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Temas Centrais na Poesia de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é um importante poeta português do Modernismo, conhecido por sua obra 'Cancioneiro' e pela utilização de um vocabulário simples e musicalidade em suas poesias. Suas temáticas centrais incluem o fingimento artístico, a dor de pensar e a nostalgia da infância, refletindo uma dualidade entre o sentir e o pensar. A obra de Pessoa é marcada pela fragmentação do eu e pela criação de heterônimos, cada um expressando diferentes perspectivas sobre a vida e a arte.

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Temas Centrais na Poesia de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é um importante poeta português do Modernismo, conhecido por sua obra 'Cancioneiro' e pela utilização de um vocabulário simples e musicalidade em suas poesias. Suas temáticas centrais incluem o fingimento artístico, a dor de pensar e a nostalgia da infância, refletindo uma dualidade entre o sentir e o pensar. A obra de Pessoa é marcada pela fragmentação do eu e pela criação de heterônimos, cada um expressando diferentes perspectivas sobre a vida e a arte.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é um dos grandes poetas portugueses, do final do século XIX e início do século
XX. A sua obra insere-se no Modernismo. A principal obra em seu nome é Cancioneiro, onde
constam as principais poesias. A versificação que usa na sua obra é muito tradicional (quadras e
quintilhas, versos curtos, redondilhas), encontramos uma regularidade estrófica, métrica e rimática.
O vocabulário é geralmente simples e natural, a pontuação é emotiva, que em conjunto com a rima
e a presença de aliterações, dão uma musicalidade à obra. O simbolismo está muito presente

As temáticas de Pessoa:
- Fingimento artístico
Para Pessoa o “eu” poético não é capaz de sentir, apenas fingindo que sente, o verdadeiro
sentimento está em quem lê (Autopsicografia). Pessoa vai contra a ideia romântica de que o que está
escrito é um reflexo dos sentimentos do autor, que confessa publicamente o que sente para o leitor.
A obra é produto da imaginação e inteligência. O autor no momento da composição finge sentir
para por essas emoções no papel, mesmo assim a verdade não deixa de estar presente. A verdade é
trabalhada pelo artista, mas não sentida por ele. Quem sente realmente é o leitor, que dá significado
às palavras. O fingimento poético está também relacionado com o privilégio de pensar, algo que
não é sempre possível. Muitas vezes Pessoa destaca a incapacidade de pensar das suas personagens,
levando o eu poético a destacar a inveja que sente em relação aos outros personagens, exatamente
por estes terem incapacidade de pensar. A dor sentida, a dor fingida e a dor lida são três dores
completamente diferentes. O eu poético e as outras personagens sentem uma dor, que no fundo
não é real, correspondendo a dor sentida. O poeta não sente, pois apenas finge a dor para a poder
pôr no papel. Já o leitor sente uma dor (lida ) que lhe é transmitida pelas personagens sem ter a
necessidade de a sentir verdadeiramente.

- A dor de pensar
Este tema aparece constantemente na obra de Pessoa, pois a capacidade de pensar provoca dor. O
desejo premente de não pensar faz parte da essência de Fernando Pessoa. Este inveja a vida de
animais e de flores, pois não têm que pensar, apenas sentem e deixam-se reger pelas leis da natureza.
A lucidez é um problema para Pessoa, uma vez que cria uma dualidade de sentimentos (ser
conscientemente inconsciente). A dicotomia sonho/ realidade é constante, pois o eu poético usa o
sonho como forma de evasão de uma realidade, na qual se sente preso. A realidade é um lugar onde
só encontra tédio (desalento e angústia), estranheza (desconhecimento do próprio ser) e perda da
identidade (fragmentação interior).
- A nostalgia da infância
Fernando Pessoa sentia saudade da infância, uma grande nostalgia, intelectualmente trabalhada da
sua infância, visto que sente saudades não do que se viveu, mas daquilo que desejávamos ter vivido.
A nostalgia presente é quase sempre a de um bem perdido, no caso, o eu poético evoca a infância
que já passou e não pode voltar. Este autor acreditava que a saudade é um símbolo de pureza,
inconsciência, sonho e paraíso perdido. O presente tornou-se difícil de ser vivido, sendo o passado
um refúgio.

