UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS
MUSEU AMAZÔNICO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA
SOCIAL
UM ESTUDO ANTROPOLÓGICO SOBRE ADOECER DE
MALÁRIA NA COMUNIDADE DO LIVRAMENTO,
AMAZONAS
DASSUEM REIS NOGUEIRA
MANAUS
2010
UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS
MUSEU AMAZÔNICO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA
SOCIAL
UM ESTUDO ANTROPOLÓGICO SOBRE ADOECER DE
MALÁRIA NA COMUNIDADE DO LIVRAMENTO,
AMAZONAS
DASSUEM REIS NOGUEIRA
Dissertação apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social da
Universidade Federal do
Amazonas, como requisito parcial
para a obtenção do título de Mestre
em Antropologia Social.
Orientadora: Profª Drª Maria Luiza Garnelo Pereira
MANAUS
2010
DASSUEM REIS NOGUEIRA
UM ESTUDO ANTROPOLÓGICO SOBRE ADOECER DE
MALÁRIA NA COMUNIDADE DO LIVRAMENTO,
AMAZONAS
Dissertação apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social da
Universidade Federal do
Amazonas, como requisito parcial
para a obtenção do título de Mestre
em Antropologia Social.
Aprovado em 19 de julho de 2010.
BANCA EXAMINADORA
Profª Drª Maria Luiza Garnelo Pereira, Presidente
Universidade Federal do Amazonas
Profª Drª Deise Lucy Montardo, Membro
Universidade Federal do Amazonas
Dr. Maximiliano Loiola Ponte de Souza, Membro
Instituto Leônidas e Maria Deane
À minha avó Benedita da Silva, saudades.
Agradecimentos
Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do
Amazonas (FAPEAM) pela concessão de bolsa de pesquisa que
possibilitou a realização desse trabalho.
Ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, nas
pessoas do seu corpo docente, no qual tive a oportunidade de amadurecer
esta idéia.
À Professora Dra Luiza Garnelo pela orientação, pelas importantes
lições de Antropologia e pela confiança no meu trabalho;
Aos colegas de mestrado, em especial, a Luciano Cardenes e
Clayton Rodrigues, amigos com os quais compartilho sempre bons
momentos.
Às amigas Gláucia Baraúna, Silvia Baraúna, Raiana Mendes, Luana
Rodrigues, Raquel Queiroz, Rosseline Tavares e Daniela Chaves, e ao
amigo Emmanuel Almeida, sempre presentes.
Ao amigo Márcio Braz pela companhia bem humorada nas
madrugadas insones.
À Marcelo Florido pelo companheirismo e incentivo;
Aos meus pais, Wilson e Rosário Nogueira, pelo apoio incondicional;
Ao meu irmão Enã pela boa música ao fundo das tardes de trabalho;
E, por fim, agradeço aos moradores do Livramento, especialmente, às
famílias que me receberam em seu lar, pela disposição em contribuir para
essa pesquisa.
RESUMO
Esse trabalho tem como objetivo compreender o processo saúde/doença e
atenção dirigidos à malária na comunidade Nossa Senhora do Livramento, zona rural de
Manaus, Amazonas. Nosso trabalho tem caráter etnográfico (a pesquisa de campo foi
realizada no mês de setembro de 2009), articulamos práticas e representações a cerca do
adoecimento da malária de modo processual e contextualizado à organização social
particular do Livramento. Esse processo consiste no modo dinâmico pelo qual as
pessoas pensam e agem diante da ocorrência da malária. Utilizamos os conceitos de
representações sociais, entendido como os diferentes quadros de referências culturais
que explicam e dão sentido à malária. Dentre eles, estão as formas pelas quais a
medicina explicou e tratou a doença no decorrer de sua história, com os quais os
moradores do Livramento interagem por meio da atuação dos profissionais do serviço
de atendimento e controle da malária. Essas diferentes formas de compreender a doença
coexistem e são apropriadas pelos moradores do Livramento para fazer sentido no
contexto de sua realidade social. O conceito de itinerário terapêutico é utilizado para
compreendermos o processo de manuseio desses quadros sócio-culturais por meio da
observação das práticas dos indivíduos. No Livramento, o modo como os moradores
compreendem sua realidade social influi diretamente sobre o que pensam e fazem a
respeito da malária e do serviço de saúde que os atende.
Palavras-chave:
Processo saúde/doença e atenção - malária – representações sociais – itinerários
terapêuticos – pesquisa etnográfica.
ABSTRACT
The purpose of this research is to understand the health / disease process and the
ways of attention to malaria in the Nossa Senhora do Livramento Community, at the
rural area of Manaus, Amazonas. This is an ethnographic job (the field work was
realized during September 2009) and we connected the representations and practices
about the sickness of malaria as a process in the particular context of the social
organization of this community. This dynamic process is about the way that people
think and act diant the occurrence of malaria. We use the concept of social
representation, understood as the different kinds of cultural reference that explain and
give meaning to malaria. Among these references, it’s way that the medicine treat and
explain the disease along the history and the ways wich the inhabitant of Livramento
Community interact with the professionals of control and attendance of malaria. This
different forms of understanding the disease coexist and are appropriated making sense
in the social reality and context of life of Livramento people. The concept of therapeutic
itinerary is used to understand handling process of these social-cultural references by
observing the individual practices. In the Livramento Community the way of people
understanding their own social reality has a direct influence with the ways of thinking
and to act about the malaria and the health attendance.
Keywords: Health / disease process and attention - malaria - social representations -
therapeutic itineraries - ethnographic research.
LISTA DE SIGLAS
ACISAM Associação dos Cientistas Sociais do Amazonas
BA Busca Ativa
BP Busca Passiva
CEP Comitê de Ética em Pesquisa
EJA Educação de Jovens e Adultos
FIOCRUZ Fundação Oswaldo Cruz
FUNASA Fundação Nacional de Saúde
FVS Fundação de Vigilância Sanitária
ILMD Instituto Leônidas e Maria Deane
LVC Lâmina de Verificação de Cura
OMS Organização Mundial da Saúde
RDS Reserva de Desenvolvimento Sustentável
SEDUC Secretaria do Estado de Educação do Amazonas
SEMED Secretaria Municipal de Educação
SEMMA Secretaria Municipal do Meio Ambiente
SEMSA Secretaria Municipal de Saúde
SEMULSP Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos
SESP Serviço Especial de Saúde Pública
SUS Serviço Único de Saúde
UFAM Universidade Federal do Amazonas
ZFM Zona Franca de Manaus
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.................................................................................................................9
1 SAÚDE, DOENÇA, ITINERÁRIO TERAPÊUTICO E REPRESENTAÇÃO
SOCIAL: REVENDO CONCEITOS..............................................................................24
1.1 Bases da antropologia clássica nos estudos de saúde e doença.................................24
1.2 Possibilidades de abordagem da antropologia da saúde e da doença........................29
1.3 Processo saúde/doença e atenção: delimitar um problema........................................36
1.3.1 Modelos etiológicos em antropologia da doença...................................................41
1.4 Redes sociais e serviços de saúde..............................................................................47
2 A COMUNIDADE NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO...................................51
2.1 Redes sociais e as instituições na comunidade..........................................................54
2.2 Espaços desiguais de poder: Sede e Estrada Nova....................................................60
2.3 As dificuldades de pertencer a uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável.......65
2.4 A Associação de Moradores e a distribuição assimétrica dos benefícios..................68
3 A EXPERIÊNCIA DO ADOECIMENTO: REPRESENTAÇÕES E PRÁTICAS
SOBRE A MALÁRIA.....................................................................................................72
3.1 O serviço público de controle da doença e sua base biomédica................................72
3.2 O “carapanã” e as outras causas da malária..............................................................80
3.3 Representações sobre as manifestações corporais da doença....................................85
3.3.1 “Malária para dentro” e “malária para fora”...........................................................89
3.3.2 “Entregar-se à doença”...........................................................................................90
3.3.3 O corpo resistente...................................................................................................91
3.4 Critérios de gravidade da doença...............................................................................93
4 AS RELAÇÕES COM O SISTEMA BIOMÉDICO DE TRATAMENTO DA
MALÁRIA.......................................................................................................................96
4.1 Os “remédios calmantes”...........................................................................................96
4.2 Atenção à dieta..........................................................................................................99
4.3 A cura relativa: “estar bom” e “estar curado”.........................................................102
4.4 Vivências de malária na vida cotidiana...................................................................105
CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................119
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................124
9
INTRODUÇÃO
Nosso primeiro contato com a temática da saúde na antropologia foi a partir de
um convite para aplicar questionários da modalidade censo para o projeto “Ecologia e
Saúde na Amazônia”, pelo Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD), da Fundação
Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) em Manaus. O projeto realizava o primeiro estudo
censitário no Assentamento Rural de Rio Pardo, município de Presidente Figueiredo,
Amazonas, em novembro de 2006.
O questionário continha perguntas, às vezes íntimas, como qual o lugar onde os
moradores faziam suas necessidades fisiológicas, às vezes constrangedoras, quando se
indagava sobre a renda familiar ou sobre a origem da água que bebiam. Acrescentou-se
a esse quadro, o fato de a entrevista tornar-se muitas vezes um evento social, reunindo
familiares ou vizinhos, ainda que existisse o esforço para que fosse individualizada.
Com o objetivo de tornar essa atividade o menos constrangedora possível, tanto
para os moradores quanto para a pesquisadora, sentimos necessidade de conversar sobre
outros assuntos da vida no assentamento para, principalmente, deixá-los falar. E o que
mais as pessoas, espontaneamente, falavam diante da equipe de uma instituição de
saúde era a respeito de saúde, mais frequentemente sobre a malária, a doença mais
recorrente em suas vidas. Essas conversas foram anotadas em diário de campo para
tentar apreender o que os questionários não conseguiriam apontar.
Em fevereiro de 2007, passamos a integrar a equipe do projeto com o objetivo de
descobrir os trajetos percorridos pelas famílias em busca de água. Essa pesquisa estava
ligada ao objetivo primeiro do projeto, que era investigar se havia alguma ligação entre
os trajetos realizados pelos moradores e possíveis perfis epidemiológicos.
10
O projeto não contemplava a malária dentre seus objetivos, mas, durante o seu
desenvolvimento, os moradores sempre enfatizaram a malária como um infortúnio e
aproveitavam nossos encontros para falar sobre o quanto a doença lhes dificultava a
vida. Diante dessa situação, sentimos necessidade de investigar por que, mesmo perante
um serviço de saúde, aparentemente eficaz para o tratamento da doença, os índices de
incidência da malária eram tão elevados naquele lugar.
O produto final de pesquisa a ser entregue ao projeto do ILMD era uma
monografia, que foi a mesma da conclusão do curso de Ciências Sociais em 2007, na
Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Enfatizamos, nesse estudo, os aspectos
sociais da ocorrência da malária em Rio Pardo, principalmente, no que diz respeito à
política pública de atendimento à doença: por que ela não era eficaz?
A resposta que obtivemos dos profissionais que atuavam na área foi a de que os
usuários do serviço de saúde interrompiam o tratamento da malária. Mas por que
alguém interromperia o tratamento de uma doença tão agressiva se haviam meios
disponíveis até para o tratamento domiciliar?
As respostas que encontramos conjugavam questões sociais amplas, tais como o
baixo nível de investimentos em pesquisa para novas tecnologias biomédicas que
propiciassem, por exemplo, tratamentos menos agressivos; e problemas sociais
específicos de Rio Pardo, como o fato de se constituir como um assentamento rural que
exigia a produção agrícola como fonte de renda exclusiva, sem muitos incentivos e com
burocracia desestimulante (NOGUEIRA, 2007).
Estes elementos compunham um quadro no qual os fortes efeitos colaterais dos
medicamentos e a necessidade da produção agrícola faziam com que, muitas vezes, um
sujeito imbuído da responsabilidade de sustentar sua família decidisse interromper o
tratamento, assim que os sintomas da doença fossem eliminados, por considerar que os
11
medicamentos os deixavam ainda mais debilitados, embora reconhecesse que eles eram
necessários para a suposta cura (NOGUEIRA, 2007).
A partir dessa pesquisa surgiram novas inquietações que enfocavam o doente ao
invés da doença e que não puderam ser abordadas na monografia: como os indivíduos
lidam, cotidianamente, com uma doença tão grave e tão freqüente em suas vidas? Como
entendem a doença e o serviço de atendimento e controle da malária? Quais terapêuticas
utilizavam além da biomédica e com quais objetivos?
Tais questões requisitaram outra abordagem teórica, cujo enfoque é a
compreensão da malária como um processo social pelo qual os indivíduos concebem
saúde/doença e a atenção dispensada a sua cura ou controle; privilegiamos a concepção
local sobre a doença como recorte ao invés do questionamento sobre a eficiência do
serviço de saúde. Foi com a finalidade de responder a estas inquietações que
ingressamos no curso de Mestrado em Antropologia Social da UFAM em 2008.
No mestrado, mudamos o lócus de nossa pesquisa. Primeiro, porque não
fazíamos mais parte da equipe do projeto que atuava em Rio Pardo, o que dificultaria
nosso acesso, pois não havia transporte comercial regular para o assentamento na época.
Uma alternativa possível seria a comunidade Nossa Senhora do Livramento, dentro do
perímetro do município de Manaus, capital do Estado do Amazonas, conhecida como
local de ocorrência endêmica da malária. O acesso a comunidade é realizado por
transporte fluvial regular e de baixo custo financeiro.
Outro fator que nos desestimulou a continuar a pesquisa em Rio Pardo foi a
elevada mobilidade de sua população. Trata-se de um assentamento rural de curta
história, ocupado a partir de 1996, no qual, mesmo os poucos moradores mais antigos
não viviam, na época, há mais de 10 anos em Rio Pardo; seus moradores provinham, em
sua maioria, de outros lugares. Desse modo, tinham experiências apenas incipientes
12
com a vida naquele local, com a malária e com o serviço de saúde destinado ao controle
da doença. Essa pouca vivência com a endemia era agravada pelo fato de que
mudavam-se do assentamento em pouco tempo, alarmados com a ocorrência seguida de
muitas malárias entre os membros das famílias. Ao contrário, na comunidade Nossa
Senhora do Livramento, há um longo período de tempo os moradores tanto conviviam
com a malária, quanto com o serviço de saúde destinado ao atendimento dessa doença, o
que consideramos mais favorável para o alcance dos nossos objetivos de pesquisa.
Nesse trabalho, propomo-nos a compreender o modo pelo qual os moradores da
comunidade Nossa Senhora do Livramento concebem a malária, a atuação do serviço de
atendimento e controle da doença, o tratamento biomédico e a auto-atenção à malária a
partir das lógicas de vida e dos processos interativos entre os sujeitos envolvidos no
processo saúde/doença e atenção direcionada à malária naquele lugar.
O interesse pela malária
A malária impressiona tanto pela sua agressividade no organismo humano
quanto pelos aspectos sociais que envolvem a sua ocorrência. Segundo o conhecimento
biomédico, a malária é uma doença causada pelo protozoário do gênero Plasmodium,
um parasita, que na Amazônia ocorre com maior freqüência nas espécies P. Falciparum
e P. Vivax, transmitidos geralmente pelo mosquito do gênero Anopheles. Após penetrar
na corrente sanguínea, o Plasmodium ataca as células do fígado e os glóbulos
vermelhos, destruindo-os e causando comumente anemia. O conjunto dos sintomas da
doença também inclui febre alta, dores musculares e de cabeça, além de outros sintomas
gerais, que variam de acordo com a espécie de Plasmodium (GLOSSÁRIO DE
DOENÇAS, 2006).
13
Entretanto, a malária não é um fenômeno estritamente biológico. Existe um
contexto social amplo que propicia o seu aparecimento com maior incidência em
determinados perfis populacionais. A malária ocorre com significativa incidência na
África e na Amazônia, áreas de clima tropical e em contextos de pobreza econômica.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde consideram a
malária uma doença negligenciada; esse conceito é uma reformulação da antiga noção
de doenças tropicais que atribuía a causa de certas doenças exclusivamente ao clima
tropical. As noções subjacentes ao conceito de doenças negligenciadas dão conta que
existem doenças que afetam de modo restrito os países considerados em
desenvolvimento e, primordialmente, as populações que vivem em contextos de pobreza
em áreas de clima tropical favorecendo o seu aparecimento.
Essas doenças expressam tanto um quadro de carência sócio econômica, quanto
um baixo grau de investimento dos sistemas públicos de pesquisa em saúde, porque o
retorno comercial dos investimentos em pesquisas de tecnologias destinados ao seu
controle (medicamentos, vacinas e diagnósticos) não é lucrativo, gerando pouco
interesse da economia de mercado. São consideradas doenças negligenciadas: malária,
doença de Chagas, dengue, leishmaniose, tuberculose e hanseníase (MINISTÉRIO DA
SAÚDE).
A malária é a doença parasitária que mais causa problemas sociais e econômicos
no mundo e só é superada em número de mortes pela Aids – os casos de óbito ocorrem
principalmente na África (GLOSSÁRIO DE DOENÇAS, 2006). Segundo o Glossário
de Doenças (2006), “a malária é considerada um problema de saúde pública em mais de
noventa países, onde cerca de 2,4 bilhões de pessoas (40% da população mundial)
convivem com o risco de contágio”. Na Amazônia, a malária registra cerca de 500 mil
casos por ano.
14
Sendo a malária um fenômeno simultaneamente biológico e social inserido em
um contexto social amplo, o estudo localizado da sua ocorrência em grupos sociais
específicos revela situações sociais particulares, tais como a maneira como os grupos
representam a doença, as explicações que dão a sua causa e a atenção que dispensam
visando à cura ou o seu controle.
A percepção dos sintomas e a sua transmissão são dadas a partir de formas
sócio-simbólicas específicas. Essas formas, por sua vez, organizam procedimentos de
auto-atenção e interpretações que, muitas vezes, conjugam-se com aqueles obtidos dos
sistemas biomédicos de interpretação e de tratamento. Essas formas caracterizam o
processo saúde/doença e atenção que pretendemos descrever.
A pesquisa etnográfica
Realizamos uma pesquisa etnográfica sobre adoecer de malária na comunidade
Nossa Senhora do Livramento a fim de apreender uma compreensão diferenciada do
conceito de estar doente dessa enfermidade. Esse método de pesquisa consiste em um
olhar carregado de bagagem teórica e pessoal que vai a campo propondo-se observar um
fenômeno social que transforma em texto, não fatos, mas idéias a respeito de um
fenômeno (PEIRANO, 1992).
Desse modo, a pesquisa etnográfica constitui-se de dois momentos
fundamentais: o trabalho de campo e a construção do texto etnográfico. Segundo
Peirano (1992), é na pesquisa de campo, por meio do confronto de teorias, que reside o
poder de renovação da teoria antropológica, que aparecerá (ou pelo menos deveria) por
intermédio da etnografia. Construímos nossa pesquisa visando evidenciar esse
dinamismo.
15
Construímos a entrada em campo para interpretar fatos e idéias a partir da
proposta de Geertz (1989), que afirma ser possível interpretar culturas, materializá-las
no texto etnográfico por meio de uma descrição densa. Para esse autor, a antropologia é
uma ciência interpretativa em busca das teias de significados que todos nós criamos e às
quais estamos amarrados, e que, em suma, é o seu conceito de cultura.
Para o autor, a cultura é pública e pode ser interpretada por meio das ações dos
indivíduos. A pesquisa etnográfica consistiria em situar-nos em uma conversa com o
nativo, permitindo-nos interpretar o significado daquela cultura e dos fenômenos
inscritos nela (GEERTZ, 1989).
Tedlock (1985) reforça essa noção de encontro entre dois mundos no que ele
chama de caráter dialógico da pesquisa etnográfica. O autor ressalta que essa noção
deve ser considerada nos dois momentos da pesquisa: no trabalho de campo e na escrita
etnográfica. Esse diálogo é necessário porque se trata de interação entre humanos e não
haveria como escaparmos da subjetividade.
Na pesquisa de campo, ocorre o que Tedlock (1985) chama de
“intersubjetividade”. O diálogo antropológico proporcionaria a compreensão entre dois
mundos distantes até o momento desse encontro, mas essa compreensão não se dá entre
o antropólogo e o grupo, e sim entre o antropólogo e seus registros, questionando e
respondendo em um diálogo que se dá em campo. Tedlock (1985) sugere que este
diálogo apareça também no texto etnográfico, mostrando o processo pelo qual a
etnografia foi construída, visto que ela não descreve idéias sobre um fenômeno,
constituindo-se na matéria bruta da análise teórica.
Desse modo, nossa pesquisa etnográfica sobre adoecer de malária no Livramento
(como a comunidade também é conhecida) é constituída de duas etapas dinâmicas: o
trabalho de campo e a construção do texto etnográfico; ambos prezam pelo
16
estabelecimento de um diálogo, tanto da pesquisadora com seus sujeitos de pesquisa,
quanto dos dados obtidos a partir desse encontro e as teorias a partir das quais propomo-
nos compreender o fenômeno escolhido, de modo que nos esforçamos em interpretar
uma cultura particular, a dos moradores do Livramento, sobre o processo saúde/doença
e atenção à malária.
Etapas da pesquisa de campo
Nosso primeiro contato com o Livramento ocorreu em maio de 2009. A
pesquisadora não conhecia o lugar nem seus moradores. Procuramos pelo então
presidente da Associação dos Moradores da comunidade para apresentar-lhe,
informalmente, nossa intenção de pesquisa e a necessidade de seu consentimento1, que
foi dado. Naquele momento, o presidente e sua família se ofereceram para hospedar a
pesquisadora em sua casa para a realização do trabalho.
Até agosto daquele ano, realizamos outras três visitas, com duração de um dia,
nas quais nos apresentamos aos representantes das instituições governamentais, tais
como a escola e o posto de saúde, bem como a alguns de seus moradores. Em uma
dessas ocasiões, pudemos participar de uma das reuniões comunitárias promovidas por
sua Associação.
Durante as três primeiras semanas do mês de setembro, nos hospedamos na casa
da família do presidente da comunidade, na época, localizada na sede do Livramento.
Também era de propriedade da família um comércio, mercearia e bar, onde a presença
da pesquisadora gerava curiosidade dos freqüentadores que, após questionar sobre a
1
O consentimento formal à realização do trabalho foi obtido da Associação de Moradores do Livramento
e compôs parte da documentação requerida pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP – UFAM).
17
motivação do trabalho, mostravam-se interessados em falar sobre malária e sobre a
comunidade.
Na primeira semana de pesquisa, nos detivemos nessas conversas informais e em
visitas a moradores antigos da sede. A partir da segunda semana, passamos a realizar
entrevistas semi-estruturadas gravadas tomando como referência pessoas que haviam
estado doentes de malária recentemente. Outras vezes, escolhíamos casas
aleatoriamente, estimando um número equilibrado de moradores de cada rua, pelo
menos dois.
Outras entrevistas foram realizadas com os diretores da escola e do posto de
saúde da comunidade, e pessoas de grande prestígio no lugar, como o ex-diretor do
posto de saúde. Acompanhamos também as reuniões da Associação de Moradores e
eventos sociais da comunidade.
Durante o período em que permanecemos na sede da comunidade, freqüentamos
quase diariamente o posto de saúde na espera pela notificação de algum caso de malária.
Mas nas duas primeiras semanas daquele período, apenas um caso foi notificado, porém
não pudemos entrevistar a pessoa adoentada2.
Na terceira semana de nossa pesquisa de campo, nos informaram sobre uma
família, moradora do Igarapé do Diúna, que estivera no posto com malária. Até aquele
momento, ignorávamos que o igarapé citado fazia parte da comunidade do Livramento,
pois no mapa exposto na sede da Associação de Moradores se faziam representar apenas
alguns ramais além da Sede.
Procuramos informações sobre a família no posto de saúde e a visitamos com o
objetivo de entrevistar seus membros e, se consentido, morar com eles naquela semana.
No caminho até a casa, pelo ramal conhecido como Estrada Nova, paramos nas casas
2
Procuramos o paciente em sua residência, um jovem de 19 anos, mas sua mãe evitou a pesquisadora por
dois dias seguidos, sem permitir a aproximação direta com o rapaz. Mais tarde descobrimos que se tratava
de um rapaz com doença mental, fato omitido pela mãe.
18
para cumprimentar seus moradores e aproveitamos para perguntar-lhes sobre o percurso
correto, já que, apesar do nome, tratava-se de uma trilha que em alguns momentos
confundia-se com os caminhos para os roçados.
Notamos que os moradores do ramal se surpreendiam com a visita à família
doente, porque supunham que a pesquisadora fosse profissional do serviço de saúde; na
ocasião, ressaltavam que não recebiam atenção especial desse serviço e, até, elogiaram a
ação. Esclarecidos de que a pesquisadora não pertencia ao serviço de saúde e de que o
motivo da visita era uma pesquisa social, os moradores queixaram-se do serviço de
controle da malária. Essas reações despertaram o interesse da pesquisadora por aquelas
famílias.
Na casa de Daniel3, no igarapé do Diúna, a pesquisadora foi recebida com igual
reação. Cinco de seus oito membros estavam doentes. Realizamos uma entrevista
coletiva com todos os presentes na casa naquele momento. Estivemos com eles por um
dia e, ao final, ofereceram-se para hospedar a pesquisadora. Na última semana daquele
mês, convivemos com essa família e em sua casa pudemos acompanhar por seis dias o
cotidiano dos seus doentes. Até o final da pesquisa de campo, outros dois de seus
membros adoeceram de malária.
Portanto, nossa pesquisa compreende esses dois lugares de Nossa Senhora do
Livramento: a Sede da comunidade e a Estrada Nova. A relação dos moradores desses
diferentes lugares com o serviço de saúde é modulada pela organização social da
comunidade de modo amplo e influencia no modo como os moradores apreendem a
atuação do serviço e a confiabilidade atribuída a ele.
Nossos anfitriões, da Sede e da Estrada Nova, não requisitaram nenhum tipo de
pagamento financeiro para a hospedagem; contribuímos com as despesas das famílias
3
Como forma de preservar a privacidade de nossos informantes, substituímos seus verdadeiros nomes por
fictícios.
19
com uma cesta básica para cada semana de hospedagem, bem como assumimos alguns
dos serviços domésticos nas casas, como forma de retribuição à sua hospitalidade.
Realizamos um total de 18 entrevistas, entre moradores e representantes de
instituições locais. As entrevistas ocorreram na casa dos entrevistados ou em seu local
de trabalho, onde a pesquisadora sempre foi bem recebida. Utilizamos o gravador para a
coleta de parte das entrevistas; em outras ocasiões a coleta de dados foi baseada na
observação e diálogos informais, com registro em caderno de campo. Na Sede da
comunidade realizamos sete entrevistas semi-estruturadas gravadas e uma não gravada;
na Estrada Nova, realizamos duas entrevistas semi-estruturadas gravadas e quatro não
gravadas. Realizamos quatro entrevistas abertas, das quais três gravadas.
