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3.4. Beata Chiara Luce Badano – A Clara Luz que iluminou o mundo
Em Chiara Luce Badano, não há relatos de feitos extraordinários, bilocações,
curas milagrosas, levitação; há apenas a fidelidade de uma jovem que fez um
encontro verdadeiro com Jesus Cristo logo na sua infância e manteve-se fiel a Deus,
ao ideal, mesmo em meio à doença que lhe trouxe sofrimento e a levou ao encontro
de seu esposo Jesus Abandonado antes de completar os 20 anos de idade.
3.4.1. Vinte e cinco minutos
Chiara Badano nasceu em Savona, em 29 de outubro de 1971, e viveu na
pequena cidade de Sassello, na Ligúria, Itália. Seus pais, Maria Teresa e Ruggero,
esperaram por 11 anos para terem um filho. Após muita oração e confiança em
Deus, Chiara veio ao mundo como a tão aguardada filha.
Chiara cresceu em uma família simples, como filha única, recebendo uma
educação cristã sólida, fundamentada no exemplo e no amor, mais do que em
proibições ou repreensões. Sua personalidade era generosa, extrovertida e gentil.
Ela cresceu saudável e amada, especialmente pelos avós maternos, que
encontraram uma nova alegria com seu nascimento.
Aos nove anos e meio, Chiara teve um encontro que mudaria sua vida:
conheceu o Movimento dos Focolares, fundado por Chiara Lubich. Na primavera de
1981, ela e seus pais participaram do Family Fest, um grande encontro internacional
em Roma. Foi ali que a descoberta do amor infinito de Deus passou a influenciar
suas relações familiares e também suas amizades e convivência na escola
(Coriasco, 2013).
A espiritualidade dos Focolares se tornou um guia essencial para Chiara,
ajudando-a a tomar decisões importantes e a enfrentar os desafios do dia a dia,
descobrindo a profundidade do Evangelho vivido. Ela se encantou com a
fraternidade, a universalidade do Movimento e o esforço de seus membros em viver
os ensinamentos de Jesus.
Em 17 de junho de 1983, durante seu primeiro Congresso Gen3, Chiara, junto
com outras meninas do mundo todo, pegou uma caneta e escreveu uma carta para
Chiara Lubich, marcando mais um passo importante em sua jornada espiritual:
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Esse foi o meu primeiro congresso e tenho que dizer: foi uma experiência
maravilhosa, eu redescobri Jesus Abandonado de um modo especial, pude
experimentá-lo em cada próximo que passa ao meu lado. Nesse ano eu me
propus a ver Jesus Abandonado como meu Esposo e acolhê-lo com alegria,
acima de tudo, com todo o amor possível (Fundação, 2023, p. 23).
Além de sua notável sensibilidade espiritual, Chiara era uma jovem como
qualquer outra: alegre, animada, extrovertida e, ao mesmo tempo, reservada. Uma
verdadeira amante dos esportes, ela adorava patinar, jogar tênis e se aventurar nas
montanhas, mas era na praia que sua energia “explodia”. Chiara tinha muitos
amigos em Sassello, que frequentemente confiavam a ela suas dúvidas e lutas,
encontrando nela uma escuta sensível e uma profundidade incomum para alguém
de sua idade.
Nesse caminho de amadurecimento humano e espiritual, Chiara era
acompanhada por outros jovens, especialmente os da Nova Geração do Movimento
dos Focolares, conhecidos como "Gen". Havia várias oportunidades de se encontrar
com eles, em um ambiente de profunda unidade, onde compartilhavam suas
experiências de vida, progressos e dificuldades na vivência do amor evangélico,
sempre em liberdade e com respeito mútuo.
Chiara era extremamente atenciosa e amigável com todos, desde colegas
doentes até os avós que precisavam de cuidados, e também com os marginalizados
e sem-teto que encontrava no caminho de volta para casa. Ela não fazia distinção
entre ricos e pobres, entre aqueles de quem gostava ou não, nem entre crentes e
não crentes. Assim como outros jovens, experimentou tanto momentos de
gratificação quanto fracassos. Um dos maiores sofrimentos que enfrentou foi a
transferência de sua amada Sassello para Savona, para cursar o ensino médio
clássico, o que a afetou profundamente.
