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Show Opinião

O documento é uma comunicação do Serviço de Censura de Diversões Públicas do Rio de Janeiro, remetendo scripts de um espetáculo teatral para ensaio. O diretor solicita a realização do ensaio-geral e a remessa de relatórios técnicos, enfatizando a necessidade de fiscalização para garantir a conformidade com a legislação vigente. O conteúdo inclui trechos de diálogos e músicas que fazem parte do espetáculo, refletindo a cultura popular brasileira.

Enviado por

Daniel Násser
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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ARQUIVO NACIONAL

SERVIÇO DE CENSURA DE DIVERSÕES PÚBLICAS /RJ

SÉRIEí SERVIÇO DE CENSURA (CENSURA:


PRÉVIA)'

SUB SÉRIE : PECAS TEATRAIS

TÍTULO:

:,
CERT. N": S . 'á

ANO: ■ ;
.

FOLHAS N°: :Ú
Do Diretor da D.C.D.P.

Ao Sr. Superintendente Regional do EPi1 no Sio de Janeiro

Assunto: remessa de "scripts” — faz.

Wilson d® Queiroz Garcia


Chefe (to SCOP/SR/QB
Senhor Superintendente:

Apraz-me remeter a essa rapartição, com este, os “scripts" do


espetáculo acima referenciado, que deverá ser encenado no ,ie ae uaneiro

2. Peço mandar proceder ao ensaio-geral e providenciar a remessa


dos relatórios dos técnicos designados para assistí-lo, por estar a validade do certificado
sujeita ao resultado desse ensaio, devendo ficar ciente o interessado, através do setor de
censura desse órgão, do que preceitua o artigo 11 e seu parágrafo único da Lei no.5536,
de 21 de novembro de 1968.

3. Recomendo a máxima atenção da Fiscalização para o


desenrolar do espetáculo, com o fim de dar a esta DCDP meios de impor, se necessário, a
medida preconizada para os casos de violação do indicado dispositivo legal.

DPI7 512
APAGA-SE A LUZ NA PLATÉIA...

MARÍLIA- (CANTANDO) Menino, ouem foi seu mestre ?

REFLETORES SE ACENDEM, ENTR/^ OOffO 00 VALE...

33^0 - Peba é um tatu. A gente caça êle pra comer. E com pimenta fica

mais gostos6. Vou cantar uma música que eu fiz sobre o peba.

Seu Malaquias preparou

cinco pebas na pimenta

só o povo de Campinas

Sau fAalaquias convidou mais de quarenta

entre todos convidados

pra comer peba foi também Maria Benta.

Benta foi logo dizendo

se arder, não quero, não.

Seu Malaauias então lhe disse;

Pode comer sem susto, ”

pimentão não arde, não.

Benta começou a comer

a pimenta era da hraba

danou-se pra arder.

Ela chorava, se maldizia,

se eu soubesse, desse peba não comia...

Ai, ai.

Ai, seu Malaquias,

Ai, ai,

Ai, seu Malaouias

Ax, ai,

té ardendo pra danar,

Ai, ai,

Ta ne dando uma agonia

Ai, ai,

Voce disse que não -ardia

Ai, ai,

Ta ardendo pra danar O


[Link].PTE_ààlíZ-M

Ai, ai,
que tá bom eu sei que tá
ai, ai,
mas tá fazendo uma arrelia.

entram em cena ze KETI E MARILIA DEDALHA E, COM QOfiO DO VALE, CANTAM BAIXO,
ENQUANTO OS MÚSIC OS AFINAM OS INSTRUMENTOS.

OS TREs - Se alguém perguntar por mim...


Meu sentido era Ana 3ela, fia da Siá Balbina...
Podem me prender, podem me bater...
Eu sou o samba, a voz do morra,.,
La vai o danado do trem, levando Maria Filá..,
O CONQUNTO ENTRA DE ESTALO. OS TRES, AGORA, CANTAM OUNTOS.
Morreu falvadez Durão
Valente, mas muito considerado.
Carcará, pega, matá e nome
Carcará, não vai morrer de fome
Carcará, mais coragem do que homem
/ *
Carcara, pega, mata e come:

DChO do vale . Pisa na fulô, pisa na fulo


pisa na fulô, não maltrata meu amor.
05 trEs PÍ3a na fulô, pisa na fulô,
pisa na fulô, não mabtrate meu amor,
DOãQ DO VALE Um dia desse eu fui dançar lá em Pedreiras
na rua da Golada, eu gostei da brincadeira
Ze Caxangá era o tocador,
mas sá tocava Pisa na Fulô.
Pisa na fulô, etc...
Seu Serafim cochichava a Pterviá
Sou capaz de jurar que nunca vi forro melhor
Intá vovó garrou na mão ds vovô
Vumbora meu vèinho pisa na fulô
CCRO Pisa na fulô, etc...

Zè KETI Eu vi menina que nem tinha doze anos


agarrar seu par e também sair dançando
satisfeita e dizendo meu amor,
ai como á gostoso pisa na fulo.
CORO Pisa na fulô, etc...
jofto DO VALE De madrugada, ZBca Caxangá
Disse ac dono ria casa não precisa me pagar
Mas, por favor, arranje outro tocador
Que eu também quero Pisa na fulô

CtjRO Pisa na Fulô, etc...


(»IA R í LIA Mas o gozado á que as meninas que dançaram

quando chegaram em casa todas elas apanharam


[Link] Xàlst P-M

A mais novinha foi perguntar ao vovô


r
>e é pecado Pisa na fulô
F1ARILIA E ZÉ KrTI SEGUEM FAZENDO CORO EM BG...
30ão 00 VALE Meu nome é 3oão Batista ’'ale. Pobre, no Maranhão, ou á Batista
ou Ribamar. Eu sai Batista. Nasci na cidade de Pedreiras, rua
da Golada, Modéstia a parte, a rua da Golada, hoje, chama rua
3oão do Vale. Quer dizer: eu, assim com essa cara, já sou rua.
Moro na Fundação da casa popular de Deodoro, rua 17, quadra 44,
casa 5. Ouas horas, sem encontrar ladrão, chega lá. Tenho du-
zentos e trinta músicas gravadas, fora as que vendi. De auinhen-
tos mil reis pra cima já vendi muita música. Acho que as que são
mais conhecidas do povo são as músicas mais assim sá pra dibertir.
Ela9 interessam mais aos cantores e as gravadoras. £ so tocar, ja
sair cantando. Tenho outras músicas oue são menos conhecidas, u-
mas que nem foram gravadas. Minha terra tem muita coisa engraçada,
mas o que tem mais á muita dificuldade pra viver.
li KETI Meu nome e 3osá Flores de Jesus. Sou carioca de Inhaúma. Tenho 53
anos, sou pai de .... filhos. Moro em Bento ribeiro,
Uma hora de trem atá à cidade; Trabalha no INPS, lotado na Avenida
Venezuela, nível oito. Vida de sambista vou te contar. Passei oi-
to anos em estúdio de radio, atrás de cantor... "Ei, moço, cumequie,
dá uma olhadinha e nada.." 0 Samba A V07 DO MORRO... "eu sou o sain
ba"... eu já tinha ele fazia sete anos na QaÇeta.
Ai, ele teve mais de trinta gravações. Até o Carlos Ramirez, o Gra^
nada, gravou ele. 0 dinheiro que ganhei deu para comprar uns móveis
de quanto estilo francês e comi oarne três meses.
Dava para ir na feira aos domingos e trazer a cesta cheia de com-
peta.
CÜRO Ela come 'tres quilos de carne por dia.
meu Deus, que horror...
Mas na hora da coisa ela fica com coisa
e não quer amor.
MA RI HA Meu nolne é Mariüa Medalha. Nasci na praia de Icaraí, em Niterpi.
lou descendente de italiano. Desde gorotinha gosto muito de música.
Como todo mundo da minha geração, fui criada só ouvindo música bra-
sileira. Musica brasileira, naquela época, era bolero, fox-trot,
rock' n"roll, swing, calipso, tuist, cha-cha-cha, mambo, be-bop,
cool jazz, pragressive-jazz, baladas, habaneras, biguine, taran—
tela, fado com sotanue português, polka, Love Is a Many Splendored
Thing e Aquarela do [Link] ouvia tudo, mas o nue gostava decan-
tar mesmo era Caimy, Luiz Gonzaga e Dolores Duran.
Na ápoca eu não pensava em ser cantora. Queria era sair com minha
turma, festinhas com Cuba Libre e biscoitinho Piraouê. Ai a gente
cantava junto. E cantar pra mim acho que era tentar reunir ums seja
timento que a gente tem e que bate com o sentimento de outras pes-
soas. Uma dor ou uma alegria que se iguale. De uma certa forma p*«
mim era muito desagradável quando eu cantava um troço so muito pe_s
soai, sá meu.,.
cOro (CANTANDG)
l^lher que fala muito perde logo seu amor.
05 TRÊ3 EMENDAM C0P1 C0N3UNT0.
05 TRÊS Samba, samba, samba
É tudo que lhe posso oferecer
foi o que aprendi
não tive professor
eu troco um samba por um beijo seu, meu amor...
fODOS C : A 3 A TER PALMA MARCANDO RITMO PARA 0 «PARTIDO ALTO".
lí KETI Mulher que casar comigo
tem duas coisas pra escolher
aoanhar nuando merece
e apanhar som merecer
CtiRO 0 samba é bom, etc...
marIlia Partido Alto. Ver os de improviso recolhidos com a juda da Cartola
e Heitor dos Prazeres.
OOnO 00 VALE Menina se queres vamos
não ta ponhas a imaginar
quem imaqina cria medo
Pusm tem medo não vai lá.
ctSRO 0 samba e bom, etc...
ptarilia Fui batisada
na matriz de Cascadura
quem á bom já nasce feito
quem á bom não se mistura
MUDA REFRflO
CT5R0 í piau,
pula por cima do pau, 5 piau
915

