(Des) Troços 6
(Des) Troços 6
Nú Me R o 1
JaN./ J u N.
2 023
AN-
arquia
e ANaRqu r e v i s t a
TRO
p e n s a m e n t o
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r a d i c a l
psicopolítica
e anarquia
resistência
para além dos
arquétipos
PÓS-
ANAR
QUI
MO
POVO, DEMOCRACIA
E AN-ARQUIA DA
POLÍTICA
prática de uma anarquia radical?
VoLu M e 4
Nú M eR o 1
Ja N./Ju N.
20 23
IsSn 2763-518X
Editor-chefe
Andityas Soares de Moura Costa Matos
Editoras de seção
Ana Suelen Tossige Gomes
Antonio Lopes de Almeida Neto
Augusto César Vieira
Igor Campos Viana
Joyce Karine de Sá Souza
Jailane Devaroop Pereira Matos
Fransuelen Geremias Silva
Luísa Côrtes Grego
Thiago César Carvalho dos Santos
CONSELHO EDITORIAL
Ana Suelen Tossige Gomes Universidade do Estado de Minas Gerais, Minas Gerais, Brasil
Andreas Philippopoulos-Mihalopoulos University of Westminster, Londres, Inglaterra
Andrew Culp California Institute of the Arts, California, Estados Unidos da América
Angelica de Freitas e Silva University of Westminster, Londres, Inglaterra
Barbara Peccei Szaniecki Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Berenice Alves de Melo Bento Universidade de Brasília, Brasília, Brasil
Chiara Bottici The New School Welcome Center, Nova Iorque, Estados Unidos da América
Daniel Arruda Nascimento Universidade Federal Fluminense, Macaé, Brasil
Djalma Thürler Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil
Dolores Aronovich Aguero Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil
Edson Luis de Almeida Teles Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil
Eduardo Viveiros de Castro Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Elettra Stimilli Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, Roma, Itália
Fabian Ludueña Romandini Universidade de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina
Felipe Araújo Castro Universidade Federal Rural do Semi-Árido, Mossoró, Brasil
Flávia Souza Máximo Pereira Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, Brasil
Francis Garcia Collado Universitat de Girona, Girona, Espanha
Frédéric Neyrat Universidade de Wisconsin-Madison, Madison, Estados Unidos da América
Giuseppe Mario Cocco Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Hans Lindahl Tilburg University, Tilburg, Países Baixos
Jonnefer Francisco Barbosa Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil
Joyce Karine de Sá Souza Nova Faculdade, Contagem, Brasil
Júlia Ávila Franzoni Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Júlia Otero dos Santos Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil
Laura Bazzicalupo Università degli Studi di Salerno, Fisciano, Itália
Maeve Cooke University College Dublin, Dublin, Irlanda
Marcelo Maciel Ramos Universidade Federal de Mina Gerais, Belo Horizonte, Brasil
Marco Antônio Sousa Alves Universidade Federal de Mina Gerais, Belo Horizonte, Brasil
Michele Spanò École des hautes études en sciences sociales, Paris, França
Murilo Duarte Costa Corrêa Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, Brasil
Patricia Peterle Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil
Paulina Tambakaki University of Westminster, Londres, Inglaterra
Priscilla Wald Duke University, Durham, Estados Unidos da América
Ricardo Evandro Santos Martins Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil
Rita de Cássia Lucena Velloso Universidade Federal de Mina Gerais, Belo Horizonte, Brasil
Rita Fulco Scuola Normale Superiore di Pisa, Pisa, Itália
Robin Celikates Freie Universität Berlin, Berlin, Alemanha
Rodrigo Guimarães Nunes Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Silvio Luiz de Almeida Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rio de Janeiro, Brasil
Thanos Zartaloudis University of Kent, Canterbury, Inglaterra
Thomas Berns Université de Bruxelles, Bruxelas, Bélgica
Vinícius Nicastro Honesko Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Brasil
William E. Scheuerman Indiana University Bloomington, Indiana, Estados Unidos da América
Editorial
01
Andityas Soares de Moura Costa Matos
An-arquia e anarquismos
Dossiê especial
02
Adalberto Arcelo
Joaquim Leonardo Lopes Louzada de Freitas
Xangô: como anarquizar uma sociedade bem
ordenada
04
Martin Chicolino
«…Et moi, un anarchiste de gauche»: Michel
Foucault: psicopolítica e anarquia
06
Reinaldo Silva Cintra
Povo, democracia e a an-arquia da política:
uma crítica ao constitucionalismo a partir de
Jacques Rancière
07
Yolanda Gloria Gamboa Muñoz
Teatro do presente: prática de uma anarquia
radical?
Artigos
08
Augusto Jobim do Amaral
Neoliberalismo, contrarrevolução e
pós-Fascismo no Brasil
UMÁRI
09 Ronie Alexsandro Teles da Silveira
A malandragem da classe trabalhadora
10
Victor Hermann
Entre anjos e homens: a perspectiva da
história de ideias em O homem sem
qualidades, de Robert Musil
Traduções
11
Saul Newman
Tradução por Luísa Côrtes Grego
Pós-anarquismo e política radical hoje
12
Todd May
Tradução por Gustavo de Oliveira Correa
A teoria política pós-estruturalista é
anarquista?
Resenhas
Eraldo Souza dos Santos
13
On radical genealogies of civil disobedience:
remarks on Bárbara Nascimento de Lima’s
“Civil disobedience: a dispute of concepts”
14
Felipe Klein Gussoli
Religião e democracia representativa do séc.
XIX ao XXI: resenha de "Deus e o Estado"
15
Lluís Pla Vargas
Tradução por Andityas Soares de Moura Costa Matos
A an-arquia que vem: fragmentos para um
dicionário de política radical
Produções artísticas
AN-ARQUIA
E ANARQUISMOS
Andityas Soares de Moura Costa Matos
“Podemos ser anarquistas, mas nos opomos à anarquia”, disse certa vez Gershom
Scholem, que em sua juventude foi um apaixonado leitor e praticante da anarquia, tendo
inclusive influenciado seu amigo Walter Benjamin nessa direção. Com essa sentença
quase cabalística em sua aparente contradição, Scholem queria evitar que a anarquia se
tornasse uma tradição e perdesse seu caráter revolucionário, transformando-se em mais
um “ismo”, como parece ter acontecido hoje em grande medida. É com uma intenção
polêmica idêntica que apresentamos neste número da (Des)troços: revista de pensamento
radical um dossiê sobre an-arquia e anarquismos, no plural, que vai desde à exposição
do caráter infundado do ser, que não se resume nem a princípio nem a comando – são os
dois sentidos da palavra arkhé –, até à denúncia da anarquia do poder que pretende
capturar essa original abertura ontológica por meio de diversos dispositivos, hoje
delineados sob a forma capitalista e neoliberal.
De fato, um dos elementos que caracterizam nosso tempo é a ubiquidade de
dispositivos que capturam, reconfiguram e domesticam pensamentos e práticas
democráticas radicais originariamente ligadas a an-arquia. Nesse sentido, instâncias
como o mercado, a universidade e a teologia serviram para enfraquecer até mesmo
correntes do pensamento intensamente críticas, como o anarquismo, transformando-o
em mercadoria, em moda urbana, em niilismo irresponsável ou em simples escola
filosófico-acadêmica. Contra essa tendência, os trabalhos aqui publicados revisitam
autores clássicos do anarquismo – Mikhail Bakunin, Pyotr Kropotkin, Pierre-Joseph
Proudhon, Emma Goldman etc. –, compreendendo que a aposta que fizeram insere-se em
uma dimensão muito mais profunda do que parece à primeira vista, se relacionando com
a falta de fundamento do poder e do ser, ou seja, com a an-arquia radical que
paradoxalmente nos funda como seres sem fundamento. Uma vez reconhecida, essa
potência singular e comum ameaça a estabilidade de todo poder representativo,
separativo e hierárquico.
Além dos clássicos do anarquismo e de sua história (prática e teórica) nos séculos
XIX e XX, há contribuições neste número que dialogam com temas, autores e grupos
contemporâneos como Giorgio Agamben, Reiner Schürmann, Tiqqun, Comitê Invisível e
muitos outros, para assim liberar o potencial da an-arquia como forma-de-vida singular
que vive o tempo-de-agora. Destaca-se, nessa perspectiva, as traduções de artigos de
Todd May e Saul Newman, dois dos principais teóricos do pós-anarquismo, movimento
teórico que, batizado por Hakim Bey e surgido no final dos anos 90 do século passado,
pretende favorecer uma miscigenação herética entre as práticas anarquistas do século
XX e o pensamento pós-estruturalista de filósofos como Derrida, Foucault e Deleuze, de
Agosto de 2023.
XANGÔ:
COMO ANARQUIZAR UMA SOCIEDADE BEM
ORDENADA
Adalberto Arcelo 0000-0001-5380-7148
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Resumo
Este trabalho propõe uma análise da estrutura de conhecimento moderno-colonial,
materializada na teoria da justiça de John Rawls, vez que esta atualiza o paradigma da
consciência como condição de possibilidade da ordem do discurso, redimensionando a linha
abissal entre o ser e o não ser, transformando-a em vala comum para o depósito, a
subalternização e a eliminação de corpos e de existências não brancas. Neste cenário, a teoria
da justiça de Rawls repercute como uma teoria racializada, contribuindo para a exclusão de
corpos orientados por outras cosmovisões não ocidentais do acesso a um pretenso
sistema racional de justiça. Trata-se de uma imparcialidade farsante, operacionalizada através
da abstração das relações sociopolíticas e raciais. Percebe-se que a aplicação desse sistema
simbólico no contexto brasileiro, fortemente marcado pelo hibridismo cultural constitutivo de
nossa genealogia, redunda na atualização de tradições subalternizantes e subalternizadas
daí a urgência em se atentar para possibilidades de deliberação por justiças pluriversais.
Subsídios fornecidos pela filosofia social crítica e decolonial são empregados para impulsionar
a visibilização de tradições pretas ancestrais e, especificamente, de saberes e poderes dos
Orixás Exu e Xangô. Promove-se, assim, concepções transculturais de justiça, habilitadas a
superar a perversa linha abissal subjacente a narrativas de justiça desumanizantes
Palavras-chave
Cultura híbrida; decolonialidade; filosofias africanas; justiça como equidade; justiças
pluriversais.
Keywords
Hybrid culture; decoloniality; African philosophies; justice as fairness; pluriversal justices.
Introdução
Propõe-se uma análise decolonial da obra Uma teoria da justiça, de John Rawls,1
considerando o impacto de alguns dos conceitos axiais que fundamentam a teoria
rawlsiana. Busca-se testar o impacto da repercussão dos conceitos rawlsianos de sujeito,
de posição original e de sociedade bem ordenada na dinâmica social do Brasil
contemporâneo, priorizando o impacto de tal narrativa nos povos pretos e suas tradições
seres, saberes e poderes que encarnam a exterioridade, a alteridade, a diferença. A
análise será conduzida na tentativa de compreender e demonstrar como os germes
coloniais estruturam uma ordem do discurso (re)produtora de um sujeito-abstrato
mediante uma dominação teórico-pedagógica, política, filosófica e jurídica para a
implementação do conceito de (in)justiça ocidental.
Para o desenvolvimento argumentativo proposto, é imprescindível expor os
aparatos coloniais à disposição do fenômeno universalizante da colonialidade e suas
interações inibidoras dos modos existenciais e das práticas ancestrais dos povos pretos.
Nesse sentido, ao perpassar nuances da justiça rawlsiana como, por exemplo,
subjetividade humana, tradição, ideologia e racionalidade, busca-se subsídios
necessários para criticar a narrativa teórico-pedagógica estruturante do pensamento
rawlsiano, ou seja, para uma crítica das narrativas racionalistas e idealistas, tipicamente
moderno/coloniais. Assim, aponta-se o conjunto de influxos do racionalismo kantiano
materializado na teoria da justiça de Rawls, o que confirma o impacto de uma tradição
o ser, o saber e o poder universalizante, propensa a silenciar, a subalternizar e até a
eliminar narrativas diversas seres, saberes e poderes locais.
Considerando a dinâmica contemporânea do sistema-mundo-moderno-colonial, o
objetivo deste trabalho é capturar de forma analítica a perversidade da base metodológica
da teoria rawlsiana da justiça, que tende a se basear no grau-zero do conhecimento para
universalizar, ou seja, para padronizar e uniformizar, determinando a forma de vida dos
seres viventes, estruturando corpos, subjetividades e comunidades a partir do conceito
de sociedade bem ordenada. Denuncia-se, nesse contexto, a performatividade da
geopolítica do conhecimento, que controla a racialização e a hierarquização
epistemológica, para além das relações sociais, políticas e jurídicas.
A repercussão da concepção de justiça rawlsiana no contexto brasileiro, sob o
filtro do pensamento decolonial, inter e transcultural, deve ser ambientada nos encontros
entre tradições que criam signos com caráter híbrido. Contudo, assimilada pelo filtro
moderno/racional/colonial, o impacto da teoria da justiça de Rawls desperta ainda mais
hierarquizações e discriminações, potencializando um locus de desenvolvimento de
estratégias de dominação, bem como a dissimulação dessas estratégias em contextos
marcados por pseudo-hibridismos e sincretismos culturais.
A reflexão sobre a justiça e a sociedade justa não é nova, tendo em vista o sistema
de pensamento ocidental que se descortina desde a civilização greco-ateniense. Neste
horizonte fortemente marcado pela filosofia socrática e pelo racionalismo idealista e
transcendental, Rawls atualiza essa tradição de pensamento ao realizar uma
transferência do foco de análise da filosofia política: o contrato social é preterido pelos
princípios de justiça, que proporcionarão um padrão de orientação racional para a
1
RAWLS, Uma teoria da justiça.
sociedade. Contudo, nesta intervenção procura-se apontar que a teoria rawlsiana, para
construir seu conceito de justiça, utiliza em suas alegações noções neocontratualistas, a
partir de uma linguagem articulada pela colonialidade, que captura discursos e signos
sincréticos, agora reféns da lógica da dominação teórico-pedagógica e,
consequentemente, dos dispositivos de subjetivação, estratégias de objetificação da
subjetividade que delineiam um sujeito-normativo-normalizado.
Após a análise crítica da teoria rawlsiana, serão propostas possibilidades
pluriversais para outras narrativas de justiça, ou outras justiças, abrangendo a pluralidade
de existências historicamente subalternizadas pelo sistema-mundo-moderno-colonial.
Sendo assim, para viabilizar tais perspectivas, busca-se subsídios nas tradições
ancestrais pretas e, especificamente, utiliza-se os saberes e as éticas de Xangô e Exu,
divindades africanas.
As narrativas alternativas subjacentes ao pensamento decolonial e às tradições
africanas viabilizam a emergência de um horizonte pluriversal e transcultural, vez que
apresentam um repertório simbólico ou narrativas alternativas capaz de
ressignificar de maneira emancipatória conceitos como conhecimento, subjetividade,
tradição e hibridismo cultural, bem como as chaves centrais da teoria da justiça de Rawls.
Trata-se de uma forma de anarquizar a tradição moderno/colonial, subvertendo a
tradicional ordem do discurso e suas repercussões sociais.
2
Cf. RAWLS, Uma teoria da justiça.
3
MALDONADO-TORRES, Transdisciplinaridade e decolonialidade, pp. 75-97.
4
BOAS, Bases para uma teoria antropocêntrica de direito penal.
estruturado por Enrique Dussel. Compreende-se a totalidade como o limite das próprias
limitações, ou seja, a harmonia do tempo e espaço relacionando o indivíduo e os objetos
presentes nessa totalidade, fixando o sujeito como centro o controlador dos signos
linguísticos que desempenha o poder discursivo de segregar os entes provenientes dos
saberes subalternos. Nessa medida, os entes são dispostos na totalidade por
proximidades ou distâncias que mensuram o grau do poder de sentido no ato de emaná-
los na realidade, pois quanto mais distante do sujeito, menor sua probabilidade de ser
inserido ou modificar a realidade. Estabelecidas essas premissas, nota-se o projeto
fundante colonial na aceitação do campo de possibilidade do poder-ser, que leva a
repetição de uma totalidade hegemônica viciosa que sempre remonta o mesmo mundo,
espaço e tempo.5
Com a descrição do conceito de totalidade e os entes permitidos discursivamente
para a modificação de mundo, a totalidade faz alusão aos limites teóricos estabelecidos
pelo construtivismo, que viabiliza uma delimitação para deliberar sobre os conceitos,
noções e objetos que emergem daquele sistema. Em decorrência disso, as estruturas do
conhecimento presentes na teoria rawlsiana, conscientemente, filtram-se pela lógica de
delimitação dos entes centrais, ou seja, os elementos conceituais erguidos em conjunto
com a colonialidade, contrapondo os entes distantes que são excluídos das estruturas dos
saberes pela unilateralidade ordenada da razão universal.
A capacidade da dominação teórico-pedagógica se dá a partir do ocultamento
dessa estrutura epistemológica, que ampara o silenciamento de novos saberes e provoca,
consequentemente, o epistemicídio da estrutura de saberes do povo preto. Para o
progresso dessa dominação teórica, o grau-zero do conhecimento implantado promove a
estratégia da deslocalização do conhecimento e organiza uma geopolítica epistemológica
colonial.
No caso, o conceito de posição original influenciado pela colonialidade produz a
deslocalização do conhecimento, já que o objetivo da posição original é provocar uma
ignorância circunstancial no momento de escolher os princípios da justiça. Em tese, sua
proposta se mostra como benéfica, já que seu objetivo é:
5
DUSSEL, Filosofia na américa latina.
6
RAWLS, Uma teoria da justiça, p. 21.
7
AGAMBEN, Profanações.
10
8
GADAMER, Verdade e método.
9
BOAS, Bases para uma teoria antropocêntrica de direito penal.
10
BOAS, Bases para uma teoria antropocêntrica de direito penal, p. 139.
11
CANCLINI, Culturas híbridas.
no Brasil, pela matriz de conhecimento eurocentrada, tendo em vista sua relação de poder
interdependente com a ideologia. Pode-se dizer que Kabengele Munanga entende como
12
MUNANGA, Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, p. 101.
13
BHABHA, Local da cultura.
Como foi possível que a Declaração dos Direitos Humanos fosse transcrita em parte
na Constituição brasileira de 1824, enquanto continuava existindo escravidão? A
dependência que a economia agrária latifundiária tinha com o mercado externo fez
chegar ao Brasil a racionalidade econômica burguesa com sua exigência de fazer o
trabalho em um mínimo tempo, mas a classe dirigente- que baseava sua dominação
no disciplinamento integral da vida dos escravos- preferia prolongar o trabalho ao
máximo de tempo, e assim controlar todo o dia dos submetidos. 14
14
CANCLINI, Culturas híbridas, p. 76.
15
DUSSEL, Filosofia na américa latina.
16
MALDONADO-TORRES, A topologia do ser e a geopolítica do conhecimento.
17
DERRIDA, Força de lei.
18
MALDONADO-TORRES, Transdisciplinaridade e decolonialidade.
19
LOPES; SIMAS, Filosofias africanas.
20
TAVARES, Xangô.
21
LOPES; SIMAS, Filosofias africanas.
A 24
22
TAVARES, Xangô.
23
RUFINO, Pedagogia das encruzilhadas.
24
RUFINO, Pedagogia das encruzilhadas, p. 86.
Não há coincidência, tudo que aqui existe importa e tem motivo. Todos os seres e toda
26
25
BÂ, Tradição viva.
26
LOBO, O debate agora é cosmopolítico, p. 9.
27
TEIXEIRA, Inflexões éticas.
possibilidades de construir justiças que confluem com aqueles que são afetados pelo
devir-colonizado, abarcando a diversidade de existências que destoam do sujeito-
normativo-colonial.
5. Considerações finais
Referências
LOPES, Nei; Simas, Luiz Antonio. Filosofias africanas. 5 ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2021.
Adalberto Arcelo
Doutor em Filosofia do Direito e professor da Faculdade Mineira
de Direito (PUC-MG). Email: adalbertoarcelo@[Link].
MENSAJES FURTIVOS:
MURMULLOS ENTRE LÍNEAS
Harriet García de Vicuña Gortazar 0009-0008-3281-1533
Universidad Autónoma del Estado de Morelos
Resumen
El texto reflexiona sobre la paradoja implícita en las cartas codificadas. Dicha incongruencia
es consecuencia del problema de la apertura de la escritura, es decir, de la imposibilidad del
escrito de discriminar a sus lectores: un texto está expuesto a todos los ojos. La paradoja se
acentúa cuando el escrito tiene un destinatario concreto y determinado: la intención, la
necesidad de excluir de la lectura del texto a todos aquellos que se consideran inadecuados
obliga al remitente a enfrentarse al siguiente problema: ¿Cómo escribir un texto que discrimine
de manera selectiva, es decir,
se orienta mediante la exposición y el análisis de ejemplos en los que el mantenimiento del
secreto es una cuestión de vida o muerte: fallar en la codificación del escrito puede llevar al
remitente a la muerte, la cárcel o el exilio. La indiscreta apertura del texto se convierte en el
problema central a la hora de analizar las prácticas de comunicación, en el contexto de las
organizaciones que hacen del secreto fundamento del propio existir.
Palabras clave
Secreto; encierro; escritura; espionaje.
Keywords
Secret; confinement; writing; espionage.
Los militantes de estas asociaciones deben tener muy claro que cualquier cosa
que no se oculte se encuentra disponible para todos: lo que se exhibe no establece ninguna
división porque cualquiera, de dentro o de fuera de la organización, puede satisfacer la
lo que no se revela marca una diferencia, un límite que no se debe atravesar: lo velado, lo
obliga a los militantes a establecer un método eficaz de ocultación que mantenga alejados
del misterio a los ajenos y que, al mismo tiempo, debe permitir distribuir el secreto.
secreto, necesita que este circule pero, siempre, de manera controlada, sólo para algunos:
ocultar y distribuir son las paradójicas actividades que articulan la relación con el afuera
y, también, las dinámicas del grupo. Este escrito reflexiona sobre este problema
analizando distintos ejemplos en los que el elemento central es el uso de una
comunicación, de susurros, de golpes en paredes, de una escritura codificada, que
muestran las paradojas sobre las cuales este texto delibera y que se pueden resumir en
las siguientes preguntas: ¿cómo comunicar un secreto clandestinamente?, ¿cómo escribir
para que (algunos/muchos) no puedan leer?
1
SIMMEL, El secreto y las sociedades secretas, p. 45.
Los enemigos del encierro que rodean el presidio rompen las ventanas, lanzan
piedras contra el alcaide y los carceleros y alimentan las hogueras que han encendido
junto al muro del presidio. A las ocho de la tarde el pabellón de los guardias arde y los
sublevados entran en Newgate: 300 presos son liberados mientras la muchedumbre
blasfema y baila para celebrar la destrucción de la prisión. 7 Los siguientes objetivos son
el correccional de Bridwell, la New Prison y la cárcel de Fleet: 700 personas en total son
liberadas en unas jornadas en las que, prácticamente, se destruye la infraestructura
carcelaria de la capital del imperio británico; la multitud quiere ajustar cuentas y demuele
unos edificios que son vistos como la expresión de un poder y un privilegio de casta que
odian y quieren eliminar.8
Once años después de la destrucción de las cárceles londinenses el filósofo inglés
Jeremy Bentham publica un texto en el que plasma una idea, una nueva arquitectura
carcelaria, que debe servir para reformar el sistema penitenciario británico: el edificio
ideado por el pensador londinense pone a discusión el sentido y los objetivos del encierro
y, como él mismo señala, es incomparable con los diseños de cárceles anteriores. El
proyecto con el que el pensador inglés responde al deseo reformador del rey Jorge III, la
2
VAN DAAL, Bello como una prisión en llamas, p. 57.
3
VAN DAAL, Bello como una prisión en llamas, p. 61.
4
El código penal vigente en Gran Bretaña en 1780 contempla 150 supuestos de aplicación de la
pena de muerte. VAN DAAL, Bello como una prisión en llamas, p. 63.
5
e allí languidecen o que cuentan entre sus allegados a buenas gentes
que se pudren allí donde antes se pudrieron ellos: palquistas, desvalijadores, escamoteadores y
ladrones de todo pelaje, amén de meretrices e invertidos, pero también criados ladronzuelos o
simploncetes que llegaron a las manos con el posadero, sin olvidar a los pugilistas irascibles y
, Bello como una prisión en llamas, p. 65.
6
VAN DAAL, Bello como una prisión en llamas, p. 67.
7
VAN DAAL, Bello como una prisión en llamas, p. 68.
8
VAN DAAL, Bello como una prisión en llamas, p. 73.
carcelaria del inglés obvia los penales que enfurecen a las masas sublevadas en Londres
choca, de manera curiosa, con la persistencia de unos modos y unas inercias que las
9
Jeremy Bentham citado en SZENDY, Bajo escucha, pp. 40-41.
10
Vincenzo Mirabella citado en CASTELLOTTI, La paradoja de Caravaggio, p. 126.
se esconde en Sicilia en diferentes periodos entre el año 1606 y el año 1610, comienza a
aparentemente diseñada para escuchar en la que los prisioneros son encerrados en una
enorme aurícula que amplifica todos los ruidos, todos los susurros y cuchicheos, que hace
imposible que los presos intercambien una sola palabra sin que pueda ser escuchada por
oídos indiscretos.
déspota
siciliano en un carcelero que escucha en las sombras, que quiere conocer los secretos
que los presos intercambian entre sí y que escucha complacido, así lo afirma Guy de
Maupassant en La vida errante, las quejas y los lamentos de los cautivos encerrados en
La cárcel del viejo Dionisio parece inaugurar una manera de entender la escucha
que la relaciona con el espionaje, con el secreto, más concretamente, con la necesidad de
eliminar el secreto. Escuchar es prestar oídos para enterarse de aquello que no se quiere
compartir con todos, que no se quiere compartir con aquel que escucha oculto en las
sombras.
A pesar de que en el diseño original del Panóptico Bentham imaginó un sistema
de tubos que conectaban las celdas de los prisioneros con la torre central para que los
guardianes pudiesen escuchar a los prisioneros12, conocer sus secretos, desecha esa idea
y se centra en desarrollar la novedad del Panóptico que consiste en la primacía que la
arquitectura del edificio le da al ojo; la cárcel que escucha se transforma en la cárcel que
ve y esa es la novedad que el inglés quiere resaltar cuando, con tanta rotundidad, se
separa de la cárcel de Dionisio.
La oscuridad que esconde al que escucha las palabras que cuchichean los
prisioneros se convierte en la luz que ilumina la torre que alberga a los guardias y los
rincones en los que los presos podrían esconderse: el espía necesita de la oscuridad
porque se esconde para estar presente en el espionaje, en la escucha; el vigilante necesita
la luz porque se muestra a pesar de estar ausente (muchas veces) de la vigilancia.
El guardián que recorre los pasillos y curiosea por las ventanas que jalonan la
torre ubicada en el centro del Panóptico, se encuentra en una posición privilegiada para
vigilar las celdas en las que se divide el anillo periférico que rodea su punto de
observación y así controlar el comportamiento de los presos que ocupan la prisión; la
ubicación del centinela y la luz que entra por las ventanas que dan al exterior del círculo
que hace visible la silueta de los prisioneros encerrados y que, irónicamente, protege al
vigilante de las miradas de los presos, permiten observar sin ser visto; este sistema está
pensado para aumentar la agobiante sensación que perturba a los presidiarios: la de ser
vigilados constant
11
SZENDY, Bajo escucha, p. 25.
12
Parece ser que se desechó esa idea porque la tecnología de la época no permitía que el sistema
fuese asimétrico, es decir, que el guardia pudiese escuchar al preso pero que el preso no pudiese
escuchar al guardia. FOUCAULT, Vigilar y castigar, nota al pie 4, p. 205.
prisioneros que los contempla de manera obsesiva no debe permitir que los presos se
relacionen entre sí y, para eso, el carcelero que vigila desde la torre central no puede
dejar de estar agazapado en una oscuridad de la que Bentham parece renegar: el
Panóptico no puede terminar de separarse de la oreja con la que Dionisio escucha a los
enemigos que tiene encerrados porque la invisibilidad que impide el complot es totalmente
les
o las cárceles en las que están encerrados los revolucionarios que a finales del siglo XIX
luchan en Rusia contra el régimen zarista, son un ejemplo de la necesidad del espionaje;
el espía que escucha escondido en las sombras sigue firme en su puesto a pesar de los
años transcurridos y de las propuestas de cambio.
13
FOUCAULT, Vigilar y castigar, p. 204.
14
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 128.
invertir lo robado a los capitalistas en propaganda revolucionaria:15 entre 1900 y 1903, año
de la detención de Jacob, los trabajadores cometen más de 150 hurtos en su intento de
transformar el robo en una táctica revolucionaria, en un medio que permita transformar
las relaciones sociales.
El revolucionario es condenado a veinte años de trabajos forzados y en noviembre
del mismo año es exiliado al territorio francés de ultramar que Napoleón III convierte en
centro de deportación en 1852: la Guayana; la capital, Cayena, y las tres pequeñas islas
que se encuentran a once kilómetros del continente, esperan a los franceses condenados
al destierro.
Jacob es trasladado en tren hasta París; de allí le llevan hasta la ciudad costera
de La Rochele dónde le embarcan en un viejo barco, el Coligny, que lo lleva hasta la capital
de la isla de Ré, Saint-Martin-de-Ré. En la isla es encerrado en la ciudadela de Vauban y
allí espera el momento de viajar a la Guayana.16
El 22 de diciembre el condenado vuelve a embarcar y esta vez se dirige a su
destino final. Dieciséis días después Jacob llega a la Guayana y tras pasar por el centro
administrativo de la colonia penitenciaria es trasladado a la isla de Saint Joseph, el lugar
en el que la disciplina es más feroz;17 allí empieza a purgar la condena.
La llegada a la costa noreste de Sudamérica marca el término del viaje y, así lo
Los dos barcos que, cada año, trasladan a los presos a Cayena desde Francia (uno en julio
y otro en diciembre) suelen cargar unos 900 prisioneros; la contabilidad oficial de la
colonia penitenciaria informa que 700 presidiarios mueren anualmente, y este elevado
número no registra a aquellos que hallan la muerte en las selvas o las aguas llenas de
tiburones al tratar de fugarse:19 la esperanza de sobrevivir los 20 años de trabajo forzado
es prácticamente nula.
Todos los recursos movilizados en trasladar a los prisioneros tan lejos del lugar
en el que cometieron los crímenes por los que les condenaron, no se aprestan para
conseguir nada distinto del sufrimiento y la muerte del prisionero. A Jacob le imponen
una tarea de dudosa productividad: sacar piedras de una cantera para arreglar un muelle
que por culpa del clima del lugar nunca deja de necesitar reparaciones. Después se le
obliga a trabajar de albañil, a reparar las techumbres que una y otra vez destrozan las
tempestades o a tratar de impedir que la jungla recupere lo que los humanos le quieren
arrebatar: reparar lo dañado, y sólo lo urgente, es la actividad principal de una colonia
a
la colonización, no es más que una autarquía abandonada por la metrópoli. 20
perverso del trabajo de los presidiarios. El proyecto de abrir una vía de comunicación
entre Cayena y Saint-Laurent atravesando y desbrozando 262 kilómetros de jungla para
poder construir el camino, no se completa a pesar de que miles de prisioneros trabajan
en las obras: después de 60 años sólo 24 kilómetros de camino se han construido; una
15
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 128.
16
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, pp. 263-264.
17
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 271.
18
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 267.
19
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 267.
20
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 273.
media de 70 prisioneros mueren todos y cada uno de los meses de esos años21 en unas
obras que nunca terminan, porque nunca avanzan; los prisioneros no pueden trabajar.
Caídos por no comer lo suficiente y no tener ya fuerzas para alzar sus picos. Porque
las fiebres sin quinina, los abaten como moscas. Porque ni siquiera tienen zapatos:
<<Cuando los tenían, los vendían>>, dice la Administración. Tienen los pies descalzos
cubiertos de llagas abiertas, muñones roídos por chancros de toda clase.22
semanas que pasa en una de estas celdas es en julio de 1906. Un compañero de destierro
le pide que le ayude a redactar una queja contra un guardia especialmente cruel con los
prisioneros; el anarquista lo hace de manera elocuente y apelando a la letra del
reglamento; es castigado con 8 días de reclusión.
Jacob es encerrado en una celda de uno cuarenta de largo por dos metros de alto,
en la que sólo puede permanecer de cuclillas o de pie. 12 horas al día unas anillas sujetan
sus pies a una barra de hierro, por lo que no se puede mover de posición; las otras 12
21
Esta estimación arroja una cifra de más de 50000 muertos en el periodo que va de 1863 a 1923,
año en el que Albert Londres visita el punto más lejano construido de la ruta, al que califica como
bosques de la Guayana Francesa, adonde se arroja a hombres que nunca recobrarán fuerzas.
horas las pasa cortando mangos de escoba.27 El único alimento es el pan y un poco de
agua.28
El sufrimiento es la constante para los presos que se encuentran en la Guayana.
Los prisioneros que viven (esperan morir) esta sombría y penosa existencia se
obsesionan con la fuga: el anarquista no es una excepción; observa todo lo que tiene a su
alrededor y se pregunta cómo lograr escapar de las islas. Jacob trata de evadirse 17 veces
en los años que pasa en la Guayana: estos intentos le cuestan siete procesos ante el
Tribunal Militar Superior de Saint-laurente-du-Maroni y nueve años de encierro solitario
en un calabazo.29
El primer intento de fuga se empieza a organizar en 1907 con una carta que el
presidiario francés le envía a su madre. El anarquista envía y recibe dos tipos de cartas.
Las primeras, las oficiales, son revisadas de manera exhaustiva por los funcionarios, por
palabras. Las segundas, mucho más escasas, llegan gracias a la intermediación de algún
compañero menos vigilado que el famoso ladrón: estas cartas son mucho más específicas
y se envían codificadas, por si ojos indeseables se posan sobre ellas.30
El plan que se relata en la carta consiste en intentar ser reclasificado como un
27
La intención de esta actividad, o de alguna otra tan inútil como esta, era provocar en el preso un
, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 278.
28
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 278.
29
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 281.
30
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 282.
31
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 283.
32
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 284.
33
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, pp. 292-293.
aunque es condenado a cinco años de reclusión por, dice el juez, haberse tomado la
justicia por
34
El destino de Jacob se presenta muy poco halagüeño.
será la muerte s 35
La nueva carta en la que Alexandre
se lamenta con su madre está escrita casi toda en código y es enviada en secreto mediante
intermediarios, pero otra misiva, también codificada, es descubierta por los guardias en
la ropa del preso: las latas que envía Malato son la causa del hallazgo. Las conservas han
Las armas escondidas hacen que Faulx, el supuesto destinatario, sea encerrado por
treinta días en el calabozo, pero la administración desconfía: ¿puede el viejo prisionero
empuñar un revolver, o es otro el receptor? Jacob es el principal sospechoso por lo que
sufre un registro exhaustivo: la carta que esconde es descubierta y descifrada fácilmente
por los funcionarios encargados de revisar la correspondencia de los presos; a pesar de
esto las sospechas de su complicidad en el envío de las armas no son confirmadas.36
La rutina sigue en la Guayana. El preso sobrevive a los años de reclusión y es
liberado del calabozo en mayo de 1912. La movilización general decretada en Francia en
1914 da alguna esperanza a los prisioneros; tal vez los envíen al frente y si sobreviven
conmuten sus penas: Jacob no es trasladado. En octubre de 1917 se arroja al mar con la
intención de fugarse, pero las olas lo devuelven a la prisión. En abril de 1918 es condenado
a dos años de celda; en 1919 es liberado del calabozo. En 1920 redacta una solicitud de
promoción a prisionero de primera clase la cual hace enfurecer al director del penal, que
- Jacob, esta broma ya ha llegado demasiado lejos. ¡Usted corta barrotes, fabrica
balsas, absorbe veneno, mantienen en el campamento una atmosfera de rebelión,
consigue burlar al Tribunal Especial, y se imagina que va a pasar a primera clase!
-
curso a mi petición puedo apelar al Ministerio.37
A pesar del informe desfavorable del director del penal la petición es aceptada y
Jacob es reclasificado y empleado como criado. En sus escasos momentos de ocio
acumula notas para escribir un libro sobre criminología: enemigo de toda sistematización
se conforma con poner, uno detrás de otro, los miles de ejemplos que conoce. Colabora
con el doctor Louis Rousseau, médico militar que llega a la Guayana el 1 de septiembre
de 1920 y que, para sorpresa de todos, trata a los presos como seres humanos. El 26 de
septiembre de 1925, tras dos años de peticiones de clemencia de los más variados
personajes y organismos, es trasladado a la prisión de Rennes, en Francia. Es
definitivamente liberado el 30 de diciembre de 1928, 25 años después de haber sido
detenido: el líder de los Trabajadores de la noche sobrevive a la Guayana.
La deportación, la malnutrición y el maltrato que sufre Jacob en la colonia
penitenciaria no logran acabar con él: el mecanismo de muerte fracasa en eliminar
físicamente al ladrón pero si logra que los sueños del revolucionario que roba para
cambiar el mundo se transformen en los recelos hacia sus semejantes del prisionero
34
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 294.
35
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 299.
36
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, p. 299.
37
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, pp. 322-323.
El horror y la miseria con los que el prisionero convive durante todos los años de
deportación alteran al preso. La colonia penitenciaria que martiriza y quiere acabar con
los cuerpos de los forzados con castigos y aislamiento también quebranta las
convicciones: la desconfianza hacia unos compañeros siempre sospechosos de espiar
para los carceleros, los proyectos que las circunstancias del encierro convierten en
quimeras, las fugas frustradas, las cartas interceptadas que ponen los miedos y los
secretos del preso frente a los ojos de captores y torturadores y se usan como excusa
para castigar a los que firman las misivas acaban con el ánimo de los prisioneros.
La eficacia con la que los funcionarios espían y decodifican las cartas de los
pris
col
que no quiere nada más que la desaparición. La vida de los encarcelados en la Guayana
poco tiene que ver con lo que Bentham propone para los presos encerrados en el
panóptico y recuerda a la obsesión por el secreto que padecen los prisioneros que son
espiados en la Oreja de Dionisio: 114 años después de la propuesta de Bentham, casi 2500
años después de la muerte de Dionisio, los carceleros continúan espiando las almas de
los prisioneros.
Los revolucionarios rusos que en distintos momentos del siglo XIX son
encarcelados por luchar contra el régimen zarista también saben que el espionaje y la
delación no han abandonado las cárceles: es por eso que perfeccionan el arte de burlar a
impedir que los secretos de los subversivos encerrados por los zares queden al
descubierto.
