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Hospitalidade na Cultura Kaiowá: Uma Análise

Este estudo explora o conceito de hospitalidade na cultura da etnia Kaiowá, destacando como eles percebem e expressam diferentes formas de acolhimento. A pesquisa, de caráter descritivo e exploratório, foi realizada por meio de entrevistas etnográficas e analisa as interpretações dos participantes sobre hospitalidade, contribuindo para uma compreensão mais ampla do fenômeno em um contexto cultural específico. Os resultados revelam que a hospitalidade é vista como um fenômeno coletivo, refletindo a interdependência e a pluralidade das relações sociais entre os Kaiowá.
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Hospitalidade na Cultura Kaiowá: Uma Análise

Este estudo explora o conceito de hospitalidade na cultura da etnia Kaiowá, destacando como eles percebem e expressam diferentes formas de acolhimento. A pesquisa, de caráter descritivo e exploratório, foi realizada por meio de entrevistas etnográficas e analisa as interpretações dos participantes sobre hospitalidade, contribuindo para uma compreensão mais ampla do fenômeno em um contexto cultural específico. Os resultados revelam que a hospitalidade é vista como um fenômeno coletivo, refletindo a interdependência e a pluralidade das relações sociais entre os Kaiowá.
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Volume 19, 2022

“[...] o índio, ele não é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia
Kaiowá – MS

“[...] indigenous people, they are not isolated, they are collective”: hospitality from the
Kaiowá point of view

“[...] pueblo indígena, no es aislado, es colectivo”: la hospitalidad en la perspectiva de la


etnia Kaiowá - MS
Adilson Crepalde1
Dores Cristina Grechi2
Rúbia Elza Martins de Sousa3

Resumo: Esta pesquisa teve como objetivo refletir sobre o conceito de hospitalidade com base na compreensão que
representantes da etnia Kaiowá têm sobre o que significa hospitalidade no contexto de sua cultura. O estudo em tela
buscou entender como pensam e expressam diferentes formas de acolhimento ante a identificação de termos que
remetem ao conceito de hospitalidade e as suas interfaces. Com relação à metodologia, caracterizou-se como
descritiva e exploratória. Os dados foram coletados por meio de pesquisa de inspiração etnográfica, utilizando-se a
entrevista como procedimento para a coleta de dados. A análise dos resultados pautou-se em discussões teóricas
sobre o assunto e nas explicações dos participantes indígenas da pesquisa. Com base no que foi analisado, pode-se
dizer que as interpretações dadas sobre a noção de hospitalidade pelos Kaiowá ajudam a compreender as reflexões
teóricas sobre o assunto e acrescentam elementos próprios da cultura kaiowá, como um fenômeno que ocorre em
um espaço-tempo único, remetendo à pluralidade do fenômeno.
Palavras-chave: Hospitalidade, Acolhimento, Relações interpessoais, Indígena, Etnia Kaiowá

Abstract: This study aimed at reflecting on the concept of hospitality based on the understanding that representatives
of the Kaiowá ethnic group have about what hospitality means in the context of their culture. In this study one sought
to understand how they think and express different forms of welcoming face to identification of terms referring to
the concept of hospitality and its interfaces. Regarding the methodology, it was characterized as descriptive and
exploratory. Data were collected through research inspired by ethnography, by means of interviews. The analysis of
the results was based on theoretical discussions on the subject and on the explanations of the indigenous participants
in the research. Based on what was analyzed, it can be said that the interpretations given about the notion of
hospitality by the Kaiowá help to understand the theoretical reflections on the subject and add elements of the
Kaiowá culture, as a phenomenon that occurs in a unique space-time, referring to the plurality of the phenomenon.
Keywords: Hospitality, Reception, Interpersonal relationships, Indigenous, Kaiowá ethnicity

Resumen: Esta investigación tuvo como objetivo reflexionar sobre el concepto de hospitalidad a partir de la
comprensión que tienen los representantes de la etnia Kaiowá sobre lo que significa la hospitalidad en el contexto
de su cultura. El estudio en pantalla buscó comprender cómo piensan y expresan diferentes formas de acoger antes
de la identificación de términos que se refieren al concepto de hospitalidad y sus interfaces. En cuanto a la
metodología, se caracterizó por ser descriptiva y exploratoria. Los datos fueron recolectados a través de una
investigación inspirada en la etnografía, utilizando la entrevista como procedimiento de recolección de datos. El
análisis de los resultados se basó en discusiones teóricas sobre el tema y en las explicaciones de los indígenas
participantes en la investigación. Con base en lo analizado, se puede afirmar que las interpretaciones dadas sobre la

1
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. E-mail: [email protected]
2
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. E-mail: [email protected]
3
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. E-mail: [email protected]
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CREPALDE, A.; GRECHI, D. C.; SOUSA, R. E. M. “[...] o índio, ele não
é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
ISSN 1807-975X

noción de hospitalidad por parte de los Kaiowá ayudan a comprender las reflexiones teóricas sobre el tema y agregan
elementos de la cultura Kaiowá, como fenómeno que ocurre en un espacio-tiempo único, refiriéndose a la pluralidad
del fenómeno.
Palabras llave: Hospitalidad, Recepción, Relaciones interpersonales, Indígena; etnia kaiowá

1 Introdução

A expressão hospitalidade tem uma conotação positiva na cultura brasileira e o adjetivo


hospitaleiro tem sido usado pelo senso comum para destacar as qualidades de uma pessoa, uma
família, um grupo social ou comercial. Imediatamente remete a ideia de acolhimento, solicitude
e de compreensão. No entanto, o conceito “hospitalidade” tem suscitado inúmeras reflexões e
debates em diferentes campos do conhecimento que demonstram a complexidade das relações
que evoca. Essas reflexões dizem sobre aspectos sociais, econômicos, psicológicos, ontológicos,
éticos, estéticos, pedagógicos, religiosos, entre outros, implicados nas relações sociais que podem
ser pensadas no esquema da hospitalidade, ou seja, relações que envolvem quem recebe e quem
é recebido em um determinado lugar.
Para além da amabilidade que o termo evoca, essas reflexões levam a pensar em
alteridade, no encontro com outro, um encontro entre diferentes, que lutam para se comunicar e
construir redes e ao mesmo tempo manter suas individualidades, sua identidade (Marches;
Antonio; Souza & Castaldelli, 2008). Neste sentido, refletir sobre hospitalidade é refletir sobre o
ser humano, sobre as relações sociais, sobre a linguagem, sobre as regras que permeiam os
encontros, sobre as possibilidades e limites de estabelecer laços e trocas e refletir sobre os
interesses que perpassam as trocas (Lashley, 2015).
Mais que nunca, trata-se de um debate necessário, haja vista o momento histórico que se
presencia no Brasil, caracterizado por uma crise que atinge todos os setores da vida social gerada
pela intolerância e pelo radicalismo de posições. A crise atinge os setores da sociedade que
buscam alternativas e inovações e um mundo em que tudo muda rapidamente, no qual passam
despercebidas práticas e estratégias antidialógicas que negam o caráter gregário do ser humano.
Neste sentido, negam a heterogeneidade e a complexidade da hospitalidade como uma atitude
civilizatória, reduzindo-a a relações econômicas, estimulando a construção de fronteiras entre
indivíduos e culturas, aumentando a violência física e simbólica.

