Visao Falsa - Dan Krokos
Visao Falsa - Dan Krokos
Krokos, Dan
Visão falsas [livro eletrônico] / Dan Krokos; tradução Ivan Hegenberg. – São Paulo: Vergara & Riba Editoras, 2015. – (Coleção
trilogia falsa; v. 2)
936 Kb; e-Pub
15-06337 CDD-028.5
T – Eles são vermelhos mesmo? Mostre que eu paro de perguntar. Kristin, me mostre.
Kristin não é meu nome verdadeiro. É Miranda. Kristin é um nome bem comum. Era essa
a intenção. Pelo menos eu não tinha dois primeiros nomes, como Thomas David, o menino que não
parava de falar.
– Não é por causa das veias. A Gina me disse que suas íris são vermelhas como as de um vampiro
– ele cutucou meu braço. A unha dele estava um pouco comprida e acabou me marcando.
“Mantenha a compostura. Não reaja.”
– Não reaja – eu disse em voz alta, sem querer.
– O quê? – Thomas se inclinou na carteira para observar melhor meu rosto. – O que foi que você
falou?
Se ele fosse um Rosa, não seria um problema pará-lo. Mas Thomas David não era como eu; ele
era frágil. Não podíamos resolver na mão. Claro que uma garota normal também não ia sair na mão.
Eu não sabia o que uma garota normal faria naquela situação.
– Kristin, tudo bem se você tiver olhos vermelhos. Até que é sexy. Gosto de vampiros.
A professora estava tagarelando sobre economia global e interação de mercados. Fazia cinco
minutos que ela não olhava para trás. No outro lado da sala, Noah estava encostado na parede,
dormindo. O caos dominava o mundo, e ainda assim o assunto era entediante a ponto de relaxá-lo.
De repente, o rosto dele virou um milímetro na minha direção, remexendo os cílios. O tédio era
encenação. Ele estava nos observando.
– Gina disse que você é maluca. Ela disse que você bateu nela. Você vai bater em mim? Hein,
Kristin?
Gina Daly me vira pela primeira vez no banheiro feminino, bem na hora em que eu estava
limpando as lentes de contato, que usava para disfarçar as íris. Afinal, olhos vermelhos assustam as
pessoas. As lentes de contato castanhas deixavam meus olhos tão comuns que ninguém reparava.
Gina não notara logo de cara. Primeiro, ela perguntou:
– Ah, como você fez essa cicatriz? – e franziu o nariz como se sentisse um cheiro ruim.
O corte na bochecha havia se tornado apenas uma pequena linha branca, mas continuava
evidente. Boatos se espalhavam. Diziam que eu tinha apanhado do meu pai quando era criança, que
eu mesma tinha me machucado, que tinha deixado um garoto me cortar. Eles diziam que eu tinha
mais cicatrizes escondidas sob as roupas, provavelmente automutilação. Pra mim, era apenas uma
marca no rosto que me lembrava de que eu não pertencia àquele lugar. Eu não era uma estudante
normal com problemas normais, não importava o quanto quisesse ser.
Então, quando Gina me perguntara sobre a cicatriz, contei:
– Uma espada – era a verdade.
Mantive os olhos no chão enquanto esfregava uma das lentes de contato na palma.
– Uau, o que você tem nos olhos? – ela pôs a mão no meu ombro e tentou me virar.
Eu tinha matado pessoas e tinha pessoas tentando me matar. Então, quando Gina Daly, apenas
uma garota comum com problemas comuns, tentou me virar contra minha vontade, aquilo me deu
nos nervos. Ela não era perigosa ou assustadora, eu sabia.
Coloquei a mão no pescoço dela e a empurrei, talvez com força demais. Ela cambaleou até bater
com as costas no secador de mãos.
– Qual é seu problema?! – berrou.
– Você encostou em mim.
Ela olhou diretamente nos meus olhos. O direito ainda estava castanho, e o esquerdo, vermelho
brilhante. Eles tinham cor de sangue porque era sangue o que lhes dava cor. Bom, explicarei melhor
depois.
A raiva dela se dissolveu em nojo.
– O que tem de errado com seus olhos?
Eu me virei de volta para o espelho, puxei a pálpebra para baixo e coloquei a lente no lugar.
– Nada. O que tem de errado com seu rosto?
Gina mordeu o lábio.
– Muito bem, Olho de Cobra.
Ela saiu mancando do banheiro, e acabei virando a Olho de Cobra. Não fazia muito sentido, pois
cobras não têm olhos vermelhos. Olhei para a cicatriz no espelho. Olhei para o cabelo ruivo liso e
para as veias em volta dos olhos. Pensei em maquiagem e em manicure e outras coisas de meninas.
Eu não sabia por onde começar, e uma parte de mim estava confusa por me importar com aquilo.
Meu novo apelido se espalhara pela escola em apenas um dia, e as pessoas começaram a me pedir
para tirar as lentes. Elas perguntavam para Sequência, minha “gêmea”, qual era a história. Ela era
um pouco mais rude nas respostas, especialmente quando alguém notava que ela também usava
lentes.
Peter parara ao lado do meu armário alguns dias depois. Ele me beijou suavemente, pegou meus
livros e se recostou nos armários verde-escuros.
– Precisamos conversar.
Fechei o armário e olhei para ele.
– O que tá rolando? – eu sabia muito bem o que estava rolando.
– Você socou uma garota e ela contou pra escola toda sobre seus olhos.
Comecei a andar para a aula de economia global, me perguntando mais uma vez por que
estávamos fingindo ser estudantes de verdade.
– Não soquei ninguém. Eu empurrei. E admito que foi estupidez da minha parte.
– Não foi estupidez. Você reagiu, só isso. Se tivesse pensado antes de agir, aí sim teria sido
estupidez – ele quase sorriu.
Acenei com a cabeça, sem saber o que dizer. Ele pegou no meu braço e gentilmente me fez parar
de andar. Um monte de gente passava à nossa volta. Uma mochila cheia de livros atingiu meus rins,
mas eu não me alterei.
– Não foi culpa sua, mas... Noah e Rhys acham que precisamos nos mudar. As pessoas estão
começando a comentar – os olhos azuis dele pararam na minha cicatriz. – Sua cicatriz, agora os seus
olhos...
– É mesmo?
Os olhos dele voltaram-se direto para os meus, o que me tranquilizou.
– Eu só tô falando que a gente deveria pensar no assunto. Por acaso algo prende você a este
lugar?
Não. Mas eu não gostava da ideia de ter que mudar. Aquela era nossa grande tentativa de deixar o
passado para trás. Mudar para outro lugar não iria resolver o problema.
Peter beijou minha testa. Quando se afastou, estava sorrindo, o que me fez sorrir também.
– Só peço pra pensar no assunto. Podemos recomeçar cem vezes.
Eu queria pedir que ele tomasse a decisão, mas nos últimos meses nossos papéis estavam ficando
menos definidos. Peter sempre foi o líder, mas sem alguma coisa realmente tentando nos matar,
ficava difícil dizer se alguém estava no comando.
– Você é inteligente. E fofo.
– Eu sei. Apenas pense no assunto – ele dissera, apertando minha mão. Então se misturara no
fluxo de corpos em movimento e desaparecera.
E depois eu estava ali na aula de economia, e o Thomas David não parava de perguntar sobre meus
olhos.
– Se não me responder, vou encostar nos seus olhos. Tô falando sério.
“Mantenha a compostura. Não reaja.”
Eu precisava que Noah fizesse alguma coisa. Se Thomas visse que ele estava nos vigiando, iria
parar, porque Noah era assustador. Sabia fazer uma cara de mau que dispensava qualquer palavra.
O melhor que eu podia fazer era olhar feio, mas aquilo só parecia incitar Thomas ainda mais. Eu
teria que armar um barraco para fazê-lo se calar, mas com a Gina percebi que era uma má ideia.
Minha frustração estava se manifestando em forma de suor brotando do pescoço.
Arranquei a borracha do meu lápis e fiquei rolando-a entre os dedos.
– Por que você tá dificultando tanto? – Thomas David perguntou.
Arremessei a borracha no Noah. Acertei na orelha. O lábio dele tremeu, mas o resto do corpo
continuou imóvel. Talvez ele quisesse ver se eu conseguia lidar com a situação de uma maneira não
violenta, e não podia culpá-lo por isso. Se eu tivesse empurrado Gina só um pouco mais forte, ela
poderia ter acabado numa cadeira de rodas.
– Ele não pode salvar você – Thomas disse, depois de se certificar de que Noah não estava dando
atenção.
Por fim, olhei diretamente para o Thomas. Ele estava com um riso sarcástico, de quem estava se
esforçando muito para mostrar que se divertia à minha custa. Seus lábios pareciam vermes pálidos,
úmidos de saliva.
– Vamos. Agora tire as lentes. Só uma olhadinha.
Ele ergueu a mão com gesto de quem ia tocar nos meus olhos.
Eu não sabia se ele iria mesmo fazer isso; ele nunca fora até o final. Também estiquei a mão,
agarrei o dedo indicador dele e dobrei aquela coisa alguns graus para trás. Parei antes de quebrá-lo,
porque eu estava me controlando. Provavelmente ficou doendo por um bom tempo.
Por algum motivo, Thomas David abriu a boca e gritou. Todo mundo pulou da cadeira.
– Ela quebrou meu dedo!
– Não quebrei – eu disse calmamente.
A professora virou-se para nós e abaixou os óculos. Na lousa atrás dela estava escrito: CHINA VS.
ÍNDIA VS. EUA.
– Ele queria encostar em mim – falei, como se isso explicasse tudo.
Thomas David agarrava o dedo, assim ninguém via que não estava quebrado de verdade.
Noah revirou os olhos.
O garoto foi mandado para a enfermaria, e eu, para a diretoria.
Fiquei sentada em uma cadeira dura até que o diretor Wilch me chamou no escritório. Ele me
pediu para sentar em outra cadeira dura.
– Qual é o problema? – perguntou.
Contei a ele uma versão da história. Disse que tinha um problema raro na córnea que descoloria
minha íris e que o Thomas David não parava de caçoar de mim, tentou encostar no meu olho, e eu
apenas... perdi a cabeça, sinto muito, não queria machucar.
– O que eu faço a respeito disso? – ele perguntou, dobrou as mãos sobre a barriga volumosa e se
recostou na cadeira. – Não posso permitir que os alunos agridam uns aos outros. Mesmo quando
provocados.
Nem comentei que o dedo em questão, na verdade, não estava quebrado.
– O senhor poderia me dar uma advertência – eu só queria terminar logo com aquilo.
– Isso vai acontecer novamente?
– Não, a menos que ele tente encostar no meu olho de novo... – as sobrancelhas do Wilch se
ergueram. Resposta errada. – Quer dizer, não. Não vai acontecer novamente.
– Está bem. Quero você aqui nos períodos livres. Precisamos de ajudantes.
Tive um estranho sentimento de que não estaria na área para cumprir o castigo. Então apenas
acenei, agradeci e fui embora.
Noah estava me esperando no corredor.
– Você deu sorte de eles não terem chamado a polícia.
Ajeitei a calça jeans.
– Por quê? O dedo dele tá ótimo.
– O que aquele garoto queria?
Agora tudo parecia meio bobo.
– Ele queria ver meus olhos. Não parava quieto.
Uma garota seguindo para o corredor passou por nós e me olhou de um jeito esquisito. Ignorei.
“Não reaja.”
Noah não disse nada. Eu não saberia dizer se ele não estava gostando ou se estava apenas
fingindo.
– Ele ia encostar no meu olho.
– Certo. Rhys quer nos encontrar na quadra.
– Você contou o que aconteceu? – se ele tivesse contado, eu podia imaginar qual era o motivo da
reunião.
– Enviei uma mensagem contando que você foi para a diretoria.
– Valeu por me dedurar.
– Calma. Avisei que você não fez nada de errado.
Fomos na direção da quadra. Os sapatos apertavam meus pés, e a calça jeans e a camiseta me
faziam sentir nua. Eu sentia falta do meu traje à prova de balas.
– Relaxe – a mão de Noah massageou brevemente os pontos tensos do meu pescoço. Thomas
David provavelmente estava contando a todo mundo que eu era psicopata. Noah retirou a mão antes
que eu pedisse.
Na quadra, Peter e Rhys estavam jogando 21 com a bola de basquete, enquanto Sequência estava
de lado, desinteressada. Rhys saltou quase um metro e acertou um arremesso sobre a cabeça de
Peter, que pegou a bola e parou de quicá-la quando nos viu.
– Qual o problema? – perguntei, tentando não parecer desconfiada.
– Nada – Peter respondeu. – Só achei que era hora de conversar.
– Estamos de mudança – avisou Rhys.
Peter suspirou.
– Valeu, Rhys.
– Não se sinta mal – Rhys acrescentou rapidamente. – Se você não tivesse empurrado aquela
garota, mais cedo ou mais tarde, um de nós iria causar confusão.
– Isso provavelmente não vai fazê-la se sentir melhor – Sequência disse.
Nós éramos biologicamente idênticas, mas o cabelo dela estava tingido de preto e com um corte
bem curtinho e estilizado, com pontas irregulares. Mudar o cabelo foi uma das primeiras coisas que
ela fizera. Nós a encontráramos no laboratório com o cabelo ruivo na altura do ombro, exatamente
como o meu.
Noah falou:
– Calma aí. A gente sabia que daria na vista aqui. Então vamos aprendendo com a experiência.
Não vamos cometer os mesmos erros na próxima escola.
Ele fazia contato visual com Sequência enquanto falava, apesar de se dirigir a todos nós. Era uma
graça ele pensar que não notávamos como eles olhavam um para o outro. Uma graça, mas de uma
maneira que embrulhava meu estômago. Eu engolia e fingia que não me importava, especialmente
por não saber que motivo eu tinha para me importar. Deveria ficar feliz. Se Noah e Sequência
tivessem algum tipo de romance rolando, eu não precisava me preocupar com o que ele podia pensar
sobre Peter e eu.
Rhys levantou a mão e Peter passou a bola pra ele. Rhys acertou outro arremesso com um salto.
– Pra que ir pra outra escola? Não consigo entender. Somos mais espertos que aqueles imbecis.
Eu deveria estar ensinando cálculo – a bola rolou de volta para o pé de Rhys. Ele a arremessou mais
uma vez, entrou direto, sem nem tocar no aro. – O que a escola pode nos trazer de bom quando os
criadores estão planejando conquistar o mundo?
Era um bom argumento. Os criadores se clonaram para nos criar, nos deram a habilidade para
criar pânico massivo apenas com o poder de nossas mentes. Quando descobríssemos o que eles
estavam tramando, teríamos que parar de fingir que éramos pessoas normais e começar a salvar o
mundo. Ou algo do tipo.
Ir à escola era apenas uma distração enquanto não chegava a hora de agir. Tudo começava com a
pergunta: “Como um bando de garotos criados para serem supersoldados podia ter vidas normais?”.
A resposta era que não podiam. Mas a decisão de tentar tinha surgido em uma noite depois de uma
sessão de treinamento pesado no telhado do prédio. Nós tínhamos falado sobre o assunto durante
uma hora. Feridos e doloridos, nos juntamos em um círculo apertado que era quase um abraço
grupal. Era piegas, mas fazíamos isso no final de cada treino. Simplesmente ficávamos em roda até a
respiração voltar ao normal. Aquilo nos fazia lembrar que éramos a única família que tínhamos, que
não podíamos deixar que nada estragasse nossa união. Nada. E até aquele momento estávamos nos
saindo muito bem.
– Os criadores vão aparecer novamente – Peter disse. – Podem apostar. Mas, até lá, a gente
deveria tentar viver a vida. Caso contrário, por que lutar?
Rhys sorriu.
– Não seria mal uma dose de vida real.
Eu estava dentro. Queria dever de casa, um armário na escola. Queria experimentar aquilo tudo.
Um dia nós poderíamos precisar de diplomas. Mais tarde haveria a possibilidade de empregos de
verdade, com salário, plano de saúde e imposto de renda. Eu poderia trabalhar em um escritório, ter
minha própria escrivaninha com fotos das pessoas que amo. Ir para casa encontrar a família e pensar
no que fazer para o jantar em vez de pensar em como evitar me tornar uma escrava.
“O que a escola pode nos trazer de bom quando os criadores estão planejando conquistar o
mundo?”, Rhys tinha mudado de ideia.
Peter pegou a bola e a apoiou na cintura.
– É um bom argumento – ele disse para Rhys. – Noah?
Noah mordia o lábio inferior enquanto olhava para cada um de nós, um por vez.
– Não sei. Será que a escola está mesmo nos fazendo mal enquanto esperamos? Quero dizer, até
termos que lutar de novo.
Se a longo prazo a escola nos amolecesse, então sim, ela estaria nos fazendo mal. Deveríamos
treinar mais. Existia um motivo para nenhum de nós conseguir relaxar ali. Os criadores nos faziam
desconfiar de cada sombra. Cada estranho na rua podia ser um deles. Eram nosso assunto pendente.
E viver cada dia se sentindo vigiado não era uma vida de verdade.
Nossos relógios começaram a tocar. Era hora da injeção de memória. Sem falar nada, cada um
tirou sua seringa da mochila. Meu polegar empurrou o líquido amarelado no braço. Senti alívio. Ao
menos por mais algum tempo, minhas memórias estavam garantidas. Eu imaginava o que outra
pessoa qualquer acharia dessa cena: cinco garotos enfiando agulhas nos braços debaixo de uma cesta
de basquete.
– Podemos deixar para decidir amanhã? – Sequência perguntou, tampando a seringa e
guardando-a no bolso. – Depois da festa de boas-vindas. Eu já comprei o vestido. Vamos aproveitar
só mais um dia normal, pode ser? Então, por mim, nós podemos ir até pra China.
Rhys jogou a bola, mas ela bateu no aro e voltou.
– Tá bom, vamos ficar mais um dia – ele só estava de acordo porque já tinha comprado roupas
bonitas para o baile. As garotas gostavam dele, e ele gostava disso.
– Está bem – Peter concordou.
Eu não me importava com o que éramos capazes de fazer, sendo adolescente. Apesar de não ter
certeza de que continuar ali era a melhor ideia, não me parecia egoísmo aproveitar alguns dias a mais
de normalidade.
Não era egoísmo, apenas um erro.
Meu desentendimento com Thomas David tinha acontecido um pouco mais tarde do que deveria.
Pois ficar um dia a mais acabou sendo nosso maior erro.
2
LGUNS MESES ANTES EU ESTAVA EM UM CILINDRO DE plástico, suspensa em algum tipo de gel
Dancei com Peter na quadra quase a noite toda, tanto as músicas mais animadas quanto as lentas.
Meus dedos estavam entrelaçados em volta do pescoço dele, e as mãos dele estavam na minha
cintura. Aqueles olhos eram azuis demais para serem de verdade. Como vidro azul iluminado por
dentro. Eu sentia falta do cabelo dele. Antes era comprido o suficiente para ondular na altura do
pescoço, mas naquele momento estava curto e espetado, tão preto quanto seus olhos eram azuis.
Não falávamos muito, o que era bom. Peter não precisava preencher nenhum vazio. Não existiam
silêncios constrangedores. Apenas dançávamos, e eu inalava seu cheiro e sentia sua pulsação na
minha bochecha quando repousava a cabeça em seu ombro. Naquele momento eu me sentia normal.
Estávamos em um mar de colegas que rodopiavam lentamente. De giro em giro, via Rhys
dançando com alguma garota que eu não reconhecia. Ele sorria para mim com uma linha vertical de
preocupação entre as sobrancelhas. Sua parceira de dança não sabia que ele matara os colegas de
equipe na floresta em um dia tranquilo de verão. Eu duvidava que ela iria dançar tão coladinho se
soubesse.
Eu já ia me perguntar onde estavam Noah e Sequência quando ele apareceu bem à minha direita.
Colocou-se entre Peter e eu, acabando com a nossa paz.
– Com licença! – Noah disse com um sorriso largo e esquisito. Ele deslizou tão rápido para o
lugar de Peter que minhas mãos continuaram no ar. – Coloque essa mão aqui – Noah mandou,
dando um tapinha no próprio ombro. – E essa outra aqui – ele segurou minha outra mão e manteve
uma boa distância, diferentemente dos outros pares.
Eu não sabia dizer se estava mais furiosa ou constrangida. Peter nunca mencionava meu passado
com Noah, nunca. Quando aconteciam situações como aquela, eu tinha que me virar sozinha. Olhei
pro Peter, mas ele só virou os olhos, esquivando-se. Ele sabia que Noah não era uma ameaça.
– E se eu não quiser dançar com você? – minhas palmas estavam suadas. Não deveriam estar, não
havia motivo algum pra eu ficar nervosa. Mas, de repente, eu não conseguia olhar nos olhos dele.
– Que bobagem, todas as meninas querem dançar comigo – para Peter, ele falou: – Estou
mantendo o respeito, não estou? – eles tinham o mesmo perfume, do mesmo frasco de colônia que eu
vira no banheiro de casa.
Eu ainda estava paralisada, recusando-me a dançar. Peter podia fingir que não se incomodava,
mas ele devia estar um tanto chateado. Só um pouco.
– Sim, está mantendo o respeito – Peter concordou. – Mas nada de mão boba, hein? – eu o peguei
olhando para a nuca de Noah por meio segundo. Deu para notar a raiva disfarçada. Sim, ele se
incomodava.
– Tá bem – Noah respondeu. – Sequência está sozinha agora. Vá fazer companhia – ele me
rodopiou para longe, e Peter se fundiu à multidão. – Olá, linda – ele disse com um sorriso malicioso.
Sempre me surpreendia ver um sorriso em qualquer um de nós. Nada desanimava Noah. Eu me vi
sorrindo em resposta, antes que pudesse evitar.
– Olá, insuportável – respondi.
Eu não deveria fazer aquilo. Deveria me afastar.
O sorriso dele transformou-se numa careta de tristeza irônica.
– Ah, é isso que eu sou? Não sei como Peter não tentou quebrar minha cara.
– Ele sabe que você não é uma ameaça. E talvez seu segredinho não seja tão secreto. Já pensou
nisso?
As sobrancelhas dele se ergueram.
– Que segredinho?
Apenas o encarei em silêncio.
Ele piscou lentamente, descoberto.
– Tá bom, você me pegou. Sim, eu gosto dela. Não é esquisito? Lógico que é esquisito – agora era
ele que não conseguia me olhar nos olhos.
A canção terminou. Apertei a mão dele.
– Não tem problema, Noah. Eu quero que você seja feliz – coloquei o máximo de sinceridade na
voz. Afinal, não deveria ter problema. Nenhum motivo para isso. Claro, era difícil olhar pra ele sem
lembrar o beijo debaixo d’água que salvara minha vida. E da primeira noite em que ele dissera que
me amava. Meu passado com ele era uma mistura de lembranças falsas e reais. Às vezes ficava difícil
separar.
Tudo o que eu precisava fazer era lembrar que eu não era aquela garota, assim ficava mais fácil.
Nunca fui a garota que ele amava. Mas ele não sabia disso, é claro. Eu poderia contar para tornar
mais fácil para ele também, mas as circunstâncias da morte da Miranda anterior iriam deixá-lo
arrasado. Noah roubara a memória dela para mantê-la em segurança porque ele a amava. E o
resultado foi ela ser assassinada.
Eu ainda sentia o que a garota antes de mim havia sentido sozinha naquele beco. A chuva forte
caindo, encharcando-a. Um soco no peito. Essa era a sensação: um soco. Ela caiu no concreto áspero
e molhado. Então o sangue esvaiu do corpo. Ela não conseguia entender. A chuva debaixo dela
parecia quente, foi o que pensou. Acho que o cérebro nos conta mentiras quando a morte está
próxima. Mas a dor não era um soco e o líquido quente não era chuva. A bala de um atirador fizera
um buraco no meio de seu peito.
Ela morreu sem saber quem era.
Fechei os olhos e dei um passo para trás.
– O que foi? – ele perguntou.
A microfonia guinchou na quadra. Centenas de pessoas gemeram. Alguém gritou com
dramaticidade, enquanto outro riu alto.
– Eu tô bem – falei, tentando sorrir. A mão na cintura passou para o ombro, quase no pescoço.
– Não... – ele começou a dizer.
A voz do DJ soou arranhada nas caixas de som:
– Geralmente não faço isso, mas... Temos um pedido especial esta noite. Essa é da sra. North para
Nina. Mamãe está com saudade.
Eu me afastei bruscamente de Noah, como se ele tivesse me empurrado. As risadas ecoaram em
volta. O rosto dele estava como o meu: boca aberta, olhos arregalados. Não fazia sentido. A sra.
North estava morta. E se ela não estava, não dedicaria uma canção a uma pessoa chamada Nina.
O rosto de Noah mudou do choque para a dúvida.
– Ele disse...?
Eu acenei com a cabeça.
– Sim.
Era bem possível que tivesse uma aluna com sobrenome North naquela escola. E era possível que
a mãe pedisse uma canção para ela. Nina era a palavra que me impedia de surtar completamente; eu
não conhecia nenhuma Nina.
Tinha que ser coincidência.
Não podia ser coincidência.
A canção começou. As risadas passaram e as pessoas voltaram a dançar.
Repassei as palavras na minha cabeça.
Da sra. North para a Nina.
Mamãe está com saudade.
3
OGO O VAZIO FRIO E ESCURO ME PREENCHEU. É ESTRANHO pensar desse jeito, um vazio
L preenchendo alguém, mas era assim. Coloquei Noah de lado, delicadamente, e pus minha mão
sobre o cabelo dele.
Falei alto, mas sem olhar em direção alguma. Minha voz estava mórbida e fraca:
– Você ainda tá aí?
Eu me levantei sobre o sangue de Noah. Estava morno sob meus dedos. De repente, fiquei
enjoada. Senti um pouco de ânsia. Sequência estava sentada na mesa, em posição de lótus, com a
espada sobre o colo. Dei um passo atrás, afastando-me do sangue. Meus pés descalços deixavam
pegadas vermelhas brilhantes no piso de linóleo branco. Meus braços pareciam esmaltados com
aquela cor, da ponta dos dedos aos cotovelos.
– Onde você encontrou...?
Lambi os lábios. Estavam com gosto de sangue. Eu não conseguia falar. No entanto, tinha muitas
coisas a dizer.
– A espada?
Ela olhou para os pés de Noah aparecendo de trás da mesa. Eu queria arrancar aqueles olhos da
cabeça dela. Ela não tinha o direito de olhar para ele.
– Sequência escondeu neste laboratório – respondeu. – Ela tem uma no auditório também. Acho
que ela não confiava neste lugar.
Eu devia ter desconfiado; ela não era a única. Eu também escondera algumas facas de arremesso
na biblioteca. Mas naquele momento estavam a um andar e muitos metros de distância dali.
– Nina.
Ela nem piscou.
– Sim, é o meu nome.
A mensagem a tinha transformado de alguma maneira, despertando alguma nova personalidade.
Eu conhecia Sequência tão bem quanto conhecia a mim mesma; afinal, viemos do mesmo lugar.
Aquela pessoa não era ela.
Vaguei pelo lugar, perdida. Nina olhava fixo para mim, sem piscar. Se dividíamos a mesma mente,
ela sabia que eu não sairia correndo. Não sairia até que uma de nós caísse morta. Então fui em
frente. Fui até a mesa mais próxima e peguei um béquer. Eu o arremessei. A espada dela virou um
borrão e o vidro se estilhaçou. Lascas saltaram no peito dela e caíram ao redor. Em seguida mais um
béquer, depois uma balança. Ela os rebatia, ainda sentada.
O vazio dentro de mim não durou muito. Outra coisa se infiltrava, vermelha e quente.
E assim que a raiva deu o tom, não havia como parar. Eu queria amenizar de alguma maneira,
manter o controle e a precisão, mas não conseguia.
“Uma batalha não é lugar para sentir raiva.” Palavras do Sifu Phil, ecoando alguma velha lição
que nunca presenciei. “A raiva pode lhe dar força, mas o guerreiro sereno é quem sobrevive. Não
confunda serenidade com indiferença. Você deve afiar os sentimentos como uma lâmina.”
Eu precisava afiar meus sentimentos como uma lâmina.
Nina nem piscou enquanto eu avançava. E por que deveria? Ela estava armada e eu não. Afastou-
se da mesa e se lançou para a frente com a espada. Ela parou com a ponta tocando em meu pescoço,
erguendo um pedaço da pele. Eu podia afastá-la, dar um passo para trás, mas não fiz nada disso. Ela
já teria me matado se quisesse, quando eu estava ao lado de Noah, e não sabia por que não o fizera.
Por que me poupava? Eu afiava minha lâmina.
Ergui as mãos, mostrando as palmas manchadas de sangue. Eu provocava Nina para que ela
acabasse comigo. Queria isso, acho... Então não teria mais que sentir o que estava sentindo.
A pressão era boa de uma maneira esquisita; ela mantinha meu foco. Eu me inclinei contra a
ponta da espada e minha pele se rompeu. Sangue quente escorreu pelo pescoço. Os olhos dela se
apertaram, e aproveitei o momento para afastar a espada e agarrar o pescoço dela.
Apertei-o e observei os olhos dela ficarem vermelhos e a boca se abrir e fechar. Arranquei a
espada com a outra mão. Ela estava desistindo fácil demais, um alarme soou em minha cabeça. Ela
apertou a base da empunhadura, debaixo dos meus dedos, empurrando um botão. Uma pequena
faca se soltou, escondida dentro da empunhadura. Que estúpida fui, bela lâmina afiada. Eu não
merecia vencer.
Com a faca, ela rasgou meu antebraço esquerdo, bem o que estava tentando arrebentar a traqueia
dela. O braço perdeu a força instantaneamente. Os dedos afrouxaram, apesar de eu ainda tentar
apertar firme. O sangue brotava do corte e escorria pela curva do braço. Eu o puxei para o rosto e
dei um passo atrás, quase caindo. As pernas também estavam fraquejando.
Olhei para cima.
Duas imagens dançavam e se embaralhavam com o rosto sorridente de Nina.
– Veneno – murmurei.
Eu mal conseguia ficar de pé. Torcia para que Peter e Rhys chegassem correndo pela porta, mas
ninguém vinha. Eu estava sozinha.
– É melhor você se sentar para o que vem a seguir – ela disse. – Não quero que se machuque
caindo no chão.
Meus passos ficaram trêmulos com o veneno se espalhando pelo corpo. A poça de sangue de
Noah se dividia em dois lagos rubros que voltavam a se juntar em um. Dei mais um passo. Usei a
mesa para me apoiar enquanto me abaixava. Não importava muito, na verdade. Se eu nunca mais
acordasse, havia cometido erros o suficiente para merecer isso. A única coisa que me mantinha
consciente era o resto da equipe Alfa, não muito longe dali, que ignorava o que estava acontecendo.
Eles provavelmente estavam procurando por nós. Eu não podia avisar. Não podia nem mesmo me
salvar.
Acabei me deitando de lado, olhando nos olhos de Noah. Eles estavam sem vida e viscosos,
semicerrados. Assim como os meus.
Uma onda escura me dominou, borrando minha visão até tudo desaparecer.
5
A Meus olhos não focavam nada, não importava o quanto eu tentasse. Alguém batia um
tambor de guerra – bum-bum-bum. Levei um segundo para perceber que era apenas o sangue
latejando nos meus ouvidos. Meu punho esquerdo estava preso em uma algema de metal tão larga
quanto a palma da mão. Ela se conectava a uma corrente enferrujada que dava voltas em uma coluna
rígida de ferro. A corrente estava travada por um cadeado grosso. Eu me sentia como um animal
selvagem acorrentado. A droga só tornava a sensação ainda pior.
Fechei os olhos por um minuto, tentando superar o efeito do veneno. Quando os abri, duas
imagens vibrantes do teto se juntaram em uma só. Teias de aranha cobriam as vigas expostas do
prédio. O chão de concreto estava rachado e irregular. O ar tinha cheiro de colchão molhado. Sentei
e envolvi os joelhos nos braços. O sangue fluiu para a cabeça, e de repente senti dor na bochecha
direita, a que tinha a cicatriz. Eu me concentrei na dor. Não sabia onde estava.
“Respire”, dizia a mim mesma.
Eu estava usando o vestido de baile. A frente estava manchada de sangue.
Minhas mãos tremiam e fechei os olhos. Lágrimas gotejavam e rolavam pelas bochechas. Não
havia nada a fazer para mudar o que tinha acontecido. Nada. A garganta emitia um som agudo que
eu não conseguia conter. Eu não conseguia respirar. Não queria respirar. Queria ficar ali e sufocar
para poder ver o rosto de Noah novamente.
Um impulso explosivo me fez levantar e apoiar um pé na pilastra. Envolvi a corrente nas mãos e
puxei-a com toda a força, imaginando Noah no outro lado. A corrente feria meus dedos. Os aros
arranhavam e escorregavam no cadeado. Eu puxava tão forte que as veias capilares quase explodiam
nos olhos, mas não parava. Não podia parar. Se parasse, seria o fim. Nunca mais teria a força que
ainda tinha naquele momento.
Parei.
Desmoronei, desgastada, ofegante, enjoada. A corrente caiu no chão. As palmas estavam
vermelho-alaranjadas, sujas de ferrugem e sangue seco. Esfreguei-as na parte da frente do vestido,
mas aquilo não saía. Esfregava e esfregava, e aquilo só fazia o sangue manchar a pele ainda mais.
Funguei algumas vezes e fingi que não era o fim. Eu só tinha que tentar mais. Em alguns minutos,
iria tomar mais uma dose da medicação. Sim, era só descansar. Talvez eu pudesse escalar a pilastra e
quebrar a viga de madeira no alto. Seria bom se houvesse outros barulhos por ali, talvez uma
calefação velha roncando e estalando, só para ouvir outro ruído além do meu coração frenético e da
respiração pesada.
Os segundos passavam e fui me dando conta da realidade. Os outros teriam que lutar sem mim.
Acho que isso foi o que me deixou mais triste.
Eu me levantei para tentar mais uma vez. Não custava nada. Enquanto me esforçava, ouvi alguém
batendo palmas lentamente, do canto mais escuro daquele lugar. Olhei em volta e quase tropecei na
corrente.
– Nota A pelo empenho. Mas D para a lógica. Nem mesmo um Rosa é forte o suficiente para
quebrar ferro.
Nina surgiu da escuridão. Ela tinha trocado o vestido por um de nossos trajes flexíveis, de
camadas de escamas pretas, como as de um peixe. Aquilo a cobria dos dedos das mãos aos dedos dos
pés, terminando pouco abaixo da mandíbula. O cabelo, curto e preto, parecia um capuz.
A mão direita empunhava um revólver.
Coloquei uma mão contra a parede, preparada para lutar.
No entanto, algo mudou de um segundo para o outro. Os olhos dela. Não estavam mais neutros
ou sem alma. Estavam horrorizados. Ela olhou para o revólver, como quem dizia: “De onde isso
surgiu?”.
Ela voltou a ser Sequência. Não Nina – seja lá quem fosse Nina. Não tinha como ela fingir a
repugnância no rosto.
– Eu sentia dentro de mim, sabe? – ela arremessava as palavras. Os olhos brilhando com
lágrimas.
Eu não me importava com o que ela tinha para falar. Dizia a mim mesma, para me convencer.
– Sentia quem? – minha voz estava seca.
Ela apertava os olhos fechados, tremendo. Uma lágrima brotou do direito e escorreu pelo lado do
nariz.
– Desculpe, Miranda.
– Sentia quem, Sequência? Quem?
– Nina.
– Quem é Nina?
– Programação North 9-A. Eu posso senti-la.
– O que é isso?
– Eu não sei.
Ela apertava a têmpora com tanta força que me afligia. Só estava a cerca de um metro e meio de
mim. Um pouco mais perto e eu poderia alcançá-la.
– Ela me faz ver tudo quando assume o controle e... Eu não sei. Quando eu cortei...
Só podia estar falando da garganta de Noah.
– Não chore por ele.
Ela não tinha direito de sentir nada. Pra mim, não importava quem tinha assumido o controle.
Não importava.
Os olhos dela estavam vermelhos. Ela não estava usando as lentes.
– Me escute. Tem mais. Ela está no comando. Tem um plano, Miranda. Um plano. E eu não
consigo detê-la...
– Por que eu estou aqui? O que você quer?
– Porque ela quer usar você. Ela a trouxe pra cá. Mas ela deixou a guarda aberta e agora eu estou
aqui e sou eu mesma. Não era eu antes. Por favor, acredite em mim – as palavras seguintes soaram
embargadas pelo choro: – Eu não queria que ele morresse.
Acreditei. Minha mão esquerda se fechou em punho cerrado, com o nó de um dedo mais
adiantado. Será que eu podia machucá-la quando ela era Sequência? Se o que dizia era verdade,
então estava presa ali dentro. Ela era uma prisioneira como eu, ou pior, porque eu ainda era dona do
meu corpo. Se ela se aproximasse um pouco mais, seria minha responsabilidade acabar com ela antes
que causasse mais estragos.
– Ela matou Noah? – perguntei. – Foi a Nina?
– Sim...
Pensei em como encontramos Sequência na mesa de cirurgia na Key Tower. Ela tinha fragmentos
de memória da Miranda anterior, como eu. A sra. North deve ter posto algum tipo de “Programação
North” dentro dela. Deve ter escondido a identidade sob a pele da Sequência. Então a mensagem do
dj ativou-a de algum jeito, do mesmo modo que a sra. North me fizera lembrar de memórias
escondidas. Ela tinha me mostrado a verdade: que eu não era a Miranda com quem todos cresceram,
mas uma substituta. Uma farsa.
Sequência ainda estava segurando a arma ao lado do corpo.
– É isso que ela quer que eu faça. Ela quer que eu convoque alguma coisa, ou lidere alguma coisa,
não sei. Eu não sei. Não consigo ver o suficiente. Mas é ruim. É muito ruim. Ela quer que eu
encontre os outros criadores e os mate. Depois ela quer...
– Espere um pouco – interrompi. – Ela quer que você faça, ou ela está dominando e fazendo por
conta própria? Qual dos dois?
– As duas coisas. Às vezes somos nós duas aqui e eu não consigo dizer onde eu começo e onde ela
termina.
– O que ela quer que você faça?
Ela fechou os olhos. A livre mão fechada em um punho cerrado.
– Ela está vindo.
– Me passe a arma.
Ela reparou na arma novamente, como se tivesse se esquecido dela. Meu coração batia tão forte
que eu mal conseguia escutá-la.
– Ela quer que eu convoque os sem-olhos. Que eu abra o caminho para eles. Que... que eu os
lidere. Eu não sei o que isso significa.
Eu apenas a encarei, sentindo o quanto o sangue seco de Noah endurecia nos sulcos das minhas
mãos. O sangue se infiltrava sob as unhas e cutículas, como esmalte mal passado.
“Cale a boca”, eu queria dizer. “Eu não me importo. Me deixe em paz.”
Mas parte de mim estava escutando.
Sem-olhos.
Abrir caminho.
Liderá-los.
Eles. As criaturas de que a sra. North falara na lembrança. Era isso. Eram os monstros que
estávamos aguardando. Só podia ser.
– O que são os sem-olhos? É algum tipo de arma? Sequência, olhe pra mim!
Ela olhou. Os olhos arregalados. Ela continuava sacudindo a cabeça.
– Não. Não. Não. Miranda.
Eu me afastei da parede, puxando ao máximo a corrente, até marcar meu punho. A algema
raspava a pele; o corte no braço se abriu novamente. Sangue quente rolava pelo braço e para dentro
da algema.
– Me dê essa arma!
Ela tinha mais alguma coisa presa no quadril. Uma chave. Ela a pegou e a ergueu, um revólver
em uma mão e uma chave na outra.
– Eu não quero morrer – ela disse. – Você vai me matar.
– Nós podemos ajudar você! Nós podemos... – era mentira, eu sabia. Minhas mãos estavam
grudentas com o sangue de Noah. Ele estava morto por causa dela. Não haveria ajuda nenhuma para
ela. Mas se ela disse a verdade, Sequência era inocente. A culpa era da outra identidade.
Os olhos dela piscaram rapidamente, depois endureceram. Olhando fixamente para mim. Os
olhos de Nina.
– Eu não preciso de ajuda.
Nina deu um passo para trás e sacudiu a cabeça. O olhar suave reapareceu, com a testa enrugada.
– Noah... – suspirou.
Eu puxava o punho pela algema, com ajuda da lubrificação do sangue, mas ainda estava apertado
demais. Dobrei o dedão dentro da palma e puxei com toda a força, até meus olhos enxergarem
estrelas.
Desisti.
Ela deixou a chave cair. Quicou duas vezes, tilintando no chão de concreto.
– Quero viver – ela disse baixinho, mais uma vez como Sequência, envergonhada.
Eu não podia culpá-la. Ela queria viver. Será que eu teria forças o suficiente para me matar se
soubesse que tinha um aspecto maligno da minha personalidade escondido dentro de mim? Alguma
coisa me conduzindo, obrigando-me a fazer coisas que não queria?
Dominando-me?
Não saberia dizer.
