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Annie - Thomas Meehan

O documento é uma introdução ao musical 'Annie', escrito por Thomas Meehan, que narra a origem da personagem Annie, uma órfã que busca seus pais. Meehan descreve o processo de adaptação da tira de quadrinhos para o palco, destacando a criação de uma nova narrativa e a inclusão de elementos históricos, como a Grande Depressão. O musical, que estreou em 1977, foi um grande sucesso e inspirou a escrita de um romance que expande a história original.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Annie - Thomas Meehan

O documento é uma introdução ao musical 'Annie', escrito por Thomas Meehan, que narra a origem da personagem Annie, uma órfã que busca seus pais. Meehan descreve o processo de adaptação da tira de quadrinhos para o palco, destacando a criação de uma nova narrativa e a inclusão de elementos históricos, como a Grande Depressão. O musical, que estreou em 1977, foi um grande sucesso e inspirou a escrita de um romance que expande a história original.
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Thomas Meehan

Tradução de Carolina Selvatici


Copyright © Thomas Meehan, 1980

ANNIE, ANNIE: THE MUSICAL & LITTLE ORPHAN ANNIE ®, tm, & © 2013

Todos os direitos reservados, incluindo o direito de reprodução no todo ou em parte,


em quaisquer meios.

Publicado mediante acordo com Puffin, uma divisão de Penguin Young Readers
Group, membro do Penguin Group (USA) LLC, uma empresa Penguin Random
House

TÍTULO ORIGINAL
Annie

PREPARAÇÃO
Suelen Lopes

REVISÃO
Milena Vargas
Marcela Lima

ADAPTAÇÃO DE CAPA
Julio Moreira

REVISÃO DE EPUB
Camila Dias

GERACÃO DE EPUB
Intrínseca

E-ISBN
978-85-8057-617-7

Edição digital: 2014

Todos os direitos desta edição reservados à


Editora Intrínseca Ltda.
Rua Marquês de São Vicente, 99 / 3o andar
22451-041 — Gávea
Rio de Janeiro — RJ
Tel./Fax: (21) 3206-7400
www.intrinseca.com.br
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Este livro é para os meus filhos,
Kate e Joe, que agora já são crescidos,
e para duas menininhas,
Emma Van Brocklin e Sasha Berman.
INTRODUÇÃO

Há muitos anos, em 1924, Annie veio ao mundo como uma menina de


onze anos, personagem principal de uma tira de jornal chamada Annie,
a Pequena Órfã. Criada por um quadrinista e escritor de Indiana,
Harold Gray, Annie, a Pequena Órfã se tornou muito popular entre os
leitores de tirinhas dos Estados Unidos e já aparecia nas páginas dos
jornais de todo o país havia quarenta e oito anos quando me vi às
voltas com a personagem pela primeira vez, em 1972 — provavelmente
muito antes de qualquer um de vocês ter nascido ou sonhado em
nascer.
Já envolvido com ela, um amigo meu, Martin Charnin, diretor e
letrista de musicais da Broadway, me pediu para ajudá-lo a transformar
Annie, a Pequena Órfã em um musical — para o qual ele escreveria a
letra das músicas, eu escreveria o livro e outro amigo dele, Charles
Strouse, um compositor da Broadway vencedor do Tony Award,
comporia a melodia. Nessa época, eu escrevia pequenos contos de
comédia e artigos para várias revistas, especialmente a The New
Yorker, mas, apesar de sempre ter sido apaixonado pelo palco, nunca
havia escrito nada para o teatro. Por isso, fiquei muito animado e
levemente ansioso com a possibilidade de escrever o livro do musical
que, imediatamente, decidimos chamar apenas de Annie.
Eu deveria explicar que o livro de um musical (também conhecido
como libreto) é diferente do livro que você vai ler. Na verdade, é o
roteiro de uma peça, ou seja, a história completa do musical em
diálogos, com inserções de espaços em branco em todas as ­cenas em
que músicas e/ou coreografias sugeridas entrarão posteriormente,
como passas em um pão de passas. Depois de aceitar escrever o
roteiro de Annie, fui aos arquivos do New York Daily News, um jornal
com sede na rua Quarenta e Dois, que publicava a tira Annie, a
Pequena Órfã desde o início. Passei várias horas de muitos dias
seguidos lendo os quarenta e oito anos da tirinha, publicada em preto e
branco diariamente e em cores aos domingos. E adivinhe? Em tantos
anos de tirinhas, não consegui encontrar uma história central coerente
que pudesse ser a base para um musical da Broadway. Um pouco
desanimado, fui conversar com meus parceiros, Martin e Charles, e
disse que só havia conseguido encontrar três personagens úteis para o
musical: a menina mais pobre do mundo, o homem mais rico do
mundo e um cachorro chamado Sandy. Em resumo, disse a eles, eu
teria que inventar uma história. E foi o que fiz.
Primeiro, decidi que a história deveria se passar em Nova York, que
não era o cenário da tira original, porque era a cidade que nós três,
nova-iorquinos, conhecíamos melhor. Em 1972, quando comecei a
escrever Annie, Richard Nixon era o presidente dos Estados Unidos, o
país estava atolado na impopular Guerra do Vietnã e havia a sensação
de que o governo federal não se interessava muito pelo bem-estar do
povo americano. Por isso, com a nação de 1972 em mente, decidi
transformar outro período de grande crise do país em cenário para
Annie: a Grande Depressão de 1933, quando Franklin D. Roosevelt se
tornou presidente pela primeira vez. E tive até a ideia de tornar
Roosevelt um personagem do musical.
Eu havia decidido o local e a época em que o musical aconteceria,
mas qual seria a história? Um dos meus autores favoritos de todos os
tempos sempre fora Charles Dickens, o brilhante escritor britânico do
século XIX, criador de romances clássicos como Oliver Twist, David
Copperfield, Grandes Esperanças e Um conto de Natal — apenas para
mencionar alguns de seus livros incrivelmente divertidos e
emocionantes. Então percebi que Annie, uma órfã pobre e tratada de
forma cruel, era uma versão americana e do século XX de um
personagem de Dickens, e que eu podia seguir aquele mesmo estilo
para escrever Annie. Dickens era, sobretudo, um excelente contador
de histórias, e notei que quase todos os romances dele começavam
com um mistério que acabava sendo solucionado nas últimas páginas
do livro. Qual seria então o mistério? Uma órfã de dois meses, Annie, é
abandonada nos degraus de um orfanato com um medalhão de prata
quebrado em torno do pescoço e um bilhete, sem assinatura, preso a
seu cobertorzinho com os dizeres: “Por favor, cuidem bem da nossa
menininha. O nome dela é Annie e nós a amamos muito. Ela nasceu no
dia 28 de outubro. Logo vamos voltar para buscá-la. Deixamos metade
de um medalhão em torno do pescoço dela e guardamos a outra
metade, pois, assim, quando voltarmos, saberemos que ela é a nossa
filha.” É com esse mistério que A ­ nnie começa. Quem a deixou no
orfanato? Será que foram os pais, como Annie acredita desde pequena?
Mas quando eles vão voltar para buscá-la? Será que, como Annie
pergunta na música de abertura do musical, eles estão “talvez muito
longe, talvez muito perto”? Quando Annie aparece pela primeira vez no
espetáculo, onze anos se passaram desde que ela foi deixada no
orfanato e, concluindo que seus pais não vão voltar para buscá-la, ela
foge para tentar encontrá-los sozinha. A busca de Annie pelos pais e a
resolução do mistério são o que forma a narrativa básica do roteiro do
musical e de sua encarnação posterior, o livro que vocês vão ler agora.
Após terminar o primeiro rascunho do livro do musical e mostrá-lo a
Martin e Charles, fiquei encantado ao ver que estavam satisfeitos com
ele. No entanto, eles apontaram um grande problema: era longo
demais e resultaria em um espetáculo de três horas e meia, sendo que
a duração ideal para um musical da Broadway é de pouco mais de duas
horas. Então, comecei a cortar cena após cena de Annie, até chegar ao
tamanho certo. Quando estreou na Broadway, na primavera de 1977,
fico feliz em dizer, o musical foi um grande sucesso, e recebeu o Tony
Award na categoria de Melhor Musical do Ano, e também em seis
outras — inclusive o que o sortudo aqui recebeu, o Tony de Melhor
Livro de Musical. E, nos anos que se passaram desde então, Annie foi
reencenada não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.
Contudo, sempre senti falta das muitas cenas que tive que cortar do
primeiro rascunho. Por isso, um dia, de repente, gritei para mim
mesmo: “Eureca! Já sei!” Se Dickens pode escrever um romance sobre
um órfão como Oliver Twist, eu posso escrever um romance sobre
uma órfã, Annie, e incluir nele uma versão narrativa de todas as cenas
que fui forçado a cortar do musical. Pela primeira vez, a história de
Annie que eu havia imaginado tantos anos antes seria contada de
forma completa!
Tenha a certeza de que, se você já viu Annie no palco ou assistiu a
alguma das versões do musical no cinema, ainda não sabe muita coisa
sobre a menina. Até agora, pois tudo vai mudar quando você virar as
páginas até o primeiro capítulo. Espero que goste de ler este livro
tanto quanto gostei de escrevê-lo. Adiante!

Thomas Meehan
27 de maio de 2013
Um

Muito tempo atrás, nas primeiras horas escuras e tranquilas da


manhã do dia primeiro de janeiro de 1933, uma neve suave caía nas
ruas frias e desertas de Nova York. O tempo passava lentamente, até
que a calma invernal foi interrompida pelo badalar dos sinos,
anunciando as quatro horas da manhã no campanário da igreja de St.
Mark in-the-Bowery.
A algumas quadras da igreja, na St. Mark’s Place, no dormitório do
segundo andar do anexo feminino do Orfanato Municipal da Cidade de
Nova York, uma menina de onze anos estava parada, sozinha, em
frente a uma janela congelada. Tremendo em uma fina camisola
branca de algodão, ela ouvia o badalar dos sinos enquanto observava a
neve cair rodopiando sob a luz dos postes. De tempos em tempos, ela
olhava, ansiosa, para um dos lados da rua, depois para o outro.
Esperava que alguém fosse buscá-la. Que a tirassem do orfanato. No
entanto, ninguém aparecia. Magra e um pouco baixa para sua idade, a
menina tinha um nariz levemente arrebitado e uma juba indomável de
cabelo ruivo e curto. Mas sua característica mais marcante eram os
brilhantes olhos azul-cinzentos, que estranhamente pareciam refletir,
ao mesmo tempo, uma tristeza profunda, uma alegria incontrolável e
uma incrível inteligência. O nome dela era Annie.
No dormitório frio, as outras meninas — dezessete, ao todo —
haviam adormecido já fazia muito tempo, murmurando e até gritando
em seus sonhos conforme se agitavam nas camas estreitas, sob
cobertores do exército incômodos e surrados. Mas Annie ficara
acordada a noite toda. Mais cedo, enquanto ainda tentava dormir, a
menina se mantivera desperta por causa do barulho dos festejos de
ano-novo: gritos, bêbados cantando, buzinas e cornetas. No entanto,
muito tempo depois da meia-noite, quando tudo já estava em silêncio
na St. Mark’s Place e a neve começara a cair, Annie continuava sem
conseguir dormir. Por fim, ela se levantara da cama e se aproximara da
janela para fazer uma vigília silenciosa naquela noite gelada e esperar.
Desde que conseguia se lembrar, Annie não era capaz de dormir na
noite de ano-novo. Isso porque o ano-novo marcava a noite, onze anos
antes, que ela fora deixada, aos dois meses de idade, dentro de uma
cesta de vime, na escadaria do orfanato. Alguém havia tocado a
campainha e fugido. Annie fora encontrada enrolada em um velho
cobertor de lã cor-de-rosa e com metade de um medalhão de prata
pendurado no pescoço. Um bilhete sem assinatura tinha sido preso ao
cobertor com um alfinete. “Por favor, cuidem bem da nossa
menininha”, dizia o bilhete. “O nome dela é Annie e nós a amamos
muito. Ela nasceu no dia 28 de outubro. Logo vamos voltar para buscá-
la. Deixamos metade de um medalhão em torno do pescoço dela e
guardamos a outra metade, pois, assim, quando voltarmos, saberemos
que ela é a nossa filha.”
Como havia sido deixada no orfanato na noite de ano-novo, ­Annie
enfiara na cabeça que seus pais voltariam para buscá-la em outra
véspera de fim de ano. Por isso, todos os anos, enquanto as outras
crianças contavam os dias para o Natal, Annie contava os dias para o
ano-novo. Mas, ano após ano, acabava decepcionada. O pai e a mãe
dela não apareciam para buscá-la. E era quase certo que eles não iriam
aparecer naquele ano também. Quando a neve começou a cair com
mais força, Annie suspirou e esfregou os olhos para não chorar.
— Eles disseram que me amavam e que iam voltar para me buscar.
Está no bilhete — sussurrou para si mesma no escuro. — Onde eles
estão? Por que não vieram me pegar?
Annie agarrou a metade do medalhão de prata que pendia de seu
pescoço, sempre, dia e noite, e a apertou com força contra o peito.
— Mamãe, mamãe, mamãe!
A menor das órfãs da instituição, Molly, de seis anos, havia
acordado de um pesadelo e gritava, chamando a mãe. A mãe de Molly
tinha morrido dois anos antes em um acidente de carro, que também
havia matado seu pai. Por isso, apesar de ser uma criança
extremamente bonita, Molly era uma órfã que ninguém queria adotar.
Uma órfã como todas as outras meninas do orfanato. Menos Annie.
Annie era diferente porque tinha um pai e uma mãe. Em algum lugar.
— Mamãe, mamãe! — gritou Molly mais uma vez, acordando as
meninas nas camas ao redor da dela.
— Cale a boca! — berrou Pepper da cama ao lado.
— É, ninguém está conseguindo dormir... — resmungou Duffy.
— Mamãe, mamãe! — berrou Molly de novo.
— Eu mandei você fechar essa matraca, Molly — disse Pepper, e
saiu irritada da cama, levantou Molly e empurrou a menina no chão.
Aos quatorze anos, Pepper era a mais velha e a maior das órfãs. Era
uma menina briguenta de nariz achatado, rosto cheio de sardas e com
um cabelo comprido e bagunçado, ainda mais ruivo do que o de Annie.
— Ahhhh... Pare de empurrar a menina — disse July. — Ela não fez
nada com você.
A mais gentil das órfãs — mas não exatamente a mais bonita —,
July, de doze anos, havia recebido esse nome simplesmente por ter
sido abandonada no orfanato, ainda bebê, no Quatro de Julho.
— Ela não está me deixando dormir — retrucou Pepper.
— Não, você não está deixando a gente dormir — afirmou July.
— Quer resolver isso comigo agora? — perguntou Pepper, andando
até a cama de July.
— Ah, vejam só a grande lutadora de boxe do orfanato — brincou
July.
Um segundo depois, ela e Pepper estavam rolando no chão, em uma
briga cheia de gritos, socos e puxões de cabelo que acordou ­Tessie, de
oito anos, em sua cama na outra extremidade do dormitório.
— Ai, meu Deus. Ai, meu Deus. Elas estão brigando, e eu não vou
conseguir dormir a noite toda — choramingou Tessie, uma menina
pálida e assustada com marias-chiquinhas louras, um nariz aquilino
fino e quase nenhum queixo. — Ai, meu Deus. Ai, meu Deus!
Annie apenas observava em silêncio da janela. Mas então ela se
aproximou e separou a briga entre Pepper e July.
— Ah, por favor, vocês duas. Parem com isso e voltem para a cama
— ordenou, afastando as briguentas.
— Ah, vá se catar, Annie — murmurou Pepper, encarando
raivosamente a menina ao voltar para a cama pisando forte.
Mas Pepper não tentou arranjar briga com Annie. Apesar de ser
muito menor do que a órfã mais velha, Annie era considerada por
todas a mais durona. Até Pepper tinha medo dela. Annie também era a
mais esperta, e a líder natural, especialmente nas incessantes batalhas
contra a diretora do orfanato, a Srta. Agatha Hannigan.
— Foi Pepper que começou, Annie — disse July. — Ela empurrou
Molly.
— Eu sei — afirmou Annie, dando tapinhas no ombro da amiga. —
Mas vocês têm que voltar a dormir. Todas vocês.
— Está bem, Annie — respondeu July, voltando para a cama
enquanto Annie ia tranquilizar Molly, que ainda estava encolhida no
chão.
Ajoelhando-se ao lado da garota, Annie pegou Molly nos braços.
— Está tudo bem, Molly. Estou aqui — afirmou, fazendo carinho
nos cabelos compridos e negros da menina.
— Era a minha mamãe, Annie — contou Molly, lágrimas
escorrendo pelas bochechas rosadas. — A gente estava andando na
balsa, e ela me levantava para que eu pudesse ver os navios grandões.
Depois ela andava para longe, dava tchau, e eu não via mais a minha
mãe. Em lugar nenhum.
— Foi só um sonho, querida — disse Annie, secando os olhos de
Molly com a manga da camisola. — Agora você tem que voltar a
dormir. Já passou das quatro.
— Annie — pediu Molly. — Leia o seu bilhete para mim.
— De novo?
— Por favor.
— Está bem, Molly — concordou Annie.
Então, da cesta de vime gasta que guardava embaixo da cama — a
mesma cesta em que havia sido deixada no orfanato e onde mantinha
seus poucos pertences —, Annie tirou o bilhete e começou a lê-lo em
voz alta, à luz pálida dos postes, que entrava de modo oblíquo no
dormitório. Annie havia dobrado e desdobrado o bilhete tantas vezes
que o papel estava quase se desfazendo. Tinha sido escrito com uma
letra redonda, feminina, em um quadrado de papelão azul-claro.
— Por favor, cuidem bem da nossa menininha — começou ­Annie.
— O nome dela é...
— Ai, não, lá vem você de novo — resmungou Pepper.
Nos anos todos em que estiveram juntas no orfanato, Annie lera o
bilhete em voz alta para elas duas ou três vezes por semana, em média.
— O nome dela é Annie — cantarolou Duffy, zombando.
Baixinha, gordinha e com cabelos louros desgrenhados, Duffy, de
treze anos, era a melhor amiga de Pepper.
— Ela nasceu no dia 28 de outubro — continuou Duffy. — Logo
vamos voltar para buscá-la.
Então todas as órfãs começaram a rir da interpretação feita por
Duffy. Todas, menos Molly e Tessie.
— Ai, meu Deus. Agora elas estão rindo, e eu não vou conseguir
dormir nada — choramingou Tessie. — Ai, meu Deus. Ai, meu Deus.
Annie se levantou com raiva, pôs as mãos nos quadris e encarou as
meninas que riam.
— Escutem aqui — disse. — Vocês querem dormir com todos os
dentes na boca ou não?
Silêncio. Todas, inclusive Pepper, voltaram a se deitar sem fazer
barulho. Annie terminou de ler o bilhete e, depois, dobrando-o com
todo cuidado, devolveu-o à cesta. Então pegou Molly no colo e a levou
para a cama. Annie cobriu a menina e deu um leve beijo em sua testa.
— Boa noite, Molly — sussurrou.
— Boa noite, Annie — respondeu Molly. — Você tem sorte. Eu
sonho que tenho um pai e uma mãe. Mas você tem pais de verdade.
— Eu sei — disse Annie suavemente. — Em algum lugar. Em
algum lugar.
Minutos depois, Molly e as outras órfãs voltaram a dormir. Mas
Annie ainda não conseguia. Ela retornou à janela para observar a neve
cair. Parada ali, começou a sonhar acordada com seu pai e sua mãe.
Talvez estivessem muito perto, pensou, ou talvez muito longe. O pai,
ela sabia, era um homem grande e forte, que ria e sorria ao mesmo
tempo e que a pegaria no colo, lhe daria um abraço de urso e a giraria
no ar. Ele era advogado, ou talvez até mesmo médico, e ajudava
pessoas pobres. E a mãe era uma mulher bondosa e gentil, de cabelos
dourados, que tocava piano e costurava melhor do que uma costureira
profissional. Ela teria feito dúzias de lindos vestidos para Annie. Os
vestidos, de todas as cores do arco-íris, estariam pendurados em um
armário, esperando o dia em que Annie voltaria para casa. Annie e os
pais viveriam no interior, em uma casa coberta de videira, em uma
colina. Haveria um enorme jardim na frente e, da varanda, ela poderia
ver quilômetros de campos verdejantes até um sinuoso rio distante.
Nas tardes de verão, Annie, a mãe e o pai, os três juntos, andariam
pelos campos até o rio e fariam um piquenique com ovos apimentados
e limonada, enquanto observariam cisnes passarem. Em seu quarto,
Annie teria uma cama com dossel, uma casa de bonecas de três
andares e um cavalinho de madeira vermelho e branco e... Uma
carroça de leite, puxada por um cavalo, entrou na St. Mark’s Place,
fazendo Annie acordar, assustada, do seu devaneio. Ela ouvia o som da
carroça de leite passando pela janela de madrugada desde que podia
se lembrar. Annie, então, começou a pensar em todos os seus longos
anos no orfanato. E quase nenhuma de suas lembranças daqueles anos
era feliz.
Dois

A primeira lembrança de Annie, de uma época em que tinha talvez


dois ou três anos, era da figura sombria da Srta. Hannigan
observando-a, de pé, ameaçadora, enquanto a menina brincava com
uma boneca de pano velha no chão do dormitório.
— Levante-se, sua órfãzinha ridícula. Você sujou todo o seu vestido
limpo — gritara a Srta. Hannigan, uma mulher magra com maçãs do
rosto salientes e cabelo curto muito preto.
Ela lembrava às órfãs uma bruxa de Halloween extremamente feia
— e muito real. A Srta. Hannigan havia puxado Annie com força até
que a menina ficasse de pé e lhe dera uma série de tapas no bumbum
com uma palmatória pesada de carvalho. No entanto, ­Annie não havia
chorado. Mesmo quando era pequena, Annie nunca chorava quando a
Srta. Hannigan batia nela — uma demonstração de força que deixava a
diretora do orfanato furiosa.
Como Annie era, ao mesmo tempo, a menina mais sapeca e a mais
inteligente do orfanato, a Srta. Hannigan a odiava mais do que
qualquer outra criança que ficara sob sua responsabilidade nos vinte e
três anos em que trabalhara como diretora do orfanato.
— Ainda vou fazer essa pestinha se arrepender — murmurava a
Srta. Hannigan para si mesma.
E ela constantemente dava tarefas extras para Annie: panelas e
frigideiras engorduradas para lavar na cozinha quente do orfanato,
situada no porão, janelas encardidas para limpar, pisos que deveriam
ser esfregados. Mas Annie nunca se deixava desanimar e irritava ainda
mais a Srta. Hannigan ao aceitar cada nova tarefa com um alegre
sorriso. E quanto pior era a tarefa, mais largo era o sorriso de Annie.
— Vocês têm que entender que sou eu contra a Srta. Hannigan. É
igual a uma guerra — dizia Annie às outras órfãs. — E eu nunca vou
desistir, nunca.
À medida que os anos passavam, Annie crescia acostumada à rotina
da vida no orfanato. Toda manhã, às seis horas, um apito agudo
acordava as órfãs sonolentas.
— Certo, levantem-se, levantem-se, todas vocês, suas órfãs
ridículas! — gritava a Srta. Hannigan.
Depois de um banho frio, as meninas se vestiam com doações que
chegavam duas vezes por ano em pacotes enormes do Exército da
Salvação. Após arrumarem as camas e varrerem o dormitório, as órfãs
marchavam para o primeiro andar, até o refeitório, para tomar café da
manhã.
— Sem falação! — avisava a Srta. Hannigan.
As meninas se sentavam em silêncio nos duros bancos de madeira
em volta de uma longa mesa montada sobre cavaletes enquanto a Srta.
Hannigan servia a comida. Desde que Annie conseguia se lembrar, o
café da manhã do orfanato era sempre o mesmo: um copo de leite ralo
e azulado e uma tigela de mingau quente. O mingau, que era
preparado pela própria Srta. Hannigan, tinha uma cor cinzenta e uma
textura encaroçada, além de um gosto de cola branca escolar. Assim
que chegava ao orfanato, a maioria das meninas ficava enojada com o
mingau da Srta. Hannigan e não conseguia comer nem uma colherada.
No entanto, depois de um tempo, acostumava-se com ele. Porque, no
café da manhã do orfanato, era aquele mingau ou nada.
Depois do café, a programação no orfanato variava, dependendo se
era dia de escola ou não. Se as crianças tinham aula, a Srta. ­Hannigan
fazia as órfãs marcharem pelo quarteirão até a E.P. 62, uma escola
pública situada em um prédio vitoriano de tijolinhos, na esquina da St.
Mark’s Place com a Terceira Avenida. As órfãs ficavam na escola até
as quatro da tarde, quando a Srta. Hannigan ia buscá-las e levava o
rebanho de meninas de volta para o orfanato. Quando não tinham aula,
as órfãs eram mandadas, imediatamente após o café da manhã, para o
ateliê no porão, onde se sentavam à frente de máquinas de costura e
faziam vestidos para menininhas. Nos dias de trabalho, as órfãs
costuravam por oito horas e tinham vinte minutos para almoçar (outro
copo de leite ralo e um sanduíche de presunto ou mortadela
gordurosa). Esperava-se que cada menina tivesse terminado pelo
menos um vestido ao fim do dia. Senão, apanhavam da Srta. Hannigan.
Os vestidos que faziam — lindas roupas de festa de organdi e chiffon
em cores vivas, como amarelo-canário ou magenta — contrastavam de
modo incrível com as doações surradas e manchadas que as meninas
usavam. A Srta. Hannigan conseguia as máquinas e os tecidos com um
fabricante de roupas infantis do Brooklyn. Em troca, ele podia comprar
os vestidos prontos por cinquenta centavos cada. Na maioria das
semanas, a Srta. Hannigan ganhava trinta dólares com o trabalho das
órfãs. As meninas não deviam trabalhar, é claro, e se o presidente do
Comitê Diretor dos Orfanatos da Cidade de Nova York, o Sr. Joseph
Donatelli, soubesse o que a Srta. Hannigan fazia, ele a demitiria
imediatamente. Contudo, havia mais de doze anos que ninguém do
Comitê vinha inspecionar o anexo feminino da St. Mark’s Place. E a
Srta. Hannigan justificava sua atitude dizendo a si mesma que estava
ensinando uma profissão útil às meninas.
— Vocês deviam me agradecer, suas pestinhas. Vão ser capazes de
conseguir um emprego como costureira quando crescerem e tiverem
que ir embora daqui — dizia ela às órfãs enquanto as meninas se
curvavam hora após hora sobre as máquinas de costura, no ateliê
úmido no porão.
A Srta. Hannigan gastava a maior parte do dinheiro que ganhava
com os vestidos em garrafas de uísque contrabandeadas. Isso porque
ela bebia muito e ficava levemente embriagada desde a manhã até a
noite. Enquanto as órfãs estavam trabalhando ou na escola, a Srta.
Hannigan passava a maior parte do tempo em seu escritório de pé-
direito alto, tomando uísque de centeio, fumando cigarros Lucky
Strike e ouvindo radionovelas como Ma Perkins e The Romance of
Helen Trent no rádio Philco de mesa.
Toda noite, às seis horas, as órfãs iam em fila jantar no refeitório —
uma refeição que costumava ser composta por asas de frango cozidas,
batatas cinzentas cozidas e algum vegetal murcho, como repolho ou
brócolis cozido. Havia pão branco farelento e margarina para forrar o
estômago, mas sobremesas só eram servidas em ocasiões especiais,
como o Dia de Ação de Graças ou o Natal, quando cada órfã ganhava
uma tigela de arroz-doce grudento. Depois do jantar, as meninas eram
mandadas para o dormitório, para estudar antes de dormir. As luzes
eram apagadas às oito horas da noite, e mais um dia chegava ao fim no
orfanato.
Domingo era o único dia de descanso para as órfãs. No entanto, de
certa forma, esse era o pior dia para elas. A Srta. Hannigan as levava
até a St. Mark’s in-the-Bowery todo domingo às oito da manhã, e as
meninas ficavam mais de uma hora sentadas na igreja mofada, ouvindo
longos sermões sobre o destino final de todos que cometiam pecados:
o fogo eterno do inferno. E, claro, como a Srta. Hannigan explicava a
elas, uma menina órfã era uma pecadora por natureza. Por que outra
razão os pais delas teriam morrido? Tomadas por sentimentos
confusos de culpa, medo e tédio, as órfãs eram levadas de volta para o
orfanato, onde a Srta. Hannigan as obrigava a passar o dia inteiro
rezando e pensando no mal que haviam feito na semana anterior.
— Limpem suas almas imundas com remorso e implorem a Deus
que perdoe os inúmeros pecados de vocês! — trovejava a Srta.- ­
Hannigan para as órfãs amedrontadas.
Ninguém conversava. Ninguém lia. As meninas ficavam sentadas
em silêncio, com as cabeças baixas e as mãos unidas por horas
intermináveis à mesa montada sobre cavaletes, no refeitório abafado.
Certas tardes de domingo no orfanato, Annie se lembrava, de pé
diante da janela, olhando para a neve que caía, pareciam durar uma
eternidade.
Os dias de aula eram mais felizes para Annie do que aqueles que ela
passava diante da máquina de costura. Não muito mais felizes. Mas,
apesar de tudo, na escola a menina tinha a oportunidade de ler, que era
seu passatempo favorito. Annie lia alegremente pilhas de livros todos
os anos. Os livros de que mais gostava eram os da série “Five Little
Peppers”, que era sobre crianças pobres, mas felizes, e sobre famílias
alegres. Ela também adorava livros de aventura que se passavam em
lugares românticos e distantes, como as ilhas da Polinésia. Annie se
saía muito bem na escola: tirava boas notas em todas as matérias e
ficava sempre entre as primeiras da turma. No entanto, todas as órfãs,
inclusive ela, eram constantemente provocadas pelos outros alunos do
colégio por causa de suas roupas velhas e porque não tinham mãe, pai,
nem uma casa para morar. Quando eram levadas para a escola ou de
volta para o orfanato pela Srta. Hannigan, as meninas eram
ridicularizadas pelas outras crianças, que cantavam versinhos
grosseiros que haviam inventado:

“Órfã, órfã, ai, ai, ai, ai,


Não tem mãe, não tem pai,
Órfã, órfã, eu te digo,
Parece uma porca, parece um mendigo!”
No inverno, as outras crianças às vezes brincavam de ver quantas
órfãs conseguiam acertar com bolas de neve. E a Srta. Hannigan não
permitia que as garotas saíssem da fila para revidar as boladas. Com os
dentes cerrados, olhando para a frente, as meninas tinham que
caminhar lenta e penosamente, duas a duas, pela calçada suja de neve
derretida, e passar por grupos de crianças que riam de forma cruel e
lançavam bolas de neve.
Além disso, os professores da E.P. 62 também não eram gentis com
as meninas. Em suas turmas, as órfãs tinham que se sentar em uma
fileira especial de carteiras dispostas no fundo da sala e eram tratadas
pelos professores como se fossem crianças problemáticas, que não
deviam estar na escola. Annie tinha, inclusive, ouvido sua professora
do quinto ano, a Sra. Conklin, dizer a uma colega um dia:
— Malditas órfãs! Ficam aí, entulhando nossas salas — reclamara a
Sra. Conklin. — Sem elas, o trabalho seria fácil.
Na hora do almoço, como se tivessem alguma doença terrível que
as outras crianças poderiam pegar, as órfãs eram mandadas para uma
área especial em um canto do refeitório do colégio. Elas comiam
algum tipo de gororoba úmida, como o macarrão com queijo fornecido
para estudantes pobres pelo Comitê de Educação da Cidade de Nova
York, enquanto as outras crianças, que traziam seu almoço em
lancheiras brilhantes de metal, comiam refeições que suas mães
haviam preparado — coisas misteriosas e maravilhosas que as órfãs
sonhavam em experimentar, como sanduíches de manteiga de
amendoim e geleia, bananas, brownies de chocolate e chocolates
quentes postos em garrafas térmicas.
Durante os recreios da manhã e da tarde, que duravam meia hora,
excluídas das brincadeiras das outras crianças, as órfãs se juntavam
para brincar no pátio de concreto cercado atrás da escola. E para se
proteger dos provocadores, que, de vez em quando, decidiam que
seria divertido bater em uma delas. Contra eles, as meninas, lideradas
por Annie e Pepper, formavam uma frente unida.
— Se você encostar em qualquer uma de nós — dizia Annie, cheia
de fúria —, vamos acabar com você!
No orfanato, as meninas costumavam brigar e provocar umas às
outras, mas, na escola, mantinham-se juntas, sempre leais. E os
valentões da E.P. 62 logo acabaram aprendendo que não valia a pena
atacar as órfãs, a não ser que quisessem ficar com os olhos roxos. Na
verdade, os garotos perceberam que deviam evitar especialmente uma
briga com Annie, que podia derrubar até mesmo o maior e mais durão
dos meninos com um único soco. Por isso, depois de certo tempo, as
meninas passaram a ter paz no recreio para brincar sozinhas de pega-
pega ou de amarelinha.
Além de ler, Annie gostava muito de geografia. Ela adorava
aprender sobre regiões do mundo totalmente diferentes e que ficavam
o mais distante possível da E.P. 62, do orfanato e da St. Mark’s Place. O
país que mais adorava estudar era a Suíça, com seus lagos brilhantes e
límpidos, seus campos verdejantes e suas montanhas cobertas de
neve. Ela muitas vezes sonhava que descobria que seus pais moravam
na Suíça e que, portanto, acabava indo morar com eles em um chalé na
montanha, como uma menininha chamada Heidi, sobre a qual lera em
um livro. No entanto, enquanto pensava nas aulas de geografia diante
da janela, Annie se lembrou de uma coisa que havia acontecido na
escola no ano anterior, quando ainda estava no quinto ano. Era uma
das lembranças mais dolorosas de sua vida.
Três