lí KETI Menina, casa comigo


Que eu sou bom trabalhador
Com chuva não gou à roça
E com sol também não vou
CSRO 0 piau, pula por cima, etc...
gnflo oo VALE Arranjei uma crioula
Que era o suco da beleza
Todo dia ela me dava
vinte mangos pras despesas
ct5R0 MUDA 0 REFRÃO
Xô, tfo, barata
das cadeiras da mulata
013
[Link].^

MARÍLIA Tava jogando baralho


Na porta do cemitério
Todo mundo tava rindo
SÓ o defunto tava sério
cT)RO XÔ, xô, barata, etc...
7.Í KETI Prêto não vai para o céu
Nem que seja rezador
Preto cabelo de espinho
Vai espetar nosso Senhor
cOro Xo, xô, barata, etc...
PWRÍLIA Eu vou-me embora
Eu não quero mais você
Vou lha jogar no mato
Pro macaco lhe comer
REFRÃO WDA.
GBno A dona da causa, a deus à
% %
Adeus, a, adeus, a
zí KETI Quem tiver mulher bonita
CURO Ai, ai, ai
lí KETI Traga presa na corrente
CfíRO Ai, ai, ai,
li KETI Eu também ja tive a minha
cDro Ai, ai, ai,
li XI TI Dacare passou o dente
CtüRO A dona da casa adeus, à, etc.
Ct5.R0 VAI PRA SG
7.Í KETI No meu tempo, quando começei a frequentar o samba, o samba era mais
'’’oro. Davam pernada pra valer. IRuitas vezes sé terminava cbm a poli
cia, quando a policia entrava na perna também.
(CANTA) Dim, dim, dim, dim
Querem me matar meu Deus
Deixa o bobo cair
Deixa o bobo cair que ale p bom caidor.
(SECUE FALANDO)... Hojetem pouco samba duro. Em vez de pernada, a
gente so encosta a perna pro outro entrar no samba.
□ □7?r DO VALE Eu também sempre gostei de música. Cm Pedreiras, pra ouvir música
era na Banda ou então no único rádio da cidade do Seu Zeca Araújo,
que, por sinal, vendeu uma vacas pra comprar esse rádio. E eu fa-
zia música sobre tudo. Até sobre morcego. Sabe como é morcego? Nos
cacamos um e abrimos o bicho: e feito palmito, feito cebola. Vai
tirando uma camada, tem outra e mais outra- é esquisito. E eu fiz
essa música.
(CANTA)
[Link] HW b.^

O homem e o rei dos animais


A mulher a rainha da beleza
Através da ciência tudo faz
Pfeta e cura a própria humanidade
m
Mas tem coisa pequena nesse mundo
ue desafia a cisncia de verdade
T-a aqui uma que causa confusão
A ciência não da explicação
— *
bB morcego e ave ou animal
E como e quo é feita a geração
Mata um, tem outro dentro riêle,
Dentro dele tom um outro menorzinho
Procurando com jeito ainda encontia ■(
Dentro, um outro, um outro morceguinho...
(SEGUE FALAWDO) Mas, a coisa que mais ficou gravada na minha me-
mória, nesse tempo, foi o negocio do -.ralém, Uuando o rio !%arim
enche, da sempre a eeȋo, febre de impaludismo. Le em casa, meu
avô estava com a ce*ão. Ele era be(f velho, tinha sido escraoo.
0 remedio cura febre é o Aralóm. t dado pelo governo. Fss, che_
ga lá,[os chefes^político dãopra quem n eleitoral deles.
Eles vao e tr^eam o .^alrmptír saco de fez isso.
Ficou marcpdo iaso em míirf. i/er u ustou dois me_
ses de feTabalho, capifTnndo, broca por um pacotinho
\ com duas pílulas^que era cra^Ser da^o 4 ®T^%
MARILIA jando eu vim do sertão,
seu moço
do meu Bodoco.
A maleta era um saco
e o cadeado era um nó
5o trazia a coragem e a cara
l/ia jando num pau de arara
eu penei,
mas aqui cheguei,
Eu penei,
mas aqui cheguei...
MODULA
05 TRPS 5o deixo o meu cariri
no ultimo pau de arara
BIS
r-tARUIA Andei rezando pedindo
hoje pedindo cantando
eu vou deixar de pedir
gente vence é trabalhando
porisso eu tou trabalhando
tf

eu não vou mais pedir rezando


TN [Link] PTE 1,7 pj

REFRÃO
o destino me chamou
eu rumei minha bagagem
enchi o peito de amor
de bohdade, o coração
de vesti de coragem
m
pra correr mundo - mundão

Rosinha não poude vir


saudade não quiz ficar
bondade mora comigo
saudada vai lã e vem cã
tl

Amor eu semeei
de rosa não esqueço
de roupa nunca mudei
andei, andei, andei
andei, andei, dizendo
e mundo lã vou eu
eu sou quero o que é meu
HARILIA Ai^ quando eu tinha dezessete anos, eu e minha turma fizemos um
show no bar Petit Paris, de Icaraí. 0 Petit Paris era pra nós o
Carnegie Hall de Niterói. Eu achei maravilhoso porque era minha ejs
treia como nrofissional. Eu ia qanhar dinheiro pra cantar, mqfeentia
muito importante. 0 pagamento era o seguinte: soto cruzeiros ou /
jantava. Meu pai, ia me levar e me buscar.
Era fogo ser moça da classe mndia em Niterói. Naquela época, filha
de família, em Niterói, só tinha tres saldas na vida: casar, ser
professora, ou miss Icaraí. Eu tinha amiga, Aríete, meio matusque-
la, que ficava o tempo todo na janela, olhando pro outro lado da
9aia e dizendo: Marilia, aí que vontade que eu tenho de pegar uma
barca daquela e ir pro lia ser outa. •
Eu não consegui casar, nem ser professora, nem Miss Icarái. Ai meu
pai ficou preocupado. Não precisava. Ni-ha turma era só de cantar
e brincar. Por ser muito moleca, eles ms apelidavam de Bada, Maca-
ca, cachorro, Maricaca, Tico, Mico e Nica.
PX

KETI Êsse negocio de apelido, sabe por que ó que eu me chamo Ze Keti?
£ o seguinte: quando minha mãe ficou aòzinha pra me sustentar, ela
foi ser empregada doméstica. E não arranjava emprego corrigo. Então
ela me deixava na casa de uras parentRS, numa avenidinhaç Eu ficava
na Janela vendo os outros garotos brincar. Ficava ompinando papa-
gaio da janela. Parece filme italiano. AÍ minha mãe voltava e
ales diziam pra ela: o Ze ficou quietinha; Ih, como o Ze é nuieti-
nho, olha o Ze lóieto, Ze Quietinho, ZÓ Quáeto, acabou Ze Keti.
Ai eu começei a escrsver com K, oue estava dando sorte na época.
[Link].PTE_m^P-5