– Vou resolver de outro jeito – ela disse, enxugando as bochechas com as pontas dos dedos. – Vou
expulsá-la de mim. Vou conseguir.
Eu balançava sem sair do lugar, engolindo a ânsia de vômito. A chave estava longe demais.
– E se não conseguir? Ela vai usar você. Escute – ela ergueu os olhos repletos de vergonha para
mim. – Ela vai usar você para nos matar. Como fez com Noah.
Sequência deu as costas. Deixou o revólver na cintura novamente.
– Vou atrás de você! – gritei pra ela. Ela subiu os degraus, lentamente, de cabeça baixa. – Você
deveria me matar! – qualquer coisa para fazê-la voltar. “Me dê a arma. Me dê a arma para impedir
Nina.”
Ela não disse nada, continuou subindo.
Eu me projetei em direção à chave e caí dura sobre o peito, engasgando. Os dedos tremiam no ar
a alguns centímetros de distância. Uma porta se fechou no andar de cima. Eu me estiquei com mais
força, gemendo enquanto a algema cortava ainda mais meus punhos. Então parei de agir como uma
imbecil. Inverti o corpo e usei o pé para puxar a chave. Meus pés estavam cheios de sangue, como as
mãos. Era o sangue de Noah.
Alcancei a chave e a passei no fecho. Um giro; a algema se abriu. Subi a escada e, saindo do
porão, vi que estava em uma casa dos anos 1970. Tudo amarelado e coberto de pó. Guarda-louças
abertos mostravam teias de aranha. A porta da rua rangeu quando a empurrei. A escuridão era
completa do lado de fora, sem estrelas. Sem lua. Uma noite fresca de outono, a noite em que Noah
morreu. O tênue aroma de rosas estava no ar, e eu o segui pelo gramado úmido dos fundos e pela
entrada de carros da casa de alguém. A pele esfriou nos lugares menos ensanguentados.
Um homem gritou à minha esquerda. Eu me virei a tempo de ver Nina arrancar um homem pra
fora de um carro compacto. Ela assumiu o volante, fechou a porta e deu a partida cantando os pneus.
Cheguei até a rua e os faróis ofuscaram meus olhos. O motor gritava quando Nina pisou fundo no
acelerador. O carro cresceu e cresceu até aparecer bem na minha frente. Quase deixei que me
atingisse, mas no último momento saltei e recolhi as pernas, sentindo-o passar junto a mim. O ar
turbulento me puxou para baixo. Os pedregulhos do asfalto pegaram nos dedos dos meus pés.
Quando me virei, vi os faróis traseiros diminuírem até se tornarem alfinetes vermelhos. Cinco
segundos depois, os pneus cantaram na esquina e o carro sumiu.
Minha cabeça felizmente ficou vazia até eu imaginar Noah deitado ao lado da mesa. Alguém já
devia tê-lo encontrado naquele momento; alguém teria chamado ajuda apesar de saber que era inútil.
Talvez tivessem procurado imediatamente por Peter e Rhys, ou por mim e Sequência. Todos nos
viram juntos. Mais uma atitude estúpida, mesmo que só tivéssemos frequentado a escola por
algumas semanas. Eu esperava apenas que Peter e Rhys tivessem sido espertos o bastante para dar o
fora em vez de encarar um interrogatório da polícia.
Um pensamento me atingiu como uma bala: eu era um produto da sra. North. Ela podia ter
instalado alguma personalidade latente no meu cérebro também. Podia haver outro tipo de
Programação North nadando dentro de mim, esperando ouvir uma série específica de palavras ou
números. Então ela viria à tona e seria um perigo para todos.
E muito do que tornava a sra. North cruel e impiedosa certamente estava dentro de mim. Eu
podia me tornar como ela simplesmente porque compartilhávamos o mesmo DNA. O sangue dela, o
mesmo sangue, já fluía nas minhas veias.
Não era justo com Peter e Rhys. Eu tentava imaginar as coisas que iriam dizer quando
percebessem as implicações. Aquilo provocava uma náusea sem fim.
Outros faróis deslizavam pela rua tranquila. Meu hálito provocava fumaça. Eu devia estar uma
beleza, uma garota tremendo em um vestido vermelho ensanguentado.
O carro parou, como imaginei que aconteceria. O motorista saiu, um rapaz me perguntou se eu
estava bem. Eu não estava. Disse a ele que precisava do carro. Ele fez cara de espanto e eu passei
uma rasteira nele, entrei no carro e fechei a porta.
O rádio tocava música pop. O relógio indicava que Noah tinha morrido duas horas antes.
6
HEGUEI À ESTRADA E DIRIGI PARA O SUL, EM DIREÇÃO ao subúrbio. Nós tínhamos nos mudado
C da cobertura de luxo de Rhys quando descobrimos que nossos fundos não eram ilimitados.
O novo apartamento de três quartos era apertado, mas dava para chamar de lar.
Procurei pelo Dodge Caravan azul-piscina que o Rhys tinha comprado por 500 dólares, mas ele
não estava no lugar habitual. Logo depois eu o vi nos fundos. Eles estavam em casa.
Uma de nossas vizinhas, a sra. Prenslow, me viu com o vestido ensanguentado, mas eu não estava
com cabeça para me importar. E, de todo modo, ela não enxergava muito bem. Acenei com a cabeça
e ela me seguiu com os olhos até a escada. Tive a sensação de que seria a última vez que a veria.
O tapete da nossa entrada estava manchado de marrom pelo desgaste dos anos. Senti o cheiro de
cigarro vindo do apartamento ao lado, de dois garotos de vinte e poucos anos que jogavam
videogames até as quatro da manhã. Colei o ouvido na porta para escutar, mas não ouvia nada.
Pensei que seria mais fácil encontrar primeiro Peter, depois Rhys. Sem dúvida ele iria ouvir tudo
antes de julgar minha decisão estúpida de partir para cima de Nina sozinha em vez de me juntar a
eles. Era o jeito dele. Ele era como a encarnação humana da justiça, ou algo do tipo.
E o estilo de Rhys era concentrar a raiva em quem tinha matado Noah, não em mim.
Eu bati. A porta foi aberta dois segundos depois.
Peter estava ali, em pé. O rosto sério.
– Onde foi nosso primeiro beijo? – perguntou.
Estalei um tapa no rosto dele. Esperei alguns segundos antes de responder:
– Na cabine do banheiro, na véspera do ensaio geral.
A resposta não provava quem eu era. Eu sumira por duas horas. Até onde sabiam, os criadores
podiam ter me pegado, roubado as lembranças e me substituído por um clone novo. Apesar disso,
devo ter passado no teste.
Ele envolveu os braços em mim, levantando-me. Fiquei feliz em soltar meu corpo no dele. Rhys
apareceu e ficou ali por um momento, depois nos abraçou. Ficamos assim por alguns segundos.
– Quem o matou? – perguntaram, um pouco depois.
Quando contei, acreditaram, mas não entenderam.
Fizemos tudo ao mesmo tempo. Devorei um sanduíche, eles terminaram de vestir o traje, então
fui tomar um banho. Precisava limpar o sangue. Nosso esconderijo podia não ser mais seguro, então
precisávamos sair dali imediatamente. Sem mencionar que, a cada minuto, Nina avançava. Deixei a
água quente a ponto de derreter a pele. Então fiquei sob o fluxo e observei a água que escorria
mudar de marrom para vermelho, para rosa, até ficar clara.
Deixei a porta aberta para que eles pudessem me ouvir. Contei tudo a eles. Eu os ouvi correndo
para cima e para baixo no corredor enquanto eu falava, pegando armas e suprimentos como garrafas
de água e pacotes de comida. Provisões para uma viagem longa.
Contei a eles que continuava viva porque Nina, ou sra. North, ou quem quer que fosse, queria me
usar para alguma coisa. Não mencionei que era possível que eu me tornasse tão perigosa quanto
Nina. Esperei para ver se Peter chegaria às mesmas conclusões, mas ele não falou nada. Aquilo fazia
minha pele coçar. Eu queria que ele percebesse, para não ter que contar.
– Encontrei Noah – foi tudo o que Peter disse quando saí do chuveiro.
– Perdi o rastro do dj – foi tudo o que Rhys disse, e ele parecia furioso consigo mesmo.
Eu estava surpresa por ele não ter esburacado a parede com socos.
Ao sair do banheiro, parei no quarto que Rhys dividia com Noah. Não sei por quê, mas a cama de
Noah ficava voltada para a parede. Os lençóis estavam jogados desde que ele rolara para fora dela na
manhã da véspera, antes de tomarmos café da manhã em uma lanchonete. Sequência saíra do
chuveiro usando a mesma camiseta verde que eu. Naquele momento, ficamos olhando uma pra
outra.
– Está bem, eu troco – ela dissera, mas eu respondi que não importava. Afinal, nós éramos
gêmeas, não?
Tudo isso tinha acontecido havia menos de 24 horas. Eu podia ouvir o som que o sangue de Noah
fizera no escuro, como tinta se espalhando no chão. “Não se esqueça de mim.”
Rhys estava limpando a arma ao lado de uma cômoda. Ele esfregou o cano com tanta força que o
metal lubrificado escorregou de sua mão. Ele o pegou e continuou esfregando com os mesmos
movimentos. Peter estava procurando alguma coisa no closet de Noah.
Rhys tirou os olhos da arma e me olhou.
– Ei.
Pisquei.
– Precisamos ir até Noah – falei. – Quero a memória dele.
Eu não queria esquecê-lo.
Peter saiu do closet.
– No que você tá pensando?
– Noah passou muito tempo com Sequência. Talvez ela tenha dito alguma coisa, ou ele tenha visto
alguma coisa que possa nos dar uma pista...
Mas isso significava que teríamos que lidar com o corpo dele imediatamente, antes que os
neurônios se deteriorassem muito. Talvez já fosse tarde demais para copiar suas lembranças.
Se funcionasse, eu teria a personalidade dele em uma caixa. Não queria aquela responsabilidade.
Não queria ser a guardiã da identidade dele.
– Não consigo pensar em nenhuma alternativa – Peter disse, com os olhos pregados no chão. –
Não sei outro jeito de ir atrás dela.
– Bom plano – Rhys falou, parecendo um pouco pálido com aquela ideia.
Fui para o meu quarto e vesti o traje à prova de balas. Imediatamente me senti melhor. O fecho
transparente nas costas ia até o topo da espinha, e o material leve envolvia perfeitamente os
contornos do corpo. O sistema analgésico contido no tecido aplacou o ardor do braço. Eu me senti
segura em minha segunda pele.
Em seguida, peguei minha espada e meu revólver. Eu costumava olhar para minhas armas com
certa reverência, mas naquela hora eram apenas ferramentas. A espada era reta, leve e estreita, e o
revólver tinha seis balas. O revólver ficava à esquerda do quadril, e a espada, chamada Língua de
Fogo, ficava encaixada nas costas.
Enquanto Rhys pegava a faixa de memória, vi Peter no quarto dele, olhando pela janela.
Ficamos sozinhos por um momento. Precisava desabafar. Se não contasse, aquilo iria me corroer
de dentro para fora.
Dei um passo para o lado e fechei a porta atrás de mim.
– E se eu for como ela? – perguntei, sem rodeios.
Ele não respondeu, mas os ombros pareceram um pouco tensos. “Por favor, diga alguma coisa”,
pensei. “Diga que sou uma idiota, que é um absurdo pensar nisso.”
– Eu posso ser como Nina – continuei, deixando claro.
Ele se virou para mim.
– Eu sei – um segundo terrível se passou. – Mas não importa.
– Ah, não? Por que você acha isso? Eu nasci alguns dias antes de Sequência, e a sra. North não
estava com pressa quando trabalhou em mim. Ela pode ter colocado qualquer coisa na minha
cabeça. Por que iria fazer alguma coisa para Sequência e não para mim?
Peter engoliu em seco, seus olhos se esquivaram por um segundo, mas ele se forçou a olhar de
volta para mim.
– Eu concordo que é possível, até mesmo provável.
– Então você precisa tomar uma decisão.
Ele sacudiu a cabeça, só um centímetro.
– Não, não preciso. Eu não vou me preocupar com algo que não está sob nosso controle. Não
vamos abandonar você. Não vamos nos dividir. Então, na verdade, não importa, não é? – ele
encurtou a distância entre nós, me agarrou pelos braços e me apertou gentilmente. – Se acontecer
alguma coisa, se você mudar, nós vamos lidar com isso.
– Isso é estúpido. Tycast não designou você como líder para colocar a equipe em risco – as
palavras saíam pesadas, quase soluçadas.
Sr. Tycast, o homem que nos educou, pusera Peter no comando porque ele era o melhor de nós.
Mas ele não estava preocupado com os “e se” como eu. Eu imaginava a minha Programação North
rindo escondida, só aguardando.
– Você acha que eu quero ser o líder? Eu não pedi ao Tycast para me escolher. Não pedi. O Noah
queria mais do que eu. E você sabe o que o Tycast me disse? Que ele me escolheu justamente
porque eu não queria. Eu só queria ser parte do time. Então não pense que vou ser o cara que diz
para a mulher que ama que, sim, você é um risco, e sim, você tem que dar o fora. Não vou fazer isso.
Nós precisamos de você, e você precisa de nós.
As palavras dele me fizeram sentir melhor. Eu estava contando com isso, mas elas não mudavam
os fatos. Eu podia fugir. Abandonar Peter e Rhys, em vez de forçá-los a tomar uma decisão.
Peter deve ter percebido essa possibilidade em meu rosto.
– Nem pense nisso. Depois de tudo, como é que você pode pensar que eu deixaria você dar o
fora?
Ele me puxou e pressionou os lábios na minha testa. A sensação do beijo relaxou os pontos de
tensão dos meus músculos. Mas eles voltaram a ficar tensos no segundo em que ele se afastou. Ele
saiu do quarto, discussão encerrada.
Parecia bonito, mas a ameaça iria perdurar na mente deles. Como poderiam confiar em mim da
maneira como confiavam antes? Impossível.
Não deixei a questão para trás, mas deixei de lado. Ao menos por ora.
Na sala, Rhys estava com a faixa de memória em uma sacola pendurada no ombro. Ele abriu uma
garrafa de água e a bebeu inteira.
– Trinta segundos para sair – Peter avisou do quarto.
Eu ouvi o arranhar metálico de uma arma sendo montada.
Rhys me passou uma garrafa de água.
– Em que você tá pensando?
Estava pensando em quando Noah usou o resto da manteiga de amendoim e colocou o vidro vazio
de volta na geladeira. E eu o chamei de babaca, por causa de uma manteiga de amendoim. Ele pediu
desculpa e eu disse que não tinha desculpa nenhuma, porque ele sabia que o vidro estava vazio. Ele
mesmo raspara o resto. Ele não tentou se defender, apenas olhou para mim com remorso e se
afastou. Isso fora na semana anterior. Fiquei nervosa com ele por causa de manteiga de amendoim, e
pouco depois ele estava em uma laje fria, incapaz de saber ou de se importar com qualquer coisa. Eu
estava arrependida por ter gritado, mas ele jamais saberia disso.
Então pensei no dia seguinte, quando passei pela porta aberta do banheiro e vi o rosto de Noah e
o de Sequência pressionados um no outro. Apenas um relance. Não andei mais devagar, mas ouvi o
estalo das bocas se separando depois que passei. Eles tinham se beijado. Fui até meu quarto, me
sentei na cama e tentei entender o que estava sentindo. Triste, um pouco, mas menos culpada, afinal
Noah finalmente estava feliz.
– Nada.
Depois de checar rapidamente as armas, parei no limiar da porta, observando o lugar que um dia
chamamos de lar. Provavelmente jamais voltaríamos.
Peter e Rhys estavam no corredor.
– Vamos, Miranda – Rhys chamou suavemente.
Fechei a porta e a tranquei.
7
NQUANTO EU DIRIGIA DE VOLTA PARA A ESCOLA, PETER abriu uma embalagem de remédio e
E sacudiu três pequenas pílulas pretas na palma da mão. Era um pouco antes da meia-noite; as
ruas estavam vazias e escuras.
– Precisamos tomar isto aqui – ele disse, entregando uma para mim e uma para o Rhys.
– Por quê? – perguntei.
– Porque estou sem a injeção adequada. Ela quebrou. Com isso vamos poder nos rastrear.
– Eu não sei – eu disse.
Meu primeiro pensamento foi que, se eu virasse outra pessoa, saberia como encontrá-los
facilmente.
Os olhos do Peter estavam um pouco úmidos, mas podia ser apenas cansaço. Ele os enxugou.
– Bem, eu sei. Não consegui encontrar você antes. Agora vou conseguir.
– Elas não vão funcionar por muito tempo... – Rhys argumentou.
Peter encolheu os ombros.
– Tem mais aqui. Peguem.
E foi o que fizemos. Peter nos entregou aparelhos portáteis que nos mostravam a distância entre
cada rastreador e em que direção e a que altura estavam. Pus o meu em uma das cartucheiras na
cintura, junto dos carregadores rápidos de munição para o revólver.
Chegamos na escola à 00h09, o que significava que Nina estava à solta havia mais de duas horas.
Podia ser uma enorme vantagem, ou talvez já fosse tempo suficiente para que ela planejasse um
ataque contra nós.
Vimos viaturas policiais enfileiradas diante da calçada da frente, brilhando sob as luzes do
estacionamento. Havia uma ambulância na ponta da fileira. Eu sabia para quem era; a morte de
Noah era a que não tinha conexão direta com as outras. Ele não fora pisoteado nem esmagado na
quadra esportiva. Eu não podia nem imaginar que teorias os detetives estavam formulando. Ele era
um aluno novo, alguém dizia. Entrou este ano. Eles levantaram o registro dele e viram que o contato de
emergência não dava em lugar algum. Quem era esse menino? Ele morava com quem?
Estacionei nos fundos, escondendo-nos atrás dos carros dos alunos que foram estacionados à
noite. O zumbido de um helicóptero de TV me deu dor de cabeça.
Os alunos deviam ter recuperado a lucidez àquela altura, pois a energia psíquica tinha se
dissipado havia horas. Imediatamente as pessoas fariam conexão com o acontecido no verão passado,
quando Rosas como nós usaram seus poderes na região central. Os dois ataques envolveram terror e
pânico sem estímulos evidentes. Eu tentava imaginar como meus ex-colegas transmitiriam o medo
em palavras. Aquele tipo de medo era algo que biologicamente eu não podia vivenciar. Eu me
lembro de um especial jornalístico depois do ataque no centro. Eles entrevistaram pessoas que
diziam coisas como: “Não me lembro do que eu tinha medo, era só medo. E não era um medo
comum. Eu realmente não consigo explicar o que era”. Eu conseguia: éramos nós.
Apertei firme as mãos no volante, tentando aliviar um pouco a pressão nos dentes rangendo.
Peter tirou minhas mãos do volante e as colocou em meu colo, então pôs a dele em cima. Ela
estava fresca, seca e segura. Firme.
– Relaxe – ele disse, então apontou para o para-brisa. – Ali vêm eles.
Segui o olhar dele para a entrada principal. Dois policiais e dois paramédicos empurravam uma
maca com rodas pela calçada, através das luzes e das sombras. Um lençol branco cobria a silhueta de
Noah. Estávamos longe, mas eu podia ver a mancha vermelha na parte em que o lençol encostava no
pescoço.
Achei que fosse chorar mais uma vez, mas não sentia nada. Apenas vazio. Era melhor assim.
– Quer que eu dirija? – Peter perguntou.
– Pode deixar.
– Quer que eu dirija? – Rhys ofereceu.
– Eu disse que pode deixar – se eu não estivesse bem o suficiente para dirigir, seria um problema.
Observei enquanto eles colocavam a maca na traseira da ambulância. Bateram as portas, como se
fechassem um caixão. A ambulância partiu, sem luz, sem sirene.
Pisei no acelerador e a segui.
A ambulância foi direto para o Instituto Médico Legal Municipal. Ninguém falou durante o
caminho porque não havia nada a dizer. Estacionei ao lado. O prédio era branco, de quatro andares,
sem qualquer característica mais sinistra. Não parecia que abrigava cadáveres de quem morria de
forma suspeita ou violenta.
Vi os paramédicos tirarem Noah da ambulância e conduzirem a maca com rodas pelas portas
duplas.
Chequei o relógio acima do rádio. 00h39. Fazia quase três horas que eu tinha perdido Nina de
vista.
– Eles vão colocá-lo na geladeira e fazer a autópsia mais tarde – falei.
A frase colocá-lo na geladeira me deixou enjoada. Não acreditava que tinha dito aquilo.
– A geladeira vai diminuir o ritmo da decomposição – Rhys disse.
– Obrigado, dr. Rhys – Peter brincou.
– Não importa – eu disse. – Vamos dar dez minutos para que os paramédicos o coloquem lá, então
nós entramos. É um bom plano?
– É o que temos pra hoje – Rhys disse.
Peter acenou com a cabeça. Ele fechou os olhos e se recostou no assento, meditando.
Os dez minutos se passaram e nós saímos do Caravan, parecendo um tanto suspeitos com nossos
trajes de escamas. Nenhum de nós pensou em trazer as roupas comuns para vestir por cima, mas
acho que estávamos com a cabeça em outras coisas. Rhys me passou a sacola que continha a faixa de
memória. Tentei pegá-la, mas ele segurou a alça.
– Tem certeza de que você quer as lembranças de Noah em sua cabeça?
Perguntando desse jeito, eu diria que não. Mas precisávamos de uma pista, não tínhamos
nenhuma. Pela maneira que ele falou, eu sabia que estava pensando na mesma coisa que eu. Noah
conhecia Sequência, não Nina, e poderia não ter pista alguma nas lembranças dele. Mas eu não sabia
onde mais procurar.
E as palavras de Noah, “não se esqueça de mim”, ainda soavam em meus ouvidos. Não queria
esquecê-lo. Se alguém tinha que peneirar a memória dele, tinha que ser eu. Claro que eu não
conseguia dizer aquilo sem me sentir um pouco estúpida. Eu até podia ouvir a repreensão de Rhys:
“Eu não acho que ele quis dizer para lembrar dele tão literalmente, Mi”. E ele estaria certo.
Passamos com naturalidade pelas portas. Afinal, ninguém ali conseguiria nos impedir mesmo. Os
corredores eram brancos e brilhantes e neutros. Frios. Nós os percorremos em uma formação de
triângulo, com o Peter na frente.
Alguém gritou às nossas costas:
– Ei, ei!
Girei para trás, com as mãos nas armas. Um homem corpulento em um uniforme azul e com um
distintivo prateado estava no corredor, com uma mão na maçaneta e a outra no coldre da pistola, a
poucos passos de nós.
Metade da arma dele estava para fora do coldre quando fiz o que a equipe Alfa jurou nunca fazer,
se pudéssemos evitar. Aliviei um pouco da tensão sempre presente em meu cérebro, deixando um
pouco da energia escapar em uma onda mínima, suficiente apenas para que ele tirasse a mão da
pistola. Aquilo doía e dava uma sensação boa ao mesmo tempo. Os olhos dele se arregalaram e as
narinas e a boca se abriram.
– Miranda! – Peter chamou, atrás de mim.
Eu o ignorei e encurtei a distância até o guarda, então agarrei sua camisa com o punho e a torci,
puxando-o contra mim. Fiz com que minha voz soasse áspera como uma rocha:
– Mostre onde é a geladeira.
O guarda concordou rapidamente, com os olhos enrugados e inchados de lágrimas.
– Sim... por favor...
Eu sentia o tremor dele em meu punho. Ele estava prestes a gritar, ou desmaiar, ou as duas coisas.
Larguei a camisa e agarrei o braço, que já estava um pouco úmido de suor.
– Mostre o caminho.
Ele começou a andar, respirando pesadamente e me arrastando junto. Peter e Rhys não tinham
nada a dizer. O aroma de rosas, o efeito colateral esquisito de nosso poder psíquico, já estava
desaparecendo. Talvez não fosse a melhor maneira, mas àquela altura já não dava para se
arrepender.
Peter e Rhys estavam hesitantes.
– Vamos lá – chamei.
O guarda me levou até outro corredor.
– Que tal nos avisar da próxima vez? – Peter reclamou quando eles me alcançaram.
– Avisar sobre uma decisão instintiva? Claro.
Rhys riu baixinho.
Logo adiante havia uma grande porta de aço com puxador. Eu sabia do que se tratava antes que o
guarda dissesse “aqui, aqui.”
Soltei o braço do guarda. Rhys agarrou os ombros dele, o girou e se curvou para olhar bem para a
cara dele.
– Onde fica o armário mais perto?
– Tem um no escritório ao lado.
Rhys retirou o rádio e a arma do cinto do guarda e o virou na direção certa.
– Eu quero que você vá lá e se tranque, não saia durante uma hora. Entendeu? Ou... coisas ruins
vão acontecer.
O guarda acenou com a cabeça e se foi, com as chaves tilintando no cinto.
Rhys virou para mim e para Peter:
– Quem diria que esses medrosos eram tão impressionáveis?
Não rimos, porque não era bem uma piada. Alguns segundos se passaram do lado de fora da
porta grande de aço. Ninguém falava. Eles deviam estar se perguntando se eu era forte o bastante.
Eu sabia que era, mas isso não significava que eu quisesse entrar.
Peter tocou com leveza em meu cotovelo.
– Deixe comigo. Eu não sei bem o que absorver todas essas lembranças pode fazer com você.
Se alguma personalidade latente acordasse dentro de mim, teria acesso aos downloads que faria
de Noah? Era um risco desnecessário... Mesmo assim... Eu não queria que mais ninguém visse. Não
queria que Peter e Rhys vissem as lembranças que Noah tinha de mim. Quem poderia dizer o que
acontecera entre nós ao longo dos anos? Eu mal me lembrava. Mas estava sendo imprudente. Eu
não achava que era um bom motivo para arriscar, mas iria fazer mesmo assim.
Em vez de tudo isso que pensei, falei:
– Eu já fiz download de lembranças do Rhys e da sra. North. Eu vou saber dizer qual é a
diferença entre as deles e as minhas.
– Você não precisa assumir essa responsabilidade – Peter disse.
Ele estava certo. Era uma responsabilidade. Eu ainda não podia antecipar como aquilo iria me
afetar, e queria fazer pelos motivos errados.
– Essa tarefa é minha – retruquei, erguendo a sacola acima do ombro. – A menos que seja uma
ordem.
Alguns segundos se passaram. Então ele balançou a cabeça.
– Não.
Coloquei a mão no puxador frio de metal e abri a porta. O ar seco e gelado soprou em uma onda
no meu rosto. As luzes ali dentro eram fortes, mas meio cinzentas, completamente sem vida, como o
resto daquele lugar.
Dei um passo para dentro e fechei a porta.
8
M As paredes dos dois lados eram sequências de pequenas portas retangulares, dispostas em
três fileiras, uma acima da outra. Atrás delas, os mortos. Encostadas nas paredes, macas
cobertas por lençóis. Silhuetas brancas em forma de corpos, arredondadas na altura da cabeça e
pontudas nos pés.
Eu não precisava checar cada maca. Logo vi Noah. A dele estava ao lado da parede dos fundos,
com o lençol branco se destacando contra os azulejos verde-vômito. A mancha vermelha brilhante,
pouco abaixo da elevação do rosto, tinha se espalhado um pouco.
Minha respiração vinha em nuvens de ar azedo. Olhei para o lençol de Noah, esperando que ele
acordasse a qualquer segundo. Ele arrancaria o lençol e gritaria “surpresa!” com um sorriso
estúpido. Eu o socaria no braço e ele fingiria dor.
Pisquei.
O ambiente estava frio e morto. Noah estava frio e morto. Era hora de fazer meu trabalho. Eu me
agachei perto da maca onde ele estava, abri a sacola e retirei a faixa de memória.
Minha mão flutuava acima do lençol. Eu não queria tocá-lo. Não queria puxar e ver o rosto sem
vida. Fechei os olhos e respirei pela boca, sentindo o sabor do antisséptico e o cheiro doce dos
cadáveres recentes. Aquela essência enjoativa era tão estranha.
Parei de hesitar e puxei o lençol. Dobrei-o na altura do quadril de Noah e me forcei a olhar para
aquele rosto. Estava como no chão do laboratório. Frio, pálido e sem vida, com olhos abertos que
nunca mais veriam nada. Vi o quanto era profunda a ferida no pescoço, as camadas de pele e de
músculo que a espada de Nina atravessara.
Eu me segurei na beirada da maca e fechei os olhos.
Todos nós estamos em rota de colisão com o que quer que esteja destinado a nos matar. Alguém
um dia vai me matar, e já deve estar vagando por aí. Alguém forjou a lâmina que matou Noah. A
ponta encontrou a carne macia do pescoço, encontrou os finos vasos que carregavam seu sangue,
tudo porque deixei que ele entrasse primeiro.
As lágrimas nas minhas bochechas estavam geladas como meu coração. Eu tentava endurecer
para lidar com isso e tudo o que viesse depois. Noah gostaria disso.
Abri os olhos e comecei o trabalho, esperando que aquilo fosse apenas mais um passo para fazer
tudo desaparecer.
Eu precisava erguer a cabeça dele para prender a faixa. Seu cabelo era macio, e o peso morto da
cabeça era a pior parte. Fechei os olhos e ajeitei a faixa pelo tato.
Uma voz me dizia que aquilo poderia não funcionar, mas eu ignorava. Esmagava a voz debaixo do
meu pé blindado. Tinha que funcionar, senão todo o esforço teria sido em vão. Eu preferia morrer do
que deixar Nina vencer.
A faixa de memória zumbia como uma coisa viva. Programei a máquina para começar com as
lembranças mais recentes de Noah; qualquer pista dos planos de Nina ou de seu paradeiro estariam
ali.
A faixa ronronou e fez um clique suave. Meus dedos percorreram o antebraço dele, roçando o
punho, depois a palma. Quase segurei sua mão, como se aquilo pudesse tornar as coisas mais fáceis.
Na verdade, eu mal podia suportar a umidade fria de sua pele.
O tempo passava lento demais, e de quando em quando a máquina zunia. Então o pequeno
mostrador na lateral da cabeça dele exibiu ESCANEAMENTO COMPLETO, com quatro opções embaixo.
ESCANEAR NOVAMENTE | SALVAR TUDO | APAGAR | NOVO ARQUIVO
Apertei SALVAR TUDO.
A faixa zumbiu, salvando todas as lembranças intactas que estavam no cérebro de Noah. Então
ouvi o clique quando ela desligou, e o ruído foi morrendo como se a máquina estivesse exausta.
Removi a faixa da cabeça de Noah e a guardei na sacola.
Então olhei para seus olhos.
As íris ainda estavam castanhas, mas um pouco rosadas, tendendo para o vermelho, como os
meus. Usei os dedos para fechar os olhos dele, mas eles se abriam novamente. Encarando. Tentei
mais uma vez e segurei as pálpebras para baixo, e desta vez elas ficaram bem fechadas. Apenas um
pouco entreabertas.
A soma da experiência de vida dele estava pendurada em meu ombro, o maior peso que eu já
carregara.
Cobri-o com o lençol e me virei.
A porta se abriu, mas não era nem Peter nem Rhys. Uma mulher de jaleco apareceu segurando
uma prancheta com ambas as mãos.
– Você não deveria estar aqui – ela disse.
Sua boca se abriu e fechou, e a testa dela se enrugou quando notou meu traje. Ela estava certa. Eu
não deveria estar ali. Noah também não.
Ela viu meus olhos e pude notar que tremeu. Eu não estava usando as lentes de contato.
– O que você está fazendo aqui?
Olhei para Noah mais uma vez. A última vez. Mas logo eu estaria mais próxima dele do que
jamais estivera na vida.
– Indo embora – respondi.
9
ALEI PARA A MULHER FICAR NA GELADEIRA POR CINCO minutos, e o olhar no rosto dela disse que
F iria obedecer. Fechei a porta e, ao virar, encontrei Peter e Rhys de frente para mim.
– Desculpe, achamos que seria melhor nos esconder – Rhys explicou.
– Como foi lá dentro? – Peter perguntou quando começamos a andar.
– Vamos saber logo – respondi.
A sacola esquentava minha perna, e eu estava começando a me preocupar com coisas estúpidas. A
máquina podia estar quebrada; podíamos ter chegado tarde demais; as lembranças podiam estar
corrompidas porque ele estava morto havia muito tempo. Uma parte secreta de mim queria que a
transferência fosse um fracasso, não queria ver as lembranças dele, mesmo que elas nos ajudassem.
Eu não queria ver como era quando ele ainda estava vivo, com pensamentos próprios.
Do lado de fora, o ar ameno de início de outono me envolveu, e eu apoiei meu corpo com um dos
braços ao lado do prédio. Era muita coisa ao mesmo tempo. Quase vomitei, mas me segurei. Engoli
em seco algumas vezes e olhei para o céu escuro. Peter e Rhys não perguntaram se eu estava bem, o
que achei bom. Nós apenas nos amontoamos no Caravan e saímos dali.
Eu me sentei no banco de trás, no lugar que Noah costumava declarar como dele. Olhei para
aquele espaço e me lembrei dele sentado ali, a caminho do baile, estalando os dedos um por um, até
Rhys pedir que ele parasse com aquilo. Os estalos dos dedos ficaram na minha memória como tiros
de revólver.
Retirei a faixa enquanto Peter dirigia. Eu estava bem convencida de que, se aquilo não
funcionasse, não teríamos qualquer chance de encontrar Nina.
Peter viu meus olhos pelo espelho.
– Temos que dormir.
Nós estávamos acordados havia umas 20 horas, o que não era tão ruim, mas em breve iríamos
sentir o cansaço. Naquele exato momento, eu nem conseguia me imaginar dormindo. Se fechasse os
olhos, o barulho de fundo no meu cérebro ficaria mais alto.
– Não podemos ir pra casa – Rhys disse.
– Então vamos encontrar algum lugar e estacionar – sugeri.
Peter escolheu uma direção, mas eu não estava prestando atenção. Eu continuava mexendo na
faixa de memória, sentindo o peso dela. Imaginava o que ela iria me mostrar.
Um pouco depois, Peter parou em um estacionamento lotado e inclinou o assento. Rhys fez o
mesmo.
– Boa sorte, Miranda – ele provavelmente adormeceu quase instantaneamente.
Peter se virou para mim.
– Se você insistir em fazer agora, vou ficar acordado enquanto você não pegar no sono.
Sacudi a cabeça.
– Não vou conseguir relaxar. Por favor, confie em mim. Deixe... – encostei no braço dele. Em
seguida, ele pôs a mão sobre a minha. – Deixe que eu faça isso. E preciso que você esteja
descansado.
Ele não disse nada, não demonstrou expressão alguma.
– Por favor – pedi mais uma vez. Se eu pudesse, faria sozinha, em um quarto escuro.
– Então me acorde quando terminar.
Eu dei a ele o melhor sorriso que pude.
– É claro.
Ele me olhou por mais um segundo, sempre preocupado, então rolou para o lado e repousou.
Eu poderia ver tantas coisas sobre a vida de Noah. Eu me perguntava o que ele diria se soubesse
que eu ia fazer aquilo. Ele provavelmente começaria com um sonoro NÃO.
Os botões brilhavam em um vermelho sem vida sob a luz fraca da van. Apertei o que dizia ABRIR
ÚLTIMO ESCANEAMENTO e deslizei a faixa na cabeça. Prendi a respiração ao sentir a dor.
As lembranças vieram em uma onda, rápidas demais para eu assimilar. Via imagens, não
sentimentos. Noah escovando os dentes em frente ao espelho do banheiro. Rolando no tatame que
pusemos na sala de estar. Olhando do sofá para mim e para a Sequência. Treinando golpes com
Rhys, tomando uma pancada nas costelas. As informações corriam por milhares de agulhas
microscópicas que iam direto para o meu tecido cerebral, onde se instalavam como tatuagem. Minha,
mas não minha. Então as emoções finalmente chegaram e tive que lutar contra o impulso de me
deixar levar.
Noah olhando para mim depois que saímos do rio, encharcados, logo depois de despistarmos a
equipe Beta. Noah dizendo adeus para a Miranda anterior a mim, deixando-a sem memória em
Columbus. Minha outra memória implantada desse mesmo momento ressurgia de repente e me fazia
oscilar entre dois pares de olhos, uma Miranda olhando para ele sem reconhecê-lo e ele olhando para
Miranda, olhos vermelhos de lágrimas. Mais tarde, Noah sozinho no banheiro, chorando. Noah
ajoelhado em frente ao vaso sanitário, vomitando, arrependido até o fundo da alma, desejando nunca
ter apagado a memória dela, sentindo culpa em cada célula do corpo.
As emoções conectadas a cada lembrança quase me sufocavam, mas eu me forçava a analisar cada
cena com objetividade. Uma exibição de slides, nada mais. Aqueles sentimentos não pertenciam a
mim.
Eu queria olhar para o lado. Queria parar. Mas não podia e não iria.
Conforme as lembranças se assentavam em mim, elas realmente se tornavam minhas. Eu podia
trazê-las à superfície tão facilmente quanto se fossem as da minha própria vida. Tentava me lembrar
de algum episódio em que Sequência tivesse agido de forma esquisita ou diferente. Talvez em um
momento a sós que o resto de nós não tinha presenciado. Se houvesse alguma pista, seria assim que
eu a encontraria.
O resto das lembranças de Noah ficaram guardadas com um peso enorme no fundo da minha
mente, como um livro gigante ainda não lido, que eu teria que carregar comigo o tempo todo. Elas
esperavam pacientemente por mim.
Mas uma veio logo à superfície, atendendo ao meu pedido.
Eu fora tão rígida antes ao dizer que ninguém além de mim poderia ver as lembranças de Noah;
mas naquela hora eu me arrependia por não dividir a responsabilidade.
U TIREI A FAIXA COM FORÇA O BASTANTE PARA ARRANCAR um pouco de cabelo. Voou cabelo para o
E teto, para o assento ao meu lado, para a janela lateral. Peter e Rhys continuavam esticados nos
bancos. Olhei para o relógio no painel. 02h02. Havia se passado menos de meia hora, e Nina
estava com quatro horas de vantagem.
– Eu sei aonde ir.
Eles olharam para mim como se eu fosse algum animal exótico.
– O que aconteceu? – Peter perguntou.
– O que você viu? – Rhys quis saber.
– Dirija! – fechei os olhos. – Apenas dirija – repeti, com voz mais baixa.
– Eu gostaria de saber um pouco mais – Peter reclamou. – Não nos deixe boiando.
Rhys olhava para nós com as sobrancelhas erguidas. Eu estava muito cansada. A última coisa que
queria fazer era descrever o que tinha acabado de ver.
Mas eu contei. Tudo. Meu rosto estava neutro; eu não podia deixar Peter saber o quanto aquilo
me afetara. Ele ficaria com ciúme ou imaginando o que mais eu estava omitindo. Ou talvez não. Eu
nunca o vira inseguro antes. Mas não queria arriscar. Não queria dar a ele outras preocupações, não
quando era essencial manter o foco.
– Você disse que a sala estava vazia, certo? – Rhys continuou. – Acho que já soa como algo que
não vai nos levar a nada.
– O nome disso é pista – eu retruquei. – Talvez ela tenha ido pra lá. Parecia que estava esperando
alguma coisa. Não sei.
– Ela está com uma boa vantagem em relação a nós – Rhys disse. – Tenho certeza de que ela já
deve ter ido para outro lugar a esta altura. Bem, não tenho certeza, mas é o mais provável. Não
sabemos nem por que ela gostava daquele lugar.
Eu suspirei.
– Talvez possamos seguir o rastro dela, Rhys. Você tem alguma ideia melhor?
Peter deu uma opinião:
– Talvez a fixação pelo lugar fosse alguma ligação com a personalidade latente dela. Ela não sabia
por que era atraída para lá, porque ainda não estava na hora. Não até que o código na música a
transformasse.
– Ótimo – Rhys disse. – Vamos supor que, quando chegarmos lá, Nina esteja esperando por nós.
E então?
– Então nós a encostamos na parede – Peter respondeu – e descobrimos que diabos está
acontecendo.
Falei para Peter pegar a estrada.
Eu podia sentir o beijo de Sequência. Aquilo era errado. Eu não devia ter as lembranças de Noah.
Elas nadavam na minha mente, esperando, como em um aquário fechado. Eu só precisava abrir a
tampa. Um pensamento e eu já saberia de tudo.
Eu gostaria de poder voltar atrás. Na verdade, não. Eu não teria feito nada diferente. Mas isso não
significava que eu gostava do resultado. Tinha que ficar me convencendo de que as lembranças
providenciavam uma pista, mesmo que fosse tão obscura quanto um prédio velho e sujo.
Peter saiu da estrada e eu fui explicando o caminho. As ruas iam ficando para trás e se misturando
com a lembrança do caminho percorrido por Noah. Passamos pelo mesmo posto de gasolina, pela
mesma placa de trânsito quebrada, até eu dizer que havíamos chegado e Peter parar. Ele fez a baliza
ao lado da entrada do beco. Do ângulo que estávamos, pude ver a porta de madeira que Sequência
arrombara com um chute. Alguém a recolocara no batente. O prédio inteiro parecia abandonado.