Numa segunda-feira de manhã, no início de maio, a professora de


Annie, a Sra. Conklin, chegara à sala de aula com um atlas da editora
Rand McNally de trezentas e setenta e cinco páginas, lindamente
ilustrado. O livro, anunciara a Sra. Conklin, seria entregue no último
dia de aula, vinte e três de junho, para o aluno do quinto ano que
vencesse um concurso especial de soletrar que seria realizado na
manhã daquele mesmo dia. A Sra. Conklin explicara que os alunos
teriam que nomear e soletrar corretamente todos os quarenta e oito
estados dos Estados Unidos, assim como suas capitais.
— Por exemplo — dissera a Sra. Conklin, uma mulher de cabelo
grisalho e rosto sério por trás dos óculos de armação de aço. — O
primeiro estado da federação, em ordem alfabética, é o Alabama. A
maiúsculo, l, a, b, a, m, a. Alabama. A capital dele é Montgomery. M
maiúsculo, o, n, t, g, o, m, e, r, y. Montgomery. Um erro ao soletrar e o
aluno vai ser eliminado do concurso. Vamos continuar até que reste
apenas um estudante. Então ele ou ela ganhará o atlas.
De repente, Annie passou a querer ganhar o atlas da Rand McNally
mais do que qualquer coisa no mundo. A menina percebeu que, se os
pais não viessem buscá-la logo, ela teria que sair pelo mundo
procurando por eles. E ela poderia usar o atlas, com seus mapas
coloridos de todos os estados e de todos os países do mundo, para
encontrá-los. Annie não sabia exatamente como o atlas poderia ajudá-la
a achar os pais, mas sentiu que o livro com certeza a levaria até eles,
de alguma forma mágica. Por isso, nas semanas que se seguiram,
Annie passou todo tempo que pôde aprendendo os nomes dos estados
e de suas capitais e decorando sua grafia. No orfanato, no intervalo
entre o jantar e a hora de dormir, ela pedia que sua melhor amiga,
Kate, de nove anos, se sentasse com um livro de geografia e lesse os
estados para ela.
— Mississippi — dizia Kate.
— Mississippi. M maiúsculo, i, s, s, i, s, s, i, p, p, i. Mississippi —
respondia Annie. — E a capital do Mississippi é Jackson. J maiúsculo,
a, c, k, s, o, n. Jackson.
Annie e Kate estudavam sem parar até nomearem todos os quarenta
e oito estados. Todas as órfãs torciam para que Annie ganhasse o atlas.
Menos Pepper.
— Pelo amor de Deus, Annie. Você está deixando a gente maluca
com essa soletração toda noite — resmungava Pepper. — Quem liga
se você vai ganhar um atlas estúpido ou não?
Mas Annie ignorava Pepper. Depois que as luzes eram apagadas,
deitada na sua cama estreita, ela continuava a soletrar para si mesma,
caindo no sono, por fim, por volta das dez horas, enquanto tentava se
lembrar, por exemplo, se a capital da Flórida se chamava Talahasee ou
talvez Tallahasee, ou Tallahassee...
O dia do concurso finalmente chegou. Naquela manhã, Annie
marchou até a E.P. 62 com as outras órfãs, confiante de que não havia
nenhum estado nem capital dos Estados Unidos que ela não soubesse
soletrar. Como imaginara, seus principais concorrentes no concurso
seriam Philip Bissell, um pálido e fraco devorador de livros, o garoto
mais inteligente da turma, e Myrtle Vandenmeer, uma loura de olhos
verdes e nariz arrebitado, que usava um aparelho brilhante nos dentes
e era a menina mais rica e inteligente da turma de Annie. Diziam que o
pai dela era um dentista que ganhava doze mil dólares por ano! Myrtle
e os pais moravam em uma casa de ardósia de quatro andares, na St.
Mark’s Place. A menina tinha um quarto só para ela e outro de
brinquedos no último andar, cheio de bonecas e casas de bonecas,
além de um carneiro em tamanho natural, empalhado, trazido da
França. Ela usava vestidos caros, comprados pela sua mãe na Bergdorf
Goodman, uma loja da Quinta Avenida, e passava todos os verões com
os pais em um lugar chamado Cape Cod. Myrtle era a líder de um
grupo de alunas do quinto ano cujo esporte favorito era tirar sarro das
órfãs. Especialmente de Annie.
A maior fonte de humilhação para Annie na escola era o fato de ela
ser a única criança sem sobrenome. Mesmo as outras órfãs, como
Pepper, Molly e Duffy, tinham chegado ao orfanato com sobrenomes
próprios. No entanto, o bilhete de Annie não mencionava um
sobrenome. Por isso, para grande vergonha da menina, ela era
conhecida, tanto no orfanato quanto na escola, simplesmente como
Annie Órfã. Desde os primeiros dias de escola, quando as duas tinham
a Srta. Kniss como professora do maternal, Myrtle zombava de Annie
por ela não ter um sobrenome.
— Ah, olhe só quem está aqui! Annie Órfã, Annie, a pequena órfã,
que não tem nenhuma mamãe!
Se Annie tentasse revidar, Myrtle ia correndo se queixar para a
Srta. Kniss, dizendo:
— Professora, professora, a Annie Órfã tentou me bater de novo!
E, muitas vezes, era Annie que acabava tendo problemas, sendo
mandada para a sala do diretor ou obrigada a fazer dever de casa extra
por ter “maltratado” Myrtle. Enquanto isso, Myrtle, que se
comportava como um perfeito anjinho louro sempre que algum dos
professores estava por perto, reinava todos os anos como a preferida
deles. Se eu perder o concurso para alguém, pensou Annie naquela
manhã, por favor, Deus, não deixe que seja para Myrtle Vandenmeer.
O concurso de soletrar aconteceu mais ou menos como Annie
imaginou. As crianças mais burras da turma foram rapidamente
eliminadas, gaguejando ao soletrar estados como Missouri ou capitais
como Sacramento, e, minutos depois, restavam apenas cinco alunos:
Tommy Warbrick, Margaret McManiss, Philip Bissell, Myrtle e ­Annie.
Na terceira rodada, Tommy foi eliminado ao errar a grafia de
Frankfort, Kentucky. Margaret logo o seguiu ao esquecer que a capital
de New Hampshire era Concord. Por um bom tempo, enquanto Annie
enfiava as unhas nas palmas das mãos para conter o nervosismo e a
animação, os três alunos restantes — Philip, Myrtle e ela —
continuaram sem cometer erro algum, soletrando corretamente
estados difíceis como Mississippi e capitais como Annapolis. Mas
então Philip errou ao soletrar Montpelier, Vermont, e, de repente, só
restavam Myrtle e Annie na competição.
As duas meninas estavam de pé, sozinhas, na frente da turma,
enquanto a Sra. Conklin, com um livro de geografia aberto na sua
frente, ficava sentada à mesa, citando nomes em uma voz fina e
irritante. Annie percebia que estava recebendo os estados mais difíceis
para soletrar, como Minnesota e Massachusetts, enquanto Myrtle
devia soletrar estados como Texas e Ohio. Entretanto, nenhuma das
meninas cometia qualquer erro, estado após estado, e todos
começaram a pensar que o concurso terminaria empatado. Mas Myrtle
teve que soletrar Flórida.
— Flórida. F maiúsculo, l, o, acento agudo, r, i, d, a. Flórida —
enunciou a garota em sua voz musical e empolada, claramente
confiante de que iria vencer o concurso. — E a capital da Flórida é
Tallahassee. T maiúsculo, a, l, l, a, h, a, s, e, e. Tallahassee.
O rosto pálido da Sra. Conklin de repente ficou vermelho de raiva,
pois agora ela teria que enfrentar o indiscutível fato de que Myrtle — a
brilhante e rica Myrtle Vandenmeer — havia soletrado Tallahassee de
forma errada.
— Sinto muito, Myrtle, mas está incorreto — afirmou a Sra.
Conklin entre os dentes. — Pode voltar para o seu lugar.
Myrtle encarou a professora, incrivelmente surpresa. Então a raiva
a dominou.
— Isso não é justo. Isso não é justo! A Annie trapaceou! — rosnou
Myrtle, batendo os pés ao voltar para o seu lugar e chutando a cadeira
com os caros sapatos boneca antes de se sentar.
Com o coração disparado por causa de uma alegria pouco comum,
Annie ficou parada à frente da turma.
— Isso significa que eu ganhei? — perguntou ela à Sra. Conklin.
— Não, você só vai ganhar se puder soletrar corretamente a capital
que Myrtle não conseguiu — afirmou a professora, depois de hesitar
por um instante.
Ela havia mudado as regras na esperança de que o concurso
terminasse pelo menos com um empate entre Myrtle e Annie.
— Soletre Tallahassee.
Annie fechou os olhos e tentou se lembrar da grafia daquela palavra
escrita em seu livro de geografia. Aquela cidade sempre fora a que
Annie tinha mais dificuldade de lembrar.
— Tallahassee — disse Annie. — T maiúsculo, a, l, l, a, h, a... — ela
fez uma pausa por um instante e respirou fundo — ...s, s, e, e.
Tallahassee.
A Sra. Conklin olhou fixamente para Annie, com um ódio mal
disfarçado nos olhos frios e azul-claros.
— Está correto — afirmou a professora com dificuldade.
Annie abriu um enorme sorriso, enquanto as outras órfãs da turma,
inclusive Pepper e Duffy, soltavam gritos de alegria. Aquela era a
melhor sensação que a menina já havia sentido sob o teto da E.P. 62.
— Silêncio! — retrucou a Sra. Conklin.
— Vou ganhar meu atlas agora? — perguntou Annie.
— Não, o atlas vai ser entregue durante a assembleia final da escola
— explicou a Sra. Conklin. — Agora volte para o seu lugar.
Annie andou, ainda zonza com a vitória, de volta para sua carteira
nos fundos da sala. No caminho, passou por Myrtle, que sibilou:
— Órfã burra, você só teve sorte.
Mas Annie não estava ligando para as coisas maldosas que ­Myrtle
tinha a dizer. Ela havia ganhado o atlas Rand McNally!
Todos os anos, no último dia de aula na E.P. 62, os pais eram
convidados para uma assembleia da escola no auditório, onde prêmios
eram entregues aos alunos que haviam recebido honras especiais.
Naquele ano, todas as cadeiras do auditório estavam ocupadas e, na
primeira fileira, os pais de Myrtle, o Dr. e a Sra. Vandenmeer, se
ajeitavam em seus assentos, cheios de arrogância. No palco, o diretor
da escola, o Sr. Drennen, fez com que todos recitassem o juramento à
bandeira. O coral do sexto ano cantou “America the Beautiful” de
forma desafinada, e então a entrega dos prêmios começou. Com o
coração batendo a milhões de quilômetros por hora, Annie mal podia
esperar pela sua vez de subir ao palco e receber o atlas. Mais de uma
dúzia de livros, certificados e medalhas foram entregues antes de o Sr.
Drennen chamar a Sra. Conklin para apresentar o prêmio do concurso
de geografia do quinto ano. A professora correu para o palco e foi até o
pódio dos oradores, carregando o atlas. A capa luxuosa parecia quase
brilhar para Annie.
— A vencedora do concurso de geografia do quinto ano —
anunciou a Sra. Conklin com uma voz alta, oficial —, que vai receber
este lindo atlas da editora Rand McNally, é... Myrtle Vandenmeer.
Annie ficou sentada, em choque e incrédula. Parecia que tinha
levado um soco muito forte no estômago. Enquanto isso, os pais
aplaudiam ruidosamente, e Myrtle marchava a passos confiantes até o
palco para pegar o prêmio. De repente, Pepper se levantou no meio do
auditório.
— Ei, isso não é justo! A Myrtle não venceu o concurso. Foi a
Annie! — gritou.
— Calem esta menina! — berrou o Sr. Drennen.
Dois professores logo pegaram Pepper pelo colarinho da blusa e a
arrastaram para fora do auditório, enquanto a menina continuava
gritando:
— Isso não é justo! Isso não é justo!
A própria Annie ficou sentada, em silêncio, engolindo em seco,
rangendo os dentes, olhando para cima, mas sem chorar. Ela não daria
a Myrtle nem à Sra. Conklin a satisfação de vê-la aos prantos. Mas, por
dentro, a menina achou que seu coração fosse se partir enquanto
observava Myrtle descer do palco com o atlas e andar até os pais
sorridentes para ser beijada e abraçada.
Quando a assembleia chegou ao fim, Annie foi até a Sra. ­Conklin,
que estava parada ao lado do bebedouro do corredor.
— Sra. Conklin, isso não é justo. A senhora sabe que fui eu que
ganhei o concurso e deveria ter recebido o atlas — disse Annie.
Ela sabia que, se ficasse com raiva, seria mais fácil não chorar. A
Sra. Conklin lançou um olhar gélido para a menina.
— Órfãs não podem ganhar prêmios em ocasiões em que pais estão
na plateia — declarou a Sra. Conklin, dando as costas para Annie e se
afastando.
Então Myrtle Vandenmeer passou por Annie, ladeada pelos pais,
segurando com força o atlas Rand McNally nos braços.
— Ná, ná, ná, órfã burra — disse Myrtle, mostrando a língua para
Annie.
Annie não falou nada.
Tempos depois, Annie se lembraria do dia em que não ganhou o
atlas como o mais triste e amargo de toda a sua vida até aquele
momento. Mas a maioria das outras lembranças dela também era
triste. Junto à janela, ela pensou no Natal que havia acabado de passar.
Alguns dias antes do Natal, a pequena Molly se aproximara da Srta.
Hannigan e perguntara:
— Srta. Hannigan, o Papai Noel existe?
A diretora do orfanato havia encarado Molly com os olhos
arregalados por um instante, depois sorrira e respondera com
gentileza:
— Claro, querida. É claro que o Papai Noel existe.
O rosto de Molly se iluminara com um sorriso feliz.
— Mas — acrescentara a Srta. Hannigan com uma gargalhada cruel
— ele não dá presentes para órfãs ridículas como vocês!
— Ah... — respondera Molly. — Então o que a gente vai ganhar de
Natal?
— O que vocês ganharam no ano passado? — perguntara a Srta.
Hannigan.
— Nada.
— Bem, vão ganhar isso de novo — cacarejara a Srta. Hannigan.
E realmente as meninas do orfanato naquele ano também não
haviam recebido nenhum presente de Natal além dos que tinham dado
umas às outras. Na manhã de Natal, por exemplo, Annie dera a Kate
um cabide de arame moldado em forma de um anjo de Natal, e Pepper
dera a Molly um pequeno pente.
— Poxa, obrigada, Pepper. Um pente da Ace. Esse é o melhor e só
tem dois dentes faltando! — dissera Molly, agradecida.
— Ei, me deixe ver esse pente. É meu! — gritara Duffy. — ­Pepper,
sua besta! Você o roubou de mim.
— Ah, cale a boca, Duffy — rosnara Pepper.
As duas meninas então começaram uma briga com muitos puxões
de cabelo. Mais tarde, Molly havia tentado devolver o pente roubado,
mas Duffy dera de ombros e dissera que a menina podia ficar com ele.
— Tudo bem, pequena. É o seu presente de Natal. É meu... e da
Pepper — dissera Duffy.
E assim se passara outro Natal no orfanato. Sem árvore, presentes
comprados em lojas nem uma visita do Papai Noel.

•••
Annie percebeu de repente que havia passado a noite toda junto à
janela. Enquanto a neve continuava a cair, uma luz fraca começava a
aparecer no céu, acima da St. Mark’s Place. Era o primeiro dia de um
novo ano, 1933, uma época em que a maioria das pessoas olhava para o
futuro, com muita esperança nos próximos meses. Mas Annie não
podia esperar nada além da contínua vida de trabalho duro, regida pelo
punho de ferro da Srta. Hannigan. Quando fizesse dezesseis anos,
Annie seria liberada do orfanato e teria que enfrentar o mundo
sozinha. Mas ela só faria dezesseis dali a outros cinco anos. Mais cinco
anos de orfanato. Annie pensou em algo que Pepper havia lhe dito
alguns dias antes, depois que ela comentara que logo seus pais viriam
buscá-la para levá-la para casa.
— Sua burra! — dissera Pepper. — Seus pais nunca vão vir buscar
você.
Annie percebia agora que Pepper estava certa. Se seu pai e sua mãe
não haviam aparecido no orfanato depois de todos aqueles anos, ela
tinha que encarar a realidade de que eles não viriam buscá-la. Nunca.
Por isso ela teria que ir procurar por eles.
— É isso — sussurrou Annie, determinada, para si mesma. —
Tenho que encontrar os dois, sair daqui... fugir.
Isso, decidiu ela, vou fugir! Quando? Agora mesmo!
Quatro

Annie voltou na ponta dos pés para sua cama e, à luz pálida do
amanhecer, tirou depressa a camisola e se vestiu com as roupas mais
quentes que tinha para enfrentar o dia frio que a esperava fora do
orfanato. Ela não tinha um casaco de inverno, é claro, por isso teria
que se virar com o suéter castanho-avermelhado de lã que usava todos
os dias para ir à escola. Annie pegou a cesta de vime debaixo de sua
cama e em um instante a encheu com seus parcos pertences —
algumas calcinhas, meias e outro vestido. Conferiu se havia guardado
o medalhão e o bilhete e, pegando a cesta, se virou para ir embora. No
entanto, na pressa, bateu a cesta na cabeceira de ferro, e o barulho alto
acordou várias das meninas nas camas próximas à dela.
— O que foi agora? — resmungou Pepper.
— Annie, o que você está fazendo? — perguntou Kate.
— Fugindo — respondeu ela.
— Ai, meu Deus! — choramingou Tessie.
— Agora eu sei que meus pais nunca vão voltar para me buscar —
afirmou Annie, a cesta pendurada no braço, pronta para ir embora. —
Então tenho que ir encontrar os dois.
— Annie, você é maluca — disse July. — A Srta. Hannigan vai pegar
você.
— Não me importo. Vou embora daqui. E estou pronta. Vou agora.
Desejem-me sorte.
Todas as órfãs — menos Pepper, que balançava a cabeça, indignada
— sussurraram um adeus, bem baixinho.
— Boa sorte, Annie!
— Vamos sentir sua falta!
Ao olhar para trás, Annie viu que Molly estava se sentando na cama.
Tinha a cabeça baixa e os grandes olhos escuros cheios de lágrimas.
Annie foi até ela e deu um beijo na menina.
— Tchau, Molly — disse Annie, com gentileza, abraçando a amiga.
— Quando eu encontrar meus pais, vou voltar para buscar você e
vamos morar todos juntos: você, eu e meus pais.
— Você promete, Annie? — perguntou Molly.
— Prometo.
— Está bem, Annie. Tchau. Eu amo você.
Enquanto as outras meninas se ajoelhavam nas camas e
observavam sua partida, Annie andou na ponta dos pés até a escada
que levava do dormitório ao saguão do instituto. Ela parou para ver se
escutava a Srta. Hannigan. Mas tudo estava em silêncio no primeiro
andar do orfanato.
— Certo, lá vou eu — disse, dando um último aceno para as amigas.
— Até mais, sua besta — sussurrou Pepper. — E boa sorte.
A escada rangia conforme Annie a descia lentamente, na ponta dos
pés, um degrau de cada vez. Parecia que a menina estava levando
horas só para descer um lance de escada. Em algum lugar, do lado de
fora, uma buzina soou. Annie finalmente chegou ao fim da escada. A
grande porta de carvalho que levava à liberdade — e talvez a seus pais
— estava a apenas quatro passos de distância. Um passo. Dois passos.
Três passos. Ela estendeu a mão para girar a maçaneta.
— Arrá! Peguei você! — gritou a Srta. Hannigan, pulando de trás da
escada, agarrando Annie pela gola da blusa e jogando a menina com
violência no chão. — Eu ouvi você, sua órfã ridícula. Eu sempre ouço
você! Agora levante-se! Levante-se!
— Sim, Srta. Hannigan — respondeu Annie, levantando-se com
cautela.
Ela viu que a Srta. Hannigan, usando um velho roupão de flanela
cor de pêssego, carregava a pesada palmatória de carvalho que usava
para bater nas órfãs regularmente.
Annie e a Srta. Hannigan se encararam.
— Vire-se — ordenou a Srta. Hannigan.
Mas Annie não se mexeu.
— Eu mandei você se virar! — berrou a mulher.
Da maneira mais lenta que podia, Annie se virou, e a Srta. ­Hannigan
bateu no bumbum dela doze dolorosas vezes com a pesada palmatória.
Mas Annie não chorou nem se esquivou. O grande orgulho e o ódio
que sentia da Srta. Hannigan a haviam deixado imune, com o passar
dos anos, aos espancamentos.
— Pronto! — exclamou a Srta. Hannigan, respirando ofegante e
fedendo a uísque de centeio. — E agora? O que tem a dizer?
Annie não falou nada, apesar de saber o que deveria dizer: a frase
que a Srta. Hannigan obrigava as órfãs a repetir toda manhã.
— O que tem a dizer? — repetiu a Srta. Hannigan.
— Eu amo você, Srta. Hannigan — disse Annie entre os dentes.
— Órfã ridícula! — rosnou a Srta. Hannigan.
— Eu não sou órfã! — gritou Annie. — Meus pais deixaram um
bilhete dizendo que me amavam e que voltariam para me buscar!
— É, isso foi em 1922 — respondeu a Srta. Hannigan com uma
risada cruel. — E estamos em 1933. Eles devem ter ficado presos no
trânsito. Agora pegue essas suas malditas coisas e volte lá para cima.
— Está bem, Srta. Hannigan.
Annie pegou a cesta e, aos tropeços, derrotada, voltou para o
dormitório, onde as outras órfãs, que haviam ouvido tudo que
acontecera no andar de baixo, se escondiam sob as cobertas. Sozinha,
ao pé da escada, a Srta. Hannigan tomou um longo gole de uísque da
garrafa que guardava no bolso do roupão e seguiu Annie até o
segundo andar. Entrando tempestuosamente no dormitório, a Srta.
Hannigan acendeu as luzes, assoprou o apito policial que estava
sempre pendurado no seu pescoço e berrou para as crianças:
— Vocês aí! Acordem, acordem!
— Está bem, Srta. Hannigan — responderam as órfãs, suspirando
enquanto se levantavam e iam formar uma fila ao pé das camas.
Elas tremiam em suas finas camisolas de algodão e de pés
descalços no chão de madeira gelado.
— Certo. Por causa da travessura dessa aqui — disse a Srta.
Hannigan, apontando um dedo ossudo para Annie —, vocês vão
continuar acordadas e terão que esfregar bem esse chão.
— Mas são cinco horas da manhã — choramingou Tessie.
— Eu sei — respondeu a Srta. Hannigan com uma risada maldosa.
— E vocês vão ficar de joelhinhos e limpar essa nojeira até o chão
brilhar igual ao topo do Edifício Chrysler. Comecem a trabalhar!
— Está bem, Srta. Hannigan — disseram as órfãs.
De ombros caídos, as meninas seguiram em fila até o armário do
canto do cômodo para pegar os baldes e as escovas com os quais
limpavam o chão do dormitório várias vezes por semana.
— Por que uma criança iria querer ser órfã, eu nunca vou entender
— murmurou a Srta. Hannigan para si mesma ao descer a escada para
começar a cozinhar o mingau do café da manhã das garotas.
— Meninas, me desculpem — pediu Annie, enquanto as garotas
faziam fila em frente à pia para encher os baldes na torneira.
— É, desculpas... Isso ajuda muito — resmungou Pepper. — Você e
suas ideias estúpidas. Fugir, fazer a gente ficar de castigo...
— Tudo bem. Não é culpa sua, Annie — afirmou Kate.
— E, bem, você ainda está aqui — disse Molly com um sorriso
alegre. — Por isso não me importo de esfregar o chão.
— Obrigada, Molly — respondeu Annie. — E, meninas, feliz ano-
novo!
— É, que ano-novo feliz — murmurou Pepper, enquanto as órfãs se
ajoelhavam e começavam o pesado trabalho de esfregar o chão frio do
dormitório.
— Que droga de vida fedorenta... — disse Duffy.
Enquanto as órfãs trabalhavam, a neve parou de cair do lado de fora
e um sol pálido de inverno surgiu sobre a St. Mark’s Place. O dia
nasceu, e um novo ano começou no orfanato. Esfregando, de quatro,
Annie concordou com as reclamações das outras órfãs. Era verdade:
as meninas viviam uma vida sem alegria, que se estendia diante delas
como uma sentença à prisão perpétua. Então Annie se sentiu mais
determinada do que nunca a fugir do orfanato. Ela tinha falhado na
primeira tentativa, mas não falharia na seguinte.
— Vou embora daqui — disse Annie para si mesma. — Vou, vou
mesmo, assim que tiver uma chance.
E Annie teve sua chance duas manhãs depois, pouco antes de a
Srta. Hannigan levar as crianças à escola, quando o funcionário da
lavanderia — um gordinho desajeitado chamado Bundles ­McCloskey
— apareceu no orfanato.
— Bom dia, crianças. Aqui temos lençóis limpos uma vez por mês,
quer queiram ou não.
Bundles riu, tirando uma enorme trouxa de lençóis limpos do
caminhão que havia estacionado à porta do orfanato.
Sempre que Bundles entregava a roupa limpa, as órfãs tinham que
tirar os lençóis e as fronhas sujos das camas e colocá-los em um
grande saco da lavanderia, para que o homem os levasse embora.
Quando as meninas começaram a tirar os lençóis, Annie teve uma
ideia. Depressa, contou às outras órfãs o que tinha em mente: ela
entraria no saco junto com os lençóis sujos, e Pepper e Duffy o
carregariam para fora e o colocariam na traseira do caminhão para
Bundles. Lá embaixo, no saguão, Bundles tagarelava com a Srta.
Hannigan, o que deu a Annie tempo suficiente para vestir o suéter e
entrar no saco de roupa suja carregando a cesta de vime onde
guardava seus pertences. Pepper e Duffy ergueram a sacola resistente
e a carregaram até o saguão.
— Vamos colocar o saco no caminhão para você, Bundles —
ofereceu Pepper.
— Está bem. Obrigado, meninas — respondeu ele.
— Ah, não vão, não — rosnou a Srta. Hannigan. — Vocês não estão
aqui para fazer o trabalho dele. Agora leve logo essa droga de roupa
suja daqui, Bundles.
— Está bem, linda, vamos fazer do seu jeito — disse ele, bondoso,
erguendo a sacola, com Annie dentro, até o ombro. — Nossa. Ou estou
ficando mais fraco com a idade ou esses lençóis de vocês estão ficando
mais pesados a cada mês.
Ainda bem que Bundles é burro, pensou Annie, dentro do saco de
roupa suja, tentando não se mexer e com o coração disparado de medo
e animação. Mas é claro que a Srta. Hannigan não era burra e, a
qualquer momento, Annie sabia que ela poderia descobrir o que estava
acontecendo e tentar impedir Bundles. A menina ouviu Pepper dizer:
— Bem, pelo menos podemos abrir a porta para você.
Depois, sentiu uma rajada repentina de ar frio enquanto Bundles
descia a escada da frente e se aproximava do caminhão. Annie
percebeu que o saco estava sendo jogado na carroceria e ouviu a porta
traseira do caminhão bater atrás dela. Até ali, tudo bem. Pelo menos
ela havia conseguido sair a salvo do orfanato e entrar no caminhão,
bem debaixo do nariz da Srta. Hannigan! Annie prendeu a respiração e
rezou quando ouviu Bundles tentar dar partida no velho caminhão
naquela manhã fria de janeiro. O motor tossiu e resmungou, mas não
ligou. Então, quase perdendo as esperanças, Annie ouviu a Srta.
Hannigan gritar da porta:
— Bundles, Bundles, espere, não vá!
Claramente, a Srta. Hannigan havia descoberto que ela
desaparecera, pensou Annie, e percebera que estava no saco de roupa
suja. A menina ouviu os passos da diretora descendo a escadaria e indo
até o caminhão.
— Seu idiota, você não me deu o recibo da roupa suja que levou —
disse a Srta. Hannigan a Bundles.
— Ah, é, me desculpe, Aggie — pediu Bundles.
Depois de alguns instantes, Annie pôde ouvir os passos da Srta.
Hannigan voltando para a escadaria do orfanato, e Bundles tentou
mais uma vez dar a partida no caminhão.
— Ufa — disse Annie para si mesma. — Eu tinha certeza de que ela
tinha vindo me buscar.
De repente, o motor de Bundles ligou, fazendo um ruído alto, e o
caminhão partiu, sacudindo pela rua. Annie havia fugido!
Alguns minutos depois, no orfanato, como uma carcereira, a Srta.
Hannigan alinhava e contava as meninas para a ida à escola, como fazia
todas as manhãs de forma a garantir que estavam todas ali.
— Quatorze, quinze, dezesseis... — contou a Srta. Hannigan. —
Esperem um pouco. Annie... Cadê a Annie?
As órfãs responderam em um coro de vozes doces e angelicais:
— A Annie não está aqui, Srta. Hannigan.
— Como assim “A Annie não está aqui”?
— Ela foi embora — disse Pepper. — Com o Sr. Bundles.
— No saco de roupa suja — acrescentou Duffy.
— O quê? A Annie foi embora? — gritou a Srta. Hannigan.
Soprando o apito, ela saiu correndo pela porta do orfanato e desceu
a rua, gritando:
— Bundles, volte aqui! Polícia! Polícia!
Mas Bundles e seu caminhão já estavam a muitas quadras dali, e
Annie havia fugido. Enquanto observavam a Srta. Hannigan correr
feito uma louca pela rua, totalmente fora de controle, as órfãs gritavam
de alegria:
— Viva! Essa droga de vida fedorenta acabou para Annie! —
exclamou Kate.
E por mais que soubessem que seriam punidas por ajudar Annie a
fugir, todas gritaram e dançaram de felicidade. Todas, menos Molly,
que ficou parada à porta da frente, com o nariz encostado na vidraça
gelada, lágrimas escorrendo pelas bochechas. Annie tinha ido embora.

•••
Na carroceria do caminhão, Annie ficou encolhida dentro do saco de
roupa suja, sem se mexer, por cerca de cinco minutos, esperando que
o caminhão estivesse longe o bastante do orfanato para poder fugir.
Então saiu da sacola sufocante e ficou de pé na carroceria escura,
enquanto o caminhão se sacudia pela rua esburacada. Depois de certo
tempo, o veículo parou repentinamente por causa de um sinal
vermelho, e Annie abriu um pouco a porta traseira e deu uma espiada
no lado de fora. O caminhão havia parado na esquina da Terceira
Avenida com a rua Quatorze. Depressa, Annie pulou para fora, bateu a
porta do caminhão ao sair e correu pela rua, desaparecendo em um
segundo na multidão que percorria as calçadas que levavam à Union
Square. Ela estava livre. Livre — mas sozinha, sem dinheiro e sem
lugar para morar, no meio de Nova York, em uma manhã fria de
janeiro. Mesmo assim, pensou Annie, aninhando-se ainda mais no
suéter enquanto o vento frio soprava, pelo menos ela havia começado a
busca pelos seus pais desaparecidos.

•••
Quando morava no orfanato, Annie aprendera que Nova York — e
todos os Estados Unidos — estava em meio a uma coisa chamada
Depressão. Mas Annie não sabia que a Depressão era o pior desastre
econômico da história do país. Em 1933, a população dos Estados
Unidos era de cerca de cem milhões, e mais de quinze milhões de
americanos estavam desempregados. E outros milhões estavam sem
dinheiro, desabrigados e praticamente passando fome. Para piorar, a
Depressão havia atingido Nova York com mais força do que qualquer
outro lugar. Em Nova York, uma em cada três pessoas estava
desempregada, e mesmo aqueles que tinham empregos ganhavam o
mínimo suficiente para sobreviver. Por causa da quebra da Bolsa de
Valores de Wall Street em 1929, que havia iniciado a Depressão,
dezenas de milhares dos empresários, banqueiros e corretores mais
ricos dos Estados Unidos tinham declarado falência quase da noite
para o dia. E, naquele inverno amargamente frio de 1933, quando a
Depressão chegava ao seu auge, homens que haviam sido presidentes
de bancos trabalhavam como vendedores de lojas de sapato ou
vendiam maçãs nas esquinas de Nova York. Em novembro de 1932, os
eleitores dos Estados Unidos haviam escolhido um novo presidente,
Franklin D. Roosevelt, que prometera fazer algo para acabar com a
Depressão. Mas, em janeiro de 1933, Roosevelt ainda não tinha
assumido, e o presidente Hoover, que parecia não ser capaz de
resolver a situação, continuava na Casa Branca. Era o colapso da vida
americana. Não parecia haver esperança para nada. Por isso, naquele
dia de janeiro, tremendo, sozinha na rua Quatorze, Annie estava, em
todos os sentidos, jogada na sarjeta de um mundo cheio de sarjetas.
Durante horas, Annie andou sem destino pelas calçadas geladas de
Nova York, sem saber por onde começar a procurar por seus pais. De
tempos em tempos, ela parava um passante, puxava a manga da camisa
dele e, olhando para cima, perguntava:
— Ei, moço, alguém que o senhor conhece deixou uma filha
chamada Annie em um orfanato onze anos atrás?
Mas todos a quem perguntava simplesmente olhavam para a
menina como se ela fosse maluca e lhe davam as costas ou
resmungavam:
— Não, garota.
Depois, empurravam-na para o lado e se misturavam depressa à
multidão.
No fim da tarde, quando o sol começou a se pôr sobre o rio ­Hudson
congelado, o vento aumentou e a temperatura caiu ainda mais,
chegando a nove graus negativos. Com apenas o suéter para protegê-la
do frio, os dentes de Annie começaram a bater, fazendo barulho, e ela
parou por um instante para se juntar a um grupo de vendedores de
maçã que haviam se reunido em torno de uma pequena fogueira feita
numa lata de lixo. Ela abriu caminho até se aproximar da lata e,
esfregando as mãos, se aqueceu com as chamas tremulantes. Após se
esquentar, Annie percebeu que não tinha comido nada o dia todo e que
estava morrendo de fome.
— Ei, moço — disse para um dos vendedores de maçã. — O senhor
não poderia doar uma maçã para o piquenique das órfãs?
— Claro, garota, por que não? Ninguém está comprando nenhuma
mesmo! — afirmou o vendedor.
— Poxa, obrigada, moço — respondeu Annie quando ele entregou
uma grande maçã vermelha a ela.
— Ô, menina, quando é esse piquenique das órfãs? — perguntou o
vendedor.
— Assim que eu der uma mordida nessa maçã — disse Annie com
um sorriso alegre, e em seguida cravou os dentes na fruta fria, mas
suculenta.
— Crianças... — murmurou o vendedor, balançando a cabeça. —
Não dá para confiar em ninguém hoje em dia.

•••
A noite chegou à cidade fria e, para tentar se manter aquecida, Annie
continuou caminhando, quadra após quadra, agora na direção norte.
Na esquina da Sétima Avenida com a rua Trinta e Três, ela chegou a
uma enorme estrutura, construída com pilares, que parecia um
museu, mas na verdade era uma estação de trem: a Pennsylvania
Station. Seguindo a multidão que fluía para dentro da estação, Annie
entrou no prédio e ficou sentada por um tempo na sala de espera
deliciosamente aquecida. Olhando em volta, para os maltrapilhos
agrupados nos bancos em torno dela, Annie percebeu que a maioria
deles, assim como ela, estava desabrigada. Talvez eu passe a noite
aqui, pensou Annie, mas, então, um grande e gordo policial irlandês
entrou na estação e mandou que todos que não pudessem provar que
tinham passagens de trem saíssem. Assim, Annie se viu mais uma vez
do lado de fora, na fria noite nova-iorquina, percorrendo calçadas que
começavam a ficar cada vez mais desertas. De tempos em tempos, ela
passava por uma barraca de cachorro-quente, e o cheiro das salsichas
cozinhando na grelha fazia a menina perceber que estava faminta. Uma
maçã por dia mantém uma pessoa sadia, pensou Annie, mas com
certeza não é o bastante para alguém sobreviver. Entretanto, por mais
que estivesse com fome, Annie não parava de dizer a si mesma:
— Estou feliz por não estar no orfanato. Estou, estou sim.
Por fim, perto das dez da noite, cansada por ter andado por toda a
cidade desde as oito da manhã, Annie se abrigou do frio na entrada de
um prédio, se encolheu em um dos cantos da porta e ­enrolou ainda
mais o suéter em volta do corpo. O vento aumentou e a temperatura
caiu. As luzes iam se apagando em toda a cidade. Annie pensou nas
crianças no orfanato e em todas as outras pessoas de Nova York.
Estavam em um lugar seguro, deitando-se em camas quentes. Ela
havia lido uma vez em um livro na escola que qualquer pessoa que
dorme ao ar livre quando a temperatura está abaixo de zero morre
congelada. E a temperatura naquele momento com certeza estava
abaixo de zero.
— Não posso dormir, não posso — murmurou Annie.
Mas, logo, apesar da fome e do frio, ela caiu em um sono profundo.
Annie sonhou que estava em uma cozinha quente, à mesa com seu pai
e sua mãe, e que a mãe lhe servia uma xícara de chocolate quente e
uma enorme pilha de panquecas cobertas de xarope de bordo.
Dormindo, encostada àquela porta, a menina de onze anos não tinha
como saber que realmente corria o risco de morrer congelada.
Cinco

—Ei, garota, acorde. Acorde!


No sonho de Annie, a mãe dela havia se transformado de repente na
Srta. Hannigan, que começara a sacudi-la pelos ombros. No entanto,
quando abriu os olhos, ela se pegou olhando para o rosto
excessivamente maquiado de uma senhora gordinha de cabelo louro
pintado e cerca de quarenta anos. A mulher a sacudia com força. Eram
quase onze da noite, e Annie tinha dormido por quase uma hora,
encostada à porta.
— Pelo amor de Deus, menina, você pode morrer de frio aqui fora.
O que está fazendo dormindo aí? — perguntou a mulher.
— Eu... eu não tinha onde dormir. Não tenho casa — respondeu
Annie, levantando-se, ainda grogue de sono.
— Ah, é? Então é melhor vir comigo para minha casa — afirmou a
mulher, que estava enrolada em um casaco barato, mas quente, de pele
cinzenta.
A mulher, que disse se chamar Gert Bixby, pegou Annie pela mão e
a arrastou pelas ruas gélidas na direção oeste, a mesma do rio
Hudson. Gert Bixby fora assistir a um filme na última sessão do
cinema e voltava correndo para casa quando viu, por acaso, Annie
encolhida à porta. Apesar de não ser normalmente a mulher mais
carinhosa do mundo, ela sentira pena da criança adormecida.
— Vamos, vamos, rápido, senão nós duas vamos congelar até a
morte — avisou Gert.
Diante delas, na esquina da Décima Segunda Avenida e da rua
Quarenta e Cinco, às margens do rio, Annie viu uma placa de neon
vermelho piscando, em que se lia Cantina Bixby.
— Minha casa é aqui — afirmou Gert, quando chegaram à cantina e
saíram do frio para entrar no calor vaporoso do restaurante à beira do
rio.
Bem-iluminada e cheirando a comida gordurosa, a Cantina ­Bixby
era composta por um balcão de madeira arranhada com cerca de doze
bancos e meia dúzia de mesas com bancos de couro falso. O lugar
estava quase vazio. Dois estivadores bebiam café em uma das mesas, e
um homem gordo, careca e de rosto vermelho lia o Daily News atrás
do balcão. Annie descobriu que esse era o marido de Gert, Fred Bixby.
— Quem diabo é essa aí com você? — perguntou Fred com uma
careta, enxugando as mãos no avental branco manchado enquanto
indicava Annie com a cabeça.
— Uma criança que achei dormindo no frio. Ela não tem lugar para
ficar — disse Gert, tirando o casaco de pele e se virando para Annie.
— Então, qual é o seu nome, garota?
— Annie — respondeu ela, ainda tremendo de frio, apesar de suas
bochechas e seus dedos estarem ardendo, de forma dolorosa, por
causa do calor repentino da cantina.
— Está com fome, Annie? — perguntou Gert.
— Bem...
— Sente-se aí no balcão que o Fred vai servir um prato de feijão
para você. Não é, Fred?
— O que é isso agora? Damos comida de graça para vagabundos?
— resmungou Fred. — Não vou...
— Cale a boca, Fred, e dê um pouco de feijão à menina — retrucou
Gert.
— Aaaaahh! — exclamou Fred.
No entanto, ele encheu uma bela tigela com feijões marronzinhos
que tirou da panela e a pôs no balcão na frente de Annie, que engoliu
tudo depressa, até o último carocinho. Os feijões estavam murchos e
levemente rançosos, porém eram mais saborosos do que qualquer
coisa que Annie já havia comido. A Cantina Bixby não é um lugar
muito agradável, pensou ela, e Gert e Fred Bixby também não
parecem muito simpáticos, mas, pelo menos, disse ela a si mesma, não
estou no frio e comi alguma coisa.
Annie logo ficou sabendo que Fred e Gert gerenciavam a cantina
juntos, dividiam igualmente as tarefas e moravam nos fundos, em um
pequeno apartamento de dois quartos muito entulhado de coisas. Os
negócios iam mal para os Bixby. Por causa da Depressão, havia gente
demais que não podia pagar dez centavos por uma rosquinha e uma
xícara de café. Apesar de tudo, Fred e Gert conseguiam se sustentar
com a cantina, contanto que fizessem todo o trabalho sozinhos. Por
isso, Fred trabalhava como balconista, cozinheiro e lavador de pratos,
enquanto Gert era a caixa e a única garçonete. No entanto, apesar de
se virarem, os dois não estavam nem um pouco felizes com seu
destino. Os passatempos favoritos de Fred eram beber, apostar em
cavalos e dormir, mas ele não tinha muitas oportunidades de se
paparicar, pois a cantina abria às sete da manhã e não fechava até meia-
noite. Gert adorava ir ao cinema, mas Fred só dava folga a ela uma vez
a cada duas semanas. Para a sorte de Annie, aquela havia sido a noite
de folga de Gert. Ela voltava para casa depois de ver Joan Crawford em
Amor de Dançarina quando notara Annie dormindo à porta.
Vendo que Annie ainda estava com fome, Gert foi para trás do
balcão e, ignorando os olhares raivosos de Fred, serviu um pedaço de
torta de maçã e uma xícara de chocolate quente para a menina.
— Poxa, obrigada, Sra. Bixby — agradeceu Annie, atacando a torta
com vontade.
Enquanto Annie comia, Gert carregou Fred para o apartamento nos
fundos, e a menina conseguiu ouvir apenas fragmentos da conversa
acalorada dos dois. Alguns minutos depois, quando voltou com Gert,
Fred sorriu para Annie pela primeira vez desde que a menina entrara
na cantina. Era um sorriso torto, com dentes faltando.
— Bem, garota, você não tem onde ficar. O que acharia de ficar aqui
com a gente então? — perguntou Fred com uma gentileza
escorregadia, inclinando-se para dar tapinhas na cabeça de Annie.
— Aqui? — indagou ela.
A menina não conseguia entender a repentina mudança na atitude
do Sr. Bixby. Além disso, ela notou que a alteração não se refletia nos
olhos frios e astutos dele.
— É, aqui — disse Fred. — Não temos mais espaço no nosso
apartamento, mas tem um aquecedor no porão. É bem quente e tem
uma cama dobrável lá. Podemos lhe arranjar alguns cobertores, e
assim você vai ficar quentinha como um carvão lá embaixo.
— Poxa, eu não sei, moço — hesitou Annie. — Eu...
— Escute, Annie, o que você vai fazer? Dormir lá fora no frio? —
arriscou Gert. — Vamos dar a você um lugar para dormir, comida de
graça e talvez você possa fazer alguns serviços para a gente.
— Puxa... Tudo bem — respondeu Annie.
Logo depois ela se viu sendo levada por Gert até a pequena cama
dobrável do porão. O cômodo sem janela não era muito maior do que
um armário, mas ainda assim era quente e aconchegante. Em alguns
minutos, depois que Gert desligou as luzes e voltou para o andar de
cima, Annie caiu em um sono profundo.
Mais cedo, enquanto a órfã comia a torta de maçã no balcão, Gert
tentava convencer Fred, no apartamento, de que encontrar a criança
perdida podia ter sido uma grande sorte para os dois.
— Você não viu que ela é forte como um touro? — perguntara Gert.
— A gente pode manter a menina aqui, o que vai custar só alguns
centavos a mais por dia de comida, mas vamos ter uma garçonete de
graça, uma lavadora de pratos de graça e uma faxineira para arrumar o
lugar de graça.
— Hum, é verdade. Não tinha pensado nisso — respondera Fred.
— Mas, bem, a criança deve ser de algum lugar. Não queremos ter
problemas com a polícia.
— Que nada, ela fugiu de algum lugar. Provavelmente tinha pais
que batiam nela — afirmara Gert. — E ninguém nunca vai achar a
garota aqui. Se alguém fizer alguma pergunta, vamos simplesmente
dizer que ela é nossa sobrinha que veio de Cleveland morar com a
gente.
— É — concordara Fred, gostando mais da ideia. — Sabe, Gert, às
vezes você não é tão burra quanto parece.
E foi quando Fred foi até o balcão e de repente se mostrou amistoso
com Annie.