De um modo geral, tanto as entrevistas semi-estruturadas quanto as abertas
tinham como questões norteadoras a experiência dos moradores com a malária, tanto
quando doentes ou quando cuidando de outro doente. Em suma perguntamos-lhes sobre
prevenção, sintomas, tratamento biomédico, auto-atenção e sobre situações da vida
cotidiana quando doentes. Muitas vezes, as conversas travadas antes e depois dessas
entrevistas eram carregadas de informações preciosas sobre esses temas, bem como
sobre o serviço de saúde e a organização social e política na comunidade. Todos esses
dados foram devidamente aproveitados na redação da dissertação.
As entrevistas com os representantes das instituições locais tinham como
objetivo esclarecer sobre o funcionamento e atuação destas na comunidade, além de
verificar se a ocorrência da malária interferia nos resultados de suas ações ou se requeria
algum direcionamento especial de sua atuação.
Somados a isto, também contaram para nossa pesquisa as muitas conversas
informais tidas com os moradores, anotadas posteriormente em caderno de campo. No
caderno também foram anotadas as observações da pesquisadora em relação às cenas
20
cotidianas, os eventos sociais, à convivência com os moradores e os acontecimentos
relacionados à malária.
Não nos preocupamos com a quantidade do material obtido. Em campo, nos
preocupamos em responder aos nossos objetivos de pesquisa, o qual nos pareceu
suficiente a partir do momento em que as respostas obtidas a partir das diferentes
técnicas alcançaram alguma recorrência.
As entrevistas e o caderno de campo foram transcritos e os dados sistematizados
de acordo com os temas de investigação. Na sistematização dos dados de entrevista e de
observação buscamos confrontar, articular e compreender o que diziam e o que faziam a
respeito da malária, do serviço de saúde e das relações sociais na comunidade.
Para a citação das falas de nossos informantes na dissertação, foi realizada uma
edição que visa facilitar a compreensão do leitor sem, contudo, alterar o sentido do que
foi dito pelos moradores.
Adoecer de malária no Livramento
Nossa pesquisa foi estruturada em um esforço teórico-metodológico para que
fosse possível acompanhar o processo de escolha dos caminhos teórico-metodológicos
que orientaram a construção e delimitação do recorte de nossa pesquisa. Nosso olhar em
campo e a construção do texto partem desses fundamentos.
É no sentido desse esforço que, no Capítulo 1, Saúde, Doença, Itinerário
Terapêutico e Representação Social: revendo conceitos, realizamos uma revisão
bibliográfica que nos permite rever conceitos e discussões da antropologia clássica que
inspiram os estudos de saúde e doença, assim como expõe suas possibilidades de
21
abordagem, avaliando seus limites de acordo com sua capacidade de responder nossas
inquietações.
Apresentamos a fundamentação teórica dos conceitos utilizados no decorrer da
dissertação para compreendermos o processo saúde/doença e atenção dirigidos a malária
na comunidade do Livramento. Articulamos o conceito de itinerário terapêutico,
utilizado para evidenciar as práticas relacionadas à doença, e de representação social,
visando compreender os diferentes quadros sócioculturais aos quais recorrem os
moradores do Livramento para explicar e agir sobre a malária.
Realizamos também uma breve explanação dos modelos etiológicos em
antropologia da doença forjados por Laplantine (2004), que relacionamos
posteriormente às práticas e representações dos moradores sobre a malária. Para o autor,
os modelos etiológicos da doença difundidos no ocidente pela medicina ao longo de sua
história coexistem e informam, explicam e orientam as ações dos indivíduos. Os
indivíduos apropriam-se desses modelos e manejam esse conhecimento para dar sentido
à sua compreensão de realidade.
Compreendido como um fenômeno social total, o processo saúde/doença e
atenção não pode ser, nesse trabalho, descontextualizado da realidade social em que é
produzido. Utilizamos o conceito de redes sociais na tentativa de abordar as vias de
interação dos sujeitos envolvidos no processo em que moradores da Sede do
Livramento e da Estrada Nova desenvolvem relações assimétricas de poder.
No Capítulo 2, A Comunidade Nossa Senhora do Livramento, descrevemos a
história desse lugar contada por seus moradores, dando sentido as configurações sociais
encontradas no cenário local, por ocasião de nossa pesquisa de campo. Notamos uma
assimetria nas relações de poder na comunidade expressas nas redes sociais constituídas
em torno das instituições que atuam na esfera local.
22
Veremos que essa assimetria desfavorece os moradores da Estrada Nova que se
sentem desamparados, inclusive pelo serviço de controle da malária. Tratamos
especialmente das redes sociais articuladas em torno da Associação de Moradores do
Livramento, que intermedeia a circulação da maioria dos benefícios recebidos de outras
instituições, o que termina por favorecer os moradores da Sede.
Nesse capítulo, abordamos também as dificuldades enfrentadas pelos moradores
com as limitações impostas por sua condição de reserva de desenvolvimento sustentável
e suas implicações na vida cotidiana. Muito do que os moradores argumentam como
fatores negativos gerados pela existência da reserva influi na compreensão da
experiência de malária, principalmente, no tocante as limitações de fonte de renda e da
alimentação que é considerada por eles como adequada a um doente de malária.
No Capítulo 3, A experiência do adoecimento: representações e práticas sobre a
malária, consideramos a interação entre os moradores e o serviço de atendimento e
controle da malária e as informações emanadas dele. Descrevemos como esse serviço
concebe a malária e como atua no Livramento, assim como as diferentes visões dos
moradores sobre a sua atuação e a base biomédica de compreensão da doença.
Veremos que os moradores do Livramento se apropriam do conhecimento
biomédico informado pelo serviço de saúde e das suas observações sobre a atuação dele
para elaborar suas concepções sobre a malária, suas causas e terapêuticas, chegando a
um conhecimento diferenciado daquele da biomedicina, de modo inventivo e imbricado
em sua realidade social.
No Capítulo 4, As relações com o sistema biomédico de tratamento da malária,
apresentamos as diferentes relações que os moradores do Livramento estabelecem com
o sistema biomédico de tratamento, considerado por eles como único meio capaz de
curar a doença. Contudo, assim como ocorre com a doença, a compreensão biomédica
23
do tratamento é recolocada para tornar-se congruente com a compreensão de mundo dos
moradores. Desse modo, o tratamento biomédico é manipulado de acordo com o
entendimento que fazem da doença e da cura.
A cura é compreendida por esses moradores de modo amplo e não se encerra
com a alta dada pelo serviço de saúde, que considera curado o indivíduo que não
apresente mais o Plasmodium responsável pela malária, em exame de sangue. Os
moradores consideram que o evento patológico ainda não cessou e dispensam atenção
além daquela recomendada pela biomédica, reinterpretando de modo ativo a
compreensão biomédica sobre o tratamento da doença.
Com nossa pesquisa pretendemos contribuir para o questionamento da imagem
dos moradores de área endêmica de malária, que muitas vezes são individualmente
culpabilizados pelo próprio infortúnio ao assumirem posturas divergentes daquelas
recomendadas pelos serviços de saúde, os quais não costumam considerar os processos
sociais de tomada de decisão sobre a doença e a vida.
24
CAPÍTULO 1
SAÚDE, DOENÇA, ITINERÁRIO TERAPÊUTICO E REPRESENTAÇÃO
SOCIAL: REVENDO CONCEITOS
Esse capítulo faz parte do nosso processo de aproximação com as temáticas da
saúde e familiarização com as categorias específicas da antropologia direcionada ao
tema. A revisão que fizemos nesse capítulo constitui-se na própria maturação do recorte
teórico metodológico pelo qual optamos.
Cremos que realizar uma revisão bibliográfica sobre as possibilidades de análise
em antropologia sobre saúde e doença, bem como de seus limites, serve para que nossas
escolhas teórico-metodológicas sejam circunscritas nesse amplo campo de investigação
e para esclarecer como nosso estudo foi orientado. Nossa pesquisa tem cunho
etnográfico e a construção do olhar que lançamos sobre nosso objeto é fundamental,
pois ele orientou a investigação em campo e a análise dos quais esse trabalho é o
resultado.
Estruturamos este capítulo pretendendo demonstrar como a antropologia clássica
inspira os fundamentos da antropologia da saúde e as suas principais correntes de
análise. Nele apresentamos brevemente as discussões que permeiam a utilização das
categorias e conceitos que articulamos no decorrer de nossa pesquisa.
1.1 BASES DA ANTROPOLOGIA CLÁSSICA NOS ESTUDOS DE SAÚDE E
DOENÇA
A saúde humana contempla dimensões biológicas, sociais, psíquicas e
cosmológicas. Cada um desses aspectos costuma ser trabalhado por enfoques
25
disciplinares distintos. No estudo da relação saúde e doença, a abordagem antropológica
contribui para a relativização dos conceitos biomédicos; para desvendar as estruturas
das estratégias terapêuticas dos sujeitos; para mostrar relações entre saúde/doença e
realidade social; para viabilizar o entendimento da contextualização social que os
sujeitos produzem diante do fenômeno. Tais vertentes de investigação do fenômeno
propiciam o acesso e o reconhecimento das diferentes formas de abordagem dos
processos de saúde e doença (MINAYO, 2006).
O conceito de fato social total de Mauss é explorado nos estudos de saúde e
doença pela característica complexa e totalizante desses eventos na vida social. Segundo
Mauss (2003), os fatos sociais são acontecimentos capazes de mobilizar as instâncias
familiares, técnicas, jurídicas, econômicas e religiosas, articulando, simultaneamente,
fragmentos da realidade social num todo coerente. Ainda que os fatos sociais possam
ser estudados de modo fragmentado, eles estão sempre referidos à totalidade da vida
social.
O fato social total imprime totalidade ao fenômeno da saúde/doença porque
relaciona as esferas sociais às esferas subjetiva e biológica desses eventos, ampliando a
sua compreensão às afetividades e subjetividades, constituídas em suas relações e
crenças refletidas a partir da experiência sobre o corpo. O fenômeno saúde/doença é
carregado de significados da realidade social permite aos grupos refletirem sobre ele.
Essa reflexão se produz por meio de estruturas, cultura e representações expressando
totalidade (MINAYO, 2006).
Em As técnicas do Corpo, Mauss (2003) afirma que o uso do corpo é imposto
pela sociedade aos indivíduos e que o homem faz do seu corpo um produto de suas
técnicas e de suas representações. As suas considerações sobre as especificidades da
corporalidade contribuem para evidenciar que as experiências corporais, do mais
26
ingênuo estilo de caminhar e das etiquetas do comportamento social às experiências
mais dramáticas, como a doença, processos de cura e a morte, não se reduzem a uma
evidência orgânica, natural e objetiva. Elas estão relacionadas às formas culturais e
simbólicas socialmente construídas pelos grupos que as vivenciam.
Em Efeito físico no indivíduo da idéia de morte sugerida pela coletividade
(Austrália, Nova Zelândia), Mauss (2003) demonstra que o medo da morte, em vários
grupos, tem origem social e é capaz de criar manifestações físicas de adoecimento, o
que está relacionado às normas e condutas vigentes em grupo, tais como obediência a
tabus e regras de comportamento social. São casos em que a doença e a morte
acontecem pela não atenção a essas normas sociais.
Essa abordagem de Mauss (2003) enfatiza o uso social da doença para exercer
controle sobre os membros do grupo, o que para o autor, sustenta os indivíduos e
mantém a coletividade. As considerações de Mauss, neste caso, servem para
entendermos que a noção de doença é específica para cada grupo social e que não pode
ser compreendida em totalidade, sem antes ser entendida e associada a essas relações
singulares. O autor sinaliza que a explicação da vida em sociedade está associada
também às esferas psíquicas e fisiológicas.
Em Bruxarias, Oráculos e Magia entre os Azande, Evans-Pritchard (2005)
afirma que as explicações sobre doença ou a morte naquele grupo giraram
essencialmente em torno da feitiçaria. Para os Azande, a concepção da doença e da
morte passava por razões subjetivas e cosmológicas que, por fim, se exprimiam
corporalmente. Ou seja, por alguma razão social ou cosmológica, quebra de tabu ou
conflito, o feitiço aparecia como causa primeira da doença ou da morte.
Evans-Pritchard (2005) chamava essa articulação de lógica situacional, onde a
situação em que se julgava alguém ter sido vítima de feitiço explicava e apontava para
27
uma possível solução do problema. Para o autor, esta lógica situacional era produto de
um sistema de pensamento em ação, porque, a partir da constatação da existência de um
feitiço, se iniciava um processo para combatê-lo ou para revidá-lo.
Para Buchillet (1991), esta lógica situacional é subjacente às representações, aos
comportamentos humanos, à escolha das agências de cura, dos tratamentos e das
estratégias concretas para a resolução de um problema de saúde, porque articula razões
subjetivas, cosmológicas, sociais e, por último, a razão biológica.
Em Introdução à obra de Marcel Mauss, Lévi-Strauss (2003) reitera as
considerações de Mauss sobre a vida em sociedade afirmando que há uma
complementaridade entre o fisiológico, o psicológico e o moral que conformam uma
representação peculiar que retroalimenta a coesão dos grupos.
O pensamento selvagem de Lévi-Strauss (2002) marcou a antropologia ao
demonstrar que existia racionalidade nos grupos considerados primitivos e contestava a
idéia corrente de que seu tipo de pensamento era exclusivamente utilitário, produzindo
conhecimento apenas para suprir a sobrevivência física. Em A ciência do concreto, o
autor afirma que esses grupos produziam um conhecimento baseado em observação e
experiência que servia ao pensamento mais do que à sobrevivência dos grupos e servia à
satisfação de sua racionalidade.
As proposições de Levi-Strauss enfatizam a racionalidade intrínseca do
pensamento nativo. Quando empregadas ao estudo das terapêuticas e das explicações
locais de doença, acentuam a validade de um conhecimento que nasce da experiência e
da vivência. Elas também permitem problematizar o modelo biomédico, tomado como
explicação hegemônica. Nesse sentido, o pensamento de Lévi-Strauss contribuiu para
relativizar os conceitos biomédicos referentes à concepção de saúde, de doença, de
corpo, de terapêuticas e de cuidados (MINAYO, 2006).
28
Em O feiticeiro e sua magia, Lévi-Strauss (1996) afirma que a eficácia das
terapêuticas mágicas depende muito do sistema de crenças que envolve o feiticeiro, o
doente e o grupo social em que ambos coexistem. Existiria uma crença recíproca dos
sujeitos nas competências do primeiro, no desempenho de certos papéis sociais: o
feiticeiro crê na eficácia de suas técnicas, assim como o doente e os membros do grupo;
cada um dos elementos dessa tríade crê no bom desempenho de seus respectivos papéis
sociais. A partilha desse sistema de crenças cria a eficácia simbólica que propicia
eficácia à magia.
Desse modo, podemos pensar que os sistemas terapêuticos, inclusive o
biomédico, dependem da eficácia simbólica criada a partir da crença e da confiança
entre o médico, o paciente e as expectativas do grupo em torno do modelo terapêutico
empregado (MINAYO, 2006).
Em Pureza e perigo, Mary Douglas (1970) corrobora a idéia de que as
categorias saúde/doença e corpo expressam visões particulares de mundo. Segundo a
autora, as nossas visões de mundo influenciam as nossas expressões fisiológicas,
particularmente, quando nos defrontamos com situações que desafiam a ordem social ou
cosmológica que orientam nossas vidas.
Nossas visões de mundo seriam capazes de criar sensações corporais, como por
exemplo, o nojo, diante de uma situação de desordem social ou cosmológica. Desse
modo, as categorias sociais que mediam nosso conhecimento do mundo, também
modelam a experiência física do corpo.
Isto nos inspira a reiterar a importância das interrelações entre o fisiológico, o
social e o cosmológico, pois é através da cultura que atribuímos significados ao vivido,
e é sempre de maneira peculiar que um grupo vivencia os problemas de saúde que
surgem em seus membros.
29
Minayo (2006) afirma que saúde/doença são categorias centrais na vida social,
carregadas de significados que possibilitam a compreensão da visão de mundo dos
grupos, expressas por intermédio dos indivíduos que compõem e compartilham o tecido
social; elas são meios privilegiados para perceber a relação entre os indivíduos e a
sociedade.
Tal premissa vem de encontro ao que Geertz (1989) conceitua como teia de
significados que os indivíduos tecem em grupo e à qual se prendem para produzir
sentidos sobre o mundo e agir nele. Partindo dessa premissa para compreender a saúde e
a doença, é possível afirmar que existem formas culturais que informam a visão sobre o
corpo que adoece, instituem o sujeito enquanto doente para os outros, e exigem dele
comportamentos específicos a serem seguidos.
É o que Minayo (2006) chama de linguagem da doença, que se dirige ao corpo, à
sociedade e às relações sociais de forma histórica, por ser relacionada a um determinado
contexto social.
Para Uchôa (1997):
A abordagem interpretativa vem relativizar o “naturalismo” da
biomedicina, abrir nosso entendimento a outras formas culturais de construir
realidades médicas e demonstrar que não existe correspondência exata entre
os modelos profissionais – que geralmente orientam as intervenções em
saúde – e os modelos culturais – que orientam as percepções e os
comportamentos das comunidades (p.91).
1.2 POSSIBILIDADES DE ABORDAGEM DA ANTROPOLOGIA DA SAÚDE E
DA DOENÇA
No tocante à análise antropológica existem duas correntes principais: A
Antropologia Médica e a Antropologia da Doença, convertida na América Latina para
Antropologia da Saúde. Buchillet (1991) analisa a distinção entre elas segundo as
escolas clássicas da disciplina. Para a autora, existe uma diferença clara entre a
30
Antropologia Médica, influenciada pelas escolas antropológicas de língua inglesa (a
americana e a britânica), e a Antropologia da Doença, influenciada pela escola francesa
no trato da temática.
Segundo Buchillet (1991), a antropologia americana dos anos de 1940
considerava a pesquisa em saúde como antropologia aplicada. Consequência direta
desse direcionamento foi a convocação de vários antropólogos norte-americanos
chamados a participar da implantação de serviços de saúde considerados modernos em
países tidos como subdesenvolvidos.
Garnelo (2009) afirma que essa corrente do pensamento surgiu no centro de um
projeto norte-americano conhecido como Saúde Pública Internacional, traduzido pela
autora como uma das faces da intervenção neocolonialista daquele país na América
Latina. Tratava-se de uma política desenvolvimentista que se esforçava em inserir essas
populações no mercado consumidor e afastá-las dos movimentos sociais ligados às lutas
de classe, numa polaridade característica do antagonismo gerado na guerra fria entre
regimes capitalista e comunista na época.
Uma das formas de atuação dessa política foi a intervenção em saúde e
educação nos países considerados subdesenvolvidos. Os antropólogos facilitariam essa
intervenção por meio dos chamados estudos de comunidade, que visavam conhecer a
organização sócio-cultural das populações a fim favorecer a implantação do sistema
ocidental de cuidados médicos (GARNELO, 2009).
A antropologia americana realizou estudos desse tipo com populações
camponesas do México, da América Central, da América Latina e, posteriormente, com
as minorias indígenas, negras e hispânicas dos Estados Unidos. Dessa fase, podemos
citar a equipe de Charles Wagley, que realizou os primeiros estudos sobre populações
amazônicas não-indígenas, com o objetivo de implantar o Serviço Especial de Saúde
31
Pública (SESP) na região, e resultou em obras como Uma Comunidade Amazônica
(1988), marcada por um forte viés culturalista.
Esse tipo de abordagem não problematiza a hegemonia da medicina ocidental,
nem sua validade em outros contextos sócio-culturais e nem sua aplicação como meio
de dominação de uma sociedade sobre a outra. Para Garnelo (2009), essa vertente da
antropologia médica aplicada está carregada de juízo de valor, ao privilegiar o moderno
e científico, em detrimento do tradicional e não científico, de tal modo que o
conhecimento antropológico seria usado para empreender o ajustamento dessas
populações às sociedades modernas, baseando-se na noção preconceituosa da
superioridade do modo de vida ocidental.
Garnelo (2009) afirma que a antropologia médica dessa época caracterizava-se
pela descrição simplista e empiricista, displicente com os processos históricos, políticos
e sociais. Desse modo, os processos tradicionais de saúde, doença e cura analisados de
maneira descontextualizada, produziram explicações limitadas que não permitiam
apreender o sentido das racionalidades intrínsecas a outras matrizes culturais e,
tampouco, a aplicação de suas conclusões a outras realidades.
A autora identifica nesses enfoques a ênfase no discurso de que a boa saúde
dependia do sucesso da adaptação dos homens ao meio ambiente e à sociedade. Esses
estudos não questionavam a assimetria estrutural nas relações de poder que permeiam a
atuação médica. Além disto, sua intervenção reforçava a idéia de hegemonia da
medicina ocidental e da irracionalidade das práticas tradicionais.
Somente a partir da década de 1960, a antropologia aplicada à saúde norte-
americana passou a ser denominada como Antropologia Médica. Buchillet (1991)
identifica quatro eixos principais de pesquisa na escola americana:
32
1) “O estudo da relação entre a incidência e a distribuição das doenças
(epidêmicas ou endêmicas) e as variáveis ambientais e/ou sócio/culturais: é a
epidemiologia, também chamada de “ecologia médica” nos Estados Unidos”, (p.22). A
epidemiologia estabelece relações entre certos hábitos, modificações do meio ambiente
em conseqüência da atividade humana e o surgimento de certas doenças;
2) O estudo das relações estabelecidas em torno dos cuidados em instituições
médicas, tais como a relação entre médicos e pacientes ou entre estes e outras categorias
profissionais em saúde;
3) O estudo de problemas de saúde em geral, que explicitam os aspectos do
comportamento humano, seja no que diz respeito a grupos sociais específicos, seja no
tratamento de problemas contemporâneos, como a AIDS ou como o alcoolismo;
4) E, por fim, a etnomedicina, considerada por Buchillet (1991) como a mais
antropológica das vertentes americanas porque “tenta estabelecer uma relação entre as
representações ligadas as doenças ou ao seu tratamento com a cultura e a organização
social das populações consideradas” (p. 23). A etnomedicina tem ampliado o seu campo
de estudos, inclusive sobre a medicina alopática contemporânea e sua eficácia
simbólica.
De um modo amplo, a antropologia americana tem como marca o enfoque
culturalista em suas abordagens. Por outro lado, a antropologia britânica é marcada pela
predominância do tratamento funcionalista do tema, exemplificado no seu entendimento
das representações sociais como via de acesso privilegiado a um funcionamento,
supostamente coerente, das sociedades. Buchillet (1991) sugere que essas características
estendem-se aos estudos de saúde/doença comprometendo a sua abordagem em
totalidade.
33
Garnelo (2009) também vê a antropologia médica americana como
excessivamente ampla e pouco consistente ao considerar suas possibilidades de
abordagens e interesses diversos. Como exemplo, cita os estudos centrados na análise
da prestação de serviços em sistemas médicos ocidentais. Nesse caso, a antropologia
americana mostra-se dedicada a temas de epidemiologia, clínica, saúde mental, abuso de
drogas, treinamento de pessoal de saúde, burocracia estatal, relação médico-paciente
etc.
Essa escola teria como uma de suas características principais a abordagem de
problemas da sociedade ocidental. Mesmo nas linhas que tratam das sociedades
tradicionais, a análise descontextualizada das concepções de saúde, doença e cura não
daria o devido crédito ao caráter social destas concepções e as faria parecer irracionais,
produtos da mera superstição (GARNELO, 2009).
Buchillet (1991) afirma que a antropologia francesa trata mais adequadamente a
temática da saúde/doença. Buchillet (1991) e Garnelo (2009) salientam que a linha de
pensamento da antropologia francesa articula as representações de saúde e doença ao
contexto social onde elas são produzidas, de modo a reconhecer a sua racionalidade.
Garnelo (2009) afirma que, com essa abordagem, a antropologia francesa tanto
contribui para a relativização da hegemonia da medicina ocidental, quanto para
superação das polaridades entre moderno/tradicional, lógico/ilógico, científico/não-
científico, enfatizadas pela antropologia médica.
Nesse modelo de abordagem, prima-se pelo reconhecimento de diferentes
quadros da doença que coexistem e informam o grupo social. A explicação e
intervenção dos indivíduos sobre si é o resultado da interação entre os sujeitos sociais,
grupos e/ou indivíduos e as agências de cura, envolvidos no processo de adoecimento.
A partir das interpretações e dos comportamentos dos indivíduos diante do fenômeno da
34
doença é possível demonstrar a racionalidade do pensamento tradicional (BUCHILLET,
1991).
A Antropologia francesa denomina esses estudos como Antropologia da Doença
para enfatizar o trato antropológico das representações e práticas ligadas à doença e a
sua abordagem nas sociedades tradicionais. Do ponto de vista político, essa
denominação também é eficiente para distinguir os campos de pesquisa da medicina e
da antropologia nos estudos sobre a doença, a primeira caracterizada pela perspectiva
ocidental e a segunda pela abordagem holística.
Na antropologia médica norte-americana não há uma atribuição clara da
formação dos profissionais que realizam estudos antropológicos, os quais tem sido
realizados tanto por profissionais da biomedicina, quanto por antropólogos
(BUCHILLET, 1991).
A antropologia francesa privilegia o sentido e a causalidade como categorias
explicativas dos sistemas médicos tradicionais. Garnelo (2009) afirma que o estudo da
causalidade é um dos pontos mais importantes desse tipo de abordagem. O
entendimento dos níveis de causalidade tem implicações nas escolhas terapêuticas (os
chamados itinerários terapêuticos) que articulam as formas pelas quais os grupos sociais
apreendem os sintomas e lhes atribuem sentido.
Para Garnelo (2009), a doença e o infortúnio estão imbricados nas sociedades
tradicionais e remetem às relações sociopolíticas dos homens tanto quanto às relações
com a natureza. A antropologia da doença atribui um nível de causalidade a cada uma
das esferas: o biológico, o social e o cosmológico. Nessa corrente, não há separação
entre esses níveis de causalidade na concepção da doença.
É inegável que a biomedicina tenha influenciado boa parte das representações e
práticas nos grupos sociais com os quais manteve forte contato. A medicina ocidental
35
isolou a doença e o corpo biológico dos indivíduos separando-os de seus aspectos
sociais e cosmológicos, num tal isolamento que permitiu à medicina um profundo e
específico conhecimento sobre o corpo humano (BUCHILLET, 1991). Mas essa
característica materialista da medicina é uma das fortes razões pelas quais as populações
continuam a exercer seus modos tradicionais de cura, dada a incapacidade da
biomedicina em explicar o infortúnio e o sofrimento (GARNELO, 2009).
