor. No topo da escada, a porta para a cobertura estava quebrada.
Eu saí e andei pela beirada, com o ar ainda mais gelado do que antes.
O prédio estava localizado no
lado leste do Central Park, com vista para a Verge e para a trilha de
árvores
derrubadas
queimadas em volta dela.
Peter subiu ao meu lado e, juntos, olhamos para a Verge.
Não havia mais raio laser subindo do topo. Em vez disso, era
um
raio
espesso
de
Escuridão, disparando direto para o céu e se espalhando para todas
as
direções.
Tudo
silencioso, não tinha som em parte alguma. Era tarde demais.
A Terra Verdadeira encontrara a Chave e a estava usando em nosso mundo
para recriar os efeitos de uma guerra nuclear.
Nós subimos até ali bem a tempo de assistir ao fim.
Enquanto a Escuridão se
derramava mais pelo céu e se espalhava como uma enorme
poça de ponta-cabeça, as luzes que ainda brilhavam na cidade davam suas
últimas piscadas antes de se apagarem. Prédios inteiros perdiam energia, um
após o outro, até que não houvesse mais luz para ver. Eu não podia enxergar
Peter, mas procurei-o com as mãos no escuro e apertei meus lábios nos dele.
– Ainda podemos lutar – ele disse, porém eu não estava mais interessada em
escutar palavras.
– Podemos lutar de outra
maneira. Talvez trazer ordem imediatamente a este mundo seja
melhor
coisa
que
possamos fazer.
Eu não sabia o que dizer, então não disse nada.
Sofia e Noble se juntaram a nós logo depois e, unidos, voltamos ao quarto.
Lá estava Olivia, esperando por nós.
21
Olivia estava sentada com
naturalidade em uma cadeira ao lado da escrivaninha, com as pernas
cruzadas.
– Conte-nos o que está
acontecendo lá fora – Noble clamou, com as mãos cerradas. –
Conte-nos alguma coisa.
Olivia lambeu os lábios. Ela
parecia...
envergonhada.
deveria estar. A bagunça era culpa dela.
Foi ideia dela se intrometer, não da diretora. Se ela tivesse apenas deixado os
eventos
acontecerem como deveriam,
teriam sido horríveis mesmo assim, mas ao menos teriam sido espontâneos.
– Conte-nos! – Noble insistiu.
– A diretora usou a Chave para
assolar
seu
mundo.
Ninguém é capaz de revidar
agora.
Pensei no East . “O que ela fez com ele?”
– O que isso quer dizer?
– Ela usou a Chave para
manipular
Escuridão,
conjurando energia suficiente para queimar todos os aparelhos eletrônicos do
globo. Seu mundo está escuro agora, como nos dias após a guerra.
Lá fora é manhã, mas o sol está escondido por trás da Escuridão. E vai
continuar assim
enquanto
Escuridão
permanecer.
Passaram-se
mais
dez
segundos sem que ninguém
dissesse nada. Tentei imaginar como estava ali fora, mas não pude. Sete
bilhões de pessoas nas trevas. Tudo escuro como breu. Era como estar preso
em um pesadelo.
– Por quê? – Noble perguntou.
– Porque agora ninguém mais
pode lutar. Está acabado.
– Então é isso – eu disse. – É
assim que ela vai reconstruir.
Bilhões vão morrer, e aqueles que sobreviverem serão parte de um mundo em
superação.
Nesse ponto, de acordo com o
plano, eu entraria para controlar o mundo todo com a minha equipe.
Estávamos de volta à Idade das Trevas. Com a
diferença de que dessa vez tínhamos poder.
– E quanto ao resto da minha
equipe? O Noah, o Rhys... você?
Olivia se levantou.
– Eles chegarão aqui em poucos dias. Eles podem não...
Mesmo eu posso não me lembrar de tudo que vocês se lembram.
Algumas das lembranças podem não ter sido salvas, mas eles serão mais ou
menos os seus velhos amigos. Nós vamos...
Vocês vão ser um grupo mais uma vez.
Noble engasgou e Sofia pôs a
mão na boca para conter um grito. Eu sabia que estavam pensando no Rhys.
Fazia pouco
tempo que nós o havíamos perdido, e a ideia de que ele voltasse
antes
mesmo
de
passarmos
pelo
luto
era
incompreensível.
Isso
soaria
natural, como se ele apenas tivesse tirado umas férias?
Dobrei minha mão esquerda, esfregando meu polegar sobre a nova cicatriz.
– Por que você veio aqui, Olivia?
– Para convocá-la. O plano da diretora
que
você
fale
diretamente ao mundo antes do final do dia. Você deve encontrá-
la do lado de fora.
“Ah, não é nada demais, ela só quer que eu discurse diretamente para o
mundo todo.”
– E quanto ao resto de nós? –
Sofia perguntou.
– Vocês vão continuar aqui –
senti que ela queria falar mais, mas no final acabou apenas dizendo: – Sinto
muito.
Olivia abriu a porta e partiu, porém antes abriu os dedos da
mão esquerda e deixou cair alguma coisa no chão.
Era uma bola de papel
amassada. Cheguei até ali antes dos outros e ergui a mão, pedindo silêncio.
Desdobrei a bola e a apoiei estendida na minha palma.
Estava escrito: “Eles estão escutando.
Encontre-me
no
andar de baixo.”
E então, abaixo disso:
“Há esperança.”
O calor inundando meu corpo
deveria ser exatamente por isso: esperança. Passei o bilhete aos outros, com
um dedo nos meus lábios. Talvez Olivia estivesse mudando de ideia. Ou
talvez fosse outro truque. Eu não sabia se algum dia poderia voltar a confiar
plenamente nela.
Peter tirou meu dedo da
frente para poder me beijar.
Noble apenas acenou com a cabeça. Eu os deixei para trás e desci as escadas.
Encontrei Olivia nas sombras
da escadaria. Nós estávamos em um prédio com uma decoração chique, que
parecia supercara.
Havia Rosas por toda parte, carregando bastões brilhantes como tochas. As
sombras se moviam nas paredes, destacadas pelas luzes verdes e douradas.
Os Rosas
passavam
atarefados,
alguns carregando caixas de mantimentos, outros carregando armas.
Claramente era uma base de apoio separada da Verge, mas agora estavam
deixando o
prédio. Eu não sabia dizer se isso era bom ou ruim.
Ninguém olhava para mim
duas vezes, mas eu sabia que não poderia
simplesmente
sair
andando dali. A diretora não era tão estúpida.
– O que está havendo? –
sussurrei para Olivia.
– Estamos indo embora. A
força
de
invasão
está
se
reduzindo a uma força de ocupação – ela parou de falar quando dois Rosas
olharam
brevemente na nossa direção, então fingiram não nos ver assim que a
reconheceram. Supus que ficar nas sombras de uma
escadaria não parecia a coisa menos suspeita do mundo.
– Por que você está me
contando isso? – não consegui impedir minha voz de esganiçar um pouco.
– Um grupo de soldados está
detido em um campo de prisioneiros no Central Park. No momento estão
congelando até a morte, assim como muitos
outros, mas se alguém puder libertá-los...
– Por que eu iria acreditar no que você diz?
Ela se aproximou, bem perto do meu rosto.
– Em exatamente uma hora, caminhe três quadras ao Sul e duas para o Leste,
então entre no restaurante
com
janela
quebrada. Eu estarei lá – ela apertou meu braço uma vez, então se misturou
aos Rosas em movimento, tornando-se apenas mais uma Olivia, apesar de
estar vestindo um traje dourado.
Eu não sabia que jogo ela estava jogando. Tudo o que sabia era que deveria
encontrar a diretora em um instante, e não queria desapontá-la.
22
Encontrei a diretora do lado de fora do prédio, com o rosto voltado para a rua
e os braços cruzados atrás das costas. O céu estava repleto de Machados, com
as luzes de seus motores
destacando-se
em
meio
escuridão. As janelas de cada prédio estavam escuras; eu só
via
um
fogo
alaranjado
queimando
ao
longe,
com
silhuetas em forma de gente se movendo por ali. Os contornos da Verge eram
visíveis à
distância na penumbra, com sua superfície metálica refletindo qualquer luz
próxima, mas as ruínas do Time Warner Center estavam ocultas nas trevas. A
neve voltava a cair, rápida e espessa.
Eu só conseguia enxergar a diretora porque ela estava no
meio de cinco Rosas com tochas elétricas. Todos eles brilhavam sob uma luz
fantasmagórica dourado-esverdeada,
que
realçava os flocos de neve como faíscas.
Parei a alguns passos e ela se virou, lançando-me um sorriso largo e
arrepiante que eu jamais conseguiria imitar.
– Você está com um aspecto mais saudável.
– Obrigada.
– Presumo que você esteja
aqui porque está pronta?
– Você não me deixou muita escolha.
– Na verdade, eu lhe deixei uma, sim.
vento
uivava,
arremessando neve entre nós.
Ele
rodopiava
pelos
lados,
ferindo meu rosto.
Nesse instante eu queria
estar em qualquer outro lugar do mundo. Aqueles malditos não poderiam
nem ter esperado o verão para invadir?
– Está bem... – eu disse.
– Você pode fazer o que deve
fazer e se unir à sua equipe. Ou você
pode
continuar
me
combatendo, por conta própria, e eu vou alterar a História, substituindo você
por outro clone da Miranda, um que
cumpra o trabalho. Você vai morrer de novo, e quando voltar estará
diferente...
mas
resultado vai ser o mesmo. Nós estamos preparados para puxar as cordas de
uma distância
segura para assegurar o futuro desse planeta. Então você pode fazer a sua
parte para superar isto – ela apontou para o céu – ou pode nos deixar
experimentar com outras versões de você. De qualquer maneira, isto não vai
terminar facilmente. Pessoas vão morrer.
Fiquei olhando para ela sem me mover.
– Você realmente vai querer ficar parada sem fazer nada? Eu não gostaria,
então presumo que
você também não vai gostar.
Ela estava certa; não era o que eu queria.
– O que eu tenho que fazer?
Ela sorriu.
– Por enquanto, tudo o que você precisa fazer é esperar, enquanto os animais
comem uns aos outros.
Estremeci ao pensar no que estava acontecendo em todo o mundo
minha
volta.
humanidade estava tomada pelo terror mais nefasto que um
exército
de
Rosas
poderia
causar.
O
mundo
que
conhecíamos antes já era. Nós tínhamos
fracassado.
Não
importava o que acontecesse em seguida,
nós
tínhamos
fracassado.
melhor
que
poderíamos esperar era que nosso mundo ficasse como o do comandante
Gane.
– A sua equipe vai passar o próximo ano na Verge, ou em qualquer outro
lugar da cidade que preferir. Considere-se livre.
Em breve a Escuridão será fechada. Dentro de algumas semanas,
escuridão
desaparecerá e vocês verão o sol novamente, mas não haverá
energia
elétrica
ou
abastecimento de água por
muito tempo. Use o próximo ano para assumir controle sobre a cidade.
Estabeleça ordem, e eu sei que você estará pronta para liderar. Voltarei após
esse ano e lhe darei o dom da imortalidade.
Então
sua
equipe
estará
realmente no caminho para pôr o mundo nos eixos.
– Por que você confia em mim? – perguntei.
Ela suspirou pelo nariz.
– Porque eu sou você. E eu sei que você quer fazer o que é certo.
Ela
fez
uma
pausa,
observando a escuridão à nossa volta.
– Vou ficar feliz de voltar para casa para ver as mudanças que ocorrerem
depois disso tudo –
ela me encarou mais uma vez. –
Eu posso ver nos seus olhos que só agora você está começando a entender o
que deve fazer. E
aceito isso.
Era
verdade.
Se
não
fizéssemos o que eles nos ordenavam,
eles
iriam
simplesmente descobrir outro jeito. Talvez apelassem para algo como as
tatuagens que usaram para controlar a equipe Beta. Nós seríamos
simultaneamente nós mesmos, mas não nós mesmos.
Então, o que me restava?
– Sua equipe vai se juntar a você na Verge – a diretora disse suavemente. –
Sua equipe inteira.
Eu não podia negar que ver meus amigos novamente me
fazia tremer de uma maneira que não era tão terrível. Eu sentia muito a falta
deles. Sentia falta dessa família. Sentia falta da sensação de fazermos alguma
coisa boa e correta.
– Eu me despeço com um até
logo – ela disse. – Esteja na Verge
ao meio-dia, daqui a quatro horas. De lá, você vai se comunicar com todo o
planeta.
A diretora fez menção de ir embora, rumando em direção à Verge com seu
séquito.
– O que eu devo dizer? –
perguntei.
Ela pensou por um segundo, então ergueu os ombros.
– Qualquer coisa que você achar que precisa ser dita. O
momento é seu agora, Miranda. O
mundo está contando com você –
ela deu as costas.
Fiquei parada sobre o gelo por
mais
alguns
minutos,
sentindo a escuridão e o silêncio à minha volta. Alguém gritou em algum
lugar bem ao longe, ou talvez fosse apenas o vento.
Eu
queria
chorar
pelas
pessoas que estavam morrendo.
Pelas pessoas que iriam morrer em cinco minutos, em cinco horas. Por
aqueles que iriam sobreviver por cinco dias neste novo mundo sombrio.
Eu queria chorar por eles, mas havia trabalho a fazer.
Voltei para o prédio e
encontrei minha equipe no
apartamento. Todos se voltaram quando a porta se abriu. Olhei para eles
também, sem saber por onde começar.
– Eis o que vai acontecer a seguir – eu disse, então lhes contei o que a
diretora queria que fizéssemos.
– Mas nós não vamos fazer isso – Sofia relutou.
– Se não fizermos, está tudo acabado – Peter disse. – Que parte você não
entendeu? Nós tivemos nossa chance. Agora é hora de pensar no que
podemos fazer para salvar o maior número de vidas possível.
– Mas nós já tivemos mesmo
nossa chance? – perguntei. –
Parece que agora temos uma a mais.
Os olhos do Noble estavam
um pouco mais claros. Ele segurava alguma coisa pequena e preta em sua
mão.
– Eu encontrei a escuta, mas deve ter outras. Será que devemos...? – ele
apontou para o corredor.
Nós
saímos
do
quarto,
subimos
dois
andares
arrombamos a porta de um
apartamento. Era um lugar grã-
fino, com móveis antigos, sem moradores. Os Rosas deviam ter despejado
todo mundo do prédio
antes de tomarem conta dele.
Contei a eles que Olivia tinha marcado um encontro conosco.
– Ela está tramando alguma coisa – Noble advertiu. – Não podemos confiar
nela. Pode ser uma armadilha.
– Sem dúvida – Sofia disse.
– Escutem – continuei. – Se vamos contra-atacar, precisamos ser certeiros.
– Precisa ser um ataque
cirúrgico, sim – Noble afirmou. –
Mas nós nem sabemos onde eles
prenderam o East . Ele é a Chave, então sem ele não podemos mudar nada. E
mesmo que o encontremos, não há garantia de que possamos mudar qualquer
coisa!
Chave
pode
ser
destruída ou inutilizada para nós. O East pode até mesmo estar
morto.
Então
vamos
confiar na Olivia ou resolver por conta própria?
– Eu acho que podemos
precisa dela, melhor confiar – eu disse. – Com cautela.
Qual
sentido
de
continuarmos resistindo? – Peter perguntou. – O estrago está feito.
Nós podemos melhorar alguma coisa, se tentarmos. Eu não sei bem se temos
o direito de arriscar com tantas vidas em jogo. Talvez nos rendermos ao
acordo seja o melhor caminho –
eu nunca pensara que pudesse ouvir Peter dizer algo assim. Será que ele
estava certo?
– Não, não é – Sofia
discordou, com cenho franzido. –
Nós podemos impedi-los de fazer o mesmo com o próximo mundo. Não
vamos esquecer de onde eu vim. Eles não vão parar de uma hora para outra
de viajar pela
Escuridão,
destruindo
outros universos. Outras vidas serão
afetadas
por
nossa
impassibilidade, não apenas as que estão aqui.
– Vamos conferir o que a Olivia pretende – eu disse, vagando para a cozinha.
– Se for uma armadilha, que seja. Não
estaremos muito piores do que já
estamos.
Se
não
for,
precisaremos da ajuda dela.
Tomei dois copos de água
com gosto de ferrugem. A
geladeira tinha algumas sobras, um pouco de presunto em um pote de plástico
e algo que tinha cheiro de purê de batata com queijo gouda. Eu olhei para
eles, pensando:
“O
Rhys
estaria
lutando agora” . Noah também.
Então percebi que lutar não era uma escolha. É claro que nós
iríamos lutar. Rhys e Noah não se intimidariam nem acatariam as ordens da
diretora se estivessem vivos. E nós também não o faríamos.
Peter se aproximou e comeu uma fatia de presunto. Alguns minutos se
passaram em que apenas mastigamos e olhamos para o chão, mas então eu
olhei para ele, porque era fácil olhar para ele, e porque eu sabia que podiam
tirá-lo de mim mais uma vez, a qualquer momento.
Como se pudesse ouvir o que eu estava pensando, ele pôs a mão sobre meu
ombro. Então me puxou para junto do seu peito.
– Não vejo a hora de
passarmos um momento normal
juntos – ele disse.
– Meu Deus, eu também.
– Senti tanto sua falta – ele completou. – Você não faz ideia.
– Não tanto quanto eu senti a sua.
– Quando isso acabar, e se estivermos vivos, vamos sair de
férias.
– Ah, fale mais sobre isso –
sussurrei, colada no pescoço dele.
– Vamos para uma praia e vamos nadar com golfinhos e pegar conchinhas na
areia. Aliás, eu não ligo muito para as conchinhas, mas sem dúvida vamos
nadar com golfinhos.
Então vamos para as montanhas e nos hospedar em uma cabana e caçar
pumas.
– Eu gosto de pumas.
– Eu sei, eu também. Nós vamos atrás deles só para capturá-los e torná-los
nossos bichos de estimação.
Eu sorri, e o sorriso se transformou em uma risada. Mas logo depois aquele
instante se foi. Ele me beijou uma vez na testa e sussurrou no meu ouvido:
– Eu te amo. Não importa o que acontecer.
Fiquei com essa frase no
peito enquanto esperávamos
completar a hora. Chegamos até
a nos aconchegar juntos no sofá e cochilar um pouco. Foi bom. E
normal.
Mas logo depois Noble nos sacudiu para nos acordar.
– Está na hora – ele chamou.
Ele abriu a jaqueta e tirou um estojo
escondido
no
bolso
interno.
Dentro,
havia
seringas
fechadas
cheias
do
nosso
conhecido líquido amarelo.
– É melhor garantir, pra não nos arrependermos – Noble
explicou. – Com tanta coisa acontecendo, não podemos nos esquecer dos
detalhes.
– Obrigada por tomar conta de nós – eu disse a ele. – Você é um gênio.
Ele
ergueu
os
ombros,
sorrindo.
– O que eu posso dizer?
Peter foi ao banheiro e Noble removeu mais uma seringa de sua jaqueta. Esta
estava com um fluido amarelo mais escuro, parecido com mel.
– Guarde esta com você, Miranda. Se você passar por um grupo de Rosas,
quero que tente usar seu poder. Você pode não fazer com que saiam
correndo, mas
pode...
desorientá-los.
Deixá-los
atordoados,
pelo
menos.
– Como isso seria possível?
Os Rosas são imunes às ondas de medo.
Ele olhou para o lado.
Eu
pude
modificar
ligeiramente seu corpo enquanto
você estava no tanque. Então você poderá tolerar uma injeção mais forte e
usar seu poder contra outros Rosas. Sinto muito por mexer com você, espero
que não fique brava, mas, se era para trazermos você de volta, eu queria lhe
dar alguma vantagem
– os olhos dele passaram para a seringa.
Seu
poder
provavelmente vai funcionar, ao menos um pouco. Porém logo depois você
vai ter que tomar esta injeção. É muito importante.