•••
Uma luz foi acesa na sala do aquecedor. Mais uma vez, alguém sacudia
Annie com força para acordá-la. Era Fred Bixby.
— Vamos, garota, você não pode dormir até o meio-dia aqui. São
seis e meia. Acorde para a vida — rosnou Fred. — Se vai ficar aqui,
tem que trabalhar para pagar pela estadia.
— Sim, senhor — disse Annie, levantando-se ainda zonza da cama.
Por um instante, ela não se lembrou de onde estava.
Pouco depois, já no andar de cima, Annie foi vestida com um
uniforme verde-escuro de garçonete que chegava quase a seus
tornozelos.
— O que você quer fazer primeiro? — perguntou Gert.
— Não sei — respondeu Annie.
— Bem, por que não começa limpando todas as janelas daqui?
— Sim, senhora.
Mais tarde, depois que a menina havia terminado com as janelas,
Fred ensinou Annie a fazer café em uma enorme cafeteira que ficava
atrás do balcão, além de mostrar como a máquina registradora
funcionava. Durante o dia todo, das sete da manhã até a meia-noite,
quando as portas foram finalmente trancadas e a placa de neon,
desligada, Annie trabalhou na cantina: limpou o chão, lavou panelas e
frigideiras, limpou a grelha gordurosa, serviu no balcão e correu para
atender os clientes nas mesas. No fim do dia, Annie estava tão cansada
que caiu no sono no momento em que se deitou na cama dobrável do
porão, ainda com um dos sapatos no pé. Apenas para ser acordada e
começar tudo de novo às seis e meia da manhã seguinte.
Conforme os dias frios de janeiro passavam, Annie só deixava a
cantina e respirava ar fresco quando carregava sacos de lixo para o
beco dos fundos da loja. Na cantina, ela passava a maior parte do
tempo aprendendo a arte culinária dos pedidos rápidos com Fred. Ela
aprendeu a fazer batatas fritas caseiras, omeletes e ensopados
compostos por sobras de comida, a grelhar salsichas e hambúrgueres,
a preparar feijões à moda de Boston e a misturar porções de salada de
frango, atum e ovo. Na verdade, depois de algumas semanas, Annie já
era uma cozinheira de pratos simples melhor do que Fred jamais seria,
por isso ele abriu espaço para que a menina controlasse a cozinha. E, é
claro, ficou encantado com o fato de ela ter assumido essa função.
Afinal, com Annie atrás do balcão, Fred estava livre para passar boa
parte dos seus dias ficando absolutamente bêbado em um bar próximo
dali, chamado McGuire’s.
Apesar de ter mais trabalho quando Fred não estava por perto para
ajudar, Annie ficava muito mais feliz na cantina quando o Sr. Bixby
estava no fim da rua, no McGuire’s, pois ele a assustava terrivelmente.
— Olhe aqui, garota, eu sei que você fugiu de algum lugar —
dissera Fred para ela um dia, pouco depois de ela ter chegado à
cantina —, mas, se tentar fugir daqui e eu pegar você, prometo, eu vou
bater tanto em você com aquele cinto que não vai se esquecer da dor
até o resto dos seus dias.
Por isso, apesar de pensar frequentemente em fugir da cantina, ela
tinha medo de que, se fizesse isso, Fred a pegasse e a espancasse com
muito mais força do que a Srta. Hannigan jamais havia feito. Além
disso, o dia que passara sozinha em Nova York no inverno a fizera
perceber que, até que a primavera chegasse, era mais inteligente ficar
quentinha e comer regularmente dentro de algum lugar do que
congelar e morrer de fome do lado de fora. Não importava quanto ela
teria que trabalhar.
Annie também ficava mais feliz na cantina nas muitas noites em que
Gert Bixby ia ao cinema. Isso porque, agora que Annie estava
disponível para atender todos os clientes, Gert passara a ir ao cinema
três ou quatro noites por semana. No entanto, durante o dia, a Sra.
Bixby estava sempre por perto. Ela ficava sentada de manhã até a noite
em um banquinho próximo à caixa registradora, de onde, mascando
vigorosamente bolas enormes de chiclete, ouvia rádio enquanto lia
incontáveis revistas sobre cinema. Gert raramente tirava os olhos das
revistas, a não ser para fechar uma conta ou latir ordens para Annie.
— Pelo amor de Deus, Annie, você é cega? — reclamava ela. — Os
clientes da mesa três ainda não foram atendidos!
(E os clientes estavam apenas tirando os casacos.)
Ou então:
— Não fique aí parada o dia inteiro, Annie, limpe o balcão para
aquele homem.
E até quando não havia clientes na cantina e Annie se sentava por
um instante para respirar, Gert enchia a paciência da menina.
— Vamos, Annie, levante esse traseiro daí. Os açucareiros precisam
ser enchidos.
Por isso as noites de Gert no cinema significavam quase uma folga
para Annie, especialmente quando Fred também ia para o McGuire’s.
Na verdade, os únicos momentos felizes de Annie na cantina eram
quando ela era deixada sozinha pelos Bixby para gerenciar o lugar por
conta própria. Os clientes eram grosseiros e barulhentos, mas
simpáticos. Eram estivadores que trabalhavam nas docas do West
Side, marinheiros que haviam aportado na cidade e clientes regulares
da vizinhança, como Vinnie e Doug, que trabalhavam no posto de
gasolina próximo dali. A notícia de que alguém estava cozinhando
muito bem na Cantina Bixby se espalhara pelo West Side, então, todo
mundo estava correndo para o restaurante para comer uma omelete ou
uma tigela de ensopado de Annie. A clientela do almoço havia dobrado,
e o volume de clientes do jantar também aumentara
consideravelmente, para a felicidade dos Bixby.
— Essa criança é uma joia e não podemos deixar que fuja da gente
— dissera Fred a Gert.
Os clientes também gostavam de Annie, pois a menina sempre os
cumprimentava com um sorriso e um alegre “Como o senhor está
hoje?”.
— Sabe de uma coisa, Annie? — brincava Vinnie. — Quando você
crescer, vou me casar com você. Só para você cozinhar para mim.
— É — dizia Doug. — O Rockefeller pode ter os barris de dinheiro
dele. A gente tem a Annie.
Aqueles momentos adquiriam certa suavidade para Annie quando
Fred e Gert saíam e apenas os clientes regulares ficavam por perto.
Pessoas como Vinnie e Doug eram os primeiros adultos a serem
gentis com ela. Mesmo assim, Annie sonhava em fugir da labuta da
cantina e, às vezes, quando se deitava em sua cama dobrável antes de
dormir, ela se perguntava se não estaria melhor se nunca tivesse
fugido da Srta. Hannigan e do orfanato.
Mesmo que os dias que passava na escola não fossem felizes, ela
sentia falta da E.P. 62 e da oportunidade de ler e de aprender. Estava
com medo de perder toda a segunda metade do sexto ano. Mas vou
voltar para a escola no próximo outono, prometia Annie a si mesma, de
um jeito ou de outro, aconteça o que acontecer. Trabalhar na cantina
também não a deixava mais perto de encontrar seus pais, refletia ela,
com tristeza, e, afinal, essa fora a razão para a menina ter fugido do
orfanato. É claro, os Bixby haviam permitido que ela pusesse um
bilhete escrito à mão ao lado da caixa registradora que dizia: “Quem
quer que conheça alguém que tenha deixado um bebê chamado Annie
em um orfanato de Nova York onze anos atrás, por favor entre em
contato com a menina atrás do balcão. Annie.” Mas ninguém fora falar
com ela. Além disso, sempre que um cliente que entrava na cantina se
parecia minimamente com alguém que poderia ser o pai dela, Annie ia
até ele e dizia:
— Desculpe-me, mas por acaso o senhor deixou um bebê chamado
Annie em um orfanato alguns anos atrás?
Mas a resposta era sempre “não”.

•••
Os dias na cantina passavam indistintos para Annie. Mais tarde, apenas
um dia se destacaria entre as lembranças dela daquela época: 20 de
março de 1933, quando ela, os Bixby e vários clientes haviam se
reunido em torno do rádio de Gert para ouvir Franklin D. Roosevelt
ser empossado, em Washington, presidente dos Estados Unidos.
Annie sempre se lembraria do discurso de posse de Roosevelt, quando
ele prometeu aos Estados Unidos que traria o fim da Depressão e falou
as emocionantes palavras:
— A única coisa a temer é o próprio medo!
O próprio medo, pensou Annie. Acho que ele nunca conheceu a
Srta. Hannigan. Nem Fred Bixby.
De repente, a primavera chegou a Nova York, e as folhas de uma
velha ginkgo biloba abandonada, próxima da cantina, começaram a
brotar milagrosamente. Os dias ficaram mais quentes, e o aquecedor
no porão da cantina — que Annie tinha que alimentar várias vezes por
dia — foi desligado. A menina passou então a dormir sem cobertores
no pequeno quarto escuro do porão.
Em um dia cinzento e chuvoso do início de maio, logo depois do
almoço, Gert mandou que Annie levasse uma lata de lixo para o beco
atrás da cantina. Quando saiu, a menina viu dois adolescentes
valentões jogando paralelepípedos em um menininho encolhido atrás
de uma fileira de latas de lixo no fim do beco. Pondo o lixo que
carregava no chão, Annie gritou para os dois:
— Ei, seus valentões, parem de jogar pedras no pobre menino!
— Que menino, sua retardada? — disse o maior dos dois, um ruivo
forte de cerca de quatorze anos. — Não é um garoto, é um cachorro.
— Se é um cachorro, é ainda pior — respondeu Annie, avançando
na direção dos meninos. — Já mandei vocês pararem de jogar pedras!
— Ah, é, e você e quem mais vão fazer a gente parar? — perguntou
o outro garoto, que tinha cabelo escuro, um rosto magro e era quase
um metro mais alto do que Annie.
Ele tacou outra pedra no cachorro.
— Eu e mais ninguém — disse Annie, andando até o garoto de
cabelo escuro, que o outro menino chamara de Augie, e dando um
empurrão no peito dele.
— Ah, então você quer brigar? — indagou Augie.
— É, eu quero brigar.
Annie ficou parada, esperando.
Augie deu um soco cruzado, do qual Annie desviou com um
movimento rápido. Ao se levantar, bateu no rosto de Augie com um
direto de direita, fazendo o garoto se espatifar no chão. Um pouco de
sangue escorreu do nariz dele.
— Sua valentonazinha, olhe só o que você fez: meu nariz está
sangrando — choramingou Augie enquanto ela continuava parada de
pé, os punhos fechados.
— É, e vai ganhar coisa pior do que um nariz sangrando se não
deixar o coitado do cachorro em paz e não sair daqui. Dê o fora! —
ordenou Annie.
— Está bem, já vou — disse Augie, levantando-se com cuidado e
gritando para o garoto ruivo, maior, que havia se aproximado de Annie
por trás. — Pegue essa menina, Eddie! Acabe com a raça dela!
— Deixe ela comigo! — rosnou Eddie.
Mas Annie se virou bem a tempo de bloquear um soco do
grandalhão e soltar um direto de esquerda no queixo de ­Eddie que o
derrubou no chão. Ao ver que o amigo também havia levado a pior,
Augie saiu correndo, choramingando:
— Vou dar o fora daqui.
Eddie se levantou, ainda grogue, mas Annie logo o derrubou com
uma série de ganchos de esquerda e de direita.
— Pronto — disse ela, parada de pé ao lado dele. — Já apanhou o
suficiente?
— É, pronto, já apanhei o suficiente — murmurou Eddie.
Ele se levantou depressa e saiu correndo, gritando por cima do
ombro:
— Mas eu teria ganhado se você não tivesse roubado, sua
covardezinha.
— Continue correndo! — berrou Annie. — Sempre que quiser
mais, é só voltar!
Annie esfregou o punho fechado, suspirou fundo e se virou para o
cachorro, que ainda estava encolhido de medo atrás das latas de lixo.
A menina se ajoelhou, deu uma série de tapinhas no chão à sua frente
e, gentilmente, chamou o animal assustado.
— Venha aqui, amigão, venha, não precisa ter medo de nada agora.
Por um instante, o cão não se mexeu. Depois, tranquilizado pela
ternura na voz de Annie, ele saiu com cuidado de trás da lata de lixo e
andou hesitante até a menina. Era um vira-lata grande, ­malcuidado,
com enormes olhos tristes e expressivos.
— Ah, coitadinho. Eles machucaram você? — murmurou Annie
delicadamente, fazendo carinho no cachorro.
A menina percebeu que o animal tinha um pedaço curto de corda,
que parecia ter sido roído pelo próprio cão, em torno do pescoço.
— Aposto que você fugiu, assim como eu, de pessoas que trataram
você mal — disse Annie ao cão enquanto ele apoiava o focinho no
corpo dela. — Bem, ninguém mais vai machucar você, nunca, porque
você vai ser o meu cachorro.
— Annie, Annie, onde diabo você está? — berrou Gert, vindo
irritada até a porta dos fundos que dava para o beco. — Quanto tempo
demora para levar uma lata de lixo para fora?
— Olhe, Sra. Bixby, um cachorrinho perdido. Eu o encontrei aqui
no beco — disse Annie. — Posso ficar com ele?
Gert baixou o olhar, enojada com Annie e o cachorro.
— Se pode ficar com ele? — indagou sarcasticamente. — É claro
que pode. E talvez ele queira comer um belo filé suculento três vezes
por dia. E onde ele vai dormir? Bem, ele pode ficar com a minha cama.
— Por favor, Sra. Bixby, por favor! — implorou Annie. — Ele pode
comer metade da minha comida e dormir no quarto do porão comigo.
Assim ele não vai custar nada à senhora nem vai incomodar, eu
prometo.
— É, isso é tudo o que a gente precisa na cantina: um belo vira-lata
burro igual a esse — respondeu Gert, desdenhosamente. — Já sei o
que vou fazer. Vou entrar agora mesmo e chamar a carrocinha. Vou
mandar que levem esse cachorro sujo embora. Vão cuidar dele. Cuidar
bem. Como é que se diz? Ah, é. Vão colocar o bicho para dormir.
— Ah, por favor, Sra. Bixby, a senhora não faria isso. Por favor, por
favor — suplicou Annie.
— Não faria, hã. Espere só para ver — respondeu Gert. — Agora
deixe a droga desse cachorro aqui e volte lá para dentro para trabalhar.
Tem um monte de clientes esperando.
— Tudo bem, Sra. Bixby, eu já vou entrar — respondeu Annie,
enquanto Gert voltava para a cantina batendo os pés.
Mas Annie não ia abandonar o cão.
— Não se preocupe, garoto, não vou deixar ninguém levar você —
afirmou a menina, e então tomou a decisão.
Ela e o cachorro iam fugir. Para longe. Para onde nem a ­carrocinha
nem Fred Bixby poderiam encontrá-los. E iriam naquele instante
mesmo. Depressa, dizendo ao cachorro que voltaria logo, Annie o
amarrou na alça de uma lata de lixo e correu até o porão, onde
rapidamente tirou o uniforme de garçonete e pôs o vestido e o suéter
que estava usando quando chegara à cantina, em janeiro. Mais uma
vez, colocou todos os seus pertences na cesta de vime e, em menos de
um minuto, estava de volta ao beco. Então desamarrou o cachorro, e
os dois fugiram.
— Vamos, garoto, temos que ir depressa! Corra! — gritou Annie.
E a menininha e o cão fugiram do beco e correram para o leste, pela
rua Quarenta e Cinco, afastando-se do rio e aproximando-se do centro
de Manhattan. Enquanto corriam, Annie sentiu-se tomada por uma
grande alegria, pois percebeu que tinha dito adeus para Fred, Gert e a
Cantina Bixby para sempre. Mais uma vez, é claro, não tinha onde
dormir e estava solta naquela cidade enorme, sem um centavo. Mas a
manhã chuvosa de maio pelo menos estava quente, e desta vez ela não
fugia sozinha. Tinha um cachorro. Um cachorro só seu!
Seis

Annie e o cachorro haviam percorrido somente três quadras quando


ouviram uma voz alta e ríspida gritando com eles, fazendo-os parar:
— Ei, você, menininha, venha aqui!
Ai, não, pensou Annie, desanimando, os Bixby já mandaram a
polícia vir atrás de mim. Virando-se, ela viu que o homem que gritava
para ela era realmente um policial — alto, forte e ameaçador, com o
cassetete a postos.
— Pois não, senhor policial — disse Annie, com doçura, tentando
agir com bastante inocência enquanto deixava a corda do cachorro cair
no chão e andava até o guarda.
— Esse cachorro aí — apontou o policial —, eu já não o vi correndo
pela vizinhança? Ele não é de rua?
Annie engoliu em seco.
— De rua? — conseguiu dizer. — Ah, não, senhor policial. Ele é...
ele é meu.
— É seu, é? — perguntou o guarda, cético. — Então qual é o nome
dele?
— O nome? — disse Annie, olhando primeiro para o policial e
depois para o cachorro, enrolando para ganhar tempo, tentando pensar
o mais rápido que podia. — O nome dele é... Sandy. Isso mesmo, é
Sandy. Eu o chamo assim porque ele tem essa linda cor de areia.
— Cor de areia, é? — repetiu o policial, ainda sem acreditar na
menina. — Está bem. Vamos ver se ele atende por esse nome.
— Se ele atende? — disse Annie, engolindo em seco de novo. —
Quer dizer... quando eu o chamo?
— Isso — afirmou o policial. — Quando você o chama. Pelo nome
dele. Sandy.
— Bem, policial, sabe o que é? — começou Annie. — Eu acabei de
ganhar esse cachorro e às vezes ele não responde quando...
— Chame-o agora! — irritou-se o guarda.
— Está bem — aceitou Annie com um suspiro, então se virou para o
cachorro e bateu com as mãos nos joelhos. — Aqui, Sandy. Venha
aqui, garotão. Venha, Sandy.
Pelo que pareceu uma eternidade para Annie, o cachorro ficou
parado, encarando a menina com enormes olhos tristonhos. Mas, de
repente, seus olhos se iluminaram, ele trotou até Annie e pulou para
pousar as patas nos ombros da menina.
— Muito bem, Sandy — disse Annie, sorrindo de orelha a orelha.
— Que cachorro bonzinho!
— Hum — resmungou o policial. — Bem, talvez ele seja seu
mesmo. Mas da próxima vez que o levar para passear, quero vê-lo em
uma coleira e com uma licença. Senão, ele vai para o canil e aí vai ser o
fim dele. Entendeu?
— Sim, senhor, entendi — afirmou Annie. — Na coleira e com uma
licença.
— Agora vão para casa, você e seu cachorro — disse o policial,
antes de se virar e começar a andar pela calçada.
— Sim, senhor — respondeu Annie.
Assim que o guarda virou a esquina e saiu de vista, Annie e o
cachorro começaram a correr de novo, afastando-se o máximo que
podiam da Cantina Bixby. Sandy, pensou Annie enquanto corriam, é o
nome perfeito para meu lindo cachorro novo. E, a partir daquele
momento, ele se tornou Sandy, para sempre.
Por fim, sem fôlego por ter corrido sem parar por quase meia hora,
Annie puxou Sandy para um beco e os dois se sentaram para
descansar.
— Muito bem, Sandy — disse Annie, gentilmente acariciando o
cachorro.
A órfã notou que o cão ainda parecia triste e assustado.
— Não se preocupe, Sandy. Vou cuidar de você. Vou cuidar muito
bem — afirmou ela. — E tudo vai ficar bem. Para nós dois. Se não
hoje, bom... — Annie ergueu o olhar para o céu nublado. — O sol vai
sair amanhã — disse Annie, baixinho. — Pode apostar seu último
centavo que o sol vai sair amanhã.
Os grandes olhos castanhos de Sandy pareceram ficar mais
confiantes, e ele lambeu o rosto da menina com sua enorme língua
vermelha. Ela sorriu. Ele gosta de mim, percebeu Annie feliz, tanto
quanto eu gosto dele. A chuva começou a cair com mais força. Annie
balançou a cabeça, olhou para o céu e disse, com ironia:
— Eu amo você, amanhã, porque está sempre a um dia de distância.
— Ela então incentivou o cão: — Vamos, Sandy. Temos que encontrar
um lugar para ficar hoje à noite, fora dessa droga de chuva. E achar
um jeito de arrumar comida para a gente.
Andando bem perto dos prédios para não ficarem encharcados, a
menininha e o enorme cachorro correram na direção leste pelas
calçadas molhadas de Nova York. Os dois olharam para cima,
impressionados, quando passaram por uma parte da cidade que se
chamava Times Square, como Annie descobriu depois. Era uma
confusão incrível de cinemas e placas enormes e coloridas de neon,
que piscavam naquela tarde escura e chuvosa. Ninguém pareceu notar
Annie e Sandy entre a multidão que corria para todas as direções.
Logo, os dois chegaram a um grande prédio de granito cinzento: o
Grand Central Terminal.
— Ótimo, podemos nos abrigar da chuva aqui — disse Annie a
Sandy, e conduziu o cachorro pela entrada, descendo um lance da
escada de mármore até chegar ao salão principal do terminal, o maior
salão que a menina já tinha visto. — Nossa, Sandy, olhe só para este
lugar. Você gostaria de morar aqui? — perguntou ela, os olhos
iluminados de admiração pelo grande salão e pelo teto pintado de
estrelas.
Por algum tempo, felizes por estarem protegidos da chuva, ­Annie e
Sandy perambularam pelo terminal, sendo jogados de um lado para
outro pela multidão que corria para os trens ou saía deles.
— Um dia, vou encontrar meu pai e minha mãe, e eles vão levar a
gente em uma viagem de trem, talvez para a praia ou para as
montanhas — prometeu Annie a Sandy.
À medida que a tarde chuvosa se tornava noite, Annie sentia que ia
ficando cada vez mais faminta. E suspeitava de que Sandy também
estivesse com fome.
— Temos que achar um jeito de ganhar dinheiro para podermos
comprar alguma coisa para comer — explicou Annie ao cachorro.
Então ela viu um vendedor de maçãs parado na entrada da Avenida
Lexington com uma bandeja de maçãs penduradas no pescoço.
— Maçãs, maçãs, duas por dez! Pegue aqui a sua maçã
vermelhinha! — gritava o homem continuamente.
Mas ninguém parava para comprar maçãs com ele. Era um homem
malvestido, com a barba por fazer, cujo velho terno marrom devia ter
visto dias melhores antes da Depressão. Mas tinha olhos amistosos, e
Annie decidiu se arriscar a falar com ele.
— Com licença, moço — disse ela. — Onde o senhor consegue as
maçãs que vende?
— Está pensando em entrar para o negócio, senhorita? —
perguntou o homem, alegre.
— Bem, não sei. Talvez.
— Compro as frutas em um mercado que vende por atacado perto
do rio East — explicou o homem. — Eles vendem uma maçã por um
centavo, cem por um dólar. Eu vendo as maçãs por cinco centavos e
ganho belos quatro centavos de lucro por maçã. Isso, senhorita, é o
que os americanos chamam de capitalismo. Compre por pouco e venda
por muito. Alguns anos atrás, eu lidava com ações e títulos, e agora
estou no ramo do varejo de maçãs. Mas não posso reclamar. Se vender
mil maçãs por dia, dá para ganhar quarenta dólares.
— Uau! — exclamou Annie. — E quantas você vendeu hoje?
— Três — respondeu o homem, dando uma risada triste. — E
ganhei doze centavos líquidos. Mas as coisas estão melhorando.
Ontem eu vendi duas.
— Ah — disse Annie. Ela tentou parecer entusiasmada.
— Me diga uma coisa, senhorita — perguntou o vendedor de
maçãs. — Está com fome?
— Bem, eu...
— É claro que está. Todo mundo está. — Ele entregou a ela duas
maçãs. — Aqui está, minha querida — disse, de forma graciosa. —
Uma para você e outra para o seu cachorrão. É por conta da casa.
— Poxa, obrigada, moço!
Annie rapidamente deu uma das maçãs a Sandy, que a engoliu em
três mordidas, e devorou a outra.
Com um pouco menos de fome, a menina olhou para fora e viu que
a chuva havia parado. Mas a noite ficara muito mais fria. Seria uma
noite gélida.
— Temos que encontrar um lugar para ficar hoje — disse Annie a
Sandy.
Então ela teve uma ideia. Ficou com Sandy perto da entrada da
Avenida Lexington pelas duas horas seguintes, observando o
vendedor de maçãs tentar vender sem sucesso suas frutas para os
passageiros que corriam para pegar os trens até suas casas no
subúrbio da cidade. Às sete e meia da noite, quando apenas poucas
pessoas entravam no terminal, Annie viu o vendedor de maçãs desistir
e sair andando pela noite fria de maio.
— Vamos, Sandy. Vamos seguir esse moço — afirmou ela.
Com Annie e Sandy o seguindo com cuidado pelas sombras, o
vendedor de maçãs caminhou penosamente pela Avenida ­Lexington
até a rua Cinquenta e Nove. Depois seguiu para o leste, na direção do
rio East. Em seguida, desapareceu atrás de um dique próximo à ponte
da rua Cinquenta e Nove e pareceu seguir direto para a água. Annie e
Sandy correram até o dique e olharam para baixo. Sob a ponte, abaixo
deles e na beira do rio, viram um pequeno acampamento improvisado.
Havia cerca de doze barracos. No meio do acampamento, figuras
sombrias estavam reunidas em torno de fogueiras que bruxuleavam
em latas de lixo. Na maior delas, uma mulher parecia cozinhar algo em
um enorme caldeirão pendurado em um pedaço de madeira. Annie viu
que o amigo deles, o vendedor de maçãs, se aquecia ao lado de uma
das fogueiras.
— Nossa, Sandy, que lugar é esse? — sussurrou Annie.
Em Nova York, durante a Depressão, milhares de pessoas
desabrigadas, muitas das quais haviam morado em apartamentos
elegantes na Avenida Park e na Riverside Drive, se reuniam para viver
em favelas conhecidas como Hoovervilles — uma piada com o
presidente Hoover, considerado por muitos o culpado pela Depressão.
Os barracos sem calçamento eram montados com madeira velha,
papelão e pedaços de ferro, além de finas folhas de alumínio ondulado
para o telhado. Sujos, feios, sem aquecimento nem ventilação, os
barracos não tinham nenhuma virtude, a não ser colocar um teto sobre
a cabeça das pessoas. Os ricos de Nova York, que ainda formavam um
grupo de milhares de pessoas em 1933, viam as Hoovervilles como
uma monstruosidade e uma desgraça para a cidade e constantemente
pressionavam o prefeito para que fossem destruídas. No entanto, o
prefeito argumentava que era melhor ter desabrigados dormindo em
Hoovervilles do que nas entradas dos edifícios, como os mendigos do
Bowery, por isso essas favelas eram toleradas — ou ignoradas — pelas
autoridades da cidade, inclusive pela polícia. Annie e Sandy haviam
encontrado uma delas.
— Vamos lá, Sandy. Eu não sei o que é esse lugar, mas pelo menos
eles têm fogueiras para se manterem aquecidos — disse Annie,
guiando o cão pela margem íngreme do rio, na direção da Hooverville.
— E, bem, talvez a gente encontre alguma coisa para comer. Vamos lá!
Os homens e as mulheres que se reuniam nas sombras, em torno
das fogueiras cintilantes, eram magros, malvestidos e pareciam tristes,
mas não davam a impressão de serem maus nem pouco amistosos. Na
verdade, pareciam sobreviventes de uma terrível catástrofe — o que, é
claro, realmente eram.
— Com licença, pessoal — disse Annie, pigarreando nervosamente
ao se aproximar do grupo que estava em torno de uma das fogueiras
—, mas alguém aqui deixou uma menina ruiva chamada Annie em um
orfanato onze anos atrás?
Algumas pessoas reunidas em volta da fogueira disseram “Não” ou
“Não, garota”, mas a maioria delas simplesmente ignorou a pergunta.
Imaginando que ninguém ia se importar, Annie se aproximou da
fogueira e ergueu as mãos acima das chamas.
A mulher que estava cozinhando bateu uma colher de ferro na
lateral do caldeirão e gritou, com uma voz grave:
— Senhoras e senhores, abram um sorriso. O jantar está servido! O
ensopado está pronto!
Na hora, todos correram até ela, pegaram colheres e latas e fizeram
uma fila para serem servidos. Os moradores da Hooverville viviam em
comunidade, e cada um deles dava alguns centavos para a cozinheira,
Sophie, todos os dias. Ela comprava legumes, batatas e cortes baratos
de carne e, toda noite, preparava um ensopado quente. Não ficava
muito bom, mas, pelo menos, era comida quente para as noites frias.
Enquanto servia o ensopado, Sophie olhou para Annie e Sandy, que
estavam parados, ao longe, nas sombras.
— Ei, garota, está com fome? — perguntou Sophie.
— Não — disse Annie. Era orgulhosa demais para admitir que
estava faminta. — Mas meu cachorro está.
— Então venha aqui, garota — ordenou Sophie, fazendo sinal para
Annie e entregando uma colher e uma lata vazia de sopa Campbell à
menina. — E traga seu cachorro também.
— Poxa, obrigada, moça — respondeu Annie, enquanto Sophie
enchia a lata com uma concha de ensopado quente.
— Pode me chamar de Sophie. Todo mundo me chama assim —
disse ela, abrindo um sorriso desdentado.
Era uma mulher baixa e gordinha, com um rosto redondo e
amistoso. Ela usava o conjunto de roupas mais velho que Annie já
tinha visto em alguém: um vestido bege gasto, com manchas amarelas,
que parecia ter sido feito com retalhos de lona, e faixas de tecido
grosso em torno dos pés em vez de sapatos. Mas Sophie realmente
parecia ser animada.
— Eu sou Annie e este é Sandy.
A menina fez uma pequena reverência educada.
— Muito prazer, Annie — respondeu Sophie. — Você e Sandy
podem comer o quanto quiserem. Tem muito mais de onde isso veio.
À luz alaranjada das fogueiras, todos se sentaram em círculo no
chão e comeram. Com grande apetite, Annie engoliu uma bela
colherada de ensopado.
— Eeeeca — disse para si mesma.
Ela nunca havia comido nada tão ruim na vida — e isso incluía o
mingau da Srta. Hannigan. Mesmo assim, era comida. Ela devorou
metade da lata e passou o resto para Sandy. Ele claramente também
não havia gostado do ensopado. Mas comeu. Mesmo que não fosse
bom, a comida de Sophie enchia a barriga, e, para sobreviver, muitas
pessoas comiam qualquer coisa nos dias sombrios da Depressão.
O vendedor de maçãs que Annie e Sandy haviam seguido do Grand
Central Terminal até a Hooverville se aproximou do grupo.
— Ei, garota, eu já não vi você antes? — perguntou ele,
apresentando-se como G. Randall Whitworth Jr., ou Randy para os
amigos.
— Bem, eu... — começou Annie.
— É claro — lembrou Randy. — Você é a menininha que ficou
perambulando pelo terminal o dia inteiro. O que você fez? Você me
seguiu até aqui?
— Bem, é, acho que sim — admitiu Annie, com certa vergonha do
que havia feito.
— Ah, não tem problema, querida. Na base da pirâmide da vida,
sempre há espaço para mais um — garantiu Randy. — E então,
senhorita, o que está fazendo sozinha a essa hora da noite?
— Estou procurando pelos meus pais — explicou Annie. — Eles
sumiram.
— Sumiram, é? — repetiu Randy. — Há quanto tempo está
procurando por eles?
— Onze anos.
— Bem, eles sumiram mesmo — concordou Randy.
— Não se preocupe, Annie, você vai encontrar os dois — garantiu
Sophie.
— Pode ter certeza de que vou encontrar — respondeu Annie,
confiante.
— Ora, ora, isso é uma coisa que eu não escuto desde 1928 — falou
Randy, em uma voz arrastada.
— O quê? — perguntou Sophie.
— Otimismo — explicou Randy com uma gargalhada alta.
— O que temos para nos deixar otimistas? — perguntou um homem
de rosto triste chamado Lou, enquanto estendia sua lata para pegar
mais ensopado. — Olhe só para a gente. Olhe para esse lixo. A vida é
um pesadelo.
— Bem, é preciso ter um sonho — disse Annie com um sorriso.
— Sei — resmungou Lou. — Embaixo dessa droga de ponte, com o
trânsito chacoalhando tudo a noite inteira.
— Para acordar você dos pesadelos — respondeu Annie.
Todos em torno da fogueira riram.
— Não vejo nada de engraçado, garota — disse Lou com amargura.
— Não quando tudo que se tem no mundo são bolsos vazios.
— Pelo menos você tem bolsos — retrucou Annie. — Muitas
pessoas não têm nem isso hoje em dia, eu aposto.
— Dedos congelados — murmurou Lou.
— Por sorte você tem bolsos vazios e pode colocar seus dedos
neles — respondeu Annie.
Mais uma vez, todos riram.
— Está bem, garota, você é muito espertinha — continuou Lou. —
Sabe o que mais a gente tem aqui? Jornais para usar como cobertores.
O que me diz disso?
Todos ficaram em silêncio em torno da fogueira enquanto Annie
pensava por um instante.
— Já sei! — disse Annie, sorrindo. — Você pode ler na cama!
— Ah, eu desisto — decidiu Lou, levantando-se e afastando-se da
fogueira, irritado, enquanto os outros riam, encantados com a vitória
alegre de Annie.
— Quer saber de uma coisa, Annie? — disse Randy. — Você é legal.
— Annie — perguntou Sophie —, você tem lugar para passar a
noite?
— Bem, é... Não exatamente — respondeu a menina. — Sabe, eu
meio que fugi do...
Randy a interrompeu:
— Não, Annie, não nos conte. Aqui, no fundo do poço da vida, a
gente não faz perguntas a ninguém sobre por que está aqui. Não
falamos do nosso passado nem sobre nosso futuro. Só tentamos ajudar
uns aos outros a aguentar o presente. Um dia de cada vez, como dizem
na prisão de Sing Sing. E acontece que nosso presente, devo
acrescentar, é uma droga. Estou em um negócio horrível. Há sete
milhões de pessoas em Nova York e só vendi sete maçãs hoje. E sob a
chuva, para piorar.
— O sol vai sair amanhã — disse Annie. — Pode apostar seu último
centavo que amanhã vai ter sol.
— Meu último centavo, é? — Randy riu. — Eu apostaria, garota, se
já não o tivesse perdido.
— Escute, Annie, se precisar de um lugar para ficar, pode dormir
comigo — ofereceu Sophie. — Tenho um pequeno palácio de papelão
ali só para mim e tem muito espaço para nós duas.
— Para o Sandy também? — perguntou Annie.
— Para o Sandy também, é claro — respondeu Sophie, de bom
coração.
Mais tarde, quando as fogueiras morreram e todos começaram a se
preparar para dormir, Sophie acendeu uma vela e levou Annie e Sandy
até seu barraco. O teto era tão baixo que Sophie tinha que se curvar
quando estava lá dentro, mas Annie conseguia ficar de pé sem
problemas. O barraco fedia a mofo e a cera de vela, mas pelo menos
era quente e seco. Sophie espalhou três camadas de jornal no chão de
terra duro para fazer uma cama para Annie e Sandy, e a criança e o
cachorro se deitaram, aconchegando-se um no outro. Então Sophie
cobriu os dois com mais três camadas de jornal. O papel formava uma
cama surpreendentemente confortável e aconchegante — apesar de
barulhenta —, percebeu Annie. E, colocando os braços em torno do
pescoço de Sandy, ela logo caiu no sono.
— Boa noite, durma com os anjos — sussurrou Sophie, assoprando
a vela e deitando-se pesadamente em uma cama de jornais parecida, no
outro canto do barraco.
No meio da noite, a chuva começou a cair de novo, batendo no
telhado de lata do barraco e fazendo um barulho tão alto quanto o de
tiros. Sophie acordou abruptamente. Mas Annie e Sandy estavam tão
cansados que dormiram durante toda a tempestade. Sophie acendeu
outra vela no escuro e deu uma olhada na garota e no cão que
dormiam.
— Que menininha adorável — disse, carinhosa.
Foi uma pena Annie não ter podido ouvir Sophie, pois era
praticamente a primeira vez em sua vida que alguém dizia alguma
coisa boa sobre ela.
Sete

Na manhã seguinte, a chuva havia parado, mas o sol não saíra. Era
um dia cinzento e sombrio. No barraco, Annie foi acordada por Randy,
que a chamava:
— Vamos lá, senhorita, acorde! Você e eu vamos fazer negócios
juntos!
Alguns minutos depois, Randy explicou que havia decidido dar a ela
parte de suas maçãs para vender e que os dois dividiriam o lucro, meio
a meio.
— Estou expandindo. Vou contratar ajudantes — explicou Randy de
forma grandiosa.
Ele sorria enquanto os moradores da Hooverville se sentavam no
chão à frente de seus barracos para comer o mingau de aveia que
Sophie havia preparado para o café da manhã. O mingau de Sophie,
decidiu Annie, era levemente mais saboroso do que o da Srta.
Hannigan. Mas não muito mais. Depois do café, com uma bandeja de
papelão com maçãs pendurada no pescoço por um pedaço de barbante,
Annie foi com Sandy e Randy para o Grand Central Terminal. Lá,
Randy deixou a menina na entrada que dava para a Avenida Lexington
e foi para a entrada que dava para a Avenida Vanderbilt.
— Uma menininha como você com certeza vai vender muitas maçãs
— disse Randy —, contanto que pareça triste e com fome.
— Isso não vai ser difícil — exclamou Annie, alegre, quando Randy
a deixou para que vendesse seus produtos. — Maçãs, maçãs, cinco
centavos por fruta. Duas por dez! — gritava Annie aos viajantes que
corriam para fora e para dentro do terminal. — Lembrem, pessoal,
uma maçã por dia mantém uma pessoa sadia. E duas maçãs por dia
mantêm duas pessoas sadias!
Durante todo o dia, das oito horas da manhã até as sete da noite,
com apenas alguns intervalos para descansar em um dos bancos da
sala de espera da Grand Central, Annie vendeu maçãs. E comeu
maçãs. Annie e Sandy comeram uma maçã cada um de almoço e outra
de lanche no fim da tarde.
— Estamos comendo os nossos lucros — explicou Annie para
Sandy —, mas temos que continuar fortes se quisermos aguentar o dia
todo.
Às sete e quinze da noite, quando Randy se juntou a eles, ficou
encantado em saber que Annie havia vendido dezessete maçãs e
ganhado oitenta e cinco centavos. (Ele vendera apenas cinco naquele
dia.)
— Ah, não foi nada. — Annie deu de ombros, sorrindo, orgulhosa,
enquanto entregava o dinheiro a Randy.
— Nada? É uma pequena fortuna — respondeu Randy, contente. —
Eu sabia. Eu sabia que iam comprar mais maçãs de uma menina bonita
como você do que de um vagabundo malvestido igual a mim. Annie,
você e eu vamos ficar ricos!
Randy entregou a Annie a parte dela do dinheiro: trinta e quatro
centavos. Ela pôs tudo no bolso do suéter. Era a maior quantia de
dinheiro que já tivera na vida. Depois, os três — Annie, Sandy e Randy
— voltaram para o local onde ficava a Hooverville, e chegaram bem a
tempo de comer uma porção do ensopado de Sophie. Para pagar pela
estadia, Annie deu para Sophie metade do dinheiro que havia ganhado
naquele dia — dezessete centavos — e guardou a outra metade.
— Vou poupar e comprar passagens de ônibus — contou Annie,
empolgada, para Sophie. — Depois, eu e Sandy vamos viajar por todo o
país, por todo o mundo se for preciso, procurando pelos meus pais até
encontrar os dois. E a gente vai achar meu pai e minha mãe! Vai, sim!
— É claro que vão — disse Sophie, bagunçando com carinho o
cabelo de ­Annie.
Depois do jantar na Hooverville, quando uma lua cheia apareceu no
céu azul-claro sobre a ponte da rua Cinquenta e Nove, todos se
sentaram no chão, aproveitando a noite quente de maio, e conversaram
animadamente sobre o que iam fazer quando a Depressão chegasse ao
fim. Lou sacou uma gaita e começou a tocar, e logo em seguida o
grupo de maltrapilhos estava cantarolando músicas antigas, como “By
the Light of the Silvery Moon” e “Moonlight Bay”. Perto das dez
horas, Annie disse boa-noite e levou Sandy até a cama de jornais no
barraco de Sophie. Depois de cobrir Sandy cuidadosamente com os
jornais, Annie se deitou na cama ao lado dele e pôs os braços em torno
do pescoço do cachorro.
— Sabe, Sandy, a gente está se saindo muito bem — disse ela
baixinho para o cachorro, enquanto ouvia os adultos do lado de fora
cantando e conversando na noite quente de primavera. — Temos um
lugar para ficar, comida, amigos e até um trabalho. Quer dizer, olhe só
para a gente! Já temos dezessete centavos!
Então, enquanto a lua cheia brilhante iluminava o barraco na
Hooverville, Annie e Sandy adormeceram.

