Seremos realmente livres?
Resposta do determinismo radical: não somos livres, a
liberdade é uma ilusão
Uma das posições centrais no debate sobre o livre-arbítrio é o
determinismo radical, O determinismo radical é uma posição filosófica
que afirma que todos os eventos, incluindo as ações humanas, são
determinados por condições (causas) prévias e pelas leis da Natureza.
De acordo com esta perspetiva, tudo o que acontece no universo é
inevitável, dado o estado inicial das coisas e as leis que governam o
comportamento dos elementos que o compõem. Esta visão é bem
ilustrada pelo filósofo francês Pierre-Simon Laplace, que argumentou
que se conhecêssemos todas as forças que atuam na natureza num
dado momento, poderíamos prever todos os eventos futuros. O
determinismo radical coloca em causa a noção de livre-arbítrio,
desafiando a ideia de que os indivíduos têm o poder de escolher
livremente as suas ações. Num mundo determinista, o conceito de
livre-arbítrio seria uma ilusão, já que todas as nossas ações seriam
inevitáveis consequências de acontecimentos anteriores.
As raízes do determinismo podem ser traçadas até à Grécia Antiga,
onde os filósofos Leucipo de Mileto e o seu aluno mais famoso,
Demócrito de Abdera, desenvolveram o atomismo (escola de
pensamento pré-socrática da Grécia Antiga, fundada no final do
século V a.C. ). Esta teoria sugere que o universo é composto apenas
por átomos em movimento que seguem leis naturais, tornando todos
os acontecimentos uma consequência inevitável dessas leis. No
entanto, foi com o advento da ciência moderna, no século XVII, que o
determinismo ganhou forma mais concreta. Isaac Newton, com as
suas leis do movimento e da gravitação universal, promoveu uma
visão mecanicista do universo, onde todos os fenómenos físicos
podiam ser explicados e previstos através de leis matemáticas. Esta
abordagem influenciou profundamente filósofos como o filósofo de
ascendência portuguesa, Baruch Spinoza ou Bento Espinoza, que
argumentava que tudo no universo, incluindo a mente humana, segue
necessariamente as leis da natureza.
É necessário levar em linha de conta que o determinismo, apesar
da negação do livre-arbítrio e da afirmação da inevitabilidade dos
acontecimentos não é equivalente a um fatalismo. O determinismo e
o fatalismo são duas doutrinas filosóficas que lidam com a
inevitabilidade dos eventos, mas diferem significativamente na forma
como explicam e interpretam essa inevitabilidade.
O determinismo é a teoria de que todos os eventos, incluindo as
ações humanas, são o resultado de uma cadeia de causas anteriores.
Segundo esta visão, dado o estado inicial do universo e as leis da
natureza, tudo o que acontece é inevitável, mas esta inevitabilidade é
consequência de causas precedentes. O determinismo não nega a
possibilidade de ação ou intervenção; pelo contrário, sugere que
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essas ações também são determinadas por causas anteriores. Por
exemplo, a decisão de uma pessoa de tomar um certo caminho pode
ser determinada por uma série de fatores, como as suas crenças,
desejos, e o seu estado mental, que por sua vez são influenciados por
eventos anteriores. No determinismo, não há qualquer "destino"
predeterminado que deva necessariamente ser cumprido, mas sim
uma sequência lógica e causal de eventos que leva a um determinado
resultado.
O fatalismo, por outro lado, é a crença de que todos os eventos
são predestinados a acontecer de uma certa forma,
independentemente das ações que se possam tomar. Nesta visão, o
futuro é inevitável e fixo, e as tentativas de alterá-lo são inúteis
porque o destino já está escrito. O fatalismo está frequentemente
associado à ideia de um destino ou fado que governa a vida dos
indivíduos, sendo que nada pode mudar o que está "destinado" a
acontecer. Ao contrário do determinismo, o fatalismo sugere que a
ação humana não tem um papel significativo na alteração do curso
dos eventos. É uma visão mais rígida e, muitas vezes, mais
pessimista, onde a liberdade de ação é considerada uma ilusão
porque o resultado será sempre o mesmo, independentemente das
escolhas ou intervenções.