'd
Kenedy, Kruschev a Kubtscheck. OBpois, maus camaradinlT&^j, a.
te michou, tá sabendo ? Plicbou,
3oHTg do vale 0 apelido mais engraçada que eu me lembro S João Piston. João Pi_s
ton tinha esse apelido porque ele estava do nosso tamanho, da nos.
sa curriola, já namorava com a filha do Sargento Baltasar, e fjl.
cava chupando o dedo. Minha terra se põe muito apelido. Tem àté
isses versos..•
No sertão é diferente
tudo tem seu apelido,
cidadão chama decente
exclamação é Sgente
barulho chama zunido
prostituta lá é quenga

toucinho na graxa é torresmo

ar mesmo quem punha era o cego Aderaldo, La


no (•'branhao todo mundo sabe os seus versos de cor.
CONJUNTO INTRODUZ DESAFIO. NARILIA E JOffO DO VALE SE PREPARAM
ENTRA PLAY RACK.
De Manuel de Cavalcanti Proença, romancista, crftico literário
e estudioso da literatura popular brasileira:
" 0 desafio chega ao Nordeste nas Caravelas. 0 baião nasce da
viola dos cantadores. 0 desafio nue vão ouvir agora á um famoso
desafio entra o Cego Aderaldo, cantador cearense, e Ze Pretinho.
do Piaui. Esse quase lendário desafio deu-se na cidade de ttarzjL
nha, no Piauí, em 1916, E rendeu, na época, oitenta mil réis,
aproximadamente trezentlos contos hoje em dia. Note-se que, nesta
peleja, nos dois últimos versos, cada cantador propõe um trava-
línguas que deve ser repetido pelo adversário:
(J[$0 DR VALE Cego, minha toada e
um trabalho garantido
voce pra cantar mais eu
precisa ser aprendida
queira Deus me acompanhe, ai, ai, ui, ui
pra cantar nesse gemido

Se gemer for cantoria


voce é bom cantador
pois gemes perfeitamente
no gemido tem valor
Mas o povo nordestino
sé geme com grande dor
[Link] P* ÍO
x\

DflEn 00 VALE Eu vou mudar do toada


pra uma ous meta medo
nunca encontrei cantor
que desmanchasse esse enredo
á um dedo, á um dado, e um dia
e uma dia, ó um dado, á um dedo

PIA OI LIA 2n Preto esse teu enredo


te serve de zombaria
tu hoje cega He raiva
o diabo é teu guia
á um dia, I um dado, I um dedo
é um dedo, ó um dado, ó um dia.
3::~i no vale Cego, respondeste bem
como que tivesse estudado
eu também da minha ibarte
canto certo e aprumado
á um dado é um dado ó um dia
e um dia é um dedo e um dado

NARÍLIA ‘/amos lá, 3osó Pretinho


nue eu ja perdi o medo
sou bravo como um leão
sou forte como um rochedo
& dum dado s um dado e um dia
*e um dia e um dado e um dedo
3030 OG VALE Cogc, agora, puma uma
das tuas belas toadas
MA RI . IA Amigo, 3asé Pretinho
não sei que hei de cantar
só sei nue Hgpoig da luta
o senhor vendiyo esta:
quem a paca cara compra
#
com a paca pagara
30fflO DO VALE Eu estou me vendo apertado
que so um pinto no ovo
e o cego velho danad
satisfazendo es^e povo
cego, se não for maçada
repita a paca de novo
PARILI A Digo uma, digo dez
no cantar não tenho pompa
presentemente não acho
nuem hoje o meu mapa rompa
paca a cara pagará
quem a paca cara compra
[Link] PJJ

3ü3o QO VALE Qego, o seu peito é de aço


foi bom ferreiro quem fez
pensei que o cego não tinha
no verso tanta rapidez
cego, se não for massada
repita a paca outra vez
MARILIA Arre com tanta massada
desse preto capivara
nao ha quem cuspa pra cima
que não lhe caia na cara
quem a paca cara compra
pagara a paca cara
33ãQ 00 VALE Demore, cego Aderaldo,
cantarei a paca jã
teima a sim só um burrego
no bico do Carcarã
Ajam a caca»». ai, nao. • •
Ai, á caca mesmo... não á,..
Diabo! e: quem a caca caca compra
Caca... caca...ca...ca...ra...
Zt KETI Moro longe lá na zona norte
e trabalho no centro ria nossa cidade
leio todos os jornais da manhã e da tarde
para estar a par das novidades
foi o jornal aue disse
Que morrem 50C cçiãnças por di
fu digo o que Y&io, não digpo ous vejo
Porque o que/vejo não posi*o dizer
Eu acho nuyo a infância drecisa viver
Foi o jornal que disj
Que a/vida subiu não sei quanto
Eu/digo o que lgío, não digo
Jrque o que /ajo nao pa»Sa
/ ' * c,u*\
Eu acho qus/o povc
Eu acho pue o povo \)raç comer
foi o /Jornal que disse/
que/tem nil escolas/pra lecionai
•'eu digo o que lpío, não digo/o qus vejo
poroue o que .vejo não posso dizer
eu acho aue o povo prepisa estudar
Foi o jdrnal que digde
AJepÍ9, aue 99, ode 99 por cento do povo
não passa nem/na porta da facpldade
que sõ um por cento pode sgd doutor
coitado do pobre, do trabálhador
coitado do pobre, do trabalhador...
marilia

classe média aprendia violão, perdia o medo de cantar e nas-


cia outro jeito pra ser cantora que não era so ir pra Radio
Nacional, programa de calouro, Hora do Pato, Papel Carbono ,
lpvar bronca do Iry Barroso,
Muito tnmpo depois, eu soube nue meu pai, nessa epoca, escr^
veu uma car-ta pra meu irmão Luiz que estava na Italia, estu-
dando. A carta dizia:
"Luiz, não sei como vou te dar essa notícia. £ sobre Ma-
rília, e não á uma boa notícia. Voce vai ficar muito cha^
teado como eu fiquei. l\lão sei como isso aconteceu. Tanto
que eu me esforçei na educação dela. Depois que eu lhe
der a notícia, acho aue voce deve perdoar como eu também
já perdoei, embora não me conforme. Peço que voce me a-
conselhe sobre o que eu devo dizer a fazer. Aconteceu com
ela aquilo que eu sempre te disse que tinha mêdo: sua ir-
mã foi ser cantora".
Hoje quando acontece uma coisa boa na minha carreira, ele
é ciuem mais vibra. Igualsinho quando eu tinha quatro anos
e ele gravou minha voz...
PLAY BACK Ü TRA DISCO COM \JÜ7. DE MARILIA, GAROTINHA, CA TANDO...
MariLna, morena, Marina
voce se spintou,
Marina, voce faça tudo,
mas faça um favor.., etc...
(SEGUE P EMENDA CEM MARILIA E CONJUNTO, AO l/Il/O)
MARILIA Me aborreci, me zanguei
já não posso falar,
e ouando eu me zanga, Marina,
não sei perdoar
Eu já desculpei tanta coisa
você não arranjava outro igual
«
desculpe, Marina, morena
mas eu tou de mal
de mal com voce
de mal com voce
30h ' DO 'JALE Ai, de Fortale2a, eu escrevi uma carta paa meu pai. Perdão, pai,
por ter fugido de casa. Não tinha outr jeito, pai. Ppflreira não
dá pra gente viver feliz. Na o pedi licença porque conheço o se-
nhor: b muito pegado com cs filhos, não ida deixar eu sair de
casa só com euatorze anos. Estou em Fortaleza. Sou ajudante de
caminhão. Ganho duzentos mil réis por mês, mas acho quase certo
que não fico aqui. l/ou pro Sul, pai, todo mundo ta indo. Diz que
lá auem sabe melhora. Os meninos que terminaram o quinto ano vão
[Link] WXrt P. A '

pra aviação. Eu sátinha até o segundo, não dou pra


nha. Mas nao quero mais vendendo banaha, vendendo
São Luiz.
MARILIA CANTA RAIXINHO, NO FUNDO...
MARILIA Pirulito enrolado,
no papel enfiado no palito
papai eu choro,
mamãe eu grito,
me de um tostão pra comprar um pirolito...
D0ã3 00 VALE SEGUE FALAN90,..
OOrtO DO VALE Duntei setenta mil réis, pai. Vou arriscar minha sorte. Quem sa-
be dou certo, Sei fazer verso. Do lebrança a Ouda, Deouro, Ra-
fael, Leprinha, Ooão Piston. Lembrança a Tia Agda, Tia Pituca,
Tia Palmira. Peço oue o senhor me abençoe. Peça a mamãe pra re-
zar por mim. Nao sei quando vejo o senhor de novo, mas um dia ,
se Deus ajudar, a gente se vi»
MARlLlA Gloria a Deus Senhor nas alturas
e viva eu de amarguras
nas terras do meu senhor...
Carcara,
Pega mata e come
Carcará,
não vai morrer de fome
Carcará,
mais coraqom do oue homem
Carcará, pega mata e come
Carcará,
La no sertão á um bicho
qge avôa que nem avião
á um passaro malvado
tem o bico volteado
que nem gaviao
*
Carcara,
ciuando ve roça oueimada
sai voando e cantando
Carcara
vai fazer sua caçada,
Carcará
Come intá cobra queimada
fSas quando chega o tempo da invernada
no settão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim não pas-a fome
os borreqo que nescem na baixada
Carcará pega mata e come
Carcará,
não vai morrer de fome
[Link] PJM