El Zar Pedro I ordena, en 1703, construir una ciudadela pensada para defender la,
en ese entonces, naciente ciudad de San Petersburgo: la fortaleza de San Pedro y San
38
THOMAS, Jacob recuerdos de un rebelde, 314.
directamente sobre aquellas, sino en lienzo, tras el cual descubrí una alambrera y más
allá una capa de fieltro; sólo después de ésta fue cuando pude llegar a la piedra del
41
La celda se cierra con una gruesa puerta de roble en la que hay un pequeño agujero
con cristal y tapa exterior, el judas, a través del cual el centinela puede observar al preso
y el prisionero puede ver, solamente, el ojo que a veces le espía:42 el anarquista está solo,
aislado, rodeado por el silencio.
Señor haga el favor de no cantar- dijo una voz apagada que se oía a través de la
ventanilla.
Quiero cantar.
Está prohibido.43
Los guardias que le vigilan se niegan a responder sus preguntas. Los únicos
sonidos que rompen la agobiante tranquilidad de su celda son el crujido de las botas de
los guardias, las campanas de la catedral de la fortaleza y las notas del Dios salve al Zar
que se escuchaban a medianoche. El revolucionario trata de romper el silencio de su
aislamiento golpeando el suelo y los muros que los carceleros han enmudecido con el
fieltro; durante 15 meses nadie responde: las 36 casamatas de la fortaleza sólo albergan
39
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
40
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
41
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
42
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
43
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
a 6 prisioneros, aislados y alejados entre sí, que nada saben los otros compañeros
presos.44
Un día del verano del año 1875 Kropotkin escucha unos sonidos que provienen de
la celda contigua: pasos y fragmentos de una conversación entre una mujer y un guardia.
Las celdas de la fortaleza se llenan por las detenciones masivas que ocurren tras lo que
45
y sonidos distintos a los habituales se escuchan
en la fortaleza de Pedro y Pablo. A partir de aquel día las paredes de la prisión se animan.
Los pies golpean los suelos que, muy probablemente, ya no tienen el forro de fieltro que
amortigua los ruidos: los sonidos empiezan a propagarse.
seguida de tres y más y una larga sucesión de treinta y tres. Lo cual se repetía en el
mismo orden, hasta que el vecino llegaba a comprender que esto quería decir: ¿kto
vy? (¿Quién sois?).46
El método que usan los presos para comunicarse se basa en el alfabeto abreviado
inventado por Bestuyev, uno de los miembros del ejército imperial que el 26 de diciembre
de 1825 se subleva contra el recién elegido zar Nicolás I. El procedimiento que siguen los
de sustitución de Bestuyev pretende impedir que las conversaciones y los secretos de los
presos que buscan el contacto con sus camaradas golpeando suelos y paredes sean
quebrantados.
El cifrado de Bestuyev es la versión de los revolucionarios rusos del cifrado de
sustitución ideado por el historiador griego Polibio, que consiste en un sistema de
reemplazo fundamentado en un cuadrado de 5 por 5 que se rellena con las 26 letras del
alfabeto salvo una.48
1 2 3 4 5
1 A B C D E
2 F G H I J
3 K L M N O
4 P Q R S T
5 U V X Y Z
La tabla resultante permite sustituir cada letra del alfabeto por una pareja de
números por lo que la frase el zar ha muerto, se convierte en la siguiente secuencia
44
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
45
Con el nombre de verano delirante se hace referencia al cambio de actitud y táctica del
movimiento revolucionario ruso en el verano de 1874. Las persecuciones y las infiltraciones en
el movimiento socialista generaron un movimiento popular en el que la propaganda obrera la
hacían cientos de jóvenes, en cualquier lado y sin tomar precauciones. Más de 1500 fueron
detenidos por la policía. KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
46
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
47
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
48
LEHNING,
s/p). En el caso del castellano también se elimina la letra con virgulilla, es decir, la Ñ. Para este
ejemplo se ha eliminado la W.
recurrente. El procedimiento más simple para lograr este desorden es usar una frase
larga y relativamente sencilla de memorizar y colocar las letras en el cuadrado en el orden
en el que aparecen en la frase, eliminando las letras duplicadas y añadiendo cualquier
presos
aparentemente vencidos por el sistema que quieren destruir la necesidad de la disciplina
49
1 2 3 4 5
1 D E S V R
2 C I N G T
3 O X A Y L
4 J P F U Z
5 B H K M Q
1 3 4 3 1 5 3 5 4 1 1 2 3
2 5 5 3 5 2 3 4 4 2 5 5 1
2 2 5 2 3 2 2 5 2 3 2 2 5
3 2 2 2 5 3 2 2 2 5 3 2 2
3 5 9 5 5 7 5 1 6 4 3 4 8
5 7 7 5 0 5 5 06 6 7 8 7 3
49
LEHNING, La biblia de los códigos secretos, s/p.
50
LEHNING, La biblia de los códigos secretos, s/p.
las organizaciones que luchan contra el régimen ruso51 al encerrar a los presos en celdas
separadas se combate con los golpes que se propinan de manera rítmica: la soledad y el
aislamiento pueden fomentar la duda, la traición o la locura, por lo que transmitir, por
ejemplo, la noticia del asesinato, el 13 de marzo del año 1881 por miembros del grupo
nihilista Naródnaya Volya (Voluntad del Pueblo), del zar Alejandro II en San Petersburgo
es importante para los presos. Las paredes repiten el mensaje una y otra vez: el zar ha
muerto52 y el anuncio, probablemente, eleva la moral, el sentimiento de pertenencia y la
fe en el triunfo de la revolución de los anarquistas presos. El código rompe el silencio y
las conversaciones que se dan de un lado a otro de la pared, las conspiraciones que se
imaginan, los ataques que se planean, las fugas que se preparan, llenan el tiempo de los
presos: los complots que se creen imposibles en la cárcel que mira son factibles en la
cárcel que tal vez escucha, pero no entiende los ruidos que resuenan en sus paredes.
Los golpes que escucha le permiten a Kropotkin descubrir que en la celda contigua
a la suya se encuentra encerrado su amigo Serdiukov, y que debajo de él se halla un
campesino que forma parte de las conversaciones hasta que enloquece por culpa del
encierro.53 Las charlas se interrumpen cuando el príncipe es trasladado a la cárcel
inmediata a la Audiencia de San Petersburgo, edificio construido según el modelo modular
de las prisiones celulares belgas y francesas, cuando la Sección Tercera de la policía, la
encargada de la protección del Zar y la represión de la subversión (la Ojrana), termina el
sumario provisional del caso del preso anarquista y pasa la causa a la autoridad judicial:
el prisionero, aislado, no tiene muy claro si esto pasa en marzo o si pasa en abril del año
1876.
En esa prisión el cautivo tiene más posibilidades de comunicarse con familiares y
amigos gracias a que se le permite escribir cartas y recibir visitas, y sigue manteniendo
contacto con otros compañeros encarcelados con el sistema de los golpes: el príncipe
ácrata escribe que, gracias a ese método, cuenta la historia de la comuna de París a un
joven que está encerrado en la celda contigua a la suya, en tan sólo una semana.54 A pesar
de esto las condiciones del encierro empeoran.
La cantidad de horas que el preso pasa encerrado en la pequeña celda (cuatro
pasos de pared a pared) hacen que la salud del prisionero empeore hasta tal punto que es
trasladado al Hospital Militar de San Petersburgo. En el hospital es atendido en una
habitación espaciosa con una gran ventana que el ruso deja abierta todo el día, en la que
empieza a recuperarse con rapidez; poco tiempo después de su llegada empieza a ingerir
alimentos sólidos y recupera la suficiente fuerza como para caminar por el patio de la
prisión: el preso consigue que los médicos autoricen paseos diarios por el patio de cuatro
a cinco de la tarde.55
El patio, una explanada de 300 pasos de largo por 200 pasos de ancho cubierta de
hierba y con una gran puerta de entrada abierta, pero siempre vigilada por dos centinelas,
51
que permite ver la calle y a los paseantes que caminan, se convierte en el nuevo espacio
por el que se mueve el ruso.
En su primer paseo el revolucionario se da cuenta de que en la parte opuesta a la
puerta principal trabajan una docena de operarios que apilan junto al muro, la madera que
descargan de unos carros que atraviesan una puerta que permanece abierta para facilitar
el tránsito del material y los trabajadores; Kropotkin no puede apartar los ojos de esa
puerta: el revolucionario ve de manera muy clara que ese portón es el que debe atravesar
para recuperar la libertad y así se lo hace saber a sus camaradas en el exterior con una
carta.
La fuga empieza a gestarse en el momento en el que la carta del ruso llega a su
destino; cuando los amigos y camaradas de Kropotkin son informados de la existencia de
la puerta el complot empieza. La huida se organiza para el 29 de junio, día de San Pedro
y San Pablo, para que así la fuga sea una burla contra los guardias de la fortificación, un
extraño homenaje a los presos encerrados en la fortaleza en la que Kropotkin ha estado
preso, aunque distintas circunstancias obligan a retrasar la evasión hasta el día siguiente:
el 30 de junio durante el habitual paseo de las cuatro el anarquista atraviesa la puerta que
utilizan los trabajadores y echa a correr hasta llegar al carruaje que sus amigos han
preparado para él. El vehículo lleva al ruso hasta el lugar acordado y allí Kropotkin se
cambia de ropa y hace desaparecer uno de sus rasgos distintivos (su larga y frondosa
barba) para así dificultar su identificación: el príncipe ha escapado.56
La conspiración que organizan los anarquistas para liberar a Kropotkin es un éxito.
La carta que envía el geógrafo encarcelado es el detonante de una operación de rescate
en la que el secreto es fundamental: que los compañeros del exterior conozcan la
existencia de una puerta normalmente abierta y poco vigilada en los muros del patio por
el que da sus paseos vespertinos, es la clave del éxito de la fuga. Los camaradas de
Bakunin organizan la estrategia de la evasión (los tiempos, las personas y vehículos
En cuanto entré en mi celda escribí a mis amigos para comunicarles tan buena nueva.
Me siento casi imposibilitado de usar la clave escribí con mano trémula trazando
signos poco menos que ininteligibles en vez de cifras.57
56
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
57
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
58
KROPOTKIN, Memorias de un revolucionario, s/p.
carta: también revela la dificultad de ocultar algún secreto entre las letras y las palabras
estampadas en un papel: la conciencia de este problema viene de lejos y de muy atrás.
Alrededor de dos mil años antes de la vista de Caravaggio a las Latomias el hijo
del espía que escucha atento los secretos de los prisioneros que están encerrados en la
Oreja recibe una carta. Durante los primeros años del gobierno de Dionisio II, el joven, el
nuevo tirano es asesorado por su tío Dion, admirador y alumno de Platón. El ateniense,
que visita Sicilia por primera vez cuando el cuñado de Dion, el padre de Dionisio, gobierna,
es persuadido por su discípulo para volver a visitar la isla para aprovechar la posición e
influencia del filósofo siciliano sobre el joven gobernante y realizar las reformas
necesarias para convertir Siracusa en la polis ideal, gobernada por el filósofo-rey; el
proyecto es un rotundo fracaso. Meses después de la llegada de Platón a Sicilia Dion es
desterrado y el joven Dionisio deja muy claro que no tiene ninguna intención de someterse
a la disciplina filosófica que el ateniense propone. Platón decide abandonar la isla pero
continúa atento a los asuntos de Siracusa y en comunicación con Dionisio. 60
En una de las cartas que el ateniense escribe al tirano el filósofo expresa una
preocupación recurrente en relación a la enseñanza y la transmisión de la filosofía: que
las palabras de los filósofos sean malinterpretadas porque alguien cometa el error de
59
SERGE, Lo que todo revolucionario debe saber sobre la represión, p.89.
60
ZARAGOZA y GÓMEZ CARDO, Introducción a las Cartas en PLATÓN, Diálogos, pp. 433-434.
compartir sus reflexiones con personas incapaces de entender y valorar lo admirable del
pensamiento filosófico:61 la advertencia resuena como un reproche dirigido al tirano.
Platón está convencido de que la filosofía sólo puede ser correctamente entendida
tras muchos años de relación con la misma, escucha atenta y constante reflexión: por eso
Platón afirma, acto seguido y para extrañeza de todos sus lectores, que esta es la razón
por la que él no ha escrito nunca sobre los temas de la filosofía, y que las obras que a él
se le atribuyen son de Sócrates, de cuando el maestro del filósofo era joven. Tras esta
chocante afirmación el filósofo se despide de Dionisio, le pide que tome en serio las
advertencias sobre la escritura y le solicita que cuando haya terminado de leer y releer la
carta que tiene en sus manos la queme:64 destruir la carta es la manera más segura de
impedir la divulgación de las reflexiones que Platón escribe para Dionisio.
La advertencia y la petición dejan claro que para el ateniense la filosofía debe ser
un saber secreto, para unos pocos. El filósofo debe tener cuidado y debe preocuparse no
sólo por las capacidades de los posibles interlocutores, también por los métodos y
técnicas que usa para divulgar su saber entre aquellos que considera dignos: la escritura
es arriesgada y la carta en la que Platón advierte de este peligro es la prueba.
El hecho de que el ateniense no cumpla con su propia advertencia y escriba, y el
hecho de que Dionisio no se tome muy en serio los consejos de Platón y no obedezca la
orden de prender fuego a la carta en la que es advertido de los peligros de la escritura,
así lo ha leído en la carta, que no debería estar leyendo aquello que está leyendo. El
nos enfrenta la existencia de la carta que debía haber sido quemada,
es el indicio que muestra el vigor del peligro del cual Platón advierte a Dionisio, la señal
de la fuerza con la que el texto quiere que su contenido se divulgue.
La carta que escribe Platón es incapaz de guardar sus secretos. A pesar de que la
misiva del ateniense está escrita, como todas las cartas, para alguien que se conoce, con
nombre, rostro y pasado, para un interlocutor del cual se saben los intereses, capacidades
y dificultades, otros ojos leen las reflexiones que Platón quiere compartir exclusivamente
61
PLATÓN, Diálogos, Carta II, 314a.
62
PLATÓN, Diálogos, Carta II, 314a.
63
PLATÓN, Diálogos, Carta II, 314c.
64
PLATÓN, Diálogos, Carta II, 314c.
65
SIMMEL, El secreto y las sociedades secretas, p.88.
con el tirano de Siracusa: la carta, a pesar de ser tan concreta e individualizada como el
interlocutor al que va dirigida, tal vez imitación de una conversación con la que se cree
hablar con el destinatario, no escapa a la incapacidad del escrito de mantener en secreto
las palabras que sólo uno, o unos pocos, están autorizados a leer.
para descifrar las claves en las que se usan combinaciones aritméticas o geométricas y
cifrados de sustitución. Las cartas escritas con claves que se construyen al marcar
ciertas páginas de ciertos libros tampoco son muy seguras por usarse, muy
frecuentemente, obras de escritores reconocidos (libros comunes, conocidos también por
los policías), modelos divulgados en los manuales revolucionarios (que son
frecuentemente confiscados por los agentes) o claves particulares de la organización que
son denunciadas por espías infiltrados o agentes provocadores.
66
SIMMEL, El secreto y las sociedades secretas, p. 88.
67
SERGE, Lo que todo revolucionario debe saber sobre la represión, p. 46.
Los agentes que buscan información oculta en las cartas interceptadas consultan
constantemente los ficheros que se almacenan en las distintas sedes policiales y que
contienen información de lo más variada: los nombres de las ciudades del imperio, los
nombres de las calles de los pueblos, los nombres de las escuelas y fábricas que hay en
cada pueblo ciudad o el pseudónimo de cada revolucionario detenido. La información
almacenada en esas gavetas permite que una
Morenito 68
junto con una referencia
69
delate la ubicación exacta del revolucionario oculto tras
ese seudónimo al poder encontrar la ciudad en la que la facultad de medicina se encuentra
en la calle mayor.
Las cartas en las que se descubren mensajes ocultos escritos con tinta simpática,
supuestamente invisible para todos los que no son el destinatario final de la misiva, son
copiadas por los escribanos contratados por la policía y esas copias son las que llegaban
al receptor; las originales son analizadas por los agentes.
Los sistemas ideados para alejar las palabras escritas en el papel de miradas
indiscretas son sistemáticamente violados: los sobres que contienen las cartas son
despegados usando vapor; cuchillas de afeitar calentadas al fuego permiten desprender
los sellos lacrados para luego reponerlos de manera sencilla; un aparato fabricado con
una varilla metálica se utiliza para sacar las cartas por las aberturas que normalmente
suelen quedar en las esquinas de unos sobres que no suelen pegarse con el cuidado
necesario para que no quede un solo hueco.
Los agentes de la Ojrana usan todos los conocimientos, la información y las
técnicas disponibles para examinar los documentos que llegaban a sus manos y descifrar
cualquier mensaje que pudiese estar oculto en las páginas que les entregan. Los
miembros del gabinete negro de la Sección tercera sistematizan la voluntad de quebrantar
todos los secretos que las organizaciones revolucionarias que persiguen quieren
mantener alejado de los ojos de la policía zarista, y se dan a la tarea de sortear los
obstáculos con lo que los revolucionarios pretenden alejar a los curiosos y a los
indiscretos de los secretos que resguardan sus mensajes.
La Ojrana quiere leerlo todo y para hacerlo se aprovecha de la paradoja que es un
70
La cerradura que permanece abierta, el código oculto que necesariamente debe ser
descifrable (aunque se pretenda que el desciframiento sólo sea posible por unos pocos)
68
SERGE, Lo que todo revolucionario debe saber sobre la represión, p. 49.
69
SERGE, Lo que todo revolucionario debe saber sobre la represión, p. 49.
70
HERNÁNDEZ MERCADO, Filosofía de la escritura, p. 178.
6.
miembros no tengan una conciencia clara y decidida de que constituyen una sociedad;
frente a otros grupos, el pathos del secreto confiere al vínculo formal una importancia
72
implica, como causa y efecto, que todos los no expresamente admitidos son
73
los mensajes que se escamotean de los ojos de todos
aquellos que están fuera son un recordatorio de la diferencia, la expresión concreta de
las técnicas que se usan para mantener alejados a los oídos y ojos indiscretos, el secreto
que al ocultarse crea una comunidad diferente.
71
SIMMEL, El secreto y las sociedades secretas, p. 58.
72
SIMMEL, El secreto y las sociedades secretas, p. 103.
73
SIMMEL, El secreto y las sociedades secretas, p. 111.
Al militante se le recuerda que la relación con sus camaradas tiene que tener
en las plazas ni en las calles, como no sea entre los del Núcleo, y en voz baja, y que no
haya gente en cuarenta pasos lo menos. Tampoco se hablará en el campo por detrás de
76
74
La organización clandestina de la cual se toman los estatutos es una asociación anarquista
española del siglo XIX. En relación a la polémica historiográfica sobre si realmente existió una
o Negra. La sociedad de
excusa para reprimir a los jornaleros que simpatizaban con la Federación Regional Española de
la Asociación Internacional de Trabajadores, se recomienda consultar los siguientes textos. Cf:
Lida, La mano negra; Romero García, La Mano Negra.
75
LIDA, La mano negra, p. 77.
76
LIDA, La mano negra, pp. 84-85.
77
SIMMEL, El secreto y las sociedades secretas, p. 114.
En una carta que escribe en junio de 1870 Bakunin reprocha al líder de la sociedad
secreta nihilista Naródnaya Rasprava (Venganza del Pueblo) la desconfianza que muestra
hacia todos los camaradas de la organización que dirige, suspicacia que, en palabras del
veterano agitador, asesina la pasión revolucionaria de todos los que han abrazado el
camino de la lucha:78 pelear por la libertad renunciando a la libertad es, para Bakunin, un
camino contradictorio y descorazonador. El frío y calculador nihilista es ejemplo, afirma
su decepcionado mentor, del fanatismo y obsesión por el control de los jesuitas.79
intención de ocultar adquiere una intensidad muy distinta cuando frente a ella
actúa la intención de descubrir. Surge entonces esa disimulación y enmascaramiento,
esa defensa casi agresiva frente al tercero, que es lo que llamamos el secreto, strictu
sens 82
78
BAKUNIN y NECHAYEV, El catecismo revolucionario, p. 223.
79
BAKUNIN y NECHAYEV, El catecismo revolucionario, p. 258.
80
BAKUNIN y NECHAYEV, El catecismo revolucionario, p. 224.
81
BAKUNIN y NECHAYEV, El catecismo revolucionario, p. 245.
82
SIMMEL, El secreto y las sociedades secretas, p. 57.
Referências
SZENDY, Peter. Bajo escucha. estética del espionaje. Trad. Pedro Hugo
Alejandrez Muñoz. Ciudad de México: Canta Mares, 2018.
VAN DAAL, Julius. Bello como una prisión en llamas: breve relación de los
Gordon Riots. Trad. Federico Corriente. Logroño: Pepitas de calabaza ed.,
2012.
SOBRE EL AUTOR
Resumen
El presente trabajo propone considerar a la producción filosófico-política de Michel Foucault
como directamente inscrita dentro del campo de las resistencias y las luchas sociales (psico-
sexo políticas) de carácter ácrata. Procederemos en cuatro tiempos. Comenzaremos
retomando la crítica de Foucault contra el deseo de identificación en tanto que dispositivo
libidinal de captura política (fatal herencia hegeliana). Luego estudiaremos cómo Foucault (en
su conexión activa con Deleuze, Guattari y algunos movimientos de sublevación) concebía la
teoría-práctica revolucionaria como una construcción colectiva y desde abajo de «machines
critiques», capaces de cuestionar permanentemente toda posición de representación,
dirigismo, reformismo, tecnocracia y vanguardismo (machines con las cuales poder
sublevarse). A continuación, abordaremos la concepción foucaultiana del devenir-
revolucionario (conversion à la révolution) y del devenir-sin-rostro (perdre son identité) en
tanto que producción de subjetivación sin-sujeto. Finalmente, abordaremos el problema
concomitante de la creación colectiva de una nueva gubernamentalidad auto-emancipatoria
directa, autónoma, colectiva y monoritaria (gouvernementalité socialiste autonome). Así,
producir colectivamente la revolución permanente implicará, simultáneamente, un arte de vivir
colectivamente (art de vivre) + un arte de sí mismo sobre sí mismo (art de soi-même).
Palabras clave
Psicopolítica; identidad; Estado; gubernamentalidad ácrata; subjetivación revolucionaria.
MICHEL FOUCAULT:
PSYCHOPOLITICS & ANARCHY
Abstract
The present work proposes to consider the philosophical-political production of Michel
Foucault as directly inscribed within the field of resistance and social struggles (psycho-sex
politics) of an acratic nature. We will proceed in four times. We will beg
critique of the desire for identification as a libidinal device of political capture (fatal Hegelian
inheritance). Then we will study how Foucault (in his active connection with Deleuze, Guattari,
and some uprising movements) conceived the revolutionary theory-practice as a collective
construction from below of «machines critiques», capable of permanently questioning any
position of representation, dirigisme, reformism, technocracy and avant-garde (machines with
which to be able to revolt). Next, we will address the Foucaultian conception of becoming-
revolutionary (conversion à la révolution) and becoming-without-a-face (perdre son identité)
as production of subjectivation without-subject. Finally, we will address the concomitant
Submetido em: 16/05/2023 problem of the collective creation of a new direct, autonomous, collective and monoritarian
Aceito em: 06/07/2023 self-emancipatory governmentality (gouvernementalité socialiste autonome). Thus, collectively
producing the permanent revolution will imply, simultaneously, an art of living collectively (art
Como citar: CHICOLINO, Martin. de vivre) + an art of oneself on oneself (art de soi-même).
narchiste de gauche»
Michel Foucault: psicopolítica &
anarquía. (des)troços: revista de Keywords
pensamento radical, Belo Psychopolitics; identity; State; anarchist governmentality; revolutionary subjectivation.
Horizonte, v. 4, n. 1, p. e46208,
jan./jun. 2023.
Creo haber sido localizado una tras otra (y a veces simultáneamente) en la mayoría
Comenzamos con ellas porque consideramos que nos resultan operativas como
punto de partida para nuestra hipótesis de trabajo. En efecto, dentro del campo de la
filosofía y de las llamadas ciencias sociales vemos irrumpir una y otra vez los siguientes
interrogantes, reproducidos por izquierda y derecha: ¿Era Foucault un intelectual marxista
y socialista? ¿Era un progresista? ¿Era un social-demócrata? ¿Era un liberal? ¿Era un
libertario? ¿Era un anarco-capitalista? Se trata de preguntas que intentan extraer una
determinada veridicción
Ahora bien, intentando producir una línea problemática divergente, en el presente
trabajo partiremos, por el contrario, de la siguiente sospecha; a saber: ¿no se podría decir
que este tipo de interrogaciones identitarias (demandas de veridicción) constituyen más
bien una trampa, un aparato semiótico (y libidinal) de captura, un sistema de juicio
trascendente, y un tipo de discurso teórico que forma parte de los enunciados de poder
(habida cuenta de la distinción foucaultiana entre el nivel de los discursos de poder y el
nivel de los enunciados de poder, entre el nivel de los estratos y de las estrategias)?
En otras palabras, plantearemos la pregunta psico-política acerca de si la
actividad de intervención teórico-práctica de Michel Foucault puede inscribirse dentro del
campo revolucionario del acratismo; y, en caso afirmativo, si ello se debe a la explicitación
de una posición identificante específica (de tipo ideológico-partidaria), o si por el contrario
se debe a un modo diferencial de ejercer las potencias del pensamiento, de la acción, y
del deseo (en un sentido auto-emancipatorio radical); habida cuenta de que, como decía
Gilles Deleuze, «pensar y desear son la misma cosa», dado que «el deseo es pensamiento,
es posición de deseo en el pensamiento», y que por lo tanto «el deseo es constitutivo de
su propio campo de inmanencia, es constitutivo de las multiplicidades que lo pueblan».2
En orden a elucidar esta relación inmanente entre la obra de Michel Foucault y el
espíritu de revuelta ácrata colectiva, nos propondremos sondear, entonces, en qué
consiste ese movimiento (teórico y práctico) de devenir-ácrata o de devenir-
revolucionario permanente, que uniendo a Foucault con Deleuze y Guattari, y con
múltiples movimientos sociales minoritarios de liberación i
«art de vivre» (arte
de vivir) y un «art de soi-même» (arte de sí mismo sobre sí mismo), que pone en juego
tanto un modus vivendi et agendi (modo de vivir y de actuar) como un êthos, es decir, que
activa una manera práctico-política de proceder y de construir un campo de inmanencia,
de construir máquinas de lucha y agenciamientos colectivos (independientes con respecto
1
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 593.
2
DELEUZE, Derrames I, p. 183; 187.
ño 1968).4
Corría el año 1967 cuando Paolo Caruso entrevistó en Italia a Michel Foucault: la
entrevista llevó por título Qui êtes-vous, professeur Foucault? (¿Qué es usted, profesor
Foucault?). En dicha entrevista nos topamos ya con esa actitud típica de Foucault actitud
o êthos que mantendrá toda su vida que consiste en eludir, conjurar y fugarse a todo
intento de auto-definición, clasificación, encasillamiento, en suma, de auto-identificación.
Pero no se trata jamás de un capricho, de una pose, o de un esteticismo; antes bien, para
Foucault se trata de un principio de carácter teórico-práctico y psico-sexo político que
3
Resuena aquí la crítica de Foucault no sólo al marxismo dogmático de los partidos de izquierda
franceses y soviéticos, sino además al llamado freudo-marxismo de Reich y Marcuse, a quienes
tilda de «para-marxistes» (Cf. FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 757), y también al de los llamados
«hyper-marxistes» (Cf. Dits et Écrits IV, p. 69-70; 80). Asimismo, en su diálogo junto con Deleuze
decía: «El análisis tradicional de los aparatos de Estado no agotan sin duda el campo del ejercicio
toda una gama de nociones que exigen ser analizadas» (FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 312-313).
4
DELEUZE, Différence et Répétition, p. 269.
5
BERGSON, La pensée et le mouvant, p. 72.
6
FOUCAULT, Dits et Écrits III, p. 581: «Un acontecimiento [événement] no es un segmento de
tiempo, es, en el fondo, el punto de intersección entre [ ] dos duraciones,
dos velocidades, dos evoluciones, dos líneas de la historia».
7
FOUCAULT, Dits et Écrits I, p. 617-619.
En los años posteriores a la entrevista con Paolo Caruso en 1969 y luego en 1976 y
1978 Foucault retomará su crítica contra la forma dialéctica del pensamiento y la acción,
no como un ad hominem contra Hegel sino contra una manera de hacer filosofía y, por
tanto, contra una manera de intervenir políticamente en la red ya existente de relaciones
de poder (red de alianzas); conviene citar in extenso algunos pasajes:
[réduire le différent à rien], a cero, al vacío, a la nada [au néant]). Es pues rechazar a
la vez las filosofías de la identidad y las de la contradicción [les philosophies de
], las metafísicas y las dialécticas, Aristóteles
con Hegel. [...] Es rechazar de una vez a los filósofos de la evidencia y de la conciencia,
Husserl no menos que Descartes. Es recusar finalmente la gran figura de lo Mismo
[Même] que, de Platón a Heidegger, no ha dejado de anillar [boucler] en su círculo a
la metafísica occidental. [...] Es hacerse libre para pensar y amar [penser et aimer]
diferencias insumisas y repeticiones sin origen que sacuden nuestro viejo volcán
apagado [différences insoumises et répétitions sans origine qui secouent notre vieux
volcan éteint], [...] esas diferencias que somos, esas diferencias que hacemos [ces
différences que nous sommes, ces différences que nous faisons].12
8
FOUCAULT, Dits et Écrits I, p. 611-612.
9
FOUCAULT, Dits et Écrits I, p. 613.
10
En 1981 Foucault todavía decía: «Uno se pierde en su vida (en lo que escribe, en la película que
Se trata de una posición política que Foucault comparte, también, con Gilles
Deleuze: conjurar simultáneamente tanto la identidad (en tanto que constitutiva y fundante
del sujeto y de la subjetivación) como la totalidad (en tanto que totalidad orgánica
constitutiva de lo social y la sociabilidad), puesto que ambas habilitan y conducen a los
individuos y a los grupos a relaciones y a prácticas
(jerarquía y dirigismo), y, consecuentemente, a toda una dinámica psico-sexo política y
socio-política de suplantamiento y de juegos de reconocimiento mutuo
(irremediablemente patriarcales),15 según una dialéctica movida por toda clase de
13
FOUCAULT, Il faut défendre la société, p. 54; p. 196.
14
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 49. En el mismo sentido, cf. DELEUZE, Logique du Sense, p. 152:
«El Idealismo es la enfermedad congénita de la filosofía platónica, y (con su sucesión de
ascensiones y caídas) la forma maníaco-depresiva de la filosofía misma»; cf. DELEUZE;
GUATTARI,, Mille Plateaux, p.465: «Hay un hegelianismo de derecha (que continúa vivo en la
filosofía política oficial), y que une el destino del pensamiento al destino del Estado». Por último,
recordemos esta afirmación de Engels en una carta a K. Schmidt: «Nuestra concepción de la
historia es, sobre todo, una guía para el estudio y no una palanca para levantar construcciones a
la manera del hegelianismo» (MARX; ENGELS, Obras Escogidas. Tomo 2, p. 519).
15
En la misma época que Foucault y Deleuze (1970), Carla Lonzi y las Rivolta Femminile decían
que la dialéctica hegeliana realiza el diagrama de poder patriarcal: «la relación hegeliana
amo/esclavo es una relación interna del mundo humano masculino» (LONZI, Escupamos sobre
Hegel y otros escritos de libración femenina, p. 25-26).
16
FOUCAULT, Herculine Barbin, llamada Alexina B., p. 12-17: «Las teorías biológicas sobre la
concepciones jurídicas control administrativo
en los Estados modernos han conducido paulatinamente a rechazar la idea de una mezcla de los
dos órganos sexuales en un solo cuerpo [ l
corps], y a restringir en consecuencia la libre elección de los sujetos dudosos. En adelante, a
cada uno un órgano sexual, y uno solo [un sexe, et un seul
aparecer tienen que ser accidentales, superficiales o, incluso, simplemente ilusorios. [...] Desde
el punto de vista del Derecho, esto implica evidentemente la desaparición de la libre voluntad de
elegir: ya no corresponde al individuo decidir de qué sexo quiere ser [quel sexe il veut être],
jurídica o socialmente; al contrario, es el experto quien determina el sexo que ha escogido la
naturaleza, y al cual, por consiguiente, la sociedad debe exigirle que se atenga. [...] Sin embargo,
la idea de que, al fin y al cabo, se debe tener un un vrai sexe] está lejos de haber
Lo que quiere
faire reconnaître leur puissance, représenler leur
puissance]. [...] Una concepción semejante es la del esclavo:
hombre del resentimiento se hace del poder. Es el esclavo quien sólo concibe la
potencia [la puissance] como objeto de reconocimiento, materia de una
representación, baza de una competición, y por consiguiente, quien lo hace depender,
al final de un combate, de una simple atribución de valores establecidos. Si la relación
amo/esclavo adopta fácilmente la forma dialéctica (hasta el punto de haberse
convertido en un arquetipo o en una figura escolar para cualquier joven hegeliano),
esde el inicio, un retrato
hecho por el esclavo, un retrato que representa al esclavo [un portrait qui représente
Bajo la imagen hegeliana del señor, es siempre el esclavo quien se manifiesta. [...] La
apariencia [
19
desaparecido por completo. [...] Se mantiene, aunque sea difusamente, la creencia de que entre
uras y esenciales (no sólo en la psiquiatría,
el psicoanálisis o la psicología, sino también entre la gente de la calle). [...] En el lugar de cruce
de estas dos ideas (que no puede haber confusión en torno al sexo, y que nuestro sexo encierra
lo que hay de más verdadero en nosotros mismos), el psicoanálisis ha enraizado su vigor cultural.
[...] Cuando Alexina redacta sus memorias no se encuentra lejos del suicidio: ella sigue
sintiéndose sin un sexo determinado [sans sexe certain]». Cf. asimismo La voluntad de saber, p.
40) y El misterioso hermafrodita, p. 47-49). En Los Anormales Foucault recuerda que lxs
hermafroditas eran acusadxs de pacto satánico, torturadxs (obligadxs a confesar su supuesta
culpabilidad) y enviadxs a la hoguera.
17
DELEUZE; GUATTARI, Mille Plateaux, p. 278: «A quien primero le roban el cuerpo es a la joven:
le
roban -historia, es a la joven. [...] La joven es la
primera víctima, pero también debe servir de ejemplo y de trampa».
18
DELEUZE, Nietzsche et la Philosophie, p. 11; p. 94.
19
DELEUZE, Deux Régimes de Fous, p. 175.
20
DELEUZE, Nietzsche et la Philosophie, p. 224.
dévoiler
debe llegar a ser la ley, el principio, el código de su existencia), si la cuestión que
mi
retornarán a una especie de ética muy próxima a la de la virilidad heterosexual
tradicional [
traditionnelle]. Si debemos tomar una posición respecto de la cuestión de la
nous sommes des êtres
uniques]. Pero las relaciones que debemos mantener con nosotros mismos no son
relaciones de identidad; más bien, han de ser relaciones de diferenciación, de
creación, de innovación [rapports ]. Es muy
fastidioso ser siempre el mismo.21
no
comprometerse, o aspirar a una posición des-ideologizada, neutral, imparcial, pura, a
psico-politizar
implique hacernos otro tipo de preguntas, fabricarnos otro tipo de problemas, maquinar
otra analítica del poder, para que en adelante ya no haya que pasar por la dinámica
(irremediablemente patriarcal) de las guerras, los antagonismos y las contradicciones,
21
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 739.
22
Contra la imagen de la guerra (y la represión) como analítica explicativa de la Historia, cf.
FOUCAULT, Il faut défendre la société, p. 16-17; p. 41.
23
Cf. GIP, Intolérable III: Le assassinat de Jeoge Jackson, p. 41-61. Cf. asimismo, ERIBON, Michel
Foucault Cf. asimismo, JACKSON, Soledad
Brother. Cartas de prisión (publicado en 1971 con un prólogo de Jean Genet, integrante del GIP).
Deleuze y Guattari retoman el gesto de Jeorge Jackson en - (p. 329-330) como
ejemplo de la línea de fuga.
24
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 93: «Aquellos que están insertos e implicados en ciertas
relaciones de poder pueden (en sus acciones, en su resistencia y en su rebelión), escapar a esas
relaciones, transformarlas, en fin, dejar de ser obedientes [leur échapper, les transformer, bref,
ne plus être soumis]». Cf. DELEUZE; PARNET, Dialogues, p. 47: «Fugar [Fuir] no significa, ni
muchísimo menos, renunciar a la acción: no hay nada más activo que una fuga [rien de plus actif
]. Fugar es hacer fugar [faire fuir], no necesariamente a los demás, sino hacer que
algo fugue, hacer fugar un sistema [faire fuir un système] como se agujerea un caño. [...] Fugar
es trazar una línea [tracer une ligne], líneas, toda una cartografía. No se descubren mundos más
que a través de una larga fuga quebrada [une longue fuite brisée]». Cf. asimismo: DELEUZE;
GUATTARI, - , p. 239: «La gente honesta me dice que no hay que fugarse [ne faut pas
fuir
revolucionario sabe que la fuga es revolucionaria, pero bajo la condición de arrancar el mantel,
o de hacer fugar un cabo del sistema; pasar el muro [la fuite est révolutionnaire, à condition
]».
25
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 74.
26
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 309.
si s
periódicos, revistas y libros, o atraer a algún productor de radio o televisión. Lo que
El humanismo consiste en querer cambiar el
sistema ideológico sin tocar la institución. El reformismo consiste en cambiar la
institución sin tocar el sistema ideológico. La acción revolucionaria se define, por el
contrario, como una conmoción simultánea de la conciencia y de la institución: ataca
a las relaciones de poder allí mismo donde son el instrumento, la armazón, la
armadura.29
27
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 226: «
la gente critica instancias de poder que son las más cercanas para ella [ ],
y que ejercen su acción sobre los individuos. No van
enemigo inmediato [ ]. No esperan encontrar una solución a sus problemas en
una fecha futura (es decir, en una promesa de liberación, de revolución, en el fin de la lucha de
clases). Por relación a u
al historiador, se trata más bien de luchas anarquistas [ce sont des luttes anarchiques]».
28
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 315.
29
FOUCAULT, Dits et Écrits I, p. 231.
30
DELEUZE; PARNET, Dialogues, p. 176.
31
GUATTARI, La Revolución Molecular, p. 319.