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Sendo assim, discutir hospitalidade, levando-se em conta o ponto de vista de indígenas


da etnia kaiowá, pode auxiliar no processo de repensar o esquema da hospitalidade neste
momento histórico. Há vários trabalhos sobre os Kaiowá4 que demonstram como o pensamento
desse grupo étnico têm auxiliado a pensar diversas questões relacionadas ao meio ambiente, ao
social, ao educacional e a questões culturais (Chamorro, 2008; João, 2011; Benites, 2012;
Machado, 2013; 2013; Crepalde, 2014). Como menciona Bueno (2016), para não perder de vista
a complexidade das relações interpessoais, questiona-se qual o significado da hospitalidade para
a cultura kaiowá? Qual a maneira kaiowá de pensar, perceber e expressar a hospitalidade? Tais
inquietações de pesquisa se justificam dada a potencialidade do estado de Mato Grosso do Sul,
que é o segundo do país com maior população indígena5, sendo fundamental, portanto,
compreender os padrões de ensino e vivência destes povos no que se refere às relações
interpessoais.
Apesar da representatividade numérica ser expressiva, a representatividade política,
econômica e social mostra-se fragilizada em função do contexto histórico de dominação, que
resultou no preconceito e na marginalização desses grupos étnicos. Entretanto, os indígenas
resistem, apegados a uma concepção de vida baseada na interdependência de todas as coisas que
compõem o mundo, uma concepção que tem sido valorizada por pensadores não indígenas como
Capra (1982) e Morin (2003), dentre outros. Outro aspecto que justifica pesquisas sobre a
hospitalidade em diferentes grupos culturais é demonstrado por Blain e Lashley (2014), os quais
apontam que faltam estudos a respeito da hospitalidade do ponto de vista comportamental, de
personalidade, demografia, gênero e etnias diferentes.
Deste modo, o objetivo do trabalho em tela foi estudar o significado da hospitalidade sob
o ponto de vista de representantes da etnia Kaiowá, moradores da Reserva Indígena Francisco
Horta Barbosa, na cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul e com base nesse estudo refletir
sobre o conceito de hospitalidade. Neste estudo, buscou-se entender como pensam e expressam

4
Não há consenso entre os kaiowá sobre a grafia de certas palavras da língua falada por eles. Dessa maneira, neste
trabalho, seguimos as orientações sobre a grafia das palavras da língua kaiowá encontradas no dicionário Ñe’ẽ Ryru
Avañe’ẽ (Assis, 2000).
5
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – (2010), Mato Grosso do Sul é o segundo
do país com maior população indígena e o município de Dourados destaca-se neste cenário, pois, a aproximadamente
cinco quilômetros da região central da cidade residem, na Reserva Indígena Franscisco Horta Barbosa, 12 mil
indígenas (IBGE, 2010), das etnias Guarani, Kaiowá e Terena.

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diferentes formas de acolhimento, a partir da identificação de termos que remetem ao conceito


de hospitalidade e as suas interfaces, entendendo o acolhimento como parte do ritual da
hospitalidade (Camargo, 2015).
Este estudo configurou-se como descritivo e exploratório, de cunho qualitativo. Nas
páginas que seguem, são apresentados os percursos da pesquisa, desde o escopo teórico até as
discussões dos resultados encontrados, bem como, aspectos conclusivos e encaminhamentos para
estudos futuros.

2 As interfaces da hospitalidade: problematizando o conceito

Os aspectos da relação de acolhimento são abordados nos estudos sobre hospitalidade a


partir dos diversos espaços, sejam eles públicos, domésticos, ligados à atividade comercial ou
não. O acolhimento, característica que pauta a hospitalidade, vincula-se a um processo de troca
que pode ser simbólica ou material, e que se dá entre os anfitriões e os hóspedes. Esse esquema
de hospitalidade, aparentemente simples, que se assenta sobre um processo bidirecional, em
verdade, envolve uma multiplicidade de fatores, estruturas e atitudes que estão intrinsecamente
relacionadas ao bem-estar de indivíduos, pois segundo Baptista (2008), ao longo da vida ora
acolhemos e ora somos acolhidos.
Para Camargo (2003), a hospitalidade pode ser melhor compreendida com base na
categoria “dádiva”, conforme elaborada e defendida nos estudos desenvolvidos por Marcel
Mauss. Esta categoria evoca um esquema de relações que envolve a tríplice obrigação do dar-
receber-retribuir. As contribuições de Mauss (2013) sobre a dádiva tem sido ponto de partida
para reflexões sobre hospitalidade, desenvolvidas por estudiosos de vários campos do saber, haja
vista a complexidade que tal esquema implica.
As diversas frentes em que a hospitalidade se apresenta e se materializa dão o tom às
relações estabelecidas entre as partes envolvidas, compreendendo atitudes diversas nos processos
de troca. As especificidades das relações que se dão no cenário hospitaleiro não devem ser
colocadas como oposições binárias, mas apresentadas em um eixo de relação social que pode ser
afetada por diferenças culturais, sociais, econômicas, políticas e pelo distanciamento geográfico.

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Para Camargo (2003), a hospitalidade pode ser compreendida por dois eixos centrais, o
cultural, que diz respeito às ações que a noção de hospitalidade abrange, e o eixo social que está
relacionado às formas de interação pessoal e às instâncias espaciais em que essas se dão. Assim
sendo, enquanto prática cultural, a hospitalidade abarca o recebimento de pessoas, a hospedagem,
a alimentação e o entretenimento, de forma que a vertente social se pauta nas categorias:
doméstica, pública, comercial e virtual. Em trabalho mais recente (2015) esse autor aponta que a
hospitalidade pode ser tratada, também, sob a dimensão do valor, questão essa que remete à
religião e à ideia de caridade.
Aprofundando a discussão da hospitalidade como valor, pode-se pensar nos textos que
abordam a noção de alteridade (Boff, 2005). Nesse sentido, a hospitalidade tem sido objeto de
estudo para se discutir a relação com outro. Levinas (2005) e Derrida (2003) dão grande
contribuição para compreender a complexidade que envolve a relação com o outro. Esses autores
refletem sobre alteridade não pelo que há de comum no encontro, nem pela amabilidade que pode
existir no processo, mas pela diferença, pelo conflito, pelas estratégias discursivas e pela
impossibilidade de comunicação (Miranda, 2016). Mas esses elementos não devem ser
entendidos como obstáculos ao processo, mas como constituintes dele. Ao serem considerados,
a hospitalidade não é vista como apenas um ato de acolhimento, mas passa a ser compreendida
como uma situação de construção de sentido que emerge dos jogos de alteridade. Nesta linha de
raciocínio, os sentidos estão sempre em construção e emanam das diferenças, ambiguidades e
ambivalências.
Além das reflexões teóricas, estudos sobre a hospitalidade indígena levam a considerar
elementos do sistema da hospitalidade (dar, receber e retribuir), como é o caso do trabalho
realizado por Lac (2010) sobre os Kaigang, moradores da Terra Indígena de Iraí, localizada ao
norte do estado do Rio Grande do Sul. Este estudo tratou a hospitalidade pelo prisma da
convivência com as diferenças, chamando a atenção para a valorização da comensalidade, como
um meio que conduz à sociabilidade, destacando seu papel fundamental na hospitalidade.
Os momentos dedicados à alimentação aproximam os “mundos” de anfitriões e hóspedes,
criando uma atmosfera mais íntima. Por isso, entende-se como essencial, para um mundo mais
acolhedor, estudar diferentes culturas sob variados prismas. A exemplo de Lashley, em entrevista
a Brusadin (2016), quando o estudioso deixa claro que abordar a hospitalidade a partir de

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diferentes perspectivas culturais é fundamental para uma formação mais crítica e reflexiva. Bem
como, o estudo da hospitalidade no âmbito privado pode ajudar a pensar o aspecto comercial.
Ou, ainda, para Ell e Pavelka (2020) que publicaram um código de conduta para guiar Spas de
inspiração indígena, argumentando que discutir sobre a erosão da cultura indígena é importante
por muitos aspectos, inclusive, por conta do esquecimento da língua, pois segundo mencionam,
a língua seria o principal indicador de que culturas estão desaparecendo, uma vez que milhares
delas deixam de ser ensinadas por ano ao redor do mundo. O mesmo ocorre com outras vertentes
da cultura, como, por exemplo, os rituais de acolhimento, as visitas, o lazer destes povos
tradicionais, que se transformam conforme acontecem as mudanças do entorno e amplia-se a
escassez dos elementos que compõem a identidade de cada um deles.
A hospitalidade em determinadas comunidades indígenas pauta-se nas expectativas em
relação às reações e atitudes dos hóspedes, quando se trata do não-indígena, frente ao que lhes é
oferecido, ou seja, como aponta Lac (2006, p. 10), “[...] que ele não recuse ou se queixe do que
lhe é ofertado”. Esta pesquisadora considerou, então, que os Kaigang que vivem na Terra
Indígena de Iraí buscam, nesse cenário, uma oportunidade de conquistar o respeito. Souza (2009),
ao vivenciar experiências nas aldeias Pataxó de Barra Velha e Pé do Monte, ambas localizadas
na Bahia, apresenta relatos da hospitalidade em que aponta que não lhe foi requerido nada em
troca pelos serviços de alimentação e hospedagem a ela ofertados. Diante da situação a
pesquisadora compreendeu que a única troca possível era o compromisso do respeito, o respeito
pela cultura e pelas diferentes formas de compreender a vida.
Muito embora este trabalho sobre hospitalidade indígena traga informações importantes
sobre como os povos indígenas compreendem o processo de hospitalidade, não se pode,
ingenuamente, ater-se apenas à gratuidade e ao acolhimento dos processos destacados. Uma vez
que, mesmo não oferecendo hospitalidade por dinheiro, a mesma não é altruísta de todo, mas
almeja reciprocidade, ou até mesmo, uma certa restrição, ou seja, manter o inimigo por perto,
monitorá-lo (Lashley, 2015).
Nesse sentido, as reflexões de pensadores como Viveiros de Castro (2002, 2018), de
Oliveira, (1999), Lévi-Strauss (1989), Meliá, Grümberg e Gruümberg (1976), dentre outros,
podem contribuir para se refletir sobre o pensamento indígena e, consequentemente, sobre a
hospitalidade indígena. Todavia, não se pode prescindir dos escritos de Mauss (2013) sobre os