Síntese
Em Fernando Pessoa, há uma personalidade poética ativa, designada de ortónimo, que conserva o
nome do seu criador e uma pequena humanidade, formada por heterónimos, que correspondem a
personalidades distintas.

No ortónimo, coexistem duas vertentes: a tradicional, na continuidade do lirismo português, e a


modernista, que se manifesta como processo de rutura. Na primeira, observa-se a influência lírica de
Garrett ou do sebastianismo e do saudosismo, apresentando suavidade rítmica e musical, em versos
geralmente curtos; na segunda, encontramos experimentações modernistas com a procura da
intelectualização das sensações e dos sentimentos.

A poesia, a cujo conjunto Pessoa queria dar o título Cancioneiro, é marcada pelo conflito entre o
pensar e o sentir, ou entre a ambição da felicidade pura e a frustração que a consciência-de-si
implica.

Pessoa considera que a arte “é o resultado da colaboração entre o sentir e o pensar”. Daí a
sensibilidade a fornecer à inteligência as emoções para a produção do poema.

Para exprimir a arte, o autor criativo precisa de intelectualizar o sentimento, o que pode levar a
confundir a elaboração estética com um ato de “fingimento”. O poeta parte da realidade mas só
consegue, com autêntica sinceridade, representar com palavras ou outros signos o “fingimento”,
que não é mais do que uma realidade nova.

O fingimento artístico não impede a sinceridade, apenas implica o trabalho de representar, de


exprimir intelectualmente as emoções ou o que quer representar.

O conceito de fingimento é o de transfigurar, pela imaginação e pela inteligência, aquilo que sente
naquilo que escreve. Fingir é inventar, elaborar mentalmente conceitos que exprimem as emoções
ou o que quer comunicar.

Entrar no jogo artístico, fingir ao exprimir as emoções, mas com toda a dimensão de sinceridade,
implica e explica a construção da poesia de ortónimo.

A dialética da sinceridade/fingimento liga-se à da consciência/inconsciência e do sentir/pensar.


Fernando Pessoa não consegue fruir instintivamente a vida por ser consciente e pela própria
efemeridade. Muitas vezes, a felicidade parece existir na ordem inversa do pensamento e da
consciência.

Pessoa procura, através da fragmentação do eu, a totalidade que lhe permita conciliar o pensar e o
sentir. A fragmentação esta evidente, por exemplo, em Meu coração é um pórtico partido, ou nos
poemas interseccionistas Hora Absurda e Chuva Obliqua.

O interseccionismo entre o material e o sonho, a realidade e idealidade surge como tentativa para
encontrar a unidade entre a experiência sensível e a inteligência.

O tempo, na poesia pessoana, é um fator de degradação, porque tudo é efémero. Isso leva-o a desejar
ser criança de novo. Mas, frequentemente, o passado é um sonho inútil, pois nada se concretizou,
antes se traduziu numa desilusão.

Pessoa sente a nostalgia da criança que passou ao lado das alegrias e da ternura. Chora, por isso, uma
felicidade passada, para lá da infância.

O ortónimo tem uma ascendência simbolista evidente desde os tempos de Orpheu e do Paulismo.

Alberto Caeiro

Na obra de Caeiro, há um objetivismo absoluto. Não lhe interessa o que se encontra por trás das
coisas. Recusa o pensamento, sobretudo o pensamento metafísico, afirmando que “pensar é estar
doente dos olhos”.

Caeiro, poeta de olhar, procura ver as coisas como elas são, sem lhes atribuir significados ou
sentimentos humanos. Considera que as coisas são como são.

Constrói uma poesia das sensações, apreciando-as como boas por serem naturais. Para ele, o
pensamento apenas falsifica as coisas.

Numa clara oposição entre sensação e pensamento, o mundo de Caeiro é aquele que se percebe
pelos sentidos, que se apreende por ter existência, forma e cor. O mundo existe e, por isso, basta
senti-lo, basta experimentá-lo através dos sentidos, nomeadamente através do ver.