Por outro lado, na abordagem francesa da doença comumente há um eixo
funcionalista que enfatiza a reprodução de representações sociais de saúde e doença, em
estudos que não valorizam as contradições, as incoerências, os conflitos e a dinâmica
das transformações das práticas sociais (GARNELO, 2009).
No Brasil, os estudos das ciências sociais em saúde têm como marca, a
recomposição de novos campos de pesquisa em um esforço pluri ou interdisciplinar que
investe na articulação dos aspectos biológicos e sociais do fenômeno saúde/doença. É
este o sentido que assume ao aparecer como tema de Saúde Coletiva, considerada como
inovação brasileira na concentração de esforços para realizar a pluri ou
interdisciplinaridade. Embora existam dificuldades na sua efetivação, inclusive no que
tange às próprias ciências sociais, isto não impede a tentativa e o esforço para fazê-lo
(CANESQUI, 1997).
A Saúde Coletiva tem como marca, em pelo menos uma de suas vertentes,
... a oposição crítica ao naturalismo do saber médico hegemônico, no
qual as ciências sociais foram convocadas a proceder em sua integração com
o biológico, evidenciando tentativas de explicar a multicausalidade do
processo saúde e doença, pela associação dos fatores biológicos, e ambientais
a outros de natureza socioculturais (CANESQUI, 1997, p.13).
Leite e Vasconcelos (2003) identificam que nos estudos de Saúde Coletiva há
certa dificuldade em colocar o paciente como sujeito da ação. Em nenhum estudo é
considerado o direito do paciente de decidir sobre o seu corpo e sobre o tratamento que
36
lhe é imposto. Do mesmo modo, os saberes que ele produz sobre a doença e a sua
representação não são valorizados como conhecimentos, mas, de modo pejorativo, são
descritos como senso comum, beirando o irracional.
As autoras afirmam que é preciso considerar o papel do paciente no processo de
saúde-doença e tratamento. Muitos estudos no campo dos medicamentos ainda
desconsideram o paciente, ou o responsável por sua saúde, como ser social, dotado de
expectativas, conhecimentos, interesses, e que tem valores sócio-culturais produtores de
sentidos e ressignificações a respeito da adesão ou da recusa ao uso medicamentoso,
particularmente em processos de adoecimento crônico. O paciente é referido como um
espaço, o lócus onde um medicamento deve agir.
1.3 PROCESSO SAÚDE/DOENÇA E ATENÇÃO: DELIMITAR UM
PROBLEMA
Apresentados os dois principais eixos de abordagem no trato antropológico do
fenômeno saúde/doença, enfatizamos nossa predileção por aquela que preza a
articulação das representações e práticas sociais, considerando a imbricação, nem
sempre coerente, dos níveis de causalidade com o processo de escolha das terapêuticas
na busca de solução para o problema de saúde.
Nosso trabalho tem como objetivo descrever o adoecimento de malária na
comunidade Nossa Senhora do Livramento, em Manaus, Amazonas, como um processo
social que envolve tanto as representações sociais e práticas da doença, quanto o
contexto social em que é produzido, onde pesa a atuação do serviço de saúde e a
apropriação de conhecimento e de práticas biomédicos por seus usuários. É nesse
37
sentido que observamos o processo saúde/doença e atenção dirigidos à malária naquela
comunidade.
Um dos conceitos utilizados para a compreensão desse processo é o itinerário
terapêutico, aqui entendido como o processo de escolha e utilização de terapêuticas
visando sanar, amenizar ou controlar um problema de saúde, desde a constatação de
uma desordem até a procura por um ou mais tipos de tratamento (BUCHILLET, 1991).
A escolha dos itinerários pelos indivíduos é definida de acordo com os níveis de
causalidade elaborados a cerca da doença e, dependendo do contexto em que os
itinerários são produzidos, acionam diferentes interpretações sobre ela (BUCHILLET,
1991). Para Buchillet (1991), esse conceito esclarece a lógica implícita às
representações e às práticas dos indivíduos porque expõe suas ações terapêuticas como
um processo socialmente construído.
Entretanto, para a autora, não é o controle do problema de saúde que define a
eficiência de uma escolha terapêutica; e o fracasso de um tratamento na supressão dos
sintomas não põe em questão determinada estratégia terapêutica. Nas sociedades
tradicionais, a noção de eficácia terapêutica abrange esferas que vão além da superação
do quadro sintomático da doença. Com freqüência expressam as lógicas que operam no
âmbito dos sistemas explicativos da doença e de entendimento do mundo para além da
explicação da doença e da saúde.
Para Menéndez (2003), o processo de busca pela cura,
... es el medio a través del cual los sujetos y sus grupos evidencian su
capacidad de acción, de creatividad, de encontrar soluciones, y en
consecuencia es un mecanismo potencial – y subrayo lo de potencial – de
afianzamiento de ciertos micropoderes, asi como de la validez de sus propios
saberes. (p.204)
Para Alves e Souza (1999), o itinerário terapêutico permite caracterizar as
escolhas individuais, também por meio da análise das terapêuticas disponíveis, dos seus
38
modelos explicativos e da utilização das agências de cura pelos sujeitos. Contudo, os
autores enfatizam que sua análise consiste na articulação destas esferas com o contexto
social em que o itinerário é produzido. Consideram que as trajetórias individuais
ocorrem a partir de um leque de possibilidades socioculturais, que permitem elaborar e
selecionar estratégias específicas que podem ser, não raro, até mesmo contraditórias.
Segundo os autores, as análises de itinerário terapêutico precisam relacionar as
experiências, as trajetórias e projetos individuais produzidos num contexto histórico,
social e cultural, que é específico para cada sociedade, ou seja, definir a situação e a
natureza das relações intersubjetivas no processo de escolha. Para Alves e Souza
(1999):
... o itinerário terapêutico é o resultado de um determinado curso de
ações, uma ação realizada ou o estado de coisas provocado por ela.
Estabelecido por atos distintos que se sucedem e se sobrepõem, o itinerário
terapêutico é um nome que designa um conjunto de planos, estratégias e
projetos voltados para um objeto pré-concebido: o tratamento da aflição. No
curso dessas ações, evidentemente, fazem-se presentes interesses, emoções e
atitudes circunstanciais. Segundo: o itinerário terapêutico não é
necessariamente produto de um plano esquematizado, pré-determinado [...]
(p.133).
Para Menéndez (2003), o itinerário terapêutico é considerado parte de um
processo mais amplo definido por ele como auto-atenção e costuma se desenvolver em
relação, direta ou indireta, com a biomedicina. Isto se deve ao fato da busca pela cura
estar relacionada à oferta de diferentes formas de atenção à saúde.
Menéndez (2003) afirma que no contexto latino-americano, as duas principais
formas de atenção são a biomédica e a auto-atenção. A relação entre elas seria
aparentemente conflituosa, especialmente, do ponto de vista da biomedicina e de seus
serviços de saúde que relegam a auto-atenção a uma condição marginal. Contudo, o
autor verifica que, no nível prático, os grupos sociais tendem a integrar formas de
atenção diversificadas.
39
Para Menéndez (2003), a auto-atenção é a unidade básica do processo
saúde/doença e atenção porque é capaz de sintetizar as ações dos indivíduos e grupos
sociais neste processo. A auto-atenção amplia o alcance das ações dos indivíduos e
grupos para além do momento da doença e da busca pela cura, incluindo as ações
preventivas e as diferentes formas de atenção. O autor define auto-atenção como:
... las representaciones y prácticas que la población utiliza a nivel de
sujeto y grupo social para diagnosticar, explicar, atender, controlar, aliviar,
aguantar, curar, solucionar o prevenir los procesos que afectan su salud en
términos reales o imaginarios, sin la intervención central, directa e
intencional de curadores profesionales, aun cuando estos pueden ser la
referencia de la actividad de autoatención; de tal manera que la autoatención
implica decidir la autoprescripción y el uso de un tratamiento en forma
autônoma o relativamente autónoma. Es decir que la autoatención refiere a
las representaciones y prácticas que manejan los sujetos y grupos respecto de
sus padeceres, incluyendo las inducidas, prescriptas o propuestas por
curadores de las diferentes formas de atención, pero que en función de cada
proceso específico, de las condiciones sociales o de la situación de los sujetos
conduce a que una parte de dicho proceso de prescripción y uso se
autonomice, por lo menos en términos de autonomia relativa (p. 198).
Menéndez (2003) chama atenção para o conceito de auto-cuidado, comumente
apresentado como correspondente de auto-atenção. Segundo o autor, a biomedicina e o
sanitarismo utilizam auto-cuidado na descrição de ações desenvolvidas individualmente
e ressaltam a prevenção dentro dos parâmetros considerados positivos para a saúde. Já a
auto-atenção é caracterizada por Menéndez como uma forma de valorização da
autonomia social coletiva; desse modo, tanto o auto-cuidado quanto a auto-medicação
seriam partes integrante da auto-atenção.
Visando compreender o processo saúde/doença e atenção também utilizamos o
conceito de representação social, aqui entendida como um quadro de referência cultural
em constante processo de construção e de significação. Por um lado, os sujeitos
constroem significados para os acontecimentos e possibilidades da vida, para explicar e
dar sentido a ela, o que envolve suas capacidades criadoras, ativas e inventivas. Por
outro, essas representações são compartilhadas pelo grupo social com o qual os sujeitos
40
compartilham uma cultura, aqui entendida como um conjunto de significados vividos
socialmente (SPINK, 1993).
Para Canesqui (1997), o uso do conceito nos estudos das ciências sociais sobre
saúde/doença suscita tensões no plano do conhecimento entre objetivismo e
subjetivismo, estrutura e ação, micro e macroanálise, indivíduo e sociedade, estão
presentes nos estudos das ciências sociais em saúde. No que concerne aos tipos de
abordagem do conceito, podem enveredar pela análise mais pragmática das práticas de
saúde ou por aquelas relacionadas à subjetividade da questão.
Tal dicotomia tem suas bases nessas duas correntes de pensamento
aparentemente antagônicas. Dado seu caráter totalizante, a temática da saúde comporta
tanto as abordagens objetivistas quanto subjetivistas, porém existe uma dificuldade de
articulação entre elas. Canesqui (1997) afirma que essa dificuldade não implica em uma
crise insuperável, mas no desfio de se produzir práticas capazes de articulá-las na
análise do tema.
Gomes e Deslandes (2004) sugerem que a interpretação dos significados das
ações sociais, observáveis no processo saúde/doença e atenção, tanto podem ter
significações diferenciadas para profissionais da saúde e para usuários desses serviços,
quanto podem ser produzidas e reproduzidas no encontro dessas duas óticas.
Para os autores, a análise das representações visa compreender o significado
atribuído pelos sujeitos aos fatos, relações e práticas, avaliando tanto suas interpretações
quanto suas práticas. Nesse sentido, a composição da representação consiste em
interpretar a interpretação dos sujeitos da ação.
Contudo, os autores enfatizam que essa interpretação não deve resumir-se
naquilo que foi efetivamente dito pelos sujeitos. A interpretação do pesquisador sofrerá
a influência das leituras e teorias que elegeu para entender a relação estudada e isto
41
configurará sua análise da representação social do grupo; o que ocorre em campo deve
fazer parte da construção da interpretação do pesquisador. A análise, nesse caso, é a
própria construção do processo de compreensão da representação social do grupo.
Segundo os autores,
... a interpretação não é uma reprodução, mas uma construção
negociada do sentido dado pelo autor e pelo intérprete, preterindo a idéia de
descoberta ou de tradução mais ou menos literal dos significados atribuídos
pelos sujeitos (GOMES; DESLANDES, 2004, p.109).
A construção da representação enquanto a análise do pesquisador baseia-se nas
conexões entre as situações concretas, falas e práticas, que situam essas manifestações
em um dado sistema sócio-simbólico.
Os processos de adoecer são carregados de significados interpretáveis. Primeiro,
porque reconhecem culturalmente a doença e o doente; segundo, porque produzem
explicações para as origens da doença e para o sofrimento; e por fim, porque mobilizam
a ação social em busca das ações terapêuticas (MINAYO, 2006).
Para Gomes e Mendonça (2002), a doença precisa ser entendida com base nas
representações sociais e a ela relacionada e na compreensão de como tais representações
são utilizadas, modificadas e ancoradas num conjunto de experiências acerca da doença.
1.3.1 Modelos etiológicos em antropologia da doença
Muitas das representações da doença estão referenciadas em modelos
constituídos da medicina, elas tanto são a expressão de permanências culturais quanto o
lócus da multiplicidade, da diversidade e da contradição - são campos socialmente
estruturados porque fruto dos contextos criados pela comunicação da medicina, pela
história e pelo imaginário social (SPINK, 1993).
42
Os modelos etiológicos elaborados por Laplantine (2004) sobre o modo como a
medicina interpretou a doença no decorrer da história são apenas de caráter operatório,
dado que não substituem à realidade empírica, mas ajudam a compreendê-la porque
abstraem as representações a fim de operar sobre o processo saúde/doença e atenção, e é
nesse sentido que serão utilizados em nosso trabalho.
As interpretações da doença ao longo da história das sociedades, embora pareça
seguir uma escala evolutiva, no sentido em que avançam, seguem uma tendência de
permanência. E estão longe de serem superadas porque coexistem a partir dos sistemas
de representações que atuam tanto nos procedimentos médicos cotidianos, quanto em
sua apropriação pelas populações (LAPLANTINE, 2004).
Discorreremos resumidamente sobre alguns dos modelos etiológicos elaborados
por Laplantine (2004) destacando alguns de seus aspectos, intencionando compreender
a sua presença no Livramento, nos níveis representacionais e práticos acerca da malária.
Os modelos foram elaborados em pares aparentemente opostos e até contraditórios:
Modelo Ontológico e Modelo Relacional (ou Funcional); Modelo Exógeno e Modelo
Endógeno; Modelo Aditivo e Modelo Subtrativo; Modelo Maléfico e Modelo Benéfico.
Dentre esses destacaremos o Modelo Ontológico, centrado na idéia de um “ser”
da doença, algo externo que adentra ou é adicionado ao indivíduo. Nele, as
representações são orientadas pela ontologia médica “erudita” do ocidente que enfatiza
o aspecto físico dos corpos. Esse modelo parte do dualismo cartesiano, que separa a
alma do corpo, e destina a metafísica como via de abordagem para a primeira e a física
para o segundo. Esta última atribuição é difundida, posteriormente, com a exploração da
anatomia e com as descobertas microbiológicas de Pasteur. Laplantine (2004) afirma
que o modelo ontológico é dominante no ocidente e constrói sistemas de representações
43
veiculados por ela, constituindo-se nas interpretações “eruditas” e nas reinterpretações
“populares” dessa medicina.
O autor identifica três tipos de abordagem no modelo ontológico denominados
de medicina das espécies, medicina das lesões e medicina das especificidades. A
medicina das espécies parte do “essencialismo”. Este foi durante muito tempo, segundo
Laplantine (2004), o modelo epistemológico de referência da medicina: o de catalogar
as doenças em famílias, gêneros, espécies e sub-espécies, seguindo o exemplo da
classificação botânica.
O essencialismo médico isola a doença a partir do doente e classifica as doenças
em espécies. Para Laplantine, isto se explica porque as ciências médicas e naturais têm a
mesma origem histórica, para o autor, “... o saber médico ocidental é fundamentalmente
biológico” (LAPLANTINE, 2004, p.50).
A medicina das lesões é traduzida como o anatomismo (ou solidismo) e a
anatomopatologia. Essa abordagem médica não se centra no “ser” da doença, mas nos
danos “orgânicos”. Cada alteração funcional se traduz por uma expressão sintomática,
corporal, que corresponde necessariamente a uma alteração orgânica e, a partir dela,
procura-se a localização da doença no corpo humano. Para esse pensamento, não existe
etiologia que não possa ser explicada pela anatomia (ou que ela não poderia explicar no
futuro) (LAPLANTINE, 2004).
A medicina das especificidades seria um dos pilares do pensamento médico
contemporâneo e parte do princípio de que o “ser” da doença, que provoca lesões
traduzidas em sintomas, tem sempre uma causa específica. Mas, a partir das descobertas
da bacteriologia, as representações da doença são apreendidas segundo as categorias de
entrada e saída de agentes do corpo. O modelo terapêutico correspondente consiste em
44
restituir o que foi perdido ou em extrair o que entrou – a intervenção comumente será
mais agressiva que a própria doença.
No modelo etiológico Relacional (ou Funcional), a medicina centra suas
atenções no homem doente e os sistemas de representações são conduzidos de modo
relacional em termos fisiológicos, psicológicos, cosmológicos e sociais. O normal e o
patológico são pensados em termos de harmonia e desarmonia e a doença é considerada
um desarranjo por excesso ou falta. As representações advindas desse modelo opõem
uma compreensão danosa a uma compreensão funcional e uma compreensão
substancialista a uma compreensão relacional, e à noção de espaço a noção de
temporalidade.
Nesse modelo, Laplantine (2004) destaca a doença como ruptura do equilíbrio
entre o homem e ele mesmo, identificadas pela medicina humoral, para a qual os
sintomas são apreendidos como variações dos quatro humores constituídos por sangue,
fleuma, bílis amarela e bílis negra e não como efeito de um agente patogênico estranho
ao doente.
Nesses termos, a saúde resultaria do equilíbrio proporcional entre os humores, e
a doença à falta ou ao excesso de um deles. Está ligada à noção de que cada indivíduo é
caracterizado por uma particularidade de equilíbrio desses humores e também pela
predisposição a certo desequilíbrio igualmente particular, desse modo, cada individuo
estaria predisposto às suas próprias doenças.
Outra variante dessa vertente é a fisiopatologia, onde o organismo é apreendido
de maneira dinâmica e funcional e, desse modo, se considera os órgãos apenas em sua
função no organismo. A causa da doença é buscada no esforço do organismo para
responder a um agente patogênico centrando a atenção correlativamente na desordem
das funções que seriam as responsáveis pelas lesões anatômicas, e não o inverso. A
45
doença é a própria função fisiológica desviada por aumento ou diminuição própria da
natureza da vida, pois ela tende a funcionar normalmente e também a se alterar
dirigindo-se naturalmente à morte.
No Modelo Exógeno, a doença é representada pela intervenção exterior acidental
que atua de modo real ou simbólico, possuindo duas significações primárias: a) a
doença tem origem na vontade má de um poder antropomorfo ou antropomorfizado,
conhecidos como sistemas personalistas: feiticeiro, gênio, espírito, Deus, ou por meio
da intervenção do destino. Os processos patológicos e terapêuticos são pensados em
termos das relações humanas ou supra-humanas e a medicina é vista como uma
sociomedicina; b) a doença tem origem em um agente nocivo considerado como natural;
essas explicações são conhecidas como sistemas naturalistas que expressam uma
compreensão biomédica ou ecomédica da doença, como, por exemplo, a relação do ser
humano com o meio físico (como a influência geográfica, climática e meteorológica, as
condições ecológicas de existência) ou a relação do ser humano com o meio químico e
bioquímico (como o alimento, fraco demais ou forte demais, mal equilibrado ou “não
natural” agindo sobre o organismo).
Laplantine (2004) afirma que, para o pensamento médico ocidental
contemporâneo, tanto erudito quanto popular, a atribuição etiológica é orientada em
dois sentidos principais, contrários e até mesmo contraditórios: uma causalidade
química e uma causalidade social.
No Modelo Endógeno, a doença é deslocada de um agente patogênico externo
para o uma causa que parte do seu próprio corpo. Essa abordagem compreende ao
mesmo tempo, as noções de temperamento, de constituição, de disposições e pré-
disposições, de tipo de caráter ou astral, de natureza, de organismo, de campo e de
hereditariedade. Isto se configura na definição de “espontaneidade mórbida”, que
46
considera que uma infecção jamais é acidental, os microorganismos parasitários só
podem se desenvolver a partir de predisposições orgânicas específicas.
Laplantine (2004) relaciona o par ontológico/funcional e o par
exógeno/endógeno:
... a variante ontológica (ou relacional) do modelo exógeno (ou
endógeno) poderá ser, por sua vez, considerada um modelo: assim, ela se
tornará o modelo ontológico (ou relacional) comportando variantes (dessa
vez, endógenas, exógenas) que se diversificam em vários casos (p. 89).
O autor enfatiza que essas bipolaridades são uma ficção operatória constituindo-
se em abstrações que não advém de uma distinção científica, pois a doença pode ser
simultaneamente pensada nos dois registros, para médicos e paciente e existe sempre
uma correspondência possível entre os modelos.
O Modelo Aditivo é mais frequentemente encontrado em compreensões
cosmológicas religiosas da doença, como a compreensão cristã da doença como punição
do pecado. Dentre as possibilidades operatórias do modelo, destacamos a representação
da doença mais por sua vivencia do que por sua ausência. Ter a doença, ou um de seus
sintomas, implica em carregar consigo algo que não lhe pertence, mas que invadiu o
corpo e precisa ser carregado. Porém, não de modo simbólico, mas irremediavelmente
concreto.
Para Laplantine (2004), as representações dominantes da medicina não diferem
muito das populares. Para o autor, afirmar que a doença é um corpo estranho que
precisa ser expulso, ou uma presença inimiga a ser eliminada, implica em não ter uma
distinção claramente demarcada entre a patologia feiticeira e a microbiologia de Pasteur.
Muito do conhecimento popular sobre a doença está referenciado em modelos de
pensamento médico que circulam nas sociedades onde a medicina ocidental se faz
presente. As representações recorrem aos vários modelos de modo situacional, quando
47
buscam dar sentido aos eventos da enfermidade. Do mesmo modo, operam as
terapêuticas.
1.4 REDES SOCIAIS E SERVIÇOS DE SAÚDE
O conceito de saúde/doença e atenção entendido como o processo pelo qual se
constroem as representações sociais a respeito da saúde e da doença e o trajeto
planejado para obtenção de possível cura flui por meio das interações sociais, em suas
esferas formais e informais, característica das relações humanas (ALVES; RABELO,
1998b).
As representações sociais e as práticas em torno da doença são negociadas
durante esse processo e referenciadas também em termos das relações sociais em torno
do serviço de saúde e sua atuação. Para dar conta dessas relações, utilizamos o conceito
de redes sociais.
Para Fontes (2004) as redes sociais são instrumentos de análise que reconstroem
os processos interativos dos indivíduos e sua filiação a grupos a partir das interconexões
pessoais construídas cotidianamente. É um conceito que articula, na prática, a relação
entre indivíduo e sociedade.
Para Martins (2004), o conceito de rede social valoriza a força da associação
entre os homens como recurso explicativo dos movimentos coletivos e espontâneos,
sem limitar a explicação do fato social à liberdade individual ou à imposição do coletivo
sobre o individual, como o faz o funcionalismo. Nesse sentido, congrega,
paradoxalmente, a ação do indivíduo e a da sociedade sobre ele. Trata-os como aspectos
divergentes de uma única realidade – relembrando Mauss (2003), o autor afirma que os
vínculos sociais, como os fatos, são totais.
48
Para Martins (2004), a estruturação das relações sociais escapa a essas esferas
aparentemente dicotômicas e, desse modo, obrigação e liberdade compõem um
paradoxo que longe de ser contradição é a expressão polarizada da complexa realidade
social.
O autor elaborou um conceito de relés de redes que permitiria compreender que
cada ator social tende a se inscrever em diferentes círculos de troca, num movimento
permanente, em que as redes tanto geram novos quanto renovam os antigos; os relés de
redes seriam redes de redes. Desse modo, os autores elaboram uma tipologia de redes
que na prática da vida social compõem um cenário complexo de relés, pois existem e
atuam de modo entrecruzado. O conceito de relés de redes pretende abarcar o
dinamismo e complexidade da vida social em redes. São:
- rede sóciotécnica, que aparecem no plano das organizações formais;
- rede sócio-institucional, que se reportam às parcerias entre as agências
governamentais e não-governamentais;
- rede sócio-humana, que se articula num plano pré-político por meio de
famílias, vizinhanças, amizades e camaradagens; permite que os indivíduos se
socializem e adquiram lugar no interior do grupo de pertencimento – esse tipo de rede é
estruturante da vida social.
Para Martins (2004), é no plano da ação direta onde nascem as redes sócio-
humanas, tidas como o princípio das outras redes e que são fundamentos de esferas
públicas e participativas. O uso do conceito de rede social considera a autonomia da
sociedade, que funciona por regras próprias diferentes daquelas do estado e do mercado,
onde as regras são pensadas racionalmente de modo a enquadrar os indivíduos e grupos
sociais em lugares pré-determinados. Para os autores, a instituição típica do social é a
rede interativa.
49
Segundo Fontes (2004), foi a partir da tentativa de valorização dessas redes em
esfera local que a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) pensada a partir da
Constituição de 1988, iniciou um processo de descentralização das políticas públicas
sanitárias e de saúde dos governos federal e estadual para a esfera municipal. A
introdução de mecanismos de participação popular tentou aproximar as agências
públicas das populações a que deveriam atender produzindo justiça social nas decisões
das políticas e na fiscalização de sua execução.
É nesse contexto que aparece a figura do agente comunitário de saúde cuja
principal característica é ser membro da comunidade assistida e cuja função é introduzir
a prática médica no cotidiano das famílias, principalmente, com o caráter pedagógico de
reforço de recomendações de higiene, profilaxia e cuidados preliminares para o
encaminhamento ao profissional de saúde.
Para Fontes (2004),
... boa parte dos benefícios resultantes do trabalho dos agentes de
saúde provém do fato de ele introduzir na prática médica o espírito da
comunidade que encarna, a publicização dos problemas que logo descobre
não serem de exclusiva natureza individual. Muitos são resultantes de
estruturações de sociabilidade particulares daquela comunidade (p.130).
Acreditamos que é justamente porque encarna o espírito da comunidade em que
convive, a atuação dos agentes de saúde pode ser também problemática. Não apenas
desse profissional como articulador individual de suas próprias práticas, mas das redes
sócio-técnicas estabelecidas a partir das unidades do serviço de saúde atuantes nas
esferas locais por meio de seus profissionais.
De um modo geral, a atuação das redes sóciotécnicas ocorre de modo
entrecruzado com as redes sócio-humanas. Desse modo, as redes sociais podem vir a
centralizar certas ações institucionais, como as de saúde, pois os profissionais do setor
50
trazem consigo suas redes e sua experiência na interveniência dos locais onde vivem
(FONTES, 2004).
