Tribobó City de Maria Clara Machado/ Adaptação de
Laboratório de Ideias – 2024.
PERSONAGENS
Dona Cafeteira Rochedo, a Dona do Saloon - Duda González
Senhorita Caixa Registradora - Maria Vitória Melo
Al Gazarra, um bandido - Bernardo Miglionico
Joana Charuto, chamada A Pistoleira – Giovanna Ribeiro
Mocinho de Sousa - Rafael Almeida
El Mexicano, um cearense - Davi de Sena e Mateus Kosinov
John Maronete, um advogado – Giuliana de Lima
Gedemar White, Prefeito, chefe político de Tribobó -
Bernardo Charret
Marly Marlene, a mocinha - Lívia Pereira
Maria Belezoca, a falsa Marly - Sophia Monteiro
CENÁRIO:
Um saloon, tipo filme de mocinho americano no começo do
século, em Tribobó City, Estado do Rio, Brasil. Um balcão, uma
caixa registradora.
INÍCIO DA PEÇA
(Chega Maronete com Maria Belezoca, empurrando Marly Marlene)
CAFETEIRA – Pode subir, quarto 13.
MARONETE – E Joana Charuto e Al Gazarra?
CAFETEIRA – Vão fingir direitinho. Deixa comigo. (Desaparece.)
MARONETE – OK. (Empurra Marly, que sobe com ele e Maria Belezoca e entram no quarto
13.)
CAFETEIRA – Você já chegou?
CAIXA – Cheguei.
CAFETEIRA – É cedo.
CAIXA – Gosto de cumprir o meu dever.
CAFETEIRA – Você ouviu alguma coisa?
CAIXA – (AMEDRONTADA) Não.
CAFETEIRA – Então vá até o banco trocar dinheiro. Toma.
CAIXA – Já volto.
(Entra Al e Joana Charuto.)
CAIXA – Good evening, Al Gazarra! (Sai suspirando apaixonada.)
AL – Good evening Srta Caixa!
Al Gazarra - Sente-se aqui Joana Charuto! (Jogam cartas)
(Vêm descendo Belezoca e Maronete.)
MARIA BELEZOCA – E o que eu faço John Maronete?
MARONETE – Me espera no carro para uma entrada triunfal Maria
Belezoca.. Precisamos enganá-los direitinho.
MARIA BELEZOCA –E o Prefeito?
MARONETE – Ele já decorou o papel. Vai representar direitinho.
MARIA BELEZOCA – E a grana, bicho?
MARONETE – Calma, Belezoca. Você saberá tudo no correr da
representação.
MARIA BELEZOCA – Tô cheia de fingir.
MARONETE – Você não quer ser atriz?
MARIA BELEZOCA – Quero é ser rica, tá?
MARONETE – Você será riquíssima! Vamos!
(Sai Belezoca. Maronete troca olhares e sinais cúmplices com Al Gazarra e Joana, depois sai
apressado. Entram Mocinho e El Mexicano e sentam na outra mesa. cochilam).
AL – Come on, girl.. Do you want to play? Have money!?
JOANA – Oh, yeah baby, I have money. (Jogando) One.
AL – Two.
JOANA – Three.
AL – Four.
JOANA– Five.
(AL tira carta falsa do sapato, Joana apontam revólver e empurram AL) (Ouve-se o zumbido
de uma mosca. Todos acompanham o trajeto da mosca. Ela pousa no Mexicano. A Caixa dá-
lhe um tapa.)
EL MEXICANO – (acordando) Los índios!
MOCINHO - O que foi El Mexicano?
De repente aparece em cena Gedemar White, elegante e pastoso.)
PREFEITO – Povo de Tribobó City, finalmente conseguimos! (Beija a mão da
Cafeteira.)
CAFETEIRA – Senhor Prefeito!
PREFEITO – Povo de minha terra, finalmente conseguimos. Quero fazer hoje,
aqui, neste local hospitaleiro, centro da vida social de Tribobó, a maior
comunicação de todos os tempos quentes desta cidade. Desta vez é verdade
mesmo. O trem vai parar em Tribobó City!(Todos se animam, cantam e dançam.)
TODOS – O trem vai parar em Tribobó City
O trem vai parar em Tribobó City
Viva o progresso
Viva Tribobó City
(No meio da dança vem chegando John Maronete acompanhando Maria Belezoca, a falsa
MarlyMarlene Smith. Maronete tira o revólver e atira para cima. Todos param de dançar. A
música cessa).
PREFEITO – Quem é o senhor?
(Maronete tira um cartão e apresenta ao prefeito.)
PREFEITO – (lendo) “John Maronete da Fonseca, Protetor dos Fortes.” Ora
veja, então fique do meu lado e explique o que quer de nós.
MARONETE – Fui contratado pela Senhorita Marly Marlene Smith para defender seus
direitos.
CAFETEIRA – (Fingidamente) Que direitos?
MARONETE – Esta senhorita é dona absoluta da fazenda Tribobó, e venceu
na justiça do Governo Federal, provando que a dita estrada de ferro
Central de Tribobó não poderá passas pelas terras da dita senhorita.
