Universidade Federal Fluminense
Antropologia política
Júlio César de Souza Tavares
FICHAMENTO :
“Epistemologias do Sul ‘’
ARTHUR LEE ALVES BENITES
1.0 “A colonialidade é um dos elementos constitutivos e específicos do padrão
mundial do poder capitalista. Sustenta-se na imposição de uma classificação
racial/étnica da população do mundo como pedra angular do referido padrão
de poder e opera em cada um dos planos, meios e dimensões, materiais e
subjetivos, da existência social quotidiana e da escala societal. Origina-se e mundializa-se a partir da
América.
Com a constituição da América (Latina), no mesmo momento e no mesmo movimento históricos, o
emergente poder capitalista torna-se mundial, os seus centros hegemônicos localizam-se nas zonas
situadas sobre o
Atlântico – que depois se identificaram como Europa – e como eixos centrais
do seu novo padrão de dominação estabelecem-se também a colonialidade
e a modernidade. Em pouco tempo, com a América (Latina) o capitalismo torna-se mundial,
eurocentrado, e a colonialidade e modernidade instalamento associadas como eixos constitutivos do
seu específico padrão de poder até hoje.’’ (p.73)
“No decurso da evolução dessas características do poder actual foram-se
configurando novas identidades societais da colonialidade – índios, negros,
azeitonados, amarelos, brancos, mestiços – e as geoculturais do colonialismo,
como América, África, Extremo Oriente, Próximo Oriente (as suas últimas, mais
tarde, Ásia), Ocidente ou Europa (Europa Ocidental, depois).” (ibid)
- O autor explica que a colonialidade é um aspecto essencial da estrutura de poder capitalista
global. Ela se baseia na forma como a raça e a etnia são usadas para classificar e dividir as
populações ao redor do mundo. Esse sistema de poder vai além da economia, pois se infiltra
em todas as esferas da vida cotidiana, afetando tanto os aspectos materiais quanto os
subjetivos das nossas experiências. A origem da colonialidade está na formação das Américas,
especialmente na América Latina, e é nesse contexto histórico que o capitalismo se torna um
fenômeno global, com seus centros de poder situados na Europa e nas terras colonizadas. Essa
expansão do capitalismo se entrelaça com a modernidade e a colonialidade, criando uma
dinâmica de poder que perdura até os dias atuais.
Além disso, o autor fala sobre como a colonialidade gerou diferentes identidades sociais, baseadas em
categorias raciais e culturais, como "índios, negros, mestiços, brancos". Essas identidades foram
também associadas a regiões geográficas específicas, como "América, África, Extremo Oriente, Oriente
Médio". Essas divisões, que nasceram do colonialismo, continuam a moldar as estruturas sociais e
culturais do mundo, mantendo um legado de desigualdade racial e cultural que ainda afeta a forma
como o mundo está organizado hoje.
1.1 “Desde o século XVIII, sobretudo com o Iluminismo, no eurocentrismo foi-se afirmando a
mitológica ideia de que a Europa era pré-existente a esse padrão de poder, que já era antes um centro
mundial de capitalismo que colonizou o resto do mundo, elaborando por sua conta, a partir do seio da
modernidade e racionalidade. E que nessa qualidade, a Europa e os europeus eram o momento e o
nível mais avançados no caminho linear, unidirecional e contínuo da espécie. Consolidou-se assim,
juntamente com essa ideia, outro dos núcleos principais da colonialidade/modernidade eurocêntrica:
uma concepção de humanidade segundo a qual a população do mundo se diferenciava em inferiores e
superiores, irracionais e racionais, primitivos e civilizados, tradicionais e modernos.”