Os processos que estruturam as redes sociais têm como origem as interações
entre os indivíduos, dadas por meio da estrutura social presente em cada um dos atores
de uma interação (FONTES, 2004). Essa estrutura, por sua vez, tem como base
interesses diversificados, e está organizada em campos sociais por onde circulam tipos
de conhecimentos específicos, como no caso de nosso objeto, sobre doenças como a
malária e as terapêuticas dirigidas à ela.
A compreensão desses processos é importante para o estudo do fenômeno
saúde/doença e atenção, porque possibilita correlacionar, nessa pesquisa, a atuação das
redes sociais com o contexto social – a comunidade Nossa Senhora do Livramento e
seus moradores – onde os eventos relacionados à malária e ao serviço de saúde são
produzidos.
51
CAPÍTULO 2
A COMUNIDADE NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO
Nesse capítulo, apresentamos a comunidade4 Nossa Senhora do Livramento,
buscando descrever esta cena social e suas interrelações com a produção do processo
saúde/doença e cuidados dirigidos à malária. Analisaremos inicialmente as formas de
organização da comunidade, suas relações sociais, formais e informais, com um olhar
diferenciado para a atuação das instituições que operam na esfera local.
O processo saúde/doença e atenção, entendido como um fenômeno social não
pode ser compreendido em totalidade se for analisado de forma dissociada de uma
contextualização social, visto a importância que isto tem para a compreensão dos
problemas suscitados pela ocorrência da malária (GONÇALVES, 2002).
O Livramento está localizado à margem do igarapé Tarumã-Mirim, afluente da
margem esquerda do rio Negro, sendo considerada zona rural de Manaus. Distante
apenas sete quilômetros da cidade, o seu acesso se dá exclusivamente por via fluvial. A
população da comunidade, estimada em 250 famílias5, vai com freqüência à capital,
para ir ao comércio, buscar atendimento em serviços públicos e privados e lazer, bem
como por manter relações de parentesco e de amizade com os moradores da cidade.
Essa ligação é tão intensa que existe transporte regular entre a cidade e a
comunidade, realizado em “voadeiras” (como são conhecidas as lanchas de pequeno
4
Gostaríamos de fazer algumas considerações sobre o uso do termo “comunidade” nesse texto.
Entendendo todo o peso da discussão teórica e das críticas já enunciadas desde que foram publicados os
primeiros estudos de comunidade da Amazônia, na década de 1950, nesse trabalho o termo será utilizado
apenas como categoria nativa de nomeação do lugar. No Livramento, as pessoas nomeiam o lugar onde
moram de comunidade; atribuem a origem do termo à influência da igreja católica, bem como da
utilização do termo pelo poder público.
5
A estimativa populacional de 250 famílias foi informada pela Associação de Moradores da Comunidade
Nossa Senhora do Livramento, contudo, nesse número são contabilizadas apenas as famílias moradoras
da sede da comunidade. As outras localidades do Livramento, como ramais e igarapés, também são
ocupadas, e devem somar, aproximadamente, 100 famílias. Sendo esses números imprecisos e não
havendo como obtê-los visto que não há levantamento censitário conhecido que considere essas
localidades adjacentes, nos ateremos ao número de 250 famílias como referência.
52
porte na região) adaptadas para o transporte fluvial coletivo com mais assentos. As
“voadeiras” partem da Marina do Davi, na Estrada da Ponta Negra em Manaus, e a
viagem pode durar de 20 a 40 minutos, a depender da situação de enchente ou vazante
das águas dos rios.
Livramento faz parte de um conjunto de localidades (Nossa Senhora de Fátima,
Julião, Ebenezer, Agrovila e São Sebastião) que margeiam o igarapé Tarumã-Mirim e
mantêm fortes vínculos sociais entre si. Na Figura 1 (p.53) podemos visualizar três
delas: Nossa Senhora do Livramento, Nossa Senhora de Fátima e Agrovila. Cada uma
das comunidades do Tarumã-Mirim possui um núcleo onde estão sediadas as
instituições do Estado, tais como escola e posto de saúde, ao lado de igrejas, associação
de moradores, comércios e um aglomerado de domicílios, que os moradores chamam de
Sede. Algumas dessas comunidades, como Livramento e Nossa Senhora de Fátima, são
mais bem assistidas em relação à infra-estrutura do que outras, favorecendo uma
circulação ainda maior dos moradores das comunidades ali sediadas.
Também há moradias nos igarapés e lagos da região. As famílias que moram
nesses locais se relacionam tanto com as instituições que funcionam nas sedes
comunitárias, freqüentando escolas, posto de saúde e outras instituições ali dispostas,
quanto com as famílias que ali residem, com as quais se relacionam de modo informal,
por meio das relações pessoais, comerciais e de lazer. Em nossa pesquisa
concentraremos nossos esforços no estudo da Sede do Livramento e da Estrada Nova,
em destaque na Figura 1 (p.53).
A Sede do Livramento está localizada às margens do igarapé do Mari,
circundada pelo igarapé Tarumã-Mirim e pelo rio Negro. Podemos observar na Figura 1
(p.53) que a Sede constitui-se em um aglomerado de moradias onde concentram-se
diversos serviços públicos e privados e a maior parte da população da comunidade. A
53
Sede é composta por sete ruas principais, estreitas, sem calcamento e cobertas somente
por areia branca. Lá encontramos instituições como igrejas, associação de moradores,
instituições estatais, tais como, escola e posto de saúde, e estabelecimentos comerciais.
Também é parte da paisagem da Sede a torre de telefonia celular que viabiliza a
comunicação telefônica entre as diversas comunidades nessa região, além do serviço de
telefonia fixa disponível apenas naquele local.
A chamada Estrada Nova, na realidade, é uma trilha estreita com mata densa por
todo o caminho. Grande trecho dela foi aberto pelos próprios moradores especialmente
para a instalação da energia elétrica em 2007. Todo o seu trajeto é marcado pelos postes
de madeira e pela fiação elétrica. Antes disto, havia trilhas que levavam de um vizinho a
outro. Os moradores concentram suas moradias às margens dos igarapés atravessados
pela Estrada. Na Figura 1, abaixo, destacamos o trajeto da estrada através de uma linha
vermelha. Ela inicia na margem oposta do igarapé do Mari, onde está localizada a Sede
Figura 1 – Imagem da foz do Igarapé Tarumã-Mirim
FONTE: Retirado de <[Link]> Acesso em 6 de junho de 2010.
54
do Livramento, e termina na fronteira com a comunidade Agrovila, no igarapé
conhecido como Sem Terra. A nossa pesquisa realizou-se até a metade desse trecho, ou
seja, até as moradias localizadas nas proximidades do igarapé do Diúna, destacado em
linha preta na Figura 1 localizada na página anterior.
2.1 REDES SOCIAIS E AS INSTITUIÇÕES NA COMUNIDADE
Os moradores mais antigos narram que a atual ocupação da área do Livramento
data da década de 1960. Os próprios comunitários, sob orientação de uma freira
conhecida como Irmã Conceição, construíram a igreja de Nossa Senhora do Livramento
e fundaram a comunidade. Aos poucos institucionalizaram sua organização por meio da
Associação de Moradores e as instituições estatais foram chamadas a atuar. A sua
população gradativamente aumentou, principalmente, na Sede. No início desse processo
de organização, algumas famílias tomaram a frente das instituições ao ocuparem cargos
importantes e de grande prestígio, como a escola, a igreja, posto de saúde e associação
de moradores.
Realizamos uma breve reconstituição desse processo a partir da participação de
três famílias, aqui representadas pelos chefes de família Diúca, Aristides e Ilmar,
importantes para a compreensão da atual configuração social estabelecida na
comunidade, e, principalmente, para descrevermos as relações de poder e distribuição
de recursos que influenciam no processo saúde/doença e cuidados direcionados à
malária.
Segundo nossos informantes, a área onde hoje é o Livramento fora propriedade
particular de um conhecido dono de terras. Estima-se que toda a área onde hoje está
localizado o conjunto de comunidades do baixo igarapé Tarumã-mirim pertencia a um
55
homem conhecido como Ferreira, sempre lembrado pela agressividade com que tratou
os primeiros ocupantes.
Diúca, agricultor, foi um dos primeiros moradores. Quando chegou ao
Livramento em 1964, Aristides, que veio a ser o primeiro agente de saúde da
comunidade, já morava no lugar aonde viria ser a Sede. Diúca foi o primeiro presidente
da Associação, no início da década de 1970, mas imediatamente seus companheiros o
depuseram. Segundo ele, Aristides, então agente de saúde, lhe fez uma proposta que foi
recusada. Diúca não quis dizer com clareza do que se tratava, mas deu a entender que
envolvia apropriação indevida de recursos da comunidade. Em seguida, Aristides teria
se articulado com os outros companheiros para depor Diúca da presidência. Desgostoso
com o fato, Diúca, que havia montado uma casa na Sede para dar conta das tarefas da
Associação, resolveu se retirar, e voltou a morar no Igarapé do Diúna.
Posteriormente, os moradores construíram uma escola e um posto de saúde, um
ao lado do outro, cercados com varas. No dia da inauguração da escola, Ferreira teria
ordenado atear fogo na construção e o incêndio também destruiu o posto. Diúca afirma
que ninguém queria trabalhar na escola reconstruída receando a violência. Ilmar,
professor de ensino fundamental, aceitou lecionar na comunidade depois de firmar
acordo no qual os moradores se responsabilizaram por um pagamento adicional ao
salário pago pela prefeitura. Mudou-se para o Livramento no início da década de 1980.
Diúca relatou que desde a fundação da comunidade, no ano de 1973, os
moradores iniciaram a luta pela ocupação da área, numa iniciativa intermediada pelo
Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Todos os que lideraram esse movimento teriam
sofrido ameaças, até o falecimento de Ferreira. Depois, segundo nossos informantes, o
Estado confiscou parte de suas terras porque ele teria uma grande dívida em impostos
que não foi paga por sua família. Em seguida, foi concedido aos moradores o direito de
56
morar e trabalhar naquela área, porém, não possuem documentação definitiva das terras
onde moram e não podem, legalmente, vendê-las.
O modo como os cargos no posto de saúde, escola e associação de moradores
foram ocupados na fundação da comunidade foi significativo para a configuração atual
das relações sociais articuladas a partir dessas instituições. Para dar conta da
complexidade dessas relações, lançaremos mão do conceito de redes sociais, tal como
proposto por Fontes (2004) por ele entendidas como o “... instrumento de análise que
permite a reconstrução dos processos interativos dos indivíduos e suas filiações em
grupos, a partir das interconexões pessoais construídas cotidianamente” (p.12).
Desse modo, podemos afirmar que Ilmar e Aristides gozaram de prestígio tanto
pela sua condição de primeiros ocupantes da área, quanto pela atuação posterior, nos
cargos que passaram a ocupar. Isto lhes proporcionou uma rede de interações que
exerceu grande influência na vida cotidiana da comunidade se estendendo inclusive ao
âmbito das instituições formais. Podemos exemplificar esse processo a partir da família
de Ilmar, cuja filha, Graça, exerce atualmente a função de agente microscopista no posto
de saúde. Aristides, por sua vez, indicou Doca, o esposo de Graça, para o cargo de
agente de saúde e, posteriormente, o indicou para substituí-lo como diretor do posto,
quando se aposentou. Milena, irmã mais nova de Graça, ocupou o cargo de agente de
endemias por dois anos, antes de deixá-lo para cursar universidade em Manaus. Dessa
forma, cargos de prestígio no serviço de saúde foram ocupados por membros da família
de Ilmar. Outro filho de Ilmar, Mário, é uma das lideranças do movimento indígena
organizado no Livramento.
Aristides, por sua vez, exercia sua influência nas disputas pela presidência da
Associação de Moradores. Segundo nossos informantes, Aristides trocava favores com
políticos utilizando a sua influência como moeda de troca para conquistar votos nas
57
disputas eletivas. Um de seus filhos, na época de nossa pesquisa, era assessor de um
vereador em Manaus e, conseguia recursos especiais que foram distribuídos pela
Associação dos Moradores, visando à candidatura de Ilmar, seu pai, a presidência da
Associação6.
Diúca foi excluído das redes sociais que acabaram controlando as instituições
estatais atuantes no Livramento e direcionou sua atuação na comunidade aos
movimentos religiosos. No princípio da ocupação da comunidade, participava das
atividades da Igreja Católica. Atualmente, é líder de uma igreja pentecostal que atua na
Estrada Nova.
Do mesmo modo, seus familiares estão fora das redes articuladas em torno das
instituições estatais. Os quatro irmãos de Diúca moram em localidades adjacentes a
Sede e, atualmente, são agricultores aposentados. Na Estrada Nova, os parentes de
Diúca são a maioria. Dentre os dez domicílios que identificamos até as proximidades do
igarapé do Diúna, cinco eram de parentes seus. Um domicílio era chefiado por um de
seus companheiros da época em que lutaram pelas terras do Livramento; outro
domicílio pertencia a uma moradora antiga, um domicílio funcionava como sítio e
apenas dois domicílios são de famílias recém-instaladas. Excetuando-se essas duas
famílias que não são parentes de Diúca, as demais famílias da Estrada Nova são
aparentadas entre si, e/ou chefiadas por idosos que vivem lá desde a fundação da
localidade.
Apresentada essa configuração, é preciso informar que muitas das ações dessas
instituições (posto de saúde, Associação de Moradores e Escola) são ordenadas segundo
6
Durante o mês de setembro de 2009, a Associação de Moradores do Livramento preparava-se para a
eleição de nova diretoria. Aristides chegou a montar uma chapa para concorrer à presidência. Todavia, foi
impedido porque o grupo político do então presidente havia se esforçado em longos debates para aprovar
no edital de convocação do pleito a exigência que impediria Aristides de concorrer: a de que todos os
membros da diretoria deveriam ser moradores do Livramento e que não bastaria a promessa de que, se
eleito, o candidato a diretor passaria a morar lá. Aristides não mora mais no Livramento, apesar de visitar
os filhos que ainda moram lá com regularidade.
58
as redes sociais construídas em torno da influência das famílias de Ilmar e Aristides, das
quais, a família de Diúca e as pessoas de sua rede de relação não fazem parte. Isto
porque as relações estabelecidas em uma rede tanto podem proporcionar oportunidades,
quanto limitações de acesso das pessoas a recursos como informação, riqueza e poder
(FONTES, 2004). Podemos afirmar que as redes articuladas em torno das instituições
formais da Sede excluem os moradores da Estrada, em conseqüência de alianças tecidas
no início do estabelecimento das instituições formais na comunidade.
Atualmente, a comunidade vive um momento de mudança nas relações entre os
moradores e as instituições locais, constituindo-se em um momento de transição entre o
domínio de interações baseadas na esfera pessoal, para uma interação formalizada.
Durante vários anos, a ocupação de cargos de importância, como professor e agente de
saúde, foi definida pela influência das primeiras famílias que ocuparam Livramento. Só
recentemente a ocupação desses cargos de chefia deixou de ser definida com base em
relações sociais informais. A partir de 2008, esses postos passaram a ser ocupados por
pessoas nomeadas após aprovação em concurso público.
Um tanto saudosa do antigo estado de coisas, uma moradora da Estrada Nova,
nos relatou que antes, quando uma criança adoecia, Ilmar enviava para a casa da família
latas de leite e massa para mingau retiradas do estoque da merenda escolar. Ela avalia
positivamente essa atitude, entendendo que o gesto permitia que as crianças doentes se
alimentassem melhor e se recuperassem mais rápido sem perder muitas aulas.
Procedimento semelhante ele adotava com os idosos. Para a entrevistada, infelizmente
isso é algo que não ocorre mais.
No mesmo tom, diversos moradores ressentem-se da saída de Doca da diretoria
do posto. Acreditam que por ser morador da comunidade e porque a chave do posto
permanecia em seu poder, ele atendia os doentes a qualquer hora que precisassem,
59
desde que o chamassem em sua casa. Atualmente, a chave do posto fica em posse da
atual diretora e os moradores têm que esperar o posto abrir nos horários normais de
expediente para procurar ajuda.
Os moradores avaliam essa mudança como um malefício. Tal postura é
compreensível à luz de suas relações anteriores com essas instituições, que eram
pautadas pelo parentesco e amizade lhes garantindo acesso direto aos serviços
institucionais. Porém, embora existam tentativas do Estado de enquadrar a vida
cotidiana no espaço público, em obediência ao formato ideal de funcionamento de suas
instituições, as relações informalmente mediadas pelas redes sociais se entrecruzam
também nesses espaços, direcionando recursos para certos beneficiários, em detrimento
de outros. A reconfiguração dos cargos de chefia a partir de concurso público não anula
as antigas redes que tendem a se reorganizar no novo contexto (FONTES; MARTINS,
2004).
Uma dessas reconfigurações ocorreu com a mudança do controle político da
Associação de Moradores do grupo de influência de Aristides, para outra geração de
indivíduos. Aristides, e parte de sua família, mudaram-se para Manaus e, embora visite
os filhos que ainda moram na comunidade, seu prestígio não é mais o mesmo. Em parte
porque, aposentado há dois anos e distante da comunidade, seu campo de influência
política diminuiu. Segundo, porque nova geração de pessoas chegou ao Livramento,
principalmente a partir da década de 1990, formando outros grupos, entre os quais, o
que atualmente controla a Associação.
Em setembro de 2009, a Associação de Moradores era presidida por um jovem
comerciante que assumira o cargo por indicação dos conselheiros incumbidos de eleger
nova diretoria, após a deposição da anterior, eleita para a gestão 2006/2009. Os
membros da diretoria anterior teriam se mudado para Manaus tornando-se ausentes e
60
displicentes com os problemas da comunidade. O então presidente e nova diretoria,
todos moradores da Sede do Livramento, foram empossados em 2007 e estiveram
empenhados em regularizar a situação jurídica da Associação e na discussão, tentavam
aprovar e legalizar um Estatuto. Em novembro de 2009, ocorreu a eleição que elegeu a
então secretária da Associação como presidente.
Esse grupo de pessoas, consideravelmente jovens (o presidente, tesoureiro e
secretária tinham idades que variavam entre 28 e 30 anos), mantinha relações de mútuo
apoio com Doca, ex-diretor do posto de saúde, o qual, apesar de recusar-se a envolver-
se diretamente com as questões da Associação, goza de grande prestígio na
comunidade7. Desse modo, esse grupo formava uma rede de influência cujas forças
confluíam entre o posto de saúde e a Associação de moradores.
2.2 ESPAÇOS DESIGUAIS DE PODER: SEDE E ESTRADA NOVA
Nessa sessão dissertaremos sobre a vida na Sede e na Estrada Nova nos
ocupando em descrever um pouco da atuação das instituições estatais e locais. A
centralização da atuação das instituições e serviços na Sede tem conseqüências diretas
nas condições gerais da vida nos diversos espaços da comunidade e, particularmente
para os que vivem nas suas cercanias.
Na Sede, há coleta de lixo semanal realizado por via fluvial, sob a
responsabilidade da Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos (SEMULSP),
7
Doca, genro de Aristides e ex-diretor do posto, goza de grande prestígio, em parte, pela função que
exerceu. Era sempre chamado para presidir comissões durante as reuniões da Associação, tais como as de
eleição do pleito programado; foi convidado para compor a chapa com seu grupo de aliados, mas recusou.
Contudo, estava sempre presente em suas atividades ao lado do então presidente, inclusive na recepção
das autoridades que visitam a comunidade, ou nas comissões encarregadas de solicitar serviços, como o
de água encanada ou de policiamento. O prestígio de Doca também decorre da sua liderança na
movimentação desportiva na comunidade, organizando os times de vôlei e futebol do Livramento, bem
como da difusão dos acontecimentos locais por meio de uma rádio de Manaus, onde atua como repórter
comunitário.
61
a qual mantém um gari que mora e trabalha no local. Há o programa regular do ensino
fundamental divido entre o turno matutino e vespertino na Escola Municipal São José I,
sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Educação (SEMED); o ensino médio é
ministrado à noite por meio do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e do
Telecurso, sob responsabilidade da Secretaria Estadual de Educação (SEDUC). Há
também serviço privado de telefonia fixa.
Há o posto de saúde cujo funcionamento é de responsabilidade da Secretaria
Municipal de Saúde (SEMSA), que oferece serviço médico e odontológico também às
comunidades do Julião e Agrovila para onde são designados dois agentes comunitários,
sendo que no Livramento atuam mais dois agentes.
Em entrevista, a diretora nos informou que a malária está entre os principais
atendimentos que realizam. Mesmo após a municipalização das ações de controle da
malária, que antes estavam sob a responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde
(FUNASA), a diretora do posto não responde pelas ações de controle da doença. A
agente microscopista, moradora da sede, é quem responde pelo diagnóstico e tratamento
dos casos de malária. No período da pesquisa foi possível observar que a equipe de
profissionais da FUNASA atua no mesmo prédio, mas de modo paralelo aos serviços do
município.
A Associação dos Moradores do Livramento funciona em um prédio de madeira
de um único cômodo. A sede da associação é chamada pelos moradores de Secretaria e
está aberta quase todos os dias, graças ao revezamento entre os membros da diretoria da
entidade. Na sede da Associação também funciona a Biblioteca Comunitária, montada
em 2006 com auxílio do Projeto Água e Cidadania, da Associação dos Cientistas
Sociais do Amazonas (ACISAM) e Petrobrás.
62
A fonte de renda dos moradores da Sede advém de salários de funcionalismo
público e de comércio, além de alguns benefícios sociais, tais como aposentadoria e o
Programa Bolsa Família do governo federal. Outros moradores ganham a vida
prestando serviços, como o de caseiro de sítios, marcenaria, serralheria e limpeza de
terrenos. Identificamos apenas quatro agricultores que mantêm terrenos e plantações de
subsistência em lugares mais distantes, já que os terrenos na Sede são utilizados apenas
para moradia.
Nossos informantes relataram que desde que Livramento foi incorporado à
Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé (RDS Tupé), em 2004, a comunidade
padece devido às restrições à derrubada e plantio, reduzindo o ânimo para a produção
agrícola.
Noda et al (2007) afirmam que boa parte dos moradores que chegaram ao
Livramento no início da década de 1990, foram até lá levados pelo desemprego
desencadeado por uma crise da Zona Franca de Manaus (ZFM). Ainda segundo os
autores, essa migração teria mobilizado para Livramento um conjunto de moradores da
área rural, mas sem experiência com agricultura acarretando o incremento das
atividades predatórias de retirada de madeira para marcenaria e para a produção de
carvão, já exercidas pelos primeiros moradores.
Na Sede também é possível observar a atuação da rede social formada por
famílias indígenas, especialmente por duas grandes famílias Baré e Dessana vindas do
Alto Rio Negro. Em 2009, o movimento indígena estruturado em torno dessas famílias
formalizou sua interveniência no cenário social por meio da criação de uma associação,
provisoriamente denominada de Associação Indígena do Livramento.
Já os moradores não indígenas da comunidade observam com desconfiança a
movimentação política indígena e enfatizam repetidamente suas dúvidas sobre a
63
autenticidade de tal identidade indígena; não raro criticam o uso – que entendem ser
oportunista - da diferenciação étnica por estas famílias.
A Sede do Livramento recebe muitos visitantes nos fins de semana, atraídos
pelos balneários próximos. São amigos e familiares de moradores da Sede, que os
recebem e hospedam. A presença desses visitantes gera uma tensão entre o que os
moradores chamam de “os de dentro” e “os de fora”.
Presenciamos uma reunião com o Comandante da Polícia Militar do posto
policial da Ponta Negra que fora atender ao pedido de policiamento na Sede, onde
foram enumeradas reclamações sobre comportamentos considerados inadequados
desses visitantes, entre os quais foi citado: beber em excesso; usar drogas; circular pela
comunidade durante a madrugada fazendo algazarras; e desencadear brigas.
Os moradores se queixavam que não podiam agir sobre esses visitantes porque
depois de causarem confusões, voltavam à cidade, muitas vezes, sem que pudessem ser
identificados. Esses visitantes fugiam do controle que os membros da comunidade
crêem exercer uns sobre os outros.
Os moradores da Sede também nutrem desconfiança em relação aos chamados
“hippies” que moram há pouco tempo na comunidade. São estrangeiros oriundos de
outros países ou mesmo de outros estados do Brasil. Os que vivem há tempos em
Livramento desconfiam do estilo de vida daqueles, afirmando não compreender como
sobrevivem, já que não trabalham do modo como os moradores entendem que deve ser
o labor adequado; esclareça-se que os “hippies” vendem artesanato na Ponta Negra nos
finais de semana.
Os “hippies” moram em uma casa cedida por uma senhora moradora da Sede. A
maioria deles não permanece mais que alguns meses no Livramento, mas a casa está
sempre ocupada por pessoas de suas redes de relações. A desconfiança é exacerbada
64
pelo fato dos “hippies” não se misturarem aos moradores de Livramento e de falarem
línguas diferentes pelas ruas. Mas de modo geral, os moradores têm como princípio
comum, a idéia de que sempre se deve desconfiar de “gente de fora”.
Essa desconfiança em relação às redes sociais compostas pelos outsiders na cena
social de Livramento (indígenas, visitantes, e “hippies”) caracteriza o que Fontes (2004)
denomina de “posicionamento egocentrado das redes sociais”, que tende à exclusão de
outros grupos sociais com quem se desenvolva algum nível de interação.
A vida na Estrada Nova é bem diferente da sede. A produção agrícola, embora
restrita à subsistência, é presença marcante. Não há estabelecimentos comerciais na
Estrada. Quando é necessário comprar, os moradores vão diretamente a Manaus ou às
sedes mais próximas, que são Julião, Fátima e o próprio Livramento. Também
aproveitam para fazer compras quando vão à escola ou a posto nessas sedes.
Observamos que as relações dos moradores da Estrada Nova, inclusive as
formais que mantém com posto de saúde e escola, são estabelecidas preferencialmente
com outras sedes comunitárias que não a do Livramento. Interrogados sobre as razões
dessa preferência, os entrevistados expressaram sua insatisfação com o que consideram
descaso e falta de apoio da Associação de Moradores. Desse modo, estudam e
freqüentam posto e comércios de outras sedes, ainda que estejam mais distantes. A
única instituição sediada na Estrada Nova é a Igreja evangélica liderada por Diúca.
Uma das principais fontes de subsistência dos moradores da Estrada é a
aposentadoria dos idosos e os roçados. Além disso, há a extração de madeira e a
produção de carvão que, atualmente, ocorrem como prestação de serviço dos moradores
em outras localidades, já que estas atividades estão proibidas no Livramento. Também
ocorre um comércio incipiente de pescado, caça e produtos dos roçados, já que, quando
um vizinho os tem em excesso, oferece ao outro para que compre.