TODOS – Oh!
MARONETE – Porque a mesma senhorita tem outros fins em mente para
essas mesmas terras da dita senhorita.
MOCINHO – Não estou entendendo; o avô da senhorita Smith já tinha doado
legalmente essas terras para a estrada muito antes da senhorita Smith embarcar
para o estrangeiro.
MARONETE – O senhor por acaso é o xerife?
MOCINHO – Ainda estou esperando a minha nomeação.
PREFEITO – Então fique quieto, Mocinho de Sousa!
EL MEXICANO – Estão querendo cambiar el assunto. Teremos estrada de ferro
ou non?
MARONETE – Quem é esse mexicano?
PREFEITO – El Mexicano, um cearense.
EL MEXICANO – Teremos estrada com parada florida em la ciudad de
Tribobó, nem que todos los índios...
MOCINHO – Chega, El mexicano, você se exalta demais. Vamos logo
esclarecer esse assunto: O avô da senhorita Marly Marlene Smith,
EL MEXICANO - “O coronel Manuel Capivara Smith”, amigo mio...
MOCINHO – ...antes de morrer, doou suas terras de Tribobó Farm para o
bem da cidade, ele sempre sonhou com uma linda estação florida para a
futura estrada de ferro Tribobó-Niterói, logo...
CAIXA – Isto é verdade, está nos livros.
AL GAZARRA – Está nos livros, essa é boa, há há ha...
JOANA CHARUTO – Alguma coisa para rir?
MARONETE – Acontece que sua neta, herdeira dessas terras, ao chegar
dos Estados Unidos, onde estudou confortologia durante 7 anos, achou
por bem doar essas terras para a construção de um grande asilo para
abrigar os cow-boys desempregados de todo mundo.
CAFETEIRA – Isto é uma ação muito bonita, D. Marly Marlene.
JOANA CHARUTO - Viva!!!
MOCINHO – Que absurdo! A estrada de ferro tem que ser construída.
MARONETE – Dou a palavra a dona Marly.
MARIA BELEZOCA – Depois de muito observar, através dos livros em que
estudei, que os cowboys depois de velhos não têm onde morar, resolvi
construir aqui nas minhas terras uma grande casa para os pobrezinhos
desempregados.
JOANA CHARUTO– Muito justo!
AL GAZARRA – Justíssimo! A Srta. Marly Marlene será chamada de hoje em
diante La Justicera!
JOANA CHARUTO– Viva la Justicera!
MOCINHO – Queremos ver os papéis!
EL MEXICANO – Chamarei todos los índios se la estrada não passar na
ciudad de Tribobó, poremos los trilhos com las unhas e los dentes...
PREFEITO – Calma!(Começa uma confusão, uns gritam viva La Justicera.)
OUTROS – Queremos a estrada! Viva Manuel Capivara Smith, benfeitor de Tribobó!
(O prefeito sempre querendo acalmar a todos. O Prefeito dá um tiro.)
PREFEITO – Evacuem a sala. Só ficarão aqui eu, como autoridade máxima, o
advogado Maronete, a senhorita Marly Marlene, D. Cafeteira, dona deste hotel.
Precisamos discutir o assunto com muito cuidado. Prometo aos habitantes de
Tribbobó City que farei tudo que estiver ao meu alcance para resolver este
assunto.
PREFEITO – Tribobó precisa de uma estação e de uma estrada de ferro.
Pois bem, Tribobó terá uma estação e uma estrada de ferro. Promessa é
dívida e dívida é promessa.
TODOS – Gedemar! Gedemar! Gedemar! (Batem palmas)
EL MEXICANO – Se esta dívida for solamiente una promessa, chamarei los
índios...
MOCINHO – Deixa, El Mexicano, depois veremos. Diga ainda uma última
coisa, senhorita Marly Marlene, me lembro que quando a senhorita partiu
ainda criança daqui de Tribobó para estudar nos Estados Unidos, os seus
cabelos eram bem diferentes...
MARIA BELEZOCA - (Falsa.) O Sr. não conhece os produtos de tingir cabelos,
seu...seu...
MOCINHO – Mocinho de Sousa...seu amigo de infância...Você não se lembra
mais, Marly?
MARIA BELEZOCA – (Falsa.) Depois de ver tanto americano e de estudar
tanta confortologia nos livros de lá, o senhor ainda acha que iria me
lembrar de um amigo de infância, senhor Engraçadinho de Sousa?
Joana Charuto – Engraçadinho de Sousa!...
EL MEXICANO – Se a Srta. tem la memória curta, chamarei los índios...
MOCINHO – Deixa, Mexicano. Ela se recordará com o tempo...
EL MEXICANO – Los índios... (Gritando quase no ouvido de Maria Belezoca.)
MARIA BELEZOCA – (Falsa.) Estou me sentindo mal... Tirem-me daqui por
favor...
PREFEITO – Vamos embora para o meu escritório Srta. Marly Marlene.
Peço ao D. Maronete que me acompanhe. Estes papéis têm que ser vistos
à luz da justiça, e essa luz aqui é muito fraca. Vamos! ( Para Cafeteira.)Venha
também, Sra. Cafeteira. Joana Charuto, Al Gazarra, acompanhem-me.