Vivenciava as alegrias e as lutas da adolescência, incluindo a decepção por um
amor juvenil que desapareceu antes de florescer. Sempre atenta aos que estavam
ao seu redor, ela tentava transformar a dor em amor. Nem sempre conseguia, e
quando falhava, dizia a si mesma: "Posso sempre recomeçar".
Aos 17 anos, no verão de 1988, uma dor intensa no ombro a fez largar a
raquete durante uma partida de tênis com amigos. Inicialmente, os médicos
acreditavam que fosse uma fratura na costela e prescreveram injeções, mas a dor
persistiu. Após exames mais detalhados, o diagnóstico foi devastador: sarcoma
osteogênico com metástases (Coriasco, 2013).
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Em fevereiro de 1989, Chiara passou por sua primeira cirurgia em Turim. Vinte
dias depois, durante uma visita ao hospital infantil Regina Margherita, ela foi
informada sobre a gravidade de sua doença. Sua mãe, Maria Teresa, queria
acompanhá-la, mas devido a uma tromboflebite grave, teve de permanecer acamada
na casa que uma família, até então desconhecida, havia oferecido generosamente
para abrigá-las durante os tratamentos de quimioterapia. Relata sua mãe:
Finalmente, quando Chiara surgiu na alameda, Teresa viu-a avançar
lentamente na frente de Ruggero, toda encapotada em sua jaqueta verde,
com as mãos no bolso, rosto macambúzio, olhar baixo. Assim que a porta
se abre Teresa se aproxima da filha com toda a doçura para lhe perguntar
como tinha sido. “Não fale agora!” – intima Chiara, sem sequer olhar para
ela. Não acrescenta mais nada, joga-se no pequeno sofá-cama da sala,
sem sequer tirar o casaco (Coriasco, 2013, p. 70)
Após vinte e cinco minutos, Chiara dá o seu sim generoso e confiante a Deus e
retoma “agora pode falar, mamãe” (Coriasco, 2013, p. 71) com um sorriso no rosto e
olhar terno.
Após suas primeiras sessões de quimioterapia, ela quase imediatamente
perdeu o uso das pernas. Em junho, Chiara passou por uma segunda cirurgia: havia
pouca esperança. As estadias no hospital de Turim se tornaram mais frequentes. Os
‘gen’ e muitos outros amigos do Movimento se revezavam no hospital Regina
Margherita para apoiar ela e sua família.
O tratamento era doloroso. Ela queria ser informada de cada detalhe de sua
doença e, a cada nova e dolorosa surpresa, ela nunca hesitava: “Por você, Jesus: se
Tu queres, eu também quero!” (Coriasco, 2013, p. 75).
Enquanto isso, ela continuava sua relação com Chiara Lubich por meio de
cartas: nela confiava suas descobertas e escuridões em sua alma. A fundadora do
Movimento escreveu para ela: “Deus a ama imensamente e quer penetrar no íntimo
da sua alma e fazê-la experimentar gotas de paraíso. ‘Chiara Luce’ é o nome que
pensei para você. Gosta? É a luz do Ideal que vence o mundo. Envio-lhe com todo o
meu afeto” (Fundação, 2023, p. 56).
Seus amigos se revezaram em oração durante toda a noite. Os médicos
estavam indecisos sobre permitir que ela partisse ou tentar uma transfusão; seus
pais, tomados pela incerteza, não sabiam o que seria o melhor para sua filha. No
fim, foram os médicos que decidiram prosseguir com o tratamento. Chiara viveria por
mais um ano, meses que seriam decisivos para sua jornada.
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Em um ambiente de "extraordinária normalidade", onde Céu e Terra pareciam
se encontrar, Chiara sentia que o fim estava próximo e se preparava, como se
estivesse se preparando para um casamento. Ela faleceu ao amanhecer do dia 7 de
outubro de 1990; momentos antes, despediu-se de sua mãe com as palavras: "Seja
feliz, porque eu sou!" (Zanzucchi, 2010, p. 78).