Se demorar, seu cérebro vai se aquecer demais. Você pode
literalmente se esquecer de tudo imediatamente. É possível até que entre em
coma. Ou pior.
– Que bom que você não quer
me assustar – a seringa tinha uma faixa metálica, então eu só tive que colocá-
la nas costas para prendê-la
às
escamas
magnetizadas.
– Desculpa, eu... – Noble começou a dizer.
Eu me levantei e apertei seu
pulso.
– Obrigada.
Ele acenou com a cabeça.
– Tenha juízo, como você
sempre teve.
Eu podia notar que ele queria dizer alguma coisa a mais.
– Eu também sinto falta dele.
Noble contemplou a minha
mão no seu punho, e seus olhos cintilaram.
– Ele amava você, sabe? Como
a uma irmã. Ele ia sempre ver se você estava bem quando estava
no tanque. “Eu vou visitar a Miranda”, ele dizia.
Tudo o que pude fazer foi acenar com a cabeça.
Logo depois, estávamos de
volta ao frio, que liquidava qualquer restinho de sono em nossos ossos.
Ao Sul, um prédio estava
pegando fogo, com uma luz avermelhada que nos permitia enxergar entre as
chamas. Vi algumas pessoas chegando à rua com lampiões a óleo que deviam
ter roubado de alguma loja de itens para acampamento.
– Vamos andando – Noble
ordenou.
Foi
que
fizemos,
percorrendo em um trote leve os cinco
quarteirões
até
restaurante,
com
os
olhos
atentos para o perigo. Passamos por algumas pessoas que se amontoavam
perto das portas ou das vitrines estilhaçadas das lojas. A corrida me deixara
quase aquecida quando chegamos ao
último
cruzamento.
restaurante de sushi do outro lado da rua estava com um buraco grande bem
na janela da frente, como se alguém tivesse arremessado um tijolo.
Então eu senti um tremor sob
a sola dos meus pés.
Agachem-se!
Noble
sussurrou,
todos
nós
mergulhamos atrás de uma suv estacionada. Um Espinho veio rasgando
pela
rua,
esparramando neve para os
lados. Tão rápido quanto chegou, sumiu. Nós esperamos mais
alguns segundos, escutando com atenção, então nos esgueiramos para a
lateral do restaurante.
Passamos
pela
porta
dianteira. Não estava mais quente ali dentro, mas ao menos não ventava.
Olivia estava sentada em uma
mesa perto do balcão, nos fundos. Fomos até lá e nos sentamos como se
fôssemos
jantar juntos. O silêncio era
bizarro.
– Sobrou alguma comida? –
Sofia falou, no lugar de “Olá”.
Olivia juntou as mãos sobre a mesa.
– Acabou tudo. Só tem uma garrafa de saquê que rolou para baixo de um
armário.
– Vamos ao que interessa –
Noble disse. – Por que você nos chamou aqui?
– E por que devemos confiar em você? – acrescentei. Ao olhar para ela, eu
ainda não podia
acreditar que era a garota com quem eu lutara lado a lado na floresta depois
que Tycast morrera e a equipe Beta viera atrás de nós. Eu a vi morrer no topo
da Key Tower, e mesmo assim lá estava ela, mil anos mais velha; de modo
algum era a mesma pessoa que eu havia conhecido.
– Porque eu passei por uma mudança – ela disse. – Talvez eu não queira mais
brincar com o destino.
Nós
fizemos
uma
bagunça, e achei que esse era o jeito certo de consertá-la, mas é possível que
eu tenha perdido a noção. Já que não sei mais qual é a coisa certa a fazer,
concluí que talvez isso esteja...
– Errado – Sofia completou para ela.
Parecia bom demais para ser
verdade.
– Como você pode nos
ajudar? – perguntei.
Ela se permitiu um pequeno sorriso, do jeito que eu me
lembrava.
– Nossas forças diminuem a cada segundo. Estamos voltando para casa, por
enquanto. Mas vocês têm sobreviventes nesta cidade, que estão preparados
para lutar. Não muito tempo atrás, um grupo de prisioneiros foi trazido para
esse parque.
Homens vestidos de soldados...
– O Kellogg e os homens dele
devem estar lá – Peter disse.
– E eles ainda estão vivos? –
Sofia
perguntou.
Os
olhos
escuros dela se estreitaram.
– Estão – Olivia afirmou.
Meu coração começou a
acelerar. Se nós soltássemos esses homens, teríamos uma força militar –
pequena, mas ainda assim um grupo de
soldados treinados. Eu bem que poderia me apresentar ao mundo com um
exército à disposição.
– O que faremos com eles? –
Noble indagou. – Nós precisamos da Chave, que provavelmente está em
outro universo. Isso
significa encontrar o East . Você sabe se ele ainda está vivo?
Olivia assentiu com a cabeça.
– O East alojou a Chave no meio do sistema nervoso central dele. Foi muito
engenhoso, devo admitir. Isso quer dizer que, para se usar a Chave, o East
precisa permanecer vivo.
– Mas onde ele está? – Noble
perguntou.
Na
Terra
Verdadeira?
– Não. Para que a Chave
funcione, ela deve permanecer
no universo que está afetando.
Isso significava que...
Olivia sorriu mais uma vez, agora um sorriso mais largo.
– O East ainda está aqui.
23
Depois disso, bolar um plano
para soltar o prisioneiro não levou muito tempo. Cada um tinha uma tarefa. O
meu era arrumar o transporte. Com o colapso
da
eletricidade,
precisávamos ser um pouco
criativos.
Peter
achou
que
poderíamos fazer um motor a
diesel funcionar, mas Noble o desencorajou
rapidamente,
alegando que ficaria muito barulhento e lento para ser eficaz em uma área
cheia de Espinhos e Machados.
Sofia levantou uma dúvida
pertinente:
– Vamos supor que a gente consiga a Chave, de alguma maneira. E então? A
Escuridão já está aberta.
– Assim que vocês tiverem a Chave – Olivia disse –, só terão
que viajar pela Escuridão para chegar a uma sala especial. De lá, vocês
poderão
começar
processo
de
remoção
da
Escuridão. A restauração da eletricidade virá em seguida. Por enquanto, os
campos elétricos estão suspensos.
Nossos
veículos
estão
protegidos.
Esqueçam
transmissões por rádio também.
– Talvez possamos passar
alguns
anos
estudando
e
copiando a tecnologia deles –
Peter disse secamente.
Ninguém riu, mas não parecia
ser mesmo uma piada.
Nós nos levantamos juntos, e
Noble se esticou sobre a mesa para apertar a mão da Olivia.
Obrigado.
Nós
precisávamos disso.
– Eu espero que não seja tarde demais – ela disse. – Ainda não sei o que é o
certo, mas acho que quebrei coisas o suficiente ao tentar consertá-las.
Do lado de fora não havia
Rosas à vista, já que o objetivo deles tinha sido cumprido, mas isso não
significava que não estivessem por lá... ou que as pessoas
não
iriam
nos
reconhecer como clones.
– Nós precisamos de umas
roupas mais discretas – eu lembrei.
– Concordo – Peter disse. –
Olhe.
Do outro lado da rua havia uma loja de materiais esportivos, com
as
janelas
já
providencialmente estilhaçadas.
Dentro, a maior parte das roupas desaparecera,
os
cabides
estavam suspensos como ossos descartados. “Pessoas espertas guardando
roupas para o longo inverno” , pensei. Ou talvez só quisessem coisas grátis.
Mas encontramos roupas o suficiente para todos nós. Sofia pegou uma
jaqueta acolchoada grossa e eu achei várias camisetas de manga comprida
para vestir uma por cima da outra, além de um
cachecol preto grosso, e um macacão à prova d’água que caiu bem em mim.
Eu estava mais para alguém que ia andar de trenó do que alguém indo para a
guerra. Noble já parecia um cidadão comum, então apenas pegou um chapéu
de flanela com proteção para as orelhas.
Peter pôs uma touca rosa de criança com buraquinhos para os olhos.
– Como é que eu estou?
Eu ri e imediatamente me
senti mal, porque não era hora para isso. Eu deveria permanecer séria até o
fim.
Mas Peter também riu e
então jogou a touca em mim.
Pensando bem, ele sabia que eu precisava aliviar a tensão.
– Escutem! – Noble gritou.
Do lado de fora havia uma bando de pessoas berrando. Nós nos agachamos
nas sombras, atrás das prateleiras, e ouvimos um grupo de ao menos 20
homens marchando pela rua,
carregando tochas.
Eles
definitivamente
não
eram da Terra Verdadeira. Dois deles se afastaram do grupo e espiaram para
dentro da loja.
Saíram um momento depois,
quando viram que não havia muito o que roubar.
– Animais... – Peter disse.
– Pessoas – Sofia corrigiu.
Eles seguiram marchando em
frente, e nenhum Machado
apareceu
para
afugentá-los.
Olivia estava certa: o exército
deles estava diminuindo. Isso significava que era o fim, acontecendo bem à
nossa frente.
As
pessoas
logo
estariam
devorando umas às outras
durante a longa noite.
Eu me esgueirei até a porta. A gangue avistou um homem do outro lado da
rua e o cercou, arrancando sua jaqueta e suas blusas. Eles tiraram uma sacola
cheia de comidas enlatadas dos braços dele e a arremessaram ao chão. As
latas que rolaram foram
recolhidas por mãos rápidas e gananciosas e o homem caiu de joelhos,
esmagando a neve.
Eu saí para a rua.
– Miranda! – Noble disse, severo. Quando olhei para trás, Peter acenou e fez
menção de vir comigo.
– Não. Fique aqui – mandei. –
Só quero falar com eles. Se todos nós formos, vai sair briga.
Segui em direção à gangue, de cabeça quente.
A diretora estava certa.
Alguém tinha que manter a ordem, ou tudo o que restaria seriam cadáveres.
– Ei! – eu disse, alto o bastante para que o bando me ouvisse. Eu estava com
minhas roupas novas, toda coberta por camadas, então ninguém iria me
reconhecer como uma Rosa.
Alguns dos rapazes pararam de despir o homem de todas suas posses
mundanas
me
encararam.
Eles alertaram os outros.
Captei um sussurro abafado: “Ei, olhe para isso” – e logo o grupo todo estava
andando lentamente na minha direção, espalhando-se para me cercar. Aquilo
me lembrou muito a maneira como os sem-olhos se moviam, e os pelos da
minha nuca até se arrepiaram.
Estava claro quem era o líder: o que estava mais perto de mim, bem no
centro. Os olhos dele me examinavam como se eu fosse uma mercadoria.
– Dê suas roupas para nós – o líder exigiu.
– Melhor ainda, vamos levá-la conosco – o mais baixo, ao lado dele, disse.
– Não – o líder retrucou. –
Bocas demais para alimentar.
Entregue as roupas para nós.
– Você tem dez segundos
para devolver as coisas a esse homem, e então vou deixar vocês irem em paz.
Os caras olharam uns para os
outros e riram. Quando o líder
percebeu que eu não iria entregar minhas roupas, deu um passo à frente,
empinando o peito, fazendo o seu melhor para me intimidar.
Tudo o que eu via eram alvos.
Eu podia usar meu poder.
Podia aterrorizá-los com minha mente, literalmente. Só que eu não queria
fazer isso. Não valia a pena precisar de uma injeção extra de memória antes
do planejado.
Em vez disso, esperei até que
o líder se aproximasse o bastante, então dei um soco direto no nariz dele.
Senti ele quebrar sob os nós dos meus dedos, tal qual a casca de uma noz se
rompendo. Ele caiu de costas, sem nem tentar se equilibrar, desmaiando no
chão.
A neve impediu que o crânio dele se rompesse.
– Peguem-no e deem o fora –
ordenei aos outros.
Eles não obedeciam. Eu
suspirei. Olhei para a loja, onde
Peter estava com Noble e Sofia.
Os caras vinham na minha
direção, mas fiz um breve movimento com a cabeça e eles diminuíram a
marcha, sem parar completamente. Era verdade que eu tinha acabado de
socar aquele cara, porém ainda era possível resolver na base da conversa. Se
não conseguíssemos deter a Escuridão, essas pessoas já passariam maus
bocados sem membros quebrados ou feridas abertas.
– Sei que isso é difícil – eu me dirigi ao bando –, mas tentem permanecer
humanos. – Um bom
conselho para qualquer um, até para mim mesma.
– Nós vamos morrer – um
deles disse.
– Então morram com a
consciência tranquila – meu cérebro estava esquentando e eu aliviei a pressão
com uma onda mínima de medo, apenas o
bastante para que eles fossem embora. Eles mantiveram a pose,
entretanto se dispersaram como eu havia pedido. Apenas dois caras pensaram
em levantar seu velho líder. Eles o carregaram dali, desaparecendo no escuro.
Reuni as latas de comida e as devolvi para o homem, que havia recuperado
uma
de
suas
jaquetas.
A sacola de compras estava rasgada e úmida, mas, ajeitando um pouco, ainda
dava para suportar as latas.
– Onde você conseguiu isso? –
perguntei.
– Em uma loja no final da rua.
Foi tudo o que sobrou. Por favor, minha família...
– Vá até eles. Fique longe da rua, se puder.
Ele acenou graciosamente
com a cabeça, quase em uma reverência, e seguiu pela calçada.
Meus
olhos
seguiram,
avistando mais pontinhos de tochas à distância. Mais gangues, talvez. Mais
piratas, ladrões, saqueadores.
– Por que você o ajudou? –
Noble perguntou, assim que ele se foi. – Não devemos ficar expostos desse
jeito.
– Por que você me ajudou? –
Sofia perguntou a ele. – Você também poderia ter continuado andando.
Eu me lembrei da história que a Sofia contara quando percorremos o mercado
no
mundo dela.
Sobre como Noble salvara
sua vida. Ela contou do que ele a
salvara.
– Isso é apenas o início –
Peter disse. – É bom que essa Chave possa restabelecer a energia.
Eu não sabia o que dizer a respeito. Não sabia o que seria do mundo na hora
seguinte, no dia
seguinte,
na
semana
seguinte. Só sabia que tínhamos que dar nosso melhor.
– Vamos andando – eu falei.
Depois de cinco minutos foi que percebi que uma das pessoas
do bando parecia muito, muito familiar.
Um deles se parecia com
Albin.
– Acho que estamos sendo
vigiados – eu disse.
– Então vamos logo com isso
– Noble respondeu.
escuro
nos
provia
cobertura
fácil.
Enquanto
atravessávamos a cidade rumo ao Oeste, nós mergulhávamos tanto nas trevas
que eu só podia ver três metros à frente. Além
disso, os contornos cinzentos se tornavam pretos.
Logo chegamos ao parque, e a
Verge surgiu da escuridão como a proa de um barco através da neblina. Ou,
nesse caso, da neve.
Havia alguma atividade ao redor da Verge, com barulho de
veículos e silhuetas atarefadas.
Nós nos mantivemos a uma
distância segura.
Dividimo-nos
perto
da
extremidade oeste do parque, em uma série de rochas enormes
que pareciam montanhas no escuro. Ao Sul, eu vi a cerca alta da prisão
improvisada onde os soldados do Kellogg, entre muitos outros, estavam
detidos.
Atrás da cerca, eu só podia distinguir pessoas abraçadas em silêncio, tentando
se proteger do frio. Algumas fogueiras estavam acesas dentro do cercado para
impedir que os prisioneiros congelassem até a morte. Ao que tudo indicava,
Olivia estava dizendo a verdade – ao menos no
que dizia respeito àquilo.
Peter, Sofia e Noble seguiram por esse lado. Mas o meu destino estava ao
Norte. Peguei a trilha sinuosa de um barranco, então o desci, tateando com as
mãos estendidas para não perder a direção.
Os galhos roçavam em meu
cabelo e raspavam nas roupas. A trilha me levou a um celeiro enorme situado
junto ao acesso para a rua. Era um dos estábulos dos cavalos que usavam para
as
carruagens do Central Park. Sem outro meio de transporte, aquela era nossa
única esperança de nos movermos com agilidade, se necessário. Por sorte, eu
tinha alguma experiência com cavalos.
Eu me esgueirei até o celeiro escuro,
atenta
qualquer
movimento ali dentro. Estava completamente silencioso, sem suspiros ou
fungadas de animais.
Abri a porta e alguém apontou uma espingarda para a minha cara.
24
–O que você está fazendo
aqui?
Era a voz de uma mulher. O
rosto dela estava escondido nas sombras profundas do celeiro. A espingarda
estava
perto
bastante para ser agarrada, mas eu não queria que ela disparasse no meio da
confusão.
– Preciso de um cavalo – eu disse,
confiando
que
sinceridade fosse a melhor saída.
– Vários cavalos. Nós estamos preparando um contra-ataque.
– Nós quem? – ela perguntou.
– Levante as mãos.
Eu as levantei e lentamente dei um passo para trás.
A mulher andou comigo em
direção à luz laranja suave de uma fogueira distante. Ela estava usando algum
uniforme de
funcionária do parque (eu não
saberia dizer de que cor era) e um boné de baseball sobre o cabelo claro.
– Você é uma deles – ela disse secamente.
– Sou. Mas sou diferente. Caso contrário, você estaria morta.
– Diferente como? – ela quis saber.
– Quanto tempo você tem
para ouvir?
Pelo jeito, não muito.
– Vai embora, eu não vou matar você. Mas não vai levar
minha
comida
nem
cavalo
nenhum.
Ela estava prestes a voltar para dentro do abrigo e fechar a porta. Eu sabia. E
então nós teríamos que ficar a pé.
Minhas palavras saíram em
tom de súplica:
– Por favor, senhora. Eu não tenho certeza de nada, a não ser que não quero
que nosso mundo morra como está morrendo
agora. Preciso da sua ajuda. Por favor, me ajude.
Pareceu ter passado um minuto de hesitação. Eu exalava fumacinhas cor de
giz, e a mulher também. A ponta da espingarda dela não parava de sacolejar.
– Todos os cavalos estão
mortos – ela revelou. – Sobrou só um potro que estou tentando manter vivo.
Só ele e eu.
Então
ela
abaixou
espingarda.
– Mas tenho uma coisa
melhor – ela voltou para dentro do celeiro. – Entre.
Eu entrei e esperei até que meus olhos se acostumassem.
Tudo continuava escuro. Ouvi o riscar de um fósforo, então uma frágil chama
amarela surgiu à direita. A mulher acendeu uma vela.
– Meu nome é Natalie. Qual é
o seu?
– Miranda North.
– Prazer em conhecê-la.
Venha comigo.
Eu a segui pelas baias abertas do estábulo, a maioria delas
vazias. Duas tinham cavalos mortos dentro, com seus corpos duros e
congelados sobre o feno desbotado.
– Não foi o frio que os matou
– Natalie disse, com voz baixa e firme. – O cuidador se foi quando tudo virou
um inferno e eles ficaram sem água.
– Sinto muito – aquela visão me embrulhava o estômago,
entretanto uma vozinha cínica dentro de mim disse que ao menos eles não
tiveram que
sofrer
por
piores
horas/dias/semanas... Afinal, já estavam mortos. De certa forma, era uma
sorte.
– Não fique com pena –
Natalie disse. – Agora eles não vão mais ficar infelizes com tanto peso no
lombo. Eles se foram para o grande pasto no céu, não são mais escravos.
Eu já me sentia triste por ter que deixar Natalie para trás.
Chegamos
ao
fundo
do
celeiro, onde o potro se escondia
sob
uma
montanha
de
cobertores.
Algumas
velas
estavam
acesas ao redor dele, dispostas com cuidado para não atearem fogo no feno.
Natalie abriu a porta traseira do celeiro, revelando mais árvores na penumbra
e outra forma grande e escura.
– Eu o encontrei ontem à noite – ela continuou. – Parece abandonado, mas
não quero
tocar nele.
Estou com medo de que voltem para buscá-lo.
– O que é? – minha
curiosidade ficou atiçada.
– Deixe seus olhos se
ajustarem.