Ver é compreender. Tentar compreender pelo pensamento, pela razão, é não saber ver. Alberto
Caeiro vê com os olhos, mas não com a mente. Considera, no entanto, que é necessário saber estar
atento à “eterna novidade do mundo”.
Condena o excesso de sensações, pois a partir de um certo grau as sensações passam de alegres a
tristes.

Em Caeiro, a poesia das sensações é, também, uma poesia da natureza.

Optando pela vida no campo, acredita na Natureza, defendendo a necessidade de estar de acordo
com ela, de fazer parte dela.

Pela crença na Natureza, o Mestre revela-se um poeta pagão, que sabe ver o mundo dos sentidos, ou
melhor, sabe ver o mundo onde se revela o divino, em que não precisa de pensar.

Ao procurar ver as coisas como elas realmente são, sublima o real, numa atitude panteísta de
divinização das coisas da natureza.

Nesta atitude panteísta de que as coisas são divinas, desvaloriza a categoria conceptual “tempo”.

O poeta confessa não ter “ambições nem desejos”. Ser poeta é a sua “maneira de estar sozinho”.

Ricardo Reis

Na poesia de Ricardo Reis, há um sentimento da fugacidade da vida, mas ao mesmo tempo uma
grande serenidade na aceitação da relatividade das coisas e da miséria da vida.

A vida é efémera e o futuro imprevisível. “Amanhã não existe”, afirma o poeta. Estas certezas
levam-no a estabelecer uma filosofia de vida, de inspiração horaciana e epicurista, capaz de conduzir
o homem numa existência sem inquietações nem angústias.

Reconhecendo a fraqueza humana e a inevitabilidade da morte, Reis procura uma forma de viver
com um mínimo de sofrimento. Por isso, defende um esforço lúdico e disciplinado para obter uma
calma qualquer.

Sendo um epicurista, o poeta advoga a procura do prazer sabiamente gerido, com moderação e
afastado da dor. Para isso, é necessário encontrar a ataraxia, a tranquilidade capaz de evitar qualquer
perturbação. O ser humano deve ordenar a sua conduta de forma a viver feliz, procurando o que lhe
agrada.

A obra de Ricardo Reis apresenta um epicurismo triste, uma vez que busca o prazer relativo, uma
verdadeira ilusão da felicidade por saber que tudo é transitório.
A apatia, ou seja a indiferença, constitui o ideal ético, pois, de acordo com o poeta, há necessidade
de saber viver com calma e tranquilidade, abstendo-se de esforços inúteis para obter uma glória ou
virtude, que nada acrescentam à vida.

Próximo de Caeiro, há na sua poesia o sossego do campo, o fascínio pela natureza onde busca a
felicidade relativa.

Discípulo de Alberto Caeiro, Ricardo Reis refugia-se na aparente felicidade pagã que lhe atenua o
desassossego. Procura alcançar a quietude e a perfeição dos deuses, desenhando um novo mundo à
sua medida, que se encontra por detrás das aparências.

Afirma uma crença nos deuses e nas presenças quase divinas que habitam todas as coisas. Afirma
que os homens se devem considerar com direito à própria vida.

Pagão por caráter e pela formação helénica e latina, há na sua poesia uma atualização de estoicismo e
epicurismo, juntamente com uma postura ética e um constante diálogo entre o passado e o
presente.

Álvaro Campos

Álvaro de Campos, a refletir a insubmissão e rebeldia dos movimentos vanguardistas da segunda


década do século XX, olha o mundo contemporâneo e canta o futuro.

Álvaro de Campos é o poeta, que, numa linguagem impetuosa, canta o mundo contemporâneo,
celebra o triunfo da máquina, da força mecânica e da velocidade. Dentro do espírito das
vanguardas, exalta a sociedade e a civilização modernas com os seus valores e a sua “embriaguez”.

Diferentemente de Caeiro, que considera a sensação de forma saudável e tranquila, mas rejeita o
pensamento, ou de Ricardo Reis, que advoga a indiferença olímpica, Campos procura a totalização
das sensações, conforme as sente ou pensa, o que lhe causa tensões profundas.