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sistemas de trocas, compreendidos como jogos de enlaçamento, de fazer compromisso com o


outro, um processo complexo e multideterminado que envolvia a solução de conflitos. Ademais,
não se pode deixar de levar em consideração, em hipótese nenhuma, as considerações dos
próprios indígenas sobre o assunto.
O trabalho de Mauss (2013) sobre os Polinésios, Malinésios e indígenas norte-americanos
tem sido referência para se pensar a hospitalidade no contexto indígena, pois nessas
comunidades, o processo das trocas econômicas, que é pautado na obrigação do dar, receber e
retribuir, se dá junto à hospitalidade que aparece de forma gratuita, sendo essa a propiciadora dos
ambientes para a realização e efetivação das trocas. Um exemplo da complexidade da
hospitalidade indígena se revela ao se tentar entender a noção de Potlatch: um jogo das dádivas
que envolve o religioso, o mitológico, os espíritos e os antepassados, mas que é também
econômico, pois envolve as transações econômicas - produção e distribuição de bens materiais.
É ainda social, pois envolve a morfologia social: a reunião das famílias, dos clãs, das tribos, que
produz nervosismo e excitação. Mauss (2013) demonstra a importância do mítico nas relações
de hospitalidade e o lado psicológico do processo, além de destacar as dinâmicas do encontro
entre diferentes: “os grupos se confraternizam mas permanecem estranhos”, o que é reforçado
por Brusadin e Panosso Netto (2016, p.526) quando afirmam que: “As civilizações se delimitam
pela capacidade de adotar outros costumes e de expandir-se, mas também pela resistência em
adotar os costumes das sociedades que as incluem6.
Desta forma, apreendendo as múltiplas facetas da hospitalidade e, inclusive, seu caráter
ambíguo e paradoxal, desafiou-se a explorá-la a partir da experiência com o outro, com o
diferente. A trajetória escolhida, as análises realizadas e as conclusões encontradas, apresentam-
se nas páginas a seguir.

3 Metodologia

Este estudo configura-se como pesquisa descritiva e exploratória, de cunho qualitativo,


considerando que pesquisas desta natureza “Procuram descobrir, descrever ou mapear padrões

6
Las civilizaciones se delimitan por la capacidad de adoptar costumbres ajenas y de expandirse, pero también por
la resistencia a la adopción de las costumbres de las sociedades que las incluyen
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de comportamento em áreas ou atividades que não foram previamente estudadas (Veal, 2011). A
pesquisa contou com o suporte de moradores da Reserva Indígena Francisco Horta Barbosa e
com pesquisadores familiarizados com o objeto de estudo, dada a necessidade de inserção prévia
na comunidade estudada, possibilitando e facilitando o processo do contato com os indígenas e,
por conseguinte, da coleta de dados.
A aproximação com os indígenas se deu por intermédio de um dos membros da equipe
da pesquisa que tem realizado estudos há 15 anos sobre as culturas guarani e kaiowá no Mato
Grosso do Sul, com foco no processo de construção de sentido no interstício de culturas. Dessa
maneira, foram levados em consideração conhecimentos sobre as referidas culturas
desenvolvidos em trabalhos anteriores (Crepalde, 2014).Os participantes indígenas da pesquisa
foram escolhidos com base no conceito de “representante cultural” pensado por Labov (1976) e
na indicação de estudiosos indígenas, os quais sugeriram pessoas que, segundo eles, estariam
autorizados a falar sobre o assunto.
Para facilitar a organização dos trabalhos propôs-se diferentes etapas, sendo que a
primeira se constituiu de reuniões periódicas entre os pesquisadores, com vistas a discutir textos
que abordassem a questão indígena, com enfoque para a etnia Kaiowá, em Mato Grosso do Sul,
bem como para promover a familiarização com termos na língua guarani, visto que facilitaria a
aproximação com os indígenas. Ao todo, nesta primeira etapa, foram realizadas seis reuniões,
sendo que em duas delas houve a participação de uma representante da etnia Kaiowá, que à época
era bolsista de Iniciação Científica, vinculada ao projeto dos pesquisadores. Estas reuniões
ocorrem por um período de seis meses.
A segunda etapa consistiu na revisão bibliográfica sobre estudos que abordam a
hospitalidade, com o objetivo de embasar teoricamente a pesquisa. Como mencionado
anteriormente, desde a primeira etapa, o material bibliográfico sobre a etnia Kaiowá vinha sendo
levantado e estudado.
A terceira etapa caracterizou-se pela pesquisa com inspiração etnográfica com
representantes da etnia Kaiowá. Importante registrar que a inspiração etnográfica adotada nesta
pesquisa, configura-se, segundo os pesquisadores, como uma etnografia “à moda indígena”, que
de acordo com Crepalde (2014), inclina-se para o respeito ao tempo, ao espaço e à sequência
lógica das ideias/informações que forem sendo apresentadas pelos indígenas. Ainda, a técnica de

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coleta de dados inspirada na etnografia “à moda indígena” remete às estratégias de coleta de


dados que têm sido desenvolvidas pelos próprios pesquisadores indígenas (João, 2011; Machado,
2013, Chamorro, 2017), que levam em consideração a abordagem com base em especificidades
culturais, o tempo da conversa, o local da conversa, a língua e costumes. Essa abordagem
considera as noções de tempo, de espaço, de tempo/turno de fala e a maneira de narrar e tem sido
aperfeiçoadas à medida que os acadêmicos indígenas têm praticado a coleta de dados.
Desta forma, compreende-se que não se trata de uma descrição densa (Geertz, 1989), haja
vista o tempo empregado para a realização do trabalho, mas uma reflexão sobre dados que
permitiram pensar e trazer para o debate o conceito de hospitalidade, no contexto indígena
kaiowa, e entende-se que o trabalho pode levar a outras reflexões sobre o assunto. Os
pesquisadores aprenderam, a partir da compreensão da forma de ser da cultura kaiowá, que: “A
palavra tem alma e não apenas um significado. Não é em vão que a expressão ñe’ẽ em guarani
significa palavra, língua e alma” (Crepalde, p. 14, 2014).
Utilizou-se a entrevista semi-estruturada como procedimento para a coleta de dados e,
para tal, foram elaboradas cinco perguntas-gatilho que serviram de estímulo para o desenrolar
das conversas, instrumento norteador dos diálogos estabelecidos. As perguntas-gatilho versaram
sobre a história de vida dos colaboradores da pesquisa, bem como, sobre os tempos da
hospitalidade (acolher, hospedar, entreter e alimentar) (Camargo, 2004; Mura, 2006; Chamorro,
2017). Importante salientar que as entrevistas visaram respeitar a natureza desta pesquisa, de
maneira a possibilitar que os indígenas, a seu tempo e a seu modo, tivessem a liberdade de tecer
comentários diversos, ligados direta e/ou indiretamente ao tema da pesquisa.
Assim sendo, foram entrevistados quatro representantes da etnia Kaiowá, sendo duas
mulheres e dois homens, como explicitado no quadro 1. As entrevistas foram feitas em português,
mas sempre mediadas por falantes da língua guarani.

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Quadro 1 - Entrevistados.