“Da América Latina, sem dúvida a mais influente das tentativas de mostrar de novo a mundialidade do
capitalismo, foi a proposta de Raul Prebisch e dos seus associados, de pensar o capitalismo como um
sistema mundial diferenciado em ‘centro’ e ‘periferia’. Foi retomada e reelaborada na obra de
Immanuel Wallerstein, cuja proposta teórica do ‘moderno sistema-mundo’, de uma perspectiva onde
confluem a visão marxiana do capitalismo como um sistema mundial e a braudeliana sobre a longa
duração histórica, reabriu e renovou de modo decisivo o debate sobre a reconstituição de uma
perspectiva global, na investigação científico-social do último quartel do século XX” (ibid) (p.76)
- difundida desde o Iluminismo e reforçada pelo eurocentrismo, de que a Europa era a origem
e o centro do poder capitalista mundial. Essa visão constrói uma narrativa que coloca a
Europa como o ápice da evolução humana, destacando-a como a civilização mais avançada e
racional. Com isso, a humanidade seria dividida em categorias hierárquicas: "superiores"
versus "inferiores", "racionais" versus "irracionais", "civilizados" versus "primitivos", sendo os
povos não europeus vistos como atrasados ou fora desse progresso linear e contínuo. Essa
ideia reforça a colonialidade, colocando a Europa como modelo a ser seguido e desprezando
as culturas e povos do resto do mundo.
- A proposta de Raul Prebisch e de seus associados, que buscavam explicar o capitalismo como
um sistema global dividido entre "centro" e "periferia". O trabalho de Prebisch, que enfatiza a
desigualdade estrutural entre essas duas regiões, foi retomado e aprofundado na teoria de
Immanuel Wallerstein, com sua ideia do "sistema-mundo moderno". Wallerstein traz uma
abordagem que combina a visão marxista do capitalismo global com a de Fernand Braudel,
que enfatizava a longa duração histórica. Juntos, esses pensadores renovaram e ampliaram a
compreensão das dinâmicas globais de poder e economia.
“Tal como o conhecemos historicamente, à escala societal o poder é o espaço e uma malha de
relações sociais de exploração/dominação/conflito articuladas, basicamente, em função e em torno da
disputa pelo controlo dos seguintes meios de existência social: 1) o trabalho e os seus produtos; 2)
dependente do anterior, a ‘natureza’ e os seus recursos de produção; 3) o sexo, os seus produtos e a
reprodução da espécie; 4) a subjectividade e os seus produtos, materiais e intersubjectivos, incluindo o
conhecimento; 5) a autoridade e os seus instrumentos, de coerção em particular, para assegurar a
reprodução desse padrão de relações sociais e regular as suas mudanças.”
2. “O liberalismo não tem uma perspectiva unívoca sobre o poder. A sua mais antiga variante
(Hobbes) sustenta que é a autoridade, acordada por indivíduos até então dispersos, o que coloca os
componentes da existência social numa ordem adequada às necessidades da vida individual.” (ibid)
“Para o materialismo histórico, a mais eurocêntrica das versões da heterogénea herança de Marx, as
estruturas societais constituem-se sobre a base das relações que se estabelecem para o controle do
trabalho e dos seus produtos.”
“Apesar das suas muitas e bem marcadas diferenças, em todas essas vertentes pode discernir-se um
conjunto de pressupostos e de problemas comuns que indicam a linhagem eurocêntrica comum. Aqui,
é pertinente pôr em relevo, principalmente duas questões. Em primeiro lugar, todas pressupõem uma
estrutura configurada por elementos historicamente homogéneos, não obstante a diversidade de
formas e caracteres, que guardam entre si relações contínuas e consistentes – seja pelas suas ‘funções’,
seja pelas suas cadeias de determinações – lineares e unidireccionais, no tempo e no espaço.” (p.78)
- Descreve o poder como um espaço de relações sociais complexas, fundadas na exploração,
dominação e conflito. Essas relações estão organizadas em torno da disputa por meios
essenciais para a existência social, como o trabalho, os recursos naturais, o sexo e a
reprodução, a subjetividade (incluindo o conhecimento) e a autoridade (especialmente a
coerção para garantir a manutenção e a mudança dessas relações), O autor também critica a
linhagem eurocêntrica dessas abordagens (marxismo e liberalismo), que compartilham
pressupostos comuns. Embora existam diferenças marcantes entre as várias vertentes do
pensamento político e social, todas elas assumem uma estrutura homogênea, onde os
elementos, apesar de sua diversidade, possuem relações contínuas e consistentes, sejam pelas
funções que desempenham, seja pelas cadeias de determinações que as conectam. Essas
relações, para o autor, são lineares e unidimensionais, sugerindo uma visão de mundo rígida e
predeterminada que, de certa forma, ignora as complexidades e as multiplicidades das
realidades sociais fora da Europa.