65
2.3 AS DIFICULDADES DE PERTENCER A UMA RESERVA DE
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Em 2004, a comunidade foi incorporada à RDS Tupé e tem boa parte de suas
rotinas administradas pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SEMMA). Dentre
as restrições impostas estão: proibição de caça e pesca (exceto se para subsistência),
desmatamento (exceto se para pequenos roçados e com autorização da SEMMA),
retirada de madeira (apenas permitida para a construção de pequenas casas de
comunitários com autorização da SEMMA); retirada de pedra, areia e seixo. Além disto,
por pertencer ao município de Manaus, a comunidade é obrigada a seguir o Código
Ambiental do Município de Manaus, em vigor desde 2001, que proíbe, entre outras
coisas, queima de lixo e poda de árvores (sem autorização da SEMMA).
As restrições impostas para atender essas condições incomodam os moradores.
Além disto, segundo nossos informantes, a incorporação se deu sem o consentimento de
todos, porque somente poucas pessoas teriam participado, de modo informado, dessa
decisão, dado que a maioria não tinha idéia sobre as regras do funcionamento de uma
RDS.
Segundo nossos informantes, antes que Livramento se tornasse parte da RDS,
sua população mantinha atividades de caça, pesca, roçado, extração de madeira para
serralheria e produção de carvão. A população era estimada em 500 famílias na Sede, e
30 famílias na Estrada Nova. Após a incorporação pela RDS, a população se reduziu
pela metade nas duas localidades, pois anteriormente a maior fonte de renda era
decorrente da extração de madeira e a produção de carvão, atividades que passaram a
ser proibidas para a comercialização.
66
As reclamações sobre essa situação são pauta de todas as reuniões da Associação
de Moradores. Um dos problemas que mais incomoda é a necessidade de pedir licença
ambiental8 para a feitura dos roçados e demora e a grande dificuldade em obtê-la.
Muitos moradores reclamam que não obtém nenhuma resposta aos pedidos de
autorização para abrir roças. Tais obstáculos prejudicam significativamente o sustento
dos moradores da Sede porque, impedidos de plantar, ficam dependentes dos benefícios
do governo.
Os moradores da Estrada Nova sofrem menos porque, como vivem em locais
mais distantes da Sede, conseguem fazer seus roçados sem que haja tanta fiscalização.
Entretanto, os conflitos internos entre os moradores da Sede também inibem as
tentativas de fazer o roçado sem a licença ambiental, já que receiam ser denunciados por
seus antagonistas; temem a multa que não teriam meios para pagar, e mesmo a
apreensão de instrumentos que lhes são indispensáveis à subsistência, como os
implementos agrícolas e motosserras.
Durante o trabalho de campo foi possível acompanhar uma reunião com o então
recém-nomeado administrador da RDS Tupé. Este fora se apresentar aos moradores
com promessas renovadas de agilidade no processo para obtenção da licença ambiental,
para falar-lhes sobre a importância das RDS e da mudança de certos hábitos
considerados inadequados à postura preservacionista esperada de seus moradores. Citou
o hábito de queima do lixo que, segundo ele, poderia ser substituída pelo ensacamento.
A sugestão gerou polêmica na reunião e os moradores enumeraram as nuances
de sua inviabilidade, entre as quais o custeio das sacolas de lixo, tendo em vista a
8
Para realizar os roçados os moradores precisam pedir uma licença ambiental, que pode ser feita de
próprio punho e que deve ser encaminhada a Associação de Moradores. A licença deve conter os dados
básicos sobre o morador (o qual precisa ser sócio da Associação), o terreno e o roçado pretendido. Essa
licença deve ser entregue ao presidente da associação para que seja encaminhada a SEMMA. O órgão
deve enviar técnicos ao local onde se deseja realizar o roçado e avaliar o pedido. Somente após todos
esses trâmites, a autorização pode ser emitida e encaminhada de volta a Associação e, finalmente,
retornando ao morador. A realização de roçado sem licença ambienta incide em multa. O tempo gasto
nesse trâmite é muito elevado e, em geral, inviabiliza a possibilidade de efetuar o plantio agrícola.
67
grande quantidade de folhas que recolhem diariamente. Na ocasião, o administrador
afirmou que várias campanhas educativas já tinham sido empreendidas na área, e que
chegara a hora da fiscalização.
Os moradores, por sua vez, contestavam o que entendiam como uma cobrança
arbitrária. O Estado exigia uma postura condizente com uma RDS sem dar-lhes
condições de executá-las, pois não conseguiam sequer plantar para subsistência diante
da burocracia inábil do pedido de licença ambiental, tampouco para gerar renda.
Os moradores citaram as várias tentativas - consideradas por eles como
frustrantes de alternativas sustentáveis – de geração de renda, tais como agricultura
familiar, criações de bichos de pequeno porte, artesanato de recicláveis, produção de
hortaliças em canteiros. Segundo os moradores, vários cursos foram realizados,
contudo, sem o incentivo efetivo do Estado era impossível escoar tal produção ou
mesmo mantê-la.
Segundo os moradores, a existência da burocracia para a realização dos roçados
e a falta de alternativas de geração de renda desestimularam muitas famílias que
optaram por se mudar para outras áreas localizadas fora da RDS. Os que obtinham seu
sustento da extração de madeira ou da produção do carvão e permaneceram no
Livramento, mas tiveram que mudar de atividade, ou continuam desenvolvendo esses
serviços em outros locais, fora da RDS.
Uma conseqüência direta dessa situação é o grande número de famílias que
passou a depender exclusivamente dos benefícios governamentais, tais como
aposentadoria e Bolsa Família, para garantir seu sustento, principalmente na Sede. Outra
conseqüência perceptível é o elevado consumo de enlatados, embutidos e bebidas
artificiais na dieta dos moradores da Sede, compelidos a comprar esses alimentos pela
impossibilidade de produzir sua própria comida. Situação contrária observamos na
68
Estrada Nova, onde a dieta é baseada em pescado e produtos de roçado, como
macaxeira, feijão e melancia.
2.4 A ASSOCIAÇÃO DE MORADORES E A DISTRIBUIÇÃO ASSIMÉTRICA
DOS BENEFÍCIOS
Estrada Nova e Sede estão formalmente ligadas pela Associação de Moradores
da comunidade de Nossa Senhora do Livramento, à qual devem se filiar para tentar
obter a concessão do pedido de licença ambiental. A Associação também é o meio
necessário para se habilitar ao recebimento de certos benefícios governamentais ou
aqueles advindos de outras instituições que a reconhecem como entidade representativa
dos moradores. Contudo, a distribuição desses benefícios é um dos pontos de tensão
entre as redes sociais da comunidade.
Para Fontes e Martins (2004), são as redes sociais que capilarizam a
comunicação e a mobilização dos recursos nos níveis locais e supralocais, privilegiando
as suas redes de relações em detrimento das outras na distribuição concreta dos
benefícios adquiridos por meio da atuação dessas instituições. Os moradores da Estrada
Nova reclamaram abertamente da falta de interesse da Associação de Moradores pelos
seus problemas locais e acusaram-na de excluí-los de certos benefícios.
Nossos informantes relataram que diretores (presidente e o secretário) da
associação, numa gestão que se encerrou em 2009, visitaram cada casa pedindo os
dados dos moradores, visando cadastrar as famílias para o auxílio destinado às vítimas
da cheia daquele ano. Ainda que, segundo eles, tivessem sido cadastrados para o
recebimento, os moradores da Estrada Nova só receberam a última das quatro parcelas
de 50 reais porque não foram comunicados que o recebimento já estava sendo realizado
69
por meio da associação. Além disso, segundo os entrevistados informaram, algumas
famílias da Sede que não foram vítimas da cheia havia sido indevidamente cadastradas,
já que moravam em locais que não alagavam, e, apesar disso, receberam todas as
parcelas do auxílio.
Alguns moradores da Estrada Nova reclamaram que, com freqüência, o então
presidente da associação telefona ou vai até as casas dos moradores para dar avisos, ou
solicitar sua participação em trabalhos ou reuniões comunitárias, mas que não procede
da mesma forma para distribuir os benefícios.
Situações similares que teriam ocorrido em outras administrações também foram
relatadas. É o que ocorreu por ocasião da realização de vários cursos de capacitação em
alternativas sustentáveis de renda, por ocasião da incorporação à RDS Tupé. Os
moradores da Estrada Nova não foram avisados e não puderam participar, pois quando
foram informados já não havia mais tempo hábil para que se inscrevessem.
Por ocasião de nossa permanência na Sede tivemos a oportunidade de presenciar
uma distribuição de cestas básicas e roupas destinadas às vítimas da cheia de 2009. Essa
atividade estava sob responsabilidade da Associação de Moradores e obedeceria a uma
lista de famílias mais necessitadas.
No dia da distribuição soltou-se um foguete no porto da sede como aviso que a
atividade havia iniciado. Somente aqueles que ouviram os foguetes e chegaram primeiro
ao local conseguiram sua cesta. A lista com o nome das famílias vitimadas não foi
obedecida e ouviram-se reclamações de que muitas pessoas com melhor condição
econômica retiraram mais de uma cesta, ao passo que grupos familiares muito
necessitados foram excluídos da distribuição.
70
Dos moradores de Estrada Nova apenas um recebeu uma cesta, porque
trabalhava na distribuição delas. Os outros não foram comunicados com antecedência e
não tiveram como chegar a tempo na Sede.
Também presenciamos um evento da Igreja Batista que levou missionários para
realização de trabalho social e evangelização. Os moradores da Estrada Nova sequer
souberam do evento apesar da Igreja ter comunicado com antecedência sua visita à
Associação.
Do mesmo modo, nunca souberam ou participaram dos eventos realizados por
uma faculdade privada sediada em Manaus que desde 2006 leva alunos de direito e
turismo ao Livramento, para distribuírem cestas básicas e prestar assessoria jurídica,
quatro vezes ao ano.
O cadastramento do programa Bolsa Família do governo federal é realizado pelo
posto de saúde e beneficiou apenas as famílias que pertencem às redes sociais
estabelecidas a partir dele. Um agente comunitário de saúde, morador do igarapé do
Mari, nos relatou que fora encarregado de recolher os dados dos moradores para o
cadastramento. Contudo, apesar de ter incluído apenas famílias com o perfil exigido
pelo programa, observou que moradores que não correspondiam a esse perfil também
foram cadastrados pelo posto de saúde.
Segundo ele, alguns cadastrados sequer tinham filhos, ou gozavam de melhor
poder aquisitivo (eram comerciantes), ao passo que moradores em situação de carência
econômica que precisavam receber o auxílio não o obtiveram.
Apresentamos os aspectos gerais das condições de vida na Sede e na Estrada
Nova na comunidade do Livramento na intenção de que eles sirvam para contextualizar
e dar sentido às ações de seus moradores diante do acontecimento da malária nessa cena
social específica.
71
A versão local da história da comunidade permite compreender a recente
configuração social, que dá oportunidades de articulação, acesso a informação e
benefícios sociais a alguns de seus membros, ao mesmo tempo em que limitam o acesso
de outros, configurando uma atuação assimétrica das instituições governamentais, cuja
atuação passa a ser moldada pelas redes sociais.
Dentre essas instituições formais, a Associação de Moradores é mediadora de
muitas das ações públicas e privadas ao repassar benefícios, muitas vezes de modo
desigual, inclusive – como veremos – algumas das ações relacionadas ao controle da
malária. Do mesmo modo, atua o posto de saúde quando colocado como mediador na
distribuição de outros benefícios governamentais, como ocorreu no cadastramento do
Programa Bolsa Família. Ao mesmo tempo, é por meio desses profissionais de saúde
ligados ao posto que os moradores obtêm informações sobre a malária e é sobre esses
profissionais que recaem, ou não, os créditos de confiança no serviço de saúde.
De modo paralelo, as restrições estabelecidas pela condição de fazer parte de
uma RDS implicam diretamente sobre as condições de vida da população do
Livramento de modo geral, principalmente pela diminuição das opções de geração de
renda. Quando confrontados com a ocorrência da malária, tal configuração influencia
diretamente nas escolhas que fazem os moradores, quanto ao que irão ou não fazer, pois
atuam a partir das possibilidades objetivas e redes sociais de que dispõem.
72
CAPÍTULO 3
A EXPERIÊNCIA DO ADOECIMENTO: REPRESENTAÇÕES E PRÁTICAS
SOBRE A MALÁRIA
Nesse capítulo buscamos descrever o que os moradores do Livramento
compreendem como sendo malária e estar doente dessa enfermidade, buscando
explicitar o sentido de suas explicações sobre a experiência do adoecimento, as causas e
origem da doença. Do mesmo modo, descrevemos os aspectos contextuais ligados a sua
ocorrência, tais como a presença e a atuação do serviço público de saúde responsável
pelo controle e atendimento da doença.
3.1 O SERVIÇO PÚBLICO DE CONTROLE DA DOENÇA E SUA BASE
BIOMÉDICA
Antes de entrarmos no âmbito das representações sociais produzidas em torno da
malária na comunidade do Livramento, precisamos considerar a sua caracterização
biomédica enquanto doença. Ao estudarmos o que significa estar doente de malária em
uma comunidade que convive há muito tempo com o serviço de saúde, precisamos
considerar a circulação de informações deles emanadas, sobre os sentidos de estar
doente de malária, dado que, em grande medida, os moradores se apropriam dessas
informações e as modulam segundo seus próprios entendimentos da experiência do
adoecimento.
A malária é compreendida pela biomedicina como uma doença causada pelo
protozoário do gênero Plasmodium, um parasita, cujas diferentes espécies geram
algumas diferenças na forma como a doença irá se manifestar no corpo humano. No
73
Brasil, ocorrem principalmente três espécies: Plasmodium. Falciparum, Plasmodium.
Vivax e Plasmodium. Malarie, que são transmitidos pelo mosquito do gênero
Anopheles. Para sua reprodução no interior do corpo, o Plasmodium ataca as células do
fígado e os glóbulos vermelhos; particularmente os últimos são destruídos em grande
quantidade em decorrência da multiplicação do protozoário no organismo da pessoa
doente (GLOSSÁRIO DE DOENÇAS, 2006).
O P. Falciparum é considerado o tipo mais agressivo, causando anemia e
pequenos coágulos que podem levar a problemas cardíacos. Os sintomas mais comuns
são calafrios, febre alta (inicialmente contínua e depois de três em três dias), dores de
cabeça e musculares, taquicardia, aumento do baço, mal-estar geral e sensação de
fraqueza (GLOSSÁRIO DE DOENÇAS, 2006).
Uma pessoa acometida de malária pelo P. Falciparum tem uma chance em dez
de desenvolver malária cerebral. Nesse caso, os sintomas são o aparecimento de ligeira
rigidez na nuca, perturbações sensoriais, desorientação, sonolência ou excitação,
convulsões, vômitos, podendo chegar ao coma. A malária cerebral é responsável por
cerca de 80% dos casos de óbito ligados a esse agravo (GLOSSÁRIO DE DOENÇAS,
2006).
A malária causada pelo P. Vivax raramente leva à morte, mas é mais difícil de
tratar porque tende a gerar recaídas da doença. Na malária por P. Vivax o parasita
demora mais tempo incubado no fígado, portanto, não circula imediatamente na
corrente sanguínea. Isto faz com que os sintomas da doença pareçam mais amenos
(GLOSSÁRIO DE DOENÇAS, 2006).
Os doentes costumam sentir mal-estar, dores de cabeça e febre ligeira podendo
evoluir para temperaturas de 39º a 40ºC; o quadro febril tende a se repetir de dois em
dois dias, cursando com suor intenso e dores musculares. A malária causada pelo P.
74
Malarie é parecida com a P. Vivax, mas é pouco freqüente no Brasil. (GLOSSÁRIO DE
DOENÇAS, 2006).
É com base nessa definição biomédica de malária que o serviço público de saúde
orienta suas ações e é essa a fonte do conhecimento transmitido aos seus usuários por
meio dos profissionais de saúde que atuam nas instituições públicas responsáveis. No
Livramento, a responsabilidade pelo atendimento e controle da malária está divida entre
a FUNASA, a SEMSA e a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS).
A FUNASA mantém uma agente microscopista que atende a comunidade em
uma sala independente, mas no mesmo prédio do posto de saúde e em parceria com a
sua administração. A agente microscopista da FUNASA é responsável pelo diagnóstico
e tratamento dos casos confirmados de malária, bem como encaminhamento dos
pacientes com resultados negativos da doença e casos considerados mais graves aos
profissionais do posto de saúde.
Os profissionais do posto de saúde são responsáveis pelo tratamento de
eventuais complicações da doença, tais como as reações alérgicas aos medicamentos, e
pelo encaminhamento dos casos mais graves para a Fundação de Medicina Tropical,
conhecida pelos moradores como “Hospital Tropical”.
A FVS é responsável pela atuação dos agentes de endemias que realizam os
procedimentos de Busca Ativa e Termonebulização na comunidade. A
Termonebulização, por sua vez, é indicada pela agente microscopista da FUNASA a
partir dos dados de notificação de casos e da identificação das áreas com maior
incidência da doença.
A ação do serviço público de controle da malária no Livramento se dá por meio
de:
75
1) Busca Ativa (BA), que consiste nas visitas regulares de agentes de endemias
da FVS, a moradores escolhidos aleatoriamente para realizar o exame diagnóstico para
malária e, desse modo, identificar possíveis casos assintomáticos, ou seja, de pessoas
que não apresentam os sintomas, mas podem portar o Plasmodium contribuindo – ainda
que involuntariamente – para a transmissão da doença;
2) Busca Passiva (BP), que equivale à busca espontânea, por parte dos
moradores, pelos serviços de saúde em busca de realização do exame diagnóstico de
malária a partir da auto-identificação dos sintomas;
3) Lâmina de Verificação de Cura (LVC), que consiste no exame de sangue do
doente tratado. Pode ocorrer mediante a ida espontânea ou induzida pelos profissionais
ao posto de saúde para realização do exame diagnóstico de malária no oitavo dia após o
término do tratamento farmacológico. Essa averiguação do efeito do tratamento
costuma ser recomendada pelos agentes de endemias (FVS) ou agentes de saúde
comunitários (SEMSA) que atuam em Livramento;
4) Borrifação Intradomiciliar, que consiste em borrifar veneno visando matar o
mosquito transmissor da malária nas paredes das construções, realizada pelos agentes
especializados da FVS;
5) E, por fim, a Termonebulização, conhecida na comunidade como “fumacê”,
ou seja, o veneno destinado a matar o mosquito transmissor é aspergido nas ruas e
quintais da comunidade; esta ação também é realizada por agentes especializados da
FVS.
Contudo, os moradores da Sede e da Estrada Nova têm visões diferenciadas
sobre os profissionais de saúde e sobre a atuação desse sistema. Na sua avaliação os
moradores consideram prioritárias questões como a confiança estabelecida entre eles e
esses profissionais, quando acionam ou são acionados pelo serviço de saúde.
76
As reclamações recaem, principalmente sobre os agendes de endemias da FVS.
Estes saem de sua base em Manaus numa equipe de três pessoas (dois agentes de
endemias e o motorista da “voadeira”) e percorrem as comunidades do Tarumã-Mirim
para realizar a busca ativa de doentes. Contudo, esses agentes volantes de endemias não
gozam da confiança dos moradores que colecionam histórias de enganos cometidos por
eles no atendimento aos pacientes. Tais erros teriam gerado descrédito a atuação desses
profissionais, principalmente para os moradores da Estrada Nova.
Como exemplo desses equívocos, um morador da Estrada narrou que os agentes
chegaram à sua casa para realizar a busca ativa. Todos realizaram o exame, mas após
coleta, os agentes da FVS esqueceram uma das lâminas com sangue sobre um tronco de
árvore exposto ao sol. Lá a lâmina permaneceu esquecida e, somente no final da tarde
os agentes de endemias retornaram para apanhá-la. Daí por diante o morador passou a
desconfiar da legitimidade dos resultados dos exames por entender que havia desleixo
no manejo das lâminas coletadas.
Outra moradora da Estrada narrou que algumas semanas depois de coletarem
exames em sua casa, os agentes retornaram com remédios para malária destinados a seu
filho Juliano. Ela se preocupou porque o rapaz não apresentava nenhum sintoma e
decidiu não lhe dar os remédios antes de realizar um novo exame no posto da Sede do
Livramento.
O resultado deste exame deu negativo. Ela então adotou como procedimento
desconsiderar os resultados dos exames realizados pelos agentes de endemias oriundos
de Manaus. Segundo a senhora, a microscopista da FUNASA do posto do Livramento
lhe teria confirmado que os resultados dos exames realizados por esses agentes eram
pouco confiáveis.
77
A entrevistada narrou também, que após investigar um pouco, descobriu que os
remédios erradamente enviados a seu filho deveriam ter sido entregues a uma vizinha
chamada Juliana, a qual realmente apresentava sintomas de malária. Para a moradora,
não há justificativa para tal erro porque, apesar de seus nomes serem homônimos, os
sobrenomes das duas pessoas examinadas eram muito diferentes.
Outra entrevistada, também moradora da Estrada, afirma que seu filho recebeu
diagnóstico de malária Falciparum apresentado por esses agentes, recebeu remédios e
fez o tratamento. Contudo, embora o rapaz cumprisse corretamente o tratamento, seu
estado de saúde piorava visivelmente. A mãe resolveu realizar novo exame para
confirmar a doença, pois passou a desconfiar que seu filho não estivesse com malária e
que a piora ocorrida fosse conseqüência do uso indevido dos remédios.
O novo exame realizado no posto da Sede de Livramento apontou malária Vivax
e o jovem teve que ser tratado novamente. Segundo essa moradora, a partir daí ela
passou a desacreditar da atuação desses agentes. Atualmente, só aceita iniciar o
tratamento da malária após confirmação do diagnóstico por novo exame realizado em
posto de saúde.
Por outro lado, na Sede, as impressões sobre esses agentes eram, principalmente,
em torno de sua postura profissional. Censura especial era dirigida a um dos agentes de
endemias que ouve um pequeno rádio a pilha e dança enquanto trabalha; tal atitude é
mal vista pelos moradores que julgam não ser ela congruente com trabalho sério. Essa
mesma observação foi feita por alguns moradores da Estrada que crêem ser essa postura
considerada pouco séria a responsável pelos enganos que cometem.
O fato de andarem em grupo de três pessoas também intriga os moradores que
avaliam que tal trabalho não requer mais do que um profissional por casa e que, caso se
dividissem, poderiam cobrir um número maior de domicílios. Atribuem tais
78
inadequações no trabalho ao fato de que seus superiores ficam baseados em Manaus,
impossibilitando que sejam supervisionados. Essa observação foi mencionada tanto
pelos moradores da Sede quanto da Estrada Nova.
Na Estrada Nova, os moradores não aceitam a alegação de problemas técnicos
como falta de combustível ou “voadeira” quebrada como justificativa para o grande
intervalo de tempo entre as visitas de busca ativa nos domicílios. Os comunitários
crêem que, com mais esforço, os agentes de endemias poderiam realizar seu trabalho a
pé, ou encontrar alternativas que garantissem seu transporte, ao invés do deslocamento
exclusivo na “voadeira” de suas instituições.
Os moradores da Estrada Nova também se queixaram da falta da realização da
termonebulização em seus domicílios. Eles nos relataram que o procedimento nunca
ocorreu no lugar. Por outro lado, observamos que a termonebulização foi realizada no
mês de nossa pesquisa (setembro de 2009) três vezes por semana com regularidade na
Sede do Livramento, ao amanhecer a ao anoitecer. A realização da termonebulização é
pautada por questões administrativas que consideram as médias de incidência de
malária como condição para a sua realização. Contudo, talvez por ignorarem tal
condição, os moradores da Estrada sentem-se desfavorecidos por um tratamento
considerado por eles como desigual.
Podemos considerar esse sentimento de desfavorecimento em comparação à
Sede como componente do contexto social mais amplo, descrito no capítulo anterior.
Porém, o direcionamento das ações de controle da malária para a Sede, não contribui
para que os moradores da Estrada sintam-se amparados pelo serviço.
Podemos citar como exemplo, a campanha de distribuição de mosquiteiros
impregnados de repelente contra o mosquito transmissor da malária, intermediada pela
79
Associação de Moradores, em maio de 2009. Os moradores da Estrada Nova
queixaram-se de não terem recebido tal produto, ao contrário dos moradores da Sede:
Anita: Nós fizemos, não foi Seu Bruno? [Preenchemos] umas fichas
que eram, dizendo eles [presidente e tesoureiro da Associação de
Moradores], pra ganhar uns mosquiteiros. Mas nunca chegaram.
Ainda ontem a doutora perguntou “e os mosquiteiros que vieram?”.
[Eu] disse “Ah, mana! Sinto muito doutora, mas pra lá não chegou.
Não pra nós”. [Ela respondeu:] “Ah! mas era pra área de vocês; não
era nada pra ficar aqui no Livramento [Sede]”.
Daniel: Foi uns cortinados, que deram, né?.
Anita: Que era pra área que fica mais no mato, né?
Daniel: [Aqui] Ninguém ganhou, não. Lá pro Fátima ganharam.
Anita: Pra cá não. Não veio ninguém aqui; nessa área ninguém
ganhou.
Daniel: Lá pro Fátima, todo mundo foi e pegou; até as médicas
[pegaram mosquiteiros].
Pesquisadora: mas por que a senhora acha que os mosquiteiros não
vêm pra cá?
Anita: Ah! Porque eles só vêm aqui fazer as inscrições. O presidente
vem fazer todinhas, mas quando chega [o bem a que as inscrições
fizeram juz] eles não avisam ninguém. Aí despacham pra lá mesmo,
aqui ninguém sabe. Quando nós vamos saber já acabou tudo. Aí é
cruel! Sempre os daqui ficam de fora. Ontem eu falei com ele
[presidente]: “você nos procura no fim do mês, que é pra gente pagar
a associação, mas as coisas que vêm tu não divide com o povo de lá”.
Falei isso ontem pra ele, [daí ele respondeu]: “Porra, Anita, tá
pegando pesado comigo”. Eu disse: “não é pesado não! Eu digo o
que é verdade. Quando é fim do mês, o Seu Diúca vai, o Seu Bruno
vai, o Daniel vai; vai tudo quanto é pai lá [pagar a mensalidade
devida a Associação]. Mas quando chega alguma coisa vocês
esquecem e tiram nós de dentro. [Depois], quando querem outra
coisa, correm lá com a gente. Estamos prontos para servir vocês. Mas
do jeito que vocês tão fazendo não dá não!”. Digo: “não é porque
vivemos no mato que vamos ficar esquecidos”.
Joana: nós vivemos no mato, mas não somos bicho. (Trecho da
entrevista com a família do Sr. Daniel, moradores do igarapé do
Diúna).