Carcará,
mais coragem do que homem
Carcará
pega mata e come
Carcará, carcará
á malvado, é valentão
á a aguia de lá do meu sertão
os borrsgo novinho não pode andar
ele puxa no embigo atá matar
Carca rá,
Pega mata e come
Carcará
não vai morrer de fome
Carcará,
^ega ma tá e come
CÜRO 0 CORO CONTINUA MARCANDO, EM BG
Carcará,
Carcará...
CR RI LIA PERdao, pai, por ter fugido de casa. (\,'ão tinha outro jeito.
Em Pedreira não dá pra gente ser feliz. Vou pro sul, Tá todo mun-
do indo.
SOOE CtlRO
Carcara,
Nao vai morrer de fome
Carcará,
[Rais coragem do que homem
0
Carcara,
nega matá e come
li KtlTI A nega mandou fazer
um tal de vestido tubinho
e mandou pintar a oleo
uma flor na altura da barriga
e não gostei quiz briga, quiz briga
dessa moda eu não gosto
e já disse que não quero
e pra ser muito sincero
vou dizer uma verdade
Í que os homens de hoje em dia
levam tudo pra maldade
vão olhar pra flor da nega
e a flor vai virar saudade/ e a flor vai virar saudade
- Voce não pode largar os estudos, não. Tem 13 anos, não pode lar-
gar os estudos! - Vou largar, sim. Largar esse ano, o ano que vem
qual a diferença? - S'’!, pra fazer música, não á ?- £. Vou traba-
lhar, mas quero ser artista. - Isso de ficar batendo caixa de fós^
foro na esquina não á coisa de artista, não. t coisa de gagabun-
40

•©*
[Link] 'Wltf P-iS

vagabundo. Eu queria que voce estudasse Odontologia. - Ah, eu


não dou pra esse negocio de dentista, não. Ai, eu me mandei de
casa. Fiquei mais de um ano ao Deus dara. Dormi muito na Esta-
ção de Engenho de Dentro e Deodoro. Eu dormia e, toda manhã, /
quando acordava, meus bolsos estavam do lado de Fora, e tinha
uma porção de papel no chão. í que os gatos, os laráus, toda san-
ta noite me passavem uma revista e 30 encontravam letra de samba
no m"u bolso. Ai largavam tudo no chão. Comia na caso dos amigos,
às vezes não comia, ficava no ora - veja. Naquele meio eu conheci
muita malandro e eu, pra não passar por otário, fingia oue erama-
landro também...
TORI LIA Oi, poeta, tá de touca.,.?
Z? KETI Nao, meu trato, tenho um apontamento com uma^j*êg'£.
TORILIA &C0) Isso de ir
—^ —2
pra Caxias 9o e ondaj/íao. 0 até hgje, está
íerando ump/neguinha
sempre esperando umq/neQuinna /tpcTj&rfSr
/Ara pr/ Caxias.
it KETI P5, que/é isso, 3óa Roupa ? 01ha minha iKarra,,.,
TORÍLIA Fica /a vontade/ meu tratOj/Dem baseado, OFERECy 0 CIGARRQ /IO
Tq/na...
Ze KETI Obrigadó, Dã pegu
mARICIA Pegou de /rota, tornai 'landa pria cuca. "íão/tou te cobrando nada,
ainda fica de on
lt KrTl Obrigado, mas j/paguei ca diní mesmo. Com Praga
dq/mãe, Coisa/Ruim e Mline o.c® , doi/)ão, baratina-
/do. < tf
nfiRILlA Oue nada / Deixa v^r o olho. Mem tá/ vermelho.
lí KETI 0, ^eu camaradinhcf, nao fica falando em vermelho, não, que ver-
melho tá fora de moda...
MARÍLIA *e adianta uma nota, ai... (METE A I*|R0 NO BOLSO DO 3É KETI)
(PUXA PAPÉIS E LE) "Eu sou o samba".., 5Ó letra de samba, 5,
Caubi, letra de câmbio dá mais...) LÇ)... "Se alijuam perguntar
n
por mim, diz que fui por ai"... ue recado e esse, meu trato?
Diz que foui por ai... não dá o endereço nem nada? Ninguém váá
te achar, Tchau, Caubi. Se a justa dá as caras diz que fai por
ai... (SAI.C0N3UNT0 SOBE.,)

lí KETI I^u barraco tem


sobre a mesa uma moringa e uma tarimba
para eu descansar
gue não cabe minha companheira
que, humildemente, dorme numa esteira
e quem entra pelo lado esquerdo, num ca-tinho,
ve-se um fogaozinho marca Dacaré
ema prateleira tem
uma concha e duas panelas
um par de copos quem nos deu foi a Rosinha
do Dosé
[Link] ^1L7 P.\L

Tem também um bule pra café


E uma pinga para quem quizer

Nosso prato o cachorro


já quebrou por que um dia viu um osso
e o osso era meu
lambeu, lambeu
e o osso era meu
lambeu, lambeu
e o osso era meu
Na parede pendurado junto à porta pendurado esta
o retrato de São Jorge
que e meu santo protetor
E da janelinha, a noitinha,
nós vemos, iluminado,
nosso Cristo Redentor
AOtes de dsitarmos, toda noite,
toco no meu violão
para cantar pro meu amor
por que eu 30U
metido a compositor
porque eu sou
metido a compositor
EMEN0A
A 'Sina subiu o marro do Tinto
pra me procurar
não encontrando foi ao morro da Favela
com a filha da Esteia
pra me perturbar
Mas eu estava lá no morro de "ão Carlos
auando ela chegou
fazendo escândalo, fazendo quizumba
dizendo que levou meu nome pra macumba.
So poraue faz uma semana que não levo uma grana
pra nossa despesa
ela pensa oue a minha vida e uma beleza
eu dou duro no baralho pra poder viver
A minha vida não e mole, não
entro em cana toda hora, sem apelação
eu já ando assustado e sem paradeiro
Sou um marginal
brasileiro!
CONJUNTO PARA DE ESTALO...
MARILIA Dia um A, Ave Maria
Oi» um B, brandosa e bela
Diz um C, cofrin da graça
[Link] D.^

E um O, divina estrela
Esperança nossa...
MARILIA E CORO SEGUEM EM BG
30fÍ0 QO VflLE Isso á uma Incelsnça com as letras do alfabeto. Incelença e
musica que se canta emvelário. \/em rezadeira famosa, de lon-
ge, para cantar incelença. Tem cachaça, bolo de fubá, pá de
moleque. Morte á coisa de todo dia. £ comum, auando alguém da
familia está doente, chega um outro e perguntas - Como é ?
Ouando é nue sai os dôces ? Viajando no caminhão, quando a
gente via luz de lampião acesa numa casa de madrugada, podia
contar- era velorio. tV longe se ouvia a cantoria.
MARILIA (SOBE CANTANDO COM CORO)
Mãe dos mortais
Nuvem do brilho
Orai por nás
Por nossos filhos
Diga um Mê, mãe dos mortais,
Diz um NP, nuvem do brilho
Diz um 0- orai por nás
E um P, por nossos filhos
CORO CEGUE EM BG
João Cabral de Melo Neto:
"Como aqui a morte á tanta
so á pos3Ívol trabalhar
nBssas profissões que fazem
da morte oficio ou bazar
So os roçados da morte
Compensam aqui cultivar
Simples questão de piàntar
Que é a morte de nue se morra
De velhice antes do trinta
De emboscada antes dos vinte
De fome um pouco por dia".
Sno SOBE
Diz um U, -unica 3aida
Diz um V, vital fecundo
Diz um X£, js dos mistérios
E um Z, zelai p mundo
MODULA, INCISIVO...
Carcará, pega, mata e come
jDãü DO VALE (EMENDA)
£ que eu sou chofer de caminhaõ
£ que eu sou chofer de caminhaõ
CORO SEGUE CANTANDO BAIXINHO
Ser chofer de caminhão lá no norte á importante. Tem mais di-
nheiro. Falto marinheiro nuando chega na Praça Pteuá. Mulher
[Link]^p.y

assim. Chaga na cidade, tdcando buzina, quatro, zina9.


