Hospitalidade na Cultura Kaiowá: Uma Análise
Hospitalidade na Cultura Kaiowá: Uma Análise
“[...] o índio, ele não é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia
Kaiowá – MS
“[...] indigenous people, they are not isolated, they are collective”: hospitality from the
Kaiowá point of view
Resumo: Esta pesquisa teve como objetivo refletir sobre o conceito de hospitalidade com base na compreensão que
representantes da etnia Kaiowá têm sobre o que significa hospitalidade no contexto de sua cultura. O estudo em tela
buscou entender como pensam e expressam diferentes formas de acolhimento ante a identificação de termos que
remetem ao conceito de hospitalidade e as suas interfaces. Com relação à metodologia, caracterizou-se como
descritiva e exploratória. Os dados foram coletados por meio de pesquisa de inspiração etnográfica, utilizando-se a
entrevista como procedimento para a coleta de dados. A análise dos resultados pautou-se em discussões teóricas
sobre o assunto e nas explicações dos participantes indígenas da pesquisa. Com base no que foi analisado, pode-se
dizer que as interpretações dadas sobre a noção de hospitalidade pelos Kaiowá ajudam a compreender as reflexões
teóricas sobre o assunto e acrescentam elementos próprios da cultura kaiowá, como um fenômeno que ocorre em
um espaço-tempo único, remetendo à pluralidade do fenômeno.
Palavras-chave: Hospitalidade, Acolhimento, Relações interpessoais, Indígena, Etnia Kaiowá
Abstract: This study aimed at reflecting on the concept of hospitality based on the understanding that representatives
of the Kaiowá ethnic group have about what hospitality means in the context of their culture. In this study one sought
to understand how they think and express different forms of welcoming face to identification of terms referring to
the concept of hospitality and its interfaces. Regarding the methodology, it was characterized as descriptive and
exploratory. Data were collected through research inspired by ethnography, by means of interviews. The analysis of
the results was based on theoretical discussions on the subject and on the explanations of the indigenous participants
in the research. Based on what was analyzed, it can be said that the interpretations given about the notion of
hospitality by the Kaiowá help to understand the theoretical reflections on the subject and add elements of the
Kaiowá culture, as a phenomenon that occurs in a unique space-time, referring to the plurality of the phenomenon.
Keywords: Hospitality, Reception, Interpersonal relationships, Indigenous, Kaiowá ethnicity
Resumen: Esta investigación tuvo como objetivo reflexionar sobre el concepto de hospitalidad a partir de la
comprensión que tienen los representantes de la etnia Kaiowá sobre lo que significa la hospitalidad en el contexto
de su cultura. El estudio en pantalla buscó comprender cómo piensan y expresan diferentes formas de acoger antes
de la identificación de términos que se refieren al concepto de hospitalidad y sus interfaces. En cuanto a la
metodología, se caracterizó por ser descriptiva y exploratoria. Los datos fueron recolectados a través de una
investigación inspirada en la etnografía, utilizando la entrevista como procedimiento de recolección de datos. El
análisis de los resultados se basó en discusiones teóricas sobre el tema y en las explicaciones de los indígenas
participantes en la investigación. Con base en lo analizado, se puede afirmar que las interpretaciones dadas sobre la
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Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. E-mail: [email protected]
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noción de hospitalidad por parte de los Kaiowá ayudan a comprender las reflexiones teóricas sobre el tema y agregan
elementos de la cultura Kaiowá, como fenómeno que ocurre en un espacio-tiempo único, refiriéndose a la pluralidad
del fenómeno.
Palabras llave: Hospitalidad, Recepción, Relaciones interpersonales, Indígena; etnia kaiowá
1 Introdução
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Não há consenso entre os kaiowá sobre a grafia de certas palavras da língua falada por eles. Dessa maneira, neste
trabalho, seguimos as orientações sobre a grafia das palavras da língua kaiowá encontradas no dicionário Ñe’ẽ Ryru
Avañe’ẽ (Assis, 2000).