Não havia sinal algum do que fora aquele lugar no passado. A rua estava ainda mais vazia do que na
lembrança. Talvez fosse uma consequência do ensaio geral. Quem tinha algum outro lugar para ir já
havia deixado Cleveland. A lembrança dos enlouquecidos nas ruas, literalmente loucos de medo,
continuava fresca na mente das pessoas.
– É isso aí – eu disse, colocando as luvas com escamas. O traje se fundiu às luvas, não dava para
ver a separação das peças. Eu estava protegida dos dedos do pé à mandíbula.
– Você tem certeza? – Rhys perguntou.
Eu não me dei ao trabalho de responder.
Peter tinha um plano simples:
– Se ela estiver ali, vamos tentar fazê-la se entregar. Se ela não estiver com vontade de conversar,
tentamos imobilizá-la. Mas, se estiver perigosa demais, vamos agir de acordo com a situação. O que
acham?
– É um bom plano – Rhys disse –, se pudermos pular a parte de tentar conversar.
Peter beliscou a ponta do nariz.
– Rhys...
– É um bom plano – ele repetiu, dessa vez com seriedade.
– Miranda? – Peter disse.
– Entendi. Nina estava armada da última vez em que a vi – como se eles não se lembrassem desse
detalhe.
Peter encerrou dizendo:
– Se ela não estiver lá dentro, vamos procurar por algum sinal de que ela passou por ali. Então
nós... Não sei. Vamos pensar em alguma coisa.
Juntamos nossas armas e saímos pela noite fria. Minha barriga roncou e as mãos tremiam um
pouco, provavelmente não por falta de comida. Era estranho chegar no beco, como colocar os óculos
de outra pessoa. Eu via os meus olhos e os de Noah. Ele olhava para Sequência chutando a porta,
perguntando-se o que havia naquele lugar. E então eu estava diante da mesma porta. De certa
maneira, eu era a garota que arrombava a porta com os pés.
A voz de Peter me puxou para a realidade:
– O que você está vendo?
Coisas que eu não queria ver.
– A porta é essa mesmo.
Rhys se espichou pela frente e tentou olhar pelas janelas, mas elas estavam muito sujas e escuras.
– Não consigo ver nada. Não sei como...
Peter abriu a porta no chute. Pelo jeito, eu não era a única que estava sem paciência.
As dobradiças já estavam quebradas, então a porta toda se destacou do batente e foi caindo escada
abaixo até o porão. Ela tombou achatada no chão e uma boa quantidade de poeira se levantou em
volta. Saltei pela abertura e imediatamente soube que estávamos sozinhos. O porão parecia antigo,
como se já não tivesse mais ninguém vivo para se lembrar do que costumava acontecer por ali. O
cheiro no ar era apenas levemente melhor que o do necrotério.
Pude enfim sentir a atração que o lugar exercia. Era para estarmos ali, mas eu não tinha ideia do
porquê. Era como uma velha lembrança trazida de volta, como um cheiro ou um som. Uma
lembrança vaga, mas familiar.
– Vocês estão sentindo? – eu andava e percorria as paredes de tijolos com os dedos.
Atrás de mim, Peter e Rhys me olhavam de um jeito que fazia minha pele arrepiar. Eu não devia
ter dito aquilo. Se eles não estavam sentindo a mesma atração, sem dúvida o que ouviram soava
como um alarme de perigo.
– Tem alguma coisa neste lugar – eu disse, tentando parecer casual. – Vocês não sentem? – o
fundo da minha mente sentia um formigamento na parte em que estavam as lembranças de Noah.
Talvez fosse apenas minha imaginação.
– Eu não – Peter respondeu.
– Eu não sei – foi a resposta do Rhys.
O tempo tinha feito a argamassa se esfarelar, deixando os tijolos tortos e instáveis. Arranhei um
com a unha. Aliás, já quase não havia argamassa nenhuma. Poeira branca cobria o chão aos meus
pés, com alguns restos de tijolo espalhados pelos cantos. No topo da parede havia um vão escuro, e
um dos tijolos estava deslocado para o lado. Outro tijolo estava meio saltado para fora a alguns
passos à minha esquerda. Eu não precisava recorrer às lembranças de Noah para saber que a parede
não estava daquele jeito antes. Eu me inclinei para mais perto e senti uma corrente de ar na
bochecha.
A parede fora fechada havia pouco tempo. Alguém a reconstruíra recentemente.
Coloquei as mãos em um tijolo que estava prestes a se esfarelar sob meus dedos...
– Não tem nada aqui – Rhys disse.
... E empurrei.
11
A PAREDE DESMORONOU. TIJOLOS CAÍAM COMO CHUVA e se chocavam uns contra os outros,
esfarelando a argamassa e a transformando numa nuvem branco- -acinzentada. Nem
precisei me esforçar. A parede simplesmente desabou.
O ambiente ao lado era comprido, menos como uma sala e mais como um túnel. Mentalizei como
o prédio era por fora. Ele se erguia solitário naquele lado da rua, próximo a terrenos baldios cheios
de mato e ao esqueleto de um galpão mais ao longe. O túnel poderia dar em qualquer lugar, menos
em outro prédio, não em algum ali perto.
Nina fora até ali e atravessara aquela parede, então pusera os tijolos de volta no lugar como pôde.
A princípio, pensei: “Por que ela se deu ao trabalho de tentar esconder o rastro?”. Mas então me dei
conta de que só olhei uma segunda vez para a parede por causa da lembrança de Noah. A
reconstrução não fora perfeita, mas em outra situação poderia ter nos enganado.
Peter chutou forte a parede oposta, que não saiu do lugar. Testei as duas paredes adjacentes.
Eram bem sólidas.
Vasculhei as lembranças de Noah em busca de outro momento em que eles estiveram ali. Pulei a
parte em que a boca dela estava em seu pescoço e fui para a parte em que ela olhava para a parede,
mas não se movia nem encostava em nada. A pergunta era: o que a atraía para lá quando ela era
Sequência? Podia ser como Peter dissera, uma conexão com a personalidade de Nina. Ela sabia que
aquele lugar era importante, mas ainda não sabia por quê.
Talvez não fizesse muita diferença. A não ser... pelo fato de que eu também senti a atração assim
que chegamos. Talvez meu cérebro estivesse apenas confuso, tentando entender como eu podia me
lembrar daquele lugar, apesar de ser a primeira vez que eu estava ali.
Rhys ficou olhando para o túnel. Era mais escuro que carvão. Ele espanou as mãos uma na outra
e se virou para nós.
– Aonde vocês acham que isso vai levar?
– Só tem um jeito de descobrir – Peter respondeu.
Rhys soltou um som que era quase uma risada.
– Então Nina reconstruiu a parede para esconder o rastro. Isso significa que, seja lá o que ela
estiver fazendo, é importante o suficiente. Tenho certeza de que ela levou mais do que cinco minutos
para pôr esses tijolos no lugar.
Isso significava que ela podia não estar com tanto tempo de vantagem à nossa frente como
pensávamos.
– De volta para a parte do só tem um jeito de descobrir. Eu vou pegar as lanternas. – Peter subiu a
escada de volta para o beco e, quando dei por mim, eu também estava do lado de fora com ele.
Agarrei o punho dele e o puxei para trás. Quem é que poderia dizer quando poderíamos ficar a
sós novamente? Meu estômago se revirava e o suor me dava coceira sob o traje. Eu não queria olhá-
lo nos olhos e ver o que ele estava sentindo, porque gostava de fingir que nada o abalava. Mas Peter
geralmente não tentava esconder os sentimentos, a menos que houvesse uma vantagem estratégica.
E era exatamente o que eu estava buscando, algum sinal que confirmasse que eu era um membro do
time, e não uma possível ameaça.
Acho que obtive a resposta imediatamente. Os olhos dele estavam duros, na defensiva.
– Você ainda confia em mim?
Ele engoliu em seco, o que já me confirmava a resposta. Mesmo assim, esperei.
– Você quer que eu vá embora?
– Já conversamos sobre isso. Não.
Abaixei a voz para que Rhys não pudesse ouvir.
– Mas você não pode confiar em mim até sabermos mais – eu disse, como uma acusação. Eu não
devia ter falado daquele jeito, porque não era culpa dele.
– Você está me pedindo alguma coisa ou me contando? O que você quer que eu faça, Miranda?
Sinto muito, mas eu te amo.
Ali estava, em alto e bom som. Ele não podia retirar o que disse. Nos últimos tempos, nós
vínhamos rodeando a frase completa, nenhum dos dois muito seguro sobre ser cedo ou não para
dizer, mas ambos querendo dizê-la. E amarelando.
Diga que você também.
– Você me ama? – foi o que eu disse.
– Sim – a expressão do rosto dele não tinha expectativa. Ele não estava esperando que eu dissesse
nada em resposta. Ou, se estava, fazia um ótimo trabalho para esconder.
– Então... – comecei, sem muita certeza do que iria dizer.
Ele agarrou meu braço e me levou para longe da porta.
– Mas eu não posso deixar isso afetar minhas decisões – ele sussurrou. – Eu te amo e confio em
você, mas se... se você se tornar não você, vou ter que tomar cuidado, é claro – os olhos dele estavam
úmidos.
O certo é se sentir diferente quando alguém diz que te ama. Naquele momento, eu preferia que
ele me mandasse embora de uma vez. Não era a primeira vez que me imaginava dando o fora. Eu
podia roubar um carro e dirigir para qualquer parte. Mas preferia morrer a ver Nina se safar. Além
disso, Peter podia me encontrar com aquele rastreador estúpido.
Peter se aproximou de mim, mas eu me afastei do beijo.
– Não. Eu posso ser perigosa.
– Isso não é justo. Você disse que tem alguma coisa neste lugar e me perguntou se eu sentia. Diga
pra mim que isso não soa estranho.
Ele estava certo, claro.
– Vá buscar as lanternas – eu falei, então voltei para o porão.
Encontrei Rhys agachado, examinando um tijolo para fingir que não estava tentando ouvir às
escondidas. Ele deixou o tijolo cair das mãos.
– Tá tudo bem? – perguntou com uma gentileza na voz que não era comum. – Além do óbvio? –
ele estava sorrindo.
Eu quase sorri em resposta.
– Vamos ver.
O túnel estava vazio. Era escuro e havia vigas de madeira nas laterais, como em uma mina.
Alguém o construíra. Pensar naquilo me tirava da mente qualquer pensamento sobre Peter e nosso
relacionamento. Alguém construíra aquilo. E Nina sabia. Alguém cavara um túnel escondido sob a
cidade, e então Nina aparecia muitos anos depois e eu não tinha ideia do porquê, nem Peter nem
Rhys. Aquilo parecia muito antigo, velho demais para ter sido feito por nossos criadores. Teias de
aranha do tamanho de cobertores se penduravam das vigas, que eram tão velhas que pareciam de
pedra em vez de madeira. Os fachos de luz das três lanternas vagavam ali, cortando a escuridão,
mostrando um cenário preto. Nossos pés roçavam lentamente nos pedregulhos. Nossa respiração
estava controlada, avançávamos em um ritmo constante. Não falávamos, pois nosso corpo era como
uma antena sensível, escutando os sons mais sutis, os olhos atentos a tudo o que surgisse diante dos
fachos de luz. A cada passo eu achava que Nina podia se materializar no meio da escuridão com a
espada na mão.
Andamos por 15 minutos no solo irregular. O ar tinha um odor quente, cozido, como o de pedras
ao sol.
Rhys foi o primeiro a falar:
– Quando vamos desistir e voltar?
– Você precisa descansar? – perguntou Peter.
– Não. Só não consigo entender quem é que constrói um maldito túnel atrás de uma parede sem
motivo.
Passei por uma pequena elevação.
– Quem disse que não há motivo?
Ele ficou em silêncio por 20 segundos.
– Eu ainda não estou vendo nenhum, só isso.
Mas então nós vimos. Avistamos trilhos. Duas linhas estreitas de aço que faziam curvas em meio à
escuridão. Uns 30 metros adiante, minha lanterna revelava a traseira de um carrinho de mineração.
Era como eu imaginava que os mineiros usavam, mas maior, grande o suficiente para que nós três
coubéssemos com folga. As rodas enormes estavam enferrujadas, mas sólidas. Demos a volta no
carrinho, iluminando-o com as lanternas por todos os ângulos. As laterais eram feitas de tábuas de
madeira rugosa, unidas por uma sólida armação de ferro.
– Não tem motor – Rhys disse.
– Deveria ter um motor? – Peter perguntou.
Rhys se aproximou do carrinho e iluminou em volta.
– Não tem nenhum mecanismo para nos arremessar manualmente, então, sim, eu esperava ver
um motor.
O carrinho parecia velho, mas inteiro. Não estava de modo algum deteriorado. Saltei para dentro
e pisei firme no metal enferrujado que tinha a cor do meu cabelo.
E então o carrinho começou a se mover.
12
–S – Não!!Entrem!
AIA DAÍ– PETER GRITOU.
Eles não tiveram tempo para discutir. Peter e Rhys correram atrás de mim. Eu estava acelerando
mais rápido do que esperava e os puxei para dentro do carrinho.
Em poucos segundos já estávamos rápidos demais para saltar. O vento rajava contra nós,
sentados com a cabeça pouco acima das beiradas, acelerando em meio à escuridão. As rodas uivavam
e rangiam ao longo dos trilhos, fazendo a estrutura do carrinho vibrar e meus dentes crisparem. O
chão continuava plano, portanto, o carrinho estava definitivamente se movendo por conta própria.
– Não pensamos nisso – Peter gritou.
– Você queria andar pelo resto do dia? – gritei de volta, torcendo para que aquela fosse a melhor
decisão.
Tentei relaxar a tensão dos músculos, mas com apenas escuridão pela frente, parecia que a
qualquer momento poderíamos cair dos trilhos em uma caverna subterrânea.
Rhys falou:
– Se Nina também fez essa viagem, nós estamos no lugar certo. Logo vamos descobrir por quê.
Ou talvez o carrinho escape dos trilhos e esmague nossa cabeça em alguma parede – ele riu, mas nós
não. Ele exagerou um rosto sério com a lanterna acesa debaixo do queixo. – Vocês deveriam rir em
momentos como esses – ele disse, baixo demais para ouvirmos com tanto barulho, mas eu li seus lábios.
O carrinho gritava e o vento passava cortante pelo meu cabelo. Alguns trechos do túnel já eram
iluminados. Eu via os pontinhos amarelados brilhando a distância, e no segundo seguinte estávamos
lá, e um segundo depois ficavam para trás, minguando na escuridão. Eu não podia sequer adivinhar
a velocidade em que viajávamos. Fiquei algum tempo ajoelhada e virada para a frente, com as mãos
apertando firme a beirada, fitando a escuridão. Os gemidos do metal contra metal matavam qualquer
pensamento na minha cabeça, antes mesmo que eles tomassem forma.
Eu me recostei no fundo do carrinho e me acomodei. Era quase confortável, a não ser pelo cabelo
chicoteando nos olhos. À minha esquerda, Peter era iluminado pela luz a cada dez segundos. O rosto
dele estava sério e determinado, vendo o caminho à nossa frente.
O carrinho vibrava debaixo de mim, sacudindo. No mínimo 160 quilômetros por hora. Mais. E
não acabava nunca. Nós não caíamos em caverna nenhuma e eu parei de achar que isso fosse
acontecer. Estávamos indo para algum lugar, isso ficou bem claro. Permaneci acordada durante
cerca de uma hora, mas nada mudava. Continuávamos voando pelos trilhos, mas a rota ficou mais
suave. Não havia mais curvas para nos jogar para as laterais do carrinho. Só um zumbido estável,
um tremor sutil que eu sentia pelo corpo todo. O carrinho estava fazendo o melhor possível para me
ninar.
Peter encostou de leve em meu braço.
– Descanse. Eu aviso se alguma coisa mudar.
Eu acenei, agradecida, porque não sabia quando poderia fechar os olhos de novo. E logo minha
mente me levou a algum lugar, meio acordada e meio dormindo.
Eu estava do lado de fora de uma cabana de madeira erguida diante da face íngreme de um
penhasco. Eu me lembrava daquele lugar. Nós tínhamos feito um exercício de treinamento no
parque nacional e chegado àquela cabana. Noah me convencera a entrar porque nós dois estávamos
duros de frio por causa dos ventos congelantes. Havia fogo aceso ali dentro, mas ninguém por perto.
Demos nosso primeiro beijo perto das chamas, com um lado do meu rosto assando com o calor e o
outro dolorido de frio. Eu tinha 15 anos.
Desta vez, as árvores ao meu redor estavam bem verdes e vivas e os pássaros cantavam. Fui até a
cabana e abri a porta. Passei pela sala e notei o fogo desnecessário rugindo na lareira. Havia uma
mesa de madeira nodosa no meio, com dois copos em cima. Eu podia ver dali que os copos estavam
cheios de chocolate quente e minimarshmallows. Noah se sentou à mesa, sorrindo. Eu me sentei na
frente dele, sorrindo de volta. Aqueci as mãos na caneca. Ele deu um gole.
– Deixe comigo – ele disse. – Deixe-me ajudar. Eu juro que consigo.
Eu queria que ele me ajudasse.
– Está bem.
– Pode ser que machuque. Não tem muito espaço aqui.
– Estou pronta.
Ele lambeu os lábios e deu mais um gole. Eu ergui a caneca e virei um pouco de chocolate quente
na boca. Era a coisa mais deliciosa que eu já provara. E de repente não era mais. Estava a milhares
de graus e me queimava por dentro e me derretia e eu abri a boca para gritar...
STOU MORTA.
E Uma parte da confusão se dissipava, deixando-me vazia, mas com menos medo. Eu podia
estar morta, mas nesse caso pelo menos não seria possível me machucar mais.
– Você não está morta – Noah disse. – Ao menos, tenho quase certeza de que não está. Quero
dizer, não. Não está. Eu ia saber.
Seus olhos escuros brilhavam, pequenos fragmentos de ônix. Combinavam muito bem com
aquele lugar. As escamas pretas do traje dele escondiam onde a ferida estaria. Eu não sabia como ele
chegara ali, mas obviamente não fora do mesmo jeito que eu.
Isso abria outra possibilidade.
Ele parecia saber o que eu ia perguntar antes que eu abrisse a boca.
– Eu também não sou outra versão dele – ele disse. – Lembra-se da manteiga de amendoim?
– Sim. Então onde eu estou?
Ele deu de ombros. Estava com o traje, mas desarmado.
– Não faço ideia. Eu não gostaria de vir aqui por vontade própria, mas quem gostaria?
Eu ri. A risada escapou dolorosamente da boca e ecoou pelas pedras da cela apertada.
– Então o que você tá fazendo aqui?
– Eu sei que parece loucura – ele disse sorrindo, e eu ri mais uma vez.
Eu não podia acreditar que era ele. Parecia tão real. O sorriso, a covinha que às vezes aparecia na
bochecha direita. Lágrimas correram pelo meu rosto.
– Por que não tenta explicar?
– Está tudo meio confuso agora – ele enrugou o nariz. – Mas tem alguma coisa que eu precisava
lembrar, alguma coisa que eu não sabia antes, e agora sei. Isso parece loucura.
– Parece.
Dei um passo à frente, em meio à luz vacilante, e ele também. A luz formava sombras em forma
de v sob os olhos dele. Eu me aproximei, lentamente, e toquei seu pescoço com a ponta dos dedos.
Tirei as escamas pretas daquela parte do corpo.
E senti a pele por baixo.
A pele imaculada. Inteira. Sem corte.
E impossível.
– Isso não é real – fechei os olhos.
Quando ele falava, seu hálito tocava minhas bochechas.
– É real na sua mente. Eu sinto você da mesma maneira. Não consigo explicar.
– Você consegue ouvir meus pensamentos?
Ele balançou a cabeça.
– Só quando você quer. Você pode ouvir os meus?
Eu também balancei a cabeça. O segredo do meu passado recente estava seguro.
Ele pôs um dedo sob meu queixo e o levantou. Esfregou o polegar no meu lábio inferior. Senti o
sal das minhas lágrimas. Eu podia vê-lo, senti-lo, cheirá-lo. Meus joelhos tremiam.
– Mas você morreu – sussurrei.
– De certa forma – ele respondeu, então se inclinou para a frente e pôs os lábios dele nos meus.
A lâmpada falhava, zumbindo. Meus olhos se abriram de repente e minhas mãos estavam no alto à
minha frente, curvadas, como se eu estivesse abraçando alguém, e de repente ele não estava mais lá.
Noah se fora.
– Onde está você? – sussurrei, sem esperar resposta.
– Aqui – a voz do Noah. Na minha cabeça. Mas como se estivesse falando ao meu lado.
Eu só podia ter um único pensamento: como?
– Eu não sei.
– Volte. Quero ver você – eu não queria ficar sozinha.
Ainda sentia o vestígio do beijo nos lábios. Eu não sabia por que tinha beijado de volta. A
sensação era de algo terrivelmente errado e certo ao mesmo tempo.
– Se minha voz na sua cabeça é um pouco estranha, imagine como é pra mim.
Eu virei. Noah estava com os ombros recostados na parede, com os braços cruzados. Estava com
um ar convencido e desleixado. Era bem a cara dele.
– Mas você não está realmente aqui...
– Achei que essa parte já tinha ficado clara – ele estava fingindo que não tínhamos acabado de nos
beijar. Por mim, tudo bem.
– Você tá bem? – uma pergunta estúpida. Eu me arrependi no instante em que as palavras saíram
da boca.
Ele piscou rapidamente.
– Não exatamente. Mas estou me virando. Você sabe que eu sempre dou um jeito. Mas tem uma
coisa que me dói – ele deu um tapinha na cabeça com as costas da mão. – Eu devia estar fazendo
uma coisa.
– O quê?
– Não sei. Preciso de mais do que 30 segundos.
Era ele mesmo.
– Mas que inferno é esse lugar?
– Parece a cela de uma prisão – sorriu. Um sorriso largo.
Por um segundo pensei que tudo estaria bem. Se aquilo não era um sonho nem o inferno, e se
Noah estava mesmo ali... Bem, eu não estava sozinha. Mesmo que ele só estivesse na minha cabeça.
– É você. Mesmo – falei, incapaz de disfarçar o tom choroso da voz.
Ele acenou sorrindo e franzindo as sobrancelhas. Vivo, ele só franzia as sobrancelhas quando
estava tentando me mostrar que dizia a verdade. Apalpou o próprio peito e as pernas, para garantir
que estava tudo no lugar.
– É assim que você se lembra de mim?
Um calafrio me percorreu quando me dei conta de que estar presa implicava um perigo maior do
que o tédio. As injeções de memória estavam fora do alcance. Eu poderia aguentar por um tempo,
mas não parecia que eu iria para casa tão cedo. Mesmo que conseguisse sobreviver ali por um dia ou
dois, tudo se perderia se eu não mantivesse as lembranças. Em pouco tempo estaria sem noção de
nada, confusa, sem identidade.
– Estou sem o remédio – eu disse, mais para mim mesma. – Você não tem nenhum aí com você,
tem? – era uma espécie de piada.
Noah apalpou os bolsos.
– O meu acabou. Mas não se preocupe com isso ainda. Preocupe-se com...
O chão começou a vibrar sob meus pés gelados. Um zumbido mecânico que quase fazia cócegas.
Mais pedrinhas rolaram das paredes.
E o chão começou a se dividir ao meio.
15
L abismo preto se ampliava, e eu vi que estava certa: havia mesmo água sob o chão. Água preta.
Tão preta quanto o lago no qual eu saltara, com a diferença de que ondulava com as vibrações
do chão deslizante. Refletia a luz amarela da lâmpada acima.
– Saia daí! – Noah gritou.
Eu estava com um pé de cada lado e estava começando a abrir um espacate. Tomei impulso com o
pé direito e passei para a metade em que Noah estava. Pois é, levei todo esse tempo para me dar
conta de que a cela iria me derrubar na água preta. E não havia nada que eu pudesse fazer para
impedir.
– Faça alguma coisa! – Noah exclamou, agarrando meu ombro.
Não era só eu que estava ali. Avancei para as barras e tentei firmar os pés do lado de fora, mas eu
não tinha reparado antes que o chão fora da cela estava coberto de pequenas lâminas afiadas que me
cortaram. Sangue quente escorreu pela sola do meu pé.
O abismo já ocupava um terço do chão da cela. Dentro de pouco tempo eu ficaria sem espaço.
– Faça alguma coisa, Mi.
Resolvi tomar uma atitude. Firmei o pé no metro de chão que ainda sobrava e com o outro chutei
a porta na parte em que as dobradiças estavam mais desgastadas. O pé deixava um rastro de sangue
nas barras enferrujadas. Uma dor lancinante subiu até o joelho, que é o que acontece quando se
chuta ferro duro. Chutei mais duas vezes, deixando um rastro ainda mais espesso de sangue, que
jorrava livremente do corte.
– Vamos, Miranda! Chute! – Noah estava ao lado, batendo as mãos. – CHUTE!
Chutei mais uma vez e outra, até que a porta ficasse fora de alcance e meus dedões estivessem
formigando. Meu pé doía, o corte ardia. As dobradiças vibravam sem sair do encaixe. Agarrei as
barras para conseguir alcançar, e na posição desengonçada em que eu estava, chutei mais uma vez.
Acertei com a parte errada do pé; torci meu tornozelo dolorosamente e eu gritei alto.
– De novo!
– Não consigo.
– Cale a boca. De novo.
Eu gritei e saltei na porta assim que fiquei sem chão, agarrando duas barras e calcando o pé
verticalmente como pude. Dei tudo o que tinha, com os braços tremendo, os ombros ardendo e as
costas doendo enquanto passava por cima da água.
– Não ouse desistir!
As pernas estavam latejando, quentes e avermelhadas, e a cabeça estava prestes a explodir. As
dobradiças gemeram tanto quanto eu, mas não se moveram. Todo o meu corpo estava em chamas.
Eu me segurava naquela jaula como um macaco. Meus braços tremiam, mas mesmo assim eu me
segurava. O chão desaparecera, a água preta esperava para me engolir. Eu me pendurei na jaula com
os joelhos, evitando colocar o pé latejante naquelas lâminas novamente. Meu corpo inteiro tremia e a
porta sacudia silenciosamente. Se pudesse descansar por um momento, respirar fundo, poderia me
segurar por mais tempo.
Girei a cabeça para os lados, mas Noah desaparecera.
– Não me deixe sozinha – pedi em voz alta.
Eu fiquei sozinha.
Ele não estava me ignorando; eu não o sentia em parte alguma.
A ideia de perdê-lo mais uma vez desnorteava meu cérebro, eu me recusava até mesmo a imaginar
a possibilidade. Gemi e bati a cabeça nas barras, como se assim pudesse trazê-lo de volta.
– Eu estou aqui – ele disse na minha cabeça.
– Aonde você foi? – uma constatação terrível me assolava. Eu não iria conseguir me segurar ali
para sempre. Meus dedos já estavam ficando dormentes por terem de suportar a maior parte do meu
peso. Eu ouvia as gotas do sangue do meu pé em um pinga-pinga constante na água escura.
– Eu não sei. Não posso controlar. É como se sua mente estivesse tentando me expulsar. Só posso
aparecer aqui quando você está calma.
– Eu estou calma! – gritei, com os músculos do braço tensos como rochas.
– Eu não caibo aqui. Não tem espaço o suficiente...
Eu perdia a conexão.
– Noah?
Então os parafusos que seguravam o topo da porta da cela dispararam como pequenas balas em
direção à água, dando um tranco em meus ombros. Senti a tensão na porta suavizar e só tive tempo
para puxar o ar antes que aquilo tudo tombasse e me jogasse na água.
16
PORTA NÃO FORA FEITA PARA FLUTUAR. EU ME AGARREI às barras e tentei me projetar para
A longe, mas a coisa continuava me empurrando para baixo. A água preta não deixava luz
alguma penetrar e pinicava meus olhos. Eu os mantinha bem fechados enquanto tentava
chegar à extremidade e me empurrar para longe da porta. Senti que não iria conseguir, pois estava
afundando rápido demais. A pressão em meus ouvidos só aumentava, doendo, latejando.
Em seguida, as barras de ferro foram arrancadas das minhas mãos e a correnteza me golpeou com
força pelas costas, arremessando-me para a frente.
A água morna gorgolejava em meus ouvidos e fazia arder as feridas em meus pés. Os segundos se
passavam enquanto eu dava uma, duas cambalhotas, até perder todo o senso de direção. Uma coluna
de água me arremessou para um lado e eu girei novamente, na lateral. Abri os olhos e virei a cabeça,
mas não conseguia ver nada. Nenhuma superfície. Eu não conseguiria subir à tona. Não sabia para
que lado bater as pernas. Os olhos ardiam, a boca também. A água negra tinha gosto de antiácido.
Em pouco tempo minha boca se abriria e eu engoliria aquele líquido até os pulmões. Talvez não fosse
tão ruim.
“Noah, não me deixe sozinha.”
Ele não respondeu. Talvez nunca tivesse estado mesmo ali.
Eu afundava mais conforme a correnteza abrandava. Afundar significava que a superfície estava
do outro lado. Tentei bater perna naquela direção e senti que alguma coisa puxou meu tornozelo. Eu
chutei, mas fosse o que fosse, já tinha sumido. Então outra corrente me puxou para o lado. Não era
uma corrente de água comum: fui atingida por todos os lados, empurrada e puxada. Eu precisava
abrir a boca. Desta vez Noah não estava ali para me insuflar ar. Eu estava sozinha. Se ele não tivesse
me beijado da outra vez para me manter viva, eu não teria vivido o bastante para matá-lo. Não teria
vivido o bastante para morrer sozinha ali no escuro.
A água me empurrou para mais longe e, de repente, outra coluna de água me golpeou por baixo,
levando-me para cima. Meus pulmões estavam prestes a estourar. Não havia mais como adiar. Abri a
boca para gritar e bolhas envolveram meu rosto; então cheguei à superfície, ofegante, engolindo água
e tossindo.
Dois pares de mãos ásperas me arrancaram da água e me puseram de costas. Tentei abrir os
olhos, mas ardiam muito.
Um instante se passou enquanto considerei a possibilidade de lutar, apenas ir com tudo e disparar
toda a energia psíquica que eu pudesse, mas isso não seria inteligente. Eu estava meio cega e em um
local estranho, com inimigos desconhecidos. E ainda não estava morta, o que contava alguns pontos.
– Noah... – falei, com poças de água escura e imunda ao meu redor.
– O que você disse?
Venci o ardor e abri os olhos. Um homem estava ali, olhando-me de cima. Ele tinha cabelo eriçado
em corte militar, pele morena e olhos tão escuros quanto a água. Podia ter uns 30 ou 40 anos. As
roupas eram paramilitares: calças pretas de combate enfiadas em grandes botas pretas e um colete
preto espesso com muitos bolsos e zíperes. O cara gostava de preto. E de luvas sem dedos,
aparentemente.
O homem me cutucou com o pé.
– Eu perguntei o que você disse.
Nós estávamos no interior de um prédio que não se parecia com nada que eu já tivesse visto antes.
Tinha a forma de uma colmeia oca, na qual os andares mais baixos formavam as maiores
circunferências. A circunferência interna de cada andar ficava aberta para o centro da estrutura.
Bem no meio, perto de mim, uma coluna do tamanho de uma sequoia se erguia do chão ao teto.
Passarelas se ramificavam na coluna, que era como o tronco de uma árvore de Natal metálica.
Ao meu lado estava a escotilha por onde eles haviam me puxado. Eu podia ouvir a água
gorgolejando embaixo.
– Talvez ela não fale nossa língua, senhor – ouvi a voz de uma garota atrás de mim.
O homem agachou.
– Eu acho que ela fala. Você me escutou?
– Escutei – respondi.
Eles não tinham me impressionado o bastante para garantir uma resposta imediata. Eu estava
encharcada, ferida e irritada. E confusa. Eles não me reconheciam. Se aquela construção era obra
dos criadores, como eles podiam ter dúvidas sobre a língua que eu falava?
– Tá vendo? – o homem se voltou para a direção de onde vinha a voz feminina.
– Tem algum motivo para eu estar molhada?
– É o protocolo – o homem disse. – Você está em uma condição fragilizada. A água tem uma
propriedade temporária que retarda o tempo de reação, efetivamente tranquilizando você.
Sem brincadeira; eu me sentia acabada, apesar de ter recuperado o fôlego.
– Ótimo. Mais alguém... apareceu?
Tranquilizada ou não, eu ainda podia sentir. Especialmente raiva. Aquelas pessoas encostaram em
mim contra a minha vontade e eu não estava livre. Até que aquilo mudasse, a raiva iria me queimar
por dentro. Eu vestiria a raiva como o traje que eles roubaram de mim.
O homem não disse nada, apenas me observou com olhos impassíveis. Era como se ele estivesse
surpreso.
– Onde estou? Cadê meus amigos?
– Como você passou pelo portão?
– Eu vou responder à sua questão depois que responder à minha.
Ele me chutou nas costelas com tanta força que senti nos pulmões. Uma dor lancinante percorreu
o peito no ritmo da pulsação. Quase disparei meu poder. A pressão crescia na cabeça, mas parei no
último segundo e me apoiei sobre as mãos e os joelhos. Se eu emitisse as ondas de medo, iria precisar
de uma injeção de memória antes do programado. Além disso, não queria que eles soubessem do que
eu era capaz até o momento em que estivesse preparada.
– Onde estão os outros com quem eu vim? – perguntei assim que recobrei o fôlego. Eu iria
continuar perguntando o quanto fosse preciso.
Ainda de quatro, vi a garota e outro homem, vestindo as mesmas roupas que o primeiro, mas as
deles eram vermelho-escuras, como sangue seco ou pétalas de rosa. Eles tinham lenços de pano
cobrindo o nariz e a boca, em forma de um triângulo de ponta-cabeça, como vilões de faroeste. O
homem tinha cabelo loiro na altura do ombro, e a garota, curto e preto, como o de Nina. A pele dela
era escura, e a do homem, pálida como se ele nunca tivesse visto o sol. Os três apenas me
observavam, sem se mover e sem emoções.
– Onde eles estão? – tive que fazer força ao pôr as palavras para fora, com as costelas latejando.
Eu me esforcei para me erguer de joelhos, dando as costas para os dois de vermelho, já que
claramente não estavam no comando.
– Vivos – o homem de preto finalmente respondeu.
Quase deixei o corpo tombar no chão, quando o alívio relaxou meus membros. Vivos. Eu tinha
que me ater àquilo. Vivos.
Os trapos grudavam em mim, mostrando os contornos do meu corpo. Eu queria me cobrir e os
três não me olhavam com discrição. Eles me estudavam como se eu fosse algum tipo de alienígena.
Não uma pessoa, e sim uma coisa.
O homem se agachou diante de mim e usou o polegar e o indicador para virar meu rosto para a
esquerda e para a direita, como se estivesse me inspecionando. Eu o encarei fixamente.
Então ele falou:
– Você é igualzinha à garota que apareceu aqui algumas horas atrás. Você a conhece?
17
U ME LEVANTEI.
E Rápido demais, talvez. O homem de preto se levantou ao mesmo tempo e os dois de vermelho
me chutaram atrás dos joelhos para que eu caísse novamente. Eu me preparei para mais uma
pancada, que não veio. Escorria água preta de mim. O cabelo pendia com o peso e o sutil aroma
ácido do líquido revirava meu estômago. Eu continha o grito de pura frustração que estava preso no
peito.
– Paciência – ouvi Noah dizer.
Aquilo me surpreendeu. “Você está aí?”, perguntei em pensamento.
Dois segundos se passaram e ele não respondeu, e meu ânimo diminuiu ainda mais.
Lentamente, ergui a cabeça e olhei para o homem de preto. A impressão era de que ele ficaria
satisfeito apenas me observando por mais uma hora.
– Onde está essa garota? – perguntei, fria como gelo. “Por que você não sabe quem ela é?” Isso
não perguntei em voz alta.
Ele me ignorou completamente. Para os outros dois, falou:
– Coloquem a outra garota no bloco de baixo – os passos deles se afastaram, vigorosos e firmes. –
Sem contato – acrescentou, antes que estivessem longe demais.
Estávamos sozinhos e ele não parecia nem um pouco preocupado. Nenhum sinal de nervosismo
nos olhos ou na postura. Até onde eu podia dizer, ele poderia me derrotar em uma luta corpo a
corpo. E, se percebesse do que eu era capaz, tomaria precauções extras que dificultariam minha fuga
mais tarde. Sem mencionar que eu preferiria morrer a deixar Rhys e Peter para trás.
Talvez eu pudesse usar lógica com aquele cara.
– Acho que tivemos um mal-entendido – falei.
Era possível que ele não estivesse associado aos criadores, o que seria ótimo, mas aquilo não
explicava o túnel nem o lago preto, já que Nina obviamente sabia a respeito deles. E ela era uma das
armas dos criadores. Ou ao menos uma arma da sra. North.
– Que tipo de mal-entendido?
Lentamente, eu me levantei de novo, prestando atenção para que minhas mãos ficassem visíveis.
Falei calmamente:
– Não sei onde estou nem como cheguei aqui. E não sei o que você acha da outra garota, mas
saiba que ela já matou um dos meus amigos. E vai matar você também, se ficar no caminho dela.
O homem de preto me estudou por um tempo maior, então me deu as costas. Trinta segundos se
passaram. Eu tentei pensar em algum plano, mas minha mente estava em branco. Pouco depois, vi
os dois de vermelho voltando de um corredor no primeiro andar. Contei quatro aberturas para
corredores: Norte, Sul, Leste e Oeste.
– Ela está pronta, comandante – a garota avisou.
– Você é o comandante do quê? – perguntei, antes de pensar muito a respeito. Era uma pergunta
justa.
– Não fale... – disse o homem de vermelho.
O comandante ergueu uma mão para que ele se calasse.
– Saiam – eles retomaram os passos, sem questionar nem hesitar. – Meu nome é Gane. Sou o
comandante da Verge e administrador do que sobrou desta cidade.
– Miranda North. Às suas ordens.
A boca de Gane se abriu, como se ele não acreditasse que eu fosse capaz de sarcasmo. Então ele
riu e disse:
– Venha comigo – ele foi para a mesma direção que os dois de vermelho. Quando começou a
andar, sua graciosidade ficou evidente. Ele deslizava como um fantasma, as botas quase não emitiam
som. – Eu disse para vir comigo – ele não se deu ao trabalho de olhar para trás.
Eu não estava interessada em fazê-lo voltar para me buscar, então o acompanhei.
– Se eu pedir uma coisa importante, você vai me ouvir?
Eu estava alguns passos atrás do comandante Gane. Ele não se incomodava em me mostrar as
costas. Havia um calombo estranho debaixo do colete dele, no meio das omoplatas. Eu me visualizei
dando um passo à frente e soltando um murro na espinha dele. E então? Eu precisava entrar na
cabeça dele, mas deixar passar a chance de atacá-lo e escapar fazia minha pele coçar com a
oportunidade perdida.
– Peça.
– Nós chegamos aqui vestindo trajes pretos à prova de balas. Onde eles estão?
Ele continuava andando.
– Por quê?
– Precisamos de uma coisa escondida nesses trajes. Se não a pegarmos, vamos perder nossas
memórias – lembrar-me do que eu poderia perder não me ajudava muito, mas eu continuava nessa
toada.
Ele me conduziu até um corredor, que na verdade era um túnel circular escavado em uma rocha.
As paredes eram lisas e iluminadas por tochas de madeira. As chamas tremeluziam e pintavam
nossas sombras dançantes pelas paredes. Era como se passássemos do futuro para tempos
medievais.
– Nós perderíamos todas as nossas lembranças – continuei. – Por favor. Nós perderíamos
qualquer utilidade pra vocês.
Ele finalmente olhou para mim de soslaio.
– Quem disse que eu quero usar vocês?
Tentei pensar em alguma resposta, mas tudo o que me ocorria era: o que vocês querem? Eu não iria
perguntar porque duvidava que ele me desse uma resposta sincera; e não iria lhe dar a chance de me
ignorar. Eu me lembrei da última palavra que Noah dissera em minha mente.
Paciência.
O túnel fez uma curva à esquerda e parou diante de uma porta de ferro preta. Gane a abriu e
entrou, revelando um espaço com duas celas ao fundo, com as mesmas barras de ferro e riscas no
chão.
Na cela da direita, Peter e Rhys.
Na da esquerda, Nina.
18
ALÍVIO DE VÊ-LOS SUPERAVA TODOS OS OUTROS sofrimentos, infundindo nova energia em mim.
O Corri em direção às barras das celas, com os nomes deles na ponta da língua. A porta bateu
atrás de mim.
Nina estava na jaula dela, à esquerda, observando-nos com os braços cruzados atrás das costas.
Tudo o que eu sentira pela morte de Noah voltou em um instante, corroendo meu estômago. Ela
tinha sorte de haver barras de ferro entre nós. Tentei ignorá-la porque não queria que o rosto dela
estragasse a sensação de ver Peter e Rhys novamente. Nós três vestíamos os mesmos shorts
esfarrapados e camisas de pano sem mangas.