•••
Uma vida nova tinha começado para Annie. E Sandy. Nas semanas que
se seguiram, enquanto a primavera dava lugar ao verão em Nova York,
a menina e o cachorro iam todos os dias com Randy para o Grand
Central Terminal e assumiam sua posição. Com energia e
determinação, eles vendiam maçãs até o cair da noite. Tinham dias
bons e ruins, mas não havia um dia em que Annie não ganhasse pelo
menos dez centavos. E assim, no meio de agosto, ela já havia juntado
treze dólares e vinte e cinco centavos.
Apesar de os moradores da Hooverville cantarem, rirem e
brincarem com frequência, a vida deles era dura. Sem dinheiro nem
trabalho, correndo atrás de centavos para pagar por sua parte na
comida, se cobrindo com jornais em barracos despedaçados, eles
tinham pouca esperança de voltar a encontrar um emprego de verdade
ou de sair da Hooverville. E a vida na favela também não era fácil para
Annie, apesar de a menina sempre tentar manter um sorriso no rosto.
Ela se levantava toda manhã cheia de esperança, convencida de que
aquele seria finalmente o dia em que encontraria seus pais. Mas, toda
noite, ia para a cama decepcionada.
— Amanhã — dizia Annie para si mesma com um suspiro, antes de
fechar os olhos e cair no sono, exausta. — É, amanhã será o dia.
Enquanto ia e voltava com Randy da Hooverville até o Grand
Central Terminal, Annie contou a ele sobre a vida no orfanato e sobre
como fugira para encontrar os pais. E Randy ajudou a menina a fazer
um cartaz de papelão que ela colocava ao seu lado na entrada do
terminal todos os dias: “Qualquer pessoa que tiver alguma informação
sobre alguém que deixou um bebê de dois meses chamado Annie em
um orfanato de Nova York na noite do dia 31 de dezembro de 1921, por
favor, entre em contato com a menina que está vendendo maçãs ao
lado deste cartaz. Recompensa: Treze dólares e vinte e cinco
centavos.” E, toda semana, depois de economizar mais dinheiro, Annie
aumentava o valor da recompensa, até que no início de outubro ele já
havia chegado a vinte e três dólares e setenta e cinco centavos. Mas,
apesar de centenas de pessoas pararem para ler o cartaz todos os dias,
nenhuma delas tinha informações sobre os pais da menina. Mesmo
assim, Randy continuava alimentando as esperanças da garota.
— Eu prometo a você, Annie, cedo ou tarde, todo americano acaba
passando pelo Grand Central Terminal — dizia ele. — Então você não
poderia estar em um lugar melhor. Se ficar aqui por tempo suficiente,
com certeza vai achar seus pais.
A ideia de que todos nos Estados Unidos passavam um dia pelo
Grand Central Terminal animava Annie. Mas também a deixava
nervosa, porque ela entendia que “todo mundo” incluía Fred Bixby.
Annie vivia com o medo constante de que Fred a agarrasse enquanto
ela vendia maçãs, a arrastasse pela cidade, batesse nela sem piedade e
a forçasse mais uma vez a trabalhar na cantina. Bem, dizia a si mesma,
Fred quase nunca saía da cantina, a não ser para beber no McGuire’s.
E talvez ele já tivesse passado pelo Grand Central Terminal muitos
anos antes. No entanto, se pensasse assim, talvez seus pais também já
tivessem passado por lá. Mas, enquanto tivesse o cartaz, que levava
com ela todos os dias, Annie dizia a si mesma que podia continuar a ter
esperança.
Contudo, a esperança de encontrar seus pais no Grand Central
Terminal desapareceu em uma tarde cinzenta do início de novembro.
Annie já estava se sentindo desanimada naquele dia, pensando em
como o inverno estava chegando e no quão frios e sombrios seriam os
meses seguintes na Hooverville — não importava quanto ela tentasse
se alegrar. E também estava preocupada com o fato de a escola ter
começado mais de dois meses antes, sem ela. Annie teria entrado no
sétimo ano. Em vez disso, a cada dia que passava, estava ficando cada
vez mais atrasada em sua educação. Em 28 de outubro, seu aniversário
chegara e passara sem nada de especial, pois ela não contara a
ninguém na Hooverville que estava fazendo doze anos naquele dia. Por
isso não houve festa, música nem beijos de feliz aniversário. Mas, é
claro, aquilo não era novidade alguma para Annie. Seu aniversário
também nunca havia sido festejado no orfanato, e ela nunca ganhara
presente algum durante toda a sua vida. Todos aqueles pensamentos
infelizes estavam passando pela mente da menina enquanto ela
continuava a gritar:
— Maçãs, maçãs, cinco centavos cada. Duas por dez!
De repente, Randy chegou correndo, sem fôlego.
— Annie, rápido! Pegue suas maçãs e tire o time de campo. Tem um
guarda atrás de você! — gritou ele.
Com o coração disparado de medo, Annie pegou Sandy, saiu
correndo para dentro do terminal e se escondeu em um corredor
perto da entrada. Um policial. Atrás dela. Annie nunca havia sentido
tanto medo na vida. Depois de um instante, ela olhou para fora e viu
Randy parado na entrada, conversando com um guarda. O policial
mostrava a ele um pedaço de papel. Ela viu que Randy balançava a
cabeça e dava de ombros como se quisesse dizer que não sabia de
nada. Por fim, o policial saiu batendo os pés, irritado. Randy entrou no
terminal e encontrou Annie e Sandy escondidos no corredor.
— Você tem que sair daqui, Annie, e voltar para a Hooverville —
sussurrou Randy, puxando a menina ainda mais para as sombras. — O
policial me mostrou uma circular com a sua foto. Disse que você está
sendo procurada como uma órfã fugitiva. Ele me disse que se
lembrava de ter visto você por aqui, vendendo maçãs, mas eu falei que
nunca tinha visto você e não sabia nada sobre isso. Só que ele viu seu
cartaz e o levou embora. É uma prova.
— Você está certo. Tenho que sair daqui — concordou Annie,
estremecendo.
Então, com Sandy correndo ao seu lado, ela fugiu pela tarde
cinzenta até a Hooverville. Naquela noite, Annie, Randy e Sophie
decidiram que seria arriscado demais para a menina voltar ao Grand
Central Terminal. A polícia com certeza a pegaria. Por isso, nos dias
que se seguiram, Annie e Sandy ficaram na Hooverville, ajudando
Sophie com a comida e indo fazer compras com ela na Primeira
Avenida. Sandy parecia gostar dos passeios que faziam com Sophie
pelas margens do rio East para catar pedaços de madeira para as
fogueiras que acendiam toda noite nas latas de lixo. Ficar com Sophie
o dia todo era muito agradável para Annie e Sandy, mas, quando
dezembro chegou e a temperatura foi diminuindo, eles quase
congelavam nas tardes gélidas enquanto catavam madeira nas
margens ventosas do rio. Annie também ficou desanimada, pois, se
tivesse que ficar o dia inteiro na Hooverville, como continuaria a
procurar seus pais? Com a venda de maçãs, Annie havia poupado vinte
e sete dólares, que mantinha no bolso do suéter, presos por um
alfinete. Então ela decidiu usar o dinheiro para comprar passagens de
ônibus para ela e Sandy até a Flórida.
— Por mais que as pessoas sejam boas com a gente aqui, temos que
seguir em frente — disse Annie a Sandy uma noite, enquanto estavam
deitados, na cama, tremendo, apesar das dezenas de camadas de jornal
que simplesmente não pareciam funcionar naquelas noites frias do
início de dezembro. — Porque desse jeito eu nunca vou encontrar
meus pais — continuou Annie. — Vamos até a Flórida durante o
inverno, onde está quente, procurar por lá. Talvez eles estejam
morando por lá. Quem sabe? Depois, se a gente não encontrar os dois,
pode voltar para cá na próxima primavera.
Mas era difícil para Annie deixar Randy, Sophie e todos os outros, ir
embora sozinha mais uma vez. E a menina sabia que, mesmo em 1933,
vinte e sete dólares não durariam muito.
— Vamos embora logo. Quem sabe amanhã ou talvez quando a
primeira nevasca cair — disse a Sandy.
Mas, à medida que dezembro passava, ela continuava adiando a
partida.
Por fim, não foi Annie quem decidiu que sua estadia na ­Hooverville
deveria terminar. Em uma noite de muito frio e vento em meados de
dezembro, a duas semanas e meia de completar um ano que Annie
fugira do orfanato, ela, Sandy e os adultos estavam reunidos em torno
das fogueiras nas latas de lixo quando um sargento brutalhão, de olhos
fundos, emergiu das sombras.
— Certo, pessoal, quero todo mundo fora daqui — gritou o
sargento, cujo sobrenome era Ward, brandindo um documento que
parecia oficial. — Temos uma ordem judicial. Vamos acabar com essa
pilha de lixo!
— Não podem fazer isso. É o único lar que temos — bradou ­Sophie.
— E não estamos fazendo nada de errado aqui. Não estamos
machucando ninguém.
— Bem, diga isso ao juiz — respondeu o sargento Ward, zombando.
Ele apontou para os prédios de apartamentos de luxo, as casas dos
ricos que margeavam o rio East, acima deles.
— As pessoas dali de cima foram até o tribunal e conseguiram essa
ordem judicial — continuou. — Ela diz que esse lixão é uma
monstruosidade e um risco para a saúde. Eu só estou fazendo meu
trabalho. Por isso, andem, todos vocês, vagabundos, saiam daqui!
Annie deu um passo à frente com Sandy ao seu lado e falou
corajosamente com o sargento Ward.
— Eles não são vagabundos — disse a menina, irritada. — São
pessoas boas e trabalhadoras que simplesmente tiveram muito azar. E
eles precisam ter um lugar para morar também, mesmo que não sejam
ricos!
— Espere um segundo, garota — ordenou o sargento Ward,
apontando um dedo gordo para Annie. — Eu já não vi uma foto sua em
uma circular na delegacia? Você é a órfã que fugiu, não é?
— Não, senhor, eu... eu sou filha dela — respondeu Annie,
apontando para Sophie.
— Ah, não é, não — disse o sargento Ward, agarrando Annie pelo
colarinho do suéter. — Você vem comigo. E esse vira-lata aqui vai para
a carrocinha!
— Não, não vai, não!
Annie empurrou Sandy e gritou:
— Corra, Sandy, corra!
O cachorro fugiu pelo aterro e, com as orelhas abaixadas junto à
cabeça, correu o mais rápido que suas quatro patas permitiram.
— Peguem aquele cachorro! Peguem a droga daquele cachorro! —
berrou o sargento Ward, soprando seu apito enquanto um esquadrão
de doze policiais surgia das sombras, de todos os lados da Hooverville.
Um dos policiais, balançando o cassetete, correu pelo aterro atrás
de Sandy.
— Acabem com tudo! Acabem com toda esta pilha de lixo! —
gritava o sargento Ward a seus homens, ainda segurando Annie com
força pelo colarinho.
Annie deu um passo para trás e chutou a canela do policial com toda
a força que tinha.
— Aaai! — berrou o sargento Ward, soltando Annie enquanto
pulava em um pé só por causa da dor.
No instante em que ele a soltou, Annie se virou e correu como louca
para o norte, pela margem do rio, na direção oposta que Sandy havia
seguido.
— Peguem aquela garota! Peguem a droga daquela garota! —
gritou o sargento Ward.
Annie logo ouviu passos atrás de si.
De mais longe, da Hooverville, ela ouviu gritos, berros e o barulho
horroroso dos barracos frágeis sendo derrubados pela polícia.
Correndo pela margem do rio na noite escura e fria, Annie tropeçou
em uma pedra e caiu. Mas logo se levantou e continuou a correr. Podia
ouvir que o policial se aproximava dela.
— Tenho que correr mais depressa — disse Annie para si mesma,
ofegante —, porque não posso deixar que ele me alcance. Não posso!
Oito

Na tarde seguinte, após ter trazido as meninas de volta da escola, a


Srta. Hannigan apressava as órfãs, que tremiam no saguão do
orfanato.
— Vamos, entrem, entrem, antes que vocês transformem esse lugar
em uma geladeira — berrava ela, empurrando a pequena Molly para
dentro e batendo a porta. — Agora tirem os casacos e vão lá para baixo
trabalhar — ordenou a Srta. Hannigan.
— Está bem, Srta. Hannigan — respondeu em coro o grupo de
órfãs esfarrapadas enquanto tirava os suéteres remendados e gastos e
os pendurava em ganchos próximos à porta da frente.
Em seguida, elas fizeram uma fila tristonha e desceram até as
máquinas de costura.
Enquanto isso, a Srta. Hannigan foi para seu escritório e ligou o
rádio. Uma das radionovelas favoritas da diretora do orfanato, Ma- ­
Perkins, estava prestes a começar. Ela se sentou à mesa, abriu a última
gaveta, tirou uma garrafa de uísque de centeio e tomou um longo gole.
— Garotinhas — murmurou para si mesma, antes de acender um
cigarro Lucky Strike e descansar o corpo nas costas da cadeira de
rodinhas para ouvir o rádio. — Para todo canto que olho só vejo
garotinhas. Tenho todas as dores de cabeça de uma mãe e nenhuma
das vantagens. Outras mulheres têm maridos que compram casacos
de pele para elas, levam as esposas ao cinema etc. e tal, mas o que eu
tenho? Garotinhas. Odeio ver aquelas meninas. Mas tem uma delas
que eu gostaria de ver de novo. Aquela Annie. Se ela voltar para cá um
dia, vou transformar sua vida em um inferno tão grande que ela vai
desejar nunca ter nascido.
A Srta. Hannigan deve ter adquirido, por um segundo, alguma
habilidade sinistra de prever o futuro, pois, no exato instante em que
murmurava o desejo de ter Annie mais uma vez sob seu controle, a
menina estava a apenas uma quadra de distância, sendo arrastada de
forma grosseira pelo sargento Ward.
— Estou levando você de volta para o lugar de onde nunca devia ter
saído, sua diabinha — dizia ele.
Enquanto fugia do policial na noite anterior, Annie acabara
tropeçando mais uma vez em uma pedra e, por causa disso, fora
apanhada. Tinha passado a noite na prisão úmida da delegacia do
centro da cidade, em uma cela com vários moradores da ­Hooverville,
presos por perturbar a paz e sentenciados por um juiz de coração de
pedra a trinta dias de cadeia. Mas como Annie era nova demais para
ser mandada para a prisão, agora estava sendo levada pelo sargento
Ward de volta para o orfanato. Ela ficaria bem, disse Annie a si mesma,
ainda que a Srta. Hannigan batesse nela todos os dias. Mas estava
preocupada com Sandy. O cachorro escapara dos policiais que o
haviam perseguido, mas onde estaria ele agora? Com frio, com fome e
sem ter onde dormir, sem Annie para cuidar dele. O que seria de
Sandy? E como ela iria encontrá-lo de novo? E se fosse pego pela
carrocinha? Então... Annie não queria pensar nisso. Ela e o sargento
Ward haviam chegado ao orfanato. O policial puxou a menina pela
escada até a porta da frente e tocou a campainha.
— Quem é? — gritou a Srta. Hannigan, desligando o rádio e indo
até o saguão para espiar pela janela.
Ao ouvir a voz odiosa da Srta. Hannigan mais uma vez, ­Annie sentiu
um arrepio correr pela espinha — o que não tinha nada a ver com o
vento forte e frio de dezembro que soprava na St. Mark’s Place.
— É o sargento Ward, da Décima Sétima Delegacia de Polícia —
afirmou o guarda enquanto a Srta. Hannigan abria a porta para deixá-
los entrar. — Encontramos a sua fugitiva.
— Ah, muito obrigada, policial — respondeu a Srta. Hannigan
gentilmente, abrindo um sorriso falso e cheio de dentes. — Bem,
vejam só se não é a minha adorada Annie. Que bom ver você de novo,
minha querida.
Annie se afastou da Srta. Hannigan e não disse nada.
— Nós a encontramos morando em uma das Hoovervilles na
margem do rio — explicou o sargento Ward. — Com um bando de
vagabundos.
— Não eram vagabundos — murmurou Annie entre os dentes.
O sargento Ward enfiou a mão no bolso do paletó e tirou um
pequeno bolo de dinheiro.
— Ela tinha estes vinte e sete dólares com ela. Provavelmente
roubou de alguém — disse ele, entregando as notas à Srta. Hannigan.
— Eu não roubei. Ganhei esse dinheiro. É meu — afirmou Annie.
— Bem, agora é meu. Vai ajudar a pagar a sua estadia aqui, querida
— disse a Srta. Hannigan, enfiando o dinheiro dentro da blusa.
— A menina também tinha um vira-lata sarnento com ela —
continuou o sargento Ward —, só que ele fugiu. Mas vamos encontrar
o cachorro. E enfiar o bicho num canil.
— Tenho certeza de que vão, seu guarda — concordou a Srta.- ­
Hannigan, pondo o braço pesado em torno dos ombros de Annie como
se fosse um gesto carinhoso. — Coitadinha da minha menina —
arrulhou ela. — Estava lá fora nesse frio só com um suéter fino.
Espero que não tenha pegado uma gripe. — É, pensou a Srta.
Hannigan, espero que tenha pegado uma pneumonia dupla. — Muito
obrigada mais uma vez, seu guarda — disse a diretora do orfanato,
sorrindo ironicamente.
— É só o meu dever, senhora — afirmou o sargento Ward, virando-
se para encarar Annie com dureza. — E você. Não quero nunca mais
ouvir que você fugiu dessa moça legal outra vez.
O sargento Ward bateu o indicador no quepe para cumprimentar a
Srta. Hannigan. No mesmo instante, a diretora do orfanato agarrou
Annie pelo colarinho, arrastou-a para seu escritório e bateu a porta
atrás delas.
— Agora você vai ver — rosnou a Srta. Hannigan com a voz baixa,
ameaçadora. — E nunca mais vai fugir daqui de novo.
A mulher tomou lentamente um gole de sua garrafa de uísque e
ajeitou a saia.
— E então, mocinha? Está feliz por ter voltado a morar com a Srta.
Hannigan? Hein?
— Estou, Srta. Hannigan — respondeu Annie, mantendo-se firme.
— Mentirosa! — berrou a diretora. — O que foi que eu ensinei a
você? Nunca deve mentir! E então? O que foi que eu ensinei a você?
— Nunca devo mentir, Srta. Hannigan — repetiu Annie, com a voz
calma.
A Srta. Hannigan agarrou a menina e a sacudiu com violência.
— Eu poderia ter sido demitida pelo que você fez, por ter fugido —
sibilou a diretora. — O Comitê Diretor dos Orfanatos poderia ter vindo
se meter aqui. Bem, agora você vai pagar por isso. Eu prometo. Vai se
arrepender de ter sido pega e trazida de volta para cá.
A Srta. Hannigan pegou a palmatória de madeira pendurada na
parede atrás de sua mesa e a bateu com cuidado na palma da mão.
— Então você nunca chora quando eu bato em você, não é? — A
mulher riu. — Bem, desta vez, a gente vai ver.

•••
Do lado de fora, logo depois que o sargento Ward saiu do orfanato,
uma longa limusine Rolls-Royce preta entrou na St. Mark’s Place e
parou em frente ao orfanato. Um chofer uniformizado saiu da limusine
e abriu a porta para uma linda loura de cerca de trinta anos. Ela usava
um casaco de cashmere e gola de pele de raposa, elegantemente
cortado, um chapéu salmão e carregava uma pasta fina marrom de
couro de bezerro. A jovem acenou com a cabeça para o chofer
enquanto saía da limusine, depois subiu graciosamente a escada que
levava ao orfanato. Justo no momento em que a Srta. Hannigan erguia
a palmatória para começar a bater em Annie, a moça tocou a
campainha da instituição.
— O que foi agora? — rosnou a Srta. Hannigan ao ouvir uma batida
na porta.
Então ela rapidamente pendurou a palmatória e foi atender à porta.
Mas, antes disso, virou-se para Annie e a empurrou com força, fazendo
a menina cair no chão.
— Fique aqui! — berrou ela. — Eu já volto para cuidar de você. Vai
ser rápido.
A Srta. Hannigan foi até a porta e a entreabriu.
— Quem é? — perguntou.
— Ah, boa tarde. Srta. Hannigan, não é? — perguntou a jovem.
— É.
— Ah, ótimo — continuou a jovem calmamente. — Sou a Srta.
Grace Farrell, e o Comitê Diretor dos Orfanatos de Nova York sugeriu
que eu...
— Entre, entre — gaguejou a Srta. Hannigan.
Confundindo a Srta. Farrell com uma representante do Comitê
Diretor, a mulher começou a ficar com medo de que pudesse estar
prestes a perder o emprego. Sendo uma solteirona de meia-idade
como ela conseguiria encontrar outro emprego durante a Depressão?
Especialmente um que incluísse hospedagem e comida de graça. A
Srta. Hannigan tremia de medo enquanto levava a Srta. Farrell até seu
escritório.
— E quem é esta aqui? — perguntou a Srta. Farrell quando viu
Annie encolhida no chão, em um canto da sala.
— Ah, esta é só uma das nossas queridas menininhas, a Annie, que
foi muito sapeca — respondeu a Srta. Hannigan, dando uma risada
falsa e aguda.
— Ah, entendi — murmurou a Srta. Farrell. — Bem, Srta.- ­
Hannigan, como eu estava dizendo, o Comitê Diretor dos Orfanatos
de...
— Espere. Vá com calma — interrompeu a Srta. Hannigan. —
Posso explicar tudo. Não foi minha culpa. Foi a Annie, sabe, que
entrou na trouxa de roupa suja...
— Srta. Hannigan, eu... — começou a Srta. Farrell.
— E, é claro, eu sei que deveria ter informado o Sr. Donatelli, do
Comitê Diretor, em vez de chamar a polícia, mas eu...
— Srta. Hannigan, sinto muito, mas não tenho a menor ideia do que
está falando — afirmou a Srta. Farrell, pondo a pasta casualmente no
colo enquanto se sentava em uma cadeira próxima à mesa do
escritório.
A Srta. Hannigan mudou de repente. Olhou com frieza para a Srta.
Farrell e para a pasta da moça.
— Espere um minuto aí, minha querida, já entendi — rosnou ela,
soltando um suspiro secreto de alívio. — Se está querendo me
empurrar produtos de beleza, pegou a mulher errada. Porque não
preciso de nenhum. Saia daqui!
— Srta. Hannigan, eu não quero “empurrar” nada — respondeu a
Srta. Farrell com calma. — Sou secretária particular de Oliver
Warbucks.
— Oliver Warbucks? Aquele Oliver Warbucks?
A boca da Srta. Hannigan se escancarou, frouxa, perplexa.
— É — disse a Srta. Farrell. — Aquele Oliver Warbucks.
— Ai, meu Deus! — exclamou a Srta. Hannigan. — Eu li no Daily
Mirror que Oliver Warbucks é o homem mais rico do país. O homem
mais rico do mundo!
— Sim. — A Srta. Farrell foi fria e direta. — Isso é mais ou menos
verdade.
Ela se ajeitou levemente na cadeira.
— Pois bem, Srta. Hannigan, o Sr. Warbucks, em um gesto de
caridade, decidiu convidar uma órfã para passar o feriado de Natal na
casa dele. E eu fui mandada até aqui para escolher uma criança para
ele.
— Tem certeza de que ele não preferiria uma mulher adulta? — A
Srta. Hannigan soltou uma risada aguda. — Tenho duas semanas de
férias disponíveis.
A Srta. Farrell não prestou a mínima atenção à tentativa infeliz de
piada da Srta. Hannigan e tirou da pasta um documento que parecia
oficial. Annie encarava a Srta. Farrell desde o instante em que ela
havia entrado na sala. O coração da menina quase parara quando ela
vira a linda mulher loura, pois tinha certeza de que era a mãe dela que
viera buscá-la. Com seu cabelo louro brilhante e seu lindo rosto, a Srta.
Farrell era exatamente igual à imagem que Annie construíra de sua
mãe. No entanto, mesmo que ela não fosse sua mãe, pensou a menina,
com certeza era a segunda mulher mais gentil e bonita do mundo.
— Então, em que tipo de órfã você está pensando? — perguntou a
Srta. Hannigan, andando de um lado para outro, nervosa, parando
apenas para bloquear a visão que a Srta. Farrell pudesse ter de Annie.
— Bem, ela deve ser simpática — disse a Srta. Farrell.
Contorcendo-se atrás da Srta. Hannigan, Annie deu um pequeno
aceno simpático para a Srta. Farrell. Percebendo o gesto, a jovem
sorriu e acenou de volta. A Srta. Hannigan, que havia começado a
andar pelo cômodo mais uma vez, não viu o aceno, o sorriso nem a
resposta.
— E também deve ser inteligente — acrescentou a Srta. Farrell.
— A capital da Flórida é Tallahassee — afirmou Annie, animada. —
T maiúsculo, a, l, l, a, h, a, s, s, e, e. Tallahassee!
— Cale a boca, garota! — disse a Srta. Hannigan, lançando um
olhar assassino para Annie.
— E alegre — continuou a Srta. Farrell.
Annie soltou uma risada alta e alegre. Com a Srta. Farrell no
mesmo cômodo, era fácil ficar contente.
— Fique quieta — retrucou a Srta. Hannigan. — E que idade ela
deve ter?
— Bem, a idade não importa muito — disse a Srta. Farrell,
inclinando-se levemente para o lado para dar uma olhada melhor em
Annie. — Ah, vamos dizer, uns nove ou dez anos...
De trás da Srta. Hannigan, Annie fez um gesto, apontando para
cima, de modo que a Srta. Farrell sugerisse uma idade maior.
— Ou onze — disse a Srta. Farrell.
Annie continuou apontando para cima.
— Ou até mesmo doze — sugeriu.
Annie fez um sinal para que a Srta. Farrell parasse.
— É, doze anos seria perfeito.
Annie bateu na cabeça para indicar o cabelo ruivo.
— Ah, claro, eu quase me esqueci. O Sr. Warbucks prefere crianças
ruivas — afirmou a Srta. Farrell, sorrindo, encantada com a
brincadeira da qual participava com Annie sem que a Srta. Hannigan
notasse.
Annie ficou de pé, animada, mas a Srta. Hannigan a empurrou de
novo no mesmo segundo.
— Doze anos? Ruiva? — A Srta. Hannigan pensou por um instante.
— Não, infelizmente não temos nenhuma órfã assim aqui.
— Hum, e que tal aquela criança bem ali? — perguntou a Srta.
Farrell, apontando para Annie, que mais uma vez se levantara num
pulo.
— A Annie? Ah, não, vocês não iam querer essa menina — afirmou
a Srta. Hannigan, posicionando-se entre a Srta. Farrell e Annie.
A diretora do orfanato tentava pensar o mais rápido que podia,
apesar do nervosismo.
— Você não ia querer essa garota porque... ela é uma bêbada! É,
isso mesmo. Ela é uma bêbada. Uma bêbada e uma mentirosa.
— É, tenho certeza de que ela é uma bêbada e uma mentirosa —
respondeu a Srta. Farrell, alegremente, sem acreditar por um instante
sequer nas mentiras absurdas da Srta. Hannigan.
A jovem estendeu a mão para Annie.
— Annie, venha aqui — disse, com gentileza.
A menina deu a volta na Srta. Hannigan com cuidado e, sorrindo, foi
até a Srta. Farrell.
— Annie, você gostaria de passar as próximas duas semanas na
casa do Sr. Warbucks? — perguntou a Srta. Farrell.
— Poxa, eu adoraria — suspirou Annie. — Eu realmente adoraria.
— Espere aí! — repreendeu a Srta. Hannigan. — Você pode levar
qualquer órfã daqui, menos a Annie.
— Por quê? — perguntou a Srta. Farrell com frieza.
— Acabei de lhe dizer. — A Srta. Hannigan estava perdendo a
paciência. — Ela é uma bêbada e...
A Srta. Farrell olhou nos olhos da Srta. Hannigan com seriedade.
— Eu imagino, Srta. Hannigan — disse, com autoridade —, que a
razão pela qual a senhorita não quer deixar essa menina vir comigo
tenha algo a ver com essa história da trouxa de roupa e da polícia.
Talvez eu devesse ligar para o Sr. Donatelli do Conselho Diretor e
contar a ele sobre...
— Ah, não, não, não, não... Isso não vai ser necessário — respondeu
a Srta. Hannigan com uma risada aguda.
A Srta. Farrell pegou o documento que parecia oficial, o qual havia
retirado da pasta, e o colocou nas mãos da Srta. Hannigan.
— Assine — ordenou ela.
— Vou assinar — respondeu a Srta. Hannigan com uma risadinha,
rabiscando rapidamente seu nome no papel.
O documento dava a Annie permissão para se ausentar do orfanato
por duas semanas, sob a supervisão de Oliver Warbucks.
— Eu sempre faço tudo para ajudar — disse a Srta. Hannigan,
prestativa. — Se é a Annie que a senhora quer, é a Annie que vai ter.
— É a Annie que eu quero — afirmou a Srta. Farrell.
— Nossa! — exclamou Annie.
— Então, se puder pegar o casaco dela, vou levar a menina comigo
imediatamente.
A Srta. Farrell estava com as mãos nos ombros de Annie.
— Casaco? — respondeu a Srta. Hannigan, de forma rude. — Ela
não tem casaco.
— Tudo bem — afirmou a Srta. Farrell. — Então vamos comprar
um para ela.
— Nossa! — quase gritou Annie.
— Vamos até a Bergdorf Goodman comprar um casaco de inverno
bem quentinho para você — explicou a Srta. Farrell. — Venha,
querida. A limusine do Sr. Warbucks está esperando lá fora.
— Nossa! — Os olhos de Annie estavam arregalados. — Eu numa
limusine. Mal posso acreditar.
— Ela mal pode acreditar — resmungou a Srta. Hannigan, furiosa,
enquanto a Srta. Farrell levava Annie pela mão para fora do escritório.
No andar de baixo, através da janela do ateliê, as órfãs tinham visto
a limusine estacionar do lado de fora. Muito animadas, elas- ­
observaram a linda loura ir até a porta da frente e entrar no orfanato.
— Talvez ela tenha vindo adotar alguma de nós — dissera Kate para
a pequena Molly. — Então, se ela descer aqui para ver a gente, não se
esqueçam: pareçam bonitas.
Depois de um tempo, sem que a mulher descesse até o ateliê, duas
das órfãs, Pepper e Molly, haviam se esgueirado pelas escadas e
tentavam ouvir a conversa pela porta do escritório. Mas não tinham
conseguido escutar nada através da porta grossa. Não sabiam que
Annie havia voltado e estava no escritório com a Srta. Hannigan e a
loura desconhecida. Por isso, quando a Srta. Farrell saiu do escritório
com Annie, Pepper e Molly ficaram impressionadas ao ver a velha
amiga.
— Annie, você voltou! — exclamou Molly.
Fazia meses que a menininha sonhava que Annie voltaria para o
orfanato.
— Bem, é, eu meio que voltei — respondeu Annie, hesitante.
— O que houve? A polícia pegou você? — perguntou Pepper.
— Shhh — sussurrou Annie.
A menina não queria que uma pessoa tão legal quanto a Srta.
Farrell descobrisse que ela havia fugido. Em voz baixa, disse a ­Pepper
e Molly:
— É, a polícia me pegou, mas agora essa moça vai me levar para
ficar na casa de um cara rico.
Annie se ajoelhou e deu um grande abraço carinhoso em Molly.
— Não se preocupe, querida. Estarei de volta logo depois do ­Natal e
vou cuidar de você de novo, como fazia antes — garantiu Annie.
Molly sorria e ao mesmo tempo tinha lágrimas nos olhos. Era nova
demais para entender por que Annie havia voltado repentinamente e
por que estava indo embora de novo. Para a menina, outras duas
semanas sem Annie pareciam uma eternidade.
— Tudo bem. Vejo você em duas semanas — disse Pepper, dando
um soquinho carinhoso no braço de Annie.
— Contem para o resto das meninas que eu vou voltar — pediu
Annie. — E que vou escrever de onde quer que seja esse lugar para
onde estou indo. Feliz Natal.
— Feliz Natal, Annie — disseram Molly e Pepper em coro.
— Boa tarde, Srta. Hannigan — gritou a Srta. Farrell de volta para o
escritório. — E Boas Festas.
— É. Boas Festas — respondeu, distraída, a diretora enquanto
sacava a garrafa de uísque e a terminava em um único gole. — Maldita
Annie — resmungou para si mesma. — Vai passar o Natal numa casa
luxuosa enquanto eu estou presa aqui com um bando de órfãs
ridículas. Bem, vou cuidar dessa menina quando ela voltar. Vou cuidar
muito bem. Vou esquentar o traseiro dela de uma forma que não vai
conseguir se sentar durante um mês!
Do lado de fora, o chofer abriu a porta da limusine para Annie e a
Srta. Farrell. A menina se viu no assento mais macio e confortável em
que já tinha sentado na vida. Quase afundou nele enquanto a Srta.
Farrell se acomodava a seu lado. Um segundo depois, a limusine se
afastou do meio-fio. Annie acenou pela janela da limusine para Molly e
Pepper, que estavam encostando os narizes no vidro da janela da frente
e a observavam ir embora. A limusine, então, começou a seguir para a
Quinta Avenida. Nossa, pensou Annie, pegando a mão da Srta. Farrell
e a apertando com força, imagine se Myrtle Vandenmeer pudesse me
ver agora.
Nove