2.1 “Desse modo, o movimento conjunto dessa totalidade, o sentido do seu desenvolvimento,
abarca, transcende, nesse sentido específico, cada um dos seus componentes. Ou seja,
determinado campo de relações societais comporta-se como uma totalidade. Mas semelhante
totalidade histórico-social,como articulação de heterogêneos, descontínuos e conflituosos
elementos, não pode ser de modo algum fechada, não pode ser um organismo, nem pode ser,
como uma máquina, consistente de modo sistémico e constituir uma entidade na qual a lógica
de cada um dos elementos corresponde à década um dos outros. Os seus movimentos de
conjunto não podem ser, consequentemente, unilineares, nem unidirecionais, como seria
necessariamente o caso de entidades orgânicas ou sistêmicas ou mecânicas.” (p.80)
Ele está argumentando contra uma visão simplificada e linear das estruturas sociais. Ele afirma que a
totalidade de um campo de relações sociais não pode ser vista como algo fechado ou homogêneo,
como se fosse uma máquina ou um organismo com uma lógica interna coesa e previsível. Ao invés
disso, ele propõe que as sociedades sejam formadas por elementos heterogêneos, descontínuos e
conflituosos, que não seguem uma ordem unificada e que suas interações não podem ser entendidas
como uma progressão linear ou unidirecional.
- Essa visão rejeita a ideia de que a história ou as estruturas sociais se desenvolvem de
maneira previsível e sistemática, como acontece em sistemas mecânicos ou orgânicos.
O autor sugere que a dinâmica social é mais complexa e imprevisível, com diferentes
forças em constante conflito e interação. Em outras palavras, as mudanças sociais não
seguem um único caminho ou lógica, mas são moldadas por uma série de elementos
conflitantes e diversos.
- Essa perspectiva está mais alinhada com abordagens críticas da história e das ciências
sociais que enfatizam a complexidade, a diversidade e o conflito como elementos
centrais na compreensão das sociedades. Ela questiona modelos que tentam reduzir
as interações sociais a uma lógica única e ordenada, como acontece frequentemente
em abordagens mais deterministas ou eurocêntricas.
2.3 “Acerca dessa problemática é indispensável continuar a indagar e a debater as implicações do
paradigma epistemológico da relação entre o todo e as partes em relação à existência histórico-social.
O eurocentrismo levou virtualmente todo o mundo a admitir que numa totalidade o todo tem absoluta
primazia determinante sobre todas e cada uma das partes e que, portanto, há uma e só uma lógica que
governa o comportamento do todo e de todas e de cada uma das partes. As possíveis variantes do
movimento de cada parte são secundárias, sem efeito sobre o todo e reconhecidas como
particularidades de uma regra ou lógica geral do todo a que pertencem.” (p.83)
2.4 “Nesse confronto entre as ideias orgânicas e sistêmicas de totalidade, de um lado, e a negação de
toda a ideia de totalidade, do outro, parece, pois, tratar-se de opiniões muito contrastantes, inclusive
referidas a perspectivas epistêmicas não conciliáveis.” (ibid)
2.5 ‘‘e que costuma passar como um confronto epistemológico entre o ‘positivismo’ e a ‘dialéctica’ é,
consequentemente, meramente formal. Não implica, na realidade, nenhuma ruptura
epistemológica.Pode ver-se, assim, o que leva muitos a libertarem-se de toda a ideia de totalidade, é
que as idéias sistêmicas ou orgânicas acerca dela chegaram a ser percebidas ou sentidas como um tipo
de espartilho
2.8 intelectual porque forçam a homogeneizar a experiência real e, desse modo, a vê-la de modo
distorcido.” (p.87)
- O debate epistemológico sobre o conceito de totalidade na história social, criticando o
paradigma eurocêntrico que tende a ver o "todo" como dominante sobre as partes. De acordo
com essa visão, o todo tem uma lógica única e determinante que rege todas as partes,
enquanto as variações de cada parte são consideradas secundárias, irrelevantes para o
movimento geral do sistema.
