0% acharam este documento útil (0 voto)
25 visualizações3 páginas

Encontros E Desencontros Entre Os Consumidores Problemáticos E O Sistema de Tratamento

O artigo discute a relação entre consumidores problemáticos de drogas e o sistema de tratamento, destacando a exclusão de muitos que não buscam ajuda. Critica a abordagem conservadora e a falta de adaptação das políticas de tratamento às realidades contemporâneas do uso de drogas, como a cannabis e o ecstasy. Enfatiza a necessidade de focar nos consumidores mais vulneráveis e doentes, em vez de se distrair com ameaças percebidas que não se baseiam em evidências.

Enviado por

Joana Dias
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
25 visualizações3 páginas

Encontros E Desencontros Entre Os Consumidores Problemáticos E O Sistema de Tratamento

O artigo discute a relação entre consumidores problemáticos de drogas e o sistema de tratamento, destacando a exclusão de muitos que não buscam ajuda. Critica a abordagem conservadora e a falta de adaptação das políticas de tratamento às realidades contemporâneas do uso de drogas, como a cannabis e o ecstasy. Enfatiza a necessidade de focar nos consumidores mais vulneráveis e doentes, em vez de se distrair com ameaças percebidas que não se baseiam em evidências.

Enviado por

Joana Dias
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Revista TOXICODEPENDÊNCIAS • Edição IDT • Volume 11 • Número 1 • 2005 • pp.

79-81 79

ENCONTROS E DESENCONTROS ENTRE OS CONSUMIDORES


PROBLEMÁTICOS E O SISTEMA DE TRATAMENTO
08
Discurso Directo

LUÍS FERNANDES conservadorismo. A intervenção de primeira linha não tem


de ser só para psicólogos, assistentes sociais e profissões
É próprio do discurso directo entrar em diálogo. E é próprio emergentes no campo da intervenção social – a rua é
dele ser espontâneo, comunicando com à vontade e sem a grande, cabemos lá todos.
necessidade dos rituais linguísticos típicos do artigo Quanto ao “Discurso Directo” do último número (vol 10, nº
científico. Enfim, o que mais gosto no discurso directo é 03 de 2004), trata-se de um caso sério de lucidez:
menos o facto de ser discurso e mais a circunstância de ser finalmente alguém com peso no dispositivo de tratamento
directo. Ora aí está uma boa maneira de descansar do texto das drogas demonstra com clareza aquilo que, para quem
académico a que a profissão nos obriga constantemente, faz pesquisa de terreno, é desde há muito evidente. Com
encerrando-nos nas malhas da prova argumental, da efeito, sabíamos serem numerosos os consumidores
legitimação dos enunciados, da secura da redacção. problemáticos de drogas que, ou nunca se dirigiram à rede
Uma breve nota para o texto de Helena Dias, directora do de tratamento, ou tiveram com ela uma relação apenas
CAT de Gaia, no “Discurso Directo” da “Toxicodepen- tangencial e episódica. Nunca os quantificámos, pois os
dências” nº2 de 2004: segui com entusiasmo a sua viagem métodos de observação em contexto natural não estão
pelo Bronx. Parece que entramos de repente nas páginas vocacionados para isso. Demonstram através doutros
de uma crónica de viagem. Vem-me a lembrança dum autor argumentos como se desenvolvem as trajectórias em
que tem andado esquecido: Fernando Namora, que em A utilizadores que se tornam problemáticos, muitos dos quais
Cavalgada Cinzenta nos faz ver o Harlem nova-iorquino em se mantém à margem duma rede de cuidados que sabem
páginas luminosas de descrição detalhada das margens da existir mas a que não recorrem. Ainda recentemente Paula
riqueza. Tenho pena que Helena Dias não nos tenha dado Portela, da equipa do CAT de Gaia, defendeu uma tese de
mais pormenores sobre os territórios psicotrópicos da zona, mestrado de que fui orientador e em que estudava
sobre as deambulações dos técnicos de intervenção social justamente esse tipo de trajectórias. O título do trabalho é
na sua jornada de trabalho – ficámos com água na boca. suficientemente sugestivo: À margem da margem.
Há pouco tempo também eu tinha, juntamente com Maria Percursos na heroína dos invisíveis institucionais.
Carmo Carvalho e Rui Tinoco, escrito na “Toxicodepen- Num país livre ninguém é obrigado a ir a um centro de
dências” (Vol. 9, nº 3 de 2003) um artigo sobre a redução de tratamento por ter problemas com a utilização de drogas.
riscos em São Francisco. Temos agora notícias do Bronx - é Mas cabe ao dispositivo de cuidados interrogar-se quando
bom falarmos dos EUA sem ser pelos motivos do costume. constata que tanta gente fica de fora. Esta capacidade de
Termino o comentário ao texto de Helena Dias com uma auto-avaliação, este poder de pôr em causa rotinas e
constatação: enquanto a psiquiatria continua prudente- funcionamentos, é que são difíceis de pôr em marcha. O
mente a manter distância em relação à redução de riscos, absentismo daqueles que deviam ser os naturais
ao menos alguns psiquiatras dão mostras de romper o utilizadores dos serviços deve constituir motivo de reflexão,
80 ENCONTROS E DESENCONTROS ENTRE OS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS E O SISTEMA DE TRATAMENTO • pp. 79-81