Alguns minutos depois, a limusine parou em frente à Bergdorf


Goodman, na esquina da Quinta Avenida com a rua Cinquenta e Sete,
e a Srta. Farrell levou Annie até a elegante loja de departamentos.
Nela, a moça comprou para a menina o casaco mais lindo e quentinho
que Annie já tinha visto. Era de uma lã rosa-clara e tinha uma gola de
lã de arminho branca. Para combinar, a Srta. Farrell também comprou
um chapéu cor-de-rosa. Annie não conseguia acreditar no preço do
casaco e do chapéu: juntos, custavam mais de cem dólares. Mas a Srta.
Farrell nem piscou ao ver as etiquetas e disse casualmente para a
vendedora:
— Ponha na conta de Oliver Warbucks.
Sentindo-se como uma princesa de conto de fadas com o novo
casaco e o novo chapéu, Annie voltou a se acomodar luxuosamente no
banco de trás da limusine. O carro seguiu para o norte e, por fim,
parou na calçada em frente à mansão de seis andares com pilares de
mármore de Oliver Warbucks, na esquina da Quinta Avenida com a
rua Oitenta e Dois, em frente ao Metropolitan ­Museum of Art. O
chofer abriu a porta cerimoniosamente, e Annie e a Srta. Farrell
saíram do carro. Pegando Annie pela mão, a Srta. Farrell a levou pela
escadaria da frente da casa e tocou a campainha ao lado da enorme
porta de carvalho. Em poucos segundos, a porta foi aberta por um
mordomo alto, de rosto sério, que usava um uniforme verde-escuro, e
a Srta. Farrell o apresentou como Drake. Enquanto Drake fazia uma
reverência, a Srta. Farrell levou Annie até um saguão de pé-direito
alto. Aquele era o maior cômodo que a menina já tinha visto, com
exceção do salão principal do Grand Central Terminal.
— Vocês moram mesmo aqui? — perguntou Annie, olhando à sua
volta com os olhos arregalados e impressionados. — Ou isso é uma
estação de trem?
— A gente mora mesmo aqui — respondeu a Srta. Farrell com um
sorriso.
— Posso pegar seu casaco e seu chapéu, senhorita? — perguntou
Drake com um sotaque britânico anasalado.
Annie deu um passo cauteloso para trás, afastando-se de Drake.
— Vai me devolver depois?
— É claro, querida — afirmou a Srta. Farrell, sorrindo mais uma
vez enquanto Drake pegava o casaco, o chapéu e o suéter velho e
esfarrapado de Annie.
Depois de ter chegado à mansão vestindo o lindo casaco novo e o
chapéu, Annie se sentiu envergonhada por ser vista em seu vestido
manchado e com seus sapatos gastos, que ela havia forrado de papelão
nos dias em que passara na Hooverville. No entanto, nem Drake nem a
Srta. Farrell pareceram notar o fato infeliz de a menina estar vestindo
trapos.
Então a Srta. Farrell, seguida por Drake, levou Annie até uma
imensa sala de estar, com uma enorme lareira de mármore. O cômodo,
que parecia ter o mesmo tamanho de um campo de futebol, era muito
maior do que o saguão. Cerca de doze faxineiras e lacaios
uniformizados estavam ocupados limpando a sala, tirando a poeira dos
móveis, polindo o madeirame e aspirando o pó dos tapetes orientais.
No centro do cômodo havia uma grande estátua de uma mulher nua e
sem braços.
— O que é aquilo? — perguntou Annie, apontando para a estátua.
— Chama-se Vênus de Milo, querida — explicou a Srta. Farrell. —
Há uma cópia dela em um museu em Paris chamado Louvre, mas esta
aqui que pertence ao Sr. Warbucks é a original, claro.
— Ah — suspirou Annie.
A Srta. Farrell se virou para Drake.
— Falando nisso... O novo quadro já chegou de Paris?
— Já, sim, senhorita — murmurou Drake, indicando dois
empregados que abriam uma caixa de madeira no canto mais afastado
da sala de estar. — Estão abrindo a embalagem agora.
Os empregados tiraram da caixa um quadro enrolado em veludo e o
colocaram em um cavalete.
— Ah, ótimo — afirmou a Srta. Farrell. — Então está tudo pronto
para a volta do Sr. Warbucks. Ele já chegou?
— Não, senhora — respondeu Drake. — Mas liguei para o Aero-­
porto de Teterboro. O voo de Chicago pousou às três e quarenta e
cinco, e o carro, é claro, estava lá para buscar o Sr. Warbucks. Ele deve
chegar a qualquer momento.
— Vai ser bom ver o Sr. Warbucks de novo, senhorita — disse uma
das empregadas: a cozinheira, uma escocesa baixinha e gordinha de
rosto simpático, chamada Sra. Pugh.
— É, seis semanas é muito tempo — afirmou a Srta. Farrell com
um suspiro.
Annie ficou surpresa ao notar que os olhos da moça se encheram de
lágrimas de repente. Poxa, pensou Annie, ela deve ter sentido muita
falta mesmo desse Sr. Warbucks.
— Está tudo pronto para o Sr. Warbucks — declarou a Sra. Pugh. —
A equipe da cozinha e eu preparamos o jantar favorito dele: rosbife e
pudim Yorkshire.
— Ótimo. — A Srta. Farrell sorriu. — Agora vocês todos poderiam
vir aqui um instante?
— Pessoal, rápido. Rápido, pessoal — ordenou Drake, estalando os
dedos enquanto os empregados formavam uma fila em frente a Srta.
Farrell e a Annie.
— Pessoal — anunciou a Srta. Farrell —, esta é a Annie, a órfã que
vai ficar com a gente pelas próximas duas semanas. Durante o Natal.
— Senhorita — responderam os empregados em coro, fazendo uma
reverência.
— Annie, esse é... o pessoal — disse a Srta. Farrell.
— Oi, pessoal — cumprimentou Annie com um sorriso alegre.
— Bem, Annie, o que você gostaria de fazer primeiro? — perguntou
a Srta. Farrell.
Annie olhou em volta para a enorme extensão de pisos de mármore,
apenas parcialmente cobertos por tapetes, e para as janelas que
praticamente formavam as paredes da mansão, indo do chão ao teto e
com vista para a Quinta Avenida.
— O chão — decidiu Annie. — Vou esfregar bem e depois vou
cuidar das janelas.
— Por quê, Annie? — respondeu a Srta. Farrell, assustada. — Você
não vai ter que trabalhar enquanto estiver aqui.
— Não?
Annie havia imaginado que tinha sido levada para a mansão na
época do Natal para ajudar com a limpeza extra que seria necessária
durante o feriado. Afinal, ela tivera que trabalhar para poder ficar em
todos os lugares onde estivera.
— Não, é claro que não — garantiu a Srta. Farrell. — Você é nossa
convidada. E pelas próximas duas semanas vai se divertir muito. Vai
tomar café na cama toda manhã, servido pela Sra. Pugh. A Annette vai
arrumar a sua cama e limpar o seu quarto. E depois... Bem, deixe-me
ver. A piscina fica no térreo, nos fundos.
— Dentro da casa? — perguntou Annie.
— Claro, querida! — respondeu a Srta. Farrell.
— Nossa! — exclamou a menina.
— Enquanto estiver com a gente, não vai ter que mexer um dedo.
Você veio para cá, Annie, só para se divertir.
— Nossa! — Annie sorriu. — Acho que vou gostar daqui.
De repente, a voz áspera e grave de um homem foi ouvida gritando,
irritada, do saguão.
— Estou fora há seis semanas! — berrou o homem. — Onde diabo
está todo mundo?
No mesmo instante, os empregados foram atendê-lo
respeitosamente. E, um segundo depois, o homem, que usava um
sobretudo cinza de gola de cashmere, um chapéu de feltro cinza
perolado e carregava uma pesada pasta de couro preto, entrou na sala
tempestuosamente.
— Olá — cumprimentou ele, batendo a pasta no chão enquanto
Drake se aproximava para pegar o chapéu e o casaco que o homem
havia jogado, irritado.
Assustada, Annie deu alguns passos atrás para se esconder atrás da
Vênus de Milo. Depois deu uma espiada no homem com cuidado. Ele
era alto, tinha ombros enormes e uma cabeça careca, completamente
raspada e meio pontuda. Seus olhos eram de um azul frio e penetrante,
notou Annie, e ele tinha uma expressão sombria. No geral, ele parecia
o homem mais assustador que Annie já tinha visto.
— Seja bem-vindo de volta, Sr. Warbucks — disse Drake.
— É bom estar em casa — retrucou o Sr. Warbucks.
— Como foi o voo de Chicago, senhor? — perguntou Drake.
— Nada mau. Levou sete horas, e só tivemos que pousar duas
vezes. Mas vamos falar das coisas importantes primeiro. O quadro já
chegou de Paris?
A Srta. Farrell deu um passo à frente, nervosa.
— Sim, senhor. Acabaram de desembalá-lo.
Dois empregados correram até o cavalete onde o quadro havia sido
colocado e arrancaram o veludo arroxeado que o cobria. O quadro
mostrava uma mulher de rosto gentil, que sorria levemente. Annie
soube depois pela Srta. Farrell que se chamava Mona Lisa e tinha sido
pintada centenas de anos antes na Itália, por alguém chamado
Leonardo da Vinci. O Sr. Warbucks atravessou o cômodo e ficou
parado por um instante em frente ao quadro.
— Hum, não, acho que não — disse, por fim. — Mande de volta
para Paris, de onde isso veio.
— Sim, senhor — responderam os empregados, cobrindo a pintura
com o veludo e começando a embalá-la de novo.
— Grace? — chamou o Sr. Warbucks.
— Sim, senhor.
A Srta. Farrell deu um passo à frente, ansiosa.
— Alguma mensagem?
— Sim, senhor.
Uma sombra de decepção atravessou o rosto da Srta. Farrell. A
moça esperava que, depois de seis semanas, ele pelo menos
perguntasse como ela estava. Mas, muito eficiente, ela sacou o
bloquinho e começou a ler as mensagens para ele.
— O presidente Roosevelt ligou da Casa Branca à uma e quarenta e
oito desta tarde — disse. — Quer que o senhor ligue para ele hoje à
noite.
— Hum — bufou o Sr. Warbucks. — Eu ligo de volta para ele
amanhã. Mais alguém?
— John D. Rockefeller, Mahatma Gandhi e Harpo Marx —
respondeu a Srta. Farrell.
— Ninguém importante — concluiu o Sr. Warbucks. — O que o
Harpo queria?
— Ele não disse — respondeu a Srta. Farrell.
O Sr. Warbucks andou de volta até o cavalete, onde os empregados
estavam reembalando a Mona Lisa, e pediu que eles erguessem o
quadro de novo para que pudesse dar uma outra olhada.
— Bem — murmurou ele. — Talvez eu consiga aprender a conviver
com essa coisa. Pendurem lá em cima, no corredor dos fundos.
— Sim, senhor — responderam os empregados.
— Drake — chamou o Sr. Warbucks, ríspido, virando-se
imediatamente para os outros. — Vou ficar trabalhando no escritório a
noite toda. Vou querer o paletó do meu smoking e minha calça de
veludo marrom.
— Sim, senhor — respondeu Drake.
De repente, a Srta. Farrell se lembrou de Annie e a viu escondida
atrás da Vênus de Milo. Por isso, pegou a menina pela mão e a levou até
o Sr. Warbucks. O coração de Annie estava disparado de medo.
— Sr. Warbucks — disse a Srta. Farrell, sorrindo —, gostaria que o
senhor conhecesse...
— Ah, e Sra. Pugh — continuou o Sr. Warbucks, ignorando a Srta.
Farrell e nem mesmo notando Annie ao seu lado.
— Sim, senhor.
— Não vou jantar hoje. Tenho muita papelada para ler.
— Mas, senhor, preparamos rosbife com pudim Yorkshire —
explicou a Sra. Pugh. — Como um agrado especial pelo seu retorno.
— Rosbife, é? — repetiu o Sr. Warbucks. — Não, só me mande um
sanduíche de queijo e um copo de leite daqui a algumas horas. Não
tenho tempo para comer.
— Sim, senhor — respondeu a Sra. Pugh fazendo uma reverência.
— E, Grace, vou precisar de você a noite toda para anotar coisas
para mim.
— Sim, senhor.
— Certo. É bom ver vocês todos de novo — afirmou o Sr. ­Warbucks
de modo brusco para os empregados.
— Senhor — responderam em uníssono.
— Bem, Drake, pode dispensar todo mundo — ordenou o Sr.
Warbucks, impaciente.
— Sim, senhor.
Drake estalou os dedos e, no mesmo instante, os empregados se
dispersaram, seguidos pelo próprio Drake. De repente, apenas o Sr.
Warbucks, a Srta. Farrell e Annie restaram no cômodo.
— Grace, se puder trazer seu caderno, vamos começar agora
mesmo — disse o Sr. Warbucks, pegando a pasta e indo até a escadaria
de mármore que levava da sala de estar até o segundo andar da
mansão. De repente, percebeu Annie parada ali, em silêncio, em seu
vestidinho velho. Então parou bruscamente, se virou e apontou para
ela.
— Quem é essa menina aí? — perguntou, em um tom ultrajado.
— Esta é a Annie, Sr. Warbucks — explicou a Srta. Farrell. —
A órfã que vai passar o feriado de Natal com a gente.
— Ahn?
— O senhor se lembra de que o seu consultor de relações públicas
sugeriu que seria uma boa ideia receber uma criança órfã durante as
festas? E que o senhor concordou? — lembrou a Srta. Farrell.
— Ah, é, uma criança órfã — disse o Sr. Warbucks, encarando
Annie. — Mas isso não é um menino. Órfãos são meninos. Como o
Oliver Twist.
— Sinto muito, mas o senhor disse apenas “uma criança órfã” —
desculpou-se a Srta. Farrell. — E então escolhi uma menina.
— Ah — balbuciou o Sr. Warbucks, surpreso. — Bem, acho que
essa vai ter que servir.
O Sr. Warbucks andou a passos largos até Annie e parou,
encarando-a de cima.
— Annie, não é? Annie de quê? — perguntou.
— Como é? — retrucou Annie, desnorteada e assustada.
— Qual é seu sobrenome, garota?
— Ah, eu sou só Annie, Sr. Warbucks — explicou a menina. — Não
tenho nenhum sobrenome. Que eu saiba.
— Então você é só Annie?
— Só Annie — respondeu ela. — Sinto muito por não ser um
menino.
O Sr. Warbucks se abaixou e pôs uma de suas enormes mãos
pesadas no ombro de Annie.
— E então? — começou ele, jovial, mudando repentinamente de
humor. — O que você acha de conhecer Babe Ruth? — perguntou,
referindo-se ao famoso jogador de beisebol.
— Nossa! Babe Ruth! Claro! — exclamou Annie, animada, sorrindo,
tentando agradar o Sr. Warbucks. — Quem é ela?
O Sr. Warbucks se levantou e baixou o olhar para Annie com um
suspiro.
— Eu não poderia estar mais feliz por você passar o Natal conosco
— afirmou, dando tapinhas na cabeça da menina, absorto, e
começando a andar até a escada mais uma vez. — Grace, vamos
começar com os números dos envios de minério de ferro para Toledo
de...
No entanto, ele parou de novo, parecendo confuso. De forma
bastante incomodada, foi até a Srta. Farrell mais uma vez e sussurrou
com sua voz rouca:
— O que diabo a gente deve fazer com essa criança?
— Não sei, senhor — sussurrou a Srta. Farrell de volta. — Mas,
bem, é a primeira noite dela aqui.
— É, não é?
O Sr. Warbucks parecia perplexo. Então abriu um meio sorriso e
andou de volta até Annie.
— Bem, Annie — disse, com uma alegria abrupta. — É a sua
primeira noite aqui. Acho que temos que fazer uma coisa especial. Por
que não se senta?
— Sim, senhor — respondeu Annie, pulando em uma poltrona
clássica de veludo vinho, próxima à lareira.
O Sr. Warbucks ficou parado por um instante, coçando a cabeça.
Onde ele poderia levar uma menininha à noite em Nova York? De
repente, teve uma ideia.
— Você gostaria de ir ao cinema? — perguntou.
— Puxa, mas é claro, Sr. Warbucks, eu adoraria — respondeu
Annie. E estava sendo sincera. — Quer dizer, nossa, já ouvi falar muito
do cinema, mas nunca assisti a filme algum.
— Nunca assistiu a filme algum? — O Sr. Warbucks estava
estupefato.
— Não, senhor.
— Bem, então, temos que fazer algo a respeito disso imediatamente
— afirmou o Sr. Warbucks. Toda a confiança dele havia voltado. — E
você só vai ter o melhor, Annie. Vai ao Roxy. Depois vai tomar um milk-
shake no Rumpelmayer’s e passear de carruagem pelo Central Park.
— Nossa!
Os olhos de Annie se iluminaram de alegria, apesar de ela não ter
entendido metade do que o Sr. Warbucks tinha falado.
— Grace, esqueça as anotações para esta noite — trovejou o Sr.
Warbucks. — Vamos cuidar delas amanhã bem cedo. Em vez disso,
enquanto eu estiver trabalhando, leve a Annie ao cinema.
— Sim, senhor — respondeu a Srta. Farrell.
— Ah, poxa! — exclamou Annie, decepcionada.
— Algum problema, Annie? — perguntou o Sr. Warbucks.
— Ah, não, nenhum, senhor — respondeu Annie. — É só que... Ah,
poxa.
— Não, o que foi, menina? — indagou o Sr. Warbucks. — Você não
quer ir ao Roxy?
— Ah, não. Eu quero ir — explicou Annie. — É só que... Bem, eu
achei que o senhor ia me levar.
— Eu? — exclamou o Sr. Warbucks, boquiaberto. — Não, não, sinto
muito, mas estarei muito ocupado esta noite para...
— Ah, poxa.
— Escute, Annie, estou longe de casa há seis semanas — explicou o
Sr. Warbucks. — Fui fazer uma viagem de inspeção em minhas
fábricas. Ou no que sobrou das minhas fábricas com essa porcaria de
Depressão. E quando um homem gerencia uma corporação
multibilionária, ele não tem tempo...
— Ah, claro, Sr. Warbucks, eu sei disso tudo — respondeu ­Annie.
— E, bem, se o senhor não quer levar uma menininha órfã ao cinema,
tudo bem.
— Bem, eu não colocaria as coisas dessa forma... — começou o Sr.
Warbucks.
O telefone tocou, e a Srta. Farrell atendeu.
— Com licença, senhor — disse ela, estendendo o telefone para o
chefe. — Bernard Baruch quer falar com o senhor.
Em 1933, Bernard Baruch era — com exceção de Oliver ­Warbucks
— o financista mais rico e poderoso dos Estados Unidos. Ele também
era um amigo próximo e conselheiro do presidente Franklin D.
Roosevelt. Mas Annie, é claro, nunca havia ouvido falar de Bernard
Baruch e não tinha ideia de com quem o Sr. Warbucks estava
conversando ao telefone.
— Oi, Barney! — berrou o Sr. Warbucks.
Annie se levantou da cadeira e foi ficar parada ao lado dele,
encarando o homem com um olhar suplicante, que dizia: “Por favor,
você pode me levar ao cinema?”
— É, eu cheguei faz apenas umas duas horas — continuou o Sr.
Warbucks, falando ao telefone. — Não, não consegui ir até ­Cleveland.
Mas estive em Detroit e Chicago. E, Barney, fique sabendo que eu não
gostei nada do que vi por lá. Minhas fábricas fecharam. Minhas
fábricas fecharam... Pode apostar sua poupança nisso: se eu não estou
ganhando dinheiro, então ninguém está. E dane-se. Barney, seu amigo
Roosevelt tem que fazer alguma coisa drástica. Ele tem que criar um
novo conceito, um novo plano, um novo... alguma coisa.
Irritado com o olhar que Annie lhe lançava sem piscar, o Sr.- ­
Warbucks, ainda segurando o telefone, se afastou dela. Mas Annie deu
um passo à frente, decidida, e ficou novamente diante dele.
— É, eu sei que o Roosevelt é um democrata, mas ele também é um
ser humano — continuou o Sr. Warbucks. — Sim, claro que posso
conversar sobre isso com você. Venha para cá hoje... Ótimo, vamos
poder... Posso mostrar todos os números sobre...
O Sr. Warbucks baixou o olhar para Annie. Ela lançou um olhar
triste de volta para ele. Então o homem soltou um grande suspiro,
derrotado.
— Escute, Barney — disse ao telefone. — É melhor a gente marcar
alguma hora amanhã. Hoje à noite... Eu me esqueci, mas tinha
marcado de ir ao cinema. Com uma menina de onze anos.
Annie ficou na ponta dos pés e sussurrou no ouvido dele:
— Tenho doze anos.
— Eu me enganei, Barney, ela tem doze anos — corrigiu o Sr.
Warbucks. — Tchau, Barney.
O homem desligou o telefone e fitou Annie, balançando a cabeça
com um leve sorriso.
— Está bem, garota, você venceu.
Ele foi até a entrada do saguão e gritou:
— Drake!
— Sim, senhor.
— Nossos casacos. O da Srta. Farrell, o da Srta. Annie e o meu!
— Sim, senhor.
Drake entrou na sala de estar com os casacos quase
instantaneamente.
— Vamos ao cinema, Drake — avisou o Sr. Warbucks, vestindo seu
sobretudo.
— Sim, senhor — respondeu Drake, enquanto ajudava Annie a
vestir seu casaco. — Vai querer o Rolls-Royce ou o Duesenberg,
senhor?
— O Duesenberg — respondeu o Sr. Warbucks. — Não, espere.
Essa criança ficava presa em um orfanato. Não vamos de carro, vamos
a pé.
— Vamos andando até o Roxy? — indagou a Srta. Farrell.
— Claro, por que não? — disse o Sr. Warbucks, jogando
alegremente o cachecol verde de seda em volta do pescoço. — São só
quarenta e cinco quadras.
— Sim, senhor! — A Srta. Farrell sorriu, surpresa, mas feliz.
Alguns segundos depois, enrolados e quentinhos em seus casacos,
chapéus e cachecóis, o Sr. Warbucks, a Srta. Farrell e Annie saíram
pela porta da frente da mansão para a noite de Nova York, fria, mas
clara e estrelada.
— Ah, sintam esse cheiro — pediu o Sr. Warbucks, respirando
fundo para sentir o ar da cidade. — Fumaça dos ônibus da Quinta
Avenida. Não há ar como o de Nova York. E a gente não nota quanto
sente falta dele, da droga da cidade inteira, até ficar longe por um
tempo. Como dizem por aí, depois de Nova York, qualquer outro lugar
é Bridgeport.
Quentinha como uma torrada amanteigada no lindo casaco novo de
lã cor-de-rosa e com o chapéu, Annie logo se viu passeando pela
Quinta Avenida de mãos dadas com Grace Farrell, que — com
exceção de sua mãe, que ela ainda não conhecia — era com certeza a
mulher mais bonita e gentil do mundo inteiro, e com o Sr. Oliver
Warbucks, que não apenas era o homem mais rico do mundo, mas
também parecia ser muito legal. Para uma criança órfã que passou
uma noite na cadeia, não estou nada mal, pensou Annie, sorrindo para
si mesma. Então é assim que as pessoas se sentem quando estão
felizes.
Dez

Annie nunca se esqueceria daquela noite de passeio pela cidade com


o Sr. Warbucks e a Srta. Farrell. Ela ficou encantada com o cinema
Roxy, com seu teto em forma de arco, seus espelhos, murais e tapetes
vermelhos. E ficou ainda mais encantada com o filme que viu no Roxy,
As Quatro Irmãs, estrelado por Katharine Hepburn. A menina riu e
chorou durante o filme, enquanto mastigava, feliz, a pipoca quente e
amanteigada e as barras de chocolate Hershey com amêndoas que o
Sr. Warbucks havia comprado para ela.
— Poxa, eu adoro o cinema. Quero ver todos os filmes que já foram
feitos — disse Annie, com um brilho nos olhos, enquanto os três saíam
do Roxy para encontrar a limusine Rolls-Royce do Sr. Warbucks
esperando por eles.
— De agora em diante, Annie, você vai poder ver todos os filmes
que quiser — prometeu o Sr. Warbucks.
Os três entraram na limusine e foram até a Rumpelmayer’s, ao sul
do Central Park, onde o Sr. Warbucks comprou de presente para Annie
o maior milk-shake de chocolate que a menina já tinha visto. Depois,
enrolados em cobertores para se protegerem do frio da noite de
dezembro, eles deram uma volta pelo Central Park em uma carruagem
puxada por cavalos. No caminho de volta para a mansão, Annie pegou
no sono no banco de trás da limusine. E o Sr. Warbucks, como ela se
lembrou vagamente depois, a carregou até o segundo andar e a
colocou para dormir em uma cama tão grande e confortável que ela
mal podia imaginar que aquilo existia. Meio acordada quando ele a
cobriu, Annie sorriu para o Sr. Warbucks e depois voltou a dormir,
lembrando, enquanto seus olhos se fechavam, que na noite anterior ela
havia dormido no chão de cimento de uma cela da delegacia.
— Acho que essa é a melhor coisa da vida — sussurrou Annie para
si mesma ao cair no sono. — A gente nunca sabe o que vai acontecer
amanhã.
Na manhã seguinte, Annie foi acordada às dez da manhã por uma
leve batida na porta do seu quarto. Era a cozinheira, a Sra. Pugh, que
trazia o café na cama. Annie nunca havia dormido até tão tarde e, é
claro, nunca tinha tomado café na cama. A comida estava deliciosa. Um
copo grande de suco de laranja fresco, uma enorme pilha de
panquecas mergulhada em xarope de bordo, dois ovos cozidos,
torradas quentes e amanteigadas, geleia de morango, um copo de leite
e uma xícara de chocolate quente.
— Eu poderia me acostumar com isso rapidinho.
Annie sorriu para si mesma, limpando a geleia do rosto com um
guardanapo de linho irlandês.
Depois do café, duas empregadas francesas, Annette e Cécille,
ajudaram Annie a tomar banho e a colocar um vestido de organdi
branco e lavanda e um par de sapatos pretos de couro legítimo que a
Srta. Farrell havia comprado para ela naquela manhã na Bergdorf
Goodman. Nossa, pensou Annie, agora estou mais bem-vestida do que
Myrtle Vandenmeer. A Srta. Farrell também havia comprado outros
seis vestidos e mais quatro pares de sapatos para a menina.
— Eu não sabia que as pessoas tinham mais de um par de sapatos
de uma só vez — observou Annie para Annette e Cécille enquanto as
moças escovavam e penteavam seu cabelo.
Quando estava pronta para descer, Annie olhou para si mesma no
espelho de corpo inteiro pendurado na parede do quarto.
— Nossa, olhem só para mim! — exclamou.
O quarto, dominado por uma gigantesca cama com dossel, onde ela
havia dormido na noite anterior sob lençóis de seda cor de salmão, era
decorado em vários tons de rosa: havia cortinas rosa, um tapete rosa e
um papel de parede florido rosa-claro. Era o quarto mais lindo — e
mais rosa — que Annie já tinha visto.
Naquela tarde, depois de um almoço farto com presunto cozido,
batatas-doces, biscoitos quentes e torta de maçã, Annie foi nadar com a
Srta. Farrell na piscina interna da mansão. Vestindo um maiô azul-
claro que a Srta. Farrell havia escolhido para ela na Lord & Taylor,
Annie brincou de espirrar água, feliz, na parte rasa da enorme piscina.
Ela nunca havia entrado em uma antes e, é claro, não sabia nadar.
— Vamos resolver isso agora mesmo — disse a Srta. Farrell.
Uma hora depois, um instrutor — um homem chamado Johnny
Weissmuller, nadador que havia ganhado a medalha de ouro pelos
Estados Unidos nas Olimpíadas de 1928 — chegou para ensinar Annie
a nadar. A menina aprendia rápido e, no fim da tarde, já conseguia
boiar e dar algumas braçadas desajeitadas.
— Eu gostaria de poder dar mais aulas a você. Você entraria para a
seleção olímpica em pouco tempo — disse o Sr. Weissmuller, sorrindo
radiante. — Mas amanhã vou para Hollywood interpretar o papel do
protagonista em uma versão de Tarzan para o cinema.
— Vou ver o senhor no filme, Sr. Weissmuller. Eu prometo — disse
Annie.
Naquela noite, o Sr. Warbucks levou Annie para jantar no salão
Peacock Alley do Waldorf Astoria Hotel. Lá, eles comeram caviar —
que Annie não achou grandes coisas —, faisão servido sob uma
redoma e uma sobremesa incrivelmente deliciosa chamada bolo
Alasca. O Sr. Warbucks contou a Annie que também havia gostado da
noite que tinham passado juntos no Roxy.
— Sabe, Annie — disse ele, tomando uma taça de champanhe
francês —, eu não tiro férias há anos. Estava ocupado demais. Mas
agora, dane-se, pelas próximas duas semanas em que você estiver
conosco, vou descansar. Que se dane o trabalho. Vou deixar meus
negócios cuidarem de si mesmos uma vez na vida. Vou mostrar Nova
York para você como ninguém nunca viu a cidade.
Com cinquenta e dois anos, o Sr. Warbucks, que dedicara a vida
toda ao trabalho, se tornara um bilionário por esforço próprio. Na
verdade, apesar de ser visto com algumas das mulheres mais lindas do
mundo, inclusive Gloria Swanson, Mary Pickford e Greta Garbo, ele
nunca havia se casado. Ficara absorto demais na construção de seu
império financeiro — que incluía tudo, de poços de petróleo em- ­
Oklahoma, passando por fábricas de automóveis em Detroit até- ­
fazendas de seringueiras, para produzir borracha, no Brasil. Era o
homem mais rico do mundo, mas talvez também fosse o homem mais
solitário do mundo, pois não tinha família, possuía pouquíssimos
amigos e quase nunca tirava um dia sequer de folga do trabalho. Até
então.
Nos dias seguintes, o Sr. Warbucks cumpriu a promessa de mostrar
Nova York para Annie. Ele a levou a todos os lugares: à Bolsa de
Valores, à Estátua da Liberdade, à Catedral de São Patrício, ao
zoológico do Bronx, ao Radio City Music Hall e ao topo do Empire
State.
— Nossa, e pensar que morei aqui a vida inteira e nunca vi
nenhuma dessas coisas! — exclamou Annie, enquanto o Sr. Warbucks
apontava para os prédios importantes para ela de um avião que havia
alugado para sobrevoar a cidade.
Além disso, eles viam pelo menos um filme por dia. Tudo, desde
Shirley Temple em Dada em Penhor até os irmãos Marx em Diabo a
Quatro.
Enquanto passeavam pela cidade juntos, de mãos dadas — o
homem alto de cabeça raspada e a pequena menina ruiva —, Annie
contava ao Sr. Warbucks sobre sua vida no orfanato.
— Essa Srta. Hannigan deveria levar umas chicotadas — disse o Sr.
Warbucks, fazendo uma nota mental para que um de seus assistentes
entrasse em contato com o Comitê Diretor dos Orfanatos e exigisse
que a Srta. Hannigan fosse investigada.
Annie também contou a ele sobre sua estadia na Cantina Bixby.
— Esse casal violou leis contra o trabalho infantil fazendo você
trabalhar assim — respondeu o Sr. Warbucks, irritado. — Um único
telefonema e posso mandar fecharem aquele lugar e jogarem Fred e
Gert Bixby na prisão.
— Ah, não, Sr. Warbucks, por favor, não faça isso — implorou
Annie. — Eles não queriam me fazer nenhum mal de verdade... Mas
talvez o senhor deva mandar uma carta avisando que eles não podem
fazer isso de novo ou vão acabar na cadeia.
— Está bem, vou mandar a carta — disse o Sr. Warbucks. — Mas
você é muito mais piedosa do que eu, Annie.
Uma tarde, enquanto ela e o Sr. Warbucks passeavam pelo Grand
Central Terminal, Annie apontou para o lugar em que vendia maçãs e
contou a ele sobre a vida na Hooverville. Ela se lembrou de como
todos os moradores do lugar — especialmente Randy e Sophie —
tinham sido muito gentis com ela. E, por fim, contou ao Sr. Warbucks
sobre seu cachorro, Sandy.
— Annie, duvido que haja alguma chance de você encontrar o
Sandy de novo. Isso imaginando que ele ainda esteja vivo — afirmou o
Sr. Warbucks bruscamente. — Mas vou fazer tudo que puder para
ajudar você a encontrá-lo.
E, vinte e quatro horas depois, o Sr. Warbucks já havia contratado
uma dúzia dos melhores detetives da melhor agência de detetives
particulares de Nova York, a Pinkerton, e ordenado que revirassem a
cidade atrás de Sandy.
— Se alguém pode encontrá-lo, é o pessoal da Pinkerton —
prometeu o Sr. Warbucks.
Toda noite, antes de ir para a cama, Annie ficava de joelhos e rezava
para que os detetives particulares encontrassem Sandy a salvo. Uma
vez por dia, ela escrevia uma carta para as crianças do orfanato
contando sobre suas aventuras como convidada do Sr. Warbucks
durante o feriado. Um dia, escreveu dizendo que o Sr. Warbucks havia
contratado a Pinkerton para procurar por Sandy.
— O que é um Pinkerton? — perguntou Molly, enquanto Pepper lia
a última carta de Annie em voz alta para as outras órfãs.
— Sua besta, todo mundo sabe disso — disse Pepper. — É um tipo
de cachorro, tipo um perdigueiro. É preciso ter um para encontrar o
outro.
— Ah! — exclamou Molly.

•••
Uma noite, alguns dias depois de Annie ter chegado à mansão, o Sr.
Warbucks chamou a Srta. Farrell até seu escritório, no segundo andar.
— Grace — disse ele, ficando vermelho de vergonha. — Eu decidi...
Hum... Eu decidi que... quero adotar a Annie.
— Ah, Sr. Warbucks, isso é maravilhoso! — exclamou a Srta.
Farrell.
— É claro que a questão não é eu gostar dessa menina — disse o Sr.
Warbucks, tentando esconder seu próprio constrangimento sendo
grosseiro. — Mas, bem, eu não iria querer que essa coitadinha tivesse
que voltar para aquela droga de orfanato. E a gente tem muitos
quartos sobrando aqui. Além disso, quer dizer, ela é uma menina
muito legal, não é?
— É, sim, senhor — concordou a Srta. Farrell com um sorriso
radiante.
A tentativa do Sr. Warbucks de esconder o que sentia por Annie não
a enganou nem por um instante.
— Certo, então, amanhã de manhã, a primeira coisa que a senhorita
vai fazer é entrar em contato com meu advogado, Morris Ernst, e pedir
que ele prepare a papelada necessária para a adoção — ordenou o Sr.
Warbucks.
— Sim, senhor! — exclamou a Srta. Farrell, feliz. — E também vou
até o Comitê Diretor dos Orfanatos pedir para que preparem os papéis
que liberam Annie dos cuidados da Srta. Hannigan.
— Ótimo — disse o Sr. Warbucks. — Quanto antes Annie não tiver
mais nenhuma ligação com aquela mulher, melhor.
— Concordo em gênero e número, senhor!
Na manhã seguinte, a Srta. Farrell foi até os escritórios do Sr. Ernst
e do Comitê Diretor e, na hora do almoço, já com os documentos
apropriados dentro da pasta, chegou à porta do orfanato. A Srta.
Farrell não era nem um pouco maliciosa ou vingativa, mas, depois de
ouvir as histórias sobre a Srta. Hannigan, não podia deixar de ficar
ansiosa para ver a expressão da diretora do orfanato quando
descobrisse que Annie seria adotada por Oliver Warbucks. Por isso,
apesar de poder facilmente ter dado a notícia para a Srta. Hannigan por
carta ou ao telefone, decidiu ir ao orfanato pessoalmente. As órfãs
estavam na escola quando ela chegou, e a Srta. Hannigan, sozinha em
seu escritório, havia acabado de ligar o rádio para ouvir a radionovela.
— Mais uma vez, levamos até você The Romance of Helen Trent —
anunciou o locutor, em uma voz grave e melosa, quando as primeiras
notas da música tema do programa, “Juanita”, soaram, vindas de um
órgão ao fundo. — A história de uma mulher que decide provar para si
mesma o que muitas mulheres querem provar: que, para uma mulher
de trinta e cinco anos ou mais, a vida amorosa não precisa ter chegado
ao fim. Que o romance pode acontecer aos trinta e cinco anos ou mais.
— Ai, Deus seja louvado, eu espero que sim — grunhiu a Srta.
Hannigan, tomando um gole da garrafa de uísque de centeio e
acendendo um cigarro Lucky Strike.
Três semanas antes, a venda de bebidas havia voltado a ser legal, e
isso foi a melhor coisa que acontecera para a Srta. ­Hannigan em anos.
Agora, ela podia comprar uísque legalmente e por um preço baixo nas
lojas, em vez de com contrabandistas careiros. Na verdade, agora ela
tinha dinheiro para ficar embriagada desde a manhã até a noite.
— Ai, droga, quem é? — murmurou ela, irritada, quando a Srta.
Farrell bateu à porta da frente.
A Srta. Hannigan desligou o rádio, escondeu a garrafa de uísque na
gaveta da mesa e foi até a porta.
— Boa tarde, Srta. Hannigan — disse a Srta. Farrell, animada,
quando a porta se abriu.
— Veja só, se não é a tal da Farrell — afirmou a Srta. Hannigan,
levando a Srta. Farrell até seu escritório. — A senhorita está adiantada.
Só se passou uma semana. O que foi? O Warbucks já está cansado da
Annie? Veio me dizer que ela vai voltar antes do Natal?
— Não, não, pelo contrário, Srta. Hannigan.
A Srta. Farrell sorriu, sentando-se graciosamente em uma cadeira
ao lado da mesa da Srta. Hannigan.
— O Sr. Warbucks está encantado com a Annie. E ela está se
divertindo como nunca.
— Que ótimo — respondeu a Srta. Hannigan, dando um trago no
cigarro.
— É, ela e o Sr. Warbucks estão praticamente inseparáveis —
continuou a Srta. Farrell. — Vão a todos os lugares juntos. Ao Roxy, à
Bolsa de Valores, e, ah, adivinhe onde eles almoçaram ontem?
— No Waldorf?
— Não, no Automat.
— No Automat — grunhiu a Srta. Hannigan. — Estão se
misturando com os pobres agora?
A Srta. Farrell abriu a pasta e tirou um documento azul-claro.
— Srta. Hannigan, eu sei que a senhorita está terrivelmente
ocupada, como sempre — disse, entregando o papel à diretora do
orfanato —, mas isto tem que ser assinado pela senhorita e enviado de
volta para o Sr. Donatelli, do Comitê Diretor, até as dez horas da
manhã de amanhã.
— Hum, o que é isto? — perguntou a Srta. Hannigan, olhando para
o documento, intrigada.
— É uma liberação. Ela retira a Annie dos seus cuidados e a passa
aos cuidados do Comitê Diretor — explicou a Srta. Farrell.
— Uma liberação? — A Srta. Hannigan parecia confusa. — Não
entendi.
— Vai entender — respondeu a Srta. Farrell com frieza. — Porque a
senhorita deve entender que o Sr. Warbucks ficou tão impressionado
com a Annie que... Adivinhe?
— O quê? — perguntou a Srta. Hannigan.
— Ele decidiu adotar a menina — anunciou a Srta. Farrell com um
sorriso.
A boca da Srta. Hannigan se escancarou tanto que seus dentes
quase caíram. O cigarro realmente caiu, e ela o apagou
desajeitadamente com o pé. Mas tentou disfarçar e parecer não ter se
incomodado com a grande sorte de Annie.
— Que legal — disse, sentando-se, zonza, à mesa. — Que
maravilha. Agora me deixe ver se eu entendi direito essa notícia
maravilhosa. A Annie vai ser filha do Warbucks? Filha de um
milionário?
— Ah, não, não, não. — A Srta. Farrell riu. — Ela não vai ser filha
de um milionário.
— Ah, que bom! — exclamou a Srta. Hannigan, aliviada. — Por um
instante, achei que...
— Não — interrompeu a Srta. Farrell, feliz. — Ela vai ser filha de
um bilionário.
— Um bilionário — repetiu a Srta. Hannigan, balançando a cabeça,
sem acreditar.
— Por isso vim aqui hoje, pessoalmente, para contar que a ­Annie
não vai voltar ao orfanato — continuou a Srta. Farrell. — Nunca mais.
— Nunca mais — ecoou a Srta. Hannigan. — Minha nossa... — A
mulher se levantou, levemente tonta. — A senhorita poderia me dar
licença por um minuto, por favor?
— É claro — respondeu a Srta. Farrell, sorrindo enquanto a
diretora do orfanato saía do escritório, fechava a porta e ia até o
corredor.
De dentro do escritório, a Srta. Farrell ouviu a Srta. Hannigan dar o
grito mais alto e longo que já tinha ouvido. Era um berro de inveja,
frustração e raiva não só por Annie ter se livrado dela, mas por estar
prestes a se tornar a menina mais rica do mundo. Depois de alguns
instantes, quando conseguiu se controlar, a Srta. ­Hannigan voltou
calmamente ao escritório e se sentou à mesa. Encarou a Srta. Farrell
com olhos apáticos.
— Tem mais alguma notícia maravilhosa para mim? — perguntou.
— Não, acredito que esta seja a única notícia maravilhosa de hoje —
disse a Srta. Farrell, fechando a pasta e se levantando. — Então tenha
um bom dia, Srta. Hannigan.
— É, bom dia — murmurou a mulher.
— Ah, e Feliz Natal — acrescentou a Srta. Farrell.
— É, Feliz Natal — resmungou a diretora.
No minuto em que a secretária de Oliver Warbucks saiu do
escritório, a Srta. Hannigan pegou a garrafa de uísque e a esvaziou
com um único e longo gole.