CAFETEIRA – É bom que todos se retirem. Celebraremos amanhã, com o Sr.
Prefeito, a vitória da justiça. Vou fechar a casa. Caixa Registradora, você
fica aí tomando conta da caixa. Atenção ao dinheiro, senão você será
despedida, hein?
(Sai atrás do Prefeito. Mocinho de Sousa e El Mexicano,quando vão saindo, são parados pela
moça da caixa.)
CAIXA – Esperem por mim lá fora.
EL MEXICANO – Chamo los índios?
MOCINHO – Calma, El Mexicano!
CAIXA – Coisas estranhíssimas estão acontecendo no quarto 13...
MOCINHO – No quarto 13?... Isto está me cheirando mal... Lá estaremos... (Ouvem-
se gritos.)
MARLY – Help! Help!
MOCINHO – O que é isto? (Tornam a pôr ouvidos e os gritos de “help” se repetem.)
OS TRÊS JUNTOS – O quarto 13!
MOCINHO – Vá correndo até lá, que ficaremos vigiando!
CAIXA – Eu?! Não posso deixar a caixa um só instante senão serei
despedida. (Mocinho sobe para o quarto 13.) A senhora Cafeteira tem medo que
roubem a caixa, então tenho que ficar o dia inteiro e às vezes a noite
inteira perto do dinheiro.
EL MEXICANO – Chamarei los índios...
(Mocinho abre a porta do quarto 13 e aparece, amarrada, a verdadeira Marly Marlene, frágil e
amedrontada.)
MOCINHO – Marly Marlene!
MARLY – Mocinho!
(Os dois se abraçam. Mocinho desce com a mocinha. Desamarra depressa sua amiga de
infância.)
MOCINHO – Então a outra é uma impostora! Coitadinha, tem as mãos feridas!
(Faz uma
bandagem com seu lenço no pulso de Marly, que respira amedrontada olhando para todos os
lados.)
MARLY – Nunca pensei que ao voltar dos Estados Unidos fosse recebida dessa
maneira...
MOCINHO – Conte tudo.
MARLY – Mandei um telegrama para o Prefeito dizendo que devia chegar
no dia 14, isto é, anteontem. Como não conhecia ninguém em Tribobó...
MOCINHO – Você se esqueceu de mim, Marly?
MARLY – Muito pelo contrário... Como não tinha mais seu endereço, enviei
a carta para a prefeitura de Tribobó. O Prefeito respondeu que você tinha
se mudado para São Paulo.
MOCINHO – Sim, mas ele sabia meu endereço em São Paulo. Estava
estudando para ser xerife.
MARLY – Xerifologia?
MOCINHO – Mais ou menos... Me formei e voltei... Mas... não mudemos de
assunto. O caso é grave. O prefeito sabia que eu vinha passar todas as
férias aqui...
MARLY – Então ele mentiu?
MOCINHO – Com certeza.
MARLY – Mas um prefeito mentir?
MOCINHO – É. É inacreditável. (Marly começa a chorar.)Não chore, Marly
Marlene, daremos um jeito em tudo, você vai ver.
EL MEXICANO – Chamo los índios?
MOCINHO – Calma, El Mexicano. Deixa Marly contar tudo como foi. (Mocinho enxuga
as lágrimas de Marly.)
MARLY – Quando cheguei ao cais um homem pequeno e loiro ...
MOCINHO – Deve ser Maronete.
MARLY – E uma moça muito bem vestida...
CAIXA – A falsa Marly.
MARLY - ...me receberam gentilmente, até com bombons... depois me
trouxeram para aqui e quando entrei no quarto...
CAIXA – (Histérica) No quarto 13.
MARLY - ...quando entrei no quarto, ele me amordaçou, me tirou todos os
chocolates...(Soluça) e me disse que se eu não me comportasse direitinho
esses dias, me mandaria de volta para os Estados Unidos, sem dólar, sem
nada!(Soluça.) Fiquei apavorada...
EL MEXICANO E MOCINHO – Um verdadeiro sequestro.
CAIXA – Um sequestro?!
MARLY – Estou com tanto medo, Mocinho!
CAIXA – Eu também.
MOCINHO – Fica calma, Marly. Vamos procurar saber por que o Prefeito
tem interesse nas terras de seu avô. Afinal, a estrada de ferro e a estação
de ferro são coisas tão importantes que qualquer prefeito ficaria
orgulhoso de realizar... a desculpa de fazer lá um abrigo para cowboys
desempregados não cola... Ele deve estar querendo alguma coisa melhor!
MARLY – Você acha que poderá lutar sozinho contra o Prefeito, Mocinho?
CAIXA – Se fosse só ele... Estou muito desconfiada.
EL MEXICANO – Onde hai fumaça, hai fuego.
MOCINHO – Temos que lutar contra muitos... John Maronete, o advogado,
deve ser advogado do diabo... Tenho a impressão que Joana Charuto e Al
Gazarra também são do bando...
CAIXA – Al Gazarra?