Como sensacionista, é o poeta que melhor expressa as sensações da energia e do movimento, bem
como as sensações de “sentir tudo de todas as maneiras”. Para ele, a única realidade é a sensação.

Em Campos há a vontade de ultrapassar os limites das próprias sensações, numa vertigem insaciável,
que o leva a querer “ser toda a gente e toda a parte”. Numa atitude unanimista, procura unir em si
toda a complexidade das sensações.

O desassossego de Campos leva-o a revelar uma face disfórica, a ponto de desejar a própria
destruição. Há aí a abulia e a experiência do tédio, a deceção, o caminho do absurdo.
Incorporando todas as possibilidades sensoriais e emotivas, apresenta-se entre o paroxismo da
dinâmica em fúria e o abatimento sincero, mas quase absurdo.

Depois de exaltar a beleza da força e da máquina por oposição à beleza tradicionalmente concebida,
a poesia de Campos revela um pessimismo agónico, a dissolução do “eu”, a angústia existencial e
uma nostalgia da infância irremediavelmente perdida.

Na fase intimista de abulia, observa-se a disforia do “eu”, vencido e dividido entre o real objetivo e o
real subjetivo que leva à sensação do sonho e da perplexidade. Verifica-se, também. A presença do
niilismo em relação a si próprio, embora reconheça ter “todos os sonhos do mundo”.

Álvaro de Campos evolui ao longo de três fases: a de influência decadentista a que pertence o
Opiário; a futurista e sensacionista, de inspiração whitmaniana, onde encontramos, por exemplo, a
Ode Triunfal e a Ode Marítima; e a intimista ou independente, marcada pela abulia e o tédio, pela
angústia e o cansaço, com poemas como O que há em mim é sobretudo cansaço, Esta velha
angústia, Apontamento, ou os de Lisbon revisited.

Na primeira fase, encontra-se o tédio de viver, a morbidez, o decadentismo, a sonolência, o torpor e


a necessidade de novas sensações; na segunda fase, há um excesso de sensações, a tentativa de
totalização de todas as possibilidades sensoriais e afetivas, a inquietude, a exaltação da energia, de
todas as dinâmicas, da velocidade e da força até situações de paroxismo; na terceira fase, perante a
incapacidade das realizações, volta o abatimento, a abulia, a revolta e o inconformismo, a dispersão e
a angústia, o sono e o cansaço.

“Autopsicografia”

Uma psicografia consiste numa representação de fenômenos psíquicos ou na descrição psicológica


de alguma pessoa. "Auto", por sua vez, é um termo usado para designar quando nos referimos a nós
mesmos transmitindo a noção de si próprio.
Desta forma, é possível dizer que com a palavra "autopsicografia", o autor pretende abordar algumas
das suas características psicológicas. O poeta mencionado nesta obra poética é, portanto, o próprio
Fernando Pessoa.
Na primeira estrofe é possível verificar a existência de uma metáfora que classifica o poeta como um
fingidor. Isso não significa que o poeta seja um mentiroso ou alguém dissimulado, mas que é capaz
de se transformar nos próprios sentimentos que estão dentro dele. Por essa razão, consegue se
expressar de maneira única.
“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”

Se no senso comum o conceito do fingidor costuma ter um significado pejorativo, nos versos de
Fernando Pessoa temos a noção de que o fingimento é um instrumento da criação literária.
Segundo o dicionário, fingir vem do latim fingere e significa "modelar na argila, esculpir, reproduzir
os traços de, representar, imaginar, fingir, inventar".
A capacidade de fingir de Fernando Pessoa explica a criação dos vários heterônimos pelos quais
ficou conhecido. Os mais famosos heterônimos pessoanos foram Álvaro de Campos, Alberto
Caeiro e Ricardo Reis.
Fernando Pessoa consegue abordar várias emoções e se transformar em cada uma delas, criando
assim diferentes personagens com formas distintas de ser e de sentir.

“E os que leem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.”

Vemos na segunda estrofe que a capacidade do poeta de expressar certas emoções desperta
sentimentos no leitor. Apesar disso, o que o leitor sente não é a dor (ou a emoção) que o poeta
sentiu nem a que "fingiu", mas a dor derivada da interpretação da leitura do poema.
As duas dores que são mencionadas são a dor original que o poeta sente e a "dor fingida", que é a
dor original que foi transformada pelo poeta.