•••
No corredor, enquanto andava do escritório para a porta da frente, a
Srta. Farrell esbarrou em um homem alto, com a barba por fazer, de
rosto grosseiro, usando um velho chapéu bege e um terno de risca de
giz amarronzado e gasto. Com ele, estava uma loura de cabelos
tingidos muito maquiada, de cerca de vinte e cinco anos, usando um
casaco vagabundo de pele de raposa.
— Opa, desculpe aí, lourinha — disse o homem, piscando para a
Srta. Farrell.
Depois, como se quisesse ser engraçado, bateu os braços e
cacarejou alto, fazendo jus ao apelido de Rooster, galo em inglês. A
Srta. Farrell olhou para o casal com horror e rapidamente entrou na
limusine do Sr. Warbucks, que a esperava.
Enquanto a limusine se afastava da St. Mark’s Place, o homem
escancarou a porta do escritório da Srta. Hannigan e entrou no
cômodo. Tinha os olhos pequenos, sombrios e cruéis e um cigarro
pendurado em um dos cantos da boca.
— Olá, maninha — disse para a Srta. Hannigan em uma voz suave e
açucarada. — Faz tempo que a gente não se vê.
— Rooster? Ai, meu Deus. Quando a gente acha que não tem como
piorar... — disse a Srta. Hannigan, levantando-se com um suspiro.
O homem era seu irmão mais novo, Rooster Hannigan, e fazia anos
que ela não o via. A última notícia que tivera dele era que o irmão
estava cumprindo sentença numa prisão perto do rio ­Hudson, a Sing
Sing.
— Finalmente deixaram você sair?
— É, a pena foi reduzida em seis meses por bom comportamento —
gabou-se Rooster.
— Aposto que sim. Por que foi preso dessa vez? — perguntou a
Srta. Hannigan.
Rooster entrava e saía da cadeia desde os quatorze anos, quando
fora pego por roubar uma delicatéssen na Segunda Avenida. Agora ele
tinha quarenta e três anos e era um criminoso convicto, que ganhava a
vida fingindo ser corretor de ações e vendendo certificados de ouro
falsos para vítimas ingênuas, principalmente viúvas idosas.
— Ah, uma velha burra de Yonkers alegou que eu tinha roubado mil
e cem dólares dela — grunhiu Rooster.
— Ah, é, e por que será que ela disse isso? — perguntou a Srta.
Hannigan.
— Porque o Rooster roubou mil e cem dólares dela — respondeu,
com uma voz arrastada, a loura que estava com o quadril apoiado na
porta, atrás de Rooster.
A Srta. Hannigan olhou para a mulher com desdém, de cima a
baixo. Eu já devia saber, pensou, Rooster nunca aparece em lugar
nenhum sem uma vagabunda barata atrás dele.
— Ah, Lily — disse Rooster. — Maninha, eu gostaria de apresentar
a você uma amiga minha de... É...
— Nova Jersey — sugeriu Lily.
— Ah, é, Nova Jersey — continuou Rooster. — A Srta. Lily St.
Regis.
Lily rebolou pela sala, desabou na cadeira ao lado da mesa do
escritório da Srta. Hannigan e cruzou as pernas.
— Meu nome foi inspirado no hotel — explicou em uma voz grave e
áspera, fazendo uma péssima imitação de Mae West.
A Srta. Hannigan fez uma careta para Lily com um ódio mal
disfarçado nos olhos.
— Ah, é? Em qual andar? — perguntou, sarcasticamente.
— Você não adora a Lily, maninha? — perguntou Rooster.
Ele podia ver que as duas mulheres tinham se odiado à primeira
vista.
— É, sou louca por ela — disse a Srta. Hannigan, cuspindo. —
Rooster, me faça um favor: saia daqui e leve essa St. Regis com você.
— Ah, por favor, maninha, me dê um tempo — implorou Rooster.
— Pode parar — rosnou a Srta. Hannigan. — Está querendo mais
uma esmola, não é?
— Não, tem oitenta dólares chegando para mim no correio de
quinta — mentiu Rooster. — Então só preciso de dez dólares para me
acertar. Eu lhe pago de volta na sexta, em dobro. Vinte dólares.
— Aham... — disse a Srta. Hannigan. — Não vai conseguir nenhum
trocado para o metrô comigo, Rooster.
— Cinco dólares, Aggie — implorou.
— Rá, eu devia rir — ironizou a Srta. Hannigan. — Cinco dólares.
Você, com seus grandes negócios e sua conversa fiada... Disse que ia
viver na riqueza.
— Ah, é. E você? — retrucou Rooster. — Este lugar aqui não é
exatamente o Palácio de Buckingham.
— Bem, eu moro na cidade — respondeu a Srta. Hannigan, na
defensiva. — Tenho um salário fixo, comida e casa de graça, luz e gás
de graça. Eu me dei bem.
— Maninha, vamos encarar a realidade — disse Rooster, colocando
o braço em volta dos ombros da irmã. — Você está na mesmíssima
situação que eu.
— Ou seja, péssima — afirmou Lily, de repente.
— Ah, Aggie, como os dois Hannigan conseguiram acabar assim?
— perguntou Rooster. — Justo na sarjeta?
— Eu não estou na sarjeta, de jeito nenhum. Eu me dei bem —
insistiu a Srta. Hannigan, sem querer admitir que a vida dela era vazia
e amarga.
Mas ela e o irmão nunca tiveram muita chance na vida. Eles
cresceram em um apartamento no quinto andar de um prédio na rua
Rivington, no Lower East Side de Manhattan. A mãe deles tinha sido
uma bêbada que passava a maior parte dos dias sentada em bares, os
olhos vítreos por causa da bebida, e o pai tinha sido um viciado em
jogo que sempre tivera problemas com a polícia. Ambos haviam
morrido quando os filhos ainda eram adolescentes. Rooster fora para a
cadeia e, por um tempo, a jovem Agatha ­Hannigan ganhara a vida
como atendente de uma mercearia. Então, aos vinte e três anos, ela
tivera sorte. O irmão mais velho de sua mãe, o tio Joe, era integrante
do Tammany, o clube político democrata que controlava Nova York
naquela época. Com um suborno de cem dólares, o tio Joe havia usado
sua influência na prefeitura para conseguir o emprego de diretora do
orfanato para a Srta. Hannigan. E ela já estava no cargo havia mais de
vinte e cinco anos.
Ao ver que não conseguiria nada emprestado com a irmã, ­Rooster
tentou encontrar algum outro jeito de arranjar dinheiro.
— Me diga uma coisa, Aggie — pediu ele. — Quem era aquela
lourinha com quem eu esbarrei ao entrar aqui? Ela parece ter grana
para emprestar a um cara legal como eu.
— Ela trabalha para Oliver Warbucks — disse a Srta. Hannigan.
— Oliver Warbucks? — perguntou Lily, impressionada. — O
milionário?
— Não, o bilionário — respondeu a Srta. Hannigan com frieza. —
Você é mesmo uma... Deixa para lá. Ela trabalha na mansão dele, na
Quinta Avenida.
— Na Quinta Avenida? — repetiu Rooster com uma risada irônica.
— Ele não mora na Quinta Avenida.
— Não? — perguntou a Srta. Hannigan, surpresa. — Onde ele
mora?
— Na rua da Vida Fácil — respondeu Rooster, semicerrando os
olhos com inveja. — Onde todos os ricos moram. Dormem até meio-
dia, cortam cupons e nunca levantam um dedo para trabalhar. E é para
a rua da Vida Fácil que o seu querido irmão, Daniel Francis Hannigan,
vai.
— É, aposto que sim — ridicularizou a Srta. Hannigan.
— E então, maninha, o que aquela mocinha estava fazendo aqui? —
perguntou Rooster.
— Ela veio me dar a maravilhosa notícia de que uma das órfãs da
instituição, a Annie, vai ser adotada pelo Warbucks. Meu Deus, como
eu odeio aquela criança miserável — disse a Srta. Hannigan, amarga.
— Ela vai ter tudo. Aquela órfã vagabunda vai ter tudo.
— Uma órfã nojenta tendo uma vida luxuosa? Isso não é justo —
disse Lily.
— Não, não é justo — concordou Rooster. — Mas, escute, maninha,
se uma órfã daqui está prestes a ter tanto dinheiro, deve haver um jeito
de a gente ficar com uma parte dele.
— É, claro, mas como? — indagou a Srta. Hannigan.
— Eu não sei... ainda — respondeu Rooster com um sorriso
sinistro. — Mas deve haver algum jeito. Deve haver. E vou pensar em
um. Mesmo que a gente tenha que, você sabe, sequestrar essa Annie e
acabar com ela.
Então a Srta. Hannigan, Rooster e Lily se reuniram e começaram a
sussurrar, tentando bolar um plano para ganhar dinheiro com a
amizade entre Annie e Oliver Warbucks. E, apesar de a menina não ter
ficado sabendo disso enquanto brincava na piscina da mansão, a vida
de Annie começou a correr perigo repentinamente.
Onze

Naquela tarde, na mansão da Quinta Avenida, o Sr. Warbucks


conversava ao telefone com o presidente Roosevelt em Washington
quando a Srta. Farrell entrou no escritório forrado de painéis de
carvalho para falar sobre o processo de adoção de Annie. O bilionário
segurava o bocal do telefone longe do ouvido, pois apenas o presidente
Roosevelt parecia estar falando.
— Blá-blá-blá — sussurrou o Sr. Warbucks para a Srta. ­Farrell
enquanto o presidente Roosevelt continuava a falar. — Claro... Sim,
senhor presidente — disse ao telefone, quando teve chance de dizer
alguma coisa. — É claro que eu e Barney Baruch não estamos pedindo
esmola. Mas... Não, não estou pedindo sua ajuda! Nunca pedi ajuda de
homem algum e nunca vou pedir!
O Sr. Warbucks ficou furioso com o fato de o presidente ter
insinuado que ele estava pedindo ajuda de alguém, pois tinha um
orgulho imenso de ter chegado ao topo sozinho, apenas com o próprio
esforço.
— Escute, senhor presidente — continuou o Sr. Warbucks, agitado.
— Estou dizendo que o senhor tem que fazer alguma coisa sobre a
situação atual do nosso país. E que seja logo, droga! Está bem, vamos
conversar mais sobre isso quando eu for até a Casa Branca, na quarta-
feira.
A Srta. Farrell sussurrou que talvez ele devesse ser um pouco mais
amistoso com o presidente. O Sr. Warbucks suspirou, deu de ombros e
depois disse ao telefone:
— Está bem, senhor presidente, por que não fazemos as pazes? O
senhor poderia vir jantar aqui na véspera de Natal, antes de ir para o
Hyde Park. Maravilha. Até logo, senhor presidente.
O Sr. Warbucks desligou o telefone e franziu a testa.
— Se eu soubesse que ele ia aceitar, eu nunca o teria convidado —
reclamou. — Grace, descubra o que os democratas comem.
— Sim, senhor — respondeu ela.
— Ah, e anote na minha agenda — acrescentou o Sr. Warbucks. —
Na quarta-feira, às onze horas, tenho uma reunião na Casa Branca com
o presidente Roosevelt e os assessores dele, membros do Gabinete.
— Sim, senhor — disse a Srta. Farrell, entregando a documentação
que os advogados haviam elaborado para a adoção e explicando que a
liberação do orfanato assinada seria entregue ao Comitê Diretor dos
Orfanatos na manhã seguinte. — Está tudo se encaminhando, senhor
— continuou ela. — Nada o impede de adotar a Annie agora. Basta o
senhor e um juiz assinarem esses papéis, e ela será legalmente sua
filha.
— Ótimo — disse o Sr. Warbucks. — Bom trabalho, Grace. Aliás, o
pacote da Tiffany já chegou?
— Sim, senhor — respondeu a Srta. Farrell, entregando a ele um
pequeno pacote embrulhado em papel verde-azulado e decorado com
uma fita de cetim. — Chegou há alguns minutos.
— Ótimo — repetiu o Sr. Warbucks, mexendo no pacote, nervoso.
— Vou dar isso a Annie e dizer que quero adotá-la. Onde ela está?
— No quarto dela, senhor, escrevendo outra carta para as amigas
do orfanato — disse a Srta. Farrell. — Vou chamá-la.
— Está bem — murmurou o Sr. Warbucks, começando de repente a
tremer e a parecer inseguro, e não um dos homens mais poderosos do
país. — Droga, o que deu em mim?
— Não precisa ficar nervoso, senhor — tranquilizou-o a Srta.
Farrell.
Lágrimas brilhavam nos olhos da moça. Ela ficara emocionada ao
ver seu chefe, um homem que aparentemente tinha um coração de
pedra, soar vulnerável e inseguro. Fazia anos que a Srta. ­Farrell era
secretamente apaixonada pelo Sr. Warbucks. Ela sempre sentira que,
por baixo da casca grossa, ele era um homem gentil e bondoso. E
naquele momento ela queria chorar de alegria por descobrir que o que
sempre havia pensado dele era mesmo verdade.
— Annie vai se sentir a menina mais feliz do mundo quando o
senhor contar a novidade a ela — cantarolou a Srta. Farrell.
— Ela vai mesmo. Você está certa — grunhiu o Sr. Warbucks,
retomando os costumeiros modos rudes. — E não estou nervoso.
Agora traga a garota aqui.
— Sim, senhor — concordou a Srta. Farrell, com um sorriso.
Um minuto depois, ela trouxe Annie, que usava um vestido de
veludo azul-claro e sapatos de couro branco, até o escritório.
— Vou... Vou deixar vocês dois sozinhos — disse a Srta. Farrell,
saindo do escritório e fechando a porta.
— Oi, Annie, como você está? — perguntou o Sr. Warbucks, alegre.
— Bem, obrigada — respondeu Annie, nervosa.
Ela não tinha muita certeza de por que o Sr. Warbucks queria vê-la,
mas tinha certeza de que era algo ruim. Ela nunca havia sido chamada
ao escritório da Srta. Hannigan no orfanato para receber boas notícias.
— E o senhor?
— Bem — respondeu o Sr. Warbucks. — Bem.
Com as mãos levemente trêmulas, o Sr. Warbucks pegou os papéis
da adoção da mesa.
— Annie — começou ele —, chegou a hora de nós dois termos uma
conversa séria.
— Ah, tudo bem. O senhor vai me mandar de volta para o orfanato
antes do Natal, não é?
— É claro que não — garantiu o Sr. Warbucks, assustado por essa
possibilidade ter passado pela cabeça da menina. — Annie, a gente
pode ter uma conversa franca?
— Claro — disse Annie, sentando-se em uma grande cadeira de
couro próxima à mesa de mogno do Sr. Warbucks.
— Annie, antes de continuarmos, acho que você devia saber
algumas coisas sobre mim — começou o Sr. Warbucks, pigarreando,
nervoso, e começando a andar a passos largos pela sala enquanto
falava. — Eu nasci em uma família muito pobre num bairro chamado
Hell’s Kitchen, bem aqui em Nova York. Meus pais morreram antes de
eu completar dez anos. E eu fiz uma promessa a mim mesmo: um dia,
de um jeito ou de outro, eu seria rico. Muito rico.
— Foi uma boa ideia — observou Annie, séria.
— Quando eu tinha vinte e três anos, ganhei meu primeiro milhão
— continuou o Sr. Warbucks. — Dez anos depois, transformei aquele
milhão em cem milhões de dólares. — O Sr. Warbucks fez uma pausa,
balançou a cabeça e suspirou ao se lembrar da vasta fortuna que havia
juntado ainda tão jovem. — Naquela época, isso era muito dinheiro —
continuou. — Enfim, ganhar dinheiro era tudo que me importava. E
também devo lhe contar, Annie, que fui muito impiedoso com aqueles
em quem tive de pisar para chegar ao topo. Porque sempre acreditei
em uma coisa: você não tem que ser legal com as pessoas que conhece
quando está subindo, pois não vai descer de novo. Mas, nos últimos
tempos, desde que você chegou aqui, percebi uma coisa. Não importa
quantos quadros de Rembrandt ou quantos Rolls-Royces eu tenha. Se
não tiver ninguém com quem compartilhar a vida, se estiver sozinho,
então poderia muito bem não ter dinheiro algum e voltar para Hell’s
Kitchen. Annie, você entende o que estou tentando dizer?
— Claro — piou Annie, que, na verdade, não estava entendendo
nada.
— Ótimo — respondeu o Sr. Warbucks.
— Mais ou menos — reiterou a menina, hesitante.
— Mais ou menos? — perguntou o Sr. Warbucks. — Droga!
Tinha sido mesmo muito difícil para ele demonstrar suas emoções
para Annie, e tudo que dissera não servira para nada. Ele olhou em
volta, viu o pacote da Tiffany na mesa e o pegou.
— Fui até a Tiffany ontem e comprei isto para você — disse ele,
entregando o pacote. — Mandei fazer.
— É para mim? — perguntou Annie, abrindo o pequeno embrulho.
— Nossa, obrigada, Sr. Warbucks. O senhor é sempre tão legal
comigo.
Annie abriu a caixa e viu que continha um medalhão prateado.
— Nossa! — exclamou ela, baixinho, obviamente infeliz com o
presente.
— É um medalhão de prata, Annie — explicou ele. — Notei que
você sempre usa um velho e quebrado e disse a mim mesmo: “Vou dar
a essa menina um belo medalhão novo, bem brilhante.”
— Nossa, obrigada, Sr. Warbucks — agradeceu Annie, tentando
soar feliz com o presente, mas não conseguindo. — Muito obrigada
mesmo.
O Sr. Warbucks parou atrás de Annie e tocou o fecho do velho
medalhão da menina.
— Vamos lá. Vamos tirar este velho aqui e...
— Não! — gritou Annie, levantando-se com um salto e se afastando
do Sr. Warbucks. — Por favor, não me faça tirar este medalhão. Não
quero um novo!
— Qual é o problema, Annie? — perguntou o Sr. Warbucks,
assustado com a reação inesperada ao presente.
— Este medalhão — disse ela, mexendo na joia adorada que havia
usado a vida inteira. — Meus pais o deixaram comigo quando...
quando me deixaram no orfanato. — Ela estava se esforçando para não
chorar. — E tinha um bilhete também! Eles vão voltar para me buscar.
E, ah, eu sei que tenho muita sorte por poder passar o Natal aqui,
mas...
Lágrimas começaram a escorrer pelas bochechas de Annie e, pela
primeira vez desde que conseguia se lembrar, chorou.
— Mas... Não sei como dizer isso... — continuou Annie, soluçando,
o rosto molhado de lágrimas. — A coisa que mais quero no mundo
todo... mais do que qualquer outra coisa... é encontrar meus pais. E ser
como as outras crianças, que têm pai e mãe!
Da sala ao lado, a Srta. Farrell tinha escutado Annie gritar e chorar,
por isso entrara no escritório para tentar entender o que estava
acontecendo. Ao entrar, a menina foi correndo até ela e, chorando, se
enterrou nos braços da Srta. Farrell.
— Annie... Annie, vai ficar tudo bem — disse o Sr. Warbucks,
atordoado e quase magoado por Annie preferir os pais desconhecidos
a ele. — Vou encontrar os dois para você. Vou encontrar seus pais para
você.
— Calma, calma, querida, vai ficar tudo bem — afirmou a Srta.
Farrell, consolando Annie.
A moça dava um abraço apertado na menina e acariciava o cabelo
dela, mas Annie chorava sem parar.
O Sr. Warbucks, sentindo-se bobo e inútil, ficou parado no meio da
sala, sem saber o que fazer.
— Eu... Eu vou pegar um conhaque para ela — murmurou ele,
correndo para fora do escritório com os olhos brilhando, cheios
d’água.
Depois de vários minutos, Annie finalmente parou de chorar. Ela se
afastou da Srta. Farrell, esfregou os olhos vermelhos e sorriu de forma
triste.
— Desculpe.
— Não precisa se desculpar por nada, querida. Você também pode
chorar, assim como as outras crianças — disse a Srta. Farrell. — Mas,
de agora em diante, você não vai ter mais motivo para chorar. Porque o
Sr. Warbucks vai encontrar os seus pais. Eu prometo. Mesmo que ele
tenha que incluir todos os seus funcionários nessa busca. Mesmo que
tenha que usar todos os favores políticos a que tem direito. Até se tiver
que falar com a Casa Branca!
— Nossa! — exclamou Annie, mudando de humor repentinamente.
— Ele é mesmo um homem poderoso.
— É, sim — disse a Srta. Farrell com um sorriso.
Enquanto isso, em seu quarto, depois de ter pensado melhor sobre
levar uma dose de conhaque para Annie, a qual ele mesmo acabou
tomando, o Sr. Warbucks já estava ao telefone com ­Washington,
ligando para J. Edgar Hoover, diretor do FBI.
— J. Edgar, aqui é o Warbucks — disse, com autoridade, ao
telefone. — Preciso que você me ceda cinquenta dos seus melhores
detetives para um projeto especial meu, para encontrar os pais de uma
menininha de Nova York... Por um dia, uma semana, meses. Pelo
tempo que precisarem para resolver o caso. Faça com que todos tirem
férias, e eu vou pagar os custos. Não importa o valor... Ótimo. Quando
vão estar disponíveis?... Amanhã de manhã. Ótimo. Ah, e J. Edgar, eu
quero Eliot Ness... O quê? Bem, então tire o cara do caso Dillinger!
Dizendo isso, o Sr. Warbucks desligou o telefone na cara do diretor
do FBI e, mais uma vez sob controle, voltou ao escritório e parou ao
lado de Annie.
— Annie, me dê o seu medalhão — ordenou ele.
— Mas Sr. Warbucks — hesitou Annie —, eu acabei de lhe dizer
que...
— Eu entendo — disse ele. — Mas essa pode ser a nossa melhor
pista. Vamos entregá-lo ao FBI, e eles vão descobrir de onde o
medalhão veio. E depois achar quem o comprou.
— Está bem — concordou Annie, tirando-o do pescoço, relutante, e
o entregando ao Sr. Warbucks.
A menina pensou por um instante e então enfiou a mão no bolso
para tirar seu bilhete — assim como o medalhão, ele estava sempre
com ela.
— Talvez seja melhor ficarem com o bilhete também —
acrescentou, entregando o papel ao Sr. Warbucks.
— É, é uma boa ideia — respondeu ele. — Você vai ver, Annie, vou
organizar uma busca nacional pelos seus pais, algo que nunca foi visto.
Vamos conferir cada casal dos Estados Unidos, se for preciso. E vamos
encontrar os dois. Na verdade, Annie, talvez você conheça seu pai e
sua mãe daqui a alguns dias.
— É mesmo? — perguntou Annie.
— É mesmo — afirmou o Sr. Warbucks.
— Meu Deus! — gritou a menina, feliz. — Eu tenho que ir escrever
uma carta para as meninas do orfanato sobre isso!
E, dizendo isso, a menina saiu correndo para o seu quarto. O Sr.
Warbucks fez um gesto para que a Srta. Farrell fosse embora, e a
moça também saiu, deixando-o sozinho no escritório. Ele pegou os
papéis da adoção em sua mesa e os jogou no chão. Depois se sentou,
triste, à mesa.
— Bem, é isso — disse a si mesmo com um suspiro. — Vou
encontrar os pais da Annie e, depois, perdê-la.
Então, Oliver Warbucks apoiou a cabeça na mesa e chorou.
Doze

O Sr. Warbucks cumpriu a promessa que havia feito a Annie.


Deixando de lado todos os outros compromissos, ele trabalhou noite e
dia para organizar uma busca nacional pelos pais da menina. Na
manhã seguinte, ele fez com que matérias sobre a busca aparecessem
na primeira página de todos os jornais dos Estados Unidos. E, depois
de comprar faixas de horário de propaganda em rádios de todo o país,
o Sr. Warbucks fez uma gravação direcionada aos pais de Annie ser
transmitida de hora em hora, a cada hora exata, durante vários dias.
Enquanto isso, os agentes do FBI que J. Edgar Hoover havia cedido
começaram uma busca, junto com mais de vinte mil empregados das
fábricas do Sr. Warbucks, os quais haviam sido liberados do trabalho
para bater de porta em porta na procura pelos pais da menina. Todos
os dias, sobre as principais cidades americanas, pilotos em aviões a
jato alugados mostravam a mesma mensagem, sem parar: “Pais da
Annie, procurem Oliver Warbucks.” Na verdade, quarenta e oito horas
depois, não havia quase ninguém nos Estados Unidos que não tivesse
ouvido falar da Annie e de seu sonho de encontrar os pais que haviam
sumido.
No entanto, o Sr. Warbucks não revelou o conteúdo exato do bilhete
nem mencionou o fato de a menina estar usando um medalhão de
prata quebrado quando foi deixada no orfanato em nenhuma das
notícias publicadas.
— Isso é uma informação que apenas os seus pais verdadeiros vão
ter — explicou o Sr. Warbucks. — Então, se um casal aparecer e
souber tudo o que está escrito no bilhete, a sua data de nascimento,
por exemplo, ou tiver a outra parte do medalhão, vamos ter certeza de
que são seus pais.
— Entendi — disse Annie. — Assim não vamos ser enganados por
casais impostores, que dizem ser meus pais.
— Exatamente! — exclamou o Sr. Warbucks.
Na noite de terça-feira, alguns dias antes do Natal e cinco dias
depois do início da busca nacional, Annie e o Sr. Warbucks
participaram como convidados especiais de um dos programas de
rádio mais populares dos Estados Unidos, um programa de humor e
variedades apresentado pelo cantor e comediante Bert Healy.
Marcados para entrar no ar apenas no fim do programa, os dois, muito
nervosos, tiveram que ficar sentados no palco de um enorme teatro no
centro da cidade, diante de um público de mais de mil pessoas,
enquanto Bert Healy e os outros participantes regulares do programa
— um trio de cantoras louras, as irmãs Boylan, um locutor mascarado
chamado Jimmy Johnson e um ventríloquo conhecido como Fred
McCraken e seu boneco, Wacky — cantavam e encenavam uma série
de esquetes de comédia que todos, menos Annie e o Sr. Warbucks,
pareciam achar hilários. Por fim, Annie foi chamada ao microfone por
Bert Healy, que pediu à menina que contasse sua história para os
milhões de pessoas que estavam ouvindo o programa em todo o país.
— Obrigado, Annie. Obrigaaaaaaaaado, Annie — cantarolou Bert
Healy quando a menina terminou de falar. — Um momento de tristeza,
no programa de rádio favorito do país, A hora dos sorrisos da Oxydent,
apresentado pelo seu querido manteiga derretida, Bert Healy.
— Obrigada, Bert Healy — respondeu Annie, andando na ponta dos
pés até a cadeira e se sentando ao lado do Sr. Warbucks.
— Muito bem, Annie — sussurrou o Sr. Warbucks, apertando a
mão dela.
— Mas ainda assim — continuou Bert Healy —, lembrem-se do
meu lema, pessoal...
— Sorriam, droga, sorriam — disse a voz aguda do boneco do
ventríloquo, Wacky.
— Isso mesmo, Wacky — disse Healy. — Sorriam, droga, sorriam!
E agora, do estúdio da WEAF em Nova York e por rádio de costa a
costa pela NEB Red Network, é com grande prazer que apresento a
vocês ninguém menos do que o rico empresário e magnata da Bolsa de
Valores... Oliver Warbucks!
O público aplaudiu, entusiasmado, enquanto o Sr. Warbucks se
juntava a Bert Healy ao microfone. Nervoso, ele segurava com força
um script que fora escrito para ele pelos roteiristas do programa.
— Boa noite, Oliver Warbucks, foi muita gentileza sua vir até aqui
— disse Healy.
— Boa noite, Bert Healy, fico feliz por estar aqui — leu o Sr.
Warbucks no script.
— Oliver Warbucks — disse Healy, que também lia de um script. —
Soube que você tem mais detalhes para contar ao pessoal de casa
sobre a Annie, nossa linda menininha.
— É, Bert Healy, tenho mesmo — enunciou o Sr. Warbucks com
cuidado. — A Annie é uma órfã de doze anos que foi deixada no anexo
feminino do Orfanato Municipal da Cidade de Nova York, na St.
Mark’s Place, na noite de 31 de dezembro de 1921.
— E o senhor está conduzindo uma busca nacional pelos pais da
Annie, certo? — perguntou Healy.
— Isso mesmo, Bert Healy — respondeu o Sr. Warbucks. — Estou
realizando uma busca nacional, de costa a costa, pelos pais de Annie. E
tem mais: vim anunciar hoje à noite, pela primeira vez, que estou
oferecendo um cheque de cinquenta mil dólares para qualquer pessoa
que puder provar que é pai ou mãe da Annie.
— Nossa, isso é incrível! — exclamou Annie, pulando da cadeira e
se juntando ao público que aplaudia o Sr. Warbucks.
Naquela época, cinquenta mil dólares era uma quantia enorme de
dinheiro, o equivalente hoje em dia a vários milhões de dólares.
— Cinquenta mil dólares — disse Healy. — Uau! Isso é incrível.
— Nossa, meu Deus! Meu Deus, nossa! Cinquenta mil dólares! Eu
ia gostar de ter esse dinheiro para ajudar minha pobre velha mãezinha
— brincou Wacky, o boneco de madeira. — Ela é um pessegueiro lá da
Geórgia.
— Shhh, fique quieto, Wacky. Isso não é nenhuma brincadeira —
avisou o Sr. McCraken, o ventríloquo.
— Eu sei, McCracken — respondeu Wacky. — Nada do que você
diz é brincadeira. E você mexe os lábios também.
— Então, pais da Annie, se vocês estiverem ouvindo — continuou
Healy —, escrevam para Oliver Warbucks aos cuidados do estúdio
WEAF de Nova York ou diretamente para ele...
— Na minha casa, Bert Healy — afirmou o Sr. Warbucks. — Quinta
Avenida, 987, Nova York, Nova York.
— Quinta Avenida, 987, Nova York, Nova York — repetiu Healy. —
Obrigado, Oliver Warbucks.
O Sr. Warbucks ia voltar para sua cadeira quando Healy jogou outra
página de script nas mãos dele e pediu que lesse.
— Obrigado, Bert Healy — disse o Sr. Warbucks, lendo a folha que
nunca tinha visto. — E também gostaria de aproveitar a oportunidade
para agradecer aos fabricantes da minha pasta de dentes favorita, a
nova Oxydent, que tem o milagroso k-64 que combate o mau hálito,
por me deixar falar aqui hoje. Boa noite, Bert Healy.
O Sr. Warbucks lançou um olhar irritado para o apresentador por tê-
lo obrigado a anunciar a pasta de dentes e voltou batendo os pés para
sua cadeira.
— Boa noite, Oliver Warbucks — disse Healy. — E, pais da ­Annie,
se vocês estiverem por aí, lembrem-se de que cinquenta mil dólares e
uma filha maravilhosa estão esperando por vocês.
— Por isso entrem em contato imediatamente, ouviram? — ordenou
Wacky.
— Bem, estou vendo pelo velho relógio na parede que outro dos
nossos encontros de terça-feira passou mais rápido do que
conseguimos dizer “Oxydent”.
— O-x-y-d-e-n-t! — cantaram as irmãs Boylan em uma harmonia
desafinada.
— Isso mesmo, O-x-y-d-e-n-t, a pasta de dentes das estrelas. A pasta
de Frances Dee, Frances Farmer e Kay Francis, que deixa seus dentes
com o brilho de Hollywood! — exclamou Healy. — Então, todo o
pessoal do A hora dos sorrisos, Ronnie, Bonnie e Connie, as lindas
irmãs Boylan, Fred McCracken...
— E Wacky! — bradou o boneco.
— E Jimmy Johnson, o único locutor de rádio mascarado —
acrescentou o próprio.
— E o seu manteiga derretida, o filho da Sra. Healy, Bert — falou
Healy —, dizem até a semana que vem, na mesma hora, na mesma
estação. Escovem os dentes com Oxydent e, minha nossa, eu quase
me esqueci: boa noite!