Diferenças principais entre o determinismo radical e o fatalismo:
1. Causalidade vs. Destino:
o Determinismo: Os eventos são determinados por uma
cadeia causal de eventos anteriores.
o Fatalismo: Os eventos são predestinados a ocorrer de
uma certa forma, independentemente das ações.
2. Influência da ação humana:
o Determinismo: A ação humana faz parte da cadeia de
causa e efeito; as escolhas influenciam os eventos, mas
essas escolhas são elas próprias determinadas.
o Fatalismo: A ação humana é irrelevante para o resultado
final, pois o destino já está fixado.
3. Flexibilidade quanto ao Futuro:
o Determinismo: O futuro é determinado por eventos
passados, mas ainda é o resultado de uma sequência
lógica.
o Fatalismo: O futuro é fixo e inevitável,
independentemente do que se faça.
Argumentos a Favor do Determinismo:
1. Causalidade Universal: Um dos principais argumentos a favor
do determinismo baseia-se na ideia de causalidade universal.
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Todos os eventos, de acordo com esta perspetiva, têm uma
causa precedente. Assim, as ações humanas não seriam
exceção e resultariam de uma cadeia de causas que remontam
ao início do universo.
2. Consistência Científica: O determinismo alinha-se com a
visão científica do mundo, especialmente nas ciências naturais,
onde os fenómenos são explicados em termos de causas e
efeitos. A física newtoniana, por exemplo, é determinista na
medida em que assume que o estado presente de um sistema
determina o seu estado futuro, desde que sejam conhecidas as
condições iniciais e as leis que regem o sistema.
3. Previsibilidade: O determinismo sustenta que, em teoria, se
tivermos conhecimento completo das condições iniciais de um
sistema e das leis que o governam, podemos prever o futuro
desse sistema com precisão. Este argumento enfatiza a ordem
e a regularidade no universo.
Argumentos Contra o Determinismo:
1. Experiência do Livre-Arbítrio: Um dos argumentos mais
fortes contra o determinismo é a experiência subjetiva que as
pessoas têm de que são livres para escolher as suas ações. Esta
sensação de autonomia e responsabilidade pessoal é vista por
muitos como evidência de que o determinismo não pode
explicar completamente a condição humana.
2. Indeterminismo Quântico: A física moderna, especialmente a
mecânica quântica, introduziu a ideia de indeterminismo ao
nível subatómico. De acordo com a interpretação mais comum,
os eventos quânticos não são completamente determinados,
mas ocorrem de forma probabilística. Este indeterminismo
quântico desafia a ideia de que o universo é inteiramente
previsível e determinado.
3. Implicações Éticas e Morais: O determinismo levanta sérias
questões sobre a responsabilidade moral. Se todas as ações são
inevitáveis, o que implica para a responsabilidade individual? Se
uma pessoa não tem controle real sobre as suas ações, a ideia
de culpa ou mérito pode ser posta em causa, o que representa
um desafio para muitos sistemas éticos e jurídicos que se
baseiam na responsabilização pessoal.
4. Crítica Existencialista: Filósofos existencialistas, como Jean-
Paul Sartre, criticam o determinismo por negar a liberdade
fundamental do ser humano. Sartre argumenta que os seres
humanos são “condenados a ser livres”, e que qualquer
tentativa de negar essa liberdade é uma forma de má-fé, uma
negação da própria existência autêntica.
O determinismo radical continua a ser uma posição filosófica
influente, especialmente no contexto das ciências naturais e da
filosofia da mente. No entanto, as críticas baseadas na experiência
Seremos realmente livres?
subjetiva da liberdade, nos desenvolvimentos da física quântica e nas
implicações éticas e existenciais mantêm vivo o debate sobre a
natureza do livre-arbítrio e a responsabilidade humana. A questão
central que persiste é se somos realmente os arquitetos do nosso
destino ou simplesmente produtos de uma cadeia ininterrupta de
causas e efeitos.