Minhas mãos passaram pelas barras e agarraram as de Peter. Rhys pegou em meu antebraço. Nós
ficamos assim, unidos. Nossa respiração estava pesada, como se tivéssemos acabado de correr.
Estávamos juntos, sentindo o calor uns dos outros, firmes, inteiros e vivos. Se eu pudesse manter
tudo assim, nada mais importaria.
– Vocês estão vivos – eu disse, enfim.
Peter inclinou a cabeça, e eu apertei meu rosto entre as barras para que nossos lábios se tocassem
de leve.
Foi o suficiente para trazer Noah de volta. Eu o sentia de pé atrás de mim, como uma pessoa que
tivesse acabado de entrar no local. Encerrei logo o beijo em Peter e me virei.
– Você se lembra de como me beijou na sua cela? Você me beijou como costumávamos nos beijar
antes. Do mesmo jeito...
“Noah...”
O que ele disse era verdade e me fez querer chorar. Eu não devia ter feito aquilo.
Ele me ignorou, olhando languidamente para a cela de Nina. Mas aquilo não podia ser... Como ele
podia vê-la? Se ele estava só na minha cabeça, era assim que meu cérebro o visualizava?
Gane me perguntou:
– Em que cela você prefere ficar?
O medo percorreu os olhos de Nina, mas ela tentou disfarçar sob uma máscara de indiferença.
Uma máscara na qual eu poderia acreditar, se ela não tivesse dado um passo para trás. Algum
instinto primitivo tomou conta de mim quando ela mostrou um sinal de fraqueza. Eu queria
derrubar aquelas barras e passar uns minutinhos na mesma cela que ela.
– Não a ponha aqui comigo – ela disse. – Ela vai me matar.
– Por que ela iria matá-la? – Gane perguntou.
– Para me impedir de divulgar informações.
– É mesmo? Informações de que natureza?
– Da que interessa a você. Do tipo que vem procurando.
Ele ergueu uma sobrancelha.
– Você vai ter que deixar mais claro.
– Comandante Gane, fui enviada aqui para retirar os sem-olhos destas terras. Sei onde está a
Tocha – ela apontou para mim. – Ela não sabe. Portanto, eu sou útil. Ela não. Ela não sabe nem do
que eu estou falando. Olhe para ela.
– Miranda – Noah disse, com uma voz cortante como uma espada. Ele estava bem na minha
frente. – Eu me lembrei de uma coisa.
Na minha mente, Noah me mostrou os monstros que temíamos. Aqueles que iriam “conquistar o
mundo”. As imagens vinham embaçadas, um tanto corrompidas, mas eu podia ver o suficiente. Eles
eram compridos e brancos como leite, andavam curvados de quatro apesar de terem traços
humanos. Eles se moviam como lobos. Eu os via passando pelos escombros de uma cidade,
galopando sobre mãos e pés com garras nas pontas. Alguma coisa os controlava. Um bastão fino com
um globo vermelho em uma ponta, brilhando forte como uma estrela sangrenta.
De repente, perdi a visão da imagem e eu me vi de volta às celas.
– Você viu? – Noah perguntou. – Você viu? Como eu fiquei sabendo disso?
“Eu não sei”, pensei.
– Tem mais. Eu sei que tem – Noah se afastou, com as mãos entrelaçadas sobre a cabeça. –
Preciso de um minuto.
Quando eu me virei, todos continuavam encarando Nina.
O rosto de pedra de Gane escondia bem a curiosidade, mas não completamente.
– Você já disse isso antes. Convença-me a acreditar.
Nina foi até as barras de ferro e as agarrou com as mãos.
– Eu sei como controlá-los. Posso provar. Vou conduzi-los através da Escuridão.
Através da Escuridão...
A voz dela era firme.
– Eu sei onde está a Tocha.
Eu tentava reunir as peças. A Tocha, a Escuridão, os sem-olhos. Através da Escuridão, ela dissera.
Eu passara pela Escuridão. E ali estava.
“O que é a Escuridão?”
– Eu ainda não sei – Noah disse. – Algum tipo de sistema de transporte. Eu não consigo ver.
Merda! – ele girou e socou Gane no rosto, mas seu punho o atravessou como um fantasma, como
nós dois sabíamos que aconteceria. Ele se afastou com as mãos atrás da cabeça, respirando através
dos dentes cerrados, frustrado por não poder fazer absolutamente nada.
O homem continuou em silêncio.
– Pense nisso – Nina continuou, sem desistir. – Como eu poderia saber a respeito da Tocha?
Boa pergunta. Uma pergunta melhor era: “Como eu também sabia a respeito da Tocha?”. Noah,
de algum modo, me transmitira o conhecimento da Tocha como um instrumento para controlar os
sem-olhos, mas como ele sabia?
– Existem milhares de sem-olhos – Gane retrucou. – Dezenas de milhares. A Tocha é um mito. E
você é uma intrusa. Qualquer coisa que atravesse a Escuridão não é digna de confiança, jamais.
Nina balançou a cabeça entre as barras, agarrando-se firme a elas.
– Não seja idiota.
Rhys disse para o homem:
– Ei, Comandante Cobra, talvez você devesse nos ouvir.
Gane ergueu uma mão.
– Silêncio.
Como que obedecendo ao movimento de sua mão, as barras entre as duas celas subiram até o teto,
rangendo e arranhando, som de ferro na pedra. Nina passou a dividir o mesmo espaço que Peter e
Rhys. Ela deu um passo para trás novamente. Garota esperta.
– Vocês vão ficar juntos enquanto eu penso no assunto. Vou abrir a porta da cela. Não façam
nenhum movimento, ou derrubo vocês
À minha direita, uma porta se destacou das barras e se abriu.
Ficou um espaço livre entre o comandante e Peter e Rhys. Eles foram espertos o bastante para
acreditar e ficaram imóveis. Eu não. Eu me joguei para a frente e Peter envolveu os braços em mim e
me levantou no ar. Ele me pôs de volta no chão, beijou abaixo da minha orelha e sussurrou:
– Onde estamos?
Eu não tinha uma resposta.
A porta da cela se fechou atrás de mim. Em seguida, ouvi o clangor da grande porta de ferro
abrindo e fechando.
A equipe Alfa estava a sós novamente. Nós três em um lado da cela, Noah e Nina do outro.
19
OAH CIRCUNDOU NINA LENTAMENTE, A UMA DISTÂNCIA mínima. Lágrimas frescas caíam de seu
N queixo.
– Você me matou. Você me matou.
Fiquei esperando que ela o notasse, mas isso não aconteceu. Ele era apenas uma espécie de ilusão,
uma manifestação da minha mente. Percebi que precisava ficar me lembrando dessa conclusão.
– O que vamos fazer com ela? – Rhys perguntou.
– Não vamos fazer nada – foi a resposta de Peter.
Eu pisquei e Noah desapareceu. Desta vez pareceu que ele estava esgotado e decidiu sair por
vontade própria. Eu não sabia bem se isso era um bom sinal ou não. Eu deveria contar aos outros
que ele ainda estava ali. Vivo, só que não.
– Lembre-os das injeções de memória – Noah falou na minha cabeça.
– Precisamos dos nossos remédios.
Nina nos observava a poucos passos de distância, com as mãos soltas ao lado do corpo. Ela girou
a cabeça de um ombro ao outro, estalando o pescoço. Bastaria um instante para ancançá-la e enfiar
os punhos nela até que implorasse por perdão. Eu podia fazê-la dizer ao Noah que estava
arrependida, muito arrependida, que ela sabia que ele deveria viver por muitos anos, que ele perdera
toda uma vida, todas as coisas boas que sonhamos juntos como equipe para quando a luta terminasse
de uma vez.
Minhas mãos tremiam.
– Eu não quero lutar – ela falou.
– É claro que não – Rhys disse. Eu toquei o braço dele, sentindo o ódio em sua voz. – Nós somos
três contra um.
– Por que você está aqui? – perguntei a ela.
Os olhos dela nos percorriam, estudando-nos, identificando pontos fracos. Eu sabia, porque
estava fazendo a mesma coisa com ela.
– Exatamente o que eu disse ao comandante.
– Isso não me diz nada.
– Sequência – Peter disse suavemente, ao chegar ao meu lado –, eu sei que você está aí dentro.
Nina cuspiu no chão.
– Por favor. Corta essa.
Rhys se aproximou, desta vez eu não toquei o braço dele. Nina deu um passo para trás até
encostar na parede, então foi escorregando o traseiro.
– Fiquem onde estão. Vocês podem conseguir me matar, mas não antes de eu matar ao menos um
de vocês.
– Ela está certa – Noah falou. – Melhor deixar quieto.
“Calma.” A voz dele era como o estalo de um chicote em minha mente, dividindo meu foco.
– Você acha mesmo isso? – Rhys perguntou a ela.
– Nós não temos escolha – Peter falou. – Não até sabermos o que ela fez com Sequência.
– Sequência está morta – Nina respondeu. A pele debaixo do olho esquerdo dela tremeu. Ela
agarrou o cabelo preto acima da orelha e o enrolou com dois dedos. Sequência costumava enrolar o
cabelo desse jeito quando mentia. Talvez eu também.
– Se Sequência está mesmo morta, por que deveríamos deixar você viver? – perguntei.
Nina sorriu, ganhando tempo. Eu não sabia que meu rosto era capaz de um sorriso tão sinistro.
– Responda o que ela perguntou – Rhys ordenou. – Ou eu vou até aí e arranco seus braços.
– Porque... – Nina disse, erguendo-se lentamente. Ela se esticou, arqueando as costas como um
gato. – Porque, se vocês virem me pegar, eu vou ter tempo suficiente para dizer as palavras.
O suor brotou em todo o meu corpo. De alguma forma, eu sabia exatamente de que palavras ela
estava falando. Algumas palavras simples levaram Sequência embora e nos deram aquela garota
nova.
Eu não podia perguntar, mas Peter sim.
– Que palavras?
– As palavras que vão me acordar dentro da sua Miranda também.
20
A Peter e Rhys estavam acabados depois da pior noite de sono de suas vidas, mas eles se
levantaram comigo, à minha esquerda e à minha direita.
– Vou ficar bem – eu disse, afinal era a única coisa que havia para se dizer.
– Eu não vou pedir novamente – Gane falou.
E daí que da primeira vez não fora um pedido?
Nina saiu da cela primeiro e virou a cabeça para se certificar de que eu não iria avançar nela pelas
costas. Eu a seguia a uma distância segura. Se era segura para ela ou para mim, eu não sabia dizer.
– Fique atenta – Noah falou de repente próximo a mim. – Nina vai tentar alguma coisa. Eu sei.
“É um palpite?”
– Não, é como antes, quando eu lhe mostrei aquelas imagens e não fazia ideia de onde vinham. Eu
não consigo explicar como eu sei, mas sei que ela está atrás da Tocha e não vai poder fazer isso se
estiver presa. Eu estarei por perto.
Ele desapareceu e eu segui Gane pelo túnel, acelerando até ficar ombro a ombro com Nina.
Queria mostrar o quanto eu não tinha medo dela, o que no fundo queria dizer que eu tinha medo
sim. Nós duas estávamos tensas, menos pela noite maldormida e mais pela ansiedade. As tochas em
estilo medieval tremeluziam e projetavam nossas sombras nas paredes.
– Relaxem, as duas – Gane disse sem olhar para trás. – Não vou levá-las a nenhum lugar muito
sinistro.
Era uma piada? Não sabia dizer se isso era um bom ou mau sinal.
Ele nos deu as costas, e dessa vez me pareceu uma provocação, como se dissesse: “Por que não
tenta?”.
Nina tentou, como Noah disse que ela faria. Ela disparou o mesmo soco que eu teria dado, bem
na base da coluna dele, mas acrescentou um segundo punho no rim, em um golpe duplo. Qualquer
homem cairia de joelhos com aqueles ataques.
Mas os golpes nunca chegaram a atingi-lo. Os punhos dela pararam a alguns centímetros das
costas de Gane. Ele apenas estalou a língua no céu da boca. Era impossível. As mãos dela
simplesmente pararam.
– Eu queria saber qual das duas iria tentar alguma coisa primeiro.
As mãos de Nina se ergueram lentamente, estendidas e bem abertas, tremendo. Ela não estava as
controlando; de alguma maneira era ele que estava.
Ela olhou para as mãos como se estivessem cobertas de aranhas.
– O que você está fazendo?
O indicador esquerdo dela se dobrou para trás. Eu paralisei.
– Devo quebrar o dedo?
– Não! Não! – escorria suor da sobrancelha dela.
Gane olhou para mim com um ar preguiçoso.
– Devo?
Engoli em seco. Nina olhou para mim, com o pânico retorcendo seu rosto.
– Não – respondi.
As mãos dela tremiam enquanto ela lutava contra a pressão. O dedo se dobrou além do ponto em
que parecia natural. Mais alguns graus e o osso quebraria.
– Não – falei mais uma vez, sem ter a menor ideia do porquê.
Gane a soltou e ela apertou as duas mãos contra o peito, soltando um gemido. Ele apertou o
passo.
– Mais rápido, por favor.
Eu o segui, deixando Nina para trás. Ela nos alcançou depois e chegamos ao espaço principal, a
colmeia cavernosa onde eles haviam me retirado da água. As passarelas tornavam difícil de ver
quantos andares circulares existiam acima de nós.
– Esta é a Verge – explicou Gane. – Ela foi criada para nos proteger de qualquer coisa que venha
da Escuridão, que está diretamente abaixo de nossos pés – eu automaticamente olhei para o chão. –
Qualquer coisa que venha daí se torna imediatamente nosso prisioneiro.
Permaneci em silêncio, apesar de querer perguntar o que mais poderia vir da Escuridão.
Ele nos levou até a coluna principal, no meio. Quando chegamos mais perto, uma porta de
elevador se abriu na base da coluna. Gane entrou e nós também, por mais que entrar naquele espaço
apertado com aqueles dois fosse contra todos os meus instintos naturais. Nina recostou-se na parede,
mas eu encarei a porta e fingi que não estava preocupada com nada. Às vezes fingir confiança ajuda
a adquiri-la.
O elevador subiu tão rápido que meus joelhos se dobraram e o sangue desceu da cabeça. Alguns
segundos depois as portas se abriram e nós fomos para uma sala em forma de pirâmide, com quatro
paredes angulosas apontando para o alto.
As paredes eram de vidro. Eu estivera em uma sala como aquela, na lembrança da sra. North. A
Miranda Original tinha um escritório no formato de uma pirâmide, com paredes de vidro, mas não
podia ser o mesmo lugar.
Eu entrei na sala.
As paredes eram de vidro, mas o que eu via através delas não podia estar certo.
– É a primeira vez que você vê isto – Gane falou, às minhas costas.
Eu podia vagamente notar que ele e Nina deram alguns passos atrás de mim. O elevador se
recolheu para o andar de baixo, permitindo-me uma visão perfeita em todas as direções.
Mas eu não entendia.
– São janelas? – poderiam ser telas de vídeo. Tinham que ser.
Se fossem janelas, então a Verge estava localizada no meio da cidade de Nova York. Mas a cidade
não era aquela que eu conhecia do treinamento. Nós tínhamos que memorizar as paisagens de todas
as principais cidades. Mas o panorama não coincidia. A única coisa que eu reconhecia era o Empire
State Building a leste. Os arranha-céus poderiam ter mil anos de idade, escurecidos pelo tempo, sem
janelas, aos pedaços. O céu estava escuro por causa de uma tempestade. Nenhum dos prédios tinha
luz, eram todos formas escuras e silenciosas à nossa volta, quase invisíveis sob a luz fraca. A
sudoeste, reconheci o formato estreito do Flatiron Building, mas estava no lugar errado. Deveria
estar a sudeste. Era uma piada.
– São janelas.
– Não – o que mais eu poderia dizer?
Dei um passo à frente, mudando o ângulo de visão, na esperança de ver alguma coisa que
desfizesse a ilusão.
Acima, o céu estava pesado, com nuvens carregadas e pretas como carvão de um lado ao outro do
horizonte. As nuvens relampejavam com veias grossas e sinuosas de raios púrpura.
– Um belo truque – falei, quase baixo demais para ele ouvir. – Já pode desfazer.
– Adoraria, se eu pudesse.
O comandante caminhou até a ponta norte da sala. Ele se sentou e repousou as mãos na superfície
lisa de madeira. Não havia cadeiras para mim nem para Nina. Todos nós cintilávamos púrpura
quando os raios disparavam ali perto. Não havia nenhum trovão nem chuva.
– Quem são vocês? – Gane perguntou para nós duas.
Nina falou primeiro:
– Não importa. Minha proposta para remover os sem-olhos do seu mundo é o que interessa.
Eu me senti uma jogadora de pôquer sem as cartas certas na mão. Não tinha nada para lhe
oferecer, e o rosto dele parecia brilhar sempre que Nina falava em se livrar dos sem-olhos.
– Você tentou me atacar alguns minutos atrás – ele disse.
– Você pode me culpar por tentar escapar?
O comandante a ignorou e se voltou para mim.
– Sua irmã sabe mesmo como encontrar a Tocha?
Olhei de relance para Nina, mas ela estava com o rosto virado para a frente, fitando os arranha-
céus mortos que não estavam no lugar certo.
– O que é a Tocha? – perguntei.
– Responda-me, então eu lhe conto.
Estava difícil de respirar.
– Responda-me – ele repetiu. – Ela sabe onde está a Tocha?
Talvez a verdade pudesse me libertar.
– Eu não sei. E ela não é minha irmã.
Gane ergueu a sobrancelha.
– Confuso. Pelo jeito vocês não estão do mesmo lado.
– Não estamos – confessei. Finalmente ele entendia. – Onde nós estamos?
Ele abriu uma gaveta da mesa e tirou uma garrafa de cristal cheia de um líquido cor de rubi,
provavelmente vinho. Ele despejou-o em um cálice e tomou um gole.
– Qual é seu nome? – perguntou a Nina. – Você também se chama North?
– Em certo sentido, sim. Meu nome é Nina.
Não era em um sentido muito bom. No entanto, meu nome não era mais verdadeiro que o dela.
– Nina North – ele disse, saboreando as palavras. – Diga-me, para onde você levaria os sem-
olhos?
– Através da Escuridão.
Senti um calafrio com a palavra, mas não deixei que percebessem. Levar os sem-olhos para
qualquer parte soava como uma má ideia. Matá-los soava melhor. Vi novamente as imagens que
Noah me mostrara. Eu via os corpos pálidos como cadáveres e as garras enormes em vez de dedos.
Eu tentava me lembrar dos rostos, mas a visão desfocava. Deixar Nina viver fora uma má ideia.
Aquela fora nossa chance de parar aquilo, e nós fomos muito fracos, todos nós. Eu duvidava que
Gane me daria uma segunda chance para acabar com ela.
Ele estalou os dedos.
– Você já falou isso. O que quero saber é para onde a Escuridão os levará.
– Isso importa?
Gane acenou com a cabeça.
– Para mim, sim. Os sem-olhos devastaram o nosso mundo. Eu não vou deixar que eles façam o
mesmo em outra parte apenas para nos livrarmos deles.
– Seu mundo – eu disse. – Este é o seu mundo.
Ele ergueu uma sobrancelha.
– Você achou que era o seu?
– Não. Então vou perguntar de novo: onde eu estou?
– No que sobrou do meu mundo.
– Como cheguei aqui?
– Você não sabe?
– Eu sei que saltei em algo que parecia um lago negro e acordei na sua cela.
– Você veio pela Escuridão.
– E o que ela é, exatamente?
– A fronteira entre todos os universos. Um espaço intermediário, para mantê-los separados.
Fiquei muda.
– Olhe à sua volta – ele tomou um gole e fez um gesto para o vidro, como se dissesse vá em frente,
eu espero.
Eu tinha que acreditar, porque a prova estava à minha volta. Aquela cidade estava tão morta e
vazia quanto possível.
Eu não podia nem imaginar como aquilo acontecera.
Ele me encarou sem expressão no rosto, até eu dizer:
– E de onde vieram os sem-olhos? O que eles fizeram?
– Eles comeram – foi o que ele disse, como se isso explicasse. E para Nina: – Que garantia eu
tenho de que você não vai usar a Tocha para nos destruir completamente?
“Nenhuma”, eu queria dizer. “Qualquer coisa que venha da boca dela provavelmente é mentira.
Confie nela por sua própria conta e risco.”
Nina estendeu a mão para a cidade à nossa volta.
– O que sobrou para destruir? Os sem-olhos já fizeram um trabalho completo aqui, acho.
– Então por que levá-los?
Nina não tinha nada a dizer.
Gane olhou para a mesa por vários segundos.
– Eu vou contar uma história, com sua licença.
Eu não sabia para quem ele estava falando, então só acenei com a cabeça e Nina fez o mesmo.
– Um dia houve um parque nesta cidade. Dá para vê-lo ao norte, atrás de mim. Os pais levavam
suas crianças lá para brincar. Era repleto de museus e restaurantes, um parque enorme, bem no
meio de tudo. Eles o chamavam, não era à toa, de Central Park. Até que um dia, em 1973, um
buraco se abriu no chão e muitas pessoas caíram ali dentro e desapareceram. O buraco era tão
escuro que era como olhar para o mais vasto “nada”. Puseram cercas altas ao seu redor, já que não
sabiam como se livrar dele. Apesar dos desaparecidos, a vida continuou.
Ele fez uma pausa para beber mais um pouco. Cada pelo do meu corpo estava eriçado.
– Quando eu era garoto, me disseram que a Escuridão era um portal para o inferno. Um portal
que, se não fosse vigiado, daria passagem para criaturas de pesadelo. Elas iriam seduzir e enganar.
Iriam arrancar a carne de nossos ossos. Nossa cidade era majestosa na época, mesmo que o resto do
mundo não fosse. Pensávamos que Nova York fosse invencível. Minha família viera para cá de avião
de Belize, apesar do buraco. Eu me lembro de ver a cidade da janela quando a sobrevoamos.
Ele fechou os olhos e suspirou.
– Então, um dia, as coisas começaram a vir da Escuridão, mas elas não seduziram nem
enganaram. Elas apenas mataram e comeram. Criaturas sem olhos, com bocas cheias de agulhas,
garras que podiam cortar um homem em dois de uma vez só. Elas se espalharam pela cidade como
um câncer, matando pessoas aos milhares. Milhares passaram a ser milhões. Elas se espalhavam e se
multiplicavam. Comeram as pessoas deste mundo e não havia como detê-las. Nós reagimos em uma
grande guerra que durou muitos anos. Isso quase nos extinguiu. No final o mundo estava morto, e
os sobreviventes se reuniram aqui. E um dia os sem-olhos simplesmente... Desapareceram. Eles
foram para as montanhas, ninguém sabe o que têm feito por lá. Eles vêm até nós quando temos
muitas crianças e damos sinais de prosperar novamente. Eles tomam as crianças e as devoram diante
de nossos olhos. E então nos deixam. Repetidamente. No início, parecia que os sem-olhos se moviam
de acordo com alguma consciência, controlados por alguma força maior. A teoria se mostrou fato
quando o presidente ofereceu uma recompensa para matar a portadora da Tocha, uma mulher
mascarada que fora vista atrás das fileiras de sem-olhos, segurando uma espécie de bastão com uma
chama na ponta. A Tocha não fora mencionada nos últimos vinte anos, até que você viesse pela
Escuridão. E agora você alega saber onde ela está.
O comandante tinha lágrimas nos olhos. Eu sabia como era se lembrar de algo que preferia
esquecer.
– Então, se você está planejando levá-los para outro lugar, eu quero saber que não é para um
mundo como o nosso foi um dia. Quero saber que é para o inferno, porque é a ele que os monstros
pertencem.
22
ANE TERMINOU DE CONTAR E SE ENTERROU NA CADEIRA. Ele tirou um lenço do bolso do colete e
ELEVADOR DESCEU TÃO RÁPIDO QUANTO SUBIRA. MEU estômago parecia sair do lugar, os pés
O perdiam apoio. Eu sentia os olhos deles às minhas costas, mas me recusava a dar a satisfação
de me virar.
Quebrei o silêncio quando chegamos ao térreo.
– Ei, será que vocês poderiam me inteirar do que aconteceu entre o momento em que entrei na
Escuridão e a hora em que acordei na cela com roupas diferentes?
Ouvi os passos da garota diminuírem a velocidade, mas depois retomaram o prumo.
O homem respondeu:
– Você chegou inconsciente da Escuridão, o que acontece com todo mundo na primeira vez. O
traje foi removido por motivos óbvios – a voz soava familiar, de certa forma.
Precisei me conter com todas as forças para não me virar e arrancar a máscara dele. Entramos no
túnel com as tochas alinhadas, e os passos dos dois ficaram rígidos. Eles ficavam alguns passos atrás,
o que não me desagradava.
– Quem tirou o traje?
– Fui eu – respondeu a garota.
– Todo mundo chega desmaiado na primeira vez, é?
– Sim – ela continuou. Eu estava surpresa por eles responderem.
– Quem eram os outros intrusos? Os que vieram antes de nós?
– Eu fui um, algum tempo atrás – o homem respondeu, o que me fez parar, mas a mão dele me
forçou gentilmente a continuar em frente, e uma pequena esperança se elevou em meu espírito. Mais
pela gentileza com que ele me guiou do que pelas palavras. Esperei, sem saber o que aquilo
significava.
Nós passamos pela porta de ferro que dava na prisão. Peter e Rhys saltaram do lugar onde
estavam descansando.
– O que aconteceu? – Peter perguntou, chegando às barras.
Mas foi o homem atrás de mim que respondeu:
– Quietos, todos vocês – o tom de voz dele mudara.
Ele não estava ordenando que nos calássemos por sermos prisioneiros; ele estava fazendo aquilo
porque não queria que ninguém escutasse. Meu coração acelerava. “Por favor, que isso não seja um
truque.”
A boca de Rhys se abriu e os olhos se estreitaram. Atrás de mim, a porta de ferro se fechou
suavemente, mas não travou.
– Tire a máscara – Rhys mandou.
– Eu disse quietos – o homem de vermelho grunhiu.
A porta da cela se abriu, eu não sabia se automaticamente ou pela força do homem. Não
importava.
– Saiam – o homem ordenou.
A garota pairava na porta, apoiando-se ora em um pé, ora em outro. Estavam tão tensos quanto
eu. Era o único motivo para eu não pensar que estavam obedecendo a ordens do comandante.
– Isso é um truque? – Rhys perguntou.
Se fosse, não faria sentido. Gane tinha poder para nos realocar quando quisesse. Ele não
precisava de um truque.
– Garoto, eu não tenho tempo nem paciência. Sigam-me ou apodreçam aqui. Também pode ser
que Gane desmonte vocês para ver o que há dentro de um intruso.
Peter e Rhys olharam um para o outro, então saíram da jaula. Os dois de vermelho abriram
novamente a porta. Eles se moviam rápido e eu também. Meu coração batia forte, mas não por causa
do medo. Mesmo com os horrores que existiam do lado de fora do prédio, nós tínhamos uma chance
se continuássemos juntos.
– E quanto aos nossos trajes? – Rhys quis saber.
– Eu cuidei disso – a garota respondeu por cima do ombro. De perto, dava para ver que seus
olhos eram cor de mel.
– Precisamos de uma coisa que está escondida nos trajes – Peter acrescentou.
– Já cuidamos disso – o homem disse.
Era o bastante para que os seguíssemos. Não que tivéssemos opção.
Saímos do túnel para o andar principal da colmeia e continuamos pela parede circundante,
seguindo a circunferência em sentido anti-horário.
De repente, Noah estava andando ao meu lado.
– Tem certeza de que é uma boa ideia? – ele espiou meu rosto, mas eu me recusei a olhar para ele.
“Certeza, não. Mas é a única opção no momento.”
– Mas agora nós sabemos onde Nina está. Se sairmos, podemos não a encontrar antes que seja
tarde demais.
“Se continuarmos, será como prisioneiros.”
– Escute. Eu acho que sei quem Nina realmente é.
“Quem?”
– Você se lembra da Miranda que viu nas lembranças da sra. North? Aquela que pensamos que é
sua Original?
“Sim.” Como eu poderia esquecer? Foi a primeira vez que percebi que nossos criadores também
tinham seus próprios criadores.
– Eu acho que a Nina é filha dela. Um clone que a diretora criou como sua própria filha.
“A diretora?”
Quase parei para olhar para ele, mas estávamos nos movendo rápido demais.
– Quase lá – o homem avisou à frente.
Nós estávamos nos aproximando de outro túnel que surgia na parede.
Foi nesse momento que a porta do elevador se abriu na coluna e o comandante Gane deu um
passo para fora, com Nina ao lado.
24
ONDE VOCÊS VÃO LEVÁ-LOS? – GANE PERGUNTOU, parado ao pilar. Não havia alarme em sua voz,
–A ainda não.
A cada segundo, eu esperava sentir a mente dele agarrando meu corpo para me impedir de andar.
– Não parem – a garota sussurrou para nós.
O homem se separou do grupo e encarou Gane.
– Comandante, os cientistas querem estudar os intrusos no laboratório.
Passos no chão de pedra. Era Gane andando rápido até nós.
– Não, não, não. Ninguém se move sem minha permissão. Levem-nos de volta.
Mas já estávamos entrando no túnel.
– Parem! – gritou.
Senti o primeiro golpe da mente dele em minha pele. Evaporou no segundo que saí de seu campo
de visão.
– Corram! – a garota disse, apertando o passo à frente. – Os cavalos sabem o caminho!
“Cavalos?”
Eu não tive tempo de pensar no que ela queria dizer. Peter e Rhys passaram voando por mim, e
eu reuni um pouco mais de força de meus membros para correr tão rápido quanto. Ou até mesmo
mais. Ouvi um chiado atrás, no túnel, e reconheci o som. Era uma granada de fumaça. Às minhas
costas, uma parede de fumaça cinzenta apareceu. O homem de vermelho surgiu do meio dela,
balançando os braços.
– Gane não consegue nos ver! – gritou. – Continuem andando.
Ele não precisou falar duas vezes. O túnel descia em rampa, depois fazia uma curva e subia mais
uma vez em direção à saída. Eu estava quase exultante com a visão de liberdade do céu aberto logo
adiante, mesmo não sendo o meu céu. Dei uma olhada na paisagem: arranha-céus antigos arruinados
e a colmeia pontuda da Verge se destacando em volta de um fosso de água preta. O túnel passava
por baixo da água e tinha saído na margem.
Como a garota havia dito, cinco cavalos nos esperavam adiante na rua, ao lado da carroceria do
que um dia fora um táxi. Eles batiam as patas e sacudiam a poeira com os cascos. O homem digitou
um código no teclado ao lado da abertura do túnel e a porta corrediça se abriu.
– O que é isso? – Rhys perguntou, girando a cabeça para a ruína à nossa volta. – O quê...?
– Quieto. Ele ainda pode nos agarrar – o homem falou, sem fôlego. – Pegue um cavalo.
Quatro dos cavalos eram pretos. A última, uma égua, era cinza, mas só por causa da poeira que
cobria seu pelo. Trechos brancos brilhavam por baixo da camada. Nenhum dos animais estava
selado.
Peter e Rhys hesitaram ao montar, obviamente surpresos com a situação.
– Agora! – o homem vociferou.
A cinzenta virou os olhos para mim, da maneira mais convidativa possível. Eu agarrei a crina dela
e alcei as pernas para o alto e em volta de seu dorso.
Saía fumaça pelos vãos nas barras da porta corrediça. Ouvi Gane tossindo em meio à nuvem,
perto demais.
– Que droga, cara! – o homem circulou em seu cavalo preto ao lado de Rhys, que se recusava a
montar.
Não era o melhor momento para os seus problemas de confiança virem à tona. Peter já estava
mais de 20 metros adiante na rua, com o Empire State destacando-se na paisagem. Ele parou e virou
o cavalo, de queixo caído. Eu chequei o que ele estava vendo.
O último cavalo relinchou quando suas patas saíram do chão. Ele flutuava sob o poder de Gane,
esperneando no ar. A cinzenta foi para o lado, ágil como uma dançarina, enquanto o cavalo preto
jogava a cabeça para os lados, com olhos arregalados e os dentes à mostra, conforme o comandante o
erguia mais alto. Agarrei a rédea da égua com as duas mãos e a conduzi. Ela empinou, sacudindo as
patas dianteiras, e se abaixou, mas não deixou os outros cavalos para trás, apesar dos meus
calcanhares martelarem freneticamente os seus flancos.
– Vamos, garota! – implorei.
Gane estava junto às barras, engasgando na nuvem de fumaça, com a mão estendida e os dedos
bem abertos. Ele virou o pulso como se estivesse jogando uma batatinha na boca, e o cavalo fez um
arco para cima, até a boca do túnel, como uma bola de futebol americano. Eu observei, petrificada,
enquanto ele mergulhava no fosso negro.
Rhys se convenceu de que era hora de agir.
– Suba no cavalo! – o homem gritou.
A garota de vermelho passou velozmente por mim, e o cavalo preto de Peter fez os outros
comerem poeira, mantendo a dianteira. Rhys subiu desajeitadamente no dorso do cavalo do homem,
e, juntos, galopamos lado a lado. A égua se movia como líquido, afastando-me de Gane e da Verge.
De repente, senti a mente de Gane percorrendo minha pele, puxando meus trapos, minhas pernas e
meus braços. Comecei a me erguer de cima da cinzenta, mas finquei os pés nela no último segundo.
Ela pareceu correr mais rápido quando me acomodei novamente em suas costas.
E enfim ficamos fora do alcance do comandante, com uma nuvem de poeira de dois andares se
erguendo entre os prédios, ocultando a Verge. Os gritos de frustração de Gane ecoaram pelo aço e
pela grama, perturbando os corvos que se empoleiravam nas janelas quebradas. Eles saíram voando
em zigue-zague sobre as nossas cabeças, crocitando. E eu dei risada, não porque estava feliz, mas
por estar ali fora, em liberdade. O vento batia em meu cabelo e deixava meus olhos aguados. Em
certo momento o homem, com Rhys agarrado na garupa, tomou a dianteira, e nós o seguimos
enquanto ele corria pelos caminhos empoeirados entre os prédios. Eu me sentia grata pela ação, pois
me permitia algum tempo sem pensar tanto, sem queimar os neurônios tentando entender como
aquele lugar era possível.
Eu via as ruínas da cidade enquanto passávamos. Em um canto, uma carroceria de metal laranja-
amarronzado que costumava ser um carro. Ali, asfalto todo rachado, cheio de pedregulhos. Largas
faixas de poeira que circundavam alguns prédios eram o que sobrara das calçadas. Passamos pelo
lado norte do Empire State; havia fogo queimando ali dentro, figuras escuras agachadas ao redor.
Uma placa retorcida e meio enferrujada, tombada no chão, dizia Quinta Avenida.
As pessoas se amontoavam às portas dos prédios, observando enquanto passávamos. Eu não
estava mais rindo. Olhava para um mundo agonizante e percebia que aquilo poderia acontecer com
o nosso. Nina queria levar os sem-olhos pela Escuridão e, até onde eu sabia, a Escuridão os levaria
ao nosso mundo.
Aquilo me fazia querer voltar para pegá-la, mas não o fiz. Não estávamos prontos. Os dois de
vermelho nos libertaram por algum motivo e eu presumia que iriam nos ajudar.
Mais gente saía dos abrigos para nos ver.
Um grito se ergueu e foi se propagando de voz em voz:
– Cavaleiros vermelhos! Cavaleiros vermelhos!
– Não parem! – o homem gritou ao meu lado. – Não parem por nada!
Estávamos em galope veloz, uma tempestade de cascos mais barulhentos que trovão, abafando o
som do meu sangue latejante nas veias. Senti a égua resfolegando, os músculos de seu dorso se
flexionando a cada vez que suas patas saíam do chão.
– Continuem em frente! – o homem gritou.
Bem nessa hora começou uma chuva de flechas.
Elas vinham do alto. Homens em roupas esfarrapadas se inclinavam nas janelas quebradas no
segundo, terceiro e quarto andares dos edifícios. O grito nas ruas não era mais cavaleiros vermelhos!, e
sim carne! As flechas zuniam para baixo, da esquerda e da direita, batendo na terra socada ou
ricocheteando nos pedaços de asfalto. Uma raspou sobre a pata da égua e ela saltou, quase me
derrubando. Segurei mais firme em sua crina, apertando as pernas, curvada, desejando ser
bidimensional.
Outra flecha passou rente ao meu rosto. Nenhum pensamento. Eu apenas me curvei e ela passou
pelo cabelo, cortando uma mecha. Eu sentia os fios de cabelo flutuarem pelas costas e depois
esvoaçarem ao vento. Minha barriga continuava comprimida bem depois que a flecha se foi, as coisas
se moviam rápido demais para eu processar.
A garota de vermelho estava com uma flecha na coxa, mas pelo jeito que cavalgava não dava nem
para notar. O tecido vermelho da calça estava mais escuro em volta da ferida; a mancha ia crescendo.
Fechei os olhos, achando que alguma poderia cair no meu pescoço. Eu só queria estar com o meu
traje. Logo em seguida eu os abri; afinal, desejar não iria me livrar de nada.
Aqueles homens tinham péssima pontaria, mas eram muitos. As flechas continuavam a cair
assobiando, as hastes enterradas no chão se partiam sob os cascos dos cavalos.
Vi um arqueiro no segundo andar à esquerda mirar em Peter. O pescoço dele estava enrolado em
uma toalha imunda, com braços finos esticando o arco. Ele seguia Peter com os olhos enquanto nos
aproximávamos do prédio.
– Peter, cuidado! – minha voz saiu abafada pelo barulho dos cascos.
O arqueiro disparou. A flecha desceu, tremendo, e se enterrou no peito do cavalo de Peter.
25
U ABRI A BOCA PARA GRITAR, MAS NÃO SAIU SOM ALGUM. O cavalo caiu, batendo a cabeça no chão,
E com as pernas enroscadas, patinando, raspando na terra. Peter escorregou com o animal.
Mais duas flechas se fincaram na terra perto da cabeça dele. Pelo menos ele conseguiu rolar
com habilidade. Em seguida, firmou os pés e se aprumou. E eu estava ali, inclinada para baixo, com
o cavalo em trote rápido e toda a minha atenção nos dedos estendidos de Peter, sabendo que eu não
teria uma segunda chance. Nossas mãos se encontraram com os nossos antebraços, e o peso dele
quase me derrubou, mas eu o alcancei com a perna e o ajudei a levantar, gritando com a dor no
ombro.
As flechas finalmente estavam fora de alcance. O peito de Peter resfolegava às minhas costas
enquanto ele puxava o ar profundamente. Ouvi Rhys rindo à nossa frente. Meu ombro estava
dolorido, mas intacto.
– Te devo uma – Peter cochichou no meu ouvido.
Eu me virei para olhar para ele, checando se não havia alguma flecha que ele ainda não notara.
Seus olhos cintilavam com a adrenalina.
– Você já está me devendo duas – eu disse, e ele riu.
Continuamos cavalgando cidade adentro. Passamos por cães selvagens tão magros que as costelas
apareciam. Havia mais carros largados nas ruas. Os pneus apodrecidos fazia tempo. Os cavalos
seguiam bem próximos uns dos outros, separando-se apenas para contornar obstáculos. Quando a
adrenalina baixou, consegui assimilar um pouco mais o que estava vendo. Tantas coisas feitas pelo
homem, esquecidas e abandonadas. Antes as pessoas andavam por aquelas calçadas, comiam
naqueles restaurantes. Táxis corriam aos montes por aquelas ruas desoladas. E naquilo tudo se
vislumbrava um possível futuro para o nosso mundo. Se não parássemos Nina, aquele poderia ser o
nosso futuro. Um mundo de coisas esquecidas.
Diminuímos o ritmo depois de dez minutos cavalgando velozmente. Viramos para o sul e
chegamos a prédios menores, mas tão densos quanto os outros. De quando em quando, o ângulo me
permitia confirmar a visão do centro da cidade que eu tivera a longa distância no escritório de Gane.
A perna da garota estava encharcada, mas o sangramento parecia ter estancado. A mancha não
passava do joelho. A poeira ia grudando na parte úmida da calça.
A rua abriu para o que um dia fora um parque. Algumas das árvores ainda estavam em pé, e uma
parecia até mesmo estar viva. As outras estavam caídas, sem folhas, ancoradas na terra degradada.
Percorremos o perímetro, tomando cuidado com um ônibus vazio. Dois pássaros se empoleiravam
na carroceria, observando-nos.
– Isso é o que costumava ser a Union Square – explicou o homem de vermelho. – Ali fica o que
era chamado de Círculo de Rowland.
Ele foi na frente, conduzindo o cavalo a um estacionamento enorme que parecia mais atraente que
os prédios ao redor. Nós o seguimos para dentro e começamos a descer, circulando colunas,
descendo para o subsolo. Os carros ali estavam mais bem preservados, mas não muito. Nenhum
tinha pneus nem janelas. A cada tantos metros, o homem parava e erguia um controle remoto no ar.