•••
Em todo o país, dezenas de milhares de americanos ouviram o Sr.
Warbucks oferecer cinquenta mil dólares para os pais de Annie no
programa de rádio de Bert Healy. E, entre eles, estavam Pepper, Duffy,
July, Kate, Tessie e Molly no orfanato. Annie havia escrito para elas
avisando que estaria no programa daquela noite, por isso as meninas
foram devagarinho, depois da hora de dormir, ouvir A hora dos sorrisos
no escritório da Srta. Hannigan.
— Nossa, a Annie está no rádio, sendo transmitida para todo o país.
Ela está famosa! — exclamou Kate, enquanto as órfãs se reuniam de
olhos arregalados em torno do rádio, encantadas por ouvirem a voz de
alguém que conheciam vindo de um lugar muito distante.
— Eu queria falar no rádio — disse Molly, triste.
— Eu também — concordou Tessie.
— Ah, eu, não. Quem quer falar nessa porcaria velha de rádio? —
disse Pepper, amarga, desligando o aparelho da Srta. Hannigan.
— É, essa porcaria velha de rádio — murmurou Duffy, que sempre
concordava com tudo o que Pepper dizia.
A Srta. Hannigan também ouvira A hora dos sorrisos, sentada em um
banco do Sweeney’s Shamrock Saloon, um bar no fim da rua. E, ao
voltar para o orfanato embriagada, ela escutou as órfãs conversando e
rindo no seu escritório. Então escancarou a porta e confrontou as
meninas.
— Estou ouvindo alegria aqui? — berrou a Srta. Hannigan.
As órfãs em um instante formaram uma fila, parecendo soldados em
posição de sentido.
— Não, Srta. Hannigan — disseram em coro.
— O que vocês estão fazendo aqui embaixo? — exigiu saber a
diretora do orfanato.
— A Annie falou no rádio — disse Molly.
— Na estação WEAF — acrescentou Kate.
— É, eu também ouvi — disse a Srta. Hannigan. — Na próxima, não
duvido, ela vai aparecer nas tirinhas do jornal. Agora, saiam daqui!
Subam! Voltem para a cama!
— Sim, Srta. Hannigan — responderam as órfãs, correndo para
suas camas antes que a diretora saísse atrás delas com a palmatória.
No seu quarto, que ficava atrás do escritório, a Srta. Hannigan pôs
uma camisola de flanela cinza e se serviu de uma dose do uísque Four
Roses que mantinha na mesinha de cabeceira. Enquanto fazia isso,
murmurava para si mesma sobre o dinheiro que Oliver Warbucks
havia oferecido aos pais de Annie.
— Cinquenta mil dólares. O que eu não faria com cinquenta mil
dólares... — chiou a Srta. Hannigan, embriagada. — E eu criei aquela
droga de criança sem ganhar um centavo. Deus do Céu, eu odeio tanto
aquela Annie que parece até que sou a madrasta dela.
Duas outras pessoas também tinham ouvido o programa: ­Rooster
Hannigan e a namorada dele, Lily St. Regis. Os dois estavam
escutando rádio num quarto vagabundo do Hotel Dixie, na rua
Quarenta e Dois, perto da Times Square.
— Cinquenta mil dólares. A gente tem que dar um jeito de pôr as
mãos nesse dinheiro — afirmou Rooster, andando irritado pelo quarto
pequeno e abafado do hotel.
De repente, ele estalou os dedos e abriu um sorriso torto e sinistro.
Tivera uma ideia.
— Escute, Lily — disse, baixando a voz para um sussurro. — Você
se lembra de como a gente enganou aquela velhinha em ­Atlantic City e
pegou trezentos dólares dela? Fizemos a mulher acreditar que éramos
os irmãos dela que tinham sumido.
— Claro, Rooster. Esse foi o melhor golpe que a gente deu —
lembrou Lily.
— É, até agora. Não vai ser nada comparado a isso — gabou-se
Rooster. — Lily, pegue aquele vestido velho que você usa. Temos um
trabalho a fazer.
— Quer dizer...? — perguntou Lily.
— É — respondeu Rooster. — O casal mais gentil e adorável do
país, Ralph e Shirley Mudge, está de volta.
•••
Uma hora e meia depois, a Srta. Hannigan foi acordada de seu sono
embriagado pelo som da campainha tocando.
— Quem diabo pode ser a essa hora? — murmurou para si mesma,
calçando os chinelos, vestindo seu roupão de flanela cor de pêssego e
andando até a porta.
Parado inocentemente na escada estava um homem alto e curvado,
de cabelos grisalhos, que usava óculos e tinha um bigode caído e
esbranquiçado. Ele usava sapatos pretos enormes, um velho sobretudo
marrom e segurava um chapéu com as mãos trêmulas. Estava
acompanhado por uma mulher gordinha e grisalha, vestida com um
casaco preto de pele de carneiro que já tinha visto dias melhores. Aos
pés deles havia duas malas velhas, amarradas com pedaços de corda.
— Sim, o que vocês querem? — exigiu saber a Srta. Hannigan,
desconfiada, encarando o casal maltrapilho.
— Desculpe, mas a senhora é a responsável pelo orfanato? —
perguntou o homem, com uma voz gentil e assustada.
— Sim, sou eu — respondeu a Srta. Hannigan enquanto o homem e
a mulher entravam no saguão com as malas.
— Ai, meu amor, estou com medo — disse a mulher ao homem. —
Alguma coisa pode ter acontecido com ela.
— Calma, querida, vai ficar tudo bem — garantiu o homem. — Ela
vai estar aqui e vai ser nossa filhinha de novo.
Ele se virou para a Srta. Hannigan.
— A senhora trabalhava aqui doze anos atrás?
— Trabalhava — respondeu a Srta. Hannigan, direta.
— Bem, tivemos sérios problemas de dinheiro naquela época, bem
no fim de 1922 — explicou o homem. — E, quando um trabalho
apareceu, tivemos que ir para o norte, para o Canadá.
— Era um trabalho numa fazenda, mas só podiam aceitar nós dois
— explicou a mulher.
— Então, bem, a gente teve que deixar nossa filhinha aqui —
explicou o homem.
— Nossa menininha, nossa Annie — disse a mulher com uma voz
carinhosa e os olhos cheios d’água.
— Annie? — perguntou a Srta. Hannigan, assustada. — Vocês são
os pais da Annie?
— Sim, senhora, nós somos — disse o homem.
— Por favor, senhora, não aconteceu nada com ela, não é? —
implorou a mulher.
— Não posso acreditar nisso — declarou a Srta. Hannigan.
Depois de todos aqueles anos. Os pais da Annie.
— De onde vocês disseram que vieram mesmo?
— Viemos de uma pequena fazenda lá do Canadá — respondeu a
mulher.
— É — continuou o homem —, onde havia muitas galinhas, patos,
gansos e... galos!
Dizendo isso, o homem tirou o bigode para mostrar que era falso,
bateu os braços e cacarejou como um galo, provando que não era
ninguém menos do que Rooster Hannigan disfarçado. Com uma risada
aguda, a mulher arrancou a peruca grisalha e revelou ser Lily St.
Regis.
— Rá, peguei você, maninha! — gritou Rooster, caindo na
gargalhada.
— Ai, meu Deus, Rooster — disse a Srta. Hannigan. — Eu nunca
teria percebido que era você!
— Enganei você, Aggie — celebrou Rooster. — E, Lily, se a gente
conseguiu enganar minha própria irmã, pode enganar todo mundo.
Inclusive Warbucks.
— É, a gente vai arrancar cinquenta mil dólares do Warbucks. —
Lily deu umas risadinhas.
— Aggie, esse vai ser o maior golpe que já dei na vida — disse
Rooster enquanto os três entravam no escritório da Srta. ­Hannigan e
se sentavam em cadeiras ao redor da mesa. — Conheço um cara no
Brooklyn que pode fazer uma certidão de nascimento falsa e qualquer
outro documento que a gente quiser. Mas precisamos da sua ajuda,
maninha, com os detalhes. Detalhes sobre a Annie que podem nos
ajudar a fazer com que o esquema dê certo.
— É claro que posso ajudar vocês — disse a Srta. Hannigan. —
Posso ajudar muito. Com pequenos fatos como a data de nascimento
da Annie, que estava escrita naquele bilhete dela. Mas o que vou
ganhar com isso?
— Um terço do dinheiro, Aggie — ofereceu Rooster. — Um terço
para você, um terço para mim e um terço para a Lily.
— Hum... Quero metade ou nada. Vinte e cinco mil — afirmou a
Srta. Hannigan com firmeza.
— Metade?! — berrou Lily. — Isso não é justo! A gente vai correr
um risco muito maior do que você.
— Metade ou nada — repetiu a Srta. Hannigan.
— Está bem, droga. Metade. Vinte e cinco para você e vinte e cinco
para nós dois — disse Rooster. — Mas temos que fazer isso rápido,
Aggie. Vamos dar a eles um dos velhos espetáculos do ­Rooster. Temos
que entrar na casa do Warbucks na Quinta Avenida e sair
imediatamente. Quatro, cinco minutos no máximo. Pegamos o
dinheiro, a Annie e damos o fora da cidade.
— É, a Annie. É aí que mora o problema — hesitou a Srta.- ­
Hannigan. — O que a gente vai fazer com ela depois?
— A Annie não vai ser um problema — afirmou Rooster, puxando
um canivete e o abrindo. — Quando quero que uma pessoa
desapareça, ela desaparece. Para sempre.
Rooster fechou o canivete e o guardou de volta no bolso.
— E, como dizem por aí — acrescentou ele com um sorriso feio e
maldoso —, os mortos não falam.
Treze

Às sete da manhã cinzenta e nublada de quarta-feira, 21 de


dezembro, Annie e o Sr. Warbucks embarcaram em um trem especial
na Pennsylvania Station e viajaram para Washington, onde o bilionário
ia se reunir com o presidente Roosevelt na Casa Branca. Acomodados
nas cadeiras acolchoadas e bordadas do vagão particular do Sr.
Warbucks, decorado com tapetes orientais e antiguidades francesas
caras, Annie e ele conversaram sobre a participação dos dois em A
hora dos sorrisos da Oxydent, na noite anterior.
— Com certeza é um programa muito bobo — declarou Annie.
— É, mas todo mundo, menos a gente, adora. Provavelmente
metade do país estava ouvindo — concluiu o Sr. Warbucks. — E, em
algum lugar dos Estados Unidos, deve haver alguém que sabe quem
são os seus pais.
O trem atravessou um longo túnel e, depois, passou por uma
paisagem muito plana, formada por campos feios e fedorentos.
— Que lugar é este? — perguntou Annie, franzindo o nariz
enquanto apontava para o cenário horrível do lado de fora da janela.
— Nova Jersey — disse o Sr. Warbucks, baixando as cortinas.

•••
Algumas horas depois, no Salão Oval da Casa Branca, o presidente
Roosevelt e seus assessores estavam sentados, tristes, ouvindo o
noticiário no rádio.
— ...e até agora não cumpriu nenhuma de suas grandes promessas
de campanha. Tudo o que conseguimos com Franklin D. ­Roosevelt e
seus assessores foi muita falação e quase nenhuma ação — afirmava o
mais famoso locutor de rádio dos Estados Unidos, H. V. Kaltenborn,
com seu sotaque alemão. — Em uma nação tomada pela pobreza, pela
miséria e pelo desemprego, são ações que queremos da Casa Branca,
não palavras. Resumindo, senhor presidente, se estiver escutando, já
nos cansamos dos seus discursos inflamados. Está na hora de o
senhor...
O presidente Roosevelt se inclinou para a frente e desligou o rádio,
interrompendo Kaltenborn no meio da frase. Depois, colocou um
cigarro na longa cigarreira de prata, acendeu-o e se virou para os
membros do seu Gabinete, que estavam franzindo a testa.
— Droga. Críticas, nada além de críticas — murmurou Harold
Ickes, secretário do Interior.
— Eu sei, eu sei — disse a Srta. Frances Perkins, secretária do
Trabalho, concordando com a cabeça.
— É horrível — grunhiu Cordell Hull, secretário de Estado.
— Vocês todos leram o que disseram sobre nós no Washington Post
de hoje? — perguntou, triste, Henry Morgenthau Jr., secretário
interino do Tesouro.
— Por favor, não levante essa questão — resmungou Louis Howe,
assistente especial de economia e melhor amigo do presidente.
O presidente Roosevelt, que vivia confinado a uma cadeira de rodas
desde 1921 (quando suas pernas foram paralisadas pela poliomielite),
virou a cadeira para os companheiros e abriu seu famoso sorriso.
— Meus amigos, eu digo mais uma vez: a única coisa a temer é o
próprio medo! — bradou o presidente, alegre.
— Ah, isso é bobagem — disse Ickes, balançando a cabeça,
enquanto ele e os colegas se afundavam em um desespero ainda mais
profundo em torno da lustrosa mesa de mogno.
— Existe luz no fim do túnel? — sugeriu o presidente Roosevelt.
Os membros do Gabinete suspiraram.
— Nas palavras do locutor Bert Healy: “Sorria, droga, sorria!” —
disse o presidente, esperançoso.
Os assessores, membros do Gabinete, fizeram uma careta.
Pareciam mais tristes do que nunca. Então, um oficial das forças
armadas entrou no Salão Oval com um cartão de visita de borda
dourada e o entregou a Louis Howe.
— Oliver Warbucks e uma amiga, senhor presidente — leu Howe.
— Amiga? — indagou o presidente Roosevelt. — Não sei quem
pode ser essa amiga. Mas, bem, peça para eles entrarem.
— Sim, senhor — disse o oficial.
Um segundo depois, ele conduziu o Sr. Warbucks e Annie até o
escritório.
— Ah, Oliver, foi muita gentileza sua vir até aqui.
O presidente Roosevelt sorriu e apertou a mão do Sr. Warbucks.
Annie, que usava um vestido de organdi azul e branco comprado pela
Srta. Farrell especialmente para a viagem a Washington, ficou
semiescondida atrás do Sr. Warbucks. Sentia-se intimidada por estar na
presença de ninguém menos do que o presidente dos Estados Unidos.
— E, ah, quem é essa aí? — perguntou Roosevelt, olhando para
Annie.
— Senhor presidente, esta é a minha grande amiga Annie —
explicou o Sr. Warbucks. — Ela queria tanto conhecê-lo que não resisti
e a trouxe comigo. Só para dizer oi para o senhor.
— Annie? — O presidente ficou confuso. Mas então se lembrou. —
Ah, é claro. A menininha que falou de forma tão linda no rádio ontem à
noite.
— Como o senhor está, presidente Roosevelt? — murmurou ­Annie,
apertando a mão do presidente, nervosa.
— Como vai, Annie? — disse ele. — Você é tão adorável quanto
parecia ser pelo rádio.
— Obrigada, senhor presidente Roosevelt — respondeu Annie,
baixinho.
— Bem, podemos começar a reunião? — perguntou o presidente,
levando a cadeira de rodas até a cabeceira da mesa de conferência.
— Annie, espere lá fora — sussurrou o Sr. Warbucks. — Vou sair
daqui a...
— Não, não, Oliver, a Annie pode ficar — declarou o presidente. —
Ter uma criança por perto vai nos fazer manter a compostura.
— Obrigado, senhor presidente — disse o Sr. Warbucks.
Ele e Annie se sentaram do outro lado da mesa de conferência.
— Espere aí, droga. Isso aqui não é um jardim de infância para... —
começou Ickes, franzindo a testa, irritado.
Ickes, um sessentão rabugento, era conhecido por ter o pavio curto
e pelo uso indevido de palavrões.
— Harold, enquanto a Annie estiver conosco, eu não quero ouvir
nem um “caramba” de você — ordenou o presidente Roosevelt com
um sorriso.
O presidente apresentou Annie aos membros do Gabinete. Todos,
exceto Ickes, cumprimentaram a menina com carinho. E então a
reunião começou.
— Bem, Oliver, como você fala pelos poucos americanos felizardos
que ainda têm dinheiro — começou o presidente Roosevelt —, eu
gostaria de começar com a sua visão sobre o assunto.
— Senhor presidente, nas palavras do grande republicano Calvin
Coolidge: “O negócio desse país são os negócios” — afirmou o Sr.
Warbucks, ficando de pé. — E para o bem do senhor, do país, de Wall
Street e o meu bem, temos que reabrir minhas fábricas e pôr os
empregados para trabalhar.
— Eu concordo — afirmou a Srta. Perkins, uma senhora de meia-
idade, muito valente, que usava um chapéu de três pontas. Era a
primeira mulher a ser membro do Gabinete. — De acordo com a
última pesquisa feita pelo Ministério do Trabalho, quase quinze
milhões de americanos estão sem emprego e quase cinquenta milhões,
metade da população do país, sem meios de se sustentar ou...
— Senhor presidente, se é que posso dizer isso, o desemprego não
é nosso pior problema — interrompeu Cordell Hull.
Como secretário de Estado, Hull estava apenas preocupado com as
relações exteriores.
— As mensagens que recebemos da Alemanha estão ficando cada
vez mais preocupantes — continuou ele. — A guerra é iminente.
— Que se dane a Alemanha! — grunhiu Ickes. — Temos pessoas
morrendo de fome no nosso país.
— Eu sei disso, Harold — lembrou Hull —, mas, em longo prazo,
elas...
— Cordell — interrompeu o presidente Roosevelt, erguendo a mão
para pedir silêncio —, para pessoas que estão morrendo de fome, não
existe “longo prazo”.
— O problema é que está tudo dando errado ao mesmo tempo —
disse Morgenthau, triste. — A bolsa de valores despencou de novo.
— Greves, revoltas, inundações, tempestades de areia... — grunhiu
Ickes.
— E o FBI ainda não pegou o inimigo público número um, John
Dillinger — acrescentou Howe.
— Bem, pelo menos nós concordamos em uma coisa — afirmou o
presidente Roosevelt com um sorriso amargo. — A situação é
desesperadora e só piora.
Da ponta da mesa, Annie ficara sentada ouvindo tudo aquilo em
silêncio. Então, sem perceber o que estava fazendo, ela disse, corajosa:
— O sol vai sair amanhã. Pode apostar seu último centavo nisso!
— Shhh, fique quieta, menininha — retrucou Ickes.
— Harold! — censurou o presidente Roosevelt, balançando o
indicador para silenciar Ickes. — O que você disse, Annie?
Annie olhou envergonhada para o Sr. Warbucks e para os outros,
surpresa consigo mesma e assustada por ter falado em uma reunião do
Gabinete da Casa Branca.
— Está tudo bem, Annie — disse o presidente, acalmando a
menina. — Pode continuar, querida. Ainda estamos em um país livre,
com liberdade de expressão, onde todo mundo pode falar o que quiser.
Annie respirou fundo e voltou a falar:
— Bem, eu acho que, quando a gente pensa nas coisas boas que
podem acontecer amanhã em vez de nas ruins que estão acontecendo
hoje, a gente pode começar a fazer essas coisas boas acontecerem —
disse Annie.
Em seguida, continuou explicando a filosofia simples e otimista que
lhe havia permitido suportar todos os anos no orfanato.
Enquanto a menina falava, o presidente Roosevelt e os membros do
Gabinete começaram a sorrir, e a tristeza que havia dominado o salão
se dissipou milagrosamente. De repente, todos, inclusive Harold Ickes,
se sentiram inspirados por uma nova esperança. E, animados,
começaram a registrar ideias nos blocos de anotações que estavam
sobre a mesa de conferência.
— Annie — começou o presidente Roosevelt quando a menina
terminou de falar —, enquanto ouvia você, decidi que, acima de tudo,
minha administração vai ser otimista em relação ao futuro do país!
— Muito bem colocado. Eu concordo! — exclamou a Srta. ­Perkins,
entusiasmada.
Naquele instante, um oficial da guarda entrou com um telegrama
para o presidente Roosevelt.
— Peço licença a todos — murmurou o presidente, abrindo o
telegrama e o analisando silenciosamente. — Espere, isso não é para
mim. É para você, Oliver. É da sua secretária em Nova York. “Centenas
de casais em frente à sua casa. Dizem ser os pais da Annie.
Começamos a analisá-los. Sugiro que retorne a Nova York
imediatamente. Grace Farrell”.
— Que maravilha — disse o Sr. Warbucks. — Parece que A hora dos
sorrisos da Oxydent tem mais ouvintes do que a gente imaginava, não é,
Annie?
— Poxa, centenas de casais! — exclamou Annie, erguendo-se com
um salto, alegre. — Um deles deve ser meu pai e minha mãe de
verdade!
— Bem, Oliver, por mais que esteja gostando da sua companhia —
disse o presidente Roosevelt, sorrindo — e especialmente da sua,- ­
Annie, acho que é melhor vocês voltarem para Nova York
imediatamente.
— Claro, senhor presidente, se não se importar... — respondeu o Sr.
Warbucks, pegando Annie pela mão. — Venha, Annie.
— Tchau, pessoal! — gritou a menina.
— Tchau, Annie! — responderam os membros do Gabinete.
— Tchau, senhor presidente, e obrigada! — disse Annie, fazendo
uma reverência desajeitada.
— Não, obrigado a você, Annie. Você é o tipo de pessoa que um
presidente deveria ter por perto — afirmou o presidente Roosevelt,
lançando um olhar de soslaio para Ickes e os outros.
Annie deu um rápido beijo na bochecha do presidente e saiu
correndo, de mãos dadas com o Sr. Warbucks. Já fora da Casa Branca,
perto do portão leste, os dois entraram em uma limusine que —
escoltada por policiais de motos com as sirenes ligadas — os levou a
toda velocidade até a Union Station e o trem especial que esperava
para levá-los de volta a Nova York.
Enquanto isso, no Salão Oval, o presidente Roosevelt e os
integrantes do Gabinete estavam animados com o novo espírito
otimista que Annie havia despertado neles.
— Senhor presidente, e se criarmos cem ou até mesmo mil novos
projetos federais? — bradou Ickes, animado, batendo com o punho
fechado na mesa de conferência.
— É, podemos, por exemplo, começar a construir novas represas,
que forneceriam energia barata e ao mesmo tempo criariam novas
terras férteis com milhares de hectares que agora estão embaixo
d’água — sugeriu Morgenthau.
— Também poderíamos construir novas rodovias — disse a Srta.
Perkins.
— E agências do correio — contribuiu Hull.
— E, é claro, colocar os desempregados para trabalhar nessas obras
— acrescentou Ickes.
— É uma ideia maravilhosa — disse a Srta. Perkins. — Poderíamos
criar cinco milhões de novos empregos em seis meses.
— E os salários semanais poderiam fazer milhões de pessoas
pararem de receber ajuda financeira do governo e voltarem a pagar
impostos — explicou Morgenthau.
— Vamos construir um país tão forte que ninguém, nem mesmo o
chanceler Hitler, vai conseguir nos derrotar na guerra — disse Hull,
animado. — Além disso, o FBI pegou Baby Face Nelson, não pegou?
Vão acabar pegando Dillinger.
— Senhor presidente — incentivou Ickes, ficando de pé, animado
—, temos que dar a esse país nada menos do que uma nova...
perspectiva.
— Uma nova... visão — disse a Srta. Perkins.
— Uma nova... abordagem — afirmou Hull.
— Um novo... conceito — disse Morgenthau.
— Uma nova... dedicação — falou Ickes.
— Um novo... horizonte — prosseguiu a Srta. Perkins.
— Um novo... espírito — disse Hull.
— Uma nova... atitude — finalizou Morgenthau.
— Não, eu já sei o que temos que dar ao povo americano! —
exclamou o presidente Roosevelt, fazendo os membros do Gabinete se
reunirem em volta dele, cheios de expectativa. — Temos que dar a
ele... um New Deal, um novo acordo!
Os membros do Gabinete sorriram e aplaudiram. O presidente
havia escolhido a expressão perfeita para descrever o que queriam
para os Estados Unidos.
— Srta. Perkins, senhores — continuou o presidente Roosevelt. —
Eu estava certo. A única coisa que temos a temer é mesmo o medo!
E foi assim que, em um dia cinzento de 1933, por causa da
influência de Annie, foi criado na Casa Branca o famoso New Deal, de
Franklin D. Roosevelt, que tirou os Estados Unidos da pior Depressão
da história do país. Ou pelo menos é o que diz uma versão desse
acontecimento de muito tempo atrás.
Quatorze

Naquela manhã, pouco depois de Annie e o Sr. Warbucks terem


viajado para Washington, uma multidão quilométrica e ensurdecedora
de casais, que somava mais de mil pessoas, começou a se reunir na
Quinta Avenida, em frente à mansão do Sr. Warbucks. Todos
afirmavam ser os pais de Annie e exigiam, aos berros, ver o dono da
casa. Havia casais gordos, magros, altos, baixos, velhos e jovens, mas
todos tinham uma coisa em comum: o desejo incrível de pôr as mãos
no cheque de cinquenta mil dólares do Sr. Warbucks.
Quando abriu a porta da mansão às oito horas da manhã e
encontrou os casais berrando, querendo entrar, Drake rapidamente
voltou a trancá-la e correu para o andar de cima para avisar à Srta.
Farrell o que estava acontecendo. Ela imediatamente assumiu o
controle da situação.
— É claro que todos serão fraudes, obviamente. Todos, menos um
casal, que deve ser formado pelos verdadeiros pais da Annie —
analisou a Srta. Farrell. — É esse casal que temos que identificar.
— Se os pais da Annie estiverem lá fora, a senhorita vai identificá-
los — garantiu Drake.
— Pode apostar sua poupança nisso! — afirmou a Srta. Farrell,
usando a expressão que havia aprendido com o Sr. Warbucks.
A Srta. Farrell criou um plano de ação. Primeiro, ela elaborou um
questionário com dez perguntas, datilografou-o e tirou mil cópias dele.
A ficha pedia informações rotineiras, como nome, endereço e idade,
mas a décima questão era crucial: “Na noite em que Annie foi
abandonada no orfanato, algo foi deixado com ela. O que era?” Em
seguida, a Srta. Farrell pediu que Drake e um pelotão de empregados
os distribuíssem para a horda de casais, que estava sendo confinada às
calçadas da Quinta Avenida por um esquadrão de policiais montados
em cavalos marrons. Os casais deviam preencher o questionário,
formar uma fila e esperar sua vez de serem entrevistados pela Srta.
Farrell dentro da mansão do Sr. Warbucks. No saguão, a Srta. Farrell
sentou-se em uma cadeira Chippendale, posta atrás de uma
escrivaninha de cerejeira, e conversou com todos os casais, que iam
sendo levados até o cômodo dois a dois, como animais entrando na
Arca de Noé.
Como haviam respondido à décima pergunta de forma incorreta,
dizendo que Annie tinha sido deixada no orfanato com todas as coisas
possíveis, desde um queijo-quente a um pônei, foi fácil para a Srta.- ­
Farrell dispensar quase todos os casais imediatamente. No entanto,
certos casais — por sorte, como a moça percebera depois — haviam
adivinhado que Annie tinha sido deixada no orfanato com um
medalhão. Mas, depois de mais algumas perguntas, nenhum deles
dera a informação vital de que se tratava apenas de metade de um
medalhão quebrado.
Durante horas, parando apenas para comer um sanduíche de atum e
tomar um copo de Ovomaltine quente em sua mesa, a Srta. Farrell
analisou um casal fraudulento após o outro. Sempre que um novo casal
se aproximava da mesa, ela rezava silenciosamente para que aqueles
dois fossem os pais de Annie, mas suas orações nunca eram atendidas.
Por fim, às cinco horas da tarde, quando o sol caía sobre a cidade
cinzenta, ela atendeu o último casal de pais falsos. Não havia mais
ninguém esperando do lado de fora. Exausta, a Srta. Farrell apoiou a
cabeça na mesa e chorou baixinho.
Drake olhou para fora mais uma vez e trancou a enorme porta de
carvalho.
— Infelizmente, Srta. Farrell, esses eram os últimos — disse ele. —
E ainda não há sinal do Sr. Warbucks nem da Srta. Annie.
A Srta. Farrell enxugou as lágrimas com um lenço azul de seda.
— Drake, olhe para todos estes questionários — pediu, suspirando
e apontando para a enorme pilha de papéis na mesa à sua frente. —
Você tem noção de que conversei com seiscentas e vinte e sete
mulheres que alegavam ser a mãe da Annie e com seiscentos e
dezenove homens que diziam ser o pai dela? Isso dá, deixe-me ver...
— Mil, duzentas e quarenta e seis pessoas, senhorita — afirmou
Drake, no mesmo instante.
— Eram todos mentirosos — disse a Srta. Farrell, balançando a
cabeça, cansada. — Drake, eu nunca tinha notado que havia tantas
pessoas desonestas na ilha de Manhattan.
— Alguns deles eram do Bronx, senhorita — observou Drake, seco.
Uma chave virou na porta da frente, e Annie e o Sr. Warbucks
escancararam a porta.
— Grace, voltamos! — exclamou o Sr. Warbucks.
— Onde eles estão, Srta. Farrell? — perguntou Annie, sem fôlego.
— Os olhos da menina se acenderam de esperança enquanto ela corria
até a secretária. — Onde estão todas as pessoas que dizem ser meus
pais?
— Já foram embora, querida — explicou a Srta. Farrell, levantando-
se e andando até Annie para dar um abraço na menina. Ela tentou não
recomeçar a chorar. — Vieram e já foram embora. Sinto muito, Annie,
mas eram todos mentirosos e impostores. Só queriam os cinquenta mil
dólares.
— Poxa... — disse Annie, desanimada.
Por um instante, lágrimas surgiram nos olhos da menina, mas ela
não chorou.
— Tem certeza, Grace? — perguntou o Sr. Warbucks.
A campainha tocou, e Drake foi atender.
— Tenho, senhor — respondeu a Srta. Farrell. — Ninguém sabia
sobre o medalhão. Sinto muito.
— Caramba... — disse Annie. — Eu tinha certeza de que alguma
daquelas pessoas seria minha mãe ou meu pai.
Drake voltou com o vestígio de um sorriso de esperança no rosto
habitualmente rígido.
— Sr. Warbucks, isso acabou de ser entregue por um mensageiro
especial do FBI.
Ele entregou um grande envelope pardo ao Sr. Warbucks.
— Ah, finalmente! — bradou o Sr. Warbucks, abrindo o envelope e
tirando uma carta que leu depressa. — Boas notícias! O FBI encontrou
o fabricante do medalhão de Annie. Em Utica, Nova York.
— Nossa! — gritou Annie.
— Esse tipo de medalhão foi fabricado entre 1918 e 1924 — leu o Sr.
Warbucks.
— Esse tipo? — perguntou a Srta. Farrell, confusa.
— É — disse o Sr. Warbucks. — Mais de noventa mil foram
fabricados e vendidos.
— Ah, puxa vida... — disse Annie.
O Sr. Warbucks terminou de ler a carta, mas sua decepção só
aumentou.
— Annie — disse, por fim —, infelizmente, o FBI acha que a
probabilidade de encontrarem seus pais através do medalhão é ínfima.
Sinto muito.
O Sr. Warbucks enfiou a mão no envelope, tirou o medalhão de
Annie, devolvido pelo FBI, e, gentilmente, o pendurou de novo no
pescoço da menina.
— Tudo bem, Sr. Warbucks — disse Annie, tocando seu medalhão.
Ela andou até a janela e ficou parada, olhando, triste, para a Quinta
Avenida.
— Quer dizer, poxa... — continuou. — O senhor fez o melhor que
pôde. Se não conseguiu encontrar meus pais, ninguém vai conseguir.
Mas acho que uma criança pode viver sem a mãe e o pai. O senhor fez
isso quando tinha dez anos e, olha só, não se saiu nada mal.
— Obrigado, Annie — respondeu o Sr. Warbucks com um sorriso.
Sentindo que o patrão queria ficar a sós com Annie, a Srta. ­Farrell
murmurou:
— Com licença, Sr. Warbucks, vamos dar uma olhada no cardápio
do jantar.
Ela pegou Drake pelo braço e saiu da sala. Então o Sr. Warbucks foi
até Annie, junto à janela, e pôs a mão no ombro da menina.
— Sabe, Annie, eu construí a maior fortuna do mundo — disse, com
uma voz estranhamente gentil. — Já tive mansões e iates em todos os
lugares. Duas universidades têm o meu nome, já apareci na capa da
revista Time quatro vezes e dizem que sou um dos cinco homens mais
famosos e poderosos do mundo. Mas sempre tive a sensação de que
faltava alguma coisa muito importante na minha vida. E, nos últimos
dias, finalmente percebi o que era.
— O quê? — perguntou Annie, virando-se para ele.
— Você — respondeu o Sr. Warbucks, baixinho. — Era você o que
faltava na minha vida. Alguém que eu amasse.
— Eu? — perguntou Annie, um pouco impressionada.
— É, você — disse o Sr. Warbucks.
Então, para quebrar o clima, ele deu uma gargalhada alta e
bagunçou o cabelo ruivo de Annie. Depois, andou até a entrada do
saguão e chamou a Srta. Farrell. Um segundo depois, ela entrou
correndo.
— Pois não, senhor?
— Você guardou aqueles documentos que mandei que arquivasse
um dia desses? — perguntou o Sr. Warbucks.
— Guardei, sim, senhor! — afirmou a Srta. Farrell, feliz, sabendo
que ele se referia aos papéis da adoção de Annie. — Vou pegar agora
mesmo!
— Não, espere, Grace, quero que você fique aqui um instante —
disse o Sr. Warbucks, sentando-se na cadeira Chippendale e pedindo
que Annie se aproximasse dele.
A menina se sentou no colo do Sr. Warbucks e ele pôs um dos
braços em torno dela, apertando-a com força. Quando falou, tentou
soar o mais profissional e o menos emocionado possível.
— Annie — disse, direto. — Eu quero adotar você.
— Me adotar?
Annie mal podia acreditar no que tinha ouvido.
— Sim ou não? — perguntou o Sr. Warbucks, sem rodeios.
Annie ficou zonza. Por um instante — enquanto o Sr. Warbucks e a
Srta. Farrell esperavam, nervosos, para ouvir o que ela ia dizer —,
Annie não conseguiu falar.
— Poxa, se eu não posso ter meus pais verdadeiros — disse ela, por
fim, com um sorriso feliz —, então não tem ninguém no mundo inteiro
que eu iria preferir ter como pai, Sr. Warbucks!
Ela jogou os braços em torno do pescoço dele e o abraçou. E ele a
abraçou de volta. A Srta. Farrell pensou em dar um passo à frente para
abraçar os dois, mas depois percebeu que aquele momento era deles,
não dela. Por isso, deu um passo para trás e observou os dois com
lágrimas de alegria nos olhos.
— Grace — chamou o Sr. Warbucks, feliz —, ligue para o juiz
Brandeis e peça para ele vir aqui no sábado à noite, na véspera de
Natal, assinar os papéis da adoção.
— Sim, senhor! — disse a Srta. Farrell.
— E diga à Sra. Pugh que vamos ter uma casa cheia de convidados
na noite de sábado — continuou o Sr. Warbucks. — Vamos precisar de
flores, música, caviar e champanhe!
— Sim, senhor, vou dizer a ela agora mesmo! — exclamou a Srta.
Farrell, correndo para a cozinha.
O Sr. Warbucks se levantou e pegou Annie nos braços, fazendo um
movimento exuberante.
— Annie, isso não vai ser só uma adoção. Vai ser uma festa! —
berrou ele, alegre, rodopiando a menina. — E você pode convidar
qualquer pessoa do mundo que quiser. Quem você quer? John D.
Rockefeller? Clark Gable? Harpo Marx? Babe Ruth?
— Qualquer pessoa do mundo? — ponderou Annie enquanto o Sr.
Warbucks a colocava gentilmente no chão. — Bem, acho que quero a
Srta. Farrell, é claro. E o Sr. Drake. E a Sra. Pugh. Ah, bem, acho que
todo mundo aqui da mansão.
— É claro, eu quero essas pessoas também. — Ele sorriu.
— Ah, e gostaria que todas as meninas do orfanato viessem
também — acrescentou Annie.
— Ah, não... Infelizmente, a festa vai ser muito tarde. Vai começar
depois da hora em que elas têm que estar na cama — disse o Sr.
Warbucks. — Mas vou fazer uma coisa: vou trazer todo mundo do
orfanato para cá no domingo de manhã para a melhor e maior festa de
Natal que qualquer criança já viu!
— Uau! — gritou Annie.
Então ela se lembrou de quem “todo mundo no orfanato” incluía.
— Mas... A Srta. Hannigan vai vir também?
— Claro, a Srta. Hannigan também — disse o Sr. Warbucks,
animado. — Por que não? Vamos perdoar e esquecer!
— Hum... tudo bem — concordou Annie, relutante.
— Annie! — exclamou o Sr. Warbucks, pegando a menina mais uma
vez nos braços. — Sou o homem mais sortudo do mundo!
— E eu sou a criança mais sortuda de todas!
Quinze