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De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – (2010), Mato Grosso do Sul é o segundo
do país com maior população indígena e o município de Dourados destaca-se neste cenário, pois, a aproximadamente
cinco quilômetros da região central da cidade residem, na Reserva Indígena Franscisco Horta Barbosa, 12 mil
indígenas (IBGE, 2010), das etnias Guarani, Kaiowá e Terena.
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Para Camargo (2003), a hospitalidade pode ser compreendida por dois eixos centrais, o
cultural, que diz respeito às ações que a noção de hospitalidade abrange, e o eixo social que está
relacionado às formas de interação pessoal e às instâncias espaciais em que essas se dão. Assim
sendo, enquanto prática cultural, a hospitalidade abarca o recebimento de pessoas, a hospedagem,
a alimentação e o entretenimento, de forma que a vertente social se pauta nas categorias:
doméstica, pública, comercial e virtual. Em trabalho mais recente (2015) esse autor aponta que a
hospitalidade pode ser tratada, também, sob a dimensão do valor, questão essa que remete à
religião e à ideia de caridade.
Aprofundando a discussão da hospitalidade como valor, pode-se pensar nos textos que
abordam a noção de alteridade (Boff, 2005). Nesse sentido, a hospitalidade tem sido objeto de
estudo para se discutir a relação com outro. Levinas (2005) e Derrida (2003) dão grande
contribuição para compreender a complexidade que envolve a relação com o outro. Esses autores
refletem sobre alteridade não pelo que há de comum no encontro, nem pela amabilidade que pode
existir no processo, mas pela diferença, pelo conflito, pelas estratégias discursivas e pela
impossibilidade de comunicação (Miranda, 2016). Mas esses elementos não devem ser
entendidos como obstáculos ao processo, mas como constituintes dele. Ao serem considerados,
a hospitalidade não é vista como apenas um ato de acolhimento, mas passa a ser compreendida
como uma situação de construção de sentido que emerge dos jogos de alteridade. Nesta linha de
raciocínio, os sentidos estão sempre em construção e emanam das diferenças, ambiguidades e
ambivalências.
Além das reflexões teóricas, estudos sobre a hospitalidade indígena levam a considerar
elementos do sistema da hospitalidade (dar, receber e retribuir), como é o caso do trabalho
realizado por Lac (2010) sobre os Kaigang, moradores da Terra Indígena de Iraí, localizada ao
norte do estado do Rio Grande do Sul. Este estudo tratou a hospitalidade pelo prisma da
convivência com as diferenças, chamando a atenção para a valorização da comensalidade, como
um meio que conduz à sociabilidade, destacando seu papel fundamental na hospitalidade.
Os momentos dedicados à alimentação aproximam os “mundos” de anfitriões e hóspedes,
criando uma atmosfera mais íntima. Por isso, entende-se como essencial, para um mundo mais
acolhedor, estudar diferentes culturas sob variados prismas. A exemplo de Lashley, em entrevista
a Brusadin (2016), quando o estudioso deixa claro que abordar a hospitalidade a partir de
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diferentes perspectivas culturais é fundamental para uma formação mais crítica e reflexiva. Bem
como, o estudo da hospitalidade no âmbito privado pode ajudar a pensar o aspecto comercial.
Ou, ainda, para Ell e Pavelka (2020) que publicaram um código de conduta para guiar Spas de
inspiração indígena, argumentando que discutir sobre a erosão da cultura indígena é importante
por muitos aspectos, inclusive, por conta do esquecimento da língua, pois segundo mencionam,
a língua seria o principal indicador de que culturas estão desaparecendo, uma vez que milhares
delas deixam de ser ensinadas por ano ao redor do mundo. O mesmo ocorre com outras vertentes
da cultura, como, por exemplo, os rituais de acolhimento, as visitas, o lazer destes povos
tradicionais, que se transformam conforme acontecem as mudanças do entorno e amplia-se a
escassez dos elementos que compõem a identidade de cada um deles.