Observamos a insatisfação dos moradores da Estrada Nova com a não
distribuição dos mosquiteiros em sua área. A queixa, no entanto, não recai diretamente
sobre o serviço de saúde, mas sobre a diretoria da Associação dos Moradores que teria
favorecido sua própria rede de relações na Sede da comunidade. Esses moradores
80
entendem que estão mais expostos ao mosquito transmissor da malária por estarem em
área de mata e que teriam preferência no recebimento dos mosquiteiros.
3.2 O “CARAPANÔ E AS OUTRAS CAUSAS DA MALÁRIA
Para prevenir-se da malária, os moradores mencionaram evitar as margens dos
igarapés por volta do anoitecer, manter a água de beber sempre tampada, o uso de
mosquiteiro para proteger-se, e o uso do ventilador para afastar o mosquito transmissor
da doença.
Contudo, foi mencionada a impossibilidade de evitar a beira do igarapé ao
anoitecer porque esse é o horário em que as pessoas retornam de suas atividades
laborais, domésticas ou de lazer e banham-se nos igarapés. Outra dificuldade citada foi
a de manter as crianças sob o mosquiteiro no horário recomendado, seja pelo forte calor,
ou pelo comportamento inquieto dos pequenos.
Na Sede, os moradores apontaram que a permanência nas ruas ao anoitecer seria
um comportamento inadequado que expõe a pessoa à doença. Essa atribuição de
causalidade está ligada a um julgamento moral, porque é associada à ociosidade ou
desocupação; se refere principalmente aos jovens que jogam futebol diariamente no
final da tarde e se demoram no espaço público. O comportamento entendido como ideal
para evitar a malária seria o recolhimento nas casas a partir do anoitecer, o que é
especialmente desobedecido pelos mais jovens e crianças.
A impossibilidade de obedecer às recomendações de não se expor ao mosquito
nos horários de maior risco congrega também a representação da doença como
infortúnio; como algo inevitável, que acontece porque “tem que acontecer” ou, “por
sorte”, como nos disse uma moradora:
81
Agora, como a gente não tem cuidado mesmo (risos), a gente pega.
[É] como eu te falei no começo: a gente toma banho e tal, não está
nem aí, né? Então não pega [malária] mesmo por sorte (risos); não dá
pra dizer que é porque a gente não quer. (Milena, 31 anos, moradora
da Sede).
O cuidado em manter os recipientes de água tampados aponta para a noção de
que a malária também pode ser adquirida pela ingestão de água contaminada pelas
larvas do mosquito ou pela ingestão de água suja. A idéia de que o mosquito anophelino
é o único responsável pela transmissão da malária não convence os moradores do
Livramento, como podemos observar no trecho, transcrito abaixo, de entrevista feita
com moradores do Igarapé do Diúna:
Pesquisadora: e como é que vocês pegaram malária?
Anita: o pessoal diz que é o mosquito, mas eu não sei se é isso.
Pesquisadora: como é que a senhora acha que pega a doença?
Anita: não sei se é porque a gente bota nossa televisão pequena aqui
[fora da casa], né? A gente fica até tarde aqui porque lá dentro é
quente que só. Aí nós ficamos aqui [referindo-se à cozinha externa].
Agora [os profissionais da saúde] dizem que é a gente que procura
mesmo a tal de doença. (risos). Daí eu falo:“ah, mano! Se a gente for
procurar a doença, nós estamos ferrados, porque a gente não quer
mesmo adoecer” (risos). Se tiver que pegar, nós vamos pegar de
qualquer jeito. [Os profissionais de saúde]: “Ah! mas vocês ficam até
tarde naquela casinha lá”. O pessoal [profissionais da saúde] diz que
é o mosquito, né, Seu Bruno?
Notamos que a representação sobre o modo de adquirir e de se prevenir da
doença é influenciada pelas informações sobre o mecanismo de transmissão, advindas
da biomedicina, via serviço de saúde. Porém, o reconhecimento dessa causalidade
coexiste com a inviabilidade prática de execução dos procedimentos recomendados para
prevenção da malária; a causalidade é reclassificada no nicho da má sorte. Esse último
movimento retira a possibilidade de agência do sujeito, que é representado como
impotente frente ao infortúnio:
Olha, eu não sei [como adquire malária]. Eu acho que é do carapanã
porque a gente não sai daqui [do igarapé do Mari]. (...) A gente não
82
sabe qual dos mosquitos é ele. Eu acho que quando tem que ter, tem!
(Josefa, 56 anos, moradora do Igarapé do Mari).
A representação da doença como infortúnio remete a uma das vertentes do
modelo etiológico definido por Laplantine (2004) como exógeno, no qual a causalidade
da doença é representada pela intervenção exterior que atua de modo acidental, podendo
possuir também um caráter simbólico. Nesse caso, a causa etiológica está no nível
cosmológico representada pela má sorte. Ainda segundo o autor, esse tipo de
compreensão foi amplamente marginalizado pela medicina após a difusão da
microbiologia, tanto nos campos da medicina erudita quanto popular. Contudo, é uma
atribuição amplamente difundida entre nossos entrevistados em Livramento.
Os dados de campo mostraram um entrelaçamento entre a atribuição
cosmológica da má sorte e a explicação causal biomédica da malária. A informação
advinda da biomedicina afirma ser a picada do mosquito geradora da doença, mas ela é
reinterpretada pelos comunitários que a consideram como uma das causas, mas não de
modo exclusivo. À picada do mosquito soma-se a possibilidade da ingestão de água
poluída por ele, e igualmente capaz de gerar doença. São informações provavelmente
advindas dos programas de combate à malária, cujos materiais educativos informam que
o mosquito deposita suas larvas em poças de água parada e limpa, passíveis, portanto,
de serem ingeridas, o que reforça a reinterpretação dos comunitários:
Pesquisadora: Como é que o Sr. pegou a doença?
Janjão: a doença eu acho que eu pegava, assim como eu te falei, do
descuido da água, né? O meu cálculo é esse. Porque eu vim aprender
isso pela informação de um homem que também mora lá dentro
[Estrada conhecida com do “Trabalhador”, no Livramento], ele falou
“rapaz, se não reservar a água num local bem tampado mesmo, você
só vive com malária”. Ele também era assim [vivia com malária]. Aí
depois que eu aprendi, foi isso: cuidado só com a água. Tanto que
quando eu passei pra cá [Sede do Livramento], a água já é em
freezer, tudinho em garrafa. E nunca mais deu malária na gente
[família]. (Janjão, 54 anos, morador da Sede)
83
A representação de um organismo vivo específico que invade e prejudica o
organismo emana de um dos modelos etiológicos identificados por Laplantine (2004): o
modelo ontológico da medicina das especificidades é amplamente difundido e entende a
doença a partir de um “ser” específico da doença que invade o organismo.
Redimensionado, o modelo se faz presente tanto na idéia de ser o mosquito um agente
de transmissão por inoculação, quanto pela ingestão da água contaminada com suas
larvas.
A instalação da energia elétrica na comunidade permitiu o uso do ventilador e os
moradores passaram a adotá-lo como medida preventiva para evitar o pouso e a picada
do mosquito enquanto dormem. Isto sugere que os moradores do Livramento não
distinguem o mosquito comum (mosquito doméstico) do mosquito transmissor da
malária, cujos hábitos de vôo são distintos, apesar das informações repassadas pelo
serviço de saúde:
Porque ele [o mosquito] está em todo o lugar, né? Nessa área, ele
está em todo o lugar, apesar do pessoal borrifar e fazer aquilo tudo;
mas não conseguem [controlar a população de mosquitos]; sempre
eles estão por aí, e a gente está sempre sujeito a picada dele. (José
Tavares, 56 anos, morador da sede)
Embora alguns afirmem a existência de um mosquito transmissor específico (“o
carapanã da malária”), de um horário específico (“o anoitecer”) e de um lugar (“a beira
do igarapé”), quando perguntados sobre as medidas preventivas utilizadas para evitá-lo,
os moradores afirmam que evitam expor-se aos mosquitos em geral, não havendo
medidas específicas de proteção contra aquele (o mosquito transmissor da malária) que
circula em determinadas horas e em diversos lugares. Estabelece-se uma relação direta
entre a presença de uma quantidade significativa de mosquitos visíveis (quaisquer que
sejam suas espécies) e a intensidade da transmissão da malária.
84
Porém, os moradores entendem que a malária ocorre sem que haja a presença
visível de mosquitos. Tal situação reforça a idéia de que o mosquito é parte integrante
da transmissão da malária, mas não é a única via para explicar a ocorrência da doença.
Desse modo, as outras teorias de causalidade, como a ingestão de água poluída pelas
larvas do mosquito ou por sujeira comum, são acionadas para explicar o aparecimento
da doença.
A termonebulização, aplicada pela FVS, é vista como meio eficaz para eliminar
o mosquito, e os moradores de Livramento constatam que os casos de malária
diminuíram após a intensificação dessa ação na Sede da comunidade. Igualmente bem
recebida foi a campanha recente de distribuição de mosquiteiros impregnados com
repelente. Izane, 47 anos, moradora da Sede, falou de sua satisfação:
E, ultimamente, tem dado pouca malária no Livramento. Antigamente,
era uma epidemia. Agora, graças a Deus, tem dado pouquíssima!
Pouquíssima malária! Porque tem o pessoal [profissionais da FVS]
que trabalha, né? Eles vêm, fumaçam de madrugada e fumaçam de
noite. Distribuíram mosquiteiro com veneno pro pessoal [moradores
do Livramento]. Dizem que o mosquito da malária bate nele e morre.
Mas melhorou bastante. Não tem mais dado muita malária.
Antigamente, quando começava a secar [as águas do rio] era a fase
mais perigosa da malária. E esse ano, graças a Deus, tem dado bem
poucos casos. [Era] o que a menina estava dizendo hoje, lá do posto.
Ih! Há anos atrás, quando era uma época dessa, Deus me livre! Se
sentia febre e frio, podia jurar que era malária. E agora não. Ela
disse que tem dado bem pouca malária. Graças a Deus por isso, né?
Eu espero que ela desapareça, (risos) que ela suma daqui; que vá
embora e nunca mais volte.
De modo similar, na Estrada Nova, a ausência da termonebulização foi associada
à grande quantidade de mosquitos. Os moradores da Estrada Nova reclamam ter sido
desfavorecidos nas ações de combate a malária. É o que ocorreu, por exemplo, no caso
da campanha dos mosquiteiros que não alcançou aquele local.
85
3.3 REPRESENTAÇÕES SOBRE AS MANIFESTAÇÕES CORPORAIS DA
DOENÇA
Uma das características da malária no Livramento é a compreensão das
manifestações corporais em totalidade, frente à presença da doença. A partir do
momento em que percebem um mal-estar em seu corpo, que suscita a suspeita de
malária, todas as manifestações anômalas percebidas daí para frente tendem a ser
atribuídas e classificadas como sintoma de malária. Com freqüência, esse procedimento
produz um agrupamento de manifestações corporais que, do ponto de vista biomédico,
não costumam ter relação direta com a malária.
Por um lado, esta incongruência é compreensível se considerada a representação
da malária segundo o modelo ontológico, conformado por uma das vertentes da
medicina: existe um “ser” da doença que invade e ataca o corpo em decorrência de um
agente especifico (LAPLANTINE, 2004). Em sua reinterpretação, os moradores do
Livramento, por compreenderem o corpo como totalidade e acreditam que se há algo
atuando sobre o corpo, este “ser” da doença pode se manifestar como um amplo leque
de possibilidades que não se restringem às explicações biomédicas.
Ou seja, a compreensão da doença pelos indivíduos tanto está imbricada nos
aspectos biomédicos, quanto nos sociais. Desse modo, a representação da doença e de
suas manifestações é totalizante, porque adoecer rompe globalmente o cotidiano dos
sujeitos; o juízo que se faz da doença não se restringe aos sintomas entendidos pelos
serviços de saúde como sendo típicos da malária. Em conseqüência, todo tipo de mal-
estar que acomete o doente é agrupado num conjunto único de manifestações que
transtornam o seu dia a dia (GONÇALVES, 2002).
86
Algumas manifestações corporais que os moradores do Livramento reconhecem
como indicativos de malária são referidas apenas como demarcadores de sua presença
no corpo. Embora deixe o indivíduo em um estado de alerta, já suscitando providências
terapêuticas, a malária ainda não é reconhecível aos olhos dos outros, e nem o doente é
socialmente enquadrado como tal. Segundo nossos informantes, estas primeiras
manifestações diferem para cada corpo:
...Ela [a malária] dava logo uma tosse, começava com uma tosse meio
seca em mim, uma gripe dessas de tosse seca. Aí não demorava, a
malária se apresentava. Mas vem logo uma moleza, um frio, um
tremor (...) a Maria [esposa do entrevistado], não. A Maria é diferente
de mim. Quando a Maria sente a malária, ela sente uma dor, um frio
no espinhaço subindo assim [fez um gesto com uma das mãos de
baixo para cima das costas]. Já é malária! É diferente de mim.
(Janjão, 54 anos, morador da sede).
Nem sempre é possível descrever as manifestações corporais que caracterizam a
malária no momento em que os entrevistados passam a suspeitar que adoeceram dela.
São experiências entranhadas no corpo e que os indivíduos reconhecem como sendo a
doença:
A febre da malária, ela sempre vem acompanhada de uma dor no
corpo. Vem aquela febre, aquele mal estar. [Dá] um sono, uma dor no
corpo. Aí se você vai tomar banho, o corpo não pede água, fica
aquele friozinho; então você sente que não é uma coisa normal. Ele [o
frio] é mais pra malária do que pra outro tipo de febre natural. A
febre de gripe é uma febre mais simples. A febre da malária sempre
vem acompanhada com uma coisa mais pesada. Você sente no corpo
o peso daquela dor, os ossos começam a ferroar, aquele negócio todo.
(...) É tipo um reumatismo, dá aquela agonia nos ossos. [Se] ferra
hoje, daqui a uns dias você já começa a sentir [a malária]. Porque
geralmente ela [a malária] não dá no mesmo dia que eles [os ossos]
ferram. Você vai sentir daqui a três, quatro dias. Aí você já sente
aquela coisa no corpo [sintomas característicos de malária]. (José
Tavares, 56 anos, morador da sede).
Outras manifestações corporais são apontadas como mais características da
doença. O aparecimento da febre e/ou do tremor institui fisicamente a presença da
doença e institui o papel social de doente. Isso ocorre quando não é possível realizar
87
nenhuma atividade da vida cotidiana; o desempenho do papel de doente institui uma
ruptura com a vida cotidiana considerada normal; a partir de então esta passa a ser
conduzida com base na experiência com a doença e na busca pela cura (GONÇALVES,
2002).
Em vários momentos, a febre e o tremor foram expressos como sendo a própria
malária: “quando vem a malária” ou “quando a malária ataca”:
Mas vem logo uma moleza, um frio, um tremor. Quando ela [a
malária] chega dá logo o tremor. Tremor, dor de cabeça, essas coisas
que ninguém escapa, de jeito nenhum!Vem logo! Mata o cara! Assim
você não pode nem andar. (Janjão, 54 anos, morador da sede).
Ainda que tenhamos encontrado relatos de pessoas que afirmam conseguir
conduzir sua vida normalmente mesmo durante a malária, parando apenas nas horas de
febre e tremor e retomando em seguida suas atividades, essas situações são consideradas
exceções; são façanhas que realçam a regra. Os momentos de febre e tremor se
apresentam como uma condição marcadora, uma manifestação que expressa um limite
irrefutável entre a condição de sadio e de doente, de vida e de morte:
...com dor de cabeça tu não anda, com dor de cabeça forte, né?A
pessoa quer saber de estar só na rede. Aí o tremor é o que mata.
Quando, por acaso, na malária, tu tremer dois dias – suponhamos
hoje – aí amanha tu tem [tremores], aí tu já está ficando liquidado. É
um frio, rapaz, e com tremor! É o mal que mata, é o tremor! (Janjão
Silva, 54 anos, morador da sede).
Agregadas a essas manifestações mais características da malária podem aparecer
também aquelas que a biomedicina entende como possíveis efeitos colaterais dos
medicamentos, tais como dor de estômago, vômito e alergias. Para nossos entrevistados
tais eventos são parte integrante do quadro geral da doença. São entendidos como
eventos esperados e inevitáveis, inerentes à condição de estar doente de malária. A
dinâmica da interpretação em Livramento pode levar a uma realocação discursiva
88
desses eventos, ora vistos como uma manifestação da malária, ora como reação ao
medicamento.
Entretanto, ainda que reconhecidos como efeitos colaterais, eles não são algo
exterior à malária, mas sim uma parte integrante do evento patológico. Isto porque a
doença não é representada apenas como um conjunto de manifestações correspondentes
às alterações corporais, e sim vista como um evento totalizador, que tem em suas
principais características a capacidade de inabilitar o indivíduo para a realização de suas
atividades cotidianas e relegá-lo à condição social de doente (GONÇALVES, 2002).
Segundo a lógica do serviço de saúde, a conclusão do tratamento e a
confirmação diagnóstica da ausência do Plasmodium na LCV são marcadores
suficientes para definir que o indivíduo não está mais doente. Porém, para os
informantes do Livramento a condição de doente e as limitações intrínsecas a ela não se
encerram com a alta dada pelo serviço de saúde.
Existe uma malária socialmente reconhecida que impõe ao indivíduo certas
restrições e prescrições características de uma condição liminar, ainda que ele não esteja
desempenhando plenamente o papel de doente, já que não está mais neutralizado na
capacidade de conduzir a vida. Dito de outro modo, o individuo ainda está com malária,
mas não está doente.
Dentre as sutilezas dessa interpretação deve ser entendido que o sujeito atravessa
uma fase em que vai retomando gradativamente sua vida cotidiana, à medida que
diversas estratégias e processos terapêuticos (que descreveremos no quarto capítulo) são
adotados. Outro patamar de interpretação é a idéia de que a malária está recolhida no
interior do corpo do individuo, portanto ele ainda pode voltar a adoecer, devendo se
proteger de uma recaída.
89
3.3.1 “Malária para dentro” e “malária para fora”
Os moradores do Livramento sempre referem-se à malária como uma entidade
viva: “a malária”, “ela”. Esta personificação da doença emana de sua compreensão
como um agente que desorganiza a vida. Contudo, há dois momentos em que a sua
representação de “ser” se modifica à luz das experiências da doença vividas pelos
moradores.
A malária “para fora” é caracterizada pela presença de seus sintomas
característicos. Diz-se no Livramento que “a malária sai” quando manifestações como
febre, tremor, dor de cabeça e dor no corpo se exteriorizam espontaneamente, ou
quando são externalizadas pelo remédio que a combate.
Nesse caso, entende-se que há a ocorrência de uma fase assintomática e, após o
início do tratamento, a malária seria “posta para fora do corpo”, assumindo a forma do
conjunto sintomático que lhe é típico. Manifestações alérgicas como coceiras e bolhas
também são consideradas como manifestações da malária posta “para fora” pelo
medicamento.
Já a malária “para dentro” é correlata aos momentos que antecedem o
aparecimento de eventos característicos da doença, tais como a febre e o tremor.
Entende-se que há malária “para dentro” quando algumas manifestações, ainda vagas, já
indicam sua presença dentro do corpo do indivíduo.
Do mesmo modo, a malária pode retomar a condição de “para dentro” quando o
conjunto de manifestações que a caracteriza desaparece após o emprego das
terapêuticas. Nesse caso, o desaparecimento das manifestações não é considerado cura,
pois entende-se que a malária está recolhida “para dentro” do corpo, e ainda pode voltar
90
a aparecer. A obediência às prescrições e restrições a serem seguidas nessa fase é que
definirá a cura.
Ambas as definições podem ser compreendidas a partir de dois modelos
ontológicos. A “malária para fora” tem três agentes patogênicos: a picada do mosquito
transmissor, a ingestão de água poluída e os medicamentos para a doença, também
capazes de fazê-la se apresentar. Estes se configuram como agentes específicos
causadores da doença, segundo a reinterpretação feita pelos moradores de Livramento.
Já a representação de “malária para dentro” deriva do modelo ontológico da
medicina das lesões, que desloca o eixo de compreensão do agente patogênico para as
lesões; estas seriam causadas pela agência do “ser” da doença e se expressam por meio
de sintomas que podem levar à sua localização no organismo doente. Desse modo, no
entendimento dos moradores do Livramento, sua experiência corporal lhes diz que algo
foi lesionado e, portanto, ainda há doença mesmo após a alta dada pelo serviço de saúde
(LAPLANTINE, 2004).
3.3.2 “Entregar-se à doença”
No discurso masculino sobre as percepções do corpo adoecido surge a idéia de
que as mulheres seriam mais sensíveis às manifestações da malária do que os homens,
especialmente, em relação à dor de cabeça. Alguns informantes referem-se a elas como
“moles” ou “fracas”.
Ao contrário, no discurso sobre si mesmo, os homens enfatizavam o
enfrentamento corajoso da doença: a malária é algo a ser enfrentado sem “moleza”, à
qual o indivíduo não deve “se entregar”. Nesse caso, a expressão “se entregar” significa
viver socialmente o papel de doente, romper com o cotidiano. Repousar e reclamar das
91
manifestações da doença seriam sinais de fraqueza. Ao mesmo tempo, os homens
reconhecem a gravidade dos sintomas afirmando que “não há quem agüente”.
3.3.3 O corpo resistente
A má alimentação foi citada como fator que torna o corpo suscetível à doença e
que influencia no gradiente de intensidade das manifestações corporais da malária.
Segundo alguns depoimentos, uma dieta à base de enlatados e embutidos deixaria o
corpo frágil frente à doença. Já um corpo bem nutrido e resistente, propiciaria maior
resistência à malária.
Tal representação decorre da reinterpretação do modelo etiológico exógeno, que
compreende a doença como causada por uma intervenção exterior acidental, nesse caso,
real, em um sistema de compreensão ecomédica da doença centrado na relação do
individuo com o meio químico ou bioquímico. Segundo este modelo, a causa da doença
é uma conseqüência natural de um agente nocivo constituído, por exemplo, pelo
alimento “não natural” (LAPLANTINE, 2004).
A má alimentação entendida como um fator que favorece a doença também
recorre ao modelo etiológico relacional, que explica a doença como um desarranjo
causado por excesso ou falta de algo no organismo. Desse modo, o corpo enfraquecido
pela alimentação considerada inadequada, gera condições para a perpetuação da
malária.
Embora a má alimentação não seja representada como uma causa da malária, ela
é representada como uma condição facilitadora da sua ação no corpo humano. A
dificuldade em manter uma alimentação considerada pelos moradores como adequada,
92
principalmente na Sede do Livramento, foi apontada também como sendo uma condição
de suscetibilidade.
Um de nossos informantes era diabético e da última vez que adquiriu malária
passou um ano inteiro doente. Segundo ele, o fato de sua glicose estar acima dos níveis
desejados impedia a sua cura. Primeiro, diz ter sido necessário reduzir o açúcar no
sangue para conseguir sucesso no tratamento da malária. A impossibilidade de manter
uma alimentação adequada à sua condição o forçou a mudar-se da Sede do Livramento
para a cidade de Manaus há quatro anos. Segundo seu relato, só depois disto conseguiu
controlar sua glicose e, finalmente, curar-se da malária. Voltou ao Livramento, após a
instalação da energia elétrica em 2009, atraído pela possibilidade de congelar alimentos
considerados por ele como adequados à sua condição de doente.
Há também a idéia de que o corpo cria resistência à malária à medida que se
adoece muitas vezes. Os moradores do Livramento chamam de “resistência à malária” o
abrandamento das manifestações da doença após vários episódios, quando conseguem
conduzir sua vida cotidiana normalmente, ainda que acometidos de malária. Estando os
sintomas mais amenos, não mais são obrigados a desempenhar o papel de doentes.
Nessas condições, crêem que se tornaram resistentes à doença porque não a
vivenciam socialmente; o seu cotidiano não é rompido, apesar de portarem o
Plasmodium e, por vezes, se tratarem com a medicação específica. “Quando você é
novato, a malária ataca mais; depois acostuma”, nos explicou Gabriel, 70 anos, morador
do Igarapé do Diúna. Para os moradores do Livramento, a ocorrência persistente da
malária também pode tornar o corpo imune9: “Já tive tanta malária que ela chega em
mim e passa direto”, (Gabriel, 70 anos, morador do igarapé do Diúna).
9
Tal entendimento guarda franca contradição com a explicação biomédica, para a qual não existe um
estado de imunidade à malária.
93
A resistência também seria potencializada pela realização de alguns
procedimentos preventivos, tais como a utilização de certos chás fortificantes e de
algumas receitas que prometem proteger da malária aqueles que utilizá-las:
O Professor Arnaldo tinha muita malária, a malária não deixava ele.
Agora ele toma constantemente a pílula da copaíba. Nunca mais teve
malária! Eu tomei uma época o fel da traíra [denominação de um
peixe] com saco e tudo pra espocar lá dentro, é como uma pílula. Nós
nos descuidamos mesmo. Se tomássemos o remédio, efetivamente,
estávamos todo o tempo nos prevenindo. (Josefa, 56 anos, moradora
do Igarapé do Mari).
Outros relatos falam da “limpeza” freqüente do intestino por meio da utilização
de purgantes, tais como a magnésia, como procedimento que impede a ocorrência da
malária. Em entrevista, Flaviana, 46 anos, moradora da Sede, afirmou que, por vezes, a
primeira malária é gerada pelo mosquito transmissor, mas as seguintes surgiriam em
decorrência do acúmulo de impurezas no estômago advindas do tratamento
medicamentoso ou de sujeira comum encontrada na água. Portanto, seria possível evitar
esse tipo de malária com a “limpeza” regular do estômago utilizando purgantes.
3.4 CRITÉRIOS DE GRAVIDADE DA DOENÇA
Os critérios de gravidade da doença encontrados nas narrativas apontam que,
além de ser calculada em termos biológicos de percepção da intensidade dos sintomas
no corpo, também há interveniência de outros critérios, como a dificuldade na obtenção
do diagnóstico de malária, a qual é avaliada pela distância percorrida até o local do
exame. Por exemplo, se as tentativas de diagnosticar a malária no posto de saúde da
comunidade se esgotam e é necessário ir até a Fundação de Medicina Tropical, em
Manaus; nesse caso, se for diagnosticado, o caso de malária é visto como mais grave do
94
que aquele que foi imediatamente identificado ao se fazer a lâmina no posto da
comunidade.