- Esse confronto, como discutido pelo autor, é muitas vezes reduzido a um debate entre
"positivismo" e "dialética", mas, na prática, isso não representa uma verdadeira ruptura
epistemológica. O autor aponta que muitas pessoas se libertam dessa ideia de totalidade, pois
percebem que as idéias sistêmicas ou orgânicas que a defendem impõem uma
homogeneização da experiência, distorcendo a complexidade real dos fenômenos sociais. Ou
seja, a tentativa de aplicar uma lógica única à totalidade social e histórica acaba por
simplificar e falsificar a realidade, limitando a compreensão de suas múltiplas dimensões e
interações, A crítica vai além da oposição entre teorias epistemológicas, apontando que a
insistência em uma visão totalizante pode ser vista como um "espartilho intelectual", uma
limitação ao entendimento pleno das diversidades e contradições que caracterizam o
desenvolvimento histórico e social.
3.0 “Desde os anos 80, no meio da crise mundial do poder capitalista, tornou-se mais pronunciada a
derrota já tendencialmente visível dos regimes do despotismo burocrático, rivais do capitalismo
privado; dos processos de democratização das sociedades e estados capitalistas da ‘periferia’; e
também dos movimentos dos trabalhadores orientados para a destruição do capitalismo. Esse
contexto facilitou a revelação das correntes, que até ao momento eram ainda subterrâneas, que no seio
do materialismo histórico começavam a manifestar um certo mal-estar com a sua concepção herdada
acerca das classes sociais. O rápido resultado foi, como acontece frequentemente, o menino foi
lançado com a água suja e as classes sociais se eclipsaram do cenário intelectual e político.”
3.1 “As tensões que originam a divisão de classes da sociedade, dizem os autores, só poderão saudar-se
com uma revolução inevitável que porá termo a todas as formas de exploração do homem pelo
homem.” (p.91)
3.2 “esteja já contido virtualmente todo o registo de ideias que serão incorporadas à teoria das classes
sociais do materialismo histórico. Entre as principais distinções: 1) A ideia de sociedade enquanto
uma totalidade orgânica, a partir Saint-Simon, eixo ordenador de toda uma perspectiva de
conhecimento histórico-social e de que o materialismo histórico será a principal expressão. 2) O
próprio conceito de classes sociais, referido a franjas de população homogeneizadas pelos seus
respectivos lugares e papéis nas relações de produção da sociedade. 3) A exploração do trabalho e o
controle da propriedade dos recursos de produção como o fundamento da divisão da sociedade em
classes sociais. Em Marx formarão mais tarde parte do conceito de relações de produção. 4) A
nomenclatura das classes sociais cunhada a partir desse postulado, amos e escravos, patrícios e
plebeus, senhores e servos, industriais e operários. 5) A perspectiva evolucionista, unidireccional, da
história como sucessão de tais sociedades de classe, as quais no materialismo histórico serão
conhecidas como ‘ modos de produção’. 6) A relação entre as classes sociais e a revolução final contra
toda a exploração, não muito depois chamada revolução ‘socialista’. Não se esgotam ali as notáveis
coincidências com o materialismo histórico a respeito da questão das classes sociais.” (ibid)
- Nos anos 1980, com a crise global do poder capitalista, intensificaram-se certos processos que
já se mostravam visíveis, como a falência dos regimes do despotismo burocrático e os
movimentos de democratização nas sociedades da periferia. Esse cenário contribuiu para uma
mudança de perspectiva no seio do materialismo histórico, particularmente quanto à
concepção das classes sociais. O mal-estar com a visão tradicional sobre as classes levou a um
declínio da centralidade dessa categoria no discurso intelectual e político. A divisão das
classes sociais, que antes era vista como um determinante histórico inevitável, foi
questionada, ntre os conceitos essenciais do materialismo histórico, estão a visão da sociedade
como uma totalidade orgânica, as classes sociais definidas pelas suas funções econômicas, a
exploração do trabalho e o controle dos meios de produção. Isso culminaria na ideia de uma
revolução final, que derrubaria as formas de exploração, com a transformação do sistema
capitalista em um sistema socialista. Essas ideias formaram a base da crítica marxista à
sociedade de classes e orientaram muitos debates sobre a estrutura social e as possibilidades
de mudança.