A hospitalidade em determinadas comunidades indígenas pauta-se nas expectativas em
relação às reações e atitudes dos hóspedes, quando se trata do não-indígena, frente ao que lhes é
oferecido, ou seja, como aponta Lac (2006, p. 10), “[...] que ele não recuse ou se queixe do que
lhe é ofertado”. Esta pesquisadora considerou, então, que os Kaigang que vivem na Terra
Indígena de Iraí buscam, nesse cenário, uma oportunidade de conquistar o respeito. Souza (2009),
ao vivenciar experiências nas aldeias Pataxó de Barra Velha e Pé do Monte, ambas localizadas
na Bahia, apresenta relatos da hospitalidade em que aponta que não lhe foi requerido nada em
troca pelos serviços de alimentação e hospedagem a ela ofertados. Diante da situação a
pesquisadora compreendeu que a única troca possível era o compromisso do respeito, o respeito
pela cultura e pelas diferentes formas de compreender a vida.
Muito embora este trabalho sobre hospitalidade indígena traga informações importantes
sobre como os povos indígenas compreendem o processo de hospitalidade, não se pode,
ingenuamente, ater-se apenas à gratuidade e ao acolhimento dos processos destacados. Uma vez
que, mesmo não oferecendo hospitalidade por dinheiro, a mesma não é altruísta de todo, mas
almeja reciprocidade, ou até mesmo, uma certa restrição, ou seja, manter o inimigo por perto,
monitorá-lo (Lashley, 2015).
Nesse sentido, as reflexões de pensadores como Viveiros de Castro (2002, 2018), de
Oliveira, (1999), Lévi-Strauss (1989), Meliá, Grümberg e Gruümberg (1976), dentre outros,
podem contribuir para se refletir sobre o pensamento indígena e, consequentemente, sobre a
hospitalidade indígena. Todavia, não se pode prescindir dos escritos de Mauss (2013) sobre os
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3 Metodologia
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Las civilizaciones se delimitan por la capacidad de adoptar costumbres ajenas y de expandirse, pero también por
la resistencia a la adopción de las costumbres de las sociedades que las incluyen
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de comportamento em áreas ou atividades que não foram previamente estudadas (Veal, 2011). A
pesquisa contou com o suporte de moradores da Reserva Indígena Francisco Horta Barbosa e
com pesquisadores familiarizados com o objeto de estudo, dada a necessidade de inserção prévia
na comunidade estudada, possibilitando e facilitando o processo do contato com os indígenas e,
por conseguinte, da coleta de dados.
A aproximação com os indígenas se deu por intermédio de um dos membros da equipe
da pesquisa que tem realizado estudos há 15 anos sobre as culturas guarani e kaiowá no Mato
Grosso do Sul, com foco no processo de construção de sentido no interstício de culturas. Dessa
maneira, foram levados em consideração conhecimentos sobre as referidas culturas
desenvolvidos em trabalhos anteriores (Crepalde, 2014).Os participantes indígenas da pesquisa
foram escolhidos com base no conceito de “representante cultural” pensado por Labov (1976) e
na indicação de estudiosos indígenas, os quais sugeriram pessoas que, segundo eles, estariam
autorizados a falar sobre o assunto.
Para facilitar a organização dos trabalhos propôs-se diferentes etapas, sendo que a
primeira se constituiu de reuniões periódicas entre os pesquisadores, com vistas a discutir textos
que abordassem a questão indígena, com enfoque para a etnia Kaiowá, em Mato Grosso do Sul,
bem como para promover a familiarização com termos na língua guarani, visto que facilitaria a
aproximação com os indígenas. Ao todo, nesta primeira etapa, foram realizadas seis reuniões,
sendo que em duas delas houve a participação de uma representante da etnia Kaiowá, que à época
era bolsista de Iniciação Científica, vinculada ao projeto dos pesquisadores. Estas reuniões
ocorrem por um período de seis meses.