Hay pues dos errores, que en realidad son el mismo: el del reformismo (o la
tecnocracia), que pretende promover o imponer ajustes parciales [aménagements
partiels] de las relaciones sociales según el ritmo de las adquisiciones técnicas. Y el
del totalitarismo, que pretende constituir una totalización de lo significable y lo
conocido sobre el ritmo de la totalidad social existente en tal momento; por esto el
tecnócrata es el amigo natural del dictador [
dictateur] (computadoras y dictadura). Pero el revolucionario vive en la brecha
[ ] que separa el progreso técnico de la totalidad social, inscribiendo allí su
sueño de revolución permanente [y inscrivant son rêve de révolution permanente]. Y
este sueño es (por sí mismo) acción, realidad, amenaza efectiva sobre todo orden
establecido, y hace posible [rend possible] aquello en lo que sueña. [...] Es propagando
el resentimiento como el tirano se hace con aliados [alliés], es decir, con esclavos y
sirvientes [des esclaves et des servants]; únicamente el revolucionario se ha liberado
de un orden opresor).32
cada vez aparece con mayor claridad que, sin lograr desbloquear la sociedad
desencadenando sus fuerzas vivas, el principal efecto de las reformas timoratas que
proponen consiste en irritar a las capas más conservadoras de la pequeña burguesía.
Este tipo de reacción constituye por otra parte, estiman ellos, la mejor justificación
Los unos y los otros (el reformista y el tecnócrata, el déspota y el tirano), con sus
formas, modos y maneras de ejercer el poder y de hacer su realpolitik y sus new deals no
hacen sino obturar la irrupción del Acontecimiento y de la línea del Afuera: bloquean la
irrupción de las fuerzas colectivas vivas, de las líneas de fuga y de las máquinas de guerra
contestatarias, de los grupos-sujetos o agenciamientos colectivos de deseo, en fin, del
devenir-revolucionario y amazona de todo el mundo.34
32
DELEUZE, Logique du Sense, p. 64; p. 179. Cf. asimismo DELEUZE; GUATTARI, - , p.
436-
aparatos pesados para el encuadramiento y la represión de las máquinas deseantes. Ciertamente,
possible], y que todo tipo de máquinas mutantes, vivientes, hacen guerras, se conjugan y trazan
hay muchas personas que no devienen revolucionarios. Está hecha precisamente para eso: para
impedir la cuestión del devenir-revolucionario de las personas, en todos los niveles, en cualquier
lugar [empêcher la question du devenir révolutionnaire des gens, à tout niveau, à chaque
endroit]».
35
FOUCAULT, La sexualité, suivi de Le Discours sur la sexualité, p. 188-189. Para Foucault, el
tráfico de mujeres (y especialmente la prostitución) es el «ilegalisme» que más
fundamentalmente sostiene al actual sistema de poderes falocrático-patriarcales (junto con el
narcotráfico y el tráfico de armas). A propósito de ello, cf. además: FOUCAULT, Dits et Écrits II,
p. 730 ; Dits et Écrits III, p. 392-393 ; Dits et Écrits IV, p. 196; p. 325-326 ; Surveiller et punir, p.
284-285 ; Le pouvoir psychiatrique, p. 111-112. Asimismo, en : FOUCAULT; FARGE, Le désodre
e
siècle, p. 6; 21; 133-134; p.
293. En 1975 Foucault decía: «Recuerde el pánico de las instituciones del cuerpo social (médicos,
hombres políticos) ante la idea de la unión libre o el aborto» (cf. Dits et Écrits II, p. 755).
36
DELEUZE; GUATTARI, - , p. 200-201; 206: «Edipo siempre es la colonización realizada
por otros medios, es la colonia interior y vemos que, incluso entre nosotros, europeos, es nuestra
una destrucción del medio ambiente, del hábitat, etc. [...] Todos admiten, al menos entre nosotros,
en nuestra sociedad patriarcal y capitalista [dans notre société patriarcale et capitaliste], que
Edipo es algo cierto».
Ahora bien, de las máquinas de guerra (o de lucha) ácratas por imaginar y por
construir hay que decir al menos dos cosas: (1) que estas máquinas de guerra ni son una
propiedad ni constituyen un principio fundante (no tienen arkhé), es decir, no pre-existen
de antemano, sino que son agenciamientos colectivos auto-emancipatorios o
revolucionarios anti-sistémicos que hay que construir junto-
demás, introduciéndolas en todas nuestras prácticas, relaciones, actividades y disciplinas
humanas; y (2) que las máquinas de guerra no tienen a la guerra por objeto, objetivo o
finalidad (no tienen télos), sino que «su objetivo ya no es ni la guerra de exterminio ni la
paz del terror generalizado, sino el movimiento revolucionario» (le mouvement
révolutionnaire), es decir, «el trazado de una línea de fuga creadora [...] dirigida contra el
Estado, y contra la axiomática mundial expresada por los Estados» (
de fuite créatrice [...]
les Etats).37 Por eso, «en todos los sitios donde se pretenda hacernos renunciar a la lucha
[renoncer au combat], es un vacío de la voluntad [néant de volonté] lo que nos están
proponiendo, una divinización del sueño, un culto de la muerte [un culte de la mort]».38
Vacío de la voluntad, divinización del sueño, culto de la muerte: las teorías y discursos que
nos hablan sobre la necesidad de reforzar el contrato social (o contrato de ciudadanía
responsable), de celebrar nuevos new deals, y sobre el deber de salvaguardar a la
sociedad estatal bajo el abrigo de una totalidad orgánica superadora.
Estas máquinas de guerra o de lucha (combat) revolucionarias ácratas,
multicentradas y auto-gobernadas, no implican, entonces, ni una voluntad de vacío
(volonté de néant), ni una voluntad de destrucción (volonté de destruction
37
DELEUZE; GUATTARI, Mille Plateaux, p.526; p. 590.
38
DELEUZE, Critique et Clinique, p. 166.
39
Operación típica de la dialéctica: «En Hegel, se trataba de una reconciliación: la dialéctica estaba
dispuesta a reconciliarse con la religión, con la Iglesia, con el Estado, con todas las fuerzas que
alimentaban la suya. Sabemos lo que significan las famosas transformaciones hegelianas: no
olvidan conservar piadosamente. La trascendencia permanece como trascendencia en el seno
de lo inmanente» ( ) (DELEUZE,
Nietzsche et la Philosophie, p. 185).
40
DELEUZE, Critique et Clinique, p. 167.
41
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 644.
Yo me guardo mucho de hacer la Ley [Je me garde bien de faire la loi]. Trato más bien
de plantear problemas, agitarlos, mostrarlos en una complejidad tal que consiga
tous ceux qui parlent pour les auttes et en avant des autres]). [...]
Lo que yo querría facilitar es todo un trabajo social dentro del cuerpo mismo de la
sociedad y sobre ella misma. Querría participar en persona en ese trabajo sin delegar
responsabilidades [sans déléguer de responsabilités
mismo menos que a nadie).
plantearlos con el mayor rigor posible, con la mayor complejidad y dificultad, a fin de
que una solución no surja de improviso de la cabeza de algún intelectual reformador
[intellectuel réformateur] y ni siquiera de la cabeza del buró político de un Partido
[ ]. [...] Hay que acabar de una vez con los
portavoces [En finir avec les porteparole].46
effets de vérité] que sean tales que puedan utilizarse para una batalla posible
42
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 308.
43
El primer informe del GIP comienza con la siguiente frase: «Sont intolérables: les tribunaux, les
prisons» (Son intolerables: los tribunales, la yuta, los hospitales, los asilos, la escuela, el servicio
militar, la prensa, la tele, el Estado, y ante todo, las cárceles) (GIP, Intolerable I: Enquete dans 20
Prisons, p. 1). La entrevista con Geneviève Armleder se titula precisamente «Je perçois
Dits et Écrits II, p. 203-205).
44
DELEUZE, Nietzsche et la Philosophie, p. 121: «
-même: entreprise de démystification
más positivo de sí misma: es una empresa de desmitificación).
45
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 308.
46
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 86-87. Cf. asimismo, FOUCAULT, Obrar mal, decir la verdad, p.
251: «No me considero en modo alguno ni escritor, ni profeta. [...] No tengo la mínima intención
de establecer la ley».
[pour une bataille possible], conducida por quienes lo deseen, en formas por inventar
y organizaciones por definir [conduite par ceux qui le désirent, dans des formes à
inventer et des organisations à définir]. [...] La acción política pertenece a un tipo de
intervención totalmente diferente de esas intervenciones escritas y librescas: es un
problema de grupos, de compromiso personal y físico. [...] Uno no es radical par haber
pronunciado algunas fórmulas: no, el radicalismo es físico, el radicalismo concierne
a la existencia [ ].47
He aquí una verdadera divisa para toda psico-sexo política ácrata que aspire (aquí
& ahora, ya mismo, en nuestro presente) a devenir auto-emancipatoria, abolicionista y
radical: «En finir avec les porteparole». Hay que acabar de una buena vez con los
portavoces, con los representantes, con los magistrados, los punteros, rosqueros,
aparateadores, lobbistas, dirigentes, jetones, estadistas, profesionales, expertos (y toda
esa miríada de papeles, roles y funciones andromórficas y falométricas de autoridad,
admiración y majestad vertical, disimétrica y jerárquica). El patriarcado no es otra cosa
que la mega-red diagramática de relaciones de alianzas de falo-poder, es decir, el imperio
milenario del Falo y de los (de sus) porteparole, cuya metamorfosis actual es bifronte:
porque su rostrificación es a la vez pero sólo desde hace pocos siglos estatal y
capitalista (operan juntos por double bind, con su propio mythos y su propio lógos: con su
magia y su ciencia, con su lazo y su contrato). No es el mundo de la «anarquía coronada»
(anarchie couronnée) sino el imperio del «Falo Coronado».
Pero, además, en estas tres ocasiones que recién citábamos Foucault nos dice
también que son aquellos que experimentan, aquellos que hacen, que actúan y activan,
que trabajan, que producen y reproducen quienes únicamente están llamados a producir
y a rectificar, por sí mismos, su propia teoría y elucidación, tanto como sus propias
prácticas teóricas y políticas:
47
FOUCAULT, Dits et Écrits III, p. 634.
48
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 747.
49
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 308.
Por eso quienes integraban esa máquina de guerra/lucha llamada GIP no hacían
otra cosa que devenir «intercesores» (y nunca esclarecedores ni portavoces ni
representantes ni legisladores),54 porque su trabajo no era otro que pedir y solicitar a los
propios implicados las informaciones necesarias, y luego contribuir a difundirlas
inmediatamente junto con ellos: «Estas informaciones no las encontramos en los Informes
Oficiales; las pedimos a quienes, por cualquier razón, tienen una experiencia en la prisión,
o una relación con ella».55 El objetivo concreto era «que los presos pudiesen hablar por sí
mismos» (instaurer les conditions où les prisonniers pourraient eux-mêmes parler).56
Entre diciembre de 1971 y enero de 1972 se sucedieron en las cárceles de Toul,
Nancy y Lille una treintena de revueltas. Deleuze interviene con un texto en el que describe
cómo el trabajo (y el modo de trabajo) del GIP viene a insertarse como una cuña ácrata
en medio de esa coyuntura (resistencia y lucha), pues basta únicamente con eso para
desacreditar las inquisiciones y extorsiones propias de los funcionarios del poder de
Estado, junto con los fantasmas paranoides que éstos echan a correr por el cuerpo social:
GIP no es ni un simple «grupo subversivo» (como decía el Ministro Pleven), ni tampoco
50
FOUCAULT, Il faut défendre la société, p. 13-14.
51
Contra «la raison populaire commune», cf. DELEUZE, Différence et Répétition, p. 178; p. 217. Y
común (órganos de los poderes dominantes), cf. DELEUZE, Gilles, Un manifeste de moins.
52
Para una referencia al «saber de Estado» ( ), cf. FOUCAULT, Il faut défendre la société,
p. 155.
53
FOUCAULT, Il faut défendre la société, p. 16.
54
Sobre los intercesores Diferencia y repetición), cf.
DELEUZE, Pourparlers, p. 165-184.
55
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 175. Recordemos que en el GIP participaban y colaboraban,
además de los presos, ex-presos, y sus familias, Jean-Marie Domenach, Michel Foucault, Hélène
Cixous, Pierre Vidal-Naquet, Danielle Rancière, Daniel Defert, Jacques Donzelot, Paul Eluard,
Claude Mauriac, Jean Genet.
56
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 307. Cf. FOUCAULT, Dits et Écrits I, p. 204-205: «Nous voudrions
es un grupo «de intelectuales soñadores» (como decía Schmelck, el funcionario más alto
del Tribunal de Casación) dos imágenes contradictorias (double bind psico-político y
libidinal) que fueron echadas a rodar por el saber-poder estatal (ora son subversivos
peligrosos, ora son idealistas inofensivos) , sino que el GIP es un grupo que «se propone
organizar la ayuda exterior activa [ sante], que ante todo
debe estar dirigida por ex-detenidos y sus familias [par les anciens détenus et les familles
de détenus], pero que debe reunir [rassembler] cada vez más a trabajadores y
demócratas».57 Estratégicamente siempre es necesaria la apertura y la transversalización
hacia el exterior, la producción de redes y emparrados entre grupos activistas, incluso a
nivel internacionalista (lo que ciertamente los coloca ante la posibilidad siempre abierta
de que ello los conduzca a toparse con su propia finitud, lo que sólo será vivido como
condición de posibilidad para nuevas articulaciones sucesivas); en orden incluso a poder
contrarrestar (en varios frentes simultáneos de ayuda mutua) las capturas, las re-
codificaciones, las axiomatizaciones y también las extorsiones por parte de los poderes
instituidos. Lo mismo ocurría con el CERFI (Centro de Estudios, Investigaciones y
Formación Institucionales) y con la revista Recherches (su órgano teórico de expresión),
que, en tanto que agenciamientos colectivos y auto-gestivos de intervención social e
institucional (máquinas críticas), se proponían crear nuevas formas de organización y de
gestión directa de los problemas colectivos, y de un abordaje en común. Y sabemos que
también Foucault participó del proyecto, según lo recuerda la socióloga feminista Liane
Mozère (que además participó activamente en las experiencias de la clínica La Borde y
del CERFI/Recherches).58 A propósito de ello, y en el mismo sentido, Félix Guattari decía
gesto formal e incluso un poco jesuítico)», sino que además «es necesario crear las
condiciones que posibiliten un ejercicio absoluto, si no paroxístico, de la enunciación».59
Crear las condiciones de posibilidad, hacer que lo que tiene una existencia virtual y real
adquiera una existencia actual, aquí y ahora, ya mismo, como producto de la acción
directa.
Estas palabras de Guattari responden a una coyuntura específica, que también
implicaba a Foucault: la revista Recherches (vía CERFI) había publicado en marzo de 1973
un número dedicado a la lucha y la militancia de «los y las homosexuales», titulado Tres
millones de perversos, gran enciclopedia de la homosexualidad; en su realización
participaron Foucault, Guy Hocquenguem, Fanny y Gilles Deleuze, Félix Guattari, Anne
Querrien, Catherine Bernheim, Catherine Deudon, Marie-France, entre muchxs otrxs.
Pero la tirada fue inmediatamente prohibida y secuestrada por las autoridades, el
domicilio de Guattari fue allanado por la Policía (en su ausencia), y el propio Guattari fue
57
DELEUZE, , p. 286.
58
Liane recuerda que dentro del CERFI
se formó el «Groupe généalogie», integrado por Michel Foucault, François Fourquet, Lion Murard,
Françoise Paul-Lévy, Anne Querrien y Marie-Thérèse Vernet Stragiotti, entre otrxs.
59
GUATTARI, La Revolución Molecular, p. 342; p. 348; p. 351-352.
60
El episodio se descri Revolución Molecular, p.
342-352.
ese caso, los fabrican para poder capturarlos en tanto que tales). A propósito de este
procedimiento falo-fascistoide del Estado (el secuestro de la puesta en el espacio común
que Foucault nos recordaba en Les Anormaux (1976), en torno a cómo, al menos desde
la Revolución Francesa, se procedió a
jurídico» y «enemigo político», y cómo más tarde, ya en el siglo XIX (después de La
Comuna de París, de la mano de Esquirol, Lombroso, etc.), se procedió a patologizar y
psiquiatrizar la anarquía; análogamente a cómo el Estado y la Iglesia habían cazado,
torturado y asesinado a las brujas desde mucho antes:
Luego de la tercera gran ola de reivindicaciones que sacudió a Europa entre 1848 y
1870-1871 es decir, la oleada de reivindicaciones republicanas, democráticas,
nacionalistas y a veces socialistas , creo que el discriminante que se trató de utilizar
se puede probar que los movimientos actuales son obra de personas que pertenecen
a una clase biológica, anatómica, psicológica y psiquiátricamente desviada [déviante],
tendremos entonces el principio de discriminación [le principe de discrimination]. Y
la ciencia biológica, anatómica, psicológica y psiquiátrica permitirán reconocer
inmediatamente, en un movimiento político, cuál se puede convalidar efectivamente y
cuál hay que descalificar. [...] En Francia, después de 1871 y hasta fines de siglo, la
incipio de
61
FOUCAULT, Les Anormaux, p. 106; p. 142-143; p. 225. Para un análisis de la caza de brujas y
posesas, cf. Les Anormaux, p. 139-160; Les déviations religieuses et le savoir medical (Dits et
Écrits I, p. 624-635); Médècins, juges et sorciérs au XVIIe siècle (Dits et Écrits I, p. 753-766);
Dits et Écrits III, p. 74-79); Sorcellerie et folie (Dits et Écrits III,
p. 89-
(Dits et Écrits III, p. 669-978).
62
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 308-309.
il faut se méfier de
toute une thématique de la représentation] que obstaculiza los análisis del poder, que
consistió durante largo tiempo en preguntarse cómo las voluntades individuales
podían estar representadas en la voluntad general. Y actualmente es la afirmación
(repetida constantemente) de que el padre, el marido, el patrón, el adulto, el profesor,
s de una
el proceso
económico y las relaciones de producción. [...] Las relaciones de poder pueden
penetrar materialmente en el espesor mismo de los cuerpos sin tener incluso que ser
sans avoir à être relayés par la
représentation des sujets].63
Si actualmente el pueblo existe sólo como una masa amorfa, modelada por las
representaciones represivas del poder, ello se debe en gran medida a que los
movimientos revolucionarios y los movimientos de izquierdas no solamente no han
hecho nada para cambiar su situación, sino que además reproducen en su interior
sistemas burocráticos y represivos muy similares a los del poder. Ellos pretenden
Hay entonces una gran bajeza, una gran indignidad en hablar y en actuar por los
otros, en nombre de o en el lugar de los otros (« »);65
indignidad y oprobio que resultan inmanentes a toda relación de representación, dado que
conduce a la erección necesaria de investimentos y posiciones de autoridad, verticalidad
y jerarquía (y por tanto, privilegios),66 y además reduce toda analítica del poder a meros
s como libres), y
63
FOUCAULT, Dits et Écrits III, p. 231-232.
64
GUATTARI, La Revolución Molecular, p. 243.
65
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 309.
66
Cf. DELEUZE; GUATTARI, - , p. 436-437: «Escuchad a un Ministro, un General, un
que habla por los otros, en nombre de los sin voz» (Ecoutez la grande rumeur paranoïaque sous
le discours de la raison qui parle pour les autres, au nom des muets).
67
Cf. DELEUZE, Lettres et Autres Textes una
función que depende estrechamente de las sociedades patriarcales [le contrat a une
fonction qui dépend étroitement des sociétés patriarcales]: está hecho para expresar e
incluso justificar lo que hay de no material, de espiritual o de instituido en las
relaciones de autoridad y de asociación [ ]
tales como se establecen (incluida la relación entre padre e hijo). [...] Cuando la mujer
hommes],
reconociendo su dependencia en el seno de la sociedad patriarcal [en reconnaissant
sa dépendance au sein de la société patriarcale]». El texto es de 1961. Un año después
(en Nietzsche et la Philosophie), Deleuze agrega: «Mientras la mujer ama al varón
Escribir, hacer literatura, hacer teatro, hacer cine, hacer filosofía, en fin, producir
prácticas (dado un trabajo cualquiera) de cara a la intervención y a la activación política
concreta, pero siempre deviniendo aquello que se quiere llegar a ser junto con (ante) los
demás, al ras y al lado de aquellos con quienes se activa, se crea, se organiza, se resiste,
se lucha, se vive (fin de todos los directores y de todos los autores y actores); 69 nunca el
devenir-revolucionario o el devenir-Amazona tendrá algo que ver con hablar, actuar,
73
DELEUZE; GUATTARI, Mille Plateaux, p. 559.
74
DELEUZE, , p. 362.
75
DELEUZE; GUATTARI, - , p. 71-72; p. 371; p. 455: «El inconsciente del esquizo-análisis
ignora las personas, los conjuntos y las leyes; las imágenes, las estructuras y los símbolos. Es
huérfano, al igual que anarquista y ateo [Il est orphelin, comme il est anarchiste et athée]. [...] El
inconsciente ignora la castración, del mismo modo como ignora a Edipo, los padres, los dioses,
estamos castradas, váy Nous ne sommes pas castrées, on vous emmerde]. [...]
Si invocamos al deseo como instancia revolucionaria es porque creemos que la sociedad
capitalista puede soportar muchas manifestaciones de interés [ ], pero ninguna
manifestación de deseo [de désir], pues ésta bastaría para hacer estallar sus estructuras
básicas».
76
DELEUZE, Différence et Répétition, p. 187; p. 269; p. 356: «
[...] . [...] Les
anarchies couronnées se substituent aux hiérarchies de la représentation; les distributions
nomades, aux distributions sédentaires de la représentaition».
77
DELEUZE, , p. 198; p. 201.
78
FOUCAULT, Naissance de la Biopolitique, p. 6-7; p. 79: «El Estado no tiene esencia [
es otra cosa que el efecto, el perfil, el recorte móvil de una perpetua estatización o de perpetuas
estatizaciones [de perpétuelles étatisations], de transacciones incesantes que modifican,
desplazan, trastornan, hacen deslizar de manera insidiosa las fuentes de financiamiento, las
modalidades de inversión, los centros de decisión, las formas y tipos de control, las relaciones
entre poderes locales, autoridad central, etc. Como muy bien sabemos, el Estado no tiene
entrañas [
(ni buenos ni malos), sino que no tiene entrañas, no tiene interior: no es nada más que el efecto
móvil [ ] de un régimen de gubernamentalidades múltiples [...]. El Estado es a la vez
lo que existe y lo que aún no-
práctica o, mejor, la racionalización de una práctica [ ] que va a
Destruir, destruir: la tarea del esquizo-análisis pasa por la destrucción; toda una
limpieza [nettoyage], todo un raspado del inconsciente [ ].
Destruir a Edipo, a la ilusión del Yo, al fantoche del super-yo, a la culpabilidad, la ley,
la castración... Pero no se trata de piadosas destrucciones, tal como las efectúa el
81
FOUCAULT, Le pouvoir psychiatrique, p. 57; p. 59. Cf. asimismo, p. 58: «Advertirán que sería
Quizás el objetivo más importante de nuestros días es descubrir lo que somos, pero
para rechazarlo [de refuser]. Tenemos que imaginar y construir [imaginer et
construire
[double contrainte] que es la individualización y la totalización simultánea de las
estructuras de poder [
pouvoir moderne]. El problema político, ético, social, filosófico de nuestros días no es
87
Aquí se insertan dos de las críticas de Foucault y Deleuze contra los marxismos clásicos. En
primer lugar, su desprecio en torno a la relación poder/cuerpos: «
cuando se dice que Foucault regresa al final hacia el sujeto, no es así en lo absoluto. Lo que le
solo un
caso de subjetivación».
89
MARX; BAUER, Die Judenfrage, p. 191. El original alemán dice: «ist das imaginäre Glied einer
eingebildeten Souveränität» (es el miembro imaginario de una soberanía imaginaria).
90
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 232. A propósito de la Revolución Francesa, Foucault decía que
el modelo de sociedad y el modelo de sujeto (ciudadano) que los filósofos, juristas y legisladores
(varones) promovieron conducía a «mantener a las mujeres en un estado de inferioridad (a pesar
de las campañas feministas de Claire Lacombe y Olympe de Gouges)» (Maintenir les femmes en
))
(cf., La sexualité, suivi de Le Discours sur la sexualité, p. 143).
permanece,
subsiste y prosigue mientras hay estructura jurídica, mientras hay contrato: mientras
existe la Ley, el sujeto de interés sigue existiendo (desborda de manera permanente
al sujeto de derecho, lo rodea, es su condición perpetua de funcionamiento [il en est
la condition de fonctionnement en permanence]).91
que todo proyecto anarquizante de sociedad aspiraría a una sociedad donde se suprima
toda relación de poder:
tres grossiere] si la
definimos, primero, como la tesis de que el poder es malo por esencia, y segundo, si
la definimos como el proyecto de una sociedad donde se suprima, se anule, toda
relación de poder , verán sin duda que lo que les propongo y de lo que hablo es
claramente diferente de eso. En primer lugar, no se trata de tener como punto de
mira, al cabo de un proyecto, una sociedad sin relaciones de poder. Se trata, al
contrario, de poner el no-poder y la no-aceptabilidad del poder, no al término de la
empresa, sino al comienzo del trabajo, bajo la forma de una puesta en cuestión de
todos los modos conforme a los cuales se acepta efectivamente el poder. En segundo
mauvais], sino de partir de la
cuestión de que no hay poder alguno, sea cual fuere, que sea aceptable de pleno
derecho y absoluta y definitivamente inevitable. [...] La posición que adopto no excluye
en modo alguno la anarquía, y, después de todo, lo reitero, ¿por qué sería tan
condenable la anarquía? [ -
elle si condamnable?]. Se trata de una actitud teórico-práctica concerniente a la no-
necesariedad de todo poder [une attitude théorico-pratique concemant la non-
nécessité de tout pouvoir]. [...] Lo que les propongo sería más bien una especie de
anarco-arqueología [ héologie].93
91
FOUCAULT, Naissance de la Biopolitique, p. 277-279.
92
FOUCAULT, Histoire de la Sexualité I, p. 80.
93
FOUCAULT, Du gouvernement des vivants, p. 76-77.
-práctica y
êthos, modus
vivendi y agendi, en tanto que diferencia vital, modo de vivir y modo de conducirse, y por
tanto de maquinar o componer un determinado campo colectivo de fuerzas que se
despliegan en el orden del pensamiento y del deseo (y que son siempre inmediatamente
sociales) persiguiendo siempre la línea de fuga auto-emancipatoria permanente. La
posición ácrata del pensamiento, de la acción y del deseo (catexis inconscientes de la
libido sexual y de campo social) no se encontrará ni se reducirá jamás a una bandera, a
unos colores, a un grupo u organización, a un motus identitario reconocible, totalizable y
catalogable, a un Partido, una simbología, un sistema de signos, un dogma, unos clichés,
fetiches, ídolos, rostros, cuadros altos, héroes, etcéteras; ni siquiera se trata de una
asumir, ni de unos gestos por reproducir, ni de
un determinado lenguaje expresivo ante el cual replegarse, ni de un código o clave de
interpretación (significante)95 dentro de los cuales reducir todos los fenómenos sociales,
políticos, económicos, sexuales, etc.
El acratismo pone en juego maneras o modos (ni esencia ni sustancia ni atributo,
sino modalidad) de estar posicionados y de intervenir en y frente a la realidad actual y
cotidiana en la que se vive (pero junto con, al lado de, aquellos con quienes se interviene);
un modo de elucidar, resistir y enfrentarse a los poderes (a las relaciones, las prácticas,
y las instituciones de poder); un modo de investir el campo social en el que uno vive, ama,
activa, produce, trabaja, se enferma, muere; una modalidad del devenir-revolucionario
potestad de todo el mundo en cualquier lugar y por relación a cualquier cosa que se
constituye como una línea de fuga bajo la condición de provocar y contagiar
simultáneamente y por el mismo movimiento no una vacuola personal y privada de
de todas las trampas y capturas (y aparatos de captura) del orden, junto con el quiebre de
todos los códigos, los axiomas y las territorialidades artificiales del poder: provocar y
contagiar el deseo de auto-emancipación permanente, el devenir-revolucionario
(devenir-Amazona) de los productores sociales por los productores sociales mismos no
94
ERIBON, Michel Foucault, p. 219: «Foucault conclut souvent leurs échanges par cette remarque:
Au fond, tu es un anarchiste de droite, et moi un anarchiste de gauche ».
95
DELEUZE; GUATTARI, - , p. 244-
su origen imperial. [...] Nunca se impedirá que el significante introduzca su trascendencia [de
réintroduire sa transcendance] y declare en favor de un déspota desaparecido [et de témoigner
pour un despote disparu] (que todavía funciona en el imperialismo moderno)».
96
FOUCAULT, Dits et Écrits III, p. 134-135.
97
DELEUZE ; GUATTARI, Mille Plateaux, p. 262.
98
FOUCAULT, Obrar mal, decir la verdad, p. 255; p. 258.
99
FOUCAULT, -ce que la critique? [Cr , p. 39.
100
Didier Eribon toma estas palabras de 1969 como puntales para emplazar su crítica radical
contra el psicoanálisis freudo-lacaniano; cf. ERIBON, Una moral de lo minoritario, p. 217-298.
Cf. asimismo, ERIBON, Escapar del psicoanálisis.
101
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 752-753: «Me sucede con frecuencia citar frases, conceptos,
textos de Marx, pero sin sentirme obligado [obligé] a adjuntar la pequeña pieza identificadora
que consiste en hacer
y acompañar la cita de una reflexión elogiosa. Mediaciones gracias a las cuales uno será
révère] a Marx, y se verá
honr
comillas, y como no son capaces de reconocer los textos de Marx, paso por ser alguien que no
cita a Marx. [...] Es imposible hacer historia actualmente sin utilizar una serie interminable de
conceptos ligados directa o indirectamente al pensamiento de Marx y sin situarse en un
horizonte que ha sido descrito y definido por Marx. [...] Y es en el interior de este horizonte
general definido y codificado por Marx que comienza la discusión con aquellos que van a
1978 con Baquir Parham en Irán) que «Marx tenía razón [pero] solo en el contexto en el que
vivió. Sus afirmaciones deben ser entendidas solamente para el periodo histórico en el que
-116).
102
FOUCAULT, Il faut défendre la société, p. 69-70.
1977).104
103
Foucault Pouvoirs et stratégies de
1977 (Dits et Écrits III, p. 427); pero ya en 1973 había aparecido durante el diálogo entre Foucault
y Deleuze, donde éste decía: «Una teoría es exactamente como una caja de herramientas.
Ninguna relación con el significante [
Rien à voir avec le signifiant]» (Dits et Écrits II, p. 309).
104
FOUCAULT, Sécurité, Territoire, Population, p. 6: «
impératif, mais celui-là sera catégorique et inconditionnel: Ne faire jamais de politique
105
FOUCAULT, Dits et Écrits III, p. 234.
Hay mil cosas que pueden hacer, inventar y forjar aquellos que, habiendo
comprendido las relaciones de poder en las que están implicados, han decidido
resistir o escapar a ellas.107
acratismo, en tanto que posición política auto-emancipatoria radical, en tanto que torsión
violenta del pensamiento y de la politización, y en tanto que deseo y devenir, siempre ha
de estar abierto al Afuera y a las potencias colectivas de lo intempestivo, a esa poderosa
vitalidad no-orgánica social que sólo completa la fuerza con la fuerza; razón por la cual
el problema de la identidad y del reconocimiento se tornan falsos problemas, junto con el
106
FOUCAULT, Dits et Écrits III, p. 234
(lo que nos reenvía a una elección dentro de una clasificación ya hecha), sino imaginar y hacer
que existan nuevos esquemas de politización [
schémas de politisation
hechas, entonces no merece la pena».
107
FOUCAULT, Dits et Écrits IV, p. 93.
genealogistas)
marxismo, o del psicoanálisis (o de tal o cual cosa), una Ciencia. Y si tenemos que
hay
que plantearse la cuestión, interrogarse sobre la ambición de poder que acarrea
consigo la pretensión de ser una ciencia [
prétention à être une science]? ¿Qué tipos de saber quieren ustedes descalificar desde
el momento en que se dicen una ciencia? ¿Qué sujeto hablante, qué sujeto que
discurre, qué sujeto de experiencia y saber quieren aminorar desde el momento en
El trabajo de creación llevado a cabo por las máquinas críticas, por la contra-
filosofía («contre-philosophie»),111 por las anti-ciencias, por las ciencias menores o los
saberes de abajo (nomadología), no motoriza disputas teóricas o polémicas académicas
(entre científicos e investigadores), sino politizaciones operativas con vistas a
problematizar y a producir nuevas relaciones, organizaciones y prácticas teóricas,
sociales, y sexo-políticas; pero siempre escapando a la realpolitik112 y a la moral-politik113
en curso (al orden de saber-poder funcional al patriarcado estatal-capitalista). La actitud
108
DELEUZE; GUATTARI, Mille Plateaux, p. 434-435.
109
FOUCAULT, Il faut défendre la société, p. 14-15.
110
FOUCAULT, Il faut défendre la société, p. 15-16.
111
DELEUZE, , p. 361.
112
Recordemos estas palabras de Marx en una carta (del 23 de febrero de 1865) a
Ludwig Kugelmann: «Yo no soy un realpolitiker» (MARX; ENGELS, Obras Escogidas.
Tomo 2, p. 488).
113
FOUCAULT; VOELTZEL, Veinte años y después, p. 85. La «moralo-política» es el equivalente a lo
que Foucault llama «la sobrecarga moral y jurídica» (le surcharge moral et juridique) (Dits et
Écrits III, p. 540). Análogamente, constituye aquello que Deleuze la llama «imagen dogmática y
moral del pensamiento» (image dogmatique et moralisante de la pensé) (Différence et
Répétition, p. 185; p. 195).
Se puede decir que lo que sucedió después de mayo del 68 (y verosímilmente lo que
lo ha p -
- effet-
Marx], de las instituciones propias del marxismo de los siglos XIX y XX? Tal era la
orientación de este movimiento. En esta puesta en cuestión de la identidad marxismo
= proceso revolucionario, identidad que constituía una especie de dogma.114
anarquista, pero después de tal otro año Foucault realizó un viraje y se volvió liberal (o
bien se volvió neo-operaísta, neo-
-estatalismo, pero
luego se reconvirtió al estatalismo, al neo-
de identificación similares a las que encontramos en Badiou/Georges Peyrol, Zizek,
Cacciari, etcéteras).
¿No se trata de tentativas «un peu fade» para capturar las líneas de fuga
revolucionarias, re-territorializándolas dentro de la Ley & el Orden ya existentes
(capturas integradoras y normalizadoras)? El deseo del orden es recapturar dentro de su
sistema de la Ley & el Orden a todos aquellos devenires que vienen a fugarnos respecto
de la Ley & el Orden (tienden a adjuntarlos como axiomas memorables, como rostridades
del poder). En efecto, todavía en su curso de 1982 ( ) Foucault
había dicho que «algún día habrá que hacer la historia de lo que podríamos llamar la
subjetividad revolucionaria» (la subjectivité révolutionnaire)115 en tanto que práctica de sí
(pratique de soi), y por tanto, en tanto que arte mismo de vivir (la
tekhnê tou biou)
idénticos (art de vivre et art de soi-même sont identiques). Pero todo ello sin perder jamás
de vista que «la práctica de sí se integra, se mezcla, se entrelaza con toda una red de
relaciones sociales diversas».116
Ahora
117
(lo que no deja mejor parado al corte-reformista/liberal)? Hacer oídos sordos al hecho de
114
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 756.
115
FOUCAULT, sujet, p. 200.
116
FOUCAULT, , p. 197.
117
ATTARI, Psicoanálisis y transversalidad, p. 212-237.
que «lo personal es político» (como decía Carol Hanisch en 1969); 118 es decir, reducir los
problemas de la subjectivité révolutionnaire
engaños y las contradicciones en el nivel de las voluntades, las necesidades y los
in
que conducen a la micro-política del acatamiento y la obediencia respecto de la línea
los conductores, los líderes, las vanguardias, los burós, los comités jerárquicos, los
presidentes, los funcionarios, que también resultan ser los sabios, los pensadores, los
justo y los videntes de la línea
justa (mezcla de servidumbre maquínica y sujeción social). Olvidar que lo personal
Ha y luego
absorbida, lavada y por fin anulada por la existencia de un Partido revolucionario. Y
cómo hemos pasado de la pertenencia a la revolución según el esquema de la
conversión a la pertenencia a la revolución por la adhesión a un Partido. Como bien
saben, ahora, en nuestra experiencia cotidiana quizá un poco sosa [un peu fade], y
me refiero nuestros contemporáneos inmediatos ya sólo nos convertimos a la
renuncia a la revolución [au renoncement à la révolution]; los grandes conversos de
nuestros días son quienes ya no creen en la revolución [ne croient plus à la
révolution].119
como el comisario que interroga a Irene (el personaje de Ingrid Bergman inspirado en
Simone Weil) en el film de Rossellini «¿Usted es una comunista?».
El poder viene de arriba, sí; pero también viene desde abajo y desde los costados;
y esto último (que el falo-poder o el micro-fascismo también se ejerce por y entre
plebeyos, amigos, hermanos, camaradas, proletarios, etc.) muy pocas veces se convierte
en objeto de problematización, de interrogación, de psico-politización por parte de los
propios implicados:
Hay relaciones de poder entre un varón y una mujer, entre el que sabe y el que no
sabe, entre los padres y los hijos, en la familia. En la sociedad hay millares y millares
de relaciones de poder y, por consiguiente, de relaciones de fuerzas, y por tanto de
pequeños enfrentamientos, micro-luchas, por llamarlas de algún modo. Si bien es
cierto que esas pequeñas relaciones de poder son muchas veces regidas, inducidas
desde arriba (por los grandes poderes del Estado o las grandes dominaciones de
clase), hay que decir además que, en sentido inverso, una dominación de clase o una
estructura de Estado sólo pueden funcionar bien si en la base ya existen esas
118
The Personal is Political -78.
119
FOUCAULT, , p. 200-201.
un
grand abattement]: en el fondo, me parecía una interrogación policial [une question
policière
eres?
usted
120
FOUCAULT, El poder, una bestia magnífica, p. 77; 164. Para la idea de que «
bas», cf. La volonté de savoir, p. 12.
121
GUATTARI, Plan sobre el planeta, p. 90; p. 103: «Cada mercado económico manifiesto se
despliega de forma paralela sobre distintos campos latentes de valores maquínicos, de valores
de deseo, de valores estéticos, etc., que cabría calificar como valores de contenido . De tal modo
que la valorización económica consciente y plana se ve duplicada por unos modos de
valorización profundos y relativamente inconscientes, comparados con los sistemas de
valorización intercambistas explícitos. [...] El conjunto de los valores de deseo es reordenado
en una economía basada en una dependencia sistemática de los valores de uso respecto a los
valores de cambio, hasta el punto de despojar de todo sentido a esta oposición categorial». Por
el contrario, las máquinas críticas de las anti-ciencias (el esquizo-análisis incluido)
«rechazarán la compartimentación entre valores de cambio, valores de uso y valores de deseo,
ya que esta compartimentación constituye uno de los pilares principales de las formaciones de
poder encerradas en sí mismas y jerarquizadas, en las que se asientan el capitalismo y la
segregación social» (p. 56).
122
Práctica del poder e idea de Naturaleza
p. 44.