Dei um passo para fora e minha vista parou de embaçar com a centelha das
velas. De repente pude ver claramente uma silhueta contra as árvores.
Estava a apenas poucos metros de distância.
Era algo que eu já conhecia
bem.
Era um dos Machados da
Terra Verdadeira.
– Você sabe como usar isso? –
Natalie me perguntou.
– Não. Mas posso aprender bem rápido.
Cheguei perto do Machado e os detalhes ficaram mais nítidos.
Estava coberto por uma fina camada de neve.
– Eu já não vejo muitos
destes
no
céu
Natalie
comentou. – Antes, eles voavam
o tempo todo sobre nossas cabeças.
– Isso é bom.
– Certo, eu lhe fiz um favor. E
não explodi sua cabeça com minha espingarda. Agora me conte o que está
acontecendo por aqui. Quero saber do que se trata tudo isto.
Eu me virei para a Natalie.
– Algumas pessoas acham
que não merecemos viver. É tudo o que está havendo, acredite em mim.
– Ah. Eles que se danem.
– Você não deveria ficar aqui.
Ela encolheu os ombros.
– Eu não tenho mais para onde ir. Meu prédio não tem água nem
aquecimento. Estou vendo gente em todas as ruas levando panelas de neve
para derreter.
Graças a Deus temos neve – eu me lembrei de desejar que eles invadissem no
verão, mas a neve estava salvando vidas. E eu preocupada com meu
conforto...
– Se você reunir a resistência de
que estava falando, talvez eu me junte a vocês.
Uma arma de fogo disparou ao longe, dois tiros, seguidos de uma
rajada
de
disparos
automáticos.
– Acho que é melhor você ir –
Natalie disse. – Eu não tenho o seguro dessa coisa, então tome cuidado.
Ela me deu um sorriso
maroto, que mal pude enxergar no escuro.
Eu apertei a mão dela.
– O mundo vai precisar de gente como você. Fique viva.
Ela inclinou um pouco a
espingarda.
– Estou dando meu melhor.
Natalie voltou para o celeiro e se ajoelhou ao lado do potro antes de fechar o
portão com a bota.
Eu tinha o pressentimento de
que nunca mais a veria.
Ao Sul, uma nova fonte de luz alaranjada brilhava. Um fogaréu.
Era a minha deixa.
Cheguei
mais
perto
do
Machado, entre os dois motores verticais. A cabine do piloto estava apitando,
e uma luz vermelha varreu meu rosto. Ela apitou de novo e a comporta se
abriu, deslizando para fora.
Havia alguns benefícios em ter um rosto como o meu.
Eu me sentei no assento
dianteiro, atrás dos controles.
Havia um assento ao lado do meu e dois atrás. Perfeito. A disposição do
Machado era
parecida com a do Espinho.
Agarrei o manche, e o painel de controle se acendeu com um zumbido. A
comporta deslizou de volta ao lugar, protegendo-me enfim daquele ar gelado
mortal.
Estava tão quente lá dentro que eu gostaria de apenas ficar ali e aproveitar,
mas isso não seria possível. Levei mais alguns minutos
olhando
para
os
controles relativamente simples.
Não havia pedais, e o manche podia ser puxado ou empurrado
para qualquer direção, inclusive para cima e para baixo.
– Por favor, funcione – eu disse, então apertei o botão amarelo do painel. O
Machado começou a subir imediatamente, com os quatro motores girando e
brilhando com uma luz suave amarela. Ele se ergueu a uns 30
centímetros
do
chão,
perfeitamente estável. Um mapa no console brilhou com uma luzinha
azul,
mostrando
Manhattan inteira e a maior
parte
do
Brooklyn.
Dois
pontinhos apareceram no mapa, um Machado perto de Wall Street e outro no
Harlem.
Era hora de descobrir o que o manche fazia. Eu o puxei, e senti um frio na
barriga quando o Machado disparou para o alto, com os motores silvando. De
repente,
avistei
fogo
na
extremidade sul do parque, ao lado dos escombros do Time Warner Center.
Parei
por
um
segundo,
olhando para todas as direções.
O rádio ligou e uma voz
surgiu na cabine.
– Informe seu número – uma
Olivia exigiu. O Machado no Harlem se iluminava no mapa enquanto ela
falava.
– M-96 – eu disse.
– Graças a Deus – o outro Machado transmitiu. Era um Rhys. – Mais uma
que foi deixada para trás – o tom dele era tão parecido com o do meu Rhys
que eu cheguei a sorrir. Mas o sorriso
sumiu do meu rosto um segundo depois.
– Você consegue acreditar? –
a Olivia indagou. – Isso dever ser nossa punição por alguma coisa.
– Não posso acreditar – eu disse. E era verdade.
Não falei mais nada, nem eles, então apenas empurrei o manche lentamente
para a frente, e o Machado se moveu rumo ao
campo de prisioneiros. No
segundo seguinte eu já estava lá, e tive que recuar o manche
porque
bati
de
maneira
desajeitada contra a cerca. O
chão
do
Machado
era
transparente por dentro, então eu podia ver as pessoas fugindo de mim lá
embaixo.
Assim que me posicionei ao lado certo da cerca, desci, com cuidado para
evitar as árvores à minha volta. Parei alguns metros acima do solo, então
empurrei o manche
para
frente,
lentamente, batendo contra a cerca. Houve uma pequena
resistência, mas então a cerca guinchou e se dobrou como uma folha de
papel.
O que aconteceu em seguida foi muito rápido. Os prisioneiros não precisaram
de ordens para saber o que fazer. Eu recuei o Machado, e logo o buraco da
cerca estava cheio de gente. Eles dispararam através da abertura, correndo tão
rápido quanto podiam.
Muitos
deles
se
perderam imediatamente no
escuro. Meus olhos passavam
por eles, procurando por um grupo específico. Os soldados estariam juntos,
mantendo a ordem, não importando o que acontecesse. Fiz o Machado descer
a uma distância segura, então abri a cabine. Foi quando eu o vi.
– Kellogg! – gritei.
Ele se voltou para mim, então me cercou com seus homens, do mesmo jeito
que a gangue de rua fizera pouco tempo antes.
Ergui minhas mãos, com as
palmas abertas.
– Sou eu. É a Miranda. Eu que abri o portão.
– Eu vi – ele disse. – Qual é o seu plano?
– Primeiro, ficarmos seguros.
Depois, formar a resistência.
Então, recuperar o East .
– Você pode ser mais
específica?
– No momento, não. Mas nós
sabemos que o East está na Verge e precisamos resgatá-lo.
Eu esperava que vocês pudessem
nos ajudar.
– Acho que podemos bolar
alguma coisa. Só que primeiro precisamos cuidar de nossa segurança, como
você disse.
Vamos pegar os túneis e seguir para o Norte, o máximo que pudermos,
para
nos
reagruparmos.
– E quanto às aranhas? –
perguntei. Os homens do Kellogg já estavam saindo, passando pelas árvores
próximas. Eu não sabia como ficaríamos juntos
nos escuro, mas talvez fosse melhor assim.
– Vamos matar qualquer uma
que aparecer pela frente. Temos armas escondidas que vão nos ajudar
nisso.
Ajude-me
recuperá-las.
– Vou te dar uma carona – eu
disse. – Porém primeiro preciso encontrar meus amigos.
Ele acenou com a cabeça,
então entrou no Machado e se acomodou
no
banco
do
passageiro. O fogo ao Sul estava
ardendo forte – era uma distração causada pelo Peter, pela Sofia e pelo Noble
–, mas eu não sabia ao certo quantos Rosas haviam sobrado para termos que
distrair. O mundo estava livre, livre para viver ou morrer com nossos
próprios esforços. Nós só tínhamos que garantir que ele vivesse.
Partimos
enquanto
as
pessoas continuavam a escapar do campo de prisioneiros, então voamos para
o Upper West Side,
tão baixo quanto possível. De acordo com o mapa, os outros Machados ainda
estavam nas mesmas áreas de antes. Ao perceber que eu me dirigia para o
Norte, o Rhys disse: – Noventa e seis, o que você está fazendo?
Não recebeu o último informe sobre o incêndio?
– Vou checar de perto –
respondi, esperando que aquilo me fizesse ganhar um pouco de tempo.
Desliguei o comunicador para
que não pudessem me ouvir, então levei o Machado para o local de encontro,
perto do Lincoln Center, logo ao Norte do que costumava ser o Time
Warner Center.
propulsão
do
motor
dianteiro esquerdo fez capotar um desses carros compactos que nem parecem
carros de verdade.
– Ops!
– Motoristas adolescentes –
Kellogg disse, em tom de troça.
Ele
perscrutou
área,
procurando por algum sinal de movimento. – Nós estamos
dando
bandeira.
Eles
vão
perceber que você não está checando coisa alguma.
– Eu não vou abandonar
minha equipe. Vamos torcer para que os Machados não possam abandonar
seus postos.
– Você é teimosa como uma porta – ele disse.
– Não sei se as portas são tão teimosas.
Kellogg suspirou, mas não
insistiu.
Levou dez minutos até que minha equipe aparecesse. Eles se aproximaram
com
cautela,
agachando-se atrás dos carros.
– Sou eu! – chamei. Assim que me viram com Kellogg, saíram de trás dos
carros e vieram
correndo.
– Belo transporte – Sofia disse, chegando até a sorrir.
Peter também sorriu.
– Eu quero ir na janelinha.
Noble não queria perder
tempo.
– O campo de prisioneiros já foi evacuado. Os Rosas da equipe terrestre
foram investigar o incêndio, como planejado, porém não devem estar muito
longe.
Precisamos ir andando.
– O Kellogg me contou sobre um esconderijo com armas, não muito longe
daqui – eu disse.
– Isso mesmo. A prioridade é
nos
armarmos
Kellogg
confirmou.
– Nós vamos precisar disso,
sem dúvida – Noble falou, indo para a parte de trás do Machado.
– Mas também vamos precisar de ajuda – ele abriu um painel da parte de trás,
que se revelou um compartimento
de
estoque.
Dentro, havia seis AIRs alinhadas com zelo. – Já que são armas reservas,
estas não devem estar codificadas de acordo com o traje de ninguém.
Então ouvi um som familiar –
um Machado se aproximando.
Agarrei a primeira AIR e ajustei o
marcador
para
dez.
Então
apontei para o céu. Dois
segundos depois, o Machado veio de trás de um prédio de 50
andares e diminuiu a velocidade.
O Machado estava apenas
pairando quando a voz do Rhys surgiu de um alto-falante: –
Ajoelhem-se e coloquem suas mãos em cima do...
Eu disparei com a AIR e o Machado explodiu. Em um
segundo ele estava ali, no instante seguinte era uma bola
laranja
preta
de
fogo,
mergulhando rápido para a rua.
Um dos motores ainda estava girando e se soltou, atravessando desgovernado
janela
de
alguém. O resto do Machado se chocou contra o chão.
Todos os outros pegaram
uma AIR, inclusive Kellogg, restando
apenas
uma
no
compartimento.
– Eu vou reagrupar meus
homens no esconderijo – Kellogg disse. – Depois disso, vamos
passar pelos túneis do metrô rumo ao Norte. Sei que meu apartamento em
Washington
Heights tem geradores e que o zelador vai cuidar bem do combustível.
Podemos ir para lá e bolar um plano sólido.
– E quanto a todas as pessoas que soltamos? – perguntei. – Nós não podemos
apenas deixá-las vagando pelo frio.
– Isso é exatamente o que todo mundo está fazendo. Muitos deles vão para
casa. Assim que
eu estiver com meus homens, vamos persuadir todos que
quiserem a seguir conosco para o Norte.
Vamos precisar de mais
homens do que os que já tenho se vamos partir para algum ataque. E eles
estarão mais seguros conosco.
– Afinal, as pessoas estavam bem seguras na Penn Station –
Sofia provocou.
Os
lábios
de
Kellogg
tremeram.
– E de quem foi a culpa? Eles sabiam onde estávamos por
causa de vocês.
– Não culpe a todos nós... – ela não
insistiu,
mas
deixou
implícito que a culpa era apenas minha.
Ela não estava errada. – Mas nós não acabamos de resgatar vocês?
– Um resgate de verdade
supõe segurança depois da fuga –
Kellogg disse. – 190 th Street, Oeste, número 804. É um
esconderijo. Estejam lá.
Acabamos combinando que
Noble e Sofia iriam com Kellogg para ajudá-lo, e eu iria com Peter no
Machado. Soava como um plano decente e o Machado certamente viria a
calhar. Mas todos os bons sentimentos
desapareceram assim que olhei para o painel.
mapa
mostrava
20
Machados voando. Todos eles convergindo
para
nossa
localização.
25
–Esses pontinhos na tela são
ruins,
não
são?
Peter
perguntou.
– Esperem – eu disse. A
comporta se fechou e seguimos voando, dobrando a esquina e rumando para
o Norte, na
Broadway. Os outros Machados estavam a uma distância de
segundos.
Eles
estavam
acostumados a voar naquilo, eu não. E eu ainda estava em número
extremamente menor,
então só havia uma avenida para onde escapar. Uma que talvez parecesse
loucura demais para nossos perseguidores. Ganhei altura, levantando a nave
até o décimo ou décimo primeiro
andar dos prédios ao redor.
– Miranda, eu não acho que...
Olhe!
Dois
Machados
estavam
contornando a esquina no final da rua. Eles estavam vindo até nós.
– Vire! – Peter gritou, mas não dava tempo. Eles iam nos caçar e atirar em
nós. Girei o Machado em um ângulo reto, até ficar de frente para a janela de
um
prédio
empresarial.
Empurrei o manche para a frente e nós atravessamos o vidro prédio adentro.
O brilho dos meus
motores
revelou
escrivaninhas, cadeiras e filas de
cubículos, todos imediatamente esmagados sob o Machado.
Algumas coisas pegavam fogo
enquanto passávamos.
– Eles estão nos seguindo?
Peter conferiu.
– São muitos escombros para
afirmar, mas provavelmente sim!
Arrebentamos
outra
extremidade do prédio até
atravessá-la,
então
virei
bruscamente para a esquerda e desci com tudo, voltando para a rua. Uma
olhada rápida no mapa
mostrou que eu os confundira brevemente, o que esperava ser o suficiente
para meu próximo passo. Precisava ser suficiente.
Apontei no mapa em tempo
real.
– Eu preciso que você
descubra
como
desligar
localizador, ou seja lá o que estiver mostrando a eles onde estamos.
– Pode deixar comigo – Peter
respondeu e começou a mexer nos controles.
Fiz o Machado descer mais e voar rente à avenida, então passei para uma
ruazinha lateral.
Em seguida, mais uma avenida, até o quarteirão seguinte. Eu estava fazendo
um zigue-zague constante.
Não podia me arriscar a ficar no campo de visão deles
novamente.
Peter
pareceu
descobrir
rapidamente e apagou nosso pontinho do mapa.
– Como você fez isso?
Ele encolheu os ombros.
– Sorte. Espero que a sua ideia seja muito boa.
– Eu também – eu disse.
No mapa, um Machado estava
se aproximando pela esquina adiante,
prestes
nos
interceptar,
então
virei
bruscamente à direita na avenida seguinte, mantendo voo baixo, mas
acelerando ao máximo. Os quatro motores gemeram mais alto, brilharam
mais forte, e nós disparamos
para
frente,
quarteirão após quarteirão. Bem quando o Machado atrás da gente estava
prestes a aparecer, guinei para outra rua, quase batendo
no
topo
de
um
caminhão abandonado.
Não demorou muito até que chegássemos
West
Side
Highway, no sentido norte, sobrevoando carros retorcidos por toda a pista. As
torres mecânicas deixadas pela Terra Verdadeira
ainda
se
encontravam no meio da estrada,
entre os veículos espalhados, mas
dessa
vez
estavam
apagadas.
Não haveria mais ataques
pelo rio, ao menos não por parte de algo que precisasse de eletricidade. E sem
maneira de se comunicar, qualquer equipe de solo demoraria para chegar.
– Acho que você os despistou
– Peter falou, de olho no mapa.
Isso não me fez diminuir a velocidade. Os prédios passavam zunindo
pela
direita.
Logo
estaríamos
na
extremidade
norte da ilha. – Pode ter um segundo localizador escondido. É
melhor aterrissarmos um pouco longe, para o caso de ainda poderem nos
alcançar.
Saí da avenida e pousei a sudeste
da
ponte
George
Washington. Assim que cheguei ao chão, desliguei os motores imediatamente
(eles pareceram agradecidos
pelo
descanso,
depois de estalarem numa
trepidação
agonizante
por
quatro notas). Depois abri a comporta e vasculhei a área.
Qualquer cidadão que tivesse nos visto poderia juntar um bando e nos forçar
a nos defendermos.
Mas
barra
parecia limpa.
Saltamos do Machado. Peter estava com a última AIR nas costas. O Machado
parecia ter passado por um moedor de
carne.
Algumas
quadras
depois,
chegamos à 181st Street. O bairro
de Washington Heights tinha uma densidade de ocupação bem menor que a
área central; era repleto de prédios menores, todos da mesma cor – um tijolo
marrom
encardido.
Chamas
ardiam na rua, a maior parte delas em carros. Ao contrário de outras regiões
da cidade, as pessoas estavam do lado de fora.
Não estavam com o sentimento de pânico que eu imaginara. Uma das
pequenas mercearias ainda estava aberta, iluminada por
tochas e protegida por homens armados. Cheguei mais perto e vi uma dúzia
ou mais de policiais com equipamentos de batalhão de choque. Havia uma
fila de pessoas esperando pela porção de comida. Aquela visão de ordem
sendo mantida não era o suficiente
para
me
dar
esperança, mas me pareceu bom sinal.
Continuamos a andar para o Norte, na direção do prédio do Kellogg,
protegidos por nossos
disfarces. Um homem começou a nos seguir, mas então viu a AIR
que eu estava portando e decidiu que errara o caminho.
– Enfim sós – Peter disse, e nós dois paramos ao mesmo tempo, olhando um
para o outro no escuro. Ele me beijou, firme e rápido, com a AIR entre nós,
que pressionava minha mão ferida, mas eu não me importei. Eu o beijei de
volta com a mesma intensidade. Passei um braço ao redor do pescoço dele e
sua mão
apertou
minhas
costas,
mantendo-nos bem juntos, sem nem um centímetro de espaço.
Pensei na promessa que
fizera antes de matar os sem-olhos. Estávamos nos chuveiros da nossa velha
escola, com apenas uma porta entre nós, e eu prometi que iríamos conversar
quando o caos passasse. A promessa era uma mentira na época, pois eu já
sabia que iria morrer. Mas eis que eu estava ali, com uma segunda chance
que
não merecia.
Dessa vez eu queria cumprir minha promessa.
– Eu gosto de beijar você – ele disse.
– Então me beije.
Ele inclinou a cabeça para o lado, apenas um pouco, e pude ver o branco dos
dentes dele no escuro enquanto ele sorria.
Então ele me beijou novamente.
– Eu queria parar de lutar –
eu disse, sem descolar os lábios.
– Nós vamos, em breve. Só
mais um pouco. Só temos que lutar mais um pouco.
Eu sabia que ainda havia
muito
por
fazer,
muitas
respostas a encontrar, muitas coisas incertas.
Mas dei ouvidos a ele mesmo
assim e continuamos andando.
De mãos dadas. E, por cinco segundos, pensei que tudo
poderia acabar bem. Contudo, aqueles cinco segundos não poderiam fechar o
buraco negro que eu sentia por dentro.
Passamos por uma loja de vinhos, que eu sabia que estava vazia antes de
olhar para dentro.
Eu imaginava as pessoas no interior de seus apartamentos gelados bebendo
até morrer, ou apenas para se aquecerem. Em um dos lados da loja havia um
mural colorido com personagens de desenhos atravessando a rua, com a
inscrição ALL YOU NEED IS
LOVE dos Beatles sobre eles, em letras rechonchudas. Como eu gostaria que
fosse simples
assim...