Entrevistado Caracterização Sigla

Entrevistado 1 Homem, 63 anos E1

Entrevistado 2 Homem, 61 anos E2

Entrevistado 3 Mulher, 52 anos E3

Entrevistada 4 Mulher, 24 anos E4

Fonte: Elaborado pelos autores, 2022.

As entrevistas foram gravadas e transcritas, contando com o auxílio dos próprios


entrevistados na grafia dos termos em guarani que, ao longo dos diálogos, apresentaram-se como
um marco cultural e um demarcador de fronteiras entre o eu (indígena) e os outros (pesquisadores
não-indígenas). As informações coletadas, antes de serem utilizadas no contexto do artigo, foram
analisadas com base em estudos antropológicos e historiográficos sobre esses grupos étnicos:
Mura, (2006), Pereira (2004), Chamorro (2017) Melià; Grumberg, (1978). Além dos trabalhos
de estudiosos não indígenas, foram utilizados trabalhos e conversas com três pesquisadores
indígenas que têm estudado suas próprias culturas: Machado (2013), João (2011), e Benites
(2012). Dessa maneira, entendeu-se que as informações coletadas eram suficientes e consistentes
para que se pudesse pensar o conceito de hospitalidade.
Todas as visitas foram pré-agendadas e os objetivos do trabalho foram explicados
antecipadamente em português e em guarani. Um dos pesquisadores fala e compreende
razoavelmente guarani e os trabalhos foram acompanhados por um indígena pesquisador e
falante fluente da língua guarani. As entrevistas foram realizadas nas casas dos participantes em
local e data escolhidos por eles.
Embora as conversas tivessem como foco a hospitalidade (por meio de busca de palavras
em guarani que expressassem o ato de receber alguém, oferecer algo, acolher), a conversa fluiu
com base no que achavam relevante. Antes dos encontros, os pesquisadores indígenas orientaram
a equipe sobre como se movimentar no espaço a partir da palavra tekoha (lugar no qual emana o
jeito de ser). Pôde-se aprender, antes das conversas e durante as conversas, sobre a relação dos
indígenas com o espaço e compreender as metáforas e metonímias que relacionam o corpo

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humano ao meio ambiente, bem como, compreender símbolos culturais e a simbologia de plantas
e animais que vivem naquele espaço.
Por fim, na quarta etapa, fez-se a apresentação dos resultados, e estes foram organizados
em dois tópicos, sendo que no primeiro foi feita a descrição de características do grupo estudado,
bem como da localidade e no segundo tópico foram realizadas as análises das entrevistas.
Seguindo as premissas de Bardin (1979), a quarta etapa configurou-se em três momentos
distintos e complementares: leituras iniciais para organizar e sistematizar as informações
coletadas, em função das perguntas e do objetivo que orientou a pesquisa (pré análise);
agrupamento de elementos comuns encontrados nas falas dos entrevistados (exploração do
material); interpretação dos dados, a partir da tentativa de compreensão do contexto
sociocultural ao qual os entrevistados estão inseridos, bem como do corpus teórico consolidado
no campo da hospitalidade (tratamento dos resultados obtidos e interpretação).
Ao longo da discussão dos resultados, as vozes dos entrevistados poderão ser
ouvidas/lidas, por meio da transcrição de trechos de suas falas, pois entende-se que os indígenas
que colaboraram com essa pesquisa são os protagonistas e, portanto, suas vozes devem ser
reproduzidas e ecoadas.
Diante da complexidade que envolve o trabalhar junto às comunidades indígenas, bem
como da profundidade do conceito e, por conseguinte, das implicações da hospitalidade, os
procedimentos e o percurso metodológico traçado neste estudo, buscaram expressar um fazer
científico em que a rigidez da ciência não se impusesse aos elementos socioculturais que marcam
a identidade dos entrevistados, mas que a eles se somassem, com vistas a garantir o rigor
científico no desenvolvimento do estudo. Abaixo apresenta-se um fluxograma contendo o
percurso metodológico realizado para o desenvolvimento da pesquisa.

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CREPALDE, A.; GRECHI, D. C.; SOUSA, R. E. M. “[...] o índio, ele não
é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
ISSN 1807-975X

Figura 1: Percurso metodológico da pesquisa

Fonte: Elaborado pelos autores, 2022.

4 Resultados e discussão

Kaiowá é a denominação de um grupo étnico que vive no sul de Mato Grosso do Sul,
falantes de uma variação da língua guarani, que denominam avañe’ẽ, expressão composta de
ava (homem) e ñe’ẽ (língua), significando “a língua do homem” (Assis, 2000, p. 12). Homem,
no entanto, não se refere a todos os homens, mas àqueles que compartilham a sabedoria e a
língua dos ava. Nesse sentido, ava é uma categoria que estabelece um espaço de pertença e,
consequentemente, de identidade em relação a outros. Atualmente, os Kaiowá vivem na Reserva
Indígena de Dourados, dividindo-a com mais dois grupos étnicos: os Guarani e os Terena.

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CREPALDE, A.; GRECHI, D. C.; SOUSA, R. E. M. “[...] o índio, ele não
é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
ISSN 1807-975X

Com a criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) em 1910, as populações


indígenas no MS foram submetidas a um processo compulsório de aldeamento. Neste
processo, foi criada, junto ao patrimônio de Dourados, em 1917, a Reserva Indígena
de Dourados pelo Decreto 401 de 03/09/1917 com uma área correspondente a 3.600
ha. De acordo com o relatório apresentado pelo auxiliar do posto do SPI Genésio
Pimentel Barbosa, em 1927, esta área foi reservada aos índios Kaiowá, “junto ao
patrimônio de Dourados” (apud MONTEIRO, 2003, p. 97). À área reservada
correspondia o Posto Indígena Francisco Horta Barbosa submetido à Inspetoria
Regional 5, cuja sede administrativa ficava em Campo Grande. (Mota & Cavalcante,
2019, p. 43).

Os indígenas Kaiowa estão organizados em famílias extensas ou parentelas (Pereira,


2004), grupos macro familiares que se unem por consanguinidade e por relações políticas.
Mesmo que vivam em casas pequenas com suas famílias nucleares, a família extensa é a forma
societária desses indígenas ainda nos dias atuais. O tetã, território indígena, foi reduzido à
reservas, e embora muitas terras indígenas tenham sido identificadas há várias famílias que vivem
em áreas de retomadas e até na beira de estradas, organizando-se espacialmente por meio da
noção de tekoha, lugar onde e de onde o modo de ser viceja. Nesse sentido, mantém uma relação
com o ambiente, com base em conhecimentos tradicionais. Com vistas a apresentar a demarcação
territorial do lócus dessa pesquisa, apresenta-se o mapa abaixo, em que é possível observar a
cidade de Dourados-MS e a localização da Reserva Indígena em relação a esta.

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é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
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Figura 2: Mapa de localização da Reserva Indígena de Dourados.

Fonte: Mura, Silva, Almeida, 2020.

Apesar de os Kaiowá serem vizinhos da cidade e os pesquisadores terem se preparado


(estudado traços culturais, aprendido determinadas palavras da língua Guarani), os encontros
mostraram que a diferença era muito maior do que se pensava e que seria necessário reconhecer
limites, diferenças em relação à noção de tempo, espaço, encontro, movimento e turno de fala.
Para ilustrar esta afirmação, exemplifica-se com a situação em que uma das entrevistadas
somente sentiu-se à vontade para a conversa sobre a temática da pesquisa após caminhar com a
equipe pelo seu território, mostrando as ervas e seus usos, intercalando com informações a
respeito de seus familiares. Ou seja, vivenciou-se a hospitalidade para falar de hospitalidade. Isso
ocorreu somente depois de vencidas, parcialmente, as barreiras linguísticas entre pesquisadores
e pesquisados, foi só aí, que se pôde estabelecer relações entre o que implica a hospitalidade
(receber, ser recebido, maneiras de receber, etc.) para os Kaiowá e o conceito acadêmico de
hospitalidade. Muito embora os participantes fossem bilíngues, em grau considerado alto, não
foi fácil estabelecer pontos comuns sobre o assunto.
Realizaram-se três encontros, e a equipe de pesquisa foi recebida nas casas dos indígenas,
ou melhor, no terreiro de suas casas. O acolhimento se deu com rezas, com sorrisos, com
expectativa de venda de artesanato e com presentes (ervas medicinais). Os entrevistados falaram
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CREPALDE, A.; GRECHI, D. C.; SOUSA, R. E. M. “[...] o índio, ele não
é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
ISSN 1807-975X

do "ser" Kaiowá que vive na memória dos mais velhos e da dificuldade de, nos dias de hoje,
colocar em prática esse modo de ser, o qual está relacionado ao convívio e em tudo o que ele
implica. Sendo assim, no próximo tópico apresenta-se a hospitalidade sob o viés Kaiowá, em
suas particularidades e variações.