En el fondo, podría decirse que en las sociedades contemporáneas, las nuestras, aún
existen dos tipos de Partidos políticos: los que no son otra cosa que escalones hacia
el ejercicio del poder o el acceso a funciones y responsabilidades [échelons vers
]; y después
rtido político, que hace mucho dejó de ser clandestino pero que sigue teniendo
el aura de un viejo proyecto que a todas luces abandonó, pero al cual su destino y su
nombre continúan ligados, y que es, después de todo, el proyecto de alumbrar un
nuevo orden
como si se tratara de otro pastorado, otra gubernamentalidad, con sus jefes, sus
reglas, su moral, sus principios de obediencia [
autre gouvernementalité avec ses chefs, ses règles, sa morale, ses principes
].125
Es evidentemente en este mismo sentido que, según nos recuerda Didier Eribon,
Foucault se rehúsa sistemáticamente (y a lo largo de toda su vida) a ejercer las potencias
del pensamiento, de la acción y del deseo al servicio de de la Ley & el Orden (y su Sistema
del Derecho y la legalidad); por el contrario, su filosofía y su activación concreta siempre
buscó sustraerse (y conjurar en la práctica) a toda función-partido y a toda identificación
sexo-política. Conviene citarlo aquí in extenso:
Foucault había pensado a finales del verano de 1983, como réplica a las declaraciones
relativas a su silencio, aunque eligiendo por sí mismo las modalidades y el momento
de su respuesta, en publicar un pequeño opúsculo (en forma de un libro de entrevistas
que yo habría realizado con él), en el que deseaba analizar las razones profundas de
los fracasos sucesivos de los gobiernos de izquierda en Francia. Lo que les faltaba a
los socialistas era pre ], pensaba
Foucault, y quería demostrarlo remontando el curso de la historia.
des hommes de
parti]. Tanto más en la medida en que estaba exasperado, desde un punto de vista más
123
DROIT, Michel Foucault, entretiens, p. 58-59.
124
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 757.
125
FOUCAULT, Sécurité, Territoire, Population, p. 202-203.
Como se ve, Foucault continuaba merodeando todavía en 1983 (esta vez junto con
Didier Eribon) en torno a un problema que ya había introducido en su curso Naissance de
la Biopolitique en el Collège de France (1979); a saber, que el socialismo carece no de una
126
ERIBON, Michel Foucault, p. 473-474.
127
FOUCAULT, Naissance de la Biopolitique, p. 93.
128
FOUCAULT, Naissance de la Biopolitique, p. 93.
129
FOUCAULT, Dits et Écrits III, p. 791-793.
independiente; nómos propio que fuese capaz de escapar tanto los procesos ya demasiado
conocidos de individualización e identificación como a los de totalización (al estilo
occidental del «omnes et singulatim»). Significa que ha sido incapaz de abrirse a ese
Afuera que son los saberes minoritarios, menores y de abajo (múltiples y heterogéneos),
a «ese Afuera de la historia que es la sublevación».130 Lo que no implica, sin embargo,
por lo popular mismo (procedimiento
típico de toda social-democracia, progresismo, populismo, neo-estatalismo, y de todo
aquello que Guattari llamaba «progresismo-fascista» o «neo-arcaísmo»).131
Mi proyecto [es] multiplicar por todas partes, o bien en todos los lugares donde sea
posible, las ocasiones de sublevarse con respecto a lo dado, y de sublevarse no
forzosamente ni siempre bajo la forma de la sublevación iraní, con quince millones
de personas en la calle, etc. Uno se puede sublevar contra un tipo de relación familiar,
contra una relación sexual, uno puede sublevarse contra una forma de pedagogía, uno
puede sublevarse contra un tipo de información.132
130
FOUCAULT, Sublevarse, p. 87.
131
En su entrevista con Toni Negri (de 1990), Guattari denuncia al «progressisme-fasciste ou, à la
rigueur, néo-archaïsme» (GUATTARI, ¿Qué es la Ecosofía?, p. 226).
132
FOUCAULT, Sublevarse, p. 84.
133
FOUCAULT, Naissance de la Biopolitique, p. 93.
5. Consideraciones finales
134
DELEUZE, Un manifeste de moins, p. 10.
135
FOUCAULT, Naissance de la Biopolitique, p. 95.
136
FOUCAULT, Dits et Écrits III, p. 233.
à prendre le
pouvoir]. Con respecto a esto yo sería mucho más anarquista [Je serais beaucoup
plus anarchiste
[ ] significa arrancar un tesoro [ ] que se
encuentra en las manos de una clase para entregarlo a otra que, en este caso, es el
la révolution
et la prise du pouvoir]. Pero observemos entonces a la Unión Soviética, un régimen
en que las relaciones de poder (en el seno de la familia, la sexualidad, las fábricas,
las escuelas) son las mismas que se conocen en Occidente. El problema es saber si
podemos, en el régimen actual, transformar a niveles microscópicos [transformer à
des niveaux microscopiques] las relaciones de poder de tal manera que, cuando se
produzca una revolución político-económica no encontremos después las mismas
relaciones de poder que ya existen hoy [les mêmes relations de pouvoir que nous
trouvons maintenant].138
137
LORDE, Sister Ousider. Essays and Speeches, p. 110-113.
138
FOUCAULT, Dits et Écrits II, p. 642-643.
139
DELEUZE; GUATTARI, Mille Plateaux, p. 439: «Las Amazonas, pueblo-mujer sin Estado» (des
Amazones, peuple-femme sans Etat).
140
He abordado y desarrollado esta politización en: Chicolino, 1871-2021: de París a Chiapas y
Kurdistán. La «Comuna» como utopía revolucionaria de inmanencia actual, p. 1-13; p. 34-42.
141
GUATTARI, La Revolución Molecular, p. 434.
Referências
DELEUZE, Gilles. Deux Régimes de Fous. Paris: Les Édit. de Minuit, 2003.
DELEUZE, Gilles. Lettres et Autres Textes. Paris: Les Édit. de Minuit, 2015.
FOUCAULT, Michel. -
Ferrand (1964), suivi de Le Discours sur la sexualité. Cours donné à
, Paris: Gallimard/Seuil, 2018.
GUATTARI, Félix. Líneas de fuga. por otro mundo de posibles. Trad. Pablo
Ires. Buenos Aires: Cactus, 2013.
HEINER, Brady. Foucault and the Black Panthers. City, v. 11, n. 3, 2007.
MARX, Karl; BAUER, Bruno, Die Judenfrage. In: MARX; ROUGE, Deutsch-
Französische Jahrbücher, Paris: Worms et Cie., 1844.
Martín Chicolino
Trabaja como docente e investigador en la Universidad Nacional
de La Matanza (UNLaM) y en la Universidad del Salvador (USAL).
Artista sonoro-visual (integrante de Colectiva Moi Non Plus).
Doctorando en Filosofía Social y Política (beca CONICET). Su
producción filosófica más reciente es: (a) A 50 años de El Anti-
Edipo. ¿El siglo será deleuziano o guattariano? Nolo hoc saeculum
nemini Nuevo Pensamiento. Revista de
Filosofía, Número 20, pp. 01/51, Argentina). (b) Sexo-política y
Ecosofía en Félix Guattari. La producción de subjetivación y de
deseo masculino como problema de ecología mental y social (en:
Revista Reflexiones Marginales, Nro. 73, pp. 01/43, México). (c) La
construcción filosófico-política de la Masculinidad y la Feminidad.
O de cómo organizamos la producción de relaciones sociales y
sexuales. Subjetivación, sexualidad, y falo-poder (en: Protrepsis.
Revista de Filosofía, Nro. 21, pp. 147-199, México). (d) La política
sexual de Kant, Fichte & Hegel (y otros). Matrimonio, Concubinato,
Adulterio, Violación y Prostitución en la filosofía jurídico-
contractual moderna (en: Nuevo Pensamiento. Revista de
Filosofía, Nro. 18, pp. 85-236, Arg.). E-mail:
martinchicolino@[Link].
Imagem gerada por IA (Midjourney) a
partir dos termos: neo fauvist anarchy
DOI: 10.53981/destroos.v4i1.46387
DOSSIÊ AN-ARQUIA E ANARQUISMOS
RESISTÊNCIA
PARA ALÉM DOS ARQUÉTIPOS
Nilciana Alves Martins (Nil) 0000-0002-7337-5394
Universidade Federal de Juiz de Fora
Resumo
Este texto surge da necessidade de reconhecer determinadas trajetórias de vida como
experiências que, ao serem apuradas, podem contribuir para a ampliação de nossos horizontes
conceituais e práticos em relação às ações que podem ser compreendidas como parte de uma
política radical anarquista. Revisitando a perspectiva de Emma Goldman, com base em uma
metodologia pensada para a história intelectual e política, destacaremos suas possíveis
contribuições para o desenvolvimento de um ativismo que busca promover formas de vida mais
autônomas. Ao examinar os vestígios deixados por Goldman, torna-se evidente o caráter
itinerante do anarquismo e sua contribuição para um ativismo intrinsecamente vinculado às
concepções de corpo e vida como formas de resistência.
Palavras-chave
Emma Goldman; resistência; anarquismo; história intelectual.
Keywords
Emma Goldman; resistance; anarchism; intellectual history.
Ancestralidade Anarquista
1
MARX; ENGELS, O manifesto comunista.
2
SKINNER, Significado y comprensión en la historia de las ideas.
3
Emma Goldman nasceu em 27 de junho de 1869, em Kovno (Lituânia), parte do Império Russo.
Sua infância, como apontam seus biógrafos, foi marcada pela rigidez de seus pais. Em 1881,
fugindo das forças antissemitas, a família mudou-se para São Petersburgo. Nesse período,
Goldman começou a trabalhar em uma fábrica para ajudar nas finanças. Foi na capital que ela
entrou em contato com obras de autores como Ivan Turguêniev e Nikolai Tchernichevski, fato que
influenciou significativamente seu imaginário. Em 1885, emigrou para os Estados Unidos da
América e, pouco tempo depois, estreitou laços com os círculos radicais. Ingressou nas fileiras
anarquistas através da imprensa e de conferências, contribuindo para muitos periódicos da
época. Diante de sua participação no atentado contra o industrial Henry Clay Frick (1892), passou
a ser retratada de forma negativa e estereotipada pela esfera pública norte-americana. Um ano
depois, foi presa por "incitar a desordem" nas manifestações que ocorreram na Union Square.
Após cumprir a pena de dois anos, foi, com a ajuda financeira de companheiros, para Viena. Ali,
profissionalizou-se e aproximou-se das reflexões de Nietzsche e Freud. Conheceu também
importantes figuras anarquistas: Errico Malatesta e Louise Michel. Em 1900, voltou à Europa e
participou do Congresso Anarquista de Paris. Em 1901, foi acusada de matar o presidente
McKinley. Fundou a revista Mother Earth em 1906, sendo um dos periódicos anarquistas mais
relevantes da época. Após o Congresso Anarquista de Amsterdã (1907), tornou-se defensora de
um controle de natalidade vinculado às demandas das mulheres pobres, distribuindo escritos e
métodos contraceptivos, o que era ilegal e lhe rendeu duas semanas em uma prisão de trabalhos
forçados. Em 1917, foi novamente presa, dessa vez devido a sua reivindicação contra o
alistamento militar obrigatório. Após dois anos de encarceramento, em 21 de dezembro de 1919,
foi deportada para a Rússia, juntamente com mais 200 outros radicais imigrantes. Sua estadia de
dois anos na Rússia foi um momento de inflexão. Diante do direcionamento dado pelo X Congresso
do Partido Comunista da União Soviética, exilou-se na Inglaterra, fugindo de possíveis
repressões. Em 1936, direcionou suas energias para a Guerra Civil Espanhola. Faleceu em 1940,
no Canadá.
4
Sendo necessário pontuar que o precursor não é, como muitos insistem em supor, alguém à
frente de seu tempo. O precursor é uma minoria, composta por pessoas capazes de captar as
inquietações de seu tempo de forma inusitada e desviante, porém ainda confinadas em sua jaula
temporal. No presente ensaio, o termo é empregado nesse sentido.
5
Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um filósofo alemão conhecido por suas ideias provocativas
e sua crítica à moralidade tradicional, à religião e à filosofia ocidental em geral.
6
Murray Bookchin (1921-2006) foi um escritor, filósofo, ecologista e ativista político norte-
americano. Ele é conhecido como um dos pioneiros da ecologia social e defensor do
"municipalismo libertário".
7
BOOKCHIN, Anarquismo, crítica e autocrítica, p. 53.
.16 Nesse caso, ele parece reproduzir algo enraizado no senso comum:
a ideia de que os defensores de uma causa geralmente se limitam à leitura de textos
relacionados à sua corrente específica. O que não é propriamente uma mentira.
8
BOOKCHIN, Anarquismo, crítica e autocrítica, p. 60.
9
"Perspectiva mestiça" é um termo cunhado durante o processo de escrita deste ensaio. Nosso
objetivo foi fazer referência às construções intelectuais de Emma Goldman, as quais são fruto de
experiências e de redes intelectuais plurais. No entanto, as reflexões sobre as noções de
"mestiço" e "mestiçagem" não são parte do léxico político-filosófico da autora, tendo sido
desenvolvidos pela historiografia do sul global contemporânea.
10
GOLDMAN, Viviendo mi vida.
11
GOLDMAN, Viviendo mi vida, pp. 202-203.
12
GOLDMAN, Viviendo mi vida, p. 203. Todas as citações diretas dessa obra são traduções livres
da autora.
13
P. Yelineck foi um pintor.
14
James Huneker (1857-1921) foi um crítico musical, escritor e ensaísta americano, conhecido por
sua abordagem subjetiva e provocadora à crítica de música e arte.
15
GOLDMAN, Viviendo mi vida, p. 225.
16
HUNEKER apud GOLDMAN, Viviendo mi vida, p. 225.
17
GOLDMAN, Viviendo mi vida, p. 225.
18
GOLDMAN, Viviendo mi vida, p. 225.
, o que a fez olhar com muito bons olhos o periódico Free Society,24
23
25
Esse era um ponto tão crucial que, mesmo
19
MARTINS, Entre conceitos e ações.
20
Neste ensaio experimental, criamos algumas categorias para caracterizar uma parcela existente
dentro de alguns círculos reivindicatórios do século XX. Os arquétipos aqui traçados não explicam
essas pessoas e agrupamentos em sua totalidade, nem exploram sua complexidade, uma vez que
esse não é nosso objetivo. Aqui, os arquétipos são usados como um meio de analogia mais
didática para ilustrar como Emma Goldman abordava as questões de sua época, reivindicando a
criação de visões e movimentos que abordassem aspectos ainda negligenciados por muitos.
21
Francisco Ferrer (1859-1909) foi um educador e anarquista espanhol, conhecido por fundar a
Escola Moderna, um projeto educacional baseado em princípios libertários e racionais. Ele foi
uma figura importante no movimento anarquista espanhol e teve um impacto significativo na
promoção da educação laica, igualitária e emancipadora.
22
GOLDMAN, La importancia social de la escuela moderna.
23
GOLDMAN, Viviendo mi vida, p. 257.
24
O Free Society (Sociedade Livre) foi um jornal anarquista publicado nos Estados Unidos no final
do século XIX e início do século XX.
25
GOLDMAN, Viviendo mi vida, p. 257.
diante da extrema e autodeclarada estima26 que tinha por Piotr Kropotkin, 27 ela não hesitou
em mostrar seu firme descontentamento diante sua proposição de que discutir sexo
configurava desperdício de espaço nas páginas do Free Society.28
Emma Goldman compreendia o processo revolucionário como uma esfera que
envolvia mudanças estruturais, como por exemplo o fim do capitalismo e do Estado, mas
também aspectos mais subjetivos: uma mudança radical de valores. O corpo adquire,
portanto, um papel fundamental. A criação de individualidades que sabem o que são e que
possuem a coragem de viver essa diferença29 tornam-se parte substancial do processo
revolucionário. Daí a importância, por exemplo, das mulheres terem meios30 de se libertar
da moralidade dominante da época, definida por sua tendência em reprimir a sexualidade
feminina e, simultaneamente, transformar as mulheres em mercadorias sexuais, em um
produto.31
A criação de um novo mundo (futuro) envolve a construção de vidas mais
autônomas (presente). E a busca por uma vida mais livre é uma dimensão pedagógica,
inclui um olhar franco e cuidadoso em relação a si e aos outros. Com isso, os
desdobramentos das questões femininas e sexuais tornam-se fatores a serem
considerados. É preciso imaginar o anarquista feliz,32 foi essa intuição que fez Goldman
romper com o arquétipo do propagandista infeliz:33 aquele que, sentido amplo do termo,
não goza e nem ri.
Compreendendo o anarquismo enquanto uma construção coletiva, um
xo de ideias, sensibilidades morais, práticas e
34
podemos
considerar que a vida e obra de Emma Goldman contribuíram para o desenvolvimento de
um ativismo mais aberto as questões femininas e ao âmbito da sexualidade. O que podia
ter feito dela, diante das demandas colocadas no mundo a partir do século XX, uma
percursora35 das reivindicações que se consolidaram, somente a partir dali, em certo
26
Inúmeros adjetivos positivos são direcionados a Kropotkin na autobiografia de Emma Goldman.
27
Piotr Kropotkin (1842-1921) foi um geógrafo, biólogo, filósofo, cientista político e ativista
anarquista russo.
28
GOLDMAN, Viviendo mi vida, p. 286.
29
viver essa
diferença O indivíduo, a sociedade e o estado, p. 33).
30
Talvez por isso, Goldman, ao disputar a noção de emancipação feminina, trouxe para o centro do
debate a importância da educação sexual e do autoconhecimento, tanto no que diz respeito ao
corpo quanto à mente. Além de muitas outras questões, ela defendia o acesso a métodos
contraceptivos e o direito das mulheres de viverem suas próprias vidas, indo além da moral de
rebanho.
31
Essa dupla tendência pode parecer paradoxal, mas não o é.
32
-
Albert Camus (CAMUS, O mito de Sísifo).
33
Neste ensaio experimental, criamos algumas categorias para caracterizar uma parcela existente
dentro de alguns círculos reivindicatórios do século XX. Os arquétipos aqui traçados não explicam
essas pessoas e agrupamentos em sua totalidade, nem exploram sua complexidade, uma vez que
esse não é nosso objetivo. Aqui, os arquétipos são usados como um meio de analogia mais
didática para ilustrar como Emma Goldman abordava as questões de sua época, reivindicando a
criação de visões e movimentos que abordassem aspectos ainda negligenciados por muitos.
34
NEWMAN, Do anarquismo ao pós-anarquismo, p. 31.
35
Sendo necessário pontuar que o precursor não é, como muitos insistem em supor, alguém à
frente de seu tempo. O precursor é uma minoria, composta por pessoas capazes de captar as
inquietações de seu tempo de forma inusitada e desviante, porém ainda confinadas em sua jaula
temporal. No presente ensaio, o termo é empregado nesse sentido.
emancipar- 38
Uma defesa que
delimitasse a ideia de emancipação a uma reivindicação pelo sufrágio e ao acesso ao
mercado de trabalho parecia insuficiente para Goldman, tratava-se, portanto, de uma
39
Ela desejava mais. Em sua concepção:
36
GOLDMAN, A tragédia da emancipação feminina.
37
GOLDMAN, A tragédia da emancipação feminina, p. 32.
38
GOLDMAN, A tragédia da emancipação feminina, p. 27.
39
GOLDMAN, A tragédia da emancipação feminina, p. 35.
40
GOLDMAN, A tragédia da emancipação feminina, pp. 34-35.
interpretado co 44
(grifos nossos)
41
puritanismo que se enraizou no sangue anglo-saxão, e mesmo os liberais mais progressistas não
fato, nossos gostos mais íntimos, estão à mercê desse inexorável tirano. Anthony Comstock, ou
qualquer outro policial ignorante, recebeu o poder de profanar o gênio, derrubar e mutilar a
sublime criação da natureza: o corpo humano. Livros que tratam das questões mais vitais de
nossa vida e buscam lançar luz sobre problemas perigosamente ocultados são legalmente
tratados como ataques criminosos, e seus infortunados autores são lançados na prisão ou
La hipocresía del puritanismo, pp. 77; 80). Todas
as citações diretas dessa obra são traduções livres da autora.
42
Anthony Comstock (1844-1915) foi um ativista moral e agente especial dos Estados Unidos. Foi
fundador da Sociedade para a Supressão do Vício em 1872, uma organização dedicada à
moralidade pública e à repressão de materiais considerados obscenos. Ele também influenciou
a aprovação da Lei Comstock, promulgada em 1873, que proibia a distribuição de materiais
obscenos e informações sobre controle de natalidade. Comstock atuou como agente especial dos
Correios dos Estados Unidos, o que lhe conferia poderes de apreensão e detenção para combater
a obscenidade no sistema postal. Ele confiscou e destruiu uma quantidade significativa de
materiais considerados obscenos, incluindo livros, revistas e panfletos. Sua atuação era motivada
por convicções religiosas e moralistas, acreditando que a pornografia e a contracepção eram
prejudiciais à sociedade. Comstock era conhecido por sua abordagem implacável e por
considerar-se um defensor da moralidade pública.
43
Sobre a influência das ideias eugenistas no movimento pelo controle de natalidade, cf.: DAVIS,
Mulheres, raça e classe.
44
DAVIS, Mulheres, raça e classe, p. 212.
Mas esse não era o caso de Emma Goldman. Primeiramente, porque ela reconhecia que
a continuidade de altas taxas populacionais se relacionava com as próprias necessidades
destruído nas 45
Em um mundo onde a maioria dos
nascidos eram destinados as fábricas ou as trincheiras, Goldman propôs um novo tipo de
maternidade.
Emma Goldman relacionava a adesão ao movimento pelo controle de natalidade
46
ou seja, a percepção feminina que não desejava
moídas aos pedaços pelas engrenagens do capitalismo e para serem estraçalhadas nas
trinchei 47
O acesso a métodos contraceptivos também
entre 3 a 5 anos entre cada gravidez, o que por si só lhes daria o bem-estar físico e mental
e a opo 48
Há, portanto, uma
preocupação com o corpo feminino e com a criança dentro da defesa do controle de
natalidade proposta por Goldman.
O acesso a métodos contraceptivos também poderia possibilitar a existência de
famílias menores dentro da classe trabalhadora, o que contribuiria na organização da
classe, já que, em sua visão, com medo de perder o emprego que alimenta as crianças,
ousam
49
50
que se opunham ao controle de natalidade por conta do culto
[...] um movimento que visa libertar as mulheres do terrível jugo e sujeição à gravidez
forçada; um movimento que demanda o direito à cada criança de nascer bem [...] um
movimento que deverá ajudar a libertar o parto de sua eterna opressão; um
movimento que deverá abrir as portas para um novo tipo de maternidade.53
45
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 78.
46
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 79.
47
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 79.
48
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 80.
49
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 80.
50
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 81.
51
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 81.
52
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 82.
53
GOLDMAN, Os aspectos sociais do controle de natalidade, p. 84.
54
Neste ensaio experimental, criamos algumas categorias para caracterizar uma parcela existente
dentro de alguns círculos reivindicatórios do século XX. Os arquétipos aqui traçados não explicam
essas pessoas e agrupamentos em sua totalidade, nem exploram sua complexidade, uma vez que
esse não é nosso objetivo. Aqui, os arquétipos são usados como um meio de analogia mais
didática para ilustrar como Emma Goldman abordava as questões de sua época, reivindicando a
criação de visões e movimentos que abordassem aspectos ainda negligenciados por muitos.
Referências
BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma
teoria performativa de assembleia. Trad. Fernanda Siqueira Miguens. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Trad. Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de
Janeiro: Record, 2018.
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Trad. Heci Regina Candiani. São
Paulo: Boitempo, 2016.
RÉMOND, René. Por uma história política. Rio de Janeiro: Editora FGV,
2003.
WARK, McKenzie. O capital está morto. Trad. Dafne Melo. São Paulo:
Editora Funilaria e Sobinfluencia, 2022.
POVO, DEMOCRACIA E A
AN-ARQUIA DA POLÍTICA:
UMA CRÍTICA AO CONSTITUCIONALISMO A
PARTIR DE JACQUES RANCIÈRE
Reinaldo Silva Cintra 0000-0003-0818-1195
Pesquisador independente
Resumo
O presente trabalho visa colocar em diálogo crítico a tradição do pensamento constitucionalista
e as noções de política e democracia an-árquicas desenvolvidas por Jacques Rancière em seus
trabalhos, através de um tema comum a ambos os campos: o conceito de
de um lado, discutir a natureza essencialista e vaga desse conceito na teoria jurídica, enquanto
fundamento da ordem constitucional e duplo do Estado que, em tese, constitui. Por outro,
apresentarmos as elaborações de Rancière em tor
uma ordem social composta de divisões e hierarquias pretensamente naturais. Concluímos que
a obra de Rancière aponta para os limites do constitucionalismo enquanto pretenso regime da
uniformidade e do consenso, sem, contudo, advogar pela sua total desconsideração. Mais do
que uma troca de paradigmas, a democracia rancièreana aposta numa repolitização dos
momentos constituintes enquanto cenas do dissenso em torno do sentido e do alcance dos
Palavras-chave
Constitucionalismo; Democracia; Jacques Rancière; Poder Constituinte; Povo.
1. Introdução
coletivo da Modernidade. A ambiguidade inerente a essa palavra foi resumida por Giorgio
formas.
e, por
1
ROUSSEAU, Do contrato social, p. 65.
2
AGAMBEN, Meios sem fim, p. 25.
3
BUTLER, Corpos em aliança e a política das ruas, p. 224.
Jellinek,
o povo enquanto
enquanto
objeto da atividade deste mesmo Estado, sujeito de deveres. Dessa forma, para Jellinek,
na ausência de uma associação de indivíduos com vistas a estabelecerem-se enquanto
sujeitos de direito submetidos a um ordenamento jurídico comum, não há povo. 4 A força
da conceptualização jellinekiana no Brasil pode ser vista em Paulo Bonavides, que, em
seu manual de Ciência Política
plenamente o conceito de povo. Se há um traço que o caracteriza, esse traço é sobretudo
esse vínculo
fundamental, dá- 5
4
JELLINEK, Teoria General del Estado, pp. 378-379.
5
BONAVIDES, Ciência política, p. 81; DALLARI, Elementos de Teoria Geral do Estado
os que se integram no Estado, através da vinculação jurídica permanente, fixada no momento
jurídico da unificação e da constituição do Estado, adquirem a condição de cidadãos, podendo-
se, assim, conceituar o povo como o conjunto dos cidadãos do Estado
Estado. Seguindo o pensamento sieyèsiano, Ferreira Filho apresenta dois candidatos a tal
posto: o povo e a nação. O primeiro seria um mero coletivo de indivíduos sujeitos a um
poder, marcado pelo individualismo imediatista. Já a nação, a opção preferida pelo abade
Aquilo que era um direito do indivíduo em Rousseau, se torna uma função atribuída pela
nação em Sieyès.8
A superação do sufrágio censitário pelo universal, contudo, acabou aproximando
6
SILVA, Direito Constitucional Brasileiro, p. 45, afirma que só a partir dos anos 1960 os manuais
brasileiros começaram a tratar do tema.
7
FERREIRA FILHO, O poder constituinte, p. 48.
8
FERREIRA FILHO, O poder constituinte, pp. 49-50. A co
romantismo cultural do século XIX, simbolizado por autores como Herder e seu conceito de Volk,
do que de Sieyès. Ficam em aberto os pontos de ligação desse romantismo, em especial o alemão,
com a teoria do Estado desenvolvida por autores como Jellinek já na virada para o século XX.
9
FERREIRA FILHO, O poder constituinte, p. 54.
A obra de Ferreira Filho chama a atenção do leitor, meio século depois, por
apresentar uma coleção de dogmas e perspectivas que, até hoje, balizam a investigação
do poder constituinte, mesmo entre constitucionalistas que se afastam do
conservadorismo político daquele autor. O primeiro ponto a merecer destaque é o da dupla
exemplar por
todos os ordenamentos jurídicos, mas também o sujeito dessa produção, uma atividade
11
Ora, a opção de Ferreira Filho, e de todo o
constitucionalismo brasileiro que o seguiu, foi a de tratar do poder constituinte
eminentemente como uma função jurídica, força normativa que, em boa medida,
independe do seu sujeito para ser conceituada. Daí a preocupação constante dos autores
em catalogar as características demiúrgicas dessa força: sua permanência,
incondicionalidade, ilimitação, caráter inicial e superioridade normativa. Logo, é preciso
um
-
10
FERREIRA FILHO, O poder constituinte, p. 55.
11
NEGRI, O poder constituinte, p. 1.
12
Paulo Bonavides distingue, canonicamente,
Mesmo 14
por Sarmento e Souza Neto entra em dissintonia com a crítica feita logo em seguida à sua
12
SILVA, Poder Constituinte e Poder Popular: estudos sobre a Constituição, pp. 83-85.
13
BONAVIDES, Curso de Direito Constitucional, pp. 153-157.
14
SOUZA NETO; SARMENTO, Direito Constitucional, pp. 248-250. A expressão é de Carré de
Malberg.
15
BERCOVICI, Soberania e Constituição, pp. 134-154.
16
Para uma genealogia das coletividades políticas em disputa no contexto do Iluminismo francês,
cf. OLSON, Imagined sovereignties, pp. 54-92. Destaque para a tese do autor de que, enquanto
c
incompatibilidade de origem de regimes jurídico-políticos oligárquicos com o atendimento
Bonavides ainda toma como pressuposto uma unidade popular permanente e substancial,
cuja vontade soberana é dada como evidente
19
20
O resultado dessa absorção é que qualquer reivindicação desse nome precisa ser,
necessariamente, vinculada a uma exigência de caráter estatal uma transformação
legislativa, uma inserção institucional para ser reconhecida como tal. As possibilidades
ontológicas liberadas pelo poder constituinte são, mais uma vez, aprisionadas pelo
Estado, a única forma-de-vida possível. A soberania popular se afasta da noção de
agência política coletiva, de autodeterminação potencialmente múltipla, e se reduz a um
sistema unitário de controle de votos, de fronte
poder constituinte, somente pode sê-lo na medida em que se submete a uma organização
são outros: os
juristas intérpretes e aplicadores desse documento. Esta é uma característica marcante
-
Segunda Guerra que procurou superar o positivismo, em direção a uma concepção menos
técnica e mais valorativa das normas constitucionais. No Brasil, é possível visualizar, de
A primeira (que, em sua maioria, viemos debatendo nos parágrafos anteriores) participou
ativamente da redemocratização dos anos 1980, sendo composta por autores como José
Afonso da Silva, Paulo Bonavides e Dalmo Dallari, aos quais podemos incluir, como
todos críticos do liberalismo oligárquico brasileiro e
porta- -
19
BONAVIDES, Curso de Direito Constitucional, pp. 161-169; BERCOVICI, Soberania e Constituição,
p. 35-36. Vale ponderar, ainda, até que ponto esta crítica não ignora a própria matriz teórico-
institucional de formação dos regimes políticos capitalistas da Modernidade-Colonialidade que
informa conceitos como democracia, oligarquia, povo e nação tal como proposto, por exemplo,
por Susan Buck-Morss a respeito da relação entre escravidão e Iluminismo.
20
NEGRI, O poder constituinte, pp. 2-3.
21
NEGRI, O poder constituinte, pp. 28-29.
dirigente.22 A segunda geração, a partir do final dos anos 1990, surge já num contexto de
consolidação do regime constitucional de 1988, com ênfase na busca por uma maior
efetividade e aplicabilidade dos direitos fundamentais, através do fortalecimento da
atuação do Poder Judiciário. O principal formulador teórico dessa geração é Luís Roberto
Barroso, seguido por autores como Gilmar Mendes, Daniel Sarmento e Cláudio Souza
Neto.
constitucional.26
a vagueza da geração dos anos
o que já é um avanço diante de autores como Barroso ou Gilmar Mendes, que sequer se
22
Ferreira Filho certamente pertence à mesma geração, mas dificilmente pode ser encaixado na
político-intelectual com a base de sustentação do regime militar de 1964 e, depois, com o Centrão
conservador da Constituinte de 1987-88.
23
BARROSO, Curso de direito constitucional contemporâneo, pp. 151-152.
24
Respectivamente, BARROSO, Curso de direito constitucional contemporâneo
sua obra são pautados tanto pela realidade fática como pelo Direito, âmbito no qual a dogmática
pós- Direito
constitucional brasileiro, pp. 46-47; SOUZA NETO; SARMENTO, Direito Constitucional, p. 254
25
BARROSO, Curso de direito constitucional contemporâneo, p. 84.
26
SOUZA NETO; SARMENTO, Direito constitucional, p. 262. Um evidente questionamento a essa
perspectiva é até que ponto essa agência popular pode ser exercida quando a interpretação
constitucional é, fundamentalmente, um processo judicial, técnico e burocrático, que permite a
intervenção de poucos sujeitos. O tema retorna no terceiro tópico.
preocupam com esse tema. A grande preocupação desses autores é com a legitimidade,
27
nesse arranjo que privilegia fortemente o Estado e seu sistema de rotinas jurídicas e
administrativas. Recentemente, Virgílio Afonso da Silva lançou uma provocação aos seus
pares que, apesar de breve, é significativa. Sim, a titularidade popular do poder
ou seja,
enquanto mito, e na prática reduzido aos termos da própria norma jurídica, talvez não
exista como tal
além da negação como ideologia de Ferreira Filho ou da aura algo romântica dos
progressistas. O próprio Virgílio, no entanto, evita extrair outras consequências dessa
exp -
mudança de perspectiva no Direito é sugerida.28 Nisso, o autor é limitado pelo seu próprio
pacto 29
- 30
27
SOUZA NETO; SARMENTO, Direito constitucional, p. 82.
28
SILVA, Direito constitucional brasileiro, pp. 47-48.
29
SILVA, Direito constitucional brasileiro, p. 33.
30
BARROSO, Curso de direito constitucional contemporâneo, p. 72, associa diretamente o pós-
funções, maneiras de ser e de viver ocupados pelos corpos que participam dele. Toda
gerando relações de dominação e de exclusão. Ora, para que essa estrutura mantenha
sua unidade, essas divisões devem ser naturalizadas, fixadas enquanto identidades dentro
da identidade. Um exemplo dessa configuração é o apólogo de Menênio Agripa aos plebeus
rebelados que se retiraram para o monte Aventino, no século V a.C. Para convencê-los a
retornar aos seus trabalhos e ocupações, Agripa equiparou a estrutura social do corpo
político romano à de um humano: enquanto os patrícios eram o estômago, os plebeus
seriam os membros que levavam comida àquele órgão, mantendo o corpo vivo. Se os
membros se rebelassem, não só o estômago, mas todo o organismo, pereceria.35
Há dois registros fundamentais da partilha do sensível, para Rancière. O primeiro
deles é justamente aquele imaginado não só por Agripa, mas por toda a filosofia política,
desde Platão e
entre uma concepção ordenada do social e a de um governo que represente,
34
RANCIÈRE, A partilha do sensível, p. 15.
35
RANCIÈRE, O desentendimento, pp. 37-40.
parte no ato de governar e de ser governado. Mas essa divisão também pressupunha uma
38
Assim, o animal
político aristotélico se caracterizava pela posse do logos, da palavra que define o que é
justo ou injusto, bem ou mal. Esse dom não era inerente à humanidade. Os escravos, por
exemplo, só possuiriam a phoné, a mera fala que exprime sentimentos, mas não razões.
A capacidade de ser sujeito político, de participar da polis
poderia ser exercida pelos primeiros. Nesses três exemplos, o comum pressupõe uma
esfera do visível, ou do ativo, em contraposição aos corpos e lugares do invisível, do
daquilo que faz, do tempo e do espaço em que essa atividade se exerce. Assim, ter esta
39
36
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 53.
37
RANCIÈRE, Nas margens do político, p. 145.
38
RANCIÈRE, A partilha do sensível, p. 16.
39
RANCIÈRE, A partilha do sensível, p. 16.
40
RANCIÈRE, O desentendimento, p. 46.
como celebrar apoteoses, consultar oráculos ou nomear representantes para falar com o
Senado. Constituindo-se como seres falantes que compartilhavam as mesmas
propriedades da palavra que os patrícios, eles agradecem a fábula de Agripa, mas
condicionam seu retorno a um tratado, um acordo entre iguais que reconhecesse a
mudança ontológica instaurada pelo ato da retirada da plebe, e, por conseguinte, a nova
posição e função daqueles corpos na cidade: não mais a de membros inertes e mudos de
um corpo etéreo, mas de seres falantes, produtores de razões e de configurações diversas
do coletivo.41 A esse registro polêmico do sensível, que contesta a contagem natural dos
41
RANCIÈRE, O desentendimento, pp. 37-38.
42
RANCIÈRE, O desentendimento, p. 42.
43
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 56.
46
44
Apud RANCIÈRE, O desentendimento, p. 26.
45
RANCIÈRE, O desentendimento, pp. 22-25.
46
RANCIÈRE, O desentendimento, p. 46.
47
A permanência do paradigma da constituição mista na história do constitucionalismo moderno,
notadamente anglo-americano, é debatida por BERCOVICI, Soberania e Constituição, pp. 94-134.
48
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 57.
49
RANCIÈRE, Nas margens do político, p. 142.
ethnos demos
50
Esse momento de intervalo é um momento em que os corpos reunidos em assembleia articulam
um novo tempo e um novo espaço para a vontade popular, não uma única vontade idêntica, nem
uma vontade unitária, mas uma que se caracteriza como uma aliança de corpos distintos e
adjacentes, cuja ação e cuja inação reivindicam um futuro diferente . BUTLER, Corpos em aliança,
p. 100-101; RANCIÈRE, Nas margens do político, pp. 145-146.
51
RANCIÈRE issensus: politics and
52
Cf. BALIBAR; WALLERSTEIN, Raça, nação, classe, pp. 84-133.
53
RANCIÈRE, O ódio à democracia, pp. 60-61.
54
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 66.
55
Basta pensarmos na obsessão do conservadorismo brasileiro com a forma como os beneficiários
licial.
Para que tais figuras se constituam como uma nova subjetivação, é necessário que elas
sujeito político é o que se separa da atribuição ao mundo privado, não político, que esses
58
56
RANCIÈRE, O desentendimento, p. 52.
57
RANCIÈRE, Nas margens do político, pp. 143-144.
58
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 77.
59
RANCIÈRE, Nas margens da política
formação de um um que não é um si, mas a relação de um si com um outro (...). Um processo de
subjetivação é assim um p
lasse dominante.
A subjetivação política produz um múltiplo que não era dado na constituição policial
da comunidade, um múltiplo cuja contagem se põe como contraditória com a lógica
policial. Povo é o primeiro desses múltiplos que desunem a comunidade dela mesma,
a inscrição primária de um sujeito e de uma esfera de aparência de sujeito no fundo
outros sujeitos do litígio político. Um modo de subjetivação não cria sujeitos ex nihilo.