Quando chegamos ao prédio
do Kellogg, havia um homem no saguão para nos receber.
Com uma espingarda.
Ele a ergueu em nossa
direção. Nós empunhávamos as AIRs sem apontá-las, com os canos virados
para o chão.
Estamos
aqui
para
encontrar o Kellogg – eu disse. –
Ele nos enviou. Ele está a caminho?
– O soldado? – o cara
perguntou.
Ele
vestia
uma
jaqueta azul e tinha óculos meio de hipsters, com aros grandes pretos, e um
belo cachecol estilizado. Era esquisito vê-lo com a espingarda nas mãos.
Como fora com a Natalie, o cano da espingarda dele não parava quieto.
Algumas pessoas não deveriam andar com armas.
– Por favor, cuidado para não atirar em nós por acidente –
Peter pediu. – Percebeu como viemos?
Em paz e numa boa? Nós estamos do seu lado.
– É mesmo? – o homem
perguntou.
– Qual é o apartamento do Kellogg? – eu quis saber.
– Não sei. 2H ou 2G, algo assim.
– Será que podemos entrar? –
dei
um
passo
frente,
lentamente, passando, também lentamente, os dedos pelo cano da espingarda
dele, então a joguei
no
chão,
sempre
lentamente. O lábio inferior do homem estava tremendo.
– Eu estou na vigilância por mais uma hora – ele disse. Eu não tinha certeza
se aquilo era um sim ou um não.
– E se apenas ficarmos aqui com você? – propus. – Podemos esperar aqui
pelo Kellogg – ao menos no saguão estaríamos protegidos do vento.
Depois de um momento, ele concordou.
– Isso está bem, eu acho –
depois, ele disse: – Minha esposa morreu.
– Sinto muito – falei, porque não sabia mais o que dizer.
– Eu estava na rua atrás de comida e alguém invadiu nosso apartamento.
Na
semana
passada, eu ia sair para comprar mais comida, em vez de só pedir para
entregar. Nós havíamos discutido sobre isso, sobre quanto
dinheiro
estávamos
gastando em delivery.
Assenti com a cabeça, como
se soubesse do que ele estava falando. Havia algum jeito de fazer alguém se
sentir melhor nessa situação? Provavelmente não. E menos ainda diante de
rostos como o meu e o do Peter.
– Eu a encontrei morta no banheiro, meio enrolada na cortina do chuveiro.
– Sinto muito – repeti.
– Mas um deles deixou cair esta carteira. Eu sabia quem ele era – ele inclinou
a espingarda, como se aquilo explicasse tudo, e
de certa forma explicava.
Ninguém mais falou. Nós nos
acomodamos no chão de frente para a porta, com nossas armas no colo. Peter
repousou a cabeça no meu ombro e eu repousei a minha na dele. De alguma
maneira,
seu
cabelo
ainda
cheirava bem. Eu me perguntava o que ele iria fazer se chegasse em casa e
me encontrasse
assassinada
no
chão
do
banheiro. Cheguei a ficar com pena das pessoas imaginárias
que teriam me matado.
Depois do que pareceram
horas, enfim Kellogg apareceu, à frente de cerca de cem pessoas.
Kellogg
cumprimentou
homem.
– Zacarias – ele disse. Eu nunca pensei em perguntar o nome daquele
homem.
– Quem são todas essas
pessoas? – Zacarias perguntou,
claramente infeliz ao vê-las.
– Sobreviventes. Inclusive a maior parte do meu batalhão.
– Não podemos alimentá-los.
O prédio tem comida suficiente para alguns dias. E isso com rações bem
reduzidas. Você sabe disso, não é?
– Sim. Vamos pensar em
alguma coisa.
– Você vai invadir outro
prédio com seus soldados e suas armas? – os olhos dele se encheram de
lágrimas. Ele estava
pensando em sua mulher, sem dúvida.
Kellogg não desviou o olhar.
– Não. Não vou. Eu disse que
vamos pensar em alguma coisa –
ele abriu a porta para o saguão e as pessoas começaram a formar fila para
entrar. Um dos soldados se aproximou e Kellogg ordenou:
– Acenda uma fogueira no pátio interno. Ali não vai chamar a atenção.
– Essas pessoas estão com fome – o soldado disse.
– Passaram-se quatro dias.
Eles ainda não sabem o que é fome de verdade.
Então
Noble
Sofia
apareceram cambaleando com o resto da pequena multidão. Eles sorriram
para mim e para o Peter, e eu abracei os dois ao mesmo tempo.
– Fizeram boa viagem? –
Noble perguntou.
– Já tivemos piores –
respondi. – E vocês?
– Aranhas – Sofia disse,
estremecendo ou de frio ou com a lembrança. – Nós gastamos muita
munição, mas tivemos apenas dois incidentes.
Naquela noite, nos reunimos no pátio ao redor da fogueira, que ficou mais
alta que qualquer um
ali.
As
pessoas
se
amontoaram,
ninguém
falou
muito. Um ou outro reclamou que estava com fome. A luz das chamas,
tremulando
na
escuridão do ambiente, escondia bem meu rosto e o do Peter. As
pessoas que chegavam a nos reconhecer olhavam feio, mas presumi que
Kellogg informara a todos sobre quem nós éramos e por que estávamos ali.
A noite prosseguiu e não foi tão ruim. Um cara começou a contar piadas sujas
e as pessoas riram.
Vi duas crianças brincando com carrinhos, juntando neve para criar ladeiras.
Então avistei Albin ao lado da fogueira. Engasguei, e ele pôs um
dedo nos lábios. Olhei para os rostos ao redor dele, mas ninguém parecia
enxergá-lo. Ele estava escondido na mente deles.
– Encontre-me no parque ao lado – ele falou. – Venha sozinha, ou todo
mundo morre.
Eu pisquei e ele desapareceu.
26
Tentei
não
parecer
espantada, mas Peter deve ter notado alguma mudança no meu
rosto.
– O que foi? – ele perguntou.
Apenas sacudi a cabeça.
Eu me levantei, espantando a
dureza
das
minhas
juntas
geladas.
Me
espreguicei,
tentando parecer casual, mas meus
olhos
estavam
vasculhando as sombras em
busca do Albin, mesmo sabendo que eu não iria encontrá-lo ali.
– Aonde você vai? – Peter perguntou.
– Não confia em mim?
– Sim – o olhar no rosto dele dizia o contrário.
– Se eu não voltar em 15
minutos, retire todo mundo daqui.
– Miranda, o que foi?
Ele tentou se levantar, mas eu segurei seu ombro com minha mão.
– Confie em mim.
– Está bem, mas não vá longe.
– Fique tranquilo – pedi.
Deixei para trás a luz da fogueira e segui para o saguão friorento. As pessoas
haviam acendido velas ali, o que parecia bom, mas estavam usando mais do
que
deveriam.
Se
falhássemos, elas iriam lamentar a falta de cautela com a
quantidade de velas acesas.
Os guardas na porta principal olharam para mim com ar de interrogação.
– O Kellogg quer que eu faça uma breve patrulha – informei, o que pareceu
convincente para eles.
Pus os pés no frio novamente
e puxei a AIR das costas. As poucas pessoas na rua ficaram a uma distância
razoável. Um homem levando seu cachorro para passear acenou para mim
com a cabeça e eu ergui a mão e disse: – Não sou uma deles.
Ele apenas se apressou a se afastar com seu cão.
Três homens do outro lado da
rua se agruparam atrás de um caminhão
pude
ouvi-los
murmurando e apontando. Eu me pus a correr, ignorando o ar gelado cortante
nos pulmões. Os homens estavam me seguindo, mas sem muito empenho. A
rua terminava em uma rotatória com algumas árvores desfolhadas no
meio. Contornei e vi a entrada para o parque logo adiante.
E bem ali, em pé, estava um homem vestido com um traje blindado cor de
ameixa. Albin olhou fundo nos meus olhos por um momento, então me deu
as costas e correu para o parque.
– Ei, qual é? – gritei. Não poderíamos conversar ali na ponta? Eu tinha que
segui-lo para o meio do parque?
A parte cautelosa da minha mente pensou que poderia ser
uma armadilha, mas a intuitiva sabia que isso não faria sentido.
Se a Terra Verdadeira sabia onde estávamos,
poderia
simplesmente
mandar
um
Machado jogar uma bomba em todos nós. Além disso, Albin só chamara a
mim, quando Peter também poderia ser valioso para eles. Pensei que devia
ser algo diferente.
Fui atrás dele, correndo um pouco e conferindo possíveis movimentos à
esquerda e à
direita.
Cheguei a apontar a AIR para
um esquilo preto que subia em uma árvore, depois me virei bruscamente ao
ouvir algumas folhas secas farfalhando em um monte de neve. De alguma
maneira, estava mais iluminado ali, com luz artificial. Eu podia ver as árvores
ao redor e os galhos desfolhados sacudindo para a frente e para trás.
“É uma ilusão.” Albin estava me deixando ver para que eu o
seguisse. Acima, o céu ainda era pura escuridão, um céu noturno sem estrelas
ou luar.
Entrei ainda mais fundo no parque. Atrás de mim, um muro de escuridão
estava sendo
preenchido enquanto eu passava, uma
camada
escura
empurrando-me adiante.
– Já fomos longe o bastante –
eu disse.
“Não,
ainda
não”,
Albin
respondeu, em minha mente.
Ouvi o som do vento
soprando, e atrás de mim a parede de escuridão se moveu mais rápido que
antes. Eu me pus a correr mais depressa, subi uma escadaria e passei por um
teatro de ópera ao ar livre, em um penhasco com vista para o rio Hudson.
Atravessei correndo grandes pedras que cobriam o chão, mas então alguma
coisa invisível e sólida me atingiu na coxa. Tombei de lado.
Minhas mãos bateram em
algo, mas agarraram a coisa que
me fez tropeçar. Peguei alguma coisa no ar, que parecia com uma parede
rochosa, e de repente vi que
meus
pés
estavam
balançando sobre o nada. E
minha AIR já era.
A escuridão cedeu lugar
novamente à luz, com Albin acima de mim enquanto eu
balançava sobre um lado do penhasco.
Agora era tão óbvio que eu poderia rir. Ou chorar. Em vez disso, olhei para
cima, para ele.
Ele me enganara mais uma vez com uma ilusão. Eu pensava que estava longe
da beira do
penhasco, mas não estava. A parede rochosa, que parecia estar a três metros
de distância, na verdade estava na minha frente.
Albin exibiu um sorriso
perfeito para mim, de cima para baixo. Perfeito ao menos na forma, pois não
parecia nada genuíno. Mas seus olhos cor de mel estavam quentes, como
antes.
– Você compreende que estou
fazendo isso apenas para minha proteção – ele disse. – A arma era perigosa
demais para você
portar enquanto conversamos.
– Eu precisava daquilo, seu idiota. Você tem mais. E eu não confio em você.
– Então nós já temos algo em
comum.
Ele respirou profundamente, então olhou em volta para a pequena clareira
sobre o rio.
– Se eu ajudá-la a subir, você confiará
em
mim?
ele
perguntou.
– Eu vim até aqui, não vim?
Sozinha.
– Um simples sim ou não
seria suficiente.
– Em vez disso, vamos
considerar uma trégua.
Ele agarrou meu punho e me
ergueu
com
uma
força
considerável.
Firmei
minhas
pernas
em
terra
sólida
novamente.
Nós ficamos a uma distância segura um do outro.
– Você é forte – ele disse.
– Obrigada.
– É por isso que vim até você.
A garota que passou por tanta coisa. Já passou por várias vidas.
Eu sei o quanto você está disposta a se arriscar.
Minha bochecha formigou
quando pensei nos ferimentos que ele me causara.
– Você parece melhor da
doença.
Ele fungou, como um reflexo, e tossiu até cuspir uma sobra de catarro do
pulmão.
– Estou me recuperando. Vim
de um mundo que não tem
doenças. É embaraçoso para mim não estar preparado para este lugar.
– O que você é, algum tipo de robô?
Ele chegou a rir.
– Não. Bem, partes de mim não são biológicas, mas eu lhe garanto
que
sou
quase
completamente orgânico. Vim de um
mundo
completamente
separado da sua linha de tempo, ou melhor, uma que tomou outro rumo há
muito tempo. Você pode dizer que meu mundo é um rival da
Terra
Verdadeira,
duas
sociedades tentando provar o quanto são totalmente perfeitas.
– Mas vocês trabalham
juntos...
– Não exatamente. Um dos
líderes do meu mundo gostou do que
diretora
da
Terra
Verdadeira estava fazendo e tentou ajudar. Venha andando comigo.
Ele começou a se dirigir para a outra ponta da clareira, porém eu não saí do
lugar.
– Como eu posso confiar em qualquer coisa que você me diz?
– perguntei.
Ele
se
virou,
com
sobrancelha franzida em uma expressão furiosa.
– Você não percebe? Só está aqui por minha causa. Você acha
mesmo que a diretora iria mesmo deixá-la ir, que a deixaria continuar
resistindo? Escondi dela o seu encontro com a Olivia, dando tempo para você
escapar.
A diretora ficou desapontada e surpresa quando você não
apareceu na Verge. Só que agora ela voltou a ficar com raiva.
– Por que você mudou de
ideia e resolveu me ajudar? – se eu
pudesse
confiar
nele,
precisaria da sua ajuda. Mas eu jamais
poderia
esquecer
participação dele na morte do Rhys. Jamais.
– Porque a diretora mentiu para mim e para meu povo. Vim aqui pois pensei
que iríamos destruir
seu
mundo
completamente. Pensei que esse era mais um mundo errante que poderia um
dia se tornar uma ameaça para todos os outros.
Então eu descobri que não, que este é o passado da Terra Verdadeira, e que
eles não tinham intenção de destruí-lo.
Quando descobri a mentira, informei aos meus superiores e recebi ordens
para deter a diretora. Meus objetivos agora estão alinhados com os seus. Nós
só
nos
aliamos
Terra
Verdadeira quando convém a nós.
Aquilo deveria ser uma boa notícia, entretanto, revirou meu estômago. Que
lógica diabólica.
– É simples assim, é? Você não viu problema antes em nos destruir, mas
agora que sabe que
nos enfraquecer é ajudar a Terra Verdadeira, está contra.
– Essencialmente, sim – ele disse. – No início desta missão pensamos que
poderia haver paz entre nós, contudo, como o nome sugere, só pode haver
uma terra verdadeira. A diretora mentiu porque queria nossa Chave, que
emprestamos a ela, apesar de não ser a melhor política para nós. E então ela a
perdeu para uma de suas criações, esse tal de East . Agora não queremos que
a
Chave fique com ela.
Comecei a andar ao lado dele.
Tomei a decisão de confiar nele.
Nós percorremos a trilha ladeira abaixo, um ao lado do outro.
– Você está com frio – ele disse, com uma gentileza que soava falsa demais,
como se estivesse forçando.
– Estou bem.
Mas então eu pisquei, e o mundo gelado e morto de Nova York se
transformou em um dia de verão. As árvores tinham
folhas, eu sentia uma brisa suave e os pássaros cantavam à nossa volta.
Eu podia sentir o cheiro das flores e da grama fresca. E o ar no meu rosto
estava quente. Quase não me importava o fato de não ser real.
– Como você faz isso?
–
Meu
mundo
criou
guerreiros, como os Rosas da Terra Verdadeira. Mas tentamos não apavorar
nossos inimigos para subjugá-los.
– Apenas enganá-los.
Ele acenou com a cabeça,
afinal não havia como negar.
Então passamos pelo nosso
primeiro corpo, um homem de meia-idade encolhido, congelado e
petrificado.
Parecia
algo
deslocado no meio da ilusão.
Albin não se dera ao trabalho de escondê-lo.
– Então a Chave conduz a uma sala...
– Sim, nós criamos uma sala onde a Escuridão pode ser
controlada. Onde ela pode ser usada como arma.
– Se você é tão poderoso, a ponto de poder enganar a
diretora, por que não faz isso?
– Eu preciso seguir regras que impedem essa interferência.
Existem outros mundos nos
observando o tempo todo. O
multiverso é maior do que você pode imaginar, com linhas do tempo quase
infinitas.
– O que você quer que eu faça assim que estiver com a Chave?
– Só há uma coisa que você pode fazer, não é? Se você remover a Escuridão
do seu mundo,
energia
será
restaurada
tudo
será
recuperado. Mas depois que a Escuridão já foi aberta como foi, não dá para
voltar atrás. Ela está dispersa e precisa ocupar um outro mundo. Imagine
furar uma lata de refrigerante e tentar colocar o líquido de volta para dentro.
Não daria certo.
– Então precisaria ir para
algum lugar. Para onde?
Ele parou de andar. Eu
também.
– Você sabe para onde tem de
ir.
Terra Verdadeira.
Ele pegou uma flor que
crescia ao lado de seu pé e a segurou entre nós dois, enquanto a examinava.
Minha
garganta
estava
apertada. Eu engoli em seco e ela ficou ainda mais apertada.
– Então você quer que eu
destrua o mundo deles. Nosso futuro.
– Creio que, neste ponto, você só pode escolher entre viver uma escuridão
eterna agora ou mais tarde. Parece melhor lidar com o problema daqui a mil
anos, o que você acha? E, quem sabe, talvez em mil anos seu mundo encontre
uma solução antes que aconteça.
Ele deixou a flor cair e ela desapareceu antes de chegar ao chão. Assim como
o resto da ilusão. O frio me atingiu de uma
vez só e eu comecei a tremer, apesar do meu traje e das minhas roupas.
– Acho que bem no fundo
você sabia o tempo todo que a escolha seria essa. O que você está disposta a
fazer, o quanto você pode se tornar terrível para salvar seu mundo?
Meus
dentes
estavam
batendo com o frio.
– Você não se importa
conosco. Nós não somos nada para você. Apenas animais.
– É verdade. Mas eu vejo que vocês também não são nada uns para os outros.
Tudo depende da perspectiva.
– Algo me diz que você está com medo demais para fazer o trabalho por
conta própria.
– Impressão sua – ele disse.
Voltamos para a rua do
prédio do Kellogg, onde eu teria que fazer uma escolha.
– Mesmo que eu consiga a Chave e faça o que você quer (e não estou dizendo
que vou
fazer), que garantia eu tenho que outra Terra Verdadeira não vai aparecer e se
tornar uma ameaça para nós novamente? Ou mesmo
o seu mundo, sobre o qual eu não sei quase nada.
Ele ficou em silêncio por um momento.
– A Sala Escura – ele disse assim: a Sala Escura – faz mais do que apenas
direcionar o fluxo da Escuridão.
– Me conte.
– Na Sala Escura, uma pessoa
poderia envenenar a Escuridão para sempre. Pode-se fazer com que ninguém
mais consiga
percorrê-la e sobreviver em hipótese alguma.
27
–Você permitiria que eu
fizesse isso?
– Sim.
ideia
soava
perfeita.
Finalmente ser deixada em paz e existir
da
maneira
que
deveríamos.
Entretanto, se destruíssemos
a nós mesmos no futuro, a
responsabilidade seria nossa.
Era uma escolha decisiva. Seria a coisa certa?
Albin pareceu sentir minha hesitação.
– Escute. Apenas uma parte da Escuridão foi aberta em seu mundo. Você
pode transferir essa parte de volta. Não vai destruir a Terra Verdadeira, mas
vai mergulhá-la nas mesmas trevas. Você vai sentenciar muitos à morte, mas
outros tantos irão viver.
– Por que não podemos enviá-la para um mundo vazio, algum lugar que já
esteja destruído? Eu não quero destruir nosso futuro. Não posso.
– A Escuridão só pode
retornar para sua fonte de origem. Levar uma parte da Escuridão
para
um
outro
universo seria um processo completamente diferente e não teria efeito algum
em seu mundo.
Você apenas estragaria o dia de mais alguém, sem resolver o
seu.