Fon, fon, fon, Fon... Chegou a turma do cèao, A gente uai nae
festas sujo de graxa e óleo pra todo mundo saber- á chofer de
caminhao. Tocou uma buzina, mulher nao apareceu na porta— es'a
nao tem roupa, E mulher ia nao folga muito não. SÓ tem quatro
coisas oue mulher pode dizer pra homem na minha terra- Valha-me
Mossa lenhora do Bom Parto;Xô, galinha; entra pra dentro, menino;
e vizinha, me acuda que meu marido tá me batendo.
Fieuei dois anos num caminhão, dormindo na boleia, l/i gente sovi-
nar água. iTuita gente. Pedia -água. Nao dava. 3uancjo acontece se-
ca. Nao seca de jornal, então muita gente sovina água.
ENTRA CONJUNTO. JOãO CANTA
Uricuri madurou
0 sinal que arapuá já fez mel
Catingsuira r&lorou lá no sqfcão
vai cair chuva a granel
Arapúa esperando
Uricuri madurecer
C^tingueira Pillorando
sertarjejo esperando pra chover
lá no sertão
Quase ninguém tem estudo
um ou outro oue la aprendeu a ler
mas tem homem capaz de fazer tudo, doutor
que antecipa o que uai aoontecer:
Catinggueira fulora uai chouer,
Andorinha uoou uai ter verão
Gavião se cantar á estiada
« vai haver voa sagra no sertão
5e o galo cantar fora de hora
é mulher dando o fora pnde crer
Acauã se cantar perto de casa
á agouro, á alguém que vai morrer
5ão segredos que o sertejejo sabe
a nao teue o prazer de aprender a ler
E FENDA
Coronel Antonio Bento
Quando fez o casamento
de sua filha Raria
Ele não quiz sanfoneiro
Foi no Rio de Janeiro
Contratou Qené Munas pra tocar
Nesse dia Bodoco faltou pouco pra virar
Olelê, Olala,
Nesse dia Bodocó faltou pouco pra virar
Todo mundo que mora por alí
[Link] 1U/7 P.Í5

nss^e dia não pude resistir


auando ouviram o tonue do oâáno
se alegraram e saindo requebrando
Inté Ze Macabheira que era o noivo
Oançou a noite inteiro sem parar
que e costume de todos que se casam
ficar doido pra festa se acabar
Olelê, olala, etc...
La prás tantas 9ané se enfezou
e tocou um tal de roque n'roll
os matutos cairam no salão
não queriam mais xote nem baião
e aue briga se eu falasse em xaxado
Foi ai que eu vi que no sertão
também tem os matutos transvialdos...
Olé, lê,
Olala,
Nesse dia Bodocé faltou pouco pra virar
CONJUNTO SEGUE EH BB)
Guando sertanejo aprende a ler é fogo. Eu, por exemplo.
Minguem me segura, Tou ficando cada vez mais importante.
Essa música, ouando eu fiz, não passava de um reles bbião,
Oepois, Tim Haia gravou, as meninas da PUC estudaram ela e
descobriram qu era um rock rural. Pois e, eu sou compositor
do rock rural.
SOBE...
Olelê, olala,
Nesse dia Bobodo faltou pouco pra virar,..
« EHENOA
0' TRÊS Eu sou o samba
A voz do morro sou eu mesmo, sim senhor
ouero mostrar ao mundo que tenho valor
eu sou o rei Hosterreiros.
OS TRÊS SAEn. FIM HA PRIMEIRA PARTE.

rCJNOA PARTE

KGTI Em 1943 o Brasil entrou na Guerra. Guando estourftja guerra, uma


porção de gente vai pra polícia, porque polícia é o último que
entra no pau. l/ai dai, eu entrei na policia militar. La, quem é
atleta, tem vida mansa. Fui pro atletismo poroue meu negocio não
era fazer muita força. Todo dia a turma saia da São Clemente e
tinha de dar a volta na Lcgoa Rodrigo de Freitas, inteira. Eu era
sempre o último. Eles, voltavam, tomavam, banho, iam por rancho.,
e eu tou na rua batendo perna. Nessa época, os alemães afundaram
o noavio brasileiro Baependi. Minha turma que fez linha detiro
comigo. Eu também devia estar no Baependi. Por sorte, ainda tava
[Link] 11\a

batendo perha ria rua


CAPTA
Se alguém perguntar por mim
diz que foi por ai
com um violão debaixo do braço
em qualcuer esquina, eu paro
em qualouer botequim, eu entro
se houver motivo
-émais um samba que eu faço
EHENDA
Senhor motorista de praça
meu velho amigo
agora também vou fazer
minha média contigo
a sua vida corre perigo constante
e não te dão colher
porisso, as vezes, na rua
tu» me deixas a pé
Não, não avance o sinal
nem ande na contra-mão
quem dorme no volante
*
acorda no ceu
Todo o cuidado é pouco
nesse transito louco
.uando preciso de um f^yi
faço sinal
olhas para o outro lado
ai o euq a vaca vira boi
fico muito inoocado
Pias, no fundo eu te dou razão
sei que não fazes por mal
a cara da gente não diz
quem é o marginal
a cara da gente não diz
quem é o marginal
harilia Vim de muito longe
vim de muita dor
atravessei o mundo
atrás de um amor...
SEGUE CANTANDO Efl 3G
Sou um cabra valente
Sou um bom pescador
eu sou bom de rêde
eu sou bom de amor
DOJtü DO VALE Eu vim foi do Garanhão, terra de Gonçalves Dias e de Ferreira
Gullar. Primeiro num caminhão, de Salvador até Teofilo Otoni.
r
La tinha um garimpo. e lembrei que meu avo leu minha mão e
[Link] \\\sf Q.X1
o

V •*«
disse que eu ser rico. Fui pro garimpo arriscar. Cavei,
buracos de tres, quatro metros no chão. Cristaly não achei1?
Paira Azul também não, Achei foi formigueiro. No quinto formi-
furiro, desisti de ser rico e vin de ajudante de caminhão até
o Rio. Dormia montado em cima da aroa. 0 chofer, pra me oagar,
me dava almoço ou janta. Parava numa pensão e dizias Bscolhe,
neguinho, hoje qusr jantar ou almoçar ? Ai eu chaquei no 'io ,
com quatrocentos reis no bolso. Cnde é Copacabana, moço ?
- Ta me nozando ?- Não, tou chegando. Fui pra Copacabana. Fe emfr
nrsguci numa obra, de ajudante de pedreiro. Dormia na obra, sé
saia de noite. Sem família, sem amigo, sem ninguém...
(CANTANDO)
idas, plâfitar pra dividir
não faço, mas isso, não
eu sou um pobre caboclo
ganho, a vida-na enxada .
o qua eu colho é dividido
ccm quem não plantou nada
se assim continuar
vou deixar o meu sertão
mesmo os olhos cheios dêagua
e com dor no coração
vou pro Rio carregar massa
pros pedreiros, om construção
íteus ats esta ajudando
est.a chovendo no sertão
mas plantar pra dividir
não faço mais isso não
3 do l/ALE Quer ver eu bater

vai ser bom ora mim


e bom nro doutor
eu mando feijão
ele manda trator
vocês vao ver
o que b produção
modéstia a parte
eu bato no peito
eu sou bom lavrador
mas plântar pra dividir
nao faço mais isso não
\y aw**‘
[Link] üYl^/ p.04*

P1ARILIA Com a bossa nova, música brasileira tomou conta das éaculdades.
Eu cantava muito na faculdade de Engenharia de Niterói. Agente or
ganizava shosas. A música que fazia mais sucesso era essa, de Car-
los Lira e Chico de Assis...
-... Havia um gigante adormecido
Um dia o gigarite despertou
deixou de scsr gigante adormecido
e dele um Ánão se levantou
era um pafís sub-desenvolvido...