O tipo de exame necessário para a obtenção do diagnóstico também é critério de
gravidade. Desse modo, a malária diagnosticada por meio da retirada de sangue da veia
é considerada mais grave do que aquela diagnosticada pelo exame do sangue coletado
na ponta do dedo do individuo:
A pessoa não sente nada. Fica com aquele sintomazinho, mas pensa que
não é nada. Você fica tomando remédio assim [analgésicos], ela [a
malária] fica só destruindo por dentro. Aí você vai ter que procurar o
[Hospital] Tropical, você tem que tirar o sangue da veia pra fazer um
exame mais detalhado pra detectar ela. E aí o tratamento vai ser mais
demorado. (José Tavares, 56 anos, morador da Sede do Livramento).
A perda de apetite durante o tratamento também é um indicativo de gravidade.
Estando a alimentação relacionada à resistência do corpo à doença, o déficit alimentar é
apontado como agravante do desenvolvimento da doença e dificulta uma possível cura.
O não cumprimento do tratamento medicamentoso e da dieta especial que os
doentes de malária devem seguir, também é entendido como agravante do problema,
especialmente quando há uso associado de bebida alcoólica. Diversos relatos afirmam
que se houver melhora dos sintomas após primeiros dias de tratamento e o individuo,
crendo estar “bom”, interrompa o tratamento, a malária tende a retornar em seguida,
com maior gravidade.
Ressaltamos que a concepção de malária obtida dos moradores do Livramento
reflete a circulação da concepção biomédica, e não somente no que se refere ao
conhecimento especifico sobre esta doença, mas também a modelos etiológicos diversos
difundidos ao longo da história do ocidente pela medicina. No entanto, esse
conhecimento é ressignificado para se fazer coerente com o entendimento de mundo dos
moradores e com suas experiências sensíveis de estar, ou ter estado doente de malária.
95
A compreensão da malária pelos moradores recorre também ao próprio
funcionamento do serviço de saúde ao estabelecer como critério de gravidade da doença
a distância e o tipo de atendimento necessário à realização de um diagnóstico. Recorre à
credibilidade atribuída aos profissionais de saúde e à sua atuação, para gerar a
compreensão de que são desfavorecidos e expostos à malária e que sua vulnerabilidade
se agrava em decorrência dela. A agência na atribuição de sentidos também se expressa
quando desconfiam dos resultados gerados pelos serviços de saúde e na condenação de
posturas profissionais que considerem inadequadas.
Estes movimentos de compreensão partem do conhecimento biomédico, e do
serviço de saúde pelo qual ele é veiculado, mas, não se limitando a eles, incorporam, de
modo ativo e de acordo com sua compreensão de mundo, as experiências sensíveis da
doença e as condições concretas da vida dos moradores do Livramento.
96
CAPÍTULO 4
AS RELAÇÕES COM O SISTEMA BIOMÉDICO DE TRATAMENTO DA
MALÁRIA
Entre os moradores do Livramento, há a compreensão de que não é possível
curar a malária sem a utilização de medicamentos específicos adquiridos do posto de
saúde. Contudo, a possibilidade do controle dos efeitos da doença coexiste com a
possibilidade da cura. Estas são negociadas de acordo com as condições sociais de vida
dos indivíduos no momento em que experimentam a doença. A partir disto, manejam
diversas explicações e recorrem a diferentes ações terapêuticas que, por vezes, são
apropriações da compreensão médica de explicar e tratar a doença. Nesse capítulo,
dissertaremos a respeito da compreensão dos moradores do Livramento sobre tratar-se
de malária e os modos como manejam terapêuticas e cuidados.
4.1 OS “REMÉDIOS CALMANTES”
Nossos informantes mencionaram a utilização do que denominaram de remédios
“calmantes”. São analgésicos e antitérmicos de baixo custo e fácil aquisição que podem
ser comprados inclusive nos comércios das sedes das comunidades. São utilizados pelos
moradores a partir do momento em que percebem que estão com malária, como
estratégia para administrar a doença no próprio cotidiano. Encontramos relatos desse
tipo principalmente entre homens, chefes de família, que utilizam esses medicamentos
ao suspeitarem estar adoecendo de malária.
O recurso a estes medicamentos deve ser entendido como uma tentativa de
organizar (ou evitar que se desorganize) a vida laborativa e postergar o momento em
97
que são forçados a desempenhar o papel de doente. Também notamos a predominância
desses relatos entre os moradores das localidades com dificuldade de acesso ao serviço
de saúde; eles também permeavam a memória dos moradores da Sede para descrever
momentos anteriores à sua mudança para aquele local, quando residiam em lugares
distantes do serviço de saúde.
A auto-medicação não está ligada à recusa ao tratamento ou à submissão ao
diagnóstico de malária. Os moradores do Livramento se automedicam porque entendem
que há doença e que precisam amenizar os seus sintomas. Tal compreensão está ligada a
idéia de que precisam suportar a doença para assegurarem que o seu papel de chefe de
família continuará sendo cumprido, não apenas no sentido utilitário da sobrevivência,
mas também no caráter moral e de prestígio inerentes a ele.
A auto-prescrição dos remédios calmantes também é utilizada nos momentos em
que não é possível ir, de imediato, ao posto de saúde, como ocorre, por exemplo, nos
finais de semana e feriados, em que o serviço de saúde não atende. Desse modo, quando
a pessoa suspeita estar com malária nessas situações, caso não tenha tempo de
reorganizar-se para comparecer ao posto, só receberá atendimento no próximo dia útil.
Quando isto ocorre, lança mão dos remédios calmantes para suportar a espera.
Pudemos acompanhar por ocasião de nossa pesquisa de campo, o adoecimento
de Andressa (descrito na página 108), 15 anos, moradora da Estrada Nova. No momento
em que consolidou-se a suspeita de malária, as pessoas da casa onde Andressa morava
preocuparam-se em realizar o exame diagnóstico no posto de saúde; porém era sexta-
feira e todos na casa estavam ocupados com atividades que consideravam inadiáveis.
As pessoas utilizaram remédios destinados à malária, que havia na casa e que
não tinham sido utilizados por outra pessoa que não completara seu tratamento; essa foi
98
a alternativa encontrada para amenizar o seu sofrimento até a segunda-feira seguinte,
quando então poderia buscar tratamento.
Em nossas entrevistas, os moradores consideram que a primeira atitude a ser
tomada quando há suspeita de malária, é a realização do exame de sangue no posto de
saúde para confirmação do diagnóstico. Como observamos, esta atitude pode variar de
acordo com as condições da vida do indivíduo naquele momento.
Não ser necessário ir até Manaus para buscar um diagnóstico de malária é
considerado um fator positivo, principalmente, pelos mais velhos, que conheceram o
Livramento antes que essa alternativa estivesse disponível:
Hoje, está uma beleza! Aqui [no Igarapé do Diúna], naquela época,
não vinha pessoa [profissional de saúde] aqui assim. A gente ia lá a
Manaus no [Instituto de Medicina] Tropical. Ia lá se tratar porque
aqui não tinha! Agora não, está uma beleza aqui. Quando dá uma
malária, você vai ali pra cima [comunidade Ebenezer], corta o dedo,
faz a lâmina. Você vai pro Livramento, faz lâmina. Você vai pro
Fátima, faz lâmina. Tudo aqui pertinho. Naquele tempo era duro, era
um sacrifício. Nem todo mundo tinha rabeta10. Hoje em dia, todo
mundo tem rabeta. Mas naquele tempo ninguém tinha. A vida aqui foi
difícil. (Diúca, 69 anos, morador do Igarapé do Diúna.
Mas, apesar da diminuição da distância e do custo de locomoção até o posto, os
remédios calmantes permanecem sendo utilizados, como podemos observar na fala de
nosso informante:
[Eu utilizava] só o calmante, só o calmante! Porque eu tava lá dentro
[no sítio distante da Sede]. Às vezes estava ocupado demais, a gente
não quer sair, [se] destacar pra vir [ao posto de saúde da Sede], às
vezes não tinha dinheiro pra ir até a cidade [Manaus]. Aí ficava
aguentando, tentando ali [suportar a doença]. [Eu] sabia que era
malária, mas ficava tentando agüentar lá dentro [no sítio] pra ver se
fazia o serviço. E o cara morre às vezes por isso, né? Não quer parar
de trabalhar. (Janjão Silva, 54 anos, morador da sede).
Nesses casos, a utilização desses remédios serve como estratégia para garantir o
desempenho de uma ou outra atividade que confere prestígio a determinado papel
10
Denominação regional para motor de popa de pequeno porte.
99
social, no sentido de que possibilita manejar as condições de vida existentes no
momento do adoecimento.
4.2 ATENÇÃO À DIETA
Outros tipos de cuidados dirigidos aos doentes de malária dizem respeito à
alimentação. Antes de tudo, há a preocupação de que a pessoa se alimente, dado o risco
de enfraquecimento, que possa dificultar a possível cura. Em alguns casos, nos foi
relatado que alguns doentes se alimentam quase normalmente porque sentem fome. Há
os que afirmam comer porque é necessário, mas não sentem fome; e há os que precisam
comer, mas não conseguem fazê-lo, mesmo fazendo grande esforço. Na tentativa de
estimular a alimentação prescreve-se a utilização de mingaus, caldos de peixes não
considerados reimosos e chás. Tais alimentos são priorizados por serem vistos como
alimentos de fácil digestão.
A importância da dieta também é percebida na representação de que o
organismo enfraquecido por uma má alimentação e maus hábitos prévios (como fumar e
beber) é particularmente sujeito a um desfecho negativo do evento. Entende-se que o
organismo bem nutrido e preservado por bons hábitos, sofre menos com os danos
provocados pela malária. Esta também seria uma condição imprescindível para uma
recuperação rápida e definitiva:
É assim: quando a malária pega você com o organismo bem fraco
mesmo, você não tem condições [de realizar atividades cotidianas sem
ajuda], tem que ter uma pessoa pra tratar de você. Mesmo que você
queira levantar pra fazer alguma coisa, você não tem como reagir,
você está com o organismo muito fraco. Mas à medida que você
começa a tratar, ela [a malária] vai maneirando e você vai tendo
condições [de retomar a vida], depende de você começar a se
alimentar bem. (José Tavares, 56 anos, morador da Sede do
Livramento).
100
A preocupação com a falta de apetite, com a oferta de uma alimentação regular,
e considerada adequada, e com a necessidade de facilitar a digestão é congruente com a
idéia de que a malária se localiza, ou lesiona os órgãos considerados por nossos
informantes como partes do sistema digestório, principalmente, fígado, estômago e
baço; a isso associa-se a idéia de que o medicamento da malária causa dano à digestão.
Portanto, os moradores dispensam cuidados especiais a esses órgãos, já que pretendem
garantir uma alimentação capaz de amenizar os danos associados à doença e seu
tratamento.
Com essa finalidade são utilizados tanto os remédios caseiros, quanto os
remédios industrializados, seguindo orientação de balconistas de farmácias ou
conselhos de outras pessoas que tiveram experiência positiva com esses medicamentos
nas ocasiões em que estiveram doentes ou cuidaram de outros nessas condições.
Os moradores do Livramento representam o remédio caseiro, e certos remédios
industrializados, como aqueles que auxiliam no tratamento da malária, porque ajudam o
corpo a suportar a agressividade da medicação específica para tratar dessa doença. Tais
terapêuticas coexistem com a biomédica e são consideradas imprescindíveis para a cura:
A gente costuma sempre tomar remédio caseiro. Por exemplo, o chá
da raiz do açaí, o chá do cipó tuíra (que é muito conhecido aqui), o
chá do crajirú, todos esses tipos de remédio caseiro são essenciais
pra você tomar juntamente com o remédio da malária, né? Porque a
gente sabe que esses remédios são uma espécie de antiinflamatório.
Aí a gente sempre toma que é pra ajudar o remédio [específico para
malária]. Mas tem remédio também da farmácia que é bom. Uma vez
eu tomei o Hepatilon11, ela [a esposa] também tomou e se sentiu muito
bem. Ele é usado pro fígado, ele tanto combate a inflamação como ele
fortifica. E tem outros remédios da farmácia que são bons. Mas aí,
muitas vezes, tem o recurso [financeiro] no meio, né? Aí, ao invés de
você ir pra Manaus comprar esse tipo de remédio, você faz o remédio
caseiro. (José Tavares, 56 anos, morador da Sede).
11
Hepatilon é o nome comercial de um medicamento fitoterápico registrado pelo laboratório Hertz, que
utiliza o princípio ativo Pneumus boldus.
101
Os moradores consideram que esses remédios não causam efeitos colaterais e
que lhes propiciam uma recuperação mais rápida, sendo ambas condições muito bem
vistas como nos informou a senhora Josefa, 56 anos, moradora do Igarapé do Mari:
Pesquisadora: Como a senhora se sente com o remédio do posto?
Josefa: A gente fica doidinha! A visão fica longe, branca, dá tontura,
parece que a gente está num banzeiro; até de levantar a gente fica
confusa! Dá cansaço, um desânimo de fazer as coisas.
(...)
Pesquisadora: Como a senhora se sente quando toma remédio
caseiro?
Josefa: Vai refrescando, tirando o peso, agente sente. É o mesmo que
tomar água da geladeira, a gente sente que vai fazer bem. O remédio
da malária faz mal, muito mal.
A atuação desses remédios ocorreria na fortificação do sangue e desinflamação
dos órgãos do sistema digestório, considerados como os mais afetados; efeitos
igualmente valorizados seria sua contribuição para o retorno do apetite, possibilitando a
adoção mais rápida de uma alimentação que produza cura e evite a recaída.
Notamos também a associação entre o gosto amargo ou “travoso” dos remédios
e sua eficácia na recuperação dos órgãos considerados mais afetados. É o caso, por
exemplo, do chá de boldo e da carapanaúba. Também observamos a associação entre
coloração avermelhada e a ação de fortificar o sangue, como é o caso do chá de crajirú e
da raiz de açaí.
Após o término do tratamento biomédico esses remédios auxiliares e os cuidados
com a alimentação passam a atuar também como medidas preventivas da recaída, a
qual, segundo nossos informantes, é pior do que a doença inicial. A combinação da
dieta desprovida de gordura e de alimentos ácidos é decisiva:
[O tratamento biomédico] inflama mesmo o fígado e o baço. Enquanto
a pessoa não estiver curada de vez, não pode comer certos frutos,
coisa remosa, se não ela [a malária] volta na hora. Suco de caju é
essencial para o tratamento da malária, é uma fruta mais medicinal
do que alimento, tem muita vitamina. Tudo que é travoso é bom para
malária. (José Tavares, 56 anos, morador da Sede do Livramento).
102
Desse modo, o individuo encontra-se em um estado liminar entre a doença e a
cura, apesar de ter cumprido com o tratamento biomédico. Para os moradores do
Livramento, a cura depende da experiência sensível de bem estar total dos órgãos
considerados mais afetados, o que nem sempre coincide com a alta dada pelo serviço de
saúde.
4.3 A CURA RELATIVA: “ESTAR BOM” E “ESTAR CURADO”
Segundo os relatos dos nossos informantes, a cura depende de certas condições
do estado do corpo e da condução adequada da terapêutica medicamentosa e dos outros
cuidados. A cura pode ser total ou parcial.
Há preocupação em não adquirir malária várias vezes em seguida, dado o receio
de que os remédios que tratam a doença causem danos permanentes nos órgãos do
sistema digestório. De acordo com os informantes, se houver dano permanente nos
órgãos deste, a cura pode não ser plena; o doente terá assim uma cura incompleta, tendo
em vista que irá requerer cuidados para toda a vida à frente. Há, também, a preocupação
de que a malária se “transforme” em hepatite.
Em alguns casos, o medo de que essa debilidade se agrave pode culminar na
mudança do Livramento para outro local considerado mais seguro, dando tempo ao
organismo para que se recupere e possa ser cuidado, sem o risco de adquirir uma nova
malária, ou de uma recaída.
Os moradores do Livramento reconhecem as épocas em que a malária incide
com maior intensidade, que seriam as de enchente e de vazante das águas dos rios.
Vários moradores que tiveram experiências seguidas com a doença nos relataram sobre
momentos em que desejaram ou precisaram mudar do Livramento nessas épocas para
103
conseguirem se recuperar dos danos causados por essas experiências, ou para romper o
ciclo de aquisição da doença:
Dessa última vez [em que adoeci, me] deu um desespero tão grande,
um desânimo daqui [do Igarapé do Mari], que eu queria ir embora.
Falei pro Nêgo [esposo] que a gente veio pra cá, mas não foi pra
morrer de malária. Chorei. Chorei mesmo, não tenho vergonha de
dizer, fiquei desesperada mesmo. Aí não deu mais [malária] e eu me
acalmei. O Nêgo disse que ia arrumar um lugar pra gente dar um
tempo. Quando desse o tempo da malária, a gente ia pra lá. (Josefa,
56 anos, moradora do Igarapé do Mari)
Francisca, 66 anos, moradora da Estrada, não queria voltar a morar no
Livramento:
Dessa ultima vez [que tive malária] tomei chá de folha de abacate com
chá de cipó tuíra para dar sangue. Depois procurei o posto. Não
gosto de furar o dedo, mas foi o jeito. Tomei as pílulas. Quando
estava melhorando da malária, peguei virose. Então fui para Manaus
não sei nem como. Fiquei na casa da minha filha. Fiquei como morta
mesmo, não podia nem andar. A malária já tinha me cacetado, não
comia nada. A febre parecia que cozinhava a minha cabeça. Passei
dois meses fraca. Não queria mais morar no Tarumã porque a mãe
morreu de malária aqui. A mãe era velha, enjoada, não queria tomar
remédio. Se tomasse, ainda estava viva. Eu já tive malária, tomei
remédio e estou viva. Toda doença tem cura. No começo, né? No final
não tem mais.
A possibilidade de cura pode se expressar nos estados descritos como “estar
bom” e “estar curado”. O entendimento de que a malária ataca nos primeiros dias e que
os sintomas desaparecem após o uso de medicação é sintetizado na descrição de que o
indivíduo “está bom”. Porém, o termo não indica a cura, mas apenas que ele está apto a
retomar suas atividades; ele ainda não está totalmente curado. A evolução de seu caso
vai depender da obediência à dieta adequada a condição de doente de malária, o que
nem sempre está ao seu alcance.
O “estar curado” também diz respeito ao reconhecimento do bem ou mal-estar
do sistema digestório. A presença de “inchaço” na barriga, comum aos que adoecem de
104
malária, é entendida como um malefício causado pelo remédio; é algo que os moradores
não conseguem descrever com precisão, mas que consideram perfeitamente perceptível.
A sensação de que algo foi afetado e danificado se estende após a conclusão do
tratamento. Portanto, uma pessoa só se considera curada quando as sensações de dano e
mal-estar desaparecem.
Do mesmo modo, encontramos relatos que indicam que quando essas sensações
se prolongam por muito tempo, fica impossível ser curado. Nesses casos, os cuidados
especiais devotados ao sistema digestório são prolongados por toda a vida. Ainda que a
condição de doente não seja plena, a doença persiste no interior do corpo, que requer
cuidados, para evitar que se exteriorize.
Os moradores entendem que estão “bons” da malária, mas que persistem os
danos no sistema digestório. Como a doença é entendida de modo totalizante pelos
moradores, todo mal-estar que surge nesse cenário é, de um modo ou de outro, atribuído
à malária. A idéia é que o remédio cura a malária, mas danifica o sistema digestório, e,
ao fazê-lo, converte tais danos em manifestação malárica:
Depois de uma semana [do término do tratamento biomédico], você
faz lâmina de novo. Se der negativo, a pessoa não está cem por cento
curada. A pessoa ainda sente os efeitos negativos da doença e tem que
continuar tomando o remédio caseiro para evitar que ela [a malária]
fique nos órgãos que ela mais gosta: o fígado e o baço. Quando
passam os sintomas, você pensa que está curado, mas ela [a malária]
está lá. Ela [a malária] pode voltar a crescer. Aquele remédio que
você percebe que faz bem, você continua tomando. O pessoal daqui
[moradores da Sede] sofre muito com a malária porque não conhecem
os remédios. Depois vem a bebida e não tem como ficar bom. O
álcool não deixa o remédio curar. O álcool pára o remédio. Quando a
pessoa pára de beber, ela [a malária] volta. (José Tavares, 56 anos,
morador da sede do Livramento).
Como efeito dessa descrição de eventos, há a demanda de limpeza do sistema
digestório do doente, a qual se realiza por meio de remédios caseiros e de
procedimentos purgantes, combinados com medicamentos industrializados. Considera-
105
se que essa limpeza deve ser feita antes de iniciar o tratamento da malária para facilitar
a atuação do medicamento, mas também depois, para limpar os seus resíduos e preparar
esses órgãos para o recebimento de remédios fortificantes do sangue e reparadores do
sistema digestório. Só assim poder-se-ia alcançar a cura plena.
4.4 VIVÊNCIAS DE MALÁRIA NA VIDA COTIDIANA
Na memória dos moradores, há registros de tempos passados quando havia
recusa a usar os comprimidos de malária. Falam de pessoas que escondiam remédios
para não tomarem e de algumas que morreram por recusar o tratamento. Tais falas
reforçam a idéia de que a cura passa essencialmente pelo tratamento biomédico.
Contudo, no plano da vida prática observam-se diversas formas de reinterpretar a
prescrição médica, tais como a interrupção, alternância de uso dos comprimidos e outras
formas de manejo do tratamento. Tais estratégias atendem especialmente às
necessidades da vida cotidiana.
Os resumos dos casos apresentados a seguir resultam de nossa convivência com
a família do senhor Daniel e suas experiências de adoecer de malária, narradas por eles
e/ou observadas pela pesquisadora. Relataremos quatro dos sete casos de malária que
ocorreram na família. Eles demonstram como as representações sociais da malária se
expressam no cotidiano dessas pessoas.
A família era composta pelo casal Daniel e Anita, seus quatro filhos, avó e
Andressa, que morava com a família. Seu terreno estendia-se da Estrada Nova até o
igarapé do Diúna, onde mantinham um roçado para subsistência. Continha uma casa de
madeira e uma construção sem paredes, só com telhado e chão de terra, que funcionava
como cozinha, onde passavam a maior parte do tempo. Havia também uma cacimba de
106
onde obtinham água para uso doméstico e, ao lado desta, um girau onde lavavam roupa
e tomavam banho.
Na casa onde dormiam, os cômodos internos eram divididos apenas por meia
parede. A família não possuía mosquiteiro e seus membros tinham como hábito assistir
televisão na cozinha aberta. Os profissionais do serviço de saúde com os quem tiveram
contato por ocasião da doença apontaram serem estes os fatores que contribuíram para
exposição ao mosquito transmissor da malária Falciparum, que infectou sete, dos oito
moradores da casa. Contudo, além destes fatores, os membros da família tinham outras
explicações para o evento.
Daniel, 45 anos, serralheiro:
Daniel já perdera a conta de quantas vezes adoeceu de malária durante a vida.
Morou, quando recém-casado com Anita, no ramal do Brasileirinho, zona rural de
Manaus. O local era considerado área endêmica e ali adoeceu mais de quinze vezes.
Mudou-se de lá, acompanhando a família da esposa, para um bairro de Manaus após o
falecimento do seu sogro, em conseqüência de complicações da malária.
Era morador do igarapé do Diúna desde 2007 e contraiu malária duas vezes
neste local, sempre no mês de setembro. Em tom descontraído, afirmou que a doença
não era um ponto negativo da vida no Livramento, onde tinha malária apenas uma vez
por ano; isso porque no ramal do Brasileirinho tinha adquirido sucessivas malárias.
Daniel nos narrou que, quando adoeceu em 2009, “agüentou” a febre de malária
por dezoito dias. Dada a condição de RDS de Livramento, ali é proibido retirar madeira
comercialmente; assim sendo, Daniel trabalha por contrato em outras áreas. Quando os
sintomas da malária surgiram, estava no meio de seu acordo de trabalho; caso parasse
de trabalhar, perderia o contrato.
107
A febre sempre lhe “atacava” ao meio dia; como solução, ele se expunha ao forte
calor do sol na clareira aberta na mata pela extração de madeira, buscando suar até parar
a febre. Depois disto, sentia-se bem, como se não tivesse doente, e continuava então a
trabalhar.
No décimo oitavo dia, a febre o atacou no meio do rio, quando voltava do
trabalho. Como a Sede do Livramento localizava-se no caminho para sua casa, decidiu
parar no posto para realizar o exame de malária. Daniel afirmou heroicamente: “Passei
dezoito dias com febre! Mas eu venci a malária, eu venci ela”.
Conhecemos Daniel no último dia de sua medicação para malária Falciparum.
Visivelmente abatido e pálido por conta da doença e sem conseguir acompanhar sua
família no trabalho de roçado e impossibilitado de percorrer grandes distâncias a pé.
Três de seus quatro filhos e sua sogra também haviam adoecido. Uma semana após o
término de seu tratamento, Daniel voltou a trabalhar no roçado
A família apontava a sogra como aquela quem levara a doença para a casa da
família, pois ela não morava lá, mas visitava os parentes com freqüência. Considerando
que Daniel sentiu febre por dezoito dias antes de tratar-se, e que sua filha e sua sogra
adoeceram depois desse período, poder-se-ia dizer que foi ele quem adoeceu primeiro e
quem, provavelmente, disseminou a malária entre os membros de sua família.
Contudo, ninguém apontava Daniel como sendo o primeiro doente. Notamos que
a família só considerava como doente aquele que é forçado a se distanciar de suas
atividades cotidianas e a desempenhar o papel de doente. Assim sendo, sua sogra e sua
filha foram identificadas como aquelas que adoeceram primeiro.
Daniel se enaltecia por ter “agüentado” dezoito dias com febre, a fim de atender
suas responsabilidades como chefe de família e não perder a sua maior fonte de renda.
Além disso, caso os membros de sua família adoecessem, necessitariam de cuidados
108
especiais, que implicavam em custos com locomoção e alimentação especial, com os
quais Daniel não poderia arcar se parasse de trabalhar.
Joana, 66 anos, viúva, aposentada, sogra de Daniel:
Joana morava em Manaus e visitava a filha com freqüência. Afirmava que tinha
adquirido malaria da neta Deise, 10 anos, na casa da filha, no igarapé do Diúna. A
senhora já tinha vasta experiência com a doença porque morou no ramal do
Brasileirinho, de onde mudou-se, descontente, após o falecimento de seu último esposo.
Este tivera malária várias vezes seguidas e, no entendimento da família, em decorrência
disto, teria desenvolvido anemia crônica que, por sua vez, teria evoluído para leucemia,
que o levou a óbito.
Quando a conhecemos estava no último dia de seu tratamento para malária
Falciparum e regressaria para Manaus. Uma semana depois, a senhora retornou à casa
da filha e foi possível ver que na pele de suas mãos e braços apareceram bolhas secas
que ela acreditava ser conseqüência do fígado castigado pelos remédios.