Quando emitia um som agudo, nós continuávamos.
Contei três andares para baixo. O som de cima ficou abafado e tudo o que eu podia ouvir era a
batida ruidosa dos cascos dos cavalos no concreto. O andar de baixo era uma residência. Duas
camas estreitas se encontravam ao fundo, no canto esquerdo, junto a uma enorme escrivaninha de
metal, armários e uma bancada. Várias lâmpadas mal encaixadas se penduravam dos suportes no
teto, unidas pelo mesmo fio. Feno cobria o chão ao lado, com um recipiente para água. No meio de
tudo isso havia uma lareira improvisada cavada no concreto.
Eu via, mas não entendia. Já sabia que os dois de vermelho não eram quem pareciam ser, mas
por que nos levaram para lá? Parte de mim estava em alerta, mas deixei as suspeitas de lado por um
momento. O calor de Peter às minhas costas me dava forças.
– Se vocês decidirem sair daqui, por favor, me avisem antes para que eu possa desativar a
segurança – o homem disse ao apear do cavalo. Ele ainda não tinha retirado a máscara. Ele foi até a
garota e observou a flecha na perna dela. – Ah, nós devíamos ter parado.
– Ainda estávamos muito perto da Verge – ela respondeu, piscando quando os dedos dele tocaram
de leve na haste da flecha.
– Vocês disseram que estavam com os nossos trajes – Rhys disse, ainda no cavalo. Ele fez algo
com os pés que levou o cavalo a dar alguns passos para trás. – E espero que tenham algumas
respostas.
A menção aos trajes e a lembrança do que eles tinham dentro foi como um soco leve no estômago.
Nossa provisão de doses para memória não iria durar muito.
Peter desceu do cavalo e ficou em pé entre Rhys e eu.
– Eu disse que já cuidamos disso – o homem falou. – Paciência.
Peter deu alguns passos para a frente antes que a boca de Rhys nos pusesse em novos apuros.
– Com todo o respeito, não podemos ter muita paciência. Estamos ficando sem tempo. Se não
recuperarmos logo os trajes, vamos perder a memória. Entenderam?
O homem suspirou e olhou para a garota, que eu podia ver claramente, agora que não estávamos
em movimento. Ela abaixou a máscara até o pescoço. Sua pele escura não tinha um defeito sequer, o
que me surpreendeu, considerando o mundo em que vivia. O rosto era magro, quase desnutrido. O
corpo nem preenchia o uniforme de combate. Nada disso a impedia de ser linda. Era estúpido, mas
eu imediatamente olhei para o Peter para saber se ele a estudara como eu.
– Sofia, você consegue cuidar sozinha da sua ferida? – o homem perguntou.
Ela acenou discretamente com a cabeça. O homem a ajudou a apear do cavalo, então a observou
mancar até os armários abertos na outra ponta da residência.
– Você está bem? – ele perguntou.
Ela acenou com a mão, sem se voltar para trás nem parar de mancar.
O homem se virou para nós e retirou a máscara.
Meu queixo caiu.
Ele era loiro como Rhys, com cabelo na base do pescoço, mas isso eu já sabia. A barba loira era
curta, mas espessa. As íris eram vermelhas, algo que eu não notara antes. O rosto era como Rhys
poderia se parecer após muitos anos de vida.
Rhys emitiu um som que eu nunca ouvira ele emitir. Uma exalação suave de surpresa.
O homem sorriu para o Rhys, e seus olhos se apertaram e piscaram com lágrimas.
– Olá, filho.
26
R Nenhum de nós conseguia. Ninguém disse uma palavra por cerca de um minuto. Os olhos de
Rhys estavam brilhantes. Ele nunca falara muito sobre seu “pai”. Rhys fora parte da primeira
equipe Alfa, um ano à nossa frente. Os próprios criadores o educaram e treinaram como um filho.
Então um dia o pai de Rhys desapareceu. E Rhys presumiu que ele fora assassinado. Em vez de
morto, ele estava ali, trabalhando na Verge...
– Onde nós estamos? – perguntei.
Claro que era uma loucura ver aquele cara em carne e osso, mas nós tínhamos problemas maiores
para resolver. E meu palpite era de que ele tinha respostas.
Rhys Noble – eu me lembrava do Rhys me contando o nome de seu pai – respirou fundo.
– A resposta mais curta é que estamos em outro universo. Um entre muitos.
Se alguém lhe conta que você está em outro universo, é difícil dizer simplesmente: “Ah, isso faz
sentido”. Mas, em vez de duvidar, eu não senti nada. Um outro universo. Tudo bem.
– Meu nome é Rhys. Vocês podem me chamar de Noble, para evitar confusões. Noble é apenas o
meu sobrenome, que significa nobre, mas não pensem que tenho qualidades excepcionais – ele levou
o cavalo de Sofia para beber água. Eu apeei e minha égua seguiu na mesma direção. – A garota se
chama Sofia. Ela nasceu neste mundo – Noble esperou até que Rhys apeasse, como um robô, então
levou o último cavalo para saciar a sede. – Mas vamos cuidar da situação imediata.
Seguimos Noble até um dos armários, de onde ele tirou nossos trajes. O material de escamas
pretas estava dobrado com cuidado. Ele entregou um traje para cada um e falou:
– Deixem suas doses de reserva nos trajes, por favor. Eu tenho mais. Nos bolsos vocês
encontrarão os aparelhos de rastreamento, como tinham deixado antes.
Na bancada havia um compartimento de vidro cheio de seringas. Cada um estava cheio de líquido
amarelado, com o qual eu estava familiarizada. Noble levantou a tampa.
As nossas injeções de memória, mas não eram as que tínhamos trazido conosco.
– Por que você...? – Rhys começou, mas estava em choque. O rosto dele estava sem expressão,
sem reação.
– Quando vi quem tinha atravessado a Escuridão, preparei um estoque – Noble explicou, abrindo
o compartimento e tirando de lá três seringas.
Atrás dele, Sofia retirava a flecha da coxa. Ela mordeu o lábio e olhou para o teto. A mancha de
sangue na calça passava do joelho.
– Onde está o Noah? – Noble perguntou para mim.
De repente, ele estava ali ao meu lado, com seu traje. Ele precisava parar de surgir assim de
repente; era demais para mim.
Ninguém disse nada.
– Isso é muito ruim. Sinto muito. Eu dei a ele algo para ajudar sua equipe.
– O quê? – perguntei, ao mesmo tempo que Noah me dizia: – O que ele deu pra mim?
Noble tirou um pano de cima da bancada e limpou as mãos.
– Seis meses atrás eu fui ao seu mundo. Encontrei o Noah na floresta fora da base do Tycast e fiz
com que ele desmaiasse. Então implantei nele uma programação para parar Nina se ela aparecesse,
acompanhado de informações e de um histórico para ajudá-los a completar a tarefa. Eu sabia que era
apenas uma questão de tempo.
Noah balançou a cabeça.
– Eu não consigo me lembrar. Diga a ele que eu disse oi e que ele é um sacana, porque não
precisava ter me apagado.
– O Noah disse oi. Eu baixei as lembranças dele e agora sua consciência está em minha cabeça.
Ou algo assim.
Noble demorou, mas entendeu.
– Isso é extraordinário – ele olhou no meu rosto. – Eu sinto muito. Não devia ter dito isso. Mas as
implicações... Eu havia postulado que duas mentes poderiam ocupar o mesmo cérebro, mas... Ele se
lembra das informações que eu lhe passei?
– Alguns pedaços. Ele me mostrou o que é a Tocha.
– Noble – Peter disse, impaciente –, vamos logo ao que interessa. O que nós somos?
– Eu receio que todos sejamos a mesma coisa – Noble respondeu. – Clones.
– Explique – Peter falou.
– Nesta primavera eu vou fazer 50 anos – ele disse. – Mesmo assim, a pessoa de quem eu fui
clonado não parece ter mais do que 18, como você, Rhys. E ele já viveu quase mil anos. Todos vocês
também têm um Original. Os cinco compõem a liderança do universo mais poderoso da Escuridão,
a Terra Verdadeira.
Ele olhou para cada um de nós e pareceu satisfeito em ver que estávamos acompanhando. As
palavras eram como bombas caindo em minha cabeça.
– Fui enviado para o seu mundo décadas atrás, quando era menino, com minha equipe, para
envelhecer e aprender as maneiras da sua sociedade em particular e para criar um grupo de
soldados, que são vocês, para serem uma nova geração de pacificadores no mundo. No entanto, era
uma mentira contada pelos nossos criadores. Em vez de paz, haveria guerra. As equipes iriam liderar
a vanguarda de um exército quando chegasse a hora de liquidar seu mundo. O que acham disso?
Nós seríamos a ponta da lança.
– Hum – foi tudo o que Rhys disse.
Noble continuou:
– Vamos cuidar das prioridades. Tomem as injeções.
Nós as tomamos. A já conhecida pontada em meu braço foi bem-vinda. Noble nos observava. Não
parecia uma coisa esperta a se fazer, tomar drogas oferecidas por um estranho, mas não havia muita
opção.
– Então o que é a Escuridão? – Rhys perguntou.
Noble sorriu, e era fácil ver o lado cientista dele.
– Pensem na Escuridão como um favo de mel, com cada universo alojado em um alvéolo. A
Escuridão funciona como um lubrificante, como o óleo que impede que duas peças de metal fiquem
raspando uma na outra.
Aquilo deveria me abalar, mas depois de tudo o que tínhamos visto, eu tentava assimilar. Era
difícil, porque eu só conseguia pensar em uma coisa. Fiquei pensando que, se tudo o que existia era
aquela jornada sem fim de lutas e revelações insanas, eu estava ferrada. Não tinha certeza se era o
que eu queria, por mais que tivesse sido criada para lutar.
– Deixe-os se vestirem, Noble – Sofia disse.
Ela tirou o colete, então abaixou a calça, expondo a ferida. Ela estava usando duas faixas largas de
pano para cobrir as partes íntimas. Seus músculos eram fortes e esguios, como um animal equipado
com o essencial. Eu observava o jeito como ela andava, para avaliar se era perigosa, se poderia nos
derrotar. Rhys a observava por outro motivo.
– É claro – Noble disse. – Tenho certeza de que vocês vão se sentir melhor em seus trajes.
– É – Rhys falou, distraído.
Eu fui andando até o andar seguinte do estacionamento e descontei a raiva esmurrando a parede.
Então vesti o traje e me senti segura novamente, apesar de não estar.
Na volta, vi Peter e Rhys se trocando. Rhys ainda parecia abalado e não me notou, mas Peter sim,
enquanto puxava o traje por cima do quadril. Ele não passou imediatamente os braços pelas mangas.
Sorriu para mim, tão calorosamente quanto poderia naquela circunstância. Minhas bochechas
ficaram quentes, assim como a barriga, e era tão bom sentir alguma coisa além de terror e angústia.
Cheguei perto e passei os dedos pelas costas nuas dele. A pele estava ardendo, quase febril. Mas o
momento logo passou e eu me lembrei de quem nós éramos.
Quando voltamos para a sala de estar, Noble estava remexendo o armário. Sofia terminara de
costurar a ferida. Ela forçou a perna para a frente e para trás, para se certificar de que os pontos não
iriam se romper. Rhys olhou para ela até ela virar os olhos para cima e enrugar a testa. Noah ficou na
frente de Rhys, acenando com uma mão diante do rosto.
Noble ergueu uma faixa de memória.
– Acho melhor mostrar a vocês como cheguei aqui. E contra o que estamos lutando.
Ninguém disse nada.
– Quem quer ir primeiro?
– Eu – estava cansada de esperar pela verdade.
Eu me deitei na cama mais próxima e Noble passou a faixa sobre a minha cabeça.
Desta vez, nem doeu.
27
BRI OS OLHOS E DESCOBRI QUE ELES PERTENCIAM A Rhys Noble, mas algo estava diferente. Não
Um segundo depois, Noble estava na calçada de uma cidade que eu logo reconheci. Vi o céu
escurecido, as ruas arruinadas. Era a Nova York de Gane.
Noble se espantou:
– Que lugar maldito é este?
– O futuro do seu mundo, se você não fizer nada.
– Por que eu?
No meio do cruzamento um pouco à frente, vi duas formas humanoides curvadas sobre alguma
coisa na rua. Parecia um cervo morto. A pele deles era branca como leite.
As duas criaturas notaram Noble e Olivia e ficaram completamente imóveis.
– Por que eu? – Noble repetiu. – Meu Deus, o que são aquelas coisas?
– Por que você? De todos os Originais, Rhys é o que dá mais trabalho a Miranda. Ele é o mais
combativo e o menos propenso a concordar. Eu me perguntei se não haveria algo do Rhys Original
em você. Só quando cheguei ao seu escritório é que tive certeza de que você não tinha se
corrompido.
– O que eu posso fazer? – ele perguntou rapidamente. Olhou para a Escuridão atrás dele, como
se para conferir que ainda estava lá, pronta para que ele saltasse dentro dela. O portal esperava
pacientemente.
As duas criaturas começaram a se aproximar.
– Você não pode matar sua colega Miranda. Ela é protegida demais, sendo a escolhida da Original
dela. E matá-la não vai deter o que está por vir. Um dia a diretora vai enviar Nina, a clone que criou
como filha, para reunir os sem-olhos e levá-los até as equipes. Então será o princípio do fim.
Os sem-olhos já estavam chegando perto; a princípio eu não sabia que eram mesmo eles, mas já
dava para ver seus rostos.
– Posso contar com você para a rebelião? – ela perguntou.
– Sim.
28
LEMBRANÇA TERMINOU. EU ESTAVA DE VOLTA AO REFÚGIO de Noble e Sofia. Era como passar de
A um pesadelo a outro.
– O que você viu? – Peter me perguntou.
Então Noble simplesmente passou para ele a faixa de memória. Assim que Peter terminasse, seus
olhos deixariam para sempre de ser tão azuis. Ele se deitou e pôs a faixa na cabeça.
– Nós vamos ter que arrumar algumas lentes de contato – Rhys disse. – Agora você é parte do
clube dos vampiros – ele estava alimentando um dos cavalos com feno.
– Eu preciso ver isso – foi tudo o que Peter disse. Ele inspirou suavemente enquanto a máquina
ligava.
Eu virei para Noble:
– Como você acabou trabalhando para o Gane?
– Simples. Olivia arrumou uma vaga para mim na Guarda Real, que é a unidade de polícia que
ainda funciona neste mundo. Era o único lugar onde eu podia monitorar a Escuridão de perto. E o
último lugar em que a Terra Verdadeira iria procurar por mim.
Ele ia falar mais, então Sofia se aproximou.
– Venha comigo, Miranda. Preciso reaver uma coisa antes do anoitecer.
Eu estava na égua cinzenta, que se chamava Axela, cavalgando em uma rua estreita e empoeirada.
Sofia ia ao meu lado no dorso da égua preta dela, a Mockbee. Ela trocara a roupa manchada e
ensanguentada por outra no mesmo tom vermelho-escuro. Carregava um arco no colo, com uma
flecha já preparada.
O que eu vira na memória de Noble lentamente sedimentava como algo que eu podia assimilar.
Era esquisito demais para não ser verdade. Mesmo com toda aquela loucura, eu não conseguia parar
de pensar no longo tempo de vida dos Originais. Minha Original estava respirando pelo menos
desde a Idade Média.
O nosso inimigo tinha vidas inteiras de experiência. Como poderíamos competir?
Sofia colocou a égua dela em meio galope.
– Vamos – ela disse para mim. – Logo mais vai anoitecer e nós não vamos querer ficar por aí.
Não, eu imaginava que não.
Eu a alcancei; o aumento de velocidade me fez lembrar das feridas nas pernas, nos braços e no
torso – em todo o corpo, para resumir. O traje ajudava um pouco.
– Como você e Noble se conheceram?
Ela não disse nada durante toda uma quadra.
– Ele me encontrou alguns anos atrás. Eu estava andando pelo beco errado perto do mercado e
três homens me agarraram e me puxaram para um prédio – ela diminuiu o trote. – Eu... Eles
arrancaram as minhas roupas – ela contraiu o rosto. Por um momento ela pareceu se enrijecer para
enfrentar a lembrança. – Eu gritei e chutei. Um deles sacou uma faca e a pôs ao lado do meu olho.
Eu sentia a pulsação na cicatriz da bochecha.
– O líder deles estava com a calça arriada quando Noble apareceu – o tom de voz dela passava a
ser de reverência. – Era como um fantasma. Ele se movia muito rápido, esmagou a cabeça deles com
uma pedra antes que soubessem o que estava acontecendo. Então ele me deu um robe vermelho
para eu me cobrir, o robe cerimonial da Guarda Vermelha. E me deu algo para comer – ela esfregou
o olho. – Ele me introduziu no programa da Guarda Vermelha.
Nós trotamos por mais uma quadra.
– Sinto muito por não ser uma história feliz – ela disse, com um tom de provocação.
– Mas tem um final feliz.
Sons vinham de algum lugar adiante. Gritaria de feira.
– Fique perto de mim e não faça contato visual. Aja com ar de superioridade.
Viramos a esquina e chegamos ao que parecia mesmo uma feira. Quase deserta, fileiras de
barracas vazias em um terreno quadricular enorme. À primeira vista, o perímetro parecia rodeado
por uma cerca, mas então vi que era apenas a estrutura do primeiro andar de um prédio decapitado.
A feira acontecia na base de um arranha-céu que há muito tempo desaparecera. Cerca de um quinto
das barracas estava ocupado, mas havia uma pequena multidão de fregueses.
Ao longe, um sino tocava suavemente.
– Mais trinta minutos antes de escurecer. Vai dar tudo certo – isso não impediu que um calafrio
percorresse as minhas costas de um lado a outro.
O homem saiu do beco à nossa direita. De início pensei que fosse um sem-olhos por causa da
postura encurvada, mas então vi os fossos escuros de seus olhos e a lâmina crua na mão. Ele fez uma
boa tentativa de avançar no flanco de Sofia, mas era mais lento que eu numa manhã de ressaca.
Puxei as pernas e fiquei de pé em cima da Axela, então saltei na direção dele. Aterrissei com os dois
pés em seu peito e o derrubei ao chão. Suas costelas se romperam e a boca se abriu, resfolegando.
– Deixe-o – disse Sofia, virando por cima do ombro.
– Eu acabei de salvar sua vida – eu disse, decepcionada pela falta de reconhecimento.
– Quanto a isso eu serei eternamente grata, mas não temos muito tempo.
O homem gemia e se contorcia no chão. Chutei a faca dele para a sarjeta e montei de volta na
égua. Sofia já estava uns sete metros à frente e eu não queria ficar para trás naquele lugar horrível.
Ela agarrou uma maçã ao passar pela barraca de frutas. Ela estava amarronzada e a vendedora
frágil não ousou dizer uma palavra. No mesmo movimento, ela a arremessou para uma menininha
com cabelo emaranhado e cara suja. A garota olhou em volta para se certificar de que ninguém a vira
e seguiu para a direção oposta.
– Vamos – disse Sofia quando notou que eu ia devagar.
Dei um tranco na Axela com o calcanhar. Fomos até outra barraca aberta para negócios. Atrás
dela havia um homem corpulento, com calça e camisa desgastadas. Seus olhos injetados zanzavam
entre nós duas.
– Eu preciso das baterias hoje mesmo – Sofia falou sem rodeios. Apesar de ela ainda não ter feito
nada por mim, eu já começava a gostar daquela garota.
– Eu disse a ele que levaria algumas semanas – o homem disse, com sotaque russo.
– Não venha com essa – Sofia retrucou, fazendo um círculo com Mockbee em volta da barraca. –
Nós já demos semanas a você. Agora cumpra a palavra.
O homem sorriu, mostrando dentes amarronzados.
– Era brincadeira. Você está com as moedas?
Ela tirou um saco do cinto e o jogou para o homem. Ele o pegou e testou o peso na palma. Então
trouxe uma bolsa de trás da barraca e a arremessou para ela. Era pesada, quase a derrubou do
cavalo.
Ela a pendurou no ombro.
– Sorte sua que estou com pressa.
O homem ergueu a mão envolta em bandagens amareladas.
– Certo, também agradeço! Mande um abraço meu para a Guarda Vermelha, está bem?
Sofia o olhou torto, então virou Mockbee e trotou para longe dali. Eu fui atrás.
– Para que são as baterias? – perguntei assim que saímos da feira e voltamos para as ruas vazias.
O céu estava mais escuro, as sombras se misturavam.
– É para a coisa que vai nos dar uma chance de vencer.
U nosso refúgio. Um cano de alumínio vertical direcionava a fumaça para fora da garagem.
Sofia me passou um espeto com algum tipo de carne fumegante, pingando caldo. Não
perguntei o que era, apenas arranquei um pedaço com os dentes e mastiguei. O gosto era tão bom
que amoleceu meus joelhos.
Peter estava confabulando em voz baixa com Noble e Rhys do outro lado da fogueira, mas eles
pararam quando cheguei mais perto. Eu senti que estava interrompendo alguma coisa.
– Do que estamos falando? – perguntei.
Os olhos de Peter tinham escurecido um pouco e arroxeado. Eles quase me deixaram sem fôlego.
– Apenas preparativos – Peter respondeu. – Como foi o passeio?
– Sobrevivi.
– Isso eu notei – Peter disse, sorrindo, então se voltou para Noble.
A maneira como silenciaram... Era como se não confiassem em mim para aqueles planos,
quaisquer que fossem. Peter ainda devia suspeitar que uma cópia de Nina residisse em mim, apesar
de não ter sido ativada na cela.
Sofia já estava na bancada, trabalhando com o que ela adquirira na feira. Ela também não parecia
querer companhia.
Antes que eu voltasse à fogueira, Noble falou:
– Miranda, eu estava contando a eles sobre a Tocha.
Então talvez fosse apenas impressão.
Estava frio e saía fumaça de nossa boca. Sofia apareceu envolvida em um cachecol grosso e nós
todos nos aproximamos das chamas da fogueira. Rhys me passou um espeto com mais carne e uma
caneca de água. Consumi tudo com voracidade. Ele ainda parecia um tanto atordoado, mas acho que
pôr a conversa em dia com o pai que ele pensou que estava morto podia deixar alguém daquele jeito.
– Onde eu parei? – Noble perguntou.
– Tocha – Sofia respondeu.
– Ah, sim. A Tocha é um instrumento que a Terra Verdadeira usa para controlar os sem-olhos. A
diretora da Terra Verdadeira, que é a Miranda Original, possui uma. Uma cópia foi feita e escondida
neste mundo, no caso de a Tocha da diretora se quebrar ou ser roubada. Nós não podemos deixar
Nina pôr as mãos nela.
– Mas, se determos Nina, a diretora não vai aparecer e reunir os sem-olhos por conta própria? –
Peter indagou.
– Sim – Noble respondeu –, mas com isso vamos ganhar tempo. A Tocha está escondida aqui
porque os sem-olhos estão aqui. Se pudermos tirá-la de Nina, nós poderemos controlar os monstros.
Não era isso o que eu esperava.
– Você sabe onde está? – Rhys perguntou.
Sofia riu de boca cheia, como se a própria ideia de saber a localização da Tocha fosse absurda.
– Se eu soubesse, acredito que toda essa questão dos sem-olhos não nos daria problema algum –
Noble respondeu.
Rhys olhava fixo para o fogo, claramente constrangido, e eu fiquei esperando que Noah fizesse
alguma piada.
– Então como vamos encontrá-la? – Peter perguntou.
Noble assoprou as mãos em concha, para aquecê-las.
– Um aliado na Verge me enviou uma mensagem. Dizia o seguinte: Amanhã, ao amanhecer, eles vão
sair a cavalo em busca da Tocha. E nós também.
Subi alguns andares até o banheiro, onde eu esperava que Noah aparecesse.
– Você ainda está preocupada... – ele disse às minhas costas. Eu me virei. – Que a Nina esteja na
sua cabeça.
– Como você percebeu? – assim que falei me arrependi do sarcasmo.
Ele riu e se aproximou.
– Sua mente é como um furacão. Nem adianta tentar conter os sentimentos.
Eu dei o braço a torcer. Minha garganta se comprimiu.
– Ela me deixou viver, Noah. Ela me tirou do laboratório da escola e me levou para um porão,
mas não me matou.
Noah não falava, apenas ouvia.
Eu estava ignorando essa parte, mas de repente me dei conta do quanto ela era importante.
Eu não devia ter deixado Peter me convencer a ficar com eles.
– Sequência conseguiu controlar Nina por um minuto e eu perguntei por que ela me deixou viver,
e ela disse que Nina queria alguma coisa de mim. Então o que você acha que pode ser?
– E não converteu você quando estavam presos na Verge.
Eu acenei com a cabeça e passei os dedos sobre as bochechas.
– Sim. Esse é o único motivo para eu não ter saído correndo.
– E Peter está mantendo você distante – ele disse, seco.
– Ele precisa liderar.
Noah acenou com a cabeça depois de um instante.
– Sim, é verdade. É com ele que você quer ficar? Porque isso não vai mudar. Peter sempre foi o
líder. Mesmo que ele queira pensar em você em primeiro lugar, isso vai contra tudo o que o Tycast e
o Sifu Phil lhe ensinaram.
Eu não podia negar. E estava começando a entender que nossas vidas poderiam ser sempre assim.
Eu só precisava entender se podia aceitar.
– Eu não preciso liderar – Noah disse.
– Você está... – parei no meio da frase. O que eu iria dizer? “Você está morto”? Não. Eu não teria
dito isso, porque ele não estava morto. Aquela era a primeira vez que eu começava a considerar o
óbvio. Com um clone zerado e uma faixa de memória, ele poderia estar ali conosco. Para valer.
– Você tem razão. Para mim também é muito fácil. Eu adoro ficar aqui, olhando o Peter fazer as
coisas que eu costumava fazer – ele tocou meu lábio inferior com o polegar. – Esses lábios
costumavam ser meus.
– Eu não sou a Sequência... – os lábios dela foram os últimos que pertenceram a ele.
– Eu sei.
– Vá embora para que eu possa ir ao banheiro.
Eu o senti desaparecendo novamente, mas desta vez o buraco que deixou estava um pouco maior.
Pela manhã havia neve no chão. Os cavalos exalavam longas colunas de vapor e andavam de um
lado ao outro no meio do feno. Noble deixara o fogo aceso, com uma panela de alguma coisa com
aveia borbulhando em um autêntico caldeirão. Sofia e Rhys apareceram com dois novos cavalos,
ambos acastanhados.
– Eu gastei o resto de nossas economias na feira – ela disse, levando-os até o feno.
– Vamos conseguir mais – Noble falou, enchendo várias tigelas até a borda. – Isso vai esquentá-los
um pouco. Alonguem-se bastante. Precisamos estar bem flexíveis para a luta que vamos ter.
Sofia e Rhys foram até a bancada, onde ela trocou as ataduras. Ela quase não olhava para ele. Ele
ficava sem graça, querendo colocar as mãos nos bolsos, mas como não havia bolso no traje, parecia
apenas esfregar as coxas de um jeito estranho. Se eu não o conhecesse bem, diria que ele ficava
nervoso perto dela.
Tomamos o café da manhã insosso do caldeirão, com água para lubrificar a garganta. Rhys
perguntou se não tinha café e Sofia abriu um sorriso. Até Peter riu.
Um a um, os outros pararam de sorrir e se lembraram do quanto tudo aquilo era perigoso. Sofia
nos mostrou um armário repleto de armas. Algumas estavam em bom estado, outras não. Ela e
Noble abandonaram a roupa vermelha e colocaram vestes mais escuras. Puseram coletes cinza-
escuros e calças que pareciam grossas como armadura. Notei que uma cicatriz velha e cinzenta
percorria sinuosamente o braço esquerdo de Noble.
– Eu consegui recuperar suas espadas – ele disse atrás de nós, enquanto apreciávamos toda a sua
coleção. – Mas os revólveres e a munição foram para o arsenal da Guarda Vermelha. A esta altura já
é deles.
Rhys suspirou. Ele amava seu revólver mais do que a si mesmo. Cada um de nós pegou sua
espada e a pôs nas costas. Peter pegou uma metralhadora bem conservada e Rhys escolheu outra
espada menor. Eu agarrei um arco e uma aljava com flechas. O arco felizmente tinha uma
empunhadura de metal, então ele também se prendia magneticamente às costas. Na minha maneira
de ver as coisas, só as flechas eram disparo garantido. Eu não gostava de usar revólveres que eu não
tivesse testado e limpado por conta própria. Depois de escolher, Noble nos deu comunicadores de
pulso com pequenas escutas para ouvido.
Do lado de fora, o céu ainda estava escuro, mas podíamos enxergar. Neve cobria o chão,
mascarando a feiura do ambiente. Era como uma cobertura de caramelo sobre uma maçã estragada.
Nós quase nos sentíamos em casa.
Noble conduziu o cavalo à nossa frente, olhando para cada um de nós.
– Eu não posso dizer o que vai acontecer em seguida. E não preciso dizer o que acontecerá se
falharmos. Sejam firmes e rápidos. Os mundos estão contando conosco.
Quanto ao discurso motivacional, já ouvi piores.
Cavalgamos juntos na rua cinza e branca, de volta em direção ao inimigo.
30
E A cerca de cinco quadras da Verge, Noble nos fizera parar para recebermos as últimas
instruções, antes que cada um ocupasse sua posição. Sofia nos entregou medalhões de aço em
uma corrente, acionados pelas baterias que eu comprara com ela na feira. No centro do disco havia
um botão vermelho.
– Usem isso em volta do pescoço. Se algum sem-olhos chegar perto de vocês, por volta de uns
três metros, apertem o botão. Isso vai emitir uma profusão de ondas de rádio em todas as
frequências. É o suficiente para interferir na visão psíquica deles.
Três metros. Então, basicamente, deveríamos usar quando eles estivessem prestes a nos comer.
– Deixe-me adivinhar – Rhys disse, revirando o medalhão nos dedos. – Não vai durar muito, ou
só poderemos usar algumas vezes.
– As baterias vão durar, mas cada disparo de ondas de rádio vai se tornar menos eficiente à
medida que eles se adaptarem. Vocês podem usar talvez uma ou duas vezes.
– É melhor que nada – Peter disse, e eu estava pensando o mesmo.
– Serão apenas um ou dois disparos, no total, para todos nós – Sofia acrescentou. – Então avisem
se usarem uma vez.
Era melhor do que nada, mas não muito.
Então nós nos dividimos e tomamos nossos rumos pelas ruas, de modo a cobrir todas as saídas
possíveis.
Eu estava ao norte da Verge. Rhys e Peter vigiavam do sul e do leste, respectivamente, enquanto
Noble e Sofia estavam a leste, a direção mais provável para Nina e Gane. Em vez do Túnel Lincoln
do nosso mundo, Noble nos contou de uma ponte que estaria na mesma área nesta Nova York, a
Ponte Lincoln.
Das sombras do interior do túnel norte da Verge, Nina e Gane saíram montados em dois cavalos.
Meu coração começou a acelerar. A rua costumava ser a Broadway, de acordo com uma placa.
Ergui o punho até os lábios e sussurrei:
– Estou vendo os dois. Eles estão indo devagar. O que vocês querem que eu faça?
– Para que lado estão indo? – Noble perguntou na escuta.
– Reto para o norte. Na minha direção.
Ele suspirou.
– Está bem, talvez virem a oeste para a ponte. Você pode segui-los?
Eu estava escondida na entrada de uma farmácia abandonada. Axela estava bem quieta atrás de
mim. Não havia saída que não passasse pelo campo de visão deles; as portas dos fundos estavam
fechadas e enferrujadas.
– Não vai dar – eu disse ao comunicador.
A voz de Sofia surgiu repicando:
– Não tem nenhum motivo lógico para eles irem por essa direção.
– É, mas estão indo.
– Esconda-se – Peter disse. – Nós estamos atrás deles.
Meu peito se comprimiu. Mesmo com os outros no encalço, Nina e Gane passariam muito perto
de mim. Coloquei a cabeça para fora da porta de novo e vi que eles só estavam a uma quadra curta
de distância. Axela bufou e deu um passo para trás. Cruzei a farmácia até chegar a ela, escondendo--
me nas sombras. Era estúpido ficar encurralada ali.
– Silêncio, garota – sussurrei para Axela, acariciando sua crina e coçando debaixo de seu queixo.
Os olhos dela brilhavam na escuridão e as narinas se expandiam. – Não se mova.
Oito cascos marchavam na rua lá fora. Meus olhos ficaram na porta aberta por mais dez
segundos, até que Gane e Nina apareceram no meu campo de visão, a uns dez metros de distância.
Eles pararam ao lado da porta.
Prendi o fôlego.
– Você sentiu isso? – Gane perguntou.
Ele estava usando o mesmo traje do dia anterior, mas com um manto preto comprido para
cavalgar, que pairava sobre o cavalo. Axela suspirava pelo focinho, arrepiando meu cabelo. Nina
estava olhando diretamente para mim, mas ela não conseguia me ver na escuridão.
– O que está acontecendo? – Rhys perguntou no meu ouvido.
– O que foi isso? – Nina disse na rua.
Mas Gane já estava voltando a andar.
– Nada. Só uma sensação – era como se ele sentisse minha presença, mas não podia ter certeza.
Nina esperou um momento, então o seguiu.
Fiz um carinho na pata dianteira de Axela, com a mão trêmula, e suspirei:
– Boa menina – ela pôs o focinho na palma da minha mão.
Os dois já estavam uma quadra inteira à frente quando eu me arrastei até a porta. Não podia
segui-los montada na Axela, mas a pé eu quase não fazia barulho. Toquei a espada e o arco nas
costas para garantir que estavam bem guardados, então cheguei até a rua, evitando as poças de neve
derretida.
– Fiquem aí atrás – sussurrei para o meu pulso. – Ou venham por uma outra avenida. Eles estão
se movendo devagar demais.
Eu os segui por mais três quadras, esgueirando-me de marquise em marquise, agachando-me
atrás de carrocerias enferrujadas de veículos. Segurava o fôlego e rezava para que eles não me
ouvissem nem vissem nem sentissem. Eu havia nascido para aquilo. Distinguia cada pedra que
poderia rolar, cada fresta que poderia me fazer tropeçar.
Os dois cavalgavam lado a lado, com as costas eretas. Se estavam falando, era em voz baixa
demais para que eu pudesse ouvir.
Finalmente, depois de mais uma quadra percorrida lentamente, vi por que eles tinham ido na
direção norte. Estacionado em uma esquina, a céu aberto, estava um veículo que reconheci, sujo,
mas intacto. Eu vira dúzias deles nas ruas de Cleveland alguns meses antes. Era um jipe Humvee
blindado e camuflado. Um guarda vermelho estava em pé ao lado, mascarado.
– Eles têm um Humvee – eu disse, sentindo um soco no estômago.
O jipe de combate, presumindo que funcionasse, poderia transportá-los mais rápido e para mais
longe do que conseguiríamos seguir. O jipe não se cansaria como os cavalos.
– Impossível – falou Noble.
– Estou olhando bem para ele.
Nina e Gane apearam e o guarda vermelho tomou as rédeas dos dois cavalos. Ela se sentou no
banco do motorista. O motor grande a diesel vacilou algumas vezes antes de despertar rosnando.
Uma nuvem de fumaça oleosa se ergueu do escapamento. Nina dirigiu para oeste, podia-se presumir
que em direção à Ponte Lincoln. Em poucos segundos desapareceu, escondida pelos prédios do
quarteirão seguinte.
Eu me virei para correr até Axela, mas ela já vinha, seguindo os outros cavalos. O grupo vinha a
trote largo até mim e eu os encontrei a meio caminho, parando apenas para saltar no dorso da égua.
– Oeste? – Noble perguntou, enquanto eu impulsionava o animal para a frente.
– Oeste – repeti.
Um Humvee não é a coisa mais sutil do mundo. Em qualquer mundo. Era tão barulhento que
podíamos segui-lo apenas pelo som, mas a nuvem gigante de poeira era tudo de que precisávamos.
Eles foram pela enorme ponte suspensa que não existia em nossa Nova York. A construção estava
decrépita, oscilando ao vento com cabos soltos.
Depois dela, a cidade ficava para trás. Não havia Nova Jersey, apenas solo escuro e plano por
quilômetros, como se uma escavadora imensa tivesse aparecido e varrido tudo. Foi então que me dei
conta de que eu estava cavalgando por uma terra vazia e morta, tentando impedir que o meu clone
destruísse o meu mundo.
Uma hora depois, a terra já não era mais plana. Começou a se elevar em uma cadeia de
montanhas. O caminho se curvava para a esquerda e para a direita em volta de rochas e pedregulhos
da mesma cor do céu. Nós nos aproximamos de um ônibus tombado, enferrujado e escancarado,
meio enterrado, que parecia uma caverna comprida e oxidada.
Quando chegamos mais perto, a parte de trás ficou visível. Lia-se ÔNIBUS ESCOLAR, depois PARE e,
então, PROPRIEDADE DO ESTADO. Os ossos ali dentro pareciam bem pequenos.
Ninguém disse nada. Nós apenas galopávamos. Os cavalos ofegavam e espumavam pela boca,
mas só podíamos diminuir o ritmo o mínimo suficiente para que eles aguentassem. Eu acariciava
Axela repetidas vezes e sussurrava desculpa. Os cavalos não reclamavam, quase como se soubessem
aonde estavam nos levando e por quê.
Quando o ônibus escolar virou apenas um pontinho amarelo no horizonte, ouvi uma voz dentro
da minha cabeça. Não era a de Noah.
– Miranda...
Eu podia sentir minha pulsação. Olhei para os outros, mas o rosto deles estava virado para a
frente.
– Deixe-me sair! Deixe-me sair! DEIXE-ME SAIR! – a voz gritava.
Fechei os olhos e sacudi a cabeça, com os ouvidos tinindo. “Não, não, não, não.”
Peter apareceu de repente à minha direita.
– O que foi, Miranda? Alguma coisa errada?
Todos estavam me encarando.
Eu conhecia aquela voz.
– Eu ouvi a voz da Nina – sussurrei para ele. Meus olhos doíam com lágrimas que eu não deixava
cair. – Eu não deveria estar aqui.
– Tem certeza de que ouviu?
– Sim.
Por um momento, Peter olhou para as mãos dele, que seguravam a crina de seu cavalo. Eu sabia o
quanto ele estava transtornado. Eu deveria sair correndo dali.
– Nós precisamos de você – ele sussurrou em resposta. – Não tem nenhum outro lugar para ir.
Você não pode deixá-la assumir o controle. Está me ouvindo?
Acenei com a cabeça, apesar de achar que ela voltaria logo, mas ela ficou quieta. Eu ainda era eu.
Dez minutos depois, o solo duro amoleceu e virou areia. A terra pedregosa mudou de cinza-
escuro para um matiz azul-escuro. Os cavalos sofreram para subir um morro, com passos
irregulares, então desceram escorregando no lado oposto. A nuvem de poeira do Humvee
desaparecera, mas a areia deixava as marcas dos pneus bem visíveis. Esse rastro nos guiava melhor
do que placas de trânsito.
– Estejam preparados – Noble avisou. – As montanhas estão infestadas.
– Com o quê? – Rhys perguntou.
– Adivinhe – disse Sofia.
Meus dedos esfregavam o medalhão contra o peito, então passaram ao arco nas costas. Eu o
retirei, deixei-o no colo, preparei uma flecha e mantive os dedos nele, pronta para disparar em um
instante. As pontas dos dedos estavam suadas dentro das luvas, mas as pequenas escamas
mantinham a firmeza na pegada.
Chegamos ao topo de outra ladeira, que dava em terra plana novamente, mas bem à nossa frente o
solo se abria em uma fissura bem larga, criando um vale. Visto do espaço, devia parecer um corte
profundo e torto em uma pele azulada. Levamos os cavalos para perto. O chão arenoso estava
rasgado por marcas de garras. Garras de sem-olhos, largas e profundas. O cavalo de Peter gingou a
cabeça e bufou. O de Rhys parou completamente, por mais que ele tentasse várias vezes fazê-lo
andar. Cavalos espertos.
– Ali – apontou Noble.
O Humvee estava estacionado no fundo daquela fenda, na estreita faixa de terra onde as duas
paredes do desfiladeiro se encontravam. Nina e Gane estavam agachados ao lado do jipe, analisando
alguma coisa no solo. Vê-la fez meu coração desabalar. A adrenalina era tanta que superava todas as
dores.
Ela estava olhando enquanto o comandante se levantava e erguia os braços, sem nos ver. A terra
se movia aos seus pés, começava a ser removida, afastando-se para uma pilha à sua esquerda. Ele
estava cavando um buraco com a força da mente. Aquela visão fazia o suor na minha pele gelar. Ele
podia erguer um cavalo. Podia plantar nossos pés no solo. Era possível que ele conseguisse erguer o
Humvee e atirá-lo contra nós antes que tivéssemos chance de lutar.
Só havia uma maneira de conhecermos suas limitações.
– Vão nos ver se descermos com os cavalos – Sofia avisou.
Havia uma estrada sinuosa que levava ao fundo do vale pela direita.