Sub-dnsenvolvido, sub—desenvolvido, sub-desenvolvido, sub-desen-


voloido... ^
r
C RO Sup-desenvolvido, sub-desef^íg)l\^.do

r ub-dessnvoLi/ido, sub-de~j^j*íflA^.do
. ..HA RI LI 4 E passado/ó perícKfóJ^*f^niál
ser um bom quintal
e depois, dadas as/contas a Portugal,
in/talou-se o latifúndio nacional...
C^RO 90b-desenvoluirfo,etc..•

OS TRES Então b bravo povo brasilplro


em perigos e guerra esforçado
mai' que oermitia a f/rça hckmana
pintou couve, colheu bannnh.,.
narilia /Étravo esforço do /ovo bras
mandou vir capital la do ostrafigeifo...
TODOS 3ub-dosenvolvido, etc..
TODOS As naçõos do mundo para c» mandaram
os !'aus çspitais tão desinteressadas
/
yr
lí Tl - ,s gações, coitadas^ queriam ajudar^ &
E^aquela il a velhr não roubou ninguém
‘pais de pouca tprra 80 nos fez um bem
Um Dig berf
Blom, I r)/ hlom, blem...
D OãO Nos dep/luz...
(vjARILIA Levoj/ ouro...
lí js, deu trem...
TODOS fias, levou o nosdo tesouro (CHOROSOS)
Sub-dssenvolvido...
/
HARILTA fias data hbuve em que
os tem/os duros e sofl
poijrpra ca chegaram
capitais dos pai?
(COREOGRAFIA DEJJtfSlCAl ATER I CA NO)

03 TRES Pais, amogo,/desenvolvido


país amigcE, pais amigo,
amigivoo sub-desenvolvido
[Link] \^L-7 p-Ü

pais amigo, país amigo


MA RI LIA Os nossos am^óos americanos
T ROB C4m muita f/, com muita fé
yW’’
PIAR I LIA Pios deram/dinheirp'*e jjí^-^lantamos
T 'DOS SÓ caf/, sõ café
MA ’LIA f t erra nue, myér. plantando tudo
Ppds-se pàãntar o nue quizer * * C0
V
-
/mas eles r^solver/óm nue nos tipnamos que plantar...
TQXS 3o café, nõ café.
’\ "LIA Bento oue bento e o frade...
TOD^S Frade: /
MARI LI A Na boca do/forno...
THO 5 Forno! /
MARILIA TiraiÁ bolo...
TC Dl 3 Bolo'7!
MARILIA Féremos tudo nue o /mestre mand/r?
/ j /
TOOCS ./faremos tndos, faremos todos, faremos todos...
MARI LIA 'omeçaram a nos/vender e a/nos comprar...
3o ~o Comprar fysrrr
Flaríl Ia Ven;jpr pnpu
lé Comprar/fninerio
MA RI LIA yend/r navio
Cá nossa vela /
vender pavi
TnDn3 SÓ mandarem o nue sobrou la...
■i,o ’tlt ' f 7 Pnhárlp/rii aestica, nue qz/isa eelástica,/lue entusiástica, nue coi-
sa prastica...
Rock balada, file/' de mocinho, bt/ refrigerado ola. .

3030 D \I L.E ... E soca-6o]


I D "3 lub-dnsenvolvido...etc. ..
PIA RÍ LIA Pr,vn 3ub-y4ssenvolvído tem/fjersonalidade
/ /
não nr impressiona *?om facilidade
embora, nense como gfiericana, dance ^omo americana, cante como

V-
1
(COREOGRAFIA L\ THE S" REPCS C r‘ PERUCAS OE R
LACK)
ê boi
ê roçado bão
o mío do neu sertão
do sertão do cariri
boi mió eu nunca vi...
Sumero o boi.
HA RI LIA Sub-rinsenvolvido, embora pense, cante e dance
como americano...
Pião come como americano
não bebe como americano
vive menos sofre mais
[Link] 31\a [Link]

isso é muito importante


muito mais do qus importante
pois difere dub^esenvolvido dos demais...
TODOS Personalidade, personalidade
personalidade sem igual
DO^O DO VALE Porém»..
todos Sub—desenvolvida, sub—desenvolvida,
se quiser exporto meu knou-hou/
DHÃn DO VALE Somo ajudante de pedreiro, eu trabalhava numa obra, na rua
Darão de Ipanema. De noite, ia na radio conhecer os artistas.
)npois de dois meses, o Ze Gonzaga gravou minha primeira roúsl-
ca. Depois de um ano, a Marlene gravou Estrela Miúda. E come-
çou a fazer sucesso. Eu ainda trabalhava e dormia na obra. Per-
to da obra, tinha uma moça que tocava o disco ^ia inteiro. Eu
nunca me atfhni com coragem de dizer que era o autor. Mas, um dia
não agueíütei mais. "Você tá ouvindo essa música?" - E9tou, -é
Estrela i luda" - "Sabe quem tá cantando?" - a Marlene".
- Sabe nuam á o autor da música?" - "0 autor? Não.." -"Sou eu".
- "lue e isso, neguinho, tás delirando ?
Traz massa, neguinho, traz massa".
MAR3LIA Minha irmão morava em São Paulo e eu sempre ia lá. Fiz muitas a—
mizades. Conheci muita gente, Semnre cantando. Foi ai oue me apre_
sentaram a Guarnieri e le me convidou para fazer Arena Contra Zum_
bi... (LEMBRA D^IS VERSOS DE ZUMBI)... Foi uma fase muito criati-
va. De todo canto pintava gente fazendo coÍ3a.
Compositores universitários trabalhavam com ZÓ Keti, Cartola, Nel_
son Cavaquinho. Pessoal do teatro, cinema novo, música, escrito-
res, todo mundo tentando fazer o seu trabalho pegando os proble-
mas o a realidade. Cinema entrosava com musica, ^utor de teatro
fazia letra pros compositores. ?,*. fceti mesmo...
v
No"Rio 40 Gráus", de elson Pereira dos Santos, tinha a "Voz do
Morro", samba dele. ”’io, Zona Narte", tinha Malvadez Durão.
it KETI Mais um malandro fechou o paletó
Eu tive do, eu tive dá
"'uatro velas acesas
em cima de uma mesa
e uma subscrição para ser enterrado
Morreu Malvadeza Durão
Valente, mas muito considerado
Ceu estrelado, luz prateada,
muito samba, grande batucada,
o morro estava em festa
ouando alguém caiu
com a mão no coração sorriu
morreu Malvadeza Durão
e o criminoso ninguém viu
[Link]^àkz-pAS

(y!'.RILIA
o morro existe mas pede pra se acabar
Canta, nas canta triste
pornue tristeza e só o que se tem pra cantar
lí KETI Gimba, Carlos Lira e Gianfrancesco Guarnieri..,
NA RÍLI A Chora, mas chora r^ndo
Porque e valente, nunca se deixa quebrar
Ama, o morro ama
um anor aflito, um amor bonito que pede outra história
Fazer sa-ba não e contar piada
quem fizer sanba assim não ó de nada
Pois o samba e uma forma de oração
dCTÍü do vale ... Baden e Vinicius..,
MARÍLIA Pois o samba nasceu ló na Bahia
e se hoje êle é branco na poesia
e se hoje êle é branco na poesia
êle ó negro demais no coração,,,
lí KETI Sérgio Ricardo e Rui Guerra,.,
marÍlia Sarava Ogum
Ftendinga da oente continua
Cadê o despacho pra auebrar
Santo guerreiro da floresta
Se vooê não vem eu mesmo vou brigar,,,
Sevocê não vem eu mesmo vou brigar..,
(FALANDO) Doão do Vale.,,
ogTÍo do vale Ouer ver eu bater
enxada no chão
com força o coragem
e satisfação
ó só me dar terra
*
pra ver como e
' fhs plantar pra dividir
não fano mais isso,..
lí KETI EMENDA
Pode me prender,
pode me bater
que eu não mudo de opinião..,
n rília lí KETI, Opinião,..

lí KETI Se não tem agua


eu furo um doço,
se não tem carne,
eu compro osso
e ponho na sopa
e deixa andar..,
FalB de nim quem quiser falar
aqui eu não pago aluguel
T
[Link] Ulx7 P-1&
25

3B eu morrer aoanhão, seu doutor S^Q


estou pertinho do céu...
Pode me prender
pode me bater
poder até deixar-me sem comer
que eu não mUdo de opinião

SEGUE CANTANDO
Acorda amor
que eu tive um pesadelo, agora
sonhei oue tinha gente la Fora
batendo no portão,
nue aflição
era a dura
numa muito escura viatura
minha nossa, santa criatura
chame, chare o ladrão.
Acorda amor,
nas o mais pesadelo nada
tem gente ja no vão da escada
fazendo confusão
que aflição
são os homens
eu aqui parado de pijama
eu não gosto de passar vexame
chame, chame, chame o ladrão
MARILI A Se eu demorar uns meses
*
convem as vezes,
você sofrer,
mas depois de um ano
eu não vindo
ponha roupa de domingo
e pode me esouecer
3CnA ac VALE Acorda, amor
que o bicho é brabo e não sossega
se você corre o bicho pega,
se fica não sei não.
Atenção
?f KFTI Mão demora,
dia desses chega sua Hora
não discutua atoa, nao reclame
clamo, chame, chame, clame, chame o ladrão...
'ião esqueça a escova, sabonete e violão
MARILIA E DOãO SAEM. LUZ EM 2Í KETI, OUE CANTA
Meu pai morreu de uma xícara de café
e nessa historia entrou um nome de mulher
o velho bobeou
entrou numa gelada
falou' aòziriho, morreu maluco
[Link] P-l>
26

E muita gente Heu risada


^■ulhar comigo tona sopra de jornal
e ba-^ho Frio matinal
almoço nn restaurante chinês
tomo café no botenuim
não aceito nuitute na casa das negas
pra não me dar mal
o Nelson Cavaquinho entrou numa dessa
e foi parar no hospital