4.1 Conceito de hospitalidade sob a perspectiva da etnia Kaiowá


"Somos adoradores da obra Deus", foi assim que um dos respondentes começou a fala,
como quem abre um portal. Foi dizendo por meio de metáforas kaiowá que Deus era hospitaleiro,
o máximo da hospitalidade porque Deus sabia ser alegre, o máximo de alegre, porque Ele sabia
agradar as coisas. Falou ainda que Deus era o maior grau da sabedoria do agradar. Agradar é
acolher os outros, mesmo que os outros não tenham aprendido ainda a arte divina de agradar. O
agradar permite e fortalece o encontro, e, quanto mais encontro, mais felicidade, porque, segundo
ele, quem agrada fica sagrado. E Deus era sagrado porque tinha conseguido fazer o encontro de
todas as coisas. Mandou olhar para a árvore sozinha no meio do campo e perguntou se os
pesquisadores reconheciam os sentimentos das árvores. Não esperou resposta e foi dizendo que
encontrar, envolvia tudo, gente, plantas, animais, espíritos, águas, etc. Parece mesmo que o
objetivo da vida é permitir a construção de laços, mas para fazer laços tem de saber “esfriar o
fogo que mora no corpo das coisas”, fazer laço é fazer trama de fios que se gostam e não se
gostam, fazer um riru (um recipiente, um invólucro, que abrigue o coletivo). A maior parte das
falas soaram poéticas, uma nítida preocupação com a estética, e também uma possibilidade de
fazer metáforas inesperadas, o que é recorrente na cultura indígena kaiowá (Crepalde, 2014).
Na fala de todos os entrevistados, apareceu a ideia de hospitalidade como um esforço que
se faz para integrar as pessoas e as coisas do mundo. Esse esforço repete o gesto dos ancestrais
quando esses inauguram o modo de ser. A hospitalidade, pelo que se depreende da fala dos
participantes da pesquisa, encerra a ideia de interdependência e equilíbrio entre humanos e não
humanos. Ser hospitaleiro é um valor no mundo kaiowá, e desde muito cedo aprendem que
participar do esquema da hospitalidade é fundamental para o pertencimento ao grupo.
As explicações dos participantes foram marcadas por pontos comuns sobre a importância
de saber fazer o jogo da hospitalidade para celebrar relações políticas e sociais, mas também
foram marcadas pelo estilo das explicações com toques poéticos. Foram produzidos enunciados

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é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
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carregados da maneira kaiowá de falar, destacando o modo de ser kaiowá como uma
hospitalidade sagrada, uma hospitalidade que envolve todos os seres que compõem o mundo.
Essa ideia de hospitalidade e conexão entre as coisas mostra a complexidade do ato de fazer
tramas, ou seja, de tecer as relações sociais.
Ficou claro o esforço e trabalho de se fazer e manter alianças, um trabalho de saber
receber e ser recebido, um trabalho que envolve regras e cuidados. Gotman (2019) ressalta a
ambiguidade do conceito e a facilidade que se pode ir da hospitalidade para a hostilidade.
Entrelaçar fios corresponde aos jogos da alteridade, em saber reconhecer as diferenças. As
conversas mostraram que, para os Kaiowá, é necessário desenvolver essa habilidade de
"entretecer" gente.
Neste sentido, diante da complexidade que se desvelou nas falas dos entrevistados,
mostrou-se premente estruturar a discussão dos resultados de maneira didática, de modo a tornar
compreensíveis as referências ligadas à hospitalidade que, de forma sutil, apareceram durante os
diálogos estabelecidos junto aos entrevistados. Assim sendo, utilizou-se como estratégia a
seleção de termos que apareceram nas entrevistas e mostraram relação, ainda que indireta, com
questões que remetem ao acolhimento. Salienta-se que tais termos foram delimitados com base
nas entrevistas, momentos em que se percebeu o que Baptista (2002, p. 157), entende por
hospitalidade “[...] um modo privilegiado de encontro interpessoal marcado pela atitude do
acolhimento em relação ao outro [...]”. Para esta autora, é a hospitalidade enquanto alteridade
que permite o reconhecimento do outro, e não o reconhecimento que permite a hospitalidade:
"Essa arte de aprender a dialogar e a conviver com a diferença constitui o grande motor de
desenvolvimento humano, tanto no plano individual como colectivo (Baptista, 2008, p.12)".
No quadro 2 esses termos são apresentados de forma sintética e, posteriormente,
explicados ao longo do texto, no sentido de auxiliar no entendimento do espaço de convívio do
indígena, de como vivem e de como se relacionam em diferentes tempos e espaços da
hospitalidade (Camargo, 2004).

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CREPALDE, A.; GRECHI, D. C.; SOUSA, R. E. M. “[...] o índio, ele não
é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
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Quadro 2 - Termos relacionados ao espaço de convívio do indígena e seu comportamento em


relação a este espaço.
Termos Significados
Família extensa Núcleo familiar composto pelos avós, pais, filhos e agregados.
Teko Modo de ser, cultura.
Tekoha Espaço, lugar onde emana o modo de ser. Passa a ideia de interdependência com
o espaço.
Tekoporã Palavra composta de teko modo de ser e porã, bonito, lindo, bom, feliz, referindo-
se ao comportamento adequado e esperado para que haja equilíbrio.
Tekoha-Guasu
Território que compreende a interconexão de vários tekoha.

Tekokatu Jeito solícito de ser.


Tekojoja Modo de ser recíproco.
Tekomarangatu Jeito sagrado de ser.
Ñandereko Nosso jeito de ser. Em guarani há dois pronomes possessivos para a primeira
pessoa do plural: ñande e ore. O primeiro é inclusivo, e o segundo excludente.
Quando dizem Ñande incluem o interlocutor e quando dizem ore excluem o
interlocutor.
Oguata Caminhar, movimentar-se no espaço. Tem a ver com relações de parentesco e
políticas.
Aty guasu Grande assembleia kaiowá. Momento em que debatem assuntos relacionados às
questões indígenas.
Jára Todo o mundo tem seu jara, uma categoria que separa as coisas no mundo em
razão do espírito que as comanda. Os humanos têm seu jara, ñandejara, espírito
superior, Deus.
Jovasa Reza, conversa com os espíritos que comandam o mundo, solicitando proteção.
Ñandersy Rezadora.

Fonte: elaborado pelos autores (2021).

O primeiro termo escolhido para desenvolver o diálogo e permitir as análises foi o de


família extensa, termo este que se mostra relevante no cenário pesquisado, uma vez que é onde
se pode apreender sobre a hospitalidade doméstica Kaiowá. De acordo com Crepalde (2014, p.
20), família extensa é:

Um espaço de pertença autônomo e ponto de referência a partir do qual o indivíduo


Kaiowá constrói-se sócio-historicamente nos jogos de alteridade, aprendendo a ser e a
agir segundo os valores da sua cultura. As famílias extensas, são grupos macro-
familiares (filhos, genros, noras, netos) que se relacionam uns com os outros, formando
redes de relações de parentesco por meio de casamentos e alianças políticas, no entanto,
essas famílias competem entre si na luta por prestígio e por bens materiais.