Ele os cria transformando identidades definidas na ordem natural da repartição das
funções e dos lugares em instância de experiência de um litígio.60
É nesse título suplementar que reside a política enquanto algo que não se reduz à
mera confir arkhés do nascimento e da riqueza. É esse
pressuposto da igualdade, a sustentar toda estrutura desigual, que o contratualismo
clássico reconhecia ao tratar do consentimento e da legitimidade. Mas é também pela
recusa da democracia de se reduzir a um contrato social, de se substancializar num Povo-
sendo soberano, nunca se submete por completo ao próprio contrato social. Ele sempre
poderá se
como possibilidade de novas representações do comum, nas linhas de fuga das ordens
que legitime a ação dos governantes a partir das leis inerentes ao agrupamento das
61
forma jurídico-política. Isso não quer dizer que lhe seja indiferente. Isso quer dizer que o
p 62
Feitas estas considerações, devemos, agora, analisar como essa concepção an-
arquista da democracia e do povo dialoga com a perspectiva estadocêntrica por
excelência de ambos os termos, o constitucionalismo.
const
do Estado, suas inter-
antes de
qualquer legitimidade democrática, a coesão característica de toda estrutura. Mas há um
60
RANCIÈRE, O desentendimento, p. 48.
61
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 67.
62
RANCIÈRE, O ódio à democracia, pp. 72-73.
63
a representativo do constitucionalismo.
Enquanto subjetivação que desafia uma determinada representação consolidada do social,
litígio entre uma identidade pretensamente natural e uma multiplicidade que a contesta.
O centro da estrutura não é uma essência a ser descoberta; é o local de um conflito
contrato social contestam aquele comum que os inclui pela forma da dominação. Tanto a
política como a democracia não mais se reduzem à efetivação de uma constituição, mas
63
DERRIDA, A escritura e a diferença, pp. 230-231.
64
BARROSO, Curso de direito constitucional contemporâneo, p. 152.
65
PINTO NETO, A matriz oculta do Direito Moderno, p. 12-13; BERCOVICI, Soberania e Constituição,
p. 23. BARROSO, Curso de direito constitucional contemporâneo, p. 84, quase diz isso,
literalmente:
da Constituição
as práticas
políticas que são sempre práticas de divisão do povo, de constituição de um povo
suplementar em relação ao que está inscrito na constituição, representado por
parlamentares ou encarnado no Estado.67
66
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 119.
67
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 97.
68
Como nós, brasileiros, tivemos oportunidade de experimentar nos últimos anos. Neste ponto,
Rancière se aproxima das reflexões de Ernesto Laclau, em A razão populista, e Chantal Mouffe,
em Sobre o político. Não à toa, ambos os autores dialogam diretamente com Rancière nestas e
outras intervenções.
69
RANCIÈRE, O desentendimento, p. 43.
70
RANCIÈRE, O ódio à democracia, pp. 97-98.
71
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 74.
72
RANCIÈRE, O ódio à democracia, p. 92.
73
A alternativa ao estado de exceção econômico permanente e às ameaças de dissolução da
soberania popular, do Estado e do poder constituinte do povo é o resgate mais intenso da
. BERCOVICI, Soberania e Constituição, p. 342.
74
-se a conclusão de que a visão teológica e mistificadora deste poder deve ser
SOUZA NETO; SARMENTO, Direito Constitucional, pp. 278-279.
75
SILVA, Direito Constitucional Brasileiro, p. 47.
A destruição de direitos fundamentais tidos como garantidos vem sendo praticada pelos
instrumentos ordinários do constitucionalismo, como a jurisdição constitucional
(revogação do precedente Roe v. Wade nos EUA, que garantia o direito ao aborto), o
dirigente. É evidente que, no contexto das lutas pela redemocratização dos anos 1980,
essa reivindicação tinha uma clara função performativa de intervenção no debate público:
tratava-se de fortalecer as múltiplas pautas emancipatórias dos movimentos sociais face
às tentativas das oligarquias órfãs da ditadura de controlar o processo de abertura e a
Constituinte. Esse uso ainda persistiu ao longo da história da República de 1988, e pode
ser mobilizado novamente. Contudo, o pressuposto de uma relação necessária entre livre
-
estar Social perderam muito de sua força com a ascensão, em especial a partir de 2018,
de um movimento político de extrema direita, fortemente neoliberal e indiscutivelmente
popular, no Brasil e no mundo. A imagem da multidão nas ruas já não é mais monopólio
da esquerda tos parece menos interessado
em desafiar configurações sociais do que em reafirmar, violentamente, suas hierarquias
e dominações mais seculares, agora ameaçadas.
As considerações de Rancière nos apontam outro caminho. A partir do momento
em que abandonamos
existente num tempo e espaço pré-políticos e pré-jurídicos, que irrompe na realidade
apenas de forma extraordinária e pontual, o problema do poder constituinte pode ser
rediscutido fora do enquadramento mitológico e do signo da farsa. Se a especificidade da
política e da democracia é inserir um suplemento na partilha naturalizada do sensível,
e um poder maior
que pode resistir à 76
enquanto ethnos da polícia e demos da política, entre figura do poder constituído e sujeito
do poder constituinte, entre a democracia enquanto regime e como contestação
permanente dos regimes que reivindicam seu nome. Esta tensão não se reduz aos
momentos revolucionários, tampouco aos congressos e assembleias constituintes; pode
emergir nos mais variados contextos cotidianos e micropolíticos, quando a própria
condição de seres portadores da palavra é reivindicada perante poderes que não os
reconhecem como tais. Quando moradores da favela protestam contra os crimes
cometidos pela polícia em suas operações, por exemplo, eles estão reivindicando para si
se recusa a ver neles portadores daqueles
direitos básicos que, supostamente, eles possuem enquanto cidadãos: o de propriedade,
liberdade e integridade física. Da mesma maneira, grande parte da história da democracia
76
FRANK, Constituent Moments, p. 7.
corpos podem fazer parte dessa subjetividade, e quais estão, em cada momento e luta
concretos, reivindicando esse nome. Nessa chave de análise, a crise constituinte é uma
crise de subjetivação inerente àquilo que se convencionou chamar de soberania popular.
Ao invés de um excepcional poder constituinte, a pressupor um povo unido e
impostores,
radicais, entidades autocriadas assumem o manto da autorização, mudando as regras
78
em termos rancièreanos, quando a parte dos
sem parte toma para si o nome do universal, questionando sua exclusão daquilo que,
supostamente, é o comum da sociedade estamos diante de um momento constituinte,
emancipatória. Mas, tanto num caso como no outro, estamos diante do componente
necessariamente desconstrutivo de toda política democrática. Como pontua Oliver
Marchart, enquanto projeto político, a democracia sempre vai exigir algum tipo de
estabilização institucional, ao mesmo tempo que nega a possibilidade dessa estabilização
se converter em arkhé, fundamento absoluto e definitivo. Nessa tensão permanente entre
ordem e subjetivação, sempre surgirão brechas pelas quais os múltiplos autoritarismos
e fascismos poderão se infiltrar.79 A única resposta que a democracia pode oferecer são
novos momentos constituintes, novas cenas de dissenso que neguem a tentativa dos
fascismos de restaurarem o nascimento e a riqueza como os princípios últimos da vida
humana. Num momento em que os avanços do reacionarismo usam, sem maiores
problemas, os órgãos do governo limitado e as simbologias do velho revolucionarismo,
talvez seja mais interessante, para a teoria e a prática, mudar o foco do poder para o
momento constituinte, da exceção para a árdua, e muitas vezes esquecida, luta cotidiana
das pessoas comuns.
77
A Lei de Direitos Civis americana, vale lembrar, é de 1964 177 anos depois da Convenção de
80
FRANK, Constituent Moments, p. 33. Nesse trecho, ele se contrapõe ao c
81
RUBIO, Direitos humanos instituintes, pp. 31-36.
82
RUBIO, Direitos humanos instituintes, p. 26.
83
Cf. a crítica de GETACHEW, Universalism after the post-colonial turn, pp. 823-832.
84
RUBIO, Direitos humanos instituintes, p. 30.
Conclusão
O Brasil, nos últimos anos, foi varrido pelo que se convencionou chamar de
teoria democrática radical de Rancière, aponta, ainda que de forma inicial, para esse
impasse e a necessidade, teórica e prática, de lidarmos com ele. O constitucionalismo,
como vimos, parte do pressuposto de que há um consenso social, a ser efetivado por um
conjunto de procedimentos e atores jurídico-estatais. Ao dissociar Estado e democracia,
origem no dissenso precisa ser resgatada, para o bem do próprio constitucionalismo que
reivindica a soberania popular como fonte de legitimidade. A Constituição de 1988 foi, sem
dúvida, um marco na história dos direitos e das lutas populares brasileiras. Se quisermos
resguardar as conquistas por ela simbolizadas, permitidas e consolidadas, o caminho é
devolvê-la aos processos políticos de reivindicação e reinvenção de formas de vida que a
antecederam, e lhe deram significado.
Referências
AGAMBEN, Giorgio. Meios sem fim: notas sobre a política. Belo Horizonte:
Autêntica, 2015.
BONAVIDES, Paulo. Ciência política. 18. ed. São Paulo: Malheiros, 2011.
BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma
teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2018. Ebook.
OLSON, Kevin. Imagined sovereignties: the power of the people and other
myths of the modern age. Cambridge: Cambridge University Press, 2016.
SILVA, José Afonso da. Poder constituinte e poder popular: estudos sobre
a constituição. São Paulo: Malheiros, 2002.
Resumen
El objetivo de este artículo es esbozar determinadas relaciones entre presente, anarquía,
teatro, acedia y transformación convocando una determinada estera filosófica contemporánea
a partir de Nietzsche y optando por la forma abierta de un ensayo. En esta ocasión los nombres
filosóficos en escena se escogen como operadores instrumentales que se insertan en una
senda teatral que crea su propio escenario, asumiendo por esto su necesaria limitación
histórico-filosófica y privilegiando la presentación y mapeo de la temática del movimiento
anárquico del presente. Siguiendo ese pliegue reflexivo la estructura del artículo se explicita
como un abrir las cortinas del teatro del presente (I); un vislumbre contemporáneo de las
temáticas en escena recogido mediante los personajes Nietzsche, Foucault y Veyne (II); una
abertura filosófica que remite al escenario de la antigüedad y busca dibujar una posible ligación
temática entre teatro, presente y acedía, en que reaparecen determinadas contribuciones
puntuales de los personajes de la escena anterior (III); y, finalmente, como cierre de cortinas
del teatro del presente, la materialización de determinadas interrogantes en abierto localizadas
en el flujo de la temática de la transformación, recogiendo investigaciones actuales en nuestros
propios escenarios (IV).
Palabras clave
Presente; anarquía; teatro; acedia; transformación.
pesadilla. Después de este sueño Zaratustra demora mucho para recuperarse y enfrentar
su presente: él permanece 3 días sin comer y sin levantarse... Es la presencia de sus
discípulos (der Jünger) que le permite abandonar su lecho y su tristeza. Ellos lo ponen en
pie y aceptan su pedido para descifrar esa pesadilla, realizando una interpretación de vida
y de fuerza, como si fuera el sueño de un vocero de la vida (Fürsprecher des Lebens).
Interpretación ante la cual el movimiento de cabeza negativo de Zaratustra muestra lo
poco que en ella cree. Pero, tanto la compañía de los discípulos, como la interpretación
del sueño le permiten abandonar su estado de cansancio, apatía e inacción. Cabe
preguntarse si Nietzsche, mediante esa imagen, no estaría describiendo el estado
conocido como acedía o demonio del mediodía. El caso es que Zaratustra terminará
1
NIETZSCHE, Also sprach Zarathustra, pp. 136-140. Todas las traducciones que remiten
directamente a los originales en francés y portugués son de mi autoría y en alemán contaron con
el auxilio de Susanne Bartsch.
2
GOLDSCHMIDT, , p. 168.
3
NIETZSCHE, Obras incompletas, p. 75. NIETZSCHE, Considérations inactuelles 1 et 2 /
Unzeitgemässe Betrachtungen I und II, p. 322-325.
4
NIETZSCHE, Así habló Zaratustra, p. 232
5
FOUCAULT, , p. 770.
6
MUÑOZ, Ariadne/Artemidoro: máscaras liberadoras?, p. 175-188.
Foucault de este artículo de 1970, era en el francés del presente que Brisset encontraba
estado de juego, en el momento en que los dados son lanzados, donde los sonidos aún
rolan (roulen) dejando ver sus fases suce 9
También en los escritos de los años 80
la dimensión temporal vuelve a ser explicitada y está localizada no como un tema, sino
nuevamente entre cuidadosos análisis sobre huéspedes-creadores. En este aspecto es
posible destacar Pierre Boulez.10 La música de Boulez es caracterizada por su movimiento
perpetuo, em que nada permanece fijo: ni presente, ni pasado. Ambas dimensiones se
encuentran en movimiento, una por relación (rapport) a la otra, no para encontrar una
figura envolvente, una estética universalizante, sino por necesidad de coyuntura. Se trata
así de la doble transformación simultánea del pasado y del presente por el movimiento
que separa (détache) uno del otro a través de la elaboración del otro y del uno.
Actualización de lo que emergía, desde el Theatrum Philosophicum11, como la atractiva
posibilidad de, en el presente, lanzar reglas y dados al mismo tiempo. Si seguimos el
análisis foucaultiano de Brisset, tendríamos que subrayar el movimiento del presente en
el cual los dados aún muestran sus caras sucesivas; al seguir la audición foucaultiana de
la música de Boulez, tendríamos que enfatizar, en el presente, la fuerza de romper las
reglas en el mismo acto que se las hace jugar. Se asume así, mediante esas formas, el
movimiento anárquico de las arenas movedizas del presente, donde simplemente, y
segundo la coyuntura, es posible vislumbrar algunas marcas de los dados del pasado.
Rescatemos otra perspectiva, por intermedio del nombre del historiador-filósofo
Paul Veyne, que practica el alpinismo en la dimensión del juego. Una de sus constantes y
diversas afirmaciones dirá que: para tener ideas sobre el presente hay que tomar partido,
12
Él llega a mencionar sus apuestas en caballos ganadores: René Char y
7
MUÑOZ, Foucault e a liberdade após as Luzes, p. 150-156.
8
Me permito mencionar algunos desarrollos exhaustivos de esa problemática realizada por
jóvenes investigadores brasileños: DOTTO, Usos da liberdade e agonismo em Michel Foucault, p.
112-139; GOMES DA SILVA, Como pode o homem escapar de si mesmo? Uma leitura ficcional de
Michel Foucault, pp. 43-46.
9
FOUCAULT, Sept propos sur le septième ange, p. 14.
10
FOUCAULT, , p. 219-222.
11
FOUCAULT, Theatrum philosophicum, p. 75-99.
12
VEYNE, A História Uma paixão nova (mesa-redonda), p. 28-30.
antiguo en el juego contemporáneo. En este juego del presente esa carta se tornaría una
filosofía del repliegue (repli
15
No fue solo eso en su tiempo, pero algunos textos permitirían
verlo de ese modo ; con ellos soñaríamos haciendo una exploración abusiva, al inserirlos
16
El actor no es responsable ni del personaje que le fue confiado, ni del tiempo que
dispone para actuar. Todo lo que se le pide y todo lo que depende plenamente de él es
actuar lo mejor posible, a cada instante y por el transcurso temporal (longtemps) que
18
13
VEYNE, Avant-propos, Préface (Sénèque), p. VI. moi
sin dios, ya que el dios estoico sería igual al hombre.
14
Leyes que, sin embargo, no podríamos entender en sentido universal. Para Nietzsche continuaba
invente su propio imperativo. A
partir de lo cual cabe preguntarse: ¿de esa forma también tendríamos que pensar las leyes a sí
mismo moi
15
VEYNE, Avant-propos, Préface (Sénèque), p.V.
16
Veyne se refiere especialmente a las Cartas a Lucilio de Séneca.
17
TORDESILLAS, Hablar en su debido tiempo, p. 347.
18
GOLDSCHMIDT, Le système Stoicien , p. 178.
¿Qué sucede cuando no podemos actuar? Interrogación que nos permite saltar
rápidamente hasta el demonio del mediodía. Según Tomás de Aquino el demonio del
medi tristitia de bono interno 19 en la medida que recoge, como explicitación del
fenómeno de la acedia, la imposibilidad de enfrentar el presente. Acedia que se retoma,
no por azar, en los estudios contemporáneos que la ligan o desligan de la melancolía, que
estudian su sustitución por la pereza como pecado capital, o que la reinsertan como
octavo pecado capital (como será en la filmografía de Raúl Ruiz).20 Aproximándonos
solamente de un aspecto de la acedia, en este caso, el de la imposibilidad de actuar en el
presente, podríamos decir que ese antiguo demonio del mediodía está operando,
veladamente tal vez, en los actuales diagnósticos que piensan los nihilismos que nos
rodean, la sociedad actual como sociedad del cansancio y hasta en la depresión y sus
tratamientos, considerada como enfermedad característica de nuestra actualidad.
Aspectos que indudablemente tendríamos que ligar a otros campos, mas allá de los
filosóficos-ficcionales que aquí comenzamos a esbozar. Sin embargo, estos diseños
rudimentales podrían devenir en aspectos que, posteriormente, permitiesen ampliar y
direccionar hacia perspectivas transdisciplinares para evaluar las relaciones de prácticas
o inacciones actuales en relación con el presente anárquico y sus posibilidades, o
imposibilidades, de acoger el movimiento de transformación.
Así, por ejemplo, y encadenado a la línea de inacciones, ¿no sería el momento de
pensar en las fulguraciones de pensamientos en las cuales surge como una refrescante
necesidad actual el estudio de los ángeles y de los demonios? Cito Agamben en una
reflexión de agosto de 2022:
La historia está hecha de seres divinos y aún no divinos, humanos y aún no humanos:
-
únicas claves para interpretar la historia son la angelología y la demonología, que ven
en la historia - como lo hicieron los Padres y el propio Paulo al denominar ángeles (o
demonios) las potencias y los gobiernos de este mundo - una lucha sin tregua entre
menos que dioses y más (o menos) que hombres. Y si algo podemos decir sobre
nuestra condición presente es que hemos visto con inusual claridad, en los dos
últimos años, los demonios operando ferozmente en la historia y los poseídos (o
endemoniados) siguiéndolos ciegamente en su vana tentativa de expulsar para
siempre los ángeles - aquellos ángeles que ellos mismos fueron, antes de su caída
infinita en la historia.21
19
GIANNINI, El demonio del mediodía, p. 106
20
RUIZ, Entrevistas escogidas-filmografia comentada, p.219-221.
21
AGAMBEN, Angeli e demoni, online.
22
NIETZSCHE, Obras incompletas, p. 94.
los estudios de los ángeles y de la transubstanciación. 23 ¿Se inventa así otra anunciación
traída por el ángel Zaratustra? En todo caso la buena nueva, que trae como un presente
el anuncio del supra-hombre (Übermensch), operaría como la invención del sabio para
24
pero materializa la creación del movimiento para alcanzar la meta. La
invención posibilita la salida de la acedia. ¿No sería también el caso de la invención de
compañía en el presente efectivar lo que se ve viniendo? ¿No estaría materializada a
través de los animales y de los discípulos de Zaratustra y, por qué no, de los filósofos del
porvenir?
En todo caso, y citando uno de esos prólogos, invención, transformación,
transubstanciación, transmutación era la acción practicada que le permitiría combatir la
gravedad de la: enfermedad, soledad, extrañeza, acedia, inacción (Krankheit,
Vereinsamung, Fremde, Acedia, Unthätigkeit),25 enfatizando de esa forma que a todo
instante él lidiaba y resistía inventivamente a la acedia, o sea, aquel demonio del mediodía
cargado por la tristeza y tedio del presente. Podemos decir que Nietzsche usa de la
duplicidad de la acedia...Sus dos caras: inacción, cansancio, postración y, por otro lado, la
posibilidad y práctica de la invención. Como ha sido pertinentemente investigado la acedia
deviene creat
un fabuloso escenario, un esbozo teatral en el cual él, que antes se encontraba con su rol
perdido, se percibiese de nuevo actuante, capaz de inventar nuevas máscaras en el palco
26
perverso de este 27
lo eterno sin unidad). En ese espacio discursivo de invención y repetición Foucault retorna
material y lateralmente (mediante el enano, el vocero Zaratustra, la serpiente y la astucia
del círculo) al Portal denominado Instante (Augenblick). Recordemos que, según la
caracterización de Foucault en ese teatro, Zaratustra es al mismo tiempo el Fürsprecher
signo
.28
23
NIETZSCHE, Götzen-Dämmerung, p. 31.
24
VEYNE, Avant-propos, Préface (Sénèque), p. 27.
25
NIETZSCHE, Obras incompletas, p. 94.
26
CAVARGERE, O demônio em cena: um ensaio sobre a comédia humana, p. 11.
27
CAVARGERE, O demônio em cena: um ensaio sobre a comédia humana, p. 13.
28
FOUCAULT, Theatrum philosophicum, p. 96-98.
29
VEYNE, Sénèque, p. 823.
30
STEPHAN, Amor pelo avesso: de Afrodite a Medusa, p. 132-142.
De esta forma explicito el tema esbozado en esta ocasión como una resistencia
afirmativa frente al gesto que niega el anarquismo del presente, que pretende controlarlo
y domesticarlo evitando la caída en el mar o en arenas movedizas y pantanosas. Me refiero
así a la resurrección del antiguo tema de la transformación. 31 En el devenir de la escrita
¿No fue entonces una simple coincidencia referirnos a determinados nombres
contemporáneos? ¿Nombres (Nietzsche, Foucault, Veyne) em que uno de sus puntos de
contacto seria precisamente el énfasis en la transformación de sí que, de diversas formas,
abarcaría la de los otros? Porque es en el presente, como efectuación del memento vivere,
como teatro, como juego o como apuesta, que se experimenta el movimiento inventivo
frente a la acedia como demonio del mediodía. Sin embargo, él se extiende también, como
movimiento transformador y resistente al enfrentar un amplio enemigo político: el
demonio de la momificación conservadora. Finalizo con las palabras de Brecht retomadas
y repetidas por Georges Didi-Huberman:
Los hombres en el poder odian las transformaciones, les gustaría que todo
permaneciese inmóvil, y, si fuera posible por mil años, que la lucha terminase y que
el sol interrumpiese su curso. Entonces, nadie más tendría apetito y no pediría
comida. Nadie más reclamaría cuando ellos abriesen fuego, su descarga sería
obligatoriamente la última.32
Referências
31
MUÑOZ, Armadilhas, humor e transfiguração: M. Foucault, P. Veyne, p. 120-144.
32
DIDI-HUBERMAN, Quando as imagens tomam posição, p. 86.
SOBRE LA AUTORA
-coordenadora y Coordenadora
E-mail:
hilacha@[Link].
NEOLIBERALISMO, CONTRARREVOLUÇÃO E
PÓS-FASCISMO NO BRASIL*
Augusto Jobim do Amaral 0000-0003-0874-0583
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Resumo
O presente ensaio tem como objetivo delinear a configuração política no Brasil desde uma
-
principais de reflexão: (1) demonstra como o neoliberalismo vampiriza a liberdade, fazendo
desaparecer futuros possíveis pelo esgotamento de energias e pelo solapamento de
imaginação; (2) aponta a necessidade de se mover mesmo sem esperança e para além do
medo, com uma capacidade de agir alegre de estar, fazer e lutar juntos, em favor de uma força
real que arrisca o impossível como condição primeira e última e (3) analisa, primeiramente, a
operatividade da contrarrevolução brasileira em termos gerais políticos e históricos para
alcançar o estatuto político na atualidade, ou seja, para além de um regime suicidário, sustenta-
se a presença de uma condição de paz do terror ou da sobrevivência. Como conclusão, que se
esboça ao longo do texto, experenciamos a ultrapassagem de um fascismo como montagem
micropolítica de guerra total para um governo pela paz do terror na forma de mera
sobrevivência.
Palavras-chave
Neoliberalismo; fascismo; contrarrevolução; Brasil.
Keywords
Neoliberalism; fascism; counterrevolution; Brazil.
Introdução
escutar as informações contidas no texto, pronto para dele ser extraída a interpretação
correta dele e da realidade. Por outro lado, atrai-me um diferente problema de tradução:
que os discursos e seus autores procurarão deflagrar, importa antes escutar o ritmo da
realidade. Com suas intensidades, é fazer com o que o novo dela não se perca, o inusitado
que, portanto, fará ver de outro modo e transformar a mirada, ou seja, mudar nossa
maneira de fazer e pensar. Desta forma é que se poderia valorizar um intento como este,
mesmo no limitado espaço, de refletir sobre questão tão importante quanto a condição
política no país nesta quadra da história.
interessante seria
possível.1 Mais do que uma ideologia, um regime político ou ainda esquema econômico,
importa insistir que se trata de um modo de vida que forja nossas relações consigo e com
os outros. Longe de uma derivação coordenada de classe dominante, está mais afeita aos
conflitos concretos. Assim, a pergunta central está dirigida a apontar através de que
técnicas se exercem cotidianamente suas violências.
Este será o pano de fundo para que possamos indicar o caminho pretendido por
este ensaio ao colocar as afinidades entre as práticas neoliberais e o fascismo. Apenas
deste modo é que, a seguir, conseguimos refletir sobre a clausura afetiva e a melancolia
de forças progressistas dispostas pelo medo e ceifadas em suas energias de organizar
futuros outros. A estratégia privilegiada para refletir neste ponto importará uma analítica
libidinal do fascismo, em especial desde suas investidas contrarrevolucionárias. Neste
ponto, é que o principal argumento pode emergir ao se indagar se não estaremos noutro
estágio de um regime, não apenas mobilizado pela guerra total fascista, mas nos limiares
de uma condição distinta, que longe de superar a outra, governa-a exatamente por uma
pacificação terrífica, quer dizer, desde uma guerra de sobrevivência na forma de paz.
1
HARDT. The common in communism, p. 141.
2
FOUCAULT, Nascimento da biopolítica.
3
DARDOT; LAVAL, A nova razão do mundo.
4
DARDOT; LAVAL, A nova razão do mundo, p. 71 ss.
5
FISHER, K-Punk, v. 3, pp. 124-125.
Não será à toa que se poderá apontar para a consolidação daquilo que consagrou
7
na violenta demolição do governo de Allende no Chile
em 1973 e sua experiência de um socialismo democrático. Extirpar esta ideia e fazer
izar a sociedade requer
enorme esforço cultural. Sua inevitabilidade sem dúvida passou pelo fracasso das
esquerdas naquele momento com o repúdio dos sonhos desatados pela contracultura e
sua incapacidade de se ver implicada neles. Antes de dizer de maneira falsa que os
sessenta conduziram ao neoliberalismo como costuma indicar um relato facilista
sempre em momentos de profunda experiência de abertura e oportunidade , melhor
entender a habilidade, a energia e a imaginação despregadas nestes momentos, até
mesmo para melhor ler como opera a contrarrevolução neoliberal. O Novo espírito do
capitalismo8 provém exatamente disto: de como estas forças reacionárias souberam
amarrar, digamos melhor, vampirizar9 e obstruir projetos, fazendo desaparecer futuros
possíveis.
A crença de que não há alternativa ao neoliberalismo por mais tragédia que se
acumule no seu horizonte é exatamente viável porque ele estabeleceu um futuro, procurou
se vender como único viável e logrou êxito. O neoliberalismo capturou e absorveu
exitosamente o descontentamento com o esquerdismo burocrático centralizado, bem
exposto pelo maio de 68 francês (que na Itália, por exemplo, se estendeu por quase uma
década10). Sobretudo, ele soube metabolizar os desejos de liberdade e autonomia que ali
emergiam. Longe de poder se dizer que estes conduziram a ascensão daquele, muito mais
fundamental é perceber o fracasso dos progressismos diante das novas aspirações.
Analisado este sintoma talvez encontremos uma encruzilhada preciosa de ser
vista. Franco Berardi11
os Sex Pistols no future
imaginado o quanto isso se tornaria senso comum, fruto de uma espécie de esgotamento
de energias e solapamento de imaginação. Nosso estreitamento de habilidades de
produção de futuros parece ter-se tornado flagrante. No 68 francês, estendido no 77
italiano, porque não dizer também, em algum sentido, dez anos depois do 2013 brasileiro
e noutros vários acontecimentos no sentido forte
6
MARCUSE, Eros y Civilización, p. 95.
7
FISHER, Realismo Capitalista.
8
BOLTANSKI; CHIAPELLO, O novo espírito do capitalismo.
9
MARX, El Capital, pp. 278-9.
10
BALESTRINI; MORONI, L´orda d´oro 1968-1977.
11
BERARDI, Depois do Futuro, p. 69.
12
BERARDI, Depois do Futuro, p. 64.
14
Apenas acrescentaríamos neste ponto, desde logo, mesmo sob pena de irmos
rápido demais no espaço deste ensaio (ainda que retornemos no próximo tópico a isto)
15
, por assim dizer, habilidade para criar futuros
possíveis, para que exatamente fuja das tendências finitas e que perceba as capacidades
comuns, de modo radical, não deixa de ser interrogada pelo que impinge seus
mecanismos de emergência. Para se pensar propriamente seu regime de possibilidade,
quer dizer, a estrutura destes espaços de possibilidade16, não poderá a pergunta se dirigir
or justiça ao lema.17 Assim, ao nosso juízo, a exigência não
deixará de ser convocada desde o impossível. Para que esta diferença política radical
possa ser possível e atualizável, para que não se ampute o acontecimento, é o impossível
que se convoca, algo que atravessa assimetricamente, que não espero vir, irredutível a
qualquer horizonte de projeção.18
Os limites do possível sempre dependerão do por vir impensável, indizível,
irrepresentável e inconcebível, mesmo que vinculado a ele numa contaminação
inextrincável: aporia que o dis-põe como assimétricos e complementares. Em última
medida, esta contaminação sempre está aqui. Há impossível no possível possível apenas
como experiência aporética do impossível: im-possível. E este outro an-árquico do
possível, frise-se, não se deixa idealizar como privativo ou relativo ao que possa reenviar
indefinidamente. Apodera-se aqui e agora velmente real
então, em última instância, deste lugar que é preciso falar: a propósito de um espaço
anterior a qualquer determinação, que necessariamente nem é o lugar a partir nem em
vista sibilidade de um tal
19
13
BERARDI, Depois do futuro, p. 43.
14
BERARDI, Depois do futuro, p. 66.
15
BERARDI, Futurability.
16
DeLANDA, Philosophy and simulation, p. 05.
17
Para Derrida, se o direito é essencialmente desconstruível, sobretudo porque seu fundamento
último não é fundado, a justiça
desconstrução é a justiça or isso a consequência
com isso para entender por que um regime febril, moribundo, que se arrasta como zumbi,
como lembra Mark Fisher,20 teima em se manter como única alternativa e difícil de matar.
Dificilmente se esquece a entrevista clássica da Hayek ao jornal chileno El
Mercúrio em 12 de abril de 1981 que, através de sua honestidade inegável, comentando
às vezes é necessário que um país tenha, uma forma ou outra de poder ditatorial.
Como você entenderá, é possível que um ditador governe de maneira liberal. E
também é possível que uma democracia governe com total falta de liberalismo.
Pessoalmente, prefiro um ditador liberal a um governo democrático sem
liberalismo.21
Entretanto, insistiríamos ainda, de fato, na lição mais aguda que seu discípulo
Milton Friedman colocou no prefácio de 1982 em sua obra prima Capitalismo e liberdade:
provocações, mostra até que ponto a posição desta inteligência radical de esquerda está
24
A lição conduz ao âmago do que viemos insistindo: qualquer ideia
de um modo realista politicamente que pretenda enfrentar a condição neoliberal deve-se
haver com o sintoma do fracasso em responder adequadamente ao descontentamento
como única política, em favor de uma força real que reivindica o impossível até que se
transforme no politicamente inevitável.
Não existe um desejo natural ao neoliberalismo.25 É de montagem libidinal, a rigor,
que se trata. Mais do que propriamente uma identificação positiva com neoliberalismo,
trata-se em geral de sua naturalização através da despolitização operada por sua visão
de mundo. Seu realismo está neste tipo de apelo: cada um por si, fracasso e o sofrimento
20
FISHER, K-Punk, v. 2, p. 401.
21
HAYEK, El Mercurio, p. D8-D9.
22
FRIEDMAN, Capitalism and Freedom, p. xiv (grifo nosso).
23
, Suspended Animation.
24
BENJAMIN, Melancolia de esquerda, p. 139.
25
FISHER, K-Punk, v. 2, p. 482.
26
THATCHER, Interview for Woman´s Own (´no such thing as society´).
27
JAPPE, As aventuras da mercadoria.
28
GRAEBER, Of flying cars and the declining rate of profit.
29
BROWN, Resisting left melancholy.
30
VIRILIO, A inércia polar.
31
BENJAMIN, Melancolia de Esquerda, p. 138-141.
32
FISHER, Los fantasmas de mi vida, p. 55.
33
FISHER, Los fantasmas de mi vida, p. 42.
34
DERRIDA, Espectros de Marx, p. 11.
35
HÄGGLUND, Radical atheism, p. 20.
36
DERRIDA, Espectros de Marx, p. 13.
fantasma de algum tipo já era colocado em manifesto por Marx e Engels desde suas as
primeiras linhas em 1848, é pela importância que seu assombro tem para reinventar a
37
No próprio legado que Fisher deixou, há
esperança infinita 44
Questionar este afeto como ativo político é antes
de tudo sentir que é necessário se mover mesmo sem esperança. Não apenas é possível,
mas imprescindível esta postura quando ela é tornada commodity no mercado da
happycracia neoliberal.45 Escreve Brum:
Talvez tenha chegado a hora de superar a esperança. (...) Quero afirmar aqui que, para
enfrentar o desafio de construir um projeto político para o país, a esperança não é tão
importante. Acho mesmo que é supervalorizada. Talvez tenha chegado o momento de
compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil:
criar/lutar sem esperança. O que vai costurar os rasgos do Brasil não é a esperança,
mas a nossa capacidade de enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos
perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido. (...) Fazer como imperativo ético.46
47
era para fazer eco do relato de Spinoza em sua Ética, sublinhando tanto a
37
FISHER, Realismo capitalista, p. 34.
38
FISHER, K-Punk, v. 3, pp. 123-4.
39
FISHER, K-Punk, v. 3, p. 119.
40
FISHER, K-Punk, v. 2, p. 447.
41
MALABOU, Plasticity at the dusk of writing, p. 57.
42
PASSETTI (coord.); AUGUSTO; CARNEIRO; RODRIGUES, Ecopolítica, pp. 187-218.
43
BRUM, Banzeiro Òkotó, p. 236.
44
KAFKA apud BENJAMIN, Magia e técnica, arte e política, p. 142.
45
CABANAS; ILLOUZ. Happycracia.
46
BRUM, Banzeiro Òkotó, p. 245-6.
47
DELEUZE, Conversações, p. 220.
48
Enfim, no
fun
Devemos, nestes termos, antes de tudo, falar da alegria ou da
49
tristeza surgida da imagem da coisa que temíamos ou esperávamos. Se ambos são afetos
tristes reversíveis derivados de nossa incapacidade de atuar, por outro lado sustentará
Spinoza a capacidade de agir
faz fazer
fav 50
força que nos move e que empurra à criação.
Alegria de estar, fazer e lutar juntos, arriscar o impossível como condição primeira e
3. A contrarrevolução brasileira:
-
Mesmo que este im-possível não tenha nome próprio, o desejo não deixa de ser
real. Se ele não tem nome, pouca dúvida resta que é de futuro
é de futuro (...) e vem do futuro (do mesmo futuro em que serão possíveis, uma vez mais,
as novas percepções, desej 54
48
SPINOZA, Ética demonstrada según el orden geométrico, pp. 140 e 172.
49
SPINOZA, Ética demonstrada según el orden geométrico, pp. 159 e 172.
50
SPINOZA, Ética demonstrada según el orden geométrico, p. 150.
51
AHMED, La promesa de la felicidad.
52
FISHER, K-Punk, v. 2, p. 482.
53
FERNÁNDEZ-SAVATER, Habitar y gobernar, p. 267 ss.
54
FISHER, K-Punk, v. 2, p. 483.
55
FISHER, Realismo capitalista, p. 84.
56
FISHER, K-Punk, v. 3, p. 145.
57
FISHER, K-Punk, v. 2, p. 435.
58
MIROWISKI, Nunca dejes que una crisis te gane la partida. ¿Cómo ha conseguido el
neoliberalismo, responsable de la crisis, salir indemne de la misma?
59
Cf. HELLER, Authoritarian Liberalism? , Strong State and Sound Economy.
60
BEY, TAZ Zona Autônoma Temporária.
61
REICH, Psicologia das massas do fascismo, p. 12.
62
JAPPE, A sociedade autofágica, p. 16.
63
FOUCAULT, Preface. In: DELEUZE; GUATTARI, Anti-Edipus, pp. xi-xiv.
64
CHAMAYOU, La société ingouvernable.
Assim é que a lógica neoliberal se coloca. Uma forma de guerra frente ao bom andamento
dos negócios, ou seja, estratégia de despolitização/aniquilação do adversário. Portanto, a
forma empresa é continuação da guerra por outros meios, inclusive jurídicos,
programando legalmente a liberdade, esvaziada de qualquer demanda política, e
naturalizando a submissão e suas violências. Como dito, nada a ver com uma simples
guerra contra o Estado, mas contra aqueles que investem em restringir a livre
concorrência, normalmente tendo a engrenagem estatal como aliada nesta
governamentalidade na mais pura síntese nazista do Estado forte e da despolitização da
sociedade. Por isso, novamente, é necessário lembrar a necessidade do medo, como
catalizador de uma sociedade securitária.65
Na longa e complexa discussão sobre a Contrarrevolução, podemos observá-la,
como fez Bernard Harcourt66 desde os EUA, como um novo modelo político da guerra de
contrainsurgência lastreado por técnicas militares. A sua tese está na atenção aos
domínios de u sem a presença de uma insurgência, insurreição ou
revolução Contrarrevolução
67
Figura que retoma a clássica aproximação de Marcuse no seu texto de 72
quando chamou a atenção para a contrarrevolução preventiva, ou seja, que a defesa do
capitalismo requeria a organização da contrarrevolução. Segundo ele, é preventiva porque
não haveria nenhuma revolução recente para combater ou alguma que estivesse surgindo.