– Mas a diretora disse que iria remover a Escuridão dentro de algumas
semanas... Com
certeza ela não iria levá-la de volta para a Terra Verdadeira.
– Então talvez ela estivesse pensando em enviá-la para um futuro ainda mais
distante. Mas terá de permanecer no mundo que vocês compartilham, dentro
de sua linha do tempo.
Ele me olhou nos olhos. Eu parei de andar.
– Estou contando a verdade quando digo que não me importo com seu futuro.
Desde que não seja mais uma ameaça ao meu mundo, a solução não faz
diferença alguma para mim. Não se trata de vingança. É algo prático. É uma
maneira de acabar com uma ameaça sem levar a culpa por parte dos infinitos
universos que nos vigiam.
Por algum motivo, acreditei nele. Era horripilante, mas eu
conseguia entender suas razões.
– Então, se eu envenenar a Escuridão e torná-la impossível de percorrer, vou
deixar o futuro selado. Ninguém mais poderá mexer com ele novamente – eu
estava falando comigo mesma.
– Sim – Albin suspirou. – Você vai fazer isso ou não? Caso contrário, eu terei
que encontrar outra Miranda.
– Por que outra Miranda?
– Apenas a diretora pode
entrar na Sala Escura. E vocês
são a mesma pessoa. Nenhum outro clone poderia fazê-lo.
– Eu me sinto especial.
Um momento se passou
antes de Albin dizer: – Você não vai se sentir assim quando chegar a hora.
Albin parou antes de virar a esquina na rua do prédio do Kellogg.
– Vou continuar com você nos
próximos passos, mas vou me esconder dos olhos de todos os outros. Apenas
você poderá me
ver.
– O que quer que eu faça?
– Use seu cérebro, sua pobre criatura mal desenvolvida. O que você acha?
– Você quer que eu reúna minha equipe.
– Eu quero que você reúna todo mundo. Todos virão. Essa é sua chance. Se
você se ferir, vai precisar
de
outros
para
cumprirem a missão.
Nós voltamos para dentro do prédio, passando pelos dois homens à porta.
– Onde está sua arma? – o da
esquerda
perguntou.
Rapaz
atento.
– Escondida – eu disse sem pensar. Não saberia explicar por que a escondera
lá fora.
Os homens se entreolharam, mas fui andando pelo saguão.
No fundo da sala, Peter estava à frente do Noble, gesticulando com a mão.
– Eu vou procurá-la... – Peter parou no meio da frase ao me ver, com a
mandíbula tensa.
– Eu queria esticar as pernas
– eu disse rapidamente. –
Patrulhar um pouco.
– Não minta para mim.
Fui até ele e peguei em sua mão. Noble ficou olhando para mim, esperando.
– Tenho novidades.
– Então vamos ouvir – Peter falou.
– Aqui não. Tragam a Sofia.
No apartamento do Kellogg, eu os atualizei. Noble ficou ressabiado.
Mas antes que ele pudesse formular uma pergunta, Kellogg se adiantou: –
Onde está esse Albin neste momento?
– Hum... Atrás dessa porta.
– Você o deixou entrar? –
Kellogg agarrou seu rifle na mesa. Eu o arranquei de suas mãos.
– Você não escutou? Ele sabia que estávamos aqui e mesmo
assim estamos vivos. Ele está nos mostrando um jeito de salvar as pessoas
deste planeta. O único jeito, a menos que você tenha uma ideia melhor – eu o
desafiei.
– Até onde sei, ninguém tem um plano sólido. Então vamos fazer assim.
Kellogg ficou me encarando, mas eu não ia me intimidar. Por fim, ele
suspirou.
– Então eu acho que você deveria apresentá-lo para nós.
– Albin, venha para cá – eu
disse. A porta se abriu e Albin apareceu no batente. Agora todos podiam vê-
lo.
– Saudações – ele disse.
Sofia
foi
única
que
respondeu.
– Oi.
– Meus homens estão prontos
para lutar e morrer – Kellogg continuou. – Mas eu preciso ter certeza de que
seja por uma boa causa. Tem que servir para alguma coisa.
– O tempo é curto – Albin
explicou. – As pessoas estão morrendo a cada segundo. Então vou dizer o que
nós precisamos fazer.
28
O plano era muito simples.
nós iríamos invadir a Verge, tentar resgatar o East , e com isso tomar posse
da Chave. Albin disse que encontraríamos o East o mais próximo possível da
Escuridão, o que fazia sentido.
Então ele estaria debaixo da Verge, ou o mais perto possível
do subsolo. Da última vez que eu estivera sob uma Verge foi para acabar me
explodindo. Boas lembranças.
Albin iria me esconder por quanto tempo pudesse, mas ele teria que fazê-lo
rápido.
Eu tinha deixado minha
roupa
no
apartamento
do
Kellogg. Não precisava mais me esconder.
Cinco minutos depois eu
estava no pátio, em frente aos sobreviventes
que
vieram
conosco. Eles me deram um engradado para usar como
palanque.
As
cabeças
se
inclinaram levemente para cima.
O fogo traçava sombras escuras nos olhos das pessoas, dando-lhes uma
aparência demoníaca.
Eu podia discernir os homens do Kellogg
por
meio
sua
camuflagem
urbana.
Havia
menos deles do que eu lembrava.
– Então...
Um ótimo início de discurso.
Alguém tossiu. Duas das crianças
pareciam entediadas e uma estava discretamente fazendo uma bola de neve.
Eu tomei fôlego. “Você já fez coisas mais difíceis do que esta.”
– Nós temos um plano para acabar com isso. Sei que muitos de vocês não
têm ideia do que está havendo, mas sabem do estrago que foi causado. Meus
amigos e eu temos um plano para acabar com isso. Para deixar tudo como era
antes.
– Então vá em frente – uma
mulher disse, segurando um cachorro pequeno e trêmulo.
Tentei não olhar para ela.
– Eu preciso de ajuda.
Esperei alguém dizer: “Ajuda como?”. Mas ninguém o fez.
– Preciso do maior número possível de pessoas para voltar ao Central Park
conosco. Vocês receberão uma arma e os
soldados vão instruí-los a usá-
las. Eu sei uma maneira de entrar na Verge sem chamar a atenção, mas é
importante retirarmos os
Rosas, nossos inimigos, lá de dentro, e dar uma distração a eles.
– Por quê? – a mulher com o cachorro perguntou. Eu a odiava e odiava seu
cachorro.
– Não sei quanto tempo a missão vai tomar dentro da Verge. Ou que tipo de
alarme será acionado. Então preciso que façam barulho e providenciem a
melhor confusão que puderem, e então... corram. Vocês podem usar os túneis
do metrô para
voltar para cá. Se tiverem êxito, poderão voltar para suas casas.
Caso contrário, já era. Para o resto de suas vidas.
Eu achei que devesse falar mais, porém não sabia o quê.
O rapaz tossiu de novo.
– Tomem cinco minutos para
pensar nisso. Se vocês estiverem conosco, falem com um dos homens do
Kellogg – só porque eles haviam escapado com o Kellogg não havia garantia
de que iriam querer lutar quando
chegasse a hora. Eu podia apenas esperar pelo melhor.
Eu via o rosto do Peter na multidão, e ele me estendeu o polegar e piscou
para mim.
– Obrigada – eu disse, então desci do engradado. Alguém chegou a aplaudir.
E mais alguém. Os aplausos não se espalharam,
mas
ficaram
engraçados. Acho que se fosse um filme todo mundo soltaria um grito de
guerra ou algo assim.
Peter e Sofia caminharam
comigo de volta ao apartamento do Kellogg, onde ele preparara um lanche
improvisado. Havia uma tigela de hummus pela metade, um pouco de suco
de tomate e alguns ovos. Ele estava cozinhando com um fogareiro de
acampamento.
– Acho que devemos comer
agora. Ou vamos voltar heróis ou simplesmente não vamos voltar.
Por favor, comam. Vocês vão precisar de energia – ele notou que Albin
estava um pouco
afastado. – Você come?
– Eu como – Albin respondeu.
– Então se sirva.
Albin pareceu surpreso, como
se não esperasse gentileza. Eu também não esperava. Mas ele pareceu
agraciado.
Comemos nossa fração, e
notei que minhas mãos estavam tremendo. As do Peter também.
Ele pegou a minha mão direita e a
pousou
em
seu
colo,
apertando-a gentilmente.
– Você tem certeza de que
quer fazer isso? – ele perguntou.
– É claro que não.
Porém
eu
já
sentia
responsabilidade. Eu não podia me imaginar apenas sentada ali, aceitando
aquilo como nossa nova realidade. Não podia.
– Na verdade – eu disse –, sim, eu tenho certeza.
Ele se inclinou e sua voz virou um sussurro. Os olhos dele ficaram quase
pretos à luz da vela.
– Então eu estou com você –
ele beijou onde minha bochecha se encontrava com minha orelha.
Peter virou para Albin.
– Como você está fazendo
para que a diretora não saiba disso tudo? Afinal, como é que chegamos
até
aqui
despercebidos?
– Não estou fazendo nada. Eu
os ajudei a escapar, mais nada. A diretora está em busca de vocês agora... E,
se ela os pegar, não lhes dará tanta liberdade quanto antes.
A porta se abriu atrás de nós.
Um dos homens do Kellogg
entrou portando um scar –
Special
Operations
Forces
Combat Assault Rifle, ou seja, um rifle de assalto da Força de Operações
Especiais.
Muito
poderoso
para
os
padrões
terrestres, mas nada comparado a uma AIR. Podemos dizer que não
pertenciam nem ao mesmo universo.
– Estamos prontos – o
soldado falou.
Houve uma discussão rápida
quanto a aproveitarmos algumas horas de sono antes, mas isso logo foi
descartado. O tempo era curto demais. No dia seguinte, mais pessoas iriam
morrer sem água. No fim, nós tínhamos 27
voluntários, entre homens e mulheres de todas as idades, mais os 15 soldados
sob o comando do Kellogg. Ele teve que contar a uma menina de nove
anos que ela não poderia ir com eles.
Enquanto
caminhávamos
para a estação de metrô mais próxima, Kellogg me entregou uma pequena
bainha preta.
Dentro havia uma faca.
– É da Marinha dos Estados Unidos. Foi usada por marujos americanos pelo
mundo todo. É a melhor para mortes silenciosas.
– De repente eu senti muita saudade da Língua de Fogo, minha espada. A
faca tinha um
tamanho decente, era reta e preta, não brilhava (mas também não tinha muita
chance de brilhar na escuridão constante).
Um dos lados era serrilhado, para o caso de eu precisar serrar alguma corda
ou construir uma cabana de madeira, ou algo assim.
Obrigada
agradeci,
enquanto pendurava a bainha na minha cintura. Também coloquei ali a
injeção de memória que Noble me dera.
– Pertenceu a um amigo meu
– ele contou.
– Eu vou cuidar bem dela.
Nós fomos pelos túneis do metrô de volta ao Central Park.
Minha equipe ia à frente, com as AIRs empunhadas, prontas para o uso.
Qualquer aranha que passasse
por
nós
seria
rapidamente
eliminada,
mas
tudo o que achamos foram seus cadáveres da viagem de ida.
Braços mortos no meio dos trilhos, na maioria mordiscados
por ratos, que nem sequer se incomodavam
com
nossa
presença.
Aquelas criaturas até mesmo
morriam como aranhas, de
costas para baixo e os braços curvados para dentro, com as palmas para cima.
As lanternas não estavam
funcionando, então os homens do Kellogg nos rodearam com sinalizadores de
trânsito. Pedi ao Albin que ajudasse, mas ele queria descansar sua mente para
o que viria a seguir. Um soldado valente seguia dez metros à nossa frente
para garantir que não
caíssemos
em
uma
armadilha.
Os primeiros quilômetros
foram bem fáceis. Nós apenas seguimos os trilhos. Qual a grande
dificuldade? Mas as pessoas
estavam
ficando
cansadas e muitas delas apenas se
desviaram
para
outras
direções. Não podiam ser mais do que 130 quarteirões. Um
quilômetro em Nova York dava cerca de 13 quarteirões, então no final não
podia ser muito mais que
uns
dez
quilômetros.
Bebezões. Mas eu deveria estar grata pelo fato de alguns ainda estarem
conosco. E eu estava.
Sofia se aproximou de mim em algum momento. Ela me
cutucou com o cotovelo.
– O que foi?
– Desculpe – ela disse. – Eu só queria pedir desculpas. Fui grossa com você.
– Nós todos estamos sob grande estresse – parecia ser a coisa certa a dizer.
– Isso não é justificativa. Você é a coisa mais próxima que eu já tive de uma
irmã. Nunca tive ninguém além do Noble, desde que eu era pequena demais
para me lembrar.
Aquilo fez eu me sentir
horrível. Se eu era como uma irmã para ela, eu não vinha sendo das melhores.
Eu nem me dera ao trabalho de conhecê-la o
bastante, ou de confortá-la depois da morte do Rhys. Eu gostaria que a
Olivia, a minha Olivia, ainda estivesse ali; ela teria sido uma amiga melhor
para Sofia.
– Eu estava furiosa – ela continuou.
– Por causa do Rhys.
– Sim. E tenho certeza de que você também.
– Eu ainda estou. Também é por ele que estamos fazendo isso. Ele morreu
para que
tivéssemos uma chance de continuar lutando.
Ela acenou com a cabeça, com
sua pele negra brilhando em tom laranja sob a luz da tocha.
– Sim, é verdade.
Nós percorremos mais 30
metros.
– Quando isso acabar, vamos
fazer alguma coisa normal juntas.
– Sim. O que as pessoas
normais fazem?
– Acho que vamos descobrir.
Ah! Nós poderíamos ir ao museu
Metropolitan. Você já ouviu falar dele?
– Sim.
– O Noble levou a mim e ao Rhys e nos mostrou várias exposições. Ele
parece saber tudo a respeito de tudo. Foi tão emocionante ver a história do
seu mundo por meio da arte. O
Noble às vezes apontava para alguma
coisa
especialmente
bonita e dizia “É por isso que nós estamos lutando”, ou algo assim.
– Isso tem bem a cara dele –
eu disse, e lá na frente ele olhou para trás e sorriu para nós.
Sofia soltou um suspiro
comprido e satisfeito.
– Aquele foi um ótimo dia.
Então nós almoçamos em um carrinho de rua. Era como um daqueles de onde
eu vim, mas a comida não era feita de ratos mortos.
– Você sabia que eu nunca comi em um carrinho de rua?
– Então é isso que nós vamos
fazer! – Sofia decidiu. – O museu
e comida de rua.
– Acho sensacional – era
demais para se pensar a respeito sem ficar mal com a ideia de que talvez não
vivêssemos para isso.
Levamos algumas horas para
voltar ao Central Park, depois de pararmos algumas vezes para descansar.
Kellogg disse que o esforço seria inútil se as pessoas não fossem capazes de
correr para obter a atenção da Terra
Verdadeira. Não se falava muito,
então
podíamos
ouvir
os
barulhos dos passos pelos túneis.
À distância, escutamos o que parecia
ser
um
gemido
fantasmagórico, mas era água pingando em algum lugar. O som abafado de
aranhas, na verdade, eram apenas os ecos dos nossos passos arrastados.
E então nós saímos de um dos túneis, a uma distância segura do norte da
Verge, com a mesma escuridão de antes.
Andamos pela beirada do parque,
de onde mal podíamos ver os contornos da Verge. Algumas das fogueiras
que
cercavam
estavam apagadas, e de repente havia ainda menos luz para refletir.
Peter se aproximou do Albin.
– Eu quero entrar lá com ela.
Albin sacudiu a cabeça.
– Eu estou ficando cansado.
Não vou conseguir esconder vocês dois de todos.
– Não foi um pedido – Peter falou.
Albin apenas olhou para mim, com as sobrancelhas erguidas, como se
perguntasse: “Esse cara está falando sério?”.
– Sem riscos desnecessários
– eu disse aos dois. Peter olhou para o lado e escondeu sua raiva.
Eu tentei dar o meu melhor ao me dirigir ao grupo, por mais que não
conseguisse ver muitos deles por causa da penumbra.
– Se as máquinas voadoras aparecerem, deixem que elas os persigam
pelas
árvores.
Desloquem-se para o Leste e para o Oeste e se espalhem o melhor que
puderem. Escondam-se.
Se
puderem
voltar
Washington Heights, ótimo – o plano era causar tanto barulho quanto
possível para desentocar os Rosas da Verge, mas a estratégia, assim que
obtivesse a atenção deles, não era mais complexa do que correr.
Kellogg apareceu à minha
direita.
– Vocês está pronta?
– Pronta a ponto de... você sabe.
Ele fez uma careta enquanto acenava com a cabeça.
– Infelizmente, eu sei. Vou ficar perto da Verge com sua equipe, ao Norte. Se
as coisas ficarem ruins, vou atrás de você.
Albin se aproximou.
– Se estiver impossível de pegar o East por conta própria, nós vamos buscar
vocês como reforço.
– Combinado – Kellogg soltou
um assobio suave para os homens e saiu na frente,
conduzindo o grupo de cidadãos dispostos a lutar.
Peter pôs a mãos sobre meu ombro.
– Você não precisa fazer isso.
Eu posso ir.
– Não – foi tudo o que eu disse.
– Caramba, Miranda. Você
não precisa ser sempre a heroína principal.
– Dessa vez vai ser a última.
Eu iria me inclinar para beijá-
lo, mas ele virou o rosto, murmurando alguma coisa que não ouvi.
Eu me senti como se tivesse levado um tapa. Eu poderia morrer nos próximos
cinco
minutos, todos nós poderíamos morrer, e ele iria agir assim comigo? Ele
pensava que nós tínhamos
uma
chance
tão
pequena assim?
Então Noble veio se despedir.
– Você sabe o que fazer.
Tenho completa confiança em você – ele me beijou na
bochecha.
Os grupos se moveram nas
respectivas
direções,
desaparecendo rapidamente na escuridão. Pouco depois, Albin e eu éramos os
únicos ali.
– Você andou lutando por um
bom tempo – ele disse. Não era uma pergunta.
– Sim.
– Você vai aguentar mais uma
rodada?
29
Tive que usar minha faca
antes do esperado. a distração já havia começado – pessoas
gritando, disparando tiros para o alto – e estava funcionando. Um alarme
soou e uma dúzia de Rosas armados com AIRs e
espadas desceram de diferentes andares da Verge e saíram para a
noite gelada. Mas dois Rosas permaneceram
atrás
para
bloquear a entrada. Eu fiz um trabalho
rápido
em
seus
pescoços.
Até me perguntei qual seria a sensação de estar de pé em um segundo e, no
instante seguinte, sentir
uma
força
invisível
derramar seu sangue. Albin e eu levamos os corpos para dentro, mas não
havia onde escondê-los, nem como limpar o sangue
espalhado no chão.
Quando entramos na Verge, eu me espantei ao ver que a Escuridão
se
fora,
sendo
substituída por um piso de metal.
– Onde está? – perguntei, mas então me lembrei de como a Escuridão ficava
mais abaixo do chão, na Verge do Gane.
– A diretora deslocou o
acesso depois que todos os Machados e Espinhos passaram.
Ela apenas aumentou a proteção.
Havia um buraco retangular
no chão. Dentro, uma escadaria se curvava para baixo e para a esquerda. Nós
descemos pela escadaria, encontramos mais duas sentinelas no caminho, duas
Mirandas.
Quebrei
pescoço delas com agilidade, tentando evitar mais sangue. Eu me sentia fria
ao fazê-lo, mas não tanto quanto Rhys deve ter se sentido com o rosto na
neve, quando a espada lhe atravessava as costas.
Meus passos terminaram
abruptamente em uma porta.
Estou
escondida?
indaguei. Nossas respirações estavam ecoando ali embaixo. Eu não conseguia
ouvir som algum vindo de cima, nem tiros, nem nada. Eu esperava que os
outros estivessem em segurança.