3.3 “Em segundo lugar, porque não era suficiente a visão dualista da passagem entre ‘pré-capitalismo’
e ‘capitalismo’ em relação às experiências do ‘Terceiro Mundo’, onde configurações de poder muito
complexas e heterogéneas não correspondem às sequências e etapas esperadas na teoria eurocêntrica
do capitalismo. Mas, porque não foi possível conseguir encontrar uma saída teórica a partir da
experiência histórica, apenas se chegou à proposta de ‘articulação de modos de produção’, sem se
abandonar a ideia da sequência entre eles. Ou seja, tais ‘articulações’ não deixam de ser conjunturas
da transição entre os modos ‘pré-capitalistas’ e o ‘capitalismo’’(p.96)
“Ao materialismo histórico é-lhe alheia e hostil a ideia de que não se trata mais de ‘modos de
produção’ articulados, mas do capitalismo como estrutura mundial de poder dentro do qual e ao seu
serviço se articulam todas as formas historicamente conhecidas de trabalho, de controlo e de
exploração do trabalho. Mas é assim, apesar de tudo, como existe o poder capitalista mundial,
colonial/moderno. E isso é finalmente visível para todos no momento da globalização.” (ibid)
- “dualista" que separa claramente o "pré-capitalismo" do "capitalismo", especialmente no
contexto do "Terceiro Mundo". Ele argumenta que, em muitas regiões, as dinâmicas de poder
são mais complexas e heterogêneas do que a teoria tradicional do capitalismo sugere. Nesse
sentido, a tentativa de conectar esses dois modos de produção, com uma transição sequencial
entre eles, acaba não capturando adequadamente a realidade histórica das sociedades
periféricas. A proposta de "articulação de modos de produção" é uma tentativa de adaptar a
teoria para essas realidades, mas ela ainda conserva a ideia de que há uma sequência de
transição dos modos "pré-capitalistas" para o "capitalismo", o que limita sua aplicabilidade.”
4.0 “A ideia de ‘classe’ foi introduzida nos estudos sobre a ‘natureza’ ainda antes de ser sobre
a ‘sociedade’. Foi o ‘naturalista’ sueco Linneo o primeiro a usá-la na sua famosa ‘classificação’
botânica do século XVIII. Ele descobriu que era possível classificar as plantas segundo o
número e a disposição dos estames das flores porque estas tendem a permanecer sem
alterações no decurso da evolução” (p.97)
4.1 “Não se poderia entender, nem explicar, de outro modo, a ideia do materialismo histórico
ou a dos sociólogos da ‘sociedade industrial’, segundo a qual as pessoas são ‘portadoras’ das
determinações estruturais de classe e devem consequentemente agir segundo elas. Os seus
desejos, preferências, intenções, vontades, decisões e acções são configurados segundo essas
determinações e devem responder a elas. O problema criado pela inevitável distância entre o
pressuposto e a subjectividade e a conduta externa das gentes assim ‘classificadas’, sobretudo
entre as ‘classes’ dominadas, encontrou no materialismo histórico uma possível solução:
tratava-se de um problema da consciência e este podiaser ou levado até aos intelectuais
(Kautsky – Lenine), tal como o pólen é levado às plantas pelas abelhas; ou ir-se elaborando e
desenvolvendo numa progressão orientada para uma impossível ‘consciência possível’
(Lukács,1923).25”
- Na perspectiva do materialismo histórico, a classe é entendida como uma
determinação estrutural que influencia o comportamento e as ações dos indivíduos.