Entretanto, é o temor da revolução que faz o capitalismo se organizar para enfrentar esta
ameaça mais radical.68 No âmbito nacional, a pista foi perseguida por Florestan Fernandes
69
Assim, mesmo que o tema tenha acabado por ser recorrente também desde a
perspectiva neoliberal por exemplo, antes com Hayek70
com Friedman,71 ao afirmar que a Escola de Chicago era uma contrarrevolução contra o
keynesianismo , independente dos caminhos que a discussão tome, flagrantemente
estranho é que, em geral, um texto importantíssimo se perca:
do anarquista Luigi Fabbri. Muito antes de quaisquer destas discussões, em
1921, afirmava em suas reflexões sobre o fascismo que ele, ao corresponder à defesa da
classe dirigente da sociedade moderna, não deve ser identificado apenas com suas
formas oficiais.72 Se nas palavras de Georges Bataille em 33, o fascismo consistia numa
mais de uma 73
década antes Fabbri escrevia que é a ameaça proletária que provocava a fusão da classe
E aqui a classe dominante a que se refere não é apenas a burguesia no sentido clássico,
mas uma amálgama que constitui as categorias mais atrasadas e parasitárias:
65
FOUCAULT, Seguridad, territorio, población.
66
HARCOURT, A contrarrevolução.
67
HARCOURT, A contrarrevolução, p. 25.
68
MARCUSE, Contrarrevolução e revolta, p. 12.
69
FERNANDES, A revolução burguesa no Brasil, p. 310.
70
HAYEK, The counter-revolution of science.
71
FRIEDMAN; FRIEDMAN, Free to choose.
72
FABBRI, La Controrivoluzione Preventiva, p. 30.
73
BATAILLE, A estructura psicológica del fascismo, pp. 34-35.
79
Desde quando fomos forjados como um experimento global de
latifúndio escravagista exportador primário (primeira colônia agrícola do capitalismo
mercantil do mundo moderno, segundo Celso Furtado), 80 já consolidávamos nossa paz
como guerra sem fim. Nossas insu
unidade nacional. Pátria brasileira que lega até hoje como poucas o modo elementar de
81
74
FABBRI, La controrivoluzione preventiva, pp. 31-2 (citações sucessivas).
75
RIGAKOS, Security/Capital.
76
Nesta linha, cf. GOMES, self
estatal.
77
HALPER, War against the people.
78
Neste sentido, mesmo que em perspectivas bastante díspares, entre outros, cf. ARANTES, A
Fratura brasileira do mundo e COCCO, MundoBraz.
79
NEOCLEOUS, War power, police power, p. 24.
80
FURTADO, Formação econômica do Brasil.
81
MBEMBE, Políticas da inimizade, p. 107.
82
FOUCAULT, Em defesa da sociedade, pp. 285-316.
da contrainsurgência por aqui já estava inscrito nos corpos antes mesmo de ser.
Não esqueçamos o resultado deste tipo de política de formação histórica no Brasil
em termos de panorama representativo, ou seja, a política de conciliação bem estampada
mido,
era a de que o consenso conduziria a uma evolução graduação e segura; que a conciliação
com partes progressistas da burguesia nacional e setores das forças armadas garantiria
conquistas aos poucos, mas de modo sólido. Conciliação que se deu também por meio da
institucionalização das lutas sociais e que tem como consequência a despolitização da
sociedade. Vemos bem hoje a que ponto este estado de coisas pode chegar. Como lembra
Vladimir Safatle,84 ao editar as obras de Carlos Marighella, isso até hoje exprime a
destruição no sentido
83
Desde ao menos quatro aproximações diferentes neste vasto campo de análise, mas de algum
modo complementares, ver: CARVALHO, Forças Armadas e política no Brasil; LENTZ, República
de Segurança Nacional; VICTOR, Poder Camuflado e VIANA, Dano Colateral.
84
SAFATLE, Prefácio - Luta armada por substituição, p. 15.
85
SAFATLE, Bem-vindo ao Estado Suicidário e SAFATLE, Para além da necropolítica.
86
VIRILIO, La Inseguridad del Territorio, pp. 17-36.
87
DELEUZE; GUATTARI, Mil Platôs, v. 3, pp. 76-106.
88
FOUCAULT, Em Defesa da Sociedade, p. 311.
89
FOUCAULT, Em Defesa da sociedade, p. 310.
do Estado por uma máquina de guerra. Muito mais suicidário do que total, operando por
linhas de destruição puras, movimento perpétuo de aceleração que mobiliza a morte como
mesmo tempo que o aparelho de Estado se apropria de uma máquina de guerra, que a
máquina de guerra toma a guerra por objeto e que a guerra fica subordinada aos fins do
91
Guerra total que toma por centro não o aniquilamento do inimigo, mas da própria
população.
Se pudermos dar uma volta a mais no parafuso, para tencionar ainda mais o
que avançar recolocando a pergunta noutros termos: e se já não fosse exatamente isso,
mas ainda algo pior, para além das trocas representativas? E se for o caso de indicarmos
a insuficiência desta leitura, tanto na direção da nossa suposta condição necropolítica
quanto mais além ainda na direção da figura (fascista) que converte a guerra num
movimento ilimitado? Ao menos se quisermos percorrer as pistas firmadas por Deleuze
e Guattari, em seu 1227 Tratado de Nomadologia: a máquina de guerra,92 daquilo que
sobremaneira, uma outra figura sucessiva na qual o fascismo não é mais que um esboço.
Se antes, no fascismo, temos uma máquina de guerra que tem a guerra como objeto (como
4. Conclusão
O iminente estágio nos modos de gestão neoliberal comporta uma fase ainda mais
cruel e, quiçá, mais terminal por óbvio, em nada excluindo os possíveis outros
93 94
encontramo-nos, 95
90
DELEUZE; GUATTARI, Mil platôs, v. 3, p. 103.
91
DELEUZE; GUATTARI, Mil platôs, v. 5, p. 90.
92
Sucessivas citações, todas em DELEUZE; GUATTARI, Mil Platôs, v. 5, p. 94.
93
FASSIM, Le moment néofasciste du néoliberalisme.
94
GIROUD, Neoliberal fascism and the echoes of history.
95
LAVAL; DARDOT, Neoliberalismo versión empeorada.
96
Cf. FRANCO, Governar os mortos.
-
tomado como seu objeto a própria guerra (ou seja, a destruição e a mobilização pelo
Estados, foi para afirmar que num primeiro momento (fascista) os Estados se apropriam
de uma máquina de guerra para seus fins. Todavia, assumindo o que sustentam por inteiro,
é preciso seguir o movimento real, este sim fundamental, proposto também por Virilio,
diga-se de passagem, ao cabo do qual, noutro momento, uma máquina de guerra se
apropria dos Estados como simples meios apropriados para suas funções políticas. Em
suma, se o fascismo é uma espécie de niilismo realizado linhas de destruição e núpcias
com a morte, em virtude de uma máquina de guerra que não tem mais objeto senão a
guerra, uma queda da mutação quando perdeu sua potência, enfim, a substituição da
transformação pela destruição esta conversão da guerra em movimento ilimitado é
figura pós- governo pela paz do terror na
forma de mera sobrevivência.
Para finalizar, se a antessala desta condição pôde ser testemunhada, apenas para
ficar no período do governo passado, na torrente de manifestações bolsonaristas
governamentais sucessivas (nosso equivalente cotidiano ao Telegrama 71), quando
superamos mais de setecentos mil mortos oficialmente pela covid-19 (Brasil possui 2,7%
da população mundial com 12,4% das vítimas), é porque tínhamos ultrapassamos algum
estágio que faria disso a caracterização de um regime fascista. Poderemos estar,
portanto, na direção de algo ainda mais profundo que a gestão da morte de grupos
específicos, mais agudo que a emulação da autodestruição, para, assim, experienciar um
estado de pacificação mortal, de gestão terrífica de uma condição de sobrevivência. Enfim
como mestres na contrarrevolução orientada à pacificação/conciliação e destinada a
confirmar o ethos brasileiro , estaríamos vivenciando um regime de inércia cadavérica,
uma paz de cemitérios que, vez mais como laboratório, poderia o Brasil encarregar de se
tornar exemplo para o mundo.
Referências
BERARDI, Franco ´Bifo´. Futurability: the age of impotence and the horizon
of possiblity. London/New York: Verso, 2017.
BERARDI, Franco. Depois do futuro. Trad. Regina Silva. São Paulo: UBU,
2019.
BEY, Hakim. TAZ Zona Autônoma Temporária. Trad. Patrícia Decia &
Renato Resende. Coletivo Sabotagem, 1985.
GOMES, M. S.
(re)produção do self estatal: reescrevendo o engajamento do Brasil na
Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). Tese
(Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais,
Instituto de Relações Internacionais, PUC-Rio, 2014.
GRAEBER, David. Of flying cars and the declining rate of profit. Baffler, n.
19, mar. 2012. Disponível em: [Link]
cars-and-the-declining-rate-of-profit. Acesso em: 22 maio 2023.
HÄGGLUND, Martin. Radical Atheism: Derrida and the time of life. Stanford:
Stanford University Press, 2008.
HALPER, J. War against the people: Israel, the Palestinians and the global
pacification. London: Pluto Press, 2015.
MARX, Karl. El capital: libro primero. Buenos Aires: Siglo XXI, 1975. v. 1.
MIROWISKI, Philip. Nunca dejes que una crisis te gane la partida. ¿Cómo
ha conseguido el neoliberalismo, responsable de la crisis, salir indemne de
la misma?. Madrid: Planeta, 2014.
A MALANDRAGEM DA
CLASSE TRABALHADORA
Ronie Alexsandro Teles da Silveira 0000-0003-3046-655X
Universidade Federal do Sul da Bahia
Resumo
Esse artigo se propõe a identificar um padrão de ações que tem caracterizado a classe
trabalhadora brasileira. Para isso, se lança mão de um uso difundido do termo classe. Esse uso
conecta-se com algumas necessidades específicas que, no seu conjunto, compõem uma
narrativa ocidental sobre o progresso. É contra o pano de fundo dessa narrativa que a classe
trabalhadora brasileira vem sendo avaliada. Por isso, o juízo que resulta dessa comparação
termina invariavelmente na indicação de alguma figura degradada ou inconclusa. Propomos
aqui alterar esse pano de fundo adotando os procedimentos da própria cultura brasileira. Por
meio dessa alteração, percebemos que é a malandragem que tem caracterizado as ações da
classe trabalhadora brasileira: suas ações revelam oscilação, justaposição e esquiva com
relação à consciência de si e a um padrão homogêneo de ações.
Palavras-chave
Classe trabalhadora; malandragem; cultura brasileira; justaposição; esquiva.
Keywords
Working class; trickery; brazilian culture; juxtaposition; dodge.
Introdução
1
LAMAS, Classe em Marx e Engels, 2022.
Isso não se apresenta exatamente como uma novidade em uma situação em que
o conhecimento se especializou a tal ponto que ninguém mais é considerado apto para
gerir de forma competente sua própria vida. Assim, necessitamos de um técnico que nos
ensine como nos alimentar, como devemos educar nossos filhos, como devemos cuidar
de nossa saúde, como devemos nos vestir, como devemos nos comportar à mesa, como
devemos trabalhar etc. A vida gerida por técnicos, que dominam conhecimentos
científicos específicos, revela diariamente nossa ignorância crônica sobre cada pequeno
aspecto de nossa existência. O efeito da especialização da ciência é fazer parecer um
milagre que tenhamos prosperado no planeta em função de nosso desconhecimento
crônico sobre qualquer coisa.
Não se poderia esperar nada de muito diferente da classe trabalhadora, grande
parte dela desprovida de formação científica. Afinal, se um engenheiro não sabe se
alimentar nem educar seus filhos, por que a classe trabalhadora dessa mesma sociedade
seria capaz de se posicionar adequadamente no interior de um complexo jogo de forças
políticas? Se ninguém detém os conhecimentos básicos para saber o que é melhor fazer
em situações extremamente simples, por que a classe trabalhadora saberia o que fazer
em cada conjuntura crivada por múltiplos interesses? Ela certamente não possui as
habilidades científicas e técnicas necessárias para isso.
O fato de tratarmos de questões de interesse coletivo não altera a situação de
domínio técnico sobre a vida humana, nem minimiza nossa ignorância. Se é verdade que
estamos imersos em situações políticas todo o tempo, também procede que não nos
encontramos habilitados para discernir criticamente todos os elementos envolvidos em
disputas eleitorais ou em conjunturas complexas. Em função dessa ignorância sobre os
aspectos mais sofisticados das situações políticas é que a classe trabalhadora pode ser
uma presa tão fácil das notícias falsas, da manipulação das elites, do uso de um
cristianismo degradado etc.
A ampliação da falsificação de informações se beneficia do fato de vivermos na
sociedade do conhecimento científico. Foi a expansão cultural e a especialização da
ciência que tornaram qualquer assunto extremamente complexo para os leigos. Isto é, ela
exige cada vez mais um preparo sofisticado que não está disponível para não cientistas.
Se trata de que um cidadão não pode ser bem informado sobre as relações políticas em
que vive se não tiver estudado ciência política. Ele não pode compreender as relações de
produção e consumo sem haver estudado economia etc. Existe nessa situação
contemporânea um crescente elitismo epistemológico em função do avanço do
conhecimento científico sobre a vida cotidiana. À medida que esse último avança, se
amplia nossa ignorância relativa sobre tudo que nos cerca. O desenvolvimento da ciência
promove a ignorância entre os não cientistas.
Nesse contexto, o que se pode dizer de qualquer leigo também pode ser dito da
classe trabalhadora: ela não estaria dotada dos conhecimentos necessários para se
comportar no interior de uma conjuntura política complexa com o objetivo de defender
seus próprios interesses. Enfim, seu comportamento tende sempre a manifestar
ingenuidade e ignorância.
Mas há algo nas explicações correntes acerca daqueles eventos recentes que
extrapola essa avaliação negativa acerca das capacidades críticas da classe trabalhadora.
No caso de ações que solicitam a orientação técnica de um alto grau de especialização
científica, trata-se certamente de carência de conhecimentos. Assim, também não
sabemos educar nossos filhos porque desconhecemos as melhores teorias psicológicas
existentes. Não nos alimentamos bem porque não dominamos as últimas descobertas
acerca da nutrição humana. No caso das ações irrefletidas da classe trabalhadora se trata
de que ela desconhece as forças políticas que efetivamente estão atuando em uma
situação específica. Ela não percebe o verdadeiro jogo de interesses e os compromissos
envolvidos. Porém, sua falta de percepção decorre de uma causa subjacente mais
importante: a classe trabalhadora não possui consciência de si.
Não se trata, portanto, somente de carência de conhecimento, mas também de
certa fragilidade existencial. Não ter consciência de si é um tipo de carência que não pode
ser sanada por acréscimo de conhecimentos. Esse estado deficitário só pode ser
superado por uma mudança qualitativa da própria consciência que passa a ver-se a si
mesma tal como é e não como parece ser. Ao tomar-se como objeto, a classe
trabalhadora conseguiria ver a si realmente como é. Ao obter essa flexão, cairia o véu da
inconsciência que recobre sua condição imediata. Somente essa mutação qualitativa da
consciência poderia conduzir a classe trabalhadora a agir como tal. Isto é, a agir como se
fosse um ser coletivo unitário, na medida em que ela se reconheceria como uma classe.
Segundo aquela perspectiva corrente e difundida que tentamos apreender aqui
o problema da classe trabalhadora, sua deficiência, não equivale inteiramente à carência
de conhecimentos que caracteriza a sociedade do conhecimento científico. Sua carência
básica é que ela não se articula como uma classe. Ela não adota a condição de existência
que é típica da classe e que poderia lhe fornecer uma consciência completa de si mesma
e, por isso, um ser unitário.
O termo classe não é um mero acidente de designação. Ele indica justamente a
necessidade de unidade da diversidade. Uma classe é o conjunto de todas as coisas que
se subordinam a um conceito. Esse último abriga todos os membros da classe. Mas, ao
nos referirmos a um determinado conceito não citamos a cada um de seus elementos em
particular. Por isso, o modo de ser de uma classe é a universalidade. Para que uma classe
seja efetivamente uma classe, ela deve incluir a todos sob determinada designação
unívoca. Porém, todos estão incluídos ali sob uma modalidade universal. Para fazer parte
da classe, o elemento particular deve se subordinar a ela, abandonar a condição da
particularidade que o torna um ser ao lado dos demais. Vemos aqui a necessidade de uma
mutação qualitativa na constituição da classe no sentido indicado: a particularidade deve
se converter em universalidade. A multiplicidade dos seres deve se subordinar à unidade
superior da classe em que se encontram incluídos.
Esse é o requisito existencial para que a classe trabalhadora brasileira se converta
efetivamente em uma classe. A unidade a ser obtida pelos trabalhadores é que faz com
que a classe seja uma classe. Tudo reside, então, na possibilidade ou não de se obter a
constituição da classe, a devida integração dos elementos dispersos que se subordinam
à uma instância mais elevada.
A dispersão sem unidade é o pior que pode ocorrer a uma classe. Assim, se um
sindicato não está alinhado aos demais, se alguns trabalhadores não adotam os mesmos
padrões comportamentais políticos que os demais não votam nos mesmos candidatos,
por exemplo tudo isso depõe contra a universalidade da classe, contra sua plena
consciência de si. A fragmentação é o inimigo por excelência da classe na medida em que
a mantém pulverizada e impede que ela se constitua como uma forma de vida unitária.
Não se trata somente de unificar a consciência dos elementos, mas também de fornecer
um sentido exclusivo para as ações desse ser coletivo. A dificuldade da classe fraturada
em se converter em classe efetiva reside na sua capacidade em dar-se um ser integral e
apresentar-se na prática como a unidade de muitos.
A fragilidade da classe trabalhadora brasileira naqueles eventos políticos a que
me referi acima dizem respeito justamente à falta de alinhamento entre as partes que a
compõem. Os agentes que se comportam contra o interesse de sua respectiva classe não
se sentem devidamente integrados a ela. A ignorância sobre a que classe se pertence é
um fator importante aqui. A falsa consciência que se possui como um elemento particular
cria obstáculos para a consolidação da universalidade. Isso amplia a fragmentação e a
dispersão das vontades. Na ausência de uma intencionalidade única, os elementos agem
sem sinergia e de maneira errática: cada um segue em uma direção. Por isso, eles se
tornam presa fácil de interesses estranhos aos de sua própria classe.
Existe, então, uma falsa consciência de si da classe que gera uma percepção dos
elementos na sua particularidade imediata. Indivíduos que se percebem como estranhos
à classe trabalhadora sendo trabalhadores estão dominados por essa falsa
consciência. Eles pensam que são o que não são. Sua verdadeira consciência, aquela que
permite que eles se representem como são, afirma que eles são membros da classe. Essa
perspectiva não contaminada por formas estranhas de auto representação, expressa a
verdade superior da universalidade.
Claro que isso também implica naquela diferença relativa à condição existencial:
existir como uma particularidade é diferente de existir subordinado à universalidade,
integrado a uma classe. O problema da classe trabalhadora é entendido, nesses termos,
como a necessidade de superar a falsa consciência de si e atingir uma forma superior em
que a classe se entende e age como uma classe. Essa forma superior é a forma
verdadeira. Para isso, se requer aquela mutação qualitativa da consciência que passa a
perceber-se como a unidade superior da diversidade e, em função disso, concede a si
mesma a possibilidade da unidade de ação.
Essa mutação qualitativa, a eliminação de uma visão falsa das relações políticas,
passa pela superação da condição individual, da situação de isolamento em que os seres
humanos se encontram empiricamente. Isso quer dizer que a condição existencial
individual, a situação de isolamento, é uma falsificação, uma aparência que necessita ser
superada. A condição autêntica do ser humano é a classe. Dessa perspectiva só há duas
posições possíveis para um ser humano: o estado de falsidade individual e o estado de
verdade classista. A classe é uma condição superior da natureza humana enquanto que o
indivíduo é uma má representação de si, um estado precário que necessita ser
ultrapassado para que a verdade assuma o controle da consciência e da ação.
Dessa maneira, notamos que a classe é entendida como uma comunidade ética
humana de nível superior. Para que ela se consolide, é necessário ultrapassar a fase dos
átomos dispersos e consolidar a unidade de ordem superior. Claro que isso não exclui
também a superação da própria condição de classe no interior de uma comunidade ainda
mais verdadeira uma sociedade sem classes. Mas não necessitamos, aqui, avançar
tanto. Basta reconhecermos a mutação existencial que se faz necessária para que um
indivíduo passe a se perceber como membro de uma classe.
Ela indica que a classe é um estágio moral superior à condição individual. O apego
a essa última consiste em perseverar na visão falsa acerca da real situação dos seres
humanos. Daqui se torna possível perceber também que o espectro de explicações de
ações políticas que tentamos apreender aqui exige o postulado de que o indivíduo
necessita ceder o passo para a classe. Caso isso não ocorra, estaríamos diante daquilo
que ilustra a falsa consciência da classe trabalhadora no Brasil: ela pensa e age contra si
mesma, contra os interesses de sua classe porque não se mostra capaz de pensar e agir
como classe.
Essa perseverança da particularidade em si mesma atua no sentido de solapar a
classe e sua consciência. Afinal, trata-se de que o indivíduo permaneça enquistado como
a unidade definitiva, negando-se a ceder terreno àquela dimensão superior da moralidade,
à condição de classe. O desenrolar esperado é que o indivíduo ceda o passo à classe, que
ele se subordine à instância universal e abandone a perspectiva moralmente limitada da
particularidade. A narrativa que se impõe aqui remete à necessidade de progresso, de
ultrapassagem da perspectiva individual em benefício do ente coletivo da classe.
Nessa maneira de pensar se afirma a validade de uma narrativa impositiva acerca
de eventos históricos. A classe é uma etapa que necessita se consolidar para que o
progresso avance em determinada direção para uma sociedade de classes e não de
indivíduos, ao menos em um primeiro momento. Um obstáculo para essa marcha adiante
consiste em aferrar-se a um momento que, pela narrativa do progresso, deveria ser
superada e abandonada como um estágio inferior ou inadequado. Há a marcha da história,
o caminho da verdade e há a teimosia da particularidade que não pensa como classe e
persevera na condição de fratura. Aquilo que deveria se diluir no processo, revelar-se
como falso, insiste em permanecer e se torna um anacronismo, uma persistência não
histórica e fossilizada.
Grosso modo esse é o padrão de explicações para a perseverança no estágio
inferior em que não há classes, mas somente indivíduos. Trata-se de uma manifestação
deficitária, de incapacidade em assumir uma consciência verdadeira e mais robusta sobre
si mesmo. A incapacidade de pensar e agir como classe diz respeito a uma deficiência
moral - talvez à falta de coragem e determinação de fazer avançar o ritmo histórico na
direção que lhe seria própria ou de se mostrar capaz de assumir sua própria condição
existencial. Não há mais que duas opções aqui: ou seguimos em direção à classe ou
ficamos pelo caminho em alguma posição intermediária e, portanto, inferior despejados
do ritmo da história e do progresso da humanidade. Nesse caso, a história não se cumpre
e a condição humana se acomoda em uma situação de minoridade moral e de falta de
progresso autêntico.
Tudo aqui depende de assumirmos que há um sentido na história, que existe algum
tipo de evolução moral da humanidade em determinada direção a da classe. Essa
narrativa possui conexões estreitas com a noção hegeliana de progresso histórico2 e
tornou-se tão dominante no ambiente contemporâneo que dificilmente podemos pensar
as sociedades humanas sem ela. Observe porém que a geração desse mesmo autor,
propunha na sua juventude, um retorno ao mundo grego antigo como o caminho natural
2
HEGEL, Lecciones sobre la filosofía de la historia universal, 1989.
em que o nível individual é superado pelo coletivo, de tal forma que se obtenha uma
integração existencial da multiplicidade. Como se pode notar, os termos utilizados se
aproximam de nossa descrição de classe.
Essa noção de uma comunidade ética superior possui uma forte tradição na
cultura europeia. Ela pode ser conectada, por exemplo, à proposta platônica de uma vida
política organizada como um corpo.5 Assim, cada cidadão, responsável por determinadas
tarefas - produtivas ou guerreiras, por exemplo - integra-se harmonicamente em uma
instância que transcende a todos os particulares. Essa instância supera a fragmentação
dos indivíduos e fornece finalidades específicas para cada tipo de cidadão enquanto se
orienta por um fim superior, próprio da totalidade do corpo político. Ela articula-os por
meio de uma subordinação funcional em que cada um realiza algo diferente enquanto
contribui para a vida coletiva.
Também podemos conectá-la à noção teológica de Igreja. Trata-se da descrição
assim como o
corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo
3
HEGEL, , 2003.
4
ROUSSEAU, Do contrato social. s.d., p. 17
5
PLATÃO, A República, 1993.
2. Cultura brasileira
6
ELIAS, O processo civilizador, 1993.
7
SILVEIRA, Apresentação do Brasil, 2018.
8
SILVEIRA, O que o impeachment diz sobre o Brasil?, 2016.
desenvolvimento particular, este não será sucedido por um outro mais elevado segundo
a ordem ocidental esperada de maturação moral da classe. Sua personalidade permanece
relativamente indefinida porque, mesmo quando assume algum propósito, ainda assim ela
pode alterar o rumo de suas ações na direção contrária, distorcendo o sentido do
progresso e a consumação de uma personalidade definitiva.
A classe trabalhadora brasileira se esquiva permanentemente de se tornar uma
classe trabalhadora, de fornecer para si mesma um ser integral, subordinado a uma
unidade superior. Observe que ela não se nega a ser uma classe e pode, inclusive,
reivindicar a posição de classe no debate político. O que ela realiza é mais sutil do que
uma negação simples ou a criação de uma barreira que recua diante das determinações
particulares. A sutileza consiste em que ela assume a condição de classe ao mesmo
tempo em que impede que essa condição se torne dominante no seu interior. Essa é a
malandragem da classe trabalhadora: ela promete constantemente tornar-se classe, mas
nunca se consolida como tal ela faz que vai e volta do meio para trás. A classe
trabalhadora brasileira é safa e matreira, caminha de lado, sem tomar uma direção única
e perceptível.
Porém, não se trata aqui de um procedimento gestado com propósitos
enganadores. A classe trabalhadora brasileira não se propõe a gerar um efeito de cena
para iludir expectadores, analistas e acadêmicos desavisados. O aspecto cênico se impõe
porque ela se esquiva de ser uma classe, enquanto existe como classe. Ela é uma classe
que opta por não se tornar uma classe. Por isso, ela mantém sobre si mesma a enorme
capacidade de um dia quem sabe ser uma classe. Se trata de adotar uma modalidade
de existência permanentemente promissora, aberta e receptiva. Que, por isso mesmo, não
pode caminhar na direção contrária à integração e à subordinação de sua própria vida que
lhe forneceria uma feição definitiva e a converteria em classe.
Essa é a malandragem. Ela só parece enganadora para quem se orienta por aquela
narrativa ocidental do progresso e julga o que se passa com a classe trabalhadora
brasileira. Como daquele ponto de vista se espera que se afirme um processo de
concretização da personalidade de um ser coletivo, se gera a expectativa de que isso
também ocorra com relação a esta classe. Como isso não ocorre, se produz o efeito
psicológico da decepção.
Mas gerar engano não é intenção da própria classe trabalhadora brasileira. Esse
efeito é produzido pelos intérpretes que insistem na subordinação da classe trabalhadora
brasileira àquela narrativa ocidental. Nesse caso, a desilusão não diz respeito ao
comportamento da classe trabalhadora e sim às próprias expectativas que tendem a ser
permanentemente frustradas diante da malandragem.
Somente a partir dessa expectativa ocidental é que os intérpretes se desiludem
com a falta de compromisso, com a ausência de uma direção segura nas ações, com certa
infantilidade típica da falta de caráter e com a fragilidade de uma vontade que oscila
inclusive no plano político. Tudo indica que, nesse caso, se trata mais propriamente de um
autoengano provocado pela narrativa assumida desde o ponto de partida. A decepção é
um efeito do modo como se tenta entender as ações da classe trabalhadora, mas não
dizem respeito às próprias ações.
A malandragem da classe trabalhadora é uma forma de vida, uma modalidade de
experiência, uma padrão de ações que permitem a manutenção da vitalidade original e de
uma enorme receptividade a tudo que é estranho. É essa malandragem que impede que a
classe trabalhadora se concretize como classe, se torne íntegra e realize ações
9
ESPINOSA, Correspondência, 1988.
Referências
Resumo
Neste artigo, investigamos a oposição entre história do mundo e história de ideias no romance
moderno "O homem sem qualidades", de Robert Musil, uma obra icônica do início do século XX
que aborda a fragmentação da experiência humana moderna e a desintegração da sociedade
europeia. Examinamos como o senso de possibilidade afeta a elaboração de um enredo "em
potencial", o realce de eventos "desimportantes", o emprego da ironia como tática narrativa e,
por fim, a comparação entre perspectivas angelicais e humanas quanto à história. Ao explorar
esses aspectos, nosso estudo busca ampliar a compreensão das abordagens inovadoras da
literatura moderna no enfrentamento de questões complexas relacionadas à história e à
catástrofe, destacando a relevância de analisar a história de ideias em contraposição à história
do mundo.
Palavras-chave
Robert Musil; O homem sem qualidades; história de ideias; literatura moderna; ironia.
Keywords
Robert Musil; The Man Without Qualities; History of Ideas; Modernist Literature; Irony.
Introdução
liberal- 1
Assim um célebre historiador resumiu em uma única linha
o lugar reservado ao autor de O homem sem qualidades no panteão de gênios austríacos
do início do Século XX, que inclui Freud e Wittgenstein, Schoenberg e Klimt. Musil seria
outro representante da cultura fin-de-siècle vienense, que Hermann Broch definiu como
2
Mas aqueles que leram o calhamaço inacabado devem enxergar certa ironia
nessas tentativas de se fixar Musil em um quadro histórico. Afinal, palavras como
fin-de-siècle
político austro-
expressões que as personagens musilianas não param de repetir com ênfase e comoção
são bons exemplos do que Musil chama de grandes ideias,
muitos livros bem- 5
e que por isso
mesmo, ironiza o narrador de O homem sem qualidades, não haveria qualquer
necessidade de se aprofundá-
afirmação de que, nem aqui nem mais adiante, faremos a duvidosa tentativa de pintar um
quadro histórico e competir com a realidade 6
Ocorre que, em O homem sem qualidades, tanto a história quanto a realidade e a
ideia vão desempenhar outro papel, irredutível à tarefa de fornecer uma explicação
teleológica, causal e unificada dos acontecimentos históricos. Ulrich, protagonista da
-se uma história de ideias em
;7
realidade, tem de haver senso de possibilidade 8 e que considera que entre as duas
1
SCHORSKE, Fin-de-siecle Vienna, p. 336.
2
BROCH apud JOHNSTON, The Austrian mind, p. 31.
3
BLANCHOT apud ROSENFIELD, Pandaemonium germanicum, p. 17.
4
Para uma revisão abrangente das diversas modalidades de leitura realizadas sobre a obra, ver:
MEHIGAN.
5
MUSIL, O homem sem qualidades.
6
MUSIL, O homem sem qualidades.
7
MUSIL, O homem sem qualidades.
8
MUSIL, O homem sem qualidades.
9
MUSIL, O homem sem qualidades.
No presente artigo, vamos explorar em linhas gerais essa hipótese de uma história
de ideias. Embora existam inúmeros estudos sobre a visão histórica de Musil, não foi
possível encontrar um estudo que analisasse detalhadamente a oposição assinalada entre
história do mundo e história de ideias. O artigo será estruturado da seguinte maneira:
primeiro, faremos um breve resumo da trama, buscando mostrar como a própria
estrutura do romance - sua inércia e inacabamento - reflete uma consideração sobre a
história; em seguida, destacaremos a função da ironia na interpretação dos
acontecimentos históricos; por fim, contraporemos o ponto de vista dos homens ao dos
anjos, o que nos permitirá concluir com uma síntese comparativa entre a história do
mundo e a história das ideias.
Ciente do desafio de abordar um romance monumental, nesse artigo optamos por
dar maior espaço à própria obra, já volumosa, em detrimento da análise de comentaristas.
O leitor encontrará nas notas de rodapé as referências aos estudos críticos que embasam,
aprofundam e/ou contradizem as análises que vamos tecer sobre O homem sem
qualidades.
1. A estrutura inacabada
vista, falta ao romance uma trama em sentido clássico, pois não há um encadeamento de
eventos com forte nexo causal. O pouco que acontece de concreto é, para falar como
Mundial esteja por trás dessa tagarelice, o romance evita fornecer um quadro histórico
explicativo. Assim, O homem sem qualidades teria apenas uma "possibilidade" de trama
ou um "potencial" de enredo.11
10
ANTER, Eurostudia, p. 7.
11
pode ser interpretado de outro modo. Sabemos que O homem sem qualidades é um
romance inacabado. Todavia, ao examinarmos sua estrutura, constatamos a
arbitrário imposto pelo autor cuja função seria dar ao leitor o acesso a uma experiência
divinatória das reminiscências.12
Com base na teoria do romance de Lukács, Benjamin defendeu que o romance
moderno seria conduzido pela cisão entre sentido e vida, entre o essencial e o temporal.
A motivação para o enredo residiria precisamente na luta das personagens contra o poder
do tempo, um conflito perturbador que os impede de conceberem de forma autêntica e
significativa o sentido de suas vidas. Por essa razão, Benjamin propunha que todo
romance moderno caminharia para o fim do romance o desfecho pré-determinado, o
ponto final que encerra arbitrariamente o último parágrafo do livro impresso, mas
também, preferencialmente, a morte, seja ela figurada ou literal, da personagem. Caberia
ao romancista, segundo ele, a tarefa de cifrar ao leitor o fatal destino das personagens; o
prazer da leitura estaria em avidamente desvendar esses indícios que a própria
personagem, enredada na turbulência do tempo, seria incapaz de interpretar. Pois o leitor,
ele mesmo, experimenta, em sua vida cotidiana, a falta de sentido; e o que o atrai ao
15
instrumental e das inúmeras chances de redenção que a alma vê abrir diante de si sobre
12
BENJAMIN, O narrador. p. 229.
13
BENJAMIN, O narrador, p. 231.
14
BENJAMIN, O narrador, p. 221.
15
LUKÁCS cit. por BENJAMIN, O narrador, p. 229.
16
algo que ele próprio tem perfeita consciência. Esses dois
aspectos, a falta de particularidades e a consciência autorreflexiva que se furta à ação e
à tomada de decisão, esvaziam o embate necessário para o fim do romance benjaminiano,
qual seja, a luta tensionada entre destino individual e o poder do tempo. Esta é, aliás, uma
das conquistas da utopia do ensaísmo, já bastante discutida pela fortuna crítica, e
perseguida tanto pelo autor quanto seu alterego
ensaístico, em que o mundo das possibilidades prevalecesse sobre o real, confunde-se
17
antes aquela expressão, mas não sabia o que era, nem queria saber; bastava-lhe que
aquilo explicasse o terrível acidente, reduzindo-o a um problema técnico, que já não a
19
Talvez estimulado pelo efeito produzido, o homem continua
conjecturando sobre as estatísticas de acidente de automóvel nos EUA, até que a
ambulância chega, causando boa impressão pela rapidez e eficiência, de tal modo que a
sensação que fica do episódio já não era de horror, mas de qu
20
Esse capítulo, sugestivamente intitulado "Do qual
-
Acha que ele está morto? perguntou sua acompanhante, ainda com a sensação
injustificada de ter visto algo fora do comum. Espero que esteja vivo respondeu o
senhor. 21
16
COMETTI, Musil Philosophie, pp. 156-157.
17
CASTRO, Sobre o ensaísmo de Musil.
18
MUSIL, O homem sem qualidades.
19
MUSIL, O homem sem qualidades.
20
MUSIL, O homem sem qualidades.
21
MUSIL, O homem sem qualidades.
naquela ocasião. Estas são duas personagens centrais da Campanha Paralela. Ermelinda,
ou Diótima, é uma espécie
açucarado e nostalgia de Deus, que por algum tempo a era da máquina fazia jorrar contra
22
Bela, culta e dotada de
uma sensibilidade repleta de presságios, Diótima contribui apaixonadamente para a
Campanha, buscando associar o reino de Francisco José I a ideias vagas de tradição,
23
e
24
Entre seus admiradores, está o
Conde Paul Arnheim, um magnata industrial prussiano e escritor prolífico (seu
que
as outras conquistas que impedem um tempo eivado delas de produzir pessoas boas,
25
fornecem ao leitor sínteses tranquilizadoras, garantindo que
a verdade é sempre simples e acessível a todos. Sobre as ideias de Arnheim, Ulrich
27
22
MUSIL, O homem sem qualidades.
23
MUSIL, O homem sem qualidades.
24
MUSIL, O homem sem qualidades.
25
MUSIL, O homem sem qualidades.
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MUSIL, O homem sem qualidades.
27
MUSIL, O homem sem qualidades.
Mas o narrador vai comentar o que torna cada experiência singular, o que nos permite
entrever que tudo poderia ter acontecido de outra maneira. Na verdade, o narrador sabe
que seria altamente improvável que as coisas ocorressem de forma diferente
improvável, mas não impossível. Assim, com um sorriso irônico, o narrador revela a
inquietante consciência de que o impossível, paradoxalmente, determina e move o
possível.
Assim sendo, o enredo se organiza em torno de acontecimentos, ao invés de
ações. Daí a sensação de incompletude, ao mesmo tempo de uma narrativa em potencial.
Os amores, as ideias, as ações reais interessam menos que as atrações fugidias, os
fragmentos de pensamentos, os gestos jamais realizados. Por isso mesmo, seria errôneo
considerar que o encontro trágico entre o caminhão e o homem distraído simboliza o
destino da Europa moderna rumo à Primeira Guerra Mundial.28 A história de ideias não
distingue os eventos em termos de importância, o que permitiria um evento anteceder,
explicar, causar ou conter um outro. A história de ideias leva em consideração somente
a singularidade dos acontecimentos, isto é, a margem de tudo aquilo que determina a
improbabilidade, mas não a impossibilidade de que a história pudesse desdobrar-se de
outra maneira. Nesse sentido, Musil compreende os acontecimentos de modo análogo ao
que Bruno Latour vai identificar na obra do sociólogo Gabriel Tarde, a percepção de que
vítima de um míssil; por isso, é mais difícil reagir ao cadáver atropelado do que à
deflagração de uma guerra. Se alguém, diante do homem distraído atropelado, sentiu o
torpor de uma perplexidade capaz de levá-la a mudar seu comportamento, nenhuma
explicação parece suficiente para afirmar, ao contrário do que sugerem os livros de
história, que a guerra seria inevitável devido à sequência de fatos históricos que a
antecederam.
Assim temos, em linhas gerais, a história de ideias assentada num senso de
possibilidade. Musil não distingue os grandes dos pequenos acontecimentos em termos
de importância ou de força de causação. Cada acontecimento contém em si a possibilidade
de tornar-se outro, e cada partícula cotidiana contém em si a mesma potência
deflagradora de um grande evento histórico, seja ele passado ou futuro. A história,
observada de perto, é repleta de acontecimentos improváveis dos quais nada
meio de um dia 30
Seguindo
28
obras [O homem sem qualidades e Em Busca do Tempo Perdido] assume um papel mais
especializado, o de apresentar outras variações imaginativas às variações imaginativas básicas de
In: GRILL,
Qualities, p. 60.