Dessa forma, a hospitalidade doméstica (Camargo, 2003), diz respeito aos gestos do dia
a dia que são processados no ambiente doméstico, na constante atenção àqueles que chegam e
partem. Para os Kaiowá se imbrica com uma certa hospitalidade coletiva, uma vez que as relações
se dão em contextos mais amplos do que os tradicionais núcleos familiares dos não indígenas.
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CREPALDE, A.; GRECHI, D. C.; SOUSA, R. E. M. “[...] o índio, ele não
é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
ISSN 1807-975X

Isto significa que a construção sócio-histórica dos Kaiowá já se dá num contexto de estímulo ao
comportamento hospitaleiro, uma vez que a própria convivência na família extensa incita o
exercício de relacionar-se com o outro, fortalecendo os laços familiares e sua influência frente à
comunidade. Para os Kaiowá, a prioridade é a família e a colaboração é muito importante para
uma família extensa. Cada família tem sua história e suas peculiaridades, mas todas se
relacionam a partir do ñandereko, que encerra um conjunto de crenças, valores e regras que
determinam o ser Kaiowá. No entanto, cada família extensa busca um reko diferente na maneira
de lidar com situações adversas do cotidiano. Para Crepalde (2014), a liderança é definida sobre
a percepção de que a pessoa tem capacidade de resolver problemas práticos, tem conhecimento
tradicional e capacidade argumentativa na cena política, essencialmente, manter a unidade do
grupo.
Sobre liderança, ficou evidente a importância dos líderes das famílias extensas para a
manutenção da cultura Kaiowá, esteja a família extensa vivendo em condições precárias ou
não. Neste sentido, de acordo com o E2:

Antigamente quem recebia as pessoa era pessoa sábia, sabe agregar as pessoa...pra
agrega gente você tem que saber também. Gente é um bicho duro de agregar...e eles,
como que eles agregavam? A liderança da aldeia, como é que ele agregava as
pessoas? Porque a mulher dele que era a liderança...a mulher que agrega as pessoa, o
homem sempre tá na roça ou em outro lugar, tá trabalhando, tá pescando, alguma coisa
assim...então a mulher que agrega as pessoa, faz sentar, dá banco, comida, água...daí
a hora que o chefe chega, ele só vai conversar.

Desta forma, identifica-se que a liderança exercida pelas mulheres está relacionada à
condução do ritual do acolhimento e ao homem cabe o papel de entreter, por meio da conversa.
Importante salientar que no cenário religioso existe a figura da líder, denominada Ñandersy,
responsável pelos rituais de benzimento, cura e proteção, os quais são muito presentes na cultura
kaiowá e motivo de frequentes visitas, que desencadeiam processos de acolhimento.
As famílias extensas estão assentadas sobre o tekoha que, de acordo com um dos
interlocutores da pesquisa, diz respeito ao espaço ligado à terra, o lugar de vida dos Kaiowá. O
tekoha abarca a relação do indígena com a terra e com o sobrenatural, formando uma teia
comunicativa que ora se materializa e ora se apresenta no campo das subjetividades. O termo tem
sido comumente entendido como o lugar onde os indígenas Kaiowá vivem, no entanto, a
expressão evoca um conceito complexo (Crepalde, 2014, p. 12).

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é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
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Ao buscar compreender o significado do termo tekoha, a partir da perspectiva do Kaiowá,


identificou-se que há uma correlação com o conceito de território, uma vez que diz respeito à um
espaço que se territorializa por meio dos fluxos de relações que, por sua vez, se inscrevem no
campo do poder (Raffestin, 1993). O tekoha explicita as relações de poder, configurado, dentre
outros aspectos, na luta pela terra que cotidianamente é travada, bem como por disputas políticas
internas, na busca por prestígio e status social.
Para além do significado das relações de poder implícitas no termo tekoha, este também
se vincula ao conceito de lugar, na medida em que remete à compreensão do envolvimento do
ser humano com a terra enquanto repositório de elementos físicos e sociais, com especial atenção
à cultura e à experiência (Sousa, 2019). As relações tecidas no tekoha consistem em um vínculo
íntimo e profundo do ser humano com a terra, de maneira que esta não é entendida apenas como
um cenário que explicita o aspecto físico-espacial, mas sim como uma realidade que é
compreendida a partir das experiências vivenciadas pelos seres humanos, visto que são estes que
lhe atribuem significado (Dardel, 2015). Desta forma, o tekoha envolve para além da terra,
abarcando o espaço-cosmo, o sobrenatural: “Lugar tranquilo, onde tem um sentimento” (E4).
Baptista (2008) aponta que:

A verdadeira riqueza, ou identidade, dos lugares não está nas suas potencialidades
materiais, mas sim na forma como são apropriados, percebidos, desfrutados, amados, e,
sobretudo, partilhados. Na relação de partilha, as coisas do mundo transformam-se em
conteúdos de interacção e, dessa maneira, deixam de ser simplesmente coisas (Batista,
2008, p.6-7).

Tecendo a teia para compreender os termos advindos da língua kaiowá e de seus


significados para os Kaiowá, e tendo em vista a reflexão sobre hospitalidade, o tekoporã mostra-
se como relevante nesta discussão. Este termo apresenta relação com o significado de tekoha,
visto que se refere ao lugar de vida. Teko significa cultura, modo de ser, de agir no mundo, e
porã significa “bem, bom, bonito”, ou seja, “tekoporã é o jeito adequado de ser” (E1). O
tekoporã é um estágio avançado da construção social que se desenvolve no caminhar pelo mundo,
pelo tekoha, pelo espaço físico, na busca pelo equilíbrio e pelas condições propícias para o
desenvolvimento da vida kaiowá.
O tekoporã é a conduta e o comportamento que se espera de um Kaiowá, um
comportamento que leve em consideração as premissas e os valores da cultura dessa etnia e que

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possibilite resultados práticos que mantenham o convívio social e o fortalecimento do grupo, pois
“Um Kaiowá sem a sua cultura é só um ‘caruncho’ da terra”7. Leandro e Bastos (2018) também
trazem em seu estudo a discussão sobre o que é a comunidade no ideal projetado pelas pessoas e
como esta palavra possui um significado positivo neste ideal, implicando em sensação de
pertencimento e de acolhimento.
Para ser respeitado na família tem que ter tekoporã, entender e respeitar a cultura e o
convívio familiar. O grande objetivo dos Kaiowá é o bem-viver, a felicidade, segundo um dos
participantes da pesquisa. Por exemplo, uma mulher porã não é só bonita, mas sabe rezar,
conhece os mecanismos de funcionamento da comunidade kaiowá e busca manter o equilíbrio
que sustenta a vida. Durante as entrevistas o termo tekoporã foi evidenciado na fala dos
entrevistados, relacionando-se diretamente à hospitalidade, como pode ser observado no trecho
a seguir:

A hospitalidade é o bem-viver (tekoporã, teko jojaahihyhaihú – teko do amor) Por que


é assim, o Guarani-Kaiowá...ele veio pra admirar a obra que Deus fez, ele veio pra ser
feliz [...] Quando Deus fez a terra, o sol, a lua, as estrela, a mata [...] aí não tinha quem
admirava a obra de Deus, aí Ele mandou o Guarani-Kaiowá. Aí deram o nome pra nós
de IVUPOTÚ. Flores da terra. Pra admirar a obra de Deus...então nóis somo
admirador, viemo pra ser feliz [...] então quanto mais você doa, mais você recebe (E2).

Para o E2, “A hospitalidade é o bem-viver”, o bem-viver que perpassa pelo contato e


acolhimento do outro, pelo estabelecimento de relações equilibradas e permeadas pelo respeito à
cultura, aos costumes e ao território, coadunando aqui com o conceito de “bom hospedeiro” de
Telfer (2004), o qual incorpora questões para além do saber servir, tais como garantir a própria
felicidade do hóspede.
Para além do entrelaçamento e da troca, há uma questão transcendental, de religiosidade,
que permite compreender essa complexidade que são as relações. Não é simplesmente uma troca
fria, mas uma teia de relações delicadas em que o acolhimento do outro sustenta as relações
sociais. Então, romper com essa dinâmica, não é simplesmente romper com uma pessoa, é você
não ter o Tekoporã, ou seja, é não estar em sintonia com a sua cultura e essa falta de sintonia com
a sua própria cultura cria situações de conflito intra e inter pessoais, o que remete ao que Baptista
(2008) afirma sobre identidade, pois para a autora, a identidade de cada um é forjada pelas