A jovem foi beatificada em setembro de 2010, pelo papa Bento XVI. Na
semana seguinte, o próprio papa fala sobre Chiara como um exemplo de coerência
cristã:
Convido vocês a conhecerem Chiara – afirma, entre outras coisas –, a vida
dela foi breve, mas traz uma mensagem estupenda [...]. Dezenove anos
cheios de vida, de amor, de fé. Dois anos, os últimos, cheios de dor, mas
sempre no amor e na luz. Uma luz que irradiava ao seu redor e que vinha
de dentro [...]. Chiara Badano foi, para todos, um raio de luz (Fundação,
2023, p. 69).
Definitivamente, com sua vida, Chiara Luce Badano iluminou o mundo
simplesmente amando a Jesus Abandonado.
3.4.2. O esposo Jesus Abandonado
Como pode uma jovem cheia de vida, de sonhos, iluminar as pessoas mesmo
quando está envolta em uma névoa de sofrimentos? É possível, encontrar a
felicidade e a paz serena em meio a uma situação de doença grave?
O Catecismo da Igreja Católica apresenta que
A enfermidade pode levar a pessoa à angústia, a fechar-se sobre si mesma
e, às vezes, ao desespero e à revolta contra Deus. Também pode, no
entanto, tornar a pessoa mais madura, ajudá-la a discernir em sua vida o
que não é essencial, para voltar-se àquilo que é essencial (CIC § 1501).
Certamente, Chiara Luce é um exemplo vivo da segunda opção. Mesmo tão
jovem e tão gravemente enferma, tornou-se mais madura no período de sofrimento,
escolhendo aquilo que é essencial: o Paraíso.
Ao perceber a gravidade da doença, a jovem demorou vinte e cinco minutos
somente para dar o seu sim alegre e confiante a Deus. Podia-se esperar que se
rebelasse, se revoltasse com Deus, pois desde pequena esteve em íntima união
com Ele. Talvez, justamente por isso, é que nesse brevíssimo intervalo de tempo ela
viveu o momento mais difícil de sua vida. Assim como Jesus sofrera no Horto das
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Oliveiras, Chiara Luce encontra nesse instante o seu Getsêmani, que a preparará
para o calvário com a certeza de que Deus a acompanharia.
Ninguém pode dizer com exatidão o que aconteceu realmente naqueles
vinte e cinco minutos fatídicos de solidão [...]. Pode-se apenas imaginar o
recrudescimento de uma batalha silenciosa entre o instinto e a razão, ou
melhor, entre as “razões” do coração e as do cérebro. Entre o desespero e a
aceitação do próprio destino. Imagino a consternação e a angústia, a
impossibilidade de abraçar aquele inaceitável “mistério doloroso”, grande e
cruel demais para ser acolhido como todos os outros. O instinto de rejeitá-lo
com todas as próprias forças. O medo da morte. O repentino esmigalhar-se
de todos os projetos, o evaporar-se de esperanças que até um dia pareciam
totalmente plausíveis. Ninguém pode dizer como Chiaretta soube sair
daquele buraco negro. Qual força a ajudou a arrombar a fechadura daquele
absurdo para voltar a abraçar Aquele que há muito havia escolhido como
Esposo: Jesus Abandonado, com toda probabilidade. Ainda Ele... (Coriasco,
2013, p. 71).
Somente por amor a Jesus Abandonado é que ela foi capaz de encontrar um
sentido para esse sofrimento, assim como escreveu a Chiara Lubich: “Jesus me
mandou essa doença no momento certo. Mandou para que eu o encontrasse”
(Zanzucchi, 2010, p. 55). A jovem que sempre encantara a todos com sua alegria,
agora irradiava um sorriso mais belo em seu lábio, pois sabia que a vontade de
Deus lhe levaria a um verdadeiro encontro com o divino no Paraíso.
Poder-se-ia afirmar que é uma contradição, uma dicotomia, entre o sofrimento
e a alegria. Contudo, a espiritualidade cristã apresenta a Paixão de Jesus Cristo
como um dos pontos ápices da fé, onde se consumou e se concretizou a salvação
do gênero humano, assim, “não se trata, pois, de uma contradição encontrar em
Jesus Abandonado a paz e a alegria. É, ao contrário, uma coisa lógica, segundo a
Paixão de Jesus, segundo o mistério da salvação” (Lubich, 2009, p. 103). É óbvio
que, aquele que busca se assemelhar ao Cristo, encontre também a paz de realizar
a vontade de Deus e, permanecer fiel quando tudo lhe aponta para outras direções,
quando a vontade do Pai o leva ao calvário.