As pessoas, segundo essa visão, são vistas como "portadoras" das condições sociais e
econômicas de sua classe, e suas ações e decisões são moldadas por essas
determinações. No entanto, a discrepância entre essa visão determinista e a
subjetividade humana gerou um problema dentro do materialismo histórico, que
procurou soluções em pensadores como Kautsky, Lênin e Lukács.
5.0 “A marca naturalista, positivista e marxo-positivista da teoria eurocêntrica das classes sociais
implica também duas questões cruciais: 1) Na sua origem, a teoria das classes sociais está pensada
exclusivamente sobre a base da experiência europeia a qual, por sua vez, está pensada, obviamente,
segundo a perspectiva eurocêntrica, ou seja, distorcida. 2) Por essa mesma razão, para os saint
simonianos e para os seus herdeiros do materialismo histórico, as únicas diferenças que são
percebidas entre os europeus como realmente significativas – uma vez abolidas as hierarquias
nobiliárias pela Revolução Francesa referem-se à riqueza/pobreza e ao mando/obediência.” (p.98)
“do trabalho e dos seus recursos e produtos. E isso é especialmente notável sobretudo em Marx e nos
seus herdeiros, uma vez que, não obstante, o seu propósito formal seja estudar, entender e alterar ou
destruir o poder na sociedade, todas as outras instâncias da existência social onde se formam relações
de poder entre as pessoas não são consideradas em absoluto ou são consideradas apenas como
derivativas das ‘relações de produção’ e determinadas por elas” (ibid) (p.99)
“Estes elementos ‘pré-modernos’ destinavam-se a ser substituídos no futuro por Estados-Nação como
na Europa. A Europa é civilizada. A Não Europa é primitiva. O sujeito racional é Europeu. A
Não-Europa é objecto de conhecimento. Como corresponde, a ciência que estudará os Europeus
chamar-se-á ‘sociologia’. A que estudará os Não-Europeus chamar-se-á ‘etnografia” (ibid)
- O autor critica a teoria eurocêntrica das classes sociais, ressaltando que ela se baseia
exclusivamente na experiência europeia, distorcida pela visão eurocêntrica. Essa
teoria vê as divisões sociais europeias como baseadas na riqueza/pobreza e na relação
de mando/obediência, especialmente após a Revolução Francesa. No materialismo
histórico, as relações de poder são reduzidas às relações de produção, negligenciando
outras formas de poder social. Além disso, ele destaca a dicotomia criada entre a
Europa, vista como civilizada e racional, e a "Não-Europa", tratada como primitiva e
estudada por meio da etnografia, enquanto a sociologia seria reservada para os
europeus.
6.0 “Na América, no capitalismo mundial, colonial/moderno, os indivíduos classificam-se e são
classificados segundo três linhas diferentes, embora articuladas numa estrutura global comum pela
colonialidade do poder: trabalho, raça, género. A idade não chega a ser inserida de modo equivalente
nas relações societais de poder, mas sim em determinados meios do poder. Esta articulação
estrutura-se em torno de dois eixos centrais: o controle de produção de recursos de sobrevivência
social e o controle da reprodução biológica da espécie.” (p.102)
“Deste ponto de vista, a ideia eurocêntrica que os indivíduos num dado momento de um padrão de
poder ocupam certos lugares e exercem certos papéis, e que por isso constituam uma comunidade ou
um sujeito histórico, aponta numa direcção historicamente inconclusiva. Semelhante ideia só seria
admissível se fosse possível admitir também que tais indivíduos ocupassem lugares e cumprissem
papéis simetricamente consistentes entre si em cada uma das instâncias centrais do poder” (ibid)
“Por outras palavras, o poder está sempre em estado de conflito e em processos de distribuição e de
redistribuição. Os seus períodos históricos podem ser diferenciados, precisamente, em relação a tais
processos.” (ibid)
- examina como as relações de poder são estruturadas, divididas em três categorias
interligadas: trabalho, raça e gênero. Essas categorias formam um sistema global,
sustentado pela colonialidade do poder. A idade, embora relevante, não é tratada de
forma equivalente, aparecendo apenas em certos contextos específicos. A estrutura do
poder gira em torno de dois eixos principais: o controle da produção dos recursos
necessários à sobrevivência e a gestão da reprodução biológica da espécie.