Na terceira e última estrofe, o coração é descrito como um comboio (trem) de corda, que gira e que
tem a função de distrair ou divertir a razão. Vemos neste caso a dicotomia emoção/razão que faz
parte do cotidiano do poeta. Podemos então concluir que o poeta usa o seu intelecto (razão) para
transformar o sentimento (emoção) que ele viveu.

“E assim nas calhas de roda


Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”
“Isto”

O poema surge na sequência do «Autopsicografia» e parece uma resposta a possíveis más


interpretações daquele.

“Dizem que finjo ou minto


Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.”

Notar o tom depreciativo do início do poema e o tom de convicção total com o uso do advérbio
«Não», seguido de ponto final.
Assim, o verso «Dizem que finjo ou minto» tem aqui o sentido que lhe atribuem os que dizem que
o poeta finge, isto é, «não sincero», «falta à verdade», como se depreende da própria disjuntiva
«finjo ou minto». Este sentido é depreciativo e corresponde ao uso popular verificável, por
exemplo, na expressão «pessoa fingida», isto é, falha de verdade. Por isso, o poeta se apressa a negar
esse sentido ao seu fingimento: «Eu simplesmente sinto com a imaginação, / Não uso o coração».
Os versos 3-5 são como que a «tese» deste poema: o fingimento poético é a síntese da sensação com
a imaginação, destacando-se esta, porque intelectual.
Notar a subjetividade manifestada pelo uso da 1º pessoa verbal, ausente de «Autopsicografia».
(Talvez se deva a que aqui Pessoa se apresente como o poeta intelectual por excelência.)

“Tudo o que sonho ou passo,


O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.”

Esta parte constitui uma confirmação do conteúdo da 1ª estrofe, baseada na experiência vivida do
poeta.
A 2.ª estrofe apresenta a fundamentação do uso da imaginação: a realidade onde mergulha o poeta é
apenas a aparência ou o terraço (fronteira) que encobre outra coisa: as ideias, a obra poética; volta a
acentuar-se o processo do fingimento poético, mas neste texto a sensação e imaginação processam-se
num único momento – Enquanto na «Autopsicografia» o poeta distinguia dois momentos (o da
sensação e o da imaginação), aqui tudo se processa num só momento: as realidades (belas)
subjacentes ao «terraço» (aparências) são vistas por ele, poeta-Pessoa, automática e
simultaneamente.
É evidente que paira aqui a doutrina platónica da reminiscência: olhar para as aparências (as coisas
deste mundo) e ver (pressentir, intuir) imediatamente as realidades puras de um mundo mais alto
(profundo).
Constata-se aqui também a grande emoção (de natureza intelectual) que o poeta punha naquilo
que ele considerava o fulcro, o âmago da poesia: «Essa coisa é que é linda».
A comparação que engloba os três primeiros versos constitui o cerne do poema, pois é o momento
em que o autor define o universo em que se move, para, logo de seguida, ficarmos a saber o que
procura.
A comparação centrada em «terraço» é admiravelmente expressiva da fronteira, difícil de
ultrapassar, entre o mundo sensível e o mundo intelectual. O verdadeiro poeta (neste caso, Pessoa) é
o privilegiado que é capaz de ultrapassar essa fronteira, para usufruir da beleza que se encontra para
além dela.
Os dois primeiros versos da 2.ª estrofe referem-se às contingências da vida do poeta; contingências,
porque nenhum dos quatro verbos empregues pelo poeta («sonho», «passo», «falha», «finda»), é
propriamente activo, ficando-nos a impressão de que o que sucede ao poeta é marcado pelo destino.
Esta ideia é sugerida sobretudo pelo verso «o que me falha ou finda», em que o poeta não figura
como sujeito das ações, mas como destinatário marcado pelo destino (o que se vê claramente na
forma pronominal «me»). O mesmo sugere a forma verbal «passo», que o poeta poderia substituir
por «faço», mas intencionalmente não quis. É que, enquanto «faço» apontaria para algo realizado
pelo poeta, a forma «passo» aponta para algo que lhe sucede por fatalidade. Quer isto dizer que o
poeta só por contingência se achava entre as coisas contingentes deste mundo (no mundo das
aparências), pois o seu lugar, como poeta, situa-se para lá dessas coisas, para lá do «terraço».
Recuperação para a poesia de uma palavra tão prosaica como «coisa», utilizada em versos
consecutivos, para designar algo que está muito para além do universo sensível a que, normalmente,
se refere. Fê-la, assim, expressiva daquilo que é indefinível, que fica para além do «terraço», na
região onde se gera a poesia.Recuperação para a poesia de uma palavra tão prosaica como «coisa»,
utilizada em versos consecutivos, para designar algo que está muito para além do universo sensível a
que, normalmente, se refere. Fê-la, assim, expressiva daquilo que é indefinível, que fica para além do
«terraço», na região onde se gera a poesia.