Minha mãe conta nue meu pai


era boêmio de verdade
um sergipano, don Duan, conquistou uma cidade
deixou um filho em cadaporto
um marinheiro garanhão
a aqui no Rio ficou eu
com o nome Ze Flores
portelense, vascaino e macumbeiro
e protegido pelo 3ao Dorge Guerreiro,.»

f INTERROMPIDO FELA PLAY "ACK


VOZ OFF Oi, Zs que samba é esse ?
zf Ue, nao gostou, não ?
0* ** ?
voz Voce nao e o famoso Ze Keti que fazia violentos sambas
de protosto ? Qual é essa de "Papai tocando café? "
zt Pois é,.. (CANTA) Cuantc riso, oh, Quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão,.,
voz (INTERROMPENDO) T3, S, ponta, vanos conversar.

zf Deixa eu fazer minhas marchinhas, minhas musiciuinhas pra


divertir a rapaziada,..t), Roa roupa, olha o ^eu lado,,.
voz Fugiu da raia, Rohin Hood da Portela ?
zf âdigo, deixa eu guardar minha boca Dra comer farinha, dei-
xa...
voz Mas,explica, não tens mais protestado,
zf 0 amign quer saber...?
voz • . • Fala» .,
zf f o sagu nte, meu canaradinha, é que ou descobri que a
gente termina imitando o nus americano faz, até pra pro-
testar contra americano.
voz Nao entendi...

zf Por exemplo, se tu faz u~a música que todo mundo entende,


todo mundo entende. Agora, se tu faz uma música que nin—
gué entende, ninguém entende. Entende ?
VOZ Não

zf t!, ^eu camaradinha, tu precisa entender o orotosto, que


o protesto também evoluiu. Çsee negócio de falarem fo-

me e morro e anjinho e planta e divide, isso saiu


[Link] P-3ff

27
dd moda.
voz Mas eu nunca mais te ui em protesto nem de nota promissó-
ria
it Oue é isso ? luando a moçada cnmeçou a ficar nua, pra pr£
testar contra terno s gravata, eu também Ia entrar nessa.
Mas daí, minha mulher, oue sabe das coisas, felou: Nao t_n
mete nessa, ?é. jj^riOulQ' pelado^n^o^^^otes^oT^ atenta-
dcT ao" pudor. ifia ,40, a 1 I n ea 37..
V OZ m
Mas havia mil formasl :estíar tu oeu uma de Ze Juie—
tinho.
z£ Tentei todas que pintaram. Ainda no capitulo das importa-
ções, entrei no Black Power, mas meu cabelo não crescia e
peruca tá muito '•■aro. Depois protestei contra poluição ,
entrei na revolução sexual, cinema ud^grudi, gay-pouer e
atualmente estou no umans-libe.
VOZ Fazendo o cue ?
Tou libertando umas mulheres aí. Toda noite eu liberto
uma. uando da.
V oz PJão te vejo fazer nada...
zf Por nue não ? Como esse negócio de falar entrou pelo ca-
no, eu fiz esse recado: " tem razão, a razão já era. A
era da palavra não lavra. Na minha com a mina, sem mina,
desanima e coco com xuxu não rima." Aconteceu o seguinte:
a censura não entendeu. Mas, denois e nublico também não
entendeu. E, aliás, nem eu nntendi. E finalmente, amigo,
me sugeriram uma greve de fome. Eu achei legal. 5o que
tou fazendo isso ha 53 anos e também não deu em nada.
voz Mas escuta aqui...
n
zí T) amigo, corta essa. uer protesto maior do que eu conti-
nuar vivo.
LUZ EM DCftO DO VALE...
CANTANDO
30?Í0 £, meu irmão
vim aqui so pra lembrar
nue ningue^ vai
poder nessa vida vencer sem lutar
pois a vitoria
p uma semente semearia no chão
e uma semente semeada no chao
a semente espera a chuva
pra ela poder nascer
e a vitória, a coragem
de esquecer, de sofrer
lueira ou não oeeira eu chego lá
oueira ou não oueira eu chego lá
queira ou não oueira eu chego lá
[Link]

Sb eu não chegar a ver

vai nascer de mim quem vem ora ver

bis

Plantei uma árvore que dá fruto

fi? uma canção pra se cantar

vou caminhando dizendo

queira ou nao queira eu chego lá

ctlRO Queira ou não queira eu chego lá.

DCiãO Dai eu voltei ora Pedreiras. Fui recebido como seu eu

fosse o Presidente. Puseram meu nome na rua do Golada.

Foi tudo bem. Menos minha terra que continuava a mesma

depois do todo êsse tempo...

CANTA

Seu moco, nuer saber

eu vou cantar um bèião

minha historia pra o senhor

seu moço, preste atenção.

Eu vendia pirulito

arroz doce e mungunzá

enquanto eu ia vender dOce

meus co1r§3s iam estudar

a minha mae tao oobrezinha

não oodia ma educar

e quando era de noitinha

a meninada ía brincar

e, virge, como eu tinha inveja

de ver o Zezinho contar

o professor ralhou comigo

pornue eu nao ouis estudar

Hoje todos são doutor

eu continuo joáo nirgqám

pois ouem nasce pra pataca

nunca pode ser vintárr.

vê meus amigos doutor

basta pra me sentir bem


[Link] 11ÀJ2- p.
29

mas quando todos elas ouvem

um baiãosinho qua eu fiz

ficam tudo satisfeito

bntem palma e pedam biz

diz - joão foi meu colega

como eu me sinto feliz.

Mas o negocio nao e bem eu

? ffciné, Pedro e Boao

que também foi meus colegas

e continuam no sertão

não puderam estudar

nem sabem Fazer baião...

Em 1970... como é que eu digo ? Como é que eu digo?...

Eu não t'nha mais vontade de fazer nada, não.... Não ha-

via mais sentido nos trocos. E pra aumentar, eu tinha pe£

dido minha primeira filha. Foi outro golpe. AÍ o Vinicius

falou: " Nos vamos fazer um trabalho na Argentina, E topei

Antes de ir pra Buenos Aires, nós demos um recital no Tea-

tro Castro Alues, na Bahia. Foi bonito. Nunca mais eu

tinha visto tris pessoas reunidas, Daí eu cantei isso.

CANTA

Foi no ano de 1789

em Ninas Gerais

que o fato se deu

E hava derrame do ouro

oue era o tesouro

que os brasileiros tinham de pagar

Esse ouro ia longe, distante

atravessava o mar

ía pra Portugal

para o rei gastar

(FALANDO) No Teatro Castra Alues, eu jé saí do palco cho-

rando, "Liando nos três entramos o teatro veio abaixo. Sa-

cudiu o meu coreto. 0 publico e a gente, emocionados. Foi

um bom ensaio geral. De la nos fomos pra Argentina. La,

trabalhamos num cafe concerto chamado La Fussa. A» e


^[Link]&kZ-P^i

que eu comecei mesmo a nascer de novo..,

(CANTA)

0 mineiro, nue é bom brasileiro,

e oue e altaneiro, garrou a pensar:

se esse ouro é ouro da terra

da no^sa terra por que e que ele uai.

Se juntaram numa reunião

resolveram fazer uma conspiração

Manoel r!a Costa,

Antonio Gonzaga, Oliueira Rolim

e tem mais um nome, que é o nome do homem

que Foi mais herói

esse fica pro fim,,,

(FALA) A qente oensava que não podia mais falar com niji

guém, se comunicar.... e aquela gente toda, em Buenos Ai-

res, Rosário,,, tudo muito nuente» adoravam Vinicius, e

a gente vondo como era ligado com eles,.. =» mesma terra,

sangue da mesma terra, o mesmo continente,,,

(CANTANDO) Z o no -e do homem

que foi mais herói

aprenda quem muiser

Joaquim José da Silva Xavier

e que foi ohamado em todos os tempos

por todas as gentes de o Tiradentes

de o Tiradentes..,

Se saber mais tu queres

lhe diga era alferes, era um militar

e havia entre os conjurados

um homem danado

veja o nue êle fez

Seu nome e triste, sem gloria

entrou na histnri3

Silvério dos Reis, Silvério dos Reis

Escondido feito um bandido

esse traido foi correndo


[Link] JlàJkt

falar oro Governador

contou tudo, fez uma tal rena

nue o l/isconde de Barbacena

soltou os homens na rua, mandou sentar a pua,

pegar e bater, matar e oronder...

matar e prender...

(FALA) Ln na Argentina fui conhecendo cantor e compositor

sul-americano que faziá o "esno trabalho eue a qonte pela

America Latina. Violeta Larra, Mercedes Bossa, Victor Ta-

ra, Bola da Neve, Serrafc, Roberto Daruin...