6.1 Além disso, o autor critica a visão eurocêntrica que vê os indivíduos como ocupantes fixos
de papéis em uma sociedade. Ele argumenta que essa visão é historicamente limitada, pois
não leva em conta os conflitos e as redistribuições contínuas de poder que marcam os
diferentes períodos histórico.
“Na história conhecida anterior ao capitalismo mundial pode-se verificar que nas relações de
poder, certos atributos da espécie tiveram um papel central na classificação social das
pessoas: sexo, idade e força de trabalho são sem dúvida os mais antigos. Da América,
acrescentou-se o fenótipo. O sexo e a idade são atributos biológicos diferenciais, ainda que o
seu lugar nas relações de exploração/dominação/conflito esteja associado à elaboração desses
atributos como categorias sociais. Por outro lado, a força de trabalho e o fenótipo não são
atributos biológicos diferenciais. A cor da pele, a forma e a cor do cabelo, dos olhos, a forma e
o tamanho do nariz, etc., não têm nenhuma consequência na estrutura biológica do indivíduo
e certamente menos ainda nas suas capacidades históricas. E, do mesmo modo, ser
trabalhador ‘manual’ ou ‘intelectual’ não tem relação com a estrutura biológica.” (p.106)
"racialização" das relações de poder entre as novas identidades sociais e geoculturais foi um
elemento fundamental para sustentar e legitimar o caráter eurocêntrico do padrão de poder
capitalista, tanto no plano material quanto no intersubjetivo, configurando-se assim como um
dos pilares da colonialidade. A partir desse processo, a população mundial foi classificada
principalmente em identidades "raciais", dividindo os dominantes "europeus" dos dominados
"não-europeus". Inicialmente, a cor da pele e outras características fenotípicas como a forma
dos olhos, o tamanho do crânio e o formato do nariz foram usadas como marcadores dessas
diferenças. A cor da pele tornou-se a principal característica distintiva, com os "europeus"
sendo atribuídos à "raça branca", enquanto os "não-europeus" foram classificados nas "raças
de cor", criando uma escala de superioridade e inferioridade. O autor propõe a necessidade de
um estudo mais aprofundado e sistemático (não sistêmico) das implicações dessa
colonialidade no contexto do capitalismo global, especialmente no que se refere à classificação
social racial.” (ibid).
- interdependência entre exploração e dominação, afirmando que a exploração não pode
ocorrer sem a dominação. A dominação, por sua vez, é uma constante histórica que depende
da criação de um "imaginário mitológico" que torna naturais as instituições e categorias que
estruturam as relações de poder impostas pelos dominadores. No capitalismo eurocêntrico, a
"naturalização" da colonialidade do poder contribui para a construção de uma cultura
mundial impregnada de mitologia, reforçando as desigualdades entre os "europeus" e os
"não-europeus". O exemplo de gênero é usado para ilustrar como as categorias de poder,
como "raça" e "sexo", são naturalizadas e confundidas com características biológicas, quando
são, na verdade, construções sociais criadas para manter o domínio.