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Fala de um indígena Kaiowá. Caruncho significa aquilo que não vinga.
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relações ao longo do tempo e ao vínculo territorial, sendo que: "As formas de organização
territorial influenciam os estilos de pertença comunitária, condicionando decisivamente as
trajectórias de vida e o jogo de possibilidades humanas aberto em cada interacção social" (2008,
p. 7-8).
No trecho final da fala, o entrevistado 2 menciona que “quanto mais você doa, mais você
recebe”, o que se refere a um princípio da hospitalidade, que é o ato de doar-se ao outro, seja ele
conhecido ou desconhecido, em uma relação marcada pela identidade (relação primária) ou pela
etiqueta (relação secundária), como menciona Camargo (2015). Na fala do entrevistado, o “dar”
e o “receber”, discutidos por Mauss (2013), se apresentam claramente como elementos
estruturadores da hospitalidade. O ritual do acolhimento se dá entre dois atores, aquele que doa
e aquele que recebe, sendo que o primeiro deve obedecer a um ritual “culturalmente codificado”
que irá gerar um compromisso ao segundo, o dever de retribuir e a condução adequada deste
ritual é que direciona a relação estabelecida entre os atores (Bueno, 2016). Para essa autora (2016,
p.3), “O dar e o receber abrem um caminho insuspeitado para o interior, para a essência da
hospitalidade”.
Ademais, foi possível observar que o bem acolher para os Kaiowá também implica na
retribuição, nos princípios da reciprocidade e da redistribuição (Lashley, 2004; Lashley, 2015).
O ato de retribuir pode ser observado na fala do entrevistado 2:

Então, eu vejo assim que [...] Eu vejo que o que que é o Kaiowá-Guarani, ele recebe
porque é uma coisa de abençoado né? Quando você recebe bem uma pessoa, você é
abençoado também, você se sente feliz, você tá acolhendo, futuramente você será
acolhida.

A tríplice obrigação implícita no ato da hospitalidade, se desvelou, à maneira kaiowá, nas


falas do entrevistado 2, reforçando a íntima ligação com o bem-viver, com as relações sociais e
com a natureza, mostrando-se também fortemente vinculada a religiosidade, na medida em que
o dar-receber-retribuir é também considerado uma dádiva divina, pois, aquele que recebe é
abençoado pelo ato generoso de doar-se ao outro e tal bênção é, sobremaneira, que, no futuro, os
papéis se invertem e aquele que recebeu será recebido, dando encadeamento ao ciclo da contínua
responsabilidade entre os atores envolvidos na trama da hospitalidade.

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ISSN 1807-975X

Outro termo relacionado ao fortalecimento do vínculo entre os Kaiowá refere-se ao


oguatá, significando as visitas que eram feitas de uma aldeia para a outra (o andar de uma aldeia
para a outra). Abaixo trechos das falas dos entrevistados 2 e 1, respectivamente:

[...] antigamente a cada 15, 20 km tinha uma casa de reza. E ali era uma comunidade.
Essa comunidade ia pra lá ou vinha pra cá. Antigamente até os casamento, quem
procurava os casamento pra nóis era os pai e a mãe, por isso que a gente não acerta
mais casamento, porque a gente procura né(risos). E nessa procura eles conhecia as
moça, os rapaiz, e era nas própria festa. Só que aí também a moça tinha que ser
preparada né. Saber rezar, cantar [...] (E2).

Era tipo anssim: eu era um cacique, o Adilson era outro, ela podia ser uma ñandersy,
vamos supor aqui nós somos seis comunidades, eu tinha aqui comigo umas trinta
pessoas, mas chegava até cem, aí tinha aquele grande território, de oguatá, e
geralmente se dava certo nas colheita, esse era o momento propício de se fazer os
passeio e de se preparar a terra para o plantio (E1).

Para a entrevistada 4, o termo oguatá está ligado ao lazer, ou seja, ao ato de visitar/rever
os parentes para conversar, remetendo a uma atividade de entretenimento (“bater perna”).
Segundo a entrevistada, os visitantes levam presentes, geralmente remédios tradicionais, e,
dependendo da situação, permanecem durante todo o dia na casa da pessoa.
Observou-se que os deslocamentos para visitar os parentes são comuns entre os Kaiowá,
configurando-se como um momento de fortalecimento dos vínculos sociais e de estreitamento
dos laços familiares. A alimentação aparece como um elemento importante no ato do
acolhimento:

Porque é assim, por exemplo, o Adilson vai vir aqui em casa, só que o Adilson não vai
vir sozinho, ele vai trazer a esposa dele, a menina dela, toda a família dele, de repente
a sogra...Aí a gente sabe, combina, tal dia vou na tua casa, aí o anfitrião, que no caso
sou eu, eu tenho que ter bastante mandioca, batata, milho, quando não tem em casa...
tem que ter galinha, porco […] (E1).

A fala acima coincide com a de Costa (2015, p. 13), quando o autor menciona que “[...]
a hospitalidade apresenta as seguintes características fundamentais: convivência, acolhida,
respeito, tolerância, e geralmente culmina com a comensalidade”.
A questão do ritual e do sagrado também são elementos relevantes para pensar o
acolhimento kaiowá, pois, para receber quem chega é realizado um ritual de reza:

Você chega aí é outro grupo que recebe e põe pra dentro da casa. Aí você já tá
abençoado e pode interagir. Ivirajá é um assessor, uma assessoria que o rezador tem

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para ajudar a receber as pessoa (normalmente crianças, mais novo que cuida) e o
rezador comunica com Deus né (Tupãguasu) (E2).

Neste contexto, a casa de reza se apresenta como um local importante no ato do


acolhimento, pois neste espaço, por meio dos rituais que ali são realizados, o sagrado é
evidenciado, explicitando a complexa e intrincada relação com a hospitalidade kaiowá.

Figura 3 - Casa de reza.

Fonte: Machado, 2021.

O entrevistado 1 também menciona o mesmo ritual de recebimento:

Que nem, vocês chegaram, aí lá na entrada tinha que ter o Ivirajá, vai receber, aí lá
que se encontra, quando eles já estão a uns quinhentos metros ele já começa canta, já
vem cantando, aí aqui também vai receber, falo, é o Roaity, vai se encontrar. Aí lá, vão
fazer o Jerokã e o ivyraií tenondê, em redor o ivyraí. Aí se receberam, aí esse é o
cumprimento, aí depois dalí vai pra casa, pra casa de reza, se vem alguém diferente, se
apresenta...aí beleza. Que é aquele lá. Que é a diferença do branco, que vai receber o
outro com beijo [...].

O trecho acima é sustentado por Funari e Frederico (2017) quando afirmam que a reflexão
sobre dádiva e hospitalidade demandam relacionar com o aspecto espiritual. Pois de repente o
que era hospitaleiro, pode passar à hostilidade. O que também observam Brusadin e Panosso
Netto (2016, p. 527): “La palabra acogimiento acarrea consigo señales de apertura y al mismo
tiempo de restricción con el otro” e, ainda, Santos e Perazzolo (2012, p.05): “(...) se o
acolhimento ocorre, acolhedor e acolhido se alternam todo tempo”.

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– MS. Revista Hospitalidade. São Paulo, volume 19, p. 519-549, 2022.
ISSN 1807-975X

Ademais, os vínculos entre os membros da etnia também se fortalecem por meio da


realização das aty, reuniões que se configuram como algo próprio da cultura kaiowá e que no
passado aconteciam com mais frequência, como pode ser observado na fala de um dos
entrevistados:

A aty guasu acontece, é um lugar dum líder grande, né? Só que como as veis, agora,
como não tem mais condição de fazer aquelas grande casa de reza, de sapé, aí faz
agora em recinto público, né? Tipo escola ou faz essas tenda, né? Para poder abrigar
os convidado, né? Que não tem mais sapé pra fazer é...assim...aquelas casa de reza
grandona, né? (E1).

A aty guasu, se constitui como uma grande assembleia e como o mais importante fórum
de debate da etnia Kaiowá e dos Guarani. Nesses encontros reúnem-se lideranças e membros de
famílias extensas de várias localidades do estado, com o objetivo de discutir os problemas
comuns a todas as famílias extensas. O número de dias vai variar conforme disponibilidade de
recursos, bem como, varia, também, o local de realização: “Depende o lugar. Onde precisar
mais. Hoje a gente discute a política. Se vai ter um despejo numa área a gente vai pra lá. Se tem
um problema, dificuldade, a gente vai pra lá” (E2).
O tekoporã, ou seja, o comportamento acolhedor no modo kaiowá, é gestado no contexto
das aty guasu, porque nestas reuniões é possível trocar informações sobre o cotidiano dos
indivíduos e de suas famílias. Nestes eventos, considerados a maior instituição política dos
Kaiowá, os laços culturais e identitários se reforçam, um exemplo é que nestas reuniões o idioma
usado é o guarani. Neste contexto, o entrevistado 2 fez o seguinte comentário:

Eu vejo que ela tem um ponto assim de segurança de cultura. Porque é onde a turma
reza muito, canta muito. As crianças também participa da reza, das fala. Eu vejo que a
aty guasu ainda é uma grande escola pra nóis Guarani-Kaiowá. Mesmo com as falas
que tem, as atividade durante o dia, mas a noite é indígena, a noite é indígena. De dia
é uma mistureba né. Discussão de todo lado. Mas a noite, vira todo mundo índio (E2).