em primeiro lugar, para todos os profissionais desses constatação abriu espaço para conclusões precipitadas:
serviços – mas em primeira instância para aqueles que têm agora que se controlou este opiáceo, temos de voltar-nos
responsabilidades no desenho das políticas e na gestão para o ecstasy e para a cannabis. Eleitos os novos alvos do
das estruturas. combate, mãos à obra! Esta estratégia que promove
Na década de 70 do século passado, emergiram as “flagelos” e insiste na lógica do bode expiatório radica em
primeiras estruturas de prevenção e tratamento. A relação dois vectores: na ignorância sobre as dinâmicas reais do
com o toxicodependente era na época atravessada pela fenómeno droga; na vontade de justificar a utilidade do
influência da psicanálise. A trajectória ulterior diversificou dispositivo com novas ameaças que não ponham em causa
as estratégias interventivas, que no entanto se pautaram o estilo de funcionamento da instituição .
em geral pelo encerramento na leitura médico-psicológica Em primeiro lugar, era necessário avaliar efectivamente se o
do indivíduo. Este estilo de abordagem mantinha-se, pela crescimento da heroinodependência foi de facto controlado.
própria natureza da relação clínica, pouco vigilante das Se tivéssemos aqui espaço para isso poderíamos detalhar
modificações do fenómeno droga nos cenários concretos uma argumentação que demonstrasse que, mais do que de
do quotidiano. Enquanto insistíamos na mesma resposta controle, se pode falar de auto-limitação: o mercado deixou
clínica os territórios e os actores das drogas agravavam as de crescer porque atingiu um ponto de saturação entre a
suas condições de vida e criavam, em pleno coração da oferta e a procura e não porque as políticas criminais o
malha urbana, situações de degradação absurdas em tenham neutralizado; o recrutamento de novos utilizadores
países que se dizem desenvolvidos. Este quadro reclamará de heroína diminuiu, mantendo-se activo apenas em certas
a deslocação do olhar sobre a questão da droga para a franjas do tecido social, porque a imagem que o mundo da
Saúde Pública, abrindo-se às intervenções que vinham a heroína acabou por projectar lhe retirou o poder de atracção
ser ensaiadas em vários países europeus, cujo conjunto foi que as drogas representam no espaço psicológico de muitos
sendo reunido sob a etiqueta “Redução de Riscos e adolescentes, e não porque a prevenção tenha sido um
Minimização de Danos” (RR). êxito – se assim fosse, não se compreenderia o crescimento
A reacção às políticas RR por parte de sectores profissio- actual do ecstasy e da cannabis.
nais mais conservadores não se fez esperar: ela descen- A resposta a esta constatação não provoca nos dirigentes
trava o terapeuta da sua posição de poder e punha em um questionamento sobre as suas origens e sobre o seu
causa a tradicional hierarquia no interior das equipas de significado. Encerrados na lógica que vem dos tempos do
intervenção. No esgrimir dos argumentos contra a RR refrão do “flagelo”, aplicam-lhe a receita “mais do mesmo”,
falava-se de apoio encoberto ao consumo de drogas, de propondo uma extensão da resposta terapêutica. Cria-se,
perpetuação da situação do consumidor impedindo desse assim, a consulta de cannabinóides, justificada pelo
modo o trabalho terapêutico, de posições pró-legalização… aumento dos pedidos de tratamento em utilizadores destes
Quanto aos que a rede de cuidados não cobria, quanto aos produtos, sem ter em conta a razão pela qual eles são
que se arrastavam nas traseiras da cidade, quanto aos que filtrados para dentro do sistema – o filtro é a Comissão para
morriam na rua e no lado escondido – quanto a isso, nada a Dissuasão da Toxicodependência.
se dizia. E é por isso que o texto de Rodrigo Coutinho é tão Não basta constatar o aumento do consumo de cannabis.
importante: porque demonstra com números, a quantos É preciso contextuá-lo. Dizer, por exemplo, que uma boa
não chega a resposta estatal, porque o diz com a parte desta utilização está ligada ao seu ressurgimento na
autoridade de quem trabalha no dispositivo, invibializando constelação de elementos expressivos da cultura juvenil,
o argumento de que fala sem conhecer, ou ao serviço de nomeadamente nas estéticas house, techno e trance. Ora,
interesses pouco claros. está suficientemente provado que os usos de drogas
Os últimos relatórios oficiais em vários países têm quando ocorrem no interior de um dado universo simbólico,
demonstrado a estabilização, às vezes até a descida, do não se convertem em geral em consumos problemáticos.
número de consumidores problemáticos de heroína. Esta Há poucos meses acompanhávamos um antropólogo no

TOXICODEPENDÊNCIAS • Volume 11 • Número 1 • 2005


ENCONTROS E DESENCONTROS ENTRE OS CONSUMIDORES PROBLEMÁTICOS E O SISTEMA DE TRATAMENTO • pp. 79-81 81

seu trabalho de terreno no contexto de uma free party


trance. Ao longo de toda uma noite e no meio de centenas
de participantes, o único problema aconteceu com um
jovem de uma aldeia local que foi retirado em braços com
um episódio de alcoolismo agudo... por outro lado, é
consensual em muitos interventores de rua a constatação
de que é precisamente em consumidores regulares de
cannabis que aparecem as maiores resistências à utilização
de drogas de maior toxicidade.
Acabo recorrendo à última frase do texto de Rodrigo
Coutinho: “É portanto esta população toxicodependentes,
menos organizada pessoal e socialmente, com grandes
dificuldades em procurar tratamento ou em se tratar e onde
se inclui um conjunto importante de pessoas física e
psiquicamente muito doentes e/ou envelhecidas, que
constitui actualmente, ao nível das estratégias de interven-
ção, o grande desafio dos nossos serviços nomeadamente
os da Área Metropolitana de Lisboa.” Este continua a ser o
desafio. E é ele que deve concentrar os esforços do
dispositivo, em vez de nos distrairmos com pseudo-
ameaças que radicam, como noutros momentos na história
das drogas, muito no plano mitico-moral e muito pouco na
evidência dos factos.

Contacto
Luís Fernandes
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da
Universidade do Porto
[email protected]

Você também pode gostar