29
o material necessário para que uma atividade se manifeste. É a consequência de sua interpretação
dos vínculos entre o grande e o pequeno que já usei nos capítulos precedentes. O grande (Estados,
organizações, mercados) é uma amplificação, mas também uma simplificação do pequeno. Só
mais lógica numa frase que num discurso, num discurso que numa série ou grupo de discursos;
há mais lógica num rito do que numa religião inteira, num artigo de lei do que no código todo, numa
teoria científica do que no corpo da ciência; e há mais lógica numa peça executada por um artífice
do que na Reagregando o Social, p. 346).
30
MUSIL, Five Women, p. 119.
essa metáfora, podemos dizer que os acontecimentos, sob a ótica da história de ideias,
são como partículas de água, que contêm em si o potencial tanto de oxigênio e hidrogênio
quanto de oceanos e nevascas. Ainda que uma partícula esteja em um estado específico
num dado momento, isso nunca é suficiente para excluir completamente a possibilidade
de que a mesma partícula pudesse assumir outro estado no mesmo instante e/ou local. É
altamente improvável, mas não impossível, que um floco de neve se forme numa tarde de
verão e quem notaria, caso ocorresse? Da mesma forma, parece improvável, mas não
impossível, que a Primeira Guerra Mundial não estourasse e é justamente essa
possibilidade, revelada nas experiências de perplexidade, que Musil persegue em O
homem sem qualidades. Para a história de ideias, uma ocorrência nunca é suficiente para
excluir por completo a possibilidade de que outro acontecimento pudesse ocorrer em seu
lugar.
O interesse pelas pontas soltas da história, pelos acontecimentos sem força
causal, faz com que a ação no romance se torne mais lenta e elimina a necessidade de
um enredo guiado pela ação. Nesse sentido, argumentamos que, se o romance está
factualmente inacabado, podemos igualmente dizer que está potencialmente concluído,
desde as primeiras páginas. O que equivale a dizer que O homem sem qualidades é ao
mesmo tempo um romance inacabado e inacabável. O desenvolvimento da narrativa vai
se justificar menos pelo encadeamento do enredo que pela elaboração crítica de uma nova
isto é,
o acontecimento singular, a irrupção do improvável e no seio do tecido redundante e
tendencioso da realidade.
2. O método irônico
A guerra pode ter tido mil causas diferentes, mas é inegável que cada uma delas o
nacionalismo, o patriotismo, o imperialismo econômico, a mentalidade dos generais
e dos diplomatas, e tudo mais está ligada a certas pré-condições espirituais que
caracterizam uma comunidade comum e, portanto, codeterminam a situação. Era
como dormir em um vagão Pullman de um trem e ser acordado apenas por uma
colisão.31
31
MUSIL, Precision and Soul, p. 126.
32
MUSIL, O homem sem qualidades.
33
MUSIL, O homem sem qualidades.
não sabiam falar de outra coisa além da sua própria profissão, porque sequer imaginavam
poder aplicar a si próprios as ideias audaciosas que aplicavam às suas máquinas, o que
34
Assim, tudo que puder marcar essa divisão como as estatísticas de acidentes de carro
nos EUA trará alívio ao espírito confrontado pela catástrofe produzida pelas máquinas.
A premissa aqui assemelha-se às considerações de Paul Valéry, que escreveu sobre a
modernidade:
37
e alma ao saber, ao cálculo, à medida, à ordem e ao dinheiro; assim como o Estado, que
também procura uma espécie de redenção moral investindo anualmente "belas palavras
40
34
MUSIL, O homem sem qualidades.
35
VALÉRY apud VIRILIO, The Unknown Quantity, p. 4.
36
MUSIL, O homem sem qualidades.
37
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38
MUSIL, O homem sem qualidades.
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40
MUSIL, O homem sem qualidades.
A ironia, como se vê, produz um efeito corrosivo nas descrições. O olhar irônico
do narrador despe progressivamente as personagens, ações e eventos de suas
eingenschaften); para em seguida revelar as ideias em que elas se baseiam; que por sua
vez também são dissecadas a ponto de se tornarem pouco mais crispações temporárias
na superfície das potencialidades humanas
falar do seu mundo no conjuctivus potentialis (hic dixerit quispiam = aqui se poderia
objetar...), pois era Deus quem fazia o mundo, pensando que bem podia ser de outra
41
particularidades que lhe vêm de fora, e que quase todos os homens identificam
ingenuamente com suas puras almas secretas, longe de ver nelas uma herança
43
A escolha por despir-se de qualquer traço
particular, comenta Blanchot, corresponde a um ideal de liberdade; mas o homem sem
particularidades também reflete o mundo moderno em que vive. Pois até mesmo as
grandes cidades não possuem particularidades, à medida que são feitas, escreve Musil,
e, no meio disso tudo, pontos de silêncio, sem fundo; era feita de caminhos e descaminhos,
44
ao que o autor austríaco conclui ironicamente, como de praxe, com uma metáfora
científica
45
que pulsa em cada ser e em cada acontecimento. Para descrever a história do ponto de
vista de sua improbabilidade, o autor adota uma postura irônica diante dos fatos, opiniões,
posturas e ações. O objetivo da ironia, todavia, não é denunciar a conivência dos homens
com a catástrofe, o que reforçaria o senso de realidade. Não se trata de tecer comentários
41
No capítulo em que Musil apresenta Ulrich, assim é descrita a relação da personagem com o
pátria a melhor de todas (...) provavelmente também Deus gostava de falar do seu mundo no
conjuctivus potentialis (hic dixerit quispiam = aqui se poderia objetar...), pois era Deus quem fazia
O homem sem qualidades).
42
MUSIL, O homem sem qualidades.
43
BLANCHOT, O Livro por Vir, p. 203.
44
MUSIL, O homem sem qualidades.
45
MUSIL, O homem sem qualidades.
sobre a história do mundo. Em vez disso, visa mapear os caminhos pelos quais o espírito
deve se embrenhar, caso deseje emancipar a consciência dos acidentes.
Musil não cessa de apontar que, para cada enlace matrimonial, cada cidade
emancipada, cada livro publicado, cada ato de governo, há um excesso de possibilidades
não realizadas. Restam imensas sobras de afetividade sem vazão, fragmentos
desconexos de pensamentos inarticulados, de ruínas que sobrevivem misteriosamente ao
surgimento e ocaso de uma civilização. A história de ideias mostra que esse potencial
tensiona a realidade, fazendo-a pulsar rumo à sua própria dissolução. Assim, em vez de
tecer elogios às ações heroicas, a história de ideias revela a imensa carga de energia
gasta para produzir uma situação banal, um evento corriqueiro, um amor indiferente, um
livro cheio de platitudes. Afinal, como conclui Ulrich,
Todavia, à medida que ambos admitem comungar dessa mera possibilidade, tudo que há
de incompreensível e inexplicável na realidade vivida por eles se tornará mais claro.
Uma delicada nuvem de emoção, nascida de algum canto do coração dela, desfizera-
se num ressequido vazio. Talvez pela primeira vez ela encarasse claramente o fato
de que suas relações com Arnheim levariam, a curto ou longo prazo, a uma decisão
que poderia mudar toda a sua vida. Não se podia dizer que isso a deixasse feliz; mas
tinha o peso de uma montanha real. A fraqueza havia passado.
46
MUSIL, O homem sem qualidades.
mais.47
também não é inteiramente o que finge ser em cada instante (....) Como está vendo, a
48
Pensamento que nos remete à metáfora do improvável
floco de neve que irrompe em pleno verão, testemunhando talvez que há milhares de anos
ali havia uma geleira. Então Ulrich, percebendo que sua tagarelice afastava Diótima,
tentou ser mais franco:
Há outra coisa que eu gostaria de lhe dizer. A sensação de ter chão firme de baixo
dos pés e uma pele firme ao meu redor, que parece tão natural à maioria das pessoas,
não é muito desenvolvida em mim. Procure lembrar como era na sua infância: uma
cálida meiguice. E depois, como brotinho, a ânsia queimando nos lábios. Pelo menos
em mim alguma coisa se recusa a acreditar que a idade madura seja o cume de uma
evolução dessas. De certa forma sim, e de certa forma não. Se eu fosse uma
Myrmeleonina, a borboleta-formiga, parecida com uma libélula, sentiria terror ao
saber que há um ano fui o gordo e cinzento Myrmeleon, o formiga-leão que anda para
trás e vive enterrada na beira das florestas sob um cone de areia, agarrando formigas
pela cintura com suas garras, depois de as ter exaurido com um misterioso
bombardeio de areia. Às vezes realmente sinto horror semelhante da minha
juventude, embora naquele tempo eu tenha sido uma libélula, e agora devesse ser um
monstro.
Ele próprio não sabia bem o que queria. Falando em Myrmeleon e Myrmeleonina
do mundo. Dessa forma, o romance descreve menos o destino de Diótima, mas sim como
mas também de que modo ele poderia dar origem a uma outra comunidade.
47
MUSIL, O homem sem qualidades.
48
MUSIL, O homem sem qualidades.
49
MUSIL, O homem sem qualidades.
Da mesma 51
Essa perspectiva irônica e científica, no entanto, não deve ser confundida com a
Velho Testamento, que criou o homem sem compreender ou sentir sua dor. De acordo
com Franco Berardi, a sociedade neoliberal atual opera sob um fluxo temporal desprovido
de emoção excetuando-se os humores do mercado e endossa a seleção natural como
a única regra de convivência, seguindo a lógica competitiva da sobrevivência dos mais
fortes.53 Musil, pelo contrário, sonha com uma subversão afetiva do estado de espírito de
sua época, e nisso vai acenar para o ponto de vista dos anjos, capazes de encarar
Univocidade é a lei do verdadeiro pensar e agir, que reina tanto numa obrigatória
conclusão da lógica quanto no cérebro de um chantagista que empurra à frente, passo
a passo, a sua vítima; ela nasce das necessidades da vida, que levariam à morte se
as relações não se pudessem conformar univocamente. O símbolo, em contrapartida,
é aquela ligação de idéias que reina no sonho, é a deslizante lógica da alma, à qual
corresponde o parentesco das coisas nas intuições da arte e da religião; mas também
o que há na vida de mera simpatia e antipatia, harmonia e repulsa, admiração,
submissão, liderança, imitação e seus opostos, essas múltiplas relações do ser
humano consigo mesmo e com a natureza, que ainda não são puramente objetivas e
talvez nunca o sejam, só se podem conceber como símbolos. 54
associar símbolo e verdade. Por isso mesmo, a humanidade pode ser perdida a qualquer
momento. Basta que se abdique coletivamente da tarefa de produzir associações entre as
duas metades da vida.
Na modernidade, a univocidade se contrapõe ao símbolo. Arnheim é um dos
exemplos de personagens interiormente cindidos, incapazes de se reconciliarem com a
própria humanidade. Para ele, toda moral possui uma lógica: trata-se de avaliar se os
interesses ferem ou não os mandamentos. Mas a lógica se baseia na regularidade; e é
50
MUSIL, O homem sem qualidades.
51
MUSIL, O homem sem qualidades.
52
MUSIL, Five Women, p. 120.
53
BERARDI, Heroes: Mass Murderer and Suicide.
54
MUSIL, O homem sem qualidades.
preciso que as experiências se repitam para que se possa extrair delas uma moral. Sem
que o maior não pode ser o menor; ficaríamos simplesmente sonhando, estado que
55
Mas em uma era como a nossa, em que os acontecimentos
mudam como num torvelinho em que nada se repete, aonde mais a moral e a razão
poderiam ancorar sua lógica? Somente o dinheiro ainda preserva sua qualidade de
valor, divide todos os prazeres do mundo em bloquinhos de poder aquisitivo com os quais
podemos construir o que des 56
Mas para fazer triunfar a univocidade,
repetitividade e solidez sem as quais nenhuma empresa pode esperar obter sucesso no
mercado Arnheim terá de renunciar a todo sonho, inclusive o despertado por aquela
57
58
Daí a importância do método irônico,
rna:
Ulrich e Arnheim concordam neste ponto, embora Arnheim acredite que, assim
que o dinheiro se torna o único fundamento lógico da moral e da razão, a violência se
55
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MUSIL, O homem sem qualidades.
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contrário do magnata industrial, almejava não o dinheiro, mas a genialidade, e para seu
63
Desde criança havia decidido se
64
Quando estava prestes a atingir o cume,
deparou-
Ulrich é forçado a admitir que o homem de gênio sujeito viril, ético, persuasivo, virtuoso,
de coração firme, permanentemente disposto a encarar o mundo através das lentes da
verdade jamais existiu senão fora dos liceus e dos livros. E que as estratégias e
artimanhas necessárias para se fazer avançar um raciocínio lógico são semelhantes aos
movimentos de um corpo bem treinado em combate; de tal modo que entre um
matemático, um boxeador e um cavalo de corrida, seria preciso reconhecer que existe
uma força geral de batalha espiritual que permanece fria e sábia diante das dificuldades
e situações improváveis. Uma força capaz tanto de identificar os pontos fracos de um
problema ou de um inimigo físico. Em todo caso, conclui ironicamente Ulrich, se a
genialidade passava a ser medida pela objetividade dos resultados, era natural um cavalo
e um campeão de boxe tivessem vantagem sobre um intelectual.
Mas Ulrich não desiste totalmente da missão e decide investigar se o que
fundamentou sua busca pela genialidade, o espírito, realmente existe. Como podemos
65
assim fala-se de espírito animal, espírito austríaco, espírito empreendedor etc.
66
Muitos poemas, ensaios filosóficos, conversas embriagadas, massas de
p
67
verdadeiro espírito do espírito, o que faltava, talvez apenas o pedacinho que fecha o círculo
68
algo o remetia de volta ao estado de prostração. Soava improvável que o
espírito existisse para além daquilo ao qual se associa, do suporte que registra sua
existência, ou da aparência do momento que o torna perceptível. O espírito provavelmente
passar apenas um leve tremor (...) para onde vai, onde está, quem é ele? Talvez, se
soubéssemos mais a seu respeito, tudo se tornasse um abafado silêncio em torno desse
69
Em outras palavras, não há espírito, mas devir. Ulrich abandona qualquer hipótese
transcendente sobre o espírito inclusive aquela que pretende fazer da violência, essa
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69
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Sem dúvida, pensou, o que o prendia dentro de uma existência isolada e inominada
não era senão a obrigação de afrouxar e amarrar o mundo, designada por uma palavra
que não se gosta de ver sozinha: espírito. Nem o próprio Ulrich sabia por que, mas de
petrificado da cidade ele sentiu pulsar, bem no fundo, seu próprio coração. Havia nele
alguma coisa que não queria permanecer em lugar algum, que apalpara as paredes
do mundo, e pensara: existem outros milhões de paredes; aquela ridícula gota do Eu,
que esfriava lentamente, não queria entregar seu fogo à minúscula semente de
ardor.72
Daí a forte curiosidade que Ulrich sente por Moosbrugger, um sujeito de psiquê
frágil e thymos vigoroso. Carpinteiro corpulento, cujo rosto Deus marcara com todos os
sinais da bondade; homem simples, de origem e educação humildes, trabalhador pacato;
sujeito solitário, de pouca conversa; Moosbrugger é também um assassino cruel. Matou
70
MUSIL, O homem sem qualidades.
71
DUNKER, Uma Biografia da Depressão.
72
MUSIL, O homem sem qualidades.
uma mulher sem remorso e não protestou quando foi preso. Mas ao perceber que seu ato
Isso
73
atos, queria que fossem compreendidos como desgraças numa concepção maior da
vida 74
Para compreender melhor a estratégia de autoacusação de Moosbrugger,
proponho como chave de leitura alguns princípios do romance policial moderno, que Musil
antecipa em O homem sem qualidades. Luc Boltanski se debruçou sobre essa categoria
de romances, e identificou como sendo central para a trama policial a busca pela solução
de mistério. O que é um mistério? É a manifestação de uma singularidade, mas de tipo
específico. Trata-se do evento anormal, que caracteriza a irrupção do mundo na realidade.
ocorrer - 75
A realidade, por
sua vez, consiste na estabilização do mundo por meio de formatos preestabelecidos,
elaborados e geridos por instituições que possuem estatuto legal ou paralegal. O detetive
moderno conhece profundamente a realidade, isto é, a rede de relações causais que
ordena o mundo conforme leis naturais, regras institucionais e estruturas psicológicas.
Portanto, para um grande detetive, poucos crimes são verdadeiramente anormais, e a
maioria pode ser compreendida a partir de fatos evidentes, como um assassinato
passional em que as partes envolvidas são conhecidas e as intenções são declaradas (por
exemplo, o marido que atira na esposa à queima-roupa por ciúme). Em casos como esse,
não há nenhum significado novo a ser atribuído, e a justiça pode ser feita pelo mero
reconhecimento de delito. O romance policial trata somente de mistérios. Por exemplo,
em Cai o Pano (1975), de Agatha Christie, Hercule Poirot considera anormal justamente
érie de crimes comuns sem qualquer
correlação aparente, decide começar uma nova investigação simplesmente porque
73
MUSIL, O homem sem qualidades.
74
MUSIL, O homem sem qualidades.
75
BOLTANSKI, Mysteries and Conspiracies.
76
CHRISTIE, Cai o Pano, p. 21.
aprendizado das leis. Nesse embate se reencena, agora no plano jurídico, a disputa entre
violência organizada e violência passional, entre univocidade e símbolo. O facínora
relutava ser condenado univocamente, e por isso o tribunal foi confrontado com
[...] duas táticas lutando entre si, duas unidades e duas consequências lógicas; mas
Moosbrugger estava na posição mais desvantajosa, pois nem mesmo alguém mais
inteligente do que ele teria podido expressar seus estranhos motivos nebulosos. Eles
brotavam diretamente da sua vida desordenada e solitária; e enquanto todas as vidas
existem de cem maneiras vistas pelos que as vivem e pelos que as testemunham
a vida dele, a verdadeira, só para ele existia. Era um sopro que se deforma
constantemente, mudando de figura. Verdade que ele poderia ter perguntado aos seus
juízes se as vidas deles eram essencialmente diferentes. Mas nem pensava numa
coisa dessas. Diante da justiça, tudo o que parecera tão naturalmente encadeado
dentro dele ficava lado a lado, de um modo desconexo, e ele se esforçava muito para
lhe conferir um sentido que não ficasse, em nada, atrás da dignidade de seus nobres
adversários.77
79
Os anjos possuem uma compreensão mais profunda dos estados de espírito. Musil
recorre a Swedenborg que era capaz falar do céu com tanta confiança como se
estivesse falando de Estocolmo e seus habitantes para explicar que os anjos, apesar de
de espaço e tempo. Para eles, a sucessão do tempo, os conceitos de ontem e hoje, nada
significa algo diferente do que para nós: é um estado infinito, não um tempo infinito. Pois
80
A história de ideias é a
história vista por anjos.
77
MUSIL, O homem sem qualidades.
78
MUSIL, O homem sem qualidades.
79
MUSIL, O homem sem qualidades.
80
MUSIL, O homem sem qualidades.
canibalismo quanto de crítica da razão pura; pode realizar as duas coisas com as mesmas
convicções e qualidades, quando a situação exige, e diferenças exteriores muito grandes
81
Afinal, Ulrich também sentirá
seu thymos ressurgir e, simultaneamente, experimentará uma intensa felicidade ligada
ao desejo de cometer um assassinato. Sua armadura depressiva será quebrada durante
uma conversa franca e tensa com Arnheim, em que confronta o magnata sobre a falsidade
de seu interesse pela Campanha Paralela e por Diótima, ocultando seu desejo de controlar
campos de petróleo na Galícia. Arnheim, que até então inexplicavelmente desejava fazer
de Ulrich uma espécie de herdeiro, o abraça para tranquilizá-lo sobre suas intenções.
ao observar Arnheim tão satisfeito consigo mesmo diante do mundo que controlava, Ulrich
compreendeu pela primeira vez o que significava ter consciência de si:
4. A história do mundo
81
MUSIL, O homem sem qualidades.
82
MUSIL, O homem sem qualidades.
83
Ainda que, em O homem sem qualidades, os termos apareçam como sinônimos frequentemente.
84
Sobre a força causal na obra, ver: PAYNE, Robert Musil's The Man Without Qualities.
prometendo mudar os rumos da história: uma nova pandemia assola a África; começa um
conflito armado no Oriente Médio; a aviação bate novo recorde; as bolsas caem pelo oitavo
dia seguido; os índices da fome atingem o pior nível desde 1990; um terrível terremoto
Por que seria possível deixar fora metade da certeza? Para Musil, a história do
de grande força de causação, é falsa, porque ignora a soma social das atividades
cotidianas. Como já sugerimos, as pequenas atividades cotidianas põem mais energia no
mundo que as ações heroicas pontuais, porque cabe a elas sustentar a realidade no
mundo, isto é, produzir o efeito de redução das possibilidades do real. Afinal, comenta
que surja com isso um mundo onde os homens não possam mais viver. Há muita coisa
capaz de realidade e de mundo que simplesmente não se encontra num determinado
87
O herói, se quiser de fato transformar o mundo, precisará andar
nesses caminhos estreitos da realidade e confiar num número desconhecido de coisas,
ideias e pessoas sem as quais sua ação forçosamente sucumbiria.88 O que faz lembrar da
hipótese de Duchamp, que sugeria, com uma ironia tipicamente musiliana, que muito
provavelmente a história da arte é feita de artistas medíocres, e que os melhores artistas
do passado permaneceram desconhecidos e suas obras não deixaram vestígios.
A função da realidade é tornar a relação com o mundo segura e previsível,
permitindo reduzir a experiência de mudança a algumas ninharias pessoais; o que é
agradável a maioria, ainda que cause desconforto às pessoas independentes. A realidade
depende ainda
possibilita a compreensão da realidade e é de hábito tão pouco visível quanto o ar que
85
MUSIL, O homem sem qualidades.
86
MUSIL, O homem sem qualidades.
87
MUSIL, O homem sem qualidades.
88
rcitos tem veis desaparecem em quest o de
semanas? Por que imp rios formid veis como o sovi tico desabam em poucos meses? Por que
empresas multinacionais v o fal ncia depois do quarto balancete? Por que essas mesmas
empresas, em menos de dois semestres, saem do vermelho com um lucro espetacular? Por que
cidad os pacatos se transformam em massas revolucion rias, ou multid es agressivas de repente
come am a festejar como cidad os livres? Por que um indiv duo pregui oso parte de s bito para
a a o, ao receber uma not cia qualquer? Por que um m sico acadêmico cede inesperadamente
tentação dos ritmos agitados? Generais, editores, administradores, observadores e moralistas
costumam dizer que essas mudan as repentinas apresentam uma esp cie de qualidade l quida
impalp vel. N o quer dizer que a s lida arquitetura da sociedade esteja desabando, que o Grande
Levial tenha p s de barro, mas que Leviat e sociedade circulam por canais t o estreitos que,
para serem ativados, precisam confiar num n mero desconhecido de ingredientes oriundos do
plasma LATOUR, Reagregando o social, p. 349).
89
nossos sen 90
As perturbações das emoções colocam em risco a realidade.
Nesse sentido, a história do mundo descreve, sem sabê-lo, o processo de embotamento
dos sentidos, a anulação recíproca de sentimentos remanescentes, ou ainda, o
po de sentimentos frios que (...) favorecem o próprio
91
Daí a naturalidade com que os historiadores do mundo falam dos 17
milhões de assassinados pelo Nazismo, seguros de que essa abstração não é capaz de
produzir neles um profundo estado de terror que poderia colocar em risco a objetividade
de seus estudos.
Todavia, nas grandes cidades e grandes massas coletivas, em que os fatos e
experiências particulares estão sempre prestes a se perderem no conjunto impessoal das
relações, como a realidade poderia tomar forma? Se somos atores ou testemunhas da
história, ou se algo realmente aconteceu, não importa, à medida que as ações e as teses
se processam sempre noutro lugar, segundo uma lógica que na maioria das vezes
desconhecemos o que para nós, contemporâneos, deve soar ainda mais óbvio à medida
que até a socialização é mediada por algoritmos. No mundo moderno, o que acontece
acaba obliterado pela possibilidade do que ocorreu de tal maneira, mas poderia ter
ocorrido de outra. O significado geral e particular, sem base factual que o sustente, só
pode ser buscado na extensão do possível. Assim, conclui Musil,
O que chamamos de realidade é uma utopia. A história, tal como nós a representamos
e acreditamos viver, com sua sucessão de incidentes tranquilamente linear, exprime
apenas nosso desejo de nos agarrar a coisas sólidas, a acontecimentos
incontestáveis, desenvolvendo-se numa ordem simples de que a arte narrativa, a
eterna literatura das amas-de- leite, põe em destaque e em proveito da ilusão
atraente.92
89
MUSIL, O homem sem qualidades.
90
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91
MUSIL, O homem sem qualidades.
92
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93
MUSIL, O homem sem qualidades.
toda gama de sentimentos contraditórios que afloram sem, contudo, poder deixar sua
marca ou influência no curso das ações. Em contrapartida, na composição de quadros
históricos, a história de ideias almeja descrever um estado de coisas e de espírito. Isso a
leva a enfatizar o conflito entre a sobriedade racional e uma resistência original do ser a
bicicleta, e morde só de brincadeira, (...) existe na atitude para com o que é vivo e móvel,
e rola diante da gente, mudo, ou que dispara silencioso, uma secreta aversão contra a
94
Andando pelas ruas de Viena, ainda sob o impacto dos raios solares que, ele
percebe, afetam-no cada vez menos à medida que envelhece, Ulrich sente-se tomado pela
suspeita de que as manifestações falsas, levianas e impessoais são mais intensas que as
íntimas e essenciais. O homem sem particularidades revolve sobre o tema da
inessencialidade de tudo, a suspeita de que, se tudo que fazemos e sentimos fluem na
ariamente os caminhos estreitos das
-configuradas da vida (...) que a desconfiança sente com tanta
nitidez, a mesmice, o que já foi preparado por gerações inteiras, a linguagem pronta, não
apenas da boca, mas das sensações e percepçõe 95 Ulrich então se detém por alguns
segundos diante de uma igreja, que bastam para o dilacerarem em suas profundezas,
resistência original que sentimos contra esse
mundo cristalizado em milhões de toneladas de rocha, essa hirta paisagem lunar da
96
94
MUSIL, O homem sem qualidades.
95
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96
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97
MUSIL, O homem sem qualidades.
98
MUSIL, O homem sem qualidades.
Nesse esteio, também as ideias não são consideradas como um conjunto ordenado
de proposições lógicas, mas como desencadeadores de acontecimentos. Embora se
possa verificar pontualmente a contribuição concreta de uma ideia para o curso da
história, na maior parte das vezes seu efeito é catalisador. As ideias desencadeiam
agregados, associações, estados de espíritos muitas vezes imprevisíveis e sem qualquer
correlação com o que ela havia projetado. Qualquer estudioso sabe que o significado do
mais simples verbete seria impossível de fixar caso fosse necessário harmonizar tudo
aquilo que foi escrito sobre ele; e por esse motivo seria perfeitamente possível provar que
Musil é e não é um niilista. Ainda assim, damos como certa a influência do niilismo no
curso da história. A esse respeito, Ulrich considera, ironicamente, que o curso da história
é comandado pelo princípio da razão insuficiente. Grandes ideias como patriotismo,
e, vice-versa, as vastidões do mundo entram no eu, e não se pode mais reconhecer o que
é nosso e o que é do infin 102
O espírito, para Musil, é o devir. Por isso, não cessa, de confundir, separar, religar
conceitos. Rejeita tudo que parece definitivo, como as leis, grandes ideais e o caráter
satisfeito. Não há moral ou ordem que o determine, e nada, nem mesmo o eu, é sólido
99
MUSIL, O homem sem qualidades.
100
MUSIL, O homem sem qualidades.
101
MUSIL, O homem sem qualidades.
102
MUSIL, O homem sem qualidades.
lamentasse ter que agir como um mau ator por conta da inveja que sente da felicidade de
Arnheim. Dessa forma, ambos, sem cons
trazida por uma onda que movesse seus corpos (...) o futuro mandava à frente uma onda,
misturando as pessoas num ato criativo que as transcendia, mas numa confusão muito
104
afirmo, essa é a morte pelo frio, a rigidez cadavérica, uma paisagem lunar, uma epidemia
105
Pois em outra passagem da obra que, examinada de perto, é mais um
esse mesmo general idiota, talvez
103
MUSIL, O homem sem qualidades.
104
MUSIL, O homem sem qualidades.
105
MUSIL, O homem sem qualidades.
cansado de toda a conversa inteligente entre Ulrich e Arnheim, protestará apontando que
[...] o espírito não é simplesmente dispensável. Pois se devo tratar o ser humano com
esporas e rédeas, como a um animal, é preciso que também eu carregue em mim
algo de animal, porque um bom cavaleiro é mais chegado à montaria do que, por
exemplo, à filosofia do Direito! Os prussianos designam isso como o canalha que cada
um de nós traz dentro de si, e eles o dominam com um espírito espartano. Eu, como
general austríaco, prefiro dizer: quanto melhor, mais bonito e organizado for um
Estado, tanto menos se precisa de espírito dentro dele, e, num Estado perfeito, não se
precisa de nenhum! Considero isso um paradoxo muito complicado.106
106
MUSIL, O homem sem qualidades.
107
MUSIL, O homem sem qualidades.
Referências
CHRISTIE, Agatha. Cai o Pano. Trad. Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2009.
GRILL, Genese. The World as metaphor in Robert Musil's The Man Without
Qualities: possibility as reality. Rochester: Camden House, 2012.
MUSIL, Robert. Five Women. Nova Iorque: First Verba Mundi, 1999.
MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Trad. Lya Luft e Carlos
Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018. Edição Kindle.
PAYNE, Philip. Robert Musil's The Man Without Qualities: a critical study.
Cambridge: Cambridge University, 2009.
Victor Hermann
Possui Doutorado em Literatura, Outras Artes e M dias pela
Universidade Federal de Minas Gerais (2020), Gradua o em
Artes Visuais (2010) e Mestrado em Artes (2014) pela mesma
institui o. Atualmente, atua como pesquisador independente nas
reas de Estudos do Antropoceno, Cat strofe, Teoria da
Literatura, Arte Contempor nea, Est tica na Era Digital e
Literatura e Filosofia. Sua tese de doutorado, intitulada Zona
cinza: como perceber a cat strofe?, examina a percep o de
cat strofes e investiga como a literatura e as artes visuais podem
contribuir para sua elabora o. E-mail:
[Link]@[Link].
Imagem gerada por IA (Midjourney) a
partir dos termos: neo fauvist anarchy
DOI: 10.53981/destroos.v4i1.47903
DOSSIÊ AN-ARQUIA E ANARQUISMOS
PÓS-ANARQUISMO
E POLÍTICA RADICAL HOJE*
Saul Newman 0000-0001-9841-1518
University of London
Resumo
O presente artigo pretende discutir o sentido do pós-anarquismo, entendido não como uma
corrente posterior ao anarquismo clássico do século XIX, e sim como uma orientação teórica
contemporânea que, criticando o universalismo, o humanismo e o progressismo das
concepções tradicionais do anarquismo, seja capaz de representar uma chave de leitura
ontológica para a política radical atual. Para tanto, são revisitadas as polêmicas entre marxismo
e anarquismo, bem como efetivada uma leitura an-árquica de autores pós-estruturalistas, a
exemplo de Jacques Rancière.
Palavras-chave
Anarquismo; marxismo; política radical; pós-estruturalismo; pós-anarquismo.
Keywords
Anarchism; marxism; radical politics; poststructuralism; post-anarchism.
*
Texto originalmente publicado na obra coletiva EVREN, Süreyyya; ROUSSELLE,
Este trabalho está licenciado sob Duane. Post-anarchism: a reader. London: Pluto, pp. 46-68, 2011. A tradução e a
uma licença Creative Commons
Attribution 4.0. publicação na (des)troços foram autorizadas pelo autor.
Pós-anarquismo e política radical hoje
1. Introdução
do anarquismo mais uma vez emergiu como tópico. Ao questionar a proposta de Critchley
em seu recém-publicado livro Infinitely Demanding,1 sobre uma política radical que
trabalhe fora do estado que se distancia dele
1
CRITCHLEY. Infinitely Demanding.
2
3
NEWMAN. Unstable Universalities.
4
Holding the Place, Revolution
at the Gates) e Mao Tse- On Practice and Contradiction).
5
Ver o excelente artigo de Wendy Brown sobre neoliberalismo (BROWN.
In: Theory and Event).
estão fora do estado, mesmo enquanto demandam dele.6 Além do mais, os movimentos
sociais hoje evitam o modelo do partido revolucionário de vanguarda com suas estruturas
de comando autoritárias, hierárquicas e centralizadas; do contrário, a ênfase é em modos
Afirma o fato de que é impossível manter em uma conclusão lógica, sem absurdos, a
ideia de uma liberdade civil perfeita baseada na discriminação, privilégios e
desigualdades de condição (e, a fortiori, instituir tal liberdade), assim como é
impossível conceber e instituir igualdade entre seres humanos baseada no
despotismo (mesmo no d
igual é, portanto, incondicional. (Itálicos no original).11
Apesar disso, foram os anarquistas que levaram essa formulação à sua conclusão
lógica: se liberdade e igualdade significam alguma coisa, então claramente o poder estatal
em si em qualquer forma que seja deve ser questionado; certamente a soberania foi a
praga máxima a recair sobre a igualdade e a liberdade. É por isso que, para Bakunin,
igualdade de direitos políticos instanciados pelo
contradição lógica:
6
Infinitely
Demanding. Essa ideia de desenvolver espaços alternativos fora do estado tem sido desenvolvida
por inúmeros pensadores, especialmente Hakim
T.A.Z.: The Temporary Autonomous Zone).
7
muitos grupos ativistas hoje são discutidos no artigo de Da The New Anarchists
(GRAEBER. The New Anarchists).
8
Nem sempre foi assim, no entanto: por exemplo, durante a Guerra Civil Espanhola, grupos
anarquistas estavam em várias partes da Espanha a força política dominante (ver LEVAL.
Collectives in the Spanish Revolution).
9
HOBBES. Leviathan. Cap. 13.
10
Veja BAKUNIN. Political Philosophy. p. 165.
11
BALIBAR. Politics and the Other Scene. p. 3.
Em outras palavras, não pode haver igualdade nem mesmo igualdade política
básica enquanto existir um estado soberano. A igualdade de direitos políticos derivada
da democracia é em última consequência incompatível com o direito político o princípio
da soberania que garante autoridade sobre esses direitos ao estado. Em seu nível mais
fundamental, igualdade política só pode existir tensionada com um direito que se
posiciona acima da sociedade e determina as condições sobre as quais essa igualdade
política pode ser exercida. Igualdade política, se levada a sério e entendida radicalmente,
só pode significar a abolição da soberania do estado. A igualdade dos direitos e deveres
implicados à democracia significa que ela é em última consequência irreconciliável com
qualquer estado, ou com a estrutura e o princípio da própria soberania. A demanda por
emancipação, central à política radical, sempre foi baseada na impossibilidade de separar
liberdade e igualdade. Os anarquistas são únicos na sua contestação de que isso não pode
ser feito e de fato não pode nem ser teorizado dentro do enquadramento estatal.
2. Crítica ao marxismo
12
BAKUNIN. Political Philosophy. pp. 222-3.
13
Ver NEWMAN. From Bakunin to Lacan.
14
Ver, por exemplo, THOMAS. Karl Marx and the Anarchists.
15
Estou me referindo à teoria de Marx sobre o Bonapartismo, na qual o estado alcança um grau de
Marx e Friedrich Engels (MARX; ENGELS. Collected Works of Karl Marx and Friedrich Engels,
vol.7: Demands of the Communist Party in Germany). Ver também Saul Newman (NEWMAN.
59).
era necessariamente perigosa porque ignora a autonomia do poder estatal o jeito que o
estado era opressor, não só em sua forma, mas em sua própria estrutura, e que ele tem
suas próprias prerrogativas, sua própria lógica de dominação, que se cruza com o
capitalismo e os interesses da economia burguesa mas não são redutíveis a eles. Para
anarquistas, então, o estado será sempre opressor, não importa qual classe está no seu
controle de fato, o estado dos trabalhadores era simplesmente outra forma de poder
estatal. Nas palavras de Alan Carter:
Os Marxistas, portanto, falharam em perceber que o estado sempre age para proteger
seus próprios interesses. É por isso que eles falharam em enxergar que não se pode
confiar na vanguarda que tomou controle do estado para garantir que o estado
16
Esse trabalho (LENIN. The State and Revolution) é realmente um tipo de diálogo com o
anarquismo a tentativa de Lenin de se distanciar do anarquismo, do qual ele parece às vezes
estar muito próximo.
17
CARTER. Outline of an Anarchist Theory of History. In For Anarchism. pp. 176-97.
18
Ver SCHMITT. The Concept of the Political.
19
3. Debates contemporâneos
20
: Post-Scarcity Anarchism.
21
BAKUNIN. Marxism, Freedom and the State. p. 47.
22
BAKUNIN. Marxism, Freedom and the State. p. 48.
23
Mais recentemente houve importantes tentativas de desenvolver uma abordagem anarquista ao
meio ambiente, e em entender a relação entre a dominação social e a destruição do meio
ambiente. The Ecology of Freedom:
The Emergence and Dissolution of Hierarchy (BOOKCHIN. The Ecology of Freedom) assim como
os escritos de Jogn Zerzan, por exemplo Future Primitive (ZERZAN. Future Primitive).
pelo contrário, em uma leitura mais filosófica e ética da anarquia derivada de Levinas. 24
Existe um tema geral e um silêncio um pouco desconcertante sobre o anarquismo e
ai
pensamento político radical, uma que está se tornando crescentemente relevante hoje.
Aqui eu vou tentar demonstrar os jeitos em que o anarquismo pode informar alguns
desses debates chave na política radical contemporânea.
Por exemplo, se examinarmos um pensador como Alain Badiou, vemos inúmeros
25
Apesar de suas críticas do anarquismo, Badiou defende
uma forma de política militante e emancipatória que não se baseia em partidos políticos
formais e que trabalha fora do estado. Para Badiou, o Estado sempre foi a rocha fundante
na qual movimentos revolucionários passados se formaram:
Mais precisamente, devemos fazer a pergunta que, sem dúvida, constitui o grande
enigma do século: por que a subsunção da política, seja através da forma do elo
imediato (as massas), ou do elo mediado (o partido), em última instância, faz crescer
a submissão burocrática e o culto ao Estado?26
Sabemos hoje que toda política emancipatória deve colocar um fim ao modelo
tempo, sem recair na figura do anarquismo, que nunca fui nada mais do que vã crítica,
ou dublê, ou sombra, de partidos comunistas, assim como a bandeira preta é só uma
duplicata ou uma sombra da bandeira vermelha.29
24
Aqui Critchley cita a noção pré-política ou a-política de anarquismo de Levinas, como a ausência
de uma archè ou um princípio organizador. Ver Infinitely Demanding (CRITCHLEY. Infinitely
demanding, p. 122).