“Por isso escrevo em meio


Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!”

O poeta, a jeito de conclusão («Por isso...»), afirma que escreve «em meio do que não está ao pé».
O que está ao pé são as sensações, é o mundo das aparências; o «que não está ao pé» é o mundo da
inteligência, o mundo das realidades puras, da imaginação que transforma, que eleva as sensações ao
nível da literatura, ao nível da poesia. A arte poética nasce da abstração do mundo sensível. Só
quando o poeta é «livre do seu enleio» (do mundo sensível, do coração) é que pode dar-se o
milagre da poesia. Só com os super-poetas, como ele, Fernando Pessoa, é que o milagre se realiza
plenamente, porque não usa o coração, porque está «livre do seu enleio» e «sério do que não é»
(entenda-se «sério» por liberto, isto é, livre do mundo sensível, das aparências). O verso «Sério do
que não é» está aqui para reiterar a ideia do anterior, «livre do meu enleio». O poeta considera
«sério» quem, como ele, é capaz de abstrair do acidental (do mundo sensível), para se concentrar
no mundo das essências (no mundo intelectual).
O poeta fecha o poema com uma interrogação retórica e uma exclamação de sentido
irônico-depreciativo: «Sentir?»
Note-se como esta interrogação, em conjunto com a exclamação «Sinta quem lê!» é uma resposta
irônica ao «Dizem que finjo ou minto» do princípio do poema.
Devemos notar a diferença de significado entre o verbo sentir: na 1.ª estrofe («sinto») refere-se à
emoção intelectual e não às sensações; na última estrofe («sentir», «sinta») há uma conotação
pejorativa que não existe na 1ª estrofe, isto é, refere-se, agora, às sensações, próprias das pessoas que
dizem que ele finge ou mente.

“Bóiam leves, desatentos”

Bóiam leves, desatentos,


Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas

A primeira estrofe introduz uma imagem de desconforto e desorientação. "Bóiam leves, desatentos"
descreve pensamentos que flutuam sem rumo ou clareza, simbolizando uma mente distraída, que
não consegue concentrar-se ou focar-se em algo concreto. A ideia de "pensamentos de mágoa"
indica que esses pensamentos são dominados por um sofrimento ou dor emocional.

A comparação com as algas e o "corpo morto das águas" acentua a sensação de morte simbólica. As
algas, "cabelos lentos", evocam imagens de inércia e abandono, como se o eu lírico estivesse preso
numa apatia existencial, onde o sofrimento flui lentamente e sem direção. A água, frequentemente
associada ao inconsciente e aos sentimentos, aqui serve para ilustrar um estado de estagnação e de
morte simbólica, onde o corpo e os pensamentos se perdem sem possibilidade de renascimento ou
renovação.
Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas

Aqui, repete-se a metáfora da flutuação, mas agora com a adição de "folhas mortas", que reforçam
ainda mais a ideia de algo que já foi vivo, mas agora está inerte e sem energia. A expressão "à tona de
águas paradas" sugere que, mesmo na aparente quietude, a superfície esconde uma falta de
movimento ou transformação – algo que, à primeira vista, parece imóvel, mas que, no fundo, é
também uma metáfora para a ausência de vida interior.