Os relatos de quem acompanhou os últimos meses da vida terrena de Chiara
Luce apontam para esse fato: era ela quem oferecia conforto aos seus visitantes. Ao
cardeal Saldarini que a visita no hospital, quando questionada sobre como ela
conseguia ser tão serena naquela situação, ela responde: “Procuro amar Jesus”
(Coriasco, 2013, p. 86). Somente o amor pode explicar tão grande paz.
E a cada novo tratamento, a cada ciclo de quimioterapia, ela resignava-se
ainda mais ao desígnio de Deus para ela pois tinha que “cada gota pode ser
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comparada, ao menos um pouco, aos golpes de martelo nos pregos usados para
crucificar Jesus” (Zanzucchi, 2010, p. 68).
Ela aproximava-se de seu fim e, unia-se mais intimamente a Jesus
Abandonado:
“Por que, Jesus?” – perguntava-se Chiaretta na dolorosíssima volta a si
após cada anestesia. O mesmo angustiado “por quê?” do Cristo
abandonado na Cruz. E quase como Ele, Chiara conseguia acrescentar logo
em seguida: “Se Tu queres, eu também quero”. Fácil imaginar que o mesmo
valia igualmente para a aproximação cada vez mais real e amedrontadora
da Morte. Um epílogo que, para Chiaretta, não era assim de modo algum,
mas antes uma espécie de ponte levadiça, o prelúdio do Paraíso e da união
definitiva com o próprio Esposo (Coriasco, 2013, p. 74).
Aí está o segredo para encontrar a salvação em meio ao sofrimento: ter Jesus
Abandonado como companheiro, como meta, como modelo a se seguir. Quando a
doença lhe tira a capacidade de andar, Chiara encontra forças para amar mais.
Quando a dor lhe é insuportável, sabendo de que a medicina já havia deposto todas
as suas armas, o tratamento não lhe trazia melhora, ela recusa o uso da morfina
pois o medicamento lhe tiraria a lucidez e, diante de sua condição, ela só teria a dor
para oferecer a Jesus, fazer algo a Ele, pois nada lhe restara, somente sua
consciência lúcida que lhe garantia ter uma vida com sentido (Zanzucchi, 2010, p.
64).
Em uma de suas cartas, ela escreve
O importante é fazer a vontade de Deus Eu talvez tivesse alguns planos
para mim, mas Deus pensou nisso. [...] Mas vocês não podem imaginar
como é o meu relacionamento com Jesus agora [...]. Sinto que Deus me
pede algo a mais, algo maior. Talvez eu fique nessa cama por anos... não
sei. Para mim interessa somente fazer a vontade de Deus, fazê-la bem, no
momento presente, entrar no jogo de Deus (Fundação, 2023, p. 60).
A vontade de Deus e nada mais; somente a vontade de Deus basta e é o
suficiente para encontrar a felicidade, a santidade. Entretanto, aceitar a vontade de
Deus não significa aceitar passivamente as situações que a vida lhe oferece, tomar
os sofrimentos por si só, pois às vezes, fazer a vontade de Deus pode significar “dor,
abandono, angústia” (Lubich, 1985, p. 82), mas dar a todos eles um verdadeiro
sentido.
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Chiara não se deixa abater pela morte iminente, pelo contrário, escolhe seu
próprio vestido para o funeral: um vestido de noiva, branco com um laço rosa na
cintura, pois este era o seu casamento com seu Esposo Jesus Abandonado, escolhe
as músicas e até mesmo recomenda a seus pais para não se entristecerem.
A história da vida mística, principalmente feminina, é constelada de
mulheres que usam expressões de profundo enlace matrimonial com Jesus.
Chiara Luce provavelmente faz parte dessa multidão. Sem exaltações, sem
sentimentalismos (Zanzucchi, 2010, p. 75).
O seu amor a Jesus Abandonado a possibilitou manter sua fidelidade a Deus
mesmo quando tudo lhe propiciaria o contrário. Com Jesus que sofreu o abandono
no Getsêmani, o abandono no calvário e, por fim, o abandono de Deus no alto da
cruz, Chiara Luce Badano encontra forças para viver plenamente a unidade de seu
coração com o coração de Deus.