25
Como argumenta Ben Noys (NOYS. Critique of
Anarchist Studies), Badiou é um pensador que, apesar de ser um grande crítico do
anarquismo, tem muito em comum com ele.
26
BADIOU. Metapolitics.p. 70.
27
BADIOU. Metapolitics. p. 145.
28
Ver, por exemplo, , uma organização com a qual Badiou está envolvido,
e que faz campanha pelos direitos de trabalhadores imigrantes sem documentos sans papiers.
29
BADIOU. Polemics. P. 321.
impressão que se tem de Badiou é que toda política radical genuína terminou com a
30
Critchley faz um argumento similar sobre Badiou em Infinitely Demanding (CRITCHLEY. Infinitely
demanding. p. 131).
31
Ver Day (DAY. Gramsci is dead) para um estudo de alguns desses grupos e atividades.
32
CRITCHLEY. Theory and Event.
33
Being and Event (BADIOU. Being and Event). Ver
também sua discussão do universalismo paulino em St Paul: The Foundation of Universalism
(BADIOU. St Paul).
34
BADIOU. Ethics.
[Rancière] tem a tendência de direcionar massas sem nome contra um Estado sem nome.
Mas a situação real demanda em vez disso o direcionamento de massas contra a
35
Não resta dúvida que a hegemonia
mas em nome de uma
democracia mais genuína e por meio da ação de massa coletiva.
Para Ernesto Laclau,36 por outro no lugar do militante
é central. Seu trabalho mais recente sobre populismo demonstra as formas com que a
noção de povo é construída discursivamente em diferentes situações através do
hegemônicas entre diferentes atores,
grupos e movimentos. O pensamento de Laclau junto de Chantal Mouffe se
desenvolveu a partir de uma crítica do marxismo, uma que incorpora análise de discurso,
desconstrução e teoria de novos movimentos sociais, e enfatiza a contingência de
identidades políticas e a importância de um imaginário radicalmente democrático. De fato,
o pós-marxismo tem inúmeros importantes paralelos com o anarquismo
particularmente na sua rejeição do determinismo econômico e essencialismo de classe.
Laclau e Mouffe, em Hegemonia e Estratégia Socialista, questionam a centralidade da
classe para a subjetividade política, e demonstram que, mesmo no tempo de Marx, as
lutas e identidades de trabalhadores e artesãos nem sempre se conformaram à sua ideia
de proletariado: muitas dessas lutas eram contra relações de subordinação em geral, e
contra a destruição de sua forma de vida comunal e orgânica, através da introdução do
sistema fabril e de novas formas de tecnologia industrial como o Taylorismo. Ainda mais
identidades:
feita por anarquistas como Bakunin bem mais de um século antes dessas intervenções
pós-marxistas; assim como foi o argumento sobre a irredutibilidade (ao campo
econômico) da dimensão política do poder, a noção de que são diferentes lados da
opressão patriarcado, família, tecnologia industrial assim como inúmeros outros
temas que mais tarde emergiram como argumentos centrais do pós-marxismo.
Ainda, eu também penso que é importante definir certas distinções entre
anarquismo e pós-marxismo. Enquanto o pós-marxismo faz uma importante contribuição
para o desenvolvimento de um novo terreno político radical, ele também é caracterizado
35
BADIOU., Metapolitics. p. 122.
36
LACLAU. On Populist Reason.
37
LACLAU; MOUFFE. Hegemony and Socialist Strategy. p. 159.
por
diferentes formas de compreender a função representativa no argumento de Laclau, nem
todas necessariamente implicam uma noção de representação política ou liderança. Por
exemplo, a noção de que a universalidade vazia do espaço político pode ser
38
Todd May (MAY. The Political Philosophy of Poststructuralist Anarchism) vê a crítica da
representação como central ao anarquismo clássico.
39
HARDT; NEGRI. Multitude. p. 101.
40
Essa questão também foi levantada por Jason Read (READ. From the Proletariat to the Multitude:
Multitude and Political Subjectivity) em sua resenha de Multitude de Hardt e Negri. Ver também
Malcom Bull (BULL. The Limits of the Multitude. p. 19-39).
41
LACLAU, On populist reason. p. 242.
Jacques Rancière, por outro lado, propõe uma noção bem diferente da multidão
para a política radical para ele, a política emerge de uma fratura em vez de uma
superfície plana, algo que rompe as relações sociais existentes por fora em vez de imanar
delas. A noção de política de Rancière também tem paralelos fortes, e às vezes explícitos,
com o anarquismo, assim como tem importantes implicações para ele, como
demonstrarei. De fato, Rancière algumas vezes descreve sua abordagem de política como
o que para ele não tem nenhuma relação
com a agregação de preferências ou um tipo específico de instituições, mas é em vez
disso uma forma igualitária de política na qual todas as relações sociais hierárquicas são
desestabilizadas
de todos os títulos de governo.42 Além disso, todo o seu projeto político foi perturbar
hierarquias existentes e formas de autoridade, destituir a posição de domínio pela qual as
massas são conduzidas, excluídas, dominadas, representadas e desprezadas. Qualquer
forma de vanguarda política é, para Rancière, simplesmente outra expressão de elitismo
44
42
RANCIÈRE. Hatred of Democracy. p. 41.
43
RANCIÈRE. The Ignorant Schoolmaster. p. 138.
44
RANCIÈRE. The Ignorant Schoolmaster. p. 102.
palavras, o antagonismo central não é tanto entre duas entidades, mas entre dois modos
diferentes de s
que funda a ordem social existente a lógica que divide e regula o espaço social,
designando diferentes identidades ao seu lugar dentro da hierarquia social. Nesse sentido,
polícia incluiria as funções usuais de coerção e repressão do estado, mas também se
refere a uma noção muito mais ampla de organização e regulação da sociedade a
distribuição de espaços e papéis. Em outras palavras, dominação e hierarquia não podem
se restringir ao estado, mas são na verdade localizadas em todo tipo de relação social
de fato, dominação é uma lógica particular de organização social, na qual pessoas são
Política, por outro lado, é o processo que perturba essa lógica de ordenamento
social que rompe o espaço social através da demanda dos excluídos por inclusão. Para
Rancière, a política emerge mesentente)
fundamental entre um grupo particular que é excluído e a ordem social existente: esse
grupo social excluído não só demanda que sua voz seja ouvida, que ele seja incluído na
ordem social, mas, mais precisamente, ele diz fazê-lo em nome de toda a sociedade. O
que é central para a política, então, de acordo com Rancière, é que uma parte excluída
não só demanda ser contada como parte do todo social, mas clama por incorporar esse
todo, na verdade. Rancière demonstra a forma com que, na Grécia antiga, o demos ou
, que não tinha lugar fixo na ordem social, demandava por inclusão,
demandava que sua voz fosse ouvida pela ordem aristocrática e, ao fazê-lo, clamava por
representar os interesses universais de toda a sociedade. Em outras palavras, há um tipo
de substituição metonímica da parte pelo todo a parte representa suas lutas em termos
de universalidade: seus interesses particulares são representados como sendo idênticos
àqueles da comunidad
causa uma ruptura ou um deslocamento na ordem social existente: essa parte não pode
ser incluída sem perturbar a própria lógica da ordem social baseada nessa exclusão. Para
fornecer um exemplo c talvez o grupo
mais excluído hoje para terem seu lugar na sociedade, para terem seu status legitimado,
criariam uma espécie de contradição na ordem social que se recusa a incluí-los ou
mesmo os reconhecer, que promete direitos iguais e democráticos para todos, e ainda
democráticos universais são prometidos a todos, mas na prática são concedidos somente
45
Todd May (MAY. Jacques Rancière and the Ethics of Equality. pp. 20 35.) também reconheceu a
importância do pensamento de Rancière para o anarquismo.
Enquanto talvez pareça que a demanda por inclusão na ordem social, legal e
política não é uma estratégia anarquista, o ponto é que essa demanda por inclusão, porque
ela se forma em termos de universalidade, de uma parte que, em sua própria exclusão,
alega ser o todo, causa o deslocamento dessa ordem. Nesse sentido, a política radical
hoje pode tomar a forma de movimentos de massa que se constroem em torno de grupos
não significa, é claro, que movimentos de massa não devem se preocupar com problemas
globais gerais como o meio ambiente; mas se mobilizar em torno de estruturas
particulares de dominação e exclusão e em torno daqueles que são mais afetados por
elas, pode ser uma forma de resistência efetiva. Por exemplo, lutar pelos direitos de
como redes ativistas como a Sem Fronteiras fazem destaca as
contradições e inconsistências mais amplas no capitalismo global, um sistema que alega
promover a livre circulação de pessoas (assim como de capital e tecnologia) através de
fronteiras nacionais, e ainda assim parece ter o efeito exatamente oposto a
intensificação de fronteiras existentes e o surgimento de novas. Em outras palavras, a
47
47
Ver as explorações das políticas de fronteira, migração e globalização no trabalho de Étienne
Balibar (BALIBAR. We the People of Europe), assim como em Sandro Mezzadra (MEZZADRA.
Migration, Detention, Desertion).
condicionada por uma certa essência que é ao mesmo tempo racional e natural o que
se desdobra na direção da revolução e da emancipação. Em outras palavras, o anarquismo
é baseado não somente em uma certa visão da emancipação humana e do progresso
social, mas na ideia de uma racionalidade social que está inexoravelmente se
movimentando nessa direção. Essa ideia pode ser observada na compreensão
materialista de Bakunin de leis naturais e históricas leis que são observáveis
cientificamente - ou na crença de Kropotkin de que existe uma tendência inata e
48 49
que mede a separação entre a parte do trabalho como função social e a falta de parte
daqueles que o fazem dentro da definição do comum da comunidade. 51
5. Pós-anarquismo
O que eu estou apontando para aqui através do Rancière não é uma forma de
individualismo radical ou existencial, no qual o sujeito é uma mônada isolada que age num
vácuo político.52 Obviamente, a política radical envolve desenvolver elos com outros, e
construir novas relações políticas, novos entendimentos de comunidade. Mas o ponto é
que eles não podem ser compreendidos como sendo fundados num certo conceito de
48
BAKUNIN. Political Philosophy. p. 69.
49
KROPOTKIN. Mutual Aid.
50
BOOKCHIN. The Ecology of Freedom.
51
RANCIÈRE. Disagreement. p. 36.
52
A noção de egoísmo em Max Sirner, por exemplo, enquanto oferece uma intervenção filosófica
importante na teoria anarquista particularmente ao desenvolver a crítica do essencialismo
não necessariamente oferece um modelo convincente ou completo da ação política. Ver The Ego
and Its Own (STIRNER. The Ego and Its Own).
53
Ver, primariamente, o trabalho de Laclau e Mouffe.
54
Cornelius Castoriadis (CASTORIADIS. The Imaginary Institution of Society), um teórico
psicanalista cujo pensamento político tem afinidades com o anarquismo, fala sobre o papel de
significações imaginárias em construir a realidade social.
55
Ver Lewis Call (CALL, Postmodern Anarchism). Pode-se também mencionar John Holloway
(HOLLOWAY, Change the World Without Taking Power) aqui, apesar de ele vir mais da tradição
libertária marxista em vez de estritamente anarquista.
56
Ver May (MAY, The Political Philosophy of Poststructuralist Anarchism. p. 12). Aqui eu discordaria
de May em anos recentes Derrida tinha se engajado cada vez mais com questões políticas sobre
direito, justiça, democracia, Marxismo, direitos humanos e soberania.
57
tempo sido inspiradas pela psicanálise. Eu tenho em mente aqui pensadoras como Luce Irigary e
Julia Kristeva.
58
FREUD,
59
LACAN, The Four Fundamental Concepts of Psychoanalysis. p. 20.
60
BUTLER, The Psychic Life of Power.
meu ver, é crucial para desenvolver uma compreensão mais completa das
potencialidades do sujeito
Além do mais, o foco no inconsciente não nos direciona, como alguns sugerem, de
volta ao essencialismo do sujeito. Pelo contrário, as compreensões freudiana e lacaniana
Esse debate tem alguma relevância para o pós-anarquismo hoje, como muitos
teóricos do ativismo contemporâneo inspirados pelo pós-estruturalismo Hardt e Negri
estando entre os mais proeminentes, mas também Richard J. F. Day62 tendem a ver o
argumento deleuzo-spininoziano de imanência, abundância, fluxo e transformação como
o jeito de pensar mais apropriado sobre grupos de afinidade descentralizada e redes
que caracterizam a política anticapitalista radical hoje.
Apesar de eu sempre ter considerado o pensamento antiestado em Deleuze (e
Guattari) como inestimável para a política radical,63 minha própria abordagem tende a
teorizada de diferentes formas por
pensadores como Lacan e Derrida de um tipo de limite discursivo ou vazio que excede
a representação e a simbolização. Eu não concordo com Andrew Robinson que isso
imporia uma abstração mítica que levaria ao conservadorismo apolítico.64 Se se aceita a
ideia que que a realidade social é construída em algum nível discursivo ou seja através
de relações de linguagem através das quais formamos significado e identidade então
61
TØNDER; THOMASSEN (eds), Radical Democracy. p. 1-2.
62
DAY, Gramsci Is Dead.
63
,
War on the State).
64
ROBINSON, The Political Theory of Constitutive Lack.
Conclusão
65
Ver a resenha de Todd May (MAY, Lacanian Anarchism and the Left) do meu livro From Bakunin
to Lacan.
66
ser uma forma de procrastinar ou adiar a decisão política (como May parece sugerir), na verdade,
invoca a imediatidade do presente, e clama por uma crítica militante de todas as articulações
existentes da democracia em nome de perfectibilidade infinita. Ver Rogues: Two Essays on
Reason (BRAULT, Rogues, p. 86-90).
Referências
BALIBAR, Étienne. Politics and the Other Scene. Londres: Verso, 2002.
Post-Scarcity Anarchism.
Berkeley: The Ramparts Press, 1971.
DAY, Richard J.F. Gramsci Is Dead: Anarchist Currents in the Newest Social
Movements. Londres: Pluto Press, 2005.
The
Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud.
Tradução de J. Strachey. Londres: Hogarth Press, 1921.
HARDT, Michael, NEGRI, Antonio. Multitude: War and Democracy in the Age
of Empire. Londres: Penguin 2004.
HOLLOWAY, John. Change the World Without Taking Power: The Meaning
of Revolution Today. LONDRES: Pluto Press, 2005.
LENIN, V.I. (1932/1943). The State and Revolution. Nova York: International
Publishers, 1932/1943.
The
Marx Engels Reader. TUCKER, R.C. (trad.). Nova York: W.W. Norton & Co.
68 When Anarchism Met Post-Structuralism, 1978.
Anarchist
Studies 12(1), 2004. pp. 35 59.
NEWMAN, Saul.
Anarchist Studies 9(2), 2001.
STIRNER, Max. The Ego and Its Own. LEOPOLD, D. (eds). Cambridge:
Cambridge University Press, 1995.
THOMAS, Paul. Karl Marx and the Anarchists. Londres: Routledge & Kegan
Paul, 1980.
Saul Newman
Doutor em Ciências Políticas pela University of New South Wales
(Austrália) e professor de Teoria Política na Goldsmiths College,
University of London. E-mail: [Link]@[Link].
ANARQUISTA? *
Todd May 0000-0003-4369-931X
Universidade Clemson
Tradução por
Gustavo de Oliveira Correa 0000-0002-9491-2013
Universidade Federal de Minas Gerais
Tradução de:
MAY, Todd. Is post-structuralist political theory anarchist? In: EVREN, Süreyyya; ROUSSELLE,
Duane. Post-anarchism: a reader. London: Pluto, pp. 41-45, 2011.
*
Texto originalmente publicado na obra coletiva EVREN, Süreyyya; ROUSSELLE,
Este trabalho está licenciado sob Duane. Post-anarchism: a reader. London: Pluto, pp. 41-45, 2011. A tradução e a
uma licença Creative Commons
Attribution 4.0. publicação na (des)troços foram autorizadas pelo autor.
A teoria política pós-estruturalista é anarquista?
1
FOUCAULT, Structuralism and Post-structuralism, p. 206.
2
WARD, Anarchy in Action, p. 138.
3
Veja por exemplo Dews (1987), Habermas (1987) sobre relativismo normativo e Merquior (1985)
sobre niilismo. Acerca do debate Habermas-Lyotard no qual isso é um problema central, ver
Ingram (1987-88) e Watson (1984).
4
Por óbvio, não é necessário seguir à risca essa ordem. Contudo, a filosofia política contemporânea
tanto anglo-estadunidense como continental tem sido guiada predominantemente por esses
três elementos entrelaçados, com Rawls e Habermas provendo, talvez, os exemplos mais
esclarecidos.
5
KROPOTKIN, , p. 234; FOUCAULT, Histoire de la folie
classique, pp. 511-530.
totalização socia 7 O mesmo poderia ser dito de Deleuze e Lyotard. O tipo de atividade
intelectual promovida pelos anarquistas tradicionais e exemplificada pelos pós-
estruturalistas está mais para uma análise específica ao em vez de uma crítica geral. Os
anarquistas tradicionais apontaram para os perigos do domínio da abstração; os pós-
estruturalistas levaram em conta esses perigos em todos os seus trabalhos. Eles
produziram um corpo teórico direcionado a uma época em que houve representação
política de mais e autodeterminação de menos. O que tanto o anarquismo tradicional
quanto o pós-estruturalismo contemporâneo buscam é uma sociedade ou melhor, um
conjunto interseccional de sociedades na qual não se diga às pessoas o que elas devem
ser, o que querem e como devem viver, mas que sejam livres para determinarem essas
coisas por si mesmas. Essas sociedades constituem um ideal e, como os pós-
estruturalistas reconhecem, provavelmente um ideal impossível. Mas nos tipos de
análises e lutas que esse ideal promove análises e lutas dedicadas à abertura de
espaços concretos de liberdade no campo social repousa o valor da teoria anarquista,
tanto tradicional quanto contemporânea.
6
FOUCAULT, Power/knowledge, p. 62.
7
SCHURMANN, On constituting oneself an anarchist subject, p. 307.
Referências
Todd May
Professor de Filosofia na Universidade Clemson na Carolina do
Sul (EUA). Autor de The political philosophy of poststructuralist
anarchism (1994).
ON RADICAL GENEALOGIES
OF CIVIL DISOBEDIENCE: REMARKS ON BÁRBARA
Comentários a:
NASCIMENTO DE LIMA, Bárbara. Civil disobedience: a dispute of concepts. (des)troços: revista
de pensamento radical, v. 3, n. 2, pp. 27-64.
disobedience: a dispute of
. (des)troços: revista de
pensamento radical, Belo
Horizonte, v. 4, n. 1, e46129,
jan./jun. 2023.
Lima
makes a compelling contribution to the radical democratic approach to civil disobedience
1
Telling a genealogical story of these
appropriations that spans the supposed origin of civil disobedience in the work of Henry
David Thoreau to its embrace by American philosophers in the 1960s and 1970s,
Nascimento de Lima highlights the reoccurring domestication of the concept and seeks to
reclaim a more radical understanding of it, one capable of making sense of contemporary
forms of radical politics.
While debates in political theory can be marked by acrimony, my reply to
Nascimento de Lima is not intended in that vein. Rather, my aim is to contribute to the
ongoing debate around radical civil disobedience. Through critical engagement with
I claim it is necessary to complicate the idea that Thoreau is the creator of the idea
of civil disobedience.2
1
Robin Celikates is today the main representative of this approach. See CELIKATES, Radical
Democratic Disobedience.
2
Concerning the same passage, one might ask whether it is historically accurate to characterize
John Rawls and A Theory of Justice (1971) as offering the first theoretical account of civil
disobedience. Multiple activists and theorists, from Bertrand Russell to Gene Sharp and Hugo
Bedau, advanced theories of civil disobedience between 1866 and 1971 that were, in their
disobedience gained relevance in 1849 when Henry David Thoreau, criticizing the war
against Mexico and demonstrating his anti-slavery sentiment, wrote his famous essay,
commonly known as Civil Disobedience
eoretical
about the meaning of civil disobedience. It is also about its chronology. To question the
Nascimento de Lima does, brings one aspect of these contestations to light while leaving
the multiple rewritings of the chronology of the concept genealogically unquestioned.
Another radicalism
7
For both Hanson
the radicalism present in the original text written by Thoreau, especially concerning the
In 8
doing so, Nascimento de Lima not only seems to assume that nonviolence is not or cannot
To me political power is not an end but one of the means of enabling people to better
their condition in every department of life. Political power means capacity to regulate
national life through national representatives. If national life becomes so perfect as to
become self-regulated, no representation is necessary. There is then a state of
enlightened anarchy. In such a state everyone is his own ruler. He rules himself in
such a manner that he is never a hindrance to his neighbour. In the ideal state
therefore there is no political power because there is no State. But the ideal is never
3
Another Radicalism
4
See ARENDT, On Civil Disobedience.
5
See RAWLS, A Theory of Justice.
6
See LIVINGSTON, Fidelity to Truth.
7
HANSON, The Domestication of Henry David Thoreau.
8
sine qua non
conditions to characterize an act as an act of civil disobedience. Her radical approach opens the
fully realized in life. Hence the classical statement of Thoreau that Government is best
which governs the least.9
His 10
and still is i
light on such historical dispute but also suggests there is something inherently
problematic about historical efforts to deradicalize civil disobedience. To advance her
radical position, Nascimento de Lima relies on a genealogy of civil disobedience that turns
out to be very similar to those orienting most liberal accounts of social protest. For
Nascimento de Lima, the civil rights movement was a fundamentally reformist movement
tha
beyond the juridical realm, recognizing that both law and state are embedded in structural
9
GANDHI, Power Not an End (Young India, 2-7-1931), p. 4.
10
GANDHI, Interview to Nirmal Kumar Bose (9/10-11-1934), p. 318.
11
MANTENA, , pp. 536, 537.
12
MANTENA, , pp. 535-36.
13
Nascimento de Lima does not clarify throughout the essay what is radical about radical civil
disobedience, although as I previously noted, radicality and violence seem to be conceptualized
in tandem in her approach.
14
MANTENA, , pp. 560-61.
15
See MEHTA, Gandhi on Democracy, Politics, and the Ethics of Everyday Life.
16
See LIVINGSTON, Fidelity to Truth.
tell a more
17
clear-cut distinction
18
recent radical readings of King, which share in emphasizing the distortions caused by
liberal appropriations of his political thought and activism, 19 King is made into a liberal in
to convince others (particularly moderate whites and figures of authority) of the injustices
of racism presented in some
21
For the problem with such a reading is that it participates in the liberal
22
King, and American liberal philosophers all defend a fundamentally nonradical conception
of civil disobedience. But if this is true, then it oddly seems that each of these figures is
attribution of colonization to such figures as Gandhi and King is partially the result of
to describe the
17
See THEOHARIS, A More Beautiful and Terrible History; PINEDA, Seeing Like an Activist.
18
About the idea of romanticized histories and historiographies of the civil rights movement, see
TERRY, Rawls, Race, and Romance.
19
See PINEDA, Martin Luther King, Jr. and the Politics of Disobedient Civility and Seeing Like an
Activism; LIVINGSTON, Power for the Powerless.
20
See, for example, HARCOURT, Political Disobedience.
21
Nascimento de Lima fundamentally departs in this regard from Pineda (Seeing Like an Activist),
whose historical and theoretical work she nevertheless acknowledges (44) and mobilizes (52-
disobedience with the predominant one in the civil rights movement, which, as the work of Pineda
(Seeing Like an Activist) shows, was not, or not always, the case.
22
KING JR.; WEST, The Radical King.
liberal domestication of civil disobedience might have been offered. What is colonial or
colonizing
disobedience? If we strictly follow the radical genealogy proposed in the article, both
Gandhi and King also seem to offer colonial accounts of civil disobedience. Are all these
does grouping them together continue to distort the more complicated stories of Gandhi
and King, two figures for whom civil disobedience was a radical form of decolonizing
praxis, one born in anti-colonial movements in Africa and Asia?23
23
PINEDA, Beyond (and Before) the Transnational Turn and Seeing Like an Activist.
24
LIVINGSTON, Fidelity to Truth.
Referências
LIVINGSTON, Alexander.
Late Theory of Civil Disobedience. Journal of Politics, n. 82 (2), pp. 700-
713, 2020.
KING JR., Martin Luther; WEST, Cornel (ed.). The Radical King. Boston:
Beacon Press, 2016.
MANTENA, Karuna.
Conjunctures. Modern Intellectual History, v. 9, n. 3, pp. 535-563.
PINEDA, Erin. Beyond (and Before) the Transnational Turn: Recovering Civil
Disobedience as Decolonizing Praxis. Democratic Theory, v. 9, n. 2, pp. 11-
36, 2022.
PINEDA, Erin. Martin Luther King, Jr. and the Politics of Disobedient Civility.
In: SCHEUERMAN, William E. (ed.). The Cambridge Companion to Civil
Disobedience. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.
PINEDA, Erin. Seeing Like an Activist: Civil Disobedience and the Civil
Rights Movement. Oxford: Oxford University Press, 2021.
THEOHARIS, Jeanne. A More Beautiful and Terrible History: The Uses and
Misuses of Civil Rights History. Boston: Beacon, 2019.
RELIGIÃO E DEMOCRACIA
REPRESENTATIVA DO SÉC. XIX AO XXI: RESENHA DE
Resenha de:
BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. Trad. Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Cortez, 1988.
diversas Igrejas, só tiveram igualmente por objeto principal essa mesma exploração em
3
A riqueza da outra minoria, daqueles integrantes do corpo
religioso e estatal, é alimentada, assim, pelo poder das instituições e às custas do trabalho
e da miséria das massas.4
Ao forjar a origem das manifestações humanas em Deus ou em algum análogo Ser
Supremo, a humanidade irroga ao intangível um caráter absoluto, reduzindo-se por
consequência ao nada e escravizando-se. Porque quem depende de revelações divinas
Se qualquer sociedade crê num Deus, essa crença é inconciliável com a liberdade
humana, pois a existência ideal de um senhor a quem obedecer implica na minoridade e
1
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 9.
2
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 50.
3
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 51.
4
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 51.
5
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 24.
6
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 28.
7
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 9.
8
é a liberdade real, a prosperidade de cada indivíduo vivo na sociedade. A menos que se recaia
nas ficções liberticidas do bem público representado pelo Estado, ficções fundadas sempre sobre
a imolação sistemática do povo, deve-se reconhecer que a liberdade e a prosperidade coletivas
só existem sob a condição de re
(BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 65).
O grande valor dado à ciência por Bakunin não significa que credite a ela o poder
absoluto de guiar a humani
não governá- 11 A abstração científica advinda do método que lhe é próprio é inevitável,
característica sua, e nem pode-se lhe exigir categorização diversa, já que a missão da
cupar-se da situação e das condições gerais da existência e do
desenvolvimento, seja da espécie humana em geral, seja de tal raça, de tal povo, de tal
classe ou categoria de indivíduos, das causas gerais de sua prosperidade, de sua
decadência e dos meios gerais bons para fazê- 12
Mas
essa constatação deve estar acompanhada da consciência dos limites da ciência e do
conhecer, um projeto sempre inacabado e que não pode nunca superar a vida e sequer
compreender em sua inteireza as individualidades concretas.13
Por isso, se engana alguém ao pensar que o Deus passa a ser Ciência, com inicial
maiúscula. Bakunin é crítico da condução científica de qualquer sociedade, na medida em
que sustenta a inevitável corrupção moral e intelectual dos bons intentos dos homens de
ciência sempre que se arvoram no direito de governar. 14
organização, nem de direção nem de legislação políticas, três coisas que emanam da vontade do
soberano ou da votação de um parlamento eleito pelo sufrágio universal, jamais podendo estar
conformes às leis naturais, e são sempre igualmente funestas e contrárias às liberdades das
massas, visto que elas lhes impõem um sistema de leis exteriores, e consequentemente
despóticas. A liberdade do homem consiste unicamente nisto: ele obedece às leis naturais porque
ele próprio as reconheceu como tais, não porque elas lhe foram impostas exteriormente, por uma
vontade estranha, divi Deus e o Estado,
p. 31).
10
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 34.
11
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 62.
12
BAKUNIN, Deus e o Estado, pp. 65-66.
13
sses seres formados, não
somente em ideia, mas em realidade, de carne e de sangue, a ciência não tem coração. Ela os
Deus
e o Estado, p. 65).
14
qual se tivesse confiado o governo da sociedade, acabaria logo por deixar
de lado a ciência, ocupando-se de outro assunto; e este assunto, o de todos os poderes
estabelecidos, seria a sua eternização, tornando a sociedade confiada a seus cuidados cada vez
O modo de realizar tal desiderato é disseminar a ciência nas massas. Ainda que se
reconheça a vocação de poucos para a dedicação exclusiva à ciência, para o que a
sociedade do futuro deverá se atentar, o fundamental é a democratização do
conhecimento para que ele faça parte do cotidiano de todo indivíduo. Fator que remediará,
ademais, a tentativa de um governo de especialistas.16
O princípio da corrupção moral e intelectual dos cientistas aplica-se à política:
cas, o é igualmente para todas as
assembleias constituintes e legislativas, mesmo quando emanadas do sufrágio universal.
Este último pode renovar sua composição, é verdade, o que não impede que se forme, em
alguns anos, um corpo de políticos, privilegiados de fato, não de direito, que, dedicando-
se exclusivamente à direção dos assuntos públicos de um país, acabem por formar um
17
oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencido de que ela só poderia existir
em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria
Deus e o Estado, p.
37).
20
apenas da força como razão de seu agir, o tempo levaria fatalmente à sua derrocada e da
classe que o domina. A força desgasta o povo a ponto de, em algum momento não tão
-lhe respeito, é-lhe
absolutamente necessária uma sanção moral qualquer. É preciso, além do mais, que esta
sanção seja simultaneamente tão simples e tão evidente que possa convencer as massas,
que, após terem sido reduzidas pela força do Estado, devem ser levadas ao
22
As duas formas que existem para o
reconhecimento da legitimidade do Estado e de seu direito pelo povo, segundo Bakunin,
são ou a religião ou a satisfação de todas as necessidades de cada um do povo. Como
essa segunda opção implicaria na extinção do Estado pois preencher as todas as
necessidades do povo significaria extinguir a classe burguesa que constitui o Estado e
explora o povo -, o que se mostra inviável (ao menos por ora), sobra como suporte de
23
Bakunin não
viveu para ver a razão neoliberal se espalhar pelo mundo, o que talvez lhe daria uma
terceira via teórica de sustentação do Estado: a ideologia neoliberal.
Há outro empecilho a sistemas que atribuem a certas pessoas autoridade para
decidir por alguém, para representar alguém, ou para intermediar relações com
autoridade. Esse empecilho é a contradição lógica que existe entre a característica servil
de uma função e a simultânea característica de superioridade dessa mesma função.
Bakunin analisa a figura do padre bondoso que usa do rigor com seu rebanho, e deixa
implícita conclusão que muito bem se aplica a qualquer representante hoje eleito do povo
- ou a agentes públicos incumbidos de servir ao povo - e que para tal tarefa oficial gozam
22
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 93.
23
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 94.
24
BAKUNIN, Deus e o Estado, p. 43.
25
brutal. E isto por uma razão muito simples: este divino se evapora e sobre para sua pátria, o céu,
e só o brutal permanec Deus e o Estado, p. 41).
Referências
26
BAKUNIN, Deus e o Estado, pp. 46-47.
Resenha de:
MATOS, Andityas Soares de Moura Costa. A an-arquia que vem: fragmentos para um dicionário
de política radical. Prólogo de Roberto Esposito. São Paulo: sobinfluencia, 2022.
politicamente significa pensar um fundamento sempre ausente e por isso mesmo recusar
o gesto grandiloquente do dicionário, preparando no máximo uma introdução a um que
jama
A principal dificuldade na criação de um dicionário alternativo é que se deve partir,
gostemos ou não, do velho léxico. Para contornar essa dificuldade, Matos decide usar a
estratégia de São Paulo exposta na Carta aos Coríntios, que Giorgio Agamben mencionou
em alguns de seus recentes trabalhos.1 São Paulo indicou que os cristãos precisam
admitir que vivem em un mundo terreno, mas sem se apegarem excessivamente a ele, já
que tanto o mundo quanto os seus conteúdos são fugazes. Ele sugere que o consequente
é viver no mundo, ainda que se orientando para as coisas eternas. A tradução dessa
estratégia por parte de Matos consiste em recolher os termos do velho dicionário para
desconstrui-los, usá-los como se não os usássemos, sendo consciente a todo momento
1
Por exemplo, em AGAMBEN, El uso de los cuerpos.
implodir com sua própria lógica para dar forma a um conjunto de singularidades que não
se perca nas infinitas mediações do pode
Em consonância com essas teses, o enfoque de Matos sobre o povo da democracia
constrói uma ponte algo instável entre perspectivas teóricas contemporâneas Mouffe,
Laclau e Deleuze e a prática da antiga democracia grega que permitia, e exaltava, a
alternância nas posições de comando e obediência. O conceito em disputa inicial é o de
identidade dos membros do povo. Matos não nega as identidades. Ao contrário, frisa que
são o ponto de partida das lutas sociais. No entanto, sustenta que, no horizonte de uma
democracia radical, faz-se necessário assumir o devir e a transformação das identidades
em singularidades. Contudo, não parece que o autor seja consistente em todo momento
ao usar tal terminologia, pois, inopinadamente, sua proposta avança conservando as
noções de identidade e de sujeito:
processos que a tradição política ocidental separou: governar (árkhein) e ser governado
(árkhestai
distinto, também pode gerar uma configuração politicamente nova, pois uma democracia
radical se verifica mediante o desaparecimento dessa divisão de papéis políticos, ou seja,
-organização [...] daqueles
que não têm qualidades especiais força física, carisma religioso, poder econômico,
tradição familiar etc. (p. 121).
O livro prossegue com um longo diálogo, mais ou menos tenso, com Carl Schmitt,
que Matos já estabeleceu em textos anteriores. Assim, no sexto capítulo, são expostas
algumas teses do jurista alemão para mostrar suas inconsistências ou sua falta de
atualidade. Em Legalidade e legitimidade, Schmitt disse que a duração é a única
característica que separa a lei normal e a medida excepcional. Todavia, no panorama
político contemporâneo e, em particular, nos regimes que Sheldon Wolin chamou de
totalitarismo invertido,2 nos encontramos com ordenamentos em que a lei foi substituída
pela sua exceção e nos quais, portanto, a exceção da lei, que deveria ser algo provisório,
se transformou em permanente. O eixo do governo é uma lei de exceção, não uma lei que
factual de força, visto não ser possível, sob a exceção permanente, a criação de narrativas
2
Cf. SHELSON, Democracia S. A.
[...] poder desinstituinte, com o que, longe de secretamente sustentar a exceção, pode vir
a desativá-l
A partir da articulação entre desobediência civil e poder desinstituinte, Matos
propõe uma aposta propositiva mínima que, apesar de seu carácter débil e impressionista,
ainda assim se mostra problemática. Sua tese de fundo é que a prática da desobediência
civil pública, horizontal e pacífica pode dissolver uma institucionalidade regressiva e,
com a mesma operação, originar outra muito mais radicalmente democrática. A
desinstitucionalização possibilitada pela desobediência civil é crucial pa
reafirmação da perenidade do poder constituinte, comparecendo como uma importante
mas não única via de luta para a constituição de direitos-que-vêm verdadeiramente
democráticos e não calcados no nómos -176). Embora o
autor já tenha esclarecido anteriormente que a desinstituição deve ser pensada em seus
próprios termos e não só como um momento lógico necessário para futuras coagulações
do poder constituído, a verdade é que, em geral, sua reflexão contempla com muito mais
frequência essa dialética entre poder desinstituinte e poder constituinte expressa na
última citação.
De qualquer forma, esse processo poderia ser atravessado por várias dificuldades
distintas. Tratando-se de uma transição que se efetivaria a partir da aplicação de um
ordenamento jurídico a outro distinto pela via da transformação do direito e da estrutura
da dominação política, e na medida em que se deva respeitar os interesses e os direitos
adquiridos dos quadros administrativos correspondentes, não se poderia descartar uma
desvalorização de seu potencial explosivo e um resultado final que talvez tivesse a ver
mais com a reforma do que com a revolução. Caso a transição fosse levada a cabo por
meio de lideranças políticas fortes e alternativas, um perigo distinto ameaçaria o
processo, que poderia acabar sendo cooptado por dirigentes carismáticos ou populistas,
desembocando finalmente, como se comprovou em certos momentos históricos, em
regimes burocráticos ou até autoritários. De fato, para além das teses filosóficas, algumas
das ações concretas que Matos sugere, como a greve geral dos serviços públicos, o não
pagamento de impostos e taxas, a ocupação permanente e pacífica das sedes do poder
constituído, a abstenção eleitoral massiva etc. (cf. p. 180), poderiam incorrer nesses dois
riscos: o de uma desestabilização que não conduziria à desejada liberação e que
ocasionaria, ao contrário, uma reação furiosa dos poderes fáticos, e o de una mobilização
da população que se limitaria a estar à disposição de demagogos e líderes populistas. O
texto de Matos é inspirador e rico em nuances sociológicas, políticas e jurídicas. Mas sua
aposta propositiva talvez requeira um desenvolvimento filosófico mais pormenorizado e
uma atenção mais vigilante a suas consequências nos âmbitos social, político e
institucional. Também seria possível exigir-lhe uma maior concretude.
pôde saber se seu grito pretendia exaltar a república ou a revolução. Espero que me
desculpem a ironia... Como a morte é a expulsão definitiva da linguagem, também ficamos
sem saber se Ravachol se dispunha a elogiar a reforma.
Referências
AGAMBEN, Giorgio. El uso de los cuerpos: homo sacer IV. Valencia: Pre-
textos, 2018.
WOLIN, Sheldon S. Democracia S. A.: la democracia dirigida y la paradoja
del totalitarismo invertido. Madrid: Katz, 2008.
7
DOI: 10.53981/destroos.v4i1.46174
PRODUÇÕES ARTÍSTICAS
CORPO-VOZ QUE É
CORPO-ESCRITA
BODY-VOICE THAT IS BODY-WRITING
“[...]
amasso o silêncio
e no farfalhar do meio som
solto o grito do grito do grito
e encontro a fala anterior,
aquela que, emudecida,
conservou a voz e os sentidos
nos labirintos da lembrança”
Conceição Evaristo
Luísa Consentino de Araújo
“[...]
Conceição Evaristo
Luísa Consentino de Araújo
“[...]
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência”
Conceição Evaristo
SOBRE A AUTORA