– Melhor continuarmos a pé – disse Noble. – Gane não vai conseguir controlar nós todos ao
mesmo tempo. Mesmo que consiga, vai ser com pouca força. A habilidade dele vem de um aparelho
debaixo do traje, ligado por fios ao seu sistema nervoso. O aparelho estará aquecido por causa da
escavação do buraco. Não tentem destruí-lo, é indestrutível – então era isso o calombo que eu tinha
visto na roupa dele antes, quando ele estava me levando para as celas.
Sobre o ombro, Noble perguntou aos três Rosas:
– Vocês conseguem cuidar da garota?
– Sem dúvida – Rhys respondeu.
Peter acenou, mas seus olhos se fixaram em mim.
– Miranda? – Noble perguntou.
– Sim – respondi. Poderia cuidar dela, desde que continuasse a ser eu mesma.
As paredes do vale tinham várias entradas escuras na rocha. Cavernas. Uma forma branca esguia
passou logo atrás da entrada de uma delas, meio escondida na penumbra.
Noble estava certo; o lugar estava infestado.
– Eles são muitos para nós – falei.
Axela jogou o peso do corpo para a outra pata e gingou com a cabeça. Ficar ali sentada me dava
vontade de gritar. Eu tinha que me mexer e lutar para clarear a mente.
Noble enrugou a testa.
– Não vamos nos preocupar com isso. Os sem-olhos estão vigiando. Eles querem ver quem pega a
Tocha. Se eles vierem, usem os medalhões. Peguem a Tocha a qualquer custo, mas tenham certeza
de que podem escapar com ela.
– O que faremos se pegarmos a Tocha? – Rhys indagou.
– Tentaremos usá-la – respondeu Noble, pousando uma mão no ombro de Rhys.
– Isso é suicídio – fiquei surpresa ao ver que logo a Sofia dissera aquilo. Ela passava os olhos pelo
vale como todos nós e balançava lentamente a cabeça. – Isso é suicídio, Rhys.
Primeiro pensei que ela estava falando para o meu Rhys em vez do pai. Eu me sentiria melhor se
Sofia não estivesse com medo. Talvez não fosse verdade, mas eu sentia que ela teria uma ideia do
risco melhor que eu. Ela crescera ali, vivera ali.
Noble apeou.
– Não precisa ser. Se pegarmos a Tocha, vamos sobreviver. É muito simples – ele sacou a espada,
uma cimitarra. – Se qualquer um de vocês achar que não está à altura desta batalha, peço que vá
embora agora, antes de colocar o resto em risco.
Peter e Rhys estufaram o peito, literalmente. Ninguém da equipe Alfa iria desistir, jamais.
Embora eu quase tenha ido embora naquele instante, chegando a puxar as rédeas para a
esquerda, para virar Axela. Mas não fui. Eu só tinha que ficar fora do alcance da audição, ou, caso
isso não fosse possível, bloquear qualquer coisa que Nina dissesse.
– Muito bem, então – falou Noble.
A distância, vimos que Gane tinha criado uma pilha de terra maior que o Humvee.
Noble começou a descer a parede do desfiladeiro. O caminho era íngreme, mas havia incontáveis
apoios para mãos e plataformas, porém, se um de nós escorregasse, certamente iríamos nos quebrar.
– Rápido! – chamou Noble, enquanto descíamos o desfiladeiro atrás dele.
Nina nos viu antes que descêssemos três metros pela encosta. Disparei uma flecha vale abaixo.
Ela fez um arco e aterrissou a um metro do pé dela. Mais uma, mirando com base na trajetória da
primeira flecha, e ela olhou para o arco na sua direção, então calmamente deu um passo para a
esquerda. A flecha se despedaçou na rocha em que ela estava antes. Sua risada chegou aos meus
ouvidos.
Gane nos avaliou por um momento, então saltou no buraco, com o manto inflando como
paraquedas. A terra voou para o alto com fúria, quase criando uma névoa, um gêiser azulado.
Descemos mais rápido. Corri a ponto de as rochas parecerem borrões. Eu saltava de clareira em
clareira, dobrando os joelhos para absorver os impactos e rolando quando precisava. Meu coração
acelerava com um certo prazer, e o medo era empurrado para um canto escondido da mente, porque
eu tinha que me concentrar na descida. Os outros se tornavam formas vagas e borradas na minha
visão periférica, saltando e se revirando para obter tração. O ruído da poeira jorrando do buraco era
como trovão em meio a relâmpagos silenciosos. Uma camada de rocha desmoronou sob meus pés, e
eu deslizei os últimos três metros me equilibrando no calcanhar.
Nós cinco chegamos ao chão do vale ao mesmo tempo.
– Gane! – Nina gritou. A palavra ecoou pelas paredes do desfiladeiro.
O comandante ainda estava no buraco. Mas aquilo não o impedia de romper enormes pilhas de
terra e atirá-las contra nós. A minimontanha retumbava enquanto se desintegrava, e pedaços de terra
e de rochas voavam em nossa direção em uma pesada tempestade de areia. Eu me agachei e apertei o
braço contra os olhos quando um pedregulho me acertou em cheio no rosto. As rochas zuniam
contra o meu traje. Ouvi um baque úmido e Rhys gemeu ao meu lado. Escutei Peter cair de joelhos,
mas eu ainda não conseguia abrir os olhos. O vento e os escombros nos massacravam, meu cabelo
estava cheio de terra e os olhos inchados demais para abrir.
– Rhys! Peter! – gritei, e em troca recebi um monte de terra na boca.
– Bem – Peter berrou, mais alto que os estrondos. – Eu tô bem!
Finalmente o vento parou.
O ar estava nebuloso de tanta poeira azulada. Uma brisa soprou forte pelo vale, limpando um
pouco o ambiente.
Pisquei até aliviar os olhos e ver uma coisa que estávamos ali para evitar.
Lágrimas de frustração transformaram em lama a terra nos olhos. Era pura teimosia o que fazia
com que meus joelhos não fossem ao chão. Todo aquele esforço para chegarmos lá e sermos
barrados por um monte de terra! Nosso mundo estava perdido por causa de um monte de terra.
Os outros estavam em pé à minha volta. Tiraram a poeira e emitiram pequenos sons da garganta
quando viram o que vi.
Nina estava com a Tocha bem acima de sua cabeça.
31
U NÃO PENSAVA EM OUTRA COISA ALÉM DE “ELA PRECISA morrer”. Quando Gane saiu do buraco,
E corri em direção a Nina, então brequei deslizando a dez metros, com os pés revirando a terra
fofa. A Tocha merecia o nome. Era um bastão de metal brilhante de quase um metro e vinte de
altura. Na ponta havia uma bola reluzente com uma luz vermelha tão brilhante que ofuscava o olhar.
Foquei o rosto de Nina.
Tirei uma flecha da aljava, então estiquei a corda e soltei-a em movimento contínuo. Toda essa
ação levou meio segundo. Nina nem havia começado a se mover, a não ser por uma sutil arregalada
de olhos. Tudo o que eu via era ela; sua mão apertava a Tocha, mas, se estava planejando trazer os
sem-olhos para baixo para me deterem, eles estavam muito longe, ainda escondidos nas cavernas. A
flecha zuniu pelo ar, em direção ao rosto de Nina.
Nesse instante, o comandante gesticulou a mão como se estivesse espantando um mosquito, e a
flecha se curvou e tombou inofensiva atrás deles, depois do Humvee, que seguia soltando fumaça
pelo escapamento.
Nina sorriu, e a Tocha ficou mais brilhante, como um carvão no fogo. Os sem-olhos davam as
caras simultaneamente e se agrupavam nas entradas escuras acima. Milhares de cabeças brancas e
cegas se amontoavam nas cavernas ao longo da encosta. Eu me esforçava para me manter
concentrada na ameaça mais próxima, não na que estava à minha espera. Mas a visão deles causou o
que Nina provavelmente pretendia: abalou a todos nós. Alguém engasgou atrás de mim. Rhys
murmurou um palavrão.
Acabar com aquilo era a única coisa que poderia nos salvar. Meus dedos estavam hábeis e
seguros, porém, a mente não. Peguei outra flecha, mas os olhos de Gane estavam em mim naquela
hora, e senti também a mente dele. Ele arrancou a aljava das minhas costas e o couro se arrebentou
em pedaços, derrubando todas as flechas, que flutuaram ao meu redor, em espiral, até explodirem
em uma nuvem de poeira que o vento carregou para longe assim que se formou. Farpas espetaram
na pele exposta do meu rosto. Apertei os olhos para protegê-los e me inclinei sobre um joelho sob a
influência da mente do homem. Atrás de mim, ouvi os outros batendo no chão. Ele não conseguia
controlar todos nós de uma vez, Noble havia dito. Mas eu me surpreendia ao ver como minhas
intenções se desmanchavam rápido em desespero. Eu queria me mover, golpear e lutar, mas não
conseguia. Continuava esperando que os sem-olhos descessem da encosta e nos cobrissem como
uma manta.
Mas... Calma. A pressão sobre mim estava fraca. Eu sentia a mente de Gane diminuindo em
minha pele, quase não podendo mais nos manter no lugar. Senti que conseguiria. Que poderia nos
salvar.
– Passe-me a Tocha – Gane ordenou, erguendo a mão.
Quando Nina hesitou por um segundo, ele tentou arrancá-la de suas mãos com a mente. Mas ela
não desistia.
A Tocha voou em direção a ele com Nina ainda pendurada nela. Ele tentou se agachar, mas o
punho dela acertou sua têmpora. Ela pôs os pés no chão.
A boca do homem se abriu, os olhos rolaram para trás, e a pressão sobre mim desapareceu
completamente. Ele caiu de joelhos na terra, desabando, enquanto Nina balançava a Tocha como um
taco de golfe. O comandante tentou se esquivar, mas ela o acertou na cabeça e o fez cair de costas.
Ele se contorceu na terra, revolvendo-a com as canelas.
Eu me levantei e ouvi os outros se recuperando atrás de mim. Estávamos a dez metros, perto o
bastante para corrermos até Nina.
Ela estava ofegante.
– Se vierem me pegar, vou trazê-los pra cá, pra cima de todos nós.
Eu gostaria de dizer que ela estava blefando, mas eu não sabia como a Tocha funcionava.
Precisava apostar que Nina não tinha percorrido todo aquele caminho para se sacrificar no final.
Fiz um balanço rápido das nossas armas. Peter era o único com uma arma de fogo, mas era uma
metralhadora. Se disparasse, corria o risco de destruir a Tocha, o que poderia ter consequências nas
quais eu não queria pensar.
Mas Peter parecia não se importar.
Ele deu um passo ao meu lado e apoiou a metralhadora no ombro. Estava disposto a correr o
risco.
Os olhos de Nina estavam diferentes. Eles estavam arregalados, mas não pela surpresa. Era como
se ela estivesse fazendo algo com sua mente. Devia ser algo que a distraísse, pois ela nem tentou se
mover. A metralhadora de Peter disparou; o traje nas pernas dela soltou faíscas e ela se estendeu de
cara na terra. Eu quase gritei em triunfo. O tiro não parecia ter rompido o traje, mesmo assim ela
estava no chão, e isso era um passo na direção certa.
A Tocha rolou para longe de seus dedos abertos e ela se contorceu como Gane.
Aliás, ele de repente não estava mais no chão. Eu não o via em parte alguma.
O importante era que Nina largara a Tocha, mas aquilo não teve o efeito que eu esperava. Os
sem-olhos não estavam mais escondidos nas sombras das cavernas.
Milhares deles estavam descendo a encosta com um grito em uníssono.
32
LES CONVERGIAM PARA NÓS DE AMBOS OS LADOS DO desfiladeiro, ondas gêmeas de branco
E derramando-se pelas paredes rochosas. Eu me forcei a olhar para o lado. Se eu não o fizesse,
paralisaria. Eles avançariam como uma onda e transformariam meu corpo em uma névoa
vermelha.
Em vez de olhar para eles, foquei no objetivo.
Corri até a Tocha quando Nina rolou de costas e soltou um grito sufocado. Um som gutural entre
a dor e a raiva. A terra arenosa se levantava do chão e pairava ao nosso redor, mas eu não sabia dizer
se era Gane ou apenas o vento. Meus olhos pinicavam, mas continuei andando. A distância era de
apenas dez metros, mas a sensação era de que a Tocha estava a mais de um quilômetro de distância.
Dava para ouvir os sem-olhos se aproximando; o som de milhares de garras arranhando as rochas se
confundiam em um zumbido.
Nina tentou agarrar o bastão, mas ela caiu novamente, perto, com os dedos cravando a terra. Eu
já estava a uns três metros. Ela se ergueu em um cotovelo e avançou, mas eu deslizei e parei a tempo
de pegar a Tocha justo quando Nina fechava a mão no bastão, ao lado da minha.
A Tocha vibrou sob minha mão. A energia rolou pelo meu braço e foi até o cérebro, e tive um
vislumbre de tudo à minha volta, filtrado por mil mentes sensitivas, todas conectadas. Era de tirar o
fôlego, atordoante, mas ao mesmo tempo completamente natural. Eu podia ver as mentes, via a todos
nós, enquanto os sem-olhos desciam a encosta, as garras avançando, agarradas à rocha. Via com as
mentes deles enquanto Peter mirava com a metralhadora no que estava à sua frente. Vi Gane
cambaleando para longe, segurando a cabeça com as duas mãos. Observei Rhys se esquivar de um
sem-olhos e o derrubar em um buraco enorme com as duas espadas. Em seguida, ele foi puxado
para dentro quando o monstro agonizante o pegou pela canela. Eu estava vagamente consciente de
que Rhys podia lidar com um sem-olhos, mas que a ausência dele seria sentida.
Então eles estavam em cima de nós, e eu me forcei a afastar aquela visão.
Nina teve tempo suficiente para se levantar enquanto eu piscava rapidamente, desorientada ao
retomar a visão normal. Tudo aconteceu muito rápido, mas foi o bastante para que ela arrancasse a
Tocha da minha mão. Os sem-olhos pararam. Eu me senti normal em um instante, sem a menor
vontade de tocar naquela coisa de novo, mas sabia que seria totalmente necessário.
O sem-olhos mais perto de mim estava a apenas três metros, inchando e encolhendo a cada
respiração, com as garras enterradas pela metade na terra. Ele estava preparando o bote, prestes a
saltar em mim. Sua pele leitosa era quase translúcida, deixando à vista os tendões e as fibras
musculares. Pouco antes de ele saltar, dei um tapa no medalhão no peito e os sem-olhos recuaram e
giraram, confusos e desequilibrados como bêbados.
– Uma carga! – gritei.
Teríamos apenas mais uma, ou duas, com sorte.
Tentei mais uma vez agarrar a Tocha, cheguei a resvalar os dedos nela, mas Nina avançou com a
cabeça e me deu uma testada no rosto. Meus pés saíram do chão e a vista embaralhou. Sangue
quente brotou do meu nariz e sobre meus lábios.
Bati no chão e a dor desapareceu. As luzes sumiram.
E reapareceram no segundo seguinte. A palavra não acendeu em minha mente. Ela não podia ficar
com aquilo. Alguém precisava avançar e tomar dela. Pisquei e me sentei, rangendo os dentes, com a
pulsação latejando no rosto e no corpo. Os sem-olhos se afastaram de nós em debandada, voltando
pela direção que tínhamos vindo.
De volta à cidade e à Escuridão. Eles estavam nos ignorando. Em poucos minutos estariam longe
e eu ficaria presa ali, a quilômetros e quilômetros de qualquer coisa. Não podia ser assim. Tinha que
ser de outra maneira.
Minha visão clareou a tempo de ver Nina entrando com a Tocha no Humvee. Eu mal me levantei
e fui empurrada por um sem-olhos que saiu meio atrasado para se juntar ao bando. Era como ser
derrubada por uma aranha de um metro e meio de altura. Ouvi um tinido e vi que duas escamas do
meu traje se soltaram e voaram para longe, vítimas das garras do sem-olhos. E então ele se foi,
galopando com os demais. Aconteceu tão rápido que não tive tempo de ficar com medo. Quase não
tive tempo de pôr um braço na frente do rosto latejante.
O Humvee já estava avançando em direção à estrada sinuosa da encosta. Eu olhei para os outros.
Eu não via nem Sofia nem Gane. Peter estava ajudando Rhys a sair do buraco, de costas para
mim. Isso era bom. Eu não queria dizer adeus nem ouvir protestos dele. Noble, de pé ao lado de um
cadáver de sem-olhos todo cortado, tinha sangue pingando do queixo.
Ao longe, o Humvee chegava ao final da fissura e começava a subida comprida pela estrada.
Corri em direção à mesma encosta que descemos antes, deixando os outros no centro do vale.
Tudo o que importava era deter Nina. O nosso mundo dependia disso.
Tentei avaliar se conseguia chegar ao topo do vale antes dela, mas ainda era cedo para dizer. A
estrada dava voltas de um lado a outro da encosta, talvez umas 20 vezes. Eram quase 400 metros em
cada direção, as curvas fechadas a faziam retomar pelo outro lado. Quanto a mim, eu só tinha que
escalar em linha reta.
– Encare essa, Miranda – Noah falou.
Normalmente isso me incomodaria. Ele desaparecera na hora difícil e voltava para ficar na
torcida?
Eu o ignorei, mas era isso mesmo.
Eu tinha que encarar e subir sem hesitar.
Não vi nenhum sem-olhos até chegar ao topo. Ele surgiu de trás de uma rocha, e por um segundo
pensei que estava morta. Estava encurralada por um precipício, sem ter para onde correr. Aquela
coisa ficara para trás e, de repente, estava ali para me matar. Mas da cintura para baixo ele estava
paralisado, vítima da debandada. Ele tinha que arrastar as pernas como um peso morto. As garras,
porém, estavam em forma. Elas zuniram ao lado da minha garganta e arrancaram mais escamas do
traje, rompendo a corrente que segurava o medalhão. Meu equilíbrio se foi. Tentei agarrar algum
galho em que pudesse me segurar, mas só alcancei o ar. Então caí de centenas de metros de altura.
E eu ia pensando: “Que maneira horrível de morrer”.
O vento uivava mais alto enquanto a velocidade aumentava. Noah não falou nada, mas o medo
dele inundava minha mente. Ele me entregava seu medo, eu entregava a ele o meu e, de certa
maneira, era como se déssemos as mãos.
Havia maneiras piores de morrer.
Fechei os olhos e me perguntei se eu tinha uma alma.
33
E O vento não estava mais ferindo meus ouvidos; mãos gentis pareciam ter detido a queda, mas
não abri os olhos imediatamente.
Não abri antes de parar.
No meio do ar; na metade da altura do precipício. A sensação na pele era familiar. No topo da
encosta, Gane flutuava a alguns metros da beirada, com o braço erguido e a palma para baixo, como
se eu fosse uma marionete 30 metros abaixo dele.
Lentamente, comecei a me erguer.
– Isso foi divertido – Noah disse.
“Ah, meu Deus”, foi tudo o que pude responder.
Gane provavelmente não me salvara simplesmente por gostar de mim. Pela maneira como estava
flutuando, presumi que ele levitara para aquele lado do vale para deter Nina, já que o Humvee iria
chegar bem àquela área. O sangue da ferida em sua cabeça escorria pelo rosto. Os olhos não
mostravam raiva, mas determinação.
– Miranda! – Peter gritou lá de baixo.
Virei a cabeça, enquanto a subida acelerava. Peter e Rhys estavam na base da parede, abaixo de
mim. Noble e Sofia iam mancando atrás, ajudando um ao outro a ficar de pé. O Humvee estava
quase no topo, contornando uma curva empoeirada na extremidade, enquanto o motor a diesel fazia
seus estrépitos ecoarem pelo vale. Ele iria passar bem perto de nós. “Esteja pronta”, pensei. “Jogue-
a para fora da estrada”. Eu queria tanto pôr as mãos nela.
Cheguei ao cume, e o comandante me fez aterrissar quase na beirada. O cabelo preto dele estava
grosso de tanta poeira e suor. Dava para sentir o calor que saía do aparelho debaixo do traje. Atrás
dele, vimos que os cavalos não fugiram ao ver o êxodo dos sem-olhos. Observando melhor, deu para
notar que era porque Gane os paralisara no lugar. Eles estavam firmes, mas com pavor nos olhos,
que rolavam brancos. Estavam exasperados, querendo sair dali.
– Ela me disse que eu poderia ficar com a Tocha – ele disse, com um sorriso amarelo. – Eu não
acreditei, mas pensei que conseguiria tomar dela.
Sacudi a poeira e me certifiquei de que não tinha ossos quebrados. Apertei o nariz com o polegar
e o indicador; estava doendo, mas parecia inteiro.
– Que outras mentiras ela contou?
– Que ela iria levá-los para um dos mundos desabitados. Para bani-los.
– Você acreditou nela? Acreditou?
O olhar dele ficou meio perdido e contraiu o rosto.
– Não. Mas se eu pegasse a Tocha, eu mesmo poderia fazer isso.
– Então me ajude. Ajude-me a detê-la.
– Sim. Mas e quanto aos sem-olhos?
– Quando eu conseguir controlar a Tocha, prometo levá-los para um dos mundos desabitados.
O Humvee estava se aproximando.
– Não vou ser traído duas vezes. Quando nós a derrotarmos, eu vou manejar a Tocha.
– Para onde você acha que eu iria querer levá-los? Estou lutando contra ela.
– Não interessa.
Não havia outra opção. E eu confiava em Gane. De outra forma, ele não teria me salvado.
Nina completava a última curva, vindo direto para nós, a toda velocidade.
– Você concorda? – ele disse, sem olhar para mim.
– Sim.
Ela estava chegando. O motor gritava, amplificado pelo eco da encosta ao lado.
– Eu peço um favor. Um favor – com Gane recuperado e completamente atento desta vez, nós
podíamos dar um jeito na Nina. Então eu precisava proteger os outros, mesmo que me odiassem por
isso.
– O que é?
– Se ela passar por nós, impeça os outros de segui-la. Podemos cuidar disso por conta própria –
apelei para o orgulho dele. – É só uma garota, e nós somos dois, e agora você sabe quem é o inimigo.
– Está bem.
O Humvee passou escorregando por uma elevação no caminho, espalhando um monte de terra e
areia. Gane ergueu as duas mãos e as rodas da frente saíram do chão, então caíram com força. O jipe
inclinou para o lado, mas continuou seguindo em frente.
– Muito pesado! – ofegou. – Muito rápido!
A última tentativa foi arremessá-lo para o lado; as rodas patinaram, mas Nina virou agilmente o
volante e manteve o carro na estrada. Eu pude vê-la no banco do motorista, com uma mão no
volante e a outra na Tocha. Ela passou voando por nós com o motor rugindo, deixando-nos
empoeirados e enfumaçados.
Axela estremeceu quando saltei nela.
– Solte-nos! – pedi.
Foi o que Gane fez, e Axela quase me derrubou. Ela girava em círculo, batendo firme os cascos
no chão.
– Calma, garota, calma! – dei palmadinhas no flanco e ela se acalmou um pouco.
– Você vem? – apontei para o cavalo mais próximo.
Gane montou e, fiel à sua palavra, soltou os outros cavalos. Axela e eu ficamos cobertas de pó
quando eles saíram em debandada assustada. O comandante mantinha seu cavalo sob controle. Seria
uma longa caminhada de volta a Verge para os outros, mas um pequeno preço a pagar pela
segurança deles.
O jipe de Nina estava na terra plana, depois da área montanhosa. Atrás dela, vi uma manta branca
se movendo no horizonte. Milhares de sem-olhos sob seu comando. Alguma coisa me fez olhar para
o norte. Outra manta, tão grande quanto. Ao sul, mais uma, ainda maior. Devia haver ali dezenas de
milhares de sem-olhos, todos respondendo ao chamado da Tocha.
Peter e Rhys gritavam meu nome enquanto subiam.
Eu me ajeitei sobre a égua, agarrando a crina para me aprumar. Minha energia parecia se esvair.
Nina já estava bem longe, com o exército dela estendido diante de nós. Não importava o que
fizéssemos, a vantagem que ela tinha iria custar vidas.
– A Tocha é o que importa – Gane falou. – Sobreviva o suficiente para recuperá-la.
Eu não iria prolongar a festa de autoimolação. Ainda estávamos vivos. Não era o fim.
Estalei as rédeas e Axela partiu atrás dos monstros.
Tivemos que parar a um quilômetro e meio da cidade para deixar a horda de sem-olhos passar.
Ou parar ou nos chocar direto. Eles escoavam de todas as direções, de todos os cantos das Terras
Arruinadas. Eu presumia que obedeciam à ordem de rumar para a Escuridão, mas não queria testar
se tinham permissão para uma parada rápida para nos comer. Eles continuavam chegando.
E chegando.
E chegando.
Eles nos ignoravam, felizmente. Isso ficou claro. Nina os mantinha em transe, comandando-os
para o mesmo lugar.
– Quantos são? – perguntei.
Gane apenas balançou a cabeça.
– Eles estão se multiplicando há anos. Foi necessário muito menos para colocar o meu mundo de
joelhos.
Toda a força que eu estava conseguindo reunir se dissolveu. Se um mundo que um dia fora tão
poderoso quanto o de Gane pôde cair com menos, por quanto tempo o nosso iria aguentar? Não
daria nem para o cheiro. De repente, eu me arrependi de deixar os outros para trás no vale. Eu
precisava deles. Precisava deles para me darem ânimo. E não podia ignorar a vergonha que sentia.
Eu tomara uma decisão por eles. Se alguém me dissesse que eu não poderia lutar... Só para me
manter segura...
Exatamente o que Noah fizera comigo ao roubar minha memória. E só tornou as coisas piores.
Ficamos em silêncio enquanto a horda continuava a se afunilar rumo à cidade. Conferi atrás de
mim, mas os outros não estavam à vista.
– Eles vão para a Verge – Gane disse. – A Escuridão do Central Park está bloqueada.
Eu não disse nada.
Quando a horda passou, fomos trotando para a cidade logo atrás, tossindo com a enorme nuvem
suja que eles levantavam. Alguns retardatários mancavam pela Ponte Lincoln, sem-olhos
deformados ou feridos que não estavam fortes o bastante para seguir no mesmo ritmo. Enquanto
passávamos, o comandante os despedaçava com sua mente. Eu tentava avaliar o tamanho do poder
dele, para o caso de termos que lutar novamente no futuro. Ele não podia deter a horda, mas
conseguia destruir alguns sem-olhos aqui e ali. E um Humvee era obviamente pesado demais.
Bloqueei o som de carne se rompendo e os gemidos agonizantes, mantendo os olhos na Verge,
que crescia no campo de visão. A cada sem-olhos morto, eu quase ficava feliz; era um a menos para
invadir meu mundo. As ruas estavam vazias, mas havia sinais da passagem da horda por toda parte.
Os veículos, que antes estavam enferrujados mas intactos, agora estavam amassados, como se uma
tempestade de granizo deixasse buracos enormes no teto e no capô. Então chegamos a Verge, ainda
cavalgando rápido. Entrei no túnel escuro do mesmo jeito que Noah entrara naquele laboratório
escuro, esperando que uma espada atingisse meu pescoço ou que um sem-olhos me arrancasse da
Axela e me levasse para as sombras.
As tochas do túnel estavam no chão, algumas apagadas, outras com brasa. Gane seguiu ao meu
lado até chegarmos ao final do túnel, onde tivemos que parar tão bruscamente que quase saí voando
por cima da cabeça da égua. O térreo da Verge desaparecera. Completamente. Tudo o que havia ali.
As entradas dos outros túneis também terminavam em céu aberto, como armadilhas para qualquer
um que chegasse correndo às cegas como nós. A destruição de um lugar sólido onde eu estivera
havia pouco tempo era de arrepiar a pele.
Centenas de metros abaixo, um corredor estreito se ligava às paredes rochosas em forma de anel.
Ele não tinha muito mais que um metro de largura. O resto daquele andar estava sem fundo, como
um buraco negro. Era puro nada, vazio e parado. Era a primeira vez que eu via o que era a
Escuridão depois de descobrir do que se tratava. Tive que engolir em seco muitas vezes para
impedir o vômito. A vertigem só diminuiu quando fechei os olhos.
Foi a primeira vez que me dei conta de que o fim estava mesmo ali. Os sem-olhos já tinham
atravessado. A tarefa era quase impossível. Eu tinha que viajar pela Escuridão e sobreviver por
tempo suficiente para encontrar Nina. Era isso. Eu tinha que sobreviver por tempo suficiente para
derrotá-la. E, mesmo assim, eu não saberia para onde levá-los. Não saberia para onde levar milhares
de monstros.
– É o fim da linha, garota.
– Você não vem comigo? – eu quase ri.
– Meu lugar é aqui. Nós não conseguimos chegar a tempo. Sinto muito pelo seu mundo, mas a
minha obrigação é com o meu povo. A Tocha se foi.
– Não – eu disse, uma negação simples que soava um pouco infantil.
Gane balançou a cabeça.
– Eu poderia ter evitado.
– Mas não evitou, porque você é um otário.
Ele não respondeu, em vez disso ficou olhando fixamente para o inferno comigo. Eu queria
arrancar a cabeça dele por ter possibilitado aquilo, mas não iria mudar nada. Não iria nem me fazer
sentir melhor nem me dar esperança.
O comandante agarrou meu braço e o apertou firme.
– Se você conseguir a Tocha, traga os sem-olhos de volta para cá. Reúna-os na Verge. Vou levar
meu povo para longe. No meu escritório há explosivos suficientes para destruir este lugar. Você vai
matar os sem-olhos e bloquear a Escuridão – ele me contou a senha para entrar no escritório dele e
onde encontrar os explosivos.
Ele não me contou como escapar depois de preparar tudo.
– Agora vá.
Respirei fundo e finquei os calcanhares na Axela, esperando que ela saltasse. Se Nina estivesse a
pé, talvez eu pudesse alcançá-la montada. E vê-la de cima para baixo me faria sentir mais segura,
mesmo que não estivesse.
Mas Axela não se moveu, apenas bufou pelo focinho e revirou o rabo.
– Você pode me dar um empurrão?
Gane acenou com a cabeça e ergueu as mãos. A égua saiu do chão e disparou para a frente assim
que os cascos dela tocaram na rocha. Nós saltamos em pleno ar, e a gravidade nos puxou para a
Escuridão. O buraco cresceu mais e mais no meu campo de visão, até ser tudo o que eu conseguia
ver.
Fechei os olhos.
34
BRI OS OLHOS NA CAVERNA ENORME PELA QUAL TÍNHAMOS vindo, com todos os túneis levando a
A cidades diferentes. O lago da Escuridão estava à minha esquerda, um círculo perfeito a dois
passos. As feridas voltavam a latejar. O estômago gorgolejou, e eu rolei e cuspi líquido preto
pela segunda vez em dois dias. Alguns fios de cabelo caíram lambidos no meu rosto, ainda ruivos.
Axela também estava com líquido preto escorrendo da boca. Eu me forcei a me mover lentamente
e pisquei para afastar a desorientação. A caverna estava cheia de metal amontoado e retorcido vindo
da Verge. Nina, de alguma maneira, devia ter feito toda aquela construção desmoronar na Escuridão,
que então devia ter vomitado os escombros para a caverna, como fizera comigo.
O chão de pedra estava coberto de marcas de garras.
Percebi que eu ainda acreditava que a Escuridão levasse a outro lugar, que eu iria abrir os olhos
em um mundo diferente. Essa frágil esperança desapareceu.
Os rastros na pedra iam todos para uma mesma direção, para o túnel em que estava escrito
WASHINGTON D.C. Aquela entrada em particular estava repleta de marcas deixadas pelas garras,
enquanto as outras continuavam imaculadas. Tudo fazia sentido. Depois de liquidar com nosso
governo, os sem-olhos iriam voltar e se dispersar pelos túneis para diferentes partes do país, e então
pelo mundo todo.
Pus as mãos nas costas e senti a Língua de Fogo, minha espada, mas perdera o arco em algum
ponto do caminho, o que não importava muito depois que o Gane decidira explodir todas as minhas
flechas. Não havia nada a fazer a não ser montar e cavalgar pelo túnel.
A viagem não demorou nada, menos de cinco minutos de cavalgada, o que significava que a
caverna devia estar bem abaixo da capital. Esse era o plano desde o início, o plano desde décadas.
Mantive os ouvidos atentos aos sons dos sem-olhos, mas tudo estava silencioso. O túnel começava a
se elevar em uma rampa. Estávamos perto do fim, eu podia sentir, e a adrenalina era bem-vinda.
Percebi que estava tensa no dorso da Axela, ansiosa para voltar à superfície. O mundo podia estar
ameaçado, mas ainda não era o fim.
– Vamos garota – eu disse, apressando-a.
O túnel continuou subindo em rampa, até eu ver estrelas em um céu escuro, o meu céu. Então
saímos, os cascos batiam na grama sob o ar ameno da noite, que parecia tão limpo e fresco quanto o
de casa.
Luzes artificiais iluminavam o chão à minha frente, e eu virei Axela com um toque do calcanhar
esquerdo.
Estávamos próximas do Monumento a Washington.
À minha frente, uma pilha de roupas despedaçadas e cobertas de sangue, com um tênis se
destacando. Na base do monumento, outra pilha de roupas e algo que não era roupa, inteiramente
vermelho. Os gritos se elevavam ao longe, sobrepondo-se uns aos outros, aumentando, aumentando.
Virei em um círculo lento, procurando por sinais de vida, mas não esperava perceber nenhum tão
perto da rampa. E eu estava certa. Axela bufou e virou a cabeça de um lado a outro, completamente
apavorada pelo cheiro de sangue.
– Calma, garota, calma – eu disse, acariciando seu flanco, e eu dizia isso tanto a ela quanto a mim
mesma.
Os gritos eram mais altos ao Norte, onde eu podia ver, bem longe, os fundos da Casa Branca
cercada de árvores iluminadas por luzes brilhantes. Se iriam acabar com o nosso governo, eu não
podia pensar em lugar melhor por onde começar. Nina poderia estar ali, no meio de tudo. Instiguei
Axela com o calcanhar até que ela tomasse um galope em direção à Casa Branca.
Armas de fogo soltavam rajadas. Uma sirene berrava, como nos velhos filmes de guerra. As
sirenes dos veículos de emergência se confundiam com os sons de pesadelo.
Atrás do monumento se encontrava uma avenida larga de seis faixas, então mais grama, antes do
jardim sul da Casa Branca. Na frente, uma cerca estava destruída, como se os sem-olhos tivessem
decidido que era mais fácil derrubá-la que saltá-la. Eu imaginava a confusão. As pessoas não sabiam
o que estava chegando na direção delas nem por quê.
O Serviço Secreto sabia, mas não poderia compreender. A uns cem metros, eles saíram correndo
da Casa Branca em trajes pretos. Holofotes brilhantes e claros iluminavam os agentes por trás,
enquanto um amontoado de sem-olhos se aproximava, vindo das sombras. Eram 15 ou 20 monstros,
andando em bando. Só havia tempo para algumas rajadas curtas de metralhadora. Axela de repente
quis se refugiar atrás de algumas árvores, meneando a cabeça, e eu me esforcei para fazê-la seguir
em frente. Os canos das armas irradiavam luz laranja, mas logo os sem-olhos as silenciavam. Roupas
se despedaçavam e sangue esguichava, e eu me sentia vazia porque os homens não tinham chance.
Acontecia tão rápido que provavelmente não tinham tempo para sentir medo ou dor. A égua
galopava, movendo-se debaixo de mim, mas ela não era rápida o bastante. E não importaria, pois eu
não pretendia enfrentar os sem-olhos, não daquela maneira. Mesmo que eu pudesse lutar contra
muitos ao mesmo tempo, que diferença faria? Nenhuma. A chave era a Tocha. Aquilo era como um
mantra em minha mente. Ela tinha que estar por ali. Por que mais os sem-olhos estariam se
concentrando como um enxame naquela direção?
Os sem-olhos se afunilavam através das portas rumo à residência executiva da Casa Branca, e já
não iam mais silenciosos, estavam gritando. Os gritos eram de deleite e fome, muito diferentes dos
gritos dos agonizantes.
Eu estava a 20 metros de distância quando o último sem-olhos entrou. Um agente gemeu no
Jardim das Rosas à esquerda. Ele ergueu uma mão ensanguentada, como se acenasse para o céu.
Parei Axela ao lado do agente e apeei. Ela deu um giro quando desci, e por um segundo temi que ela
fosse disparar para longe, mas só empinou em círculo, olhando para o espaço à nossa volta.
O terno do agente estava arregaçado. Onde sua barriga deveria estar, havia um buraco do
tamanho do meu punho. Sangue jorrava em sincronia com o coração, ensopando o gramado. Aquele
homem estava morrendo ali por causa do lugar de onde eu viera.
Os olhos dele se arregalaram quando me viu.
– Você... – sussurrou.
Ele me reconhecera.
– Eu não sou ela. Escute. Não sou a mesma garota. Não sou ela. Onde ela está? Você a viu? – eu
me ajoelhei e apertei suavemente os ombros dele. Então ergui rápido a cabeça por causa do barulho
que vinha de dentro da Casa Branca. Parecia uma melancia caindo de três metros de altura sobre
concreto.
Os olhos do agente continuavam zanzando. Eu precisava saber.
– Ei, você pode ajudar a terminar isso tudo. Diga-me onde ela está – por favor, faça alguma coisa. Por
favor.
Os lábios dele se abriram em forma de O.
– Onde? Onde? – coloquei a mão sobre a bochecha dele. – Pode confiar. Conte para mim. Eu
posso acabar com isso – talvez se eu repetisse bastante, em algum momento se tornasse verdade.
– Oval...
O Salão Oval.
– Onde? Onde?
Tentei me lembrar da aula de História que tivéramos naquele lugar. O agente virou a cabeça e
moveu os olhos para a direita. O Salão Oval era uma espécie de saliência da Ala Oeste, com janelas
verticais mais altas que eu. Janelas que estavam se abrindo bem naquela hora, com o vidro
estilhaçado.
Dois Humvees rugiam atrás de mim e seguiam pelo jardim, com os pneus enormes sulcando a
grama. Brecaram ao lado da Ala Leste. Os soldados se amontoaram e prepararam as armas de
combate. Eles estavam longe demais para me escutar, mas tentei mesmo assim:
– Esperem, parem! Parem! – minha voz foi abafada pelo ruído de um jato no céu. Os soldados
marcharam rápido para o prédio, condenados. Quando olhei de volta para baixo, o agente estava
inerte, com os olhos apagados. A falta de luz em seus olhos me fez lembrar de Noah e me fez querer
que ele estivesse ali. E também me fez lembrar que podia ser meu último minuto como eu mesma.
Quando eu chegasse ao Salão Oval, Nina poderia me matar, ou pior, apagar a minha identidade.
Mas eu estava pronta para o que viesse.
– Você não está sozinha.
As palavras de Noah subitamente me deram força.
Tirei a Língua de Fogo das costas e corri os 30 metros até o Salão Oval. Diminuí o passo pouco
antes de chegar. Luz vermelha grossa se derramava do peitoril das janelas, salpicando a grama com
sangue.
35
U DEI UM PASSO, DEPOIS OUTRO, COM A LÍNGUA DE FOGO apontada para a frente. Por fim,
E cheguei ao peitoril da janela e passei por ela. A Tocha iluminava a sala com uma vermelhidão
brilhante. Nina estava atrás da mesa do presidente, curvada para a frente e imóvel. Ao vê-la
tão perto, com as costas viradas para mim, quase paralisei de surpresa. Mas a hesitação passou em
um segundo, e eu passei a Língua de Fogo em um balanço horizontal, com a intenção de arrancar a
cabeça dela e acabar com a luta antes mesmo que começasse, mesmo sabendo que isso significaria
não obter respostas.
Nina mergulhou o torso para a esquerda como se estivesse se alongando, e a lâmina passou
assobiando por cima dela sem um arranhão, o que tirou meu equilíbrio. Ela se ergueu rapidamente e
deu um coice na cadeira, empurrando-a para mim, então rolou no tampo da mesa para a frente.
Pousou no outro lado e girou com a Tocha à sua frente. Ela estava bem diante do brasão
presidencial, entre dois sofás de camurça.
Eu já estava ofegando, quase sem fôlego. A lição do Sifu Phil era como um grito em meus
ouvidos.“Abafe a emoção. Uma mente calma dispara ataques certeiros.”
Ela ficou fora do meu alcance por alguns segundos, e não os usou para recitar o código. Eu ainda
era eu.
A mão direita dela segurava uma espada reta idêntica à minha, exceto por uma fita preta na
empunhadura, para melhorar a pegada. Ela sorriu. A Tocha fazia parecer que ela tinha sangue nos
dentes.
– Por que você está lutando contra mim, Miranda? Abaixe a espada e eu vou levá-la para a Terra
Verdadeira. Você pode se juntar ao exército dos Rosas.
Apesar do ódio perturbador em meu peito, lágrimas escaparam dos meus olhos.
– Por que você está fazendo isso? – eu me senti no direito de perguntar, àquela altura.
