A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO (1924) - pág. 203/213 – vol.
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Oh! Ai de mim! Tudo está claro!
Ó luz, que eu te veja pela
derradeira vez! Todos sabem:
tudo me era interdito: ser filho de
quem sou, casar-me com quem
me casei e eu matei aquele a
quem eu não poderia matar!
Édipo Rei
Cada vez mais se revela a importância do complexo de Édipo como o fenômeno
central do período sexual da primeira infância. Depois ele desaparece, sucumbe à
repressão, como dizemos, e vem o período de latência. Mas ainda não é claro o que leva
ao seu fim.
A menina pequena, que pretende ser amada pelo pai acima de tudo, algum dia
sofre uma dura punição por parte dele e se vê expulsa do paraíso. O garoto, que vê a
mãe como sua propriedade, nota que ela passa a dirigir seu amor e seu cuidado a um
recém-chegado.
A ausência da satisfação esperada, a contínua ausência do filho desejado, levam
a que o pequeno enamorado abandone sua desesperançada afeição. Assim, o complexo
de Édipo desapareceria devido ao seu fracasso, em consequência de sua impossibilidade
interna.
Pudemos perceber melhor que o desenvolvimento sexual da criança chega até
uma fase em que o genital já assumiu o papel condutor. Mas esse genital é apenas o
masculino, mais precisamente o pênis; o feminino não foi ainda descoberto. Essa fase
fálica, simultânea à do complexo de Édipo, não continua a se desenvolver até a
organização genital definitiva, mas submerge e é substituída pelo período de latência.
Quando a criança (o garoto) dirige seu interesse para o genital, revela isso pela
frequente manipulação do mesmo, e então descobre que os adultos não aprovam seu
comportamento. De modo mais ou menos claro, com maior ou menor rudeza, surge a
ameaça de que lhe roubarão essa parte do corpo que ele tanto estima. Geralmente a
ameaça de castração vem de mulheres; com frequência elas buscam reforçar sua
autoridade invocando o pai ou o médico, que, segundo afirmam, executará o castigo. As
próprias mulheres fazem uma atenuação simbólica da ameaça, ao dizer que o genital,
propriamente passivo, não será eliminado, mas sim a mão, que pecou ativamente.
Frequentemente o menino não é ameaçado de castração por brincar manualmente com o
pênis, mas por molhar a cama todas as noites e não poder ser conservado limpo. As
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pessoas que dele cuidam agem como se a incontinência noturna fosse consequência e
prova de uma excessiva ocupação com o pênis, e provavelmente estão certas.
A organização genital fálica da criança sucumbe devido a essa ameaça de
castração. Não de imediato, certamente, e não sem que outras influências contribuam
para isso. Inicialmente o garoto não acredita nem obedece à ameaça. Todavia, em algum
momento, o menino orgulhoso de possuir um pênis vê a região genital de uma menina e
tem de se convencer da falta do pênis, num ser tão semelhante a ele. Com isso também a
perda do próprio pênis se torna concebível, a ameaça de castração tem efeito a posteriori.
A masturbação é apenas a descarga genital da excitação sexual própria do complexo, e
em todas as épocas posteriores deverá sua importância a tal relação. O complexo de
Édipo ofereceu ao menino duas possibilidades de satisfação, uma ativa e uma passiva.
Ele pôde, masculinamente, colocar-se no lugar do pai e tal como este relacionar-se com a
mãe, caso em que o pai logo foi visto como empecilho, ou quis substituir a mãe e se fazer
amar pelo pai, caso em que a mãe se tornou supérflua. O menino pode ter tido somente
ideias vagas do que constitui a relação sexual satisfatória; mas sem dúvida o pênis tinha
participação nela, pois as sensações do seu próprio órgão atestavam isso. Ainda não
havia por que duvidar da existência de pênis na mulher. Admitir a possibilidade da
castração, perceber que a mulher é castrada punha fim às duas possibilidades de obter
satisfação do complexo de Édipo, pois ambas acarretavam a perda do pênis, uma, a
masculina, como castigo, a outra, feminina, como pressuposto. Se a satisfação amorosa
no terreno do complexo de Édipo deve custar o pênis, tem de haver um conflito entre o
interesse narcísico nessa parte do corpo e o investimento libidinal dos objetos parentais.
Assim, o Eu da criança se afasta do complexo de Édipo, os investimentos objetais são
abandonados e substituídos pela identificação. A autoridade do pai ou dos pais,
introjetada no Eu, forma ali o âmago do Super-eu, que toma ao pai a severidade, perpetua
a sua proibição do incesto e assim garante o Eu contra o retorno do investimento libidinal
de objeto. As tendências libidinais próprias do complexo de Édipo são dessexualizadas e
sublimadas em parte. Todo o processo, por um lado, salvou o genital, afastou dele o
perigo da perda, e, por outro lado, paralisou-o, suspendeu sua função. Com ele tem início
o período de latência, que interrompe o desenvolvimento sexual da criança.
Na menina também desenvolve um complexo de Édipo, um Super-eu e um
período de latência. Pode-se atribuir a ele igualmente uma organização fálica e um
complexo de castração, mas as coisas não se passam como no garoto. O clitóris da
menina se comporta primeiramente como um pênis, mas, na comparação com um
camarada de brinquedo do sexo masculino, ela nota que “saiu perdendo”, e sente esse
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fato como desvantagem e razão para inferioridade. Durante algum tempo ela se consola
com a expectativa de mais tarde, quando crescer, vir a ter um apêndice grande como o de
um menino. Aqui se separa o complexo de masculinidade da mulher. A menina não
entende sua falta de pênis como uma característica sexual, explica-a pela hipótese de
que já possuiu um membro do mesmo tamanho e depois o perdeu com a castração. Não
parece estender essa conclusão a outras, a mulheres adultas, mas atribuir-lhes um genital
grande e completo, masculino, exatamente no sentido da fase fálica. Disso resulta a
diferença essencial de que a menina aceita a castração como fato consumado, enquanto
o menino teme a possibilidade da consumação. Excluído o medo da castração, também
deixa de haver um forte motivo para a construção do Super-eu e a demolição da
organização genital infantil. Bem mais que no menino, essas mudanças parecem
consequência da educação, da intimidação externa, que ameaça com a ausência de
amor. O complexo de Édipo da menina é muito mais inequívoco do que o do pequeno
portador de pênis. A renúncia ao pênis não é tolerada sem uma tentativa de
compensação. A garota passa — ao longo de uma equação simbólica, poderíamos dizer
— do pênis ao bebê, seu complexo de Édipo culmina no desejo, longamente mantido, de
receber do pai um filho como presente, de lhe gerar um filho. Temos a impressão de que
o complexo de Édipo vai sendo aos poucos abandonado porque tal desejo não se realiza.
Os dois desejos, de ter um pênis e um filho, permanecem fortemente investidos no
inconsciente, e ajudam a preparar o ser feminino para o seu futuro papel sexual. Assim,
identifica-se com os traços femininos da mãe e a virilidade do pai e pouco a pouco torna-
se mulher.
Referência
FREUD, Sigmund. A Dissolução do Complexo de Édipo. Título Original: “Der
Untergang Des Odipuskomplexes”. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p.
203/213. Edição Obras Completas Volume 16, O Eu e o ID, Autobiografia e Outros
Textos, 1923-1925, Tradução Paulo César de Souza.
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