A segunda etapa consistiu na revisão bibliográfica sobre estudos que abordam a
hospitalidade, com o objetivo de embasar teoricamente a pesquisa. Como mencionado
anteriormente, desde a primeira etapa, o material bibliográfico sobre a etnia Kaiowá vinha sendo
levantado e estudado.
A terceira etapa caracterizou-se pela pesquisa com inspiração etnográfica com
representantes da etnia Kaiowá. Importante registrar que a inspiração etnográfica adotada nesta
pesquisa, configura-se, segundo os pesquisadores, como uma etnografia “à moda indígena”, que
de acordo com Crepalde (2014), inclina-se para o respeito ao tempo, ao espaço e à sequência
lógica das ideias/informações que forem sendo apresentadas pelos indígenas. Ainda, a técnica de
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Quadro 1 - Entrevistados.
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humano ao meio ambiente, bem como, compreender símbolos culturais e a simbologia de plantas
e animais que vivem naquele espaço.
Por fim, na quarta etapa, fez-se a apresentação dos resultados, e estes foram organizados
em dois tópicos, sendo que no primeiro foi feita a descrição de características do grupo estudado,
bem como da localidade e no segundo tópico foram realizadas as análises das entrevistas.
Seguindo as premissas de Bardin (1979), a quarta etapa configurou-se em três momentos
distintos e complementares: leituras iniciais para organizar e sistematizar as informações
coletadas, em função das perguntas e do objetivo que orientou a pesquisa (pré análise);
agrupamento de elementos comuns encontrados nas falas dos entrevistados (exploração do
material); interpretação dos dados, a partir da tentativa de compreensão do contexto
sociocultural ao qual os entrevistados estão inseridos, bem como do corpus teórico consolidado
no campo da hospitalidade (tratamento dos resultados obtidos e interpretação).
Ao longo da discussão dos resultados, as vozes dos entrevistados poderão ser
ouvidas/lidas, por meio da transcrição de trechos de suas falas, pois entende-se que os indígenas
que colaboraram com essa pesquisa são os protagonistas e, portanto, suas vozes devem ser
reproduzidas e ecoadas.
Diante da complexidade que envolve o trabalhar junto às comunidades indígenas, bem
como da profundidade do conceito e, por conseguinte, das implicações da hospitalidade, os
procedimentos e o percurso metodológico traçado neste estudo, buscaram expressar um fazer
científico em que a rigidez da ciência não se impusesse aos elementos socioculturais que marcam
a identidade dos entrevistados, mas que a eles se somassem, com vistas a garantir o rigor
científico no desenvolvimento do estudo. Abaixo apresenta-se um fluxograma contendo o
percurso metodológico realizado para o desenvolvimento da pesquisa.
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4 Resultados e discussão
Kaiowá é a denominação de um grupo étnico que vive no sul de Mato Grosso do Sul,
falantes de uma variação da língua guarani, que denominam avañe’ẽ, expressão composta de
ava (homem) e ñe’ẽ (língua), significando “a língua do homem” (Assis, 2000, p. 12). Homem,
no entanto, não se refere a todos os homens, mas àqueles que compartilham a sabedoria e a
língua dos ava. Nesse sentido, ava é uma categoria que estabelece um espaço de pertença e,
consequentemente, de identidade em relação a outros. Atualmente, os Kaiowá vivem na Reserva
Indígena de Dourados, dividindo-a com mais dois grupos étnicos: os Guarani e os Terena.
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do "ser" Kaiowá que vive na memória dos mais velhos e da dificuldade de, nos dias de hoje,
colocar em prática esse modo de ser, o qual está relacionado ao convívio e em tudo o que ele
implica. Sendo assim, no próximo tópico apresenta-se a hospitalidade sob o viés Kaiowá, em
suas particularidades e variações.
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carregados da maneira kaiowá de falar, destacando o modo de ser kaiowá como uma
hospitalidade sagrada, uma hospitalidade que envolve todos os seres que compõem o mundo.
Essa ideia de hospitalidade e conexão entre as coisas mostra a complexidade do ato de fazer
tramas, ou seja, de tecer as relações sociais.