– Agora não, mas vou
esconder você assim que eu vir se tem alguém à espreita.
– Você consegue senti-los
através das portas?
– Sim. Neste momento, o
único que estou sentindo é o East .
– Não tem guardas?
– Acho que a essa altura, não.
Você precisa confiar em mim.
Por mais estranho que fosse, eu confiava nele, então abri a porta e encontrei
uma câmara circular,
rodeada
por
uma
passarela, com um X no meio.
Bem no meio do X, no centro da câmara,
estava
East
acorrentado, de joelhos, quase na mesma posição que estava no
banheiro da Penn Station. Atrás da passarela, a Escuridão: Um olho pulsante
para o qual eu tive o cuidado de não olhar.
East ergueu lentamente a
cabeça ao ouvir a porta se abrindo.
– Nós já nos conhecemos – eu
me apresentei. – Sou uma amiga.
Ele acenou com a cabeça,
como se já me reconhecesse.
– Da segunda equipe Alfa.
Sim.
– Como você sabe que sou eu?
– Sua mão esquerda está ferida.
Ergui minha mão, de modo a
confirmar. Estava formigando.
Meus
dois
dedos
menores
estavam curvados de maneira estranha, tornando óbvio que minha mão não
estava cem por cento.
Caminhei na direção dele,
tentando ignorar o vazio infinito atrás dos meus pés.
– Você veio me libertar? – ele quis saber. East ergueu as
correntes. Eu não tinha ideia de como me livrar delas. Será que minha AIR
iria ajudar, ou a energia cinética iria apenas se transferir para ele e arrebentar
seu braço?
– Sim, mas primeiro preciso da sua ajuda com uma coisa – eu olhei para trás.
Albin ainda estava na porta, mas eu podia notar que o East não conseguia vê-
lo.
– Você quer entrar na Sala Escura – ele disse.
– Sim.
– Para destruir a Terra
Verdadeira.
– Ao menos parcialmente.
–
Isso
muita
responsabilidade
para
uma
mocinha como você.
– Eles não me deixaram
escolha.
Ele acenou com a cabeça.
– É verdade. Eles também não
me deixaram escolha. Tem
coisas para as quais a gente simplesmente nasceu – ele
ponderou, então riu secamente. –
Talvez nasceu não seja a palavra certa.
– Você fez uma escolha. Você
deixou os criadores, como o Noble.
Ele acenou mais uma vez.
– Isso é verdade. – Eu não conseguia pôr na cabeça que aquele era o homem
que Noah se tornaria ao envelhecer. Aquele era ele adulto. Ele teria sido bem
bonitão,
com
belos
olhos
escuros.
– Alguns de nós enxergam com mais clareza que os outros –
ele completou.
Eu me ajoelhei diante das suas correntes, inspecionando-as para encontrar
algum ponto fraco, mesmo sabendo que não acharia nenhum. Elas eram bem
firmes. Eu teria que cortar o braço dele com a faca da Marinha, uma coisa
contra a qual ele provavelmente protestaria.
– Sem ofensas, mas não
pensei que logo você viria aqui –
ele disse. – A diretora lutando contra ela mesma. Interessante.
– Nós não temos nada em
comum.
– Sim. Eu espero que
continue não tendo.
– Não estou preocupada. –
Não muito.
–
Quer
saber?
Você
provavelmente estará fazendo um favor à Terra Verdadeira, ou melhor, um
favor a nós, ao eliminar
qualquer
futuro
possível – ele continuou. – Eu
passei muitos anos indo e voltando para lá. Eles não lutam da mesma maneira
que vocês.
Para eles, armas nucleares são o equivalente a arremessar pedras.
Minha mente não conseguia
nem imaginar o que isso
significava.
– Você já esteve na Sala Escura? – eu quis saber.
– Estive, mas quando fui, eles me vendaram e cobriram meus ouvidos. Só
precisaram que eu estivesse lá dentro, e fizeram o
resto. Eu não sei de detalhes que possam ajudá-la.
– Conheço uma maneira de
reverter a Escuridão e então envenená-la, para garantir que nunca mais
ninguém viaje por ela.
– Bom!
Eu havia pensado um bocado
naquilo. Poderia ser a única opção, só que ainda assim estaria matando
pessoas. Eu seria uma assassina em massa de gente que nunca pediu por
uma guerra.
– A minha esperança era de que você pudesse fazer isso por mim – eu disse,
em voz baixa.
– Tenho certeza disso. Mas apesar de achar que eu seria necessário,
não
sei
se
conseguiria ir até o fim.
Aquilo me deixou gelada. Se o East não fosse capaz, por que eu seria? Assim
que meu dedo estivesse no gatilho, eu iria disparar?
Mesmo
naquele
instante, ali ao lado dele, eu não
tinha certeza. Eu fizera o que fora necessário antes, porém aquilo era
diferente.
– Sei o que você quer dizer –
falei.
– Miranda. Seja forte. Vamos nos
preocupar
com
estas
correntes, em primeiro lugar – os olhos dele passaram para o cano da AIR
sobre meu ombro
esquerdo. – Essa arma deve servir.
– Eu pensei nisso... Mas tenho medo de que possa matá-lo.
Ele ergueu os ombros.
– Tem uma ideia melhor?
Ele estava certo.
– Você parece muito com ele,
sabe?
– Com quem?
– O Noah. Meu Noah. Eu o amava. Ele era um bom amigo.
East sorriu.
– Claro que ele era. Se ele era eu.
Apontei a AIR para a parte da corrente atrelada à passarela, abaixando a
potência para o
nível um. Então dei um passo para trás, pensando que talvez pudesse abrir um
buraco no chão.
Eu estava prestes a disparar, quando ouvi um som familiar.
Era o som de uma lata de tinta sendo chutada. O som de um líquido se
espalhando em uma superfície dura. Só podia ser uma coisa.
30
Eu me virei, preparada para disparar, porque sabia o que iria ver.
Era Nina, segurando Albin
pelo pescoço com uma mão. Ele ficou flácido como uma boneca de pano,
com sangue escorrendo pelas escamas da frente de seu traje.
Apontei a AIR para ela, mas ela fez um gesto com a mão que estava
livre
as
luzes
tremeluziram; em seguida, a energia da minha AIR se foi. Eu a larguei na
plataforma. O traje dela cintilava de modo esquisito, como se estivesse
cercado por um pequeno campo de força que circulava um milímetro acima
de seu corpo.
Ela deixou Albin cair no chão.
– Você realmente pensou que
iria se safar? – Nina indagou.
Ela sacou uma AIR das costas.
– Se você atirar – eu disse –, você pode matar East . Eu não acho que sua mãe
ficaria
contente com isso.
– Não, eu não iria – uma voz soou atrás de mim. Eu virei de novo. A diretora
estava em pé, na outra ponta da passarela, atrás do East . Uma porta estava
aberta
atrás
dela.
Duas
passagens para sair ou entrar, e ambas bloqueadas pelas pessoas mais
perigosas que eu já
conhecera.
– Uma boa tentativa, Miranda
– a diretora disse. – Entretanto, nós sabíamos de tudo desde o início. Vocês
escaparam porque eu deixei. Vocês estavam sendo supervisionados o tempo
todo.
“Por quem?”
Olivia avançou pelo corredor atrás da diretora, e foi como se um martelo me
golpeasse no peito.
“Não, logo ela.” Então ela não estava do nosso lado. O rosto da
Olivia estava impassível.
– Achei que nós tínhamos um
acordo – a diretora continuou. –
Eu não posso dizer o quanto isso me deixa triste – e ela parecia mesmo triste,
genuinamente. –
Achei que você queria fazer deste mundo um lugar melhor, em vez de
abandoná-lo para lutar em uma batalha infrutífera.
– Deixe que eu faço – Nina disse, às minhas costas. – Vamos criar um novo
futuro.
A diretora a ignorou.
– Olivia, você poderia, por favor,
libertar
homem
acorrentado no chão? Acho que é hora de ele visitar a Sala Escura mais uma
vez.
Olivia passou pela diretora e foi até o East , mas alguma coisa estava
estranha. Ela estava com medo. Não estava sob controle.
Fiquei paralisada, observando, esperando para ver o que
aconteceria a seguir. Minha mente estava acelerada, mas eu não podia focar
em nada sem
pensar nas pessoas lutando ao nível do solo. Se a diretora sabia que eu estava
ali, se sabia que Albin
estava
me
ajudando,
estariam esperando por um
ataque? Então eu enviara todos para uma armadilha?
Olivia se ajoelhou ao lado do East e começou a mexer nas correntes em volta
dos pulsos dele. Ela libertou o da direita com uma grande chave de
bronze, e estava prestes a fazer o mesmo com o outro quando a
diretora se aproximou. Não tive tempo nem para gritar. Em um instante, a
diretora agarrou a corrente, enrolou-a com um único gesto em torno do
pescoço da Olivia e a ergueu do chão. A outra extremidade da corrente ainda
estava presa, dando-lhe alavancagem. A chave retiniu ao cair, a um
centímetro na beira da passarela.
Eu corri adiante, gritando, porém Nina me agarrou por trás.
Tentei girar para me soltar,
frenética, enquanto a diretora enforcava Olivia até a morte, mas aquela
Nina
era
inacreditavelmente forte, muito mais forte do que a que eu derrotara antes.
Ela tentava me arremessar para a Escuridão, mas mantive meus pés plantados
no chão, tentando alcançar Olivia, que estava a poucos centímetros. As veias
saltavam nos olhos dela. A diretora sorria.
Ela largou Olivia, que caiu inerte na plataforma. Enquanto isso,
East foi trabalhando na corrente do pulso esquerdo com a chave.
Ele estava quase livre, mas era tarde demais. A diretora veio até mim, com o
rosto corado pelo esforço e pela fúria.
Tudo
aconteceu
muito
rápido.
East a golpeou por trás com uma corrente.
Ela girou na direção dele, com o punho armado para socar.
Avancei até ela e soltei a tensão sempre presente do meu
cérebro. Dessa vez eu deixei escapar completamente: dor e alívio me
percorreram enquanto as
ondas
de
medo
se
espalhavam. O aperto da Nina se afrouxou o bastante para que eu agarrasse a
diretora, mas Nina veio atrás de mim no segundo seguinte, e logo nós quatro
estávamos engalfinhados, nos agarrando, dando cotoveladas, joelhadas,
movendo-nos.
East balançou a corrente e nós tropeçamos, com as mãos
agarrando
os
membros.
corrente atingiu a diretora logo acima da orelha. Meu pé
escorregou na passarela, e de repente nós todos estávamos caindo em direção
à boca
infernal. A cabeça da diretora torcida para o lado, com sangue voando do
corte na sua têmpora, e eu vislumbrei seus olhos arregalados, a expressão
mais sincera que eu já vira no rosto dela. E então nós chegamos à Escuridão.
31
Abri os olhos.
Estávamos em uma sala
pequena.
Uma
parede
era
Escuridão, enquanto as outras três eram brancas.
No
meio
havia
uma
escrivaninha
com
um
computador velho, completo, com um monitor robusto.
East e Nina continuavam lutando, cada um de um lado da escrivaninha, e a
diretora estava apoiada de quatro no chão, com o rosto virado para o lado, e
sangue escorria de sua ferida. Ela parecia tonta: era a hora certa para acabar
com ela. Eu me levantei, bem no momento em que o East pôs a corrente em
volta do pescoço da Nina. Minha cabeça estava encharcada de suor e eu me
lembrei do aviso do Noble, de que, se esperasse muito,
perderia toda a memória. Com mãos trêmulas, abri a seringa que ele me dera
e a enfiei no pescoço. O líquido entrou na minha corrente sanguínea e se
espalhou pelo meu cérebro, e o calor fumegante baixou para uma temperatura
morna. O suor ainda brotava da minha testa; eu estava meio instável sobre os
pés. Larguei a seringa enquanto Nina emitia sons engasgados do outro lado
da sala.
– Ajude-me – East disse em
voz baixa, com esforço.
Mas eu não conseguia. A
diretora estava se recuperando, pondo-se
de
pé,
enquanto
tomava fôlego. Ela se virou.
Havia sangue escorrendo de seu queixo. Ela saltou em minha direção,
preparando-se para me esmagar
com
um
soco
devastador.
Instintivamente,
tentei me desviar mergulhando para a frente, mas o punho dela desceu antes
nas minhas costas, derrubando-me no chão. Meu
fôlego se foi de uma vez e ela não me deu um momento para
recuperá-lo, acertando um chute nas minhas costelas.
Escorreguei em direção à
Escuridão,
gemendo
me
revirando,
com
uma
dor
lancinante que se espalhava pelas costelas e pelo pescoço. Ela me chutou
mais uma vez, e eu gritei, contorcendo-me, com a bochecha colada no chão
gelado.
Com o canto dos olhos, vi o East ainda se engalfinhando com
a Nina e as correntes, nenhum dos dois com vantagem clara.
A diretora pairava sobre
mim, rindo com tanto ódio que me fez pensar sobre que eventos precisariam
acontecer na minha vida para que eu acabasse como ela. O que eu teria que
ver?
– Eu esperava que a essa altura você já fosse mais como eu
– ela disse.
Ela recuou com a perna...
– Eu sou – eu disse.
Em um instante, eu estava
com a faca do Kellogg na mão. Eu a enfiei em sua panturrilha com toda a
força que me restava. Ela uivou, e eu tirei o equilíbrio da sua outra perna
antes que ela pudesse
se
recompor.
Ela
tombou com tudo ao meu lado, batendo sua cabeça ferida no chão. Eu girei,
então coloquei os dois pés nas costas dela e a empurrei com toda a força para
a Escuridão. Ela deslizou para as trevas e saiu da sala.
– Socorro – East gritou de
novo, enquanto eu cambaleava.
Eu estava tentando contornar
a escrivaninha quando uma onda de dor me atingiu e tive que me apoiar com
as duas mãos sobre o tampo de madeira. O monitor mostrava um texto verde
sobre fundo preto. A agonia em minha cabeça quase me fez vomitar, mas eu
respirei fundo e me forcei a ir em direção ao East .
Eu estava atrasada. Já havia sangue no chão. Nina estava com uma faca
ensanguentada na mão,
com a qual ela tentava esfaquear o East de novo. Ele não podia detê-la porque
estava com as mãos na corrente, tentando estrangulá-la
até
morte.
Avancei no pulso dela e o dobrei, até que os dedos se abrissem e a faca caísse
na poça de sangue. Eu a mantive presa no chão,
enquanto
observava
austeramente o East terminar seu serviço. Em certo momento ela parou de
emitir sons, mas ele não.
– Ah, como dói – ele berrou. O
sangue saía do flanco esquerdo dele. Saía aos montes. – Caramba.
– Sinto muito. Sinto muito mesmo.
– A culpa não é sua. Ela me pegou de jeito – ele olhou ao redor da sala. –
Você consegue fazer isso? Consegue completar a missão?
Eu não disse nada. Ele virou os olhos por um segundo e não falou durante um
longo tempo, mas
então
perguntou
novamente, em voz mais baixa: –
Você consegue fazer isso? Por favor?
– Consigo.
– Diga com convicção. Caso contrário, tudo isso terá sido à toa. E muitos vão
morrer.
Eu
consigo
disse
novamente. – Eu consigo.
– Eu sinto muito por não ser a vida que você escolheu – ele disse. – Também
sinto muito pela parte que me cabe.
– Tudo bem – enquanto ele
sangrava, na minha mente eu via Noah e o sangue que escorria entre seus
dedos no laboratório de nossa antiga escola. O mesmo sangue derramado pela
mesma garota.
O que eu não daria para ouvir novamente a voz dele na minha cabeça. Para
saber que eu não estava sozinha.
Ele sorriu.
– Não, não está tudo bem –
então os olhos dele vibraram e ele repousou a cabeça no chão, e
eu o vi tomar seu último fôlego.
Eu me levantei, sozinha na Sala Escura.
De
repente
eu
estava
respirando muito rápido. Eu não podia controlar. Minha nuca estava fria e
formigava. Ali estava eu, no lugar a que tentara chegar com tanto esforço. E
minha missão era matar pessoas.
Pessoas que eu nem conhecia.
Pessoas inocentes. E se eu não o fizesse,
escuridão
iria
continuar.
Aquilo era o certo? Ou apenas o necessário?
Contornei a escrivaninha e me sentei na cadeira. O monitor estava ligado,
com o cursor piscando.
A
ESCURIDÃO
ESTÁ
ATUALMENTE EM 8492
VOCÊ DESEJA:
TRANSFERIR
A
ESCURIDÃO
DESLOCAR
UMA
NOVA
QUANTIDADE
OUTRAS OPÇÕES
Sinalizei
TRANSFERIR
ESCURIDÃO e apertei ENTER .
VOCÊ DESEJA: TRANSFERIR
A
ESCURIDÃO PARA A FONTE
(5)
TRANSFERIR
A
ESCURIDÃO
PARA
NOVO
LOCAL
(OPÇÃO
INDISPONÍVEL
NO
MOMENTO) Sinalizei a única opção.
VOCÊ DESEJA:
ACRESCENTAR ESCURIDÃO
(RESULTARÁ EM DESTRUIÇÃO
DE 5) APENAS TRANSFERIR
Talvez no futuro eles já
estivessem esperando pelo que eu estava prestes a fazer.
Poderiam estar preparados para
aquilo. Como saber? Quem pode imaginar como será no futuro?
Como Albin havia dito, nós teremos mil anos para descobrir.
“Se você fizer isso”, pensei ,
“Vai começar realmente a se transformar na diretora. É assim que você vai
se tornar como ela.
Esse pode ser o primeiro passo.”
– Vou dar a eles a mesma chance que nos deram – eu disse em voz alta.
Senti lágrimas no rosto.
Então era só apertar algumas
teclas e conferir o resultado?
Eu precisava.
Escolhi APENAS TRANSFERIR.
Apenas, aquilo dizia. Eu estava apenas
transferindo.
Apenas
enviando a Escuridão de volta para o lugar de onde viera. Eu olhei para a
tecla Enter. Era apenas uma tecla.
Era só apertar o botão para salvar o mundo.
Era só apertar o botão.
Eu iria salvar o mundo.
Eu apertei o botão.
32
PROCESSANDO...
COMPLETO.
A tela voltou ao menu
principal. Simplesmente. Acabou.
Missão cumprida. Eu exalei o ar que estava preso nos pulmões.
Depois o cursor estava
selecionando “Outras opções”. A tela parecia borrada por trás das
minhas lágrimas, mas eu não podia me sentir mal. Eu fizera minha escolha.
Eu apertei ENTER.
IMPEDIR QUE ORGÂNICOS
ENTREM
NA
ESCURIDÃO
(REQUER
SENHA
DO
ADMINISTRADOR)
IMPEDIR
SINTÉTICOS DE ENTRAR NA ESCURIDÃO
IMPEDIR ORGÂNICOS E
SINTÉTICOS DE ENTRAR NA ESCURIDÃO (REQUER SENHA
DO
ADMINISTRADOR)
Selecionei a última opção, que abarcaria
humanos
e
máquinas. Eu não queria mais nem orgânicos nem sintéticos
passando
pela
Escuridão,
nunca mais.
Digitei a senha no prompt de comando – a que Albin me soprara no ouvido:
SOBERANO.
TEM CERTEZA? OS EFEITOS
NÃO
PODERÃO
SER
REVERTIDOS.
SIM
NÃO
Aquilo era algo de que eu não teria dúvida. Apertei SIM.
VOCÊ TEM DOIS MINUTOS
PARA SAIR DESTA SALA
O computador se desligou,
com
chiado
suave
da
eletricidade do monitor se apagando.
Era isso. Estava acabado. Eu estava livre. Até lidarmos com o inevitável que
eu proporcionara a nós, era isso. Nós tínhamos mil anos pela frente.