Ela trazia da cidade o remédio Figatil12 que comprara por iniciativa própria e
aconselhada por um balconista de farmácia. A caixa do remédio ainda estava lacrada e
ela pediu para que a pesquisadora lhe lesse a bula. Teria que tomar o medicamento três
vezes ao dia. Sua intenção era tratar o fígado: ela entendia que recuperando o órgão sua
pele voltaria ao normal. Cozinhou chá de carapanaúba e sua intenção era tomá-lo para
ajudar a recuperar o sangue porque se considerava com anemia e para desinflamar seu
fígado, porque o considerava inflamado.
Observamos que nos primeiros dias, Joana tomava o chá em pequenas doses
com freqüência e ingeria o Figatil em menos vezes do que recomendava a bula. Adotou
12
Figatil é nome comercial de um medicamento fitoterápico registrado pelo laboratório Catarinense que
tem como princípio ativo Cynara scolymus e Pneumus boldus.
109
uma dieta que pretendia eliminar a ingestão de gorduras de qualquer espécie, fazia
mingau da caridade13 quase todas as noites para jantar e se alimentou quase
exclusivamente de caldo de peixe.
Joana não obedeceu à sua dieta com rigidez. Certa manhã, a senhora comeu
abacate e foi pega em flagrante pelo neto. Este estava doente de malária Falciparum e
também quis desobedecer à dieta. Ela o repreendeu afirmando que o abacate era fruta
reimosa14 e que o neto prejudicaria a sua cura se comesse. Como ainda se considerava
com malária, ela se corrigiu: “eu comi, mas não pode”, expressando constrangimento.
No oitavo dia após o término do seu tratamento, os agentes de endemias da FVS
passaram na casa da família para realizar exames de busca ativa e Joana aproveitou para
realizar sua lâmina de verificação de cura. Os agentes perguntaram da senhora por onde
tinha andado e ela respondeu-lhes que estivera em seu sítio, no Igarapé do Paulista, zona
rural de Manaus, e adiantou-se afirmando que tinha adquirido malária de sua neta, no
Livramento.
Os agentes perguntaram várias vezes sobre as datas de idas e vindas de Joana e
concluíram que ela havia adquirido a doença no igarapé do Paulista e que disseminara a
malária na família da filha. Segundo eles, não havia casos no Livramento, mas havia
notificações no Paulista. As afirmações de que Joana teria levado a doença para a
família se dava em tom descontraído já há uma semana antes da visita dos agentes.
Joana afirmava que adoecera depois da neta e a família replicava que a neta adoecera
depois da avó.
13
O mingau da caridade é muito conhecido na região amazônica e é administrado como fortificante. Faz-
se o mingau basicamente com farinha de mandioca, alho, sal, água e pimenta do reino. Existem variações,
entre elas, a de acrescentam uma pequena quantidade de margarina ou manteiga ou leite. Na receita da
Sra. Joana havia apenas margarina que, enquanto gordura, foi retirada porque não é recomendada para
quem está com malária receando-se a má reação do fígado, que seria perceptível através da dor.
14
A “reima” é um termo muito utilizado na Amazônia para designar certos alimentos gordurosos e
maléficos, que entende-se que dificultam a cura de certas moléstias, principalmente, aquelas que
implicam em cicatrização. Contudo, cada local possui repertório próprio de alimentos “reimosos” e que
também varia de acordo com a moléstia (GALVÃO, 1976).
110
Na medida em que observava que sua pele não melhorava, Joana foi deixando de
tomar o Figatil com regularidade, tomava dia sim e dia não. Perguntou à pesquisadora,
que não tem formação na área da saúde, se deveria mesmo tomá-lo. Obteve como
resposta que o Figatil deveria servir para o fígado e não para a pele, mas a senhora
reafirmou que o problema da sua pele decorria do órgão.
Dias depois, a pele dos seus lábios ressecou e rachou. Joana passou a usar batom
para amenizar o problema, inclusive antes de dormir. No entanto, embora tenha se
empenhado em tomar o chá de carapanaúba com regularidade no início do seu problema
de pele, com o passar dos dias foi descuidando de tomá-lo até que parou com essa
terapêutica e com o Figatil. Resolvera que tomaria magnésia como purgante porque seu
fígado deveria estar sujo e acreditava que a “limpeza” iria lhe curar.
Joana se angustiava com a pele grossa porque coçava e relatava à família e à
pesquisadora os procedimentos que tomava para tratá-lo, e a sua falta de resultado.
Buscava conselhos para solucionar o problema. Em uma dessas conversas, sua neta
mais velha contou-lhe que o remédio para malária lhe causava coceira nas mãos e que a
médica no posto lhe prescrevera pílulas antialérgicas que resolviam o seu problema.
A neta quis dar as pílulas antialérgicas para a avó e foi apoiada pela mãe. Mas,
em seguida, reavaliou que não seria uma atitude adequada: “A gente não pode ficar
tomando remédio assim sem saber”, e foi retrucada pela mãe que afirmava saber que o
problema de Joana, certamente, era alergia.
A senhora ficou empolgada com a possibilidade, mas desistiu de se automedicar
dessa vez. Aproveitaria que o neto que estava com malária iria ao posto para buscar
tratamento para bolhas que apareceram em sua barriga e iria com ele. Joana não tomou
as pílulas antialérgicas de sua neta, mas também não foi ao posto de saúde como
111
pretendia. O neto que lhe acompanharia ao posto também adiou a ida, pois teve que
auxiliar o pai na construção de uma nova canoa para a família.
Na véspera do décimo quinto aniversario do neto, Joana planejava fazer vatapá.
Lamentava-se, ao mesmo tempo em que os outros lhe lembravam em tom de
brincadeira, que ela não poderia comê-lo porque o alimento era reimoso. A senhora
replicava: “Deixa só eu me curar dessa malária pra ver se eu não como”.
Joana havia terminado de tomar a sua medicação há mais de uma semana, mas
por causa das bolhas secas nos braços e mãos, ainda se considerava com malária e,
portanto, obrigava-se a obedecer à dieta de restrição de gordura. Para curar-se, recorreu
a terapêuticas diferenciadas, que experimentava segundo os resultados observados e
reelaborando teorias sobre as possíveis causas da persistência das bolhas secas em sua
pele.
Quanto à insistência da família em apontar Joana como quem disseminara a
malária na casa, veremos que há uma tentativa de negar a responsabilidade da doença a
partir de atitudes da família e atribuí-la sempre como evento de causa exterior.
Andressa, 15 anos, estudante, moradora do Igarapé do Diúna:
Fazia pouco mais de um ano que a mãe de Andressa morrera de leucemia. Ela é
a segunda irmã de um total de oito meninas. Sua irmã mais velha mora em Manaus e é
quem sustenta as outras seis com a ajuda da avó. Andressa é filha de um morador do
Livramento e tem como padrinhos o senhor Diúca e a senhora Plácida, sua esposa. O
pai nunca assumiu a paternidade e não mantinha interação com a filha.
Depois da morte da mãe, os padrinhos a convenceram a morar com eles.
Andressa acreditava que seria mais fácil concluir os estudos no interior e, mudando-se
poderiam diminuir as despesas da irmã e da avó. Em troca, comprometeu-se em ajudar
112
os padrinhos idosos no roçado. Cursava o oitavo ano do ensino fundamental na escola
da Sede do Livramento. No momento, morava com a família de Daniel e Anita porque
tivera problemas com os padrinhos.
O seu estado anterior à malária já preocupava a família. Andressa sentia dores
no estômago com freqüência e não conseguia comer, todos acreditavam ser gastrite.
Além disto, também sentia fraqueza e tontura que todos acreditavam ser anemia. A
garota não se tratava de nenhum modo para solucionar estes problemas de saúde e isto
irritava as pessoas a sua volta.
Anita sempre repreendia Andressa na frente de todos para que ela se tratasse da
possível anemia com certos chás que não representariam nenhum custo. Também
insistia para que a garota procurasse um médico. Sua preocupação era que, alimentando-
se pouco, a suposta anemia se agravaria e Andressa poderia ter o mesmo fim de sua
mãe. Anita lamentava-se por não poder obrigá-la a se tratar porque não era sua filha.
Aos sábados, normalmente, a garota cozinhava o almoço dos trabalhadores de
um sitio vizinho que fabricava pés-de-moleque, para manter-se. No sábado em que
estivemos em companhia da família de Daniel, Andressa retornou a casa por volta das
dez da manhã porque não haveria trabalho naquele dia. Apanhou livros e cadernos para
estudar para uma prova decisiva de inglês marcada para a segunda-feira - estava de
dependência nessa disciplina e a prova seria sua última chance de ser aprovada.
Sentou-se à mesa com a pesquisadora e Joana. Não aparentava sentir-se mal até
o momento em que revelou que acreditava estar com malária: “acho que eu estou com
malária, meu corpo está querendo doer todo, acho que eu estou com febre”. Joana a
tocou no braço e constatou que estava com a temperatura elevada. A pesquisadora
repetiu o gesto. A partir de então, Andressa se calou, encostou sua cabeça no braço
sobre a mesa e tentou concentrar-se em estudar.
113
Presenciamos o nervosismo de Joana ao especular como Andressa teria adoecido
de malária se quase não havia mosquito naquela semana, ao contrário das semanas
anteriores quando os outros adoeceram. Joana e Andressa concluíram que a garota
adquiriu a doença ao ingerir água poluída da cacimba porque suspeitou que a sua
limpeza não fosse realizada desde que ficara submersa na última enchente.
Joana e Andressa quiseram adicionar água sanitária na cacimba como
procedimento de limpeza sem avisar a filha Anita que não estava em casa. Decidiram
esperar pela confirmação de que não havia sido feita a limpeza da cacimba. Mais tarde,
após a confirmação de Anita, Joana repreendeu a filha pelo que considerou um grave
descuido com a saúde.
Andressa insistia em estudar na mesa da cozinha, relembrando a todo o
momento sua preocupação com a prova de segunda-feira, afirmando que a faria em
qualquer estado de saúde. Depois passou a afirmar que não estava mais agüentando
permanecer ali, descansava dos estudos por um momento, mas insistia em manter os
livros abertos.
A garota lembrou-se de sua única experiência anterior com a malária quando já
vivia no igarapé do Diúna e afirmou que o pior de estar com malária era não conseguir
se alimentar porque agravava a sua dor no estômago: não se alimentando sentia dores,
mas alimentando-se sentia dores porque havia se alimentado. Joana e a pesquisadora
insistiram para que Andressa repousasse, até que a garota rendeu-se ao mal estar e
repousou na casa onde a família dormia.
Quando todos retornaram de suas atividades na hora do almoço, Joana informou-
lhes sobre o estado de saúde de Andressa. A notícia provocou surpresa apesar de todos
os outros membros da família terem adoecido de malária (exceto Anita). Juliano
114
imediatamente afirmou: “essa malária não é daqui!” (referindo-se ao igarapé do Diúna)
e os outros membros concordaram.
A causa da doença apontada pelos outros moradores da casa incidiu sobre o
hábito considerado inadequado da garota de banhar-se nas águas próximas da Sede ao
anoitecer, quando saía às sextas-feiras das aulas de dependência do inglês. Após as
especulações em torno da doença de Andressa, que não saiu de casa durante o almoço,
as pessoas presentes iniciaram uma conversa onde sobrepunham as suas experiências
com malária.
Andressa só poderia realizar o exame de malária na segunda-feira, exceto se
fosse à sede da comunidade de Nossa Senhora de Fátima, onde o posto funcionava aos
sábados. Mas naquele dia, aqueles que pilotavam a velha canoa da família estavam
ocupados com a construção de uma canoa nova e não poderiam levar Andressa. A
família manifestou preocupação especial com o estômago da garota porque ela
reclamara de dor a semana toda e previam que a dor se intensificaria com a doença.
Quando todos voltaram ao igarapé para acompanhar a construção da canoa, a
pesquisadora permaneceu ao lado de Andressa que sentia tonturas ao se levantar da rede
e se locomovia com lentidão. Quando os outros voltaram para preparar o lanche da
tarde, Andressa ia e vinha tomar água na cozinha expondo-se ao sol. Anita e Joana a
repreenderam porque a exposição ao sol lhe faria mal. Eram cinco da tarde, quando
todos retornaram para casa, e Anita providenciou uma rede na cozinha para Andressa
deitar na companhia de todos.
Os fogos de artifício na comunidade de Fátima anunciavam à festa para a qual
Andressa se preparou a semana toda. A garota se lamentava por ter adoecido naquele
dia e os outros lhe lembravam em tom de brincadeira que ela tinha inclusive preparado a
roupa que pretendia usar. Lamentava-se também que não poderia participar do
115
aniversário que iria acontecer na casa no dia seguinte nem comer das guloseimas da
festa.
Domingo também era o aniversário da irmã de Andressa. A garota lastimava-se
porque seu telefone celular estava bloqueado e não poderia telefonar para parabenizar a
irmã. Planejava desculpar-se argumentando estivera muito doente de malária e, desse
modo, a irmã não pensaria que ela havia esquecido a data, desse modo, fazendo uso
social da doença para aliviar sua dívida fraterna.
Jogar futebol era a atividade de lazer que Andressa mais gostava. As crianças da
casa adoravam brincar com ela. Sem Andressa, as crianças chatearam-se e
improvisaram brincadeiras alternativas. Andressa os apreciou tristemente e, nesse
momento, lamentou não poder jogar futebol no domingo com a bola nova que tinham
prometido ao aniversariante.
Andressa se alimentou de uma fatia de pão naquele dia. Joana sempre se
alimentava de mingau da caridade no jantar a aconselhou que a garota também o
fizesse, mas Andressa não quis. Recomendaram-lhe suco de genipapo para tratar da
anemia e ela também não aceitou. Com a mesma finalidade, aconselharam-na a tomar o
chá de carapanaúba que Joana fazia quase todos os dias, e ela também recusou. Certa
hora, Anita protestou: “eu quero te ajudar; me ajuda a te ajudar; você não quer, fica
difícil”. A garota aceitou apenas chá de canela para “não ficar com o estômago vazio”.
Andressa sentia forte dor de cabeça e pediu analgésico, mas não havia na casa.
Denise, filha de Daniel, sugeriu que lhe dessem o “remédio vermelho da malária” que
seria o responsável por combater os sintomas da doença. Possuíam uma cartela desse
medicamento consumida pela metade, o que indica que alguém na casa não concluiu o
tratamento. Deram-lhe a medicação com a expectativa que Andressa suportasse a espera
até segunda-feira, quando então poderia ir ao posto de saúde. Andressa permaneceu em
116
repouso na rede atada na cozinha enquanto a família ocupou-se com atividades ao seu
redor.
Nas memórias sobre a experiência de doença da família de Daniel, havia casos
de anemia associados à leucemia e morte de parentes muito próximos (o esposo de
Joana e a mãe de Andressa) por isso a preocupação com a possível anemia da garota e o
seu agravamento com a malária. Ao mesmo tempo, a recusa persistente de Andressa às
terapêuticas disponíveis os irritava. Por não ser membro da família, as pessoas ao seu
redor não se sentiam à vontade para obrigá-la a tratar-se.
Andressa foi a última a adoecer, já na época em que a quantidade de pernilongos
havia diminuído consideravelmente. Os moradores da caca não entendiam como a
garota teria adquirido a doença sem a presença de quantidade visível de pernilongos.
Diante disto, duvidavam da explicação de que a malária seria adquirida pelo mosquito
transmissor, pois não a consideravam coerente com a realidade observada.
Levantaram duas explicações possíveis: 1) a de que a garota teria adquirido
malária pela ingestão da água suja da cacimba; 2) a garota teria adquirido a doença em
outro lugar por meio do comportamento de banhar-se ao anoitecer por lazer, ao invés de
retornar imediatamente para casa depois da aula de sexta-feira.
Notamos nisto uma tentativa de negar que a origem da malária estivesse no
comportamento da família que costumava assistir a televisão na cozinha aberta
conforme diziam os profissionais de saúde. Tendiam a atribuir a causa da doença ao
comportamento de um membro externo ou a eventos fora de sua responsabilidade.
Juliano, 15 anos, estudante:
Juliano era o filho mais velho de Daniel e Anita e estava às vésperas de
completar quinze anos. O conhecemos em seu terceiro dia de medicação para malária
117
Falciparum. Juliano sempre tomava os remédios antes de dormir como medida
preventiva para não sentir enjôos: dormindo não havia como senti-los. Contudo,
levantava-se várias vezes durante à noite para beber água e urinar porque os remédios
lhe provocavam muita sede. Um dos sinais da doença era o seu tom de pele amarelado.
Enquanto esteve doente, quando a mãe lhe repreendia, entre outros adjetivos, lhe
chamava de “amarelinho”.
Aparentemente, Juliano mantinha suas atividades cotidianas sem sofrimento.
Mas o rapaz vacilava nas atividades que requeriam esforço físico. Em uma partida de
futebol no quintal com os irmãos e Andressa, Juliano não desempenhava a sua função
de jogador como esperado. Normalmente, Juliano e Andressa eram os líderes dos times.
Os outros irmãos exigiram que melhorasse sua atuação, porque ele estava visivelmente
mais lento que de costume, ele respondeu: “Vocês não sabem como estou aqui. Minha
cabeça está rodando”. Ainda assim, jogou duas partidas antes de desistir.
O rapaz comia pouco, segundo a família, em conseqüência do tratamento; porém
não admitia os cuidados da mãe ou da avó que lhe preparavam alimentação especial,
como mingau da caridade e caldo de peixe, argumentando que não lhe agradavam.
Preferia os sucos e doces que lhe ofereciam; além destes, não ingeria outros alimentos.
Certa vez, o rapaz quis comer abacate e foi censurado pela avó porque ainda
tomava os medicamentos para malária; estava proibido de alimentar-se de produtos
reimosos para evitar comprometer a sua cura. Contudo, Juliano continuava a freqüentar
a casa da namorada. A mãe contestava o desempenho incoerente no seu papel de doente,
pois alegava que para namorar o filho tinha ânimo, mas para alimentar-se não.
No quarto dia de tratamento, o abdômen de Juliano se encheu de bolhas
avermelhadas. O rapaz se queixou para a avó Joana, ela lhe explicou que se tratava de
uma reação do medicamento, que “colocaria a malária para fora”. Juliano quis ir ao
118
posto consultar-se no mesmo dia, mas não foi porque se ocupou em ajudar o pai na
construção da canoa nova da família.
Tomar o medicamento antes de dormir foi uma estratégia utilizada por Juliano
não só para minimizar os efeitos físicos dos remédios, mas de tentativa de controle
sobre o próprio corpo. Do mesmo modo, ele esforçava-se para manter suas atividades,
ainda que seu corpo estivesse irremediavelmente debilitado, na tentativa de controle
sobre sua vida normal. A mãe, por outro lado, lhe cobrava um desempenho mais
coerente com o seu papel de doente, que consiste justamente na ruptura com a vida
cotidiana, ao que ele se recusava.
Esses casos narram um pouco das estratégias comumente adotadas pelos
moradores no enfrentamento da malária. A utilização dos remédios “calmantes” e
auxiliares explicita estratégias de manejo do conhecimento e do tratamento biomédico
que representam tentativas de manutenção do controle sobre suas vidas, dentro das
possibilidades de agência disponíveis.
Um tipo de conhecimento específico é produzido no confronto e na articulação
entre o conhecimento biomédico e as experiências sensíveis de estar doente, resultando
numa concepção local sobre adoecer, tratar, controlar ou curar a malária. Observamos
que tais conceitos são tão flexíveis quanto as ações deles derivadas, tendo em vista que
nem sempre os moradores do Livramento fazem aquilo que entendem ser correto fazer
em relação à malária.
119
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Afirmamos na Introdução que nossa motivação para a realização da presente
pesquisa foi a possibilidade de ampliar o leque de compreensão do adoecimento de
malária, deslocando nosso interesse da preocupação com a eficiência do serviço de
saúde destinado ao seu atendimento e controle, para o interesse sobre como as pessoas
que moram em áreas endêmicas de malária entendem a doença e como fazem para lidar
com ela em suas realidades sociais.
No Livramento, centramos nossos esforços em compreender o adoecimento de
malária como um processo que implica na capacidade de agência dos moradores na
busca de solução para os seus problemas de saúde, inseridos em um campo de
possibilidades concretas na comunidade. Desse modo, demonstramos o modo particular
como os moradores do Livramento concebem a doença e suas possibilidades de cura e
controle. Assim, encaramos o fenômeno saúde/doença de modo processual.
Primeiro, reconhecemos que a sua compreensão pelos indivíduos está
referenciada tanto às suas experiências corporais da doença quanto às representações
sociais que dão sentido a elas. Essas representações, por sua vez, são reinterpretações de
quadros de referências sócioculturais partilhadas pelos moradores, dos quais os
conhecimentos e procedimentos da biomedicina são parte integrante.
Constatamos que as diferentes formas pelas quais os moradores do Livramento
compreendem a doença e as práticas relacionadas a ela, estão, de modo direto ou
indireto, relacionadas à biomedicina. Trata-se da apropriação e reinterpretação de
modelos explicativos de doença utilizados pela medicina ao longo da história.
Segundo, reconhecemos o protagonismo da apropriação e reinterpretação de
alguns desses modelos, pois não consiste na aceitação passiva da lógica biomédica pelos
moradores do Livramento. Ao contrário, esses modelos são a todo instante manobrados
120
para atender às necessidades concretas de suas vidas e de sua compreensão de mundo.
Esta é a razão pela qual dedicamos um de nossos capítulos a compreender o cenário
social onde essas representações e práticas são manejadas.
A comunidade Nossa Senhora do Livramento, longe de ser um conjunto
harmônico de relações sociais, trata-se de um lugar permeado por conflitos que se
renovam com o tempo e com os impactos de acontecimentos externos e internos. Dentre
eles, destacamos aqueles relacionados às limitações impostas aos moradores por
fazerem parte da RDS Tupé. A partir de 2004, as principais fontes de renda dos
moradores do Livramento – retirada de madeira e produção de carvão – foram
proibidas. Somando-se a esse fato, a pouca experiência dos moradores com a agricultura
como atividade geradora de renda, limitaram-se ainda mais as suas possibilidades de
sustento, e, desse modo, tornaram-se mais dependentes dos benefícios sociais, sejam
governamentais ou não governamentais.
Após a incorporação à RDS Tupé foram gerados dois cenários sociais
diferenciados no Livramento: na Sede, a dificuldade de manterem uma alimentação
considerada por eles como adequada, ou seja, distanciada de alimentos industrializados;
na Estrada Nova, a limitação da fonte de renda à prestação dos serviços em áreas onde
retirar madeira ou produzir carvão não são proibidas. Em ambos, há a possibilidade dos
benefícios governamentais como fonte de renda.
Ao adoecerem de malária, os moradores do Livramento se defrontam com estas
duas situações. Por um lado, por conceberem que a malária localiza-se nos órgãos do
sistema digestório, a alimentação considerada pelos moradores como adequada é
também apontada como influenciadora dos diferentes estados de saúde, definidos pelas
expressões “estar bom” e “estar curado”. Por outro, por estarem restringidos a
atividades pouco rentáveis, os moradores manipulam as terapêuticas e manobram as
121
manifestações corporais da doença de acordo com suas necessidades básicas de
sustento.
Outro destaque da organização social do Livramento é que, mesmo a concessão
de benefícios sociais a que estão, economicamente, mais dependentes, está sujeita às
relações de poder em torno das instituições que atuam em esfera local; dentre as quais,
destacamos a Associação de moradores e o posto de saúde; desse modo, produzindo
uma assimetria na distribuição de benefícios e informações entre Sede e Estrada Nova.
Uma de suas conseqüências é o sentimento de desfavorecimento pelas instituições dos
moradores da Estrada Nova em relação aos da Sede, também no que toca às ações de
controle da malária.
Tentamos compreender o processo saúde/doença e atenção dirigidos à malária
de modo a contextualizar a realidade social onde a doença é gerada, também em aclarar
a interação entre os sujeitos envolvidos nele, ou seja, moradores do Livramento e o
serviço de saúde, representado pelos funcionários que ali atuam. É por meio dessa
interação que fluem as informações que dizem respeito às representações e práticas em
torno da malária.
Essas informações partem da conceituação biomédica de malária e de seu
tratamento, orientando a atuação do serviço de controle, ao mesmo tempo em que
informam sobre a doença no Livramento. As representações e práticas biomédicas são
apropriadas e recolocadas pelos moradores em uma compreensão diferenciada do que
seja estar doente; pois diferente da compreensão biomédica, que é específica ao
combater o Plasmodium causador da malária, a compreensão dos moradores é ampla e
concebe o problema não apenas a partir do corpo, mas o relaciona à suas vidas como
uma totalidade.
122
A própria compreensão das manifestações corporais da doença extrapola os
sinais e sintomas definidos pela medicina como característicos da malária. Isso ocorre
porque essa compreensão ampla de adoecer agrega para si todas as manifestações
corporais capazes de romper com o cotidiano normal dos indivíduos, que é em si, a
definição de estar doente concebida por esses moradores.
Assim como a compreensão de doença, a de cura também é ampla. Esta se
estende de acordo com as sensações corporais de dano causado pela doença e pela ação
dos medicamentos, que não são sanadas quando o Plasmodium da malária deixa o
organismo. Dessa maneira, os moradores entendem que ainda estão doentes, mesmo
após a alta do serviço de saúde, e realizam procedimentos que visam curar efetivamente
a malária, segundo o seu entendimento de adoecer.
Com essa finalidade, recorrem tanto a medicamentos industrializados quanto
caseiros, prescritos por eles próprios de acordo com um repertório de experiências
anteriores acerca da doença. Ao continuarem tratando-se, colocam para si a condição
social de doente, embora não em sentido pleno; mesmo que não haja mais ruptura com a
vida cotidiana, a malária ainda se faz presente na rotina de suas vidas por meio da
atenção dada à cura, buscada em seu sentido pleno.
No decorrer de nosso trabalho, tanto no momento da pesquisa de campo, quanto
na construção do texto etnográfico, nos esforçamos em ressaltar o protagonismo da
compreensão e atuação dos moradores do Livramento diante do fenômeno
saúde/doença. Ainda que sempre de modo relacional com a compreensão biomédica, a
doença é vivenciada de modo totalizante pelos moradores, congregando tanto aspectos
biológicos e sociais; o entendimento local da malária expõe um repertório de nuances de
interpretações, tais como as noções de “malária para dentro” e “para fora”, “estar bom”
123
e “estar curado”, que se constituem em outro tipo de conhecimento sobre a doença, ao
qual nos concentramos em compreender.
124
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