Ficou claro o esforço e trabalho de se fazer e manter alianças, um trabalho de saber
receber e ser recebido, um trabalho que envolve regras e cuidados. Gotman (2019) ressalta a
ambiguidade do conceito e a facilidade que se pode ir da hospitalidade para a hostilidade.
Entrelaçar fios corresponde aos jogos da alteridade, em saber reconhecer as diferenças. As
conversas mostraram que, para os Kaiowá, é necessário desenvolver essa habilidade de
"entretecer" gente.
Neste sentido, diante da complexidade que se desvelou nas falas dos entrevistados,
mostrou-se premente estruturar a discussão dos resultados de maneira didática, de modo a tornar
compreensíveis as referências ligadas à hospitalidade que, de forma sutil, apareceram durante os
diálogos estabelecidos junto aos entrevistados. Assim sendo, utilizou-se como estratégia a
seleção de termos que apareceram nas entrevistas e mostraram relação, ainda que indireta, com
questões que remetem ao acolhimento. Salienta-se que tais termos foram delimitados com base
nas entrevistas, momentos em que se percebeu o que Baptista (2002, p. 157), entende por
hospitalidade “[...] um modo privilegiado de encontro interpessoal marcado pela atitude do
acolhimento em relação ao outro [...]”. Para esta autora, é a hospitalidade enquanto alteridade
que permite o reconhecimento do outro, e não o reconhecimento que permite a hospitalidade:
"Essa arte de aprender a dialogar e a conviver com a diferença constitui o grande motor de
desenvolvimento humano, tanto no plano individual como colectivo (Baptista, 2008, p.12)".
No quadro 2 esses termos são apresentados de forma sintética e, posteriormente,
explicados ao longo do texto, no sentido de auxiliar no entendimento do espaço de convívio do
indígena, de como vivem e de como se relacionam em diferentes tempos e espaços da
hospitalidade (Camargo, 2004).
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Dessa forma, a hospitalidade doméstica (Camargo, 2003), diz respeito aos gestos do dia
a dia que são processados no ambiente doméstico, na constante atenção àqueles que chegam e
partem. Para os Kaiowá se imbrica com uma certa hospitalidade coletiva, uma vez que as relações
se dão em contextos mais amplos do que os tradicionais núcleos familiares dos não indígenas.
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Isto significa que a construção sócio-histórica dos Kaiowá já se dá num contexto de estímulo ao
comportamento hospitaleiro, uma vez que a própria convivência na família extensa incita o
exercício de relacionar-se com o outro, fortalecendo os laços familiares e sua influência frente à
comunidade. Para os Kaiowá, a prioridade é a família e a colaboração é muito importante para
uma família extensa. Cada família tem sua história e suas peculiaridades, mas todas se
relacionam a partir do ñandereko, que encerra um conjunto de crenças, valores e regras que
determinam o ser Kaiowá. No entanto, cada família extensa busca um reko diferente na maneira
de lidar com situações adversas do cotidiano. Para Crepalde (2014), a liderança é definida sobre
a percepção de que a pessoa tem capacidade de resolver problemas práticos, tem conhecimento
tradicional e capacidade argumentativa na cena política, essencialmente, manter a unidade do
grupo.
Sobre liderança, ficou evidente a importância dos líderes das famílias extensas para a
manutenção da cultura Kaiowá, esteja a família extensa vivendo em condições precárias ou
não. Neste sentido, de acordo com o E2:
Antigamente quem recebia as pessoa era pessoa sábia, sabe agregar as pessoa...pra
agrega gente você tem que saber também. Gente é um bicho duro de agregar...e eles,
como que eles agregavam? A liderança da aldeia, como é que ele agregava as
pessoas? Porque a mulher dele que era a liderança...a mulher que agrega as pessoa, o
homem sempre tá na roça ou em outro lugar, tá trabalhando, tá pescando, alguma coisa
assim...então a mulher que agrega as pessoa, faz sentar, dá banco, comida, água...daí
a hora que o chefe chega, ele só vai conversar.