7.0 “Há uma relação clara entre a exploração e a dominação: nem toda a dominação implica
exploração. Mas esta não é possível sem aquela. A dominação é, portanto, sine qua non de
todo o poder. Esta é uma velha constante histórica. A produção de um imaginário mitológico é
um dos seus mecanismos mais característicos. A ‘naturalização’ das instituições e das
categorias que ordenam as relações de poder que foram impostas pelos
vencedores/dominadores, tem sido, até agora, o seu procedimento específico. No capitalismo
eurocêntrico, é sobre a base da ‘naturalização’ da colonialidade do poder que a cultura
universal foi e continua a ser impregnada de mitologia e de mistificação na elaboração de
fenômenos da realidade. A lealdade ‘racial’ dos ‘brancos’ perante as outras ‘raças’, serviu como
pedra angular da lealdade, inclusive ‘nacional’, dos explorados e dominados ‘brancos’ em
relação aos seus exploradores em todo o mundo e, em primeiro lugar no ‘eurocentro’. A
‘naturalização’ mitológica das categorias básicas da exploração/dominação é um instrumento
de poder excepcionalmente poderoso. O exemplo mais conhecido é a produção do ‘género’
como se fosse idêntico a sexo. Muitos indivíduos pensam que acontece o mesmo com ‘raça’ em
relação” (p.113)
“ Sugiro um caminho de indagação: porque implica algo muito material o ‘corpo’ humano. A
‘corporalidade’ é o nível decisivo das relações de poder. Porque o ‘corpo’ implica a ‘pessoa’, se
se libertar o conceito de ‘corpo’ das implicações mistificadoras do antigo ‘dualismo’
eurocêntrico, especialmente judaico-cristão (alma-corpo, psique-corpo, etc.). E isso é o que
torna possível a ‘naturalização’ de tais relações sociais. Na exploração, é o ‘corpo’ que é usado
e consumido no trabalho e, na maior parte do mundo, na pobreza, na fome, na desnutrição, na
doença, o ‘corpo’ o implicado no castigo, na repressão, nas torturas e nos massacres durante
as lutas contra os exploradores. Pinochet é um nome do que ocorre aos explorados no seu
‘corpo’ quando são derrotados nessas lutas. Nas relações de género, trata-se do ‘corpo’. Na
‘raça’, a referência é ao ‘corpo’, a ‘cor’ presume o ‘corpo’. Hoje, a luta contra a
exploração/dominação implica, sem dúvida, em primeiro lugar, o engajamento na luta pela
destruição da colonialidade do poder, não só para terminar com o racismo, mas pela sua
condição de eixo articulador do padrão universal do capitalismo eurocentrado. Essa luta é
parte da destruição do poder capitalista, por ser hoje a trama viva de todas as formas
históricas de exploração, dominação, discriminação, materiais e subjectivas. O lugar central
da ‘corporeidade’ neste plano leva à necessidade de pensar, de repensar, vias específicas para
a sua libertação, ou seja, para a libertação das pessoas, individualmente e em sociedade, do
poder, de todo o poder. E a experiência histórica até aqui aponta para que há outro caminho
senão a socialização radical do poder para chegar a esse resultado. Isso significa a devolução
aos próprios indivíduos, de modo directo e imediato, do controlo das instâncias básicas da sua
existência social: trabalho, sexo,subjectividade e autoridade.” (p.114)
- Para concluir o texto, a relação intrínseca entre exploração e dominação, afirmando
que a dominação é essencial para que a exploração ocorra, e que a dominação
histórica cria uma mitologia que naturaliza as relações de poder. Essa "naturalização"
permite a manutenção de instituições e categorias que ordenam a sociedade, sendo
uma característica central do capitalismo eurocêntrico. A lealdade racial dos
"brancos" para com os "não-europeus" ajudou a solidificar laços de lealdade, até
mesmo nacional, dos dominados "brancos" em relação aos seus exploradores,
especialmente no contexto europeu. A "naturalização" das categorias de exploração e
dominação, como o gênero e a raça, é um instrumento de poder que oculta sua
natureza socialmente construída.
- O texto sugere que o corpo humano é central nas relações de poder. A exploração se
materializa no corpo, que é consumido no trabalho e sofre as consequências da
pobreza, repressão e violência. A luta contra a exploração, especialmente a racial e de
gênero, deve focar na destruição da colonialidade do poder, que sustenta a estrutura
do capitalismo eurocêntrico. Para isso, é necessário repensar a relação do corpo com a
liberdade e lutar por uma socialização radical do poder, devolvendo aos indivíduos o
controle sobre aspectos fundamentais de sua vida social, como trabalho, sexo e
autoridade.
Frase do ilustre autor decolonial Aníbal Quijano "La colonialidad del poder está en la base del
ordenamiento social capitalista, que ha sido universalizado como modelo de
dominación."