As "coisas vestindo nadas" é uma construção poética que representa um estado de vazio existencial.
"Nadas" é um termo quase absurdo, pois a palavra sugere a ausência de substância ou de algo que
tenha valor. Os "pós remoinhando" nas "portas das casas abandonadas" reforçam a ideia de algo sem
vida, sem futuro, como se o eu lírico estivesse preso num cenário desolado e sem esperança. As casas
abandonadas podem ser vistas como um símbolo de antigos sonhos ou projetos que nunca se
concretizaram, representando a decadência ou o abandono de um passado não realizado.

Sono de ser, sem remédio,


Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui:
Não sei se existe ou se dói

Esta estrofe parece condensar o sentimento de perda e de dúvida existencial. O "sono de ser" é uma
expressão que remete para uma existência sem vigília ou consciência plena, como se o sujeito
estivesse em um estado de transe ou sonolência, alheio à realidade ou incapaz de encontrar um
sentido para a sua própria vida. "Sem remédio" acentua a ideia de que esse estado de apatia ou
sofrimento não tem solução, não há cura para a dor ou a estagnação emocional.

O "vestígio do que não foi" refere-se ao lamento por aquilo que poderia ter sido, mas que nunca se
concretizou. Este verso expressa um sentimento de frustração e arrependimento, uma dor
proveniente de uma falta de realização ou da perda de oportunidades.

A "leve mágoa" e o "breve tédio" descrevem uma sensação de sofrimento que não é avassaladora, mas
constante e presente, em forma de um vazio que assola o ser. O eu lírico expressa uma dúvida
profunda sobre o que está a viver, como se estivesse a questionar se o seu sofrimento é real ou se ele
apenas o imagina. "Não sei se pára, se flui: / Não sei se existe ou se dói" traz uma incerteza
existencial, onde a distinção entre ser e não ser, entre sentir e não sentir, se torna impossível de fazer.
A dor e a existência tornam-se abstrações que não têm contornos claros, tudo parece diluir-se num
limbo.

“Gato que brincas na rua”

Gato que brincas na rua


Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

A primeira estrofe introduz a figura do gato, um animal simples e aparentemente sem


preocupações. O eu lírico observa o gato a brincar na rua como se estivesse em casa, de forma
tranquila e sem medo, vivendo no presente, sem qualquer dúvida ou reflexão. A comparação entre
o ambiente da rua e a cama sugere que o gato vive com liberdade, sem amarras ou preocupações,
numa harmonia com o mundo ao seu redor.

A expressão "invejo a sorte que é tua" revela um desejo do eu lírico de ter a mesma liberdade e
simplicidade do gato. No entanto, o verso "porque nem sorte se chama" acrescenta um toque
filosófico, sugerindo que o gato não depende da sorte para ser feliz, mas simplesmente vive segundo
a sua natureza instintiva. A "sorte" do gato, portanto, é a sua própria essência, que não precisa de ser
chamada ou explicada, ao contrário do ser humano, que está constantemente em busca de algo que
explique a sua felicidade ou sentido de vida.

Bom servo das leis fatais


Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

Nesta estrofe, o eu lírico observa o gato como um ser que segue as "leis fatais" que governam a
natureza. As "leis fatais" referem-se às leis naturais e inevitáveis da vida e da morte, que o gato segue
sem questionar, sem se interrogar sobre a sua existência. O gato é descrito como um "bom servo"
dessas leis, o que indica que ele não tenta alterar o seu destino ou fugir da sua essência – ele
simplesmente vive conforme os seus instintos.

O verso "tens instintos gerais" destaca a simplicidade do ser do gato, que age de acordo com
impulsos naturais, sem complicação. Em contraste com o ser humano, que é caracterizado pela sua
capacidade de reflexão, dúvida e questionamento, o gato "sente só o que sente", sem se perder em
preocupações sobre o significado da sua existência ou do mundo à sua volta. Esta expressão é uma
crítica implícita à condição humana, que é atormentada pela complexidade do pensamento e da
introspecção.