Nós vencêramos. Por mais
que a sensação ainda não fosse a de vitória, de maneira alguma. Eu caí
recostada na cadeira como se tivesse sido golpeada, pensando no que eu
fizera, no que aquilo significava.
Finalmente, eu me levantei da escrivaninha e olhei ao redor da sala. O sangue
do East cobria uma boa parte do chão. Nina jazia
como
um
montinho
desengonçado. Eu jamais iria vê-
la novamente, em forma alguma.
Era impossível.
“Estamos
livres.
Estamos
livres.”
Eu
solucei
na
escrivaninha, chorando tão alto que mal podia respirar. O que aconteceria a
seguir? Eu iria voltar para casa, e o que mais? Eu
não iria nem poder ver o que seria da Terra Verdadeira, nos dias ou semanas
ou meses
seguintes. Eu não tinha maneira alguma de saber se a vida deles seguiria sem
interrupção ou se todos eles iriam morrer.
“Você não teve escolha. Era ou nós ou eles.”
Eu esperava um dia poder
acreditar nisso. Esperava um dia conseguir remover a faca em meu coração.
Eu me levantei após algum
tempo. Não sabia o quanto.
Poderia ter sido um minuto e 57
segundos.
Talvez bem no fundo eu
quisesse ficar presa ali. Talvez eu merecesse. Mas acho que no final das
contas fui humana, pois agarrei o East sob os braços e o arrastei pela
Escuridão, e nós a atravessamos.
33
Vi a diretora na plataforma quando voltei, de joelhos e sob custódia, com os
braços e pernas acorrentados. Os homens do Kellogg estavam com armas
apontadas de todos os ângulos para ela. A perna ainda sangrava, pingando na
passarela. Ela estava tão pálida que eu não
sabia como ela mantinha a consciência.
Dois soldados agarraram o
corpo do East e o ergueram e o levaram pela passarela.
Eu me aprumei, sentindo as pernas se refazendo depois da passagem pela
Escuridão. Assim que minhas pernas chegaram à superfície, a fumaça
começou a circular por baixo da diretora.
Olhei mais de perto. Cada gota de sangue que atingia a Escuridão fumegava e
queimava, tornando-
se uma fumaça escura. A Escuridão estava envenenada, como Albin dissera.
Eu voltara ao meu mundo
bem a tempo. Quase soltei uma risada ao ver o quanto estivera perto de ficar
para trás.
– Está feito – eu disse.
Kellogg ligou o rádio. Ele estalou, e a luz no topo brilhou esverdeada.
– Um bom sinal – ele avaliou, então levou o rádio até os lábios.
– O que vocês estão vendo?
Silêncio por um momento, então uma voz respondeu:
– Estou vendo a lua. Estou vendo as estrelas – e os homens na câmara
começaram a gritar com toda a força de seus pulmões. Aquilo prosseguiu, e
eu não pude fazer nada além de sentir a adrenalina. A luz das estrelas voltara.
E a energia.
diretora
tentou
se
arremessar na Escuridão, mas um
número
suficiente
de
homens a estavam vigiando para
que ela não o fizesse. Eu quase quis deixá-la ir, deixá-la morrer.
Ela era perigosa demais para nosso mundo.
Eu me ajoelhei ao lado do corpo do Albin. O braço dele estava preso atrás
das costas, e eu o soltei e o deixei pousar em seu peito.
– Obrigada – sussurrei, sem saber muito bem por quê. Não foi por nos
estimar que ele nos ajudara.
Parecia que ia demorar para
sempre, mas finalmente saímos da Verge e vimos o céu por conta própria. Já
estava mais quente, mesmo faltando horas para o nascer do sol. Olhar para a
lua trazia mais lágrimas. Eu me permiti sentir alegria pelas vidas salvas, mas
junto a isso vinha a dor pelas vidas perdidas.
– O que você fez? – a diretora perguntou, ao meu lado. Alguém fora esperto o
bastante para passar uma corrente em seu torso, prendendo seus braços
junto ao corpo.
– Apenas o que você fez
conosco.
Ela sorriu.
– Nós vamos sobreviver.
Sabemos como é viver sem luz.
Sem energia.
Eu me senti encorajada pelas
palavras dela.
– Eu espero que seja verdade.
Espero mesmo. Mas agora não temos a menor ideia de como será o futuro.
Até onde você sabe, seu tempo já era.
– Eu vou descobrir logo.
– Na verdade, acho que não.
Seus lábios tremeram, mas
ela não me perguntou o que eu quis dizer. Ela poderia descobrir mais tarde
que não tinha chance alguma de voltar para casa e que nunca mais haveria
outra guerra entre os mundos. Aquilo estava finalmente acabado.
E eu não fazia ideia do que aquilo significava para mim. Mas estava ansiosa
para descobrir.
Encontrei os demais do lado
de fora da Verge. Havia pássaros cheios de vida chilreando em algum lugar.
Estávamos no meio do inverno e havia pássaros cantando. Era como se o
mundo inteiro despertasse.
Peter estava olhando para as estrelas, mas o olhar dele parou em mim, e ele
sorriu. Sofia me envolveu com os braços. A sensação era ótima. Eu queria
que
alegria
dela
me
contagiasse; eu também queria senti-la.
– Você conseguiu – foi tudo o que ela disse.
Peter me beijou na boca,
então me abraçou apertado.
– Sinto muito – ele falou. –
Estou orgulhoso de você – ele me conhecia bem; e haveria tempo para
conversarmos depois.
Noble estava com um sorriso
reservado, como se estivesse tentando se conter. Havia um pouco de sangue
incrustado na ponta de sua orelha.
Bom
trabalho
ele
observou, antes de me puxar para um abraço. Ele não me soltou, e eu senti
um tremor em seu corpo. Ao me soltar, enxugou os olhos. – Quando foi que
eu me tornei um bebê chorão? – falou, sem exatamente perguntar.
As pessoas se aglomeravam
no parque, sem saber bem o que fazer ou para onde ir. Elas provavelmente
nunca
entenderam plenamente o que acontecera ali. Mas eu tenho certeza de que
naquele momento
só sentiam alegria, enquanto fitavam as estrelas, e as luzes cintilavam nos
apartamentos em torno do parque. Eles pensavam em um futuro brilhante e
ensolarado. Não tinham ideia de que a escuridão aguardava por todos nós em
um piscar de olhos.
Ao Sul, vi dois Machados
passando acima dos arranha-céus, e um medo familiar me gelou o estômago,
mas eles se tornaram bolas gigantes de fogo dois segundos depois. E após
mais dois segundos, quatro jatos militares zuniram sobre nossas cabeças,
espalhando-se
para
cobrir a cidade.
Os Rosas sobreviventes da
Verge
estavam
de
joelhos,
encapuzados
algemados.
Nenhum deles foi estúpido o bastante para usar seus poderes depois de terem
visto a luz da lua. Eles sabiam que estava tudo acabado.
Em pouco tempo, os militares
estavam por toda parte da
cidade. Havia tanques indo de um lado a outro em todas as ruas. Humvees
sacolejavam pelo parque, com as metralhadoras girando enquanto iam em
busca de qualquer ameaça. À distância, eu podia ouvir pessoas gritando,
porém nem de terror nem de pânico. Eram gritos de vitória.
Uma corneta soou, e mais uma.
De repente a cidade estava repleta de buzinas. Minha equipe testemunhava
tudo aquilo ao lado da Verge, saboreando o
momento.
Apreciando
os
barulhos que diziam que ainda estávamos ali. Uma van cheia de homens
com
equipamentos
pretos de combate parou ao nosso lado. Eles saíram e nos fizeram
algumas
perguntas.
Queriam que fôssemos com eles.
Por nós, tudo bem. Não iríamos mais lutar.
O presidente queria fazer um
pronunciamento ao mundo o
quanto antes, um discurso que depois seria repetido muitas vezes enquanto a
energia se restaurava ao redor do planeta.
As pessoas na cidade estavam apenas começando a perceber que o apagão
acontecera em escala global.
Conversamos a respeito do
que fazer a seguir em um hotel que o governo protegera para nós – um dos
poucos prédios seguros de Nova York. Civis importantes também estavam
hospedados, com planos de percorrer a cidade nos dias seguintes.
Eles
queriam
transmitir uma mensagem para as nações de todo o mundo o mais rápido
possível. Uma
mensagem que dissesse que “O
governo dos Estados Unidos definitivamente está presente e operando. Não
tentem nada estúpido”.
Apenas um dia havia se
passado, mas as pessoas já estavam se aglomerando para
ver a Verge, a primeira prova concreta de que não estávamos sozinhos
no
multiverso.
governo havia estabelecido um perímetro de segurança de cem metros ao
redor.
– Sei não – Peter disse para mim, no saguão do hotel. – As pessoas não vão
confiar em nós, não importa o que fizermos. Eu acho
que
deveríamos
desaparecer.
Eu estava me sentindo muito
bem. Já vinha tomando pílulas
analgésicas para
meus
ferimentos, mas descobri que se tomasse uma a mais me sentiria ainda
melhor. Tão bem que ficava difícil me lembrar do que eu fizera e difícil de
sentir qualquer coisa a respeito. As palavras
da
diretora
continuavam percorrendo minha mente. “Nós vamos sobreviver.
Nós sabemos como viver sem luz.”
Eu me apeguei a isso para me
reconfortar.
– O mundo quer a verdade –
Noble falou – e nós podemos lhe dar. Sem disfarces. Está acabado e não há
chance alguma de que isso aconteça novamente. A verdade vai nos unir.
– Como quando o mundo
todo se reúne contra uma
ameaça
alienígena
Sofia
completou. Todos olharam para ela. – Eu andei assistindo a alguns filmes.
Era engraçado, mas era
verdade. Nosso mundo estava caminhando na direção errada,
estava dividido. Mas e agora?
Quem poderia saber? Os meses e anos seguintes definiriam o resto de nossa
existência. Um dia, nós poderíamos até mesmo agradecer à Terra Verdadeira.
– Vocês precisam fazer sua escolha – Noble observou. – Mas tenham em
mente que o mundo já conhece nosso rosto. Ao menos os seus. Vocês podem
se esconder pelo resto de suas vidas, ou podem se dirigir ao mundo
como
heróis.
Provavelmente vão lhes dar medalhas.
– Como em Guerra nas
estrelas – Sofia lembrou.
Então concordamos. Nós nos
escondemos em meio à escolta até Washington d.c. Os militares abriram
caminho pelas estradas, mas
ainda
havia
carros
abandonados por toda parte, e as vias
ainda
não
estavam
completamente livres para o público.
Encontrávamos
cadáveres aqui e ali, em um
veículo, em uma vala, na rua. A quase destruição do mundo era aparente
onde
quer
que
olhássemos e provavelmente
continuaria visível por um bom tempo. Talvez para sempre.
Como é que alguma coisa
poderia realmente voltar ao normal, quando as pessoas
haviam vislumbrado o fim do mundo?
Seguíamos escondidos para
Washington e durante toda a viagem Peter segurou a minha
mão.
Mas ele não olhou para mim.
Ficou
combinado
que
faríamos
o
pronunciamento
dentro da Casa Branca, já que não era seguro do lado de fora. Ao menos foi o
que um agente secreto havia me dito. A ordem ainda
não
havia
sido
completamente
restaurada.
Muitos policiais ainda não haviam voltado ao trabalho. O
presidente nos encontrou em uma sala subterrânea, cercado por
aproximadamente
500
agentes, e ali nos reunimos por uma hora. Ele apertou nossas mãos. Ele me
cumprimentou por último,
inclinou-se
disse
“Obrigado” com tanta sinceridade que eu quase comecei a chorar.
Eu não queria agradecimentos.
Não queria ser relembrada
nunca mais. Mas eu seria. Era o fardo que eu tinha que carregar.
O presidente nos deu um
resumo do que ele iria dizer e de como iria nos apresentar, então nós
caminhamos até a sala de imprensa. Peter ainda estava evitando meu olhar, e
eu não conseguia saber por quê.
Os repórteres estavam de
volta ao trabalho, isso era evidente. Todos nós subimos para o tablado e os
flashes começaram a faiscar e eu não pude enxergar nada. Eu cheguei a
apertar os olhos e virar a cabeça.
O presidente ergueu as mãos.
Sem
fotos
por
um
momento, por favor.
As perguntas eram gritadas.
“Quem eles são? De onde vieram?
Eles são de outro universo?”
O presidente explicou o que era a Terra Verdadeira, enquanto mais flashes
eram disparados e nós permanecíamos em pé meio
desajeitados, enfileirados ao lado dele.
– Agora vocês estão olhando para uma equipe de exilados que lutaram contra
o mundo de onde
vieram – não era exatamente a verdade, mas quase. – Sem eles, nós ainda
estaríamos no escuro.
Ele apresentou cada um de nós e enumerou algumas das coisas
que
tínhamos
feito.
Contou ao mundo que eu
detivera a invasão de sem-olhos alguns meses antes, apesar de não
ter
sido
apenas
eu.
Felizmente ele não mencionou que eu precisara me matar para cumprir a
missão.
A tela atrás de nós exibiu uma
foto grande do Rhys. Um pedido que partira da Sofia e de mim. As pessoas
precisavam ver o rosto dele para saber que ele se sacrificara. A foto era uma
que Sofia tirara em seu apartamento na Columbus Circle. Rhys estava à
mesa, sorrindo, erguendo uma caneca vermelha de Natal. Havia fumaça
saindo da caneca. Ver o sorriso dele era como uma facada no coração.
Nós não tínhamos foto
alguma do Noah ou da Olivia,
mas o presidente falou deles brevemente,
apresentando-os
como soldados que morreram com valentia em nossa luta contra o mal.
– Eles se foram – ele disse –, mas não nos esqueceremos
deles.
O presidente continuou e
explicou o ataque mais recente, ao menos tão bem quanto podia, então
voltou-se para mim: – Esta jovem liderou um cerco ousado contra a fortaleza
do inimigo. Ela
encerrou a guerra, a ocupação, e restaurou a luz solar e a energia.
Havia
um
milhão
de
perguntas, porque nada daquilo fazia sentido visto de fora.
Melhor dizendo: a luz solar fora bloqueada,
os
carros
não
funcionavam... Mas agora já estava tudo certo. O presidente não respondeu a
nenhuma das questões. Ele disse que isso ficaria para outra hora.
– O momento agora é de
gratidão – ele lembrou. –
Enquanto nos reconstruímos, quero que o mundo conheça seus salvadores. É
uma dívida que nunca poderemos recompensar.
Os repórteres não estavam
satisfeitos com metade da
história, mas eu não poderia me importar com eles, nem se tentasse. Eu só
queria que o Peter olhasse para mim. Quando o
discurso
se
encerrou,
finalmente ele olhou e nós descemos do tablado. Ele virou o rosto na minha
direção e sorriu,
porém seu sorriso não chegou aos seus olhos. Os flashes eram tão brilhantes
que chamaram minha atenção para algo que estava faltando em sua face. Eu
olhei para seus olhos azuis arroxeados, e então para seu queixo.
O queixo dele não tinha a pequena cicatriz esbranquiçada.
34
Minha boca se abriu. eu a fechei imediatamente, mas vi como os olhos dele
desviaram para baixo.
Ele notou que eu notei. Virei o rosto em direção às câmeras e deixei que
tirassem uma foto nossa.
Meu coração estava tão
acelerado que eu podia senti-lo nas costelas. A bola fumegante de ódio dentro
de mim só queria saber onde meu Peter estava e quem era aquela pessoa falsa
ao meu lado.
Eu iria descobrir.
Eles pensaram em todos os detalhes, exceto por uma cicatriz que mal dava
para perceber.
Nós saímos em fila do
tablado, e eu decidi que não era tarde demais para acertar as contas.
Agarrei a mão do impostor com um apertão, então fiquei na ponta dos pés e
sussurrei em seu ouvido: – Por que você não vem ao meu quarto mais tarde?
– nós iríamos
passar
noite
hospedados na Casa Branca. Eu estava no Quarto Lincoln com a Sofia, e o
Peter no Quarto Queens com o Noble, atravessando o corredor.
– Qual sua intenção? – ele estava meio sorridente.
– Ah, não sei – eu disse,
tentando uma entonação meio atrevida, apesar de não ter muita prática nisso.
– Talvez eu só queira celebrar o fato de tudo ter acabado. Em particular.
Ele sorriu, e então eu me perguntei como tinha sido tão cega. Peter nunca
sorria assim, de um jeito tão safado e malandro.
Ele era o espião da diretora.
Ele que avisara sobre nosso ataque. Minha memória revolveu todas as
conversas que eu tivera
com Peter. Ele havia se oposto a um ataque... Teria sido um impostor o
tempo todo? Então eu nem tinha visto o Peter desde que voltara da morte?
Não, isso era impossível.
Eu me lembrei de notar a cicatriz dele na primeira vez que o encontrei na
Verge, quando nós dois
estávamos
disfarçando
nossas identidades. A troca deve ter sido feita quando Albin veio até mim
pela primeira vez, quando ele me enganou para
revelar nossa base no Time Warner Center. Ou talvez depois, quando fiquei
inconsciente por quatro dias. “Onde está você, Peter?”
Se eu conseguisse fazer o impostor ir ao meu quarto, eu poderia
detê-lo
antes
que
machucasse alguém. Então nós só teríamos que explicar ao presidente o que
acontecera.
Aquilo poderia minar uma parte da boa vontade para conosco, mas não havia
outra maneira. Eu
não iria soar o alarme e correr o risco de que esse cara usasse as ondas de
medo em todas aquelas pessoas.
Além disso, uma parte de
mim queria acreditar que havia uma explicação, e uma parte bem pequena
ainda estava na dúvida.
Eu queria examinar seu queixo de novo. Queria saber se ele tinha uma
desculpa.
Saindo da sala de estar leste, Peter e Noble foram para o quarto deles. Peter
olhou para
mim uma última vez e me deu um sorriso verdadeiro que
parecia muito com o do Peter que eu conhecia, o que me fez questionar
aquilo que eu havia visto. Ele podia estar agindo estranho por tudo o que
acontecera... ou por causa do que eu
fizera.
Eu
não
tinha
considerado essa possibilidade.
Ele nunca estivera cem por cento no plano. Talvez ele estivesse acabrunhado
por causa da minha escolha.
De volta ao nosso quarto, Sofia se virou para mim com olhos cansados.
– Eu preciso de uma ducha, e
então de um cochilo. Nessa ordem. Não é uma boa?
Minha boca se abriu para
contar a ela o que eu vira, ou melhor, o que não vira, mas ela já estava me
dando as costas, caminhando com tanto cansaço, que não quis aborrecê-la.
– Claro – eu disse. – Vá em frente.
Em vez de esperar por ele, decidi eu mesma visitá-lo. Gastei um
minuto
imaginando
situações diferentes e reações possíveis de sua parte. De uma eu gostei; as
outras terminavam com um de nós dois morto.
Abri a porta do meu quarto silenciosamente quando Sofia começava a tomar
seu banho.
Caminhei na ponta dos pés pelo corredor até o Quarto Queens. A porta estava
entreaberta, apenas uma fresta. Fiz uma pausa,
ouvindo com atenção se algum som vinha de dentro. Me inclinei em direção
à porta e assim vi a mancha no carpete do corredor.
Estava a poucos metros de mim, onde o corredor virava para a direita.
Dei um passo para o lado e bem na quina identifiquei o corpo de um agente
do Serviço Secreto de costas, com a
garganta rasgada.
– Ah, não!
Investi contra a porta do
Quarto Queens com um chute, mas era tarde de mais. Noble estava no chão,
com um halo de sangue em volta da cabeça e as duas mãos fechadas sobre o
pescoço. Os olhos dele se voltaram para mim. O sangue borbulhava de seus
lábios. Caí de joelhos ao lado dele.
– Tarde demais – ele disse, em meio ao sangue.
“Não!” Eu queria estar do outro lado. Queria ser a pessoa olhando para cima,
não para
baixo. Eu estava sempre olhando para baixo.