– Porque este mundo é como o outro em que estávamos. Doente. Um dia vai atingir a massa crítica
e se tornar um câncer que se espalhará para outros mundos. Podemos chamar de cirurgia preventiva
para a coletividade do universo. Podemos dizer que estamos salvando vocês de vocês mesmos.
Era isso, esse era o ponto. Nós éramos um tumor. E eu também entendia. Talvez nosso mundo
tivesse mais defeitos que qualidades. Matávamos uns aos outros por coisas estúpidas, ou deixávamos
as pessoas morrerem. Éramos egoístas. Eles não estavam errados nesse sentido. E talvez as pessoas
do meu mundo fossem teimosas demais para mudar. Talvez continuássemos assim para sempre, até
que o mundo se destruísse.
Mas não podia ser uma decisão de Nina. Nem de ninguém da Terra Verdadeira.
– Você sabe que eu estou certa – ela disse. – Abra os olhos.
A hora de recitar o código passara. Eu queria acreditar nisso. Mas alguma coisa estava errada...
Ela não parecia nem um pouco preocupada. Era como se realmente quisesse que eu me juntasse a
ela e soubesse que, no final, conseguiria.
Minha mente zumbia, mas eu não iria levar em consideração o que ela achava.
– Você está lutando do lado errado, Miranda. Nós é que somos os defensores. Ajude-me. Foi para
isso que você foi criada. Pense no assunto. Acha que somos diferentes? Somos a mesma pessoa.
Eu não queria pensar no assunto. Podíamos ser iguais, mas eu nunca sentira que podia ser como
ela, ou como a sra. North, ou como a diretora. São as nossas escolhas que fazem de nós o que somos.
E eu escolhi lutar.
Nina estava me dando mais uma chance, mais um momento para aderir à causa dela. E quem não
gostaria de se juntar ao lado vencedor?
– Escolha.
Eu já tinha escolhido. Ela podia ver isso em meu rosto.
– Então, sinto muito. Hora de acordar, Nina. Liberte-se.
Um relâmpago queimou meu cérebro, cegando-me. Eu me ajoelhei, com a Língua de Fogo frouxa
na mão. Senti a cópia de Nina irrompendo em minha mente com um grito de vitória e entendi por
um breve momento que a sra. North instalara mesmo uma cópia de Nina, que estivera dentro de
mim o tempo todo. Senti a vaga sensação de lágrimas escorrendo pelo meu rosto, de escuridão
completa me dominando, empurrando para o lado, e um único pensamento: “Isto está mesmo
acontecendo”. Antes de um momento de escuridão pura, tive certeza de que eu já era. Mas então
Noah surgiu dentro de mim, rugindo em desafio, e de algum modo ele pegou minha mão e me puxou
daquele devaneio. No instante seguinte, senti nossas forças somadas esmagarem Nina até ela
desaparecer. Ela se foi em um instante. Ouvi um pensamento, podia ser tanto meu quanto de Noah,
eu não sabia dizer. “Não há espaço para três aqui.”
Abri os olhos.
A parede, com sangue escorrendo de seu pescoço. Ela tentou dizer alguma coisa, mas só
conseguiu tossir sangue. Guardei a Língua de Fogo, então agarrei a Tocha com as duas mãos
e fechei os olhos para sentir alguma coisa, qualquer coisa, mas aquilo estava morto, era apenas um
bastão de metal. Morto como Nina logo estaria. Via os olhos dela se fecharem aos poucos enquanto
esperava que a Tocha funcionasse, porque não podia estar quebrada, não depois de tudo o que eu
passara por sua causa.
Se Nina pudesse falar, diria: “Mesmo assim você perdeu”.
Milhares de sem-olhos gritavam pela noite ao se libertarem. Eu caí de joelhos.
Eu falhara; os sem-olhos não tinham mais um mestre. Nada impediria que vagassem pelo mundo.
Se Gane estivesse certo, eles não iriam parar nunca. Continuariam comendo e se multiplicando até
que o nosso mundo ficasse tão depauperado quanto o dele.
Os tiros estavam diminuindo, tornavam-se disparos aleatórios e rajadas ao longe. Encostei a testa
na parede curva do gabinete e fechei os olhos.
Eu não queria mais sentir o que estava sentindo; não queria perder.
– Nós temos que matá-los – Noah falou.
Girei de maneira desengonçada sobre os joelhos e quase escorreguei no sangue de Nina. Noah
estava ao lado da mesa do presidente, apoiando-se meio inclinado com os cinco dedos no tampo.
– Nós temos que matar todos eles – o rosto dele era raiva pura. As mãos se fecharam em punhos. –
Temos que ir para a Terra Verdadeira e matar os Originais e qualquer um que estiver ao lado deles.
– Eu não sei o que fazer.
– Nós nunca soubemos e fizemos mesmo assim.
Eu me levantei, com os músculos das costas e das pernas gemendo.
– Agora eles estão livres.
Uma explosão abalou a noite. Mais um jato passou zunindo no céu. Os sons estavam mais
distantes. Como o comandante dissera, o câncer estava se espalhando.
– Então vamos encontrar uma maneira de detê-los – ele se aproximou de mim e usou o dedo para
erguer meu queixo. – Você sabe por que eu te amo?
– Não.
– Porque você é forte. Nunca desiste.
– Você não me ama – minha voz esganiçou.
Por quanto tempo mais eu teria que ser forte? Não muito. Era o fim, então ele tinha que saber a
verdade. Ele devia saber antes que nós dois morrêssemos. Ele tinha o direito de sentir alguma outra
coisa, uma coisa real.
– Como não?
– Não, porque eu não sou a Miranda de verdade.
Ele me olhou nos olhos. Suas mãos envolveram gentilmente o meu rosto.
Lágrimas brotaram aos montes e desceram pelas minhas bochechas. Enfim eu revelava meu
segredo. Os polegares dele enxugavam as lágrimas, apesar de eu saber que era impossível.
– Quando você a deixou... – eu engoli em seco. – Ela morreu. E a sra. North me usou para
substituí-la. Os fragmentos de memória que eu tenho pertencem à garota que viveu antes de mim.
Eu o matava mais uma vez. Estava estampado em seu rosto.
– Miranda... – ele disse, balançando a cabeça.
Eu o beijei.
Não era certo nem mesmo real, mesmo assim foi o que fiz. Enquanto o mundo começava a morrer
lentamente à nossa volta. Os lábios dele estavam suaves no início, inseguros, mas depois reagiram.
– Me desculpa – ele disse, com os lábios nos meus. – Me desculpa.
– Você não sabia.
– Eu sempre... – ele começou.
Do lado de fora, ouvi o inconfundível assobio crescente de um míssil disparado, depois uma
explosão curta e forte, que sacudiu as paredes e nos acordou. Noah pegou na minha mão e a
apertou.
– A diretora ainda tem uma Tocha. Não ouse desistir.
Ele desapareceu.
E a Tocha, atrás de mim, começou a emitir ruídos.
UANDO CAÍ DE QUATRO, QUASE VOMITANDO, LEVEI UM segundo para entender. A Escuridão
Q havia me engolfado, e eu não estava mais no Salão Oval, mas em um campo aberto. Eu
sentia uma brisa doce e o céu aberto acima de mim, apesar de ainda não ter olhado em volta.
A ânsia de vômito era forte, mas a sensação passou depois de alguns segundos e de engolir. Pisquei e
respirei e olhei para o chão de metal liso debaixo das luvas nas minhas mãos. A Tocha começava a
rolar para longe de mim e fui em sua direção, mas ela parou no dedão do pé de alguém.
O pé estava coberto por um traje blindado como o meu, mas com escamas douradas brilhantes
em vez de pretas. Eu vira aquelas escamas antes, usadas pela diretora, na lembrança da sra. North.
O ouro era da mesma cor da parede à minha esquerda; à direita, eu via ar livre. Estávamos em uma
passarela ligada à lateral de um prédio dourado.
Olhei para cima, com os dedos ainda na Tocha, completamente vulnerável, ainda de quatro.
Uma Olivia olhou para mim. Era minha Olivia sem tirar nem pôr, mas não era ela.
– Onde que você pegou isso? – ela perguntou.
Avaliei a linguagem corporal dela em um instante. Estava relaxada. Seus olhos, meio apertados,
me estudavam. Eu não diria que estava surpresa em me ver, estava mais para... impressionada. Eu
não era uma ameaça.
Os olhos dela passaram logo para a Tocha.
– Você a quebrou.
– Não, não quebrei – disse antes mesmo de pensar.
Atrás dela o céu estava dourado, como um pouco antes de o vermelho aparecer em um pôr do sol.
Mas o céu inteiro brilhava dourado, não apenas o horizonte, o que me levava a pensar que aquele não
era o meu céu, de maneira alguma. Vi os prédios altos com o canto do olho direito, mas não ousava
tirar a atenção do rosto da garota, não importando o quanto eu quisesse olhar.
– Levante-se – ela disse, esticando a mão para mim. Por puro reflexo, tentei encaixar um golpe no
braço dela, mas ela afastou minha mão com a velocidade de um raio e a mesma facilidade que eu
teria para bloquear uma criança. – Não faça mais isso.
Eu obedeci, me perguntando como ela fizera aquilo. Ela agarrou meu braço, mas não doeu.
Conferiu a passarela para se certificar de que estávamos a sós, então apertou a mão blindada na
parede lisa dourada. Uma passagem invisível se abriu com um gemido, parecia um rasgo em um
tecido leve. Ela me empurrou para dentro e a passagem se fechou atrás de nós, voltando a ser apenas
uma parede, o que deveria me causar mais surpresa do que acabei sentindo. Nós estávamos em uma
sala pequena, circular, sem móveis nem fonte de luz, e mesmo assim eu conseguia ver. A luz tênue
parecia vir das próprias paredes.
Ela disse:
– Precisamos ser rápidas. Qual é a situação atual no seu mundo?
Eu abri a boca, mas nenhuma palavra saiu, com tantos pensamentos passando velozes pela minha
cabeça. Segundos atrás eu estava no Salão Oval, e de repente tudo era dourado, e uma Olivia me
mantinha como refém.
– A situação.
Ela perguntou sobre o meu mundo. Ela devia saber quem eu era.
– Os sem-olhos estão soltos – foi tudo o que pude dizer.
Ela fechou os olhos.
– Eu não posso lhe ajudar. Não diretamente – ela pegou a haste de metal quebrada que costumava
ser a Tocha. – Consertar isto vai levar tempo demais.
De repente tudo se encaixou e eu me dei conta de quem estava à minha frente. Era a Olivia que
visitara Noble, que lhe contara a verdade e o infiltrara no mundo do comandante Gane.
A Olivia Original.
Ela não esperou pela minha opinião.
– A diretora Miranda tem outra Tocha. Tentar obtê-la seria quase suicida, mas não há outra
maneira de salvar seu mundo.
Ficamos um momento em silêncio. Eu dei de ombros e falei:
– Eu não tenho nada melhor para fazer mesmo – mas eu não sentia toda a confiança que tentei
transmitir.
Ela não engoliu a pose fanfarrona.
– Você sabe onde está?
– Na Terra Verdadeira.
– Sim. A Tocha foi desenvolvida para voltar para mim quando fosse quebrada. Mas adquirir a
segunda da diretora não é a parte mais difícil.
Ela nem precisava me contar.
– Destruir os sem-olhos.
– Sim.
– O comandante Gane me disse o que fazer. Ele me disse como destruí-los na Verge.
– Que bom.
– Mas eu vou morrer.
Olivia acenou com a cabeça.
– Mas vai salvar o mundo.
Apertei firme as mãos e estremeci. Eu queria gritar. Queria bater naquele rosto calmo e plácido.
– Tem que existir outra maneira.
Ela balançou a cabeça.
– Não existe. Para matar todos de uma só vez, você teria que estar muito perto deles com a Tocha.
E quando eles se sentirem ameaçados, nem você conseguirá controlá-los. Tem que ser todos de uma
vez. E você precisa ser o chamariz da armadilha.
– Eu não quero fazer isso.
Eu queria minha oportunidade para viver. Desde o dia em que que abri meus olhos, tem sido
sempre assim. Mas era bobagem minha dizer que eu não queria fazer, porque sabia que iria.
Ela também sabia.
Eu sempre me perguntei se haveria algo mais na minha vida, e de repente eu via que não. Tudo
acabaria em breve, e eu não teria mais que lutar.
– E quando os sem-olhos se forem, o que a Terra Verdadeira vai fazer em seguida? – precisava
saber que o sacrifício não seria em vão. Precisava que alguém dissesse que eu existi e nasci por um
bom motivo.
– Eles não vão parar, mas com isso vamos ganhar tempo.
– E se eu falhar?
– Seu mundo pertencerá a eles. Então não falhe.
Nesse caso eu abriria mão de tudo.
– Preciso voltar antes que deem pela minha falta – Olivia disse. – Mas preciso reabrir essa cicatriz
na sua bochecha para que pareça recente. Nós não temos cicatrizes em nosso mundo.
Antes que eu pudesse protestar, ela levou uma faca até o meu rosto e a passou pela cicatriz que a
sra. North me deixara. No início não senti dor, apenas a pressão. Então o sangue quente escorreu
pela minha bochecha.
– Bom – então, rápida como uma rajada, ela disse: – Agora vá. A Torre Rosa fica logo depois da
esquina. Você vai saber quando a vir. Ponha a mão na parede e entre. Diga a alguém que você foi
atacada. Se alguém pedir seu número, fale M-dois-quatro-zero-sete. Lembre-se disso. Aja como se
estivesse em casa, afinal ninguém poderá provar o contrário. Assim que você tiver a Tocha, poderá
usá-la para voltar para o seu mundo ao simplesmente pensar nisso. Entendeu?
– Sim – respondi, ainda absorvendo as palavras dela. A bochecha ardendo até que ajudava. A dor
me mantinha focada.
Ela pôs a mão na parede e a passagem se abriu de novo, mostrando-me um mundo com o qual eu
não teria sequer sonhado.
– Mais uma coisa. Leve isto.
Ela pegou minha mão e a virou para cima, então pressionou um pequeno quadrado preto do
tamanho de um carimbo na minha palma. Aquilo aderiu ao traje e se dissolveu como um líquido. Um
segundo depois, senti aquilo atravessar a pele da minha palma de uma maneira que chegava a ser
prazerosa.
– O que foi isso?
– Se você tiver alguma dificuldade, aperte o punho o mais forte que puder. Agora vá.
Atravessei até a passagem e ela se fechou atrás de mim, voltando a ficar invisível.
38
AR CHEIRAVA A PINHO E METAL QUENTE, O MESMO AROMA que senti quando a Tocha começou a
A enfermaria era grande, com altura de dois andares. Era neutra, fria e desconfortável,
desnecessariamente grande. Havia camas ao lado das paredes, algumas delas ocupadas por pessoas
que eu reconhecia sem conhecer. Duas Olivias, uma Miranda, quatro Rhys, seis Peters, um Noah.
Pessoas como meus amigos, mas, ao mesmo tempo, provavelmente muito diferentes deles. A maioria
estava com tipoias nos braços ou gesso com brilho pálido nas pernas, e fios ligados a umas espécies
de torres de computador de plástico branco. Essas torres projetavam imagens holográficas sobre
cada Rosa, exibindo os sinais vitais, que eram visíveis de qualquer ângulo.
Um homem completamente sem pelos em um jaleco branco se aproximou. Ele sorriu
afetuosamente para mim.
– Qual é o problema, querida?
Ele ergueu o braço, apresentando as costas da mão para mim. Eu não tinha a menor ideia do que
deveria fazer em resposta. Quando ele se aproximou o suficiente, toquei de leve as costas da minha
mão na dele, o que lhe pareceu aceitável.
– Você esteve em uma briga – ele disse, inclinando-se e apertando os olhos. – Você sabe quem eu
sou?
Eu hesitei, o que ele provavelmente tomou como dano cerebral.
– Sou o dr. Delaney. Você é a M-dois-quatro-zero-sete?
– Sou.
– Muito bem. A série dois mil é um ótimo grupo. Você pode me dizer o que aconteceu?
– Três Peters me atacaram – respondi automaticamente.
Ele soltou um som de desaprovação pela garganta.
– Essa rivalidade nunca termina – ele pegou minha mão e me levou para uma cama livre, onde eu
me sentei e quase desabei. A cama era tão macia que quase me engolia.
– Agora, eu gostaria de fazer um download da sua memória pelos próximos dias, só para ver como
as coisas estão correndo.
Minha garganta se comprimiu. Um download pelos próximos dias podia parecer tranquilo, mas,
se ele visse as lembranças do que me levara até ali, bastaria só bater o olho para que meu passeio
terminasse.
– Vou fazer uma gravação completa também, se você deixar – ele foi apertando botões na torre
branca ao lado da minha cama e viu meu rosto se abater. – Não se preocupe, eu não vou nem olhar.
É só por precaução. É bom ter um backup limpo para o caso de dano.
– Está bem – eu disse. Afinal o que mais poderia dizer? Mesmo que quisesse gritar NÃO, VOCÊ
NÃO PODE FICAR COM A MINHA IDENTIDADE!, os outros Rosas nas camas não pareciam me notar nem
se importar comigo. Se eu tivesse que lutar contra Delaney por causa do download completo,
alguém ali ficaria ao meu lado?
O médico acendeu uma luz nos meus olhos.
– Isso que é um nariz quebrado.
Os sem-olhos estavam matando pessoas naquele instante. Eu não tinha ideia de como encontrar a
Tocha e ir para casa, e o dr. Delaney estava me tratando com gentileza. Eu preferia que ele fosse
duro, frio e cruel, para que eu mantivesse a guarda levantada.
– Relaxe. Isso não vai doer – ele me mostrou uma tira de metal ligada a um fio grosso. – Você já
usou isso aqui antes?
– Não – eu tinha que lembrar a mim mesma que ele supostamente estava ali para me ajudar. – O
que é isso?
– É melhor eu mostrar a você – ele disse, levantando a tira até o meu nariz e apertando-a na
minha pele.
Alguma coisa estalou no meu nariz; acho que afinal estava mesmo quebrado. O sangue seco nas
minhas fossas nasais evaporou e pude respirar novamente. Os ferimentos e cicatrizes de todo o meu
corpo se reduziram a nada, deixando-me renovada. Em alguns segundos, eu me sentia em ótimo
estado. Cansada até os ossos, mas sem dor.
A tira de metal ficou laranja, em um tom ferrugem.
– Viu? Não é nada mal – eu ainda sentia o sangue e o suor secos na pele e no cabelo, mas não era
nada que uma chuveirada não pudesse resolver. – Você vai encontrar um novo traje no vestiário.
Jogue esse fora.
– Está bem – saí da cama, feliz por me ver livre. E realmente grata pela ajuda.
– Espere um segundo.
Ele veio com um disco pequeno, do tamanho de uma moedinha, com a letra M estampada. Ele
pegou nos meus ombros para me virar, puxou meu cabelo de lado e colocou o disco na base do meu
crânio antes que eu me desse conta do que ele iria fazer. O disco me causou um arrepio frio no
início, depois se derreteu morno, espalhando-se pelo meu cérebro.
– Volte na semana que vem e nós vamos dar uma olhada. Você não precisará tomar as suas
injeções enquanto isso estiver aí dentro. De qualquer maneira, se você se sentir mal hoje à noite,
volte e venha me ver. Se ainda tiver problemas de memória, volte. Entendeu?
– Obrigada, doutor – então o disco iria gravar minhas memórias. Tudo o que eu tinha que fazer
era não devolver e assim nossos segredos estariam a salvo.
– O prazer é meu, querida – ele se virou e se dirigiu para outra cama. Eu estava livre.
A constatação de que eu não tinha a menor ideia de aonde ir pesava em mim como um vestido de
chumbo. Fui até o elevador, sentindo-me um pouco tonta com a tarefa a cumprir. Encontrar a
diretora era uma coisa; arrancar a Tocha dela e sobreviver, outra. Até onde eu sabia, podia ser que
ela dormisse com aquilo.
A porta do elevador se abriu, com um Rhys ali dentro. Um Rhys com braço ferido e um sorriso
familiar. Os olhos dele demonstravam reconhecimento.
Continuei olhando para ele. Não podia ser...
– Sim. Sou eu. Por que todo mundo fica perguntando meu número? Como se eu quisesse que
algum desses bundões ligasse pra mim.
Apesar do apocalipse em andamento, quase soltei uma gargalhada. Consegui me conter e entrei
no elevador. O dr. Delaney me acenou amigavelmente da cama de uma Olivia. As portas se
fecharam e nós nos atiramos aos braços um do outro, em um abraço tão apertado que as feridas
curadas voltaram a formigar.
– O que você fez foi uma puta sacanagem, Miranda.
Dei um passo para trás e olhei para o rosto dele. Ele estava tentando ficar bravo, mas eu podia
dizer que ele estava feliz em me ver. Mas também havia um pavor por baixo de tudo, em volta de
seus olhos.
– Como você chegou aqui?
– Você sabe quanto tempo faz desde a última vez que corri uma maratona? Faz muito tempo.
– Onde está o Peter?
– Térreo – o elevador falou.
– Auditório – Rhys ordenou.
O elevador subiu, desta vez a uma velocidade normal. Eu ainda estava segurando os braços dele,
como se temesse que ele pudesse desaparecer.
– Ele está em segurança?
– Eu não sei a resposta pra nenhuma dessas perguntas – ele mordeu o lábio inferior. – Nós
chegamos até a Verge e atravessamos a Escuridão e... Eu acabei parando aqui. Tem um portal logo aí
fora. O rastreador que você engoliu apontava pra cá – ele ergueu o pequeno aparelho e o balançou.
Rhys ainda não sabia.
– O que foi? Achei que você ficaria feliz ao me ver.
– A Tocha está quebrada. Eu a quebrei quando matei Nina. Os sem-olhos estão soltos no nosso
mundo.
Ele franziu o cenho.
– Entendi.
– Então precisamos encontrar a diretora agora mesmo. Talvez juntos possamos vencê-la e tirar a
Tocha dela.
– Estamos indo na direção certa – ele falou, com os olhos nos números crescentes. – Eu passei por
alguns Rosas que estavam falando sobre o auditório. Alguma coisa está acontecendo. A diretora vai
estar lá. Mas parece que um monte de gente também. Você acha que descer a mão e agarrar é a
jogada certa?
Antes que eu pudesse responder, as portas se abriram, e eu vi exatamente por que iríamos perder
aquela guerra.
39
AUDITÓRIO ERA MAIOR DO QUE QUALQUER COISA DO meu mundo. Ele tomava a circunferência
O toda do prédio e parecia ter ao menos 400 metros de diâmetro. Cerca de quatro campos de
futebol. As fileiras de assentos eram centenas de círculos concêntricos voltados para o
centro, como em um teatro grego antigo. No centro, um tablado erguido com cinco cadeiras que
mais pareciam tronos. O auditório era cilíndrico, devia ter uma altura de dez andares.
E estava lotado.
Quase todos os assentos eram ocupados por um Rosa com um traje preto com escamas. Alguns
deles tinham escamas douradas ou prateadas. Alguns eram vermelho-escuros, em tom de sangue
seco ou rosas frescas. Provavelmente eram os oficiais. Mas a maioria estava de preto, como nós.
Vestíamos as cores dos postos mais baixos, foi o que pensei.
Devia haver milhares ali, todos sentados em grupos de cinco. Cada equipe tinha sua versão da
Equipe Alfa, com todas as suas vidas individuais e necessidades e pensamentos.
Rhys estava quieto ao meu lado. Quando finalmente olhou para mim, estava de queixo caído. Não
havia nada a dizer.
Simultaneamente, todos se levantaram. Uma grande saudação, ensurdecedora, tomou conta do
ambiente. Alguns Rosas batiam no chão com os pés blindados. Vasculhei na multidão a causa do
furor e vi cinco figuras em fila andarem até o tablado, distantes, mas ainda reconhecíveis. Eles
acenaram para a multidão. Todos os cinco estavam vestidos com escamas douradas e capas
vermelhas esvoaçantes. Era outra Equipe Alfa, mas não eram os clones. Eram os Originais. Olivia
estava entre eles, andando mais atrás, com o Noah Original. Vê-la me deu uma fagulha de esperança
que não durou muito. Ela podia dizer que estava me ajudando, mas olhando de onde eu estava já não
me convencia tão bem. E, se estava, não havia muito que ela pudesse fazer por mim.
Vi a diretora na dianteira, lado a lado com o Rhys Original.
O mais importante era que a diretora não estava com a Tocha. Quase sorri, mas em vez disso
suspirei com um alívio parcial. Deveríamos estar procurando por ela, mas não havia maneira de sair
dali, não tão cedo. Rhys estava certo, alguma coisa estava acontecendo.
– Ela não está com a Tocha – eu disse a Rhys.
– Estou vendo. Vamos esperar um minuto?
Eles subiram as escadas até o tablado, foram até os tronos e acenaram para os Rosas, que gritaram
e os saudaram, assobiando e aplaudindo.
Havia alguns poucos lugares vazios em uma fileira perto de nós. Puxei Rhys, que estava nas
sombras perto do elevador, e fomos nos sentar. Eu estava atrás de uma garota com cabelos ruivos,
uma eu. Rhys estava atrás de uma versão dele mesmo. Mais ao longe, na mesma fileira, havia outra
equipe, mas o Peter na ponta não nos lançou um único olhar. Nós não tínhamos a equipe completa,
mas ao menos nos misturávamos ali como parte do todo.
– Obrigada – a diretora disse, com a voz amplificada alcançando o auditório inteiro. Sob as luzes,
seu cabelo parecia loiro em vez de arruivado. Não era como eu me lembrava na memória da sra.
North.
Em dado momento, os Rosas se aquietaram e começaram a se sentar. Os Originais tomaram os
assentos ao mesmo tempo. A distância era grande demais para captar os detalhes, mas eles eram
idênticos a nós. Jovens, apesar de incrivelmente velhos. Era só trocar os trajes dourados pelos
nossos pretos que ninguém poderia dizer que eram a cúpula que governava este mundo. Aquilo me
reconfortava. Eles eram como nós. Se nós podíamos morrer, eles também podiam.
– Obrigada – a diretora repetiu, parando de uma vez todo o falatório. A voz dela explodia por
todo o auditório, por mais que ela mantivesse o tom suave. Não havia eco, apenas aquela voz nos
meus ouvidos. – Vocês sabem por que estão aqui – o auditório inteiro retomou o furor e a diretora
teve de erguer as mãos para obter silêncio. – Vocês sabem por que estão aqui, e eu agradeço a vocês,
suas Mães e seus Pais agradecem a vocês, pela paciência.
Toda a parede do auditório ao redor de nós era preta.
De repente, ela mudou para vermelha.
Rhys pegou minha mão e a apertou. Eu apertei de volta.
Lentamente, o vermelho mudou para um vídeo de chamas, e não era mais uma parede, era uma
tela. Um telão gigantesco que envolvia todo o ambiente em 360 graus, que mostrava cidades
queimando, vulcões explodindo, ondas enormes de centenas de metros despencando na terra. Vi
versões de Nova York e de Los Angeles. Vi cidades com torres brilhantes mais altas do que qualquer
coisa que eu já vira. Cidades inteiras de vidro, cintilando sob o sol. Cidades escavadas nas
montanhas, vilas inteiras talhadas nas rochas. A câmera mostrava panorâmicas de centenas de
lugares estranhos. Mundos que tiveram seus próprios povos e suas próprias histórias.
A diretora continuou:
– Durante mil anos, os sem-olhos têm sido nossos protetores. Nós os guiamos a incontáveis
reinos. Reinos que causariam mal à Terra Verdadeira. Eles foram incansáveis e eficientes. Mas não
vão mais trabalhar sozinhos.
Ela esperou. Um falatório nervoso ondulou pelo auditório. Mil anos. Não podia ser. Os Rosas
estavam cochichando em seus assentos.
– Por todos esses anos, os Rosas protegeram este mundo daqueles que iriam destruí-lo por
dentro. Vocês têm sido tão incansáveis quanto os sem-olhos. Conforme o tempo passou e nossos
inimigos morreram, sua função como protetores desse reino de ameaças internas se tornou mais
cerimonial. Em resumo, não há mais inimigos a combater. Não aqui em casa.
O Peter Original se adiantou, com a voz ribombando:
– É isso o que acontece quando os Rosas assumem uma missão. Devo lembrar à nossa adorável
diretora que a principal rebelião foi esmagada em quatro dias.
Isso rendeu risadas de alguns, assobios e aplausos de muitos. Alguns Peters próximos bateram no
peito uns dos outros, inebriados com o elogio feito pelo Original deles. O pavor em minha barriga se
espalhou. Nosso inimigo era antigo e tinha sido bem-sucedido em outros mundos mais gloriosos que
o nosso. Era mais fácil saber disso com a prova visual em um telão de dez andares.
– Sim – a diretora disse, sorrindo. – Obrigada por isso, Peter. Não vamos nos esquecer de onde
viemos. Lembrem-se de que uma vez fomos como os inimigos que agora combatemos. Antes de nós,
havia caos.
Enquanto ela falava, as imagens prosseguiam. Elas mostravam os sem-olhos se espalhando por
cidades de mundos diferentes.
Rhys não soltava minha mão. Ele apertou mais uma vez e sussurrou no meu ouvido:
– Acho que já vi o suficiente. Vamos procurar a Tocha.
Eu olhei mais uma vez para o tablado. Os Originais estavam desarmados, exceto pelos corpos.
Tentei imaginá-los vivendo por mais de mil anos, e meu cérebro não conseguia assimilar.
– Temos que vasculhar o escritório dela agora – ele disse, apertando mais forte a minha mão.
Eu me sentia enraizada naquele lugar. Ao ver tudo aquilo, uma multidão como nós, regozijando
pela destruição de tantas vidas. De tantos mundos. Para quê?
Para quê?
Rhys fez menção de se levantar, mas eu apertei os dedos na mão dele.
– Espere – eu não sabia por que queria ver aquilo. Achava que era preciso. Talvez quando o
horror evaporasse sobrasse força.
A diretora continuou:
– Nem todos vocês poderão se unir a nós na luta contra esse novo mundo. Alguns precisarão
permanecer para proteger o reino, ao menos por enquanto, até podermos revezar as equipes. Então
vamos pedir para que voluntários permaneçam. Todos trabalharam duro por este dia, e aqueles que
se oferecerem serão recompensados. Não queremos ter que escolher – ela olhava à esquerda e à
direita para os outros sentados no tablado. Eu queria estar mais perto. – Ainda não determinamos
uma recompensa, mas prometo que será generosa.
– Você sabe onde fica a sala da diretora? – a voz de Rhys soava diferente. Ele estava desesperado
para sair logo.
Eu não olhei para ele, não queria ver meu próprio medo refletido.
– Não. Espere. Espere um pouco.
A formalidade parecia ter desaparecido daquele lugar. Era como uma gincana na escola, quando
os professores falavam com os alunos e eles não conseguiam parar quietos em seus assentos,
querendo ação. Mas não era uma ocasião festiva. Eles não estavam exultantes para ganhar de um
time de basquete rival, apesar de parecer isso. Não, os sorrisos, as risadas sutis e os tapas nas costas
eram porque estavam prestes a acabar com um mundo inteiro.
– Eu vou sem você. E provavelmente vou me perder – Rhys disse.
– Não, não vai – eu não o deixaria ir sem mim.
– Estou me levantando agora mesmo.
– Espere mais, por favor – eu devia ter ido quando Rhys quis; alguma coisa que eu não queria ver
estava por vir. Eu sabia. E mesmo assim não me mexia.
A diretora não tinha acabado ainda. A voz dela ressoou:
– Agora olhem para o nosso inimigo!
Meu coração parou quando Rhys finalmente se levantou e me puxou para fora do meu assento.
Eu o segui, com os olhos ainda presos no telão. Rhys apertou o botão do elevador com a palma cheia.
As portas se abriram, e ele me empurrou lá dentro e prendeu meus braços no fundo do elevador.
– Fique boazinha – ele disse.
Antes que as portas se fechassem, captei um vislumbre do meu mundo, de soslaio.
O Rosa na tela parecia ter muitos andares de altura. A Casa Branca atrás dele era ainda maior. Eu
sabia que era ele. Não havia dúvida. E aquilo acabou com qualquer força que ainda sobrava em
mim.
Peter estava apoiado em um joelho, coberto de sangue, cercado por três sem-olhos. A espada dele
estava encharcada de sangue e bambeava. Eles o rodeavam como lobos, as garras raspando o
concreto.
Então as portas do elevador se fecharam.
40
PERTEI O BOTÃO PARA ABRIR A PORTA, MAS JÁ ESTÁVAMOS subindo. Então tentei chutá-la,
A gritando, e Rhys me envolveu em um abraço de urso até que eu parasse de me debater. Ele
me apertou tão firme que fiquei sem fôlego para gritar e sem espaço para inalar. Então ele
me soltou e desfaleci na porta, esforçando-me para respirar. O metal resfriava minha testa.
– Andar? – o elevador perguntou.
– Apertei forte demais? – Rhys perguntou.
Precisei respirar antes de responder. Minha mente estava em chamas.
– Esta é a melhor maneira de ajudá-lo. Nós pegamos a Tocha, então vamos para casa deter
aqueles monstros. O que poderíamos fazer no auditório? – ele me virou e me forçou a olhar para ele.
– O que poderíamos fazer, hein?
– Nada – ele estava certo. Eu sabia que estava, mas isso não me acalmava. Eu o empurrei. – Por
que você o deixou pra trás? – cuspi um pouco ao falar.
– Andar? – o elevador disse mais uma vez.
– Escritório da diretora – respondi.
Eu não achei que fosse funcionar, não até o elevador subir de repente, suave como um berço. A
raiva não diminuía, o que não era uma coisa ruim. Ela poderia me deixar mais forte se eu
conseguisse dominá-la.
– Peter está bem – Rhys disse. – Você viu o rosto dele – ele conhecia a determinação de Peter, sua
total recusa a falhar. Eu ficaria com pena dos sem-olhos que ele estava enfrentando, se isso fosse
possível.
Eu via por que Peter estava se afastando de mim e por que eu estava me afastando dele. Meus
sentimentos por ele quase me fizeram voltar correndo para o auditório. Se fosse Rhys em apuros,
será que eu teria feito o mesmo, ou teria conseguido manter o sangue-frio necessário para priorizar a
missão? Eu precisava esquecer Peter, confiar na habilidade dele.
No reflexo das portas, vi Noah ao lado do Rhys. Quando me virei, ele desapareceu. Rhys estava
de olhos fechados e não percebeu meu movimento brusco.
“Vá embora”, pensei. Depois: “Você está aqui?”.
Nenhuma resposta. Que bom, pelo jeito eu estava começando a ver coisas.
O elevador subiu aparentemente por minutos, rápido o suficiente para desgastar meus joelhos.
Então, de repente, paramos e as portas se abriram e revelaram um escritório, idêntico ao do
comandante Gane. As quatro paredes da pirâmide eram de vidro. Na lembrança da sra. North, a
diretora as havia deixado escurecidas, mas desta vez eu podia ver o céu dourado inteiro em todas as
direções e, atrás da mesa, a imensa camada azul de oceano, como se fosse vista de um avião.
Rhys não se importou muito com a vista; ele só tinha olhos para uma coisa: a Tocha bem ali na
mesa, com o globo rubro opaco na ponta.
Estava fácil demais.
A menos que a diretora tivesse confiança excessiva de que a ideia de alguém pegar a Tocha era
simplesmente absurda.
Saí do elevador; Rhys veio junto.
– Pegue – ele disse, tão ousado quanto eu me sentia.
Concordava com ele, era hora de dar o fora.
Fui até a mesa e meus dedos pairaram acima da Tocha. O bastão emitiu uma espécie de estática
que senti na ponta dos dedos, através das luvas.
Ouvi as portas do elevador se abrirem ruidosamente mais uma vez.
– Miranda! – Rhys gritou.
Agarrei a Tocha e girei, sentindo que ela procurava por sem-olhos nas proximidades. A lâmpada
soltou o brilho vermelho bem quando cinco Rosas vestidos em trajes dourados saíam do elevador.
Eles puxaram as espadas ao mesmo tempo. Miranda, Noah, Peter, Rhys e Olivia, da esquerda para a
direita. Não eram os Originais, apenas uma equipe de elite.
Peter deu um passo à frente.
– Contra o decreto real seis-um-cinco, vocês entraram no escritório de uma Mãe sem permissão
expressa. Abandonem a Tocha e se ajoelhem diante de nós ou enfrentem a justiça da Terra
Verdadeira – ele recitou isso como se estivesse entediado. Não passava de trabalho.
Meu Rhys olhou para mim com a sobrancelha erguida, então perguntou: “Vamos tentar?”.
Mas nem chegamos a tanto. Minha mão ainda não tinha se fechado no cabo da Língua de Fogo
quando uma estática esquisita percorreu toda a minha pele. A estática ficou sólida no segundo
seguinte, fechando-se sobre mim como um visor. Eu já conhecia aquela sensação. Peter estava com
as mãos estendidas, os dedos curvados como se segurasse dois ovos invisíveis. Lentamente, ele nos
forçava a ajoelhar.
– Nós somos especiais – Miranda falou, sorrindo.
Os cinco nos cercaram, então Noah e Olivia puxaram meus braços para trás e prenderam os
pulsos rispidamente. As algemas se encolheram até deixarem meus dedos formigando, inchados com
o sangue represado. Quando Peter virou de volta para o elevador, vi um calombo entre suas
omoplatas, debaixo das escamas douradas. Era o mesmo equipamento de Gane, o que trazia
implicações para as quais eu não estava preparada nem queria avaliar naquele momento.
Ninguém disse nada na descida. Ninguém nem tossiu. Eu passei esse tempo pensando em como
nós tínhamos perdido.
A voz de Noah me pegou de surpresa:
– Desde quando você desiste?
Eu não sabia o que dizer.
– Você realmente não é a Miranda que eu conhecia.
Aquilo doeu. Minhas bochechas ardiam. Como ele ousava relembrar aquilo quando era culpa dele
que a garota antes de mim morrera no beco?
– Pense em um plano – Noah incentivou. – Não desista. Se não for por mim, que seja pelo Peter.
Sem mencionar o mundo inteiro.
“Você vem e vai quando quer, que bom pra você.”
– Eu estou tentando não lhe distrair. Mas nunca fui embora. Nunca poderia. Você precisa lutar.
Se não for você, quem vai conseguir? Quem, Miranda?
Eu o sentia recuar para algum canto escuro de novo. A ausência deixou um vazio em mim, como
antes.
Um minuto depois, as portas se abriram. As celas eram cubos de plástico claro sem portas visíveis
nem barras ou fechaduras. À esquerda, duas das paredes se abriram. Então Noah e Olivia me
empurram para a primeira e Rhys para a segunda. As portas se fecharam atrás de nós; as algemas se
soltaram dos pulsos e tombaram no chão. Esfreguei os pulsos até que o formigamento nas pontas dos
dedos virasse dor. Quando me virei para trás, os cinco dourados tinham desaparecido.
Uma pessoa ocupava o cubo mais afastado da prisão, mas estava dormindo. Parecia ser um Noah.
Além dele, estávamos completamente sozinhos. Apenas paredes completamente brancas e plástico
claro sem qualquer fissura evidente.
No cubo ao lado, Rhys esfregava os pulsos e balançava lentamente a cabeça. Um tendão em sua
mandíbula latejava. No segundo seguinte, ele estava na frente de seu cubo, batendo com os punhos
no plástico e gritando com toda a força. Era o som de uma raiva primitiva, e eu me lembrei de que
não éramos tão indefesos. Bastava nos soltar para ver que éramos tão letais quanto qualquer Rosa do
auditório. Ou talvez mais. Afinal, nós tínhamos algo pelo qual lutar.
Rhys socou a parede entre nós. O plástico fez um baque violento, e ele deu um passo para trás,
com a mão tremendo.
– Tá se sentindo melhor?
Ele só tinha que erguer um pouco a voz para que eu o escutasse:
– Não muito. Mas até que é uma dor boa. Você devia experimentar – ele abaixou as mãos, com
uma expressão evidente de desgosto.
– Ah, sei – ver o desespero dele misturado com raiva facilitava um pouco para mim, por mais
terrível que isso soe. A desgraça adora companhia, acho.
– Noah não tem nenhuma ideia? – ele perguntou. – Ele ainda está por aí, não está?
– Deixe-me perguntar.
– Não – Noah disse.
– Não – eu disse.
Rhys pareceu um pouco atordoado, mas de repente riu.
– Será que ele... Pensou no assunto? – falou, entre uma risada e outra.
Eu riria se tivesse energia. Mas ver Rhys gargalhando tornava impossível ao menos não sorrir.
– Diga a ele que eu falei oi. Diga que ele me deve cinco pratas pela aposta da semana passada. Vou
pegar na gaveta de meias dele.
– Oi, Rhys. Encoste no meu dinheiro e eu vou assombrar você.
Por algum motivo, aquilo mexeu comigo.
“Você não é um fantasma.”
– Ainda não.
– Ele disse... – eu tentava dominar a pressão que aumentava atrás dos meus globos oculares. Não
queria chorar.