Desta forma, identifica-se que a liderança exercida pelas mulheres está relacionada à
condução do ritual do acolhimento e ao homem cabe o papel de entreter, por meio da conversa.
Importante salientar que no cenário religioso existe a figura da líder, denominada Ñandersy,
responsável pelos rituais de benzimento, cura e proteção, os quais são muito presentes na cultura
kaiowá e motivo de frequentes visitas, que desencadeiam processos de acolhimento.
As famílias extensas estão assentadas sobre o tekoha que, de acordo com um dos
interlocutores da pesquisa, diz respeito ao espaço ligado à terra, o lugar de vida dos Kaiowá. O
tekoha abarca a relação do indígena com a terra e com o sobrenatural, formando uma teia
comunicativa que ora se materializa e ora se apresenta no campo das subjetividades. O termo tem
sido comumente entendido como o lugar onde os indígenas Kaiowá vivem, no entanto, a
expressão evoca um conceito complexo (Crepalde, 2014, p. 12).
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A verdadeira riqueza, ou identidade, dos lugares não está nas suas potencialidades
materiais, mas sim na forma como são apropriados, percebidos, desfrutados, amados, e,
sobretudo, partilhados. Na relação de partilha, as coisas do mundo transformam-se em
conteúdos de interacção e, dessa maneira, deixam de ser simplesmente coisas (Batista,
2008, p.6-7).
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possibilite resultados práticos que mantenham o convívio social e o fortalecimento do grupo, pois
“Um Kaiowá sem a sua cultura é só um ‘caruncho’ da terra”7. Leandro e Bastos (2018) também
trazem em seu estudo a discussão sobre o que é a comunidade no ideal projetado pelas pessoas e
como esta palavra possui um significado positivo neste ideal, implicando em sensação de
pertencimento e de acolhimento.
Para ser respeitado na família tem que ter tekoporã, entender e respeitar a cultura e o
convívio familiar. O grande objetivo dos Kaiowá é o bem-viver, a felicidade, segundo um dos
participantes da pesquisa. Por exemplo, uma mulher porã não é só bonita, mas sabe rezar,
conhece os mecanismos de funcionamento da comunidade kaiowá e busca manter o equilíbrio
que sustenta a vida. Durante as entrevistas o termo tekoporã foi evidenciado na fala dos
entrevistados, relacionando-se diretamente à hospitalidade, como pode ser observado no trecho
a seguir:
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Fala de um indígena Kaiowá. Caruncho significa aquilo que não vinga.
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relações ao longo do tempo e ao vínculo territorial, sendo que: "As formas de organização
territorial influenciam os estilos de pertença comunitária, condicionando decisivamente as
trajectórias de vida e o jogo de possibilidades humanas aberto em cada interacção social" (2008,
p. 7-8).
No trecho final da fala, o entrevistado 2 menciona que “quanto mais você doa, mais você
recebe”, o que se refere a um princípio da hospitalidade, que é o ato de doar-se ao outro, seja ele
conhecido ou desconhecido, em uma relação marcada pela identidade (relação primária) ou pela
etiqueta (relação secundária), como menciona Camargo (2015). Na fala do entrevistado, o “dar”
e o “receber”, discutidos por Mauss (2013), se apresentam claramente como elementos
estruturadores da hospitalidade. O ritual do acolhimento se dá entre dois atores, aquele que doa
e aquele que recebe, sendo que o primeiro deve obedecer a um ritual “culturalmente codificado”
que irá gerar um compromisso ao segundo, o dever de retribuir e a condução adequada deste
ritual é que direciona a relação estabelecida entre os atores (Bueno, 2016). Para essa autora (2016,
p.3), “O dar e o receber abrem um caminho insuspeitado para o interior, para a essência da
hospitalidade”.
Ademais, foi possível observar que o bem acolher para os Kaiowá também implica na
retribuição, nos princípios da reciprocidade e da redistribuição (Lashley, 2004; Lashley, 2015).