– Deixe-me ver – pedi, com uma voz que soava fria e alheia.
– Tarde demais – ele repetiu mais uma vez. – Vá pegá-lo.
– Vou ficar com você – eu estava chorando de novo. Pensei que não
precisaria mais chorar.
Noble fechou os olhos.
– Tome cuidado – ele disse, e então não falou mais nada.
Eu me pus de pé e passei pela porta,
então
atravessei
corredor o mais rápido que pude.
Peguei a arma do agente caído, que chegara a sacá-la antes de morrer.
O
corredor
estava
repleto de corpos de agentes designados para nos proteger. Eu sabia aonde
Peter estava indo.
Para o portal da Escuridão. Ele queria ir para casa, ou ao menos tentar. Ele
sabia que estava envenenada, mas talvez pensasse que sobreviveria à viagem.
Não havia nenhum outro lugar para ele ir.
Corri para a saída, seguindo a trilha da carnificina. Do lado de fora o sol
estava tão brilhante que fez meus olhos doerem. Corri pelo gramado do Sul,
passei pelo helicóptero oficial, em direção ao Monumento
Washington.
Minha mente estava paralisada pela dor da perda, mas ainda podia
resgatar
lembranças
daquele lugar, de quando eu cavalgara
pelo
gramado,
tentando
impedir
Nina
de
destruir o mundo inteiro. O ar
daquela noite estava repleto de rajadas
de
metralhadora
sirenes.
Naquele momento, só havia
resquícios de neve e céu azul e silêncio, enquanto o mundo continuava seu
lento despertar.
O buraco para o túnel que levava
Escuridão
estava
coberto com uma estrutura de concreto. Era claro que o governo não iria
apenas tampá-
lo; eles queriam estudar aquilo.
Os guardas ao redor da estrutura
também estavam mortos, com as gargantas
cortadas.
Meus
pulmões ardiam com o ar
congelante, mas eu não podia parar. Precisava pegá-lo antes que ele fizesse a
travessia. Corri para o túnel, com as pernas dormentes
pelo
que
me
pareceram
quilômetros.
Eu
queria rir de mim mesma por ter acreditado que estava tudo acabado, que
havíamos vencido.
Que iríamos viver como uma grande família feliz.
Finalmente cheguei à caverna gigante onde eu vira a Escuridão pela primeira
vez com Peter e Rhys. Ainda havia escombros da Verge do mundo do Gane.
E o Peter estava bem na
beirada.
35
–N ÃO SE MOVA! – eu gritei com toda a força, apontando a arma para o
centro do corpo dele.
Ele se virou lentamente para mim, coberto de sangue nos braços, no peito e
no pescoço.
Até seu rosto estava sujo.
– Você percebeu – ele disse. –
Eu pude ver a mudança nos seus olhos. Foi o único motivo para eu fazer isso.
– Onde está o Peter?
Ele ergueu uma sobrancelha e
sorriu com severidade.
– Ele não se foi em paz, isso eu posso lhe garantir.
Eu não conseguia impedir
que minha voz esganiçasse, trêmula: – Conte para mim onde ele está ou eu
juro por Deus que acabo com você.
– Se eu contar, aposto que vai
atirar em mim mesmo assim.
– Você não tem escolha.
Ele ergueu os ombros.
– Nesse caso, eu conto. Seu precioso namorado está na Terra Verdadeira. A
diretora queria mantê-lo em local seguro para o caso de precisar persuadi-la
novamente. Você o prendeu lá.
Você provavelmente o matou.
Eu caí com um joelho no
chão, perdendo imediatamente o fôlego. Minha cabeça pesava e eu não tinha
energia para erguê-la.
Eu deixara Peter preso ali. Eu o condenara à morte. Eu nunca mais iria vê-lo.
O impostor estava rindo de mim, e eu só me perguntei como é que pessoas
como ele podiam existir. Como um ser humano podia começar como uma
tábula rasa e então se tornar aquilo? Eu jamais poderia entender. Eu jamais
entenderia nada daquilo.
– Como você se sente? – ele perguntou. – Eu devo admitir.
Queria que você não tivesse
notado quem eu era. Eu estava disposto a viver aqui. Com você.
– Em algum momento eu iria
perceber. Isso não poderia durar.
– Mas a ideia me pareceu boa.
Eu gostei de ser um herói. E
gostei de estar com você. Com o passar do tempo, poderia se tornar algo real.
– Nunca.
Ele emitiu um som que era quase uma risada.
– O que foi que me entregou?
Eu não disse nada.
– Então o que acontece se eu saltar ali? Você a envenenou, não é? O que
acontece?
– Você vai ter que pular para descobrir – minha voz estava trêmula, chorosa e
rouca. – Salte, ou vou atirar em você e
arremessá-lo para lá.
Ele olhou para a Escuridão.
Eu mirei no pé dele e atirei, e ele se encolheu.
– Eu não tenho para onde ir –
ele falou.
– Bem, talvez você consiga
sobreviver à viagem – eu disse, sabendo que ele não conseguiria.
– Pule. Agora.
O Peter olhou para mim com um olhar devastado. Eu sempre vou me lembrar
da angústia dilacerante daquele segundo.
Então ele deu um passo à frente e caiu
na
Escuridão,
desaparecendo completamente.
Eu soube em um instante que a Sala Escura fizera seu trabalho. A superfície
da Escuridão fumegou com um chiado e partículas
escuras esvoaçaram para o teto bem ao alto.
36
Eles não demoraram a me
encontrar. eu não me movera, apenas me encolhera de lado sobre o chão duro
de rocha. Ouvi os sons dos soldados nos túneis, ecoando dois minutos antes
de chegarem até mim. As botas deles marcavam os passos no chão. Eles me
cercaram com os
rifles.
Kellogg se agachou ao meu lado.
– Olá.
Eu olhei para ele.
– O Peter passou para o lado de lá?
– Não era o Peter. E sim.
– Certo. Isso muda as coisas.
Vocês já estão famosos.
– Eu sei – eu continuava sem
me mexer.
– Estamos com a Sofia sob custódia. Ela está bem. Mas
vamos
precisar
que
vocês
respondam a algumas questões.
Eu posso me responsabilizar por você – ele agarrou minha mão fria e a pôs
sobre a sua, quente. –
Eu estarei com você o tempo todo. Não desista ainda, está bem? Você não
está sozinha.
Lentamente, eu me sentei.
Peter não iria querer que eu desistisse. Ele nunca iria querer isso.
Nem mesmo depois do que
eu fizera a ele. Nem mesmo após
tê-lo prendido atrás das linhas inimigas para sempre.
– Tem uma coisa com que
você pode nos ajudar – Kellogg disse. – Uma coisa que acho que vai lhe
servir para recuperar a confiança.
Recolhi meus joelhos junto ao meu peito. Os soldados ainda estavam à nossa
volta com suas armas apontadas para mim.
– O que é? – eu quis saber.
– A diretora está sob custódia em uma instituição especial, com
outros Rosas que detivemos. Ela alega que tem informações vitais para nós,
mas quer falar apenas com você. Você pode fazer isso?
“Comigo?”
“Por que ela iria querer falar comigo?”
– Sim – eu disse. – Posso fazer isso.
A diretora estava em um local tão secreto que foi preciso me vendar. Eu não
me importei em
prestar
atenção
ao
tempo
decorrido ou às curvas, apenas deixei que me guiassem. Fiquei algemada até
me conduzirem através de corredores frios a uma sala de entrevista que
continha uma mesa de metal, duas cadeiras e um espelho de duas faces.
A diretora estava usando
algum
tipo
de
capacete,
provavelmente para impedir
suas ondas de medo, se é que aquilo era possível. Ela não
parecia assustadora de modo algum, apenas ridícula.
Suas
mãos
estavam
acorrentadas à mesa, que por sua vez estava soldada ao chão.
– O que você quer? –
perguntei.
Ela foi direto ao assunto, sem papo de vilã. Ela sabia que tinha perdido.
– Se você me libertar, eu lhe digo onde encontrar o Peter.
Minha
pele
arrepiou
simplesmente ao ouvir o nome
dele. Ela não merecia mencioná-
lo.
– O Peter está preso na Terra Verdadeira. Tente outra.
Ela balançou a cabeça com vigor.
– Não. Ele esteve lá por um breve momento, mas eu ordenei que o
trouxessem de volta para cá no último minuto, para usá-lo contra você.
Meu coração começou a
martelar com esperança, o que era perigoso. Eu não queria ter
esperança. Não agora. Eu estava gostando do jeito que eu me sentia. Gostava
de sentir o nada.
– Você está mentindo – falei.
– O que o seu coração lhe diz?
– Eu não tenho certeza se ainda tenho um.
Sim,
você
isolou
sentenciou o futuro ao que você considera uma morte fria. Isso deve ser de
doer o coração. Mas acho que isso foi minha culpa, não foi? – ela não parecia
mais furiosa a respeito, apenas triste.
Talvez introspectiva. Ela devia estar se perguntando como
chegara a esse ponto. Derrotada por si mesma.
– Acho que sim.
– Liberte-me e eu vou lhe dizer onde ele está.
– Eu jamais poderia tirá-la daqui viva. Você sabe disso.
– Eu não disse que quero sair viva. Eu disse que quero ser libertada. Eu
nunca poderei ir para casa. Então me mate. Mate todos os Rosas antes que
seu
mundo descubra como nós funcionamos.
Você não enxerga? Você não venceu. A menos que você nos mate, eles vão
nos examinar, fazer experimentos conosco, e isso vai levar a uma coisa: vão
nos recriar.
Ela estava certa. Enquanto estivéssemos por ali, não dava para apostar que
ninguém iria querer o que havia na minha cabeça. Mesmo enquanto eu
estivesse no prédio, podia estar
em perigo. Talvez eles nunca me deixassem escapar.
– Faça a coisa certa, Miranda
– ela disse. Os olhos dela pareciam
desesperados.
Ela
estava suplicando. Suplicando para que eu acabasse com a sua vida.
Quem era eu para fazer essa desfeita?
– Está bem. Me conte.
Eu me inclinei e ela sussurrou a localização do Peter no meu ouvido. Então a
porta se abriu e
homens de terno tentaram me agarrar, mas eu era uma Rosa, eles não.
Avancei e agarrei a cabeça da diretora com as duas mãos e girei tão forte
quanto pude. O pescoço dela quebrou com um estalo barulhento e a cabeça
caiu dura na mesa. Os homens me tiraram da sala e não ofereci resistência.
Mas não pude conter um
sorriso.
E o sentimento de esperança.
Fiquei presa por três dias.
No primeiro dia, o próprio presidente admitiu que os Rosas remanescentes
seriam mantidos para estudos posteriores, ainda mais porque um líder norte-
americano
não
poderia
simplesmente
executar
seus
inimigos apenas por serem
perigosos (essa última parte me fez rir).
Não havia nada que eu
pudesse fazer, por ora. Os Rosas
seriam mantidos em coma, ele me
garantiu.
Eles
não
ofereceriam nenhum perigo, ele me garantiu. Eu só podia esperar que fosse
verdade. Kellogg me visitou no segundo dia, e nós não falamos nada de
relevante até ele se inclinar e sussurrar: – Os Rosas
morreram
misteriosamente durante a noite
– então ele olhou para mim e encolheu os ombros.
Eu nunca mais o vi.
No terceiro dia me soltaram,
mas
tive
que
ficar
sob
supervisão.
Uma
dúzia
de
agentes me levaram até Sofia, que também estivera detida e fora solta. Nós
nos abraçamos por um longo tempo.
Ela concordou em vir comigo.
Ficar comigo. No momento só tínhamos uma à outra.
Uma hora depois de solta, eu
facilmente despistei os agentes que me escoltavam. Eu não tive nem que
machucá-los.
As
operações
de
voo
doméstico
não
estavam
normalizadas ainda, mas nós encontramos um navio que
atravessaria o Atlântico. O
capitão nos deixou subir a bordo.
Ele nos contou que a tripulação dele estivera à deriva no mar sem energia, até
que a luz voltou misteriosamente. Agora tinham retornado ao trabalho. Morar
e trabalhar naquele navio por algumas semanas foi a maior diversão.
Nós jogávamos cartas à noite
com a tripulação, e eles nos respeitavam totalmente. Sofia voltou a sorrir. Eu
ria de novo.
Porque iríamos até o Peter. Eu me apeguei a essa ideia o tempo todo. A
diretora podia ter muitos defeitos, mas eu não achava que ela iria mentir para
mim no final.
Não levando em conta o que ela havia me pedido. Ela sabia que eu perceberia
a mentira. Então mantive minha esperança.
Nós mudamos três vezes de navio até adentrarmos o mar
Mediterrâneo. A brisa marítima era quente e de repente ficava fria. O último
navio nos levou a uma pequena ilha grega chamada Ikaria.
Um mês se passou até
chegarmos lá.
Na primeira semana na ilha, Sofia reuniu ingredientes para preparar novas
injeções de memória, para o dia que
acabasse o estoque do Noble e eu começasse a me esquecer das coisas. Eu
vasculhava as praias
rochosas e as lojas, perguntava às pessoas se teriam visto alguém que se
encaixasse na descrição do Peter. Algumas pessoas diziam que sim, mas
havia muita gente com cabelo escuro na ilha. Apesar disso, poucas tinham
olhos azuis
arroxeados.
Eu sabia o que esperar
quando o encontrasse. Seria como quando ele me encontrara, não muito
tempo antes.
Mas ainda doía.
Descobri que ele estava trabalhando em um café na praia.
Era a hora do intervalo dele. Ele estava de avental, sentado à uma mesa,
tomando café em uma xícara minúscula, observando as ondas. A brisa
despenteava o cabelo dele, que estava mais longo do que nunca, formando
ondinhas no pescoço. Ele me avistou e as sobrancelhas dele se ergueram
como se estivesse surpreso em me ver. Mas não parecia me reconhecer.
Ele deve ter percebido a própria
expressão,
porque
rapidamente baixou o olhar e fingiu examinar as conchinhas aos seus pés.
Mas então ele me fitou de novo, com o canto dos olhos. Continuei a encará-
lo.
Depois de ficar tanto tempo sem vê-lo, eu não podia evitar.
Caminhei lentamente até ele, como se me aproximasse de um animal
selvagem que poderia avançar a qualquer segundo.
– Olá – eu disse.
Ele sorriu para mim.
– Oi. Você é americana?
– Mais ou menos.
Ele não disse nada. As mesas
ao lado estavam todas vazias. Ele apontou para a cadeira à frente.
– Você quer se sentar?
– Eu adoraria – respondi, talvez um pouco afoita. O sorriso dele parecia de
alegria.
Nós nos sentamos por um
momento, apenas apreciando a brisa e o som das ondas. Ele continuou com
um sorriso.
Finalmente, ele disse: – Isso vai parecer loucura, mas você parece
completamente familiar para mim, o que é uma coisa incrível.
Nós nos conhecemos?
– Sim.
Os olhos dele brilharam.
– É mesmo? – ele se inclinou
para a frente. – Você sabe quem eu sou?
Eu podia sentir meus olhos lacrimejando.
– Eu sei.
Ele fez uma pausa.
– Espere. Então qual é o meu nome?
– Peter – eu disse, sem
hesitação.
Ele me encarou, e por um segundo, apesar de eu saber que era minha
imaginação, achei que ele estava me reconhecendo.
– Você sabe que eu perdi minha memória?
Eu fiz que sim.
– Como?
– É uma longa história –
respondi.
Ele sacudiu a cabeça.
– Eu esqueço as coisas o tempo todo. Esqueço coisas a cada dia. Graças a
Deus eu sei fazer um bom café; do contrário, já teria sido despedido. Mas a
cada manhã o dono vem e tem de repetir para mim todas minhas tarefas. Eu
não sei nem se ele me paga. Eu não lembro como
cheguei aqui, ou como consegui esse emprego. Nem falo grego.
Sem me dar conta, eu estava pegando nas mãos dele por cima
da mesa. Eu não me lembrava de levar minhas mãos até as dele, mas de
repente estava sentindo seu calor. Suas mãos eram calejadas por causa das
armas que ele costumava usar.
– Eu posso lhe ajudar a se lembrar. Isso pode parecer loucura,
mas
nós
nos
conhecemos desde que éramos pequenos. Somos amigos há
muito tempo.
Os olhos dele encheram-se de
água, os meus também. Era como
se ele quisesse acreditar, mas lhe parecesse bom demais para ser verdade. Ele
vivera um mês ou mais em confusão, e de repente tudo se resolveria.
– É mesmo? Isso seria ótimo.
Eu apertei suas mãos.
– Então nós somos amigos, é?
– ele indagou.
Eu tentei não sorrir.
– Bem, talvez um pouco mais
do que amigos. Meu nome é Miranda. Miranda North.
– Prazer em conhecê-la – ele
disse, terminando a frase quase rindo.
– Eu tenho muito a lhe contar.
Muito. E vai ser difícil de acreditar. Mas você me fez acreditar uma vez e eu
acho que eu posso fazer o mesmo por você. Eu sei que posso.
Ele acenou com a cabeça.
– Eu já acredito em você. Não dá pra explicar, mas acredito.
– Que bom. Então acredite nisso. Eu vou lhe dar uma seringa cheia de um
líquido estranho e
você vai injetá-la no seu braço, e então vai parar de se esquecer das coisas.
Quando eu tive esse problema, você apenas enfiou a agulha sem me
perguntar nada, mas eu vou ser mais simpática com você.
Ele riu.
– Eu acredito nisso também.
– Você quer dar uma
voltinha?
– Na praia? – ele olhou para as ondas. – Está bem – ele se ergueu e tirou o
avental. Depois
gritou para a cozinha: – Ei, mano!
Estou saindo!
O chefe veio lá de dentro, então olhou para mim, jogou as mãos para o alto e
voltou para dentro.
– O nome dele é Mano? Ou é só o jeito como você o chama?
– Eu não sei o nome dele –
Peter confessou, então riu de novo. Ele pegou uma seringa que Sofia
preparara e a espetou no braço sem olhar, como fizera mil vezes antes.
Eu também comecei a rir, contendo as lágrimas. Eu não queria borrar minha
visão.
Eu
queria
continuar
enxergando com clareza.
– Está bem, uma voltinha. E
depois? – ele perguntou.
– O que você quiser. Nós temos o resto de nossas vidas.
Finalmente tínhamos o resto da vida para nós.
Peter pegou na minha mão.
– Isso parece incrível.
AGRADECIMENTOS
Eu não poderia ter feito isso sozinho em universo algum.
Obrigado a todo mundo da New Leaf: Suzie Townsend, Joanna Volpe,
Danielle Barthel, Pouya Shahbazian, Jackie Lindert, Jaida Temperly e Dave
Caccavo. Os suspeitos de sempre.
Obrigado a Catherine Onder e
Lisa Yoskowitz. O trabalho de vocês nesta trilogia foi incrível.
Eu aprendi muito com vocês.
Agradeço a todo mundo da
Hyperion por tornar meus sonhos realidade. A Dana Kaye e a todo mundo da
Kaye Publicity.
A Janet Reid.
Apoio moral: Adam “Vi o Don rastejando no posto 4” Lastoria, Will “12JX-
WATERHAWK” Lyle e Dan “Mochileiro” Lastoria. Susan Dennard
Sarah
Maas
(GDC4Lyfe). Meus pais e irmãos.
Joe Volpe, por ter uma barba que eu não tenho. Travis e Barbara Poelle e
patinhos feios de todas as partes. Sean Ferrell e Jeff
Somers, dois malditos. Brooks Sherman
Adam
Silvera.
Whitney Ross e Corey Whaley.
E,
finalmente,
mais
importante: obrigado a você.
Obrigado por ler meus livros. A única razão para esta história existir fora da
minha cabeça é porque você a leu. Essa é uma dádiva que eu não consigo
descrever.
sua opinião é muito
importante!
Mande um e-mail para
[email protected]
com o título deste livro no campo “ASSUNTO” .
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