(CA* TA) Foi então que pegaram tod-s os conjurados

e encarceraram numa crisão

e depois de um tempão fora- todos soltados

só o Tiradentes foi enforcado,

cha-ando pra si a culpa por inteiro

o culoa de tudo

foi homem peitudo, foi bom brasileiro.

Fcsa historia ó bem verdadeira

foi a luta -rimeira que se deu no tírasil

e deoois tantas houveram

aue por fim fizeram

um Brasil mais decente

um Brasil independente...

Independente...

(FALA) Tiradentes, Bolívar, San ""artin, Frei Caneca, Tose

flarti*..

avuelo
M [Link]^^tZ-P-^ 34

OtíflO DO VALE Oançao do povo latino-amer?cano

TODOS 00 TR^S Para hacer esta muralla

traigam me todas las manos

bis

loe negros, sus manos negras

los blancos, sus blancas manos

una muralla que vaiga

desde la playa hasta ao monte

desde la playa hasta ao monte

desde el monte hasta la playa

haya sobre lo horizonte

Pun, Dun - quien es

una rosa y un clavel

abre la "uralla

Pun, oun - nuien es

el sable dei bacharel

cierra la muralla.

Pun, pu, - nui~n es

la paloma y el laurel

abrm la -uralla-

Pun, pun - quíen es

el gusano y sl cienpies

cierra la muralla.

Pun, pun - -'uinn es

el corazon^tel amigo

abre la muralla

al veneno y al punal ?

Cierra la muralla

La pilla de bierba buena

abre la muralla

al diente la snrnnnte ?

cierra la muralla

al morazon dei amigo

abre la muralla

al ruisenor en la flor

[Link] 3àkZ_ P-^r
35

abre la nuralla

Zíf KETI Fobre não é um


4
pobre á ais r!e dois

muito mais de tres

e vai oor ai

e vejam so

□eus dando a paisagem

mntarfe do céu já e meu

pobre nunca teve gosto

a tristeza á sua cicatriz

repare nue so Hb ve2 em nuando

pobre & feliz

ai, tanto desgosto, aá, tanto desgasto

assim a vida vale a pena não

mas e explicar

a situação

dizer ora êle que

pobre não p um

pobre e mais de cem

mais de um milhão

b vejam so

□eus dando a paisagem

o resto e so ter coragem

3ífflQ cc VALE Ptes plantar ora divi 'ir

nao faco mais isso não

C'^RO Podem me prender

podem me bater

que eu não mudo de opinião

□eus dando a paisagem

o resto á so ter coragem.


0 0
Carcara, pega, mata e come.

I
F I Pt
*
Rio de Janeiro, 4 de abril de 1975

Gduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Armando Costa


o fí apc promoções e produções artísticas ttda
[Link]àULP-^
1 1
d à

.Imo. 3nr. Chefe do Serviço, de Censura de Diversões Publicas

MJ-Drr "V'KU
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• 9 HAt 16 31 18196

L ...

A.P.C. PROJHOÇÜBS E PRODUÇÕES ARTÍSTICAS LTDA,

sociedade por cotas de responsabilidade limitada com sede na

rua Francisco Sa, 88, sala 511» tendo em vista a liberação

do Show "OPINIÃO” vera, com a presente, requerer se digne V.S,

designar data para a apresentação do espetáculo para esse ser

viço» esclarecendo que o mesmo se dará no Teatro Opinião.

1T, Termos

P. Deferimento

Rio de Janeiro, 9 de maio de 1975

•<d
■?-
Paulo Eduardo de Araújo Saboya

t - C - /í— jCt,

Rua Francisco Sá, 88-sala 511, tel.:227 5675-zc. 37, Rio de Janeiro Gb
S E RVIÇO PÚBLICO FEDERA
Departamento
Serviço uo

MEAio aau,
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"CrUUJO* face ao pa£eceJ,
utor* ccuvâldc
cBüVAjaw jxlho iEm 4rrj/y t.n
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'TQàUçSe.*** A.P.C. FRCKCÇCSS # RIOô* áHTí « LÍD^/ V»'/'
>ireçãe • • • • t 1XII IU1B3RA "wílson de queircz
®cI&aXKG omxSo
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Ge *hew eus i cal ondt três oleas#


tos9 únicos iat*xrantss is shsa» se reveste e em coajunto con-
tam suas vidas desde o início de suas carreiras» apresentam trj
Civus do folclore toasilairc da norte» alên 4e varias músicas /
que dão continuidade ac espetáculo*
> d show» obedecidos es cortes awgj
ca4oa per [Link]* no que coacorao as partes política e tóxico»
podara ser liberado poro «soloros do 16 anos» faixa etária que /
cabo aos nesses jovens de hoje, que já teu canhaciaeafcô pleno e
use mi aljnaut* palavras» entiganente palavrões» aquelas inclui*
ãáà m texto* heferlne-nrs tee cortes assinalados mie fie* 8 e

33* qua» s nesse ver m#« tem de chocantes pela maneire oen que
sãu citados» em tem cie ceeiciceôe* perdendo-se no contexto*
Cs, bex entretenimento» cenário /
único do lis* teatro Ce «rema eex alguns praticáveis» roupas co-
muns» n<ío he vende quaisquer gestos ou ecrcações indo core ses*
S«a*j* opinamos» após as justifl
cativas ttoiaa» pala Imprepriedade para menores de 1Ó anes» ter*
J
nanás sen efeito ee oortee éte fls* 8 e 33*

í
f
[Link]

[Link]-SUANABARA (SRA A)-FlCH4PO| *

l/id~UrT SR/RJ

1 b Jiüi iü i o ^z 02 3 7 5 0

«.NISTÍPIODA^TtCA ; ]Q
• i
DEPARTAMENTO DE FEDERAL

Brasília, DF.

_ „ . Em, 11 de jnnhr> de [Link]^


J
Of-nfl: 656/75-SCTC/SC/DCDP. ^ 5
Do: Chefe do Serviço de Censura de Diversões Piíblicas

Ao: Chefe do Serviço de Censura de Diversões Ríblicas no Rio de Janeiro

Assunto. »t OPUílJCO H
Anexo; 2a e 3» vias do "Script" e 1» e 2a do certificado
Ref. Of. 2 67/75 -SCDP/SR/RJ.

I (Z'£CO jnnrOi

*2 (2 &J~[Link] p?YC<~

ItT/ ib Cd-/ Senhor Chefe,

entRv<?. ■

m A’/(77//// //no } J /'


. -J)^'Solicito a Vossa Senhoria mandar proceder
a enthré-g^ao interessado das anexas 2S e 39 vias do "Script", bem como
19 e 29 do novo certificado da peça teatral supracitada.

Na oportunidade, renovo a Vossa Senhoria'


protestos de estima e apreço.
r

rOEL FRANCISCO •VERY GUI DO


Chefe do Serviço/ de
Censura-SC.

j/, ULslsí-

*
■,V p MINISTÉRIO DA JUSTIÇA 1
TN .CPRPTEjyá.»- *?
íW DEPARTAMENTO DE POLÍCIA FEDERAL

CENSURA FEDERAL

Certificado N o 5.956/75

PECA. OPINIÃO

ORIGINAL DE» ODUVALPO VlflMA PILHO

APROVADO PALA D. C. D. P. VÁLIDOS TÉ X2de 3UMH0 de 19 80


TASSIFICAÇÃO __

TíniBiffi parT~1 de 19 75

l. j L ' ■' . ■ . , :.A"JjJ L


NES
^ SEI?ANOS
Diretor da DCDP
M.J-D.P.F
CERTIFICADO DA D.C.D.P
[Link] p. ■:{

Certifico constar do livro n? folha n? de registro de peças

teatrais, o assentamento da peça intitulada. t CPINlffO

Adaptaçao de_
k
Produção de APC- PRQHQçOeS E PRODUÇÕES ARTÍSTICAS LTOfl. • GB ■
Tendo sido censurada em de MAIO de _75 e recebido
PARfl 16
a seguinte classificado: jg! g (PKESSCIS) ANOS. CORTES
ASSINALADOS ÃS PAGINAS» 06-10-14-21-22-27-31-32-0 PRESCNTE CERTIFICADO S0-
MENTE TERÁ VALIDADE QUANDO ACOMPANHADO DO "SCRIPT* DEVIDAMENTE CARIMBADO *

PELA DCDP. t Í: ii:;: itinui; i i i lil I it > 11»111 :i f1 >J_

REQUERENTE* CARLOS ALBERTO DA SILVA 7^ Í ^


. 7) !Ã / ~ ~~

Brasília, ^ de 3UNH0 de 19. 75

\ rahf
DPF-SAv.150 Chefe do Serviço de Censura

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