O trecho acima reforça a discussão de que a língua é “o canário da mina” (Ell & Pavelka,
2020) das culturas tradicionais, o elo com a cultura ancestral e aquilo que deve ser cuidado e
preservado. Os resultados, a partir do registro de termos específicos, permitiram identificar um
conjunto de expressões que remetem ao esquema teórico da hospitalidade.
No contato estabelecido com os entrevistados observou-se que os termos ligados
diretamente à hospitalidade não apareceram espontaneamente nas falas, de maneira que apenas

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é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
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quando indagados quanto a esta questão específica é que foram feitas as menções. Ademais,
identificou-se que não há uma única palavra que represente o conceito de hospitalidade, tal qual
existe para os não indígenas. Desta forma, a pesquisa de campo possibilitou a construção do
quadro 3, com termos relacionados ao conceito de hospitalidade Kaiowá.

Quadro 3 – Glossário da hospitalidade Kaiowá.


Termo em Guarani Significado
Mboguahẽ porã Hospitalidade/acolhimento, fazer a pessoa se sentir bem.
Kuña rory Mulher hospitaleira, que recebe todo mundo com alegria.
Karai rory Homem hospitaleiro.
Eguereko porã Atender bem, receber adequadamente.
Iviraidja Aspirante a líder religioso e auxiliar do ñanderu, líder religioso.
Che aha amoguahe Eu vou acolher aqui.
ape
Mbojoja Partilhar.
Mbojajoha Partilhador.
Nde hae che Você é um pedaço meu.
peheguemi
Fonte: elaborado pelos autores (2021).

As falas, a interpretação destas e as explicações dos termos, os quais foram sistematizados


nos quadros 2 e 3, contextualizados por meio das entrevistas, permitiram compreender a
“filosofia” do acolhimento para os kaiowá. A hospitalidade, a partir do prisma deste grupo, foi
apresentada sob outras perspectivas e, nesse contexto, a leitura de Mauss (2013) permite
aprofundar a reflexão sobre o conceito, pois traz elementos sobre relações de hospitalidade
alicerçado em outras concepções, o que, aliás, trouxe motivação para a averiguação feita neste
trabalho.
Essas reflexões remetem à complexidade do conceito de hospitalidade, mas também das
relações sociais, pois, há diferenças entre a hospitalidade como dádiva, sem obrigações,
espontânea, como meio de construir vínculos, daquela relacionada ao produto, à ostentação, ao
exercício do poder e à obtenção do prestígio.
Estudar a hospitalidade em culturas indígenas é desafiador não só pelo contato com um
universo distante dos pesquisadores não indígenas, mas porque o próprio conceito de
hospitalidade é repleto de subjetividade e segundo Ferran (2019) seria “inalcansável e não
programável”. O estudo sobre a hospitalidade kaiowá alerta para pensar o fenômeno sempre no
plural, em hospitalidades indígenas, pois embora seja possível pensar em elementos estruturantes

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do esquema da hospitalidade, a experiência com os kaiowá mostra que cada cultura tem sua
maneira de realizar o ritual da hospitalidade e de falar sobre sua hospitalidade. É buscando a
diferença entre as diversas maneiras de hospitalidade que se pode acrescentar algo novo sobre o
assunto.
O estudo com os kaiowá possibilitou entender melhor a posição de Ferran (2019) e de
outros teóricos que chamam a atenção para o caráter sempre inacabado das respostas para os
problemas da vida, e a hospitalidade kaiowá é uma busca para respostas em um mundo em devir,
portanto, respostas sempre parciais, mas elaboradas coletivamente, nos jogos de alteridade.

5 Considerações Finais

Em vários campos do saber a expressão hospitalidade passou a ser uma categoria


analítica que encerra as relações de alteridade. Nesse sentido, para além da ideia de amabilidade
que permeia o imaginário coletivo brasileiro sobre a hospitalidade, viu-se que muitos outros
aspectos compõem a construção e a compreensão deste conceito. Um esquema que pressupõe o
encontro entre diferentes, marcado por cordialidades, conflitos e por estratégias que mobilizam
vários tipos de conhecimentos.
Neste sentido, compreender como os Kaiowá pensam e expressam diferentes formas de
acolhimento, implicou em identificar termos que remetessem ao conceito de hospitalidade e
suas interfaces, bem como, refletir sobre as relações sociais deste grupo étnico, sobre a
linguagem, as regras que permeiam os encontros, as possibilidades e limites de estabelecer
laços, trocas e sobre os interesses que perpassam estas trocas. Tais elementos poderão servir de
orientação para o aprofundamento de pesquisas que investiguem o acolher nos diferentes grupos
étnicos.
A filosofia da hospitalidade à moda kaiowá configura aspectos que compreendem o
sagrado e a agregação de pessoas, além do que, tem função social clara. Ou seja, quem é
hospitaleiro terá mais sucesso porque conseguirá agregar pessoas, quem não é hospitaleiro “vai
socar milho”, "cortar lenha".
Outro aspecto peculiar quanto à compreensão sobre a hospitalidade kaiowá refere-se à
visão de que a hospitalidade mira o coletivo e é algo estruturante das relações sociais, tendo

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relação com o amor e a alegria, repercutindo no comportamento do kaiowá que desenvolveu o


tekoporã. Essa alegria é resultado do sacrifício, do trabalho de um conjunto de pessoas que
buscam a alegria como objetivo da vida. O grande trabalho é manter o “estar junto”, que para o
Kaiowá é fundamental.
Manter a hospitalidade dá trabalho, tem relação com o tempo, com a natureza e com as
estações do ano, ou seja, são considerados diversos elementos que constituem o território.
Contudo, atualmente, o tempo da natureza se confronta com o conceito atual da hora-relógio e
de trabalho-renda, forçando mudanças nos hábitos de visitar e ser visitado, acolher e ser
acolhido, incorporando, inclusive, costumes alimentares e de entretenimento dos não indígenas.
O acolher para o grupo étnico pesquisado mostrou-se muito vinculado ao território e sua
identidade (tekoha, tekoporã, ñadereko), expressa por meio da lembrança de costumes antigos,
tais como, caminhar longas distâncias com as visitas (oguatá), e, outros, ainda mantidos, como o
uso de plantas para consumo próprio e para presentear as visitas.
Demais aspectos imbricados no conceito da hospitalidade kaiowá remetem à importância
do sagrado, que se manifesta nos rituais de acolhida e despedida, aos diferentes papéis assumidos
por homens, mulheres e crianças no ritual de acolhimento e, ainda, a tradição e a cultura como
elo na sustentação do comportamento acolhedor do “bom kaiowá”.
Pesquisar a hospitalidade sob a perspectiva kaiowá constituiu-se em uma oportunidade
de encontro com este outro que é próximo e, ao mesmo tempo, distante. Permitiu, ainda,
vislumbrar outras frentes de pesquisa que são relevantes nos âmbitos social e científico, tais
como: o estudo sobre as políticas públicas de turismo e hospitalidade a partir das comunidades
indígenas de Mato Grosso do Sul, bem como, adentrar em pesquisas que permitam analisar o
conceito de acolhimento em outros grupos étnicos do estado e, por que não, de outros lugares do
país e do mundo, de forma que se possa cada vez mais conhecer outros conceitos de “viver bem”,
conforme o tekoporã de cada povo e lugar. Ainda, pensando neste próprio grupo étnico, poder-
se-ia avançar para um número maior de entrevistados, com maior variação de gênero, idade,
escolaridade e posicionamento geográfico e social no território investigado.

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Artigo recebido em: 20/10/2022.


Avaliado em: 07/12/2022.
Aprovado em: 16/01/2022.

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