O ato de retribuir pode ser observado na fala do entrevistado 2:
Então, eu vejo assim que [...] Eu vejo que o que que é o Kaiowá-Guarani, ele recebe
porque é uma coisa de abençoado né? Quando você recebe bem uma pessoa, você é
abençoado também, você se sente feliz, você tá acolhendo, futuramente você será
acolhida.
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é isolado, ele é coletivo”: a hospitalidade na perspectiva da etnia Kaiowá
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[...] antigamente a cada 15, 20 km tinha uma casa de reza. E ali era uma comunidade.
Essa comunidade ia pra lá ou vinha pra cá. Antigamente até os casamento, quem
procurava os casamento pra nóis era os pai e a mãe, por isso que a gente não acerta
mais casamento, porque a gente procura né(risos). E nessa procura eles conhecia as
moça, os rapaiz, e era nas própria festa. Só que aí também a moça tinha que ser
preparada né. Saber rezar, cantar [...] (E2).
Era tipo anssim: eu era um cacique, o Adilson era outro, ela podia ser uma ñandersy,
vamos supor aqui nós somos seis comunidades, eu tinha aqui comigo umas trinta
pessoas, mas chegava até cem, aí tinha aquele grande território, de oguatá, e
geralmente se dava certo nas colheita, esse era o momento propício de se fazer os
passeio e de se preparar a terra para o plantio (E1).
Para a entrevistada 4, o termo oguatá está ligado ao lazer, ou seja, ao ato de visitar/rever
os parentes para conversar, remetendo a uma atividade de entretenimento (“bater perna”).
Segundo a entrevistada, os visitantes levam presentes, geralmente remédios tradicionais, e,
dependendo da situação, permanecem durante todo o dia na casa da pessoa.
Observou-se que os deslocamentos para visitar os parentes são comuns entre os Kaiowá,
configurando-se como um momento de fortalecimento dos vínculos sociais e de estreitamento
dos laços familiares. A alimentação aparece como um elemento importante no ato do
acolhimento:
Porque é assim, por exemplo, o Adilson vai vir aqui em casa, só que o Adilson não vai
vir sozinho, ele vai trazer a esposa dele, a menina dela, toda a família dele, de repente
a sogra...Aí a gente sabe, combina, tal dia vou na tua casa, aí o anfitrião, que no caso
sou eu, eu tenho que ter bastante mandioca, batata, milho, quando não tem em casa...
tem que ter galinha, porco […] (E1).
A fala acima coincide com a de Costa (2015, p. 13), quando o autor menciona que “[...]
a hospitalidade apresenta as seguintes características fundamentais: convivência, acolhida,
respeito, tolerância, e geralmente culmina com a comensalidade”.
A questão do ritual e do sagrado também são elementos relevantes para pensar o
acolhimento kaiowá, pois, para receber quem chega é realizado um ritual de reza:
Você chega aí é outro grupo que recebe e põe pra dentro da casa. Aí você já tá
abençoado e pode interagir. Ivirajá é um assessor, uma assessoria que o rezador tem
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para ajudar a receber as pessoa (normalmente crianças, mais novo que cuida) e o
rezador comunica com Deus né (Tupãguasu) (E2).
Que nem, vocês chegaram, aí lá na entrada tinha que ter o Ivirajá, vai receber, aí lá
que se encontra, quando eles já estão a uns quinhentos metros ele já começa canta, já
vem cantando, aí aqui também vai receber, falo, é o Roaity, vai se encontrar. Aí lá, vão
fazer o Jerokã e o ivyraií tenondê, em redor o ivyraí. Aí se receberam, aí esse é o
cumprimento, aí depois dalí vai pra casa, pra casa de reza, se vem alguém diferente, se
apresenta...aí beleza. Que é aquele lá. Que é a diferença do branco, que vai receber o
outro com beijo [...].