Era véspera de Natal no número 987 da Quinta Avenida. No centro


da sala de estar da mansão de Oliver Warbucks, a árvore de Natal era
mais bonita e quase tão grande quanto a do Rockefeller Center. E,
espalhados embaixo da árvore, havia mais presentes do que uma
criança poderia sonhar em ganhar — bonecas, casas de boneca,
bicicletas, triciclos, cavalinhos de madeira, bichos de pelúcia em
tamanho real, jogos, livros, quebra-cabeças e ferroramas, entre outros
brinquedos. Parecia que o Sr. Warbucks tinha comprado o estoque
inteiro da F.A.O. Schwarz. Uma banda com trinta integrantes,
conduzida por Paul Whiteman, tocava “Bate o Sino” no salão de festas,
enquanto garçons passavam pela multidão carregando bandejas de
caviar e taças cheias de champanhe francês. Aqueles eram
funcionários contratados especialmente para a ocasião, pois os
empregados da casa estavam, é claro, entre os convidados daquela
festa muito especial. Ao lado da lareira decorada com azevinho, a Srta.
Farrell, usando um vestido de chiffon lavanda-claro, conversava com o
juiz Louis Brandeis, da Suprema Corte americana, que vestia sua toga
preta de magistrado e estava de prontidão para assinar os documentos
que tornariam Annie a filha legal de Oliver Warbucks.
O relógio bateu oito horas, e todos aplaudiram quando o Sr.- ­
Warbucks desceu sorrindo a escadaria de mármore que levava até a
sala. Estava elegantemente vestido com um smoking Savile Row e
portava na camisa abotoaduras de diamantes levemente maiores e
mais caros do que o diamante Hope. Ele então sinalizou para que a
banda parasse de tocar, de forma que pudesse falar com os convidados
ali reunidos. Ia chamá-los de “senhoras e senhores da minha equipe”,
mas pensou melhor. Não era mais aquele chefe frio de funcionários
sem rosto que havia sido até Annie entrar em sua vida. Assim como o
Homem de Lata de O Mágico de Oz, Oliver Warbucks ganhara um
coração tardiamente. Por isso, decidiu chamar os empregados de
“meus amigos”.
— Meus amigos, meus queridos amigos, bem-vindos à noite mais
feliz da minha vida! — bradou o Sr. Warbucks, exultante.
Todos aplaudiram. A banda começou a tocar “Joy to the World”
enquanto a multidão ria, comia e bebia à espera da convidada de
honra.
No andar de cima, Annette e Cécille estavam arrumando ­Annie
havia horas. Primeiro, puseram a menina em um longo banho
divertido e perfumado em uma enorme banheira. Depois, fizeram-lhe
um novo penteado, ao estilo francês, com pequenos cachinhos. Por
fim, colocaram na menina meias-calças brancas de seda, sapatos
boneca de couro preto legítimo e um novo vestido que a Srta. Farrell
havia comprado para ela especialmente para a festa. O vestido era de
veludo vermelho, com um bordado em veludo branco em torno da
gola em V e da cintura. Era o vestido mais bonito que Annie já vira. Ela
se apaixonara à primeira vista pela roupa.
— Vou usar isso para sempre! — exclamara ela quando a Srta.
Farrell retirou o vestido da caixa da Bergdorf Goodman e o mostrou
para a menina.
Quando Annette e Cécille terminaram de arrumá-la, Annie se olhou
no espelho — com o novo penteado e o novo vestido vermelho, ela mal
conseguia se reconhecer.
— Uau! — suspirou.
A menina, então, ficou parada no topo da escadaria de mármore que
levava até a sala de estar. Seu coração batia loucamente de animação e
alegria. Ela estava prestes a se tornar a filha de Oliver Warbucks!
Assim que começou a descer a escada, todos notaram e começaram a
aplaudir. Annie sorria de orelha a orelha. Quando chegou ao pé da
escada, o Sr. Warbucks foi correndo até ela e a pegou nos braços.
— Annie, você está linda demais! — exclamou ele.
Depois, dando um abraço apertado na menina, ele sussurrou:
— Finalmente juntos, para sempre. Não preciso de mais ninguém,
só de você.
— E eu não preciso de mais ninguém, só de você — sussurrou ela
de volta, dando um beijo carinhoso na bochecha do homem.
O juiz Brandeis pigarreou e pediu silêncio antes de dar um passo à
frente, segurando os papéis da adoção.
— Vamos resolver logo os requisitos legais para a festa poder
continuar — disse ele.
Todos se juntaram em torno de Annie e do Sr. Warbucks, formando
um grande círculo, enquanto os dois, de mãos dadas, se postavam
diante do juiz Brandeis, como noivos no dia do casamento.
— Bem — começou o juiz Brandeis —, o procedimento de adoção é
muito simples...
Uma estranha sensação de ameaça e frio pairou subitamente pelo
salão. Um homem grisalho e alto, vestindo farrapos, e uma mulher
grisalha, gordinha e baixinha tinham sido trazidos ao cômodo por um
dos empregados.
— Pedimos desculpas, pessoal, por entrar na festa de vocês assim
— disse o homem com uma voz trêmula e idosa.
— É, desculpe — coaxou a mulher.
Eram, é claro, Rooster Hannigan e a namorada, Lily St. Regis,
disfarçados.
Depois de vários dias de preparação, Rooster estava pondo seu
plano nefasto em ação. Sua intenção era roubar os cinquenta mil
dólares de Oliver Warbucks, sequestrar Annie e matar a menina.
— Ah, Shirley, olhe — disse Rooster, apontando para Annie. — Lá
está a nossa Annie.
— Quem é você? — perguntou a menina.
Ela não sabia quem eram aquelas pessoas, mas sentiu
imediatamente que havia algo de mau e perigoso relacionado a elas.
— Querida, nós somos os seus pais — disse Lily, disfarçando a voz
para parecer uma mulher de meia-idade.
— Mudge. Somos os Mudge — apresentou-se Rooster, andando
timidamente pela sala até o Sr. Warbucks.
Os convidados e o juiz Brandeis se afastaram.
— Ralph Mudge. E esta é minha esposa, Shirley.
— Você não sabia até hoje, querida, mas você é Annie Mudge —
explicou Lily, carinhosa, pegando a mão de Annie.
O toque pareceu frio e pegajoso para a menina.
— Annie Mudge? — indagou ela.
— Annie Mudge? — repetiu o Sr. Warbucks.
— É — afirmou Rooster. — O problema foi o seguinte, querida. A
gente estava doente e falido em 1921 e não sabia para onde ir. Mas
então nos ofereceram um emprego numa fazenda no Canadá.
A história de Rooster havia sido ensaiada durante vários dias.
— Só que não podíamos levar um bebê com a gente — acrescentou
Lily, dizendo sua fala no momento certo.
— A gente amava você, Annie, mas teve que deixar você para trás
— afirmou Rooster, fingindo enxugar lágrimas dos olhos.
A Srta. Farrell, que, é claro, já havia lidado com centenas de casais
fraudulentos que alegavam ser os pais de Annie, se intrometeu entre o
Sr. Warbucks e Rooster.
— Sr. Mudge, não é? — perguntou ela, desconfiada, certa de que
aquele casal era outra fraude. — Já recebemos um grande número de
pessoas que afirmaram ser...
— Ah, sim, a prova — interrompeu Rooster, enfiando a mão no
bolso e tirando os documentos falsos que seu amigo do Brooklyn havia
preparado. — Eu imaginei que vocês iriam querer uma prova de quem
somos. Aqui estão nossas carteiras de motorista e a certidão de
nascimento da Annie.
A Srta. Farrell pegou os papéis e os examinou com cuidado.
— Uma menininha, chamada Anne Elizabeth Mudge — leu em voz
alta. — Filha de Ralph e Shirley Mudge, Nova York, Nova York, em 28
de outubro de 1921.
— Vinte e oito de outubro? É o meu aniversário! — exclamou
Annie.
— É isso mesmo, senhor. Estava no bilhete — murmurou a Srta.
Farrell para o Sr. Warbucks.
— É, eu sei — respondeu o Sr. Warbucks, sério e preocupado.
Se o casal era uma fraude, a data de nascimento poderia ter sido um
chute certeiro, pensou o bilionário, mas ainda assim não parecia
provável. Apenas ele, Annie, a Srta. Farrell e o FBI sabiam que a
menina nascera em 28 de outubro. Ele não se deu conta de que outra
pessoa, a Srta. Hannigan, também sabia. E fora a Srta. Hannigan, é
claro, quem dera a informação a Rooster.
— De qualquer maneira — continuou o Sr. Warbucks —, mesmo
que a data de nascimento esteja correta, eu ainda não...
— Por favor, senhor, tem que acreditar na gente — implorou
Rooster, piscando para tentar chorar lágrimas fingidas. — Pegamos
um ônibus da Greyhound hoje à tarde e fomos direto para o orfanato
buscar a nossa Annie. E a moça de lá disse que a nossa filha estava
aqui.
Lily agarrou Annie e a abraçou.
— Ah, Annie, todos esses anos eu sonhei em ter você nos meus
braços de novo... — arrulhou.
Annie se livrou do abraço de Lily e correu para o Sr. Warbucks. De
alguma forma, ela sabia, instintivamente, que aquela mulher não era
sua mãe.
A décima pergunta, pensou Grace, antes de confrontar Rooster mais
uma vez.
— Sr. Mudge — começou ela —, na noite em que a Annie foi
deixada no orfanato, algo foi...
— Ah, tenho aqui uma coisa sobre a qual nenhum de vocês sabe —
disse Rooster, enfiando a mão no bolso e tirando a metade de um
medalhão quebrado que mandara um joalheiro em Staten Island fazer
para ele. — Deixamos a metade de um medalhão de prata com a Annie
e guardamos a outra metade para que soubéssemos quando
voltássemos para buscá-la que...
— Ah, Ralph, veja só! — exclamou Lily. — Annie ainda está usando.
O velho medalhão da minha avó!
— Vamos ver se a parte que guardamos se encaixa nele — sugeriu
Rooster, aproximando-se de Annie e forçando as duas partes do
medalhão a se encaixarem.
Elas se encaixavam, mais ou menos. O joalheiro havia feito um bom
trabalho a partir da descrição que a Srta. Hannigan dera da metade do
medalhão de Annie.
— Isso, elas se encaixam perfeitamente! — gritou Rooster.
— Ah, graças a Deus, Ralph. Isso prova que ela é mesmo a nossa
Annie — suspirou Lily.
Apesar de não quererem acreditar, o Sr. Warbucks e a Srta. ­Farrell
ficaram decepcionados, mas convencidos de que Ralph e Shirley
Mudge eram mesmo os pais de Annie.
— É, ela parece ser a sua Annie — disse o Sr. Warbucks, baixinho.
— É mesmo — confirmou a Srta. Farrell, triste.
— Graças ao bom Deus conseguimos provar a vocês que a Annie é
nossa filha — disse Rooster. — Então, se puderem arrumar as coisas
dela, vamos levar nossa menina conosco agora mesmo.
Mas não vamos levá-la até muito longe, pensou Rooster, sentindo
um calafrio maldoso. Só até a Baía de Sheepshead, onde vamos jogar o
corpo dela. Ele pegou Annie com força pelo braço e começou a andar
com Lily até a porta da frente.
— Vão levar a Annie? Agora? — bradou o Sr. Warbucks.
— É claro — respondeu Rooster. — Por que não? Ela é nossa filha.
— Mas, Sr. Mudge, e o dinheiro? — indagou o Sr. Warbucks.
Rooster estava esperando por essa pergunta. Agora ele tinha
certeza de que convencera Warbucks.
— Dinheiro? Bem, não temos muito, mas daremos tudo que temos
a vocês por terem cuidado da nossa Annie — disse, enfiando a mão no
bolso como se fosse tirar uma carteira.
— O senhor não ouviu dizer que ofereci um cheque de cinquenta
mil dólares para a pessoa que conseguisse provar que era pai ou mãe
da Annie? — perguntou o Sr. Warbucks, tirando o cheque do bolso.
Ele havia planejado doá-lo para a caridade naquela noite, para
celebrar a adoção de Annie.
— Não, senhor — mentiu Rooster, tranquilamente. — Não sabemos
nada sobre cheque algum. Mas, bem, não queremos dinheiro.
— É — interrompeu Lily. — Não queremos dinheiro algum para
ficar com a nossa Annie.
O Sr. Warbucks e a Srta. Farrell trocaram olhares incrédulos. Se
Ralph e Shirley Mudge não queriam os cinquenta mil dólares, então,
com certeza, eram os pais de Annie. O Sr. Warbucks começou a
guardar o cheque de volta no bolso.
— Mas, por outro lado, Shirley — afirmou Rooster, rápido, sem
querer que o peixe, Oliver Warbucks, escapasse do anzol —, talvez a
gente precise de um pouco de dinheiro. Para o bem da Annie. Você se
lembra daquela pequena criação de porcos em Nova Jersey, querida?
Com cinquenta mil dólares, a gente poderia criar a Annie direito. No
campo. Com ar fresco, ovos frescos...
— Presunto fresco — disse Lily, direta, para Rooster.
Ela temia que ele estivesse começando a atuar de maneira óbvia
demais.
— Ah, é. Ha-ha, presunto fresco. — Rooster riu, andando
furtivamente até o Sr. Warbucks e pegando o cheque das mãos dele. —
Visado, hein? — perguntou ele, examinando o cheque. — Tudo que
tenho que fazer é endossar esse cheque para mim, não é? — Rooster
começou a guardá-lo no bolso.
— É, isso mesmo — respondeu o Sr. Warbucks, pegando o cheque
de volta e o guardando no próprio bolso. — Amanhã de manhã.
— Amanhã de manhã? — perguntou Lily, perplexa ao ver o que
havia acabado de acontecer: Rooster pegara o cheque, mas acabara
ficando sem ele.
— É — reafirmou o Sr. Warbucks. — Tenho certeza de que vocês
não vão se importar se a Annie ficar aqui até amanhã de manhã, já que
é Natal. Só então vocês podem vir buscar a menina e o cheque.
— Ah — disse Lily.
Rooster não sabia o que fazer. Mas ele sabia que, para fazer o plano
funcionar, não devia parecer ansioso demais para pôr as mãos no
cheque. Se tivesse que esperar até o dia seguinte para pegar o
dinheiro, então esperaria. Pelo menos tinha feito Warbucks acreditar
que ele e Lily eram os pais de Annie.
— Ah, hum, tudo bem... Se o senhor acha melhor... — gaguejou
Rooster. — Então, Shirley, acho que a gente devia voltar para o nosso
hotel agora. Tchau, Annie.
— É, tchau, meu amor — arrulhou Lily, com doçura.
Depois que saíssem, ela ia quebrar o pescoço de Rooster por ter
deixado o cheque escapar por entre os dedos.
— Até amanhã de manhã, querida — despediu-se ele, afastando-se
de Annie e do Sr. Warbucks e andando na direção da Srta. F­arrell, que
estava parada atrás dele. — Depois disso, você vai passar o resto da
vida com a gente. — Da sua curta vida, pensou Rooster, com maldade.
— Bem, adeus a todos.
Enquanto andava para trás, Rooster bateu com força na Srta.
Farrell, quase derrubando a moça.
— Opa, desculpe aí, lourinha — soltou ele, distraído, falando com
sua voz normal e não com a voz disfarçada de Ralph Mudge.
Além disso, por acaso, ele dissera exatamente as mesmas palavras
ao esbarrar na Srta. Farrell no orfanato.
— Feliz Natal! — bradou Rooster, se dirigindo para a porta.
— É, boas festas — desejou Lily, seguindo-o para fora da mansão.
Confusa, lembrando que alguém, em algum lugar, lhe dirigira
aquelas exatas palavras — “Opa, desculpe aí, lourinha” —, com aquela
mesma voz, a Srta. Farrell ficou observando, perplexa, a saída dos
Mudge. Mas quem dissera aquilo a ela? E onde? E quando?
Um silêncio incômodo pairou sobre a sala depois que o Sr. e a Sra.
Mudge foram embora. Annie ficou parada, sozinha, ao lado da árvore
de Natal, olhando para o chão. O Sr. e a Sra. Mudge eram seus pais.
Mas não podiam ser. Ela teria reconhecido os pais verdadeiros no
instante em que tivessem entrado pela porta. Aqueles simplesmente
não podiam ser. Todos os convidados da festa ficaram em silêncio,
incomodados, sem saber o que dizer.
— Bem, isso é... uma notícia maravilhosa, Annie — disse o Sr.
Warbucks, tentando soar animado.
— É... Maravilhosa mesmo — murmuraram todos.
— A Annie encontrou os pais dela — continuou o Sr. Warbucks —,
e eles parecem ser... um casal muito legal.
— É, muito legal — murmuraram todos.
— Você tem sorte, Annie — disse a Srta. Farrell, gentilmente.
— É, tenho sorte — respondeu Annie, engolindo em seco e
tentando não chorar. — Imagine só... Nova Jersey.
— Temos algo ainda melhor do que uma adoção para comemorar.
Então, por favor, champanhe para todos! — gritou o Sr. Warbucks.
E taças de champanhe logo foram distribuídas.
— Vamos todos agradecer à feliz mudança de planos — continuou
ele, erguendo a taça de champanhe. — Porque é véspera de Natal e
acabamos de receber a melhor notícia do mundo. Annie encontrou sua
mãe e seu pai. Eu proponho um brinde a todos! A Annie Mudge!
— A Annie Mudge! — repetiram todos os convidados, erguendo as
taças e bebendo, desanimados.
Mas Annie não conseguiu mais segurar a tristeza. A menina
desabou em lágrimas e correu, chorando, até seu quarto no andar de
cima.
— Annie, ah, Annie! — chamou a Srta. Farrell, correndo até o pé da
escada.
Ela teria subido para consolar Annie se outro convidado não tivesse
chegado à festa. Empurrado por um homem do Serviço Secreto, o
presidente Roosevelt surgiu na sala em sua cadeira de rodas. O Sr.
Warbucks havia se esquecido de que tinha convidado o presidente
para jantar naquela noite.
— Feliz Natal! — desejou o presidente em sua voz mais alegre, com
um sorriso largo.
— Feliz Natal — murmuraram todos, tristes.
O presidente Roosevelt se virou para erguer o olhar para o homem
do Serviço Secreto parado atrás dele.
— Parece que tenho esse efeito em todo mundo — disse, com um
suspiro.
O Sr. Warbucks estava parado, sozinho, ao lado da lareira.
— Eu perdi minha menina — disse ele, baixinho, para si mesmo. —
Perdi a Annie.
A Srta. Farrell correu até ele.
— Senhor — disse —, esse Sr. Mudge... Eu acho que já o vi antes
em algum lugar. Só não consigo lembrar onde nem quando. Mas tenho
a sensação estranha de que ele não é quem diz ser.
Se os Mudge eram uma fraude, pensou o Sr. Warbucks, então ainda
havia uma chance de ele não ter perdido Annie, no fim das contas. Ele
tinha que ter certeza até a manhã seguinte. Mas como? Nunca havia
pedido a ajuda de ninguém, refletiu o Sr. Warbucks, e prometera a si
mesmo nunca fazer isso. Mas agora tinha que pedir. Porque, percebeu
ele de repente, não era tão poderoso quanto pensava. Era vulnerável
como qualquer outra pessoa no mundo. Por isso, Oliver Warbucks se
virou humildemente para o presidente Roosevelt.
— Senhor presidente, é... Franklin — disse, baixinho. — Preciso da
sua ajuda.
— É claro, Oliver — respondeu o presidente com uma voz bondosa.
— O que eu puder fazer por você, vou fazer.
Dezesseis

Durante toda a noite, Annie ficou acordada em sua cama com dossel.
Esta é a última noite que vou passar nesta casa, pensou ela, triste,
olhando para o teto. De tempos em tempos, ela adormecia por um ou
dois minutos e adentrava em sonhos felizes, em que ela e o Sr.
Warbucks navegavam para a Europa em um transatlântico azul ou
andavam juntos em uma montanha-russa de um parque de diversões à
beira-mar. Mas então ela acordava abruptamente e se lembrava de que
não ia ser a filha do Sr. Warbucks no fim das contas. E de que, na
manhã seguinte, ela iria para Nova Jersey com o Sr. e a Sra. Mudge.
Seus pais.
— Pelo amor de Deus — disse Annie. — Pare de sentir tanta pena
de si mesma. A criação de porcos em Nova Jersey provavelmente vai
ser tão legal quanto aqui. E, depois que conhecer bem os dois, aposto
que vai ver que o Sr. e a Sra. Mudge são pessoas maravilhosas. Pense
em todo aquele ar fresco. E nos porcos. Seja como for, o sol vai sair
amanhã. Aposte seu último centavo nisso.
Pouco antes do amanhecer, uma neve fraca começou a cair em
Nova York, e Annie se levantou para ficar à janela, observando os
flocos rodopiarem e pousarem na Quinta Avenida, sob a luz dos
postes. Ela observou a neve cair, infeliz, como fizera junto à janela do
orfanato nas primeiras horas do início de 1933. Só que agora os pais
dela realmente tinham vindo buscá-la. Como era estranho que essa
ideia pudesse deixá-la tão infeliz.
Por fim, um amanhecer cinzento chegou. Annie pôs o vestido
vermelho e arrumou a mala Louis Vuitton que o Sr. Warbucks havia
comprado para ela. Depois, vestiu o casaco de lã cor-de-rosa e o
chapéu da Bergdorf, pegou sua mala e desceu a passos arrastados
para a sala de estar. Ela se sentou em cima da mala, ao lado da árvore
de Natal com as luzes apagadas, e esperou, sozinha, na enorme sala
escura, que o Sr. e a Sra. Mudge viessem buscá-la. Olhou ao redor para
todos os presentes embaixo da árvore. Acho que não vou ganhar
nenhum deles, pensou. Ou talvez ganhe só uma boneca para levar para
Nova Jersey.
As luzes foram acesas na sala de estar. Annie se virou e viu o Sr.
Warbucks e a Srta. Farrell parados na entrada do saguão, ainda com as
roupas que haviam usado na festa da noite anterior.
— Feliz Natal, Annie — disse o Sr. Warbucks.
— Feliz Natal, Annie — disse a Srta. Farrell.
— Feliz Natal, Sr. Warbucks, Srta. Farrell — gorjeou Annie,
animada, tentando sorrir e parecer feliz.
— Você acordou cedo, Annie — notou o Sr. Warbucks.
— Acordei — respondeu a menina. — Porque, bem, meus pais vão
vir me buscar, é claro, então achei melhor esperar os dois aqui. Acho
que vão me levar para o interior.
Ela olhou para o Sr. Warbucks, implorando.
— O senhor vai me visitar de vez em quando? — perguntou.
— Claro que vou, Annie — respondeu o Sr. Warbucks,
solenemente.
— O senhor também acordou cedo — percebeu a menina.
— Ficamos a noite toda acordados, querida — explicou ele. — E foi
uma noite bem agitada, com homens do FBI entrando e saindo. Falei
ao telefone mais de uma dúzia de vezes com o Sr. Hoover, diretor do
FBI. E tive uma grande ajuda do presidente Roosevelt. Annie, você
sabia que ele está aqui?
— O presidente Roosevelt? É mesmo? — perguntou Annie,
levantando-se da mala, animada, com um salto.
— É, sim — disse o Sr. Warbucks. — Annie, tenho uma coisa difícil
para contar a você, e o presidente vai me ajudar a fazer isso. — O Sr.
Warbucks foi até o corredor e o chamou: — Senhor presidente,
poderia vir até aqui agora, por favor?
Então o presidente Roosevelt apareceu em sua cadeira de rodas.
— Feliz Natal, senhor presidente Roosevelt — disse Annie.
— Feliz Natal, Annie — respondeu o presidente. — É bom ver você
de novo.
— É bom ver o senhor também.
Tanto o Sr. Warbucks quanto a Srta. Farrell pareciam angustiados e,
pela primeira vez na vida, o Sr. Warbucks se sentia incapaz de falar.
— Franklin, você poderia contar a ela por mim? — pediu, com um
sussurro grave.
— Annie — começou o presidente, fazendo sinal para que a menina
se aproximasse e pegando a mão dela. — Hoje de manhã, Hoover, o
diretor do FBI, nos ligou para contar uma notícia muito triste. Através
de pistas que encontramos no seu bilhete, ontem à noite, o principal
agente dele, Eliot Ness, conseguiu descobrir a identidade dos seus
pais.
— É, a gente já sabe disso — explicou Annie. — O Sr. e a Sra.
Mudge.
— Não, querida, aqueles dois não são seus pais — disse o Sr.
Warbucks. — Os seus pais eram David e Margaret Bennett.
— David e Margaret Bennett! — exclamou Annie. — Onde eles
estão?
— Annie... — começou o Sr. Warbucks, mas não conseguiu
continuar.
— Annie — continuou o presidente Roosevelt, baixinho —, seus
pais faleceram. Muito tempo atrás.
— Então quer dizer... que eles estão mortos? — perguntou Annie.
— Sim, querida, eles estão mortos — confirmou o Sr. Warbucks.
— Então, no fim das contas, sou uma órfã como as outras crianças
— concluiu ela.
Decepcionada, lutando para conter as lágrimas, Annie andou até a
janela e ficou parada, observando silenciosamente a neve cair. O sonho
de encontrar seus pais nunca se realizaria. Eles haviam morrido.

•••
O agente Ness do FBI notara que o bilhete de Annie havia sido escrito
em um tipo especial de papel para desenho, mais pesado, usado
principalmente por artistas. E, após dias de investigação, descobrira
que aquele tipo especial de papel era vendido em Nova York em uma
loja para artesanato a apenas três quadras do orfanato onde Annie
havia sido deixada. Rudolph T. Termohlen, proprietário da loja havia
muitos anos, se lembrara de que, anos antes, um jovem pintor
chamado David Bennett comprara uma grande quantidade daquele
tipo de papel com ele. E, analisando os antigos registros de venda da
loja, Termohlen encontrara o endereço de Bennett: rua Sete, 329. O
endereço era o de uma pensão gerenciada por uma viúva irlandesa
chamada Rose Riley. A Sra. Riley se lembrava muito bem do Sr.
Bennett e de sua jovem esposa.
— Foi tão triste... Tão, tão triste — dissera ao agente Ness quando
ele fora até a porta dela no início da noite anterior. — Os dois eram
muito jovens, mas morreram de gripe naquela terrível epidemia de
1922.
Sim, a Sra. Riley se lembrava de que os Bennett haviam tido uma
filha. Mas, pouco antes de falecer, pouco depois de a Sra. ­Bennett ter
ficado doente, o bebê não estava mais com eles.
— Eu achei que tivessem mandado a criança para morar com os
avós ou alguém assim — explicara a Sra. Riley.
Ela se lembrava de que havia uma caixa com os pertences dos
Bennett guardada no porão. Na caixa, o agente Ness encontrara um
álbum de fotos, o diário de Margaret Bennett e, entre outros
documentos, a certidão de nascimento de Annie. Pelo diário, ele logo
reconstruíra a história dos Bennett. Eles tinham vindo de Iowa para
Nova York no começo de 1921, a fim de estudar arte na Cooper Union.
Eram jovens — ele tinha vinte e cinco anos e ela, vinte e três. Artistas
empobrecidos, sozinhos no mundo e sem família na cidade natal. Por
isso, quando Margaret Bennett ficara doente, o marido, desesperado,
com medo de que o bebê também pegasse a gripe, deixara Annie no
orfanato com a intenção de voltar assim que a mulher se recuperasse.
No entanto, Margaret Bennett morrera em 13 de janeiro de 1922 e,
duas semanas depois, por ter contraído a doença da mulher, David
Bennett também falecera. Aparentemente, ele começara a delirar de
febre antes de ter a chance de contar a alguém sobre Annie. Os
Bennett eram artistas alegres e talentosos e, a partir das fotos do
álbum, o agente Ness pôde ver que haviam sido um casal bonito: ele
era alto e tinha o rosto quadrado e uma juba de cabelos ruivos
desgrenhados. Ela era uma loura bonita, de rosto delicado e gentil. E,
pelo que Margaret Bennett havia escrito no diário, ela e o marido
amavam muito a filha. Assim, de maneira triste, o mistério foi
resolvido, explicando a razão pela qual os pais de Annie nunca tinham
voltado para buscá-la.
•••
Por muito tempo, Annie ficou parada em silêncio junto à janela,
enquanto o Sr. Warbucks, a Srta. Farrell e o presidente Roosevelt só a
observavam, também em silêncio.
Por fim, a Srta. Farrell, perguntou, com carinho:
— Você está bem, Annie?
A menina se virou para eles.
— Estou. Porque, bem, acho que eu sempre soube, lá no fundo, que
meus pais tinham morrido. Porque eu sabia que eles me amavam
muito. E que teriam vindo me buscar caso... caso não tivessem
morrido.
Enquanto permanecia perto da janela, Annie havia decidido que não
ia ficar cultivando a tristeza do passado. Nem por um dia sequer. A
partir desse momento, disse a si mesma, vou esquecer tudo que
passou e tentar viver minha vida da forma mais feliz possível.
O Sr. Warbucks foi até Annie, parou e abriu os braços para ela.
Lágrimas brilhavam nos olhos dele.
— Eu amo você, Annie Bennett — disse.
Annie correu e se jogou nos braços dele.
— E eu amo você também.
Por um instante, os dois ficaram no meio da sala, nos braços um do
outro. Depois, Annie, durona como sempre, se afastou e exigiu saber
em voz alta:
— E, afinal, quem são Ralph e Shirley Mudge?
O Sr. Warbucks, a Srta. Farrell e o presidente Roosevelt caíram na
gargalhada.
— Essa menina! — exclamou o Sr. Warbucks. — Afinal, quem são
Ralph e Shirley Mudge?
— A certidão de nascimento pode ter sido facilmente falsificada —
explicou a Srta. Farrell. — Mas era estranho que eles soubessem
sobre o medalhão.
— O medalhão. Essa é a nossa pista — disse o presidente
Roosevelt.
— Mas ninguém sabia do medalhão. Só a gente — analisou o Sr.
Warbucks, confuso. — E o FBI, é claro.
— E a Srta. Hannigan — lembrou Annie.
Com um olhar de compreensão, o Sr. Warbucks e a Srta. Farrell
assentiram com a cabeça.
— E a Srta. Hannigan! — gritaram em coro.
— E a Srta. Hannigan! — exclamou o presidente Roosevelt.
Drake surgiu na entrada do saguão.
— Senhor, a Srta. Hannigan e as crianças do orfanato chegaram
para a festa de Natal.
Então, a Srta. Hannigan marchou até a sala, guiando seu bando de
órfãs maltrapilhas. As meninas, com os olhos arregalados de alegria ao
ver a árvore de Natal, os presentes e Annie, correram até a velha
amiga gritando:
— Annie! Annie! Annie!
A primeira órfã a alcançar Annie foi a pequena Molly, que se jogou
nos braços da amiga e deu um belo e grande abraço de Natal nela.
Depois as órfãs correram para olhar os presentes embaixo da árvore.
— Fiquem à vontade, crianças — disse a Srta. Farrell, acendendo as
luzes da árvore. — São todos para vocês.
— Oba! — gritaram as órfãs.
— Nossa, Annie, que lugar legal — disse Katie, pegando um par de
patins de gelo de debaixo da árvore.
— Eca, quem ia querer morar nesse monte de lixo? — afirmou
Pepper, escolhendo uma bicicleta vermelha.
— É, um monte de lixo — concordou Duffy, subindo em um
cavalinho de madeira.
— Vejam, meninas, tem umas dez bonecas para cada uma! — gritou
July.
— Ai, meu Deus! — berrou Tessie.
Enquanto isso, o Sr. Warbucks estava sendo muito educado com a
Srta. Hannigan, apesar de saber como ela havia sido cruel com Annie e
de suspeitar fortemente que ela estava envolvida com o casal que dizia
se chamar Ralph e Shirley Mudge.
— Ah, Srta. Hannigan — disse, apertando a mão dela. — É um
grande prazer conhecê-la. Ouvi falar muito da senhorita.
— Eu também — respondeu ela. — Eu reconheceria o senhor em
qualquer lugar. O senhor é mesmo Oliver Warbucks, não é?
— Sou. Agora, deixe-me apresentar a senhorita a todos. Já conhece
a minha secretária, a Srta. Farrell, é claro, e este é Drake, meu
mordomo, e aquele homem ali é o presidente dos Estados Unidos.
— É, claro, muito prazer... — começou a dizer a Srta. Hannigan,
mas então sua boca se escancarou e seus olhos empalidecerem com
tamanha incredulidade. — Ai, meu Deus, o presidente Roosevelt —
gaguejou, desabando em uma cadeira. — Estou no mesmo cômodo
que o presidente dos Estados Unidos.
Drake entrou correndo segurando um envelope.
— Sr. Warbucks — sussurrou, com urgência —, isto acabou de
chegar do FBI.
— Ótimo — disse o Sr. Warbucks, abrindo o envelope e tirando de
dentro dele um memorando de J. Edgar Hoover.
A mensagem dizia: “Nos arquivos de Washington, encontramos
duas fichas de golpistas que costumam se identificar como Ralph e
Shirley Mudge. Algumas das vítimas do casal fizeram um
reconhecimento a partir de fotos de arquivos e, por isso, conseguimos
identificar os dois como Daniel Francis “Rooster” Hannigan e Muriel
Jane Gumper, ou Lily St. Regis. Ambos são procurados por crimes
federais de fraude. Se voltarem à sua casa hoje de manhã, por favor,
instrua meus agentes a prenderem os dois imediatamente.”
O Sr. Warbucks sorriu ao entregar o memorando à Srta. Farrell.
— É claro. Agora me lembro de que esse foi o homem que imitou
um galo no saguão do orfanato e disse “Opa, desculpe aí, lourinha” —
sussurrou a Srta. Farrell. — Só podia ser Rooster Hannigan.
— Caramba! — exclamou Annie quando a Srta. Farrell mostrou o
memorando a ela. — Quem poderia ter adivinhado uma coisa dessas?
Mais uma vez, Drake apareceu na entrada da sala.
— Senhor, o Sr. e a Sra. Ralph Mudge estão aqui — anunciou ele,
afastando-se para deixar Rooster e Lily entrarem, disfarçados de casal
Mudge.
— Bom dia — disse Rooster, alegre. — Feliz Natal para todos!
— Feliz Natal! — responderam as outras pessoas.
— Ah, e lá está ela, Shirley. Nossa menininha — notou Rooster com
uma voz melosa, apontando para Annie.
— Sua menininha — repetiu o Sr. Warbucks com um sorriso.
— Oi, mãe. Oi, pai — respondeu Annie.
— Bem, não queremos incomodar ninguém, já que é Natal —
afirmou Rooster educadamente. — A gente só veio buscar a Annie, as
coisas dela e, ah, o cheque.
— Ah, claro, o cheque — repetiu o Sr. Warbucks, dando uma
piscadela para Annie. — Eu não iria querer que vocês se esquecessem
do cheque.
O Sr. Warbucks tirou o cheque do bolso e o entregou a Rooster.
— Aqui está, Sr. Mudge. Cinquenta mil dólares. Visado.
Rooster imediatamente arrancou o cheque da mão do bilionário e
começou a guardá-lo na carteira. Desta vez, não iria deixá-lo escapar.
— Visado, não é? — perguntou, mal olhando para o cheque. —
Endossado para Ralph Mudge.
— Não, não, Sr. Mudge. É melhor dar mais uma olhada nele —
disse o Sr. Warbucks, com uma voz fria.
— Endossado a... “A farsa acabou”!
A boca de Rooster se escancarou. Ele havia sido descoberto!
— É, a farsa acabou, Daniel Francis Hannigan — afirmou o Sr.
Warbucks, com severidade. — Também conhecido como Rooster
Hannigan e como Ralph Mudge. — Ele se virou para Lily. — E a farsa
acabou para você também, Srta. Gumper.
— Rooster, seu idiota, eu vou arrancar os seus olhos! — berrou Lily.
— Drake — ordenou o Sr. Warbucks —, chame os agentes do FBI.
— Já chamei, senhor — respondeu Drake, educadamente, dando
um passo para o lado para revelar três agentes de terno marrom que
seguravam revólveres e algemas.
— Ah, ótimo. — O Sr. Warbucks sorriu. — Podem prender esses
dois, por favor?
— Sim, senhor — responderam os agentes, pondo algemas em
Rooster e em Lily e os levando embora.
— Tchau, mãe. Tchau, pai — cantarolou Annie.
Nesse meio-tempo, a Srta. Hannigan havia andado na ponta dos pés
até a árvore de Natal, se cercado de órfãs e feito as meninas
começarem a cantar “Noite Feliz”. No entanto, o Sr. Warbucks foi até
ela e pôs a mão firme no ombro da diretora do orfanato.
— E acredito que vocês vão perceber que esta mulher é cúmplice
deles — disse aos agentes do FBI. — Prendam-na também, por favor.
— Eu? Eu não fiz nada — protestou a Srta. Hannigan em uma voz
aguda. — Nunca vi esses dois na minha vida.
— Ah, pode parar, Aggie, sua mentirosa! — berrou Lily.
— É, maninha, se eu e a Lily vamos para a cadeia por causa disso,
você também vai — rosnou Rooster. — Ela participou do golpe, sim,
nos dando as dicas sobre o medalhão e todo o resto.
A Srta. Hannigan se virou para o Sr. Warbucks.
— Sr. Warbucks, Oliver, eu nunca fiz nada para o senhor —
implorou. — Sempre fui uma boa...
— Minha senhora — interrompeu o presidente Roosevelt. — A
farsa acabou!
A Srta. Hannigan olhou ao redor, em pânico, e viu Annie.
— Annie, minha pequena Annie — arrulhou, tentando parecer a
mulher mais gentil do mundo. — Conte a eles como sempre fui legal e
gentil com você.
— Poxa, me desculpe, Srta. Hannigan — disse Annie, afastando-se
com cuidado. — Mas eu me lembro da coisa mais importante que a
senhorita já me ensinou: nunca devo mentir!
— Sua peste! — berrou a Srta. Hannigan.
Ela tentou agarrar Annie, mas um agente do FBI foi mais rápido e
agarrou a diretora do orfanato primeiro.
— Vou contar um segredinho! — berrou a mulher, debatendo-se
nos braços dos agentes. — Eu nunca gostei de você! Sua
aproveitadorazinha!
O agente do FBI pôs as algemas nos pulsos da Srta. Hannigan.
— Venha comigo — ordenou ele.
— Tire essas mãos nojentas de mim! — berrou ela.
Mas logo a diretora do orfanato foi levada embora, junto com
Rooster e Lily, e mandada para uma prisão federal com uma sentença
quase certa de pelo menos dez anos. Para Annie, a partir daquele
momento, a Srta. Agatha Hannigan desapareceu. A menina nunca mais
a viu.
— Annie — disse o Sr. Warbucks depois que os agentes do FBI
haviam saído com os prisioneiros —, nós gostaríamos de conhecer as
suas amigas do orfanato.
Annie reuniu as órfãs num instante— que estavam tão ocupadas
brincando com os presentes de Natal embaixo da árvore que nem
haviam notado o que acontecera com a Srta. Hannigan — e as levou
até o Sr. Warbucks e a Srta. Farrell.
— Meninas — disse Annie —, queria que vocês conhecessem a
Srta. Grace Farrell.
— Olá — cumprimentaram as órfãs em coro.
— Oi, meninas — respondeu a Srta. Farrell, animada.
— E aquele homem ali é o presidente dos Estados Unidos —
apresentou Annie.
— Olá — cumprimentaram as órfãs em coro mais uma vez, nada
impressionadas por estarem conhecendo o presidente.
— Oi, meninas! — exclamou o presidente Roosevelt com um
sorriso.
Annie pegou o Sr. Warbucks pela mão.
— E este aqui — disse ela, olhando com amor para ele — é... o meu
pai, Papai Warbucks.
— Olá — disseram as órfãs em coro.
— Oi, meninas — cumprimentou o Sr. Warbucks, abraçando a filha.
— E escutem, meninas, tenho uma ótima notícia — anunciou Annie,
feliz. — A Srta. Hannigan foi embora de vez! Para a cadeia!
— Viva! — gritaram as órfãs.
— E vocês não vão ter que trabalhar naquelas máquinas de costura
nunca mais — disse o Sr. Warbucks. — Na verdade, vou cuidar para
que todas vocês nunca mais passem outra noite naquela porcaria de
orfanato! Vou garantir que todas sejam adotadas por bons amigos
meus!
— Viva! — gritaram as órfãs.
— Mas, Molly, você vai morar aqui comigo e com o Sr. Warbucks a
partir de hoje — disse Annie, pegando Molly no colo e abraçando a
menina.
A pequena Molly começou a rir e a chorar de alegria, ao mesmo
tempo.
— Imagine só, Molly, imaginem, meninas — gritou Annie. — Vocês
nunca mais vão ter que comer aquele mingau!
— Viva, viva, viva! — gritaram as órfãs, pois essa era a melhor
notícia de todas.
Drake então trouxe uma multidão de novos convidados: um grupo
de quatorze homens e mulheres bem-vestidos. Devem ser alguns dos
amigos ricos do Sr. Warbucks, pensou Annie.
— Os amigos da Srta. Annie, senhor — anunciou Drake.
— Meus amigos? — perguntou a menina. — Mas, meu Deus, eu não
conheço nenhum...
— Você não me conhece, Annie? É claro que conhece! — Um
homem de aparência aristocrática, bem barbeado e vestido com um
terno caro de risca de giz abriu um sorriso.
De repente, Annie percebeu quem era.
— Randy! — gritou, correndo feliz até ele.
E a linda mulher com o penteado arrumado, usando o vestido
francês de seda preta, era ninguém menos do que Sophie! Isso mesmo,
aqueles eram os antigos moradores da Hooverville, que estavam se
reunindo, alegres, em torno de Annie, para dar um abraço na velha
amiga deles. Logo depois de Annie ter contado sobre os amigos que
fizera debaixo da ponte e sobre como eles haviam sido gentis com ela,
o Sr. Warbucks tinha tirado todos da cadeia e dera a cada um deles um
emprego bem pago na sede de sua empresa, em Nova York. Além
disso, encontrara apartamentos espaçosos para todos na Riverside
Drive e os vestira com as melhores roupas. Mas mantivera a notícia
em segredo para fazer uma surpresa para Annie na manhã de Natal. E
realmente havia sido uma surpresa! Annie estava explodindo de alegria
por causa de todas as coisas boas que haviam repentinamente
acontecido para ela e para seus amigos.
— Nossa, papai — disse ela ao Sr. Warbucks —, você é tão bom
para mim. Eu não poderia ter tido um Natal mais perfeito!
— Que pena ouvir isso — respondeu ele com um sorriso —, porque
tenho um último presente para você.
O bilionário fez um sinal para Drake, que chamou dois assistentes
uniformizados que esperavam no saguão. Os dois entraram na sala de
estar carregando uma enorme caixa quadrada, embrulhada com papel
verde e uma grande fita vermelha.
— Aqui está, Annie, seu último presente de Natal. Espero que você
goste. — O Sr. Warbucks sorriu, levando a menina até a caixa.
Annie não tinha nenhuma ideia do que podia ser. Todos se reuniram
em volta do presente.
— Ande logo, abra esse bendito presente — incentivou Pepper.
— Está bem — respondeu Annie.
Ela desfez o laço, rasgou o papel do embrulho, abriu a tampa da
caixa e viu que lá dentro estava... Sandy!
— Sandy! — gritou Annie, exultante. — O meu Sandy!
O cachorro pulou para fora da caixa e quase derrubou Annie ao pôr
as enormes patas nos ombros da menina para lamber, alegre, o rosto
dela. Annie o abraçou e o beijou milhões de vezes. Sandy! O Sr.
Warbucks havia encontrado Sandy para ela.
— Nossa, papai! — exclamou Annie. — Agora meu Natal está
realmente perfeito!
— É, acho que sim. — O Sr. Warbucks irradiava alegria, olhando
para a criança feliz e para o cachorro igualmente contente.
A Srta. Farrell estava parada ao lado dele, sorrindo. O Sr. ­Warbucks
pegou a mão da moça e a apertou com carinho. O coração da Srta.
Farrell deu um pulo, porque, é claro, ela amava Oliver Warbucks tanto
quanto Annie. Ajoelhada no chão, com os braços em volta de Sandy,
Annie viu os dois de mãos dadas. Poxa, pensou ela, talvez um dia eles
se casem e eu tenha uma mãe também.
— Uau! — exclamou a menina com um sorriso. — Acho que estou
feliz.
Do lado de fora, um sol brilhante havia nascido e iluminava a Quinta
Avenida, fazendo a neve fresca cintilar. A luz reluziu nas janelas da sala
de estar do Sr. Warbucks e Annie correu com Sandy para olhar o
resplandecente cenário de conto de fadas.
— Olhe, Sandy — disse ela, abraçando o cachorro. — O amanhã
chegou.
Sobre o autor

THOMAS MEEHAN ganhou o Tony Award em 1977 pelo livro do mu-­


sical Annie, seu primeiro espetáculo da Broadway. Posteriormente, em
2001, ganhou outro Tony, como coautor de Os produtores, e foi
premiado no­vamen­te em 2003, como coautor de Hairspray. Além
desses, escreveu os livros dos mu­­sicais A vida de um sonho, O jovem
Frankenstein e Chaplin. Um de seus trabalhos mais recentes é a
adaptação para a Broadway de Rocky, de Sylvester Stallone. Meehan
também colaborou com artigos de humor para a New Yorker e ganhou
um Emmy na categoria de melhor roteirista de série de comédia.
Participou da criação de diversos roteiros para o cinema, como o de
S.O.S. – Tem um louco solto no espaço e da versão cinematográfica de
Os produtores.
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