Não iria chorar.
A porta principal se abriu atrás de mim, um par de visitantes apareceu. Dois Originais, brilhando
em escamas douradas e capas vermelhas que iam até os calcanhares
A diretora e o Rhys Original.
41
RHYS ORIGINAL PARECIA EXATAMENTE COM O MEU, nem mais velho nem mais novo. O cabelo
O loiro estava mais comprido e penteado para trás, curvando-se no pescoço, não repartido
para os lados como o meu Rhys preferia. Eu podia ver centenas de reflexos meus nas
escamas douradas de seu traje. Não era difícil ficar impressionada na presença de seres que vivem há
mais de mil anos. Contudo, eu não queria me sentir assim; queria olhar para eles de cima para baixo.
Ou ao menos olhar para eles de igual para igual. Soube naquela hora como conseguiram causar
tanto alvoroço no auditório. Eles eram completamente seguros, completamente competentes, isso
transparecia. Era uma energia que preenchia o ambiente. Não chegaram a sorrir, mas pareciam
felizes. Satisfeitos. E só poderiam mesmo estar, sendo as cinco pessoas mais poderosas de todos os
universos.
Eles nos avaliaram em silêncio por 30 segundos. Para contar ponto a nosso favor, nós não
dissemos uma palavra, apenas devolvemos os olhares. Minha nuca começava a coçar. O cabelo da
diretora realmente estava dourado, não ruivo. Pelo jeito, a capa vermelha brega não era o bastante
para diferenciá-la de seus clones.
– O que faremos com eles? – disse, enfim, o Rhys Original.
“Solte-nos. Dê-nos uma chance de lutar.” Ignorei isso como possibilidade concreta. Mas bem que
me ocorreu que talvez, apenas talvez, eles nos subestimassem. E que talvez pudéssemos nos valer
disso.
A diretora me observou com uma ponta de decepção no rosto, que até então estava com uma
expressão neutra.
– O que vocês estavam fazendo no meu escritório?
Ao que parecia, eles não sabiam quem nós éramos. Eu ainda podia ser a Miranda 2407.
Rhys abriu a boca e emitiu uma sílaba, mas eu o interrompi:
– Eu queria ver a Tocha. Sinto muito.
A palma da minha mão coçava bem onde o quadrado preto se dissolvera através do traje. Pensei
em apertar tão forte quanto pudesse, mas talvez ainda não fosse a melhor hora.
A diretora rolou os olhos.
– Por favor. Eu sei quem vocês são.
Então eu estava errada. Mas, se a diretora fosse mesmo tão sábia, se fosse movida por coisas
acima do ódio, talvez eu pudesse argumentar. E, de toda forma, eu sabia que ela subestimava minha
determinação.
Não pude impedir o momento de fraqueza que veio em seguida, porque eu tinha que tentar, não
importava o quanto parecesse desfavorável. Nunca fui de implorar, mas desta vez apertei as mãos
contra o plástico e senti meu rosto se contorcer.
– Por favor. Por favor, pare. Nós podemos chegar a algum acordo. Você pode fechar a passagem
para o nosso mundo, nunca mais vai ouvir falar de nós novamente.
O Rhys Original disse:
– A passagem não pode jamais ser completamente fechada. Todos os mundos agressivos e
ignorantes foram aniquilados antes que pudessem crescer além do controle. O seu mundo é
agressivo e ignorante.
Bati com os punhos no vidro, com força e raiva. Eles nem piscaram.
– E vocês não podiam pensar em uma maneira melhor de nos manter sob controle? Monstros!
Vocês enviam animais para o nosso mundo para nos comer. Vocês... Vocês... – eu queria continuar,
mas não havia qualquer alteração emocional na expressão deles. Era a mesma coisa que gritar com
robôs. Acho que, por fazerem aquilo há mil anos, já não sentiam mais nada. O fim para nós era como
um dia normal para eles.
– Os sem-olhos garantem que o mundo continue intacto para futuras gerações. Para um
repovoamento sob nossos termos, com controle cuidadoso – o Rhys Original explicou. Observei o
meu Rhys com o canto do olho. Ele olhava para o seu progenitor com ódio puro.
– Nós não oferecemos ameaça a vocês. Meu mundo nem sabe a respeito da Escuridão – minha
voz soou mais fraca do que eu gostaria. Argumentar com eles me esgotava como uma hemorragia
por mil cortes. Palavras não iriam mudar. Nada iria mudar até que eu estivesse livre e com uma
espada na mão.
– O ponto é este: um dia saberá – a diretora disse suavemente.
– Estamos atrasados – o Rhys Original disse. Então ele sorriu para mim. – Nossos monstros
precisam comer.
– Pare – ela disse para ele, quase em tom brincalhão. Para mim, ela falou: – Vamos conversar mais
uma vez quando voltarmos. Enquanto isso, o dr. Delaney vai examinar as suas lembranças para
saber quem mais está ao seu lado.
E, sem mais, eles se foram. A porta fechou silvando atrás.
Depois disso, as coisas ainda pioraram. Rhys se recolheu em um canto do seu cubo e esfregou os
dedos nas têmporas. Eu sabia como ele estava se sentindo – como um animal enjaulado. Fiquei
andando de um lado para o outro na pequena área do meu cubo, tentando pensar, deixando a
emoção de lado. “Uma mente calma é uma mente eficiente”, Sifu Phil costumava dizer. Na verdade,
eu devo ter inventado isso, mas soou como algo que ele poderia ter dito.
Depois de um tempo, Noah apareceu no canto e ficou me observando enquanto eu andava. Eu
não olhei para ele. Seus olhos escuros só me faziam lembrar das pessoas com quem eu falhara.
Eu visualizei o exército de Rosas marchando naquele momento, levando ainda mais caos a um
mundo confuso e apavorado que já estava sob ataque. Era como se depois da queda viesse o coice.
Aquele inimigo extra iria emergir do nada e marchar nas nossas ruas, ajudando os monstros no
extermínio. As pessoas não iriam apenas morrer em agonia. Elas morreriam com um pânico que
jamais imaginariam poder sentir.
O dr. Delaney chegou no meio da segunda hora. Ele olhou para mim como se eu o tivesse traído.
Eu quase me senti mal, já que ele me ajudara, mas não cheguei a realmente me remoer. Ele ainda
estava do lado deles, então era um inimigo.
Os cinco Rosas dourados que nos capturaram voltaram e abriram a porta da minha cela; a
liberdade repentina acendeu alguma coisa em mim que eu não podia controlar. Uma última tentativa,
acho. Parti para cima deles. Peter apontou um rifle para mim e atirou um dardo que perfurou meu
abdome, e sangue brotou por baixo do traje. A droga surtiu efeito quase imediato. Ondas de calor
percorreram as veias, ramificando-se como galhos de árvore. Elas chegaram ao cérebro, meus olhos
nadaram. A droga não me pôs para dormir, mas me amoleceu o bastante para que me levassem de
volta à enfermaria.
RESULTADO FOI IMEDIATO. O CALOR QUE CONTAMINOU o braço era diferente do veneno. Veio
O um clarão, quente e elétrico. No início eu me perguntei por que não fiz aquilo antes. Meu
coração batia tão forte que parecia martelar contra as costelas. Cada respiração me dava
mais forças, até eu me sentir estourando dentro do traje. A vista avermelhava a cada novo batimento
cardíaco.
Ergui os braços e as tiras nos pulsos se romperam como se fossem barbante. Eu me sentei e
arranquei as dos tornozelos. Delaney se virou para mim e deixou cair a bandeja com instrumentos.
Os cinco Rosas dourados sacaram as espadas e as mantiveram erguidas. Peter levantou o braço, mas
ele era lento, muito lento.
Peguei a cama e a arremessei contra eles.
Derrubei três de uma vez. Escorregaram pelo chão, revirando outras camas. Os dois que
sobraram vieram direto para mim, mas os golpes estavam em câmera lenta. O golpe de cima para
baixo de Noah foi risível. Dei um passo para trás dele antes que a espada descesse até o fim, então o
soquei na base do crânio. A pancada vibrou em meu antebraço. Miranda tentou me cortar na
barriga, mas eu desviei dobrando o corpo e a ataquei com as costas da mão com tanta força que
quebrei seu pescoço. Ela tombou e eu peguei sua espada antes que caísse no chão.
Peter e Olivia estavam inconscientes. Mas Rhys empurrou a cama revirada de cima dele e se
levantou, com a espada em riste.
– Largue-a – ordenei.
Ele não obedeceu. Eu me esquivei quando ele avançou e o ultrapassei pela direita, arrastando a
lâmina em sua garganta.
Quando terminei, eu estava no meio da enfermaria, ofegante, procurando por um novo alvo. Os
outros clones que ocupavam as camas observavam-me com olhos arregalados, esperando para ver o
que eu faria em seguida, mas não estava preocupada com eles. Delaney estava escondido atrás de
uma das camas reviradas. Minha força diminuiu e eu me senti enjoada, com os pés trêmulos.
Vi Rhys amarrado em uma cama, como eu estava um pouco antes. Ele olhou para mim,
boquiaberto.
Não senti nada além do meu sangue acelerado. As pessoas no meu mundo estavam morrendo de
maneiras terríveis naquele exato momento.
– Solte-me – Rhys pediu. A voz dele estava rouca.
Puxei as amarras, mas a força artificial se fora. Tive que usar a espada ensanguentada para libertá-
lo. Ele saiu da cama e checou a pulsação, então se apropriou de algumas armas.
– Você precisa me contar como fez isso.
De repente, eu mal podia ficar em pé. A força que ia me abandonando parecia levar uma parte da
minha força natural. Eu me inclinei na cama, e Rhys pôs a mão nas minhas costas.
– Obrigado por me salvar. Você tá bem?
Não, eu não estava. Olhei para a confusão que eu causara e comecei a me sentir mal. Não saberia
dizer se eles eram maus ou se haviam sido criados apenas para cumprir esse trabalho, como nós,
antes de entendermos as coisas. Mas, se tivessem tendência para a bondade, procurariam entender
as coisas. A formação e a superioridade não eram desculpa para extermínio de planetas inteiros.
Muito pelo contrário.
– Não pense nisso – Rhys avisou. – Vamos pensar mais tarde, tá bom? – ele ajeitou uma mecha de
cabelo suado atrás da minha orelha, então pôs as mãos em meu rosto para me forçar a olhar em seus
olhos. Eles estavam brilhando com força. – Nós temos um mundo para salvar.
Eu reuni a força que ainda me sobrava e renovei-a com esperança. Estávamos livres, nada iria nos
deter.
O INSTANTE SEGUINTE, EU ESTAVA NA QUADRA DE uma escola. Na quadra da nossa escola, perto
N de Cleveland. Na última vez, estava escuro e cheio de estudantes e eu dancei com Peter e
Noah. E o DJ fez aquele anúncio e a garota que conhecíamos como Sequência se tornou
Nina. Desta vez estava iluminada e vazia, a não ser por Peter, Noble e Sofia, que estavam juntos no
meio da quadra. Vê-los vivos me proporcionou uma alegria inédita, um bálsamo temporário para as
feridas, as mais profundas, que não eram físicas.
Peter estava sentado com as pernas encolhidas, segurando o braço sobre o colo. O traje dele
estava rasgado na altura do cotovelo, sem um pedaço, e o antebraço estava envolvido em bandagens
ensanguentadas. Fui direto até ele e me ajoelhei e apertei os lábios nos dele. Ele tinha forças ao
menos para erguer a mão e passá-la suavemente em meu cabelo.
– Senti sua falta – ele disse, sem descolar os lábios.
– Tenho que ir – Olivia falou. Eu me virei e a vi olhar diretamente para mim. – A diretora vai se
encontrar com os criadores no topo da Key Tower, pouco antes do amanhecer, para discutir planos
para o novo governo. Ela estará com a Tocha. Será a sua última chance de tomá-la antes que os sem-
olhos se espalhem para o oeste. Envie-os de volta e os destrua. Os Originais não ousarão usar os
Rosas sem os sem-olhos. Assim, vocês vão ganhar tempo.
– Eu vi os Originais de perto – falei. – Por que você mesma não pode matá-los? Está esperando o
quê?
Havia raiva demais na minha voz. Afinal, aquela garota imortal havia se arriscado para nos reunir.
Os olhos dela suavizaram e eu vi o perdão antes mesmo que eu pedisse desculpa.
– Nunca é tão simples. Os Originais armazenam, fazem backup de suas identidades a cada
segundo, em tempo real. Matá-los não impede que renasçam. Agora mesmo, há uma dúzia de
versões deles hibernando, para o caso de precisarem. Por isso, neste momento, você deve se ater ao
que pode fazer.
Houve um silêncio até absorvermos tudo aquilo. Nós só recebíamos “boas” notícias.
– Sinto muito – Olivia falou. – Estejam no topo da torre antes da alvorada. É tudo o que posso
fazer – ela deu um passo para trás e desapareceu pelo portal, que sumiu num piscar de olhos assim
que ela o atravessou.
Noble estava com o braço ao redor de Sofia, que apresentava marcas vermelhas de garras na
bochecha e no pescoço. Ela olhou para mim com fogo nos olhos.
– Vai amanhecer daqui a poucas horas. Precisamos de um plano, antes que tudo esteja perdido –
ela estava vestindo um traje de couro feito à mão, um colete e calça, o que apenas me fazia lembrar
do quanto o nosso mundo devia parecer diferente para ela. Nós éramos os aliens para ela, com
estradas pavimentadas e água limpa.
– Plano – Rhys murmurou. – Que plano? O topo da Key Tower está um caos, todo destruído. Eu
duvido que os criadores e a diretora vão simplesmente entregar a Tocha.
– Precisamos tentar – Peter falou, rangendo os dentes quando Rhys resvalou em seu braço ferido.
Rhys ergueu a cabeça meio de lado e piscou.
– Esse não é seu braço da espada?
– Chega – Noble se impôs. – Eu vou arranjar transporte. Sugiro que descansem. Tudo dependerá
do que vai acontecer logo mais.
Rhys e Sofia conversavam enquanto isso. Seria interessante observá-los para ver se gostavam um
do outro, mas eu tinha outras prioridades. Levei Peter pelo corredor em direção aos armários, onde
os professores de Educação Física deviam ter deixado algo para limpar feridas. Eu sentia o cheiro de
sangue e suor nele. Ele fazia caretas a cada passo.
– Pare de disfarçar. Eu sei que você está mancando.
Ele parou.
– Eles me encurralaram.
– Eu vi.
– Como assim?
– Longa história.
Descemos os degraus, lado a lado, mancando. Apesar de ter que ajudá-lo, só por senti-lo
encostado em mim já renovava minha força. Ele estava vivo. Ainda tinha sangue correndo nas veias.
Ele me contou a história enquanto eu tirava a bandagem, expondo o corte fundo. A ferida fazia
uma curva do cotovelo até quase o pulso, deixando visível a musculatura dentro, vermelha, brilhante
e estriada. Ele se sentou no banco e repousou a cabeça nos armários, virando-a para o teto. Quando
piscava, lágrimas escorriam dos cantos dos olhos. Eu me ajoelhei à frente.
– Eu resgatei uma família que sofreu um acidente de carro. Os sem-olhos estavam arranhando as
janelas, tentando entrar. Eles quebraram o para-brisa e estavam abrindo passagem pedaço por
pedaço. E, quando chegaram mais perto... ele balançou o braço bom como se movesse a espada.
– Você vai precisar levar ponto – eu disse.
Meu estômago se revirou, não por nojo, mas porque a ferida estava feia. Talvez dar pontos não
fosse o bastante. Não havia pele o suficiente para cobrir o músculo. Tentei não demonstrar
nervosismo para não o desencorajar.
– Isso pode esperar. Pode só apertar firme.
Ele gemeu através dos dentes cerrados quando joguei álcool, o suficiente para matar qualquer
doença que os sem-olhos pudessem carregar nas garras. A ferida parecia se estender para dentro do
traje, além da parte destroçada, então pedi para ele encolher o torso enquanto eu descia o traje até a
cintura.
– Viu? – ele disse. – Não tem mais.
Ele tinha razão. Não vi mais ferimentos graves. Só hematomas, alguns roxos, outros amarelados,
como a pintura de um crepúsculo. Meus dedos o percorreram gentilmente, e a pele dele estremeceu
ao toque. Cutuquei e apertei, procurando algum pequeno corte que pudesse inflamar mais tarde.
– Desculpe.
Ele sorriu.
– Não tá doendo tanto.
Voltei os olhos para o braço e continuei atando a ferida. O sangue passava direto pela bandagem,
uma mancha de tinta se espalhando diante dos meus olhos. Eu sentira mais medo naqueles últimos
dias do que achei que fosse possível, mas aquilo era diferente. Aquela frustração era pior que o
pavor. O braço dele estava em mau estado e eu não podia curar, e aquilo iria acabar matando-o.
Mas escondi todo meu medo para o bem dele. Eu tinha que ser forte.
– Vamos fazer uma coisa. Por que você não toma um banho enquanto eu tento encontrar algo
melhor? Talvez uma agulha e um fio.
Ele olhou para mim por alguns segundos demorados.
– Está bem – mas não se moveu.
– O que foi?
– O Noah...?
Olhei para dentro de mim, mas não havia sinal dele à vista.
– Não, não está aqui. Mas ele me ajudou. Nina tentou me converter e quase funcionou.
Os olhos de Peter se arregalaram.
– Tá tudo bem. Noah estava lá. Quando Nina acordou dentro de mim, nós... contra-atacamos.
Juntos.
Peter acenou com a cabeça. Mesmo assim parecia triste.
– Fico feliz. Fico feliz que você esteja bem.
– Eu também.
Alguma coisa mudava entre nós. Eu não sabia o quê.
Ele lambeu os lábios e se levantou. Lentamente, saiu da área dos armários e foi mancando até os
chuveiros, deixando três gotas de sangue nos ladrilhos. Eu me pus de pé e procurei linha e agulha no
meio dos suprimentos, mas já sabia que não iria encontrar. Eu o ouvi ligando o chuveiro. A água
correu contínua por dez segundos antes de ele entrar embaixo do fluxo.
– As duchas são separadas – ele disse para mim –, se quiser parar de feder.
Sorri. O vestiário já estava se enchendo de vapor. Peter passava xampu com uma mão e mantinha
o braço ferido acima do chuveiro. Girei uma torneira para mim ao máximo, quente como lava, e
retirei o traje. A palma da minha mão esquerda estava profundamente queimada, e eu só senti a dor
na hora que tirei o traje. Dava para ver o quadrado preto crestado na pele. O presente de Olivia
quase me matara, mas por causa dele eu estava ali. A marca era um preço pequeno a pagar.
Eu me lavei rapidamente, removendo dias de sujeira do cabelo e da pele. Não iria dizer nada ao
Peter. Se ele precisasse de distância, eu deixaria assim. Mas não sabia como ia ser quando tudo
acabasse, se nós vencêssemos e eu sobrevivesse.
Peter terminou primeiro e saiu do boxe dele com o traje pendurado no ombro. Ele ia passar reto
pelo meu boxe, mas parou.
– O que foi? – minha voz esganiçou, o coração bateu forte. Apoiei os dedos por cima da porta.
– Você me perdoa? – pingava água do queixo dele.
– Pelo quê?
– Eu deveria pôr você em primeiro lugar. Mas não foi o que eu fiz. Eu te amo.
Na primeira vez, eu não tinha respondido. Desta vez:
– Eu também te amo.
– E me perdoa?
– Não tem nada pra perdoar. Você precisava nos manter vivos, não dava pra confiar em mim.
Ele balançou a cabeça.
– Isso não é desculpa para a maneira como tratei você. Eu fui frio. Apenas diga que me perdoa.
Eu me inclinei sobre a porta e gentilmente puxei os lábios dele para os meus. Ele me beijou de
volta, uma vez, suavemente, mas era diferente. Com Noah dividindo minha mente, tudo mudava. Até
descobrirmos o que fazer com ele, as coisas não seriam normais. Comecei a pensar no resto de
nossas vidas, de todos nós, quando a luta terminasse. O beijo de Peter estava diferente, mas me
passava esperança. Se sobrevivêssemos, superaríamos aquilo também. Poderíamos superar qualquer
coisa.
– Eu quero abrir a porta – Peter disse com um esboço de sorriso.
– Eu também – e realmente queria.
– Mas é melhor não.
Concordei com a cabeça e mordi o lábio.
– Peter, quando isso acabar e tivermos nossas vidas de volta, podemos conversar. Podemos falar
exatamente sobre o que queremos. Mas temos que vencer primeiro.
As palavras soavam como uma mentira, apesar de eu me esforçar para acreditar. Se tudo
acontecesse da maneira como deveria, eu estaria morta em breve. E, caso contrário, também estaria
morta em breve.
Devia ser a primeira vez que eu compreendia isso de verdade.
Para vencer, eu iria morrer.
E estava com medo.
Peter me beijou mais uma vez, e foi como antes, súbita e magicamente, e eu queria chorar e
escancarar a porta e deixá-lo me agarrar, e dizer a ele o que eu estava planejando, e fazê-lo dizer que
iria comigo, que iríamos morrer juntos.
Mas não.
– Nós vamos conversar. Eu te amo.
Ele sorriu.
– Que bom ouvir isso.
44
A Uma sirene berrou ao longe, como em Washington. O barulho estridente subia e descia. As
notícias sobre a invasão já haviam se espalhado. As pessoas fugiram de lá ou foram para casa
se esconder atrás de portas fechadas.
Nós cinco rodamos pelas ruas vazias em um ônibus escolar, iniciando um plano que dependia do
elemento surpresa e uma boa dose de insanidade.
Ao sairmos da escola, Peter e Rhys faziam piada sobre algo que havia acontecido na semana
anterior, quando as coisas estavam tão normais como nunca. Eu me sentei ao lado de Noble, que
dirigia. Fiz com que concordasse em me ajudar em uma coisa, uma coisa difícil. Ele prometeu. Com
o plano estabelecido, pude relaxar nos 20 minutos seguintes. Eu sentia o coração bater no peito e me
perguntava quantas batidas eu ainda teria pela frente. Se falhasse, eu morreria. Se conseguisse, eu
morreria. Se aquele era o dia marcado para minha morte, que ao menos fosse nos meus próprios
termos.
Eu esperava que Noah aparecesse, mas não o sentia mais. Quando estava falando com Peter, temi
que ele retornasse, mas isso não aconteceu. Era horrível pensar assim, mas estava feliz por ele ter
sumido, para que não tivesse que ver o que iria acontecer em seguida. E para que não tivesse que
morrer duas vezes.
Noble estacionou a uma quadra da Key Tower, escondendo o ônibus atrás de um hotel. A
cobertura continuava arruinada, mas se Olivia disse que o ponto de encontro seria ali mesmo, eu
acreditava. Saltamos, movidos por uma energia nervosa. Ao leste, o céu estava roxo-escuro. O sol
não iria demorar a nascer. A fome e a sede corroíam meu estômago, mas eu ainda tinha alguma
energia de reserva. Podia aguentar um pouco mais. Talvez pudesse ver a alvorada mais uma vez.
Escalamos até o topo, devagar mas firmes, fazendo pausas para recuperar as forças a cada 15
andares, mais ou menos. Aquilo me dava algum tempo para assimilar as coisas. Não pensei muito no
que estava deixando para trás, mas no que perderia a oportunidade de vivenciar. Explorar meu amor
com Peter. Amadurecer. Talvez ter uma família, um emprego.
É claro, essas ideias dependiam de o mundo continuar como antes, e pelo jeito jamais seria o
mesmo.
O tempo foi passando sem percebermos, até chegarmos ao topo. O teto estava empenado, ruindo
em alguns pedaços, como resultado do H9 que usamos para derreter aquele lugar todo. Na última
vez que aparecemos ali, Noah e Olivia estavam vivos.
Eu ouvia vozes acima de nós, que chegavam distorcidas de um buraco irregular no teto.
Sob a luz tênue, vi que Rhys acenou para mim. Noble também. Sofia sorriu, e Peter me deu a
mão e apertou.
Eu me agarrei a uma viga de metal na beira do buraco e comecei a subir.
A cobertura estava um caos, repleto de aço fundido e contorcido, como se os andares superiores
tivessem derretido até quase se liquefazer e se resfriado antes de perder completamente a forma. E
fora exatamente isso. O céu estava desobstruído em todas as direções; não estava explodindo em
escuridão como o do mundo de Gane. Também não era dourado como o da Terra Verdadeira.
Estava arroxeado e cheio de estrelas. O meu verdadeiro céu.
Três pessoas estavam no centro, onde o chão era quase liso. Dois dos nossos criadores usavam
versões novas dos trajes pretos: Peter e Olivia. Eles tinham a mesma idade de Noble, tão velhos
quanto nossos pais seriam, se tivéssemos algum. A sra. North e Noah sênior não estavam. A última
pessoa ali era a diretora. Ela segurava a Tocha na mão direita. A bola vermelha brilhava
intensamente, refletindo as escamas brilhantes do traje. A luz dava às escamas douradas um tom
rubi.
Pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha medo.
Apesar de estar escondida nas sombras, a diretora de alguma maneira sabia que eu estava ali. Ela
se virou, assim como os outros criadores, e seus olhos depararam com o meu esconderijo.
– Nunca tive uma filha tão petulante – ela nem tentou disfarçar a surpresa no rosto.
Saí da sombra e tirei a Língua de Fogo das costas.
– Ela e os amigos nos causaram alguns transtornos recentemente – Olivia sênior disse.
Nós procuramos por tanto tempo pelos nossos criadores e, de repente, estavam ali, e não
importava mais. Eles eram as menores de nossas preocupações, eram fantoches como nós.
A diretora riu.
– Passei eras controlando milhares de Rosas, e vocês três não conseguiram controlar umas poucas
equipes de cinco.
Soltei uma onda de medo, uma tentativa a esmo para ver se afetaria os criadores. Eles pareceram
levemente desconfortáveis, mas não fez com que saíssem correndo.
– Esse é o espírito – a diretora disse.
Então os olhos dela se arregalaram ao ver algo sobre meu ombro. Eu me virei e vi minha equipe
logo atrás de mim.
– Olá, Rhys – Peter sênior falou. – Quanto tempo.
– Olá – os dois Rhys responderam.
Olivia sênior perguntou com desprezo:
– Onde você esteve, Noble?
– Por aí – ele respondeu. – Onde está Noah?
– Ele partiu – foi tudo o que Peter sênior disse.
A diretora bateu com a Tocha no chão.
– Por que vocês vieram? – ela parecia estar perguntando a todos nós.
– Eu não acho que essa é uma pergunta séria – Peter disse, ao meu lado.
Peter sênior estava com uma luva grossa, como a da Olivia Original. Rápido como um raio,
desenhou um círculo no ar atrás dele, e a Escuridão emergiu, pairando verticalmente.
– Não ouse sair correndo – a diretora disse para ele.
Noble sacou um revólver e atirou no Peter sênior, que estava andando de costas para a Escuridão.
Assim que ele caiu no portal, atacamos. Rajadas de tiro soaram e foram engolidas pelo céu, mas eu só
tinha olhos para a diretora.
Ela balançou a Tocha na minha direção como um bastão de beisebol, e eu não pude evitar o golpe
nas costelas, pois ela era mais rápida. Ela me deixou sem fôlego, mas agarrei a Tocha enquanto caía.
Assim que meus dedos tocaram o bastão, os sem-olhos gritaram na minha mente, atormentados pela
presença de mais uma de nós. Todos os meus instintos gritavam solte!, mas o lado racional gritava
segure firme!
A diretora girou, tentando me soltar da Tocha como se eu fosse um cachorro que não largava o
brinquedo, mas eu não arredava. Meus pés se arrastavam pelo chão áspero e irregular, com os
dedões patinando em busca de tração. Ela parou de tentar me sacudir, com os olhos flamejando de
raiva, e ergueu a perna para me chutar longe. Foi nesse momento que puxei a Tocha para mim em
um movimento violento, ao mesmo tempo que arremeti a cabeça para a frente. A testada acertou o
queixo dela, mas foi o suficiente para que ela deixasse escapar a Tocha. Eu a arranquei das mãos dela
e senti a presença dos sem-olhos duplicada na minha cabeça, um peso súbito em volta dos ouvidos e
no topo do crânio. Incontáveis mentes viraram os olhos para mim, a intrusa. Eu sentia a raiva. O
vazio era tão escuro e imenso que eu os entendia. Sabia por que eles tinham que se alimentar de um
mundo atrás do outro. Era a única coisa que consolava a dor.
Meus pés foram se distanciando da diretora no segundo em que me libertei.
“Parem”, eu disse para os sem-olhos. “Parem”, pensei. Então gritei com toda a força:
– PEGUEI!
Vi Olivia sênior morta no chão. O portal ainda estava escuro e constante sob o céu púrpura, mas
Peter sênior havia sumido.
Corri pela beirada do teto. A diretora me agarrou quando faltava meio metro e deu um grito de
vitória. Os dedos dela cravaram em meus ombros, puxando-me para trás, mas eu me virei, a ergui
em um abraço de urso e a trouxe comigo no último passo. Um pé estava sobre o chão sólido, o outro
em pleno ar.
45
AÍMOS PELA LATERAL DO PRÉDIO, ENQUANTO EU BATIA com o bastão da Tocha na boca da
C diretora. Os lábios dela se partiram, espalhando sangue nas bochechas. Arranquei a Tocha
de suas mãos e acertei um tranco em seu peito com os dois pés, então dei uma cambalhota
para trás em pleno ar.
Nós duas caíamos em direção à cidade vazia abaixo. O zunido do vento no rosto era quase
tranquilizante, a não ser pelo grito embebido de raiva da diretora, que penetrava na minha cabeça.
Ela estava três metros atrás de mim, se afastando ainda mais conforme nós mergulhávamos, mesmo
assim ela continuava estendendo os dedos para mim. Então juntou as duas mãos, sem jamais tirar os
olhos de mim. Um portal se abriu no ar abaixo dela, e ela caiu dentro dele e desapareceu.
Eu caía sozinha, já na metade da altura do prédio, a poucos segundos da morte iminente, até que
puxei a corda do paraquedas. Ele se abriu com tanta força que a Tocha quase escapou dos meus
dedos. As tiras nos ombros e na cintura fisgavam enquanto eu desacelerava, e o vento murmurante
se tornava uma brisa gentil, silenciosa o bastante para que eu ouvisse minha pulsação. Rhys
gargalhava acima de mim, pairando em seu próprio paraquedas.
Finalmente eu segurava a Tocha sozinha, e os sem-olhos pararam de tentar fazer o meu cérebro
explodir. Eu me estendia até eles. Em lampejos, via as coisas terríveis que estavam fazendo. Uma
horda corria pela calçada em um condomínio de classe alta que costumava ser tranquilo. Eles se
espalhavam, cruzavam jardins e se atiravam pelas janelas salientes. Um trio deles subia as escadas de
um prédio comercial, caçando os trabalhadores de plantão andar por andar. Um caminhão de
bombeiros capotou quando 20 sem-olhos o empurraram de lado e depois se amontoaram como
formigas. Eles deixaram sangue fluindo das janelas quebradas.
Não havia palavras para descrever o horror, mas o ultraje me dava a força de que eu precisava
para controlá-los. Na minha mente, reuni os monstros e mostrei a eles aonde ir. Eu gritava. Injetava
toda a minha força de vontade no comando. Eles conheciam a Verge. Eu dizia a eles para se
concentrarem ali e esperarem. Eu prometia mais carne, mais gritos.
E eles ouviam. Eles se curvavam à minha vontade. Pararam o que estavam fazendo e se retiraram
para lá.
Cheguei à Key Tower com a haste de metal agarrada ao peito. O globo na ponta da Tocha era
brilhante demais para que se pudesse olhar diretamente, um pequeno sol que pintava toda a rua de
vermelho.
Com aquilo na mão, tudo ficava real. Eu nunca pensara que chegaria a este ponto, não com tanta
clareza. Estava com os sem-olhos e tinha que ir adiante. Meu mundo e muitos outros dependiam
disso. “Esta não é sua última manhã, eu dizia para mim mesma. Eu tinha que acreditar que não
estava marchando para a morte. Peter me veria novamente e me beijaria mais uma vez. Eu
encontraria uma saída.
Os outros pousaram à minha volta e nossos paraquedas ondulavam na brisa leve. Meu sentimento
era amargo, em vez de vitorioso. Nós vencíamos da melhor maneira possível. E continuaríamos a
lutar até que os que morreram fossem vingados.
Sofia sorriu. Acho que era a primeira vez que eu a via realmente sorrir.
– Conseguimos – Peter disse, com as mãos nos joelhos, também sorrindo. – Você conseguiu,
Miranda.
Noble trouxe o ônibus e abriu a porta. Nós entramos e ele acelerou antes mesmo de nos
sentarmos.
Dei um jeito de me sentar mais perto do fundo que os outros.
– Vamos sortear no palitinho – Rhys disse, passando a primeira quadra. – A Miranda não vai
voltar.
Pobre Rhys. Ele não fazia ideia.
– Não – Peter concordou –, ela não vai.
Pobre Peter. Ele não fazia ideia.
“Não chore; não deixe que eles saibam.”
– Eu tiro primeiro – Sofia disse, fria e firme como aço.
Eu gostaria de poder contar a eles o que iria acontecer. Gostaria de poder dizer adeus a cada um.
– Ninguém vai sortear nada – falei.
Os olhos de Noble se encontraram com os meus no espelho retrovisor. Ele acenou discretamente,
indicando que manteria a promessa. Eu o adorei por isso.
O rosto de Peter estava irritado como nunca, com o nariz e a sobrancelha enrugados.
– Vamos, sim.
Eu balancei a cabeça.
– Vou matar qualquer um que tentar tirar isto de mim. Estou falando sério.
Peter se ergueu como um animal e foi na minha direção. Ele pegou a Tocha e seus olhos se
arregalaram quando os sem-olhos ocuparam sua mente. Eu me inclinei para a frente e o beijei
rapidamente nos lábios, então o empurrei com toda a força que me restava. Ele cambaleou pelo
corredor do ônibus e caiu de costas.
– O que você está fazendo? – Rhys perguntou.
Que diabos. Eu o beijei na bochecha também, então acenei para Sofia. Eu teria gostado de
conhecê-la melhor. Noble brecou subitamente e o ônibus derrapou ao parar, com os pneus cantando
no asfalto, os freios velhos guinchando. Corri para o fundo, abri a saída de emergência e saltei para o
ar fresco matinal. Peter gritou “Miranda!”, mas o grito ficou abafado quando fechei a porta.
Noble acelerou de novo e me deixou em uma nuvem de fumaça com diesel. Eu estava na rua vazia
com a Tocha e vi o ônibus ficar menor, até sair do meu campo de visão.
Eu me permiti chorar na rua deserta. “Isto é o que você queria”, disse para mim mesma. Você
nunca gostou muito da sua vida mesmo. Mas aquilo não era bem a verdade. Eu amava meus amigos.
Amava Peter e Rhys e Noah e Olivia. Eu detestava o nosso propósito, isso era tudo. Detestava a
razão pela qual existíamos.
“Você queria uma vida diferente.”
Mas eu não queria que ela terminasse.
Olivia me dissera que a Tocha poderia me levar para casa, então me perguntei se poderia me levar
à Verge. Tentei me lembrar de como ela dissera. Poderia me transportar apenas pelo pensamento.
Então, bem que eu podia tentar.
Fechei os olhos e foquei no metal quente que eu agarrava com as luvas. Sentia os sem-olhos se
movendo rumo ao fim deles pelo meu comando. Foquei firme na caverna onde vimos a Escuridão
pela primeira vez, imaginando-a, mas, quando abri os olhos, ainda estava na rua deserta.
– O que eu faço? – sussurrei.
Tentei de novo, visualizando o interior da Verge de Gane. Com esse pensamento na mente, ouvi
passos atrás de mim e girei o calcanhar.
A diretora estava diante de mim, com a espada cintilante erguida à luz da alvorada, com um portal
de Escuridão atrás. Fui uma tola ao pensar que ela me deixaria escapar tão fácil. Nesta hora não
havia mais pensamento, só ação.
Eu me agachei quando ela golpeou, abaixando-me até os joelhos. Chumaços de cabelo cortado
flutuaram em volta dos meus ombros.
Ela soltou um grito de frustração e continuou o giro, fazendo um corte mais baixo que não me
daria espaço para esquivar. Eu estava de joelhos, à mercê dela. Mas aquele não podia ser o fim. Nós
tínhamos ido muito longe, a um custo muito alto.
Então eu me inclinei para a frente, até o ombro tocar no chão, e rolei para o lado, saindo do
caminho da segunda investida. Eu me pus de pé e me atirei pelo portal de onde ela mesma viera.
46
Á UM MÊS, PERDI A GAROTA QUE EU AMAVA. ANTES QUE os ventos gelados viessem. Antes de a
H neve começar a cair. Miranda gostava quando meu cabelo ficava mais comprido, porque
encaracolava, então deixei crescer, mesmo que ela nunca mais o visse.
O sacrifício de Miranda nos salvou da aniquilação. Não há dúvida quanto a isso. O mundo
precisava conhecer o nome dela, mas não. Tudo que conhecem é medo.
Hoje de manhã, Noble bateu na porta do meu quarto. Nós quatro – Rhys, Sofia, Noble e eu –
estamos vivendo em um apartamento chique de Nova York, na Columbus Circle, número 80. O
presidente, que sobreviveu em seu abrigo, nos colocou aqui quando Noble lhe contou quem somos.
Contou que Nova York era o local mais provável para o próximo ataque da Terra Verdadeira. Ele
assegurou que eles iriam voltar. E que usariam oito milhões de pessoas como escudo humano, como
fizeram no mundo de Gane.
No meu quarto, Noble disse para mim:
– Peter, eu preciso da sua assistência. Preciso que você me ajude a encontrar uma coisa. É
importante.
– Leve o Rhys.
Eu pretendia esperar e lutar quando fosse a hora, mas não estava interessado em falar com
ninguém. Eu fazia flexões e me hidratava e ficava olhando para o Central Park pela janela. A sangue
frio, esperava pela vinda deles.
Ele disse:
– Eu pedi a você.
Então me vi no meio dos escombros da Verge. O céu escuro sobre nossa cabeça era como um
cadáver inchado ao infinito, cheio de vermes roxos iluminando. O vento uivava entre os prédios
vazios, levando o aroma de carne e poeira. O chão era um amontoado de entulho e metal retorcido.
Verge era uma pequena montanha de vidro quebrado e cinzas.
Nenhuma lágrima caiu. Eu as guardaria para a noite, quando estivesse sozinho. Eu podia
imaginar o rosto de Miranda e ouvir sua voz.
“Nós vamos conversar”, ela havia dito para mim. “Eu te amo.”
Noble atravessou os escombros, revirando-os com os pés. Ele estava com um pequeno tablet na
mão e o checava de tempos em tempos. Eu perguntei a ele o que estávamos fazendo ali, mas ele me
ignorou. Pensei no Noah e na Miranda e em como não tive oportunidade de me despedir. Em
algumas noites eu acordava e me esquecia de tudo. Eu me sentava na cama e sentia o peso como se
estivesse acontecendo de novo.
Peguei uma pedra e a arremessei no que sobrou do fosso da Verge. A água escura a engoliu e
ficou plácida.
Noble me chamou um pouco depois. Passei pelas pedras, cansado e impaciente. Eu queria voltar
para a cama.
Ele estava sorrindo quando cheguei. Inclinou-se contra uma rocha maior do que ele mesmo e riu.
– Venha cá.
– O que foi?
– Venha cá e eu lhe mostro.
Noble tinha alguma coisa entre o polegar e o indicador. Estendi a mão e ele a colocou gentilmente
em minha palma.
– Tenha cuidado com isto, rapaz. É o seu amor.
Era um disco de metal do tamanho de uma moeda, com um M estampado.
AGRADECIMENTOS
Escrever a sequência de uma série é difícil, mas eis aqui algumas pessoas que ajudaram a tornar a
tarefa mais fácil e que tive grande prazer em conhecer: Suzie Townshend, Joanna Volpe, Kathleen
Ortiz, os meus professores de inglês do colégio (peço desculpas mais uma vez!), Danielle Barthel,
Jaida Temperly, Jay Z, Dana Kaye, Catherine Onder, Hayley Wagreich, Laura Kaplan, Dina
Sherman, Nellie Kurtzman, Sammy Yuen, Jenn Corcoran, Justin Bieber, Jamie Baker, Pouya
Shahbazian, Steve Younger, Kevin Cornish, Tichondrius Horde, Whitney Ross, café, Barbara e
Travis e Char Char Poelle, Joe Volpe, Susan Dennard, Sarah Maas, Adam “Mande-me Seu
Tesouro” Lastoria, Will “O Retificador” Lyle, Josh Bazell, Janet Reid, Brooks Sherman, Sean
Ferrell, Jeff Somers, os gatos que moram com Jeff Somers, meus adoráveis pais, meus irmãos e
minha irmã.
SUA OPINIÃO É MUITO IMPORTANTE!
Mande um e-mail para
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com o título deste livro no campo “Assunto”.
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