O trecho acima é sustentado por Funari e Frederico (2017) quando afirmam que a reflexão
sobre dádiva e hospitalidade demandam relacionar com o aspecto espiritual. Pois de repente o
que era hospitaleiro, pode passar à hostilidade. O que também observam Brusadin e Panosso
Netto (2016, p. 527): “La palabra acogimiento acarrea consigo señales de apertura y al mismo
tiempo de restricción con el otro” e, ainda, Santos e Perazzolo (2012, p.05): “(...) se o
acolhimento ocorre, acolhedor e acolhido se alternam todo tempo”.
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A aty guasu acontece, é um lugar dum líder grande, né? Só que como as veis, agora,
como não tem mais condição de fazer aquelas grande casa de reza, de sapé, aí faz
agora em recinto público, né? Tipo escola ou faz essas tenda, né? Para poder abrigar
os convidado, né? Que não tem mais sapé pra fazer é...assim...aquelas casa de reza
grandona, né? (E1).
A aty guasu, se constitui como uma grande assembleia e como o mais importante fórum
de debate da etnia Kaiowá e dos Guarani. Nesses encontros reúnem-se lideranças e membros de
famílias extensas de várias localidades do estado, com o objetivo de discutir os problemas
comuns a todas as famílias extensas. O número de dias vai variar conforme disponibilidade de
recursos, bem como, varia, também, o local de realização: “Depende o lugar. Onde precisar
mais. Hoje a gente discute a política. Se vai ter um despejo numa área a gente vai pra lá. Se tem
um problema, dificuldade, a gente vai pra lá” (E2).
O tekoporã, ou seja, o comportamento acolhedor no modo kaiowá, é gestado no contexto
das aty guasu, porque nestas reuniões é possível trocar informações sobre o cotidiano dos
indivíduos e de suas famílias. Nestes eventos, considerados a maior instituição política dos
Kaiowá, os laços culturais e identitários se reforçam, um exemplo é que nestas reuniões o idioma
usado é o guarani. Neste contexto, o entrevistado 2 fez o seguinte comentário:
Eu vejo que ela tem um ponto assim de segurança de cultura. Porque é onde a turma
reza muito, canta muito. As crianças também participa da reza, das fala. Eu vejo que a
aty guasu ainda é uma grande escola pra nóis Guarani-Kaiowá. Mesmo com as falas
que tem, as atividade durante o dia, mas a noite é indígena, a noite é indígena. De dia
é uma mistureba né. Discussão de todo lado. Mas a noite, vira todo mundo índio (E2).
O trecho acima reforça a discussão de que a língua é “o canário da mina” (Ell & Pavelka,
2020) das culturas tradicionais, o elo com a cultura ancestral e aquilo que deve ser cuidado e
preservado. Os resultados, a partir do registro de termos específicos, permitiram identificar um
conjunto de expressões que remetem ao esquema teórico da hospitalidade.
No contato estabelecido com os entrevistados observou-se que os termos ligados
diretamente à hospitalidade não apareceram espontaneamente nas falas, de maneira que apenas
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quando indagados quanto a esta questão específica é que foram feitas as menções. Ademais,
identificou-se que não há uma única palavra que represente o conceito de hospitalidade, tal qual
existe para os não indígenas. Desta forma, a pesquisa de campo possibilitou a construção do
quadro 3, com termos relacionados ao conceito de hospitalidade Kaiowá.
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do esquema da hospitalidade, a experiência com os kaiowá mostra que cada cultura tem sua
maneira de realizar o ritual da hospitalidade e de falar sobre sua hospitalidade. É buscando a
diferença entre as diversas maneiras de hospitalidade que se pode acrescentar algo novo sobre o
assunto.
O estudo com os kaiowá possibilitou entender melhor a posição de Ferran (2019) e de
outros teóricos que chamam a atenção para o caráter sempre inacabado das respostas para os
problemas da vida, e a hospitalidade kaiowá é uma busca para respostas em um mundo em devir,
portanto, respostas sempre parciais, mas elaboradas coletivamente, nos jogos de alteridade.
5 Considerações Finais
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