És feliz porque és assim,


Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Na terceira estrofe, a reflexão filosófica sobre a natureza do gato e do ser humano atinge o seu ponto
culminante. O eu lírico afirma que o gato é feliz simplesmente por ser o que é, sem necessidade de
mais nada. "Todo o nada que és é teu" pode ser interpretado como a ideia de que o gato é feliz na
sua simplicidade, aceitando completamente a sua condição. O nada que ele é – sem ambições, sem
preocupações, sem desejos – é suficiente para lhe proporcionar uma felicidade natural e plena.

Por oposição, o eu lírico expressa um estado de alienação e crise existencial. "Eu vejo-me e estou sem
mim" revela uma desconexão profunda com a sua própria identidade. O sujeito poético não se
reconhece, está perdido em si mesmo, sem encontrar uma verdade ou um sentido que o defina.
"Conheço-me e não sou eu" reforça ainda mais esse sentimento de dissonância e de distorção da
própria identidade. O eu lírico reconhece-se, mas não se encontra – ele está em busca de algo que o
complete, mas não consegue encontrar esse algo dentro de si.

“Liberdade”

“Ai que prazer


Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal.


Sem edição original
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…”

Nesta estrofe, o poeta faz uma crítica irónica à obrigação de ler e estudar, considerando-as tarefas
aborrecidas, que representam uma forma de "maçada" ou fardo. A leitura e o estudo, algo que
normalmente é visto como essencial, são aqui desvalorizados. O prazer de não cumprir esses deveres
é exaltado, sugerindo um afastamento da cultura acadêmica e uma preferência pela experiência
natural e despreocupada. O sol, o rio e a brisa, por sua vez, são descritos como elementos que
existem naturalmente, independentemente da literatura ou da produção intelectual humana. Este
contraste entre a liberdade natural e a rigidez do dever intelectual reforça uma visão de desdém pela
vida intelectual.

“Livros são papéis pintados com tinta.


Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.”

Aqui, o poeta reduz os livros a simples objetos materiais, "papéis pintados com tinta", desprovidos
de valor intrínseco. A crítica à função do estudo é reforçada pela ideia de que estudar não leva a
lugar algum, pois a distinção entre "nada" e "coisa nenhuma" é, de alguma forma, indistinta. Ou
seja, estudar e procurar conhecimento são, segundo o eu lírico, atividades vazias e sem verdadeira
importância, um ponto de vista que reflete uma visão mais niilista e desencantada.

“Quanto é melhor, quando há bruma,


Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não!”

Neste trecho, há uma referência à figura mítica de D. Sebastião, o rei português que desapareceu
em batalha e cuja volta era aguardada como uma espécie de messianismo nacional. A bruma e a
espera por D. Sebastião representam uma atitude de esperar algo grandioso, mas ao mesmo tempo
inútil e inatingível. A espera "quer venha ou não" indica uma resignação ou aceitação da incerteza, o
que pode refletir uma visão melancólica do poeta sobre a realidade, talvez sugerindo que, assim
como a expectativa pela volta de D. Sebastião, as grandes esperanças humanas são, muitas vezes,
fúteis.

“Grande é a poesia, a bondade e as danças…


Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.”

Aqui, o poeta faz uma pausa para reconhecer as coisas simples e belas da vida: as crianças, as flores, a
música, o luar e o sol. Estes elementos são valorizados como mais autênticos e genuínos do que
qualquer aspiração intelectual ou artística. O sol, embora exaltado, é visto com uma crítica: ele
"peca" quando, em vez de criar (no sentido de dar vida e calor), seca, como se o poeta visse a perda
da sua função vital como algo negativo e desolador.

“O mais do que isto


É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…”

Aqui, há uma ironia e uma crítica a uma sociedade que valoriza o dinheiro e o conhecimento
formal, ao passo que o exemplo de Jesus Cristo é utilizado para sublinhar que as questões espirituais
e morais — que, no fundo, são mais importantes — não dependem de riquezas nem de cultura
erudita. A referência ao fato de que "não sabia nada de finanças" e "nem consta que tivesse
biblioteca" sublinha a crítica de que a verdadeira sabedoria não está necessariamente na acumulação
de riqueza ou conhecimento formal, mas em valores mais profundos, espirituais ou humanos.

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